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Coletti e Kant

Juro que nunca vi estas palavras de Coletti quando afirmei em

artigos passados que Kant é mais materialista do que Marx.

Na Revista Sinal de Menos do ano de 2014,é reproduzida uma

entrevista de Perry Anderson com Coletti de 1974 e em um dos

momentos Perry faz a pergunta:


“PA >> Voltando a atenção para os seus escritos filosóficos mais tardios, neles você

expressou um respeito e admiração cada vez mais marcantes por Kant – uma

preferência incomum entre os marxistas contemporâneos. A sua proposição básica

para Kant é que ele afirmou com a máxima força a primazia e irredutibilidade da

realidade em relação ao pensamento conceitual, e a divisão absoluta entre o que ele

chamou de “oposições reais” e “oposições lógicas”. Você argumenta, a partir dessas

teses, que Kant estava muito mais próximo do materialismo do que Hegel, cujo
[-] www.sinaldemenos.org Ano 6, no10, vol. 11, 2014

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objetivo filosófico básico você interpreta como a absorção do real pelo conceitual, e

com isso a aniquilação do finito e da própria matéria. A sua reavaliação de Kant é

portanto complementada pela desvalorização de Hegel, a quem você critica

implacavelmente como um filósofo essencialmente cristão e religioso – ao contrário de

posteriores concepções marxistas equivocadas de seu pensamento. A questão óbvia

que surge aqui é: por que você atribui tal privilégio a Kant? Afinal de contas, se o

critério da proximidade com o materialismo é o reconhecimento da irredutibilidade da

realidade ao pensamento, a maior parte dos filósofos franceses do Iluminismo, La

Mettrie ou Holbach, por exemplo, ou mesmo, antes disso, Locke, na Inglaterra, foram
muito mais inequivocamente “materialistas” do que Kant. Ao mesmo tempo, você

denuncia as implicações religiosas de Hegel – mas Kant também foi um filósofo

profundamente religioso (para não falar de Rousseau, a quem você admira em outro

contexto), mas você parece manter um silêncio obsequioso em relação à sua

religiosidade. Como você justifica a sua excepcional estima por Kant?

LC >> As críticas que você acaba de fazer foram levantadas contra mim muitas vezes na

Itália. O primeiro ponto a estabelecer é a diferença entre o Kant da Crítica da razão

pura e o Kant da Crítica da razão prática...

PA >> Esse não é o mesmo tipo de distinção que comumente se faz entre Hegel em

Jena e Hegel após Jena? Qual deles você rejeita?

LC >> Não, porque a diferença entre conhecimento e moralidade é essencial para o

próprio Kant. Ele teoriza explicitamente a diferença entre a esfera ética e a esfera

cognitivo-científica. Não sei dizer se Kant é importante para o Marxismo. Mas não há

nenhuma dúvida quanto à sua importância para a epistemologia da ciência. Você

destacou que La Mettrie, Holbach ou Helvetius eram materialistas, enquanto Kant

fundamentalmente não o era. Isso é perfeitamente verdadeiro. Mas de um ponto de

vista estritamente epistemológico, há apenas um grande pensador moderno que pode

nos ajudar a construir uma teoria materialista do conhecimento – Immanuel Kant.”

E em outro passo:

“Os marxistas tradicionalmente

consideram a noção kantiana da coisa-em-si – Ding-an-sich – como o signo de uma

infiltração religiosa diretamente em sua teoria epistemológica, certamente?

LC >> Há um subtexto religioso na noção de coisa-em-si, mas esta é a sua dimensão

mais superficial. Na realidade, o conceito tem um significado na obra de Kant que os

marxistas nunca quiseram ver, mas que Cassirer – cuja interpretação geral de Kant,

baseada em cuidadosos estudos textuais, tem a minha considerável simpatia


corretamente enfatizou. Quando Kant declara que a coisa-em-si é incognoscível, um

sentido (se não o único) do seu argumento é que a coisa-em-si não é de forma alguma

um verdadeiro de cognição, mas um objeto fictício, que não é nada mais do que uma

substanciação ou hipostasiação de funções lógicas, transformada em essências reais. Em

outras palavras, a coisa-em-si é incognoscível porque ela representa o conhecimento

falso da velha metafísica. Esse não é o único sentido do conceito na obra de Kant, mas é

um dos principais, e é precisamente isso que nunca foi percebido pela leitura

completamente absurda de Kant que prevaleceu entre marxistas, que sempre reduziram

a noção de coisa-em-si a um mero agnosticismo. Mas quando Kant afirma que ela é um

objeto que não pode ser conhecido, ele quer dizer que ela é o falso objeto “absoluto” da

velha metafísica racionalista de Descartes, Spinoza e Leibniz; e quando Hegel anuncia

que a coisa-em-si pode ser conhecida, o que ele está de fato fazendo é restaurar a velha

metafísica pré-kantiana.”

O que Kant(e Coletti) quer dizer é,como eu já havia demonstrado,que não é possível ao

pensamento abarcar o mundo todo.Admito que quando eu digo isto estou vendo muito as

condições de conhecimento que temos hoje,com um cosmos praticamente infinito.

O que Kant queria fazer ,e Coletti diz isto na entrevista, era recuperar a metafísica diante

da física newtoniana.

Embora Kant não tenha ainda esta visão atual do cosmos percebe claramente o enorme

abismo entre o Ser e as condições do pensamento,ratio

essendi e ratio cognoscendi.

Também já expliquei a diferença entre transcendente e transcendental:transcendente se

refere a uma experiência já entranhada na consciência que permite relacioná-la com outro

de experiência.O transcendental é aquilo que já não tem referência na experiência,mas,e é

aqui que se nota o caráter não inteiramente idealista de Kant,o conceito de transcendental

no filósofo se dirige àquela experiência que ainda não se entranhou na consciência


subjetiva.

O pensamento de Kant,aprioristico,atribui um significado ideal a este transcendental,mas

é possível diluir o apriori nesta integração sujeito/objeto.Neste momento verifica que a

ilusão da metafísica até então era acreditar que o sistema de pensamento tinha meios de

compreender o Ser.Na doutrina transcendental dos elementos ele mostra a

impossibilidade.Daí é quem vem o termo “ a coisa em si incognoscível” que não é mais do

que o reconhecimento do abismo.

Cassirer,neokantiano do século XIX,apreciado por Coletti,tanto quanto por mim,que o cito

tanto,dilui ainda mais o idealismo aprofundando o objeto enquanto parte da experiência

subjetiva,investigativa,do homem diante do Ser.

A ciência que busca respostas totais é tão inócua e letal quanto à metafísica.A dialética

hegeliana e marxista são tão metafísicas quanto outras filosofias racionalistas pré-

Kant,Spinoza,Leibnitz e Descartes.

E Kant então é muito mais materialista do que as metafísicas citadas,porque admite a

senda infinita do conhecimento.Ele não diz que não é possível conhecer,mas conhecer

tudo,logo o processo de conhecimento nunca pàra,mas prossegue.

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