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Nunes Pereira, esboço em cinza e sombras

o cientista, o poeta, o contador de estórias

2 ║ Zemaria Pinto
Manaus, 26 de fevereiro de 2016
Posse de Zemaria Pinto na Cadeira n° 59, de
Nunes Pereira

Capa, diagramação, ilustração: Zemaria Pinto

Tiragem: 200 exemplares

Obs.: este livro não se destina a venda

Nunes Pereira – esboço em cinza e sombras ║ 3


SUMÁRIO
As razões do título e do subtítulo ........................................................ 5
A finalidade deste trabalho ................................................................... 6
Algumas sombras .................................................................................. 6
Vida para ser contada ........................................................................... 8
Uma obra em afluência ....................................................................... 17
I – Etnologia Maué ........................................................................................ 18
II – O deus bem-humorado ........................................................................... 20
III – Gastronomia índia .................................................................................. 23
IV – Dois ensaios amorosos .......................................................................... 25
V – Folclore em síntese índio-negra.............................................................. 29
VI – De volta ao seio materno ....................................................................... 31
VII – Outros livros e não-livros ...................................................................... 33
VIII – Um clássico selvagem .......................................................................... 35
IX – E no princípio, a poesia .......................................................................... 38
Tambaramã! .......................................................................................... 40
Esboço de bibliografia ......................................................................... 40
Referências ........................................................................................... 44
Sobre o autor ........................................................................................ 47

4 ║ Zemaria Pinto
As razões do título e do subtítulo

Tenho por hábito começar a escrever meus trabalhos com um título,


ainda que provisório. É uma forma pouco sutil de me dar uma direção,
definir um escopo, para além do roteiro traçado previamente. O tema
Nunes Pereira, por exemplo, é material para inumeráveis teses e
dissertações, sendo impossível esgotá-lo nos limites de uma fala. Assim,
defini o título: “Nunes Pereira, esboço de um retrato”. Imaginei esse
esboço expressionista e em cores, explorando o amálgama racial do
retratado – índio, negro, branco, buscando a ideia precisa de quem foi esse
cientista e escritor, a um tempo tão citado e cultuado, mas tão pouco lido,
e agora quase no esquecimento. Pelas dificuldades encontradas no
levantamento de dados, entretanto, o retrato continuou apenas um esboço,
porém esmaecido num impressionismo ligeiro, limitado em cinza e
sombras.
O subtítulo – o cientista, o poeta, o contador de histórias – é até
óbvio, conforme se verá no fluir do texto. Mas adianto que o cientista
rigoroso, autodidata consciente de suas possíveis limitações, e, por isso
mesmo, munido de uma autocrítica incomplacente, jamais deixou de ser o
lírico que cultivava alexandrinos na juventude, especialmente quando
recontava as histórias ouvidas da indiada, como ele carinhosamente se
referia àqueles a quem procurava, sobretudo, “conhecer e amar,
humanamente”.1
O Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, ao completar 99
anos de existência, resgata a memória desse brasileiro exemplar que foi
Manoel Nunes Pereira, maranhense de nascimento, com uma passagem

1
PEREIRA, 1980, p. 5.

Nunes Pereira – esboço em cinza e sombras ║ 5


fulgurante e duradoura pela nossa região, especialmente por Manaus, que
ele dizia ser o “coração da Amazônia”.2

A finalidade deste trabalho

Os que conhecem Nunes Pereira já devem ter ouvido algumas das


histórias que se contam sobre ele – e que ele mesmo ajudou a divulgar,
alimentando um folclore em torno de sua figura emblemática. Histórias de
rebeldia, de boemia e de sexo. Esse anedotário acaba supervalorizado em
relação a uma obra que, ainda viçosa e original, é subestimada – pelo que
levantei, apenas duas teses de doutorado têm como centro a obra de Nunes
Pereira, ambas da PUC-SP: Labirintos do saber: Nunes Pereira e as
culturas amazônicas, de Selda Vale da Costa (1997), e Mitopoética dos
muiraquitãs, porandubas e moronguetás: ensaios de etnopoesia
amazônica, de Harald Pinheiro (2013).
Então, a proposta deste trabalho é, ignorando o anedotário, dar uma
visão, ainda que superficial, sobre a vasta obra de Nunes Pereira,
procurando despertar, especialmente nos mais jovens, pelo menos a
curiosidade de conhecer o essencial da obra do autor de Moronguetá, o
que não é pouco.

Algumas sombras

E já que tocamos no assunto supervalorização do anedotário X


descaso da universidade, vamos levantar algumas das sombras a que

2
PEREIRA, 1942b, p. 77.

6 ║ Zemaria Pinto
aludimos no título, e que não nos permitem fazer um retrato completo de
Nunes Pereira.
Sombra nº 1: por que a universidade o ignora?
Seria por ele ser um autodidata, um simples técnico em Veterinária
que se meteu a antropólogo cultural, um péssimo exemplo para as novas
gerações? Nem o reconhecimento internacional de personalidades do
porte de Claude Lévi-Strauss, Roger Bastide e Alfred Métraux mitigam a
falta do diploma? Seria a nossa academia tão tacanha?
Enquanto, durante a ditadura, se distribuíam títulos de Doutor
Honoris Causa com finalidade estritamente política – não muito diferente
de hoje, aliás, Nunes preferia o que chamava de “tropismo da selva”,3 que
ele não deixou de frequentar até perto dos 90 anos.
Nos países do primeiro mundo, sábios como Nunes Pereira são cumulados
de prêmios e honrarias; universidades disputam a honra de servir-lhes de
residência. Aqui, pra começo de conversa, poucos sabem quem é este
homem que dedicou 40 anos de sua vida à pesquisa e à coleta de lendas de
nossos índios, que despertou a atenção de Lévi-Strauss. Aos 83 anos,
Nunes Pereira – antropólogo e ictiólogo, cuja obra é respeitada
mundialmente, linguista, botânico, pesquisador de religiões primitivas –
vive com a família de uma pensão do estado, de 3 mil cruzeiros mensais. 4

Sombra nº 2: por que seus livros não são reeditados?

3
PASQUIM, n° 359, p. 11.
4
PASQUIM, n° 359, p. 8. Como o salário mínimo à época, maio de 1976, era de Cr$
768,00, o valor corresponde a 3,9 salários mínimos; hoje: R$ 3.432,00. Se tomarmos o
dólar como parâmetro, entretanto, temos o seguinte. Dólar em maio de 1976: Cr$
10,55. 3 mil cruzeiros correspondiam a 284,36 dólares; algo, como R$ 1.137,44 de hoje.
É claro que essas contas são meros exercícios, pois para chegarmos ao valor preciso
muitas outras variáveis devem ser levadas em conta. O que queremos demonstrar é
que o valor da aposentadoria de Nunes Pereira era mesmo ridículo. Fontes para os
cálculos: sites guiatrabalhista.com.br e aasp.org.br, consultados dia 09/01/2016.

Nunes Pereira – esboço em cinza e sombras ║ 7


Aparentemente, essas perguntas estão imbricadas: se a universidade
o ignora, por que reeditar seus livros? Uma boa parcela do mercado, a
parcela universitária, estaria fora dessa demanda. Por outro lado, por que
publicar livros que não teriam aceitação popular?
Pois bem, interessa a alguém saber que um livro pouco conhecido
de Nunes Pereira, como O Sahiré e o Marabaixo, que teve apenas duas
edições – uma de 1955 e outra de 1989, chega a ser vendido nos sebos
virtuais por preços que variam de 145 até 300 reais, além do frete?5
Sombra nº 3: o que alimenta esse mercado, que paga caro por
raridades?
Certamente, não são os colecionadores de livros raros, que
trabalham em outros patamares financeiros e em outras esferas estéticas.
Seriam pesquisadores anônimos, estranhos à universidade? (Os diletantes,
como são chamados, com um misto de ternura e desprezo pela
comunidade...) Ou seriam meros curiosos, sedentos dos ensinamentos do
velho pajé? Uma palavra de carinho a Isaac Maciel e Tenório Telles, da
Editora Valer, que reeditaram Os índios Maués (2003) e Experiências e
estórias de Baíra – o grande burlão (2007), sobre os quais nos deteremos
mais adiante.

Vida para ser contada

O cinema nacional, que já sobreviveu à chanchada, à


pornochanchada e vive agora uma fase de absurda mediocridade, com
chanchadas de todos os matizes, precisaria descobrir esse personagem,

5
Foram consultados os sites Estante Virtual, Livronauta e Mercado Livre, em
08/01/2016.

8 ║ Zemaria Pinto
que pautou sua vida pela aventura e pelo risco, mas também pelo humor e
pela alegria, um herói a um só tempo épico e pícaro – eventualmente,
priápico. Para fazer frente a Macunaíma só mesmo Baíra ou
Poronominare.
Manoel Nunes Pereira nasceu em São Luís do Maranhão, no dia 26
de junho de 1893, filho de Manoel Nunes Pereira e Felicidade Nunes
Pereira. Ele, de ascendência lusitana; ela, de ascendência africana.
Durante algum tempo, perdurou um mal-entendido com relação ao ano
exato de seu nascimento, desfeito em uma entrevista, quando ele disse que
teve necessidade de alterar o ano para 1891, “para entrar num curso”. 6 Na
mesma entrevista, conta que começou a se interessar pela temática
indígena quando ouviu, em uma conversa de seu pai com amigos, a
descrição de um massacre de franceses contra índios do Amapá. Tinha 3
ou 4 anos. “Os franceses pegavam as crianças pelas pernas e
esborrachavam suas cabeças contra as árvores.”7 A imagem terrível
acompanhou o menino por toda sua vida, dedicada, talvez, a entender
aquele ato primordial – covarde, selvagem e fora de qualquer padrão de
humanidade.
Sombra nº 4: do material a que tive acesso, e não foi pouco, quase
nada se diz sobre a formação de Nunes Pereira, sendo que algumas notícias
aparecem de forma desencontrada. Em entrevista à Tribuna da Imprensa,
por exemplo, ele diz que ficara até os 13 anos em São Luís, para logo em
seguida afirmar que passara a infância em Belém, onde concluíra os

6
Entretanto, para complicar um pouco, no dia 26 de junho de 1912, ele publicava um
poema com o título de “Vinte anos”, dedicado “à minha velha Mãe, e à Dona dos meus
versos”. Neste caso, aumentava a idade para parecer mais maduro? Fonte: CORREIO
DO NORTE.
7
PASQUIM, n° 359, p. 8.

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estudos primários.8 Savério Roppa, que fora seu colaborador próximo,
escreveu que “quando tinha um ano de idade a família mudou-se para
Belém do Pará”.9 Sombras.
Mesmo sobre a grafia correta de seu nome pairam dúvidas. Manuel
ou Manoel? Na maioria das vezes, escreve-se Manuel, que é a forma
clássica, portuguesa. Porém, em três documentos reproduzidos do
Arquivo Nunes Pereira, da Biblioteca Nacional, o nome grafado é Manoel
– inclusive o seu Título de Eleitor, tirado aos 52 anos, na 2ª Zona Eleitoral
de Manaus, constando como residência o Grande Hotel. Nesse mesmo
documento, o ano de nascimento confirma-se em 1893.10 Outra evidência
de que essa é a grafia correta: durante sua colaboração no Correio do
Norte, de Manaus, de 2011 a 2012, essa é a forma como seu nome é
grafado, sempre.
Então ficamos assim: em data incerta, a família do pequeno Manoel
mudou-se para Belém, onde seu pai se estabeleceu com uma sapataria.
Sem precisar a data, após a morte de seu pai, ele é “adotado” pela família
Lemos, do intendente de Belém, Antônio Lemos, e de D. Inês de Lemos,
esposa deste, amiga de sua mãe, D. Felicidade.11
A família Lemos o manda estudar em Niterói, no Salesiano Santa
Rosa. Na sequência, no Rio de Janeiro, estuda Veterinária. 12 Após a
conclusão do curso, vai trabalhar no Ministério da Agricultura, o que o

8
PORTO, p. 121.
9
PEREIRA, 1989, p. 7.
10
BIBLIOTECA NACIONAL, p. 34.
11
Este fato é referido em duas entrevistas, ao Pasquim e à Tribuna da Imprensa, sendo
que naquele Nunes refere-se a Manuel Tibiriçá de Lemos. De qualquer forma, houve
uma “família Lemos”.
12
Na entrevista ao PASQUIM n° 360, p. 11, Nunes declara que o curso “não era de nível
universitário”, donde se conclui ser um curso de nível técnico.

10 ║ Zemaria Pinto
traz à Amazônia, ao município de Boa Vista do Rio Branco, hoje a capital
de Roraima, em 1918, em missão oficial.

Título de Eleitor amazonense de Manoel Nunes Pereira.


Aí é que eu vi, sem enganos, que já estavam desalojando os índios. Os
fazendeiros que lá se localizaram, naquela área propícia, desde o período
colonial, desde a passagem dos portugueses colonizadores, já tinham
iniciado uma verdadeira devastação. Invadiam as terras, tomavam-lhe as
suas crianças, suas mulheres e as prostituíam, e tudo. Eu vi mulheres
indígenas cegas em consequência de doenças venéreas, eu vi crianças
deformadas(...). Pois bem, então eu entrei em contato com o drama do
índio. De volta a Manaus, dei uma entrevista violentíssima para o “Jornal
da Tarde”, do meu amigo Ageo Ramos, e ocorreu que lá estava Rondon.
Ele mandou chamar-me, para fazer uma acareação, porque aquilo
demonstrou ser muito grave. E houve uma reação dos fazendeiros muito
violenta.13

13
Entrevista à Tribuna da Imprensa: PORTO, p. 122-123.

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Sombra nº 5: ocorre que desde 1911, aos 18 anos, Nunes Pereira já
andava por Manaus, como jornalista, profissão que à época não exigia
estudos especializados, do Correio do Norte. Suas colaborações assinadas
ocorrem apenas na forma de sonetos. É curioso notar que os jornais da
época noticiam o aniversário de uma prima do poeta, Clara Nunes, neta de
D. Auta Souza Nunes, bem como a chegada de D. Felicidade, para visitar
o filho jornalista. Um ramo da família morava em Manaus? Foi isso que o
tirou de Belém? Em 28 de janeiro de 1912, Nunes Pereira participa da
fundação de um grêmio literário denominado Tertúlia dos Novos. Nos
jornais, seu nome desaparece de 1913 a 1916. Em 1917, ele reaparece
trabalhando em A Capital e em A Imprensa.14
Em 1918, portanto, ele já tinha trânsito livre e credibilidade para
conceder a entrevista que impressionaria o então Coronel Cândido
Rondon.15 Na entrevista ao Pasquim, Nunes diz que pediu uma audiência
a Rondon por carta, o que não muda a essência da história. A sombra que
fica é: como ele voltou a Manaus? E o que o trouxe, pois era funcionário
do Ministério da Agricultura, sediado no Rio de Janeiro? Os jornais da
época o identificam como veterinário e funcionário público estadual –
além de jornalista e “inspirado poeta.”
E já que estamos em 1918, não é demais registrar que o poeta
Manoel Nunes Pereira, aos 24 anos, é o fundador da cadeira de número 23
– que tem por patrono o nunca assaz louvado poeta Cruz e Sousa – da
Sociedade Amazonense de Homens de Letras, precursora da Academia

14
Pesquisa no site memoria.bn.br, da Biblioteca Nacional, nos dias 26 a 28 de janeiro
de 2016.
15
No Pasquim, Nunes chama Rondon de capitão, o que era uma impropriedade, visto
que Rondon era coronel desde 1912, conforme apuramos em vários estudos biográficos
daquele militar.

12 ║ Zemaria Pinto
Amazonense de Letras, instalada formalmente no dia 9 de janeiro daquele
ano – e não no dia 1º, como registra a mitologia a respeito, em sessão
solene realizada na Assembleia Legislativa do Estado, nos altos da
Biblioteca Pública, fartamente noticiada pela imprensa local. O poeta
Nunes Pereira, muito provavelmente fora da cidade, não compareceu ao
evento.16
No ano anterior, em março, dera-se a fundação do Instituto
Geográfico e Histórico do Amazonas. Roppa afirma que Nunes foi um dos
“criadores” do IGHA.17 Outros autores, sem qualquer preocupação em
comprovar o que escrevem, afirmam que Nunes Pereira foi membro, sim,
do IGHA. Posso lhes garantir, entretanto, que, infelizmente – e não
sabemos por qual razão, Nunes Pereira jamais foi associado ao Instituto
Geográfico e Histórico do Amazonas, uma lacuna que se corrige hoje,
vinculando definitivamente o nome do grande cientista à centenária Casa
de Bernardo Ramos.
Naquele mesmo ano de 1918, casou-se com Maria Rodrigues
Ribeiro, filha do coronel José Alexandre Ribeiro, de Parintins.18 Roppa
assevera que nesse meio tempo Nunes Pereira foi incumbido pelo
governador Pedro de Alcântara Bacelar de uma missão que poderia ser o
estopim do seu interesse pela causa indígena, incluindo o incidente acima
relatado:
Percorrer os campos naturais do Amazonas e do Território do Rio Branco
para fazer um extenso relatório sobre o potencial pastoril dessas regiões,

16
PINTO, 2010, p. 37-39. Nesta nova empreitada, encontrei novidades sobre a fundação
da SAHL, que deverão ensejar a escrita de um novo artigo a respeito.
17
PEREIRA, 1989, p. 9.
18
Outra sombra: nada apuramos desse casamento, a não ser que D. Maria Ribeiro
Nunes Pereira faleceu no Rio de Janeiro, em março de 1977. BIBLIOTECA NACIONAL, p.
197-198, documentos 1235 e 1242.

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convivendo entre os Macuxi, os Arecuna, os Taulipangue e os Ingarikó, e
outras tribos indígenas. Partem daí os seus estudos de geografia humana,
social, econômica e cultural do imenso Vale.19

Na sequência, Roppa traça uma sinuosa linha de deslocamentos, em


missão do Ministério ao qual servia, que passa pelo Rio Grande do Norte,
Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, e depois ao Uruguai, Argentina, Chile,
Peru e Bolívia, “para fazer pesquisas sobre a ictiologia e a indústria
animal”.20 É possível que esse trajeto tenha se cumprido fielmente, porém
não de uma só vez, porque a presença do cientista na Amazônia – sempre
tendo Manaus como base – é constante. Aliás, sobre essa presença, Roppa
nada diz, limitando-se a enumerar os títulos produzidos sobre a região.
Sombra.
Leitor ávido e compulsivo, Nunes Pereira formou cinco bibliotecas
ao longo da vida. Poliglota, dominava o francês, o inglês, o italiano, o
alemão e o espanhol, além do nheengatu, claro. Vale ressaltar que a obra
de Nunes Pereira tem uma característica recorrente: a sua absoluta
transparência intelectual. No próprio texto, ele explica detalhadamente
como chegou a cada informação ou conclusão – desde as leituras que lhe
serviram de base até as mais triviais conversas com seus guias e
narradores. Também não poupa citações e referências, especialmente as
de cunho literário, que ele domina como poucos. Sua fama de boêmio é
incompatível com sua disciplina de leitor e de escritor.
Admirador do santo católico Francisco de Assis, Nunes declara-se
crente em um Deus “um pouco indígena, um pouco católico”, ressaltando

19
PEREIRA, 1989, p. 8.
20
PEREIRA, 1989, p. 8.

14 ║ Zemaria Pinto
sua condição de maçom.21 Do seu Arquivo nos anais da Biblioteca
Nacional consta um Passaporte emitido pela Grande Loja do Estado do
Pará, em outubro de 1954, atestando sua filiação ativa à Loja Maçônica
Renascença, de Belém.22
Nunes Pereira fundou em Manaus, em 1944, juntamente com
Geraldo Pinheiro, André Araújo e Mário Ypiranga Monteiro, entre outros,
o Instituto de Etnologia e Sociologia do Amazonas – do qual foi o primeiro
e parece que único presidente. Nos referidos anais, há vários documentos
dando conta das atividades do Instituto, inclusive do lendário caso
envolvendo os despojos de Koch-Grünberg.23
E já que aludimos a um caso que vai muito além do mero anedotário,
e é sobejamente conhecido, me vem à memória um outro, que li ou ouvi
em algum lugar, e que dá bem a dimensão do humanismo de Nunes
Pereira. A história teria sido contada pelo próprio protagonista, ninguém
menos que o mitológico comandante Luís Carlos Prestes, o tanto amado
quanto odiado “Cavaleiro da Esperança”. Quando a Coluna Prestes,
percorrendo mais de 25 mil quilômetros do território nacional, passou pelo
Rio Grande do Norte, o veterinário Nunes Pereira declarou “condenadas”
várias cabeças de gado, que alimentaram por muitos dias os
revolucionários, com quem ele, certamente, simpatizava.
Lendo a coleção de documentos registrados no Arquivo Nunes
Pereira, deparamo-nos, na segunda metade de 1950, com uma sequência
de manchetes, soando entre o trágico e o cômico: “Desapareceu o

21
PASQUIM, n° 360, p. 9.
22
BIBLIOTECA NACIONAL, p. 34.
23
Em 1944, Nunes Pereira guardou – durante meses, em um quarto de hotel – os restos
mortais do notável cientista, que morrera em 1924, na localidade Vista Alegre, à
margem esquerda do Rio Branco, até conseguir lhe dar sepultura digna, no cemitério
de São João Batista, em Manaus.

Nunes Pereira – esboço em cinza e sombras ║ 15


cientista: teria sido chacinado pelos índios”; “Pesquisas na selva
amazônica para descoberta do cientista desaparecido”; “Teria sido
chacinado pelos índios o cientista?”; “Não morreu o etnólogo Nunes
Pereira”; “Está vivo o cientista Nunes Pereira”; “O etnólogo Nunes Pereira
não foi devorado pelos índios”.24 Desconhecemos os detalhes das
circunstâncias do “desaparecimento”, porém nota-se, por algumas
palavras utilizadas, a carga preconceituosa, insinuando, inclusive,
antropofagia, que Nunes sempre refutou como inexistente entre as tribos
que ele conheceu e estudou.25
Nunes Pereira foi membro do Instituto Histórico e Geográfico do
Pará, onde tomou posse em 1949. Membro da Academia de Letras do
Maranhão, tomou posse em dezembro de 1976. No correspondente
Instituto de sua terra natal, foi eleito como sócio honorário, em 1977.26
Observe-se que, vivendo entre os índios da Amazônia, o reconhecimento
intelectual de Nunes Pereira no Maranhão dá-se tardiamente.
Em outubro de 1973, recebe o título de cidadão de Manaus,
concedido pela Câmara Municipal, proposição do vereador Fábio
Lucena.27
Em entrevista, aos 83 anos, confessou duas frustrações: “não saber
música, e não saber desenho”.28
Nunes Pereira faleceu, no Rio de Janeiro, no dia 26 de fevereiro de
1985, há exatos 31 anos.

24
BIBLIOTECA NACIONAL, p. 181, documento 1108 e outros.
25
PEREIRA, 1974, p. 5-8 e 350-355.
26
BIBLIOTECA NACIONAL, p. 67, documento 211 e outros.
27
BIBLIOTECA NACIONAL, p. 182, documento 1116 e outros.
28
PASQUIM, n° 360. p. 11.

16 ║ Zemaria Pinto
Uma obra em afluência

A obra de Nunes Pereira tem duas vertentes temáticas


principais: a indígena, em primeiro plano, e a negra. Mas há também uma
série de trabalhos técnicos, onde se sobressai o naturalista, especializado
em ictiologia, o ramo da zoologia que estuda os peixes, além de estudos
de viabilidade econômica mais amplos, sob a égide do Ministério da
Agricultura. Era a produção profissional do técnico em Veterinária que se
expandia em trabalhos de pesquisador incansável, observador da natureza,
aprendendo com a própria experiência.
Muitos desses trabalhos foram editados pelo Ministério,
outros são dados como publicados nos anais dos congressos onde foram
apresentados. Ao final deste trabalho, apresentaremos um esboço da
bibliografia de Nunes Pereira, pois o autor não teve preocupação, em
nenhum dos livros que compulsamos, de elencar suas obras completas,
cronologicamente. As edições limitam-se a citar alguns trabalhos
publicados e uns tantos a publicar – destes, muitos certamente ficaram só
no projeto.
Assim, vamos nos concentrar nas duas vertentes principais,
antecipando que Moronguetá e A Casa das Minas funcionam como
desaguadouros dos demais livros-rios, que afluem, sempre, para um ou
para outro, caracterizando-se como uma obra em constante movimento,
sempre em evolução. Moronguetá, entretanto, é o rio principal, para onde
afluem todos os outros, inclusive os livros-rios de temática negra.

Nunes Pereira – esboço em cinza e sombras ║ 17


O livro-rio Moronguetá e seus afluentes. Visão parcial.29

I – Etnologia Maué
Ensaio de Etnologia Amazônica, cuja primeira edição é de 1940, é
o primeiro desses livros-rios. Em 1954, Nunes o amplia e o publica como
Os índios Maué.30 Este, por sua vez, vai ajudar a compor Moronguetá,
treze anos depois.
Ensaio de Etnologia Amazônica é a primeira ousadia de Nunes
Pereira, a começar pelo título, em que a palavra “etnologia” se destaca: de
modo ligeiro, podemos dizer que é o estudo das características de um

29
A ideia de livro-rio nasceu do conceito de narrativa em afluência, que o professor
Marcos Frederico Krüger desenvolveu no ensaio “O mito de origem em Dois Irmãos”.
30
A Associação Brasileira de Antropologia (ABA), fundada em 1955, convencionou que
a primeira letra da grafia de grupos étnicos deve ser escrita com letra maiúscula, tanto
para registrar os substantivos quanto os adjetivos gentílicos. Quando contextualizados
no plural, substantivos e adjetivos não flexionam. Esta segunda regra não será
respeitada neste trabalho, a não ser, por inevitável, nas citações e títulos.

18 ║ Zemaria Pinto
grupo étnico, assim definido por ter em comum a língua, as tradições e o
território, elementos que fundamentam as relações ordinárias da vida
cotidiana, criando “interesses coletivos e vínculos de solidariedade
caracteristicamente comunitários”.31
Na primeira versão, publicada na revista Terra Imatura, de Belém,
apropriadamente chamada ensaio – porque experimento – o autor
concentra-se no estudo de um “porantim” ou “remo mágico”, uma peça
que lhe fora mostrada, em 1939, no rio Andirá, domínio dos Maués. A
peça foi fotografada e também reproduzida detalhadamente a bico de
pena. No livro de mesmo nome, publicado no ano seguinte, o ensaio se
expande para fazer jus ao vocábulo mais forte, trazendo informações sobre
a história dos Maués e suas desavenças com os Mundurucus, além de
análise sobre os tipos de habitação utilizados, meios de locomoção,
lavoura do guaraná, caça e pesca etc. Em pequenas notas, Nunes Pereira
faz observações sobre os costumes locais em relação ao nascimento,
puberdade, casamento e morte, entre outras abordagens. O pequeno livro,
de não mais que 50 páginas, traz ainda duas narrativas, recolhidas pelo
autor: “História do timbó e da primeira água” e “História do guaraná”.
O livro Os índios Maués, que compulso na edição de 2003, da
editora Valer, foi publicado pela primeira vez em 1954. Trata-se da
evolução do Ensaio de Etnologia Amazônica, acrescentando a este novas
informações e detalhes preciosos, como a transcrição de canções da etnia
estudada e várias ilustrações, além de fotos inéditas – mas conservando a
essência de sua origem. Trechos inteiros do livro foram copiados em
Moronguetá, que traz, claro, muito mais informações, não só sobre os
Maués, mas sobre todos os nativos habitantes do que ele chamou de área

31
LEVI, p. 449-450.

Nunes Pereira – esboço em cinza e sombras ║ 19


cultural Tapajós-Madeira. O livro traz ainda seis narrativas inéditas, que,
somadas às anteriores, viriam compor o corpus das narrativas de
Moronguetá, relativas àquela área.

II – O deus bem-humorado
Bahira e suas experiências teve a sua edição príncipe em 1940. É a
primeira manifestação significativa do contador de estórias, porque esse é
objetivo do livro – trazer à luz as aventuras daquele anti-herói índio.
Entretanto, o subtítulo – Etnologia amazônica – reforçava a intenção do
autor de posicionar-se como um cientista. A edição que tenho em mãos,
presente da querida Ivete Ibiapina – a 2ª, de 1944, com ilustrações de
Morbach, guarda duas curiosidades: é o vol. 1 da Biblioteca do Instituto
de Etnografia e Sociologia do Amazonas, presidido pelo autor; e traz uma
curiosa dedicatória ao então governador do Amazonas, Álvaro Maia:
“com a recordação da nossa atormentada mocidade”.32 Quantas histórias
haveria sob o véu destas poucas palavras...
Na apresentação de Bahira e suas experiências, Nunes Pereira
declara que destaca aquelas “experiências” de sua obra então em preparo,
acerca dos Kawahiwa-Parintintins. Essa obra jamais foi publicada;
entretanto, está lá, em Moronguetá, nas mais de 150 páginas dedicadas aos
Cauaiua-Parintintins, habitantes da área cultural Tapajós-Madeira. Nunes
faz uma profissão de fé, um autêntico manifesto por uma cultura nacional
indígena:
Nessa obra tais “experiências”, tradições e histórias são particularmente
comentadas, no intuito de salientar-se a contribuição do índio ao

32
PEREIRA, 1944, p. 5.

20 ║ Zemaria Pinto
conhecimento de certos fenômenos biológicos, religiosos, econômicos,
sociais e humanos do mundo amazônico.

Mas com o trabalho hoje dado à estampa, visamos, somente, chamar a


atenção dos intelectuais e dos artistas brasileiros para uma fonte possível
de inspiração e de criação de novos aspectos da Literatura e da Arte.

Não cremos que o “motivo” Negro já tenha sido esgotado; entretanto,


estamos certos de que o “motivo” Índio permanece absolutamente inédito,
sem o sentido, sem a evidência que é mister lhe sejam assegurados num
plano diverso do que, literariamente e cientificamente, tentaram assegurar-
lhe os chamados indianistas de ontem...

Somos, como se vê, por um movimento de inteligência e de sensibilidade


– contrário a um movimento de ciência e de sensacionalismo, apenas – em
louvor da cultura espiritual do índio e, consequentemente, em favor da
nossa própria cultura.33

Citando o Macunaíma, de Mário de Andrade, como um


representante isolado desse processo – poderia ter citado também Cobra
Norato, de Raul Bopp – Nunes Pereira lamenta que o Brasil continue de
costas para a Amazônia, mas reafirma a certeza de que “mais tempo,
menos tempo”, esse movimento que ele preconiza se “imporá
vitoriosamente”.
Baíra – a grafia usada em Moronguetá – é um deus criador e
civilizador, da mesma linhagem de Jurupari, Poronominare e Macunaíma,
entre outros deuses das diversas etnias brasileiras. Como um deus,
protege, orienta, ensina – e pune. Para exercer essas funções, serve-se do
“terror cósmico e do terror divino, da ação física e da ação sobrenatural”.34
Baíra, entretanto, humaniza-se como nenhum outro deus, nem grego nem
romano, a partir de uma qualidade singular: o humor. As estórias que

33
PEREIRA, 1944, p. 17-18.
34
PEREIRA, 1944, p. 23.

Nunes Pereira – esboço em cinza e sombras ║ 21


protagoniza oscilam entre o poético, o cômico e o perverso, especialmente
contra os falsos pajés. Como civilizador, ele tem papel fundamental ao
conquistar para seu povo o fogo, qual um novo Prometeu. Ensinou-lhes o
uso de flechas, técnicas de caça e de pesca, e também o uso e a simbologia
dos adornos. Como um deus criador, Baíra criou o sol, a lua e a mulher.
É revelador o diálogo com um dos narradores Cauaiua-Parintintins.
Ao ser perguntado se sua gente temia somente a Tupã e mais nenhum outro
deus, ele respondeu, com singela naturalidade: “antigamente, Cauaiua
tinha Tupã e Baíra... Depois veio Jesus Cristo.”35 A contaminação
religiosa promovida pelo branco reflete-se nas narrativas preservadas pela
oralidade, onde cada narrador é um coautor.
Desde o primeiro contato com Baíra, intrigou-me o vocábulo
“experiência”, ligado ao conhecimento científico, experimento, ou ao
empírico, prática – para um ou para outro, parecia-me que Nunes Pereira
forçava o resultado semântico. Ao escrever um breve estudo sobre a
narrativa Baíra e sua namorada,36 entretanto, compreendi que a
experiência referida no texto é uma alusão ao próprio método de trabalho
do autor, buscando apreender o real pela intuição sensorial, externa, e pela
intuição psicológica, interna – o próprio trabalho do etnólogo. Refletindo-
se em Baíra, ele declara que [a experiência,] “inspira-a um cérebro sereno,
mas executa-a um espírito astuto, buliçoso e bem humorado”.37
Bahira e suas experiências (etnologia amazônica) divide-se em
duas partes: a primeira traz oito “experiências” e duas variantes; a

35
PEREIRA, 1944, p. 24.
36
PINTO, 2011, p. 23-28.
37
PEREIRA, 1944, p. 25.

22 ║ Zemaria Pinto
segunda, intitulada “Histórias de Bahira e sua gente”, 38 é composta de 11
narrativas e “duas tradições” – estas são lembranças de uma possível
origem dos Cauaiuas em terras próximas ao mar, de onde teriam imigrado
para a selva amazônica. O livro tem ainda um breve glossário de palavras
e expressões usadas nas narrativas.
A edição da Valer conserva os textos introdutórios, inclusive as
dedicatórias, mas, em acertada decisão editorial, serve-se de Moronguetá
para expandir o volume de experiências e estórias, adotando o título deste,
Experiências e estórias de Baíra – o grande burlão. O livro original é,
sem dúvida, um tributário daquele riomar – e aqui violento a gramática de
forma consciente, fundindo os significantes, buscando o efeito de
transformá-los em um ente único.

III – Gastronomia índia


Panorama da alimentação indígena – comidas, bebidas & tóxicos
na Amazônia brasileira, tem sua origem em um ensaio publicado em
1945, na revista O Espelho. Este serviu de introdução ao livro, publicado
em 1974. Mas, antes, em 1964, aquele ensaio, acrescido de “algumas
notas, objetivas e oportunas, fotos e desenhos ilustrativos” fora publicado
em forma de livro, pela universidade do Rio Grande do Norte. Tenho em
mãos o livro em sua forma definitiva, presente da inesquecível Ivete
Ibiapina. Apesar de ser dado a lume sete após a primeira edição de
Moronguetá, Panorama da alimentação indígena, é tributário daquele,
mas é também destino de livros-afluentes que nele deságuam, como Os
Mura e o uso do paricá e da coca (1934), A pesca na Amazônia (1951), O

38
Em Moronguetá e na edição da Valer, foi adotado o termo “estórias”, usado para
definir narrativas populares e/ou tradicionais, em oposição a “história”, empregado em
narrativas ditas sérias. Essa oposição “história X estória” não está isenta de polêmica.

Nunes Pereira – esboço em cinza e sombras ║ 23


pirarucu da Amazônia (1951), O peixe-boi da Amazônia (1954), A
tartaruga verdadeira da Amazônia (1954) e, muito provavelmente, Um
peixe enigmático (s/d).
Além da já divulgada introdução, Panorama... repete a estrutura de
Moranguetá na abordagem do que ele chama de moldura física da região
– o solo, a flora, a fauna, a hidrografia e o clima. Nunes Pereira escreve
também sobre o homem – “Que é o índio?” – e sua cultura material:
habitação e utensílios. Ainda na introdução, ele anotara:
Poder-se-á, portanto, axiomaticamente, afirmar que, à perfeição, utilidade,
resistência da cerâmica indígena, deste ou daquele povo, corresponde a
perfeição e valor da alimentação por ele adotada.39

No mais, como o título promete, o livro, nas suas mais de 400


páginas, é uma viagem pela cultura gastronômica amazônica, desde os
alimentos coletados na natureza, passando pela caça e a pesca, até a
agricultura – dos pratos mais simples, do dia a dia, até refinamentos, como
os inúmeros pratos produzidos a partir da tartaruga, a pimenta jiquitaia, o
mel selvagem e o queijo que dá em árvore.
Paradoxalmente, num contraponto à fartura oferecida pela floresta,
seus habitantes, “[os primitivos e os atuais,] vez por outra, se viram a
braços com a calamidade da fome.” A fome estaria entre os elementos,
materiais e espirituais, que fundamentavam – face a destruição iminente
do mundo, uma ideia trazida pelos religiosos de todos os matizes que
infestavam a floresta – o mito da “Terra-sem-mal”, registrado por
Nimuendaju, uma espécie de nova Canaã.40

39
PEREIRA, 1974, p. 8.
40
PEREIRA, 1974, p. 207-208.

24 ║ Zemaria Pinto
As bebidas são divididas em dois grupos, seguindo a lição de Koch-
Grünberg: as refrigerantes, feitas de frutas, e as alcoólicas, fermentadas.
O capítulo dedicado aos alucinógenos, lembra que o seu uso,
originalmente, era apenas ritual; o contato com o branco, entretanto,
estimulou o uso indiscriminado. Panorama da alimentação indígena
conclui com uma série de 16 narrativas, todas elas relacionadas ao seu
tema. O contador de estórias não perdia uma oportunidade...

IV – Dois ensaios amorosos


Dois pequenos livros, de cerca de 80 e 60 páginas, respectivamente,
chamam a atenção na obra de Nunes Pereira: Um naturalista brasileiro na
Amazônia,41 de 1942, e Curt Nimuendaju (síntese de uma vida e de uma
obra), de 1946. Ambos são esboços biográficos, escritos com apaixonada
parcialidade. O primeiro, sobre o mineiro João Barbosa Rodrigues (1842-
1909); o segundo, sobre o alemão Curt Unckel (1883-1945). Esses livros
parecem fazer parte de um projeto maior, não concluído, uma vez que em
mais de um livro, o autor registra, entre suas obras a publicar, os projetos
de livros José Veríssimo – Naturalista e Gonçalves Dias – Naturalista.
Em entrevista ao jornal O Globo, em outubro de 1974, Nunes Pereira
acrescentaria mais um título a esse rol: Guimarães Rosa – Naturalista.42
Não me parece precipitado concluir que esses escritos amorosos visavam
homenagear alguns de seus ídolos: é o que fica transparente na leitura dos
dois livrinhos (no tamanho) que vieram à lume.

41
Registro meu agradecimento para com a jornalista e escritora Leyla Leong, que
gentilmente me emprestou o livro. Leyla Leong é autora, entre outros títulos, de João
Barbosa Rodrigues e o Museu de Botânica do Amazonas (Manaus: Valer, 2010).
42
PORTO, p. 83-84.

Nunes Pereira – esboço em cinza e sombras ║ 25


A origem de Um naturalista brasileiro na Amazônia foi uma
conferência proferida no dia 22 de junho de 1942, na Academia
Amazonense de Letras, ocasião em que se comemorava o centenário de
nascimento de Barbosa Rodrigues. Nunes Pereira não economiza louvores
ao criador do Museu Botânico do Amazonas, que viria a dirigir mais tarde
o Jardim Botânico do Rio de Janeiro e que empresta seu nome ao Museu
Botânico de São Paulo. Estamos diante de um verdadeiro monumento,
envolto em um halo de poesia:
Toda a sua vida tem um ritmo e um conteúdo de pura Poesia, ora bárbara,
ora lírica, ora terna, ora trepidante. E toda a sua obra tem a sonoridade, a
harmonia de um grandioso Poema à Natureza, ora elevando-se na
retilinidade de uma palmeira, ora reduzindo-se, numa síntese de cores, de
linhas e de perfumes, à imagem, quase imaterial, de uma orquídea dos
trópicos.43

Nunes Pereira, nesse diapasão lírico, e desfiando todo o seu


conhecimento literário, especialmente de poesia, vai compondo a imagem
do cientista, desde a infância até a universidade, para depois fixar-se no
homem de ciências, mantendo a lira sempre afinada: “sob o signo da
poesia”, “um entomologista menino”, “o enamorado das palmeiras”, “o
enamorado das orquídeas”, são alguns títulos de capítulos do livro.
Relembra, com uma alegria temperada pela revolta, a criação do Museu
Botânico do Amazonas, patrocinado pela Princesa Isabel, e sua morte
decretada por “políticos inescrupulosos e administradores incapazes”,44
que viam no Museu um símbolo do ancien régime.

43
PEREIRA, 1942b, p. 21-22.
44
PEREIRA, 1942b, p. 76.

26 ║ Zemaria Pinto
É no capítulo “Índios: origens – arte – pacificação” que
compreendemos porque Nunes Pereira era uma alma gêmea de Barbosa
Rodrigues. O naturalista não era apenas um botânico, talvez o maior de
seu tempo, tendo mergulhado fundamente no que Nunes chama de
“indianologia”, com estudos sobre as origens do Homem Americano, que
ele relaciona aos muiraquitãs encontrados nas regiões do Tapajós e do
Nhamundá. Estudioso das artes cerâmicas indígenas, Barbosa Rodrigues
coroa seu conhecimento de indianologia com a pacificação dos Crichanás.
Para Nunes Pereira, “com Barbosa Rodrigues, a gente aprende a amar o
índio e a compreendê-lo,”45
Curt Nimuendaju (síntese de uma vida e de uma obra) também teve
origem em Manaus, em uma sessão conjunta do IGHA e do Instituto de
Etnografia e Sociologia do Amazonas, quando o autor proferiu uma
conferência, no dia 10 de janeiro de 1946. O motivo da sessão era uma
homenagem ao cientista, desaparecido um mês antes, em circunstâncias
mal explicadas. A relação entre Nunes Pereira e Nimuendaju era,
sobretudo de amizade, mas – dez anos mais velho e um renome
internacional – Nimuendaju era para Nunes um mestre a ser seguido.
O texto, talvez pela proximidade da tragédia, é sombrio e amargo,
mas traça, a partir de um painel tripartite, a trajetória de Curt Unckel:
desde a infância, na fabulosa floresta da Turíngia, na Alemanha, onde
nasceu; passando pela floresta de Piratininga, onde chegou aos 20 anos e
metamorfoseou-se em Nimuendaju; até a floresta amazônica, onde viveu
aventuras, produziu alta ciência e pereceu, violentamente, aos 62 anos.
Numa passagem que dá bem uma ideia de quem foi Curt
Nimuendaju, que “viveu entre os índios, como índio”,46 Nunes Pereira

45
PEREIRA, 1942b, p. 71.
46
PEREIRA, 1946, p. 20.

Nunes Pereira – esboço em cinza e sombras ║ 27


conta que, juntamente com o historiador Arthur Reis, o convidou para dar
um curso de etnografia na universidade do Pará. Nimuendaju respondera:
Jamais ocupei uma cátedra; tudo o que aprendi acerca de índios foi no meio
deles, sobre uma esteira. Se os rapazes quiserem que lhes ensine o que
aprendi, terão de sentar-se aqui comigo...47

Tendo vindo para o Brasil numa leva de migrantes com destino ao


Paraná, Santa Catarina e Rio Grande Sul, o jovem Curt deixou-se ficar em
São Paulo, onde passou a ter contato com os Apopokuva-Guaranis,
aprendendo a sua língua e mergulhando fundo nos seus costumes,
absorvendo sua cultura, sua religião e compreendendo sua sociologia e sua
economia. Dessa integração nasceu um novo homem: Nimuendaju, que
significa o “o que faz seu próprio lar”, numa palavra: o construtor.48
Construtor de uma obra ímpar, “nos domínios da etnografia, da etnologia,
da sociologia, da economia, da linguística, da religião e da arte”.49
Frequentei, com predileção, a companhia dos velhos e, de modo especial,
a dos pajés, e me fiz instruir durante horas seguidas sobre os mistérios da
velha religião.50

Nimuendaju torna-se colaborador próximo de Rondon, o que o traz


à Amazônia, aos 41 anos, iniciando o terceiro e mais extenso estágio de
sua vida. Aqui, ele “amazoniza-se”, usando-se a expressão-síntese criada
por Adolfo Ducke, para explicar um processo que vai muito além da
acomodação ao meio físico: uma integração do homem com seu próprio
destino.51

47
Apud PEREIRA, 1946, p. 11.
48
PEREIRA, 1946, p. 20.
49
PEREIRA, 1946, p. 39.
50
Nimuendaju, apud PEREIRA, 1946, p.23.
51
PEREIRA, 1946, p. 26.

28 ║ Zemaria Pinto
O livro traz ainda uma dramática narrativa da pacificação e do
aniquilamento da etnia Parintintim, além de um breve estudo sobre as
obras publicadas de Nimuendaju e referências a obras inéditas, entre as
quais uma coletânea de 300 histórias, lendas e contos, “na sua maioria
escabrosas e obscenas mesmo”,52 que Nimuendaju pretendia publicar sob
o título de Trezentas – um documento inestimável da literatura oral das
etnias estudadas.
Outros livros foram publicados a partir de conferências e hoje são
objetos raros, como Introdução à dramaturgia indígena, de 1947, e O
índio, esse desconhecido, de 1949 – ambas proferidas no Museu Emílio
Goeldi, em Belém. Registre-se ainda, dentro da temática amazônica, os
livros Histórias e vocabulário dos índios Uitoto, de 1951, e Vocabulário
da língua Tukano, de 1966.

V – Folclore em síntese índio-negra


O Sahiré e o Marabaixo – tradições da Amazônia foi apresentado,
acredito que de forma condensada, no Primeiro Congresso Brasileiro de
Folclore, em 1951. Essa informação está na primeira edição do livro, com
cerca de 140 páginas; entretanto, nada diz de sua própria data de
nascimento, sobre a qual encontramos notícias as mais desencontradas:
1951, 1955 e até 1966. A segunda, de maior ocorrência, parece ser a
correta, pois, consultando jornais do Rio de Janeiro, no acervo digitalizado
da Biblioteca Nacional, verificamos que as poucas referências ao livro se
dão a partir de janeiro de 1956. A edição de 1989 omite qualquer
informação sobre a edição anterior; quem a manuseia sem conhecimento

52
PEREIRA, 1946, p. 46.

Nunes Pereira – esboço em cinza e sombras ║ 29


prévio pensa estar com um livro inédito em mãos. Esses detalhes,
entretanto, não toldam o brilho do trabalho de Nunes Pereira.
Essas duas tradições chegaram até nós vindas de três fontes de emoção e
de religiosidade – do conquistador luso, do escravo negro e do índio
animista e curioso.53

O Sahiré e o Marabaixo sintetiza a própria figura de Nunes Pereira:


ascendência portuguesa e africana, devotado aos índios, ele reúne em uma
obra a sua própria história, suas heranças intelectual e religiosa, sua
psicologia, buscando a interseção entre as três culturas, mapeadas nos
estados do Amazonas e do Pará, e no então território do Amapá.
Nunes Pereira começou a pensar no livro enquanto pesquisava para
a citada conferência Introdução à dramaturgia indígena, “um ensaio que,
ampliado hoje, tem mais extensão e densidade.”54 A ideia de livros-rios
tributários desaguando em outros livros-rios maiores vai se confirmando.
O Sahiré estudado por Nunes Pereira não guarda homologia com o
Sairé ou Çairé, de Alter do Chão, epígono do boi-bumbá de Parintins,
apesar da origem ser a mesma. O Sahiré é um estandarte em semicírculo,
formado de três arcos e três cruzes, feito de cipó, revestido de algodão, à
frente de “uma procissão bailada, que, segundo vários autores, os jesuítas
conceberam como meio de catequizar e converter os indígenas”. Essa
tradição, que pode ter tido origem em Portugal, repete-se em vários “dias
santos” e consiste basicamente do seguinte: em três fases distintas,
lideram-na crianças, moças e velhas; cantando e dançando, elas param nas
casas de pessoas importantes da cidade, comem e bebem. Aos homens é

53
PEREIRA, 1955, p. 12.
54
PEREIRA, 1955, p. 12.

30 ║ Zemaria Pinto
reservado o papel coadjuvante de tocar os instrumentos que acompanham
as músicas; estas alternam temas religiosos com temas profanos.55
Também a par com a tradição religiosa, o Marabaixo alterna canções
de teor sacro e profano, acompanhado de instrumentos de percussão, que,
aos poucos, botam todos para dançar, em atitudes “as mais estranhas e
emocionantes”, revelando, em acrobacias complexas, artes e negaças de
experientes capoeiristas. Mas há, dependendo do lugar, pequenas
variações no ritual. A uma exibição a que assistiu, o autor registra:
Nem lhes faltaram, nas máscaras luzidias de suor, no fulgor das pupilas e
nos ritus dos lábios carnudos, a expressão dramática, que a posse do guia,
santo ou vodum, lhes transmite, e a expressão sensual, que nasce dos
sentidos, açulados pelas libações e pelos contatos dos corpos em festa... 56

A “expressão dramática” fora descrita, anos antes, em A casa das


Minas. Confluências. O Sahiré e o Marabaixo traz ainda registros das
letras e a transcrição musical de algumas canções das duas tradições, que
representam “uma fonte da Religião do povo, sem dúvida, mas da sua Arte
também”.57

VI – De volta ao seio materno


A Casa das Minas – culto dos voduns Jeje no Maranhão teve origem
também em uma conferência, levada a público em agosto de 1944, no Rio
de Janeiro, na sede da Sociedade Brasileira de Antropologia e Etnologia,
da qual era sócio correspondente. O trabalho representava uma mudança
de direção, ou melhor, uma nova vertente, ou um novo afluente, na obra
de Nunes Pereira: o estudo do negro brasileiro. Para isso, ele voltara ao

55
PEREIRA, 1955, p. 20-50.
56
PEREIRA, 1955, p. 104.
57
PEREIRA, 1955, p. 120.

Nunes Pereira – esboço em cinza e sombras ║ 31


Maranhão, a uma casa onde fora levado inúmeras vezes por sua mãe – a
Casa das Minas. Em 1947, publicava-se a primeira edição do livro, sob o
patrocínio da Sociedade que o vira nascer.
Nunes Pereira, ainda na apresentação do trabalho ressalva, com a
modéstia que lhe é peculiar, que não se trata de um profundo exame de
cunho científico, mas de um simples depoimento.
Na minha meninice abri olhos inquietos e maravilhados para as danças e
cerimônias religiosas desenrolando-se no tradicional terreiro da Casa
Grande das Minas, e meus ouvidos, rudes e frágeis – como conchas
bivalves à margem do Oceano –, ressoaram com as vozes dos tambores e
das gargantas enchendo as noites de melodias e frases que nenhuma boca
humana pôde conspurcar.58

A segunda edição de A Casa das Minas, de 1979, traz um livro bem


diferente do original. O autor explica que a obra se estrutura em duas
partes: a monografia original, com cerca de 40 páginas, acrescida de
“Notas Complementares” – estas somam mais de 180 páginas.
Acrescente-se ainda uma terceira parte, chamada “Caderno Iconográfico”,
com mais de 60 páginas. Faço essa ressalva, lembrando que, à época,
Nunes Pereira contava 86 anos de vida. Sua obra estava em permanente
construção – em movimento.
A Casa das Minas é um livro de agradável leitura, especialmente
para quem tem um mínimo de informação sobre as religiões afro-
brasileiras. O voduns ou vodus Jeje têm origem na Costa da Mina, que
forneceu milhares de escravos ao Brasil, e era parte do lendário reino do
Daomé, o atual Benim. Há um paralelo entre a cultura Jeje-Mina e o
Candomblé, mas é preciso enfatizar que não são a mesma coisa. Como

58
PEREIRA, 1979, p. 20.

32 ║ Zemaria Pinto
exemplo, Nunes Pereira não reconhece no vodun Jeje o sincretismo tão
facilmente identificável entre os deuses do Candomblé e os santos
cristãos.59 Pelo menos mais dois livros de Nunes Pereira são tributários
deste: Negros escravos na Amazônia, de 1943, e Negros escravos na Ilha
de Marajó, cuja data não conseguimos precisar – ambos, conferências
apresentadas em Congressos de História e Geografia, no Rio de Janeiro.

VII – Outros livros e não-livros


A vasta bibliografia de Nunes Pereira inclui vários projetos de livros
que ou não se realizaram, ficando incompletos ou mesmo apenas no plano
das ideias, ou foram absorvidos por outro, maior – caso daquele sobre os
Cauaiua-Parintintins, de onde foram tiradas as experiências de Baíra.
Melhor seria dizer que, mesmo antes de se tornarem livros, desaguaram
no caudal mais volumoso de outros livros-rios. Afluências.
Os títulos são sempre relacionados entre os livros “a publicar”. Os
Mura e Os Parintintin, muito provavelmente foram absorvidos por
Moronguetá. História do Guaraná, dilui-se entre Os índios Maué,
Panorama da alimentação indígena e Moronguetá. Ainda assim, haveria
muito a contar dessa história. O negro na Amazônia e O negro no
Maranhão, prometidos desde a década de 40, deságuam em A Casa das
Minas, limitados, contudo, pelo tema, pois havia muito ainda a dizer.
Mitos, lendas e superstições vegetais da Amazônia, podemos apostar,
misturou suas águas à de Moronguetá. O mesmo acontece em relação ao
título Paixão, morte e glória do Índio. Duvido, entretanto, que o Ensaio
de sexologia indígena tenha se concluído, se é que chegou a ser iniciado,

59
PEREIRA, 1979, p. 32-33.

Nunes Pereira – esboço em cinza e sombras ║ 33


prometido que fora desde 1942.60 Com esse título, mesmo misturando-se
às águas de Moronguetá, ele correria em paralelo, soberbo e atrevido,
como o Negro com o Solimões, não havendo como ignorá-lo.
Mas de todos os títulos que ficaram só na promessa, há um, pelo
menos, que poderá, quem sabe, ser resgatado do inglório fundo de alguma
gaveta imemorial: Memórias inconfessáveis. Citado em entrevistas e
também no penúltimo livro, Panorama da alimentação indígena, de 1974
– quando ele escreve “nas Memórias Inconfessáveis, que já estamos
elaborando”,61 trata-se de seu último livro original, posto que A casa das
Minas, de 1979, era a expansão de um título anterior. Arlindo Porto dá o
seu testemunho de amigo e diz que achava que aquela história de
memórias inconfessáveis “não passava de uma safadeza a mais, das muitas
que ele vivia inventando.” Somente após a morte do amigo ele convenceu-
se de que o livro existia, sim.62 Perdeu uma grande oportunidade, o bom
Arlindo, de ser o editor dessa provável obra-prima da memorialística
nacional. Contrariando a expectativa de Arlindo Porto, entretanto, penso
que as Memórias Inconfessáveis contam histórias escabrosas vividas pelo
autor, como aquela que ele denunciara a Rondon. Seus mais de 40 anos de
Amazônia devem ter visto muita imundície, que ele se abstivera de contar
em seus livros clássicos, até para poupar possíveis patrocinadores. Com a
velhice, ele poderia externar aquele sentimento reprimido de que a
extinção das etnias era inevitável – que o seu trabalho e de outros poucos
abnegados era um frágil arrimo, um entreato colorido e alegre da tragédia
inevitável, que se construía há quase 500 anos.

60
O título está relacionado nas obras a publicar de Um naturalista brasileiro na
Amazônia (1942) e Bahira e suas experiências (1944), 2ª edição.
61
PEREIRA, 1974, p. 310; PORTO, p. 126 (entrevista à Tribuna da Imprensa, em 1980.)
62
PORTO, p. 61.

34 ║ Zemaria Pinto
VIII – Um clássico selvagem
Gestado em mais de 40 anos de viagens pela Amazônia, Moronguetá
– um Decameron indígena é o grande livro-rio onde deságua a obra de
Nunes Pereira – um clássico da selva. Em carta a Arthur Reis, em outubro
de 1943, 24 anos antes do livro vir à luz, Nunes Pereira informava ao
amigo a respeito de uma viagem que fizera ao Alto Madeira:
Pelos resultados dessa viagem, posso afirmar a V. que foi das mais
proveitosas por mim realizadas nesta Amazônia (...) Entre aqueles
resultados há um livro – MORONGUETÁ (...) São cerca de 48 histórias
fabulosíssimas! Nelas reaparece Bahira com 10 experiências. E novos
heróis, como Tandavaoha, Anhang-pi e Pereté, rivalizam com aquele em
ações movimentadas e estranhas. Certos esclarecimentos que o Curt me
pediu recolher vêm nessas histórias e têm um valor extraordinário para os
estudos etnológicos.

Como V. vê, só na velhice é que realizo o que me pediam ao tempo da


minha turbulenta mocidade. Enfim, ninguém poderá dizer mais que fui
apenas um homem de inteligência dispersiva e inútil. 63

Esboçava-se naquela viagem a ideia de Moronguetá, embora ele já


estivesse sendo gestado há muito mais tempo. Quanto à “inteligência
dispersiva e inútil”, não podemos esquecer que o autor de livros mal
começava sua carreira, aos 50 anos.
Não tivesse escrito mais nada, este livro seria suficiente para marcar
o nome de Nunes Pereira entre os mais importantes autores brasileiros do
século XX. Mas, como já deixei claro, este trabalho é o resultado de toda
sua obra, inclusive da obra não escrita, simplesmente vivida – porque
Moronguetá é vida pulsando. Confluências.

63
PEREIRA, apud COSTA, p. 286-287. Em Moronguetá, os nomes dos personagens
citados aparecem grafados de forma diferente: Tandav-u e Anhanga-Piã.

Nunes Pereira – esboço em cinza e sombras ║ 35


Publicado em dois volumes, com mais de 840 páginas, o livro
divide-se em cinco partes, além de rico material iconográfico, cada uma
delas referente a uma Área Cultural: Norte-Amazônica, Roraima; Norte-
Amazônica, Amazonas: Vale do Rio Negro; Norte-Amazônica,
Amazonas: Rio Solimões; Tapajós-Madeira, Amazonas: Rio Madeira;
Tapajós-Madeira, Amazonas: Rios Andirá e Maués. Em cada uma dessas
partes, o autor analisa relevo, clima, flora, fauna, antecedentes históricos
e situação atual dos indígenas, concluindo cada uma delas com uma
antologia de mitos, lendas, estórias e tradições das etnias da área, além de
um glossário e notas. No final, dando um toque enciclopédico ao conjunto,
há um índice de verbetes e um índice remissivo, sendo este classificado
por assunto – Moronguetá é também um livro de referência antropológica.
São as seguintes as etnias estudadas por Nunes Pereira: Taulipangue,
Macuxi, Uapixana, Xiriana, Baré, Tucano, Tariano, Jibóia-Tapuia,
Cobéua, Tucuna, Uitoto, Cauaiua-Parintintim e Maués.
Sobre o significado do título, Nunes Pereira esclarece-o logo na
introdução, o que não impediu que muita bobagem fosse dita e escrita a
respeito. Moronguetá tem o sentido geral de “narrativa de fatos autênticos
e imaginários”, podendo, em função do contexto, significar mito, lenda,
conto, estória etc. Quanto ao subtítulo, ele “aproveitou” a ideia de seu
colega alemão Leopold Frobenius, que em 1910 publicara O Decameron
Negro (Der schwarze Dekameron), relacionando narrativas levantadas
junto a povos africanos com o clássico renascentista Il Decameron, de
Boccaccio. Nunes Pereira, vendo no seu conjunto a mesma relação – o
humor e o sexo como eixos das narrativas, não titubeou: Um Decameron
Indígena.64 Não é demais lembrar a lição de Bergson: “não há comicidade

64
PEREIRA, 1980, p. 6-16.

36 ║ Zemaria Pinto
fora do que é propriamente humano.”65 O riso, como o sexo, é um índice
de humanidade.
No capítulo “Situação atual dos indígenas”, que se repete em cada
uma das cinco partes em que se divide o livro, o tom dominante é sombrio:
Nunes Pereira tem consciência de que o avanço da “sifilização” – como
ele define com ironia o que nós representamos para o índio, é o ocaso
daquela cultura, daquela literatura, daqueles saberes que têm a exata idade
do tempo. Mais tarde, em entrevistas, já em idade avançada, ele não se
continha e dizia o que em Moronguetá está nas entrelinhas: “O drama do
índio é irreversível. O índio vai desaparecer.”66
Um dos textos mais contundentes dos modernos Estudos Literários,
no Brasil, Uma poética do Genocídio, de Antônio Paulo Graça, faz uma
análise dos dez mais importantes romances que têm o índio no centro dos
acontecimentos, e conclui assim:
O tema último do romance indianista é o genocídio, o extermínio total.
Cada herói é, no interior desse quadro teórico, abstrato, imaginário, de fato,
o último herói indígena. (...) Todo romance indianista é, já podemos dizer,
uma metáfora do genocídio. Mesmo quando expõe gritantemente a pureza
e a nobreza, como em Alencar, por exemplo, o que se diz por sob suas
palavras é: um ser puro como este não merece ser extinto – mas será.67

Nunes Pereira, leitor desses livros, e vivendo suas aventuras fora da


ficção, tem a mesma percepção crítica, com um tempero ainda mais
amargo, porque protagonista da tragédia que se encena no dia a dia.

65
BERGSON, p. 7.
66
PORTO, p. 128.
67
GRAÇA, p. 148-149.

Nunes Pereira – esboço em cinza e sombras ║ 37


Indígenas do vale do rio Negro e dos seus afluentes, enquanto se processa
a sua aculturação inevitável, ainda trabalham sob regime escravo ou
espoliativo, nos seringais, balatais, castanhais e piaçabais.

E tem elevado grau de indiferença, face a certos aspectos dramáticos do


trabalho indígena naquela área cultural, a escravização não só da parte de
latifundiários nacionais, mas o sequestro, o aliciamento, por parte dos
nossos vizinhos, dos trabalhadores indígenas, levados para a Colômbia ou
para a Venezuela, donde muitos jamais regressam ao Brasil.68

Passados 50 anos desde a primeira edição de Moronguetá, a situação


foi aplacada, muitos avanços foram conseguidos, mas a ameaça do
desaparecimento é real e concreta. Ficou o livro-riomar como testemunha
de um tempo e como um monumento esculpido em papel, tinta e
pensamento – fundamental, para a compreensão não só do índio, mas da
multiplicidade que consubstancia a nação brasileira.

IX – E no princípio, a poesia
A trajetória de Nunes Pereira segue o padrão de muitos escritores: a
poesia como primeira inquietação – a magia das palavras transformadas
em música, paisagem, fantasia, e, sobretudo, o fascínio em dominá-las,
domá-las, subjugá-las. O jovem Nunes Pereira não é mau poeta: está
aprendendo, tem um ótimo domínio técnico, especialmente nos
alexandrinos, e se sai muito bem nos decassílabos. Seus poemas buscam a
expressão simbolista, mas a ênfase ainda é parnasiana, por vezes mesmo
romântica. E se aqui e ali nos deparamos com um verso menos fluido, mais
duro, especialmente nos poemas de circunstâncias, o que mais incomoda
é o vazio geral, a insubstância – o tédio das dores menores,

68
PEREIRA, 1980, p. 210.

38 ║ Zemaria Pinto
individualizadas. Em 24 poemas resgatados, o Zeitgeist ecoa as vozes de
Maranhão Sobrinho, Jonas da Silva e Hemetério Cabrinha, poetas com
quem Nunes Pereira possivelmente conviveu na longínqua Manaus de
1911/1912.
Um exemplo da poesia de Nunes Pereira é o soneto “Outonal”, do
qual transcrevo o segundo quarteto:
Horas longas, a sós, fico em cismas imerso,
como em frente da Luz um pintor simbolista,
ou dedilho em surdina o arrabil do meu Verso,
evocando o solau que nossa alma contrista...69

Descontando-se o fato de que o arrabil é um instrumento para ser


tocado com um arco, como um violino, e não dedilhado, este fragmento
nos mostra um pouco do poeta Nunes Pereira, cultor daquele tédio
romântico que matou tantos jovens poetas no século XIX. Registre-se a
perfeição dos alexandrinos, com suas cesuras e hemistíquios perfeitos.
Como eu disse antes, tecnicamente, muito bom.
Nos jornais a que tive acesso, há algumas referências sobre um livro
de poemas em preparo, que, infelizmente, não saiu, pois não há qualquer
registro a respeito. Nos anais da Biblioteca Nacional, há uma referência a
uma coleção de 30 poemas, dos quais se fotografou um, datado de 1980.70
Tornara-se o profícuo jovem poeta um velho poeta bissexto? Mas o poeta
provecto, pelo exemplo que temos, não avançou muito em relação ao
garoto. Parece que a convivência pessoal com Carlos Drummond e
Oswald de Andrade, entre outros, não mudou a verve romântico-
parnasiana-simbolista de sua lira.

69
CORREIO DO NORTE, edição de 29 de junho de 1912.
70
BIBLIOTECA NACIONAL, p. 37.

Nunes Pereira – esboço em cinza e sombras ║ 39


Tambaramã!

Conforme prometera, este é um esboço. Lamento se não atendi as


expectativas. Aliás, um esboço é algo inacabado; logo, não tem porque ter
conclusão...
Manoel Nunes Pereira, nascido em 26 de junho de 1893 –
informações relevantes, nome e data, porque espero definitivas, não é
apenas um simulacro de Baíra, o grande burlão. É sobretudo um homem
de ciência, procurando compreender o Problema do Índio – como ele
grafava, contrapondo-se ao oficial [Serviço de] Proteção ao Índio –
penetrando-lhe a mente, interrogando-lhe a alma. E por haver conseguido
seu intento contou estórias repletas de poesia, recolhidas em estado bruto
na natureza. Sua participação ativa em congressos, suas inúmeras
conferências – muitas das quais resultaram em livros – somadas ao
respeito adquirido entre os maiores de seu tempo, não deixam qualquer
dúvida sobre sua importância como cientista. Enfim, a diversidade de seu
trabalho – como antropólogo, etnólogo, etnógrafo, ictiólogo, biólogo,
economista, sociólogo – merece um aprofundamento para muito além
destas parcas páginas.71

Esboço de bibliografia

Pensei inicialmente em organizar esta bibliografia por assunto. Seria


mais didático, e apesar da repugnância que essa palavra causa em certas

71
“Tambaramã”, na língua Macuxi, quer dizer “acabou-se”; é pronunciada sempre ao
fim de uma narrativa. Nunes Pereira usou-a no fim de Panorama...: PEREIRA, 1974, p.
344 e 386-387.

40 ║ Zemaria Pinto
rodas, eu não conheço meio mais adequado para multiplicar
conhecimento. Mas como fazê-lo, se de alguns livros eu não tinha nada
além do título? Um peixe enigmático, por exemplo. Termino este trabalho
sem saber qual é o peixe enigmático... Então, vai por data, mesmo, a
começar pelos sem data, e sempre com referência à primeira edição,
mesmo que ela tenha sido expandida depois. Acredito que será útil, de
qualquer forma. Eximo-me também de citar as edições e as editoras, me
atendo a título e ano, apenas. Afinal, excetuando Baíra, nenhum dos
outros livros passou da segunda edição.
As décadas de 1940 e 1950, quando o escritor está entre os 47 e os
63 anos são as mais produtivas. Entretanto, os dez anos que vão de 1957
a 1966 valem pela construção de Moronguetá. Não nos esqueçamos
também do tour de force que levou às segundas edições expandidas de
Panorama da alimentação indígena e A Casa das Minas, na década de
1970, quando o autor já ultrapassara a barreira dos 80 anos.

Sem data
– A indústria pastoril no Rio Grande do Norte
– A pesca no Rio Grande do Norte
– Couros e peles de animais domésticos
– Negros escravos na Ilha de Marajó
– Um peixe enigmático
1934
– Os Mura e o uso do Paricá e da Coca
1940
– Bahira e suas experiências
– Ensaio de etnologia amazônica

Nunes Pereira – esboço em cinza e sombras ║ 41


1942
– Um naturalista brasileiro na Amazônia
1943
– Negros escravos na Amazônia
1946
– Curt Nimuendaju – Síntese de uma vida e de uma obra
1947
– A casa das Minas
– Introdução à dramaturgia indígena
1949
– O índio, esse desconhecido
1951
– A pesca na Amazônia
– Histórias e vocabulário dos índios Uitoto
– O pirarucu da Amazônia
1954
– A tartaruga verdadeira da Amazônia
– O peixe-boi da Amazônia
– Os índios Maué
1955
– O Sahiré e o Marabaixo
– Panorama da alimentação indígena
1956
– A ilha de Marajó – estudo econômico e social

42 ║ Zemaria Pinto
1966
– Vocabulário da língua tukano
1967
– Moronguetá – um Decameron indígena
Prometidos
– Ensaio de sexologia indígena
– Gonçalves Dias – Naturalista
– Guimarães Rosa - Naturalista
– História do Guaraná
– José Veríssimo – Naturalista
– Memórias inconfessáveis
– Mitos, lendas e superstições vegetais da Amazônia
– O negro na Amazônia
– O negro no Maranhão
– Os Mura
– Os Parintintin
– Paixão, morte e glória do Índio

Nunes Pereira – esboço em cinza e sombras ║ 43


Referências

BERGSON, Henri. O riso: ensaio sobre a significação do


cômico. 2. ed. Tradução: Nathanael C. Caixeiro. Rio de Janeiro: Zahar,
1983.

BIBLIOTECA NACIONAL. Anais. Vol. 121-2001. Coleção


Nunes Pereira. Rio de Janeiro: 2006. Site: objdigital.bn.br. Download em
25/12/2015.

CORREIO DO NORTE. Várias edições, dos anos de 1911 e


1912. Site: www.memoria.bn.br, da Biblioteca Nacional. Download em
26/01/2016.

COSTA, Selda Vale da. Por rios amazônicos: conversas


epistolares com Nunes Pereira. In: BASTOS, Élide Rugai et al. Vozes da
Amazônia: investigação sobre o pensamento social brasileiro. Manaus:
EDUA, 2007. p. 271-313.

GRAÇA, Antônio Paulo. Uma poética do genocídio. Rio de


Janeiro: Topbooks, 1998.

KRÜGER, Marcos Frederico. O mito de origem em Dois


irmãos. In: CRISTO, Maria da Luz Pinheiro de (Org.). Arquitetura da
memória. Manaus: EDUA, Uninorte, 2007. p. 180-191.

LEVI, Lucio. Etnia. In: BOBBIO, Norberto et al. Dicionário


de política. 5. ed. Tradução: João Ferreira et al. São Paulo: UNB e
Imprensa Oficial, 2004. p. 449-450.

44 ║ Zemaria Pinto
PASQUIM. N° 359 e 360. Rio de Janeiro: Codecri, 1976.

PEREIRA, Nunes. A Casa das Minas: cultos dos voduns jeje


no Maranhão. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 1979.

______. Bahira e suas experiências (etnologia amazônica). 2.


ed. Manaus: Instituto de Etnografia e Sociologia do Amazonas, 1944.

______. Curt Nimuendaju (síntese de uma vida e de uma obra).


Belém: 1946.

______. Ensaio de etnologia amazônica. 2. ed. Manaus:


Imprensa Pública, 1942a.

______. Experiências e estórias de Baíra – o grande burlão. 4.


ed. Manaus: AAL, Governo do Amazonas e Valer, 2007.

______. Moronguetá: um Decameron indígena. 2. ed. Volumes


I e II. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Brasília: INL, 1980.

______. O Sahiré e o Marabaixo: tradições da Amazônia. 2.


ed. Recife: Fundação Joaquim Nabuco e Editora Massangana, 1989.

______. O Sahiré e o Marabaixo: tradições da Amazônia. Rio


de Janeiro: 1955.

______. Os índios Maués. 2. ed. Manaus: Valer e Governo do


Amazonas, 2003.

______. Panorama da alimentação indígena: comidas,


bebidas & tóxicos na Amazônia brasileira. Rio de Janeiro: Livraria São
José, 1974.

Nunes Pereira – esboço em cinza e sombras ║ 45


______. Um naturalista brasileiro na Amazônia. Manaus:
Imprensa Pública, 1942b.

PINTO, Zemaria. O conto no Amazonas. Manaus: Valer,


2011.

______. Paulo Eleuthério. In: Revista da AAL. Nº 29. Manaus:


Valer e AAL, 2010. p. 37-49.

PORTO, Arlindo. Nunes Pereira – o Cavaleiro de todas as


madrugadas do universo. Manaus: 1993.

46 ║ Zemaria Pinto
Sobre o autor

Zemaria Pinto (José Maria Pinto de Figueiredo) nasceu em


Santarém-PA, a 6 de maio de 1957, vindo com tenra idade para Manaus,
onde seus pais – José Torres de Figueiredo, coariense, e Maria Sílvia Pinto
de Figueiredo, santarena – já haviam fixado residência desde o ano
anterior. Concluiu o antigo ginasial no Colégio Ruy Araújo, e o científico
no Dom Pedro II, o velho Colégio Estadual.
Bacharel em Economia pela UFAM, especializou-se em Análise de
Sistemas de Informação. Atuou na área de Informática por 37 anos, tendo
cumprido vários estágios na carreira. Atualmente, é Gerente Financeiro da
PRODAM. Em 1989, concluiu, pela UFAM, a especialização em
Literatura Brasileira, com uma análise da obra de Alcides Werk: A
miragem elaborada. Em abril de 2012, obteve o grau de Mestre em
Estudos Literários, também pela UFAM, com a dissertação A invenção do
Expressionismo em Augusto dos Anjos.
Começou a publicar em 1981, na página que o Clube da Madrugada
mantinha no jornal A Crítica. Nessa época, travou conhecimento com
Antísthenes Pinto, Alcides Werk, Arthur Engrácio e Jorge Tufic, entre
outros, que o incentivaram bastante. Sua estreia em livro deu-se na
antologia Marupiara, de 1987, organizada por Anibal Beça e André Gatti,
que o relacionaram entre os poetas da geração pós-madrugada.
Tem participação em mais de uma dezena de antologias, com
destaques para a série Saciedade dos Poetas Vivos, da editora Blocos, do
Rio de Janeiro, volumes IV, VI e IX; Haïku sans Frontière: Une
Anthologie Mondiale, coletânea de haicaístas do mundo inteiro, publicada
no Canadá, por Les Editions David; e A Poesia Amazonense no Século XX,
organizada por Assis Brasil, para a editora Imago, do Rio de Janeiro.

Nunes Pereira – esboço em cinza e sombras ║ 47


Livros publicados: Nunes Pereira, esboço em cinza e sombras
(2016, ensaio); Lira da Madrugada (2014, ensaios); Ensaios ligeiros
(2014, artigos); Viagens na casa do meu avô (2014, infantil); A invenção
do Expressionismo em Augusto dos Anjos (2012, ensaio); O urubu albino
(2011, infantil); O beija-flor e o gavião (2011, juvenil); A cidade perdida
dos meninos-peixes (2011, juvenil); O conto no Amazonas (2011,
ensaios); Redação: fundamentos e práxis (2011, didático); O texto nu
(2009, teoria literária); Dabacuri (2004, haicais); Nós, Medéia (2003,
teatro); Música para surdos (2001, poesia); Análise literária das obras do
vestibular (2000 e 2001, em parceria com o professor Marcos Frederico
Krüger); Fragmentos de silêncio (1996, poesia); Corpoenigma (1994,
haicais).
Organizou o livro A Uiara & outros poemas, de Octavio Sarmento,
publicado em 2007, pela Academia Amazonense de Letras.
Tem uma dezena de livros inéditos, entre ensaios, contos e infanto-
juvenis, aguardando publicação.
Além de Nós, Medéia, premiada, em 2002, como o melhor texto
adulto em concurso da SEC, e encenada em 2011/2012/2013, tem mais as
seguintes peças de teatro: Papai cumpriu sua missão, encenada em
2000/2001; Diante da Justiça, encenada em 2003/2004; O beija-flor e o
gavião, encenada em 2006/2007; Otelo solo, encenada em 2013/2014;
Onde comem 3 comem 6 (Prêmio Myriam Muniz 2013), encenada em
2014; Cenas da vida banal e A cidade perdida dos meninos-peixes,
inéditas.
É membro da Academia Amazonense de Letras, desde 2004, e do
Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, a partir de hoje.

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