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Apelando à letra da lei, analisando os artigos do CCP e no que respeita à não

adjudicação, em concreto, conseguimos aferir que a decisão é obrigatoriamente


anterior à decisão da adjudicação. Fazendo uma mera leitura à disposição legal
conseguimos ler “não há lugar à adjudicação quanto (…)”. Podemos aqui aplicar
as regras gerais previstas no CPA? MÁRIO ESTEVES DE OLIVEIRA/RODRIGO
ESTEVES DE OLIVEIRA vêm afirmando que “a revogação da decisão de
adjudicação, sendo esta constitutiva de direitos, só seria legalmente admissível
com fundamento numa causa de não adjudicação que correspondesse ao
reconhecimento da invalidade da adjudicação” (291) aplicando aqui as regras
gerais do art.º 140.º do CPA. Seria o que acontecia se estivéssemos perante a
demonstração de que, afinal a única proposta não excluída do concurso e sobre
o que incidiu a adjudicação também na esteira dos referidos autores não deveria
ter sido aceite. Caso diverso é, já por exemplo no caso da alínea e) do art.º
79.º/1 (por não se tratar de um caso de ilegalidade). Noutros casos, referentes
às alíneas c) e d) que suscitam mais dúvidas [casos da alteração superveniente
dos pressupostos da decisão de contratar] e em parte da alínea f), aqui e
embora como indica MÁRIO ESTEVES DE OLIVEIRA e RODRIGO ESTEVES DE
OLIVEIRA “embora nos pareça que, mesmo que o CPA não a admitisse
legalmente, a revogação da adjudicação por uma decisão posterior de não
adjudicação, sustentar-se-ia no próprio art.º 79.º, n.º1, nas circunstâncias
excepcionais que legitimam tal medida”. Neste ponto, a mesma doutrina acima
referenciada refere que a menos que “a inalterabilidade pós-adjudicação das
peças do procedimento (ou dos pressupostos da decisão de contratar)
conduzisse à nulidade da decisão de adjudicação por impossibilidade jurídica
material do seu objeto”

Nesta medida, parecem aceitar que, se tome uma decisão de não adjudicação
dessas, em especial no caso, de a mesma se fundar em factos supervenientes
(ou de conhecimento superveniente) à decisão de adjudicação, com que a
entidade adjudicante não contou ou não podia contar e que objetivamente,
sem margem para dúvida, contendem uma alteração relevante de aspetos
basilares das peças do procedimento ou espelhem uma alteração crassa dos
requisitos da decisão de contratar, causando com que o contrato a celebrar se
tornasse inútil ou avesso, nas suas linhas essenciais, aos interesses atuais da
entidade adjudicante (293) . Em sentido inverso, deve levar-se segundo os
mesmos, até às últimas instâncias a tutela dos interesses do adjudicatário.

Aliás, o R. acabou por lançar um novo procedimento para a aquisição do mesmo


bem (concurso n.º 4/2018), o que demonstra que nada se alterou, de forma
superveniente, quanto aos pressupostos da decisão de contratar, pelo que os
fundamentos subjacentes à decisão de não adjudicação, porque não
relacionados com tais pressupostos, não são enquadráveis na alínea d) do n.º 1
do art.º 79.º do CCP.
Importa ter presente que são pressupostos da decisão de contratar “o de que há
uma necessidade (materializada na aquisição de uma certa obra, serviço ou
bem), de que ela deve ser satisfeita de determinado modo (através de
determinado tipo de contrato), de que com isso não se prejudicam quaisquer
interesses públicos ponderosos, de que a entidade adjudicante não dispõe dos
meios adequados ou necessários à sua satisfação (por isso optou por recorrer ao
mercado) e de que dispõe das quantias necessárias para pagar ao co-
contratante (se se tratar de um contrato que implique despesa)”, o que significa
que, só quando “sobrevenham circunstâncias supervenientes (…) que façam
desvanecer os concretos pressupostos em que assentou tal decisão, a entidade
adjudicante deve optar pela não adjudicação” (cfr. Mário Esteves de Oliveira e
Rodrigo Esteves de Oliveira, Concursos e Outros Procedimentos de Contratação
Pública, Almedina, 2011, p. 1048). Como se viu, nenhuma circunstância ocorreu
que tenha feito desaparecer os pressupostos subjacentes à decisão de contratar,
acima definidos, pois que, por exemplo, a aquisição do bem continuou a ser útil
e necessária para o R., não foi invocada qualquer alteração ao nível das verbas
disponíveis para financiamento dessa aquisição, nem sobreveio qualquer
decisão no sentido de impossibilitar a entidade adjudicante do recurso à espécie
de contrato aqui em causa.
De outra banda, também não ocorreram quaisquer circunstâncias imprevistas
que tenham tornado necessária a alteração de aspetos fundamentais das peças
do procedimento.
Trata-se, aqui, de circunstâncias supervenientes ou já existentes à data da
elaboração das peças do procedimento, mas que não tenham sido previstas,
sem culpa grave, pela entidade adjudicante, aferindo-se o facto da imprevisão
“em função de todos os estudos, relatórios, memórias ou projetos que serviram
de base à elaboração (ou retificação) das peças do procedimento e daquilo que
nelas próprias se contém”. Acresce que, para que tais circunstâncias imprevistas
possam justificar a não adjudicação, “hão-de reportar-se a aspetos das peças do
procedimento (não das propostas) e a aspetos fundamentais seus, que agora
têm de ser necessariamente alterados” (cfr. Mário Esteves de Oliveira e Rodrigo
Esteves de Oliveira, op. cit,,p. 1047).