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Francisco Galeno 1º ano

Redação __ janeiro de 2020

Coesão e coerência

Quando lê-se um texto em que só há frases soltas ele não está coeso nem coerente. A coesão é
mais fácil de ser detectada, porque é ela que faz a conexão entre as palavras, que se unem na superfície
do texto. A coerência ocorre subterraneamente. Vai estabelecendo-se a cada palavra, a cada frase
enunciada. Ao escrever um texto as palavras, as frases e os parágrafos precisam formar uma rede de
sentidos coerente. À medida que o texto progride, vão-se formando elos coesivos e novos sentidos irão
se somando em vista de um fim.

Recursos de coesão
1. Pronomes do caso reto e oblíquo
Quando Maicon Douglas era pequeno, achava a vida muito chata, o que era bom. Os dias se
espichavam e ele ficava olhando para as paredes, até que uma tarde, entre um bocejo e outro, uma
melodiazinha lhe bateu nos ouvidos, vinda de uma janela vizinha.
 O nome de Maicon Douglas foi retomado duas vezes. A primeira com o pronome do caso reto ele e a
segunda pelo pronome do caso oblíquo lhe.
2. A elipse
Alexandre Gomes é um dos maiores esportistas do país. (Ele) Ganhou seu primeiro título
mundial em 2008, aos 26 anos.
• A coesão se deu por elipse. O sujeito oculto de ganhou é ele, que retoma Alexandre Gomes.
3. Uma parte do nome ou só o sobrenome
Aos dezesseis anos, o paulistano Thiago Braga, assim como milhões de jovens brasileiros,
praticava futebol, [...]. No fim da tarde do dia 8 de dezembro de 1994, depois de um jogo, já na casa da
avó, Thiago sentiu dificuldades de respirar.
 O nome Thiago Braga é retomado na frase seguinte apenas pelo primeiro nome.
4. As perífrases.
O analista financeiro Fábio Toshi ganhou na noite da quinta-feira o reality show
“Hipertensão”, cheio de provas perigosas e animais peçonhentos. Mas, antes mesmo de vencer a
competição, o paulista fortão de 29 anos, descendentes de japonese [...].
 A perífrase é o uso de várias palavras em lugar de outra. O paulista fortão de 29 anos é a perífrase
que retoma a o nome de Fábio Toshi.
5. Um termo genérico
Os adestradores geralmente usam o método da compensação. Funciona assim: se o bicho
responde ao comando, recebe uma recompensa. [...] Evite o adestramento militar, aquele em que o
cachorro é geralmente instruído para ser um animal de guarda.
 Primeiro aparece a palavra de sentido genérico: bicho. Depois que vem a de sentido restrito:
cachorro.

6. Associações

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Na Grécia não se atravessava um rio sem antes executar um ritual de louvor e purificação,
talvez por temor e respeito a Caronte, o barqueiro que se encarregava da travessia das almas após a
morte. Depois de chegar ao Inferno, o passageiro era julgado por seus atos. Caso fosse condenado teria
de enfrentar um dos quatros rios das regiões infernais: Aqueronte, cujo flagelo era a dor; Cocito, as
lamentações; Flegetonte, cujas águas provocavam queimaduras; e, por fim, o mais conhecido deles,
Lete, o rio do esquecimento. [...]. Se na cultura grega as imagens dos rios do Inferno são tão fortes, são
tão ou mais vigorosas as imagens dos rios do Paraíso [...].
 A junção de Grécia e rio logo no começo do parágrafo leva a uma rede de associações constituída
pelas palavras: Caronte, Aqueronte, Cocito, Flegetonte, Lete. Essas, por sua vez, criam novas
associações, como: Caronte/ travessia das lamas, Inferno; Aqueronte/dor; Cocito/ lamentações;
Flegetonte/queimaduras; Lete/esquecimento.
7. Um termo que engloba todos os anteriores.
Visitar museus e exposições, ir ao teatro e participar de oficinas de arte são atividades
comuns em uma escola e visam incentivar os alunos.
 A palavra atividades resume tudo o que foi dito antes.
8. Sinônimos ou quase sinônimos
[...] Em 2000, ladrões roubaram do altar-mor a imagem de Nossa Senhora do Bonsucesso,
orgulho da paróquia e padroeira do município. Os gatunos chegaram à cidade disfarçados de turistas e
fizeram questão de ver a santa.
 As palavras ladrões, na primeira frase, é retomada por gatunos.
9. Uma paráfrase
É muito comum em textos científicos, quando o autor retoma o que disse, dando uma
explicação mais detalhada.
O poeta (isto é, o personagem que fala em primeira pessoa) narra uma experiência pessoal, que
adquire sentido genérico à medida que ele passa emoção [...]
 O autor, com o uso de isto é, explica a palavra poeta. A palavra está entre parênteses, contudo é mais
comum vir entre virgulas.
10. Numerais
O delegado e deputado federal eleito na esteira dos votos do palhaço Tiririca foi condenado
pelos crimes [...]. O primeiro ocorreu quando ele, em busca de holofotes, revelou detalhes de
Satiagraha a jornalista da Rede Globo. O segundo, quando usou o vídeo feito pelos telejornalistas.
 Na primeira frase, fala-se de dois crimes. Os numerais ordinais primeiro e segundo os retomam nas
frases seguintes.
11.Advébios pronominais (aí, ali, aqui, lá)
O capitão Ramires chegou ao local e lá criou, naquele arroubo lírico, o nome da cidade.
• O advérbio lá retoma local.
12. Nominações
A doutora Miriam Tendler, de 61 anos, pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz),
descobriu a vacina contra uma doença que afeta 74 países: a esquistossomose, conhecida popularmente
como barriga-d’água. [...] A história da primeira vacina 100% brasileira – da descoberta à produção.
• O verbo descobrir é mais adiante retomado pelo substantivo correspondente: descoberta.
13. Pronomes demonstrativos
O Cariri, vasto arco de serras verdes e vales férteis, é uma espécie de oásis encravado no meio
do árido chão nordestino. [...], outros povos mais antigos seguiram o curso dos rios e chegaram àquele
lugar.
 Cariri, que aparece no início, é retomado no final pelo pronome demonstrativo aquele seguido da
palavra lugar

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14. Pronomes possessivos.
O comitê executivo da FIFA é um clubinho poderoso. Para ter a candidatura aceita, um país precisa da
aprovação de seus 24 integrantes.
 O possessivo seus retoma o comitê executivo da FIFA.
15. Pronomes relativos – que, cujo, o qual, e as suas variantes
Há cerca de dezesseis anos, desembarcava no Rio de Janeiro, vindo da Europa, o sr. Camilo
Seabra, goiano de nascimento, que ali fora estudar Medicina e voltava agora com o diploma na
algibeira e umas saudades no coração.
 O pronome relativo que retoma o nome do sr. Camilo Seabra.
16. Coesão com o pronome demonstrativo este
 Se usado sem critério, apenas com o fim de ligar uma frase a outra, esse recurso empobrece a
expressão, como no exemplo a seguir:
Errado: Muitos dos que vencem as eleições acabam por favorecer seus familiares. Estes passam a
ocupar cargos.
Correto: Muitos dos que vencem as eleições acabam por favorecer seus familiares. Esses passam a
ocupar cargos.
Aplicação prática
Redação comentada

A formação educacional de surdos representa um desafio para uma sociedade alienada e


segregacionista como a brasileira. O desconhecimento da língua brasileira de sinais — LIBRAS — e a
visão inferiorizante que se tem dos surdos podem acabar por excluí-los de processos educacionais e
culturais e mantê-los marginalizados em relação ao mundo atual. Portanto, esses desafios devem ser
superados de imediato para que uma sociedade integrada seja alcançada.
COMENTÁRIO:
O primeiro parágrafo do texto é uma introdução que resume toda a sua linha argumentativa e,
assim, resume tudo o que está por vir. Afirma, logo no início, que a formação educacional dos surdos no
Brasil é um desafio para uma sociedade alienada e segregacionista como a brasileira. A alienação da
sociedade inclui, para a estudante, o desconhecimento da língua brasileira de sinais (Libras) e a
segregação se dá, entre outros meios, por meio da exclusão das pessoas surdas dos processos
educacionais e culturais, deixando-os à margem da sociedade.
Em primeiro lugar, a pouca abrangência da língua de sinais entre os mais diversos setores da
sociedade faz dela um ambiente inóspito para os deficientes auditivos. Pesquisas corroboradas por
universidades brasileiras e estrangeiras, como a Unicamp e a Universidade de Harvard, atentam para
a importância da linguagem como principal porta para a convivência social, permitindo uma
multiplicidade de interações interpessoais, como as de educação, cultura, trabalho e lazer. Assim,
quando a sociedade se fecha à comunicação por sinais, justificada pela ignorância, aqueles que
dependem dessa linguagem têm dificuldades de obter educação de qualidade e ficam, muitas vezes, à
margem das demais interações sociais.
COMENTÁRIO
O segundo parágrafo apresenta argumentação principal do texto: os deficientes auditivos são
segregados e marginalizados, pois a língua brasileira de sinais não é ofertada, ensinada, aprendida e
usada em diversos setores da sociedade. Ao utilizar esta estratégia argumentativa, a candidata
fundamentou seu argumento, ou seja, explicou porque a Libras é fundamental para a inclusão dos surdos
na sociedade brasileira.

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Além disso, a maioria das escolas brasileiras não incluem os surdos, assim como os demais
portadores de necessidades especiais, em seus programas, estimulando a diferença e o preconceito. Por
mais que a legislação brasileira garanta o ensino inclusivo, a maioria das escolas brasileiras não
possuem estrutura para atender aos deficientes auditivos, principalmente por conta da falta de
profissionais qualificados. A pouca inclusão dos jovens deficientes e não-deficientes valoriza a
diferença entre eles, gerando discriminação e uma sociedade dividida. O renomado geógrafo Milton
Santos dizia que uma sociedade alienada é aquela que enxerga o que separa, mas não o que une seus
membros, algo que se evidencia na exclusão de surdos em todos os níveis de ensino.
COMENTÁRIO
No terceiro parágrafo, o texto foca na questão do ensino, afirmando que a maioria das escolas
do Brasil não incluem, de fato, os deficientes auditivos e os demais portadores de necessidades
especiais, uma referência a todas as pessoas deficientes que tentam obter inclusão escolar, mas não
conseguem; esta menção, todavia, não tangencia o tema, apenas refere-se aos demais casos, mostrando
que a participante é ciente desta situação que não abrange apenas os surdos brasileiros.
A consequência disto, de acordo com o texto, é a diferença e o preconceito, causados pela falta
de profissionais qualificados em inclusão nas escolas brasileiras. Neste terceiro parágrafo, a participante
encaixa adequadamente uma paráfrase de Milton Santos que afirma que uma sociedade alienada é
aquela que enxerga o que separa, não o que une, fenômeno que pode ser atestado nas escolas brasileiras.

Dessarte, visando a uma sociedade mais justa, é mister superar os desafios da educação de
deficientes auditivos. Para que o surdo se integre aos diversos meios sociais, como o educacional, o
MEC deve fazer uma reforma curricular, que contemple o ensino de LIBRAS como obrigatório em
todas as escolas, através de consultas populares na internet para determinação da carga horária.
Ademais, com o intuito de tornar as escolas inclusivas, o MEC e o Ministério do Trabalho devem
prover as escolas de profissionais capacitados, que possam lidar com alunos surdos através de
programas de capacitação profissional oferecidos pelo SESI e SENAC. Dessa forma, o ensino tornará a
sociedade brasileira mais unida.
COMENTÁRIO:
O último parágrafo, a conclusão, reafirma que é fundamental superar os desafios apontados ao
longo do texto. A proposta de intervenção social sugerida é uma reforma curricular, promovida pelo
Ministério da Educação (MEC), que contemple a Libras, tornando-a uma disciplina obrigatória, com a
participação de toda a sociedade para decidir sobre a sua carga horária (algo muito detalhado). Além
disso, propõe que escolas técnicas formem profissionais qualificados e capacitados para lidar com
alunos surdos em todas as escolas, o que tornaria a sociedade mais unida. Assim, na conclusão, a
participante retoma os pontos chave de sua dissertação-argumentativa (a pouca oferta de Libras e a falta
de profissionais especializados) e sugere propostas de intervenção sociais para ambos, fechando seu
texto. Além disso, ao longo de todo o texto obedeceu a norma culta da Língua Portuguesa e usou um
vocabulário diversificado e formal, típico de trabalhos formais e acadêmicos, inclusive.
Observação final:
Seria perfeito se ela tivesse transcrito as siglas mencionada.

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