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ESCOLA SUPERIOR DE GUERRA

Nesta casa estuda-se o destino do Brasil

Seção de Assuntos de Logística e Mobilização

Cadernos de
Estudos Estratégicos
de Logística e Mobilização Nacionais

SEGURO DE VIDA DA NAÇÃO!

2007/Nº 01
ESCOLA SUPERIOR DE GUERRA
Nesta casa estuda-se o destino do Brasil

Seção de Assuntos de Logística e Mobilização

Cadernos de
Estudos Estratégicos
de Logística e Mobilização Nacionais

MOBILIZAÇÃO NACIONAL
SEGURO DE VIDA DA NAÇÃO!

2007/Nº 01


Cadernos de Estudos Estratégicos de Logística e Mobilização Nacionais
O “Cadernos de Estudos Estratégicos de Logísta e Mobilização Nacionais” é uma
publicação da Seção de Logística e Mobiliação da Escola Superior de Guerra. Com tiragem
de 500 exemplares, tem circulação de caráter nacional e internacional. Edição irregular.

TODOS OS DIREITOS RESERVADOS - É proibida a reprodução total ou parcial, de


qualquer forma ou por qualquer meio, salvo com autorização, por escrito, da Seção de
Asasuntos de Logística e Mobilização - SALMob

Impresso no Brasil/Printed in Brazil

Cadenos de Estudos Estratégicos de Logística e Mobilização Nacionais.


Seção de Assuntos de Logística e Mobilização da Escola Superior de
Guerra (Brasil) - v.1, n. 1 (mar 2007) - Rio de Janeiro: - ESG, 2007.

Anual
120 p.

ISSN 1981-2450 - Cadernos de Estudos Estratégicos de Logística e


Mobilização Nacionais.

1. Logística - Periódicos. 2. Mobilização Nacional - Periódicos.


I. ESCOLA SUPERIOR DE GUERRA. II. Título.
CDD355.41

Comandante e Diretor de Estudos Edição


Gen Ex José Benedito de Barros Moreira Escola Superior de Guerra

Diretor do Curso de Logística e Editores Responsáveis


Mobilização Nacional Cel Int Aer R1 Antonio Celente Videira
Brig Eng Clodoaldo da Silva Bandeira Ten-Cel QMB Jorge José Góes da Silva

Coordenador da Seção de Assuntos de Projeto Gráfico


Logística e Mobilização Profª Maria Leonor Teixeira
CMG Marco Antônio Soares Garrido Ten-Cel QMB Jorge José Góes da Silva

Assessoria de Editoração e Divulgação Padronização Bibliográfica


Coronel R1 Paulo Roberto Costa e Silva Cleide Santos Souza – Chefe da Biblioteca

Esta publicação está disponível na INTERNET, no link “Publicações” do site da


Escola Superior de Guerra: www.esg.br


Sumário

Apresentação 05

A Constituição e a Mobilização Nacional 07
Dirceu Resende Pinheiro

A Comunicação Social e a Mobilização Nacional 24


Luiz Olavo Martins Rodrigues

A Otimização da Manutenção de Aeronaves Militares


e a Mobilização Nacional 39
William José Pwa

Logística e Mobilização Nacional na Amazônia Ocidental -


Reflexo para os Pelotões Especiais de Fronteiras 51
Jorge José Góes da Silva

As Comunicações e a Mobilização Nacional - Ênfase nas


Comunicações Estratégicas 76
Nivaldo Pinto Nogueira Filho

Os Recursos Petrolíferos Brasileiros e a Mobilização Nacional 89


Roberto Guimarães Borges

Os Minerais Críticos Estratégicos e a Mobilização Econômica


Nacional - O Caso Específico do Nióbio 108
Fábio Souza Lopes de Matos

Cadernos de Estudos Estratégicos de Logística e Mobilização Nacionais Rio de Janeiro n.1 p.1-120 anual 2007



APRESENTAÇÃO

Oportunizar esta publicação para circulação de âmbito nacional


é a grande realização da Seção de Assuntos Logísticos e Mobilização da
Escola Superior de guerra.
“Cadernos de Estudos Estratégicos de Logística e Mobilização
Nacional”, como o denominamos, é o periódico que preencherá a
lacuna existente hoje na comunidade daqueles que propugnam pela
ordenação e efetivação da gestão dos meios potenciais da Nação diante
de uma possível agressão armada.
O anseio pela aprovação do Projeto de Lei 2.272 de 2003, que se
extrapola do meio militar em direção à sociedade civil, requer um meio
circulante que perpasse as discussões e reflexões dos estudiosos desse
grande método de dissuasão, denominado Mobilização.
Estes Cadernos vão engrossar o parco referencial teórico
disponível hoje, para assentar o estudo da Mobilização Nacional, tanto
nas Escolas de Altos Estudos Militares das três Forças Singulares, como
nos Centros de Estudos Estratégicos de algumas universidades.
A sua produção acadêmica é fruto do esforço intelectual dos
Trabalhos Individuais (TI) selecionados, a partir das pesquisas dos seus
autores, todos estagiários do Curso de Logística e Mobilização Nacional,
ministrado na Escola Superior de Guerra, em 2006.
Temos certeza que, a partir desta data, o pensamento da Logística
e da Mobilização Nacionais não ficará mais confinado nas estantes das
bibliotecas militares. A difusão desses relevantes conceitos a outros
centros do saber, para o revigoramento da conscientização do sentimento
de Defesa Nacional é atributo primordial desta publicação.

Boa leitura.



A Constituição e a
Mobilização Nacional

PINHEIRO, Dirceu Resende – funcionário da Receita Federal, cursou a ESG


em 2006 no Curso de Logística e Mobilização Nacional. A Constituição e a
Mobilização Nacional. Rio de Janeiro (RJ). Escola Superior de Guerra. 2006.
Curso de Logística e Mobilização Nacional.
E-mail: drp@nitnet.com.br

Resumo Informativo

Objetiva-se neste artigo a identificação e a análise dos


dispositivos constitucionais que, direta ou indiretamente, guardam
correlação com a questão da Mobilização Nacional, bem como a
avaliação da necessidade de propostas visando ao aprimoramento de
algumas dessas normas (via Emendas Constitucionais), ou de edição
de normas infra-constitucionais aptas a viabilizar a consecução de
objetivos já expressos no texto da Carta Magna.Com esse enfoque,
parte-se de observação sobre a evolução da mentalidade de mobilização
nacional, a partir da redação das Constituições Brasileiras, desde
a do Império (1824) até a atualmente em vigor (1988), que se
dedica, por razões óbvias, maior atenção. São abordados desde os
dispositivos que tratam diretamente da Mobilização Nacional, até
aqueles que, sem conter referência expressa ao assunto, versam
sobre matéria com influência relevante sobre a possibilidade de
sucesso na hipótese de decretação da medida. É o caso, por exemplo,
das normas sobre a obrigatoriedade de prestação do serviço militar.
Com base em diagnóstico sobre a situação atual da Mobilização
Nacional, são propostas políticas e estratégias para superação dos
óbices detectados, concluindo-se pela desnecessidade de proposta
de introdução de alterações no texto constitucional, evidenciando-
se porém a importância de efetivo empenho em dar cumprimento
aos dispositivos em vigor, com destaque, para a questão da educação
e da promulgação da Lei de Mobilização Nacional.

CONSIDERAÇÕES INICIAIS

O que se procurará neste trabalho é a identificação e a análise


dos dispositivos constitucionais que, direta ou indiretamente, guardam
correlação com a questão da Mobilização Nacional, bem como a
avaliação da necessidade de propostas visando ao aprimoramento de
algumas dessas normas ou de edição de normas infra-constitucionais
aptas a viabilizar a consecução de objetivos já expressos no texto da
Carta Magna.
Os termos e expressões aplicados neste texto estão empregados
— e assim devem ser interpretados — no sentido expresso na literatura
da Escola Superior de Guerra e conforme a sua doutrina.

a) Elementos Históricos — Evolução do Estado Brasileiro

Até fins do século XVII, compreendia o território brasileiro tão-


somente uma faixa litorânea, limitada pelo Meridiano de Tordesilhas, fixado em
tratado de mesmo nome celebrado entre Portugal e Espanha, em 1494.
Posteriormente, as entradas e as bandeiras levaram a efeito a tarefa
de alargamento do território.
Pelos tratados de Madrid (1750) e de Santo Ildefonso (1777), foi
definitivamente abandonado o meridiano de Tordesilhas e reconhecida
a expansão territorial do Brasil.
No decorrer do século XIX, foram demarcadas as fronteiras
definitivas do país, mercê de intensas atividades diplomáticas.
A formação do elemento populacional inicia-se com a colonização
lusitana. Contribuíram para a formação do tipo étnico brasileiro as raças
européia, africana e ameríndia. Da fusão dessas raças, resultaram os três
troncos do tipo étnico brasileiro: o mameluco (cruzamento do branco
com o índio), o mulato (cruzamento do branco com o negro) e o cafuzo
(cruzamento do índio com o negro). A permanência desses três tipos
diferentes confirma a inexistência de uma raça brasileira homogênea.
Sob o ponto de vista psicossocial, não há como negar mérito à
obra colonizadora dos portugueses que, transmitindo à população que se
formava os usos e os costumes da mãe-pátria, a sua organização política,
a língua comum, a tradição religiosa etc., garantiram a formação de uma
população nacional e, ao Estado Brasileiro, a conformação de estado nacional.

Com a proclamação da independência, reuniu o Brasil o terceiro
elemento integrativo da sua condição de estado — governo próprio:
Monarquia constitucional organizada segundo Carta outorgada
pelo Imperador D. Pedro I, após violenta dissolução da Assembléia
Constituinte.
Durou a monarquia sessenta e sete anos, alicerçada no regime
escravagista cuja extinção abriu as portas ao surgimento da república.
Proclamada a República, expediu o Governo Provisório, a 15 de
novembro de 1889, o Decreto n. 1, constituindo os Estados Unidos do
Brasil.
A 24 de fevereiro de 1891 foi promulgada a Carta Magna da
República, realizando-se, pela via indireta, a primeira eleição para
presidente e vice-presidente.
Mesmo reformada em 1926, não mais reunia a primeira
constituição republicana condições de adaptação à nova realidade social
quando, eclodindo a revolução de 1930, avocou o governo provisório
então instalado o poder de “exercer discricionariamente, em toda a sua
plenitude, as funções e atribuições não só do executivo como também
do poder legislativo, até que, eleita a Assembléia Constituinte, estabeleça
ela a reorganização constitucional do País”.
Em decorrência de forte reação que veio a desaguar na Revolução
Constitucionalista de 1932, foi promulgada, a 16 de julho de 1934, a
terceira constituição do Brasil.
Encerrando precocemente o período de vigência da Constituição
de 1934, outorgou o Presidente da República, a 10 de novembro de
1937, nova Carta, instalando regime autoritário a que se convencionou
chamar Estado Novo.
Resistiu a Constituição do Estado Novo por oito anos, enquanto
também resistiu o regime ditatorial com ela implantado, deposto a 29
de outubro de 1945.
Com o fim do Estado Novo, deu-se a convocação da quarta
Assembléia Nacional Constituinte, encarregada de elaborar a quinta
constituição do Brasil, promulgada a 18 de setembro de 1946.
Profundamente alterada durante as crises que se sucederam,
incorporou a Constituição de 1946 o regime parlamentarista entre 1961
e 1963 e, em conseqüência da revolução de 1964, viu seus dispositivos
modificados por atos institucionais e atos complementares, até que, a 15

de março de 1967, foi definitivamente substituída com a entrada em
vigor de nova Constituição, promulgada a 24 de janeiro do mesmo
ano. Omitindo qualquer referência à forma de governo ou à forma de
estado, foi a Carta designada, simplesmente, Constituição do Brasil.
Promulgada a 17 de outubro de 1969 — vigorando o Ato
Institucional n. 5 —, pela Junta Militar que assumira o poder em virtude
da enfermidade do Presidente da República, a Emenda Constitucional
n. 1 ofereceu à Nação, na verdade, nova Constituição que, voltando a
acentuar o caráter republicano e federal do Estado brasileiro, alterou
o nome oficial para República Federativa do Brasil. Vigorou até que,
novamente o clamor popular levasse à convocação da quinta Assembléia
Nacional Constituinte, que promulgou, a 5 de outubro de 1988, a
chamada Constituição Cidadã que, mal dava os primeiros passos já se via
vítima do histórico furor reformista nacional, sofrendo, antes de atingir
a maioridade, mais de cinqüenta intervenções.

b) Poder Constituinte e o Pensamento de Mobilização Nacional

Como se vê das oito constituições que regularam o Estado


Brasileiro ao longo de sua história de país independente, faltou
àqueles que exerceram o Poder Constituinte visão mais consistente
da importância da criação de condições capazes de propiciar eficácia às
medidas de preparo e execução da Mobilização Nacional.
Embora a nenhuma delas tenha faltado menção mais ou menos
explícita, é verdade que todas se omitiram em estabelecer regras
específicas sobre a Mobilização Nacional.
A mentalidade de mobilização é conceituada como uma
atitude consciente e participativa, estimulada por uma permanente
probabilidade de ocorrência de conflitos que possam envolver o País
direta ou indiretamente. Assim, a ausência de uma ameaça real de
conflito, aliada à vocação pacífica do povo brasileiro — consagrada na
vigente Constituição Federal — contribuem para inibir a formação
dessa mentalidade.
Inexiste hoje no País estrutura formal de mobilização com o
envolvimento efetivo de todas as Expressões do Poder Nacional, a
não ser a Militar, por falta, como se vê, tanto de mentalidade como de
legislação apropriada.
10
Felizmente, não faltou ao Poder Executivo Federal o descortino
necessário para elaborar, com competência, importante projeto de
Lei de Mobilização Nacional, encaminhado ao Congresso Nacional,
em 2003.
Enquanto, porém, se aguarda a conclusão, nas Casas Legislativas,
de todo percurso previsto constitucionalmente para o Processo
Legislativo, permanece inexistindo Lei de Mobilização Nacional que
estruture um Sistema Nacional de Mobilização (SINAMOB) e confira
respaldo jurídico em nível mais elevado aos sistemas setoriais de
mobilização. Vigora apenas o Sistema Setorial de Mobilização Militar,
nas três Forças.

c) Função Garantidora da Constituição

Tanto em seu Preâmbulo, que traduz os princípios básicos em


que se inspirou o constituinte, quanto em seu artigo 3o., traz a vigente
Constituição Federal a afirmação do compromisso com a liberdade, a
igualdade e a segurança, na busca do desenvolvimento nacional.
Visando a alcançar os Objetivos Fundamentais tratados nos incisos
I e II do art. “3o. — construir uma sociedade livre, justa e solidária e
garantir o desenvolvimento nacional” —, são relevantes as propostas de
política de criação do Sistema Nacional de Mobilização, além de Ações
Estratégicas necessárias à sua realização.

CONSTITUIÇÕES BRASILEIRAS

a) Constituição do Império

Nasceu de um ato de força a primeira Constituição do Brasil.


Havendo instalado a 3 de maio de 1823, a Assembléia Constituinte,
em atitude coerente com a sua personalidade pouco afeita às regras
democráticas, houve por bem o Imperador, a 12 de novembro do mesmo
ano, após os incidentes que ficaram conhecidos como Noite da Agonia,
dissolver o Colegiado, nomeando comissão de dez membros para elaborar
a Constituição do Império que fez promulgar a 25 de março de 1824.
Já exibia o texto constitucional de 1824 a preocupação com a
defesa nacional. Embora não empregando ainda o termo, trazia em seu
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bojo o embrião da Mobilização Nacional, estatuindo em seu artigo 145,
inserido no CAPÍTULO VIII – Da Força Militar, que
Todos os Brazileiros são obrigados a pegar em armas, para
sustentar a Independência, e integridade do Império, e
defendel-o dos seus inimigos externos, ou internos.

b) Constituições Republicanas até 1934

Tombando o Império a 15 de novembro de 1889 e assumindo


o poder os republicanos, foi promulgada, a 24 de fevereiro de 1891 a
Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil.
Embora não trazendo disposição semelhante à da Carta anterior,
não olvidou completamente a questão da segurança nacional, fazendo
constar, em seu artigo 86, a obrigatoriedade a que se submetia todo
“brazileiro” de prestar o “serviço militar, em defesa da Pátria e da
Constituição, na fórma das leis federaes”.
Vigorou por mais de quarenta anos até que forças populares e
políticas levaram o governo instalado com a Revolução de 1930 a
convocar Assembléia Nacional Constituinte que elaborou o texto
constitucional promulgado a 16 de julho de 1934.
Inaugurou a nova Constituição o emprego da expressão
mobilização em textos constitucionais do Brasil, referindo-se à
“mobilização das forças armadas” em seu artigo 56, 8o., bem como,
em título (VI) dedicado à Segurança Nacional, instituindo o Conselho
Superior de Segurança Nacional, ao qual foram atribuídos o estudo e a
coordenação das questões relativas à matéria e ao atendimento, em
conjunto com os “órgãos especiaes creados”, “ás necessidades da
mobilização”.
Não negligenciaram também os constituintes de 1934 a relevância
para a eficácia da Mobilização Nacional da manutenção da obrigatoriedade
da prestação do serviço militar, assim dispondo, em seu artigo 163:
Todos os brasileiros são obrigados, na fórma que a
lei estabelecer, ao serviço militar e a outros encargos
necessários á defesa da Pátria, e, em caso de mobilização, serão
aproveitados conforme as suas aptidões, quer nas forças
armadas, quer nas organizações do interior. [...]
(destaque da transcrição)
12
Extrai-se do texto a primeira manifestação consistente de uma
consciência de mobilização, evidenciando-se efetiva preocupação com
o tema e noção da importância do serviço militar obrigatório como
instrumento de mobilização.

c) Constituição do Estado Novo

Vida efêmera teve, porém, a Constituição de 1934. Com o golpe


de estado que implantou o Estado Novo, o Presidente da República dos Estados
Unidos do Brasil, atendendo às circunstâncias enumeradas no preâmbulo
da Carta, decretou a chamada Constituição do Estado Novo.
Nesta, não desmereceu cuidado a questão da Mobilização, embora
só se encontre em seu texto referência expressa à Mobilização das Forças
Armadas (artigo 73, f). Manteve (artigo 164, caput) a obrigatoriedade da
prestação do serviço militar, impondo, no parágrafo único do mesmo
artigo, sanções a quem se esquivasse da obrigação.
Embora autoritária, não contemplou a Constituição de 1937
a Mobilização Nacional com normas adequadas a viabilizar a sua
execução. No entanto, foi sob a sua égide que se verificou, até agora, a
única mobilização de que se tem notícia na história do Brasil, ocorrida
em 1942, quando do envolvimento do País na Segunda Guerra Mundial.
Naquela ocasião, houve intensa atividade legislativa do Poder Executivo,
baixando inúmeros Decretos e Decretos-Lei visando a suprir a ausência
de amparo legal às necessárias medidas de Mobilização Nacional.

d) Constituições de 1946, 1967 e Emenda Constitucional n. 1, de 1969

A Constituição promulgada a 18 de setembro de 1946 foi fortemente


influenciada pelos ares pós-Segunda Guerra Mundial. Não foram esses
ares, no entanto, suficientes a que se imbuíssem os constituintes de então
de uma verdadeira mentalidade de Mobilização Nacional. Nem mesmo
a sentida carência de amparo legal às medidas de mobilização e a visível
dificuldade de execução sem prévio preparo os comoveu. Foi, por isso
mesmo, tímida como as demais, a Constituição de 1946, no regramento
de aspectos relevantes para a Mobilização Nacional.
Com a vitória do movimento militar de 31 de março de 1964,
foram produzidas inúmeras reformas à Carta de 1946, por meio de atos
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institucionais e atos complementares, culminando com a sua substituição
por outra, outorgada por intermédio do Congresso Nacional, a 24 de
janeiro e com vigência marcada para 15 de março de 1967.
Dispunha a nova Carta, em seu artigo 8o. sobre a competência da
União para (IV) planejar e garantir a segurança nacional e (VII) legislar
sobre (V) organização, efetivos, instrução, justiça e garantias das polícias
militares e condições gerais de sua convocação, inclusive mobilização.
Em seu artigo 83, atribuía competência privativa ao Presidente da
República para “decretar a Mobilização Nacional total ou parcialmente”
(inciso XIII), evidenciando o início de consolidação de uma ainda tênue
Consciência de Mobilização.
Exibia, também, trazendo pela primeira vez para integrar o texto
constitucional, a atenção para com o “preparo” da Mobilização Nacional.
O artigo 91, integrante da Seção V – DA SEGURANÇA NACIONAL,
dispunha sobre a competência do Conselho de Segurança Nacional,
então criado:
Art. 91. Compete ao Conselho de Segurança Nacional: I - o
estudo dos problemas relativos à Segurança Nacional, com
a cooperação dos órgãos de informação e dos incumbidos de
preparar a Mobilização Nacional e as operações militares.
Manteve, ainda, a obrigatoriedade de prestação do Serviço Militar.
A 17 de outubro de 1969, a Constituição de 1967 foi profundamente
reformulada pela Emenda Constitucional n. 1, promulgada pelos
Ministros da Marinha de Guerra, do Exército e da Aeronáutica Militar,
no uso das atribuições que lhes conferiam os Atos Institucionais n. 16,
de 1969, e n. 5, de 1968.
No tocante aos dispositivos que dizem respeitam à mobilização,
exceto a renumeração de artigos, houve apenas uma alteração significativa
— e, ao mesmo tempo, surpreendente: a supressão da importante referência
ao “preparo” da Mobilização Nacional. Verificou-se aí um retrocesso em
relação à formação de consciência de Mobilização Nacional.

e) Constituição Democrática de 1988

Novamente o clamor popular provoca a convocação de


uma Assembléia Nacional Constituinte. Coroando o processo de
redemocratização do País, instalou-se, em 1988, o Congresso eleito no
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ano anterior com poderes constituintes. Concluído longo período de
elaboração, foi a nova Lei Fundamental promulgada a 5 de outubro do
mesmo ano.
Não é o atual texto muito pródigo para com as matérias de interesse
da Mobilização Nacional, limitando-se à atribuição de competência à
União para legislar sobre a matéria (artigo 22, XXVIII) e à manutenção
do Serviço Militar obrigatório (artigo 143).
Verifica-se, assim, que a história constitucional brasileira revela
limitada consciência da importância da Mobilização Nacional. Entre
marchas e contra-marchas, aparece como a que mais se aproximou de
uma consciência da importância do País, mesmo em tempo de paz,
manter-se preparado para a Mobilização, foi a Constituição de 1967.

MOBILIZAÇÃO NACIONAL

a) Situação Atual da Mobilização Nacional

Conceituada em conformidade com a doutrina da Escola Superior


de Guerra no sub-item 1.2, a Mobilização Nacional é assim entendida:
Conjunto de atividades planejadas orientadas e
empreendidas pelo Estado, desde a situação de normalidade,
complementando a Logística Nacional, com o propósito
de capacitar o País a realizar ações estratégicas no campo
da Defesa Nacional, para fazer face a uma agressão
estrangeira.

Constituindo-se de um complexo de atividades bem diversificadas,


a Mobilização Nacional se processa em todas as Expressões do Poder
Nacional, sendo de responsabilidade de toda a Nação.
Na Expressão Científica e Tecnológica, cuida-se da aplicação dos
conhecimentos científicos e tecnológicos na produção de bens e serviços
destinados ao esforço nacional para atender a uma possível situação de
emergência, enquanto, na Expressão Política, o que se visa é o aumento
da eficiência e da eficácia dos seus meios e no seu processo de interação,
com o propósito de assegurar à Nação os recursos de natureza política
de que ela precisa, colocando-os em condições de satisfazer às exigências
impostas por situações de emergência de grau excepcional.
15
Sem pretender condenar à desimportância as demais, constituem
destaques de qualquer programa de Mobilização Nacional, as Expressões
Psicossocial, Econômica e Militar do Poder Nacional. A primeira, pela
importância de se obter o engajamento da Sociedade, criando condições
favoráveis à Mobilização, a segunda, como fonte da maioria dos recursos
e dos meios, e a Militar, como maior utilizadora dos recursos do Poder
Nacional, sejam eles humanos, materiais ou financeiros.
A Mobilização Nacional é, porém, tema que não goza ainda
do devido prestígio junto à Sociedade brasileira. Várias são as razões
que se poderia apontar para justificar essa aparente apatia diante de tão
importante matéria. Sem dúvida, motivam mais à população discussões
em torno de problemas sociais crônicos como fome, pobreza,
desigualdade social, violência urbana, crime organizado e outros mais
que tanta inquietação geram no seio da Sociedade.
Soma-se a isso a tão alardeada índole pacifista do povo brasileiro,
bem como a ausência de espírito cívico de que, lamentavelmente,
parece acometida boa parte da população, o baixo nível de escolaridade
do povo e o sentimento de viver-se em um ambiente de paz na América
Latina.
Assim, no tocante à Expressão Psicossocial do Poder Nacional, há
que se promover a motivação das pessoas e da sociedade para a criação
de condições favoráveis ao apoio das atividades de Mobilização.
A Expressão Econômica, que aglutina os setores produtivos da
economia nacional, de fundamental importância para a viabilização de
qualquer tipo de Mobilização, padece, também, afetada pela fragilidade
econômico-financeira da Indústria Nacional de Material de Defesa,
pela carência de uma política industrial mais eficaz e pelo baixo índice
de nacionalização de itens de material de defesa.
Na Expressão Militar, fazem-se sentir os efeitos das deficiências
existentes nas demais expressões, dificultando o planejamento do
desenvolvimento de atividades destinadas ao preparo das Forças
Armadas para o enfrentamento, com êxito, de situação emergencial.

b) Normas Constitucionais relacionadas à Mobilização Nacional

A atual Constituição da República Federativa do Brasil traz, em


alguns dispositivos, regras relacionadas com a Mobilização Nacional.
16
No entanto, a lei cuja iniciativa compete ao Presidente da República nos
termos do disposto no artigo 22, inciso XXVIII da Carta Magna, tem seu
projeto repousando no Congresso Nacional, deixando, enquanto isso,
pendente a disponibilidade de instrumentos verdadeiramente eficazes
de Mobilização Nacional, a saber:

1 - Importância do Serviço Militar Obrigatório como Instrumento de


Mobilização Nacional

Todas as constituições brasileiras trouxeram normas que


definiam as obrigações dos brasileiros referentemente à defesa da
Pátria. A Constituição do Império dispunha que “todos os Brazileiros
são obrigados a pegar em armas, para sustentar a Independência, e
integridade do Império, e defendê-lo dos seus inimigos externos, ou
internos”. A republicana de 1891 estabeleceu que todo brasileiro era
obrigado ao Serviço Militar, em defesa da Pátria e da Constituição, na
forma das leis federais. Isso não era ainda o Serviço Militar obrigatório
regular, mas nos momentos em que a defesa da Pátria ou da Constituição
exigisse a convocação de todos.
A atual, promulgada a 05 de outubro de 1988, dispõe
expressamente em seu artigo 143: “O Serviço Militar é obrigatório
nos termos da lei”.
A opção pelo Serviço Militar Obrigatório visa a permitir, em
espaço de tempo relativamente curto, a disponibilização de reservas
aptas a atender às necessidades decorrentes de situações emergenciais.
Trata-se de escolha que parece a mais coerente em termos econômicos,
já que se mantém um contingente apto e quantitativamente razoável
para o atendimento de necessidades emergenciais de Mobilização sem
que se provoque aumento do efetivo das Forças Armadas, com os
conseqüentes ônus econômicos.
Propicia-se, assim, que o País disponha de um sistema de defesa
adequadamente dimensionado, mantendo-se a presença em todo o
território nacional e permitindo as Forças Armadas dispor de reservas
compatíveis para atender às necessidades da Mobilização Militar e
Nacional.
A obrigatoriedade do Serviço Militar representa importante
fator de aprimoramento e integração das Expressões Militar e
17
Psicossocial do Poder Nacional, constituindo-se em elemento
despertador do civismo e incentivador da participação na vida
nacional.
A hipótese algumas vezes levantada da adoção — a exemplo
de outras nações, como os Estados Unidos da América e a Inglaterra
— do Serviço Militar facultativo encontraria inconvenientes de toda
a ordem, desde a índole pacifista da população, que tenderia a afastar
os jovens da prestação do Serviço Militar não obrigatório, até as
diferenças regionais, que dificultariam o atendimento das demandas
anuais de incorporação em áreas críticas, como as de fronteira e do
interior do território.

2 - Legislação Infra-Constitucional — Edição da Lei Tratada no art.


22, XXVIII da Constituição Federal como Requisito de Eficácia das
Prescrições Constitucionais

“Ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma


coisa senão em virtude da lei”. É a garantia insculpida no artigo 5o.,
inciso II, da Constituição Federal de 1988.
Constituindo-se como Estado Democrático de Direito, o
Brasil acolheu, inserindo-o no TÌTULO II — DOS DIREITOS E
GARANTIAS FUNDAMENTAIS —, o princípio da legalidade.
Dependerá, portanto, a eficácia de qualquer medida de
Mobilização Nacional, quer na situação de normalidade, quer na de
conflito, da existência de lei que autorize o Estado a, (em benefício
da Defesa Nacional), intervir nos setores de produção públicos ou
privados, bem como requisitar e ocupar bens e serviços, convocar civis
e militares, reorientar a produção, a comercialização, distribuição e
consumo de bens e serviços, e a adotar as demais medidas indispensáveis
à concretização da Mobilização Nacional.
Ressente-se o País, da inexistência de uma Lei de Mobilização
Nacional apta a equipar o Estado com meios eficazes de preparo
e execução da Mobilização Nacional, assim como, habilitando-o
a promover, sem traumas, a Desmobilização. Essa lei, na forma do
disposto no artigo 22, inciso XXVIII, da vigente Constituição Federal, é
de iniciativa exclusiva da União e foi objeto de Projeto encaminhado ao
Congresso Nacional em 2003.
18
O PROJETO DE LEI DE MOBILIZAÇÃO NACIONAL EM
TRAMITAÇÃO NO CONGRESSO NACIONAL

a) Considerações sobre a necessidade de uma Lei de Mobilização Nacional

Mobilização Nacional não é assunto apenas para tempo de


guerra. Ao contrário: É em tempo de paz, durante “a situação de
normalidade, de modo contínuo, metódico e permanente”, que
convém se dedique o País à “realização de ações estratégicas que
viabilizem a sua execução”.
É a fase de “preparo”, que antecede à de “execução”, cujo sucesso
em muito depende de adequado preparo.
No entanto, condiciona-se a exeqüibilidade e a eficácia desses
procedimentos à aplicação de medidas somente possíveis se autorizadas
por lei.
Por isso, mostra-se urgente a aprovação de uma Lei de Mobilização
Nacional que autorizará a adoção das medidas necessárias e ditará a
forma de execução dessas atividades.

b) O projeto em tramitação no Congresso Nacional

Mobilização Nacional, conforme definida no Projeto de Lei


enviado pelo Poder Executivo ao Congresso Nacional, é “o conjunto
de atividades planejadas e orientadas pelo Estado, complementando
a Logística Nacional, destinadas a capacitar o País a realizar ações
estratégicas, no campo da Defesa Nacional, diante de agressão
estrangeira”.
Cuida o Projeto das fases de preparo e execução da Mobilização
Nacional, estatuindo que, a primeira, “consiste na realização de ações
estratégicas que viabilizem a sua execução, sendo desenvolvido desde a
situação de normalidade, de modo contínuo, metódico e permanente”,
isento, portanto, de casuísmos. Já a execução, caracteriza-se “pela
celeridade e compulsoriedade das ações a serem implementadas, com
vistas a propiciar ao País condições para enfrentar o fato que a motivou”,
devendo ser “decretada por ato do Poder Executivo, autorizado pelo
Congresso Nacional ou referendado por ele, quando no intervalo das
sessões legislativas”.
19
Há quem sustente que a menção constitucional à decretação
da Mobilização Nacional “no caso de agressão estrangeira” (artigo 84,
inciso XIX), afasta a fase do Preparo que se processa em situação de
normalidade. Com todo o respeito que possa merecer a interpretação,
não parece ser a melhor, posto que claramente se refere o dispositivo
à fase de “execução” que, se por um lado só pode ser deflagrada pelo
Presidente da República, por outro está limitada à hipótese de ocorrência
de agressão estrangeira. Parece de meridiana clareza que não estão as
medidas de “preparo” submetidas às mesmas restrições, eis que a elas
não se referiu o texto. Ademais, há que se considerar que as medidas
envolvidas na fase de preparo não têm o caráter drástico daquelas que
necessitam serem adotadas na execução e, certamente por isso, não se
preocupou o constituinte em impor-lhe as ressalvas.
Não se pode desconsiderar, ainda que lançar mão da Mobilização
Nacional somente diante da deflagração de conflito armado,
prescindindo do “preparo”, pois significaria desistir de incentivar e
fortalecer o Poder Nacional.
Findo o período de Mobilização, há de se passar à fase seguinte,
a Desmobilização Nacional, cuidando-se que a vida nacional retorne à
normalidade com o mínimo de trauma e sem prejuízos à Segurança da
Nacional. Desse aspecto, cuida também o Projeto de Lei de Mobilização
Nacional, conceituando-o como “o conjunto de atividades planejadas,
orientadas e empreendidas pelo Estado, com vistas ao retorno gradativo
do País à situação de normalidade, quando cessados ou reduzidos os
motivos determinantes da execução da Mobilização Nacional.”
Impõe-se, portanto, o empenho na conclusão do processo
legislativo a que se submete o Projeto de Lei de Mobilização Nacional,
com a sua aprovação, de modo a dotar o País de condições efetivas de
garantia da Segurança Nacional.

POLÍTICAS E ESTRATÉGIAS (PROPOSTAS)

a) Políticas Propostas (P)

Em face dos óbices identificados na letra “a” da Seção intitulada


MOBILIZAÇÃO NACIONAL, sugere-se a adoção das Políticas a
seguir:
20
P-1. Criação de uma mentalidade de Mobilização Nacional,
pela conscientização da Sociedade quanto à importância do tema, bem
como pela motivação para a criação de condições favoráveis ao apoio
das atividades de mobilização;
P-2. Investimento na elevação do nível de escolaridade da
população;
P-3. Fortalecimento da Indústria Nacional de material bélico; e
P-4. Criação de condições facilitadoras do planejamento das
atividades de “preparo” das Forças Armadas para o enfrentamento de
situações emergenciais.

b) Estratégias Propostas (E)

Em face das Políticas propostas, sugere-se a implementação das


seguintes ações estratégicas:
E-1. Realização de painéis em instituições educacionais e
entidades classistas;
E-2. Estímulo a campanhas que objetivem resgatar o culto aos
Símbolos Nacionais e o sentimento patriótico;
E.3. Promoção de campanhas de divulgação sobre Mobilização
Nacional;
E-4. Divulgação do Curso de Logística e Mobilização Nacional
da Escola Superior de Guerra nos Ministérios Civis;
E-5. Cumprir o que preceitua a Constituição Federal, em
seus artigos 205, 206, 208 e 212 aqui não transcritos por questões de
espaço;
E-6. Viabilizar a concessão de financiamentos especiais para
investimentos produtivos na área de defesa;
E-7. Planejar a aquisição de material de defesa na Indústria
Nacional;
E-8 Incentivar a associação com empresas estrangeiras de material
bélico, de modo a absorver tecnologias consideradas críticas e de difícil
aquisição;
E-9. Padronizar o material de defesa e de interesse militar,
empregado nos serviços públicos, militar e civil; e
E-10 Realizar gestões junto ao Poder Legislativo, visando a
sensibilizar os congressistas quanto à necessidade de aprovação da Lei de
21
Mobilização Nacional, cujo projeto, conforme previsão constitucional
do artigo 22, XXVIII, foi remetido pelo Poder Executivo, já em 2003.

CONCLUSÃO

A Mobilização Nacional é assunto de natureza abrangente,


comportando ações provenientes de todas as Expressões do Poder
Nacional. Necessita, portanto, de instrumentos normativos reguladores
dos limites de sua atuação e das responsabilidades de seus agentes. Sua
eficácia está fortemente vinculada à imprescindível edição da Lei de
Mobilização Nacional.
Parece acertada a opção do Constituinte de 1988 — acompanhando
a orientação da maioria das Cartas anteriores — por deixar à legislação
ordinária a tarefa de dispor sobre as normas referentes à Mobilização
Nacional, permitindo, assim, maior flexibilidade para adaptação às
condições decorrentes da natural evolução, tanto dos princípios quanto
dos recursos.
Certo é que, implementadas as políticas e estratégias aqui sugeridas
— com especial destaque para a promulgação da Lei de Mobilização
Nacional —, dando cumprimento a vontade constitucional, facilitar-
se-á, em muito, as ações a serem desencadeadas em caso de possível
Mobilização Nacional, projeto maior da análise empreendida no
presente artigo.

Os homens se dignificam prostrando-se


perante a lei, porque assim se livram de
ajoelharem-se perante os tiranos.”
(Constituintes Argentinos de 1853)

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BONAVIDES, Paulo. Curso de Direito Constitucional. 19. ed. São


Paulo: Catavento, 2006.

BORGES HERMIDA, Antônio José. Compêndio de História do


Brasil. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1963.
22
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de Janeiro: A Escola, 2003.

CAMPANHOLE, Adriano (Org.). Constituições do Brasil. 9. ed.


São Paulo: Atlas, 1987.

DALLARI, Dalmo de Abreu. Elementos da teoria geral do estado.


23. ed. São Paulo: Saraiva, 2002.

FERREIRA FILHO, Manoel Gonçalves. Comentários à Constituição


Brasileira. 4. ed. São Paulo: Saraiva, 1983.

______. Curso de Direito Constitucional. 32. ed. São Paulo:


Saraiva,2006
MALUF, Sahid. Teoria Geral do Estado. 6. ed. São Paulo: Sugestões
Literárias, 1970.

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MORAES, Alexandre Peña de (Org.). Constituição da República


Federativa do Brasil. 4. ed.. Rio de Janeiro: Editora Lúmen Juris,
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POMBO, Rocha. História do Brasil. São Paulo: W. M. Jackson, Inc.


Editores, 1953.

SILVA, José Afonso da. Curso de Direito Constitucional Positivo.


7. ed.. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1991.

23
24
A Comunicação Social e a
Mobilização Nacional

RODRIGUES, Luiz Olavo Martins – Tenente-Coronel de Comunicações do Exército


Brasileiro, cursou a ESG em 2006 no Curso de Logística e Mobilização Nacional. A
Comunicação Social e a Mobilização Nacional; Rio de Janeiro (RJ). Escola Superior de
Guerra. 2006. Curso de Logística e Mobilização Nacional.
E-mail: rdlpborges@ig.com.br

Resumo Informativo

Este artigo tem por finalidade verificar o papel da


Comunicação Social na Mobilização Nacional. A conjuntura atual
tem exigido a preocupação de nações, como o Brasil, no preparo
e planejamento de um sistema de mobilização eficaz para que
possa dar uma pronta-resposta a uma ação indesejada em nosso
território. Desta forma, a Comunicação Social surge como o veículo
que irá atuar como um vetor de conscientização da sociedade,
evidenciando a importância do Sistema Nacional de Mobilização
(SINAMOB) em oposição às possíveis investidas estrangeiras. Para
tanto, se faz necessário conhecer os fundamentos da Comunicação
Social, desde o seu conceito, passando pelos seus elementos e os
princípios existentes. Conhecido esse mecanismo da Comunicação
Social, pode-se verificar como a mesma está presente no contexto
da Escola Superior de Guerra (ESG), inclusive, sobre a visão dos
próprios estagiários. Na íntegra, o referido trabalho estrutura os
meios de comunicação de massa e o impacto nas expressões do
poder nacional, além de enfocar a educação como o principal
óbice à utilização da Comunicação Social, estabelecendo, na
seqüência as políticas possíveis e apresentando as estratégicas a
serem implementadas para melhor entendimento do leitor. Enfim,
constata-se que uma mentalidade de mobilização requer o emprego
de uma Comunicação Social eficiente para atuar em ambas as fases
da mobilização com absoluta eficácia.

25
INTRODUÇÃO

A Mobilização Nacional envolve todas as expressões do Poder


Nacional em um processo amplo e global, desenvolvendo um conjunto
de atividades orientadas pelo Estado, desde a situação de normalidade
em complemento à logística nacional, com a intenção de capacitar o
poder nacional a realizar ações estratégicas, no campo da Segurança
Nacional, para fazer face a uma situação de emergência, decorrente
da iminência de efetivação de uma hipótese de guerra, criando assim,
condições de pronta reposta contra os possíveis tipos de agressão que
ponham em risco a nossa soberania e a integridade territorial.
O Brasil é um país de dimensões continentais e se destaca no
cenário mundial e, particularmente, sul-americano, pelo potencial de
suas riquezas presentes em todos os rincões nacionais. Possui uma
extensa fronteira com os demais países do continente, sendo que extensa
faixa lindeira não apresenta qualquer tipo de obstáculo, facilitando a
penetração no território brasileiro. O litoral é exuberante, voltado para
o continente africano e de fácil acesso ao teatro europeu. Portanto, deve-
se possuir mecanismos para que a população brasileira tenha noção das
ameaças que o território nacional possa sofrer.
Neste contexto, a Comunicação Social é o veículo de suma
importância pela influência que desempenha em todas as expressões
do poder nacional, pois serve para conscientizar a população do papel
que a mobilização nacional exerce nas atividades de desenvolvimento
de uma nação.
No momento, a comunicação social deve atuar como vetor de
conscientização da sociedade, evidenciando a importância do Sistema
Nacional de Mobilização (SINAMOB) em oposição às possíveis
investidas estrangeiras, devendo numa fase posterior à aprovação do
SINAMOB atuar em todos os segmentos envolvidos neste sistema,
permitindo um planejamento consistente e um assessoramento
adequado ao Presidente da República.

FUNDAMENTOS DA COMUNICAÇÃO SOCIAL

A Comunicação Social existe desde o momento em que o homem


passou a viver em grupo e sua valorização implica em estimular um
26
crescente nível de participação e aumentar, em cada cidadão, o sentimento
de responsabilidade em relação à Instituição a que pertence.
Sua descrição conceptiva tem início na oportunidade em que
Aristóteles formulou seu clássico esquema, representado pela pessoa que
fala (QUEM), pelo discurso que pronuncia (QUE) e pela pessoa que ouve
(QUEM). Verifica-se que os elementos fundamentais do processo podem
ser denominados de emissor (comunicador, fonte), mensagem e receptor.
Por emissor entende-se aquele que fala, escreve, desenha, faz
gestos ou movimentos. Todas essas formas expressam sinais codificados,
os quais consubstanciam a mensagem. Por sua vez, receptor é aquele que
recebe os sinais, interpreta-os e transforma-os em emissor mediante
uma resposta aos estímulos contidos na mensagem, realimentando o
circuito comunicacional.
Ao longo do estudo do processo da Comunicação Social, acresceu-
se aos elementos aristotélicos dois novos componentes: o Canal – que
caracteriza o meio para a transmissão da mensagem – e o Efeito – que
determina a resposta obtida junto ao receptor. Em suma, pode-se afirmar
que todo e qualquer processo comunicativo vai implicar na presença de
cinco elementos.
A Comunicação Social, em seu planejamento e execução, reger-
se-á por princípios de ética conforme destacados a seguir:
a) Verdade – A verdade é a essência da atividade da Comunicação
Social, dado que ela assegura coerência, credibilidade e confiança;
b) Austeridade – O exercício da atividade envolve muito mais o
uso da inteligência e da sensibilidade do que propriamente a aplicação
de recursos financeiros;
c) Impessoalidade – É indispensável retirar das atividades da
Comunicação Social qualquer conotação de promoção pessoal ou de
grupo. Devem ser exaltados os aspectos coletivos da Instituição, o valor do
homem em seu trabalho anônimo e, sobretudo, sua vocação para servir;
d) Dignidade – Não é aconselhável a solicitação ou aceitação de
favores ou doações que possam, de alguma forma, levantar suspeitas ou
dar margem a falsas interpretações;
e) Exemplo – Em qualquer instituição, o exemplo é importante
princípio de Comunicação Social. Exemplo de dedicação à missão, de
simplicidade e austeridade, de capacidade de renúncia e de serviço, de
relacionamento e de respeito pela opinião alheia;
27
f) Imparcialidade – Considera-se necessária a existência, em todos
os escalões da Instituição, da salutar mentalidade de Comunicação
Social, voltada para o tratamento imparcial da opinião coletiva, pública
e da opinião publicada pelos órgãos de comunicação social; e
g) Legitimidade – Em qualquer situação ou atividade, o respeito
às Instituições Nacionais, à ordem jurídica vigente e aos fundamentos
morais da nacionalidade devem ser considerados pela Comunicação
Social.
Acrescenta-se aos princípios supramencionados alguns conceitos
básicos para que a Comunicação Social possa manter a sociedade
devidamente informada:
a) O Direito do Público em Saber – a comunicação de um país
democrático contempla o acesso do público às informações sobre
quaisquer atividades, particularmente, sobre o emprego da expressão
militar, bem como de qualquer órgão do governo. A democracia
também garante o direito da imprensa livre publicar informação sem
coerção ou censura;
b) Máxima Divulgação com o Mínimo de Retardo –q fornecer
informações oportunas e precisas para que o governo, a mídia e o povo
em geral possam compreender aspectos da defesa nacional deve ser o
objetivo principal.
Não se devem restringir informações com o objetivo de evitar
críticas, principalmente, se elas não são boas. É importante reduzir ao
mínimo o tempo para eventuais especulações da mídia. A Comunicação
Social ao manipular as notícias ou restringir o acesso à informações
não sigilosas, porém comprometedoras, só logrará publicidade negativa
para a Instituição; e
c) Informação Sempre de Fonte Confiável – a informação de uma
fonte confiável, competente e respeitada tem maior credibilidade que
aquela que provém de uma fonte pouco confiável. Normalmente,
apenas pessoas credenciadas estão autorizadas a divulgar informações
ao público e aos meios de comunicação em nome da instituição, em
razão da capacidade que possuem de relacionamento com o público e
com os meios de comunicação social.
Existe um número de princípios importantes que fundamentam
os conceitos básicos detalhados anteriormente, regendo a comunicação
social em ambiente de mobilização nacional, conforme se verifica:
28
a) Comunicação Social é um Processo Contínuo – a Comunicação
Social tem a obrigação constante de relatar a instituição. Fazê-lo
diariamente é investir paulatinamente na construção de uma imagem de
credibilidade e na confiança da instituição perante a sociedade. Quando
a Comunicação Social divulga informações sobre a expressão militar
– especialmente notícias favoráveis – desperta na população a existência
do profissionalismo militar e lhe dá o retorno do correto investimento
na atividade de segurança nacional;
b) Comunicação Social tem um Efeito Multiplicador – abrange todas
as expressões do Poder Nacional, mantendo contato com os públicos
externo e interno. Tal relação permite conquistar a opinião pública,
além de reforçar os valores da instituição internamente; e
c) Comunicação Social é um Sistema Único – uma das razões básicas da
utilização da comunicação social é evitar a disseminação de informações
desorganizadas e conflitantes aos seus diferentes públicos, pois estas
demonstram falta de organização, causam confusão e diminuem a
confiança pública.

COMUNICAÇÃO SOCIAL E A MOBILIZAÇÃO NACIONAL

A Escola Superior de Guerra exerce um papel primordial em


âmbito nacional como célula mater nos estudos dos destinos do Brasil,
conforme preconizava o Marechal Castelo Branco, pois, segundo ele,
melhor conhecendo nosso País, poderemos melhor servi-lo.
Com essa assertiva, esse insigne militar cunhava para a Escola um
veículo de comunicação social por meio de um slogan que a acompanha
desde a sua criação, definindo a sua missão como vetor de assessoramento
superior para o planejamento da Defesa Nacional, abrangendo os
aspectos fundamentais da Segurança e do Desenvolvimento em um
país soberano.
O processo de globalização que vivemos está alterando o conceito
de soberania, fazendo com que o Estado nacional tenha seu poder
diminuído. Novos atores como as Organizações Não-Governamentais
e empresas transnacionais conseguem pressionar governos de acordo
com seus interesses. A constituição de blocos econômicos acarreta a
diminuição da capacidade do Estado de garantir sua plena autonomia.
Neste quadro, interesses de ordem política, diplomática, econômica
29
e militar condicionam, ou até determinam, objetivos fundamentais
durante as situações críticas, quando o Estado deve procurar manter o
máximo de liberdade de ação.
Com o salto do desenvolvimento tecnológico das últimas
décadas, a evolução dos meios de comunicação e de informática de alta
tecnologia digital, aumentando a velocidade dos eventos e encurtando
distâncias, novos fatores ganharam peso quando da tomada de decisão.
Um desses fatores é a opinião pública que condicionará a liberdade
de ação do governo, à medida que pode mobilizar suas decisões frente
aos interesses acima citados.
Dessa forma, a mídia se encontra em uma posição de grande
evidência e importância. O fluxo das informações que ela veicula, com
o emprego da propaganda, através de processos de comunicação de
massa, faz com que desempenhe um importante papel na modelagem
da opinião pública.
Neste mundo de comunicações globais, indivíduos em qualquer
parte do mundo recebem informações quase que em tempo real. Essas
informações, transmitidas para um público muito maior que no passado,
afetam a opinião pública nacional e mundial, conforme as ações dos
tomadores de decisão.
Na democracia, o poder político subordina o poder militar. As
Forças Armadas são um instrumento de ação política do governo de seu
país e a decisão de ir à guerra deve ser, exclusivamente, civil, ou seja,
em função da opinião pública. Essa decisão só ocorrerá após a conquista
do apoio popular, que será o respaldo para tomadas de decisões e
estratégias, estabelecendo-se objetivos, quando então o Poder Militar
poderá desencadear as suas operações.
Além da perda de vidas, os custos do combate moderno são muito
altos. Enquanto as forças armadas desencadeiam operações, todo o país
participa do esforço de guerra, ou seja, da Mobilização Nacional. Se a
conquista do apoio popular é necessária para a decisão de ir à guerra,
a sua manutenção é fundamental para a condução do conflito. Se a
população achar que as forças armadas não têm condições de atingir o
fim desejado, retirará o apoio e não participará do esforço militar. Além
disso, o púbico hoje possui consciência do seu poder e quer ser sempre
informado sobre o desenrolar de todos os acontecimentos em qualquer
área.
30
Nesse contexto, cresce de importância a ação da Comunicação
Social na guerra moderna. A execução de suas atividades e seu
relacionamento com a mídia permitirão o assessoramento no
planejamento das operações, o monitoramento das percepções da
população e a manutenção da mesma informada sobre o curso do
combate, mantendo o seu apoio.
A educação precária que se presencia atualmente no País gera
reflexos na comunicação social, pois aquela atinge desde o Ministro de
Estado que acha que mobilização é coisa de militares, aos repórteres
e articulistas que desconhecem coisas simples e primárias sobre o
poder militar da Nação, sobre malha viária, sobre a matriz industrial
e energética, sobre o poder e o potencial de recursos estratégicos e, no
entanto, informam mal, ou desinformam simplesmente, com a ganância
de mercadores de notícias, seja sobre fatos ou versões, pouco importa.
Quanto ao nível geral da educação da população, basta registrar
que nem mesmo o Hino Nacional nossos jovens estudantes conhecem
a letra e nem mesmo os atletas conseguem entoá-lo durante os eventos
esportivos, particularmente, internacionais, demonstrando a completa
falta de interesse pelos símbolos nacionais, carência de valores e
princípios cívicos e morais.
Soma-se a isto a tendência descontrolada entre os profissionais
de imprensa a valorizar idéias ultrapassadas, muitas vezes sem o devido
conhecimento do que está acontecendo, divulgando notícias distorcidas
e irreais, além de demonstrarem uma formação precária, em razão da
precariedade dos bancos escolares.
A formação educacional gera impacto nas expressões do Poder
Nacional, em função da moldagem dos insignes representantes do povo
que irão atuar em diversos setores da sociedade, dos quais se espera o
perfeito entendimento sobre a importância da Mobilização Nacional e a
maneira de como irão empregar a comunicação social neste contexto.
A expressão política é fundamental para o sucesso de implantação
do Sistema Nacional de Mobilização (SINAMOB), pois atua
diretamente nos três poderes constituídos, seja no Executivo, Legislativo
e Judiciário, com influências diretas nos partidos políticos.
Ao Executivo cabe atuar no cenário internacional por intermédio
do próprio Presidente da República ao demonstrar o valor geopolítico
do País no contexto mundial.
31
Ao Legislativo trata da adequação da legislação pertinente à
mobilização e a elaboração de dispositivos legais com o objetivo de
respaldar os atos implementados pelo Executivo.
Do Poder Judiciário se espera a adoção de medidas em apoio
ao esforço nacional de mobilização, atuando com determinação e em
conjunto com os demais poderes.
Por fim, a atuação dos partidos políticos é demasiadamente
fundamental para se estabelecer a consciência política dos representantes
do povo para reconhecer a importância da mobilização, apoiando o
órgão que irá atuar na liderança de um projeto de mobilização completo
e factível aos diversos aspectos proporcionados pela geografia deste País
de vasta extensão.
Verifica-se neste contexto o papel desempenhado pela
Comunicação Social, atuando de modo intrínseco, buscando a harmonia
entre os poderes, permitindo que o apoio popular torne-se uma fonte
para o governo, que a usa como uma justificativa contínua para sua
política. Quando o público recebe poucas informações sobre a política
nacional, é fácil para os líderes políticos tomarem decisões que não são
do interesse do público.
Atualmente, a televisão é o grande monopolizador do tempo que
as pessoas dispensam à mídia e também o veículo canalizador por parte
dos políticos para divulgarem suas mensagens nem sempre inovadoras,
particularmente, em época de eleições.
A expressão econômica tem impacto de suma importância no
contexto da mobilização por ser a fonte da maioria dos recursos a serem
empregados. Portanto, requer condições plausíveis em tempo de paz
para que possa se adaptar com eficácia quando ocorrer situações de
emergência.
A Mobilização Industrial se enquadra nesta expressão pelo valor
no conjunto da Mobilização Nacional, proporcionando reflexos em
outros campos do poder. Seu preparo adequado irá permitir atender
aspectos técnicos e científicos complexos, gerando um desenvolvimento
de tecnologia autóctone.
É também neste segmento que o desenvolvimento deve
proporcionar condições de segurança, cabendo aos setores envolvidos
buscar o melhor entendimento para que haja a devida compatibilidade
dos meios a serem empregados quando houver a necessidade.
32
Neste contexto, surge a comunicação social para convencer o
mundo corporativo que o setor industrial deve estar em sintonia com
os interesses da nação quando sua força produtiva for exigida. Cabe às
Federações das Indústrias dos Estados atuar no segmento empresarial,
convencendo-o do valor de cada indústria para uma mobilização eficaz.
Esta expressão se configura por meio de valores numéricos,
apresentando pesquisas, tabelas, balancetes, comparações, definindo
padrões entre regiões e países, portanto, a mídia escrita, seja jornal e
revista, aparece com certo valor, pois permite transmitir ao leitor, de
forma mais precisa, as idéias elaboradas em curto espaço de tempo de
maneira gráfica, quando necessário.
Por intermédio da expressão psicossocial se busca a formação
e a consolidação da mentalidade de mobilização, criando condições
favoráveis para que a sociedade entenda a importância da mobilização
em um País como o Brasil, mudando a cultura existente há algum
tempo no seio da população.
Cresce de importância o mecanismo da comunicação social, pois
será através deste instrumento que se buscará a referida consciência da
sociedade, que estará devidamente informada e ciente do valor que o
País possui em função de suas riquezas.
É na expressão psicossocial que a Comunicação Social desempenha
sua função principal, pois retrata fielmente a postura da nação em ambas
as fases da mobilização (preparo e execução), bem como no retorno à
normalidade, caracterizando a desmobilização.
Por trabalhar diretamente o homem, foco que se procura atingir
com a importância da mobilização, requer que se utilize todo o poderio
da mídia, empregando os meios disponíveis, de modo a abranger todos
os rincões possíveis, de tal sorte que se transmita o conhecimento
necessário à população de maneira equilibrada.
A expressão militar requer Forças Armadas preparadas e extremamente
detentoras de meios modernos e eficazes, com recursos humanos
devidamente conhecedores dos meios a serem empregados. Também requer
uma indústria bélica em consonância com a expressão econômica e capaz de
subsistir com tecnologia própria, sem dependência externa.
A reestruturação das Forças Armadas, no sentido de homogeneizar
os conhecimentos e mecanismos de mobilização, para que todos falem
a mesma linguagem, é de fundamental importância.
33
A expressão militar é de maior representação, em caso de
mobilização, pois caracteriza o braço militar da operação. Por isto,
mesmo antes da aprovação da Lei de Mobilização Nacional, já vem
executando tarefas importantes para o planejamento da mesma, atuando
com os órgãos de Comunicação Social, de modo a instruir o público
interno e orientar o público externo.
Embora as Forças Armadas possuam seus órgãos de veiculação,
encontram muita dificuldade para difundirem a imagem que pretendem
do papel que esta expressão possui no contexto de uma nação. Tal
fato ocorre por não possuírem nem sempre elementos especializados
ou até mesmo desviados de suas funções ou por possuírem meios de
comunicação de massa limitados e, como setores públicos, não possuem
verbas destinadas para tal fim na mídia nacional.
A expressão científica e tecnológica caracteriza muito bem o elo
existente entre Desenvolvimento e Segurança, aproximando cada vez
mais este binômio. Utilizando-se recursos científico-tecnológicos,
certamente, se produzirá bens e serviços muito mais qualificados ao
esforço nacional para atender casos emergenciais no campo da Defesa.
Mas como chegar a um patamar de qualidade de nossos
produtos? Diante de uma educação deficiente do povo, dificilmente
se obtém pesquisadores que passem a pensar em prol do Brasil para
desenvolverem tecnologias nacionais.
Paralelamente, os produtos nacionais em nível de exportação
devem atingir mercados internacionais e, portanto, cabe à Comunicação
Social divulgar o valor agregado de nossos produtos, utilizando-se da
mídia como um todo, além de conscientizar nosso próprio empresariado
para a aquisição em nosso mercado interno, particularmente, quando
de material de emprego militar.
Ressalta-se ainda que a mídia escrita, através de revistas
especializadas e a mídia virtual, com “sites” apropriados, contribui para
colocar, à disposição da população, os conhecimentos atualizados do que
a tecnologia pode proporcionar, em termos de evolução de uma nação.

POLÍTICAS E ESTRATÉGIAS (PROPOSTAS)

Faz-se necessário que a Comunicação Social seja mais atuante


na Mobilização Nacional, gerando uma mentalidade durante a fase
34
do preparo e para manter a população informada na fase de execução.
Desta forma, algumas sugestões se tornam viáveis:
- aumento do nível educacional dos atores envolvidos com a
Comunicação Social, permitindo uma ampla divulgação, através de
profissionais de comunicação social, da teoria e do planejamento da
mobilização;
- atração dos profissionais de imprensa às teses nacionalistas, por
intermédio de encontros entre governo e mídia, além de proporcionar
visitas desses profissionais a todas as áreas estratégicas nacionais, como
a Amazônia;
- comprometimento de empresários com a mobilização,
divulgando o papel desempenhado pelas Federações das Indústrias,
viabilizando cursos aos empresários sobre a importância da mobilização,
além de incentivar o sistema “S” (SENAI, SENAC) para que participe
do processo de mentalidade da mobilização junto ao corpo docente de
seus respectivos órgãos;
- participação ativa do Ministério da Educação na elaboração
de uma mentalidade de Mobilização Nacional, buscando a integração
social e nacional para que haja um equilíbrio educacional, com o
enaltecimento do civismo do brasileiro, proporcionando o culto aos
símbolos nacionais, durante a formação básica educacional;
- conscientização do segmento político, gerando mecanismos
jurídicos que permitam estruturar a Mobilização Nacional com
a regulamentação da legislação referente ao Sistema Nacional de
Mobilização, de forma a manter a população atualizada sobre os
problemas nacionais, utilizando-se da mídia de maneira ponderada;
- preparo das empresas para o incremento à produção,
padronização e nacionalização de itens, gerando uma mentalidade
empresarial para a mobilização, com o emprego da mídia para integrar a
empresa à Sociedade em razão de seus produtos fabricados, divulgando
a imagem da mesma;
- integração dos Centros de Comunicação Social das Forças
Armadas, buscando o aperfeiçoamento dos integrantes dos referidos
centros através dos cursos existentes, como o que existe no Centro de
Estudos de Pessoal do Exército, bem como, a realização de seminários
e simpósios dentro e fora das respectivas instituições;
- fortalecimento da consciência política do povo e a conquista
do apoio da opinião pública, mantendo a população devidamente
35
informada, familiarizando-a com os problemas nacionais e internacionais,
proporcionando-lhe elementos para análise e crítica construtiva, utilizando
os diversos meios de massa (rádio, TV, cinema, imprensa, jornal, internet),
visando a orientar e a esclarecer a opinião púbica e elevar o moral nacional;
- fortalecimento da Secretaria de Comunicações da Presidência
da República (SECOM/PR), proporcionando os meios necessários
para que o referido órgão possa integrar os diversos segmentos
envolvidos no Sistema Nacional de Mobilização, criando uma política
de Comunicação Social do Governo;
- ação coordenadora da SECOM/PR junto a entidades de classe,
responsáveis por veículos de comunicação da iniciativa privada, por
intermédio do incremento de uma sadia mentalidade de segurança nacional,
indispensável à defesa da democracia e à garantia do esforço coletivo para
o desenvolvimento, realizando campanhas de esclarecimento da opinião
pública nacional e internacional, visando à correção de efeitos negativos
resultantes de distorção da imagem do país, interna e externamente;
- incremento da política de defesa do Brasil no exterior,
viabilizando aos assessores parlamentares, futuros adidos militares e
embaixadores do País, no exterior, uma visão da indústria de defesa para
que os mesmos possam difundir a imagem do País pelo mundo; e
- ação coordenadora da Secretaria de Comunicações da
Presidência da República em regiões inóspitas do País, proporcionando
a informação e a divulgação à adequada cobertura de radiodifusão na
zona de fronteira do País, bem como na Amazônia Legal.

CONCLUSÃO

“Quatro jornais podem fazer maior mal ao inimigo que


um Exército de cem mil homens. Não se pode deixar ao
inimigo nenhuma vantagem, nem mesmo da opinião”
(Napoleão).

Sem dúvida, Mobilização Nacional requer o uso intenso da


comunicação social, pois esta age em todas as expressões e está presente
em todas as fases da mobilização, além de ser o vetor que irá permitir a
divulgação e a criação de uma mentalidade sobre o assunto.
O País possui todos os meios de comunicação de massa com
capacidade de atingir, praticamente, toda a população brasileira,
36
mantendo-a informada e atualizada em todos os aspectos da conjuntura
nacional e capaz de elevar o nível educacional da mesma, o que se torna
necessário para se ter a conscientização dos problemas nacionais e,
conseqüentemente, a preocupação com a mobilização.
Os altos escalões do Governo, à exceção dos comandos militares,
não se preocupam com o assunto Mobilização Nacional, o que certamente
impede a sua efetivação. Tanto isso é verdade que o SINAMOB ainda não
foi aprovado, fazendo-se necessária à atuação da Comunicação Social,
aproximando as elites do povo, de tal sorte que ambos possam entender e
aceitar o conteúdo desse Sistema em fase de aprovação.
Uma Política Governamental de Mobilização Nacional
complementada por uma Política também Governamental de
Comunicação Social servirá de suporte ao esforço que vem sendo feito,
particularmente pela Escola Superior de Guerra, na conscientização da
necessidade de que a Mobilização Nacional seja efetivada, definitivamente,
no contexto do País. Sem elas, o segmento civil fica impossibilitado de
atuar com eficácia e eficiência. No entanto, como o segmento militar
possui cristalizada a consciência de mobilização, resta ao setor civil
colaborar, prontamente, naquilo que for possível, embora de forma
dependente de esforços individuais nos mais variados setores estatais.
A Comunicação Social é de suma importância na condução
do conflito moderno, ao lado dos elementos de combate, de apoio
e logísticos. Através dela, os comandantes poderão obter parte das
informações que os auxiliarão na tomada de decisões, assim como
aprenderão a planejar e a utilizar a mídia em apoio às suas forças.
O raio de ação da Comunicação Social vai além das fronteiras
nacionais ou da área de operações, o que requer direção e coordenação
em nível de governo. Todos os órgãos e poderes envolvidos devem
adotar uma mesma linha de propaganda, pois um erro na sua condução
poderá destruir a credibilidade de programa e limitar a liberdade de
ação no campo internacional.
Enfim, sabe-se que a mobilização é o seguro de vida de uma Nação.
Tal assertiva já demonstra o papel que a Comunicação Social desempenha
em todo o contexto de uma sociedade, já que essa frase define, com
precisão, a participação da população, em caso de mobilização, abrangendo
todos os rincões do País, pois cada cidadão brasileiro tem o seu valor e
uma importância primordial, por ser o elo fundamental que permitirá a
interação da Comunicação Social com a Mobilização.
37
REFERÊNCIAS

AGUIAR, Sérgio Luiz Cruz. Comunicação Social, propaganda,


mídia e opinião pública A Defesa Nacional, Nr 792 Jan∕Abr 2002.

DE ALMEIDA, Jorge Luiz Abreu do O.Mobilização Industrial: Uma


necessidade? – A Defesa Nacional, Nr 742 Mar∕Abr 89.

DE CARVALHO, Maj Com Marcelo Fontanari. Banco de Dados de


mobilização da 5ª RM / 5ªDE, PADECEME, 1° Quadrimestre 2002.

DE MARIA, Adão Pantoja. Comunicação de massa: Hora de


mudança na legislação – A Defesa Nacional, Nr 742 Mar∕Abr 89.

DO CARMO, Leandro Acácio Esvael. Comunicação Social no


Exército – A Defesa Nacional, Nr 770 Out∕Dez 1995.

Manual Básico – Escola Superior de Guerra – Elementos Doutrinários


– Vol I – 2006.

Manual Básico – Escola Superior de Guerra – Assuntos Específicos


– Vol II – 2006.

NETO, Pedro Carlos, Sistema Nacional de Mobilização – A Defesa


Nacional, Nr 775, Jan∕Fev∕Mar 97.

NISKIER, Arnaldo. Os Desafios da Comunicação Social no Brasil,


Congresso Nacional 2006.

PEREIRA, Gen Div Heraldo Covas, Mobilização: uma necessidade


nacional PADECEME, 1° Quadrimestre 2003.

DOS SANTOS, Maria Tereza Carvalho, Filho Orlando Mendes.


Relações Públicas UVA 2002, Rio de Janeiro.

DA SILVA, Licinio Esmeraldo. Comunicação Social na Mobilização


Psicológica, TI – 06, CIMN/1995.

MONTEIRO, Gabriel Mascarenha.. Comunicação Social na


Mobilização Psicológica, TI -06 CIMN/1995.

38
A Otimização da Manutenção de
Aeronaves Militares e a
Mobilização Nacional

PWA, William José – Major do Quadro de Material Bélico do Exército Brasileiro, cursou
a ESG em 2006 no Curso de Logística e Mobilização Nacional. A Otimização da
Manutenção de Aeronaves Militares e a Mobilização Nacional; Rio de Janeiro (RJ).
Escola Superior de Guerra. 2006. Curso de Logística e Mobilização Nacional.
E-mail: williampwa@gmail.com

Resumo Informativo

Desde a 1ª Guerra Mundial, as aeronaves militares (AM)


têm sido intensamente empregadas em uma multiplicidade de
missões, seja na paz, seja na guerra. A atual frota brasileira de AM
não foi encontrada para pronta entrega, nas “prateleiras do mundo”
e sua aquisição custou ao País recursos da ordem dos bilhões de
dólares. De difícil aquisição, as AM representam materiais de defesa
essenciais que as Forças Armadas (FA) dispõem para dissuadir
ameaças à Segurança Nacional. Em decorrência da importância das
AM, a sua manutenção assume dimensão estratégica, ao garantir a
esses aparelhos o retorno à operacionalidade, após o emprego, e ao
impactar consideravelmente no orçamento das FA, em razão do seu
alto custo. Com essa motivação, pretende-se, neste artigo, analisar os
desafios atuais e apresentar soluções para a otimização da manutenção
das AM (MAM), no contexto da Logística e da Mobilização Nacional
(MN). Em tempo de paz, a MAM é suportada pela Logística das FA,
que envolve a participação de organizações militares de manutenção
e a contratação de empresas civis nacionais e estrangeiras. Em uma
situação extraordinária, poderá ocorrer um esforço aéreo muito
maior do que o habitual, e, provavelmente, a Logística das FA não
comportará a demanda da MAM. Nessa situação, as FA recorrerão
forçosamente à MN a fim de complementar as possibilidades de sua

39
Logística. Em qualquer situação, destacam-se os seguintes desafios
para o sucesso da MAM: a forte dependência do elemento humano;
as características inerentes às AM; a influência do orçamento das
FA e do ordenamento jurídico vigente no País; a necessidade de
importação de material; a falta de integração logística das FA e a
ausência de cultura e plano de MN. Como respostas a esses desafios,
propõem-se para a otimização da MAM (OMAM): o aperfeiçoamento
da gestão de recursos humanos da MAM; a melhoria contínua dos
processos logísticos; a mudança do ordenamento jurídico vigente no
País; a ampliação da Base Industrial Nacional de Defesa (BIND);
a integração logística das FA e a preparação e execução da MN em
complemento à MAM.

INTRODUÇÃO

Embora Santos Dumont tivesse inventado o avião em 1906


para fins pacíficos, as aeronaves militares assumiram papel relevante
no contexto dos conflitos, sobretudo a partir da 1ª Guerra Mundial
(GM). De lá para cá, além de produzir danos aos dispositivos inimigos
em missões de combate, as AM apóiam o combate, com missões
como lançamentos de pára-quedistas ou assaltos aeromóveis, também
suportando, logisticamente, as forças operativas, transportando tropas
e suprimentos.
Se na guerra o uso das AM contribui para a continuação da vida
da Nação, em tempos de paz, propicia serviços inestimáveis. Nota-
se como um bom exemplo a missão de busca e salvamento, em que
se salvam vidas de acidentes ou catástrofes da natureza. Além disso,
um exercício ou manobra, utilizando AM, pode dissuadir óbices
aos objetivos nacionais. As AM são empregadas, ainda, em distantes
pontos do País, em diversas missões, como campanhas de vacinação,
apoio às eleições e operações de garantia da lei e da ordem.
A par da sua importância operacional, as AM apresentam um
valor patrimonial expressivo, em razão de seu alto custo, complexidade
e demora de aquisição. No caso das FA brasileiras, o preço de uma
AM pode alcançar várias dezenas de milhões de dólares. A demora
da aquisição, por sua vez, não resulta somente da dificuldade em se
financiar os valores necessários e dos numerosos detalhes tratados
40
durante as negociações, decorre igualmente de fatores como a fila de
compradores e do prazo de fabricação de cada AM.
Decorrente de seu valor operacional e patrimonial, a manutenção
das AM alcança dimensão estratégica. Entende-se por “manutenção”
uma função logística capaz de restabelecer a condição de emprego do
material, após período de utilização ou em razão de uma pane. Para
manutenir centenas de AM existentes nas FA, utilizam-se milhares
de especialistas, oficinas, ferramentais, peças e materiais de consumo
e equipamentos. Assim, a manutenção de AM consome uma fatia
ponderável do orçamento das FA.
Entretanto, poderão ocorrer situações em que os meios logísticos
em apoio às FA não atendam a todas as necessidades de MAM. Nessas
situações, prevê-se a Mobilização Nacional, incluindo recursos
humanos e materiais, civis e militares, do País, como forma planejada de
se complementar o atendimento de tais necessidades. Assim, pretende-
se analisar os desafios à otimização da MAM, no contexto da Logística
e da Mobilização Nacionais.

DESAFIOS E SOLUÇÕES ATUAIS PARA A OMAM, NO


CONTEXTO DA LOGÍSTICA E DA MOBILIZAÇÃO
NACIONAIS

a) Fator humano

A MAM emprega uma ‘população’ considerável de técnicos.


Diante da essencialidade do fator humano para o sucesso dos esforços de
OMAM, sugerem-se as seguintes estratégias para a consecução da política
de aperfeiçoamento de recursos humanos da MAM: cumprimento de
plano de carreira; treinamento de pessoal; desenvolvimento da liderança
e medidas motivacionais.
A repetição de tarefas, sem novos desafios, causa tédio,
reduzindo a sua produtividade. Por essas razões, o plano de carreira
deve ser cuidadosamente elaborado e cumprido, sob pena de causar
 Conforme a doutrina da Escola Superior de Guerra (ESG), MN é o conjunto de
atividades planejadas, orientadas e empreendidas pelo Estado, complementando a Lo-
gística Nacional, destinadas a capacitar o País a realizar ações estratégicas, no campo
da Defesa Nacional, diante de agressão estrangeira.

41
profundas frustrações. Um bom plano de carreira deverá incluir os
cursos e possíveis funções a serem assumidas em diferentes escalões
de manutenção nas organizações militares (OM) existentes.
O treinamento também favorece a OMAM, mas deve ser tratado
com critério. Graças a essa atividade, realiza-se a MAM de maneira mais
racional. Porém, vê-se impacto nas OM de manutenção quando muitos
especialistas realizam cursos ao mesmo tempo. Nota-se ainda que
cursos rápidos podem resolver grandes problemas. Além disso, pode-
se usar o treinamento para flexibilizar a mão-de-obra, compensando a
falta de especialistas.
No que tange ao atributo da liderança, notamos que uma mesma
coletividade obtém resultados diferentes dependendo da atuação dos
seus líderes. Porém, preocupa-se com o ensino da liderança apenas nas
escolas de formação e aperfeiçoamento. Não se conhecem planos para
o desenvolvimento da liderança em OM de manutenção. Geralmente,
os líderes mais jovens aprendem a liderar, observando a atuação dos
mais antigos.
Com relação ao campo da motivação, há uma infinidade de
medidas cuja implementação não exige investimento. Citam-se,
aqui, três exemplos: atribuir categorias aos especialistas, conforme
a experiência profissional, tais como, ‘mecânico júnior’, ‘mecânico
sênior’, ‘mecânico máster’, etc; registro nos assentamentos pessoais
dos principais trabalhos de manutenção realizados e pontuação em
concursos da Força, de acordo com o mérito.

b) Características das AM

A segurança de vôo mostra-se como o principal fator de


preocupação nos níveis de um comando de aviação. Da observância
das normas de segurança de vôo, depende a integridade física da
 Algumas OM revelam-se mais motivadoras para se servir por possibilitarem vantagens
como matrícula de crianças em Colégios Militares e ocupação de próprios nacionais
residenciais. Por causa desse desequilíbrio, convém que haja um rodízio de pessoal,
evitando que apenas uma minoria restrita aproveite essas vantagens.
 A partir de 2004, houve o acendimento da luz ‘Chip’ (limalha no óleo do motor) em
diversas aeronaves da frota Aviação do Exército. Em decorrência desse fato extrema-
mente sério, os gerentes e mecânicos de manutenção passaram por um treinamento
de 5 (cinco) dias, que trouxe resultados altamente positivos.
42
tripulação e das AM em operação. Principalmente, em tempo de paz,
não há como justificar a perda de vidas, que levaram anos para serem
adestradas, e de um equipamento de alto valor para a Nação. Assim,
necessita-se de confiabilidade na manutenção, proporcionando aos
tripulantes a convicção de que o serviço foi bem feito.
O elevado nível tecnológico também caracteriza as AM por
multiplicar o poder de combate em relação a outros equipamentos
similares. A existência de um único sistema tecnológico a mais em
suas AM pode trazer um diferencial decisivo para qualquer um dos
contendores. Afinal, não se pode comparar, por exemplo, uma AM
com outra idêntica, com mesmos sistemas de armas, mas que dispõe
a mais de um sistema de visão noturna.
A instabilidade do processo de manutenção, por sua vez,
traduz uma característica que condiciona a OMAM. Cada AM tem
sua singularidade e, de certa forma, pode ser considerada “uma
caixinha de surpresas”. Uma mesma operação de manutenção pode
se desdobrar em várias outras, de acordo com o estado de conservação
e as condições de uso da AM. Daí, a dificuldade de fixar tempos
padrões para grandes serviços de manutenção.
Por outro lado, as AM requerem um rígido controle de
manutenção e programação de inspeções. Para exemplificar, há
cerca de 500 itens monitorados em uma única aeronave Pantera.
Constantemente, atualizam-se registros para cada um desses
componentes, contendo dados como número de série, código
do fabricante, data de fabricação, data de instalação, número de
horas de vôo, número de pousos, número de ciclos, etc. Assim,
necessita-se de sistemas informatizados compatíveis para a gestão
da MAM.
Considerando as características das AM, a OMAM poderá ser
obtida por meio de um sistema de medição abrangente, reengenharia
de processos, encontros de ‘benchmarking’ e da manutenção
preditiva. O sistema de medição abrangente servirá para identificar
estrangulamentos na MAM. A reengenharia de processo também
contribui usando o princípio de que é sempre possível fazer mais
com menos. ‘Benchmarking’, por sua vez, significa copiar o que
está dando certo e serve, portanto, para difundir as boas práticas.
43
Por outro lado, a manutenção preditiva determina o momento
exato de remover da AM itens críticos, como turbinas e caixas de
transmissão, acompanhando o nível vibratório ou a quantidade
de partículas metálicas presentes em óleos lubrificantes e fluidos
hidráulicos .

c) Orçamento e ordenamento jurídico vigente no País

O orçamento das FA revela-se como um desafio multifacetado, que


impõe conseqüências importantes aos resultados da MAM. A primeira
faceta refere-se à escassez dos recursos financeiros destinados à MAM.
O orçamento insuficiente impossibilita um adestramento mínimo das
tripulações que garanta a segurança de vôo e causa a indisponibilidade
da frota. Também aumenta os custos de manutenção ao não possibilitar
uma cadência de vôo ideal. Para exemplificar, o recompletamento de
gás de trem de pouso ocorre em AM que voam pouco.
Tendo recursos financeiros insuficientes para custear a MAM,
as FA são forçadas, muitas vezes, a realizar serviços periódicos de
preservação de aeronaves e, em especial, de seus componentes mais
caros, como os motores e as caixas de transmissão. Esses trabalhos de
preservação sobrecarregam ainda mais o pessoal de manutenção, que já
em situações normais não supre as necessidades.
A rigidez orçamentária, por sua vez, não permite que as FA
poupem seus recursos, para aplicá-los no melhor momento. Para
ilustrar, o Exército Brasileiro (EB) recebeu 8 (oito) ‘Cougar’ de 2002 a
2004. Essas AM poderiam aguardar até 2016/2018 para passarem pela
inspeção G. No entanto, a fim de distribuir o impacto no orçamento,
poder-se-á antecipar alguma dessas inspeções. Enfim, em função dessa
dificuldade orçamentária, o plano financeiro definirá prioritariamente
quando cada frota de AM será inspecionada.
 A manutenção preditiva aumenta a segurança de vôo (ao determinar por vezes a re-
moção de itens da AM para manutenção antes do tempo definido pelo fabricante) ou
poupa recursos financeiros (ao indicar a remoção de um item para manutenção após o
momento determinado pelo fabricante).
 As inspeções G da aeronave Cougar são grandes trabalhos de manutenção, realizados
de cada 12 (doze) a 14 (quatorze) anos, nos quais toda a estrutura da aeronave e seus
componentes são verificados. O custo de uma inpeção é da ordem de centenas de mi-
lhares de dólares.
44
Por outro lado, a MAM é afetada em razão de se fazer a transferência
orçamentária ‘aos espasmos’. O orçamento público não é aprovado
ou repassado com a devida oportunidade ou, então, é contingenciado
durante a sua execução. Por várias vezes, iniciou-se o ano fiscal sem a
aprovação do orçamento. O ano de 2006 foi um caso típico, no qual a
Oposição no Congresso Nacional não permitiu que o orçamento fosse
aprovado oportunamente. Em 2005, o orçamento da Aviação do Exército
(AvEx) começou a ser repassado somente em Março daquele ano. Além
disso, o orçamento sofre anualmente severos contingenciamentos, a fim
de atender às metas de superávit fixadas pelo Governo.
Com relação à MN, o ordenamento jurídico deixa mais ainda
a desejar. Embora tenha sido enviado pela Casa Civil à Câmara dos
Deputados e passado por todas as suas comissões, o Projeto de Lei nº
2.272/2003, referente à MN e ao Sistema Nacional de Mobilização
(SINAMOB), aguarda remessa ao Senado para aprovação, não
permitindo a preparação da MN. Hoje, por exemplo, não se dispõe
de amparo legal para se exigir da Agência Nacional de Aviação Civil
(ANAC) o cadastro dos profissionais de MAM. Com a lei aprovada,
espera-se que a MN possa ocorrer nas fases de preparo e execução, sem
atropelos. Isto evitaria a repetição de experiências negativas, como as
mobilizações para a Guerra do Paraguai e da 2ª GM. A não aprovação da
Lei, porém, não impede a execução de ações importantes para a MAM
e a MN, como a difusão da cultura de mobilização, planejamentos
hipotéticos de mobilização e exercícios de simulação de mobilização.

d) Necessidade de importação de material

Atualmente, os fabricantes de grande parte das AM localizam-se


no exterior. No Brasil, temos a Embraer e a Helibras como fabricantes

 Reunindo os principais ministérios, o SINAMOB realiza a Mobilização e a Desmo-


bilização Nacionais; tem como órgão central o Ministério da Defesa e responde pelas
necessidades da MN nas áreas política, econômica, social, psicológica, segurança e
inteligência, defesa civil, científico-tecnológica e militar.
 Essas mobilizações foram chamadas de ‘mobilizações de expediente’, porque foram
condutas decididas no momento, sem que houvesse um planejamento prévio.
 De acordo com conferência proferida pelo CF Antônio Luiz Veneu Jordão, do Esta-
do-Maior da Armada, em 9 de outubro de 2006, na ESG, a Escola de Guerra Naval
já desenvolve esse tipo de exercício.
45
de AM. Entretanto, a Embraer fabricou somente parte da frota da
Força Aérea Brasileira (FAB), enquanto que a Helibras está limitada
a montar helicópteros com partes procedentes da Europa. Por causa
dessa dependência externa, deveremos obrigatoriamente contar com a
concordância de outros países para que haja o ressuprimento necessário
em caso de conflito armado10 11.
Atenuar-se-ia essa situação se a Base Industrial Nacional de Defesa
pudesse vender regularmente às FA materiais de defesa considerados
críticos. Entretanto, o reaparelhamento das FA ocorre fora do desejável ao
longo da história. Por falta de uma estratégia nacional, que perdure por vários
governos, as FA acabam comprando pouco e de maneira eventual, muitas
vezes no exterior e sem um planejamento que contemple simultaneamente
os requisitos operacionais das FA e o fortalecimento da BIND.
Em tempo de guerra, não há como mobilizar uma fábrica
estrangeira para apoiar o nosso País num esforço além do habitual.
Além disso, a BIND contribui para o desenvolvimento do País, pois
lições colhidas na fabricação e comercialização de materiais de defesa
são aproveitadas em linhas de produção de produtos civis12. Urge,
portanto, a necessidade de se ampliar a BIND, a fim de que se possa
reduzir a atual dependência externa das FA.

e) Falta de integração logística das FA

Visualiza-se a integração logística das FA como uma situação


futura na qual a Logística de cada Força trabalhará unida com as das

 Todas as turbinas que equipam as AM das FA são importadas, embora existam no País
fabricantes de turbinas para outras finalidades.
10 Recentemente, a Embraer não conseguiu vender aviões Supertucano para a Venezuela
por recusa do Governo Americano permitir que a Pratt-Whitney fornecesse turbinas
para aquelas aeronaves.
11 A concordância dos governos estrangeiros não garante o suprimento de nossas FA. Mesmo
em tempo de paz, os fornecedores externos não atendem adequadamente nossa frota de
AM. Em 2005, a Sikorsky e a Eurocopter falharam no fornecimento de peças. A primeira
alegou que o fornecimento fora priorizado em favor das tropas americanas em operações no
Iraque e Afeganistão. A segunda causou uma crise mundial de abastecimento de peças ao
trocar seu software de gestão. Ou seja, se o suprimento, procedente do exterior, já se mostra
complicado, em outra situação, com uma demanda maior, as dificuldades se avultarão.
12 A Embraer aproveitou as lições aprendidas do Projeto AMX para desenvolver todas
as famílias de jatos.
46
demais, obtendo resultados operacionais e financeiros, mais vantajosos
do que trabalhando isoladamente. Porém, tal situação ainda se encontra
distante de ser realidade13. Na história evolutiva das FA, percebe-se que,
desde as origens, cada FA desenvolveu-se independente e, por vezes,
competindo com as demais.
Por falta dessa integração, há uma despadronização nas frotas de AM.
Observa-se que, embora as três FA possuam AM iguais, as versões diferem-
se entre si. Isto não permite a livre troca de peças de uma FA para outra, por
pequenas diferenças técnicas. As três FA apresentam o Esquilo HB 350, mas
com versões diferentes: BA na MB, L1 no EB e B na FAB. Idem, com os
Super Puma AS: 332 F1 na MB, 532 UE no EB e 332 M na FAB.
Conforme o Cel Antônio de Pádua B. da Silva (2006), para se
integrarem logísticamente, as FA passariam antes pelos estágios da
interação, padronização e interoperabilidade.
A interação significa colocar pessoas em contato para que,
conhecendo possibilidades e necessidades mútuas, obtenham confiança
e descubram oportunidades de compartilhamento. No contexto da
MAM, a interação poderia ocorrer, por exemplo, com a classificação
de engenheiros do EB e MB no Centro Logístico da FAB, órgão
responsável pela nacionalização de componentes aeronáuticos.
A padronização, por sua vez, diz respeito ao uso de produtos, doutrinas
e procedimentos iguais, a fim de operar com maior eficácia e racionalização
de meios. Entretanto, como há um nível desfavorável de despadronização
de material nas frotas de AM das FA, convém que ocorra uma coordenação
capitaneada pelo Ministério da Defesa (MD), de forma a orientar as próximas
aquisições das FA, observando regras de padronização.
Na seqüência, a interoperabilidade orientará os integrantes
das organizações consideradas a atuarem cooperativamente, fixando
normas, conceitos, procedimentos, objetivos, doutrina, organização e
meios. Assim, haverá interoperabilidade entre as Forças no contexto da
MAM, se, por exemplo, um helicóptero do EB for manutenido com
mecânicos da FAB e a MB fornecer o suprimento.

13 Em 2002, representantes das FA elaboraram uma lista de serviços de manutenção


existentes na respectiva força a serem oferecidos às demais. Atualmente, enquanto o
Exército Brasileiro (EB) repara pás em favor da Marinha do Brasil (MB), esta realiza
as inspeções C dos Esquilos do EB. Cogita-se de a MB realizar as inspeções C dos
‘Cougar’ do EB
47
Finalmente, alcançar-se-ia a integração logística quando as FA,
motivadas pelas vantagens obtidas, procurariam mais e mais atuar
como conjunto harmônico. A integração logística traria para a MAM:
número menor de itens controlados; menor efetivo de pessoal ligado
a esse controle; escala de itens idênticos para negociação de serviços
de manutenção com terceiros; ampliação da BIND e facilitaria a MN.
Enfim, a logística seria mais “enxuta”.

f) Ausência de cultura e plano de MN

A última vez que o País foi invadido ocorreu na Guerra do Paraguai.


Durante a 2ª G M, nossa Marinha Mercante perdeu 40 (quarenta)
navios, mas não houve ação estrangeira no território nacional. Após a 2ª
GM, a mentalidade de defesa nacional tornou-se paulatinamente menor,
justamente pela inexistência de ameaças externas claras à Nação.
Por causa dessa tradição pacífica histórica do Brasil, a cultura de
MN não ultrapassa a incipiência. Contudo, provavelmente a Nação
terá que se mobilizar para superar forças adversas. E para que uma MN
ocorra eficientemente, o MD terá de fixar doutrina, política, estratégia e
exercícios de mobilização. Infelizmente, a doutrina, política e estratégia
ainda são incipientes, enquanto que poucos exercícios de mobilização
foram realizados.
Em caso de conflito, as FA provavelmente submeterão suas AM
a esforço aéreo acima do habitual. Para tanto, a MAM precisará de mais
meios humanos e materiais. Superados os limites da Logística, as FA
recorrerão à MN, por meio do SINAMOB, a fim de complementar
o atendimento de suas necessidades. Assim, onvém realizar a fase de
preparo da MN, ainda em tempo de paz, com o objetivo de levantar os
meios disponíveis para aproveitamento pela MAM em caso de conflito.
A fase de execução da MN deve ser planejada antecipadamente para
garantir um passo a frente dos nossos futuros oponentes.
Quanto mais planejada e preparada for a MN, melhor será a sua
execução. Assim, o aprimoramento pelo MD de doutrina, política e estratégia
de mobilização é primordial. A doutrina unificará conceitos e servirá de base
para uma cultura de MN. A política mostrará ‘o quê fazer’, definindo metas,
enquanto a estratégia orientará o esforço de MN, dizendo ‘como fazer’.
Fixados tais conceitos, será possível consolidar um plano de MN.
48
CONCLUSÃO

“Nunca tantos deveram tanto a tão poucos”. Proferida por


Winston Churchill, após a derrota alemã nos céus da Inglaterra, na
2ª GM, essa frase ilustra a importância do vetor aéreo militar para os
destinos de uma Nação. A par da sua relevância para a Defesa Nacional,
as AM representam um patrimônio valioso e que não se encontra
para a pronta entrega nas ‘prateleiras do mundo’, mesmo se para tanto
houvesse um ‘cheque em branco’.
Sem o apoio de manutenção, não há como empregar o poder de
combate da frota de AM das FA e aproveitar esse imenso investimento
feito com recursos públicos. Também não há como garantir a segurança
das tripulações das AM nas diversas situações operacionais, sem um
sistema bem planejado de manutenção, integrado por homens, doutrina,
equipamentos e instalações.
Eventualmente poderá haver esforços aéreos superiores ao
habitual. A Logística Nacional poderá não suportar essa demanda.
Todavia, a MN não terá como complementar a Logística para suprir
as necessidades de MAM, por causa da necessidade de importar
materiais e principalmente pela incipiência de mentalidade, doutrina,
política e estratégia de mobilização. A solução passa, portanto, pela
nacionalização de tecnologias críticas e fabricação de produtos de defesa
e pelo desenvolvimento de mentalidade, doutrina, política e estratégia
de MN.
A OMAM revela-se como uma situação na qual todos os recursos
de manutenção existentes serão aproveitados em sua plenitude. Um
caminho para essa otimização passa por um sistema de medição
abrangente, reengenharia de processos, encontros de ‘benchmarking’ e
implementação da manutenção preditiva.
A OMAM tem na ampliação da BIND como uma de suas
principais necessidades para a redução da dependência externa. Já
em tempo de paz, as nossas FA são supridas com itens de aviação
freqüentemente com atraso. Em tempo de guerra, a Nação ficará à
mercê dos interesses estrangeiros para poder ser reabastecida com itens
de aviação. Além de sustentar a operação das FA, a ampliação da BIND
contribuirá para o desenvolvimento do País.

49
A integração logística das FA também facilitará a OMAM
e partirá da interação de elementos das FA a fim de haver um
conhecimento mútuo. Em seguida, a padronização de materiais servirá
para racionalizar os meios humanos e materiais existentes. No estágio
seguinte, haverá condições de se atuar cooperativamente, caracterizando
a interoperabilidade. A partir daí, surgirá aos poucos uma mentalidade
integradora de MAM.
A OMAM depende igualmente da solução de desafios externos
às FA, como a mudança do ordenamento jurídico vigente. Uma
mudança na legislação orçamentária além de possibilitar melhor
qualidade nos gastos da MAM, favoreceria a ampliação da BIND. A Lei
de Mobilização deve ser também aprovada, de forma que o SINAMOB
seja instituído e haja progressos mais consistentes na preparação de
eventuais Mobilizações Nacionais.

REFERÊNCIAS

BRASIL. Projeto de Lei nº 2.272 / 2003. Dispõe sobre a Mobilização


Nacional e cria o Sistema Nacional de Mobilização – SINAMOB.

Disponível em <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Projetos/
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CAVALCANTE, Marcos Fricks. Lista Respondida. [mensagem


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Conclusão de Curso Curso de Gerência Executiva de Transporte e
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helicópteros. Rio de Janeiro, 2003. 20p. Trabalho Individual (Curso
de Logística e Mobilização Nacional). ESG. Rio de Janeiro, 2003.

50
Logística e Mobilização Nacional na
Amazônia Ocidental - Reflexo para os
Pelotões Especiais de Fronteiras

DA SILVA, Jorge José Góes – Tenente-Coronel do Quadro de Material Bélico do Exército


Brasileiro, cursou a ESG em 2006 no Curso de Logística e Mobilização Nacional.
Logística e Mobilização na Amazônia Ocidental – Reflexo para os Pelotões Especiais de
Fronteira. Rio de Janeiro (RJ). Escola Superior de Guerra. 2006. Curso de Logística e
Mobilização Nacional.
E-mail: jorgegoespqdt@ig.com.br

Resumo Informativo

O objetivo deste artigo é estabelecer, na área de Logística e


Mobilização da Amazônia Ocidental, focado no Exército Brasileiro,
critérios eficientes, a fim de atender às necessidades dos Pelotões
Especiais de Fronteira e as comunidades de seu entorno. À luz do
contexto histórico, tem-se ciência da precariedade do sistema logístico
da região amazônica, quer seja: por sua deficiência em estradas e
ferrovias; por seu clima e densa vegetação que impede a circulação do
homem; por suas dimensões gigantescas; pela estrutura de logística ora
existente e pela precariedade de aeroportos nas pequenas localidades
da Amazônia Ocidental. A inexistência de uma lei de Mobilização
Nacional é uma marcante preocupação com relação à defesa, não só
para a Amazônia brasileira, mas para todo o País. Neste Artigo, são
apresentadas algumas políticas e estratégias que possam vir a serem
adotados para fomentar a Logística e a Mobilização na Amazônia
Ocidental. No final, busca-se mostrar a importância de se adotar uma
política mais eficaz quanto ao emprego da logística para atender às
brigadas existentes na Amazônia Ocidental e a importância de se ter
uma Lei de Mobilização Nacional que regulamente tão importante
tarefa que, hoje, não tem respaldo legal. Com este cenário, procura-
se demonstrar processos que visam a reduzir a vulnerabilidade da
região oeste da Amazônia ante a uma possível invasão, assegurando a
51
soberania do País diante de uma guerra que, pressupostamente, jamais
ocorrerá.

INTRODUÇÃO

“Na paz, preparar-se para a guerra; na guerra, preparar-


se para a paz. A arte da guerra é de importância vital para o
Estado. É uma questão de vida ou morte, um caminho tanto
para a segurança como para a ruína. Assim, em nenhuma
circunstância deve ser descuidada” (Sun Tzu há 2500 anos).

Desde o século XIX, a Amazônia brasileira é cobiçada. Suas


riquezas, tanto mineral quanto a sua biodiversidade foram motivos para
várias especulações e declarações sensacionalistas quanto a utilização
indevida pelos brasileiros.
Nos últimos vinte anos, os assuntos referentes à Amazônia
brasileira estão em crescente evidência, particularmente, nos círculos
políticos, econômicos e científicos do mundo.
Alguns autores, entidades e autoridades de diferentes nações
fazem, com freqüência, alusões à região, demonstrando interesse pela
Amazônia, buscando questionar a posse dessa estratégica área pelo Brasil.
O objetivo é passar ao mundo que a sua preservação é imprescindível
para o futuro do planeta e que o Brasil não tem protegido adequadamente
a floresta e seus habitantes nativos.
Neste contexto, destaca-se a citação do ex-presidente da França,
François Miterrand, que declarou em uma conferência internacional
em Haia, Holanda, em março de 1989: “o Brasil precisava aceitar a
soberania relativa sobre a Amazônia”, renunciando a parcelas de sua
soberania (Alerta Rede, 2006).
A Folha de São Paulo alertou quanto a seguinte pretensão do
governo inglês: “O governo inglês, por meio de David Miliband,
secretário de Meio Ambiente britânico, divulgou na semana passada
no México um plano para transformar a floresta amazônica em uma
grande área privada. O anúncio foi feito em um encontro realizado na
cidade de Monterrey, segundo informou o jornal “Daily Telegraph”. O
evento reuniu os governos dos 20 países mais poluidores do mundo.
A proposta inglesa, que conta com o aval do primeiro-ministro Tony
52
Blair, visa a proteger a floresta, segundo Miliband. O próprio político
admitiu que a idéia está em seu estágio inicial e que será preciso discutir
as questões de soberania da região com o Brasil. O plano prevê que
uma grande área da Amazônia passaria a ser administrada por um
consórcio internacional. Grupos ou mesmo pessoas físicas poderiam
então comprar árvores da floresta” (Folha de São Paulo, 2006, p. 12).
Verifica-se, assim, que demonstram excessiva preocupação
com a Região Norte do Brasil, pressionando o governo brasileiro a
demarcar extensas reservas indígenas, notadamente em territórios de
fronteira, que abrigam fartas jazidas de minerais estratégicos. Impõem-
se, indiretamente, óbices ao desenvolvimento sócio-econômico da
Amazônia, que acabam por impedir a exploração sustentável de seus
recursos naturais e a sua efetiva integração às demais regiões do País.
Observa-se que a Amazônia brasileira tem se transformado
em palco de intensa e descontrolada atuação de organizações não-
governamentais, patrocinadas por governos de países desenvolvidos
e por poderosos grupos econômicos do mundo globalizado devido à
biodiversidade e por sua posição geoestratégica privilegiada.

A AMAZÔNIA OCIDENTAL

A Amazônia Ocidental compreende os estados do Amazonas


(AM), Acre (AC), Rondônia (RO) e Roraima (RR), com cerca de 151
municípios, uma população em torno de 5.827.997 habitantes (2005), com
densidade aproximada de 2,66 habitantes por quilometro quadrado.
Com 2.185.202,20 Km² a Amazônia Ocidental representa em
torno de 25% de todo o território nacional. Sua principal característica
geográfica consiste na existência de parte da maior bacia fluvial do
mundo, além de possuir boa quantidade da maior floresta contínua da
Terra. Esta área é superior a soma da área de seis países da Europa:
Espanha, França, Alemanha, Polônia, Holanda e Portugal.
Grandes distâncias separam os núcleos urbanos que, dispersos ao
longo dos rios, têm seu isolamento agravado pela floresta.
Essa singular região se caracteriza, ainda, pelo imenso vazio
demográfico. É uma área com características próprias e sua utilização
para operações militares, principalmente no campo da Logística,
reveste-se de grandes desafios.
53
O clima é do tipo equatorial, quente e úmido. A temperatura é
elevada, com pequenas oscilações térmicas. As chuvas são abundantes
durante quase todo o ano. A umidade relativa do ar é elevada, quase
sempre superior a 80%.
Por tudo isso, a fisiografia influenciou, desde os primórdios,
a circulação, o povoamento e a ocupação da área, dificultando o
desenvolvimento da Am Oc.
A Amazônia Ocidental possui as seguintes fronteiras internacio-
nais: Guiana com 570 Km; Colômbia com 1.644 Km; Venezuela com
1.819 Km; Peru com 2.995 Km e Bolívia com 1.110 Km.
A grande extensão territorial, a precariedade da malha rodoviária,
o clima, as dificuldades de ligações e comunicações, o desafio da selva,
os parcos recursos locais existentes e as dificuldades governamentais
em integrar a área ao restante do País concorreram decisivamente
para o isolamento da região e conferem a esse verdadeiro “Continente
Amazônico” peculiaridades que influenciam diretamente a estrutura da
Logística e da Mobilização.

O EXÉRCITO BRASILEIRO NA AMAZÔNIA OCIDENTAL

O esforço despendido para a ocupação da Amazônia é antigo e


dura mais de 300 anos. Embora somente agora se possa dizer que a
Amazônia está sendo realmente ocupada, o segmento militar a ela está
fortemente vinculado desde o início de sua colonização, quando, em
1616, Francisco Caldeira Castello Branco, ao erguer o Forte Presépio,
deu origem à cidade de Belém do Pará.
Não podemos deixar de assinalar, também, que a grande
arrancada dessa conquista deveu-se à expedição do capitão-mor Pedro
Teixeira que, em 1637, reconheceu o rio Amazonas, indo até Quito, no
Equador.
Portugal nunca se descuidou da defesa dos territórios amazônicos
tão duramente conquistados. Estabeleceu postos e fortificações que
demarcaram seus domínios de forma inequívoca e que vieram a dar o
contorno do Brasil.
Os contingentes militares dessas fortificações constituíram,
durante muito tempo, a única presença luso-brasileira na área e muitas
delas transformaram-se em vilas e cidades existentes até os nossos dias.
54
Em meados do Século XVIII, governou a Província do Grão-
Pará, o capitão-general Francisco Xavier de Mendonça Furtado, cujo
programa de governo tinha como objetivo defender a fronteira e
povoá-la.
A participação marcante no processo histórico de
desenvolvimento da Amazônia de Mendonça Furtado fizeram com que
o EB o homenageasse, concedendo à 12ª Região militar, a denominação
histórica de “Região Mendonça Furtado”.
No início do Século XX, com a instituição da colonização militar
no País, iniciou-se a demarcação da linha de fronteira ocidental do
Brasil. As colônias militares eram estabelecimentos compostos por
contingentes militares e colonos civis, destinados a proteger a fronteira
e a promover o povoamento da área.
Cabe salientar, ainda, que as estreitas ligações do Exército com a
Amazônia ficaram definitivamente consolidadas por meio da obra do
Marechal Cândido Mariano da Silva Rondon, incumbido, na primeira
década do século passado, de construir linhas telegráficas ligando o
Centro-Oeste à região amazônica, permitindo sua integração ao restante
do País.
Outro fator a ser destacado e que bem caracteriza a ocupação
permanente do Exército nessa área é o papel desempenhado pela
Engenharia Militar. Com uma larga folha de serviços prestados ao
desenvolvimento sócio-econômico da região, o 2º Grupamento de
Engenharia de Construção dá continuidade à tradição dos desbravadores
da Amazônia, procurando integrar, cada vez mais, a vasta região ao
restante do País.
Com a implementação do Programa Calha Norte em 1985, por
iniciativa do Governo Federal, foram criados outros Pelotões Especiais
de Fronteira (PEF), em locais situados ao norte das calhas dos rios
Solimões e Amazonas, constituindo núcleos de vivificação.
Esta ação pioneira do Exército na Amazônia foi sempre realizada
com extrema dificuldade e enorme sacrifício, seja no nível institucional,
seja no nível individual de cada militar que por ali passou. Além das
dificuldades de instalação e manutenção dos efetivos, naquela região,
para os PEF seguem militares, na maioria jovens, alguns acompanhados
de suas famílias, sem nenhuma recompensa material significativa,
munidos apenas do ideal de servir.
55
Em 1986 existiam na área da Amazônia Ocidental, cerca de 5.000
homens; em 2005 este efetivo passou para próximo de 18.000 homens
e para 2007 espera-se ter em torno de 25.000 homens, isto apenas para
o Exército Brasileiro.
Quanto a logística, esta está dividida por escalões, segundo o que
preconiza o EB, assim discriminados:
- o primeiro escalão é de responsabilidade da própria Organização
Militar (OM) existente na região, e atende em todas as áreas de atuação,
que são divididas por classes;
- o segundo escalão é de responsabilidade das: 1ª Brigada de
Infantaria de Selva com sede em Boa Vista – RR; 16ª Brigada de
Infantaria de Selva com sede em Tefé – AM, e 17ª Brigada de Infantaria
de Selva com sede em Porto Velho – RO, cujas as OM logísticas são: 1ª
Base Logística; 16ª Base Logística e 17ª Base Logística, respectivamente,
vocacionadas exclusivamente para o suprimento e transporte de material
de todas as classes, não realizando as outras atividades de logística. A
recente 2ª Brigada de Infantaria de Selva com sede em São Gabriel da
Cachoeira – AM, apesar de já possuir instalação e OM subordinada,
ainda não possui estrutura logística, ficando esta atividade sob
responsabilidade: do Parque Regional de Manutenção da 12ª Região
Militar, do 12º Batalhão de Suprimento da 12ª Região Militar, ambos
os dois com sede em Manaus – AM e do 5º Batalhão de Infantaria de
Selva com sede em São Gabriel da Cachoeira – AM. O 2º Grupamento
de Engenharia de Construção, com sede em Manaus – AM, não possui
nenhuma unidade logística orgânica;
- o terceiro escalão é de responsabilidade da 12ª Região Militar
(12ª RM), sediada em Manaus – AM que possui suas OM diretamente
subordinadas para a atividade de logística; e
- o quarto escalão é de responsabilidade dos Arsenais de Guerra,
em número de três em todo o País.
Da existência de quatro brigadas de infantaria de selva e de
um grupamento de engenharia de construção na área da Amazônia
Ocidental, infere-se que exista um suporte logístico compatível com a
capacidade operacional destas cinco grandes unidades, mas infelizmente
isto não ocorre.
A unidade logística orgânica de uma brigada ou de uma divisão
de exército é o batalhão logístico, responsável pela execução do apoio
56
logístico nas funções logísticas: Recursos Humanos, Saúde, Suprimento,
Manutenção, Transporte e nas atividades da função Salvamento
afetas à manutenção aos elementos integrantes da brigada ou da base
divisionária (Portaria nº 125-EME, de 22 de dezembro de 2003 – C100-
10-LOGÍSTICA MILITAR TERRESTRE).
A 12ª RM, “Região Mendonça Furtado”, é parte integrante do
Comando Militar da Amazônia (CMA) e constitui escalão avançado de
planejamento, coordenação e controle dos diversos órgãos de Direção
Setorial do Exército Brasileiro.
Na condição de Grande Comando Logístico, é responsável pelo
apoio logístico às unidades e subunidades isoladas do CMA em sua área
de jurisdição.
Somando-se as dificuldades naturais da missão de uma região
militar com os óbices existentes na área, é possível aquilatar-se o grau
de complexidade e abrangência de suas atividades, bem como avaliar os
problemas que, diuturnamente, devem ser superados para a manutenção
dessa importante missão de apoio, uma vez que a 12ª RM é responsável
por cerca de 25% do território brasileiro.
Isto posto, a estrutura que deveria existir, em termo de logística
para a Amazônia Ocidental seria: um batalhão logístico de selva para
cada grande unidade valor brigada existente.
Atualmente, o CMA estuda a Doutrina de Resistência, que
consiste, em linhas gerais, do emprego do Exército Brasileiro contra
uma força militar preponderantemente superior. O grande impasse
deste estudo está em estabelecer uma doutrina específica para a logística.
É um grande desafio, mas acredita-se que a busca de estratégias para
este impasse estejam no estudo de alguns fatos do passado.
A Doutrina da Resistência foi escalonada em cinco fases e para
todas estas fases a logística será o fator decisório. Desde já se tem que
reformular a logística para atender a Região Amazônica, caso contrário
a Doutrina de Resistência será feita com arco e flecha, no que de todo
não é impossível.
O Programa Calha Norte, órgão criado pelo Governo Federal
em 1985, teve como objetivo inicial atender à necessidade de promover
a ocupação e o desenvolvimento ordenado da Amazônia Setentrional,
respeitando as características regionais, as dificuldades culturais e o
meio ambiente, em harmonia com os interesses nacionais.
57
LOGÍSTICA NA AMAZÔNIA OCIDENTAL

Quando falamos em Amazônia, devemos levar em consideração


as peculiaridades da área, destacadamente quanto à hidrografia, ao clima
e meios de transporte.
O clima, com sua grande umidade, traz enormes dificuldades
para armazenar as diversas classes de suprimento. As chuvas causam
dificuldades de transporte em função do regime das águas dos rios. A
precária malha rodoviária da área obriga a utilização quase que exclusiva
do transporte de suprimento por meio de embarcações.
É, principalmente, através da rede hidrográfica que se dá a
mobilidade da força de trabalho e da circulação de cargas nesta região.
O entendimento da organização espacial aparentemente é
imutável, já que não houve aparecimento de novos núcleos urbanos,
nem construção de estradas e muito precariamente as vias navegáveis
foram modernizadas, a exceção do rio Madeira, que conta com um
projeto de navegação de alta tecnologia exclusiva para atender os
interesses dos produtores de soja do Mato Grosso.
O Departamento Nacional de Infra-estrutura de Transporte
(DNIT) estabeleceu as administrações hidroviárias, e para o caso da
Amazônia Ocidental, criou a Administração da Hidrovia da Amazônia
Ocidental (AHIMOC), cujos principais rios são: Solimões com
capacidade para duas mil toneladas/dia e Madeira com capacidade para
1,9 toneladas/dia; principais cargas: gás e derivados de petróleo; soja
(chapada dos Parecis) e carga geral. Seus principais portos são: Manaus
– AM; Porto Velho – RO; Tefé – AM e Itacoatiara – AM.
Para se estudar a estrutura de apoio logístico que a 12ª RM
desenvolve de modo a cumprir sua missão, é importante destacar
algumas condicionantes logísticas para a Amazônia Ocidental,
a saber: a adoção de métodos, processos e técnicas especiais nas
atividades da Logística; as dificuldades para manter a regularidade
do apoio, devido à imensidão da área; o planejamento centralizado
e a execução descentralizada e flexível decorrentes da diversidade
dos meios de transporte, e acima das grandes distâncias e a
manutenção nas OM fora das sedes, particularmente, naquelas de
fronteira (Pelotões Especiais de Fronteira), de elevados níveis de
suprimento.
58
A 12ª RM planeja e executa o apoio logístico baseado nas
peculiaridades da Amazônia. O principal modal da região é o hidroviário,
sendo que o transporte de frigorificados, até os Pelotões Especiais de
Fronteira, é realizado empregando-se à medida do possível o aeroviário.
O maior problema da área é o apoio à região de Cruzeiro do Sul – AC,
em virtude da grande distância e navegabilidade do rio Juruá (rio mais
sinuoso do mundo).
O Parque Regional de Manutenção da 12ª RM é a única OM
de manutenção da Amazônia Ocidental, e as bases logísticas existentes
na área exercem apenas as atividades de suprimento de gêneros
alimentícios.
A Comissão Regional de Obras da 12ª RM é responsável pelo
incremento da atividade de construção na Amazônia Ocidental.
Existe grande dificuldade no recrutamento de recursos humanos
na área de saúde, impondo à 12ª RM a convocação de oficiais médicos,
dentistas, farmacêuticos e veterinários de outras regiões militares
tributárias.
Atualmente, a Estrutura de Apoio Logístico do CMA é a seguinte:
a 12ª RM, com suas organizações militares diretamente subordinadas,
em Manaus; a 1ª Base Logística em Boa Vista; a 16ª Base Logística em
Tefé; a 17ª Base Logística em Porto Velho.
Empregam-se os meios aéreos disponíveis da Força Aérea
Brasileira e, excepcionalmente, os do 4º Batalhão de Aviação do
Exército, com sede em Manaus. Por intermédio do Plano de Apoio à
Amazônia (PAA), o CMA, a 12ª RM e o VII Comando Aéreo Regional
desencadeiam, bimestralmente, um planejamento para o transporte
de suprimento, com prioridade para gêneros frigorificados, com a
finalidade de suprir as unidades-sedes de base e sub-base logística.
Partindo de Manaus, aeronaves C-130 Hércules carregam
alimentos para Boa Vista, São Gabriel da Cachoeira, Tefé, Tabatinga e
Cruzeiro do Sul. A partir dessas localidades,, aeronaves C-115 Búfalo,
C-95 Bandeirantes, C-98 Caravan e C-91 Avro (já desativado), de
acordo com as disponibilidades, suprem todos os PEF desdobrados na
Amazônia Ocidental.
Na área abrangida pela 17ª Brigada de Infantaria de Selva
(Rondônia, parte do Amazonas e do Acre), esses gêneros são adquiridos
na própria região.
59
Empregam-se os meios orgânicos das OM subordinadas à 12ª
RM, principalmente o 12º Batalhão de Suprimento. Basicamente o
modal rodoviário é utilizado no suprimento de todas as classes, exceto
os perecíveis, à Guarnição de Boa Vista, através da BR-174, bem como
nas ramificações existentes entre São Gabriel da Cachoeira e Cucuí-
AM (hoje a BR 307 está inoperante); Porto Velho e Guajará-Mirim-
RO; Porto Velho e Rio Branco e nas ligações rodoviárias existentes
entre Rio Branco e Plácido de Castro, Assis Brasil e Epitaciolândia,
no Acre.
A Amazônia Ocidental, pela sua riqueza em hidrovias, possui
grande parte dos meios de transporte voltados para os principais rios.
Em Manaus, encontra-se o Centro de Embarcações do Comando
Militar da Amazônia (CECMA), unidade possuidora de diversos tipos
de embarcações táticas e logísticas, destacando-se, para a execução do
transporte de suprimentos, as balsas de 40, 60, 100, 150, 200 e 300
toneladas e seus empurradores.
O planejamento dos transportes hidroviários é atribuição da 12ª
RM, por meio do Centro de Coordenação de Transporte. Na execução
dessa atividade, o Centro coordena as ações do 12º B Sup, do CECMA
e de outros usuários do Sistema de Transporte Regional.
Trimestralmente (ou quando os rios permitem), partem
de Manaus com destino a Boa Vista, Porto Velho, São Gabriel da
Cachoeira, Tefé, Tabatinga e Cruzeiro do Sul embarcações conduzindo
suprimentos de todas as classes, principalmente equipamentos pesados,
viaturas militares, embarcações, material de construção, gêneros de
paiol em geral, óleos, combustíveis e outros.
A partir de Porto Velho – RO, a 17ª Base Logística suprirá as
guarnições de Guajará-Mirim e Rio Branco.
O quadro de isolamento da região amazônica ainda persiste nos
dias atuais, contudo, a situação vem evoluindo, a partir da conscientização
nacional de integrar a região ao restante do País. Desde a década passada,
o Exército, valendo-se de sua engenharia de construção, começou a
participar intensamente da abertura de estradas que visavam a romper a
dependência do transporte fluvial e interligar núcleos populacionais.
“A Logística na Amazônia é uma situação real de combate e
desde os tempos de paz, nos orgulhamos de fazê-la. SELVA!” (lema da
12ª RM).
60
O PROJETO DE LEI DE MOBILIZAÇÃO NACIONAL,
PERPECTIVAS PARA A AMAZÔNIA OCIDENTAL

O Projeto de Lei nº 2.272, de 2003, que dispõe sobre a Mobilização


Nacional e cria o Sistema Nacional de Mobilização (SINAMOB),
encontra-se em tramitação no Congresso Nacional.
O SINAMOB consiste no conjunto de órgãos que atuam de
modo ordenado e integrado, a fim de planejar e realizar todas as fases
da Mobilização e da Desmobilização Nacionais.
O SINAMOB, tendo como órgão central o Ministério da Defesa,
encontra-se sob a forma de direções setoriais que responderão pelas
necessidades da Mobilização Nacional nas áreas política, econômica,
social e psicológica, segurança e inteligência, defesa civil, científico-
tecnológica e militar.
É o conjunto de atividades planejadas, orientadas e empreendidas
pelo Estado, complementando a Logística Nacional, destinadas a
capacitar o País a realizar ações estratégicas, no campo da Defesa
Nacional, diante de agressão estrangeira.
Em tempos de normalidade,: funciona por meio da integração do
governo e toda a sociedade, procurando aplicar os recursos financeiros
dos Programas de Desenvolvimento Nacional em setores que também
atendam aos interesses da Defesa Nacional.
Durante um conflito, funciona por meio de um sistema entre
órgãos do Governo - o Sistema Nacional de Mobilização - de modo a
canalizar todos os recursos do País (humanos, financeiros e materiais),
para atender aos esforços contra agressão estrangeira.
Os propósitos do SINAMOB são, entre outros:
- garantir a defesa e a soberania do Brasil;
- desencorajar outros países na aplicação de forças contra nossos
interesses nacionais;
- minimizar os efeitos de uma agressão estrangeira à população
do País;
- dotar o País de uma base industrial, a fim de atender às necessidade
da nação, para o caso de ser envolvida em conflito internacional;
- promover conhecimento e inovações no campo de produtos de
defesa, de forma a evitar dependência externa;
61
- aumentar postos de trabalho, evitar a evasão de divisas e fomentar
o mercado interno de itens de produtos de defesa, incentivando a Pesquisa
e o Desenvolvimento em Ciência e Tecnologia, particularmente, em
produtos de defesa; e
- ganhar espaço na competição pelo mercado de material de
Defesa.
Encontra-se prestando serviço na Escola Superior de Guerra
(ESG) o coronel do exército da reserva José Everardo de Albuquerque
Montenegro, que na década de 80 do século passado participou do projeto
de implementação da Lei de Mobilização Nacional, quando servia, em
1985, na Secretaria-Geral do Conselho de Segurança Nacional, como
assessor de Mobilização Nacional. O coronel Montenegro é sem dúvida
a memória viva deste longo,mas contínuo processo de criação de uma
lei de Mobilização Nacional.
A integração do SINAMOB com a Amazônia Ocidental
começou, através do MD, no ano de 2005 com o Estágio Intensivo
de Mobilização Nacional, onde participaram vários representantes da
Sociedade Manauense, dentre eles, o Sr Flávio José Andrade Dutra,
Diretor Executivo e Administrador da Federação das Indústrias do
Estado do Amazonas (FIEAM).
Durante a apresentação para o Curso de Logística e Mobilização
Nacional (CLMN) da ESG, em outubro de 2006, Dutra (2006) destacou as
atividades desenvolvidas pela FIEAM, bem como o apoio que as indústrias
locais podem oferecer às Forças Armadas numa situação de emergência.
Neste contexto, observa-se que o Estágio Intensivo de Mobilização
Nacional, dirigido pelo Ministério da Defesa, que foi ministrado em
2005, já começou a surtir seus efeitos nas elites de Manaus.
Seguem-se alguns pontos levantados pelo Diretor Executivo da
FIEAM, em sua palestra ao CLMN, em 2006, sobre as possibilidades
do empresariado da Região Amazônica no atendimento a uma situação
de emergência às Forças Armadas:
- linhas de fardamento em geral;
- suprimento de materiais de limpeza, higiene e conservação;
- suprimento de sistemas de refrigeração e climatização;
- suprimento de transporte em base de duas rodas: imediato;
- suprimento na área de comunicações: telefonia fixa e móvel e
centrais de comunicação; entre outros.
62
O MD, através do Estágio Intensivo de Mobilização Nacional,
está sensibilizando parte da elite brasileira para a Mobilização Nacional,
a qual, ainda, carece de pessoas com esse sentimento vivificado,
principalmente o empresariado.
Acredita-se que com a criação de uma lei que desonere os
impostos sobre os produtos de defesa nacional, bem como com a
taxação de produtos importados (itens de defesa), a Indústria de Defesa
do Brasil, em especial a da Região Amazônica, crescerá.

OS PELOTÕES ESPECIAIS DE FRONTEIRA DA


AMAZÔNIA OCIDENTAL

A legislação que hoje trata da faixa de fronteira é a Lei n° 6.634/79,


regulamentada pelo Decreto n° 85.064/80, cujo teor foi ratificado pela
Constituição Federal de 1988. De acordo com essa legislação, a faixa de
até 150 km de largura ao longo das fronteiras terrestres é considerada
“fundamental para a defesa do território nacional”.
Com a finalidade de fortalecer o Poder Nacional na Faixa de
Fronteira e em suas vias de acesso, foi instituído um Projeto Especial
(Aumento da Presença Brasileira na Área) sob a responsabilidade das
Forças Armadas.
A estas Instituições, tradicionais e incansáveis guardiães das
fronteiras brasileiras, foram atribuídas as seguintes missões:
- intensificar as ações relativas à segurança da navegação;
- controlar as embarcações e realizar o policiamento hidroviário;
- executar os serviços de patrulhamento costeiro, fluvial e
lacustre;
- realizar a ocupação física dos pontos sensíveis na Faixa de
Fronteira;
- vigiar a fronteira;
- guardar as vias naturais de acesso ao território nacional; e
- manter a infra-estrutura aeronáutica adequada ao apoio dos
pontos sensíveis de interesse na Faixa de Fronteira e a preservação da
soberania do seu espaço aéreo.
Valendo-se de sua organização e articulação e fiéis à sua vocação
de solidariedade, as Forças Armadas deverão realizar as seguintes
atividades complementares:
63
- contribuir para a vivificação da faixa de fronteira e o
desenvolvimento da área;
- apoiar, logisticamente, os órgãos federais e estaduais na execução
de ações de governo, particularmente nos setores de educação, saúde,
transporte e telecomunicações; e
- manter a assistência às populações carentes situadas nas regiões
mais longínquas da faixa de fronteira.
Neste contexto, o EB instituiu os Pelotões Especiais de Fronteira
na faixa de fronteira da Amazônia. O comandante do PEF deve cuidar de
quatro campos de preocupações: operacional; administrativo; publico
interno e comunidade. Um grande fator de sucesso é cuidar para que
essas quatro facções caminhem juntas. O apoio e o assessoramento de
oficiais e sargentos do PEF, junto ao comandante, são primordiais para
o bom andamento das atividades em cada uma dessas áreas.
Como OM destacada e de pequeno valor, normalmente
empregada isoladamente em área de selva, o PEF deverá estar apto a
cumprir as seguintes missões:
1) vigiar pontos ou frentes limitadas;
2) reconhecer área, frente, eixo fluvial ou terrestre, dentro de sua
área de atuação;
3) defender as suas instalações contra a ação de Forças Adversas;
4) controlar a utilização do campo de pouso do PEF; e
5) controlar a pista de pouso na sua área.
A missão dos PEF não se limita ao campo da atividade militar
(combate), mas deve incluir, necessariamente, atividades ligadas à
sobrevivência (vida) e à execução de serviços diversos (trabalho) em
favor da OM e da comunidade civil que vive nas imediações dos
respectivos aquartelamentos. Assim, a missão do PEF pode ser expressa
em três palavras: VIDA, COMBATE E TRABALHO.
O cumprimento integral da missão do PEF somente poderá
concretizar-se por meio da dosagem equilibrada e harmônica do esforço
a ser desenvolvido em cada atividade básica acima citada.
Prioritariamente, o PEF tem que estar apto para o cumprimento
de sua missão de natureza essencialmente militar – o COMBATE. As
outras duas missões – VIDA e TRABALHO – assinalam o seu caráter
de OM de natureza especial e destinam-se à melhoria da qualidade de
vida e das condições de trabalho de toda a comunidade.
64
O cargo de comandante do PEF é privativo do posto de tenente,
sendo nomeados pelo CMA. Os comandantes dos Batalhões de Infantaria
de Selva deverão envidar esforços no sentido de que os comandantes
PEF sejam 1º tenentes de carreira, de Infantaria, com, pelo menos, um
ano de experiência em OM de selva. Sempre que possível, o oficial
comandante do PEF deverá possuir o Curso de Guerra na Selva (Guia
do Comandante de Fronteira. CMA. 2004).
Os PEF não possuem uma estrutura de logística própria, o
que leva a empregar o pessoal de seu efetivo para realizar esta tarefa.
Considerando o seu efetivo, uma parte deste é desviada para: os serviços
de horta, de rancho, de manutenção de Micro-central Hidrelétrica
(MCH), de manutenção da linha de transmissão das MCH, entre
outros.
São vinte e dois PEF e três destacamentos militares que garantem
as fronteiras da Amazônia Ocidental, e o mapa abaixo mostra suas
localizações.

Localização dos PEF e das guarnições Militares da Am Oc

65
REFLEXOS DA LOGÍTICA E MOBILIZAÇÃO NA AMAZÔNIA
OCIDENTAL NOS PELOTÕES ESPECIAIS DE FRONTEIRA

O Projeto Calha Norte (PCN) tem contribuído para a integração


da Região Norte do País com as demais Regiões, inclusive com outros
países vizinhos do norte do Brasil, mas a logística na Amazônia Ocidental
é muito complexa.
Atualmente o PCN está subordinado ao Ministério da Defesa
(MD) e tem como principais vertentes as seguintes:
a) Contribuir para a manutenção da Soberania Nacional e da
integridade territorial da região do Calha Norte; e
b) Contribuir para a promoção do desenvolvimento regional.
O objetivo do PCN é de aumentar a presença do Poder Público
na região do Programa Calha Norte, contribuindo para a Defesa
Nacional, proporcionando assistência às suas populações e fixando o
homem à Região.
Ciente de seu trabalho e da importância da Região Amazônica, o
PCN realizou varias tarefas, marcantemente no período de 2000/2004,
a saber, entre outras:
- construção de três pontes metálicas na BR – 307 (São Gabriel
da Cachoeira – Cucuí);
- construção do Pavilhão de Terceiros do 2º PEF do 5º BIS
(Querari – AM), fronteira com a Colômbia, que visa prover instalações
para órgãos institucionais tais como: Receita Federal, Polícia Federal,
Polícia Militar e Civil, SUCAM e outros;
- continuação da implantação da 16ª Bda Inf Sl (Tefé – AM) e de
unidades da 1ª Bda Inf Sl (Boa Vista – RR);
- término da implantação do PEF de Pari-Cachoeira – AM
(fronteira com a Colômbia);
- implantação de mais três PEF: Tunuí-Cachoeira – AM (fronteira
com a Colômbia), Uiramutã – RR (fronteira com a Guiana) e Tiriós
– PA (fronteira com o Suriname);
- implantação de uma Micro-central Hidrelétrica em Pari-
Cachoeira – AM (fronteira com a Colômbia);
- manutenção de instalações militares na área de fronteira (sistemas
de abastecimento d’água em proveito das populações ribeirinhas,
manutenção de escolas, ancoradouros e infra-estrutura básica); e
66
- manutenção de aeroportos e pistas de pouso na linha de
Fronteira (Colômbia, Venezuela, Guiana e Guiana Francesa).
Dentre os principais objetivos do Projeto Calha Norte, pode-se
citar o fortalecimento das relações bilaterais com os países vizinhos,
o aumento da presença brasileira na área, a ampliação da oferta de
recursos sociais básicos, a implementação de infra-estrutura básica na
região, a proteção e assistência às populações indígenas e a aceleração de
produção de energia local.
Assim, desde 1997 o PCN tem realizado o processo revitalizador
da Região Amazônica, contribuindo para a intensificação da logística
nestas áreas com reflexos para os PEF.
Atualmente o PCN firmou um convênio com a ELETRONORTE
e com o Ministério de Minas e Energia, através do Programa Luz para
Todos, visando a revitalizar as seis Micro-central Hidrelétricas (MCH)
existentes em seis PEF da Am Oc; construir mais seis Micro-central
Hidrelétricas, sendo uma na comunidade indígena de Tarauacá – AM
e construir uma Pequena Central Hidrelétrica (PCH) em São Gabriel
da Cachoeira – AM.
Abaixo são apresentadas as localidades onde serão revitalizadas e
construídas as MCH e a PCH.

Localidades onde serão revitalizadas ou construídas MCH e PCH

67
Ciente de que a matriz energética é que mantém o homem
na sua região, o PCN resolveu melhorar as condições de vida das
populações isoladas da Am Oc, cabendo aos PEF o gerenciamento
desta energia e ao PqRMnt/12 a manutenção especializada destas
MCH.
Com isto, o Estado começa a se fazer mais presente nestas áreas
longínquas do Brasil.

POLÍTICAS (P) E ESTRATÉGIAS (E) (PROPOSTAS)

P – 1: estudo da Doutrina da Resistência pelo Ministério


da Defesa, envolvendo todas as Forças Armadas e em âmbito
Nacional, não apenas pelo CMA.

Considerando o nível da força militar que invadiria o País,


todas as regiões brasileiras seriam afetadas, principalmente aquelas
que possuem indústrias de defesa e não apenas a Amazônia.Portanto,
uma Doutrina de Resistência deve desenvolvida, a partir de um grupo
de trabalho composto por elementos das três Forças Singulares, com
conhecimento operacional e logístico na Região Amazônica.
E – 1: estabelecer critérios do apoio logístico para um eventual
emprego da Doutrina de Resistência nas cinco fases existentes;
E – 2: reavivar o estudo do passado, como as guerrilhas dos
Guararapes – PE (emboscadas); as resistências francesa , na 2ª Guerra
Mundial, do Vietnã e do próprio Iraque, com a utilização de motocicletas
no transporte logístico e a utilização do habitante local como auxiliar
na aquisição de suprimentos, a fim de se estabelecer contínua linha de
apoio às forças em combate;
E – 3: fomentar a capacitação técnica dos militares de logística
nos diversos setores e funções da logística, sejam estes da atividade
meio ou fim; e
E – 4: capacitar os militares de logística que servem na Amazônia
com operações específicas para o emprego da logística.

P – 2: reestruturação da logística na Amazônia Ocidental,


para atender as quatro brigadas e um grupamento de engenharia
existente.
68
Atualmente a capacidade logística da Am Oc está aquém das tropas
existentes nesta área, o que acarreta emprego das OM operacionais com
restrições e limitações.
E – 1: transformar as bases logísticas existentes em batalhões logísticos
de selva, com capacidade de desdobrar até três Sub-área de Apoio Logístico
(SAApLog), desonerando os encargos logísticos do PqRMnt/12 que ficaria
vocacionado para o emprego em terceiro e quarto escalão;
E – 2: criar um Batalhão Logístico de Selva, desde já, com sede
em São Gabriel da Cachoeira – AM, para atender a recente criada 2ª
Bda Inf Sl e suas outras duas futuras OM operacionais;
E – 3: elaborar um Plano de Capacitação Continuada com enfoque
na logística, para adequar o emprego de pessoal cada vez mais especializado.
A qualificação técnica demandada nas atividades desenvolvidas pela
Instituição, e a necessidade de um pronto-atendimento, a existência
de um efetivo suficiente e qualificado é uma premissa para garantir a
segurança do emprego das OM operacionais; e
E – 4: elaborar estudo que contemple os cursos e treinamentos de
interesse das Instituições, disponíveis nos diversos segmentos da sociedade,
destacando as características de cada curso, o grau de importância, a
Instituição responsável pelo curso, o local de realização e custos.

P – 3: revigoramento do apoio logístico até os PEF, com a


criação de Destacamento Logístico Avançado (DLA).

Por definição, DLA é a instalação logística que visa a proporcionar


apoio cerrado e contínuo aos elementos de primeiro escalão de
uma Brigada ou DE realizando atividades das funções logísticas de
suprimento, saúde e recursos humanos, essenciais à manutenção do
poder de combate do elemento apoiado (ME 29-3 - O Ap Log na DE e
na Brigada, edição 2002 - ECEME).
No contexto da Am Oc, a manutenção também faria parte deste
destacamento, uma vez que as distâncias e os meios de transporte são
deficitários nesta região.
E – 1: atender aos PEF com o DLA como a instalação logística, nível
segundo escalão, que suprirá as necessidades básicas dos Pelotões; e
E – 2: cerrar o apoio até os PEF, desonerando seus militares para
a atividade fim dos pelotões.
69
E –3: elaborar projeto de reequipamento operacional, com foco
na qualidade e padronização dos equipamentos.

CONCLUSÃO

No livro “O Mundo é Plano: uma breve história do século


XXI”, Thomas L. Friedman, trata sobre um processo denominado
“insourcing” (internalização) que é uma nova forma de colaboração e
criação horizontal de valor, possibilitada pelo achatamento do mundo
e ao mesmo tempo contribui ainda mais para o seu nivelamento.
Em seu livro, Friedman (2006) esclarece que com o
achatamento do mundo, quanto ao aspecto da globalização, os
pequenos empresários começaram a poder pensar grande, isto é,
as pequenas empresas adquiriram uma visão global e passaram a
enxergar muitos lugares para onde vender seus produtos, ou fabricá-
los com maior eficiência.
Ele cita a “United Parcel Service” (UPS), empresa fundada em
Seatle, Estados Unidos da América, em 1907, como um serviço de
mensageiros, e que se reinventou em 1996, quando entrou no ramo
das “soluções de comércio sincronizado”. Desde então, já adquiriu
vinte e cinco diferentes empresas globais de logística e frete, num
investimento de um bilhão de dólares, percorrendo de um canto a
outro do mundo plano.
Friedman (2006) aprecia o termo “internalização” porque os
engenheiros da UPS penetraram no coração da empresa e analisaram
seus processos de fabricação, embalagem e remessa para então estruturar,
reestruturar e gerenciar sua cadeia de fornecimento global inteira.
Esta situação é confirmada com a parceria que a UPS fez com
a Toshiba, relata o autor do livro, em que após treinar funcionários
da UPS, passou a realizar a manutenção em laptops da Toshiba que
estavam com defeito, mas ainda na garantia. O resultado foi que
algumas etapas do processo de remessa do laptop até a Toshiba foram
eliminadas, conseqüentemente, o laptop Toshiba é enviado num dia,
consertado no dia seguinte e no terceiro dia está de volta ao cliente. O
resultado foi óbvio: as reclamações dos clientes despencaram.
O sistema acima apresentado pode ser implementado nos PEF
com a utilização dos Destacamentos Logísticos Avançado. Muito terá
70
que ser estudado e praticado até conseguir o rendimento ideal, porém
é possível.
As Brigadas de Infantaria de Selva operam em largas frentes e
grandes profundidades, da ordem de centenas de quilômetros. Suas
unidades operam descentralizadamente, apoiando-se nos rios, em
compartimentos diferentes do terreno. O apoio deverá ser realizado
utilizando como vias de acesso e estradas principais e alternativas de
suprimento ou evacuação os rios, empregando meios de transporte de
grande capacidade, mas lentos. O ambiente agressivo da selva aumenta,
por si só e consideravelmente, a necessidade de apoio logístico. Isso
levou a doutrina, sabiamente, considerar que, diferente dos batalhões
logísticois dos demais Teatro de Operação, os batalhões logísticos de
selva devem ter a capacidade de manter, por períodos indeterminados
de tempo, até três Sub-Áreas de Apoio Logístico (SAApLog).
A partir do início da mudança de prioridade de defesa da
Amazônia, houve um verdadeiro interesse em enviar tropas de
Infantaria para a área, mas omitindo o apoio mínimo necessário.
Uma idéia inadequada levou a que se considerasse que as
unidades de infantaria leve (no caso as de selva) deveriam ter o
mínimo possível de apoio orgânico, já que essas unidades não
possuem condições de realizar o percentual mínimo doutrinário de
manutenção orgânica e possuir grande dificuldade na execução dos
transportes de suprimento.
O apoio de 2º escalão da Brigada foi entregue a uma estrutura
nova, a base logística, na verdade uma SAApLog, apta a apoiar uma
direção. Mesmo essa estrutura insuficiente, no momento tem
suprimida a maior parte de seu efetivo previsto e, como conseqüência,
não realiza todas as funções logísticas sob sua responsabilidade.
O apoio, mesmo que realizado pelas brigadas, não poderá
jamais ser considerado cerrado, pelas enormes distâncias envolvidas.
Considera-se salutar que as brigadas participem dessas funções, como
elo na cadeia logística, uma vez que são elas que devem coordenar
a manobra com o apoio e, também, por ser o escalão que possui o
comando e a capacidade efetivas de exigir dos escalões subordinados a
execução correta de seus encargos.
Por outro lado, passar a manutenção de 2º escalão para as OM,
isto sim tornará mais pesadas as unidades de selva.
71
A idéia de que uma única OM possa, se possuir meios
suficientes, apoiar uma área onde não existe nenhum tipo de facilidade
e representa cerca de 25% do território nacional, não é compatível com
a realidade (nem mesmo a primeiro olhar no mapa), principalmente
pela dificuldade de coordenação e controle. Não se conhecem casos,
em outros países, em que uma estrutura com tal concepção tenha
sido utilizada e funcionado com eficiência. Considera-se que a
grande estrutura necessária para essa tarefa possuiria enorme falta de
flexibilidade, constituindo-se em entrave para as decisões e ações de
combate, que se pressupõe devam ser ágeis e flexíveis.
A atual doutrina de apoio logístico é válida também para área de
selva, devendo a brigada de infantaria de selva ser elo na cadeia de apoio
logístico e possuir um batalhão logístico com capacidade suficiente de
desdobrar, por períodos indeterminados (mas, em princípio longos)
de tempo, o número necessário de SAApLog, para atender a todas as
direções em que tiver seu emprego previsto por Hipótese de Emprego,
a fim de prover o apoio mais cerrado possível, bem como flexível o
suficiente para atender, tempestivamente, as injunções do combate e,
em tempo de paz, criar uma adequada mentalidade de manutenção e
evitar os prejuízos ao erário causados pela decomposição acelerada de
material caro e de difícil substituição.
Quanto à Lei de Mobilização Nacional, encontra-se ainda como
um Projeto de Lei há quatro anos na Câmara dos Deputados. Só após
a sua aprovação por parte da Câmara dos Deputados, o Projeto de
Lei passará pelo Senado Federal, a fim de ser aprovado, para se ter,
finalmente, uma Lei que regulamente a mobilização no País.
Até que isto ocorra, o Ministério da Defesa estabeleceu órgãos
nas Forças Armadas que comecem a regularizar a mobilização e, para
o Exército, foi criado o Sistema de Mobilização do Exército, apesar
de existir a cerca de 26 anos (IG 20-07 – Sistema de Mobilização do
Exército), carece de uma profunda revisão, o que está acontecendo
com a criação do grupo de trabalho para estudar e propor atualizações,
melhorias e inovações neste Sistema, desde o início de 2006.
Espera-se com este trabalho em estudo pelo Exército, preencher
parte da lacuna que é a falta da existência da Lei de Mobilização Nacional.
A experiência adquirida durante os três anos de Amazônia
Ocidental, dois anos na Amazônia Oriental e a experiência de mais
72
de dezoitos anos como oficial de logística, leva o autor deste artigo a
acreditar que a solução mais simples, com observação dos detalhes, é
a mais eficiente para o emprego da logística. O estudo, a dedicação e
a perseverança, aliados a uma boa dose de ousadia é o caminho para
uma logística eficiente em qualquer ramo de atividade.

“Qualquer coisa que você fizer será


insignificante, mas é muito importante que
você faça a sua parte” (Gandhi).

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6023: informação e documentação: referências: elaboração. Rio de
Janeiro, 2002a.

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______.Ministério da Defesa. Disponível em: www.defesa.gov.br.


Acesso em: 10 e 11 de out. de 2006.

75
As Comunicações e a Mobilização
Nacional - Ênfase nas
Comunicações Estratégicas

FILHO, Nivaldo Pinto Nogueira – Major do Quadro de Engenheiros Militar do Exército


Brasileiro, cursou a ESG em 2006 no Curso de Logística e Mobilização Nacional. As
Comunicações e a Mobilização Nacional – Ênfase nas Comunicações Estratégicas. Rio
de Janeiro (RJ). Escola Superior de Guerra. 2006. Curso de Logística e Mobilização
Nacional.
E-mail: npnf@ig.com.br

Resumo Informativo

As Comunicações, em especial as Estratégicas tratadas, neste


artigo, possibilitam uma plena interação entre as cinco Expressões do
Poder Nacional. Elas permitem a ligação do teatro de operações com
os dirigentes da Nação, proporcionando as informações necessárias
para a tomada de decisão. O estudo da atuação das comunicações no
Poder Nacional é de vital importância para que a Nação se desenvolva.
A infra-estrutura atual implantada atende aos interesses corporativos
orientado pelo Plano de Universalização das Telecomunicações,
porém não atende aos interesses da Mobilização Nacional. O esforço
da nação deve estar direcionado no sentido de adequar e implementar
a infra-estrutura existente para promover a plena Integração
Nacional. Assim, como promover a capacitação dos operadores, para
plena utilização dessa rede de informações? A literatura técnica, em
sua maioria, trata de meios de transmissão existentes, da capacidade
técnica e da forma de processamento do sinal. Existem manuais do
Exército Brasileiro que abordam o emprego das comunicações em
ambiente tático. Porém, faltam informações quanto ao emprego
das Comunicações numa Mobilização Nacional. A infra-estrutura
existente não está preparada para propiciar os fluxos contínuos de
dados e integrar as informações provenientes do ambiente nacional
e da área de conflito. As principais características e os princípios
76
básicos da Mobilização Nacional, tratados de forma genérica nos
manuais e notas complementares da Escola Superior de Guerra,
foram considerados, neste artigo, sob o enfoque das Comunicações
Estratégicas. Os objetivos deste trabalho visam a estabelecer relações
entre os fundamentos, conceitos e dados das Comunicações com a
doutrina de Mobilização Nacional. O resultado advindo deste estudo
permitirá o aperfeiçoamento, a atualização e a evolução da Doutrina
de Mobilização Nacional, através da formulação do Plano Setorial das
Comunicações. O Brasil possui modernos sistemas de comunicações,
citados nesta pesquisa, que estão dispostos em todo seu território,
mas que necessitam de adaptação e complementação de meios de
transmissão para garantir o funcionamento e a segurança dos sistemas
de comunicações durante a Mobilização Nacional. Essa reflexão
é o resultado da análise comparativa dos dados pesquisados através
da metodologia bibliográfica-documental, e utilização de técnicas
indiretas com aplicação de conhecimentos da atuação profissional
do autor graduado em Engenharia de Telecomunicações no Instituto
Militar de Engenharia (IME), que atuou nas seguintes funções: Chefe
da Estação do Sistema de Comunicações Militares (SISCOMIS) do
Comando Militar do Leste (CML), Chefe da Estação Rádio do CML,
Chefe da Estação Rádio Troncalizado do CML, Chefe da Seção de
Manutenção Rádio e Chefe da Seção de Telecomunicações do 2º
Centro de Telemática de Área, com diversos projetos desenvolvidos
na área.

A FASE DE PREPARO DA MOBILIZAÇÃO NACIONAL

A Doutrina de Mobilização Nacional merece destaque especial


no tocante à fase de preparo. O tempo, nesta fase, favorece as ações
e, enquanto houver paz, a Nação pode preparar-se para um possível
emprego.
A Mobilização Nacional possui um aspecto de suma importância
que deve ser ressaltado: o fato de que ela exige um planejamento
adequado das atividades relacionadas, desde a época de normalidade,
para que seja assegurada eficácia quando de sua execução.
A ação de prevenir, neutralizar e eliminar as ameaças que surjam
na vida das nações, não deve ficar ao sabor das improvisações. O preparo
77
dessas atividades relacionadas com a Função Logística de Comunicações
é, portanto, uma exigência continuada variando conforme a intensidade
dos óbices.
As ações estratégicas no preparo exigem que as nações mantenham
alguns meios de transmissão de comunicações permanentemente
voltados para a finalidade da Mobilização Nacional. Ao mesmo
tempo, será necessário que meios alternativos de transmissão sejam
disponibilizados para atuarem como reserva.
Medidas que incentivem e fortaleçam o Poder Nacional
e auxiliem a transformação do Potencial em Poder devem ser
efetivadas.
No que tange à Expressão Política, a atividade de mobilização
nacional conduz à necessidade de uma estrutura organizacional e
funcional aptas a exercerem a orientação, coordenação e direção de
suas atividades. A Lei que dispõe sobre a Mobilização Nacional e cria
o Sistema Nacional de Mobilização, o SINAMOB, quando aprovada,
dará o respaldo legal para a formulação da Política de Mobilização
Nacional. Dessa forma, o Ministério das Comunicações regulamentará
as atividades a serem planejadas para atender a Função Logística de
Comunicações.
A regulamentação setorial facilitará que o órgão responsável pelas
comunicações estratégicas do Brasil planeje a verificação e levantamento
de dados das redes, sistemas, meios de transmissão disponíveis e meios
reservas.
Na Expressão Econômica, as ações da Mobilização Nacional
têm como principais finalidades o que se segue: fabricação de materiais
críticos e estratégicos no país, incentivação da pesquisa, desenvolvimento
e produção de meios alternativos de comunicações, adequação da infra-
estrutura das redes e sistemas de comunicações, compatibilização dos
interesses do preparo da mobilização com os da nação, aumento da
produção, padronização e nacionalização de componentes e tecnologias,
desenvolvimento da ciência e tecnologia, cadastramento industrial do
setor e preparação para um possível corte dos insumos e equipamentos
hoje importados.
As comunicações deverão ser modernizadas e preparadas para
uma provável transformação e o esforço da Nação deve ser impelido a
fim de reforçar e ampliar todos os meios de transmissão. Caso ocorra o
78
impedimento da utilização de qualquer um dos meios de transmissão,
haverá necessidade de existir outro reserva para carrear o tráfego de
informações através desse outro sistema.
O Brasil por ser um País de dimensão continental possui
diversidade de meios de comunicações para integrar suas Regiões. Os
fluxos de informações trafegam entre as capitais por meio de cabos
ópticos e devido ao alto custo de investimento, o mesmo ainda não
ocorre nas localidades mais afastadas dos grandes centros.
Assim como a Segunda Revolução Industrial dependeu
economicamente da construção de grandes infra-estruturas para o
transporte de mercadorias, a Mobilização Nacional dependerá da
montagem de uma grande infra-estrutura de comunicações, capaz de
transportar e armazenar grandes quantidades de informações de uma
rede.
A construção desta infra-estrutura de comunicação estratégica
interativa é uma tarefa de engenharia e um desafio à nação brasileira.
Na Expressão Psicossocial, a Mobilização Nacional visa à inserção
da sociedade num contexto de participação através da conscientização
e motivação, tendo como estímulo a possibilidade da ocorrência de
guerra que envolva o País.
Ao mesmo tempo em que são realizadas as melhorias da infra-
estrutura das comunicações, a Sociedade sentirá o forte impacto das
novas tecnologias que promovem o acesso a serviços como internet,
voz sobre internet protocolo (IP), teleconferência, e outros, no novo
ambiente social criado, com forte apoio à cultura e formas de convívio.
Como exemplos, existem duas novas infra-estruturas de comunicações
que estão sendo estabelecidas e trazendo um novo grau de acesso à
informação: as redes celulares e as redes de fibras ópticas. O miolo
ou espinha dorsal dessas infra-estruturas é a Rede Digital de Serviços
Integrados (RDSI) em banda larga. As nações do primeiro mundo,
notadamente os EUA, já estão com suas infra-estruturas dessas redes
estabelecidas em nível nacional e através da intercomunicação destas,
em nível mundial, mediante a construção das chamadas information
highways.
O advento das comunicações com fibras ópticas no último
quarto do século XX e o surgimento de técnicas celulares permitindo
a exploração inteligente do espectro de freqüência, estão alterando
79
radicalmente o papel das comunicações com fio. O aumento da
capacidade das fibras ópticas e o aperfeiçoamento de técnicas de
interconexão óptica farão da rede óptica o meio de transmissão
preferido para a difusão de informação de massa e o trânsito de
grandes fluxos de tráfego de voz, dados e imagem. Aos poucos a rede
de fios instalada será convertida em rede de acesso à malha óptica.
A sobrevida da planta de fios metálicos dependerá da rapidez com
que forem lançados os novos serviços e da faixa de freqüência que
estes serviços demandaram e do sucesso das técnicas de codificação
e processamento de sinais que buscam explorar até o último bit por
segundo a capacidade dos fios metálicos.
Estes empreendimentos são essenciais para habilitar, no sentido
técnico, o acesso da Sociedade aos novos serviços de comunicações e
assim promover maior integração nacional, melhorar a educação, saúde,
sentimento cívico, estimular a melhoria da mão-de-obra e formação
profissional necessária às atividades de interesse da Mobilização e
atingir localidades brasileiras inóspitas por ocasião de uma Mobilização
Nacional.
A Expressão Militar do Poder Nacional será fortalecida na medida
em que as Comunicações Estratégicas propiciarem ligações eficientes
com as Comunicações Táticas, permitindo que as informações em voz,
dados e imagem advindas do Teatro de Operações sejam processadas e
as ações de Comando sejam eficazes.
Na Expressão Científica e Tecnológica, devem ser direcionados
incentivos para fomentar pesquisas e intercâmbio tecnológico para
manter o setor de comunicações atualizado. Outra medida fundamental
que deve ser acompanhada pelo órgão fiscalizador e normativo do setor
é o treinamento para aumentar a eficácia dos recursos humanos, em
todos os níveis de qualificação, que é condição essencial à geração,
transferência e utilização eficaz dos conhecimentos científicos e
tecnológicos das comunicações estratégicas. A Nação deverá realizar
exercícios de Mobilização e avaliar suas atividades, gerando relatórios
e discriminando possíveis ações a realizar como forma de treinamento
conjunto. O Ministério das Comunicações deverá consolidar um
plano emergencial de mobilização das comunicações onde estarão
catalogados todos os equipamentos, recursos humanos e sistemas
pormenorizados.
80
A FASE DE EXECUÇÃO DA MOBILIZAÇÃO NACIONAL

Em situação de emergência, uma vez decretada a Mobilização


Nacional, o Sistema Nacional de Mobilização conduz sua execução,
visando a implementar Ações Estratégicas de Emergência.
As atividades nesta fase podem causar transtornos à vida nacional
e são, conseqüentemente, dependentes da maneira como o preparo da
Mobilização, em grande parte inserida no contexto do desenvolvimento,
for planejado e executado.
Na decretação da Mobilização Nacional, o Poder Executivo
convocará os entes federados para integrar o esforço da Nação em
resposta à agressão estrangeira, que em ritmo acelerado reorientará
a produção, o comércio, a distribuição e consumo dos bens e a
utilização dos serviços. Dessa forma, poderá haver requisição de bens
e serviços de comunicações, que por serem imprescindíveis comporão
as Comunicações Estratégicas, fundamentais para a consecução dos
objetivos da Nação.
As comunicações nesta fase deverão realizar as seguintes
atividades regulamentadas e previstas nos planos de mobilização do
setor: a transmissão de notícias e informações ocorrerá através dos
meios disponíveis de transmissão a todo o país; a convocação de civis
e militares para mobiliar a Defesa Nacional; a coordenação do tráfego
de mensagens advindas do campo tático e do campo estratégico;
a manutenção dos enlaces em operação, realização de testes e
manutenção dos enlaces reserva para que estejam em condições ótimas
de funcionamento e garantir os enlaces; o treinamento e a capacitação
de pessoal para que as comunicações não sofram interrupção e os
dados sensíveis sejam resguardados. Daí a necessidade de capacitação
de especialistas para salvaguardarem as informações, e as estações e
instalações de comunicações devem possuir sistema de fornecimento
de energia reserva.
A Mobilização na Expressão Política deverá permitir à Nação
fazer face às modificações necessárias à passagem do estado de paz para
o de guerra.
Após a correta dimensão do tráfego de informações, feita na fase
de preparo, o Poder Executivo deverá concentrar maior trâmite devido
à grande concentração de autoridades.
81
A adequação das atividades legislativa, executiva e judiciária
deverá conciliar medidas restritivas das Comunicações, adotadas em
decorrência das necessidades surgidas, e o respeito aos direitos do
cidadão.
As comunicações ajudarão a eficiente integração e coordenação
entre os Poderes do Estado e entre os diversos níveis de administração.
No campo de execução da Mobilização Política Externa, as
comunicações têm os seguintes papéis: aprimoramento da função
diplomática, tendo em vista sua adequação à conjuntura que já está
vigente; a capacidade de realização de sondagens da mídia e propaganda
externa; e, forma de atuação estratégica a elaboração de ações especiais,
explorando os antagonismos existentes buscando a adesão de outros
países à causa nacional ou isolamento do país inimigo de seus possíveis
aliados.
Na fase de execução da Mobilização Econômica, as comunicações
terão papel essencial nos seguintes aspectos: na passagem da estrutura
econômica de paz para a de guerra; implantação do regime de
Economia de Guerra; na execução das atividades financeiras planejadas;
no incentivo e controle da produção e logística; na execução de
racionamento de insumos estratégicos; no controle da maximização
da Logística da Função de Transportes e da Função de Comunicações;
na gerência econômica emergencial e acompanhamento acirrado da
Mobilização Industrial; e, na limitação de certas liberdades individuais
que permitirão ao Estado intervenção mais ampla na vida econômica
do País.
Nessa fase, as comunicações criarão as condições para uma
acelerada e eficaz adaptação da economia brasileira.
A formação e consolidação de uma mentalidade de mobilização
são imprescindíveis na fase de execução da Mobilização Psicossocial.
Daí o papel das Comunicações permitirem a motivação da população
para as atividades e a obtenção do entendimento e compreensão do
povo para as medidas substantivas que o Estado tiver que determinar,
buscando seu consentimento e sua participação.
As comunicações deverão, nesta fase, empreender as seguintes
medidas: informar ao público sobre as necessidades prementes e
as providências adotadas; intensificar o controle e a orientação dos
meios de comunicação de massa; estabelecer a censura dos meios
82
de comunicação social e nos serviços postais; desenvolver o espírito
de patriotismo; adaptar o sistema de educação nacional; engajar a
população no esforço de guerra; minimizar os efeitos da propaganda
alarmista; aplicar a técnica da manutenção da fisionomia da frente
nas comunicações, que é simular uma absoluta normalidade no
quadro geral da situação do País de forma a abalar psicologicamente
o inimigo; adotar medidas visando a obter simpatias no exterior para
a causa nacional; e, proporcionar campanhas internas para qualquer
necessidade de Mobilização Social.
A execução da Mobilização Militar tem a finalidade de mobilizar
o pessoal, material e serviços necessários para as Ações Estratégicas de
Defesa, para fazer face à declaração de estado de guerra ou agressão
armada estrangeira.
Na Mobilização de Pessoal, as Comunicações auxiliarão com
as seguintes atividades: com o trabalho de convocação, incorporação
e distribuição dos efetivos de acordo com o planejado; com o trabalho
de classificação e reclassificação do contingente a ser incorporado ao
serviço ativo; com a requisição e distribuição dos contingentes de mão-
de-obra civil; com o adestramento da reserva convocada; e, com o
prosseguimento no enquadramento e controle das reservas ainda não
reativadas.
Na Mobilização de Material, as Comunicações auxiliarão com
as seguintes atividades: obtenção do material previsto, conforme
o planejado; mobilização das indústrias de material de defesa; e,
mobilização das indústrias civis de interesse militar.
Na Mobilização de Serviços, as Comunicações auxiliarão com
as seguintes atividades: na integração dos sistemas de comunicações
táticos e estratégicos; no auxílio da mobilização das instalações de órgãos
logísticos; na mobilização dos órgãos de pesquisa e desenvolvimento
de materiais, equipamentos, armamentos e engenhos; e, na execução
das medidas necessárias à aceitação, ao controle e à mobilização dos
serviços públicos e privados de interesse militar.
Na execução da Mobilização na Expressão Científica e
Tecnológica, as Comunicações têm a finalidade de auxiliar: na execução
das atividades planejadas, necessárias à obtenção de recursos humanos,
financeiros e materiais, se necessário, do exterior; incrementar a
pesquisa e o desenvolvimento de novos “Sistemas de Armas”, incluindo
83
tecnologia avançada; na adoção de medidas destinadas a prevenir a
carência de insumos estratégicos e críticos, bem como outros recursos
nacionais ou de origem estrangeira; e, na destinação prioritária dos
recursos científico-tecnológicos para o esforço de guerra.
Algumas ações estratégicas são propostas para permitirem a
implantação das Comunicações Estratégicas no país:

a) Na fase de Preparo

- Incentivo à indústria eletrônica e à produção de insumos críticos


e estratégicos.
- Incremento à pesquisa aplicada nas comunicações e o desenvol-
vimento tecnológico de materiais de defesa.
- Dinamização das comunicações por meio de alocação de Encomendas
Educativas que permitam o desenvolvimento das seguintes tecnologias:
alto tráfego de informações (voz, dados e imagem);
diminuição de custos de implantação de fibras ópticas;
integração dos Sistemas de Comunicações;
produtividade de software;
fotônica para emprego em redes ópticas;
simulação e modelagem das redes de comunicações;
proteção eletromagnética dos meios de comunicações;
processamento de sinais;
tratamento de dados;
controle de assinaturas, senhas e informações de segurança; e
pesquisa de materiais de alta densidade energética, para garantia
da manutenção prolongada do funcionamento dos enlaces, quando
houver corte da energia em situação crítica.
- Adequada formação de reservas civis e militares.
- Ampliação da infra-estrutura das Comunicações Estratégicas.
- Previsão das ações a serem adotadas, visando a gerar meios
adicionais, através do acompanhamento da atividade de Logística
Nacional dos recursos e meios escassos.
- Fixação dos níveis de Mobilização do setor a serem atingidos
por ocasião da execução da Mobilização.
- Elaboração de medidas que fortalecem o Poder Nacional, no
campo da Segurança das Informações.
84
- Formação de recursos humanos especializados.
- Elaboração de estudos considerando as estratégias alternativas
e a preparação dos instrumentos legais específicos a serem instituídos,
caso seja decretada a Mobilização.
- Previsão dos meios e recursos a serem transferidos do Poder
Nacional, para que sejam atingidos os níveis de Mobilização adequados.

b) Na fase de Execução

- Definição dos aspectos do desencadeamento da Mobilização


Nacional do Setor de Comunicações.
- Efetivação da integração do Sistema Estratégico de Comunica-
ções com o Sistema Tático de Comunicações.
- Preparação para a Desmobilização Nacional.

CONCLUSÃO

As Comunicações ratificam e dão sentido aos fundamentos da


Mobilização Nacional, na medida em que se alinham com sua doutrina,
favorecendo seus princípios básicos e reforçando suas características.
As Comunicações Estratégicas devem ser concebidas, implantadas
e mantidas a qualquer custo, para garantir a Mobilização e Desmobilização
Nacional, disciplinando e sistematizando suas atividades.
A escolha dos meios de transmissão a serem empregados na
Comunicação Estratégica deve se basear na avaliação das características
técnicas, que assegurem o nível de segurança necessário para garantir
o comando e o controle das operações. Este planejamento deve levar
em consideração as seguintes questões: a distância entre os pontos de
comunicação, o alcance da transmissão conforme a freqüência adotada, o
tipo e quantidade de informações, a suscetibilidade do enlace a interferências,
o grau de sigilo das informações, a infra-estrutura de implantação e de
manutenção do enlace considerando sua viabilidade técnica e custo. Além
do meio de transmissão principal escolhido, deverão ser considerados meios
reservas que garantam opções alternativas para o tráfego de informações.
A aprovação da lei que cria o Sistema Nacional de Mobilização
(SINAMOB) e que dispõe sobre a Mobilização Nacional, dará o respaldo
legal para que o Setor das Comunicações regulamente a implantação
85
das ações de Comunicação Estratégica. Para tal, é necessária uma ação
decisiva por parte do Ministério das Comunicações na Expressão
Científico-Tecnológica que defina padrões técnicos e oriente políticas
de desenvolvimento tecnológico. O custo da implantação do conjunto
de ações para Comunicações Estratégicas é alto, mas torna-se barato
quando comparado com investimentos para soerguer o País no caso de
derrota em um conflito.
As Comunicações Estratégicas atendem não somente as
necessidades do Estado em Mobilização Nacional, como também
permitem a interação entre todas as Expressões do Poder Nacional.
A infra-estrutura a ser implantada deverá ser capaz de fornecer
condições para o tráfego das informações e permitir ao Estado conduzir,
através das cinco expressões do Poder Nacional, o destino do País. Na
Mobilização Política Interna as Comunicações Estratégicas devem
permitir uma ampla atuação do Poder Executivo e na Mobilização
Política Externa permitir ao Estado realizar, em plenitude, sua diplomacia
em defesa da soberania e independência nacionais. No que se refere à
Mobilização Econômica, as Comunicações permitirão a continuidade
das atividades financeiras. A Mobilização Psicossocial, através das
comunicações, estabelecerá um ambiente necessário para a motivação
e dissuasão da população. A Mobilização Científico-Tecnológica
permitirá a geração, transferência e utilização eficaz dos conhecimentos
científicos e tecnológicos que, através das Comunicações, trafegarão
entre os ambientes tático e estratégico.
A Mobilização Militar compreenderá atividades de caráter
geral e específica. As de caráter geral compreendem a formação
e cadastramento de reservas aptas; busca de padronização e
nacionalização de materiais e itens de interesse militar; colocação
de encomendas educativas na indústria e fomento de pesquisas e
desenvolvimento tecnológicos de interesse militar. As atividades
específicas compreendem a Mobilização de Pessoal, de Material,
a Mobilização de Instalações, Órgãos e Serviços, Transportes,
Comunicações, Construções e outros. Essas atividades somente
serão possíveis graças às Comunicações Estratégicas.
Nas guerras atuais, os sistemas de comunicações estratégicos das
nações têm sido alvos de destruição dos primeiros ataques inimigos,
com a finalidade de impedir o tráfego de informações para tomadas de
86
decisões e inibindo o poder dissuasivo das comunicações, dificultando a
articulação das defesas do país e impedindo a mobilização das expressões
do poder nacional.
Torna-se, portanto, explícita a importância do preparo da infra-
estrutura, a implantação dos meios de comunicações, a necessidade
de estabelecer meios alternativos como reserva, para que ações sejam
capazes de validar a Mobilização das Comunicações Estratégicas a nível
Nacional.
Para finalizar, a efetivação das ações estratégicas, realizadas
dentro de um planejamento eficaz, permitirá que a infra-estrutura das
Comunicações seja plena na Mobilização Nacional e, ainda, nos tempos
de paz, assegure o desenvolvimento nacional.

REFERÊNCIAS

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87
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ZENTGRAF, Maria Christina. Técnicas de Estudo e Pesquisa Aplicadas


ao Marketing. Curso de Pós-Graduação a Distância (extensão). Rio de
Janeiro: UVA/CEP, 2001.

88
Os Recursos Petrolíferos Brasileiros e a
Mobilização Nacional

BORGES, Roberto Guimarães – Tenente-Coronel de Comunicações do Exército


Brasileiro, cursou a ESG em 2006 no Curso de Logística e Mobilização Nacional. Os
Recursos Petrolíferos Brasileiros e a Mobilização Nacional. Rio de Janeiro (RJ). Escola
Superior de Guerra. 2006. Curso de Logística e Mobilização Nacional.
E-Mail: rdlpborges@ig.com.br

Resumo Informativo

O objetivo deste artigo é verificar a situação da indústria


petrolífera brasileira, identificando os óbices que possam
prejudicar o seu bom funcionamento e, conseqüentemente,
o suprimento à cadeia Logística e de Mobilização em caso
de conflito. Na busca desse objetivo, no primeiro item foi
apresentado um resumo da origem do insumo, a evolução do
seu uso pelo homem e sua importância para a atividade humana
nos dias atuais, o que justifica a realização deste artigo, com foco
na Logística e Mobilização. No segundo item, foi abordada a
situação de indústria nacional de hidrocarbonetos, verificando-
se sua evolução, legislação, capacidade, dependências, nível
tecnológico, dificuldades e perspectivas, em relação ao petróleo e
ao gás natural. No terceiro item, foram analisados os planos e as
estratégias históricas e atuais adotadas pelo Brasil para atingir a
independência em relação ao petróleo e gás natural importado. No
quarto item, foram prospectados os cenários futuros, em relação
ao setor petrolífero, com base na realidade existente atualmente.
No quinto item, sugeriram-se as Política e Estratégias, para o
setor petrolífero visando à Mobilização, na área de derivados de
petróleo. Para isso foram enumerados os óbices encontrados e
citadas as sugestões de estratégias para superá-los. No sexto item,
foi apresentada a conclusão, constando de medidas contínuas, a
médio prazo, para a superação dos problemas encontrados.

89
INTRODUÇÃO

O petróleo é um combustível fóssil não-renovável em processo


gradativo de esgotamento. Apesar do impacto que causa ao meio
ambiente, a viabilidade econômica faz com que ele continue sendo
explorado, tornando-se, juntamente com o carvão mineral, numa das
principais fontes de energia e de matéria-prima da atualidade. É utilizado
em residências (fogões e aquecedores), sistema de transporte (ônibus e
automóveis), comércio (padarias, restaurantes e bares), indústrias (de
vidro e combustível de caldeiras) e sistema elétrico (combustível de
termelétricas). Dessa forma, um erro na tomada de decisão estratégica
sobre prospecção, produção, aquisição, transporte, refino, estocagem
ou distribuição poderá acarretar sérios problemas na cadeia logística de
suprimento do produto e de seus derivados, constituindo-se em grande
óbice ao bom funcionamento da vida econômica da Nação e ao sucesso
da Mobilização Nacional em caso de conflito externo.
Nesse sentido, este trabalho visa fornecer dados atualizados,
expor a situação da indústria petrolífera brasileira e propor políticas
e estratégias apropriadas para garantir o abastecimento nacional. Para
tanto, foram realizadas pesquisas nos Jornais do Brasil e O Globo, pela
internet, nos endereços eletrônicos da Agência Nacional de Petróleo e da
Petrobras, e em palestra ministrada pelo engenheiro Giusepe Baccocoli,
no dia 06 de setembro de 2006, na Escola Superior de Guerra.
O petróleo é uma substância viscosa, mais leve que a
água, composta por grandes quantidades de carbono e hidrogênio
(hidrocarbonetos) associadas a pequenas quantidades de nitrogênio,
enxofre e oxigênio. Pode ser encontrado sob forma gasosa (gás
natural), líquida (óleo cru) e sólida (asfalto) em rochas sedimentares.
É formado por processo de decomposição de matéria orgânica oriunda
de resto de vegetais, algas, alguns tipos de plâncton e animais marinhos
submetidos a condições físicas muito especiais. A pasta então formada
é coberta por sucessivas camadas de areia e lama, que se transformam
em rochas consolidadas, nas quais o gás e o petróleo são formados.
Em seguida, migram das rochas fontes para rochas reservatórios, onde
são aprisionados em armadilhas, que são impermeáveis e impedem
a migração até a superfície. Os geólogos crêem que grande parte do
óleo gerado se perdeu na superfície, o que explica porque alguns povos
90
antigos já o conheciam e utilizavam em sua forma natural, 4.000 anos
antes de Cristo, na construção de pirâmides, na conservação de múmias,
como combustível nos dardos incendiários, para calafetar embarcações,
impermeabilização, pintura e cerâmica.
O primeiro uso em larga escala foi na iluminação das casas.
Em seguida, substituiu o carvão nas indústrias. Contudo, a invenção
dos motores a gasolina, que passaram a movimentar os veículos, foi o
grande salto na evolução do seu emprego.
Até o final do século XIX, os Estados Unidos dominaram o
comércio mundial de petróleo. A supremacia americana só era ameaçada
pela produção de óleo das jazidas do Cáucaso, exploradas pelo grupo
Nobel. Em 1909, uma área de poucos quilômetros quadrados na
península de Apsheron, junto ao mar Cáspio, produziu 11,7 milhões
de toneladas. No mesmo ano os Estados Unidos registravam uma
produção de 9,5 milhões de toneladas e o resto do mundo 1,7 milhões
de toneladas. Companhias européias realizaram intensas pesquisas em
todo o Oriente Médio e constataram que a região dispunha cerca de
setenta por cento das reservas mundiais, o que provocou reviravolta em
todos os planos estratégicos de exploração.
Ao longo do século XX, a importância dos hidrocarbonetos
cresceu muito, com sua participação no atendimento às necessidades
mundiais de energia, passando de 3,7% em 1900 para cerca de 50% nos
dias atuais.
O petróleo é uma fonte de energia por excelência, mas é, também,
importante matéria-prima para o fabrico de plásticos, borracha, tintas,
tecidos, medicamentos, detergentes, sabões, inseticidas, fertilizantes,
solventes, lubrificantes, resinas, asfalto e muitos outros derivados
essenciais à sociedade contemporânea.
A importância estratégica do petróleo evidenciou-se na 1ª Guerra
Mundial com o advento do submarino com motor diesel e o uso do
avião como arma de guerra. O uso generalizado de seus derivados fez
com que o controle do suprimento se tornasse questão de fundamental
interesse estratégico.
A excessiva oferta de petróleo durante as primeiras seis décadas
do século XX aviltou o seu preço, o que motivou os cinco principais
produtores de petróleo (Arábia Saudita, Irã, Iraque, Kuwait e Venezuela)
a fundarem, em Bagdá, a Organização dos Países Exportadores de
91
Petróleo (OPEP), em 1960. A carta da OPEP, adotada na conferência de
Caracas, realizada de 15 a 20 de janeiro de 1961, define os três objetivos
da organização: aumentar a receita dos países-membros; assegurar um
aumento gradativo do controle sobre a produção de petróleo e unificar
as políticas de produção.
Após a guerra dos Seis Dias, em junho de 1967, num contexto
de déficit de oferta, a OPEP consegue um acordo com as companhias
ocidentais, eliminando o desconto sobre o preço de venda. No fim da
década, o barril já valia US$ 1,80.
Em outubro de 1973, houve a primeira crise do petróleo quando,
durante a Guerra do Yon Kipur, os produtores árabes usaram o petróleo
como arma política, declarando embargo aos países considerados pró-
Israel (Estados Unidos e Holanda) e elevando o preço do barril de óleo
de menos de U$ 2,00 para mais de U$ 11,00.
A eclosão da segunda crise de petróleo, ocorrida em 1979,
provocada pela revolução islâmica no Irã e a guerra Irã-Iraque, causa
queda na produção e disparada de preços. A política da OPEP, que não
teme mais a superprodução, torna-se mais agressiva. Em 1980, o óleo
bruto chegou a ser negociado a mais de U$ 40,00 o barril.
As duas crises do petróleo provocaram fortes abalos na economia
mundial, especialmente nos países pobres importadores de petróleo,
com as seguintes conseqüências:
- recessão mundial que provocou a queda do valor e da quantidade
das comodities exportadas pelos países pobres;
- forte aumento do déficit comercial dos países pobres
importadores de petróleo;
- aumento da taxa de juros americana e inglesa, passando de cerca
de 5% ao ano (média histórica) para mais de 22% ao ano, o que provocou
elevação do déficit da balança de serviços dos países pobres que já possuíam
consideráveis dívidas com países ricos, atreladas àqueles índices; e
- desencadeamento de busca desenfreada de novas fontes de
suprimento.
As três primeiras conseqüências citadas levaram ao explosivo
crescimento da dívida externa dos países pobres, fazendo com que
muitos fossem obrigados a declarar moratória e a solicitar socorro ao
Fundo Monetário Internacional (FMI), com grave desestruturação de
suas economias.
92
A quarta conseqüência levou à descoberta de expressivas reservas
de petróleo e de gás natural em outras regiões ou países. Esse aumento
da oferta levou a contínua queda do preço do barril que chegou a U$
10,00 em novembro de 1997. A partir de então os preços entram em
trajetória de lento crescimento até atingir U$ 20,00 em 2002. O preço
manteve-se estável até que a crescente demanda nos Estados Unidos,
na Índia e na China, aliada às instabilidades geopolíticas no Iraque, Irã
e Nigéria, acompanhada da ação de fortes furacões no Golfo do México
provocam, de 2004 em diante, um pico histórico na cotação do barril,
chegando a US$ 78,40 em julho de 2006. Diante desse quadro, em face
à importância econômica do petróleo e do gás natural como fonte de
energia e de matéria-prima para a indústria e face à crescente escassez e
instabilidade do preço chega-se às seguintes questões:
- a política estratégica governamental para o setor foi a mais
apropriada?
- o cenário atual foi prospectado e considerado na elaboração da
política?

SITUAÇÃO DA INDÚSTRIA NACIONAL DE


HIDROCARBONETOS

Para realizar a análise da situação da indústria de hidrocarbonetos,


podemos dividir o estudo nas duas principais fontes, a saber:

a) Petróleo

O aumento de preços ocorrido nas duas crises do petróleo, bem


como as reduzidas reservas e capacidade de produção, forçou o País
a empenhar-se na exploração das bacias sedimentares propícias à sua
acumulação.
Em 1979, ano da segunda crise, o Brasil possuía reserva provada
de 1.283.800.000 barris e produzia aproximadamente 160.000 barris
por dia (b/d), para um consumo de mais de 700.000 barris por dia.
A chamada “Lei do Petróleo” (de n° 9.478/97) abriu o setor petrolífero
à concorrência, ou seja, a Petrobras deixou de ser a única executora do
monopólio de exploração. No entanto, este continua, como sempre foi,
da União Federal, que, através de licitações realizadas pela ANP, promove
93
a exploração de campos de combustíveis fósseis. A Petrobras permanece
uma sociedade anônima de economia mista, cujo acionista majoritário é
a União Federal. A perspectiva de aprovação e sanção desta Lei forçou a
Petrobras a aperfeiçoar seus processos administrativos e reduzir custos.
O trabalho tenaz da Petrobras propiciou descobertas que possibilitaram o
contínuo aumento das reservas para 11.772.640.000 barris em dezembro
de 2005, apesar de a extração também ter subido continuamente até
atingir a média de 1.758.700 b/d nos sete primeiros meses de 2006 e
recorde de 1.912.733 de barris no dia 23 de outubro de 2006, conforme
foi divulgado no endereço eletrônico da Petrobras, no dia 24 de outubro
de 2006, como se vê:
Petrobras bate recorde de produção extraindo 1,9 milhões
de barris por dia no Brasil
A Petrobras atingiu ontem, 23 de outubro, a produção
recorde de 1 milhão 912 mil 733 barris de petróleo no
Brasil. Esse recorde superou em 30 mil barris o anterior, de
1 milhão 882 mil barris, ocorrido no final de maio deste ano.
Esse recorde resultou, principalmente, da manutenção da
produção nos campos terrestres e da entrada em produção
de três novos poços interligados à plataforma P-50, no
campo de Albacora Leste, na Bacia de Campos. Com eles,
a P-50 já atingiu uma produção de aproximadamente 150
mil barris diários. Está em fase adiantada a ligação de outros
quatro poços à mesma plataforma, quando a P-50 deverá
atingir, nas próximas semanas, a sua capacidade máxima de
produção, programada para 180 mil barris por dia.
Considerando-se que o atual consumo médio diário nacional é de
1.649.000 b/d, poder-se-ia considerar que o Brasil atingiu a almejada auto-
suficiência tão ufanisticamente anunciada pelo Governo Federal. Entretanto,
tal fato não corresponde à realidade e o Brasil continua extremamente
dependente de petróleo e derivados, conforme veremos adiante.
Para suas atividades de perfuração de poços exploratórios e perfuração
de poços de desenvolvimento de campos descobertos de petróleo e/ou gás,
a Petrobras possui 12 plataformas de perfuração em terra e 19 no mar.
Utiliza, além dessas, 10 plataformas terrestres e 23 plataformas marítimas,
também de perfuração, alugadas no mercado internacional. Possui, ainda,
para produção, 73 plataformas fixas e 24 flutuantes.
94
Do petróleo extraído no Brasil, cerca de 90% é do tipo pesado
e 10% do tipo leve. Na época em que as refinarias brasileiras foram
construídas, o petróleo a ser refinado era quase todo importado, sendo
comprado o tipo leve, pois produz maior percentual dos derivados nobres.
Com a descoberta e produção de petróleo pesado, as refinarias sofreram
adaptações para capacitá-las a processar a maior quantidade possível de
petróleo pesado, tendo sido atingido o limite economicamente viável.
Face ao exposto, a Petrobras é obrigada a importar, em média, 344.000
b/d de petróleo leve, de elevado valor no mercado internacional, para
misturá-lo ao petróleo nacional, obtendo um produto final que possa
ser utilizado nas refinarias nacionais.
Comparando-se a quantidade de petróleo disponível (produzido
+ importado) com o consumo interno, entende-se porque a Petrobras
exporta, em média, 262.000 b/d de petróleo pesado bruto, de baixo valor
no mercado internacional, bem como 255.000 b/d de destilados. Outro
fato a ser considerado é que cada tipo de petróleo produz quantidades
mais ou menos específicas de derivados. Estas quantidades podem ser
alteradas com a realização de adaptações nas refinarias e com a utilização
de métodos físico/químicos como o craqueamento, polimerização e
alquilação que quebram moléculas pesadas ou combinam moléculas
leves de hidrocarbonetos, produzindo gasolina de alta octanagem.
Entretanto, a capacidade de se aumentar a produção de certos
derivados, em detrimento de outros, tem limites. A matriz energética
brasileira é fortemente pressionada pelo alto consumo de óleo diesel.
Nossas refinarias estão adaptadas para a produção do maior percentual
possível desse derivado. Apesar disso, a produção não foi suficiente e
obrigou a Petrobras a importar, em média, no primeiro trimestre de
2006, 115.000 b/d de óleo diesel, nafta e outros derivados. Em contra-
partida, foram produzidos, em média, no mesmo período, 255.000 b/d de
gasolina, óleo combustível e outros derivados que não foram absorvidos
pela demanda nacional e, em conseqüência, foram exportados.
O jornal “O ESTADO DE SÃO PAULO”, do dia 05 de outubro
de 2006, publicou a seguinte reportagem na página B9 do Caderno de
Economia:
Encontrada jazida gigante em Santos Petrobrás não sabe
o potencial produtivo de reserva de petróleo leve e gás
natural localizada abaixo da camada de sal. Kelly Lima.
95
Uma nova jazida gigante de petróleo leve - mais valorizado
comercialmente - e gás natural pode ter sido encontrada
pela Petrobrás na Bacia de Santos. A estatal confirmou
ontem a descoberta de reserva ‘significativa’ na região, mas
não dimensionou o potencial de produção, apenas destacou
o fato de os combustíveis terem sido encontrados abaixo da
camada de sal, uma área ultraprofunda do subsolo marinho,
que supera 5 mil metros abaixo do nível do mar. Mesmo
sem os dados detalhados da reserva, geólogos já arriscam
o palpite de que se trata de um novo campo gigante,
cujo volume de óleo recuperável (em condições de ser
extraído) se situa entre 250 milhões a 1,5 bilhões de barris.
A produção, entretanto, só deve ser iniciada, pelo menos,
cinco anos depois de feitos todos os testes de comprovação
de viabilidade de comercialização do produto. A estimativa
a respeito do potencial do campo, segundo o geólogo
Giuseppe Bacoccolli, da Universidade Federal do Rio de
Janeiro (UFRJ), é possível a partir dos volumes obtidos
com o primeiro poço perfurado nesse campo. Segundo a
estatal, a vazão foi de 4,9 mil barris de óleo leve de 30 graus
API (quanto mais próximo de 50 graus, mais valorizado) e
150 mil metros cúbicos de gás por dia. Apenas para se ter
uma idéia, o maior poço perfurado no Brasil, no Campo
de Marlim, tem vazão de 10 mil barris por dia. Segundo
o presidente da Associação Brasileira de Geólogos de
Petróleo, Marcio Rocha Melo, a projeção de 250 milhões
de barris é uma estimativa bastante conservadora, que
considera o custo elevado de exploração na camada pré-sal
- na casa dos US$ 35 a US$ 40 por barril - e uma margem
de lucro de apenas US$ 1 por barril. Para o diretor da
Agência Nacional do Petróleo (ANP), John Forman, a
descoberta da Petrobrás inaugura um modelo geológico e
abre uma nova fronteira exploratória, com possibilidades
‘inimagináveis’ de elevar as reservas nacionais de óleo e gás
natural até para o dobro do comprovado hoje.
Se o futuro confirmar as expectativas da reportagem acima e
a produção for suficiente para substituir as importações, o Brasil terá
96
dado largo passo em direção ao tão almejado objetivo. Pelo exposto,
entendemos que a afirmação de que o Brasil tornou-se auto-suficiente
em petróleo não passa de falácia.
A capacidade atual de refino, 1.985.000 barris por dia, é pouco
superior à produção nacional e as refinarias não são compatíveis com o
tipo de óleo aqui produzido, necessitando ser misturado a petróleo leve
importado.
O transporte de petróleo e derivados é feito através de uma rede
de 30.343 km de dutos ou por uma frota de 125 navios, dos quais 50
pertencem à Petrobras e 75 são fretados.
O Brasil não possui estoques estratégicos de petróleo/derivados
que garantam as suas necessidades de consumo em caso de emergência.
Os países desenvolvidos mantêm elevados estoques para proteção de
seus mercados. A União Européia determina que seus membros tenham
estoques equivalentes a, no mínimo 90 dias de consumo, enquanto o
governo dos EUA mantém um estoque estratégico de 600 milhões de barris
de óleo cru e as empresas privadas têm estoques de cerca de 328 milhões de
barris de óleo cru e mais de 366 milhões de barris de destilados.

b) Gás Natural

Assim como o petróleo, o gás natural é resultado da transformação


de fósseis de antigos seres vivos que existiram em nosso planeta na pré-
história. De acordo com o tipo de subsolo em que foi formado e da
matéria orgânica que o originou, a composição do gás natural pode
variar bastante.
O produto pode ser encontrado dissolvido ou não no petróleo e
por esse motivo o gás natural é dividido em duas categorias: associado
e não-associado.
Gás associado: é encontrado em reservatórios petrolíferos,
dissolvido no óleo sob a forma de capa de gás.
Gás não-associado: é encontrado em reservatórios
gaseíferos, sem estar em contato com quantidades significativas de óleo.
Nas jazidas em que o gás está associado ao petróleo, os dois
produtos são extraídos juntos e, para manter a produção de petróleo, que
é o produto mais valorizado, grande parte do gás tem de ser reinjetado na
jazida. Este fato é de grande importância para o planejamento estratégico
97
do governo brasileiro no que tange à segurança no atendimento das
necessidades do país em relação ao gás natural.
O gás natural pode ser transportado nos estados gasoso, líquido ou
comprimido. No primeiro caso, o transporte normalmente é realizado
por gasodutos. No segundo caso, o gás é comprimido até o volume
ser reduzido mais de 600 vezes e a temperatura ser abaixada até 160ºC
negativos, tornando-se líquido, para então ser conduzido por navios,
barcaças e caminhões criogênicos. Para ser utilizado, o gás transportado
desse modo deve ser revaporizado em equipamentos especiais. No
terceiro caso, o produto pode ser transportado em cilindros de alta
pressão, como o gás natural comprimido (GNC). Esse transporte é
feito até o centro consumidor.
O Brasil demorou a aumentar a participação do gás na sua
matriz energética, face ao elevado custo para a operacionalização de seu
transporte, bem como pela baixa demanda por gás, que era atendida
pelo gás liquefeito de petróleo (GLP).
Este quadro fez com que a Petrobras não perfurasse bacias
sedimentares em que a pesquisa sismológica indicasse a presença de gás
não associado a petróleo. O gás natural produzido associado ao petróleo
era reinjetado no poço, era queimado ou era consumido nas próprias
plataformas da Petrobras. Em conseqüência, o aumento das reservas e
da produção deu-se de forma lenta.
A descoberta, pela Petrobras, de gigantescas reservas de gás em
território boliviano levou à celebração de acordo de fornecimento ao
Brasil de até 30 milhões de metros cúbicos a partir de 1999. Para tanto,
foi construído gasoduto que começa nas regiões produtoras bolivianas,
passa por são Paulo e vai até Porto Alegre.
A garantia de fornecimento a baixo custo incentivou a conversão
industrial, comercial, residencial e de veículos para o consumo de
gás natural, bem como a construção de usinas termelétricas a gás. A
quantidade máxima acordada ainda não foi atingida e se encontra em
26 milhões de metros cúbicos diários, em complemento à produção
nacional que, em 2005, foi de 48 milhões de metros cúbicos por dia.
A eleição de Evo Morales em 2006 trouxe insegurança ao
mercado brasileiro, pois ele decretou a nacionalização das reservas de
hidrocarbonetos e reestatização das refinarias adquiridas pela Petrobras,
sem estabelecer uma forma de indenização, rebaixando as petrolíferas
98
que atuam na Bolívia para a condição de prestadoras de serviço. Em
seguida, o presidente Evo questionou a fórmula de cálculo do reajuste
trimestral do preço do gás, prevista no acordo, que leva em conta uma
cesta de produtos no mercado internacional e a amortização do custo
da construção do gasoduto, desejando equiparar o preço então pago
pela Petrobras, de U$ 3,70 por milhão de BTU, ao preço no mercado
internacional de U$ 8,00, vigente no mês de julho de 2006. A Petrobras
não aceitou a proposta e as partes entraram em negociação. Entretanto,
no início de outubro o preço internacional já havia caído para U$ 4,00
por milhão de BTU.
A situação é de mútua dependência, pois, se o descompasso entre
a produção e o consumo nacionais coloca o Brasil na dependência de
fornecedores externos, a Bolívia depende do mercado consumidor
brasileiro para absorver a sua produção. A previsão de evolução de
consumo e da produção nacionais até 2010, feitas pela Petrobras, revela
a diminuição, em termos percentuais, da dependência ao gás importado.
As alternativas ao gás boliviano mais cogitadas pela Petrobras são o Peru,
a Venezuela e o Gás Natural Liquefeito (GNL) vindo de outras regiões.
O Peru possui grandes reservas, mas está construindo gasoduto para
transportar o gás das regiões produtoras para o litoral, onde também
está construindo instalações para liquefazê-lo e exportá-lo para os
EUA. A Venezuela possui reservas de 4,3 trilhões de metros cúbicos
de gás. Porém, essas reservas são do tipo associado ao petróleo, tendo
que ser quase que totalmente reinjetado para manter a produção de
petróleo. Resta a importação de GNL, o que exige a utilização de navios
especializados e construção de instalações de revaporização.

ESTRATÉGIAS NACIONAIS PARA A BUSCA DA


INDEPENDÊNCIA DE IMPORTAÇÃO DE PETRÓLEO

A pesquisa de petróleo no Brasil remonta ao final do século


XIX. Por cerca de sete décadas, esse esforço concentrou-se nas bacias
sedimentares terrestres, com a primeira descoberta tendo ocorrido no
poço de Lobato-BA, em 1939.
Em outubro de 1953 instituiu-se o monopólio estatal da pesquisa,
lavra, refino, transporte e importação do óleo no Brasil, sendo criada a
Petróleo Brasileiro S.A. – Petrobras, para executar essas atividades. As
99
atividades de exploração na década de 1950 e começo de 1960 possibilitaram
a descoberta de campos economicamente viáveis no Recôncavo Baiano
e na Bacia de Sergipe/Alagoas. Também ocorreram pesquisas nas bacias
sedimentares do Paraná e do Amazonas, tendo sido encontrado petróleo
no médio Amazonas em Nova Olinda. As atividades de perfuração
estenderam-se até a bacia do Acre, mas as quantidades encontradas não
se revelaram comerciais e foram suspensas em 1967.
A crise do petróleo iniciada em 1973 induziu à prospecção em
áreas antes consideradas antieconômicas. Foram procedidos novos
levantamentos geofísicos nas bacias do Paraná e do Amazonas, tendo
sido descobertas reservas de gás natural economicamente viáveis no
rio Juruá. A baixa demanda na região, o alto custo de transporte, bem
como questões ecológicas retardaram o início de sua exploração, de tal
maneira que só em 2006 teve início a construção do gasoduto Coari-
Manaus. Sua conclusão permitirá a redução do custo da energia elétrica,
e a implementação de seu uso nas indústrias, comércio, residências e
veículos automotores. Está prevista, também, a construção de ramal até
a cidade de Porto Velho-RO.
Ainda na década de 1970 houve a descoberta de campos
petrolíferos na Bacia de Campos, litoral do Rio de Janeiro, que
possibilitou o aumento das reservas comprovadas e da produção
nacional. A necessidade de perfurar poços em áreas cada vez
mais profundas, lâmina d’água superior a 3000 metros, levou a
Petrobras a desenvolver tecnologias de ponta, sendo reconhecida
internacionalmente como detentora da mais avançada tecnologia de
perfuração de poços em águas profundas.
A Petrobras voltou-se para o mercado internacional, adquirindo
reservas já descobertas ou direito de exploração no lado norte-americano
do Golfo do México, em países da América Latina, da costa oeste da
África e da Eurásia, no intuito de garantir o suprimento futuro de
petróleo.
Uma estratégia de grande importância para a Mobilização que
vem sendo implementada pela Petrobras é o incentivo ao uso de
combustíveis alternativos como o álcool, o biodiesel e o gás natural
veicular.
A estratégia da Petrobrás para agregar valor ao óleo pesado que
produz tem sido comprar, em outros países (EUA, Argentina, Colômbia
100
e Japão), refinarias próprias para esse tipo de petróleo para abastecê-las
e de construir refinarias próprias para óleo pesado no Rio de Janeiro,
a partir de 2007, com capacidade de 150.000 b/d e em Pernambuco,
com capacidade de 200.000 b/d, em associação com a empresa Petróleo
da Venezuela (PDVSA). O elevado índice de utilização da capacidade
de processamento das refinarias evidencia a importância da construção
destas refinarias para o abastecimento do país.
Em relação ao transporte, a Petrobras realizou nos últimos anos
grandes encomendas de navios petroleiros aos estaleiros nacionais,
buscando reduzir a sua atual forte dependência de navios fretados
de bandeiras estrangeiras com o aumento de navios pertencentes à
subsidiária Petrobras Transporte S.A. (Transpetro).

PROJEÇÃO DE CENÁRIOS FUTUROS NO SETOR


PETROLÍFERO

O Petróleo tornou-se cíclico problema na economia mundial. O


preço do barril chegou a ser negociado a U$78,40 em julho de 2006
e recuou até atingir U$58,60 em meados de outubro de 2006. Esses
valores geram inflação e queda no crescimento, ou mesmo recessão, na
economia mundial. A própria OPEP defendia que os preços deveriam
variar de U$22,00 até U$28,00. Quando eles ultrapassaram o teto da
faixa, em função do aumento de consumo dos Estados Unidos, China
e Índia, a OPEP aumentou suas cotas de produção, buscando refrear a
alta dos preços. Entretanto, a estratégia não foi bem sucedida, conforme
se verificou.
Quando os preços entraram em declínio, a OPEP, contrariando a
política anterior, resolveu reduzir as cotas de produção. Não é possível
dizer se a manobra surtirá o efeito desejado, face ao excedente de
produção atual do mercado e ao rotineiro desrespeito de seus membros
quando o acordo é para reduzir a produção.
Os cenários exploratórios projetados no tempo, apoiados nos
fatos portadores de futuro, indicam o seguinte:
- os membros da OPEP controlam dois terços das reservas de
petróleo do mundo;
- o aumento da demanda por esse insumo não renovável e a sua
exploração em larga escala conduzem à escassez futura;
101
- atualmente, a demanda tem sido o principal fator a influenciar
na formação dos preços, a revelia do Cartel da OPEP;
- a crise de 1973 ainda produz seus reflexos e o preço do barril de
petróleo no mercado internacional oscila com grande facilidade;
- o aumento das jazidas comprovadas conduziu o Brasil a uma
excelente posição, com produção superior ao consumo, passando a situação
de exportador líquido, apesar da baixa qualidade do petróleo nacional;
- a participação de empresas privadas nacionais e estrangeiras
no esforço de exploração e produção de petróleo e gás reduz o risco
financeiro da atividade e aumenta o conhecimento sobre as bacias
sedimentares e as reservas do país;
- a dependência nacional ao gás natural importado da Bolívia, país
instável politicamente, colocou em risco o funcionamento do parque
industrial paulista que passou a consumi-lo na certeza de fornecimento
regular;
- o álcool combustível e o biodiesel oferecem redução da
importação e consumo de petróleo, além de incentivar a agricultura e a
fixação do homem no campo;
- a construção de refinarias apropriadas ao refino de óleo pesado
aproximará o Brasil da real independência de importação de óleo cru
leve e derivados;
- a conclusão do gasoduto Coari-Manaus e sua expansão
até Porto Velho possibilitará a redução de custos em toda a cadeia
econômica produtiva industrial, comercial, elétrica, residencial e
automotiva, favorecendo o desenvolvimento regional e uma possível
mobilização; e
- a grande concentração da produção na plataforma continental,
cerca de 90%, demanda a existência de uma Força Naval adequada à sua
defesa.
Os fatos pesquisados, observados pela ótica da Mobilização,
demonstram que não há qualquer preparação para enfrentar uma
eventual situação de emergência.
O cenário ideal contemplaria a construção de refinarias suficientes
para refinar todo o petróleo produzido no Brasil, situadas em pontos
afastados do litoral, pois interiorizaria o desenvolvimento e facilitaria
a incumbência de sua defesa em caso de ataque externo, garantindo o
suprimento de combustíveis em caso de Mobilização.
102
SUGESTÕES À POLÍTICA E À ESTRATÉGIA DO SETOR
PETROLÍFERO VISANDO À MOBILIZAÇÃO NA ÁREA DE
DERIVADOS DE PETRÓLEO

A Política a ser adotada para o setor petrolífero, visando à


Mobilização Nacional, na área de derivados de petróleo, deve ser
a de envidar esforços para defender as áreas produtoras e garantir o
transporte, refino e distribuição, não só dos combustíveis, mas,
também, dos subprodutos que são matéria-prima das indústrias, elos
responsáveis pelo suprimento da cadeia Logística e da Mobilização, em
caso de Conflito. Para tanto, foram identificados os óbices abaixo com
as respectivas propostas de estratégias para superá-los.
Cerca de noventa por cento da produção nacional de petróleo e de
gás são oriundos da plataforma continental. Qualquer operação militar
que danifique ou impeça o acesso àqueles recursos poderá causar sérias
dificuldades aos processos logísticos e subseqüentes de mobilização,
mormente, tendo em vista a inexistência de estoques estratégicos para
uso em situações de emergência.
Considerando-se o óbice verificado, é de vital importância o
desenvolvimento de uma política de reequipamento e modernização da
Marinha do Brasil e da Força Aérea Brasileira, dotando-as de belonaves
e aeronaves compatíveis e suficientes para a projeção do Poder Nacional
e para a defesa das plataformas marítimas.
Devem ser confeccionados/atualizados planos operacionais de
defesa das principais áreas produtoras terrestres para a manutenção,
como último recurso, de uma reserva confiável para a manobra da Força
Terrestre.
A estrutura econômico-militar deve ter condições de funcionar
por um período mínimo, independente de suprimentos, de noventa
dias, parâmetro que é consenso internacional. Para tanto, devem ser
construídas instalações para realizar tal intento, não só de petróleo cru,
mas também de derivados.
A Agência Nacional de Petróleo deve manter cerrado controle
sobre a atuação e os dados operacionais das empresas privadas nacionais
e estrangeiras, para conhecer as reais disponibilidades em caso de
necessidade de aquisição ou requisição.
103
A ANP deve, ainda, controlar a estrutura de distribuição e de
revenda, com fins de mobilização, atualizando com freqüência os dados
sobre os estoques existentes em distribuidoras e postos de revenda.
A política de incentivo a consumo de gás natural, adotada após a
descoberta das reservas bolivianas, gerou forte demanda pelo produto,
com crescimento anual de 7,5%, na média. Entretanto, a convicção
na garantia de fornecimento pela Bolívia, que se mostrou incerta,
provou o descuido nas atividades necessárias à produção nacional,
gerando expressiva dependência daquele país. Especial atenção deve
ser dada à prospecção e desenvolvimento de campos produtores de gás
natural, bem como na construção de gasodutos interligando os campos
produtores e as regiões.
Sessenta por cento dos navios petroleiros utilizados pela Petrobras
são fretados no mercado internacional. Em caso de mobilização, essa
dependência poderá converter-se em óbice para o aluguel ou requisição
que venha a ser necessária. A política recente de encomendas de navios
aos estaleiros nacionais mitigará o problema em médio prazo, além de
reaquecer e promover avanços tecnológicos na indústria de construção
naval nacional.
Considerando que noventa por cento da produção nacional de
petróleo é do tipo pesado, que as refinarias nacionais não são apropriadas
para refinar petróleo pesado puro, e que a produção já está próxima da
capacidade máxima das refinarias brasileiras, recomenda-se a adoção
de duas estratégias para atingir, de fato, a auto-suficiência em petróleo,
quais sejam:
- apesar do alto custo alegado pela Petrobras, realizar perfurações
exploratórias até além da camada de sal, em áreas propícias para a
existência de petróleo leve, como o encontrado recentemente, para
substituir o petróleo leve atualmente importado e ser misturado ao que
aqui é produzido, antes do refino; e
- concluir a construção da refinaria, já iniciada, no Estado do Rio
de Janeiro e construir a refinaria prevista para o Estado de Pernambuco,
mesmo sem a parceria com a Petróleo da Venezuela S. A.
A importância assumida pelo gás natural na matriz energética
nacional torna-o produto de extrema relevância para o funcionamento
do parque industrial brasileiro, a quem caberá a responsabilidade pelo
suprimento à cadeia Logística e, se necessário, à Mobilização. Cerca de
104
quarenta e oito por cento do gás consumido no Brasil é fornecido pela
Bolívia, País com histórico instável, cujo atual Governo nacionalizou
as reservas de gás e vem buscando impor alterações nos contratos
assinados, pleiteando a propriedade das instalações das petrolíferas,
sem a devida indenização, mudança do fórum de arbitragens para a
justiça boliviana e a desistência de questionamentos diplomáticos, entre
outros. Essa situação gerou forte insegurança quando à continuidade
do suprimento. Em conseqüência, devem ser tomadas as seguintes
medidas:
- realizar os investimentos necessários para disponibilizar o gás
produzido em todos os campos, que em muitos casos é reinjetado ou
queimado por falta de meios de transporte;
- agilizar o desenvolvimento do campo descoberto na Bacia
de Santos, em 2005, colocando-o em produção no mais curto prazo
possível; e
- realizar perfurações exploratórias em áreas propícias à existência
de reservas de gás natural.
Os recursos humanos empregados pela indústria petrolífera
são de alta capacitação tecnológica e de elevado tempo de formação.
Portanto, devem ser excluídos da Mobilização de pessoal para evitar
o agravamento do problema de industrialização dos combustíveis e o
suprimento para as operações de guerra.
O sistema de transporte brasileiro privilegia o modal rodoviário,
por ser de baixo custo de construção. Para os veículos de passeio foi
criado o pró-álcool além do gás natural, que devem ser ampliado, desde
que seja superado o óbice do suprimento já abordado. Essas estratégias
têm gerado excedentes de produção de gasolina, que têm sido escoados
para o mercado externo. A principal opção ao óleo diesel, utilizado nos
transportes coletivos e no transporte de cargas, é o biodiesel, produzido
a partir de óleos vegetais. O Programa do Biodiesel deve ser incentivado,
pois, favorece a agricultura familiar e substitui o principal derivado de
petróleo importado pelo Brasil.
O Brasil possui grandes reservas de petróleo e de gás natural,
além de vastas áreas propícias à acumulação de hidrocarbonetos que
não foram exploradas. O uso parcimonioso dessas reservas, aliado
ao desenvolvimento das opções de combustíveis alternativos e ao
investimento em refino de óleo pesado, bem como à exploração
105
direcionada para a busca de petróleo leve e gás natural garantirá, por
muito tempo o suprimento de derivados para a cadeia Logística e de
Mobilização.

CONCLUSÃO

Ao se analisar as idéias e as informações apresentadas no


decorrer deste artigo, fica evidenciada a importância que a indústria
petrolífera representa para Logística e para a Mobilização Nacionais,
em especial para as vertentes das Expressões Econômica e Militar do
Poder Nacional, no objetivo de manutenção da soberania do país. Foi
seguido o caminho do conhecimento da origem, evolução do uso desse
insumo desde tempos imemoriais, até a sua importância para as nações
do mundo atual, verificando a situação corrente da atividade econômica
petrolífera no Brasil e as estratégias governamentais que estão sendo
desenvolvidas. Foram ofertadas algumas sugestões à política e à estratégia
energética nacional, no intuito de superar óbices ao suprimento regular
para a cadeia Logística e de Mobilização.
Como resultado das pesquisas realizadas, conclui-se que o
Brasil encontra-se em situação privilegiada em relação à maioria das
nações, possuindo grandes reservas provadas que estão em contínua
expansão e produção bruta superior ao consumo. Foram constatados
diversos óbices, tais como: meios de defesa aérea e naval insuficientes
para a proteção das plataformas marítimas; frota própria de navios
petroleiros aquém das necessidades; refinarias inadequadas ao tipo de
petróleo produzido e com índice de utilização próximo da capacidade
máxima de refino; dependência de importação de petróleo leve e
derivados, dependência de importação de gás natural boliviano, e
escassez e descontinuidade de investimentos em programas de energia
alternativa. Para a superação desses óbices é necessário o investimento
de vultosos recursos, alguns dos quais já em andamento, tanto pala
Petrobras quanto por empresas privadas. Se realizados com empenho e
continuidade, acredita-se que os óbices poderão ser sanados em médio
prazo, fortalecendo a economia nacional e garantindo o suprimento
Logístico e de Mobilização.
Desta, espera-se ter contribuído para uma percepção atualizada
da realidade da indústria petrolífera do Brasil, considerada de vital
106
importância para a Logística e Mobilização em caso de Conflito que,
apesar da mentalidade pacifista do povo brasileiro, é uma possibilidade
real para a qual o País deve estar sempre preparado.

REFERÊNCIAS

GEOCITIES. Disponível em: http://br.geocities.com/


geologiadopetroleo.

LE MONDE DIPLOMATIQUE BRASIL. Disponível em: http://


diplo.uol.com.br/2006-05,a1304.

PETROBRAS SA. Disponível em: http://www.petrobras.com.br.


AGÊNCIA NACIONAL DE PETRÓLEO. Disponível em: http://
www.anp.gov.br.

BRASIL. ESG. Fundamentos Doutrinários. Rio de Janeiro: A Escola,


2000.

ENCICLOPÉDIA BRITÂNICA DO BRASIL PUBLICAÇÕES


LTDA. Nova Barsa CD. São Paulo, 2005.

JORNAL O ESTADO DE SÃO PAULO. Reportagem Kelly Lima, 05


OUT 06, página B9 do Caderno de Economia.

JORNAL DO BRASIL. Seção de Economia. Rio de Janeiro, 2006.

JORNAL O GLOBO. Seção de Economia. Rio de Janeiro, 2006.

Palestra do Eng Giuseppe Bacoccoli, ministrada na ESG, em 12 SET 06.

107
Os Minerais Críticos Estratégicos e a
Mobilização Econômica Nacional -
O Caso Específico do Nióbio

DE MATOS, Fábio Souza Lopes – Economista, cursou a ESG em 2006 no Curso


de Logística e Mobilização Nacional. Os Minerais Críticos e a Mobilização Econômica
Nacional – O Caso Específico do Nióbio. Rio de Janeiro (RJ). Escola Superior de
Guerra. 2006. Curso de Logística e Mobilização Nacional.
E-mail: fslmatos@gmail.com

Resumo Informativo

O presente artigo tem por pretensão dar sentido ao tema, jogar


luz sobre o assunto, ascender à discussão e servir como “balão de
ensaio”, na diretiva de não fechar o círculo, mas sim, instigar outros
mais a se interessarem pelo assunto, a procurar aprofundar ainda mais
o foco ou mesmo ir mais longe na busca de soluções estratégicas, até se
encontrarem as mais acertadas. Neste propósito, se busca analisá-lo numa
visão ampliada, não estática, de modo que se possa enxergar além da linha
do horizonte, ao explicitar o real contexto das relações internacionais do
século 21, dimensionando as transformações sofridas na arte da guerra
moderna oriunda da Revolução em Assuntos Militares (RAM), para ao
final colocar em xeque a seguinte questão: está o Brasil pronto e capacitado
para lidar e responder estrategicamente ao imperativo que se antepõe?

INTRODUÇÃO

Este artigo é um extrato do original de mesmo título apresentado


como trabalho individual, requisito obrigatório para conclusão do Curso
de Logística e Mobilização Nacional, turma de 2006, da Escola Superior
de Guerra. O original, que está mais detalhado, encontra-se disponível
para consulta pública na biblioteca Marechal Cordeiro de Farias.
Entretanto, da mesma forma que seu original, este artigo se pauta
numa linha de raciocínio amplo, se ampara em profunda pesquisa

108
documental e norteado em análise reflexiva para se construir a solução
estratégica. Esta análise reflexiva em especial é aquilo que os franceses
chamam de criar uma “análise ampliada do campo de batalha”, para se
poder olhar além da linha do horizonte, e compreender o problema.
Esta dinâmica é necessária porque o assunto não se esgota em si mesmo,
ao contrário, abre ligações com vários outros assuntos em conexões
interdependentes em graus elevados de importância e, acentuada
relevância para a Segurança e Defesa Nacionais.
Assim sendo, se ressalta, que a chave para verdadeira compreensão
do problema se encontra na maneira como é observado. É do mesmo
modo como se deve observar corretamente um iceberg: jamais de maneira
isolada, interpretando apenas o que se enxerga acima da linha da água.
O assunto ora a ser abordado é nosso iceberg.

NOVA ORDEM INTERNACIONAL, GLOBALIZAÇÃO


E O MUNDO PÓS-11 DE SETEMBRO: DESENHANDO
A DINÂMICA DO SÉCULO 21 PARA O ANALISTA DE
LOGÍSTICA E MOBILIZAÇÃO NACIONAL

Vivemos num mundo em que a tecnologia disponível nos permite ver


através de imagens de alta definição captadas por satélites, até o dedo do pé de
uma pessoa que esteja em algum ponto extremo do globo terrestre. Entretanto,
apesar de poder ver com nitidez esta pessoa, não saberemos seu nome, seus
gostos, o que pensa etc. E daí? E daí, que para um analista de inteligência
interpretar uma imagem é um desafio, para o analista de Logística e Mobilização
Nacional o desafio é olhar o mundo atual e poder interpretá-lo.
Antes de qualquer coisa, o analista de Logística e Mobilização
Nacional deve se perguntar: como está estruturada a dinâmica do
mundo em que vivemos? Como é este ambiente? Para o quê se deve
estar preparado para enfrentar? Como se sabe a Mobilização Nacional
é o “Seguro de Vida da Nação”.

a)A configuração do Mundo Atual – um Poliedro

Olhar o mundo atual, sob um prisma abrangente, se pode dizer


que sua configuração é um verdadeiro poliedro, com seus ângulos,
interseções e lados equivalentes, a distintas dimensões da realidade.
109
Pensar a Logística e Mobilização Nacional na atualidade é muito
diferente do que fora no passado recente. Com o fim da divisão do
mundo em duas esferas antagônicas de influência, que dominou a
cena internacional durante as quatro últimas décadas do Século 20,
se pensou que a construção de uma “nova ordem internacional” fosse
capaz de abranger e administrar, de forma mais racional e eqüitativa, as
complexas realidades que já vinham maturando.
Pensou-se que uma vez superado o “armagedon nuclear”, a
restauração de um mundo politicamente mais plural e equilibrado, no
qual a lógica dos processos pudesse ser redutível à razão e os conflitos
de interesses encontrassem arenas de arbitragem na busca de formas
não violentas de resolução. Entretanto, isso não ocorreu.
Sucedeu-se sim, um espaço internacional politicamente mais
desigual, mais instável, muito mais violento, de múltiplos conflitos
localizados e de opacos processos decisórios. Ocorreu o advento dos
atentados terroristas de 11 de setembro de 2001, que redefiniu ainda mais
o eixo do sistema internacional. Como diria “Darth Vader14” o mundo
pendeu para o “lado negro da força”. Criou-se um visível descompasso
entre a tomada de consciência sobre a natureza dos problemas globais e a
capacidade política de resolvê-los. O mundo ficou muito mais perigoso.
Com a magnitude das mudanças no cenário internacional, como
aponta Lafer (2002) a globalização contemporânea e o desencadear de
forças acelerou o tempo e encurtou os espaços. Em outras palavras, todo
este movimento, grosso modo, fez valer a máxima da Teoria do Caos
ao qual “o bater de asas de uma borboleta, posicionada em um ponto extremo do
planeta, pode provocar um maremoto no extremo oposto”. Como diria Charles
Dickens: “continuamos a viver no melhor dos tempos e no pior dos tempos”.
Frente a grandeza do remodelamento, pergunta-se: (1) Como se
apresenta a configuração da ordem internacional? (2) Quais os principais
processos e atores que constituem a dinâmica desta configuração?

b) O Constructo – O Teatro de Operações

Nesta conexão, amparado na esteira do pensamento de


Martins (2002), o “constructo” situacional que marca o atual cenário
internacional é o seguinte: (1) a pluraridade de arenas deliberativas,
14 Personagem da Série Guerra nas Estrelas, de George Lucas.
110
criando formas novas e fecundas de interlocução, mas, ao mesmo
tempo, a relativização de sua eficácia. (2) a complicada evolução
interna dos blocos econômicos regionais e sua aparente dificuldade
para adquirirem uma identidade própria de modo a se constituírem
em players políticos mundiais; (3) a pós-globalização contemporânea
no que tange ao seu aspecto econômico que tem por atores as empresas
transnacionais, que, através das fusões e aquisições transfronteiras,
promovem uma extraordinária concentração do capital e limitam
a capacidade decisória de blocos econômicos regionais e Estados
Nacionais; (4) a irrupção na cena internacional de países de menor
poder relativo, especialmente, de atores não-estatais, de genealogias,
objetivos e recursos de poder diferentes; por fim (5), o “não-
prevalecimento” dos princípios democráticos de representação
eqüitativa nas arenas decisórias mundiais e na resolução negociada de
conflitos internacionais, ao que tange no aspecto político.
Em resumo, este é o novo “teatro de operações”, um ambiente
extremamente complexo, complicado, de múltiplos atores e graus
variados de interesses, pautado num contexto de violência sem
precedentes.

OS MINERAIS CRÍTICOS ESTRATÉGICOS E A


MOBILIZAÇÃO ECONÔMICA NACIONAL: O CASO
ESPECÍFICO DO NIÓBIO

Uma vez entendido a configuração do teatro de operações,


sabendo-se exatamente no que se está pisando, é possível fazer as
relações e correlações devidas. Então, a pergunta é qual a relação da
cena internacional com minerais críticos estratégicos? Alguma coisa
haver com a outra? A ligação é a seguinte: o potente desprendimento de
forças fez emergir aquilo que Thurow (1997) pinçara em seus estudos
prospectivos de “a mudança tecnológica para uma era dominada por indústrias
de poder cerebral feita pelo homem”.
Frente a este advento surge com vigor: (1) desenvolvimento de novos
processos produtivos; (2) ascensão da indústria de novos materiais; (3) novas
fontes de matérias-primas; (4) nanotecnologia; e (5) biotecnologia. Associe-
se ainda: (1) emergência de novas ameaças a segurança internacional; e (2)
aumento exponencial da violência no mundo.
111
O produto da conjugação destes fatores fez mudar completamente
a concepção do que é a guerra lato sensu que por seqüência cria aquilo que
passamos a conhecer como Revolução em Assuntos Militares15 (RAM).
É especialmente aqui que os chamados “Minerais Críticos Estratégicos”
se transformam nos elementos de destaque. Suas implicações para a
Logística e Mobilização Nacionais, sobretudo para a Defesa Nacional
são incomensuráveis.
Neste sentido, a grosso modo, a Revolução em Assuntos Militares
redefiniu os parâmetros-chave do combate: alcance, velocidade e letalidade.
A base desta transformação fora a reinvenção da Indústria de Material de
Defesa, em especial no século 21, que passa a desenvolver o que há de mais
letal e inteligente tipo de armamento que se possa ousar imaginar.
Assim, o que são Minerais Críticos Estratégicos? Mesmo com as
inúmeras ferramentas de busca na internet, pouco se têm sobre o tema.
O que há está em grande parte fragmentada e fora de foco. Atualmente,
a única instituição que possui “material específico” sobre o tema é a
Escola Superior de Guerra. Entretanto, os documentos datam das
décadas de 1960 e 1970.
Em conferência pronunciada em 16 de julho de 1973, na Escola
Superior de Guerra, intitulada “Minerais Críticos e Estratégicos” o Dr.
Ronaldo Rocha Moreira pontua o seguinte sobre classificação de materiais:
a) Material comum: Aquele de produção fácil e abundante,
cuja obtenção não apresenta dificuldade dentro do
território nacional, nem problema especial por ocasião da
Mobilização Nacional;
b) Material essencial: Aquele que, do ponto de vista de sua
utilização, é indispensável ao processo evolutivo do País, ao bem-
estar das populações e aos imperativos da segurança nacional, em
virtude tanto de fatores econômicos como psicossociais;
c) Material crítico: aquele para o qual ocorre dificuldade de
obtenção,naqualidadedesejada,emépocaseprazosdeterminados,
em virtude de desfavorável acessibilidade, carência de mercados
ou dificuldade de acesso às fontes de suprimento; e
15 Segundo Metz (2005) a Revolução em Assuntos Militares é uma grande mudança na
natureza da guerra a partir de inovadora aplicação de novas tecnologias que, combina-
das com dramáticas mudanças na doutrina militar e nos conceitos operacionais e orga-
nizacionais, altera fundamentalmente o caráter e a conduta das operações militares.
112
d) Material estratégico: aquele que, dada a necessidade
de sua utilização para empreender uma ação estratégica, e
em face das condições de acessibilidade e das conjunturas
geopolíticas e geoeconômicas, exige medidas especiais para
sua obtenção, produção, industrialização e comércio.
Agora como transportar estes conceitos para a realidade atual?
Quem conseguiu transportar a essência do conceito fora um professor
da Universidade Federal da Paraíba, o economista Prof. Dr. Osires de
Carvalho Ph.D. Interpretando o Prof. Osires de Carvalho (1992), os
minerais classificados como estratégicos ou críticos são assim chamados
primeiramente, porque encabeçam a linha de frente das matérias-
primas vitais para a Indústria de Material de Defesa. Mas não só por isso.
Fundamentalmente porque são classificados como “metais especiais”, que
constituem um grupo de bens minerais com características geológicas
e econômicas bastante próprias. E em termos mineralógicos eles tanto
podem ser um metal não-ferroso como estar a ele associado a condição
de subproduto ou co-produto. Com efeito, estes metais são considerados
especiais porque, no todo ou em parte, se ligados a outros metais ou em
situações específicas, produzem efeitos fantásticos.

Tabela 1 – Metais Especiais na Indústria de Não-Ferrosos.

Metais Especiais na Indústria de Não-Ferrosos


Antimônio (Sb) Nióbio (Nb) Silício (Si)
Arsênio (As) Ráfnio (Rf) Tântalo (Ta)
Berílio (Be) Rádio (Ra) Telúrio (Te)
Bismuto (Bi) Rênio (Re) Terras Raras (2)
Cádmio (Cd) Selênio (Se) Tálio (Tl)
Cobalto (Co) Indio (In) Tório (Th)
Escândio (Es) Itrio (Y) Titânio (Ti)
Gálio (Ga) Lítio (Li) Tungstênio (W)
Germânio (Ge) Mercúrio (Ag) Vanálio (V)
Grupo Platinóide (1) Molibdênio (Mo) Zirconio (Zr)
(1) Seis elementos compõem este grupo: platina, paládio, irídio, ródio e rutênio.
(2) Este grupo é composto de quinze elementos: lantânio, cério, niodímio, prasiodímio,
prometeo, samário, európio, térbio, disprósio, ólmio, érbio, túlio, itérbio e lutélio.
Fonte: Adaptação de: CARVALHO, Osires. Metais Especiais – Produção,
Comercialização e Estrutura de Mercado. Brasil Mineral. Nº 105. Dez. 1992. p. 41.
113
Com efeito, se poderia listar todas as categorias de Minerais
Críticos e Estratégicos. Entretanto, o escopo é tratar de um apenas,
muito singular. Por quê? O que o torna tão especial? O Mineral Crítico
Estratégico em questão é o Nióbio, e o que o torna tão particular são
dois vetores-força: (1) as propriedades avançadas inerentes ao elemento
e sua aplicação na indústria de alta tecnologia e material de defesa; e (2)
o fato de o Brasil ser o detentor da maior reserva do mundo e ao mesmo
tempo o maior produtor mundial deste elemento.

3.1 O que é Nióbio?

O elemento 41 foi descoberto na Inglaterra em 1801, por Charles


Hatchett, que na época o denominou de colúmbio. Anos mais tarde, o
químico alemão Heinrich Rose, pensando haver encontrado um novo
elemento ao separá-lo do metal tântalo, deu-lhe o nome de nióbio em
homenagem a Níobe, filha do mitológico rei Tântalo. 

a) O Nióbio e o Brasil

Segundo o Departamento Nacional de Produção Mineral – DNPM, o Brasil


é líder na produção mundial, sendo a Companhia Brasileira de Metalurgia
e Mineração - CBMM, responsável por 78,3% da produção nacional de
concentrado de nióbio e a Mineração Catalão, pelos 21,7% restantes. As
reservas brasileiras de pirocloro (Nb2O5) estão concentradas nos Estados
de Minas Gerais (96,3%); Amazonas (2,7%) e Goiás (1,0%).Cabe ressaltar
que a Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração – CBMM, cuja
área de mina se encontra em Araxá-MG, é um conglomerado, com capital
distribuído entre o Grupo Moreira Sales e a Molycorp International.

Tabela 2 – Reserva e Produção Mundial de Nióbio.

DISCRIMINAÇÃO RESERVAS (2) (103t) PRODUÇÃO (1) (t)


Países 2001 (r) (%) 2001 (p) (%)
Brasil 5.200 91,1 41.772 94,3
Canadá 400 7,0 2.300 5,2
Nigéria 90 1,6 30 0,1
Austrália 16 0,3 200 0,5
TOTAL 5.706 100,0 44.302 100,0
Fonte: Departamento Nacional de Produção Mineral -DNPM. (Para dados comparativos
com outros países as informações estão disponíveis apenas até o ano de 2001).
114
b) O Nióbio e suas aplicações16.

São várias as aplicações do Nióbio. Das mais importantes é como


elemento de liga para conferir melhoria de propriedades em produtos
de aço, especialmente nos aços de alta resistência e baixa liga usados na
fabricação de automóveis e de tubulações para transmissão de gás e petróleo
sob alta pressão. Vem a seguir, o seu emprego em superligas que operam
a altas temperaturas, sendo a espinha dorsal em turbinas dos motores a
jato das aeronaves civis e militares. Grande exemplo é a liga “C-103” que
é aplicada principalmente em propulsores e bocais de foguetes e mísseis e
está sempre presente na saia do motor Pratt & F100, um gerador de potência
de alto desempenho usado nos caças F-15 e F-16. O Nióbio também se
encontra presente na indústria pesada, na indústria naval de grande porte
e construção de plataformas de petróleo. O nióbio é também adicionado
ao aço inoxidável utilizado em sistema de escapamento dos automóveis,
e ainda na produção de ligas supercondutoras de nióbio-titânio usadas na
fabricação de magnetos para tomógrafos de ressonância magnética. Por
fim, encontra aplicação também em cerâmicas eletrônicas, lentes ópticas,
condensadores e atuadores cerâmicos, microscópios de altíssima precisão,
filtros especiais de receptores de TV e câmeras de vídeo.

REFLEXÕES POSTURAIS

Face ao exposto e toda contextualização, não é difícil visualizar que


se está diante de um assunto vital para a Segurança e Defesa Nacionais. Mas
surgem então duas perguntas: E o futuro, como o Brasil está enxergando esta
questão? Alguém já pensou neste assunto tão vital para a Defesa Nacional?
Coloquemos as perguntas em estado de espera momentâneo.
Antes, é necessário dispor de alguns conceitos-chave oriundos da
Doutrina da Escola Superior de Guerra:
a) Política: é entendida como a arte de fixar objetivos e
orientar o emprego dos meios necessários à sua conquista;
b) Estratégia: é a arte de preparar e aplicar o poder para conquistar
e preservar objetivos, superando óbices de toda a ordem.
16 Informações mais detalhadas vide trabalho completo, disponível para consulta pú-
blica na Biblioteca Marechal Cordeiro de Farias, Escola Superior de Guerra
.
115
E ainda segundo a ESG (2006): (1) Mobilização – é “o ato de se
preparar para a guerra ou qualquer emergência, através da reunião e organização
de recursos nacionais, resultantes de atos do Congresso ou do Presidente”; e (2)
Mobilização Industrial (Econômica) - “transforma as atividades normais,
desenvolvidas em tempos de paz, pela indústria de uma nação, de modo a que
passem à produção de armamentos e suprimentos necessários para apoiar um
esforço militar de maior envergadura”.
Façamos novamente as perguntas. As respostas para os
questionamentos são as que o Brasil, como Nação, ainda não digeriu
sobre o assunto. Como diz um provérbio chinês “não há assunto pouco
interessante, apenas pessoas pouco interessadas”. Há uma multiplicidade
de assuntos e demandas considerados pela conjuntura, como mais
importantes. E respondendo a segunda indagação, a resposta é sim,
alguém já pensou sobre isso. E também se deixou de pensar. Em 12 de
novembro de 1985, o projeto de lei 6.777/1985, do Deputado Marcos
Lima do PMDB-MG propunha instituir o “Programa Nacional
de Minerais Críticos e Estratégicos e dá outras providências e cria o
Conselho Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos”. A matéria foi
arquivada em 17 de dezembro de 1990, nos termos do artigo 333 do
Regimento Interno do Senado Federal, pela Mesa Diretora da Câmara
dos Deputados.
Em verdade é dificílimo expor uma resposta direta. Ao Brasil
de agora, cabe uma imensa reflexão, e fazê-la como visão de futuro. É
necessário esvaziar antigas concepções de mundo e absorver, em tempo,
a nova dinâmica, porque vivemos um novo tempo, que por ser um
novo tempo, as regras e ordenamentos do passado não mais se aplicam.
A situação atual é um verdadeiro “dilema dos prisioneiros17”.
Neste sentido, não há como estabelecer uma Política e desenhar
uma Estratégia. A melhor Política e a melhor Estratégia, para ser
implementada, é antes de tudo, introjetar. É aquilo que os chineses
chamam de estabelecer um norte estratégico. Porque, sem antes
introjetar, o mesmo acontecerá como no passado, por acabar novamente,
assim como tantas outras proposições, ou simplesmente existindo
apenas no papel, ou nunca saindo dele.
17 Dilema dos prisioneiros foi desenvolvido pelo matemático John Forbes Nash, am-
plamente utilizado nas relações internacionais e nas ciências econômicas, para gerar
soluções aos problemas extremos e complexos.

116
O “Norte Estratégico” como pelo exposto, citando Pinto (2005)
“é o conjunto de raciocínios, providências e ações, que minimizarão ou atenuarão
resultados negativos, ao mesmo tempo em que serão maximizados ou reforçados
os aspectos positivos de uma determinada configuração empreendedora, ao longo
de um percurso de expansão, e sem comprometer a estabilidade e a consistência
de ações futuras”. Caberá ao Ministério da Defesa com apoio do Setor
Privado, decidir, tão somente. Não será por força de lei, tampouco
por aumento de recursos, em amplos níveis, sem antes nortear o “eixo
estratégico”. É lícito afirmar que falar é muito fácil. Entretanto, como
nas palavras de Philip Kotler: “Se dá muita atenção ao custo de realizar algo,
e nenhuma ao custo de não realizá-lo”.

CONCLUSÃO

E então? O que podemos concluir diante de colossal complexidade?


Mesmo para um gênio, dotado de privilegiada massa cinzenta, processar
respostas para todos os questionamentos levantados, buscar iluminação
para enxergar adiante o oceano de desafios, é realmente uma tarefa
complicada. Tanto o quanto será (e em verdade é) a tarefa do analista
em Logística e Mobilização Nacional no Século 21.
Assim sendo, o que poderá nos emprestar a iluminação
necessária, são as reflexões profundas. Neste caso específico, há
uma muito antiga, que se aproxima de maneira ímpar da situação
do problema a ser resolvido. A reflexão é a “Lição de Aquiles”.
Aquiles pode jamais ter existido, e sua história pode parecer de
uma extrema bobagem. Porém, a lição que se tira é muito séria. A
lição é que a essência está nos detalhes, no óbvio, naquilo que nos
passa despercebido. O que de mais dramático se alterou com todo
manancial de mudanças próprias deste Século fora o que John Boyd,
Coronel da Força Aérea Americana, chamou de ciclo de OODA -
Observação, Orientação, Decisão e Ação. (Ciclo de decisão). O que
está em jogo é a capacidade de se produzir respostas, em velocidade,
aos enormes desafios. O que caberá ao Brasil, como País, é decidir
em que velocidade irá corrigir suas fraquezas em tempo. Essa
correção, com o fim de neutralizar suas vulnerabilidades, poderá ser
no melhor aproveitamento de seus minerais estratégicos, sobretudo
e em especial, do nióbio.
117
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.

CARVALHO, Osires. Metais Especiais: Produção, comercialização e


estrutura de mercado. Brasil Mineral. Dez/92-Jan/93. Nº 105. pp.40-47.

CLARET, Martin.A essência da sabedoria dos grandes gênios de


todos os tempos. São Paulo: Martin Claret, 2002.

ESCOLA SUPERIOR DE GUERRA. LS 704-96. Mobilização


Industrial. Rio de Janeiro: ESG, 1996.

ESCOLA SUPERIOR DE GUERRA. LS 705-96 Economia de


Guerra. Rio de Janeiro: ESG, 1996.

ESCOLA SUPERIOR DE GUERRA. Manual Básico. Assuntos


Específicos. Rio de Janeiro: ESG, 2006.

ESCOLA SUPERIOR DE GUERRA. Manual Básico. Elementos


Doutrinários. Rio de Janeiro: ESG, 2006.

ESCOLA SUPERIOR DE GUERRA. T 155-73 Minerais Críticos e


Estratégicos. Rio de Janeiro: ESG, 1973.

ESCOLA SUPERIOR DE GUERRA. TT-41-60. Recursos Minerais


Críticos e Estratégicos. Rio de Janeiro: ESG, 1960.

LAFER, Celso. Nova Ordem Internacional o mundo pós-11 de


setembro. XIV Fórum Nacional. Instituto Nacional de Altos Estudos.
Rio de Janeiro: INAE, 2002.

MARTINS, Luciano. A (Des)ordem Mundial, o fenômeno dos


terrorismos e as instituições democráticas. XIV Fórum Nacional.
Instituto Nacional de Altos Estudos. Rio de Janeiro: INAE, 2002.

METZ, Steve. Revolution in Military Affairs. The Department of


Defense in United States. Carlisle Barracks, PA: US Army War College,
Strategic Studies Institute, 2005.
118
NYE JR., Joseph. O paradoxo do poder americano. São Paulo:
UNESP, 2002.

PINTO, Luiz Fernando da Silva. O Homem, o arco e a flecha. Rio


de Janeiro: FGV, 2005.

THUROW, Lester. O Futuro do Capitalismo. Rio de Janeiro:


Rocco, 1997.

119
Logística e Mobilização Nacional na
Amazônia Ocidental - Reflexo para os
Pelotões Especiais de Fronteiras

DA SILVA, Jorge José Góes – Tenente-Coronel do Quadro de Material Bélico do Exército


Brasileiro, cursou a ESG em 2006 no Curso de Logística e Mobilização Nacional.
Logística e Mobilização na Amazônia Ocidental – Reflexo para os Pelotões Especiais de
Fronteira. Rio de Janeiro (RJ). Escola Superior de Guerra. 2006. Curso de Logística e
Mobilização Nacional.
E-mail: jorgegoespqdt@ig.com.br

Resumo Informativo

O objetivo deste artigo é estabelecer, na área de Logística e


Mobilização da Amazônia Ocidental, focado no Exército Brasileiro,
critérios eficientes, a fim de atender às necessidades dos Pelotões
Especiais de Fronteira e as comunidades de seu entorno. À luz do
contexto histórico, tem-se ciência da precariedade do sistema logístico
da região amazônica, quer seja: por sua deficiência em estradas e
ferrovias; por seu clima e densa vegetação que impede a circulação do
homem; por suas dimensões gigantescas; pela estrutura de logística ora
existente e pela precariedade de aeroportos nas pequenas localidades
da Amazônia Ocidental. A inexistência de uma lei de Mobilização
Nacional é uma marcante preocupação com relação à defesa, não só
para a Amazônia brasileira, mas para todo o País. Neste Artigo, são
apresentadas algumas políticas e estratégias que possam vir a serem
adotados para fomentar a Logística e a Mobilização na Amazônia
Ocidental. No final, busca-se mostrar a importância de se adotar uma
política mais eficaz quanto ao emprego da logística para atender às
brigadas existentes na documento
Este Amazônia foi
Ocidental
impressoe naa importância
gráfica da de se ter
uma Lei de MobilizaçãoESCOLA SUPERIOR DE GUERRAtão importante
Nacional que regulamente
tarefa que, hoje, não tem respaldo
Fortalezalegal.
de São ComJoãoeste cenário, procura-
se demonstrar Av.processos que visam
João Luís Alves, a reduzir
s/n - Urca a vulnerabilidade
- Rio de Janeiro - RJ da
região oeste da Amazônia CEPante a uma possível
22291-090 invasão, assegurando a
- www.esg.br
120
ESCOLA SUPERIOR DE GUERRA
CURSO DE LOGÍSTICA E MOBILIZAÇÃO NACIONAL

A origem da Escola Superior de Guerra remonta aos idos de 1942, quando com
a criação do Curso de Alto Comando, por meio da Lei de Ensino Militar. Sete anos
depois, em 20 de agosto de 1949, pelo Decreto nº 785, o então Presidente da República
Eurico Gaspar Dutra criou a Escola Superior de Guerra, instituto de altos estudos,
subordinado diretamente ao Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, e destinada
a desenvolver e consolidar os conhecimentos necessários para o exercício das funções
de direção e planejamento da segurança nacional.
Em 1957, nascia o Curso de Mobilização Nacional na ESG, pelo Decreto nº
40.835 de 24 de janeiro de 1957, do então Presidente da República Juscelino
Kubitschek, que funcionou nos anos de 1958 e 1959, e cuja finalidade era: “cooperar
no estabelecimento da doutrina de Mobilização Nacional e preparar civis e militares
para as funções relacionadas com a Mobilização Nacional (Boletim Interno nº 9 de 29
de janeiro de 1957, da ESG)”.
De 1982 a 1986, o Curso Básico de Mobilização Nacional se estruturou e
funcionou na Escola Nacional de Informações (EsNI), deixando o ambiente da ESG.
Em 1991, este importante Tema da Soberania Nacional retorna à Escola
Superior de Guerra, agora com o nome de Curso de Logística e Mobilização da
Expressão Militar do Poder Nacional, embrião do atual Curso.
Em 1994, o Curso de Logística e Mobilização da Expressão Militar do Poder
Nacional passa a se chamar Curso de Introdução à Mobilização Nacional.
A procura de sua derradeira identidade, de 1997 a 2001, o Curso recebe uma
nova denominação: Curso Intensivo de Mobilização Nacional.
Finalmente em 2002, a Escola Superior de Guerra instituiu aquele que perdura
até os dias atuais o Curso de Logística e Mobilização Nacional que tem como
principal objetivo habilitar civis e militares para o exercício de funções logísticas nas
Forças Armadas e em órgãos vinculados ao futuro Sistema Nacional de Mobilização
(SINAMOB) do Poder Nacional.

“A arte da guerra nos ensina a não confiar na probabilidade de o


inimigo não vir, mas na presteza em recebê-lo; não na chance de ele
não atacar, mas em vez disso, no fato de que tornamos nossa posição
invulnerável (A Arte da Guerra Sun Tzu há 2500 anos)”.

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