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Análise de poemas de Paulo Leminski

Despropósito Geral

Esse estranho hábito,


escrever obras-primas,
não me veio rápido.
Custou-me rimas.
Umas, paguei caro,
liras, vidas, preços máximos.
Umas, foi fácil.
Outras, nem falo.
Me lembro duma
que desfiz a socos.
Duas, em suma.
Bati mais um pouco.
Esse estranho abuso,
adquiri, faz séculos.
Aos outros, as músicas.
Eu, senhor, sou todo ecos.
(P. Leminski)

Aqui, o poeta fala um pouco sobre o fazer poesia, sobre sua criação, tornando o
poema quase metalinguístico. Ele trata a escrita de poemas como um hábito conquistado,
algo custoso, chegando a relacionar tal ato com uma luta (“Me lembro duma/que desfiz
em socos”), o que dá um tom de gradação na arte de fazer poesia.

O poema “Despropósito Geral” de Leminski possui traços evidentes de oralidade,


marca característica de sua obra. Percebe-se no ritmo que tal poema poderia ser lido como
prosa, o que é possível por conta do modo como o autor colocou a pontuação, de forma
que, caso o poema fosse transcrito em forma de um texto corrido, pouca alteração sofreria
o ritmo. A rima do poema é feita de forma alternada em ABAB, sofrendo diferentes
combinações no decorrer dos versos.

Ao longo do poema, o poeta aborda a criação de suas obras-primas: o modo como


se baseia nas experiências suas e nas dos outros (“Custou-me rimas/ Umas, paguei caro/
liras, vidas, preços máximos”), e como há, por vezes, uma dificuldade para concretizar o
que se quer dizer (“Me lembro duma/que desfiz a socos./Duas, em suma./ Bati mais um
pouco”). Os dois últimos versos destacam-se do resto do poema, podendo ser
interpretados de duas formas distintas, evidenciando uma pluralidade de significado.

Uma forma de interpretá-los é considerando que o poeta revela que sua poesia é a
música que chega aos outros, e ele, que escreveu, não passa de um eco. Ou seja, aquilo
que está sendo passado pelos outros por meio de sua poesia (a música) já não é nem mais
a experiência na qual ele se baseou, nem a experiência que ele sentiu: é uma terceira
experiência, da qual, nele, restou apenas o eco. Dessa forma, pode-se relacionar este
poema com o “Autopsicografia” de Fernando Pessoa, quando este diz “E os que lêem o
que escreve,/Na dor lida sentem bem,/Não as duas que ele teve,/Mas só a que eles não
têm”.

Outra forma de interpretá-los é considerando que o poeta se põe numa posição


inferior, insignificante, comparado à sua obra-prima. Isto é, a poesia (a música) é o centro
da atenção da arte que ele dedica aos outros, e ele, poeta, não passa de um eco dessa arte.

Amor Bastante

quando eu vi você
tive uma ideia brilhante
foi como se eu olhasse
de dentro de um diamante
e meu olho ganhasse
mil faces num só instante

basta um instante
e você tem amor bastante

Neste poema, o autor dá predominância a rimas alternadas ABAB, com uma


quebra evidente deste padrão nos dois últimos versos (“basta um instante/e você tem amor
bastante), que por conta disso e por sozinhos constituírem uma nova estrofe, demonstram
um provável destaque dado a eles pelo poeta. O ritmo do poema é fortemente marcado
pelas rimas, sendo constante na maior parte do tempo. Ocorre variação nesse ritmo na
mudança dos versos “mil faces num só instante/ basta um instante” devido à mudança de
um verso mais longo para outro mais curto (o mais curto do poema inteiro) e pela
repetição da última palavra destes versos. É notável também a marca de oralidade, como
em “quando eu vi você” e “num só instante”, o que dá um tom de informalidade ao poema.

Aqui a pluralidade de significado se dá mais de uma vez, ocorrendo no verso “tive


uma ideia brilhante” e nos versos “e meu olho ganhasse/mil faces num só instante”. No
primeiro caso, pode-se interpretar a idéia como algo genial, mas também como algo
reluzente, relacionando ambos adjetivos àquilo que é o amor sentido pelo poeta ao ver a
referida pessoa. No segundo caso, a imagem do olho ganhar mil faces num só instante
pode ser interpretada relacionando-se às diversas faces de um diamante, à idéia brilhante,
e até mesmo à possibilidade de o autor poder enxergar diversas faces (no sentido de serem
diversas qualidades) da pessoa amada.

Os dois últimos versos ocupam lugar de destaque no poema, conforme dito


anteriormente. Nestes versos há a quebra da continuidade do raciocínio que o poeta estava
desenvolvendo e a consequente introdução de um novo raciocínio, o que fica evidente
também por conta da quebra do ritmo entre o último verso da estrofe anterior e o primeiro
verso da nova estrofe. A nova idéia introduzida nestes versos, concluindo o poema inteiro,
é que um instante é o suficiente para apaixonar-se. Por fim, então, a expressão “amor
bastante” pode apresentar mais de uma interpretação: pode indicar que o apaixonar-se
(que levou apenas um instante para ocorrer) preenche o autor com amor bastante; e pode
indicar que a pessoa por quem o autor apaixonou-se tem amor bastante.