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Resenha “Performance, recepção e leitura”, de Paul Zumthor (2007)

ZUMTHOR, Paul. “Performance, recepção e leitura”. Tradução de Jerusa Pires Ferreira e Suely
Frenerich. 2ª edição. São Paulo: Cosacnaify, 2007.

1–

A perspectiva desde a qual Paul Zumthor enxerga o fenômeno da leitura inclui o leitor
não apenas como um receptor, mas como um “corpo” que percebe o que é o texto. Sua
abordagem se distancia em alguma medida do “interesse crítico” da teoria literária, que
segundo Zumthor, se vislumbra o leitor na medida em que ele participa de um ato de
comunicação com o texto desde o lugar da recepção, portanto, se tratam de perspectivas que
focalizam o aspecto semiótico da leitura como atividade interpretativa e do leitor enquanto
receptor. Vamos, então, nos deter sobre essas abordagens.

Dois principais expoentes desse “interesse crítico” pelo leitor são Umberto Eco (1979) e
Antonio Gómez-Moriana (1985). O primeiro autor o leitor a partir de uma oposição entre
significado e interpretante, grosso modo, entre o texto e o leitor. Oposição estanque, mas que
permitia enfocar um espaço entre, que revelava as relações entre o leitor (que lê e interpreta) e
o texto (que é lido e significado pelo processo de interpretação). Em um primeiro momento,
podemos entender que o leitor, sujeito que interpreta, tem de buscar necessariamente aquilo
que o texto esconde em suas palavras, significados intrínsecos colados aos signos que o texto
organiza, mas que têm de ser desvelados pelo leitor. E por outro lado, há o texto (neste caso
escrito) que aguarda silenciosamente a atividade interpretativa de algum leitor curioso.

No entanto, não é tão simples, pois o texto em algum momento foi fabricado por outro
sujeito, quem escreve e sugere significados possíveis, que permanecem latentes ao texto. Entre
esse sujeito que escreve e aquele outro, que lê, há uma comunicação na medida em que o leitor
lê o texto que o primeiro escreveu, mas não, uma comunicação viva ou de corpo-a-corpo. E para
complicar ainda mais, quando o sujeito que lê se depara com algum texto, ele vai realizar sua
leitura de maneira particular, podendo criar estratégias para significar o texto. Essas estratégias,
conforme Umberto Eco coloca, tendem a modificar o objeto proposto pelo autor, e esse
movimento indica uma diferença crucial entre escrever e ler, mas indica também que o leitor é
um destinatário do autor.

A segunda abordagem é proposta por Antonio Gómez-Moriana, que olha o fenômeno


da leitura desde uma perspectiva mais sócio-crítica do que semiótica. Essa perspectiva mostra
diferentes instâncias do fato literário e propõe uma visada menos dicotômica da questão. Assim,
entre o autor e o leitor, há o contexto e o texto que circundam tanto aquele que escreve quanto
aquele que lê. Mas também, é uma abordagem que pensa o texto no contexto de sua produção
e de sua interpretação. Assim, há um contexto, que informa – tanto a quem lê quanto a quem
escreve – uma série de disposições, que poderíamos chamar de sociais, culturais ou históricas.
Essas disposições são aquelas que possibilitam a escrita e a leitura, informando-as de
intencionalidades, sentidos e maneiras de olhar o mundo, a vida ou a “realidade”. Portanto, há
um contexto e um texto culturalmente informado, mas também, sentidos igualmente
informados e que permitem a leitura e a escrita (pensando obviamente nas sociedades que
enfatizam a escrita como uma operação particular de comunicação).

Um aspecto comum dessas abordagens envolve a aceitação de que um texto literário só


existe na medida em que existem leitores com “iniciativas interpretativas”. Aqui, há um
movimento dedutivo, que parte do literário e assume a existência de um leitor destinatário, que
interpreta um significado que o texto destina à sua atividade interpretativa. Assim, o leitor só
existe “potencialmente”, dado que um escritor escreve para que “alguém” leia. O pensamento
de Zumthor rompe com essa (suposta) aceitação de um leitor potencial e indica uma análise a
respeito da percepção que os leitores têm em relação a um texto, mas aqui, “percepção”
envolve muito mais do que uma operação cognitiva e mental de interpretar teórica e
emocionalmente um texto: a percepção de que nos fala Zumthor, tem a ver com a “existência”
corpórea de um leitor que percebe sensorialmente o literário. Nesse sentido, a existência de um
leitor que percebe pressupõe o corpo desse leitor e os sentidos da percepção.

Assumir que os leitores têm corpos é assumir que existem afetos e sensações físicas que
podem ser mobilizados a partir do ato da leitura. Aqui, o caminho que Zumthor propõe para
pensar a leitura e a percepção é oposto àquele dedutivo apresentado anteriormente: “partir
empiricamente do que poderia ser ponto de chegada (a percepção sensorial do “literário” por
um ser humano real) para poder induzir alguma proposição sobre a natureza do poético”
(ZUMTHOR, 2007, p. 23, grifo nosso). Essa inversão indutiva abre caminhos para pensar sobre o
papel do corpo na leitura e na percepção do literário, em como nosso corpo se relaciona e se
afeta com o que é lido.

Em primeiro lugar, há uma distinção entre leitor e leitura, visto que a última é uma
operação do ler e o primeiro é quem realiza a ação de ler. Nesse sentido, a perspectiva de
Zumthor está focalizando o corpo de quem lê, mas também o ponto de vista desse leitor e as
maneiras como a leitura é efetuada. Em segundo lugar, a ação de ler pode ser descrita como
uma operação neutra, de decodificar o conteúdo de um texto, descrição que privilegia uma
operação teórica e analítica por parte do leitor, mas, se levarmos em conta que a leitura é muito
mais do que uma mera decodificação de informações, é possível inferir que leitura também
envolve uma atividade lúdica, que causa prazer. Entre o texto lido o leitor são tecidos laços de
vínculo, talvez até mesmo de identificação, mas que fazem da leitura uma atividade
potencialmente prazerosa. Segundo Zumthor, “para o leitor, esse prazer constitui o critério
principal, muitas vezes único de poeticidade (literariedade)” (ZUMTHOR, 2007, p. 24, grifo
nosso).

2-

Um recorte necessário: as “percepções sensoriais do poético” tem a ver com as


transmissões orais da poesia, portanto, com a voz como emanação do corpo, ou ainda, como a
representação sonora de um corpo que se projeta no espaço e em direção àqueles que escutam.
Portanto, são percepções que se motivam pelo contato com a voz e com a poesia posta em
acontecimento pela voz. Escutar e falar, um encontro entre o corpo que fala com aquele que
escuta. Estamos chegando perto daquilo que Zumthor compreende por “poesia oral” na sua
dimensão performática e teatral.

Um texto escrito não tem voz. Pode ser que um texto tenha voz, ou até mais de uma,
que por vezes podem entrar em conflito, mas é uma voz que já nasce muda e assim permanece,
pois, é uma voz representada por signos acústicos e sonoros. Salvo pelos audiobooks ou pela
voz gravada, um texto geralmente não tem voz. Até mesmo nesses exemplos mencionados não
podemos falar de uma voz viva, mas, de uma voz desencarnada. Acredito que enquanto vocês,
leitores de carne e osso, estão lendo este texto, dele minha voz mais ou menos aguda e rouca
não está emanando. Talvez, se vocês experimentarem ler em voz alta estas palavras que
escrevo, sem dúvidas haverá uma voz, a voz de vocês.

Há então, uma diferença muito importante entre um texto escrito e um texto falado: a
presença da voz. Não apenas a presença da voz, mas, a voz como presença. Um texto escrito
permanecerá silencioso até que ele seja lido em voz alta. No entanto, aquilo que Zumthor está
se referindo por poesia oral não tem a ver apenas com a leitura de um texto em voz alta, mas se
relaciona à leitura como um acontecimento: no qual a voz tem a potência de afetar as pessoas
que escutam; no qual há um encontro entre quem fala e quem escuta; no qual a forma
congelada do texto ganha uma forma-força, incandescente, que emana de um corpo que fala
em direção ao encontro com outro corpo, que escuta.
A leitura põe em acontecimento a voz como presença, mas, como já observamos, não
se trata de uma leitura íntima e silenciosa, e sim, de um acontecimento em si, ou também de
uma performance diante de um coletivo de pessoas, portanto, um encontro mediado pela voz
e pela escuta. Em primeiro lugar, a performance é/está marcada por sua prática, a qual
poderíamos acrescentar o adjetivo “lúdica”, entendendo por lúdico aquilo que faz parte do jogo,
portanto, liberdade, espontaneidade, invenção, regra e prazer. Tal como o jogo, a performance
tende a firmar-se no tempo como uma forma, configurando diversas manifestações culturais,
como a dança, o ritual, o canto e o conto.

Grosso modo, podemos afirmar que um texto, por exemplo, se concretiza a partir de
uma performance, pensando, neste caso, na contação de histórias. Assim, a noção de
performance mostra-se importante para pensar além do texto e da leitura, pois, falar em
performance implica pensar no texto para além das páginas que ele foi escrito, portanto, para
além dos elementos verbais e escritos do texto. É quando o texto se realiza na e pela voz a partir
do encontro com um coletivo de ouvintes, mas também, espectadores. É quando os elementos
verbais de um texto realizam-se em elementos plásticos, objetos e formas animadas. Portanto,
estendendo a noção que nos traz Zumthor, de “poesia oral”, poderíamos pensar em uma “poesia
cênica” que se realiza nas instâncias do fazer, do ver e do escutar.