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Excelentíssimo Senhor Doutor Desembargador Relator do Órgão Especial do

Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo

Relator Des. Antonio Celso Aguilar Cortez


Proc. nº 2275735-60.2019.8.26.0000
Mandado de Segurança Coletivo
Impetrante: Apeoesp Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de
São Paulo
Impetrado: Presidente de Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo

APASE – SINDICATO DOS SUPERVISORES DE


ENSINO DO MAGISTÉRIO OFICIAL NO ESTADO DE SÃO PAULO, entidade inscrita
sob CNPJ nº 53.586.269/0001-68, situada à Rua do Arouche, nº 23, 1º Andar, Centro, São
Paulo/SP, e-mail secretaria@sindicatoapase.org.br, neste ato representado por sua Diretora-
Presidente Rosângela Aparecida Ferini Vargas Chede, brasileira, casada, supervisora de
ensino, portadora da Cédula de Identidade RG nº 20.012.646 SSP/SP e inscrita no CPF/MF sob
o nº 102.628.798-75, residente e domiciliada à Rua Armando Salles de Oliveira, 81, Centro,
Vargem/SP, vem à presença de V. Exa., por seu advogado e bastante procurador que esta
subscreve, requerer sua admissão como
AMICUS CURIAE OU ASSISTENTE
Da entidade Impetrante, Apeoesp Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de
São Paulo, nos autos do presente Mandado de Segurança, pelos fatos e fundamentos de direito
a seguir expostos:

I – DA LEGITIMIDADE E DO INTERESSE PROCESSUAL

A Constituição Federal de 1988 assegurou aos sindicatos


legitimação para a propositura de ações coletivas ou individuais da categoria, seja em questões
judiciais ou administrativas, conforme disposto no art. 8º, inciso III, verbis:

“Art. 8º - É livre a associação profissional ou sindical, observado o seguinte:


(...)
III – ao sindicato cabe a defesa dos direitos e interesses coletivos ou
individuais da categoria, inclusive em questões judiciais ou administrativas”.

Rua do Arouche, 23 1º andar 01219-001 São Paulo SP Fone/Fax: (011) 3337-6895


www.sindicatoapase.org.br - e-mail: secretaria@sindicatoapase.org.br
No mesmo diapasão, o art. 5º, inciso LXX, da Carta
Magna assim dispõe:

“Art. 5º...
[...]
LXX - O mandado de segurança coletivo pode ser impetrado por:
a) (...)
b) organização sindical, entidade de classe ou associação legalmente
constituída e em funcionamento há pelo menos um ano, em defesa dos
interesses de seus membros ou associado”

Assim, o sindicato como legitimado ativo, foi autorizado


a demandar em juízo a tutela de direitos subjetivos individuais homogêneos dos integrantes da
categoria, atuando, no caso, como substituto processual e objetivando uma sentença genérica,
nos moldes do art. 95, do Código de Defesa do Consumidor, “sem qualquer juízo a respeito da
situação particular dos substituídos”, daí ser dispensável, nas ações coletivas sindicais, “a
autorização individual dos substituídos”1.

Segundo dispõe o Estatuto da Impetrante:

Art. 1º - O Sindicato dos Supervisores de Ensino do Magistério Oficial no


Estado de São Paulo é, a partir de 05/06/1990, o resultado da transformação
da Associação Paulista de Supervisores de Ensino em Sindicato, por
determinação da Assembleia Geral Extraordinária realizada em 05/06/1990,
com sede na Capital, Rua do Arouche, 23, 1º andar, CEP 01219- 001.

Não bastasse isso, acrescenta o art. 3º, ao tratar da


finalidade do Sindicato APASE, o seguinte:

Art. 3° - Como princípio, o Sindicato-APASE é organização sindical de 1°


grau, de âmbito estadual, autônomo, apartidário, sem fins econômicos,
democrático, comprometido com a defesa dos interesses dos Supervisores de
Ensino do Magistério Oficial no Estado de São Paulo, engajado no processo
de transformação da sociedade na direção da democracia, alicerçado nos
princípios de liberdade, igualdade e de justiça.
Parágrafo único – O Sindicato-APASE tem como finalidades:
...
VI – representar e defender os direitos e interesses profissionais, individuais
e coletivos de seus sindicalizados, em juízo ou fora dele;

Ademais, o Colendo Supremo Tribunal Federal


consolidou o entendimento de que tanto na fase de conhecimento quanto na fase de liquidação
ou de cumprimento de sentença proferida em ações coletivas em que se discutam direitos
individuais homogêneos, a atuação do sindicato se dá na qualidade de substituto processual,
sem necessidade de prévia autorização dos trabalhadores.2

1
STJ, REsp. 766.134/DF
2
STF, Pleno, RE 193.503/SP, Rel. Min. Carlos Velloso, ac. 12.06.2006, DJU 24.08.2007; RE 193.579/SP idem
idem, DJU 24.08.2007.
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Nesse sentido, dispõem as Súmulas nº 629 2 630, do E.
STF:

SÚMULA 629

A IMPETRAÇÃO DE MANDADO DE SEGURANÇA COLETIVO POR


ENTIDADE DE CLASSE EM FAVOR DOS ASSOCIADOS INDEPENDE DA
AUTORIZAÇÃO DESTES.

SÚMULA 630

A ENTIDADE DE CLASSE TEM LEGITIMAÇÃO PARA O MANDADO DE


SEGURANÇA AINDA QUANDO A PRETENSÃO VEICULADA INTERESSE
APENAS A UMA PARTE DA RESPECTIVA CATEGORIA.

Dessa feita, o Sindicato APASE, como legítimo


representante da categoria dos Supervisores de Ensino do Magistério Oficial no Estado de São
Paulo, possui legitimidade para ingressar no presente feito, a fim de defender os interesses
de seus filiados.

Igualmente, possui interesse processual, posto que o


presente Mandamus tem por objeto a impugnação à Projeto de Emenda à Constituição do
Estado – PEC 18/2019, de autoria do Sr. Governador do Estado de São Paulo, e que “Modifica
o Regime Próprio de Previdência Social dos servidores públicos titulares de cargos efetivos do
Estado e dá outras providências”.

Assim, tratando-se de Sindicato representante de categoria


profissional diretamente atingida pela proposta de Emenda à Constituição objeto do presente
feito, há interesse de agir, a justificar o seu ingresso nos autos.

II – DOS REQUISITOS PARA O INGRESSO COMO AMICUS CURIAE e


ASSISTENTE

Conforme dispõe o art. 138, do Código de Processo


Civil, é admissível a intervenção como Amicus Curiae, de ofício ou a requerimento das partes
ou de quem pretenda manifestar-se, considerando a relevância da matéria ou repercussão social
da controvérsia, de entidade especializada com representatividade adequada. Vejamos:

Art. 138. O juiz ou o relator, considerando a relevância da matéria, a


especificidade do tema objeto da demanda ou a repercussão social da
controvérsia, poderá, por decisão irrecorrível, de ofício ou a requerimento das
partes ou de quem pretenda manifestar-se, solicitar ou admitir a participação
de pessoa natural ou jurídica, órgão ou entidade especializada, com
representatividade adequada, no prazo de 15 (quinze) dias de sua intimação.

In casu, o Sindicato APASE representa mais de 2.000


(dois mil) servidores públicos estaduais, ativos e inativos, havendo, portanto, justo interesse e
legitimidade a intervir no feito como Amicus curiae. Ademais, inegável a relevância da
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matéria e sua repercussão social, posto que, a tramitação e aprovação de Projeto de Emenda
à Constituição Estadual que trata da reforma do Regime Próprio da Previdência Social dos
servidores públicos atinge diretamente um enorme número de cidadãos paulistas, e a
integralidade dos filiados ao Sindicato requerente.

Assim, mostra-se devidamente admissível o ingresso do


Sindicato APASE na qualidade de Amicus Curiae nos termos do art. 138, do CPC.

Ainda que assim não entenda V. Exa., o que somente se


admite a título de eventualidade, o Sindicato APASE deve ser admitido na qualidade de
Assistente da entidade Impetrante, Apeoesp Sindicato dos Professores do Ensino Oficial
do Estado de São Paulo, nos termos do art. 119, do mesmo Código.

Segundo referido dispositivo legal, a Assistência é


admissível sempre que terceiro juridicamente interessado pretender que a sentença seja
favorável a uma das partes. Ademais, a Assistência é admissível “em qualquer procedimento e
em todos os graus de jurisdição”. Vejamos:

Art. 119. Pendendo causa entre 2 (duas) ou mais pessoas, o terceiro


juridicamente interessado em que a sentença seja favorável a uma delas
poderá intervir no processo para assisti-la.
Parágrafo único. A assistência será admitida em qualquer procedimento e em
todos os graus de jurisdição, recebendo o assistente o processo no estado em
que se encontre.

Isto posto, requer seja o Sindicato APASE admitido a


ingressar no presente feito na qualidade de Amicus Curiae, nos termos do art. 138, do CPC, ou,
subsidiariamente, na qualidade de Assistente do Impetrante.

III – DO DIREITO

Cuida-se de Mandado de Segurança Coletivo impetrado


pelo Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo – Apeoesp, em
face do Sr. Presidente da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, em que se pretende
compelir a autoridade impetrada a obstar o trâmite da proposta de emenda à constituição de
número18/2019, e devolvê-la ao seu proponente, para que, se assim o desejar, possa corrigir os
vícios de finalidade constantes do Projeto de Emenda à Constituição Estadual.

Aduz a Impetrante, que a PEC nº 18/2019 tem por objeto


a modificar o Regime Próprio de Previdência Social dos servidores públicos titulares de cargos
efetivos do Estado, sendo que em seu artigo 1º, trata de temas absolutamente diversos do
objeto apontado na exposição de motivos, como na mensagem do Governador do Estado,
e na ementa da proposta.

De fato, a mensagem do Sr. Governador do Estado, na


qualidade de proponente da Emenda, assim delimita a finalidade da proposta:

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“Tenho a honra de encaminhar, por intermédio de Vossa Excelência, à elevada
deliberação dessa nobre Assembleia, a inclusa Proposta de Emenda à
Constituição, que busca adequar a Constituição do Estado de São Paulo aos termos
da Emenda Constitucional nº 103, de 12 de novembro de 2019, que modifica o
sistema de previdência social.

A medida decorre de estudos realizados pela Secretaria da Fazenda e


Planejamento e pela São Paulo Previdência – SPPREV e encontra-se delineada,
em seus contornos gerais, no ofício a mim encaminhado pelo Titular da Pasta, que
faço anexar, por cópia, à presente Mensagem, para conhecimento dessa ilustre
Casa Legislativa.”

Assim, como se vê, a finalidade precípua da proposta é


adequar a Constituição do Estado de São Paulo aos termos da Emenda Constitucional nº
103/2013, que alterou a Constituição Federal.

Contudo, como bem lançado na Petição Inicial, os incisos


I, II e IV, do art. 1º, da PEC 18/2019, tratam de temas ABSOLUTAMENTE distintos da
finalidade do ato proposto. Vejamos:

Artigo 1º - Os dispositivos adiante indicados da


Constituição do Estado de São Paulo passam a vigorar com as seguintes alterações:

I - Os §§ 9º e 10 do artigo 115:

“Artigo 115................................................................

..................................................................................

§ 9º - O servidor público titular de cargo efetivo poderá


ser readaptado para exercício de cargo cujas atribuições e
responsabilidades sejam compatíveis com a limitação que tenha sofrido em
sua capacidade física ou mental, enquanto permanecer nesta condição,
desde que possua a habilitação e o nível de escolaridade exigidos para o
cargo de destino, mantida a remuneração do cargo de origem. (NR)

§ 10 - A aposentadoria concedida com a utilização de


tempo de contribuição decorrente de cargo, emprego ou função pública,
inclusive do regime geral de previdência social, acarretará o rompimento
do vínculo que gerou o referido tempo de contribuição.” (NR)

II - O § 5º do artigo 124:

“§ 5º - É vedada a incorporação de vantagens de caráter


temporário ou vinculadas ao exercício de função de confiança ou de cargo
em comissão à remuneração do cargo efetivo.” (NR)

[...]
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IV – o artigo 129:

“Artigo 129 - .............................................................

Parágrafo único - O disposto no “caput” não se aplica aos


servidores remunerados por subsídio, na forma da lei.” (NR)

Mas não é só, além de tais dispositivos, o art. 2º, inciso


II, do Projeto de Emenda Constitucional, igualmente trata de matéria estranha à reforma
do sistema previdenciária, ao REVOGAR o art. 133, da Constituição Estadual. Vejamos:

Artigo 2º - Ficam revogados os dispositivos adiante


indicados da Constituição do Estado de São Paulo:

I - o § 22 do artigo 126;

II - o artigo 133, assegurada a concessão das incorporações


que, na data da promulgação da Emenda Constitucional nº 103, de 12 de
novembro de 2019, tenham cumprido os requisitos temporais e normativos
previstos na legislação então vigente.

Pois bem, além dos valorosos argumentos lançados pela


Entidade Impetrante em sua Petição Inicial, os quais são integralmente ratificados neste ato,
observa-se, ainda, que a inclusão de temas divorciados do objeto principal dos Projetos de
Emenda à Constituição e Projetos de Lei, têm sido reiteradamente combatido pelo E. Supremo
Tribunal Federal, que reconhece que tal prática fere a Constituição Federal, em especial o
Princípio da Finalidade e o Processo Legislativo.

Em reiteradas decisões, o Praetorium Excelsior tem


reconhecido que a inclusão dos chamados JABUTIS ferem a ordem democrática, estando
eivado de vício de Inconstitucionalidade Material e Formal.

Vejamos algumas decisões a confirmar tal fato:

Ementa: DIREITO CONSTITUCIONAL. CONTROLE DE


CONSTITUCIONALIDADE. EMENDA PARLAMENTAR EM PROJETO
DE CONVERSÃO DE MEDIDA PROVISÓRIA EM LEI. CONTEÚDO
TEMÁTICO DISTINTO DAQUELE ORIGINÁRIO DA MEDIDA
PROVISÓRIA. PRÁTICA EM DESACORDO COM O PRINCÍPIO
DEMOCRÁTICO E COM O DEVIDO PROCESSO LEGAL (DEVIDO
PROCESSO LEGISLATIVO). 1. Viola a Constituição da República,
notadamente o princípio democrático e o devido processo legislativo (arts. 1º,
caput, parágrafo único, 2º, caput, 5º, caput, e LIV, CRFB), a prática da inserção,
mediante emenda parlamentar no processo legislativo de conversão de medida
provisória em lei, de matérias de conteúdo temático estranho ao objeto
originário da medida provisória. 2. Em atenção ao princípio da segurança
jurídica (art. 1º e 5º, XXXVI, CRFB), mantém-se hígidas todas as leis de
conversão fruto dessa prática promulgadas até a data do presente julgamento,
inclusive aquela impugnada nesta ação. 3. Ação direta de inconstitucionalidade
julgada improcedente por maioria de votos.
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(ADI 5127, Relator(a): Min. ROSA WEBER, Relator(a) p/ Acórdão: Min.
EDSON FACHIN, Tribunal Pleno, julgado em 15/10/2015, PROCESSO
ELETRÔNICO DJe-094 DIVULG 10-05-2016 PUBLIC 11-05-2016)

E M E N T A: AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE –


TRIBUNAL DE JUSTIÇA – INSTAURAÇÃO DE PROCESSO
LEGISLATIVO VERSANDO TEMA PERTINENTE À ORGANIZAÇÃO
JUDICIÁRIA DO ESTADO – INICIATIVA DO RESPECTIVO PROJETO DE
LEI SUJEITA À CLÁUSULA CONSTITUCIONAL DE RESERVA (CF, ART.
96, II, “D”, E ART. 125, § 1º, “in fine”) – OFERECIMENTO E APROVAÇÃO,
NO CURSO DO PROCESSO LEGISLATIVO, DE EMENDAS
PARLAMENTARES – AUSÊNCIA DE PERTINÊNCIA MATERIAL COM O
OBJETO DA PROPOSIÇÃO LEGISLATIVA – DESCARACTERIZAÇÃO
DE REFERIDO PROJETO DE LEI MOTIVADA PELA ALTERAÇÃO
SUBSTANCIAL DA COMPETÊNCIA MATERIAL E DOS LIMITES
TERRITORIAIS DE DIVERSAS VARAS JUDICIAIS – A QUESTÃO DAS
EMENDAS PARLAMENTARES A PROJETOS DE INICIATIVA
RESERVADA A OUTROS PODERES DO ESTADO – POSSIBILIDADE –
LIMITAÇÕES QUE INCIDEM SOBRE O PODER DE EMENDAR
PROPOSIÇÕES LEGISLATIVAS – DOUTRINA – PRECEDENTES –
REAFIRMAÇÃO DE CONSOLIDADA JURISPRUDÊNCIA DO SUPREMO
TRIBUNAL FEDERAL SOBRE O TEMA – PARECER DA
PROCURADORIA-GERAL DA REPÚBLICA PELA
INCONSTITUCIONALIDADE FORMAL DA LEI COMPLEMENTAR
MATO-GROSSENSE Nº 313/2008 – AÇÃO DIRETA JULGADA
PROCEDENTE. LIMITAÇÕES CONSTITUCIONAIS AO EXERCÍCIO DO
PODER DE EMENDA PELOS MEMBROS DO LEGISLATIVO – O poder de
emendar projetos de lei – que se reveste de natureza eminentemente
constitucional – qualifica-se como prerrogativa de ordem político-jurídica
inerente ao exercício da atividade legislativa. Essa prerrogativa institucional,
precisamente por não traduzir corolário do poder de iniciar o processo de
formação das leis (RTJ 36/382, 385 – RTJ 37/113 – RDA 102/261), pode ser
legitimamente exercida pelos membros do Legislativo, ainda que se cuide de
proposições constitucionalmente sujeitas à cláusula de reserva de iniciativa,
desde que – respeitadas as limitações estabelecidas na Constituição da
República – as emendas parlamentares (a) não importem em aumento da despesa
prevista no projeto de lei e (b) guardem afinidade lógica com a proposição
original (vínculo de pertinência). Doutrina. Jurisprudência. – Inobservância, no
caso, pelos Deputados Estaduais, no oferecimento das emendas parlamentares,
de tais restrições. Consequente declaração de inconstitucionalidade formal do
diploma legislativo impugnado nesta sede de fiscalização normativa abstrata. A
SANÇÃO DO PROJETO DE LEI NÃO CONVALIDA O VÍCIO DE
INCONSTITUCIONALIDADE RESULTANTE DO DESRESPEITO, PELOS
PARLAMENTARES, DOS LIMITES QUE INCIDEM SOBRE O PODER DE
EMENDA QUE LHES É INERENTE – A aquiescência do Chefe do Poder
Executivo mediante sanção, expressa ou tácita, do projeto de lei, sendo dele, ou
não, a prerrogativa usurpada, não tem o condão de sanar o vício de
inconstitucionalidade que afeta, juridicamente, a proposição legislativa
aprovada. Insubsistência da Súmula nº 5/STF (formulada sob a égide da
Constituição de 1946), em virtude da superveniente promulgação da
Constituição Federal de 1988. Doutrina. Precedentes. ATUAÇÃO DO
ADVOGADO-GERAL DA UNIÃO NO PROCESSO DE FISCALIZAÇÃO
CONCENTRADA DE CONSTITUCIONALIDADE – O Advogado-Geral da

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União – que, em princípio, atua como curador da presunção de
constitucionalidade do ato impugnado (RTJ 131/470 – RTJ 131/958 – RTJ
170/801-802, v.g.) – não está obrigado a defender o diploma estatal, se este
veicular conteúdo normativo já declarado incompatível com a Constituição da
República pelo Supremo Tribunal Federal em julgamentos proferidos no
exercício de sua jurisdição constitucional. Precedentes.
(ADI 4138, Relator(a): Min. CELSO DE MELLO, Tribunal Pleno, julgado em
17/10/2018, ACÓRDÃO ELETRÔNICO DJe-045 DIVULG 06-03-2019
PUBLIC 07-03-2019)

Ementa: Direito Constitucional. Ação Direta de Inconstitucionalidade. Processo


Legislativo. Lei de Iniciativa Reservada ao Poder Executivo. Emenda
Parlamentar sem Estreita Relação de Pertinência com o Objeto do Projeto
Encaminhado pelo Executivo. Vício de iniciativa. Inconstitucionalidade.
Precedentes. 1. A jurisprudência do Supremo Tribunal Federal é firme no
sentido de que o Poder Legislativo pode emendar projeto de iniciativa privativa
do chefe do Poder Executivo, desde que não ocorra aumento de despesa e haja
estreita pertinência das emendas com o objeto do projeto encaminhado ao
Legislativo, mesmo que digam respeito à mesma matéria. Nesse sentido: ADI
546, Rel. Min. Moreira Alves, j. em 11.3.1999. DJ de 14. 4.2000; ADI 973-MC,
Rel. Min. Celso de Mello, j. em 17.12.1993, DJ 19.12.2006; ADI 2.305, Rel.
Min. Cezar Peluso, j. em 30.06.2011, DJ 05.08.2011; e ADI 1.333, Rel. Min.
Cármen Lúcia, j. em 29.10.2014, DJE 18.11.2014. 2. Ação direta de
inconstitucionalidade cujo pedido se julga procedente.
(ADI 3655, Relator(a): Min. ROBERTO BARROSO, Tribunal Pleno, julgado
em 03/03/2016, ACÓRDÃO ELETRÔNICO DJe-070 DIVULG 14-04-2016
PUBLIC 15-04-2016)

Note-se que, muito embora as decisões transcritas tratem


da impossibilidade e inconstitucionalidade de Emendas Parlamentares que não guardem
“pertinência temática” com o projeto encaminhado, tal interpretação deve se estender ao próprio
projeto enviado ao legislativo.

Ora, se aos membros das Casas Legislativas, que exercem


por excelência e disposição constitucional expressa o Poder de Legislar, seja no exercício
do Poder Constituinte Revisor, seja no exercício do Poder Legislativo, é vedado a
apresentação de Emendas que se afastem do objetivo principal do projeto sob tramitação, igual,
para não dizer maior, restrição atinge o Chefe do Poder Executivo, quando excepcionalmente
provoca a produção legislativa.

Vale dizer, que se quem pode o mais, NÃO pode afastar-


se da limitação temática, quem pode o menos, tampouco está autorizado a fazer incluir no
projeto disposição que trate de assunto diverso do escopo principal.

Isto posto, por estarem os referidos dispositivos eivados


de vício de INCONSTITUCIONALIDADE por ofensa ao devido processo legal (processo
legislativo) e ao princípio democrático, a concessão do presente Mandamus é medida que
se impõe, de forma a fazer sustar o processo legislativo iniciado pelo enviado da PEC
18/2019, determinando-se a devolução do projeto ao proponente, o Sr. Governador do
Estado, de forma a adequar os dispositivos à finalidade, excluindo-se as propostas
constantes do art. 1º, incisos I, II e IV e art. 2º, do Projeto de Emenda à Constituição.
Rua do Arouche, 23 1º andar 01219-001 São Paulo SP Fone/Fax: (011) 3337-6895
www.sindicatoapase.org.br - e-mail: secretaria@sindicatoapase.org.br
Termos em que,
P. deferimento.
São Paulo, 23 de janeiro de 2020

Enzo Montanari Ramos Leme


OAB/SP 241.418

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