Você está na página 1de 92

UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE

CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS LETRAS E ARTES


DEPARTAMENTO DE FILOSOFIA
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM FILOSOFIA

Pedro Danilo Galdino

A RELAÇÃO ENTRE ESTÉTICA E POLÍTICA


NA OBRA DE JACQUES RANCIÈRE

NATAL/RN
2016
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE
CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS LETRAS E ARTES
DEPARTAMENTO DE FILOSOFIA
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM FILOSOFIA

Pedro Danilo Galdino

A RELAÇÃO ENTRE ESTÉTICA E POLÍTICA


NA OBRA DE JACQUES RANCIÈRE

Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de


Pós-graduação em Filosofia, para obtenção do Título de
Mestre em Filosofia.

Orientador: Prof. Dr. Eduardo Aníbal Pellejero

NATAL/RN
2016
Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN
Sistema de Bibliotecas - SISBI
Catalogação de Publicação na Fonte.
UFRN - Biblioteca Setorial do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes - CCHLA

Galdino, Pedro Danilo.


A relação entre estética e política na obra de Jacques Rancière
/ Pedro Danilo Galdino Vitor Pereira. - 2016.
92f.: il.

Dissertação (mestrado) - Universidade Federal do Rio Grande do


Norte. Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes. Programa de
Pós-graduação em Filosofia.
Orientador: Prof. Dr. Eduardo Aníbal Pellejero.

1. Estética. 2. Política. 3. Rancière, Jacques. I. Pellejero,


Eduardo A. II. Título.

RN/UF/BS-CCHLA CDU 111.852:32


PEDRO DANILO GALDINO

A RELAÇÃO ENTRE ESTÉTICA E POLÍTICA


NA OBRA DE JACQUES RANCIÈRE

Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-graduação em Filosofia, para


obtenção do Título de mestre em Filosofia.

Dissertação defendida em: 05/12/2016

Banca Examinadora:

________________________________________
Prof. Dr. Eduardo Aníbal Pellejero
Orientador

________________________________________
Jordi Carmona Hurtado
Membro da banca

________________________________________
Pedro Hussack Van Velthen Ramos
Membro da banca

Natal/RN
2016
Agradecimento
Agradeço a todos que de alguma forma contribuíram com a minha formação e
com a construção deste trabalho. Em especial a Jordana Louise que me tranquilizou
e me deu forças sempre quando o passo fraquejou, trazendo-me novos olhares e ân-
gulos distintos para minha pesquisa. Ao grupo ACEFALO que com sua leitura atenta
e sugestões enriqueceu profundamente minha escrita. À leitura generosa Eduardo
Pellejero e da banca de defesa, Jordi C. Hurtado, Jaime Biella e Pedro Hussack. Fi-
nalmente aos amigos e familiares que me ajudaram numa mesa de bar, numa con-
versa na grana ou no sofá de casa.
Resumo
O presente trabalho discutirá a relação entre estética e política na obra do filósofo
francês Jacques Rancière, a partir, principalmente, do conceito de partilha do sensível.
Para Rancière há um campo comum que une essas duas esferas do saber humano,
a estética primeira que se refere a um a priori da sensibilidade. Neste sentido, tanto a
arte quanto a política podem intervir neste tecido da sensibilidade, reconfigurando a
partilha do sensível de maneira dissensual. Há, segundo o autor, uma dicotomia no
campo da partilha do sensível, duas lógicas que organizam ou redistribuem as ativi-
dades, os tempos e espaços. De um lado, uma lógica do consenso e da boa ordena-
ção das posições e, de outro lado, uma lógica que funciona nas fronteiras da domina-
ção, criando um sensível conflituoso. A partir deste campo comum da partilha do sen-
sível, Rancière colocará em discussão como as artes afetam o tecido das partilhas e
como ganha um caráter político por esta razão. O objetivo desta dissertação é apre-
sentar e discutir como é possível a emancipação se efetivar a partir da prática de
indivíduos como proletários ou artistas, pensando as relações entre estética e política.

Palavras-chave: partilha do sensível, estética/política, emancipação, regime estético.


Abstract
This work will discuss the relationship between aesthetics and politics in the work of
the French philosopher Jacques Rancière, based mainly on the concept of distribution
of the sensible. For Rancière there is a common field that joins these two spheres of
human knowledge, the primary aesthetics referred to an a priori of sensitivity. In this
sense, both art and politics can intervene in this sensory fabric, reconfiguring the dis-
tribution of the sensible dissensual way. There is, according to the author, a dichotomy
in the field of distribution of the sensible, two logics that organize or redistribute the
activities, times and spaces. On the one hand, a logic of consensus and good order of
locations and on an other hand, a logic that works on the frontiers of domination, cre-
ating a disruptive sensible. From this common ground of distribution of the sensible,
Rancière put in discussion how the arts affect the fabric of the distribution and how to
get a political character for this reason. The aim of this work is to present and discuss
how it is possible to effective the emancipation from the practice of subjects as workers
or artists, thinking the relationship between aesthetics and politics.

Keywords: distribution of the sensible, aesthetics/politics, emancipation, aesthetic re-


gime of arts.
Sumário

INTRODUÇÃO: A BUSCA PELA EMANCIPAÇÃO: HISTÓRIA, ESTÉTICA E POLÍTICA . 10


1 O SENSÍVEL PARTILHADO E DIVIDIDO .................................................................................. 20
1.1 A ESTÉTICA PRIMEIRA: A INFLUÊNCIA DE MICHEL FOUCAULT ............................ 26
2 O CONSENSO POLICIAL E O DISSENSO POLÍTICO ........................................................... 36
2.1 O SENSÍVEL DIVIDIDO: O CONSENSO POLICIAL ......................................... 36
2.2 O SENSÍVEL DIVIDO: O DISSENSO POLÍTICO ............................................... 46
3 A REVOLUÇÃO ESTÉTICA: A IGUALDADE DE TODOS OS TEMAS E OS DETALHES
ANÓDINOS. ........................................................................................................................................ 58
4 A CIRCULAÇÃO SEM CONTROLE DA PALAVRA ................................................................ 74
CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................................................. 85
REFERÊNCIAS .................................................................................................................................. 90
Acreditar no mundo é o que mais nos falta; nós per-
demos completamente o mundo, nos desapossaram
dele. Acreditar no mundo significa principalmente sus-
citar acontecimentos, mesmo pequenos, que esca-
pem ao controle, ou engendrar novos espaços-tem-
pos, mesmo de superfície ou volume reduzidos. [...] É
ao nível de cada tentativa que se avalia a capacidade
de resistência ou, ao contrário, a submissão a um
controle. Necessita-se ao mesmo tempo de criação e
povo. (DELEUZE, Controle e Devir)
10

INTRODUÇÃO: A BUSCA PELA EMANCIPAÇÃO: HISTÓRIA, ESTÉTICA E POLÍ-


TICA

Arte e política se entrelaçam para modificar ou perpetuar uma determinada di-


visão nas maneiras de ver, fazer e pensar o mundo sensível. Este é o principal pen-
samento do filósofo francês Jacques Rancière que busca pensar e lançar luz sobre o
entrelaçamento entre ambas, posicionando-se de uma maneira, preponderantemente,
crítica em relação à tradição das discussões sobre emancipação, arte e política. Tal
atitude está presente em toda sua obra e vida, evidenciando as maneiras pelas quais
os indivíduos anônimos podem ganhar visibilidade e voz, não como figuras inferiores,
mas como seres capazes intelectualmente de qualquer proeza, seja ensinar aquilo
que se ignora ou aprendendo sem a necessidade de um professor.
Seja em suas análises literária de Virginia Woolf, Gustav Flaubert, Stendhal ou
Joseph Conrad, passando pelo pensamento de proletários do século XIX, na França,
e do pedagogo e pensador francês Joseph Jacotot, até chegar nas análises do cinema
de Robert Bresson, Sergei Eisenstein e Jean-Luc Goddard, entre outros, Rancière
sempre buscou traçar um pensamento acerca da emancipação e da promoção dos
anônimos como seres dignos na partilha do sensível. Construiu todo um pensamento
com a finalidade de, a partir de pequenas cenas de ruptura, lançar luz sobre as dis-
cussões em volta da estética e da política, além de pensar seu entrelaçamento.
O objetivo deste trabalho é tratar, de maneira introdutória, alguns conceitos for-
jados por Rancière para pensar a relação entre estética e política, a partir das ideias
de dem c acia e de l ica, da m da dignidade d al e m , da ela-
ções entre arte e vida e como as artes circulam sem controle naquilo que o autor
chamará de regime estético das artes. Pretende-se, nesta introdução, apresentar a
importância do conceito de emancipação na obra de Rancière em alguns de seus
trabalhos, notadamente em seus primeiros anos como pensador questionando a su-
premacia dada ao conhecimento acadêmico de alguns intelectuais da época.
No início de sua carreira, Rancière viu-se imerso na tradição marxista defen-
dida, principalmente, por seu mestre Louis Althusser, com o qual colaborou com o livro
Ler o capital (1965). Contudo, já em 1974 lança A lição de Althusser, obra na qual
Rancière se distancia do marxismo ortodoxo de seu mestre e começa sua crítica ao
marxismo e às bases do conhecimento tal al f i e abelecid . [...] [C]om efeito, a
ruptura com o mestre, ao mesmo tempo filosófica e política, ressentindo o impacto da
11

revolução cultural na China de Mao Tse-Tung e os estilhaços do Maio francês, impli-


cava a reavaliação das relações históricas e filosóficas entre o conhecimento e as
massa . (PELLEJERO, 2009, p. 19.). Começa aí sua posição contrária à ideia de
hierarquia entre o conhecimento dos líderes políticos ou intelectuais e o saber das
massas.
Rancière via em Althusser o problema de não conseguir perceber o fato de que
durante os anos 1960 as classes já tinham sofrido mudanças radicais e que as teorias
da luta de classe precisavam ser revisadas em proveito das pesquisas históricas pre-
sentes (MECCHIA, 2010, p. 39). Neste sentido, a ortodoxia de Althusser criava des-
crições sobre as classes trabalhadoras como se não houvessem ocorrido mudanças
sociais e econômicas, como se as categorias descritas por Marx não tivessem sofrido
mudanças (MECCHIA, 2010, p. 39-40). Além disso, Althusser promove uma distinção
entre trabalho intelectual e forças produtivas, auxiliando os revisionistas da justificação
teórica da ofensiva anti-esquerdista e da defesa do saber acadêmico (RANCIÈRE,
1971, p. 7-8). Por conseguinte, Althusser, segundo Rancière, impediu, a partir de seus
pressupostos teóricos, o entendimento dos movimentos de maio de 1968. O momento
no qual Rancière passa a rever o posicionamento teórico de Althusser coincide com
os movimentos de revolta estudantil e operário eclodidos na época (DERANTY, 2010,
p. 17).
É neste momento, entre a publicação de Ler o capital e sua dissidência com a
ortodoxia marxista definida em A lição de Althusser, que surge um acontecimento cu-
jas consequências mudará de maneira decisiva a forma de pensar não só de Rancière,
mas de toda uma geração de pensadores: os movimentos de maio de 68. Em suma,
o movimento foi um pôr em causa das estruturas, em modo geral, do saber acadêmico,
do papel do teórico e das hierarquias reinantes na sociedade, na política e economia.
Os militantes do Maio de 68 pensavam fazer a revolução marxista.
Mas, ao contrário, sua ação a desfazia, ao mostrar que uma revolução
é um processo autônomo de reconfiguração do visível, do pensável e
do possível, e não a realização de um movimento histórico conduzido
por um partido político até sua meta. (RANCIÈRE, 2008, p.1)

O movimento realizou algo que ia muito além dos anseios e objetivos do par-
tido, pois com a reinvindicação da rejeição na divisão no trabalho (trabalho intelectual
e trabalho manual) que está interligado às antigas maneiras de divisão do saber, des-
baratou-se a partir de cenas de subversão, todo um regime de legitimação. Maio de
12

68, com seus agentes e suas maneiras de encarar a dominação, foi um fator que
influenciou profundamente o pensamento de Rancière.
A principal consequência destas influências foi a formulação de uma igualdade
radical ao que diz respeito à inteligência dos indivíduos. Nos anos que se seguiram a
1968, notadamente, na década de 1980, Rancière focou seu trabalho no movimento
proletariado do século XIX, principalmente em obras como: A noite dos proletários
(1981) e Louis Gabriel Gauny, Le philosophe plébien (1985). A ideia da igualdade está
muito presente nestes trabalhos que mostra como os trabalhadores rompiam, princi-
palmente, com a ideia de divisão entre trabalho manual e intelectual, ao realizarem,
com seus próprios esforços, incursões nos mundos da filosofia, da poesia e da polí-
tica. Em 1987 com O mestre ignorante: cinco lições sobre a emancipação intelectual,
Rancière trará para a discussão sobre a emancipação um autor esquecido do século
XIX, Joseph Jacotot.
Com sua principal obra deste período, A noite dos proletários, Rancière traz
como objetivo de trabalho não a análise do discurso proletário enquanto grupo ou
classe, mas o foco no trabalho e discurso individual de alguns trabalhadores do século
XVII na F an a, anali and aradoxos, contradições, ambiguidades, dificuldades
dialéticas encontradas pelos pensadores proletários em suas tentativas de articular
sua experiência, compreendendo o mecanismo de opressão, organizando novos mo-
dos de trabalho, e criando novas formas de com nidade. (DERANTY, .21). O in en
desta obra não é mostrar o sofrimento que passa a classe proletária: os baixos salá-
rios, péssimas condições de trabalho; mas sim, mostrar como que alguns trabalhado-
res romperam com a lógica de dominação feita pela ideia de uma determinada partilha
das capacidades/ocupações/tempos, quando eles revertem o mundo na hora em que
de e iam e a d mind n e b igad el e abalh . N e f aa
retardar até o limite extremo a entrar neste sono que repara as forças da máquina
e il (RANCI RE, .8). Ne a n i e mal d mida , c n eg em b e e ma de-
terminada partilha do sensível que dividia de maneira hierárquica duas maneiras de
atividades: a intelectual e a manual. Eles rompem com os discursos filosóficos eviden-
ciam um conhecimento básico de uma emancipação política por parte dos trabalha-
dores.
Entretanto, a igualdade e a emancipação serão tratadas com mais força na sua
obra O mestre ignorante: cinco lições sobre a emancipação intelectual que apresenta
a descoberta pedagógica feita por Joseph Jacotot, professor e pensador francês do
13

século XIX, que se viu exilado do seu país e foi dar aulas na Holanda. Porém, havia
um problema, ele não falava flamenco e os seus alunos não entendiam nada de fran-
cês. Para utilizar como meio comum de diálogo, Jacotot entregou a seus alunos uma
edição bilíngue do Télémaque de Fénelon e pediu que lessem em francês com o apoio
da versão em flamenco. Os resultados não tardaram a chegar: os alunos passaram a
compreender e escrever em francês, a partir do exercício proposto. O que surpreen-
deu mais Jacotot foi a capacidade dos alunos aprenderam o francês sem a necessi-
dade da participação de um mestre . O resultado desta experiência instigou-o a
c n i ma ef ma adical de d s métodos pedagógicos sobre o nome de
ed ca ni e al . (CITTON, . 26).
E a ad fei a Ranci e da a en a edag gica de J e h Jac -
tot, nos dá algumas implicações do pressuposto da igualdade das inteligências no
campo educacional. Jacotot quase sem a intenção descobre um método de ensino no
qual não é necessário a figura do mestre explicador que transfere seu conhecimento
ao aluno, que cria um abismo de desigualdade, tendo em vista que o aluno é visto
como um ser incapaz de aprender sem o professor. Pelo contrário, o mestre pode
ignorar o que os alunos vão aprender, pois o aluno é completamente capaz, com suas
experiências e habilidades, de aprender o que quer que seja. Jacotot dá o nome de
educação universal a este método, no qual a igualdade intelectual e a inerente capa-
cidade do ser humano são pressupostas.
Eles haviam aprendido sem mestre explicador, mas não sem mestre.
Antes, não sabiam e, agora, sim. Logo, Jacotot havia lhes ensinado
algo. No entanto, ele nada lhes havia comunicado de sua ciência. Não
era, portanto, a ciência do Mestre que os alunos aprendiam. Ele havia
sido mestre por força da ordem que mergulhara os alunos no círculo
de onde eles podiam sair sozinhos, quando retirava sua inteligência
para deixar as deles entregues àquela do livro (RANCIÈRE, 2002, p.
25)

Pode-se entender esta educação universal a partir de dois pontos: 1) aprender


é questão de ter atenção, ou seja, ocorre quando o aluno consegue por conta própria
romper com o espaço que separa ele mesmo de algo que se ignora, construindo um
caminho próprio a partir de sua experiência e de tentativas e erros; 2) aprender é uma
questão de tradução: é um olhar singular diante do mundo em volta, tratando de com-
preender e de assimilá-lo utilizando uma linguagem que lhe é própria. O que está em
jogo é a capacidade do indivíduo de ser emancipado e de atualizar essa emancipação
a cada momento que for preciso, traduzindo suas vivências.
14

A principal constatação advinda deste método de ensino é que todo ser humano
é capaz de aprender por conta própria. Com isso não se faz necessário a imagem do
professor que transfere seu conhecimento ao aluno, o qual é chamado por Jacotot de
emb eced 1 (que é a submissão de uma inteligência à de outro), sendo que ele
promove apenas a desigualdade, mas apenas de um professor que serve de instru-
mento no processo para dirigir os alunos, como, por exemplo, ao dar um livro a eles.
Já que o professor não precisa explicar conteúdo algum, então ele não precisa conhe-
cer o que se pretende que os alunos aprendam. É o paradoxo do mestre ignorante:
aquele que ensina o que se ignora.
Esta capacidade de aprendizagem emancipada está presente desde cedo nas
pessoas, quando se tem a experiência de aprender por conta própria, por exemplo, a
reconhecer as palavras de nossa língua-mãe. Porém, o processo não é imediato, mas
requer seguidas repetições, observações, assimilações, organizações de experiên-
cias, ou seja, está pautada em acertos e erros. Neste sentido, explicações querem
di e e: c n abe c m aprender e para aprender você precisa de um pro-
fessor. [...] O ato de explicar gera e perpetua uma estrutura de desigualdade entre o
e licad e in e, i ed cad em a em e ei and en ina.
(CITTON, p. 28). O mestre explicador, ou embrutecedor, na verdade coloca a cada
instante obstáculos no aprendizado, ao sempre pressupor como ignorante o outro,
pelo fato de sempre renovar o abismo entre as duas inteligências em questão.
Enfim, a desigualdade de atenção é um fenômeno cujas causas pos-
síveis nos são razoavelmente sugeridas pela experiência. Sabemos
porque crianças pequenas demonstram uma inteligência tão seme-
lhante em sua exploração do mundo e em seu aprendizado da lingua-
gem. O instinto e a necessidade os conduzem de forma idêntica. To-
das têm mais ou menos as mesmas necessidades a serem satisfeitas
e todos querem igualmente entrar na sociedade dos humanos, na so-
ciedade dos seres falantes. E, para isso, é preciso que a inteligência
trabalhe sem repouso. (RANCIÈRE, 2002, 60-61)

1 O emb eced n elh me e b e en e a cabe a de e al n de c nhecimen


indigestos, nem o ser maléfico que pratica a dupla verdade, para assegurar seu poder e a ordem social.
Ao contrário, é exatamente por ser culto, esclarecido e de boa-fé que ele é mais eficaz. Mais ele é culto,
mais se mostra evidente a ele a distância que vai de seu saber à ignorância dos ignorantes. Mais ele é
esclarecido, e lhe parece óbvia a diferença que há entre tatear às escuras e buscar com método, mais
ele se aplicará em substituir pelo espírito da letra. pela clareza das explicações a autoridade do livro.
Antes de qualquer coisa, dir-se-á, é preciso que o aluno compreenda e, para isso, que a ele se forneçam
explicações cada vez melhores. Tal é a preocupação do pedagogo esclarecido: a criança está compre-
endendo? Ela não compreende? Encontrarei maneiras novas de explicar-lhe, mais rigorosas em seu
princ i , mai a a i a em a f ma; e e ifica ei e ele c m eende . (RANCI RE, 2002, . 20-
21)
15

Este é o principal problema nas políticas que visam tirar os pobres ou os prole-
tários de suas situações para com isso alcançar um estágio de emancipação: partem
do pressuposto de que não conseguem por conta própria serem emancipados, além
de por para o futuro o objetivo da emancipação; esta emancipação por vir nunca é
alcança, pois sempre é posta a distinção aumentando assim a distância entre as inte-
lig ncia . I de e a a ela al a mai ge i a l ica en am a e-
sentar a igualdade como sendo uma meta para o futuro. [...] O adiamento da igualdade
em um futuro nunca completamente alcançável constitui a principal armadilha da po-
l ica g e i a (CITTON, . 32). O e licad fe ece e a e e an a, e e je
da igualdade como sendo algo por vir, mas que acaba nunca sendo realizado.
É a partir da pressuposição da igualdade das inteligências, pautada na atuali-
zação e verificação da emancipação que podemos pensar o real sentido da ação po-
lítica e da própria democracia2 segundo Rancière3. A política é, pois, a atualização do
princípio de emancipação que subverte uma partilha do sensível previamente dada
cujo poder pré-ordena as posições dos indivíduos a partir da lógica da incapacidade
para determinadas atividades e da hierarquia de posições. Emancipação está na base
da política, sem, portanto, fazer parte dela, pois é apenas um pressuposto.
Políticas democráticas consistem na prática de verificação desta pres-
suposição. Igualdade não é uma circunstância nem uma reivindicação;
é prática, é verificar, desde que a igualdade não seja preservada, nós
estaremos reduzidos a multiplicidade de experimentos inspirados por
opiniões. Nunca existe, exceto nesta verificação e no preço de ser ve-
rificado sempre e em todos os cantos. (CITTON, p. 33).

Com o Espectador emancipado, Rancière transporá as questões outrora desti-


nadas à emancipação em um sentido pedagógico, para o campo do espectador, no-
tadamente, nas artes do regime estético. A partir de dramaturgos como Bertolt Brecht
e Antonin Artaud, que remontam à antiga querela iniciada por Platão, Rancière ques-
tionará a ideia de que o espectador deva ser considerado um ser passivo no qual olhar

2 A democracia, no campo estritamente política, não diz respeito às maneiras pelas quais o governo
organiza e busca perpetuar o poder e o jogos de governabilidade, mas antes é uma disputa que busca
por como foco das cenas políticas aquele que outrora não tinha voz e vez. Contudo, afirmar que não
vivemos em democracias não significa dizer que vivemos em campos de concentração
Dem c acia n m i de c n ituição nem uma forma de sociedade. [...] é simplesmente o poder
próprio daqueles que não têm mais título para governar do que ser governado. [...] Um poder político
significa [...] o poder dos que não têm razão natural para governar sobre os que não têm razão natural
a a e g e nad (RANCI RE, 2014a, . 63-64)
3 Ig aldade e emanci a , elemen f ndamen ai d m d edag gic de Jac , de m a im
os elementos fundamentais da luta democrática. Trata-se de uma analogia entre a emancipação inte-
lect al e a ica l ica, en endida c m ica de a d f nci namen da de ig aldade.
(PELLEJERO, 2009, p. 23)
16

é oposto de conhecer e de agir. Entretanto estas visões reformistas do teatro compre-


endem mal o espectador, e Rancière propõe duas mudanças: o espectador é portador
das mesmas capacidades intelectuais que os alunos de Jacotot, ou seja, eles são
igualmente capazes de construir significados a partir do que foi visto, pois assistir algo
já é uma atividade; e uma grande parte dos artistas modernos incorpora o papel do
e licad , a en a e lica a e de e ia en ende na a e e ciedade
[...]. Tal atitude reproduz a divisão entre os que têm conhecimento e autoridade (na
arte) e os que têm pouco poder para compreender e fazer julgamentos (estéticos)
c e (CITTON, . 37). C ia-se, assim, uma hierarquia entre os detentores do co-
nhecimento e os ignorantes. Nas palavras de Rancière, o espectador foi visto como
algo negativo:
[...] como dizem os acusadores, é um mal ser espectador, por duas
razões. Primeiramente, olhar é o contrário de conhecer. O espectador
mantém-se diante de uma aparência ignorando o processo de produ-
ção dessa aparência ou a realidade por ela encoberta. Em segundo
lugar, é o contrário de agir. O espectador fica imóvel em seu lugar,
passivo. Ser espectador é estar separado ao mesmo tempo da capa-
cidade de conhecer e do poder de agir. (RANCIÈRE, 2012b, p. 8)

Brecht e Artaud, propuseram esquemas que tentassem tirar o espectador


dessa nefasta posição, fazendo com que possa se tornar um agente capaz de conhe-
cer, conhecendo os elementos por trás das aparências que mascaram a realidade das
coisas. Contudo, o pressuposto do qual estes dramaturgos partem é o mesmo do
mestre embrutecedor, ou seja, parte da ideia que o espectador não consegue sair de
sua posição passiva por conta própria, sendo necessário a intervenção externa para
conseguir compreender a realidade perigosa na qual vive.
Qual deve ser, portanto, a atitude pela qual o artista e sua arte pode instaurar
o dissenso dentro da partilha do sensível? Rancière argumenta que não deve ser a
partir do pressuposto da ignorância do espectador, pois o espectador é já um ser ativo
capaz de fazer suas próprias traduções do que foi assistido, a partir de suas experi-
ências, sonhos, expectativas, habilidades, construindo seus próprios poemas. A dua-
lidade platônica entre seres passivos e ativos, entre aqueles que conhecem e que
ignoram, deve ser abolida na medida que o próprio espectador reconheça sua posi-
ção.
A emancipação [...] começa quando se questiona a oposição entre
olhar e agir, quando se compreende que as evidências que assim es-
truturam as relações do dizer, do ver e do fazer pertencem à estrutura
da dominação e da sujeição. Começa quando se compreende que
17

olhar é também uma ação que confirma ou transforma essa distribui-


ção das posições. O espectador também age, tal como o aluno ou o
intelectual. (RANCIÈRE, 2012b, p. 17)

A arte se inscreve de maneira conflituosa na partilha do sensível, na medida


em que questiona os espaços, as maneiras de olhar e perceber o mundo em volta,
não a partir do engajamento dos artistas ou das obras, mas a partir da emancipação
do espectador que consegue ver em pequenas cenas artísticas ou políticas um novo
campo de interpretação do sensível. É o que é apresentado no Espectador emanci-
pado, entre outras obras, em que a emancipação é o mecanismo a partir do qual há
política no sentido de desbaratar as fronteiras propostas e organizadas do sensível
comum, religando de maneira democrática as relações entre arte e política. Contudo,
é preciso deixar claro com Rancière:
As artes nunca emprestam às manobras de dominação ou de eman-
cipação mais do que lhes podem emprestar, ou seja, muito simples-
mente o que têm em comum com elas: posições e movimentos dos
corpos, funções da palavra, repartições do visível e do invisível. E a
autonomia de que podem gozar e a subversão que podem se atribuir
repousam sobre a mesma base (RANCIÈRE, 2005, p. 26)

Arte e política, podem configuram as maneiras de ver, fazer e pensar o sensí-


vel, simplesmente, porque estão sobre o mesmo tecido sensível, isto é, pousam diante
do horizonte de legitimação que faz com que alguns corpos ou atividades possam ser
tratados como visível ou não, como portadores de voz ou como seres que apenas
balbuciam ruídos. A emancipação do espectador de arte é política, pois interfere dire-
tamente nesta partilha do sensível, e a democracia é estética pois lida com a visibili-
dade dos corpos e de sua posição no espaço comum.
A preocupação dos anos 1980 sobre o processo contínuo de emancipação do
indivíduo, continuou presente em todas suas obras posteriores, tanto sobre política
quanto estética, tentando entender esses processos para além da proposta de inter-
venção do partido comunista ou de artistas engajados politicamente que viam na
emancipação uma meta a se alcançar. Rancière entende que a emancipação deve
ser entendida como um pressuposto do qual as ações devem partir, ou seja, é um
ponto de partida e não algo a se alcançar. As pessoas são capazes intelectualmente
para conseguir aprender o que quer que seja, a dificuldade está, pois, na atualização
constante da emancipação.
O trabalho que se segue será organizado da seguinte maneira: o primeiro ca-
pítulo será para apresentar o conceito de partilha do sensível no qual será importante
18

para pensar a relação entre estética e política. Em seguida, discutir-se-á o conceito


de estética primeira próprio ao entendimento da partilha do sensível como o a priori
da sensibilidade. Neste momento serão levantados o referencial e a discussão susci-
tada por Foucault sobre os conceitos de a priori histórico e de episteme, cuja influência
foi decisivo no pensamento de Rancière. Para esta relação entre o pensamento destes
dois filósofos, será abordada principalmente as primeiras obras de Foucault, Arqueo-
logia do saber e As palavras e as coisas, da chamada fase arqueológica, na qual o
autor discutirá sobre as maneiras de funcionamento dos discursos e a mudança de
episteme dentro dos saberes.
No segundo capítulo, ter-se-á uma apresentação de dois conceitos importantes
na obra de Rancière para entender o campo da política (lato senso) dentro da partilha
do sensível: polícia e política. Neste momento, serão discutidos conceitos como os de
consenso, dissenso, emancipação e democracia, levantando como a luta política está
longe da luta pelo poder empregada por partidos políticos ou pela governabilidade,
dentro do pensamento de Rancière.
O próximo ponto a ser tratado é a discussão levantada pelo que Rancière
chama de regime estético das artes, principalmente, com a ideia da promoção estética
dos anônimos a partir da tradição romanesca que instaurou uma revolução nas ma-
neiras de ver, fazer e pensar as artes. Serão tratados a importância dada por Rancière
a autores da literatura que abordam o surgimento deste novo tema artístico que é a
vida das pessoas comuns, entre eles: Flaubert, Stendhal, Woolf e Conrad. Além disso,
será abordada a maneira pela qual estes escritores abordaram a descrição em detri-
mento da narrativa, em que o autor trará como foco os detalhes de um ambiente como
objetos cotidianos, o que acaba destruindo com a antiga maneira de contar histórias
que remonta a Aristóteles.
Ainda sobre o regime estético, será apresentado outro aspecto importante para
se compreender o conceito: a circulação sem controle das artes e da palavra o que
acarreta no surgimento de uma comunidade de leitores. Com o advento desta nova
fase artística no ocidente, é possível criar a possibilidade de se ampliar o acesso às
artes, criando, assim, o que o autor chamou de comunidade de leitores, que é uma
comunidade de tradutores, pois a arte passa a ser cada vez mais uma questão voltada
para o espectador como indivíduo autônomo e emancipado ao mesmo tempo em que
esse leitor não tem qualquer legitimidade tendo em vista que não se deve mais se
submeter à lógica do especialista: cada um pode ter uma experiência impar diante de
19

uma obra, pois apreciar uma obra de arte torna-se uma aventura dentro da floresta de
signos que nos rodeia.
20

1 O SENSÍVEL PARTILHADO E DIVIDIDO4

Vi em m m men da hi ia em e a de c nfian a em ela


im ncia da a e e i nada em l de m de encan amen em ela a fim
da me a ica ad inda , b e d , da i ada d c l XIX a a XX. H
ma de c nfian a dian e d je e in eg am a e e ida em ma am lgama,
ec nfig and c m i h i ne en ei . Ademai , je de
emanci a e eg id ela e l e ica a ecem e ming ad dian e d
f aca e da c njec a hi ica d c l XX. C m a a e de fa e alg ela
emanci a d h mem em m men de e a c m i enciad ela eg nda
g ande g e a m ndial? C m el fa e a e a h l ca ? E, mai
f ndamen e, c m n en a ea ia e ica falha am mi e a elmen e
dian e da i a d h mem m de n ? A a e de fa e alg a a a emanci a
de h men e m lhe e ?
P lad , n cam mai iamen e l ic , egime ali i
a ecem e la ad d f ndamen c iad el ideai il mini a
agad ela e l f ance a e ame icana. A ba b ie m c n a da
h manidade and e imagin e - e e ca ad de e e ad de animalidade.
E ica e l ica c a am e ei a la de c m nh a l ng d an ,
inci almen e de de man i m , ma c m en a al ela ? Wal e Benjamin
den ncia a e e i a da l ica n al a b a de a e ili ada c m fin
agand ic n egime de c n le de ma a . The d Ad n den ncia a
ind ia c l al e aliena a b a de a e em ld l c de enf ead da em e a
de en e enimen . Ma c m en a al e a a al m d blema a n ad
Benjamin e Ad n ? A a e de a ici a de manei a i i a den da
ci c la d c na c m nidade?
Ranci e en a e a a e de f nci na aa c n i ma n a
i ibilidade, a a al m de a ca a e e a da a e ela l ica. Ne e en id ,
aa de imb ica a e e l ica a a i d e c ncei de a ilha d en el c j
alcance fa engl ba a manei a de e , m d de fa e e f ma de en a e a
manei a de fa e .

4 O conceito de partilha do sensível será o fio condutor de todo o trabalho, buscando mostrar como que
a política e a arte se insere nele, modificando o horizonte sensível, propondo novas maneiras de se
relacionar com o mundo. O presente capítulo visa uma explicação de tal conceito, traçando a base
conceitual para os capítulos seguintes.
21

Den min a ilha d en el, i ema de e id ncia en ei e


e ela, a me m em , a e i ncia de m comum e d ec e
e nele definem l ga e e a e e ec i a . Uma a ilha d
en el fica an , a me m em , m comum a ilhad e
a e e cl i a . E a e a i da a e e d l ga e e f nda
n ma a ilha de e a , em e i de a i idade e de e mina
iamen e a manei a c m m comum e e a a ici a e
c m n e mam a e ne a a ilha (RANCI RE, 2005, .
15)

Em a ala a , a a- e de en ende c m jei a ici am d


c m m a a i de ca acidade inca acidade aa m de e minad e a
c m a ilhad , a a ma a i idade e ec fica, e ei and n em a a al
al a i idade: a a ilha d en el fa e em de ma a e n c m m em
f n da il e fa , d em ed e a em ee a a i idade e e e ce. ,
c m lemen a Ranci e, [...] [ ] m ec ed em ed e a ,d i el e d
in i el, da ala a e d d e define a me m em l ga e ee em
j g na l ica c m f ma de e e i ncia (RANCI RE, 2005, . 16). Tem, an ,
d a ca ac e i a e e definem c ncei : imei , a ideia de a ici a den
d c m m, a a i de inh e , a ad na ili a d e a ed em aa
a i idade gani ada e definida , e ei and ma gani a ge al da i e
e da i ibilidade; eg nd , en ada c m a ede ge al da en ibilidade e ne a
di e d c , da ica e da ala a , a a i da ideia de m nic c
ha m nic e c n en al. O eja, cada c , cada ala a, cada bje ci c la
den da c m nidade e ei and a ec de a e en a e de c n eni ncia a a
c m d .
Amba ca ac e ica e e en e em al e a ilha e a am a
a ici a d jei na c m nidade, n end , an , en ada
e a adamen e. A a ilha d en el, eg nd Panagia, ma linha di idida e
c ia a c ndi e e ce ai aa ma c m nidade l ica e e di en
(PANAGIA, . 96). A a ilha delimi a a a ici a ea c a e ,c n d ,a a i
da a a na falha da f n ei a el c ia mn cam de a ici a ,
em e de manei a l mica, nand a iden idade b ada e n fi a , i e
em c n an e m dan a, cambiand a f ma de c m c e di c ligad
n a e c m dem e ceb -l , n nci -l e en -l . A linha
di idida em e in el e l il, i em e ena cena de a en ei
de- e fa e de m na an ig m e f n ei a a en e g id .
T mand i e m f anc c m n de in e ea , partage em
22

d i en id ,j a inalad an e i men e, i a a li emia: c m a ilha e


di idi . T na alg c m m e a me m em a ic la . Pa ilha ignifica ma
a i idade e ec fica e e in e e em m en el c m a ilhad . Refe e- e a ma
a ilha na f ma em e e de ia da m eda de c nhecimen , ma
e e i ncia [ ], ignifica ainda m a de da , de fa e alg en c m m, c m m
a d (PANAGIA, . 96). A i ele e Pla , a a i da lei a de Ranci e,
b n e em l de c m a a ilha d en el e de en l e. Na ba e d en amen
l ic de A i ele e i e ma a ilha e de e mina e mam a e [...] n
fa de g e na e e g e nad (RANCI RE, 2005, . 16), eja, delimi a em
de e n de ma l ga na deci e b e a p lis. Pla a e di e
a e n dem fa e ac i a en eja e f ci el bem d b m
denamen da cidade, al m de en a a e blica c m ma di i ha m ni a
en e ca a de e minada a f n e ciai .
De m lad , a a ilha di e ei a denamen i da i e
ei den da c m nidade, i , limi and alcance da a e indi id ai .
C n d , lad , a a i da a ici a de jei ab e- e m cam n al
e a gani a de e e i nada e e m e em de bad . Ne a
e ec i a, h , na e dade, m ignificad i l a c ncei de a ilha d en el,
a di i d en el de f ma licial l ica, e a c m nh en el e e i em
en e e e d i n . a in e ea amb m de Be na d A e:
1) di ib i efe i a da a e de al m d e f nda a dem da
c i a . 2) e i namen de a di ib i e an f ma
e a inicial n m e a di idid , la i ad . Ma amb m: 3) e
an i a en e e e d i e a , e em nece a iamen e a f ma
de m e abelecimen d c m m. (ASPE, 2013, . 69).

H , an , a a ilha d en el c m denamen da a i idade a a i


d c n en en e a a e , c m de ba a amen li igi de a gani a e,
al m di , e a c m m nde m e m l ga . N imei en id ,
en el di idid de e e cebid an de f ma c n en al c m de f ma
di en al5. E a d a linha de ibilidade e e g ei am c m in i de
ici na c l ic a ic den d m nd . Al m di , h a en
en e e a d a i e e na a f n ei a inc n an e e ince a .
M lhe e e n de iam a ici a de e a blic ( i a

5A partilha do sensível pensada por estes termos será abordada na próxima seção em que se discutirá
a interpretação de Rancière sobre a política e a polícia.
23

a i idade e e miam a ambien e d m ic ) en inham di ei a ,


e em l , a a am a e mai i ibilidade den da a ilha d en el a a i
da e a i da i e e da l a dem c ica. Neg e d an e m i em
f am de inad a ma i de b e i ncia e a ad c m animai em
di ei e de inad a abalh b a al em la a lan a e , nam- e dign
de a ici a d e a c m m. C n d , ai m dan a ac n ecem and
jei a ici am da l a dem c ica b e end an iga c n en e e dand
mai i ibilidade a imid . Q and a neg a R a Pa k e ec a cede e
l ga a m b anc em m nib em M n g me , Alabama, ee a mada ideia
eg egaci ni a , ela b e e m e a c m m c m ma ica indi id al. A
c agem de R a Pa k in en ific a l a dem c ica c n a a lei
an i eg egaci ni a n E ad Unid , aj dand a b e e a l gica d minan e
e encla a e limi a a a ici a d indi d na a ilha d en el.
P lad , e a di i em d i m nd c m a ilha m e a en el
c m m, dand -lhe m ca e e ic de i ibilidade e de e ce ibilidade. O
en el, ae ica, n en amen de Ranci e ilha d i caminh di in : m
l ad a m nd da a e e a cam da en ibilidade em ge al. N imei
ca , e e c ad aa a c n de elemen de in eligibilidade da
di c bea a e m ida n l im d i c l , a a i da imei a
e e i ncia m de ni a , a e Ranci e da n me de egime e ic . Em
en id , a e ica de e en ada c m cam de en ibilidade n al ica
a ica e a i idade l ica b cam a c ne e , afa amen e limi a de
e efei , le and em c n ide a a i e de legi imidade e de i ibilidade
d c e da ala a6, e a chama de e ica imei a.
A a ilha d en el en ada, na b a de Ranci e, a a a a c m ea
a eea l ica e c nfig am. O en el a im en ad e ec m ecid c m m,
c j fi c n em ema anhad de ela e en e a ica a ica e a
a i idade l ica e e ba eia, c n eg in e, em g ande medida, c m a
de e mina c m a ilhada de a i idade , em e e a . P m lad ,
e em l , a l ng da hi ia da bela a e alg e ia c n ide ad a ic e

6 A revolução estética é ao mesmo tempo uma revolução sensível, pois se trata de posições e da
legitimação para ocupa-las. Como comenta Bernard Aspe: A e l e ica, e chama em
preferivelmente de revolução sensível, é o contrário do fantasma da indistinção ou da indiferenciação,
que dispensa tanto os artistas de se voltarem para o real da política quanto os militantes de se preocu-
parem c m eal da in en e d en amen .
24

e ei a e alg ma c ndi e de acei abilidade e e i e e den de m


h i n e de legi imidade d di c , da f ma de fa e e da manei a de e e
delimi a a n m bje c m b a de a e. P lad , alg imila c en
cam da a e l ica e da i e ciai : nece i , a a i da c a
d e a e da ili a d em , e indi d e ejam em ce a i e
aa de n ncia ce j e alg ma i ibilidade7.
Tan ica a ica an ac n ecimen l ic ai am be e e
ecid en el c m m. A a ilha d en el en ada c m cam de
en ncia , de a a i e de efe i idade d c n e a en em n
m e a em e e e dic micamen e a e e l ica, ma nde h ma
imb ica m a (CACHOPO, 2013), elaci nand -a e c nfig and a c ndi e
de acei abilidade, de a a i e de ci c la d c ed en nciad , al m de
e mi i j g en ei , i , c m e em ai c ndi e en id
indi d e di c li e i , a ic l ic . C n d , c m a inala
Be na d A e (2013), n h ma indi in , ma an e , la a ad ai e
c nfig am a ela e en e a e e l ica, a and e efei be e a e
em n ai jei eali am a a i idade . E a imb ica a ad al
en e a e e l ica e a ada ela ela e de i ibilidade/in i ibilidade,
ca acidade/inca acidade a me m em em e am lia dimin i h i n e de
ibilidade de a a em ma dada a ilha.
S be ai c ndi e indi d e nam dign n de i ibilidade
em ma de e minada a ilha d en el? C m m e c m a hie a ia ia
a a ilha mai liciai ? C m b a de a e e a e l ica e imb icam na
a ilha d en el? Q ai a ca ac e ica de e e a den d en el? C m
ele e d e c m a el de e e denad ? eci a i de ma e mai
im le : e en el?
O en el a a Ranci e di e ei a ca eg ia na dem d em e
e a , en ada a a i d encadeamen en e c nfig a e ec nfig a ,
dem e c nfli . P an , a a- e de ma c nfig a e ica ee na ba e
da ica l ica e liciai , e da cena de manife a a ica. Send a im,

7A hi ia em in me m men m a e a c n ingen e nece idade de dignidade a a fala e a


c ia de n a f ma de a a ecimen l ic a a i de g ande e l a e e l e de
e en a c idian e c l ca am em e a an iga gani a e e i e l ica e
ciai .
25

a i e , a c a e de e minada ela gani a d en el. Pa a


Ch i ian R b em en el na b a de Ranci e, a de ei de a e da adi
fil fica, ganha m ca e de cen alidade e de i i idade8 l and - e aa
e e en a m d imanen e be e e eali a a gani a da d mina
cial e l ica e, im l aneamen e, ma e e i ncia l ica i ed el a dem
da il e n malmen e en endid c ncei almen e ( eja E ad , g en ,a
l ica, a ma da a e ) (RUBY, . 25)9. O en el, eg nd R b , a d mina
licial e a me m em alg e e ca a a mecani m e em de
den mina e cl ica da l ica. P m, e e e alg e e ca a ed
da l ica a e c ncei cl ic c m de , g e nabilidade E ad ?
Seg nd Ranci e, e e alg a ncia de ec nfig a d en el 10 e
c n i e na ac m an ig en ela amen en ei c ja ca ac e ica a
man en de m status quo. H , an , n en el, d a l gica c nfli an e
e a am de f ma a man e m e a i e da ala a e d c :n
cam l ic ele ili a em l cia e l ica11.
A d alidade d en el en ad Ranci e alg c n i in e e n ma
falha. N alg a e c n e ad , ma alg e en e e c n an e. Q and a l gica
d b m denamen en el e em j g , ab em- e b echa e ibili am
gimen da l gica da b e ed e ici namen d c e di c .
Ne e en id , a gani a d en el em e a ibilidade im ibilidade
de m c e d ad de i ibilidade em ma de e minada cena c m m.
Sem e eh ma de e mina de a e ei , a a e ec
n cam da in i ibilidade de f ma a bi ia e, c n eg in e, ganham a
chance de e na em e ce ei a m e em c m ag amen denad d
en el. O en el em e di idid e c n ingen e. P m, e a amen e e e
fa e de e al amen e m dific el.

8 Ruby fala de outros autores que serviram de base para uma valorização da sensibilidade como Jean-
François Lyotard e Giles Deleuze.
9 eci fa e a e al a de e en el (e ica) na b a de Jac e Ranci e a ba e da
l ica, m a in e e a de Ch i ian R b d m ca e e nde an emen e l ic , i
ed en el a e m de d mina l ica, de E ad , g e n , e c, e n c nfig a en el
da di i e d c .
10 Por outro lado, o sensível neste caso pode ganhar o nome de política ou de regime estético.
11 N mag da l ica, h m d l dan , m c nfli f ndamen al e n nca c n ide ad c m al em
torno da relação entre a capacidade d e falan e em iedade e a ca acidade l ica. (RAN-
CIÈRE, 1996, p. 36)
26

1.1 A ESTÉTICA PRIMEIRA: A INFLUÊNCIA DE MICHEL FOUCAULT 12

A a ilha d en el c m a en en e m c m m a ilhad e
inh e e fa em a e de e c m m, e ela e a chama de ma e ica
imei a, i , a ba e be a al a e e l ica dem in e i de manei a
c n en al di en al na manei a de e , en a , en i e di e . E a e ica
imei a en ada c m i ema de f ma a priori de e minand e ed a
en i (RANCI RE, 2005, . 16). C n d , c m a inala Ranci e, e e a priori
melh en endid a a i da elei a eF ca l fa de Kan . Em a ala a ,
efe e- e a ca ac e ica am la e e e de eg a ge al a a a a ici a em
a i idade , e a e em , ma de ma manei a a e idencia a ec hi ic
d abe e e de a ela e c m de .
De a manei a, a e ica/ en el e na ba e da a i idade h mana ,
incl i eee ecialmen e da l ica e da a e, i eg la b m denamen da
c ndi e nece ia aa e e a a ici a d en el e e cl d dele.
E a e ica imei a a a en emen e a ima- e da ca ac e ica de di i
c n en al d en el, i di e ei a cam n al c e di em n
e a e n em da a i idade e a em na da ma hie a ia de
ca acidade inca acidade a a ma de e minada a .C n d , eci le a
em c n ide a e c m m c n en al em e e i nad cena e
em n a c nfig a e da i e ed elemen da ala a e d c .
A l ica, e em l , em em e f ndamen ma e ica imei a, end
em i a e a l ica c a- e d e e ed e e de di e be e
i , de em em c m e ncia a a e e alidade a a di e , da iedade d
e a e d ei d em (RANCI RE, 2005, . 17). Send a im, a
gani a da e ica imei a em e g ejada ela i d jei e da
c n ing ncia da di i en e l ga e e a i idade , da a a i e de a a ecimen de
ce c e e ,i , d li gi i da a i idade l ica . H , an ,
ma an e ala e di e ei en ibilidade da l ica e da ica a ica ,
c nfig and a ibilidade e alcance.

12Tendo explicado o conceito de partilha surge a referência de Foucault. Este capítulo não tem por
objetivo ser exaustivo ou tentar ser completo no que se refere a relação entre as filosofias de Foucault
e Rancière, mas antes tem como meta acentuar a importância conceitual da filosofia de Foucault, no-
tadamente, com sua arqueologia, na obra de Rancière.
27

Tal en ibilidade e c nfig a ela i c n ingen e d c n c m m


e ca ac e i a- e ma an i iedade e ela ec nfig a el agen e
en ei , ai c m ma cena ea al a cena de ma g e e fab il. En e an , a
a ilha c m c m nh em en id de denamen d e el de e
e e i ncia, da ela e en e indi d e da ili a de e a e em
c m n . H ne e a ec inc i de gani a en el e em ca e de
ma e ica imei a en ada c m i ema e di eci na de f ma a priori e
el de e en id , nand indi ci ei efei de ma b a a ica e
de ma a l ica n m nd en el.
Ae ica imei a em a di i na c a de e a e na ili a d
em em de e minada a i idade e ela m c nj n de ela e e fa em c m
e mc eja i el n , e ma eja ida n , ne e en id
edefine a di i e d c n e a e em a me m em e
ince a demai a a delimi a c m ig idade en el; a ela e e f mam a
e ica imei a cambi ei e c n ingen e , m ec e en el d c m m da
c m nidade, da f ma de a i ibilidade e de a di i , a e e c l ca a
e da ela en e e ica e l ica (RANCI RE, 2005, . 26). O en el
a ilhad , ae ica imei a, e e de h i n e nde a e e l ica b am
a f n ei a nd n caminh a a a c m nidade en el: a f n ei a
da en ibilidade a em em a c nfig a e em a inde e mina a ela en e
e ica e l ica.
Ne e ca l e a e en ada a linha de en amen e c n ib am
na in e ea de Ranci e b e a a ilha d en el c m ma e ica imei a.
P e ende- e a e en a a eg in e ela e n de manei a e a i a e enha
a e en de e g a a n , ma c m ma en a i a de aga ib
infl ncia deci i a n c ncei en en amen d a e ec e a b a de
manei a in e i n el. A cha e de a g men a e a ideia de m i ema de
f ma a priori de e minand e e d a en i d al Ranci e b ca em F ca l
m bali amen . Re mind a e en e e e b cad alg n elemen em
Kan e am cla ea l ic ili ad an F ca l an Ranci e,
a e en and em eg ida c ncei ca in e iga a e l gica em eendida
na d cada de 1960 F ca l e e Ranci e ein e ea l de a fil fia.
Kan , em a Cr tica da ra o pura, d ma e l c e nicana na
manei a de en a a fil fia e abe , e a e l d m a a na
28

di c en e aci nali a e em i i a , n en id de a a f ndamen aa


a di c da ci ncia e da me af ica e c m afi ma O f ied H ffe ele n ea
a ena e ia me af ica , ma c ia ma manei a n a de en a (H FFE, 2005, .
38). Ele c ia, c m e a b a, m ib nal da a 13, ma c ica en and e limi e
e a ibilidade ( im ibilidade) da me af ica em ge al, dei and cla
e ele e e e f ndamen am da a e e i ncia el 14. Ele
e ende c m i ma in e iga b ea ibilidade d j in ic a priori
(H FFE, 2005, P. 58) e a c ndi e ia da e e i ncia e c ndici na n
m d de c nhece bje , na medida em e e e de e e el a priori (KANT,
a d, H ffe, 2005, . 60).
Kan c me a a Cr tica c m e ele chama de e ica an cenden al n
al ele di ing i a in i e a da en ibilidade: em e e a .E a
in i e a a priori, eja, inde endem da e e i ncia en ei ,
f ndamen and -a na e dade. H , an , an e de al e e e i ncia ma ba e
ea ibili a. O e a , de m lad , n m c ncei em ic , i aa e
e cebe bje em j a e e en a d e a f ndamen ada, ele n
de e minad el bje , ma de e minan e a a a e e i ncia d bje . Da
me ma manei a, lad , em n f ndamen ad em i icamen e, ma
f ndamen a c ncei de m dan a e de m imen . O em e e a n
m dam, ma a ena alg ee a n em ee a e m da
Ae ica an cenden al c m a in i e a ,e a e em , e
a c ndi e a priori da e e i ncia e e c m m del a aae ica imei a c m
a c ndi e da il e de e i , id , di e en ad , c n d e e m del
de e e a ad el c i da ideia f ca l iana de m a priori hi ic , end e

13 Sobre o objetivo da Crítica J an B naccini e cla ece: T a a-se por isso de uma teoria que discrimina
e analisa separadamente cada tipo de estrutura e depois mostra como elas se articulam, por assim
dizer, a fim de configurar a arcabouço formal que condiciona ou preside toda a cognição e o raciocínio
humanos, revelando o e ele de da a e e i ncia e de e c n ide ada c nhecimen de
objetos de percepção atual ou possível (e mesmo o de todo o pensamento de entes que não são objeto
de percepção). Por isso a teoria é transcendental, a saber, porque investiga todas e cada uma das
estruturas que devemos admitir como conditiones sine que non da nossa experiência; que de certo
m d , an , an cendem a e e i ncia d dad en iai d n c nhecimen . Nesse
sentido, a metafísica de Kant, também chamada por m i de me af ica da e e i ncia , f nda-
men almen e fil fia an cenden al (BONACCINI, . 81)
14 Ma c m al in i e c e e a ge ai da im ncia da Cr tica da ra o pura de Kan na
e en e di c ? Em imei l ga , Kan c m e g ni n e in e e na adi fil fica a a
dem li alice ce f gei d c nhecimen fil fic , ma e em nha de m i de h mem e
ge na ca, h mem m de n , i , a ele f ndamen ad n aufkl rung. E de ma manei a
mai a ic la , Kan lan a ma di c ig a e ac m anha , a e c m m fan a ma, da
ema e en l e a e ica, end e ele f i e melh i ema i e a inician e di ci lina.
29

ai c ndi e de ibilidade na e ica imei a ancie iana e a ada na


m dan a e n a agamen da f n ei a . Em ma, F ca l a cha e de lei a
aa c ncei de a ilha d en el c m e ica imei a. Ne e en id ,
Cach afi ma:
Ma e a emi a a Kan e acha j ificada em i de da nica
a na c ndi e de ibilidade ela i a a e n
i el, a d el, imagin el da e e i ncia c m m, a al a
F ca l e ela- e, n e encal , im e cind el, ma e e
e a de ai c ndi e i ed i elmen e hi ic e cial e, ne e
en id , m el e c n ingen e. (CACHOPO, 2013, . 24)

O i Ranci e em ma en e i a c ncedida a Gab iel R ckhill na edi


ingle a de Partilha do sens vel, afi ma a infl ncia da fil fia de F ca l , m
de acand ma dife encia c cial en e amb , eg nd a [...] di ia e
minha ab dagem m c imila de F ca l . I e m inc i d
an cenden al kan ian e ec l ca d gma i m da e dade c m a e i a aa
a c ndi e de ibilidade. , n e ele c m le a A me m em , e a
c ndi e n c ndi e aa en amen em ge al, ma em e di
c ndi e imanen e em m a ic la i ema de en amen , m a ic la i ema
de e e (RANCI RE, 2004, . 50).
De an em , el n a eae ica an cenden al kan iana di in a
da e ica en ada Ranci e, inci almen e ela ideia d en el f a ad
en e dem e ec nfig a . En an ea imei a nece ia e an cenden al,
a eg nda c n ingen e e hi ica. P m, h alg em c m m: amba a am
limi e de da e e i ncia. P m lad , a e ica an cenden al a a limi e e
in l a a el da e e i ncia bje i a, eja, limi e im ei e
nece i a a a ci ncia. P lad , a e ica imei a a a limi e da
manei a de en i , fa e e en a , a a i de f n ei a e am lamen e
c n ingen e , m l i la e cambi ei . Ne e en id , a a ilha d en el n e
d lad d a priori an cenden al kan ian , ma de ma f ma de aci nali a e
f ge a an cenden ali m kan ian a e a de man e ca e de c n i i e de
gani a da en ibilidade dada. E a dife encia , e e acen ada e a ada
na ima gina , de e e le ada em c n ide a a a e en a c m ea
a ilha d en el e c nfig a a a i de a di j n c n i in e en e
c m a ilhamen e di i .
A c n i d a priori an cenden al kan ian , a priori hi ic de F ca l
30

e l ad a a en a a efe i idade da m dan a hi ica e c n ingen e e


abe e e a ica h mana e bme id e a il e a me d l gia da
a e l gia a na em a an li e . Send mai edag gic Edga d Ca
e lica a defini de a priori hi ic em F ca l :
F ca l ili a a e e a i i hi ic a a de e mina bje
da descrição arqueológica. Ainda que várias vezes ele tenha assina-
lado a herança kantiana de seu trabalho filosófico (DE4, 632, 687-
688)15, adje i hi ic e ma ca a dife en a c m e ei
a a i i kan ian . O a i i hi ic , efe i amen e, n de igna
a condição de validade dos juízos, nem busca estabelecer o que torna
legítima uma asserção, mas sim as condições históricas dos enuncia-
dos, suas condições de emergência, a lei de sua coexistência com
outros, sua forma específica de ser, os princípios segundo os quais se
substituem, transformam-se e desaparecem. (CASTRO, 2016, p. 21)

A partir de sua releitura de Kant, Foucault racionaliza um a priori da sensibili-


dade que está voltado para a historicidade dos acontecimentos humanos e não a uma
epistemologia. O a priori histórico não diz respeito às condições de possibilidade ou
de legitimidade para juízos, mas das condições de realidade e de emergência dos
en nciad : m [a] priori, não de verdades que poderiam nunca ser ditas, nem
realmente apresentadas à experiência, mas de uma história determinada, já que é a
da c i a efe i amen e di a (FOUCAULT, 2015, . 155). F ca l a c me e
conceito a ideia de que os enunciados têm uma emergência histórica específica, e
que não é possível traçar uma linha reta evolutiva de sua origem até os nossos dias.
Os enunciados, e também os sujeitos que os pronunciam, estão submetidos à disper-
são, sucessão, e, por conseguinte, à mutabilidade. Trata-se dos enunciados em sua
efe i idade e aci nalidade hi ica , a a-se definitivamente da regularidade que
torna historicamente possível os enunciados. O a priori formal e o histórico não são
do mesmo nível nem da mesma natureza (AS, 165-169)16 (CASTRO, 2016, . 21).
O di c e e en nciad , em e c m a ilhamen a a i d a
priori hi ic , ca ac e i ad elemen he e g ne c j en id f ge
en a i a de ni cidade e nicidade, , an , dife en e em na e a d a priori
an cenden al kan ian : a priori da i i idade n men e i ema de ma
di e em al; ele i m c nj n an f m el (FOUCAULT, 2015, .
156). T a a- e de m a priori e

15 Referência feita por Edgardo Castro à obra Dits et Écrits IV (seguindo a edição francesa)
16 Referência feita por Edgardo Castro à obra L Arch ologie du Savoir.
31

deve dar conta dos enunciados em sua dispersão, em todas as falhas


abertas por sua não-coerência, em sua superposição e substituição
recíproca, em sua simultaneidade que não pode ser unificada e em
sua sucessão que não é dedutível; em suma, tem de dar conta do fato
de que o discurso não tem apenas um sentido ou uma verdade, mas
uma história, e uma história específica que não o reconduz às leis de
um devir estranho. (FOUCAULT, 2015, p. 155)

O projeto foucaultiano na Arqueologia é de pôr em questão os conceitos e


noções mais cristalizados dentro das práticas discursivas do saber e da ciência, é
preciso, pois, partir de uma suspensão do que é recebido como certo para com isso
construir o saber, não mais a partir da continuidade, da familiaridade, mas pela
descontinuidade, pela não-coerência e pela dispersão temporal: blema n
mai a adi e a , ma ec ee limi e; n mai f ndamen e e
e e a, e im a an f ma e e alem c m f nda e en a d
f ndamen (FOUCAULT, 2015, . 6). eci a a linha mai c e en e em
ela a ca ac e ica d bje de an li e da ci ncia e da di e a ica
di c i a ; eci , ec nhece a di e e a de c n in idade, e n a
linea idade ele l gica, c m a nica da hi ia d h mem e de a ica .
A f ma c m en nciad n nciad , c m c
d minad ee l ad ,c m a ciedade e a hi ia c n i da, de endem de
m a priori hi ic . Seg nd Edga d Ca , a a- e de de c b i a f ma de
aci nalidade e gani am a manei a de di e e de fa e , m d em e
falam en c m am c n c me m ec ma c i a (CASTRO, 2014, .
18). O a priori histórico é essa dispersão e descontinuidade da qual o historiador e os
saberes humanos devem levar em consideração para construir suas falas, atividades
e espaços individuais e comuns.
A im, c m c ncei f ca l ian , a a ilha d en el c m e ica
imei a17 de i a- e d c m a ilhamen de elemen he e g ne e fa e
indi d e e delimi a di c e dem e n nciad n e em ai
ci c n ncia , a and a me m em e a ec e in i ei e

17 C n d , c ncei de a priori hi ic a em i a e anhe a de ni d i e m c n adi i ,


c m a inala i F ca l . P a e , c ncei de a ilha d en el, a ia ma c n a
e e i a ia emba a de a j a i c nfli a, c n nand en id a-hi ic da n de
a priori , c m de aca Cach (2013). Seg ind ne e en id , Pani (2013) afi ma e e a
c m m da a ilha d en el n m a priori n en id e i d e m , ma alg c n d e
de c n d ela ela e ciai , a ica , hi ica e l ica , i a em i i en id
de ec nfig a e de c nfli , i a a a c ndi e de e e i ncia e a m abilidade.
32

inacei ei a a de e minada a i idade 18. A a ilha he e g nea, i n e


a a de ma im licidade ma e f cie li a e m n na de m lag calm , ma
an e de ma c m le idade de ac n ecimen e c l cam a g a calma em
c n n m imen . E a he e geneidade ca ac e i ada ela c n ing ncia e
m dan a ine en e a ce hi ic . A fala d jei e a ci c la na
a ilha d en el a ici am d c m m ba ead na ideia de d alidade en el e
di e ei m difica e em e a c m nidade e bme ida. De a manei a,
de em e ei a alg ma eg a an e i e de ili a d em e d e a
c m m. C n d , ela n icamen e im ei , be i ma de m a priori
hi ic e da ia a ilha, ma cambi ei a a da cena de a e de
li gi na al e b e ea dem e a c nfig a en el em ig .
A a ilha d en el de e a c ncei de F ca l : a episteme19. A
e i eme , eg nd F ca l a an li e da f ma e di c i a , da i i idade
e d abe , em a ela e c m a fig a e i em l gica e a ci ncia
(FOUCAULT, 2015, . 230). A e i eme a ba e na al di c dem e
c n d , e ibili a e fa eme gi a e i ncia efe i a e a ela e en e
en nciad . Tal ba e, c n d , n ma c m i de ma ca na al
abe e e a ci ncia ganha iam f ma e n a ideia de ma nidade e ec e
de f ma an e al a f ma di c i a de ma ca.
Por episteme entende-se, na verdade, o conjunto das relações que
podem unir, em uma dada época, as práticas discursivas que dão lu-
gar a figuras epistemológicas, a ciências, eventualmente a sistemas
formalizados; o modo segundo o qual, em cada uma dessas forma-
ções discursivas, se situam e se realizam as passagens à epistemolo-
gização, à cientificidade, à formalização; a repartição desses limiares

18 An de a ilha d en el e ia a im a n e ena an agem de c n na a c n a a-


hi ica da n e de an cenden al e de a priori , e c em na e e e de em i i m
an cenden al (Dele e) e de a priori hi ic (F ca l ). P e-se de imediato o acento na possibili-
dade de desfazer o quadro das condições da experiência por meio de uma reconfiguração das catego-
ia , e e di in e e eg lam a e e i ncia c m m (CACHOPO, 2013, . 24)
19 A e i eme, em imei l ga , em ma de e mina em al e ge g fica. F ca l fala de e i -
eme ciden al , e i eme d ena cimen , e i eme cl ica , e i eme m de na . [...] Em e-
gundo lugar, segundo o prefácio de Les mots et les choses, descrever a episteme é descrever a região
intermediária entre os códigos fundamentais de uma cultura, os que regem sua linguagem, seus es-
quemas perceptivos, seus intercâmbios, suas técnicas, seus valores, a hierarquia de suas práticas, e
as teorias, científicas e filosóficas, que explicam todas essas formas da ordem (MC, 11-12). Em terceiro
lugar, a descrição não refere aos conhecimentos nem ao ponto de vista de sua forma racional nem ao
de sua objetividade, mas às suas condições de possibilidade (MC, 13). Trata-se de descrever as rela-
ções que existiram, em uma determinada época, entre os diferentes domínios do saber (DE2, 371), a
homogeneidade no modo de formação dos discursos (IDS, 185). Desse modo, pode-se pensar a des-
crição da episteme como um olhar h i n al en e abe e (CASTRO, 2016, . 139)
33

que podem coincidir, ser subordinados uns aos outros, ou estar defa-
sados no tempo; as relações laterais que podem existir entre figuras
epistemológicas ou ciências, na medida em que se prendam a práticas
discursivas vizinhas mas distintas. A episteme não é uma forma de
conhecimento, ou um tipo de racionalidade que, atravessando as ci-
ências mais diversas, manifestaria a unidade soberana de um sujeito,
de um espírito ou de uma época; é o conjunto das relações que podem
ser descobertas, para uma época dada, entre as ciências, quando es-
tas são analisadas no nível das regularidades discursivas. (FOU-
CAULT, 2015, p. 231)

A e i eme, den d je da a e l gia de e e anali ada n nca n n el


da nidade, ma ela di e de ela e e de a da ai di c
fa em a e. Seg nd Ca (2014), a e i eme ae e i ncia de n da da dem,
c dig f ndamen ai de ma c l a. C n d , ela n ma hi ia e eci a
e ec n ada ec iada, c m a en a i a de ec n de m m n men em
na 20. O je de F ca l , al de di e e Ranci e e he dei , n
de ec n i a da hi ia e ibili a a al f ma de en amen 21

e ad de c i a , ma en a a ia efe i idade da ela e en e c ea


ala a e a f nci nalidade den d en el c m m. Em a ala a , n e
le a em c n ide a ma hi ia e l i a dial ica, a ada el e gi d
ge h man , ma el ec e em al e a e ecificidade de e ec e den
da gani a d e a , em ,c e ala a .
O di c b e ma ma e ialidade n e l ad a ma h m geneidade,
i ele em e m ec en al dem c m nica alg . O e ad de c i a
b ai e man ida a ela e ciai a e de ma c nfig a em e
l mica d en el a al a a ilha e a e i eme e em de m del . Send a im,
amba a am fi e ecem ecid e ibili a a a i idade , a manei a
de e e de fa e na c m nidade, ma a a i de m i ma n c n en al de

20 Uma f a e de e ec me ada ee cada, ma i de e ea ali ada, en n-


ciad em a a ic la idade de de e e e id (AS, 138). N en an , a a en emen e a c ndi e
reais da repetição são bastantes estritas. É preciso que haja o mesmo espaço de distribuição, a mesma
repartição de singularidades, a mesma ordem de locais e posições, a mesma relação com um meio
in i d : d i f ma a a en nciad ma ma e ialidade e fa e e el (DELEUZE, 2013,
p. 22)
21 [A e i eme] n em finalidade ec n i i i ema de lad a e bedecem d
conhecimentos de uma época, mas sim percorrer um campo indefinido de relações. Além disso, a
episteme não é uma figura imóvel que, surgida um dia, seria convocada a apagar-se bruscamente: é
um conjunto indefinidamente móvel de escansões, defasagens, coincidências, que se estabelecem e
se desfazem. A episteme, ainda, como conjunto de relações entre ciências, figuras epistemológicas,
positividades e práticas discursivas, permite compreender o jogo das coações e das limitações que, em
m m men de e minad , e im em a di c (FOUCAULT, 2015, . 231- 232)
34

en id . C n d , eci le a em c n ide a e fi em e f gei e


male ei , ne e en id n ma c n lida e d el i , ma e
em e el m difica a di i . O di c ea c a e , an ,
ec e de e ecid male el e e a a m ei a a i de cena de
a.
[N] e a a de anda b e ma e a amen e fi me, ma de
libe a m c n inen e de di c , a e em l da i m
f ca l iana, e na ealidade ma ama inde in el de
di c e de e e i ncia: m ecid de e e i ncia e de
in eligibilidade a a i d al dem de en la - e a e id ncia
(ASPE, 2013, . 65).

C n d , eci a inala a dife en a en e amba a e ec i a . A e a


de a a em de en a a f n ei a da c ndi e de ibilidade de da a
e e i ncia el den da en ncia , da di i d c e delimi a da
a i idade e inca acidade a a m de e minad en el, Ranci e afi ma:
N h d ida de e a n de a ilha d en el e a cla ifica
d egime de iden ifica da a e de em ba an e n e de
F ca l de e i m e de a i i hi ic . T a a- e a a mim, c m
a a ele, de defini a c ndi e de ibilidade de ma e e i ncia
e ejam f ma de a ic la en e a ala a e a c i a , en e
a f ma de en ncia e m d de a e en a en el d
bjec i ad e a en ncia e . [...] A minha e ec i a
di ing e- e c n d da dele el fac de e e mai en el a e
m egime de e ce e de en amen e mi e d ea e ele
in e di a, mai en el a e ele e ne e e a ci c la d ea
e ele e cl i. (RANCI RE, 2009c, . 165)

A partilha do sensível, apesar de mostrar como os corpos são divididos e ades-


trados, vem em direção à reconfiguração do status de dominação dando voz a quem
era apenas um ser barulhento, visibilidade aos excluídos e invisíveis sociais, ampli-
ando os horizontes sensíveis dos trabalhadores proletários e dos ignorantes. Apesar
de os fios da dominação estar em volta da partilha do sensível, as cenas das quais
Rancière trata mostra a criação de cicatrizes nestas linhas de dominação, que por
serem tão sutis, em determinados momentos, é preciso uma mudança simples, mas
radical para por em questão um cenário de submissão: como sentar-se em um local
que não lhe era destinado.
A crítica de Rancière à abordagem de Foucault vai de encontro com a ideia de
que esse autor busca mais as vias da interdição do discurso, dos corpos pelas socie-
dades disciplinares, por aquilo que está fora dos próprios enunciados que são as ins-
tituições. Foucault na Arqueologia afi ma em m de ei a e al e a episteme
35

seja algo como uma visão do mundo, uma fatia de história comum a todos os conhe-
cimen e e im ia a cada m a me ma n ma e me m lad , ele
eg e [ e ia] m e gi ge al da a , ma ce a e a de en amen a
que não saberiam escapar os homens de uma época - grande legislação escrita, de-
fini i amen e, m an nima. (FOUCAULT, 2015, . 231). A ideia de a ilha d
sensível como estética primeira não é pensada como uma visão do mundo em que
todos estão submetidos sob as mesmas normas, mas que há uma distinção de quem
participa das normas de convivência, há alguns, por conseguinte, que não podem par-
ticipar das mesmas regras de participação de um espaço específico. Sendo que da
partilha do sensível sempre é possível escapar ao julgo da polícia a partir da efetiva-
ção a partir de cenas caso a caso da igualdade e da emancipação das inteligências.
Para Rancière sempre é possível fugir das hierarquias que submetem os corpos, ape-
sar das duras penas para que surja no seio da lógica da dominação cenas de ruptura
que são o cerne da própria política pensada pelo autor.
Rancière, a partir desta crítica ao pensamento de Foucault pensa, portanto,
uma dicotomia entre duas lógicas de ordenamento, uma que está pautada na domi-
nação e hierarquização dos indivíduos e uma segunda que busca uma ruptura com
esta boa divisão do espaço e do tempo. O próximo capítulo tratará sobre estes dois
aspectos de configuração da partilha do sensível.
36

2 O CONSENSO POLICIAL E O DISSENSO POL TICO22

- Cidade in ei a e e l am.
- C n a em e e l am a cidade ?
- Q e end n , e l am- e c n a inc i da de ig aldade a icad
alg n c n a .
- inc i da de ig aldade acei alg ma a a c n a a a a .
- inc i da de ig aldade acei alg ma cla e c n a a
cla e .
(Alain Re nai , Hi hima Me Am )

2.1 O SENS VEL DIVIDIDO: O CONSENSO POLICIAL

S b e e e en el di idid e c m a ilhad , Ranci e e deb a a l ng


de da a b a: de de a di i d c d le i a a f ma c m
e ec ad e e ici nam dian e de ma b a de a e. O en el di id a a i
de d a e ec i a di in a e c nfli an e . P imei amen e, en el di e ei
di i e e aa d indi d , a a i de m inc i de iden ifica
c n en al da a e ciai . O cial en emead ma m l i licidade de
ela e c j de fa e alg n indi d e n , c l ca em emba e g
c n i , em ma, gani a i e ei cialmen e e delimi a e
c n i . Em eg nd l ga , en el de e di idid , f a ad , el ce
e m e c m a an iga f n ei a de e a a en e em de e em n de
ma l ga n cial.
A l ica a ada ela ideia de di i cial e in e e ada n b m
denamen da di i d c , ede e minand em em di ei
legi imidade a a c a ce e a c j limi e ci c n c e em indi d e
a ala a a eg a de a ici a c n en al. A admini a cial, e
bje i de n g en lig ic 23, ba eia- e in ei amen e na ideia d
c n en e da gani a n eada ela e i ncia de indi d e ca a e
de e e ce ma a i idade a a m de e minad cam c m m a me m em em

22 Continuando a discussão sobre a influência de Foucault na obra de Rancière, neste capítulo levanta-
se a definição do conceito de polícia (notadamente sob influência foucaultiana) importante não só para
a política em si, mas também para as práticas artísticas que serão apresentadas e analisadas nos
capítulos três e quatro.
23 Rancière deixa bem claro que vivemos em governo oligárquicos o que quer dizer que vivemos sob a

lógica policial a real política não está do lado do poder ou da luta por sua obtenção, mas antes nas
linhas de contato com a polícia, que verifica e vivifica a igualdade entre os indivíduos.
37

e e cl d de e a . Ne e caminh , a el d g en e en amen e
dem c ic de e e a balan a e e ilib a e c n la e ce da a i idade
c le i a24 e ime a e a indi id ali a a ada n eg m na m l i licidade de
ini e e de n ade a ic la e 25 (RANCI RE, 2014b, . 17), i ,a ciedade
n de e l a - e em dema ia a a a ida blica, n de e b ca ma a ici a
ai an ce de mada de deci l ica, a me m em em en
a d el a a b mg e n dem c ic e indi d e c ad em dema ia
c m a ida i ada. E a d a i e e ema e c nfli an e de em e
balanceada el g en licial c m in i de en haja ma m l i licidade
de di c d ncia na ciedade e aca e a ia em blema aa dem e status
quo. Ne e en id , el bem da ganicidade da ela e ciai , d E ad e da
g e nabilidade, cada indi d de e c a e a e lhe cabe e ei and
em n aa i . A c n en alidade ba eada na di i ha m ni a da
i e acaba le and indi d a cena de d mina e de hie a i a da
a i idade , da dignidade e da ili a d em , al m de a -l c m me
bje e in men a a a d mina e ade amen l ic .
Pa a e a imei a manei a de ca ac e i a d en el di idid Ranci e
da n me de pol cia: ma dem d c e define a di i e en e m d
d fa e , m d de e e m d d di e , e fa e ai c ejam
de ignad e n me a a al l ga e al a efa (RANCI RE, 1996, . 42).
En e an , a l cia n de e e en endida c m m im le a a a d E ad ,
ma ma f ma am la de delimi a de ma c n en alidade e de ma ha m nia,
a ada i e e iamen e de e minada 26: a bai a l cia a ena ma

24 A dem c acia, di iam ela e [da c nfe ncia ila e al], ignifica a men i e i el de de-
mandas que pressiona os governos, acarreta o declínio da autoridade e torna os indivíduos e os grupos
rebeldes di ci lina e a ac if ci e igid el in e e e c m m (RANCI RE, 2014b, . 15). E a
perspectiva da vida democrática voltada ao questionamento das barreiras do Estado e do governo ficou
bastante evidente nos anos 1960 e 1970, notadamente com movimentos como os de Maio de 68 na
F an a e m imen n E ad Unid c n a a g e a d Vie n . H e ne e e d ma
contestação militante permanente, que intervinha em todos os aspectos da atividade dos Estados e
desafiava todos os princípios do bom governo (a autoridade dos poderes públicos, o saber dos especi-
alistas e o savoir-faire d agm ic ) . (RANCI RE, 2014b, . 16).
25 P lad , e a ca ac e ica de c n e a g e n de e c ia m em di c n a e e
e ce de i alidade e c n i e em ien a a a fin a ene gia feb i e e a i am na
cena l ica, de i -la a a a b ca da e idade ma e ial, da felicidade i ada e d la de
ciedade (RANCI RE, 2014b, . 16-17).
26 e dade e, ni , Ranci e retoma uma noção explorada por Foucault no próprio contexto do
na cimen da bi l ica, ma eg nd ma e a gia de a ia e a e a a da a cia
habitual polícia/aparelho repressivo e também da problemática foucaultinana de disciplinarização dos
corpos da ciedade de igil ncia (RANCI RE, 2010, . 78). Ranci e a ece e ai da n
38

f ma a ic la de ma dem mai ge al e di e en el, na al c


di ib d em c m nidade (RANCI RE, 1996, . 41). C n d , dem
en a ca da bai a l cia c m fig a e em la da gene ali a da l cia. O
e a l cia d ca e e e e da nda na e ife ia en mecani m de
igil ncia e de a a ig amen de c nfli e de deli e e em i c a ida em
c m nidade? T da a a i idade e c n ide ada c imin a de em e
e imida de imedia ela f a liciai aa en e be a dem. Q and
af a licial le an a am c n a m jei em n me de ma dem e em
bje i de ceifa c m al e a e de enc n ae a dem: ca e e e
d liciai ad and a dem licial em ge al amea ada (CHAMBERS,
. 62).
A me m em em en e de e ed i a l gica licial a en endimen
lga da bai a l cia, c m afi ma Chambe , n e de e ed i a l ica
admini a b c ica e a ge ec n mica , ainda a legi la
a lamen a i a, den e ec i a , deci e j diciai e a a a dem de a anj
ec n mic (CHAMBERS, 2010, . 61), a im c m n e de e e mi a l ica
e a cidadania a e e c ci d em elei e 27. T da e a a i idade e
inc am a l gica d E ad e d g en e , e nde an emen e, l ada a
e e c ci , legi ima e e e a d de e, e a a ,e da d lad
da dem licial28.
Pe cebe- e, c m i e en amen da dem licial e a aigad em
d E ad ba ead em ma dem c acia e e en a i a. A i e de cima e de
bai , de ca acidade inca acidade, hie a i a na a ici a na e fe a
l ica , a ideia de cidadania c m a ici a d e e c ci de de , de ce a
f ma ine i ei . Ne e en id , im an e ee alg n ale a fei
Chambe : A im, aa en a , en ende anali a al e dem licial

foucaultiana de polícia o seu duplo transcendental, enquanto princípio de partilha do sensível, conta-
gem totalizante da situação, ordem do visível e do dizível caracterizada pela adequação imaginária
d l ga e , da f n e e da manei a de e , a im c m ela a ncia de a i (PELLEJERO,
2013, p. 38)
27 A elei n em i dem c ica ela al fa i a . Ela iginalmen e a expres-
são de um consentimento que um poder superior pede e que só é de fato consentimento na medida
em e n nime (RANCI RE, 2014b, . 69-70)
28 É a partir desta perspectiva que Rancière criticará a filosofia política, tendo em vista que toda a

tradição filosófica resumiu a política a questões de poder e de suas relações, não se teve em foco a
própria política, mas uma tentativa de supressão do político. Por estarem tratando unicamente da legi-
timação e da conceptualização do poder, só tinham como objeto a polícia, ou seja, a ordenação e
perpetuação do poder. Cf. prefácio de O desentendimento (1996).
39

a ic la , de em ec a a en a d je de m ein de a libe dade c m


e i ind m f a da dem; n h f a aaa dem licial (CHAMBERS,
2010, . 62). C m a l cia e i e c m l ga nde indi d e em e
bme id a eg a c e ci i a , m ldand a c nd a e e di c , ein
de ma libe dade em limi e i eal, i n el in a a ma a ilha d
en el (n ca egime licial) almen e li e da c a e ciai , d de e
d dinhei . N e i e alg e e ca e a egime licial, i a a e e
e alham em da a di e e da ciedade e d g en . el fa de a l cia
e a em d can ea l ica de b e -la em ia cena de a.
Ma e ignifica afi ma e d n g en , incl i e
e en amen e dem c ic , na e dade den liciai , , ili and
em ec en e em Ranci e, egime lig ic 29? Ranci e dei a cla ec m
i ele n e di e e egime di a iai e ceifam a libe dade indi id ai
e egime dem c ic libe ai e a amen e a me ma c i a, ma e an e
a ici am da me ma l gica de a ilha d en el. E iden emen e efe el,
e em l , i e em m egime e ga an a li e ace inf ma d e em
egime e c iam eg a de c nd a a ada na bedi ncia ci il cega e na
e eg i a i e .P m, me m e i ind e a efe ncia en e egime
liciai n e de e c nde fa de e h linha ge ai e nem n e :
a di i d cial a a i da en a i a d c n en en e a a e eja ela lei
ela f a da a ma .
A l gica licial e e denamen e e ende ha m ni a a i e
c nfli a , delimi and e limi and a a ici a d jei a di idi-l en e
ca a e e inca a e a a de e minada a i idade den d e a c m a ilhad ,
al m de cla ific -l c m e ig d cei aaa dem en el igen e. Na
ia ala a de Ranci e a l cia ma dem d i el e d di el e fa
c m e e a a i idade eja i el e a n eja, e e a ala a eja
en endida c m di c e ac m d (RANCI RE, 1996, . 42). A i ele ,
eg nd Ranci e, indica ma di i en e id e de logos e a ele e
n nciam me d : e a l gica a i lica di ide indi d em d i m nd

29 A ciedade dem c ica a ena ma in a fan a i a, de inada a en a al al inc i


do bom governo. As sociedades, tanto no presente quanto no passado, são organizadas pelo jogo das
oligarquias. E não existe governo democrático propriamente dito. Os governos se exercem sempre da
min ia b e a mai ia. (RANCI RE, 2014b, . 68).
40

en ei di in : ad a e ed f imen , c m m a d animai d ad
de ; e a d bem e d mal, ia men e a h men e j e en e na e ce
d il e d n ci (RANCI RE, 1996, . 18). D logos el iden ifica il e
n ci e le a ideia de j e inj , ne e en id logos e l ad
ca acidade mai ele ada d h mem e a ena alg n c a ici am ealmen e
dele. P lad , a im le c n eg e indica en imen de d
c n en amen , n c n eg ind e e a ideia ele ada c m a de j i a. O
d ad de , na ace de A i ele , ec n ada Ranci e, i em em m
n el infe i , i e in e id a ena na il e imedia , a d e a e.H
ma hie a ia e di ide d a manei a de ca ac e i a en el e a de ina
emamen e l ica d h mem a e a- e m ind cio: a e d logos, ou seja,
da ala a, e manifesta, en an a a ena indica (RANCI RE, 1996, . 17)
A a ici a de e e a ada, en , a a i da c m nh de m logos
e ec fic e fa de n h men id e de n me e f n e e fa de
h men me animai jei en dem a ici a de m ambien e c m m,
n c m a ilha em da me ma alidade . Ne a e ec i a indi d e
fadad a e a ida e a a e c n lada ela e cl e ela hie a i a
d i ema licial, de inand a ida a m a ec limi ad na a ici a cial.
E a di i en e id e de logos e e e id e n ce ne da
de c i da e lad lebe n A en in , fei a Ti L i e elida Pie e-
Sim n Ballanche, a e en ada Ranci e: [...] Ballanche efe a ma eencena
d c nfli na al da a e c n i e em abe e e i e m alc c m m nde
lebe e a ci am deba e b e alg ma c i a. (RANCI RE, 1996, . 36).
el e amb am c m a ilha d me m c m m en el da ala a e
da i d c , em a ala a , a ci e lebe dem e
c n ide ad c m ig ai ? N m men da e l a d A en in d i g e am
de m nd c m le amen e di in c j c n diam c m a ilha a
me ma demanda e me m l ga c m m. Ranci e fa a eg in e de c i :
A i d a ci in an igen e im le : n h e
di c i c m lebe , ela im le a de e e e n falam. E
n falam e e e em n me, i ad de logos, e di e
de in c i imb lica na li . Vi em ma ida amen e indi id al,
e n an mi e nada, a n e a ia ida, ed ida a a
fac ldade e d i a. (RANCI RE, 1996, . 37).

O lebe , dian e d a ci , e am em ma e cie de animalidade


41

ed ida a a fac ldade e d i a, eja, me c em logos c j d


n dem e di ing id c m fala. S a im de i d de dignidade dian e da
ela e ciai c m n a a ci , jei en c n ad , ele n
em n me . H , eg nd Ranci e, n e em l d A en in , e em
imila e , ma dem d en el e delimi a e gani a a d mina d
a ic la e (RANCI RE, 1996. Idem), i , c m m -e abelece c m
indi d e gani am, c m ele e di idem em g e c m a ling agem de
e a ada c m ignifica i a c m me d . Pe cebe- e ma hie a ia
ine en e a ilha d en el n en id de di i , i ela e e ma dem
c j limi e e ba ead ela de ig aldade e ela dife en a. Nem d em
logos nece i a a a ici a da a i idade da cidade, i , a ena alg n m
e da palavra e da ra o, en an e id c m de i d de a
alidade .
Ainda na ca ac e i a da a ilha d en el na e ec i a licial,
Ranci e, n Desentendimento, a e em l em a a d mina e a
e cl de a ici a de indi d em m h i n e c m m de e e i ncia. T a a-
e da na a bea e lad e ca d ci a : ci a , di ele [He d ],
m h bi de a a lh da ele a em e c a i am, a a melh bme -
l a a efa e il, e denha gad (RANCI RE, 1996, . 27). O c
d e ca fe id aa e a d mina c a de f ma mai f cil e na al,
a end a im, ma ica de admini a ec n le d c a a e e fim. O
e ca n am a i nece ia a a en e ga a i a na al e a am
in e id ,n inham c m e cebe e e ad de b e i ncia e de d mina ,
ele f am em al i a n al a e ce e a limi ada a ena a
abalh e lhe e am im .
Seg ind n ela , d an e alg n an g e ei ci a fica am f a de
a e a emb enhand - e em cam anha na ia, ne a dife en a de em
na ce ma ge a de e c a en i e am e lh a ad e e cebe am
e e c e am ig ai a de al e m, incl i e a d e
d minad e ; e cebend a ig aldade c m d em a l a, en inchei a am- e
e e and a l a de e d n eb cand e i i c m e dadei ldad .
Q and e na am, ci a l a am c n a e e ca c m e en e g e ei
ig ai , ma , em m de e minad m men , decidi am enf en a-l c m me
animai , le an and e chic e c m e c n a m gad . Vend a i a
42

e ca ci a fica am e le e f gi am d cam de ba alha.


O ci a e a ica am al a i idade n di idiam c em i e
hie ica de b e i ncia, n a a a a ena de manei a imb lica c m
de am de igna a e l a d A en in , ma c ia flagel d i c
aa e e e eja mai a e d i aaa a finalidade e il, a a e eja
ec n micamen e en el e li icamen e d cil. A d mina d c inha m
ca e de de e dena a em dia e a l d l n , de e minand
de de na cimen a i cial e ma na di i cial e l ica.
O e a c ad e ei and em de e minad e a di i
licial d em ed e a fa da c m nidade m c m m ba ead em m i m e
eg la idade de a i idade . O e c a a ci de em e ei a a i
el bem mai da ha m nia da c m nidade. Da me ma f ma c m a e e
d indi d na Re blica la nica e de em e bme e a e a e
em -de e minad d abalh , da ca acidade inca acidade a a ce a
a i idade; le i e de e de ina a n ie aa e a ene gia aa
mai m dia e a i de abalh .
O efe encial da e blica la nica e em la aa en a a l cia. A
ciedade, ideal, eg nd Pla , de e ba ea - e el inc i de ha m nia e
i da j i a, ne e en id , cada indi d de e a ici a a ena da a i idade
e lhe de inada na e a. O c me cian e , ag ic l e , a e e
e ci n dem ma a e na deci e da p lis, i eci am i e,
e cl i amen e, a a a a i idade. En an i , ei-fil f g e nan e
dem e d mea emacia da ala a an e a e dele a c ia d mi
f ndad d me ai e a delimi a da ida de cada indi d den da c m nidade.
A i ania da ala a, ne e ca , a e cl i idade da men i a. O a i a mim ic
c m em a ciedade, i n mc m mi c m a e dade, an e , n
m e ei c ma ili a c n lada da ala a, al m de emba alha a i e
e c , nand - e mb l de d alidade e de e ig aa status quo da
Re blica. eci ma b a dem da ala a e d di c aa e g en
ac n la melh c da c m nidade. A cidade de e e c m caminh a
h m genei a de id c n en alidade e dena d indi d .
Pla n'A rep blica dena a cidade a ind de ecei da b a
gani a cada indi d fa a il e lhe cabe den d c m m e a ena i
43

aan e ba a e a ciai 30. C m a inala Ranci e (2005, . 16),


a e , di Pla ,n dem a ici a da c i a c m n [da p lis] e ele
n o t m tempo a a e dedica a ac i a en eja e abalh , n dem
e a em outro lugar e trabalho n o espera . O indi d e ence ad em
a a i idade: n de a ici a da deci e da g a, de e dedica e em a
f ci e e a em e ambien e de abalh . A b a di i cial d c e
a ada na (in)ca acidade d indi d a a de e minad e a e c a e ,
end a im, ele de em e limi a a e a n al a habilidade am e
melh a ei ada e c n lada .
A a i da ideia la nica de j i a ela ha m nia, em- e a imagem de di i
d abalh a a i de ca acidade inca acidade . Em ma ind ia de e ha e
ma gani a c ja delimi a di ide abalhad e a a i de abalh
man ai , de fi cali a , de gani a , de lide an a, e c. T da e a a i idade
e em c m nh aaa d de m bem e ec fic , end e e de em
eg i a eg a de c m amen , de ili a d em e d e a d
abalhad e . P lad , a a e a f b ica f nci ne bem eci e ei a
ce limi e : nem d f nci n i dem en a na ge ncia em a i a
ia, n e de en a na ea de abalh em ili a de e i amen de
eg an a, e c. Ne a i a abalh , c m al e a i idade, de e e a de
ac d c m eg a aa e le ada em c n ide a c m b a im, c m
ade ada inade ada.
C n d , a a en ende alcance de e blema da h m genei a e
c n en alidade d cial, n eci na ce b e a men i a f ndad a da
e blica. ba an e n i e a a e e f de m j em, e em l ,
dem e di eci nad ela ideia de ciedade a ada hie a ia e di i e
in a ada em m de e minad cen i . ce e a min ia 31, n em
a ai , m mai cam de a ici a e ganham ma mai i ibilidade e dian e
da c m nidade, m, ainda e i e m f e d m ni da cla e ciai d minan e

30 [...] [N] negam a a a ei di ei de e e ce a mesmo tempo o ofício de lavrador, tecelão


ou pedreiro; obrigamo-lo a ser apenas sapateiro, para que os trabalhos de sapataria sejam bem exe-
cutados; da mesma forma, atribuímos a cada um dos outros artesãos um único ofício, aquele para o
qual está habilitado por natureza, se quer tirar proveito das oportunidades a desempenhar bem a sua
a efa (PLAT O, 2000, . 60)
31 Minoria no sentido de participação nos âmbitos de decisão política e de participação efetiva na soci-

edade, tendo em vista que quantitativamente tai min ia g ande a cela da la b a i-


leira.
44

e de e minam a hie a ia da ciedade. P lad , cial e a a


i e de d mina a me m em em e ibili a a c n a a ida:
le an e ei indicand a ig aldade gem na f n ei a b ada da d mina . Na
b echa da ede e mina d c , indi d gem c m agen e e
dem ec nfig a a ela e de de ig aldade cial, dand a en el ma n a
di i da c i a : i and a m lhe e da ida d m ica e neg da en ala,
e em l .
Fica e iden e c m Pla e Ai ele e c n le, a di i e a
hie a i a n cam da a ilha d en el n e cl i a c d
indi d , c m f i a e en ad a a i d efe encial de Ranci e, n adamen e,
el e em l d e ca ci a , ma ee na ba e amb m da delimi a e
c n le d di c e da ala a: a i ania e emacia da ala a em Pla ea
dife encia en e logos e d em A i ele . A ala a e c i a, an e c n lada
a a a ci c la de f ma e e em e a l gica liciai d c n le.
C ma elei a e a da adi mane ca, aliada a a an da
i g afia, a ala a de ci c la de f ma li e, a end ma e cie de dem c acia
n al al e m na- e ema a ic e em facilidade n ace ba
li e ia . A ci c la li e da ala a, en ada be i ma da le a e c i a, f i
a a Pla m g ande blema na legi imidade e gani a da c m nidade:
ci c land da a e, em abe a em de e n fala , a e c i a de i d
f ndamen leg im da ci c la da ala a, da ela en e efei da ala a e
a i e d c n e a c m m (RANCI RE, 2005, . 17). A ala a
e cia c n ia ala a em a e, a a i de Pla , em en id de
legi imidade de i e e de di eci namen . A ala a e c i a n e di eci na a
ning m na medida em e e de ina a al e m e, e a a , a li e
ci c la dem c ica.
Onde a e c i a e a ala a dei am de ci c la li e, di c e in e di ad .
O lebe , d e em l le an ad an e i men e, n diam fe i di c
en c m a ilha am d me m logos d a ci ,n diam fa e ci c la
a ala a, nem me m el da a ia, e c nheciam a ena d . Em
ma, n a ici a am d me m h i n e di c i d a ci .N al e
m e de fe i al e di c em al e l ga em da a i a e ,
de id a i a de in e di en el d di c ed c .
A a ilha d en el fa e cebe ma en ibilidade di idida e e aa
45

c , a ala a e e de ma manei a nde li gi , a i e a


b e na- e e en e. I ignifica d a c i a : a ia d mina
ibili a ac e ea b e a a cabal de e da d mina
c n ingen e. Tan F ca l an Ranci e a a linha e ien am e a
d mina e a a , b e d Ranci e, linha de f ga de a i a nd
n a f ma de en a a c nfig a e di i en el d indi d na
c m nidade de e e falan e da al fa em a e.
A im, c m afi ma Da ide Panagia a de ig aldade de Partage du sensible
e e abelece hie a ia [...] a encial aa a ia di l
(PANAGIA, 2010, . 102), i em e dei a em abe a ibilidade d di en
de a e l ica . O eg nd m men d e em l d A en in m a i :
lebe e gani a am, de am- e n me , in a a am ma n a a ilha d en el
c m ideal da ig aldade c m e e falan e e a ind a me ma iedade
da ele e a negam a ele (RANCI RE, 1996, . 38). Ele b e e am a an iga
l gica de d mina enca nada el a ci . O lebe ei indica am e em
c n ad na l gica e e cl i c m inc n ei , melh , d - e ma n a l gica
na al incl da e am e i ibilidade. Ele in d em, an , n ecid
en el ba ead na l gica de d mina elemen d dan 32. O dan c nfli
eb ca a a na hie a i a e da de ig aldade na a ilha d en el,
a afi ma a ig aldade en e ee , a ia l a dem c ica de c l ca e
em indi d e e c nfig a am em me c a a a man b a da
d mina , e cl e de de ig aldade.
H , an , me m em f ma de c i lida, em al e a ilha licial d
en el nece i aa a ia di l a a i de a e l ica e
de bam m da d mina e da b e i ncia im a ela l gica da l cia.
Ne e en id , em m men n ai indi d m a a i idade limi ada ,
dem e ebela e ac di j g n al e enc n am. Q and lebe e eem
em a da, i n lhe e am dad n me , a a am a e i na , a ei indica
ma a ici a mai a i a e ig ali ia na a ilha d en el. Ei e ge ma
n a f ma de di idi de f a a en el, n mai ba e ec i a c n en al
e da e a a , ma el inc i d di en c n aa dem licial igen e.

32 Tort, no original, e wrong na tradução para o inglês.


46

2.2 O SENS VEL DIVIDO: O DISSENSO POL TICO

E a f ma de ma a a ilha d en el fa e ma n a l gica de
c m i e de di ib i da c a e ,d e a ed em ,a m e
c m a an iga dem licial b e end -a dand i ibilidade a e cl d ,a e
n m l ga 33. Pa a e a l gica de de man elamen d mecani m de di i ,
Ranci e da n me de l ica. A c n i d e e en ende la men e
l ica, Ranci e lhe a mn en id . A l a a id ia el de na elei e ,
a di i d de e , a a ici a de g ande em e a n financiamen
elei al, em ma, d i e ca ac e i a a l ica em e en id lga di
e ei men e a denamen c n en al d en el i l gica licial,
ne e en id , e e a ec e a ena di [...] na di ib i hie ica
d l ga e e da f n e e c n i e em gani a a e ni d h men em
c m nidade e e c n en imen (RANCI RE, 2014a, . 69), n di end e ei
eal l a l ica. A l ica e a amen e m men n al a l cia dei a de e
a ideia d minan e, a a i de cena de li gi e da edi ib i l mica d m, da
ala a e da i e
[...] A a i idade l ica a e de l ca m c d l ga e lhe e a
de ignad m da a de ina de m l ga , ela fa e en
cabia e i , fa i m di c ali nde inha l ga a a
ba lh , fa i c m di c e ea id c m ba lh
(RANCI RE, 1996, . 42).

A l ica ina g a n ei da a ilha d en el in ncia de a ici a


a in di a e l mica , de ind a an iga ba ei a e a i e de cima e
de embai . C n d , a cena indi id ai ge am de c nf c m a e e
ge ai da d mina , fa end c m e ac n ecimen a a en emen e ef me e
banai de c n am an iga ba ei a e f n ei a , im lemen and ma n a f ma
de a ici a , ge and n jei l ic e n a ibilidade de
di ib i de i e e ca acidade .
C m indi d dem dei a de bme e - e d mina licial? C m
e en a a ela e d abalh , e em l , a a i de ma e ec i a mai

33No próximo capítulo será abordado a promoção dos anônimos na literatura. Nota-se uma relação
entre a estética e a política ao que concerne à visibilidade dos excluídos na lógica policial. Este ele-
mento na literatura causou uma revolução na maneira pela qual se faz arte.
47

ig ali ia e e de c n a a an iga hie a ia ? N li A noite dos prolet rios,


Ranci e m a alg ma c e nd ncia de le i e l a de 1830
b e e am a l gica da di i d abalh , a ind da e ili a de a n ie ,
e en amen e de inada a a ec b a a f a a a mai m dia de lab a,
dedicand - e a a i idade di in a a e abalh b a al e man al: fa end fil fia,
li e a a, l ica e e ia, e em l . Tinham a im bje i de [...] e a da a
limi e a en a ne e n e e aa a f a da m ina e il (RANCI RE,
1983, . 8). Ne e m men de in nia, abalhad e c ia am m cam de
i ibilidade, ma n a in ncia en el, n al ele a a eciam c m e e dign
de di c i b e a ida e lhe e a negada34: da a e, da fil fia e da l ica.
En e an , im an e ma ca e a i de Ranci e dian e de e
abalhad e n de m a aa blic ceg en amen e il de
en a i a li e ia fil fica , ma an e de aga de id ib a e
en amen , le and - a i e n c m a de ma e cen icidade d
en amen .
Ne a n ie de ig lia, en el fa ad el le i , elh
denamen e e aa abalh man al d in elec al e gad e ina g ad
ma n a in ncia de a ici a 35. De de a e blica la nica a dic mia na
dignidade en e abalh man al e abalh in elec al a em ica, ma
mai d ei , im ibili ada a a ici a de m me m indi d ne a d a
e fe a d agi h man : e a e e e a. O a e , ela l gica d
denamen da a ilha d en el, a ada ela l cia, n de a ici a de
a a i idade en eja e abalh , i ele n em em aa a
a e ,j e a ene gia de em di igi - e nica e e cl i amen e a ci de e
f ci . Pa a de e abili a e e m nd milena , le i c iam j nai be
m imen le i , e c e em e ia (c m a a ei e a Sa inien La in e),
li e a a e fil fia, nam- e enad e e de ad . Pen a am be e i

34 Os proletários reconfiguram a estética primeira criando assim uma nova relação política em que a
arte pode fazer-se presente em suas vidas.
35 C n d , de e- e e al a e al denamen f i em e em ca a ic la e e n ,
nece a iamen e, n ma mac e cala. A f a a in a ada n en el cena , an e de
al e c i a. I ignifica di e e a ica de b e em e l cai , n ai e
ef me a : caminh m ei . O en el em e e em m e ce dic mic , en e
a dem e a de dem , en e a eg a e a de bedi ncia, en e a i ibilidade e a in i ibilidade. De a
f ma, en el a ilhad de f ma denad a em e m el e a em i a ibilidade de
b e . E em l di di ei e a m dan a alcan ada na c ndi e d abalh , na
ela e ciai mai ig ali ia en e h men e m lhe e , b e e ic , b anc e neg .
48

f ci e be m nd e lhe e am negad e ab i am a a e janela aa e


ma i mai cla a.
E e h men e m lhe e e i em e dia c ind c , in and
a ede , m ldand m ei , e c., de em l a aa e m m nd dife en e da ele
e a be a im e. H , an e da a d en el licial, na di i d
abalh mc c l ici en e b e a, abalh , can a / eg i a: a b e an
e define ela ela da eg i a c m abalh , ma ela im el e c lha de
e can a : e e ia e in . Ma a be an em i il gi , nem me m
de ad a al al can a a i e , Ranci e c m le a n e a a d di ei
eg i a, ma d nh de e m abalh (RANCI RE, 1988, . 21). O
indi d in e id e bme id eg a de ili a de e em e da c a
de e a , m a ida e a i idade delimi ada , de de e m men de
de can a e la e . A noite dos prolet rios m a a ibilidade de
emba alhamen de a i idade , m end , c n eg in e, c m a hie a ia en e
abalh man ai e in elec ai . e a l a e e em j g na n ie d
le i e l ,a e ec i a de a ici a de m n m nd m ldad n al
a c a e am e c n da a ia n ade.
A l ica in a a n ei da manei a de fa e , d m d de e e de e
a il en de e ia e l ga den da l gica licial, m end a c nfig a
en el na al e definem a a cela e a a e a a ncia a a i de m
e e defini n em cabimen ali: a de ma a cela d em- a cela.
(RANCI RE, 1996, . 42). O a ad da a cela d em- a cela ma a e na
c m nidade a ele en m di ei a a al, a me m em di e ei
a ma di i f ndamen al e ina g a n ei da c m nidade dan e c nfig a
a ia l ica. A n i e d le i m ae e m imen c m ce a na e a
de c i a e delimi a a da d mina e da bmi a abalh e a
cial. O le i ina g am ma n a in ncia en el, an f mand - em
e e dign de e em c n ad den da a ilha d en el. Rei indicam ma
a ici a na c m nidade e lhe a an e da an iga di i en e abalh
man al e in elec al. Ele mam a e na il em en de iam, nam- e a
a cela d em- a cela c j alcance fa e a eal dem c acia.
An d em a e a n de m jei l ic , e m jei
político nunca pode ser identificado sem um grupo social. Razão pela
qual digo que o povo político é o sujeito que encarna a parte dos sem
49

parte c m i n di em a a e d e cl d , nem e a -
lítica seja a irrupção dos excluídos, senão que a política é, antes de
tudo, a ação do sujeito que sobrevém com independência da distribui-
ção das partes sociais. (RANCIÈRE, 2010, online).

O povo, como sujeito político, intervém polemicamente na partilha do sensível


a e c l ca c m a ed em a e, i , c m e a a cela d inc n ad
que quebra com as identificações e exclusões previamente estabelecidas. O povo é o
próprio dano que instaura a fratura no sensível e que torna possível a existência da
l ica e a e d c lc l da dem c acia, e em l ima in ncia a ena
e de c lc l f ndad da l ica (RANCI RE, 1996, . 25). O e a a e
da comunidade que não tem direito ou efetividade de participação, quer dizer, não
pode tomar parte, não tem lugar diante dos grupos oligárquicos e aristocráticos domi-
nantes.
A parcela dos sem- a cela e ela, a a i da fig a d , a a c n ing n-
cia da dem , eg nd Ranci e, m and c m a i e de hie a ia c nd -
zidas e reverberadas nas oligarquias e nos grupos dominantes são construídas a partir
de ideia de ma fal a de ig aldade, ma ca and a ig aldade de al e e falan e
com qual e e falan e (RANCIÈRE, 1996, p. 43). Platão com sua República
é esclarecedor neste aspecto, pois ele cria uma hierarquização social artificial com o
intuito de acabar com a democracia, ou seja, destruir a parcela dos sem-parcela in-
corporada pela liberdade do demos. O objetivo da república é destruir com o próprio
da política: o conflito representado pelo povo e pela democracia.
O n ma cla e en e a . a cla e d dan e ca a dan
c m nidade e a in i i c m c m nidade d j e d inj . (RANCIÈRE, 1996,
p. 24). Instaura o dano que faz com que não haja simplesmente dominação e con-
senso, e exista o reordenamento das posições dentro da comunidade. Em suma, traz
consigo os princípios do conflito, da política e da democracia. O indivíduo traz com a
subversão de sua posição na partilha do sensível policial um desbaratamento na dis-
tribuição das partes, fazendo-se ser contado no tecido sensível.
Este dano que funda a política é este elemento que instaura a própria ausência
de arché da democracia, não diz respeito a uma mera divisão social em classes, não
é algo pedindo reparação (1996, p.28), mas é o que funda a própria política, em termos
de instauração de um litígio fundamental que torna o povo, a parcela dos sem parcela,
como sendo o sujeito político cujo poder rompe com as amarras da dominação e as
50

fronteiras de sujeição. Neste sentido, ao contrário da polícia que pretende a calma e


marasmo da ordem sensível, a política pressupõe uma agitação, uma irrupção em
cenas de contestação no qual os sujeitos ganham uma visibilidade que lhes era ne-
gada. Portanto, na base de todo agir político, há este conflito fundamental represen-
tado no dano.
O dano é simplesmente o modo de subjetivação no qual a verificação
da igualdade assume figura política. Há política por causa apenas de
um universal, a igualdade, a qual assume a figura específica do dano.
O dano institui um universal singular, um universal polêmico, vinculado
a apresentação da igualdade, como parte dos sem-parte, ao conflito
das partes sociais. (RANCIÈRE, 1996, p. 51)

O ma a e da ele e indign de al e ibilidade de ma


a e, eja e na cimen fal a de i de i e a, e c nfig a
e e dan n b m denamen da l gica hie ica e d minad a d c .
Seg nd Ranci e, a cla e d dan e e a a e en em di ei a
a e alg ma, i im le men e li e c m a cla e d minan e da
ciedade, end a im n em alidade ia c m a i e a alg ma
i de de na cimen e de na e a. A a e e a ib i ma alidade
e c m m, ele a c n ig m li gi e di e ei a cela d em a cela
e e c nfig a c m dan f ndamen al e de e mina a a e an e me m
de de e mina e di ei (RANCI RE, 1996, . 23). A ala a dem c acia e e en a
m i bem e a fal a de arch inc ada na a cela d em a cela e in a a
n ei da c m nidade c nfli c n i in e da l ica.
A l ng da adi a dem c acia e e e c be a b m de de c nfian a
e f i ida c m inc i de de legi ima . A dem c acia f i ac ada de e m
egime em eh aa ncia de f ndamen aa g e n , end de ida de
al e arch . E a ca ac e i ada ela n nece idade de l a a a ici a da
deci e l ica , eja, n e ba eia na i e ad oligoi, na aret d aristoi,
ma na im le libe dade inc ada a c d demos: nada mai e
a ma a indife enciada da ele en m nenh m l ii nem i e a,
nem i de ma e, n en an , m ec nhecida a me ma libe dade ea ele
e em. A gen e d im le men e li e como (RANCI RE,
1996, . 23). O c m a cela d em- a cela almen e de id de
alidade e e a a ce ne da dem c acia e di e ei ig aldade de
al e e falan e c m al e e falan e. A a i de a ig aldade n h
51

dife encia en e indi d cla e a a i da i e a, i de, abed ia,


e c.
O e ignifica di e e enca na n ma alidade di in i a, ma
nicamen e a libe dade? O a, a libe dade a ca ac e ica c m m a al e m,
an ai caa c m liga ca . P de- e di e e de a libe dade c m m a d
em a ig aldade e c n i e n j g da ica g iada ela e i da
ig aldade de al e m c m al e e ela e c a de e ific -la
(RANCI RE, 2014a, . 69). A ig aldade e e c ci da emanci a in elec al e
c nfe e a indi d a a ma aa l a c n a a ama a liciai e d
emb ecimen . A inci al a ma e em c n a a dem licial e em i
me m , n alg e lhe eja adici nad : n a f gacidade da i e a a
ince e a da i de. i e e c ci e a c n an e e ifica da ig aldade.
T d m men de e i namen da dem licial fa em e a e en e a
efe i idade da e i da ig aldade de d c m al e m.
A dem c acia, an , me na p lis, i fa a ici a da deci e
indi d e n m al e i il gi e indi e a a al. Al m di a
dem c acia, a a Pla , f i i a c m a m l i licidade de ini e e a ma
de dem den d i ema de legi imidade a a a ici a na p lis ba eada na
arch , a ba de enf eada ai e me inha :
O demos [ ], a a Pla , a fac icidade in en el d g ande
animal e c a a cena da c m nidade l ica em, m, n nca
e m jei n . O n me e alifica e dadei amen e khlos
[m l id ]: a ba la , i , a b l ncia infini a de e
in me indi d em e dife en e de i i , i end na
in e mi ncia d de ej e n dilace amen da ai (RANCI RE,
2014a, . 25-26)

A democracia, a partir da leitura feita por Rancière de Platão, é o reino da des-


legitimação, é o rompimento com qualquer princípio de bom ordenamento do governo,
pois embaralha as posições que devem ser mantidas na pólis. Esse sentimento de
repúdio à democracia não é novo, ele é tão antigo quanto a própria palavra, como
afirma Rancière no Ódio à democracia, pois foi criada como uma palavra de ódio con-
tra o que perturba as legitimidades de nascimento próprias às oligarquias e aristocra-
cias. Platão, apesar de seu ódio à democracia, consegue perceber melhor as linhas
que delineiam o alcance da democracia. Antes de ser considerado um mero sistema
de governo ou uma forma de constituição, Platão via nela uma forma de participação
que fazia de cada cidadão igual aos demais. O problema, então, segundo Platão, é
52

que isso ocasionaria dentro da República uma desordem nas bases da comunidade
que deve ser pautada por um ideal de coreografia, no qual cada um se destina a um
papel específico na partilha do sensível. A própria censura platônica aos artistas mi-
méticos se insere neste caminho, pois tais artistas estão a serviço desta lógica que
faz com que o mesmo indivíduo possa fazer indistintamente mais de uma função: o
ator pode ser homem e mulher, rico e pobre, artesão e filósofo.
Contudo a desconfiança sobre a democracia sempre se renova, sendo que a
atual, segundo Rancière no ódio à democracia, diz respeito a um equilíbrio que os
governos oligárquicos devem levar em consideração em pró da governabilidade: entre
o excesso da vida coletiva e o retraimento privado. A década de 1960 no mundo mos-
trou o quanto a participação ativa dos indivíduos e das coletividades podem ser peri-
gosas ao status quo; manifestações como as de maio de 1968 na França, o movi-
mento Power Flower nos Estados Unidos e a Tropicália no Brasil, em suma, a cha-
mada contracultura, tornaram-se exemplares no que diz respeito aos excessos da vida
democrática; as oligarquias agem de pronto diante destas situações para diminuir o
alcance destes movimentos, fazendo com que os indivíduos se inclinem a uma busca
maior por ascensão privada, pautada na prosperidade material, coibindo manifesta-
ções e enaltecendo a individualidade consumista e materialista. Este novo ódio à de-
mocracia consiste na tentativa por parte das oligarquias de controlar o alcance da vida
democrática, freando seus excessos e suas faltas, delimitando o coletivo e o privado.
As pretensas democracias fazem ver este ódio à vida democrática, corrobo-
rando com a visão de Rancière de que as instituições e os governos não têm nada a
ver com a verdadeira democracia. Além disso, indica mais uma vez o choque entre as
potências da polícia e da política. As oligarquias tentam a todo custo controlar a vida
democrática, pois ela é perigosa para a harmonia e consenso da ordem policial. Esta
é a definição negativa da democracia: ela não diz respeito aos tipos de governo que
se dizem democráticos, não faz parte da lógica das eleições representativas 36 e das

36 Rancière mostra em O ódio à democracia e em entrevista concedida ao Nouvel Observateur, intitu-


lada L'élection, ce n'est pas la démocratie, que a representação é na verdade contrária à democracia:
La d m c a ie e f nd e ur l'idée d'une compétence égale de tous. Et son mode normal de désigna-
tion est le tirage au sort, tel qu'il se pratiquait à Athènes, afin d'empêcher l'accaparement du pouvoir par
ceux qui le désirent.
La représentation, elle, est un principe oligarchique: ceux qui sont ainsi associés au pouvoir représen-
tent non pas une population mais le statut ou la compétence qui fondent leur autorité sur cette popula-
i n: la nai ance, la iche e, le a i a e . (RANCI RE, 2012a, online). Por outro lado, o prin-
cípio democrático por excelência é o sorteio, pois não diferencia os cidadãos a partir de competências,
riqueza, força ou idade.
53

lutas partidárias pelo poder. A luta política e democrática quer dizer algo distinto disso.
Ela é a atualização do pressuposto da liberdade e da igualdade por parte do povo, em
detrimento das hierarquizações próprias às aristocracias e oligarquias, portanto não
está resumida a qualquer forma de governo: ela [a democracia] não se fundamenta
em nenhuma natureza das coisas e não é garantida por nenhuma forma institucional.
[...] E en eg e a ena c n ncia de e i a (RANCI RE, 2010a, .
122), atos da atualização e da verificação que faz as palavras serem ouvidas e os
corpos visíveis. A democracia e a real política surgem nestes atos de subversão que
faz aparecer algo que era impossível em uma dada ordem visível, faz ter parte e visi-
bilidade aqueles cujas vidas estão delimitadas pelas regras da dominação, redistribu-
indo, por conseguinte, as fronteiras da partilha do sensível, partindo do pressuposto e
da atualização da igualdade de capacidades entre todos.
A luta democrática surge quando esta parte sem qualidade cuja característica
é ser tão-somente livre como qualquer um, traz consigo o litígio que inaugura e que
na el a l ica e a dem c acia: A l ica e i e and a dem na al da
dominação é interrompida pela instituição de uma parcela dos sem- a cela (RAN-
CIÈRE, 1996, p. 26-27). A parcela dos sem parcela é o dano fundamental que impos-
ibili a a im le d mina d indi d : Ela define c m m da c m nidade
como comunidade política, quer dizer, dividida, baseada num dano que escapa à arit-
mética das trocas e das reparações. Fora dessa instituição, não há política. Há apenas
ordem da d mina de dem da e l a . (RANCI RE, 1996, . 26-27). Neste
sentido, a política democrática não existe por si mesma, mas depende sempre da
irrupção das cenas em que surge esta parcela dos sem-parcela cuja voz ecoa em
locais e tempos que não eram possíveis outrora, rompendo com a lógica do bom or-
denamento e distribuição das posições inerentes à ordem de dominação.
P an , ne a f a a em e e e ifica a ig aldade en e e e falan e ,
dem n ada e e em lificada c m di bi in a ad ela n i e d le i e
b e iam a i e e c a e ,h ma de iden ifica ,i , m ce
n al indi d dei am de e iden ifica c m a i e de cima e bai
im a ela a ilha licial d en el. Ne e en id , em d ce em e
a l ica ge, me m e de f ma ef me a e a a, a emanci a e a efe i idade
da ig aldade en e d e e falan e e e ela. N m men em e a ig aldade
e fa e em m m nd de de ig aldade c n ingen e , m end c m a
he e geneidade da a ilha licial d en el, b a f ma de m c nfli , em n me
54

de ma iden ifica a im el, ge e Ranci e chama de ce de


bje i a :
Por subjetivação vamos entender a produção, por uma série de atos,
de uma instância e de uma capacidade de enunciação que não eram
identificáveis num campo de experiência dado, cuja identificação por-
tanto caminha a par com a reconfiguração do campo da experiência.
Formalmente, o ego sum ego existo cartesiano é o protótipo desses
sujeitos indissociáveis de uma série de operações implicando a pro-
dução de um novo campo de experiência. Toda subjetivação política
se parece com essa fórmula. Ela é um nos sumus, nos existimus. (p.
47-48).

A subjetivação é uma identificação inédita e dissensual que confunde a própria


ordem policial, quando se rompe as pretensas identidades e familiaridades sobre as
quais estão fundadas as hierarquias e a dominação. Neste sentido, a subjetivação é
na verdade uma desidentificação, pois mistura os campos de enunciação e as classi-
ficações dos indivíduos determinada pelas ocupações e posições da partilha do sen-
el, [...] a anca na alidade de m l ga , a abe a de m e a de jei
onde qualquer um pode contar-se porque é o espaço de uma contagem dos inconta-
d ,d elaci namen en e ma a cela e ma a ncia de a cela. ( . 48). Al m
disso, a subjetivação é a efetividade da divisão de dois mundos: a da identificação e
a da desidentificação. Isto fica bastante claro no caso do processo contra Auguste
Blanqui:
Instado pelo presidente do tribunal a declinar sua profissão, ele res-
ponde simplesmente: "proletário". A essa resposta o presidente objeta
de pronto: "Isso não é profissão", para logo ouvir o acusado replicar:
"É a profissão de trinta milhões de franceses que vivem de seu traba-
lho e que são privados de seus direitos políticos". (RANCIÈRE, 1996,
p. 49)

Há neste exemplo a luta entre polícia e política, no qual a subjetivação surge.


En an ma a e iden ifica em fi a ma c a de e minada, A -
g e Blan i d a me m e m a ideia de ma c nfi , ma decla a de e -
encimen a m c le i . (RANCI RE, 1996, . 50). Blan i a c m a c nfi
uma identificação polêmica e impossível, pois sob o nome de le i n e de-
signa uma classe homogênea da qual possa identificar um corpo orgânico, mas é
antes uma multiplicidade de corpos fraturados e desqualificados que não compõem
um ethos iamen e di . A bje i a fa d indi d m n m ue des-
locam as fronteiras das posições e do pré-ordenamento da lógica policial reinante.
55

Com o exemplo dos proletários Rancière, argumenta que a subjetivação é uma luta
quase que individual que ganha voz de forma conflitual.
A subjetivação política "proletária", como tentei mostrá-lo em outro lo-
cal, não é nenhuma forma de "cultura", de ethos coletivo que ganharia
voz. Ela pressupõe, ao contrário, uma multiplicidade de fraturas que
separam os corpos operários de seu ethos e da voz que supostamente
exprime sua alma, uma multiplicidade de eventos de palavra, quer di-
zer, de experiências singulares do litígio em torno da palavra e da voz,
em torno da divisão do sensível. (1996, p. 48).

A bje i a di m n m , ma de alificand al e ideia de


ethos, devido à pluralidade de corpos e de linhas que distinguem os indivíduos. Sob o
nome de proletário, por exemplo, não se quer designar os trabalhadores manuais ou
lab i , ma an e ma cla ed inc n ad e e i e na ia decla a
pela qual ele e c n am c m en c n ad (RANCI RE, 1996, . 50),
é uma afirmação que não é possível no mundo policial, é contar-se em um mundo
onde não podem ser contados. A subjetivação, neste sentido, é a própria política nos
termos de Rancière, pois põe em evidencia a fragilidade e a contingência nas desi-
gualdades da divisão e hierarquização dos indivíduos dentro da partilha do sensível
policial.
Sendo assim, os partidos que tentam tirar os proletários ou os camponeses de
suas posições de subserviência estão partindo de um ponto equivocado, pois estão
os considerando como incapazes para tal, além de classificá-los e identificá-los como
uma massa que deve ser direcionada pelos interesses do partido. Os partidos políticos
estão neste sentido a serviço das identificações e do consenso próprio à lógica poli-
cial. O consenso é contrário à subjetivação, pois este traz para o seio da comunidade
a ideia do litígio e do dano, enquanto que aquele pressupõe e organiza os indivíduos
sob a ideia de ordem com o intuito que façam apenas aquilo que lhes é permitido, ou
seja, deve respeitar as identidades, ocupações e lugares sob as quais são designa-
dos:
O que é o consenso senão a pressuposição de inclusão de todas as
partes e de seus problemas, que proíbe a subjetivação política de uma
parcela dos sem-parcela, de uma contagem dos incontados? Todo
mundo está incluído de antemão, cada indivíduo é célula e imagem da
comunidade das opiniões iguais às partes, dos problemas redutíveis
às carências e dos direitos idênticos às energias. (1996, p. 117)

As fraturas sob as quais os corpos estão constituídos traçam os caminhos da


bje i a , c m afi ma Ranci e ma bje i a l ica d de a
56

linhas de fratura múltiplas pelas quais indivíduos e redes de indivíduos subjetivam a


distância entre sua condição de animais dotados de voz e o encontro violento da igual-
dade do logos. (1996, . 49). P m, a dem licial e e e indi d
devem permanecer em seu estado de animalidade ou de menoridade, ceifando por
conseguinte toda relação de questionamento das relações e posições sociais. A lógica
policial, neste sentido, abarca a ideia de que o poder deve permear todas as esferas
da comunidade, submetendo-as a baixa mobilidade social, limitação na utilização do
tempo do trabalhador, baixo nível de aprendizagem nas esferas sociais mais desfavo-
recidas e vulneráveis. Pressupõe que toda a ordem social é pautada por relações de
poder.
O a, a e e e afi ma e d e a ad ela e de de e e
afi ma e e a a d l ic f e ma ia c ica den d en amen
de Ranci e, i h ma c nf en e l cia e l ica. A di c e be
de e n n el da l cia, i di e ei d mina e ela e de jei
en e indi d e a i e , en an ea l ica l a- e a a ica
e e em e j g d de e e cid ela ideia de legi imidade
em egada a id l ic , em e a , E ad , e c, i ,e al m de da
l gica m ida ela ica e c ada na e e a d de , e na
na de a c iand achad a den d de .
C n d , a m dan a in a ada ela l ica ina g ada n en el
n nca c n en ai , ma an e em e l mica , i em em e
ma de e minada dem n al. O c ncei de a ilha d en el a c n ig ma
en en e a e ce e e me eced de e ce . A l a dem c ica
c ej amen e and en me eced de e e cebid in ge c n a a
dem -e abelecida. Ne e en id , a a l ica amb m e ica a a a na
ec nfig a da c ndi e de en ibilidade e de e ce d c da
ala a . P e a a a l ica n alg c m m em n a ida , ela ef me a
e a a, i e h em ab nd ncia a ia l cia. Em cena aa c m ad
le i n mb l a a ncia da l ica de f ma l mica e c nfli a. O
en el am lamen e m dific el ela a ali a d e da ig aldade e
a em ica indi d e b e em ma l gica ee abelecida, ma
eci m g ande e f e, inci almen e, c agem a a e e l a e m difica
m nd em n a l a.
57

Entretanto, esta igualdade pleiteada pela política não lhe é própria, além de não
ter nada de político em si, o que a política realiza tão-somente é a verificação da igual-
dade den d ein da ia de ig aldade licial: d e ela fa da -lhe
uma atualidade sob a forma de caso, inscrever, sob a forma de litígio, a averiguação
da igualdade n ei da dem licial (RANCI RE, 1996, 44). A ig aldade, n
pois um ponto a ser alcançado, sendo antes um pressuposto a ser atualizado em ca-
sos particulares. A política não produz a igualdade, ela traz a tona a igualdade que
está sendo mascarada pela dominação das regras da lógica policial. Neste sentido, a
política não está em todos os lugares, pois ela só funciona em um embate heterogê-
neo com a polícia.
Mas na mesma forma como nada é em si político, tudo pode vir a sê-lo (RAN-
CIÈRE, 1996), desde que a partilha policial tenha que encarar o dissenso de atos de
subversão em relação a ordem consensual do sensível. Sendo assim, um mesmo ato
como uma greve pode ao mesmo tempo estar a serviço da polícia ou em pró da polí-
tica. O que determina seu alcance é fa de fa e a e c lha en e e a -
a a in en de ma e e ning m e c l ca a (RANCI RE, 1996,
p. 45), ou seja, para uma performance afetar de forma dissensual a partilha do sensí-
vel, é preciso que se coloque em questão aquilo que nunca antes poderia ter sido, que
faça emergir, dentro da antiga ordem do status quo, uma nova visibilidade, um novo
corpo presente, uma nova voz.
58

3 A REVOLUÇÃO ESTÉTICA: A IGUALDADE DE TODOS OS TEMAS E OS DE-


TALHES ANÓDINOS37

[...] foi então que começou a imitação de coisas abjetas, a busca pela
imundície e pelas deformidades, o que atraiu, avidamente, alguns ar-
tistas: se tivessem de pintar uma armadura, escolhiam a mais enferru-
jada; se fosse um vaso, não o queriam intacto, e sim trincado ou com
rachaduras. Seu vestuário consiste em calções, bragas e barretes;
quando representavam corpos, concentravam sua atenção nas rugas
ou nos defeitos da pele e das formas dedos nodosos, membros de-
formados pela doença. [...] (BELLORI) 38

O dissenso na partilha do sensível, assim como foi desenvolvido no capítulo


anterior, pode ter lugar em diversos campos do fazer humano. No entanto, para Ran-
cière, o local privilegiado em que se questiona o ordenamento sensível é o da arte,
marcadamente com o que o autor chama de revolução estética. Há mais ou menos
dois séculos as artes39 passaram por um processo de questionamento das antigas
fronteiras que delimitavam o próprio de uma arte a partir de determinadas maneiras
de fazer, seguindo o imperativo da mímesis proposto por Aristóteles. Tal revolução
inaugurou um novo horizonte de visibilidade, de pensamento e de criação, legitimando
como digno o que outrora foi posto como inferior ou sem importância, isto é, o anônimo
e sua vida e a descrição de objetos comuns passam a ter importância, pois passa a
e en ende e e i e en id nde a ece n e , alg de enigm ic n e a-
ece e iden e, ma ca ga de en amen n e a ece e m de alhe an din
(RANCIÈRE, 2009, p.10).
À esta revolução promovida pelas artes, Rancière nomeará de regime estético
das artes, que é o real nome ao que se convencionou chamar de modernidade, pós
modernidade ou de vanguarda artística40. Este regime de identificação das artes se

37 No presente capítulo apresentam-se duas características importantes da revolução ocorrida pelo


regime estético das artes: igualdade de temas e a utilização dos detalhes. Estes aspectos evidenciam
a democracia, notadamente, literária, o que cria uma passagem entre o capítulo anterior que trata da
política estritamente falando e as manifestações artísticas que buscam dar visibilidade a temas e per-
sonagens que não teriam visibilidade nos regimes poético e ético.
38 Bellori sobre uma linhagem de pintores que partiram, principalmente, de Caravaggio para pintar tudo

aquilo que era visto como inferior, feio ou sem importância.


39 Neste sentido, o autor afirma que a arte tal qual conhecemos só passou a existir por volta do fim do

século VXIII e início do XIX. (RANCIÈRE, 2013, p. 9)


40 Assim como em outros aspectos de seu pensamento, Rancière criticará os conceitos e noções tradi-

cionalmente em voga na academia para, com isso, traçar as condições de inteligibilidade da discussão
sobre a arte. Conceitos como os de modernidade, pós-modernidade e de vanguarda artística não são
suficientes para definir a grande multiplicidade e alcance das manifestações artísticas desenvolvidas
59

distingue a outros dois: o regime ético das imagens41, cujo principal referencial é o
platônico, e o regime poético ou representativo das artes42 inaugurado na Poética de
Ai ele . N egime e ic a iden ifica da a e, nele, n e fa mai ma
distinção no interior das maneiras de fazer, mas pela distinção de um modo de ser
en el i a d da a e c n i , i l mb and a im m h i n e en-
sível no qual o anônimo pode ser tratado como algo importante a ser pensado, além
disso, mostra, a partir da descrição, uma relação entre aspectos heterogêneos, cons-
i ind a ncia de m en amen e e n ele i e anh a i me m :
produto idêntico ao não produto, saber transformado em não-saber, logos idêntico a
um pathos, in en d inin enci nal (RANCI RE, 2005, p. 32).
Qual a importância da descrição de um objeto ordinário dentro de uma obra de
arte e, em especial, num romance? Como pensa-lo diante do imperativo da narrativa?
Como avaliar as rupturas sofridas dentro da antiga maneira de contar histórias, a partir
deste deslocamento? O primado da ficção, tal qual Aristóteles delegou, consiste na

nos últimos dois séculos, notadamente, com a revolução estética empreendida pelas páginas do ro-
mance no século XIX. Tais conceitos, como o de modernidade, são normalmente muito amplos e vagos,
não conseguindo chegar ao cerne da discussão sobre o período histórico em questão.
[a n de m de nidade], h je den minad c m m de d di c di a a ad e em
no mesmo saco Hölderlin ou Cézanne, Mallarmé, Malevitch ou Duchamp, arrastando-os para o grande
turbilhão em que se mesclam a ciência cartesiana e o parricídio revolucionário, a era das massas e o
irracionalismo romântico, a proibição da representação e as técnicas da reprodução mecanizada, o
sublime kantiano e a cena primitiva freudiana, a fuga dos deuses e o ex e m ni d j de da E a.
(RANCIÈRE, 2005, p. 14)

41 O regime ético trata as imagens artísticas a partir de duas perspectivas: em relação a sua origem e
a sua destinação. As imagens, identificadas neste regime, devem ser analisadas pelo seu teor de ver-
dade, i , de e e a ade ada a m m del de e e en a a ad em abe e f ndad na
imi a de m m del c m fin definid (RANCI RE, 2005, . 28). Ne e imei en id , al
das imagens é tratado a partir de seu modo de criação e principalmente levando em consideração se
se tem uma aproximação com a verdade. Por outro lado, as imagens têm seu valor designado por sua
destinação, ou seja, deve-se analisar qual o objetivo de tais imagens dentro da comunidade e como
ela pode afetar os indivíduos em sua volta.
42 Este regime artístico está pautado pelo referencial da Poética de Aristóteles e acompanhou boa parte

da tradição artística desenvolvida pelas chamadas belas artes. Ele é pensado no par conceitual poie-
sis/mímesis. Tem como principal característica a regularização das maneiras de fazer artístico, pen-
sando-os como definindo o que pode ou não ser representado. Aqui importará mais as maneiras pelas
quais uma arte é feita e como esta construção deve estar de acordo com algumas regras de composi-
ção.
Tem ne e egime m inc i agm ic e i la, n d m ni ge al da a e (da ma-
nei a de fa e ), ce a a e a ic la e e e ec am c i a e ec fica , a abe , imi a e (RAN-
CIÈRE, 2005, p.30), há, portanto, a predominância da imitação ao se circunscrever o que é considerado
artístico ou não, pensando, segundo Aristóteles, o meio pelo qual se imita, os objetos imitados e a
maneira de fazer a imitação. Por esta razão, é pensado a partir de um ideal de hierarquização de artes
menores e artes superiores que são destinados a públicos distintos e que estão submetidos a uma
construção de gênero.
60

organicidade da narração. Trata-se de um corpo no qual seus membros e órgãos de-


vem funcionar em conjunto e em relação mútua. O tronco não pode ser desprovido de
membros, assim como estes não estão em suspensão no ar. Há uma linha ficcional
que deve interligar as partes ao todo, relacionando a partir da verossimilhança e da
necessidade o começo, o meio e o fim da história. Na ficção poética deve haver, por-
tanto, uma coluna ve eb al e fa dela m c e e en a i me ma,
ordenamento interno que subordina os detalhares à perfeição do conjunto, os enca-
deamentos de causas e de efeitos que asseguram a inteligibilidade do relato através
de seu desenvolvimento tempo al (RANCI RE, 2015, . 11). Ne e en id , den
da construção ficcional nada deve ser entendido como sendo supérfluo, tudo tem um
lugar específico dentro da trama: cada fio tem sua função de interligar o todo. A obra
está determinada e orientada para um fim encadeado por ações e suas consequên-
cias, nenhuma ação deixa de ter um efeito posterior.
Além disso, as bases da ficção clássica, moldadas pela Poética de Aristóteles,
é pensada e construída por meio da distinção e da hierarquização entre ativo e pas-
sivo, elevado e inferior, digno e indigno. Não é permitido tratar de qualquer caráter,
não se constrói uma estória sobre qualquer assunto. A tragédia deve ser feita a partir
da figura de indivíduos ilustres: como descendentes de fundadores míticos de cidades
gregas, ou descendentes dos próprios deuses. Por sua vez, a comédia destina-se ao
que é ignóbil, ao que é inferior, ao que é digno de riso e de escárnio. É preciso, antes
de mais nada, respeitar um número de regras para construir satisfatoriamente a nar-
ração, levando em consideração que para ela ser contemplada apropriadamente é
preciso uma adequação poética ao gênero proposto e ao tema tratado.
Entretanto, com o advento do romance, a linha de causa e efeito da ficção aris-
totélica é rompida. O romance surge como o gênero sem gênero, uma espécie de
criação que rompe com os limites e as prescrições de legitimidade poética. Com isso,
ocorre uma revolução que embaralha as posições entre baixo e cima, entre ação e
passividade. Onde se pode ler vidas de pessoas comuns, estórias de uma adúltera ou
de viciados em jogos, aventuras de um capitão inglês ou a vida de uma dama da alta
sociedade londrina.
Neste caminho, as mudanças sensíveis propostas pelas artes no regime esté-
tico introduzem um novo horizonte temático: a vida dos anônimos. O povo torna-se,
nesta nova lógica, um objeto artístico assim como os nobres o foram outrora. Com
61

esta nova abordagem de encarar a tradição e a sensibilidade, rompe-se o antigo or-


denamento das belas-artes, trazendo à tona aquilo que lhe era excluído ou proibido:
o banal, o anódino e o cotidiano do homem comum. Porém, tal introdução não é feita
partindo de uma caricatura do povo (como poderia ser pensado pela comédia aristo-
télica), mas colocando-a no centro gravitacional da obra artística, isto é, tornando-o
um agente de ação. A introdução da vida dos anônimos é, ao mesmo tempo, a pro-
moção de sua dignidade.
Contudo, quando este novo encadeamento sensível começou a valorizar o in-
significante ou o ninguém? O regime estético está em funcionamento, de fato, no mo-
mento em que há a irrupção de um novo encadeamento sensível no qual o anônimo
se transforma em um ser visível e digno para a arte. É neste sentido que Rancière
(2013) afirma que a arte, como a conhecemos, existe apenas a pouco mais de dois
c l , i f i men e ne e m men em e al e m de c n i i -se
como objeto artístico ao derrubar as antigas filiações entre belas artes e artes liberais.
As belas artes eram filhas das chamadas artes liberais. E estas, por
sua vez, distinguiam-se das artes mecânicas porque eram o passa-
tempo de homens livres, homens de ócio a que sua qualidade mesma
devia ser posta de lado da busca de uma perfeição excessiva em rea-
lizações materiais das quais podiam encarregar-se um artesão ou um
escravo. (RANCIÈRE, 2013, p. 09).

A revolução estética que confere a glória do qualquer um é, segundo Rancière


(2005), antes de tudo, pictural e literária. Por sua vez, a promoção das massas por
parte das artes mecânicas no século XX só foi possível, por conseguinte, pelo fato da
própria massa ter sido transformada em tema artístico pela pintura e pela literatura:
e an nim n - e ema a ic , aga a de e ma a e (RAN-
CIÈRE, 2005, p. 46-47). Esta frase leva a algumas análises. Primeiro, as configura-
ções estéticas de uma obra não se resumem ao médium próprio de uma arte43, neste
sentido a fotografia ou o cinema são arte pelo fato de seu tema ser artístico e não por
seus mecanismos técnicos. Segundo, o anônimo passou a ser um objeto para a arte,
criando assim um novo horizonte temático que implode as antigas barreiras do regime
poético.

43 Tal afirmação é em si uma resposta à ideia de que há um acompanhamento entre as mudanças


técnicas/mecânicas e o novo estatuto estético. Ora, Rancière é um crítico feroz da perspectiva de que
o médium próprio de uma arte delimita ou é preponderante para a constituição artística/estético de uma
obra. Para que a fotografia ou o cinema sejam arte é preciso antes que seu tema seja artístico, ou seja,
sua configuração como arte independe de seus meios e mecanismos técnicos de criação, assim como
a pintura não se resume às configurações do pincel ou do quadro, e a escultura ao cinzel e ao mármore.
62

O regime estético, a partir desta perspectiva, configura-se como um triplo dis-


tanciamento do antigo ordenamento artístico, pois confere ao autor um afastamento
da necessidade da utilização de mecanismos materiais e técnicos específicos de uma
arte, ampliando seu leque de possibilidades; e junto à revolução dos materiais e téc-
nicas existe a democracia artística que faz com que qualquer coisa possa se tornar
tema artístico. Em terceiro, tem-se a ampliação no acesso às artes por parte dos indi-
víduos. Há, portanto, uma democracia em relação a estes três aspectos: a igualdade
de todos os materiais e técnicas, a igualdade de todos os temas e a igualdade de
todos os indivíduos como leitores.
Com a promoção dos anônimos, o regime estético constitui esta nova lógica
que instaura a igualdade de todos os temas. Não há mais divisões e hierarquias entre
as belas-artes que faziam com que uma arte fosse apreciada ou criada apenas pela
relação entre seu tema e um gênero específico que o acompanha. Qualquer tema,
a im c m an nim , de e an f ma em a e, i banal na-se belo
c m a d e dadei (RANCI RE, 2005, . 50). N h , an , m i il gi
marcado sobre um determinado tema artístico, fazendo com que uma latrina ou um
esgoto possam ser representados artisticamente, assim como os trabalhadores ma-
nuais serem o rosto de uma época.
Com o advento da promoção dos indivíduos comuns como tema artístico e da
utilização dos detalhes apresentados em diversos romances, a causalidade pautada
na verossimilhança e na necessidade é desfeita, notadamente, pela opção de utilizar
a descrição em detrimento da narrativa, produzindo assim, nas palavras do crítico
Ba be d A e ill e de Jac e Ranci e, m m n em c l na e eb al . Um
monstro cujo corpo é desprovido de esqueleto, de uma linha que una seus membros,
criando assim um corpo fragmentado e mutilado. Há, portanto, uma chuva de átomos
fechados em si mesmos, como quadros expostos sem com isso haver um encadea-
mento necessário entre eles. É a descrição de cenas não lineares cujo modelo des-
trona a continuidade da ficção clássica. Como a exaltação de pequenos detalhes a
partir da descrição de uma cena pode destruir o castelo poético da narração? Como
um simples barômetro ou um chapéu desconstrói o primado ficcional?
Rancière cita a seguinte descrição feita por Flaubert em Um coração sensível:
Um elh ian a a, b m ba me , ma an idade i amidal de caixas e
63

ca e (FLAUBERT, 1877, apud RANCIÈRE, 2015, p. 18). Do que se trata este ba-
rômetro? Rolande Barthes44 em sua análise sobre esta descrição, encontrará uma
explicação para o piano que seria um signo da posição burguesa da proprietária e
para os cartões um símbolo do desleixo e de desordem, ambientado assim a casa
Aubain (BARTHES, 1972, p. 36). Mas, e o barômetro? Ele aparece como sendo uma
coisa totalmente inútil para o encadeamento do romance. Não diz nada, não indica
nada, não esconde nada. Parece apenas como um parasita supérfluo à história e ao
seu entendimento.
Para Roland Barthes a descrição de detalhes ínfimos ou de objetos inúteis para
a ama, indicam i eal. H m efei de eal n al a ilidade c n i e
precisamente em ser inútil, [pois] se um elemento se encontra em um relato sem que
nenhuma razão justifique sua presença, é porque essa presença é incondicional, por-
ee ali ee ali (RANCI RE, 2015, . 19). O de alhe de c i de m
objeto sem importância faz com que a história não siga os traços da verossimilhança,
havendo uma aproximação com a própria vida ao evidenciar elementos que estão
presentes em cena. Neste sentido, a utilização da descrição de um objeto supérfluo
como o barômetro seria como a marca do real, não é preciso que haja uma justificativa
para que um objeto esteja em tal ou tal lugar, ele simplesmente está.
C n d , blema a a c ic Ba be d A e ill e de alhe n e
lá para marcar o real, mas que só há detalhe (RANCIÈRE, 2015, p. 21), isto é, não há
nada além do próprio acessório, apenas o simples contingente. Há, por esta razão,
uma inferioridade destes romances em relação à tradicional maneira de contar histó-
rias, segundo o crítico. Não há, por conseguinte, obra alguma, mas apenas um ema-
ranhado de signos que não se tocam ou se interligam para compor uma narrativa.
A descrição dos detalhes é bastantes momentos como neste, na primeira parte
de Madame Bovary, em que Flaubert faz a descrição psicológica de Charles Bovary a
partir de um elemento de sua vestimenta: o boné, utilizado em seu primeiro dia na
escola. Um garoto tímido que tinha receio de guardar o próprio boné, além de quase
não conseguir falar seu próprio nome ao professor. Ele era quieto, não era como as

44 As descrições próprias ao romance realista é uma das pedras no caminho da análise do estrutura-
lismo, denunciado por Roland Barthes em O efeito do real (1968). Tal análise deixa de lado tais detalhes
el fa de e c ada em di ing i e i ema i a a g ande a ic la e d di c na a i
(BARTHES, 1972, p. 35). O intento do estruturalismo, portanto, deixa de lado os detalhes como sendo
fl c m m e a de c ia de a m fe a, afe ad de m al f nci nal indi e , c m
afirma Barthes.
64

outras crianças que riam e zombavam, não tinha a malícia com a vida por isso foi
ridicularizado.
Mas, fosse porque não tivesse percebido a manobra ou porque não
quisesse praticá-la, o novato mantinha ainda seu boné sobre os joe-
lhos quando acabávamos de rezar. Era uma dessas coisas heterogê-
nea , nde e enc n am elemen de b ina, d cha ka , d cha-
péu redondo, do boné de caça e do de algodão, uma dessas pobres
coisas cuja muda feiura tem profundezas de expressão como o rosto
de um imbecil. (FLAUBERT, p. 22)

A descrição da vestimenta não se insere dentro da narrativa em busca de uma


explicação, não diz respeito à verossimilhança ou uma necessidade causal como é
visto no regime poético ou representativo, mas é antes um elemento antinarrativo,
sendo que não adiciona nada ao enredo desenvolvido. Além da importância da des-
crição como elemento de contrariedade à narrativa tradicional, ainda em Madame Bo-
vary, encontra-se a vida dos anônimos no centro do romance, não apenas da prota-
gonista, Emma Bovary filha de um camponês , mas também de indivíduos sem
nomes, trabalhadores que podem aproveitar o tempo na vida ordinária das cidades,
após mais um dia de labor. Como no exemplo a seguir que trata da visão da janela de
Charles Bovary enquanto ainda era um jovem estudante de medicina, momentos an-
tes de prestar aos exames finais do curso.
Nas belas noites de verão, na hora em que as ruas mornas ficavam
vazias e em que as empregadas tagarelavam nas portas, ela abria a
janela e debruçava-se. O rio, que fazia daquela parte de Ruão um ar-
remedo infame de Veneza, corria embaixo, amarelo, violeta ou azul
por entre as pontes. Os operários, acocorados nas margens, lavavam
os braços nas águas. Nas cordas estendidas por sobre os sótãos, len-
çóis de algodão secavam ao vento. E acima de tudo, além dos tetos,
o céu se estendia, iluminado pelo sol poente. Como devia ser bom
estar lá longe, como devia estar fresco sob os caramanchões! Charles
abria as narinas como se pudesse aspirar os odores suaves do campo,
que não chegavam até ele. Emagrecera, e seu rosto tomara expressão
dolente que o tornava quase interessante. (FLAUBERT, 28).

Charles Bovary sonha com aquela liberdade dessas pessoas pobres às mar-
gens do rio, refrescando-se sob os caramanchões nestas noites mornas de verão.
Charles que até então tinha seus estudos um esforço quase hercúleo para poder
acompanhar a turma, decide ir até esse mundo de liberdades, deixando-se levar pelo
fragor da vida cotidiana nas ruelas e baixelas de Ruão. Flaubert, compõe assim um
quadro belo no qual vê-se a vida das pessoas comuns sob o sol poente, às margens
dos rios, lavando simplesmente seus braços após um dia de trabalho, sendo, enfim,
simplesmente livres para viverem.
65

Deixou de ir às aulas e ao hospital, passou a frequentar cabarés, jogar dominó,


beber e conhecer mulheres. Enfim, finalmente, era iniciado na vida dos prazeres mun-
danos. Devido este sonho breve, foi reprovado nos testes. Contudo, essa mudança
não foi profunda, logo voltara para sua rotina de estudos, conseguindo prestar os exa-
mes finais e tendo as questões decoradas alcançou notas satisfatórias. A vida dos
anônimos lhe tirou de sua calmaria de lago, fez com que sentisse inveja daquela liber-
dade destes simples trabalhadores, desejou, corrompeu-se, mas sua vida não estava
destinada a isso, sua personalidade o impelia para o outro lado da vida, aquela desti-
nada ao encerramento no trabalho, tornando-o letárgico, sem perceber as próprias
pessoas em sua volta devido ao cansaço.
O romance tornou-se revolucionário exatamente graças à escolha poética da
igualdade de todos os temas que se apresenta, essencialmente, como uma questão
de e il e fa de Fla be m dem c a a a de in a em e de in -
i (RANCI RE, 2005, . 19)45. Não só de grandes indivíduos ou de grandes acon-
tecimentos viverá a literatura, mas antes e de forma abrangente, tratar-se-á de pes-
a c m m e de ac n ecimen c idian e banai . Ma ca [...] a a da dem
representativa e do que era seu coração, a hierarquia da ação. Esta ruptura está vin-
culada ao que está no centro das intrigas novelescas do século XIX: o descobrimento
de uma capacidade inédita dos homens e das mulheres do povo para ascender a
f ma de e e i ncia ea en lhe e am negad . (RANCI RE, 2015, . 20).
Flaubert escolhe escrever de forma séria a respeito de uma provinci-
ana cuja vida não possuiria nenhum interesse especial. Muito pelo
contrário, tudo ao redor dela, os mínimos detalhes, reflete sua com-
pleta insatisfação. Flaubert subordina toda a cena à insatisfação de
Emma, a partir dela, todo o resto ganha sentido. Variados elementos
materiais e movimentos fortuitos como mordiscar uma avelã ou apoiar-
se no cotovelo ganham total importância na cena. A narração, menos
da ordem da sucessão temporal que da simultaneidade espacial, se
detém neles, e, em grande medida, são eles os responsáveis por
transmitir alguma mensagem ao leitor. (SANTOS; SOUZA, p. 104)

45C men a An ni Ri e a Ga cia: A e l literária, a de Flaubert, Proust ou Joyce, engendra o


absoluto de um livro sustentado unicamente por seu estilo, e não pela ficção ou pelo encadeamento
lógico-ca al da a e (GARCIA, . 241).
66

Esta igualdade de todos os temas é a própria democracia em literatura46, pois


não faz distinção entre quem pode ou não ser objeto artístico, mostrando que o qual-
quer um pode participar de construções sensíveis neste novo campo ficcional. Emma,
de origem camponesa, a partir da revolução estética, pode se transformar no centro
de uma obra literária, todos os elementos acabam circulando a seu redor. Elemento
importante para essa obra, e para o romance realista em geral, é a simultaneidade de
percepções e da materialidade descrita, criando assim, toda uma cena, ambientado a
multiplicidade de objetos em sua volta. Flaubert, neste sentido, inaugura uma demo-
cracia literária, na qual os anônimos podem se configurar como tema artístico, além
de evidenciar a descrição em detrimento do bom ordenamento causal da tradicional
narração.
Quando são publicados, Madame Bovary ou A educação sentimental
são imedia amen e e cebid c m a dem c acia em li e a a ,
apesar da postura aristocrática e do conformismo político de Flaubert.
Até mesmo sua recusa em confiar à literatura uma mensagem é con-
siderada como um testemunho da igualdade democrática. Ele é de-
mocrata, dizem seus adversários, na sua opção por pintar em vez de
instruir [...], é a negação de toda relação de necessidade entre uma
forma e um conteúdo determinado. (RANCIÈRE, 2009, p. 19)

Flaubert pintou um mundo novo, destacando elementos antes negligenciados


ou considerados simplesmente desnecessários. Não há necessidade entre as ações,
e quem era outrora destinado à ação pode passar a gozar o ócio dos mais abastados.
Além disso, o romance passa a pôr em cena figuras que não têm mais a importância
de um rei, ou de figuras ilustres, mas a vida de pessoas comuns como um médico de
província e sua esposa, também, uma provinciana, que apesar de sua posição pôde
ter acesso a diversos livros, criando assim uma cultura larga.
Madame Bovary firmou-se como uma revolução em relação aos antigos moldes
de tratar as pessoas sem qualquer tipo de importância para a sociedade em geral.
Charles Bovary é um médico mediano, para não dizer medíocre, que se apaixona por
uma provinciana com mania de grandiosidade e que o trai em busca de uma fantasia
que se revelou desastrosa, filho de um major-cirurgião, era um homem mediano, no
sentido pobre do termo, é como um desses seres que nasceram simplesmente para

46[...] O fato do livro [Madame Bovary]ter sido lido em toda parte e em todas as classe sociais na época
e a im ac ad de e dem c ic el c ic de Fla be teria contribuído para criar uma
comunidade de leitores como uma comunidade sem legitimidade, o que Rancière vê positivamente.
Nas suas próprias ala a : ma c m nidade de ignada ela im le ci c la alea ia da le a
(GUERRON, p.37)
67

morrer, não vislumbra nada além do seu próprio dia. Formou-se médico com inúmeros
esforços para poder acompanhar as aulas. Casou-se por conveniência. Usou do seu
ofício para reproduzir alguns tostões a duras penas. Trabalhou em pequenas provín-
cias, praticamente sem descanso e sem ter tempo para outra coisa que não fosse o
seu ofício.
Emma Bovary, por sua vez, configurou-se como sua antítese. Provinciana, ape-
sar de ter tido uma educação bem ampla, baseada nos ensinamentos de um convento:
aprendeu a tocar piano e com uma grande desenvoltura, devorava as leituras que lhe
caiam ao colo, sabia dançar, conhecia geografia, desenho, etc. Tinha um espírito que
voava longe de sua própria condição simples de origem. Filha de um camponês, tor-
nou-se altiva como uma marquesa. Sonhava com uma vida e com as aventuras que
liam em seus livros. Fantasiava em coisas que lhe tirariam de sua vida simples. Não
queria passar os seus dias rodeadas das mesmas coisas sem poder conhecer os pra-
zeres da vida. Com isso desprezava seu marido com todas as forças, por ele ser ape-
nas mais um medíocre a fazer peso no mundo. Entretanto, ela não o odeia como
pessoa, mas principalmente como aquilo que ele representa, não representar qual-
quer forma de superioridade. Se ele criasse alguma reputação em sua profissão lhe
seria mais agradável viver com aquele homem.
Há em Madame Bovary a introdução dos anônimos no mundo da literatura.
Camponeses que sonham, provincianos que vivem suas vidas com a dignidade do
cotidiano. A utilização de personagens comuns e da descrição de detalhes supérfluos
fazem com que o próprio imperativo da ação seja questionado. Não há ação numa
província, no sentido de que não há nada de digno para que aconteça, além do mais
é posta em uma situação na qual os personagens vivem apenas em suas rotinas, sem
nada de espetacular; até mesmo as aventuras extraconjugais de Emma Bovary en-
tram em uma rotina. Há nesta maneira de contar histórias uma subversão à dignidade
temática que tomava conta da ficção tradicional.
Assim como Emma Bovary outro plebeu que encarna esta revolução do ínfimo
e dos anônimos foi Julien de O vermelho e o negro de Stendhal. Apesar de ser de
origem humilde, nunca esteve ligado ao ofício do seu pai. Vivia no mundo dos livros,
ea en el de mai aa abalh e ad , c m i ecebe dific ldade e g i
da família. Ele não parecia ter nascido para aquele mundo.
Deixe-me em minha vida ideal. Suas pequenas preocupações, seus
detalhes da vida real, mais ou menos doloroso para mim, retirar-me-ia
68

deste céu. Cada um morre como pode; eu só quero pensar sobre a


morte do meu próprio jeito. O que me importa com os outros? Minhas
relações com os demais serão cortadas drasticamente. Por favor, não
me fale dessas pessoas; eu já tenho o suficiente para ver o juiz e o
advogado. (STENDHAL, apud RANCIÈRE, 2013, p. 57)

Julien almeja e vive um céu longe das mesquinharias da vida cotidiana. Ele
alcança um estado de espírito que não seria possível para pessoas comuns, ele pode
finalmente não agir, sentir simplesmente no lugar de fazer absolutamente. Ele pode
com sua condenação sentir o que lhe f i negad em libe dade. g d
de anei e b ai a em (2011, 62). P lad , a a e le aa
a prisão não tem uma concatenação linear, sua atitude quase que soa como sem
sentido e arbitrária, soando como a pior resposta el i a : a im a em
que culmina toda a rede de intrigas é também a que anula ao desbaratar qualquer
e a gia de fin e mei , e an la al e l gica ficci nal de ca a e efei (RAN-
CIÈRE, 2011, p. 61).
Segundo Rancière, Julien aproveita um gozo paradoxal, no qual ele finalmente
pode aproveitar a liberdade da vida e do ócio quando foi condenado e cumpria pena
na prisão, isto é, viu-se livre quando não teve mais que viver preso ao mundo, podendo
com isso simplesmente viver no seu céu de tranquilidade na prisão. Como afirmam
Nadie San e J ana S a, [ ] men e and dei a de calc la e ge , a-
lavras e atitudes, característicos de uma sociedade marcada pelos incontáveis cálcu-
los dos fins e dos meios, Julien passa a estar fora da racionalidade causal, furtando-
se à temporalidade que nela está implicada e podendo finalmente desfrutar a felici-
dade d m men . (SANTOS; SOUZA, 2016, . 100), eja, a n mai almeja
as recompensas da ascensão social pautada no ideal aristocrático, após desvincular-
se das amarras das regras de conduta, ele pôde aproveitar finalmente a vida do mo-
mento47. Por conseguinte, o gozo plebeu de Julien promove a derrubada da lógica
que divide duas humanidades, a dos homens ativos e dos homens do ócio, ou seja, o
mundo do trabalho mecânico e o mundo do trabalho intelectual 48, a im end : [ ]

47Gozo semelhante ao de Meursault, protagonista de O estrangeiro de Albert Camus, que pode apro-
veitar cada experiência em seu cárcere sem com isso entediar-se: C m eendi en e m h mem
que houvesse vivido um único dia poderia sem custo passar cem anos numa prisão. Teria recordações
ficien e a a n e en edia . De ce m d , i e a ma an agem (1982, . 247)
48 O e ad e ic de Schille promete uma comunidade nova, uma revolução política, porque se
converte, precisamente, na refutação sensível da oposição entre a forma inteligente e a matéria sensí-
vel, entre o logos e o pathos. Oposição que, ao mesmo tempo, instaura a diferença entre duas huma-
69

fazer nada promove um campo específico de experiências sensíveis, além de separar


os homens do trabalho dos homens do prazer. Assim, a atitude de Julien abole uma
hierarquia das ocupações na igualdade descoberta da pura partilha de uma sensação
em (SANTOS; SOUZA, . 100-101). Assim como os proletários descritos em
A noite dos proletários que, após um dia destinado a curtir o couro, moldar o ferro ou
costurar roupas, subvertem suas noites de descanso para reverter a divisão entre
aqueles que devem utilizar seu tempo em proveito de uma atividade e os que podem
disfrutar do mundo dos prazeres da leitura e da discussão política, filosófica e artística.
Esta liberdade que o permite desfrutar do ócio que sempre lhe foi negado, po-
rém, foi alcançado por uma ação criminosa. Além disso, o ato que o levou ao cárcere,
surge como um crime à própria concatenação de meios a fins, pois na obra não há
nada que indique que Julien poderia atirar contra a senhora de Rênal, isto é, nenhuma
passagem que o faça tomar tal decisão. Não se apresenta pensamento algum que o
faça optar por tal ação. Neste sentido, não há encadeamento entre a tomada de deci-
são e o ato cometido, havendo, portanto, apenas a inverossimilhança.
A concordância esperada entre a estrutura ficcional, a lógica de um
caráter e a história dos mecanismos da máquina social se desfaz no
coração mesmo da trama. [...] O ato no qual culmina toda a rede de
intrigas é também o que anula, ao desbaratar, qualquer estratégia de
fins e meios e qualquer lógica ficcional de causas e efeitos. Esse ato
separa definitivamente ao plebeu ambicioso da racionalidade causal e
da temporalidade mesma em que se inscreve seus fins de conquista
(RANCIÈRE, 2013, p. 60-61).

A conquista dessa liberdade paradoxal se dá a partir da oportunidade de esca-


par a uma temporalidade que era negada a Julien: o tempo do ócio que abole as
hierarquias das ocupações, isto é, o tempo de não esperar nada, o tempo proibido ao
plebeu. A ideia de trabalho sempre foi vista como uma maneira de dividir os indivíduos,
traçando limites de utilização do tempo e do espaço comum e possibilidades de ativi-
dade aae e , i ma c a ma manei a de le a em da ida ue
define amb m ma manei a de e d c e da men e (RANCI RE, 2013, 64-
65). O plebeu não pode ter acesso à mesma temporalidade da aristocracia que abre

nidades: entre, por um lado, os sujeitos ativos que encarnam a inteligência e tomam decisões sobera-
nas, e, por outro lado, os sujeitos passivos que se identificam com a matéria, especializam-se em tra-
balhos manuais e se submetem às decisões tomadas por aquela classe cultivada e dirigente que tem
a cesso a uma vida mais completa. [...] A revolução estética se parece a política porque entranha a
mesma democrática ni de c n i , e ne ali a da hie a ia e d mina (GARCIA, .
238)
70

espaço para participação das artes, da reflexão ou de simplesmente poder sentir a


própria vida em sua volta, como a pele macia da senhora de Rênal ou assistir a um
pôr do sol. Julien finalmente pôde experimentar este tempo desligado às necessida-
des e aos jogos de ascensão social e sentir o leve prazer das pequenas experiências.
É [...] a felicidade de não fazer nada, a suspensão do momento em que se experimenta
en imen nic da e i ncia em in e al , em f imen ela a d a -
ad , em e c a el c lc l d f (RANCI RE, 2013, . 72)
Virginia Woolf percorre o mesmo caminho que Flaubert, contudo levando a um
novo nível, construindo romances nos quais objetos, sentimentos e pensamentos se
c nf ndem, [...] ed ind a in iga a m nim , a limi e em ea ce da
coisas como ocorrem, umas atrás das outras, confunde-se quase com o fácil desen-
l e de m dia de ma ida (RANCI RE, 2015, . 53). E e fl de en amen-
tos desenvolvidos por Woolf desconstroem todo o arcabouço da lógica representativa,
colocando em cena descrições de objetos e percepções, construindo um conjunto de
elemen e ee aem da fic ai lica. O g ande mance de Vi ginia
Woolf estão feitos sempre da tensão entre muitas maneiras de inscrever a chuva de
átomos, muitas maneiras de fazer brilhar o halo de apreender o conflito que o opõe à
l gica da c m i e de a e (RANCI RE, 2015, . 57). A a n cen
das obras de Woolf, na verdade tudo que é acessório configura-se como essencial.
A chuva de átomos presentes nas obras de Woolf está interligado com o esta-
tuto do regime estético que promove a relação entre saber e não-saber dentro de uma
obra. Aquilo que foi destinado como sendo algo supérfluo ou assessorial, transforma-
se em um portador de significado que derruba as fronteiras narrativas. Um barômetro
inutilizado, uma peça de vestimenta, o esgoto de uma cidade, tornam-se elementos
importantes incorporados nas histórias. A descrição destes detalhes anódinos em de-
trimento da mera continuidade narrativa, faz surgir, com o regime estético, um novo
caminho para construir, pensar e ver as artes.
A revolução silenciosa denominada estética abre espaço para elabo-
ração de uma ideia de pensamento e de uma ideia correspondente de
escrita. Essa ideia de pensamento repousa sobre uma afirmação fun-
damental: existe pensamento que não pensa, pensamento operando
não apenas no elemento estranho do não-pensamento, mas na pró-
pria forma do não-pensamento. Inversamente, existe não-pensamento
que habita o pensamento e lhe dá uma potência específica. (RAN-
CIÈRE, 2009, p. 33)
71

Há saber no qual o não-saber se manifesta, assim como existe o pensamento


naquilo que não comporta pensamento algum. Ambos aspectos surgem com a frag-
mentação da linha ficcional a partir da descrição de detalhes desnecessários para a
intriga, compondo com isso uma chuva de átomos, como afirma Rancière. Os fluxos
de consciência (stream of consciouness) dos quais Virginia Woolf ficou famosa, indica
esse aspecto. Em Mrs. Dallaway, a história de um único dia na vida de Clarissa Dal-
laway e dos personagens em volta da festa que acontecerá, traçando os aconteci-
mentos e os detalhes sensíveis: como o ressoar de relógios que ecoam uns com os
outros compondo uma sinfonia. Um único dia é contado no romance, trabalhando com
as impressões, pensamentos, objetos, construindo, por conseguinte, todas as profun-
dezas da mente, em um fluxo contínuo de percepções sensíveis.
Por sua vez, em As ondas, a autora acompanha a vida de seis personagens,
seis subjetividades, desde a infância e mostra a partir dos seus pensamentos mais
profundos características que se confundem com experiências sensíveis cotidianas.
A obra é composta por monólogos que se assemelham ao próprio pensamento, tor-
nando claros elementos que acabam por fugir disso, traçando sentimentos como frus-
tação, raiva, insegurança, configurando o perfil psicológico dos personagens e como
o ambiente os afetam. A obra é construída destruindo ao máximo a linearidade das
histórias tradicionais, apresentando elementos que coexistem simultaneamente de
maneira sincrônica. Como se constata no monólogo de Susan na primeira noite no
colégio:
Tudo aqui é falso; tudo prostituído. Rhoda e Jinny sentam-se ao longe,
vestidas de sarja marrom, olhando a srta Lambert sentada sob o re-
trato da rainha Alexandra, lendo um livro à sua frente. Há também uma
tapeçaria azul tecida por alguma solteirona. Se não repuxar meus lá-
bios, se não amaçar meu lenço, vou chorar.

E em eg ida en a Rh da: Ag a en ba e de fei n d -


mi i , ficam en ada n m ebanh , j n a , b ma a d m nd in ei , e em
tom e imi a afi ma, [...] Ma n ning ma i. N enh . E a g ande
comunidade, toda vestida de sarja marrom, roubou minha identidade. Todas somos
in en ei , inami a (WOOLF, 2014, . 26). A e en am-se nestas descrições
elementos que são marcantes na revolução estética e que constroem todo um jogo
entre saber e sofrer, pensamento e não pensamento: objetos que se transfiguram em
átomos de uma cena, emoções íntimas transpostas pelo pensamento, afetos suscita-
dos por essa infinidade de coisas que surgem diante dos olhos das personagens.
72

Em Mrs. Dalloway, um personagem se apresenta como símbolo de uma nova


leva de indivíduos que surgem como agente de subversão das posições entre nobre
e inferior, pobre e rico. Trata-se de Septimus Waren Smith ele m de e j en
semieducados, desses autodidatas que conseguiram toda sua educação graças a li-
vros emprestados de bibliotecas públicas, lidos ao entardecer depois da jornada de
trabalho, seguindo o conselho de conhecidos escritores consultados pel c ei
(RANCIÈRE, 2005, 63). Septimus está inscrito, portanto, na mesma lógica revolucio-
nária que conferiu a Emma Bovary e a Julien o estatuto de um ser digno de participar
do mundo das letras, apesar de sua origem humilde.
Outra figura deste novo modelo ficcional proposto pelo regime estético é de-
monstrada pelo capitão Marlow, personagem da novela O coração das trevas de Jo-
seph Conrad. Conrad cujas obras tomou como foco as descrições em detrimento da
narrativa clássica, foi um grande admirador de Flaubert. O enredo da obra trata de um
capitão inglês chamado Marlow que comanda um barco a vapor no rio Tâmisa en-
quanto conta à sua tripulação suas vivências dentro da selva africana, mais precisa-
mente no rio Congo, em busca do personagem quase mítico naquela região, o comer-
ciante Kurtz. A narrativa criada pelo personagem, que é a mesma, por conseguinte,
de seu autor, configura- e c m m hal l min n al a cena e ime a ,
apresentando, com isso, uma heterogeneidade de elementos e sensações que se
apresentam quase como a sucessão de acontecimentos do cotidiano. Não há nas
narrativas de Marlow uma linha ficcional única, mas apresenta uma enxurrada de sen-
sações que acabam por romper com a lógica dos fins e dos meios próprios à causali-
dade.
As histórias exageradas que contam os homens do mar têm uma sim-
plicidade direta, cujo sentido cabe inteiro numa casca de noz. Mas
Marlow não era típico (a não ser em sua queda para contar histórias),
e para ele o sentido de um episódio não estava dentro, como uma
amêndoa, mas fora, envolvendo a narrativa, que o fazia surgir apenas
como um fulgor faz fugir o nevoeiro, como uma dessas diáfanas auras
que às vezes se fazem visíveis pela iluminação espectral do luar.
(CONRAD, p. 18)

Marlow tinha em sua maneira de contar histórias um princípio que não era co-
mum entre os demais marinheiros: ele não buscava resumir suas aventuras em um
tecido simples em que se tem como foco o centro da história e que ignora as coisas
em sua volta, mas antes buscava tomar como mais importante o que a circundava, o
que é periférico ao momento: os mosquitos e o ar pesado, as casas feitas de barro
73

batido ou de madeira que deixam entrever raios do sol. O central e o periférico em


comunhão para criar este tecido ficcional novo. Por sua vez, os marinheiros comuns
soam como os defensores da verossimilhança, pois não perdem tempo com aspectos
supérfluos da narração, suas histórias devem soar como um engendrado de ações
nida ela nece idade. Na ala a de Ranci e: F m lada ne e em , a
poética de Marlow definia, de fato, a revolução operada pelo mesmo Conrad no domí-
nio da ficção: não é nos encadeamentos da história onde se buscará o teor ficcional.
H de e b ca e e e , e eb ca em e n in e i , f a, a ed da hi ia
(RANCIÈRE, 2015, p. 37-38).
O realismo romanesco produziu diversos heróis cuja revolução colocou em vias
de visibilidade uma parcela da vida que estava escondida sob o véu da aristocracia e
da poética aristotélica. Não só encadeamentos precisos deve ser o foco da arte, a
história passa a ser contada por episódios, por quadros que rompem com os meios e
fins ficcionais, buscando uma nova forma de ver os tecidos sensíveis propostos. Os
pobres e os anônimos não são mais meros coadjuvantes como serviçais dos nobres,
mas são postos no centro das ações, como seres dotados de uma linguagem e de
e nalidade. Ne e en id , eali m mane c an e de d a b e
das hierarquias da representação (o primado do narrativo sobre o descritivo ou a hie-
rarquia dos tema ) , c m le a Ranci e, e a ad de m m d de f cali a f a-
gmentada, ou próxima, que impõe a presença bruta em detrimento dos encadeamen-
aci nai da hi ia (RANCIÈRE, 2005, p. 35).
Por outro lado, o pobre, levado pelos traços das necessidades financeiras e
cotidianas, torna-se sonhador, almejando algo superior à sua situação ignóbil da re-
produção cega da reprodução da vida. Não necessariamente buscando ocupar a vida
da aristocracia ou da riqueza sonhada e invejada, mas sobretudo pela tentativa de ter
outra vida, outro horizonte para as próprias vidas. Emma tinha razão, em certa me-
dida, ao desprezar Charles, pois ele não vislumbrava nada além das intempéries da
vida, vivia como animal domesticado, cego pela presença de seu dono, vivendo em
função de sua presença singular, quase como um deus onipotente. Os detalhes ínfi-
mos, as pessoas anônimas, os acontecimentos banais, rompem com a ideia de digni-
dade da hierarquia poética, destruindo o antigo ordenamento de ações e embara-
lhando as relações entre passividade e atividade, entre superior e inferior, instaurando
assim, com este monstro sem coluna vertebral, uma democracia dentro da literatura
surgida no regime estético.
74

4 A CIRCULAÇÃO SEM CONTROLE DA PALAVRA49

Certas palavras não podem ser ditas


em qualquer lugar e hora qualquer.
Estritamente reservadas
para companheiros de confiança,
devem ser sacralmente pronunciadas
em tom muito especial
lá onde a polícia dos adultos
não adivinha nem alcança.

Entretanto são palavras simples:


definem
partes do corpo, movimentos, actos
do viver que só os grandes se permitem
e a nós é defendido por sentença
dos séculos.

E tudo é proibido. Então, falamos.


(Carlos Drummond de Andrade, Certas palavras)

Certas palavras não podem circular em qualquer ambiente sem serem ouvidas
com estranhamento ou repulsa, qualquer corpo não pode participar de atividades
alheias àquilo que mandam fazer, não se pode ir ou vir livremente dentro de uma
partilha policial que faz do sensível um campo de regras, delimitações, hierarquias e
sujeição em que se deve estar submetido em nome da organicidade do status quo. A
mudança de estatuto na estética, política e artística, iniciada por volta de dois séculos,
faz com que as palavras e corpos possam circulam em locais que outrora era reser-
vado a privilegiados. Estas mudanças fazem com que a palavra, os corpos, as artes
passam a circular sem controle dentro da partilha do sensível, evidenciando a dimen-
dem c ica d al e m . N cam e i amen e a ic ge a ibili-
dade de o espectador experimentar uma manifestação estética ao mesmo tempo que
pode se tornar tema de uma obra de arte, pois a arte não é mais pensada ou constru-
ída em vista da legitimação ou de uma hierarquia de posições. Por esta razão não se
precisa estar reclusa onde outrora esteve (museus, galerias reais, etc) e sai de en-

49Prosseguindo na discussão sobre o regime estético mais um aspecto da democracia literária dessa
vez a partir da ideia da circulação sem controle da palavra. Neste capítulo, apresenta-se de maneira
sucinta como a palavra pode circular através de qualquer boca, trazendo uma dimensão política no
sentido de fazer ter voz quem outrora era jogado no esquecimento.
75

contro com o espectador (nas ruas, palcos abertos, na internet), seja ele um especia-
lista, ou seja, um observador comum. Há um efeito nas malhas do sensível promovida
por esta revolução da palavra no regime estético, o que significa um novo horizonte
de possibilidades de ocupação do espaço e do tempo.
Com a promoção dos anônimos proporcionada pela tradição romanesca obser-
vada no capítulo passado, o regime estético é pensado como um momento de desle-
gitimação das posições dentro da arte e que por fazer parte do sensório comum o
reconfigura, construindo assim uma nova partilha do sensível. Neste sentido, as artes
dentro deste regime podem instaurar novas maneiras de ver o social, descontruindo
e subvertendo as oposições entre passivo e ativo, saber e não-saber, entre digno e
indigno, etc. São os exemplos dos romances de Flaubert ou Stendhal, Woolf ou Con-
rad, que fazem ver um novo sujeito artístico, além de construir uma nova ficção que
faz da matéria inerte de um objeto qualquer um elemento de significado ou de pura
contestação da narrativa linear do regime poético ou representativo.
A partir da escolha poética da igualité de tous les sujets a palavra começa a
circular sem controle no regime estético, o que diz respeito a uma perturbação na
partilha do sensível, onde a letra percorre caminhos e interpretações sem a autori-
dade, podendo ser alcançada por qualquer pessoa. Neste sentido, ela é conflituosa,
pois põe em questão a partilha policial do bom ordenamento, instaurando no seio da
comunidade o princípio democrático da escrita. A escrita em vários momentos tomará
central importância nos escritos de Rancière, desde sua análise da filosofia de Platão,
passando pela democracia inaugurada por Jacotot, chegando à literatura. Nas próxi-
mas páginas será feito uma apresentação de algumas destas perspectivas analisadas
por Rancière, evidenciando a dimensão intrínseca entre a reconfiguração do espaço
estético e o questionamento político o que, por conseguinte, marca uma ruptura no
ordenamento na divisão dos corpos e palavras.
A palavra em suas manifestações mostra como uma partilha ou outra pode ser
pensada e como ela determina o que é digno ou não de ser ouvido e em quais cir-
cunstâncias. Rancière busca em Platão a leitura do estatuto da escrita para poder
pensar o alcance de sua potência dentro da partilha do sensível. Antes de qualquer
coisa, escrita e oralidade se apresentam como maneiras de manifestação da palavra,
configuram-se, assim, como partilhas do sensível. Há, portanto, uma dicotomia entre
dois modelos de pensamento: um que é símbolo policial do ordenamento da comuni-
dade e outro que trabalha nas fronteiras, criando assim uma fratura nas identidades.
76

[...] Escrita não quer dizer simplesmente uma forma de manifestação


da palavra. Quer dizer uma ideia da própria palavra e de sua potência
intrínseca. Em Platão, sabe-se que a escrita não é simplesmente a
materialidade do signo escrito sobre um suporte material, mas um es-
tatuto específico da palavra. Para ele, a escrita é o logos mudo, a pa-
lavra que não pode nem dizer de outro modo o que diz, nem parar de
falar: nem dar conta do que profere, nem discernir aqueles aos quais
convém ou não convém ser endereçada. (RANCIÈRE, 2009b, p. 34)

Segundo Rancière, Platão via de maneira negativa este logos mudo da escrita,
pois corrompe a organicidade da república, que busca unir de maneira homogênea
Estado e sociedade50, suprimindo o princípio democrático da luta e da não legitimi-
dade para governar (o título dos que não tem título para governar). A escrita, portanto,
surge como oposição à partilha do sensível proposta por Platão que buscava promo-
ver o coro e a dança como arquétipos da comunidade. Platão opõe a esta letra morta
uma palavra em ato que encontra seu interlocutor a partir da inteligência de alguém
que pronuncia, que não deixa que seja entendido outra coisa que não seja aquilo que
se quer ser transmitido.
Em Platão, é a palavra do mestre que sabe ao mesmo tempo explicitar
sua palavra e reservá-la, subtraí-la aos profanos e depositá-la como
uma semente na alma daqueles em quem ela pode frutificar. Na ordem
representativa clássica, essa "palavra viva" é identificada à grande pa-
lavra que se faz ato: a palavra viva do orador que perturba e persuade,
edifica e arrebata as almas ou os corpos. É também, concebida sobre
seu modelo, a palavra do herói trágico que vai até o fim de suas von-
tades e paixões. (RANCIÈRE, 2009a, p. 34).

A c m nidade e em lificada n e ci de Pla , n adamen e n A repú-


blica, está pautada por um ideal de organicidade no qual cada indivíduo toma sua
tarefa em prol da coletividade, sem perturbar as relações e as posições51. A palavra
em ato tem sempre um objetivo, uma direção, persuadir, controlar o outro, não o deixar
ter controle, em suma, tem como finalidade angariar simplesmente o consentimento

50 S b ea e d e blicani m , c nfe i ca l dem c acia, e e en a , e blica em O


ódio à democracia. Neste capítulo, entre outras coisas, Rancière faz uma crítica à ideia de república
que busca criar uma ordem política homogênea que busca delimitar as esferas do político e do social,
do Estado e da sociedade, sendo portanto contrário à interpretação do autor sobre a democracia que
é o princípio de conflito das posições estabelecidas dentro de uma partilha do sensível policial.
51 A organicidade pretendida por Platão é apresenta no mito dos metais e pela mentira fundadora:

C me a ei a en a c n ence chefe e ldad , em eg ida cidadãos, de que tudo


o que lhes ensinamos, educando-os e instruindo-os, tudo aquilo que julgamos ter o conhecimento e a
experiência, não passava, por assim dizer, de sonho; que, na realidade, eram então formados e criados
no seio da terra, eles, as suas armas e tudo o que lhes pertence; que, depois de os ter formado intei-
ramente, a terra, a sua mãe, lhes deu à luz; que, por isso, devem considerar a região que habitam como
a sua mãe e ama, defende-la contra quem a atacar e tratar os outros cidadãos como irmãos, filhos da
e a c m ele . (PLAT O, 2000, . 111)
77

no sentido de ceifar as desordens: escuta-se, obedece-se. Este modelo da palavra


em ato e do controle exemplificada pela filosofia de Platão evidencia uma estreita li-
gação com o estatuto do especialista ou do mestre embrutecedor. Em O mestre Igno-
rante, Rancière levantará dois paradigmas de educação, uma pautada na transmissão
do conhecimento e outra pautada na construção emancipatória do conhecimento. A
primeira é baseada na predominância da figura do professor que sabe o que ensinar,
quando ensinar, para quem ensinar, criando e mantendo a distância entre a sua inte-
ligência e do aluno. Nesta perspectiva a palavra em ato elogiada por Platão é a prin-
cipal ferramenta do mestre embrutecedor, pois ele precisa manter e orientar a inter-
pretação que se deve fazer de um determinado conteúdo ou documento. Estar em-
brutecido aqui significa não pensar por conta própria, sempre estar diante de uma
inteligência e curvar-se a ela, é seguir o programa proposto de maneira não crítica.
A palavra viva da oratória surge então como o predomínio do poder do especi-
alista, que usa seu saber como mecanismo de adestramento e de dominação, ou uti-
lizando um termo foucaultiano, quem está dentro da ordem do discurso tem, por con-
seguinte, as maneiras de controle. Neste sentido, para além desta palavra em ato, o
saber, o conhecimento científico, assim como a história e as ciências humanas e so-
ciais, pode servir para ocultar e silenciar os indivíduos, pois sua lógica é envolta na
hierarquia de quem tem o conhecimento e quem não tem, de quem percebe a domi-
nação ideológica e de quem é cego (WATTS, 2010, p. 109). Todo esse debate em
torno do conhecimento e de suas potências silenciadoras tem fundamental papel na
preocupação de Rancière sobre a democracia e da educação como realizadas pela
pressuposição da igualdade intelectual em capacidade de todos os indivíduos 52.
Esta visão embrutecedora pode ser revertida naquilo que se pode chamar de
história herética. Esta história é contada para mostrar as ações e pensamentos dos
silenciados e ocultos pela lógica embrutecedora e policial. As principais obras entre
seus primeiros escritos revelam exatamente esta história herética cuja força leva-nos
a perceber como as palavras e imagens de movimentos democráticos são importantes

52 Al m di , Ranci e c m e e deba e em a f n de e ela a ncia emb eced a de


alguns pensadores canônicos. Não apenas Platão que divide o mundo em filósofos e não filósofos,
trabalho intelectual do trabalho manual, pensando a república como corpo harmônico; mas, também
sociólogos como Pierre Bourdieu que divide o mundo entre os capazes de ver as estruturas de domi-
nação (sociólogos) e os ignorantes cegos incapazes do mesmo que necessitam da ajuda de quem
conhece para desmistificar e explicar os sistemas de opressão; além do próprio partido comunista e
dos intelectuais marxistas que veem na emancipação uma meta para se alcançar, mas que acabam
aumentado a distância, pois considera como ignorantes as massas.
78

potências para a remodelação de nossa compreensão do mundo (WATTS, 2010, p.


111). Na Noite dos proletários alguns proletários saem de sua condição de mera re-
produção da vida para poder participarem no mundo das letras como seres iguais:
fazem filosofia e poesia, evidenciando a igualdade de inteligências e pondo em prática
a emancipação tão sonhada pelos intelectuais.
Por outro lado, Rancière percebe na figura de Jacotot o modelo da emancipa-
ção que pressupõe como igual todas as inteligências e a constante necessidade de
verificação dessa pressuposição. O objeto maior dessa educação emancipadora é o
próprio indivíduo que se aventura na floresta de signos em sua volta, que deve estar
sempre buscando a materialidade da palavra escrita. Mas porque a necessidade da
escrita? Jacotot para transpor a dificuldade da diferença da língua falada entre ele e
seus alunos, propôs que estes lessem uma edição bilíngue do Telêmaco, francês e
flamenco. Na experiência não só constatou que os alunos passaram a ler e escrever
em francês, que não era sua língua materna, como o fizeram com seus próprios es-
forços, com o exercício da emancipação. A materialidade da palavra escrita serviu
como mecanismo de verificação da igualdade, pois mostra-se como um elemento co-
mum que intermedeia as inteligências do mestre ignorante e do aluno emancipado 53.
Para tanto,
[...] qualquer coisa serve para fazê-lo. É Telêmaco; mas pode ser uma
oração ou unia canção que a criança ou o ignorante saiba de cor. Há
sempre alguma coisa que o ignorante sabe e que pode servir de termo
de comparação, ao qual é possível relacionar uma coisa nova a ser
conhecida. (RANCIÈRE, 2002, p. 39)54

O texto intermediado serve, portanto, como a ponte que une duas inteligências,
a do mestre ignorante e do ignorante emancipado. Mesmo um analfabeto pode apren-
der a ler por conta própria desde que consiga relacionar aquilo que sabe com aquilo

53 Na l gica da emanci a h em e en e me e ign an e e a endi emanci ad ma e -


ceira coisas um livro ou qualquer escrito estranha a ambos e à qual eles podem recorrer para
comprovar juntos o que o aluno viu, o que disse e o que pensa a respeito. [...] é essa terceira coisa de
que nenhum deles é proprietário, cujo sentido nenhum deles possui, que se mantém entre eles, afas-
and al e an mi fiel, al e iden idade en e ca a e efei . (RANCI RE, 2012, . 19)
54 Di e em nha e alhei e a egala lh ando lhe é dito que ele pode ler. Ele não
conhece sequer as letras. No entanto, se ele colocar os olhos nesse calendário, será que não sabe a
ordem dos meses e que não pode, assim, adivinhar janeiro, fevereiro, março... Ele só sabe contar um
pouco. Mas quem o impede de contar bem lentamente, seguindo as linhas para reconhecer escrito o
que já sabe? Ele sabe que se chama Guillaume e que o dia de seu santo padroeiro é 16 de janeiro. Ele
saberá perfeitamente encontrar a palavra. Ele sabe que fevereiro só tem vinte e oito dias. Ele vê clara-
mente uma coluna que é mais curta que as outras e, assim, ele reconhecerá 28. E assim por diante.
Há sempre alguma coisa que o mestre pode lhe pedir que descubra, sobre a qual pode interrogá-lo e
e ifica abalh de a in elig ncia. (RANCI RE, 2002, . 40)
79

que está escrita, criando assim novos caminhos dentro do emaranhado de signos em
sua frente. A escrita, mais do que a palavra dita, é portadora, de alguma maneira, de
elementos emancipatórios. O orador convence, o mestre ensina, mas a escrita abre
um mundo de interpretações e de possibilidades sem que seja ordenado que se es-
cute de uma maneira específica55. É certo que o mesmo pode ocorrer com a palavra
em ato, todos escutam e interpretam seguindo suas emoções, podendo deixar de lado
o que é dito ou utilizando o que lhe convém. Contudo com a escrita a imaginação pode
ir mais longe. O mestre que pronuncia sua aula pode fazer perguntas ao aluno para
ver se ele entendeu a lição, corrigindo quando lhe for conveniente, mas diante de uma
página escrita o que está em jogo é apenas sua inteligência e sua vontade e o próprio
texto. Com o texto não há uma inteligência mediadora que sempre duplica a distância
e aumenta o abismo da ignorância, mas um desafio de quem estar diante de um mis-
tério insondável que são os signos56.
Nesta esteira a escrita, nos exemplos da emancipação proletária tratados por
Rancière, cria um novo sensível no qual as distribuições e as hierarquias são solapa-
das diante de um princípio democrático. A pena serve como arma para a revolução,
tirando do ostracismo da reprodução alienada trabalhadores que podem vislumbrar
um novo horizonte de possibilidades. Rancière adiciona um importante elemento à
fam a ca ac e i a d h mem c m animal l ic fei a Ai ele : O h -
mem é um animal político porque é um animal literário, que se deixa desviar de sua
de ina na al el de da ala a (RANCI RE, 2005, p. 59-60). O homem

55 E e status privilegiado da palavra não suprime a regressão ao infinito, senão para instituir unia
hierarquia paradoxal. Na ordem do explicador, com efeito, é preciso uma explicação oral para explicar
a explicação escrita. Isso supõe que os raciocínios são mais claros imprimem-se melhor no espírito
do aluno quando veiculados pela palavra do mestre, que se dissipa no instante, do que no livro, onde
estão inscritas para sempre em caracteres indeléveis. Como entender esse privilégio paradoxal da
palavra sobre a escrita, do ouvido sobre a vista? Que relação existiria, pois, entre o poder da palavra e
d me e? (RANCI RE, 2002, . 18-19)
56 O que está em jogo com a escrita diante do agir emancipado é servir como base comum a verificação

da igualdade constantemente. Esta emancipação verificada pela escrita ela é individual e intransferível,
isto é, é sempre um exercício que uma inteligência se impõe a si mesma. Não há uma institucionaliza-
ção, não há um projeto que vise a emancipação do povo, pois ela deve ser sempre o ponto de partida,
a pressuposição sobre a qual reside toda luta de mudança política. A desigualdade reinante só pode
existir diante desta igualdade inerente.
Pa a ele [Jac ] el fa e a de a ig aldade em a al nenh ma de ig aldade de e
pensada, mas sob a estrita condição de que essa prova seja sempre singular, que seja a cada vez a
reiteração do puro traçado de sua verificação. Essa prova sempre singular da igualdade não pode
consistir em nenhuma forma de vínculo social. A igualdade vira seu contrário, tão logo ela quer inscre-
ver-se num lugar da organização social e estatal. É assim que a emancipação intelectual não pode
institucionalizar-se sem tornar- e in d ,i , gani a de a min ia e a (RAN-
CIÈRE, 1996, p. 46)
80

c m m de de ia a na e a a a i d da ala a e ga an e m
aspecto político. Contudo, não é apenas a utilização do logos como meio de articula-
ção de ideias de participação de um horizonte comum de significado que faz do ho-
mem um ser político, mas a subversão que faz com que todos e qualquer um possam
intervir como igual na partilha do sensível, isto é, que a pressuposição da igualdade
esteja sendo praticada e posta em exercício incessantemente a todo momento.
Ainda a partir do estatuto da escrita tomada pela análise de Platão, faz-se ver
uma escrita como uma pintura morta, sem força de reação diante de um olhar pers-
crutador, uma palavra que simplesmente repete a mesma coisa, sua obstinação silen-
ciosa diante do inquisidor. Assim julga Platão no Fedro, O mai inc n enien e da
escrita parece-se, caro Fedro, se bem julgo, com a pintura. As figuras pintadas têm
atitudes de seres vivos mas, se alguém as interrogar, manter-se-ão silenciosas, o
mesmo acontecendo com os discursos: falam das coisas como se estas estivessem
vivas, mas, se alguém os interroga, no intuito de obter um esclarecimento, limitam-se
em e a di e a me ma c i a (PLAT O, 2000. . 122-123). Aqui fica clara a oposi-
ção entre palavra em ato e a palavra sem qualidade, que não pode defender-se. O
inventor Thoth, no mito descrito por Platão (2000, p. 120-121), recebeu algumas res-
salvas do monarca do Egito Tamuz que analisava se uma invenção era boa ou ruim e
por quais razões, dentre elas Tamuz argumenta que a escrita ao contrário de aumen-
tar a memória dos homens iria diminui-la, pois estes não exercitá-la-iam ao tornarem-
se dependentes da conveniência da escrita. Neste sentido, desta palavra escrita não
pode derivar-se discernimento, mas apenas repetição.
Esta partilha da palavra faz do escrito um símbolo da deslegitimação, do des-
qualificado, daquilo que não tem arché, ou seja, não tem fundamento, pela simples
razão de não conseguir dar vida ao que enuncia. Ela é morta como uma pintura que
se aproxima meramente de uma aparência, imita simplesmente, trazendo o falso e
a il e e afa a da e dade da ala a i a. Na ala a de Ranci e, a le a
escrita é semelhante a uma pintura muda, uma pintura morta da palavra, capaz de
imitar unicamente, de repetir indefinidamente o mesmo. É uma palavra órfã, despro-
ida d ec n i ia ncia da ala a i a, da ala a d me e (RANCI RE,
2009a, p. 107).
A palavra muda neste sentido diz respeito a um significado trazido pela própria
palavra, seu significado encerra-se em si mesma, como uma tábua de hieróglifos ricos
81

de simbologias esperando por ser decif ad [...] mai hie glif in c i di e a-


men e n c e bme id a ma decif a (RANCI RE, 2009b, . 39). Ela está
desvinculada, por um lado, de sua destinação, pois não pode recorrer a sua origem
para ganhar significado, e, por outro lado, Platão a condena por não se destinar a
ninguém. Esta dupla falta da palavra escrita apresenta-se numa partilha que reconfi-
gura as relações de bom ordenamento.
É a palavra que se cala e se fecha em si mesma, trazendo uma fala enigmática
que precisa ser traduzida e reescrita. A escrita se configura como a palavra muda que
não diz nada e ao mesmo tempo diz tudo, que se oculta, mas está na frente de qual-
quer um, não tem controle e se desincorpora, pois circula como um quase corpo.
Neste sentido, Rancière afirma:
A escrita muda, num primeiro sentido, é a palavra que as coisas mu-
dam carregam elas mesmas. É a potência de significação inscrita em
seus corpos, e que resume d fala de N ali , e a mine al -
gista. Tudo é rastro, vestígio ou fóssil. Toda forma sensível, desde a
pedra ou a concha, é falante. Cada uma traz consigo, inscritas em es-
trias e volutas, as marcas de sua história e os signos de sua destina-
ção. A escrita literária se estabelece, assim, como decifração e rees-
crita dos signos de história escritos nas coisas (RANCIÈRE, 2009b, p.
35).

Por outro lado, tem-se a palavra muda que é, paradoxalmente, a palavra soli-
l i a ela en di a ning m e não diz nada, a não ser as condições impes-
ai , inc n cien e , da ia ala a (RANCI RE, 2009b, . 39). a ala a e
é incapaz de dialogar, pois ela é morta e silenciosa e, após a caracterização feita por
Pla , ele c m le a di end e [...] ma vez escrito, um discurso chega a toda
parte, tanto aos que o entendem como aos que não podem compreendê-lo e, assim,
nunca se chega a saber a quem serve e a quem não serve. Quando é menoscabado,
ou justamente censurado, tem sempre necessidade da ajuda do seu autor, pois não é
ca a de e defende nem e de ege a i me m (PLAT O, 2000. . 123). Pla
faz uma crítica ao aspecto democrático da palavra que circula sem direcionamento e
sem regras, que chega a quem quer que seja sem restrição, construindo assim uma
maneira de deslegitimação da palavra57.

57Na ala a de Ranci e: A n e g iada m ai e a le a, eg nd m c l leg im ,


até o lugar em que pode frutificar-se, a palavra escrita roda à sorte de um lado a outro. Va a hablarle,
a sua maneira muda, a qualquer um, sem poder distinguir aqueles a quem é conveniente falar e aquelas
a em n c n enien e (RANCI RE, 2009a, . 108)
82

Esta duplicidade da palavra apresentada por Rancière é intrinsicamente pre-


sente dentro do regime estético e naquilo que o autor chama de inconsciente estético,
que diz respeito a um pensamento que se torna estranho ao próprio pensamento, uma
inteligibilidade advinda daquilo que é anódino como os detalhes dos romances de um
Flaubert ou de uma Woolf. O autor resume assim as duas facetas da palavra muda,
ou seja, tendo de um lado uma palavra hieróglifo pedindo para ser decifrada e de outro
a palavra loquaz que repete sempre a mesma coisa sem a possibilidade de dizer outra
coisa e chegando sem objeção a qualquer um.
O inconsciente estético, consubstancial ao regime estético da arte, se
manifesta na polaridade dessa dupla cena da palavra muda: de um
lado, a palavra escrita nos corpos, que deve ser restituída à sua signi-
ficação linguageira por um trabalho de decifração e de reescrita; do
outro, a palavra surda de uma potência sem nome que permanece por
trás de toda consciência e de todo significado, e à qual é preciso dar
uma voz e um corpo, mesmo que essa voz anônima e esse corpo fan-
tasmagórico arrastem o sujeito humano para o caminho da grande re-
núncia, para o nada da vontade cuja sombra schopenhauriana pesa
com toda força sobre essa literatura do inconsciente (RANCIÈRE,
2009b, p. 41).

Este inconsciente estético que traz a presença da palavra muda está arraigado
a uma voz que faz eco sem ser a palavra legítima do artista ou do mestre, que circula
como quase corpo e que transforma perturbando as relações entre as palavras e as
coisas, entre as identidades e os sujeitos, construindo por conseguinte uma nova par-
tilha do sensível. O regime estético, por esta razão perturba a ordem de legitimação
da partilha policial e do regime poético, colocando em questão e derrubando os muros
que separavam gêneros e temas, sujeitos e hierarquias, dizendo que não há fala pri-
vilegiada ao mesmo tempo que não há interpretação privilegiada das relações sociais.
A literatura, neste sentido, cria corpos que são quase corpos, havendo o que Rancière
chama de li e alidade [li e a i ], ela a me m em a c ndi e efei da ci -
c la d en nciad li e i iamen e di , c m le a a , Ma
enunciados se apropriam dos corpos e os desviam de sua destinação na medida em
que não são corpos no sentido de organismos, mas quase-corpos, blocos de palavras
ci c land em ai leg im e ac m anhe a m de ina i a i ad (RAN-
CIÈRE, 2005, p. 59-60). Esta literalidade intervém nos corpos, introduzindo fraturas
desvirtuando-os de sua destinação costumeira, criando desincorporação, isto é, pro-
pondo um novo corpo que não é corpo no sentindo de organismo, mas antes uma
83

amálgama de relações e de corpos (RANCIÈRE, 2005, p. 60), uma desfiguração das


identidades.
A partir da escrita deslegitimam-se as posições, pois não discerne a quem é
de inada, ci c land em c n le, e a ig aldade de i da a hie a ia da
representação e institui a comunidade dos leitores sem legitimidade, comunidade de-
enhada men e ela ci c la alea ia da le a (RANCI RE, 2005, . 19). A
revolução estética promovida pelas artes em meados do século XIX a partir deste
aspecto, na leitura de Rancière, cria uma relação e uma aproximação com o processo
de subjetivação58 identificado na política no qual ocorre uma identificação impossível
em nome de uma desidentificação das posições anteriormente impostas, o que forma
uma comunidade composta pela parte dos sem-parte, e a comunidade dos leitores
sem legitimidade. Ocorre uma aproximação entre estes dois paradigmas, pois estão
assentadas sob a mesma égide da democracia e do princípio de igualdade entre as
inteligências. A ação política e a ação estética, no sentido artístico do termo, passam
pelo crivo comum da partilha, assim como afirma Fernandez-Saváter:

Para ele as ações políticas e literárias coincidem em um ponto: ambas


passam pelo poder as ficções, as metáforas e as histórias. A política
de emancipação é uma política literária ou política-ficção que inventa
um nome ou personagem coletivo que não aparece nas contas do po-
der e as desafia (a partir de uma situação, agravo ou injustiça con-
creta). Esse nome não é de nada em particular, senão que nele cabe
todos os que não contam, não são escutados, não têm voz, não deci-
dem e estão excluídos do mundo comum. (FERNANDEZ-SAVÁTER,
2013, p. 126).

A subjetivação política assim como a promoção dos anônimos na literatura faz


ver uma ruptura no campo das identificações, colocando voz em quem outrora foi ex-
cluído do mundo sensível, isto é, faz ver sujeitos para além das posições que se im-
putam sobre eles. A camponesa que vive no mundo das letras ou o operário que pode
dedicar um pouco de seu tempo para a poesia vivem neste campo em que se quebra
as hierarquias e faz surgir uma nova possibilidade de encarar os corpos sensíveis. A
desincorporação em jogo nos faz criar um novo encadeamento que toma lugar nas
partilhas do sensível, criando um jogo entre identificação e desidentificação, fazendo
apagar uma velha relação entre as palavras e as coisas, criando um novo corpo pro-
fundamente dissensual.

58 Conferir capítulo 2 da dissertação, sobretudo, a seção sobre a ideia de dissenso político.


84

A emancipação em jogo diante da subversão das noites feita pelos proletários


cria um novo dispositivo de identificação impossível no seio da comunidade pautada
na partilha policial do sensível. Segundo Fernandez-Saváter, cria-se uma ficção de
um novo personagem coletivo que dá conta de uma parte dos sem-parte. Esta ficção
estético/político de um novo sujeito político surge nas fronteiras e nas falhas da iden-
tificação em cenas de ruptura que questionam todo um sistema sensório da desigual-
dade e hierarquia. Há aí uma estreita correlação com o personagem literário da revo-
lução romanesca, o qualquer um ou a igualdade de todos os temas, pois derruba todo
um jogo de relações que delimitavam a vida, as maneiras de ver, pensar, falar, e existir
em comunidade.
Esta subjetivação, ou ficção estético/político, reparte e divide os corpos e o pró-
prio sensível, tanto no sentido da ocupação e utilização do espaço quanto pela divisão
das atividades e o tempo necessário para tanto. Como afirma Fernandez-Saváter,
median e a fic n de -incorporamos (abandonamos um corpo) e nos re-incorpo-
am (a m cam n de ibilidade ) , ele c m le a, fa em c m ef e-
mos algo distinto do que somos e desse modo geramos efeitos de realidade. A ficção
é uma força material desde o momento em que cremos nela e nos organizamos em
c n e ncia (FERNANDEZ-SAVÁTER, 2013, p. 129). Cria-se, neste sentido, um
ser impossível, pois sua caracterização não caracteriza realmente, ou seja, não se
resume uma figura da subjetivação a partir de predicados, mas antes pela impossibi-
lidade de predicação. Proletário não é o nome que se dá a uma série de trabalhadores
que forjam o ferro, cosem o couro, levantam os muros na construção civil, não é, em
suma, um trabalho braçal, como comumente pode se afirmar, mas é antes de mais
nada um nada que é tudo, um jogo de identificação e desidentificação.
85

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este breve trabalho mostrou como que a filosofia de Rancière pode contribuir
para o clareamento de algumas questões sobre a arte, a política, a emancipação, e
servir como uma possível baliza para os desafios da esquerda no mundo. O objetivo
da dissertação foi apresentar alguns conceitos fundamentais para entender a relação,
principalmente, entre estética e política, mas não só, pois foram abordados outros
temas mais específicos, que não estão distantes do objetivo principal do trabalho,
como o da literatura de autores consagrados como Flaubert e Woolf, além de trazer a
referência de autores desconhecidos na academia como o proletário e filósofo Gabriel
Gauny, as correspondências entre proletários da década de 1830 das quais Rancière
faz um resgate rico. Dentre os autores poucos conhecidos destaca-se o pensamento
do pedagogo francês Jacotot cuja filosofia da igualdade foi determinada para uma das
obras mais famosas de Rancière O mestre ignorante. Jacotot traz para a filosofia de
Rancière a decisiva influência que servirá como ponto de referência para o pensa-
mento da igualdade das inteligências e da emancipação como exercício e pressupo-
sição.
Rancière desde seus primeiros escritos busca se distanciar de uma posição
que cria uma hierarquia no pensamento, nos saberes, nos indivíduos. A principal ca-
racterística de suas obras é a criticidade diante dos conceitos tradicionalmente esta-
belecidos e da sociedade em geral, não deixando de lado nem a própria esquerda da
qual fez parte principalmente na juventude. Rancière não poupa críticas ao que é visto
como injusto, hierarquizado, normatizado. Ele busca não criar um sistema, no sentido
filosófico, até porque este não é mais o objeto da maioria dos pensadores contempo-
râneos, mas busca incessantemente dar uma nova cor às questões que acabam por
ser naturalizadas. Ele dá um passo atrás e busca novas interpretações do que é a
estética (não uma mera disciplina, uma ciência da arte ou do gosto) ou a política (não
os jogos pelo poder presentes nos partidos ou nas eleições), sempre com um olhar
polêmico. Esta perspectiva polêmica percorre toda sua obra que abarca uma gama
enorme de assuntos tais como as imagens em geral e as cinematográficas em espe-
cial, a literatura em prosa e verso, o novo estatuto da história, o olhar do espectador,
a emancipação, educação, etc.
Também a partir desta perspectiva polêmica, Rancière fará sua leitura da tra-
dição filosófica. Neste ponto talvez o nome mais recorrente seja o de Platão, entre os
86

antigos. A filosofia empreendida por Platão serviu em muita medida para Rancière
distinguir alguns conceitos fundamentais em sua filosofia e que foram abordadas no
presente trabalho: a palavra muda, democracia, regime ético das imagens. A palavra
muda surge a partir da crítica que Platão faz ao estatuto da palavra escrita que surge
desvinculada de um pai, que vai em direção a qualquer leitor. Com ela não há legiti-
mação, há uma circulação aleatória no qual não se distingue a quem se dirige. O
próprio conceito de democracia é tornado mais claro a partir da crítica que Platão faz:
a democracia como ausência de legitimação para governar. É a parte daqueles que
não tem parte, o governo dos sem direito a governar, pois o povo é simplesmente
aquele que não tem título que o torne digno para participar das decisões na cidade.
Por fim, o regime ético das imagens tem em Platão sua principal referência, notada-
mente a crítica platônica às artes e aos artísticas miméticos que perturbam a boa re-
lação de visibilidade e representação.
Ainda entre os antigos temos Aristóteles que com sua poética influenciará toda
a tradição artística do ocidente com suas regras de construção. Aqui Rancière funda-
menta principalmente seu conceito de regime poético ou representativo das artes na
qual as maneiras de fazer arte estão resumidas a uma ideia hierárquica entre manei-
ras dignas ou indignas de fazer e representar um determinado assunto ou gênero.
Existe arte que utiliza temas dignos e por isso é destinada a pessoas de espírito ele-
vado e há, por outro lado, artes que representam seres inferiores e, portanto, são
destinados a indivíduos da mesma índole.

Na filosofia do século XX percebe-se a influência marcante de nomes como


Foucault que, como foi visto no primeiro capítulo, com suas ideias de a priori histórico
e de episteme, foi muito importante para a contribuição ao conceito de partilha do
sensível. Além disso, têm-se todo um jogo de pensamento com nomes contemporâ-
neos como Althusser alvo de severas críticas na obra A lição de Althusser, Alain Ba-
diou com o qual travou alguns embates nem sempre de maneira amistosa e Slavoj
Zizek que vê em Rancière um nome que pode contribuir para tirar a esquerda de um
momento de confusão intelectual (Contracapa de Ódio à democracia.
Este pequeno mapa conceitual dos nomes com os quais Rancière dialoga ou
dialogou, serve para mostrar o quanto o autor está preocupado em traçar um paralelo
não apenas com os grandes nomes da filosofia ou das artes, mas, sobretudo, colocar
em par de igualdade com os anônimos da história, notadamente os proletários e as
87

cenas individuais de irrupção do dissenso que fazem ver uma nova partilha do sensí-
vel mais igualitária para mulheres, negros, trabalhadores, artistas. Rancière em sua
obra traz para o centro da discussão aqueles que não são vistos como dignos na
partilha do sensível, tentando lançar um olhar novo sobre os anônimos e sobre as
questões sobre o outro.
A linha conceitual que percorreu todo o trabalho foi de mostrar como que é
possível perturbar a lógica policial do bom ordenamento e do consenso a partir dessas
cenas que inauguram uma nova partilha mais igualitária e que dê visibilidade àqueles
outrora renegados ao esquecimento. Em outras palavras, o que esteve em questão é
o agir democrático que percorre os discursos políticos propriamente ditos e as obras
artísticas, principalmente, em alguns casos na literatura. A promoção dos anônimos
na literatura, a política como processo de desidentificação pautada numa identificação
impossível, a prática da emancipação que faz do indivíduo agente do seu próprio devir
que traduz a floresta de signos em sua volta, a parte daqueles que não tem parte, tudo
isso mostra o compromisso com o ideal de democracia nas obras de Rancière.
Este trabalho seguiu o caminho de entender e clarificar as noções de Rancière
para pensar a relação entre estética e política, neste sentido, ele foi pensado com o
objetivo de compreender o autor sem deixar de tentar enriquecer a discussão relacio-
nando a reflexão com outros pensamentos e interpretações, buscando um olhar
emancipado sobre a obra de Rancière e os demais autores que surgiram nesta cami-
nhada.
Contudo, uma questão surge, qual a importância do conceito de partilha do
sensível para além do entendimento do pensamento do auto? Quer dizer, qual vali-
dade ou qual perspectiva pode ser trazida com tal conceito e como ele pode contribuir
com o mundo concreto, fazendo com que o pensamento não fique fechado em um
mero jogo de interpretação? Certamente, em primeiro lugar, Rancière lança uma in-
terpretação vigorosa sobre as relações sociais e as posições que se tomam dentro da
comunidade, criando um novo olhar possível para ver as linhas que mantem as hie-
rarquias e desigualdades em nossa sociedade. Em segundo, ele faz da emancipação
um novo olhar sobre as artes, no qual o espectador é um agente que rompe com a
dicotomia entre passivo e ativo e faz da interpretação livre o imperativo do olhar. Em
terceiro, acho que é o ponto mais interessante e que eu já comentei nestas conside-
rações finais, é o fato de dar voz aos anônimos. Os anônimos na obra de Rancière
não é só uma figura sem rosto que busca ser visto, mas sim um rosto que precisa ser
88

visto e que não o é pela lógica que quantifica e classifica a sociedade entre aqueles
dignos e os que são indignos para determinada área de atuação, atividade ou ocupa-
ção.
Evidentemente poderia elencar mais elementos, mas entendo que estes são
suficientes para mostrar que a presente pesquisa que buscou elucidar alguns concei-
tos de Rancière esteve baseada em um autor que pode e muito contribuir para se
pensar a realidade na qual estão inseridas as pessoas excluídas pela ordem policial
dentro da partilha do sensível. Além deste importante aspecto, Rancière contribuiu em
grande medida no olhar sobre a arte tanto de teóricos quanto de artísticas. Ele pensa
a a e c m ma ncia e de c nfig a la da c m nidade, i a
ica a ica manei a de fa e e in e m na di ib i ge al da ma-
nei a de fa e e na a ela e c m manei a de e e f ma de i ibilidade
(RANCIÈRE, 2005, p. 17).
A ica a ica n e a e en am, c nfig and a a ilha d en el
c m elemen e ejam he e g nea ia c m nidade. Ela c n eg em
in e i na f ma de di i da c m nidade, de f ma c n en al di en al,
e e b ma ba e c m m (e ica imei a) e ibili a a ela e
en e e ica e l ica, en e cena a ica e gani a e d c .P a
e , n d dem c acia liga ia mai d e dem da , n
de inada a ma bmi l ica , a im c m afi ma Ranci e:
A a e n nca em e am man b a de d mina de
emanci a mai d e lhe dem em e a , eja, m i
im le men e, e m em c m m c m ela : i e e
m imen d c , f n e da ala a, e a i e d i el e
d in i el. E a a n mia de e dem g a e a b e e
dem e a ib i e am b e a me ma ba e (RANCI RE, 2005,
. 26).

A i e e c am ma b a de a e m indi d na ciedade e
bme ida a eg a en ei imila e . M i a e e a a e e em l cai e
a ena alg n dem -la a me m em em eaa ee em d l ga e ;
ma cena a ica ma cena l ica de m da lha de em a e
c m a ilham de m egime en i c m me i ; da me ma manei a e dem
emb ece lh a ma nica f ma de i ali a a c i a em l a.
eci ,a im c m fa Ranci e, e m lha emanci ad dian e d m nd
e da ela e em n a l a. Seja m lha de e ec ad dian e de ma b a de
a e, eja c m lha de em b ca m e c m a hie a ia e de ig aldade e
89

bme em e h man a m l ga de ca nenh ma i ibilidade. eci


em e b ca en ende a linha e di eci nam denamen da c i a e
em e l a aa m e c m a l gica licial e e e e a na e a de ig aldade
da in elig ncia .
90

REFERÊNCIAS

ASPE, Bernard. A revolução sensível. Trad. Pedro Hussak. In. AISTHE, Vol. VII, nº
11, 2013. P. 61-88.
BARTHES, Roland. O efeito do real. In: BARTHES, Roland et al. Literatura e semio-
logia. Petrópolis: Vozes, 1972. P. 35-44.
BONACCINI, J. A. O argumento da Estética e o problema da aprioridade: ensaio de
um comentário preliminar. In. KLEIN, J. T. Comentários às obras de Kant: Crítica da
Razão Pura. Florianópolis: NEFIPO, 2012.
CACHOPO, João Pedro. Momentos estéticos: Rancière e a política. In. AISTHE,
Vol. VII, nº 11, 2013. P. 21-41.
CAMUS, Albert. O estrangeiro/Estado de sítio. Trad. Maria Jacintha e Antonio Qua-
dros. São Paulo: Abril Cultural, 1982.
CASTRO, E. Introdução a Foucault. Trad. Beatriz de Almeida Magalhães. Belo Ho-
rizonte: Autêntica, 2014.
__________. Vocabulário de Foucault: um percurso pelos seus temas, conceitos e
autores. Trad. Ingrid Müller Xavier. Belo Horizonte: Autêntica, 2016.
CHAMBERS, S. P lice and liga ch . In: DERANTY, J-P. Jacq es Ranci re: ke
c nce . D ham: Ac men, 2010. . 57-68.
CITTON, Y e . The ign an ch lma e : kn ledge and a h i . In. DERANTY,
J-P. Jacques Rancière: Key Conpects. Durham: Acumen, 2010. P. 25-37.
CONRAD, Joseph. O coração das trevas. Trad. Marcos Santarrita. Rio de Janeiro:
Nova fronteira, 2013
DELEUZE, G. Foucault. T ad. Cla dia San Anna Ma in . São Paulo: Editora Brasili-
ense, 2013.
DERANTY, Jean-Philippe. Logical revolts. In. DERANTY, J-P. Jacques Rancière:
Key Conpects. Durham: Acumen, 2010. P. 17-24.
FERNÁNDEZ-SAVATER, Amador. Política literal y política literaria (sobre ficcio-
nes políticas y 15-m). In. Mediterráneo Economico, n. 23. Espanha, p. 125-137, mai.
2013.
FLAUBERT, Gustave. Madame Bovary. Trad. Sérgio Duarte. Rio de Janeiro: Nova
Fronteira, 2011.
FOUCAULT, M. Arqueologia do saber. Trad. Luiz Felipe Baeta Neves. Rio de Ja-
neiro: Forense Universitária, 2015. 8ª ed.
91

GARCIA, A. R. La Distancia estética: Potencia y limites de la relación entre arte y


democracia. In. GARCIA, A. R (ed.). Schiller, arte y política. Murcia: Editum, 2010.
P. 223-270.
HÖFFE, O. Immanuel Kant. Trad. Christian Viktor Hamm e Valério Rohden. São
Paulo: Martins Fontes, 2005
MECCHIA, Gi e ina. Phil h and i : Ranci e cii e f hil h . In.
DERANTY, J-P. Jacques Rancière: Key Conpects. Durham: Acumen, 2010. P. 38-
54.
PANAGIA, Da ide. Pa age d en ible: he di ib i n f he en ible. In. DERANTY,
J-P. Jacq es Ranci re: Ke C n ec . D ham: Ac men, 2010. P. 95-103.
PANIZO, Ja ie G n le . Jacq es Ranci re: es ica pol ica. Mad id:
E ele ia, 2013.
PELLEJERO, Eduardo. Aquém da biopolítica: a parte (sem parte) de Jacques
Rancière. Rev. Filos., Aurora, Curitiba, v. 25, n. 36, p. 43-73, jan./jun. 2013. P. 35-55.
_____________. A li o do al no - Uma in d b a de Jac e Ranci e.
SABERES, Na al RN, . 2, n.3, de 2009. P. 18-30.
RANCIÈRE, Jacques. A partilha do sensível: estética e política. Trad. Mônica Costa
Netto. São Paulo: Editora 34, 2005.
____________. A noi e dos prole rios: arq i os do sonho oper rios. T ad.
Ma ilda Ped ei a. S Pa l : C m anhia da le a , 1988.
____________. Aisthesis: escenas del régimen estético del arte. Trad. Horacio Pons.
Buenos Aires: Manatial, 2013.
____________. El hilo perdido: ensayos sobre la ficción moderna. Trad. María del
Carmen Rodríguez. Buenos Aires: Manatial, 2015.
____________. La palabra muda: Ensayo sobre las contradicciones de la literatura.
Trad.Cecilia González. Eterna Cadencia, 2009a.
____________. La política de los cualquiera. Entrevistadores: Marina Garcés, Raúl
Sánchez Cedillo, Amador Fernández-Savater. 2010. Disponível em: http://la-
vaca.org/bibliovaca/entrevista-con-jacques-ranciere-la-politica-de-los-cualquiera/.
____________. L'élection, ce n'est pas la démocratie. Entrevistado pelo Le Nouvel
Observateur. In. http://bibliobs.nouvelobs.com/tranches-de-cam-
pagne/20120418.OBS6504/jacques-ranciere-l-election-ce-n-est-pas-la-
democratie.html, 2012a.
92

____________. Maio de 68 revisado e corrigido. Trad. Luiz Gonçalves. São Paulo:


Folha de São Paulo, 2008. Disponível em: http://www1.fo-
lha.uol.com.br/fsp/mais/fs0405200811.htm.
____________. Nas margens do pol ico. T ad. J Ped Cach . Li b a:
Ymag , 2014a.
____________. O desentendimento. Trad. Ângela Lopes. São Paulo: Editora 34,
1996.
____________. O espectador emancipado. Trad. Ivone Benedetti. São Paulo: Mar-
tins Fontes, 2012b.
____________. O inconsciente estético. Trad. Mônica Costa Netto. São Paulo: Edi-
tora, 34, 2009b.
____________. O mestre ignorante. Trad. Lílian do Valle. Belo Horizonte: Autêntica
Editora, 2002.
____________. O ódio à democracia. Trad. Mariana Echalar. São Paulo: Boitempo,
2014b.
____________. Politique de l ind termination esth tique (entrevista com Jan Völker e
Frank Ruda). In: GAME, J e LASOWSKI, A. W. (dir). Jacques Rancière: Politique de
le h i e. Pa i : di i n de a chives contemporaines, 2009c, pp. 157-75
____________. Sobre a teoria da ideologia: a política de Althusser. Trad. Luz Cary
e Joaquim J. M. Ramos. Porto: Portucalense Editora, 1971.
____________. The Politics of Aesthetics. Trad. Gabriel Rockhill. London: Contin-
uum, 2004.
RUBY, Ch i ian. Ranci re lo pol ico. T ad. Ma he Gajd ki. B en Ai e :
P me e Lib , 2011.
SANTOS, Nadier; SOUZA, Joana. A literatura no contexto da revolução estética
concebida por Jacques Rancière. Griot : Revista de Filosofia v.13, n.1, junho/2016.
P. 87-108.
WATTS, Philip. Heretical history and the poetics of knowledge. In. DERANTY, Jean-
Philippe. Jacques Rancière: Key Conpects. Durham: Acumen, 2010. P. 104-115.
WOOLF, Virginia. Mrs Dallaway. Trad. Mario Quintana. Rio de Janeiro: Nova fron-
teira, 2011.
_____________. As ondas. Trad. Lya Luft. Rio de Janeiro: Nova fronteira, 2014.

Você também pode gostar