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Jean Clavreul

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A ORDEM MÉDICA
162 JEAN CLA VREUL 163
OS QUATRO DISCURSOS

Discurso do mestre

/ ...'..?;:]::(}; .

;~ ~- ~: :~,. .

Discurso da
histérica
g
a
S1
S2
agente
verdade
outro
produto --
S2
S1
a
g
Discurso
universitário

"Que um doente sofra mais ou menos, é isto algo que oferece


interesse para a Academia das ciências?"
Malgaigne
Discurso psicanalítico
"É preciso ai outra diz-mansão: aquela que comporta saber que
a análise, da queixa, não utiliza senão a verdade."
Jacques Lacan

A banda de Moebius, por sua torção, faz aparecer a outra


"diz-mansão", a terceira, aquela que ignora a projeção do ima-
ginário sobre o plano.
A ORDEM MÉDICA 165

análise, mas o discurso médico não é atingido porque tem por


vocação reduzir as desordens da subjetividade e finalmente inte-
grá-las em sua ordem.
O discurso psicanalítico, ao contrário, é oponível ao dis-
11 curso médico - no sentido em que Lacan fala do "discurso do
mestre" como sendo a Psicanálise ao avesso. 1 Não se trataria de
Discurso médico dar aqui um resumo mesmo sumário da teoria psicanalítica.
Tanto é fácil passar de um discurso de mestria a outro (basta
e discurso psicanalítico 1 aprender as novas articulações conceituais), quanto é proble-
1 mática a passagem de um discurso a outro, porque comporta
1(1
uma subversão subjetiva. Um discurso se articula sobre uma
práxis, pelo menos a de uma psicanálise pessoal no que concerne
à psicanálise. Também não se trata de sínteses que evitam a
leitura completa de um autor, se é em extrair o rigor de suas
formulações que estamos empenhados. As de Lacan têm o mé-
rito de não poderem ser muito desviadas de sua função, que é
permitir que nos referenciemos num domínio, a psicanálise,
onde, na maioria das vezes, o obscuro vem mascarar o embaraço
oi adiirntado até aqui, e que é constituído de ele- dos autores, fazendo reinar um terrorismo verbal que se dá por
O que f
os é uma certa leitura do d'iscurso me'd'ico. Com teorização. É, pois, para fixar alguns pontos e permitir falar
men t os esp ars , , f · t ·, deles que darei algumas precisões sobre os "quatro discursos" de
. ·to isto é de que lugar é possive1 azer is o, Ja que
que direi , , . , d' t Lacan, e também sobre a noção mesma de discurso tal como ele
·to bem opor que o discurso me ico em uma coe-
po dem mui . . d' r · a entende - não sem precisar que só retenho aqui o que pode
A • f' · nte em si· mesmo e efeitos muito pouco iscu iveis,
rencia su icie esclarecer este trabalho, o que necessariamente implica que eu o
para que nos poupemos de falar dele de outra forma que não
reduza e o deforme.
para O propor como modelo? . .
É à psicanálise que tenho me _refendo contmuamente, e Sabe-se que o processo da significação foi centrado pelos
particularmente ao ensino e à teonzaç_ão de -~acan, e se, nem lingüistas em torno do conceito de signo, sendo este constituído
sempre mencionei suas formulações mais exphcita1?ent~, e por- pela relação entre o significante, que é sua substância lingüís-
que era mais importante mos~r~r que d~monstrar: i~to e, res~a_l- tica, e o significado, que designa o que o significante representa.
tar que uma leitura psicanahtica do discurso medico permitia Significante e significado são "as duas faces de uma única e
extrair um certo número de fatos_ 'l;ue ~ex:manece~ n~ som~ra mesma produção", portanto indissoluvelmente ligados na re-
quando O discurso médico constitui a umca refere~cia teónca l significante .
ação significado como são ligados a frente e o verso numa
reconhecida. Esses fatos, seguramente, não são ig~orados e
muitos já foram, pelo menos em parte, escritos e descntos. Ma~, r~l~ção necessária. Não faremos aqui a crítica desta abordagem,
na maioria das vezes, é numa visão polêmica em relação à medi- hm1tando-nos a lembrar que ela não deixa de levantar dificul-
cina que são relatados; ou ainda, são assinalados com? fracassos dades, em particular para dar conta disso que se enfatiza como
ou mal-entendidos que a medicina, no seu progresso, e chamada devendo ser a "primazia" do significante para um estudo lingüís-
a reabsorver. A intenção crítica ou laudativa não muda na?~ na tico rigoroso.
questão: se o único segundo plano teórico é o da med1cma,
é somente num "discurso histérico" que se agrupam tais fatos:
(1) J. Lacan, La psychanalyse à /'envers, Seminãrio 1971.
ou seja, é a posição subjetiva do autor que é relevada em última
JEAN CLA VREUL A ORDEM MEDICA 16 7

166 dos lingüistas particularmente por adiantar oponível ao Sujeito, mas como ligado a ele na fantasia. A fantasia
L can se separa . não sendo ela mesma uma produção imaginária à qual a realidade
ª significan~ a barra que separa os dois elementos
seria oponível, mas a indicação de toda relação possível entre o
na relação sígnificado t·t , 1
que . "fi·cação ao invés de cons i ui- a. A signi- Sujeito que discursa e o real que seu discurso tende a cercar e a
faz barrage 01 à ásigm · "f"icantes entre
. procede da relação d os sigm constituir como realidade . O objeto assim designado ( como
ficação, a o .. ,.. . do fato de que cons 1 em uma ca d eia
contr no, t·tu · s,gni-
· "objeto a") deixa em suspenso a questão de sua realidade .
sequencia, . • t Ele é primeiramente referenciável como um lugar vazio, cons-
si, d e sua . •ti·cante remete pnmeiramen e a um outro

ficante. Cada
. T sigmntes como uma palavra d o d"1cion
· á no
· remete' tituído pelo Sujeito, sem que se possa inferir sua realidade
aos ou_tros sig;1 t:utr~s palavras do dicionário. Cada um deles apenas pelo fato de sua coalescência com o objeto da fantasia ,
prim~iramerue a: deixado livre pelos outros significantes, com os sendo sua existência apenas aquela que ele ocupa no discurso
s6 e~1ste no 8 de ou pelo menos por muito tempo, confundir- que o constitui.
quais ele ndã? ~o ~ confusão e permite a constituição da signi- O discurso compreende o Sujeito (S) em sua relação com o
se. 0 que é
issipa
i· ão a seqüência dos sigm. •t·ican t es , que se orga- objeto("objeto a"). Ele se inscreve na cadeia significante S 1, S 2 ,
f ação a reun , . . S 3 , S4 etc., ficando entendido que o signzficante S1 que repre-
i~ qüência constitutiva do discurso.
mzam numa . •t·1cante , portanto ' só gan a sen .t·d
se h i o ao ser preso senta o Sujeito (e não o objeto) ocupa um lugar privilegiado e que
o sigm . .na . a cadeia dos significantes constituídos (S 2 , S 3 , S 4 etc.) representa
. d significantes. Não há relação simples entre sigmfi-
cade1a •os ·t·icado O que representa o s1gm;1can · ;./',· t e e' um su1e1to,
· · (com a abreviação Si) o sistema já organizado, constituído como
cante e sigm ntação · do sujeito só toma consis · d o 1ugar que
· t,..encia discurso capitalizável em saber.
e esta represe . , · ·t· .. Quatro elementos são constitutivos do discurso: 5 1 • o sig-
· t outros representantes, isto e, outros s1gm icantes.
toma 1un o a . . nificante como tal , mas em sua necessária conexão com a
.. significante é o representante ~o Sujeito para um _outro
•0 •t· t " Esta formulação inclui a questão da enunciação, cadeia significante S2 e com o Sujeito S que ele representa. O
sigm ican e.
•t
d · · ·fi
a escolha do significante, da ca eia s1gm can e , mo 1-
t ct· próprio sujeito que não pode se inscrever senão em sua relação
vis o que • · t·tu· d com o objeto: objeto a. Entre si, estes elementos não estão numa
fica O modo de representação do sujeito, cons i m .º a cena
a representação e os elementos que habitam esta rel~ção qualquer. já que cada um se define em sua relação com
on d e se f·maz pudemos falar de "exame " em con t ex t os d.1f eren t es dois outros elementos. Assim se escreve suas relações recíprocas:
cena. Assi , .
que fazem dele, num caso, uma prova médica, e nout~o, u~rn
prova universitária. Somente o discu:so em que ele ~stá mcluido
lhe dará sua significação, e concluiremo~ desse discurso pelo
menos O seguinte: o sujeito que o enuncia está numa p~oble-
mática médica ou então universitária, mesmo se ele não diz em
nenhuma parte "Eu". Quanto a J .-P. Brisset_ fala~1do d~ ~xames:
ele decompõe a palavra em significantes mais primordiais e nós
concluimos que ele é um lógico · do sigm
· ·t·1can t e ... ou u m louco . . ·
Quando Lacan coloca a barra sobre o S que designa o SuJeito
(escrevendo então S) não faz apenas um deslocamento da barra
que estava primitivamente colocada sobre o signo e separava 0 ., . Ta.is si\o os ~uatro ele m ent os fundam e nta.is de tod o dis -
significante do significado. O Sujeito não é dividido npen~s por ~luso. o que p e rnute ca rnc te riza.r quatro disc ursos. dep e nde ndo
- ser no mesmo tempo sujeito do enunciado e sujeito da enunciaç:\o. e que um ou oufro destes elem entos do discurso tome primeiro
Ele está sobretudo numa dupla relação: por um lado , umn r~\açi\o ~~\~~ar em ~orno ~o qual.º~ ~1ulros trê~ elementos se organiz nrn .
com a cadeia significante, por outro . uma relac;i\o com o ob.1 elll. l' :r ~ rn ·. he m e t~tendtdo , nrhftcrn\ e abusivo quer~r ide niifü::ur h'ldt1
nbjeto entendido nàCl segundo a trndiçàll filosófica. conw npl)Slll. e tscuiso efetwamente pronunciado n um desses quatro dis -
1
JEAN CLA VREUL
168 d ·
, 1. só tem interesse para es1gnar os pólos de
( A ORDEM Ml'.::DICA 169

cursos, e sua .ana_iseaos quais to d o d"1scurso e, puxa d o. São mo l_


de que o médico conheça uma ordem articulada desses signos.
atração em di~eçao hum discurso que existe pode .ser rigorosa. ou pelo menos que suponha que têm uma ordem possív~l.- ~eco-
q uais nen t t ' l -
delos aos . . d Convém portan o , orna- os enquanto refe lhendo o máximo desses signos , o médico p ostula a poss1b1hdade
t identifica o. ' , l , . -
men e item facilitar, tornar poss1ve , a anahse dos dis- de agrupá-los , de colocá-los em ordem. Isto é , ele vis~ ordená-l~s
rências q~e permfunção da preeminência de fato deste ou daqueI numa cadeia significante. Graças à existência do discurso me-
os· nao em d . , d e
curs · t mpouco em função e um Jmzo e valor que nos dico ele constitui os signos (indícios) em significantes , e de sua
d·1scurso
. ª
'· e m deles como o mo d e l o 1· d ea1 d e t o d o discurso
· a ser orde~ação ele extrai uma significação, que é a exist~ncia de uma

manti o. d
nenhum dentre eles ~o?en_ ~ se man ~r
t
:e~
fana ~dropAor0 :ontrário, é preciso assinalar sua interdependência
· t"'
a, exis ~ncia dos
outros três. o lugar pnvdegia o que , e~ r~ a~ o, e p~eciso dar ao
'
doença. A etapa do diagnóstico é um ato de mestna.
A audácia de tal ato nos escapa porque é quotidiana . e
também porque a audácia é de algum modo abal_izad~ pel_a
discurso do mestre se d;ve a~enas_ ao a ? ~f- que e o di~curso existência de quantidade de atos semelhantes. Ela e mais evi-
. . aquele que da a pnmaz1a ao s1gm 1cante S 1 , isto é dente quando o médico se dedica a recolher signos ~ara uma
pnmeiro, • O t 1 · · ' doença ainda não identificada, uma vez que o conJ_u~ to do~
ue é constitutivo de todo discurso. ou ro ugar privilegiado
aobeq ao discurso ps1cana· l't"
1 1co, como levan d o em con t a pnmei- · signos recolhidos deve conduzir a uma interpretação ongmal. So
ca ,, 1 d
- mente O objeto "a como ugar o gozo enquan o que O dis- t que esse ato de descoberta se torna muito mais fácil pelo fato de
ra
curso do mestre nada pode art1cu · 1ar so b re 1s
· t o. que se sabe que ta:l empreendimento é possível, uma vez que já
foi realizado por outros médicos para outras doenças. O que
1?) O discurso do mestre* é o discurso primeiro. Ê dele que permite ao pesquisador ousar realizar o ato de mestria não é
somente o saber constituído, já repertoriado, mas o fato de que
0 discurso médico está mais próximo. 2 Sem ele, o signo não seria
tal empreendimento já foi tentado, e com êxito, em resumo , que
senão sinal, portador de informação sem dúvida, mas não ace- um discurso médico é possível.
deria à significação. Constituindo o signo (ou indício) em signi-
A constituição do significante como tal (S 1 ) é , pois , o que
ficante, ele o ordena com outros significantes (isto é, outros sin-
especifica o discurso do mestre. Ela implica a referência à cadeia
tomas levados à classe de significantes) e permite que emerja a
significante (S 2) que contribui para constituir e que prolonga ,
significação. o que se escreve S 1 _ : S 2 •
Os signos** são portadores de uma informação sobre a
O que assina o êxito do discurso do mestre é que ele advém
doença. Mas esta informação nem mesmo mereceria este nome da subjetividade do autor. A pretensa objetividade do cientista é
se não houvesse alguém para recolhê-la. Um signo de ausculta , a retirada da subjetividade do autor. O que significa não que a
por exemplo, e mais ainda um signo paraclínico não informam subjetividade não esteja aí, mas que ela não tem nenhuma
nada nem ninguém .. . até que o médico possa fazer alguma coisa importância para a inteligibilidade do texto, que não deve ter seu
com ele. Ele só se torna informação porque o médico o coloca em alcance significante senão de sua própria coerência. Para falar
relação com outros signos, cujo conjunto constitui uma sín- do papel do autor do discurso do mestre fica-se satisfeito com um
drome, a qual pode, por sua vez, ser atribuída a uma doença. conceito vago: desejo de saber, desejo de curar , gênio ... em
O que importa aqui não é portanto o "olhar médico". mas o fat o resumo , não se falará a respeito. O mistério das origens permite
lançar o manto de Noé sobre o que é apenas inútil estorvo.
Contentamo-nos em explicar pelo anedótico: a lei da gravitação
(•) Maítre em francês : mestre senhor dono patrão. (N . do T .) pela_ maçã d~ N~wton, e não pela leitura de Kepler , onde estava
(••) E ' ' ' . , . escrita_; a maquma a vapor pela marmita de Papin e não pelas
, . mbora em português se utilize a palavra sinal (sinais cltmcos,
paraclímcos
. etc ) m t · . •
· , an 1vemos a tradução de signo para "s,gn e " d ev1 o à dife-
·d ne~ess1dades da sociedade industrial etc. O discurso do mestre
renc1ação fei ta pelo autor entre signo e sinal. (N. do T .) reti~a _s':1a força do fato de se sustenta r independentemente da
(2) Allouch Jo ' d ,- 'E. / 1972
' urnees e l Eco/e Freudienn e, /ettres de l co e, · subJetiv1dade daquele que o anuncia , como daquele que o es-
JEAN CLA VREUL
A ORDEM MÉDICA 171
170
- de Galileu e a retratação deste são sem
na universidade, onde se ensina o saber coletado junto aos
cuta. A c~ nd enaçao ue é enunciado: o aforismo "A terra gira"
mestres. Na universidade são os professores que lêem os mestres,
importância para odqadeiro. A retirada da subjetividade no dis-
- f a menos ver a b ou supostamente o fazem. Na maioria das vezes, eles próprios só
nao tc t se escreve colocando o D so a barra, para lêem documentos de segunda mão. Os próprios estudantes não o
curso do mes tJ·eito não está no discurso manifesto:
mostrar que O u fazem, ou se são convidados a fazê-lo, é para recolher o que, do
produto do trabalho do mestre, pôde ser negligenciado pelos
~-
s comentadores e relatores. A função da universidade é a de reco-
lher e transmitir o saber, compreendido como informação orga-
último ponto: o produto do discurs~ do mestre é a _consti- nizada, capitalizada, cumulativa .
. - de um objeto: a doença, como vimos, para o discurso Não é uma questão secundária a transmissão desse saber,
tu1çao d b' t .. ,,
médico. o objeto vem ocupa_r o 1ug~r o o Je o a como lugar destinado a ser retransmitido apenas parcialmente e após ter so-
do desconhecido do desejo. E por ai que se ~stabelece o gozo do frido necessariamente uma degradação. A universidade luta
ual O discurso científico é portador na medida em que constitui contra o que é uma entropia do saber, no sentido que se fala de
~ma ordem graças à qual o objeto aparece . Bachelard não uma entropia da energia. A pedagogia se dedica a reduzi-la; nem
deixou de notar sua incidência. O objeto só aparece, entretanto, por isso ela é menos, em seu princípio mesmo, inelutável, como o
enquanto subsumido pelos significantes do discurso (nós o colo- é a entropia da energia. Ela se dedica a recolher e organizar os
significantes S2 S3 e S4 ... entre si, sem privilegiar nenhum deles,
caremos abaixo de S2: Sa;i ) · Aparecendo na ordem do discurso,
e só recolhendo um significante novo se este tomar lugar na
logo numa lei, ele desa~arece na sua :elação d_ireta co~ o Sujeito . ordem de um discurso constituído. De certo modo, a univer-
I \
g isto é, enquanto obJeto da fantasia: cc~ isso, o discurso do sidade constitui, portanto, obstáculo ao surgimento de signifi- ·
~estre está a serviço do recalcamento para o próprio mestre. O cantes novos se forem destruidores da ordem estabelecida. O
objeto "a" desaparece como causa do desejo reaparecendo como saber constituído constitui obstáculo à tomada em consideração
achado do discurso. Por isso Lacan pôde dizer: "O discurso do do que não se inscreve nesse saber. Ele compõe a tela que cativa
mestre é o único a tornar impossível esta espécie de articulação e captura o olhar sobre os fatos constituídos por ele, mas com a
que designamos alhures como a fantasia, na medida que é exclusão dos outros fatos que aí não se inscrevem. O que diz
relação do 'a' com a divisão do Sujeito" .3 Toda descoberta cien- Kuhn sobre as Sociedades Científicas como guardiãs dos para-
tífica (e o diagnóstico é uma delas) suprime a divisão do Sujeito. digmas constituídos visa o discurso universitário. S2 ocupando o
O desejo do médico por seu objeto é unificador ( dos médicos primeiro lugar, é sob a barra que deverá se colocar o significante
entre si, mas também do médico para consigo mesmo). mestre S,, uma vez que não é ele que é levado em consideração
A formulação completa do discurso do mestre se escreve como tal:
assim: S2
Si".
O saber considerado enquanto tal, e não em sua relação
com os significantes que o constituem, justifica-se por sua li-
2?) O discurso do universitário, como prolongamento obri- gação direta com os bens de gozo, e o gozo dos bens que o saber
gatório do discurso do mestre, privilegia a cadeia significante ~ 2, obtém. A ciência capitalizada em saber prolonga-se nos bens que
isto é, o discurso constituído como saber. É com ele que se hda obtém S2 - - ~ a. A universidade se prolonga nos técnicos e
bens de consumo que resultam do saber. Nós vimos que aí se
afundatoda discussão sobre os benefícios da ciência, na falta de
ter distinguido o discurso do mestre como produtor do saber e o
(3) Lacan, Se.mináriodell.3.1970.
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. ·t' . como detentor desse saber. O saber mé- eram os teólogos que detinham o discurso do saber sobre o
discurso u n 1vers1 ano · · pe 1as m
t·t 'ido se J·ushfica · d"icaç õ es terapêu- homem, eram eles que se viam interpelados pelas "possuídas".
nto cons 1 u ' •
dico, enqua . . essencial, sob a forma do medicamento que Os exorcismos tinham, sem dúvida, a mesma eficácia que nossos
ticas que for~~ce.,,no tratamentos médicos sobre as histéricas: imprevisível. O diabo se
, "medicina • "d ,
e uma , . •nteressante para se cons1 erar e o que produz metia nisso e muitas vezes era o exorcista que saía vencido do
0 que e mais i . . o· • -
1v1sao em re 1ação aos caso. Era pela possuída que, por sua vez, ele se fazia possuir .
0 saber cons
t ·t 'do·· a divisão do SuJe1to. o·ian t e d o saber ensi-
d . d1 ui pela ciência, como vimos. ·
Por que a histérica é uma mulher? Pela mesma razão que,
bens probuzi ostambém que o estudante está dividido , para seu do lado do saber, trata-se de um homem. A estatística constata,
do sa emas
na 't mo para O dos professores, que se espantam com que mas não explica. Sem dúvida a velha teoria do útero móvel que
espan
_ °
nao se prec
co i·pi·te mais sobre o que e 1es d-ao. T o d o sab er nos cons-
.
ocasiona toda espécie de doenças , chamadas histéricas, não é tão
. . di"vididos· o salmão não o sena se soubesse que má. Com esse útero escondido, nunca se sabe se ele não se evadiu
titu1 com 0 ' . _ , ·
d o para O lugar dos esponsa1s e da reproduçao, tambem para o lugar do corpo de que se queixa a histérica. Ao visível,
corren - d t
corre para sua morte? E o oen e que o sa er me 1co 1vtde_, b 'd" d" · revelado pelo homem ( de ciência), corresponde o visível de seu /

rando-o em seus dois elementos: o homem e a doença. E pênis. Ao invisível do útero corresponde a conivência da mulher
sepa
t bém a partir da ex1stenc1a . ,._ . d e um sa b er cons t·t 'd
1 m o que se com as forças obscuras. Já que testemunho vem de testes, o que
am
configura a posição da h"1s t'enca. · E screveremos a f'ormu 1a do pode "atestar" uma mulher que , por definição, não o tem? Pelo
discurso do universitário: menos é este o juízo que não pode deixar de fazer o homem do
saber.
Pois, o que faz a histérica nada mais é do que significar-se
ela mesma em sua subjetividade através dos sintomas que ocu-
pam o lugar S1 : g . S1 . Estes sintomas, que ela produz aos
3?) O discurso da histérica é o que coloca a divisão do Su- montes, têm um estatuto particular como significantes em rela-
jeito em primeiro lugar. Ê sob a for1:_1a da pa_t~logia ~ue nos ção à cadeia significante S2 S3 S4 na medida em que eles a
aparece de maneira exemplar a questao ?º
~uJ~1~0, ate o pre- solicitam; o saber se vê aí constantemente interrogado, sem por
sente enfiada sob as articulações da cadeia s1gmf1cante, cnada isso constituir a ligação articulada ( entre S 1 e S 2 ) pela qual se
pelo discurso do mestre, ao nível do significante mestre, capita- constitui o discurso do mestre. As histéricas são teóricas. O que
lizada como um bem e um benefício, como saber no discurso podemos compreender em diversos níveis: no sentido em que
universitário. O discurso médico é, com efeito, o discurso cientí- uma conversão somática coloca um problema teórico. No sen-
fico típico, e é ele que tem a incidência mais certa sobre a vida tido, também, em que Freud fala das teorias sexuais da criança
quotidiana. Por toda parte onde ele se desenvolveu e desde suas que as histéricas ressaltam. No sentido em que Lacan fala da
origens , a histeria foi reconhecida, e pelo que ela é em relação ao situaçãO"'Ílistérica em que está colocado fazendo seu seminário.
saber médico: isto é, o que pode se assemelhar a todas as No sentido, enfim, em que Kepler estuda paralelamente a astro-
~ doenças sem nunca ser uma delas e que, por esse fato, escapa ao nomia e o sonho, mostrando com isso que não quer desconhecer
saber constituído; o que reage mais estranhamente aos benefí- o lugar da subjetividade do cientista. O lugar da histérica é
cios desse saber, todo tratamento podendo curá-la milagrosa- a~uele em que o destino de seu discurso é mais problemático. Ele
mente, enquanto que alhures o saber, os tratamentos mais expe- visa produzir saber, constituir uma cadeia significante, por isso o
rimentados fracassam completamente. Seu polimorfismo ex- colocamos sob S 1 :
tremo lhe confere sua unidade: os sintomas não remetem ao
discurso médico, mas ao próprio sujeito.
, _Assinalemos que é em virtude da prevalência do discurso
medico que a histérica se apresenta como "doente"! Mas quando
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174
d 'tido como tal, seu discurso é consi- falam a mesma língua. Assim, S 2, o saber sobre o objeto maçã
mas , na falta de serª 1:~endo-a a ela mesma, a sua subjetivi- tal como pode ser conhecido pelo discurso científico, deve ser
derado apenas como remsa fogueira onde também se encontram posto de lado, e mesmo o saber sobre o mito da maçã, se qui-
d d a sua loucura, a es .
ª e, .,.. ia ou pelo menos seus hvros. sermos conhecer a fantasia pessoal de Jack e Jill. S 2 será colo-
os homens de cienfc '~ao mesma da emergência dos significantes cado sob a barra:
Resta que a unç b'
f - ascarar sua fantasia, sua relação com o o Jeto a
tem por ~nçao m fo' rmula do discurso histérico, é sob a barra,
"a". Por isso, na s;·
abaixo de S1, que o colocaremos:
Da colocação do "a" em primeiro lugar resulta a produção
g S1 de S1 como significante em sua relação com S. Nós o escre-
a-----'7Si° · veremos sob a barra, pois aí são localizáveis como representando
· 4º) o discurso do analista, vindo por último, é o único que 0 Sujeito em sua divisão. A fórmula do discurso do analista se
forne~e articulações em que esse desejo se inscreve. E~e coloca escreve:
em primeiro lugar o objeto "a", situando-o em;.u:. reh:çao com o a
Sujeito S: a - - - 7 S. Longe de ser uma o ~e 1v~~ao,, e Pb~r- S2
t to ao contrário de uma psicologização, a ps1cana11se e su Je-
t~:ante mostrando a função estrutural da fal\tasia na relação A partir destas formulações sobre os quatro discursos, eu
entreoSujeitoeoobjeto"a"(S? a~. , . . _ não queria deixar de assinalar que a posição pessoal do médico
-~ . o objeto "a" é o objeto pr~me1ro e ultimo do deseJo. E o procede ner.essariamente de cada um deles. No essencial, ele é
objeto perdido, aquele de que ate mesmo a lembra~ça se ap~ga. discurso do mestre, no estabelecimento do diagnóstico e do
A lei não diz apenas que não se deve gozar do obJeto pro1b1do, prognóstico, na pesquisa, na sua constante posição de conquista
não se deve nem mesmo desejá-lo, isto é, con!1~cê-lo, ne_m :des:- em relação ao desconhecido da doença. Ele é também discurso
jar conhecê-lo. A interdição, desviando o SuJe1~0 do obJeto pn- universitário, quando, a partir do saber constituído da medicina,
meiro de seu desejo, o pressiona a fazer o desv_10 da pro~ur~ de oferece a terapêutica como um benefício que restitui ao doente.
' qualquer objeto, o qual assume valor de obJeto subs~itutivo. Isto constitui no essencial o discurso médico propriamente dito,
Freud mostrou como a renúncia à mãe ausente se obtem pelo o qual oscila continuamente de um a outro, do discurso do
jogo da substituição do carretel e das palavras "Fort-Da" ao mestre ao discurso universitário.
desaparecimento do objeto amado. O carretel, ou a_s p~lavras, ou No entanto, o médico não deixa de estar situado na posição
qualquer outro objeto, pode assim ocupar trans1tonamente o histérica. O que enfatizamos para o mestre do discurso nos
lugar do objeto " a". Não é sua realidade que lhe f~z o preço em mostra que ele não pode desdenhar de ter de se significar a si
, relação ao Sujeito, mas a possibilidade de se articular em sua mesmo, isto é , como médico. E o "titular", chamado a repre-
fantasia. . . sentar o homem que encarna o saber diante dos outros estu-
Para devolver a fantasia a sua função, é preciso destitmr dantes e dos outros médicos, deve também se significar como tal
o objeto do saber do qual é constituído pelo discurso do mestre. numa atividade que não se limita à pura prestância. Pois não é
Ê o que esbocei no capítulo 2 em relação à ma~ã. Para q~e dando representação de sua fantasia que ele se imporia à estima
possamos valorizar sua função como puro logro no Jogo ent~e Jill que deve dar de si mesmo. Com isso , assegura-se a produção de
e Jack, é preciso inicialmente demonstrar seu pouco de reahdade significantes novos, dos quais alguns serão inscritíveis no dis-
como alimento, o que deixa aparecer sua importância tanto num curso médico.
quanto no outro protagonista, em função do que podemos supor Enfim, não poderíamos desconhecer que o médico pode ser
de suas fantasias e de sua relação a um fundo cultural comum levado pessoalmente a adivinhar que seu doente tem outra coisa
que não é muito ousado supor, visto que já supomos que eles em mente do que se oferecer ao discurso médico , o que o condu-
JEAN CLA VREUL
176
. , t a's vezes uma escuta de seu doente que não visa
z1ra a er, , . l d . , d
.mtro d uz1-• lo neste discurso. Mas msso
, e. e e1xara e ser médico ,
- quer dizer que ele sera por isso capaz de sustentar a
o que na 0 . t~ d
. - do psicanalista. Que e1e seJa, en ao, 1eva o a renunciar a
pos1çao , f .t . , , d 12
medicalizar a demanda que lhe e e1 a Ja e ar prova de uma rara
audácia. Clínica médica
e clínica psicanalítica

Geralmente, considera-se que a clínica psicanalítica se dis-


tingue da clínica médica pelo fato de não se dirigir a uma mesma
categoria de "doentes", de modo que o único interesse do con-
fronto das duas clínicas consiste em colocar convenientemente os
critérios de discriminação entre as duas categorias de doentes,
a fim de decidir uma orientação terapêutica. Isto reduz o pro-
blema àquele clássico e rotineiro em medicina, o da determi-
nação da oportunidade de intervenção deste ou daquele espe-
cialista médico para um sintoma apresentado por um doente.
Por exemplo, um distúrbio da visão pode depender do oftalmo-
logista, mas também do neurologista ou do endocrinologista, do
diabetologista etc. Há um problema inicial de orientação de
diagnóstico e não seria conveniente que um simples oculista,
ignorante de medicina porque não é diplomado, se metesse a
colocar óculos em alguém acometido de uma afecção ocular,
neurológica ou outra. Do mesmo modo, o doente deve consultar
um médico oftalmologista, o qual empreenderá, ele mesmo,
um tratamento ou o encaminhará, se necessário, para um outro
médico especialista, ou ainda para um oculista que lhe fornecerá
óculos.
Em relação à ordem médica, o estatuto do psicanalista é
semelhante ao do oculista. Estatuto que pende para o lado do
oftalmologista, se ele for médico; para o do oculista, se ele não
JEAN CLA VREUL A ORDEM M'ÊDICA 179
178
, . nte O corpo médico que lhe impõe tal esta. dindo-o de recorrer ao médico. Isto não se produziria se os mé-
for. Nª-o e umcame
, . psicanalistas, na fa lt a de i'den t'f'
i icar o que dicos não estivessem tão freqüentemente persuadidos de que
tutº· .Os. propnos , . d' d
ori inalidade de seu propno i_scurso e e sua clínica
1 ma cura psicanalítica é uma empreitada longa, misteriosa,
con sti: ; à ~edicina, se deixaram confmar nesta alternativa. u0 nerosa e suspeita de charlatanismo.
0
em re ç _ nfrentaram o ridículo reclamando publicamente Esta suspeita não é sem fundamento , pois o médico não
Mpm~e · '
• Bonaparte, que lhes fosse concedido um estatuto nhece da psicanálise senão sua ideologia, ou melhor, seu mito,
como M,ane t· t d t . ?
1ao dos cirurgiões-den is as e as par eiras. Esta si-
comparave - , 'd d ~~fundido
1 pelo número considerável daqueles que , como diz A.
- bordi'nada , mesmo se nao e consi. ,.. era
. a como menor , ssi·er "não têm pressa em nada mais senão ( ... ) uma vez
tu açao su Lu ' sua· formação (. .. ) se af as tar da ps1cana
. ' 1·1se " ,1 para
não é aceitável porque não põe ~m evidencia o fato de que a ·nada
psicanálise instaura um outro discurso, portanto, uma outra term1 ar ao exercício da ps1qma
. . t na,. ou da me d'1cma . d't .
1 a ps1cos-
t Orn
re 'tica podemos acrescentar. Invocan do o "f a tor ps1qmco ' · "
clínica. soma , , . " ,.. . , t· " d
Na prática, os médicos proclamam de bom grado que é ada doença somatica e a comp 1acenc1a soma 1ca em ca a
escandaloso que um analista deite em seu divã um doente aco- em crose praticam-se assim . arrisca. dos brico . l ages em que o ec1e-
metido de tumor cerebral ou de sífilis nervosa, que justificariam nt_eu O te~apêutico ocupa lugar de doutrina numa total confusão
um tratamento apropriado. Ao que os psicanalistas retrucam tism, rica. Não nos cabe demorarmos so b re t a1 " me d'1cma · " que,
que O número de neuróticos e de histéricos submetidos a inter- ~~- 0 pretexto de encarregar-se do "homem total" , de fato só
venções médicas e cirúrgicas inapropriadas é muito mais impor-
tante e que as conseqüências de tais erros não são menos temí-
! nde a constituir o médico em homem-orquestra. Sob a apa-
eência de um militantismo terapeu t'1co, e1a so, serve para o re-
A

veis ~esmo no plano vital, pois um neurótico pode ficar deses- ~orno a uma prática médica e psn.miátrica tradicional daqueles
per~do com o fato de sua demanda não ser ouvida lá onde deve que assim ganham dinheiro com uma furtiva_viagemjun~o a uma
ser e pode ser conduzido a soluções desesperadas. disciplina psicanalítica, rapidamente esquecida ou desviada. Os
Tais acusações dependem de uma certa má fé recíproca, lugares onde, em princípio, médicos e psicanalista~ se encon-
pois, na maioria das vezes, não é ao psicanalista que convém tram são sem dúvida, aqueles onde tudo pode ser dito, porque
imputar a alegação de "causas psíquicas" para os sintomas de são sem 'possibilidade de rigor. Na melhor das hipót~ses, ~ão
um doente. É o próprio médico, ou a família, que recorre de bom lugares de transição onde se afirmam ~ocações; na p10~, pan-
grado a esse diagnóstico etiológico muito cômodo, que só é esta- tanos onde se afundam veleidades. O simples desenvolvimento
belecido em razão da exasperação que a persistência das queixas do conceito de epistemossomática, dado por Lacan, permitiria
obtém, enquanto que o diagnóstico propriamente médico não foi sair desta divisão entre psyché e soma , que o hífen de "psico-
feito . Acontece, assim, de um doente ser engajado pelo seu somático" acaba de separar.
médico numa psicoterapia improvisada, associada a uma qui- Além dos comprometimentos indecisos ou interessados,
mioterapia, ou mesmo enviado ao psicanalista, como o teriam existe a grande incerteza doutrinária dos próprios psicanalistas
enviado ao curandeiro, em desespero de causa, mas sem que no que diz respeito à medicina. Freud só se afastou pouco .ª
exames elementares tenham sido praticados. Haveria algum pouco do vocabulário médico, afirmando, ao mesmo tempo, di-
abuso, nesse caso, em atribuir à psicanálise a responsabilidade versas vezes, que a psicanálise não fazia , propriamente fala?~º •
da atitude demissionária de certos médicos muito apressados. apelo a conhecimentos médicos; do mesmo modo sua pratica
Ao contrário, a multiplicação abusiva dos exames paraclí- devia ser autorizada a não-médicos. Ele escreveu igualmente:
nicos , dos tratamentos médicos e cirúrgicos nos neuróticos de- "A psicanálise, nos seus inícios, foi apenas um método terapêu-
pende muitas vezes menos da incompetência do médico que de
sua crença (mais ingênua que interessada) de que os efeitos
psicoterapêuticos de um confronto do neurótico com "realida- (1) A. Lussier, "evaluation des candidats à la promotion psychanaly-
des" deveriam acabar tranqüilizando-o ou, pelo menos, dissua- tique", inÉtudesfreudiennes, 1-2, 1969, p. 98.
JEAN CLA VREUL
180
A ORDEM MÊDICA 181
tico mas eu gostaria que o interesse dos senhores não recaísse
excl~sivamente sobre esta utilização, mas também sobre as ver- em causa, _tan_t~ em _sua relação com os poderes públicos t
nas curas md1V1dua1s. quan o
dades que encerra nossa ciência, sobre as conclusões que ela
permite tirar a propósito do que toca o homem mais de perto: Pela psicanálise, é a noção mesma de psicoterapi'a
'd A h' que se
ac h a su b ver t 1 a. 1pnose e a sugestão estavam em conf ·_
seu próprio ser, enfim, sobre as relações que ela descobre entre . t d' , . lilUl
as mais variadas formas da atividade humana" .2 da de dir~ a com o 1scurso medico no sentido de que O médico
aí, mantmha o comando sobre as idéias justas que O doente devi~
Mas, em larga medida, se continua a considerar que O que
ter - no lugar de suas próprias - para que desaparecesse a
constitui o campo _freu,d~ano é uma extensão interessante, mas
neurose. Bastava apenas triunfar sobre suas "contra-sugestões" .
facultativa , da ps1canahse, permanecendo como sua vocação
Sem dúvida, alguns " analistas" só fizeram retomar esta posição,
essencial a cura das neuroses e também de algumas "doenças" considerando que seu papel era dar ao paciente a justa teoria de
mentais ou não. O estatuto do psicanalista não-médico continua sua organização libidinal e que sua função era triunfar sobre as
menor nas instituições psiquiátricas e psicopedagógicas, onde ele "resistências" que lhes eram opostas: no que eles não fizeram
trabalha sob a responsabilidade de um médico e sob a ameaça de senão propor um endoutrinamento mais sutil. Mas a teoria
que um regulamento administrativo venha pôr fim ao que é psicanalítica não é um corpo doutrinal que seria conveniente
apenas uma tolerância, aliás, subpaga. Quando as autoridades ensinar; ela é o conjunto de referências que permitem ao analista
se opõem, como foi o caso no momento da fundação da Socie- ouvir seu paciente. Do que este sofre é de não poder dizer o que
dade Psicanalítica Portuguesa, os analistas não-médicos são ex- tem a dizer, é de não " representar" suas pulsões a não ser sob a
cluídos. forma desconhecível de seus sintomas. A interpretação do psica-
É verdade que não se trata aí de submissão unicamente ao nalista não é, pois, a enunciação da justa doutrina, mas a pon-
poder médico. As sociedades psicanalíticas resistem muito pouco tuação dos cruzamentos significantes onde se detém e se desvia a
ao poder público: os judeus não foram afastados da sociedade enunciação do desejo do paciente.
, psicanalítica alemã no tempo do nazismo? Podemos nos per- Paralelamente, é também a noção de doença mental que é
guntar para que serve uma Sociedade Psicanalítica Internacional subvertida; O médico continua a ter e não pode ter a seu respeito
se não é capaz de fazer respeitar uma decência elementar e se se outra fórmula a propor senão fazer um diagnóstico de elimi-
presta a ser apenas uma correia de transmissão dos poderes nação. No século XIX, as doenças mentais eram classificadas ao
, públicos, como também o faz a Ordem dos médicos. Estes não lado das "febres essenciais" como não correspondendo a ne-
são acontecimentos anedóticos sem importância que podemos nhuma lesão anatomopatológica visível. Mais tarde, no tempo de
fingir acreditar que não se reproduzirão. Os psicanalistas per- Charcot e Babinski, a histeria era inicialmente um diagnóstico
dem toda possibilidade de resistir aos poderes quando teorizam de eliminação com relação aos acometimentos neurológicos . ·
como critério de normalidade a adaptação à sociedade. Precipi- Ainda hoje, a medicina nada mais tem a dizer a seu respeito,
tando-se em aceitar a cadeira extra que oferece o Establishment, tendo fracassado todas as tentativas de descobrir, ao nível tis-
sobretudo médico, mas também universitário, os psicanalistas sular, celular ou molecular, uma etiologia das doenças mentais,
adquirem sem dúvida algumas vantagens imediatas, mas perdem apesar da esperança nascida a partir de descobertas sobre doen-
aí o que constitui sua vocação própria. Assim, seguem a in~li- ças muito particulares, como a paralisia geral, a idiotia fenil-
nação do discreto retorno à ordem médica e universitária. E o pirúvica ou o mongolismo. Definindo as doenças mentais pelo
princípio mesmo da função superegóica de uma ordem à qual fato de apresentarem sintomas sem causa localizável no discurso
seria necessário se curvar e se adaptar que a psicanálise coloca médico, a medicina as rejeita para o registro de um imaginário
que se opõe ao "real"; o real tal como o pensam os médicos .
Assim concebido, o imaginário não é nada mais que a inexis-
tência, absolutamente nada. A resposta "você não tem nada" do
(2) Freud, Nouve/les conférences. Éclaircissements, applications, orien· médico ao " funcional", à histérica, ao fóbico etc., significa a
tations.
JEAN CLA VREUL
182 A ORDEM MÉDICA 183
. . t"enc1a
mex1s • destes sintomas no discurso médico, e finalmente a
doente cujo diagnóstico não sabia como fazer. Ele parecia ter
. i·ste"ncia do consultante como tal.
mex . 1· t ·t uma grave doença orgânica da medula espinhal , mas eu não
Não é admissível pa~a .º p~icana is ~ acei _ar as neuroses
diagnóstico de ehmmaçao a partir do discurso médico estava certo disso. Era tentador um diagnóstico de neurose, que
com O Um f . , teria posto fim a todas as dificuldades, mas o doente rejeitava
e em particular pratic~r. ou aze~ com q~e ~e~am p_raticados
nitidamente qualquer anamnese sexual, e não posso admitir
exames clínicos e parachmcos destmados a Justificar a mdicação
neurose sem esta espécie de antecedente. No meu embaraço,
da cura psicanalítica. Além mesmo do fato de tal empresa inau- chamei para ajudar-me um médico pelo qual tenho o maior res-
gural ter todas as cha~ces de constitui; ~m empecilho conside- peito e perante cuja autoridade inclino-me de bom grado. Expli-
rável e talvez insuperavel, para a anahse a ser empreendida quei-lhe minhas dúvidas, ele as achou justificadas e disse em
ela i~stitui o psicanalista numa posição médica que é demissio~ seguida: 'Continue a observar seu doente, você verá que se trata
nária em relação à disciplina propriamente psicanalítica. de uma neurose'. Como sabia que ele não partilhava de minha
Desde a publicação do caso Dora,3 Freud dá um impressio- opinião sobre a etiologia sexual das neuroses, calei-me, mas não
nante exemplo do que pode a clínica psicanalítica no estabele- escondi minha incredulidade. Alguns dias depois , disse ao
cimento de um diagnóstico: "Um outro médico me enviou certa doente que nada poderia fazer por ele e aconselhei-o a procurar
vez sua irmã para·tratamento psicoterapêutico, a qual tinha sido outro médico. Então, para minha grande surpresa, ele se des-
durante anos tratada sem êxito de histeria (algias e marcha culpou por ter me mentido, tivera muita vergonha; revelou-me a
anormal). O breve relato que me fez pareceu-me bastante com- etiologia sexual que eu procurara e da qual necessitava para
patível com o diagnóstico. Em minha primeira sessão com a admitir a neurose. Isso foi um alívio para mim, mas ao mesmo
paciente levei-a a contar ela mesma sua história. Quando a tempo me envergonhou; tive de confessar que meu colega vira
história saiu perfeitamente clara e encadeada, apesar dos notá- mais claramente que eu. Resolvi dizer-lhe quando o revisse que
veis acontecimentos particulares a que aludia, eu disse a mim ele tinha razão e que eu estava errado" .4
mesmo que o caso não podia ser de histeria ... ". Assim, foi sobre a Está claro que, para Freud, o diagnóstico de neurose não
ausência de distúrbio da rememoração que Freud fez seu diag- poderia ser colocado como um diagnóstico de eliminação e que,
nóstico, que é então aqui um diagnóstico de eliminação a partir ao contrário, é indispensável colocá-lo a partir de indicações que
da teoria psicanalítica. A possibilidade que sua doente tinha de repousam sobre o que a teoria psicanalítica nos permite conhecer
fazer um relato circunstanciado de sua vida sexual lhe parecia das neuroses. Hoje, os psicanalistas se confrontam com proble-
um fato tão seguro para eliminar o diagnóstico de histeria quanto mas análogos. Tive a oportunidade de conhecer a história de
pode ser para um médico a constatação de um funcionamento uma mulher acometida por um estado depressivo acompanhado
fisiológico normal. Ele igualmente acrescenta: " ... e imediata- de insônias e vertigens. O eminente neurologista que consultou
mente procedi a um cuidadoso exame físico. Isto levou ao dia- estimou, após tê-Ia examinado cuidadosamente no plano neuro-
gnóstico de um estágio não muito avançado de Tabes, que foi lógico, que se tratava de manifestações histéricas e a ac_onselhou
mais tarde tratado por meio de injeções de Hg (01. cinereum) a voltar a ver o psicanalista que a havia acompanhado durante
pelo professor Lang· com resultados acentuadamente benéficos''. muitos anos. Este afirmou, ao contrário, que os distúrbios apre-
A clínica psicanalítica permite sobretudo estabelecer um sentados pela doente não podiam ser atribuídos à sua neurose,
diagnóstico positivo. Tomo ainda emprestadas de Freud as li- porque eram incompatíveis com o que ele podia conhecer de sua
nhas seguintes: "Pouco tempo antes do fim do ano, tinha um estrutura. Poucas semanas depois, apareceram sinais de tumor
cerebral, que não tinham sido objetiváveis durante os primeiros
exames, sem dúvida devido ao aumento da vigilância da doente
. (3) Freud, Cinq psychanalyses, PUF, p. 99, nota 1. (Fragmento da aná ·
hsede · Ed1çãoSta11dard
. um caso de h1steria,
' · Brasileira, vol. VII, Imago, R'10 de
Janeiro, 1972, p. 15, nota 1. (N. do T.)) (4) Freud, lnterprétation des rêves , PUF, p. 260.
JIJAN n .A Vl{l•:UL 185
A ORDEM MfDICA

lh1t·i, n te u tuns1il t n. U tn11 rúpidu o futnl evolução veio infeliz- critérios médicos que só ele conhece, e se empenha em fazer com
m~n lt' '-''' 11 flt·tnn r o qu o o psicanalista teve meios de solucion que essa decisão seja aceita, mesmo que para tanto tenha de
nt1tl,s tln 11011ruln~dst 11 • ar minimizar o risco da solução adotada (para não despertar a
. Nilo_ ó. Som dthidu. ,nos 1~1esmos termos que os psicanalistas angústia de seu paciente) e traçar um quadro sombrio do ~ue
fot mulu1 inm hoje os prmclptos enunciados p F d O d' ocorrerá se sua prescrição não for executada. Em nome do prm-
hírhi, • d 6 • or reu . s 1s-
,· , s 1.1 m om nu dus histéricas seriam colocados mais ex li- cípio de que o saber está no médico e a ignorância no doente, ele
1.:1tnmcnte cm rclni_~llo com n transfe A • D P se acha justificado para decidir enquanto mestre absoluto, não
1 • t e. • l[ • renc1a. o mesmo modo na
lls CJn11 e lllCí\ relutada nu Interpretação dos sonh d ', podendo ninguém duvidar de que ele sabe melhor que qualquer
mos lembn1 1. . F d os, po ena- outro qual é o bem de seu doente e de que ele não pode não
• .· _ u reu. qu~, segundo sua própria teoria, ele deve-
n _u cspenu qu~ u etiologia sexual não lhe fosse desvelada ime- desejar este bem. ,
dm
, tamente.
fe Dito de outra forma ' o erro de di'a gnos
, t·1co que e1e A clínica psiquiátrica não difere fundamentalmente da. eh-
con ssa com vergonl~a (n mesma vergonha que a de seu doente nica médica. Também aí ·o que importa é coletar o máximo
pan~ falar de sexualidade) só vem confirmar mais ainda sua possível de informações, que são obtidas _junto à fa~ília e à
teoria. uma ~ez que esta só considera a etiologia sexual como assistente social com tanto ou mais respeito do que Junto ao
estando na ongem da neurose se for acompanhada de distúrbios doente. Em grande parte, tal método depende do interrogatório
da re~1emoração ou de recusa de submeter os problemas da policial, o que não exclui nem os métodos de intimidação, nem a
sexuahdad:_ a~ exame proposto. Tudo isto já é tomado no jogo astúcia. Já se comparou o interrogatório psiquiátrico com as
da _tr_!lns_ferencia e da contra transferência. A amnésia de um ou a touradas em que o louco, como o touro, é esperado em certos
reticencia do outro são sintomas tão dignos de serem notados cruzamentos com reações previsíveis, investindo contra o que
~uanto os outros sintomas. Não se trata de vencê-los, mas de surgir de vermelho, e, assim, se oferecendo à estocada, ao tér-
mterpretã-los. A clínica psicanalítica começa aí, nas manifes- mino de um combate que não é nem mesmo duelo e cujo desfe-
tações transferenciais, que é o lugar onde se detém a clínica cho é previsível. Esses brilhantes combates atraíram numerosos
médica. espectadores e constituíram a glória dos grandes clínicos. Hoje,
Os médicos não ignoram, no entanto, que a ligação do a utilização do saber psicanalítico aí não é inútil. Ele permite
doente a seu médico tem uma importância muito grande nos pelo menos agitar um trapo vermelho a mais. Mas aqui a psica-
termos da "confiança", seja procurando favorecê-lo, seja frus- nálise é posta a serviço de um projeto que não é o seu, más
trando-o quando o doente, por temor, desconfiança ou pudor, médico. Só se trata aqui de justificar a prisão, pelo menos numa
esconde certos sintomas ou se recusa ao tratamento. Mas esta categoria nosológica preparada de antemão. É também um mé-
constatação s6 tem importância como elemento contingente, todo que tem seus limites. Nem todos os loucos são bons touros e
inessencial à prática médica propriamente dita. A evolução da a clínica psiquiátrica sempre sofreu do fato de que tudo nela
doença depende da observância dos ritos médicos, independen- estava centrado em torno do que constituía seu momento de
temente dos sentimentos conscientes ou inconscientes que o gl~ria: a ap~esentação de "belos doentes" pelo "titular", justa
doente tenha por seu médico. brilhante cuJo reflexo os jovens médicos se esforçavam em dar na
Do mesmo modo, a clínica médica se dá, com razão, o apresentação de doentes nos concursos. As pressões do espetá-
direito de transgredir tudo o que concerne às posições subjetivas culo privilegiam certos doentes e, em cada um deles, o que se
do médico e do doente. O médico se serve da confiança do doente oferece para ser visto. O espetáculo pode mesmo ser tornado ·
e dos que são próximos a este para obter o máximo possível de '?ais brilhante pela cumplicidade dos touros, dos quais também
informações e usa de sua autoridade para impor, tanto quanto e o momento de glória no terno universo asilar. O que se passa
puder, todos os exames clínicos e paraclínicos possíveis a fim de nui:ua consulta pública é necessariamente marcado pela auto-
estabelecer seu diagnóstico com a maior certeza e precisão possí- s~tisfa~ão que cada um tira dela, o clínico e o doente por terem
veis. Da mesma forma, decide o que convém fazer em função de sido brilhantes, os espectadores por terem sentido o calafrio da
r
JEAN CLA VREUL
-
187
186 A ORDEM MfDICA
. ºd d com a loucura e o sentimento de terem compreen-
prox1mi a e . porta nenhum juízo de valor, pois, do mesmo modo, um bri-
dido alguma coisa. . lhante êxito escolar, social ou profissional e mesmo uma " nor-
O que não ultrapassa as1luzes 1' .
da ribalta, não chega ao
. ., . malidade" sem falha podem constituir as fortalezas onde se re-
'bl. é menos conhecido pe a c mica psiqmatnca. Do mesmo
pu 1co, ,... d .d fugia uma subjetividade frágil. . . ., . .
q uase não se ve que o 1ouco apren e rapi amente O que A tradicional sintomatologia psiqmatnca, proveme~te do
mo d o,confessar de seu d e1'ino
· e o que d e 1e d eve " criticar"
.. em
d eve d . . t modelo médico, tem pouco peso em relação ao que ~os _impõe
· função do que quiser ?bt~r os psi~ma ras. Entret~nto, ele uma clínica que deve se fundamentar numa apre~iaçao dos
aprende isso como o dehnquente t~mb:~ aprende rapidamente "investimentos" do sujeito e de suas inserções numa vida pessoal
0 que interessa calar ou con_fessar a poh~ia. Sabe-se que tal jogo e social, que não podemos considerar ~ priori _q~e fornece um
/

existe mas só isso, quer dizer, na medida em que ele vem se modelo ao qual seria conveniente de sai~a o suJeito se _adaptar, ,,
inscre~er nas regras que a clínica psiquiátrica impõe. Para dar ao passo que ele está às vezes, se não mu~tas v_ezes, ~ais f'.und:1--
conta disso existem, certamente, termos apropriados: descon- mentado para combater. Não há lugar, mclumdo ai reah zaçao
fiança, dissimulação, autismo ... que são, igualmente, etiquetas de uma atividade científica ... ou psicanalítica que não deva ser
que se acrescentam à .ficha do doente. Assim, a clínica psiquiá- considerado eventualmente como um sintoma, defin ível co mo 0
trica não pode conhecer senão os lugares que ela própria cons- refúgio no qual o sujeito abriga e esquiva os impasses da orga-
tituiu como sendo aqueles onde sabe que o outro vem com a nização de suas fantasias. . .
maior boa vontade tropeçar. Lugares que são constituídos pelo Uma vez que, finalmente, tudo pode se constituir_ com_o
discurso dominante do qual o psiquiatra é o avisado porta-voz. sintoma, já que a psicopatologia da vida quotidiana deve mclutr
O lugar em que aparece o sintoma não é e não pode ser não somente os fracassos, os malogros identificados por Freud,

r
independente de seu encontro com o discurso do Outro, e isto é, mas do mesmo modo aquilo que é geralment e aceit o , senão valo-
evidentemente, tão mais verdadeiro quando nos dirigimos ao rizado, a partir do que o sintoma será localizável pelo psicana-
psicanalista do que quando falamos a,o médico ou ao psiquiatra, lista? Ê a "regra fundamental" que para o psicanalist a assim
uma vez que o Outro, aquele que Lacan escreve com um A como para o paciente constitui a medida em que se julga o
maiúsculo, contém o "tesouro dos significantes", isto é, também discurso daquele que o pronuncia: "Diga qualquer coisa, sem
o discurso dominante. O discurso analítico não deixa de refor- discriminação, tudo o que lhe vier ao espírito". Não se trat a aí de
çar, na medida em que está amplamente difundido, esse dis- um simples imperativo técnico. Regra que o sujeit o, em caso
curso dominante e, por esta razão, contribui para constituir uma algum, pode seguir como lhe foi ditada, como ele quer ou acre-
sintomatologia que seria, sem ele, localizável de modo inteira- dita poder fazê-lo. Ê como falta a esta regra que se manifesta o
mente diferente. Chamamos, assim, de .frigidez o que não era sintoma: isto é, como um silêncio, mesmo se for no ruidoso
senão pudor ou reserva feminina. Perturbações da vida sexual ou estouro de uma patologia espetacular ou sob a forma de uma
social, agrupadas outrora nas categorias da perversão, da delin- atuação em que a pulsão vem se enterrar. A regra fundamental,
qüência, da criminalidade, são interpretadas como sintomas que é aquela na qual o discurso toma a medida de seus próprios
pelos próprios interessados, independentemente de qualquer impasses, não é o fruto de uma reflexão teórica, mas o pro duto
coação, jurídica, social ou outra. A extensão da noção dos sin- das dificuldades que Freud encontrava com seus pacientes e das
tomas vai muito longe. Quando Lacan diz da greve que ela é um quais as duas citações fornecidas anteriormente dão apenas uma
sintoma, ou ainda: "A mulher é o sintoma", não se trata aí de visão rápida. Dificuldades sobre as quais se poderia dizer q ue se
simples fórmulas paradoxais destinadas a encerrar numa nova resumem nisto: o paciente, independentemente de sua boa ou
psicopatologia os avatares da vida sexual e social. Os fatos má vontade, não diz o que queria dizer, e diz o que não queria
ordinários e extraordinários da vida privada ou pública consti- dizer, isto é , seu discurso não é aquele qu e ele crê. Ê , pois,
t .
~-em, igualmente, lugares em que se pode interromper e conse- somente em função da persistência do discurso médico que a
quentemente se esconder o discurso de cada um. Isto não com- consulta junto ao psicanalista se faz segundo o modelo médico
r -- JEAN CLA VREUL
A ORDEM M~DICA 189
!88
. . E meração dos sintomas pelo consultante: inte _
tradicio_nal. . º:u menos sistemático a fim de fazer com q r tenta, não somente no decorrer das entrevistas preliminares, mas
atóno mais . t d . ue também durante a cura, a pesquisa do material recalcado , isto é ,
rog a sintomatologia que o pacien e po ena desconhece
apareça umr avaliação d a "força d o E u " , re fl exo muito . vago r não somente dos eventos que ocorreram na vida e particular-
ou d mente na primeira infância do paciente, mas sobretudo a evi-
. escon . eda' J. á vaga noçao - me, d'ica d e b oa sau, d e geral e d e
denciação de sua organização fantasística, numa permanência
impreciso d . . . e
cons t1·tu 1·ç-ao robusta ' permanecen o mais _ mcerta a avaliação da s que reata sua história a sua vida atual.
s de "cura", uma vez que esta nao pode de forma algum A clínica psicanalítica, pelo fato de estar centrada em torno
c h anc e d' . d . a
apreciada como em me icma, on e se caracteriza como 0 da possibilidade de empreender e prosseguir uma cura, coloca
se~orno ao estado anterior. Sob todos os planos, quer se trate de então em questão a demanda do paciente, já que é dela que
' ;:miologia, de diagnóstico, de pro~n.óstic?, de indicação tera- dependerá a todo momento o prosseguimento da cura. Escorado
pêutica, a retomada do modelo medico so pode se desviar da- pela enumeração 'de seus sintomas, de suas angústias , de suas
quilo que constitui a originalidade, a especificidade da clínica infelicidades, o desejo do paciente é ainda menos evidente, no
psicanalítica. · que concerne à sua cura, do que em medicina. A neurose é,
A "demanda" do paciente, que constitui apenas uma intro- segundo Freud, a solução mais "econômica" para os conflitos.
dução, nem mesmo necessária, jamais decisiva, para o estabe- Cabe , portanto, esperar que a neurose se defenda, "resista" à
lecimento da relação médica, toma um lugar preponderante na análise que recoloca em causa uma organização neurótica que só
relação analítica. Se não fosse assim, a avaliação do que é comporta aspectos negativos e penosos. Os mecanismos que
sintoma estaria na dependência do puro arbitrarismo, uma vez presidiram o recalcamento continua a funcionar na idade adulta
que qualquer coisa pode se constituir como sintoma, na medida tanto quanto na época em que seu papel foi determinante. A
que o ponto de apoio do discurso é marcado não somente pelos teoria, como a prática psicanalítica, não deixa supor que a cura
sintomas no sentido tradicional, mas também por aqueles - possa se desenrolar sem dificuldades.
inclusive o desejo de tornar-se psicanalista - que aparecem no O que constitui, pois, questão para o psicanalista é o que
decorrer das primeiras entrevistas, ou muito mais tarde durante determina alguém a consultá-lo. É notável, mas nada surpreen-
a análise. É da experiência corrente o fato de que, por mais dente depois do que vimos, que não sejam os trâmites médicos
atenta que tenha sido a investigação levada durante as entre- habituais que decidam na maioria das vezes as curas analíticas a
vistas preliminares para recolher os fatos sintomáticos, só mais serem empreendidas. Notável porque os médicos estão sobrecar-
tarde se descobre, durante o percurso, pedaços inteiros da vida regados desses neuróticos, psicossomáticos, funcionais e outros,
do paciente que conduzem a uma revisão da interpretação que se que lhes aborrecem porque pouco podem fazer por eles , e para
pôde dar, num primeiro momento, de sua organização estrutu- os quais a psicanálise oferece uma saída que, no plano da sinto-
ral: o que deve desviar o psicanalista de um interrogatório do matologia tradicional, é finalmente muito mais " eficaz" que a
tipo policial, que seria uma transposição do exame clínico do maior parte das especialidades médicas às quais os médicos não
tipo médico, e também incitá-lo a maior reserva quanto ao esta- hesitam em recorrer. Não é, entretanto, surpreendente que o
belecimento de um "diagnóstico" e de um "prognóstico" preci- recurso ao psicanalista geralmente se faça em último caso, depois
sos, no sentido em que ambos são entendidos em medicina, pois de todas as outras tentativas terem fracassado , e nas piores condi-
a cura psicanalítica que será eventualmente empreendida nada ções, algo como se aconselhássemos uma peregrinação a Lourdes
te~ a ver _com a aplicação de uma terapêutica na qual o psica- ou uma visita ao curandeiro. O psicanalista consultado nessas
nahsta sena o mestre-de-obras no plano técnico. O objetivo dado condições é uma espécie de mágico moderno , o qual permitimo-
por F~eud de se obter o levantamento da amnésia infantil não é, nos supor que possui receitas inexplicáveis , mas talvez eficazes.
propriamente falando, uma visão terapêutica sendo a "cura", Em tais condições, o consultante chega , portador de um discurso
ou melhor .~ dizendo
. , as mo d'f' -
i icaçoes · , !
smtomahcas e estrut ura1s,
· que não é de forma alguma o dele , mas aquele , ambíguo , do
um b ene1 zcw s up /ementar. E- a demanda do paciente que sus- médico, que só a contragosto se resigna diante desta confissão de
r
JEAN CLA VREUL
190 A ORDEM MÉDICA 191

ciência da qual é o porta-voz. O psicanalista 0


uma derro ta da ' . . , a afirmação de que ele não aspira senão a uma vida melhor que a
. . das vezes 1
ma10na , está situado na a ternahva
, de
. ter de acei·t ar que lhe é imposta. Conforta-se com o espetáculo de sua dor mais
1
uma s1·t uaça~o difícil: em que o consu tante e o, mtermediári
. ·o de facilmente, se não mais felizmente, que com as ambigüidades do
artida que é Jogada, de fato, entre o medico e a anális discurso que se pode sustentar a partir de sua posição subjetiva.
uma P . d t d . t e,
n ão O próprio analista, ou e er e ms aurar bases nova Aquele que vem se oferecer como espetáculo, ou se propor como
se l't' . d s
para O empreendimento ~na ,1 1co, co~ o ~isco ~ c~n~radizer seu objeto para a demonstração da suposta potência do analista, este
correspondente ... e de ahena-lo de st. P01s não e facll passar do só pode opor sua recusa de entrar no sistema neurótico consti-
discurso médico ao discurso analítico nem para o consUltante tuído. Esta recusa, isto é, seu silêncio, é o que permitirá à cura
nem sobretudo para o médico, quaisquer que sejam sua bo~ desenvolver-se.
vontade e sua abertura para uma disciplina que lhe é funda- A questão da transferência já está presente nas primeiras
mentalmente estranha. trocas de réplicas que constituem as entrevistas preliminares.
O que determina alguém a pedir uma análise é pouco loca- Analisando e analista aí se medem, tomam posição e avaliam se
lizável em função dos critérios médicos tradicionais. Tomamos se convêm um ao outro. As razões da tecnicidade de um, do
conhecimento assim de que é a morte de um próximo, o casa- interesse científico sobre o outro que prevalecem na consulta
mento de uma irmã, a entrada em análise de _um amigo, o acaso médica, não podem servir de álibi suficiente para a decisão de
de uma leitura ou mesmo o término dos estudos, se não for a uma cura psicanalítica a ser empreendida. Se o médico pode
resolução de uma situação conflitiva antiga, a cura de uma pretender calar seus sentimentos pessoais, se o doente pode as-
doença orgânica etc. que desencadearam a decisão. Determi- pirar apenas a encontrar o melhor especialista, não se pode ao
nada pessoa que, há muito tempo, pensava fazer uma análise contrário decidir a respeito desta coabitação que será pelo menos
mas "não acredita nisso", decide-se a empreendê-Ia no dia e~ uma psicanálise durante anos sem prever o modo pelo qual ela
que toma conhecimento de que seu marido não é o filho de seu terá início. Transferência e contratransferênciajá estão situadas,
pai legítimo! Outro, habituado há muito tempo a ser traído, se o que não significa amor ou confiança, mas sobretudo possibili-
não consentindo, pelo menos resignado, subitamente descobre dade de entrever que a partida não está decidida de antemão e
que a situação é intolerável lendo uma carta do amante de sua que seu interesse será mantido. Muitos elementos contingentes
mulher: ela está cheia de erros de ortografia, o que evidente- intervêm nesses primeiros encontros, os quais determinam a
mente não é suportável quando se é professor de letras! Pode- decisão da análise e também a escolha do analista. Eles não
ríamos multiplicar ao infinito os exemplos que o médico não concorrem necessariamente para a melhor escolha, nem para a
pode acolher a não ser como sendo da ordem do anedótico, do melhor decisão, a menos que se queira manter a ficção de uma
gozado, mas nos quais o psicanalista deve ver fatos em que se melhor cura psicanalítica possível.
revelam as falhas de uma estrutura. O consultante geralmente Pois a noção mesma de cura psicanalítica mais ou menos
não os adianta porque não espera que seja isto que será ouvido bem-sucedida deve igualmente ser retomada dentro de uma
em seu discurso, e também porque não pode fazer nada com problemática nova. Enquanto que o discurso médico é portador
isso. Insignificantes por enquanto, tais fatos só aparecerão como de uma norma (mesmo se esta norma está adaptada às possi-
s,i~nificantes e sintomáticos em relação a um discurso psicana- bilidades que o "doente" pode ter de aceder a ela), enquanto que
httco que resta instaurar. para o acesso a esta norma basta o "consentimento" do inte-
. A clínica psicanalítica passa muito menos que a clínica mé- ressado, a psicanálise, ao contrário, não poderia nem propor um
dtc~ pelo que é contabilizável nas categorias nosológicas que modelo ideal, nem sobretudo o impor, uma vez que o prossegui-
d~~me~ 0 pat?,lógico. O que ela leva em conta não é, entretanto, mento da cura não pode ser feito sem a participação ativa do
0
sofrimento do sujeito, enquanto estivesse identificado à dor analisando. Isto não exclui, é claro, que o discurso psicanalítico
que ele expe;imenta: a organização neurótica suporta a dor com não seja em si mesmo portador de suas próprias normas. Elas
um masoquismo que não desmente a queixa do interessado e a foram teorizadas de diversas maneiras: força do "Eu", acesso ao

l
JEAN CLA VREUL
í
192 A ORDEM MÉDICA 193
. 1 levantamento dos recalcamentos, simbolização da
gemtal ãovet Elas só podem ser retidas nas condições particu- discurso médico é desumanizante no que estuda a doença e a
O separa do homem, o qual figura aí apenas como terreno. Isto
castradç eálcise "didática" , em que , evidentemente , se está 110
lares a an . 1 'b não significa que a psicanálise possa pretender constituir esta
. ·t d esperar do futuro analista que e e sai a ao menos para
dtre1
.
o e que é uma ps1can . ál'1se e on de e1e s1·tu a sua f antasia antropologia que a medicina não pôde construir. A psicanálise,
10 0
. " a " de on de e1e man ter â seu d'1scurso.
s1 mesn ão a este obJeto por sua vez, não conhece do homem senão sua falta a ser, pela 1

laç
em reninguém · a1·1s ta e é, ao contrá- palavra na qual ele testemunha isto . Çonstituind~ um saber
M é obrigado a tornar-se ps1can
sobre o Inconsciente - esse saber que não se sabe a s1 mesmo-,
. as função da análise dita didática recolocar em causa os pro-
no, mais firmes e, segun do as aparenc1as, os mais Justi'f'1cados.
A • • • 0 discurso psicanalítico fornece matéria para todas as formas do
jetos dogmatismo e do imperialismo. A isto se prestam c_om ~~mpla-
Uma psicanálise pode ser chamada de "terapêutica", com a cência todos aqueles que giram em torno da ps1canahse na
condição de que não nos omitamos de colocar ai as aspas de esperança de nela encontrar o último revezamento para os desf~-
rigor. O eventual desaparecimento do sintoma, no sentido mé- lecimentos do discurso dominante (o que não compreende um-
dico habitual, não basta de forma alguma, pois um fulano que vê amente a medicina, mas também a moral, a política ... ). M~s
se apagarem os distúrbios de que se queixava abertamente, fsto nada mais tem a ver com a clínica: é, antes, sua negação, Já
muitas vezes não atenta para isso, tanto está preocupado com a que se trata aí apenas de introduzir uma ordem fundada por
deterioração da sua vida que anteriormente não podia confessar, definição sobre o que o sujeito não pode reconhecer.
para si mesmo, enquanto que outro, cuja vida está transformada Falar da clínica psicanalítica coloca sobretudo o problema
pela análise, continua a afirmar a persistência de um sintoma do segredo, esta dificuldade da qual a própria medicina se
fóbico , obsessivo ou outro, que, no entanto, muitas vezes, não o desembaraça tão mal. O que se torna o discurso do paciente
incomoda nem mais um pouco. E o que seria preciso dizer dessas em análise? É evidente que, se for divulgado, o analisando não
análises que trazem tamanha reviravolta que é um outro membro poderá falar , ou falará de outro modo, pel?. simples fato_ d~
da família que se desmorona, ''descompensa'' , pelo fato de que o pressentir ou tomar conhecimento de sua pubhc1dade. Mas nao e
analisando deixa de se prestar ao jogo neurótico ou perverso no menos certo que se, de sua análise, ele não pode esperar senão
qual estava metido? A experiência da análise mostra sem contes- ser reenviado a si mesmo, à sua própria história, seu discurso
tação que toda verdade não é boa para ser dita, ou pelo menos está desacreditado de antemão por só estar votado a ser fechado
que as conseqüências de sua revelação não são muitas vezes sobre si mesmo, sem efeito possível sobre aquele a quem se
consideradas como aceitáveis. Concebe-se que muitas análises - dirige. Ora, é certo que um analisando não fala para qualquer
isto é particularmente sensível para as análises de crianças - um. "Dora" vinha até Freud por um sério contencioso a resolver
mudam bruscamente por razões que nada têm de técnica. A com os médicos, e singularmente com o de seu pai. O "homem
"resistência" do analisando se justifica em muitos casos. Ela é de dos ratos" vinha ao homem da Psicopatologia da vida quoti-
uma ordem inteiramente diversa da recusa do tratamento em diana. "Joãozinho", falando ao professor de seu pai, se pergun-
medicina. Ela é também uma proteção mais eficaz contra o tava se não era o Bom Deus. Ao "homem dos lobos" deu-se o
imperialismo psicanalítico que os protestos do doente contra o crédito de adotar uma contribuição essencial à psicanálise. E o
imperialismo médico. "Presidente Schreber", por não ter feito uma psicanálise, fazia
Falar da clínica psicanalítica é um desafio a que não me mais questão de testemunhar, evidentemente, diante?º m~ndo
arriscarei aqui, limitando-me a evocar alguns de seus aspectos. inteiro, sua prodigiosa aventura publicando-a. Os p~1canahstas
Para fazê-lo, seria preciso inicialmente estudar um certo número seriam mal recebidos refugiando-se atrás das necessidades, por
de falhas do discurso médico que colmatam com maior ou menor outro lado evidentes, da discrição para não dizer nad,a de su~s
sucesso sua ideologia. Ê, com efeito tentador demais, fácil experiências ou para reservar sua publicidade aos cen~culos _tao
demais, fazer da psicanálise o que viri; felizmente completar do estreitos nos quais se enterram. Se e, d'f'
1 1c1·1 para o ps1canahsta
.
lado do psiquismo o que a medicina faz do lado do corpo. O relatar sua experiência clínica, é porque nela necessariamente se
JEAN CLA VREUL
194 A ORDEM MÉDICA 195
ele próprio faz dos discursos que lhe são dirigidos.
reve1a o que 'd d • medicina e pelas famílias , apesar da segura influência dos even-
l·cos talvez ou então oportum a es para dar prova de seu tos ocorridos na vida do epiléptico, em particular as abordagens
mexer ' t' f d d, 'd
sa ber ou de sua habilidade.
· ·
Es a ora e uv1 a que uma análise
d 'f psicoterápicas. O prescritor permanece sendo, em qualquer cir-
tomará um contorno mteiramen e 1 eren t e se o anahsando
t · tiver cunstância, o médico, apesar do caráter freqüentemente decep-
a certeza, como foi certamente o caso para os primeiros pacien- cionante dos tratamentos medicamentosos.
tes de Freud, de que contribuem efetivamente para a constitui- "Não há diálogo", diz Lacan, num contexto inteiramente
ção de um discu~so admissíve~ n~o trazendo um material inerte diferente. Esta fórmula se torna particularmente evidente no
oferecido a um discurso constitmdo, mas colocando em causa a confronto entre médico e doente, visto que este último está
posição daquele que o enuncia. votado a se calar, para deixar a palavra apenas aos sintomas.
Qual é o estatuto daquele a quem fala o consultante do Ela também o é entre médico e psicanalista, cujos discursos se
médico e do psicanalista? No início, é certamente o mesmo. cruzam às vezes em torno dos mesmos sintomas, mas não se
O do grande Outro enquanto lugar onde se encontram capita- articulam. Tampouco há, bem entendido, diálogo entre o pa-
lizados os significantes, onde se pode inscrever seu sofrimento, 0 ciente e o psicanalista, mas isto é uma outra história que cons-
' qual ele, consultante, não pode saber por si mesmo o que é. titui precisamente o objeto da cura psicanalítica.
A aventura médica visa responder a esta demanda com fins de
suprimi-la. Ela, com efeito, cessa desde que o doente é tomado
sob o encargo da medicina, uma vez que não é ela que condi-
ciona o prosseguimento ou a parada da intervenção médica, mas
uma lógica que decorre do que a medicina sabe da doença. Com
o analista, é a sustentação da demanda que é, ao contrário, 0
motor da cura, e seu saber não visa ser redutor, uma vez que só
poderia reduzir esta demanda se fosse exercido como um poder,
ainda que fosse um poder de curar.
J. Guey, em sua tese, 5 estudou os efeitos de uma colabo-
ração confiante e esclarecida entre médicos e psicanalistas em
torno de um sintoma particularmente notável, a crise de epi-
lepsia: o grande mal, o mal sagrado, a doença dos comícios. A
medicina se organiza necessariamente em torno do desapareci-
mento do sintoma e do traçado eletroencefalográfico, a escrita
da doença, do qual se sabe, entretanto, que não é nem cons-
tante, nem absolutamente significativo. Se as crises forem bem
suportadas, pouco incômodas para o doente, às vezes até procu-
radas por auto-estimulação, isto tem sempre pouco peso para o
médico, da mesma forma como, os distúrbios psíquicos graves
que muitas vezes acompanham o desaparecimento das crises
pouco intervêm nas decisões terapêuticas. O que é mais notável
é, entretanto, o lugar menor concedido ao psicanalista pela

(5) J. Guey, Du discours médica/ à la parole du "sujet'': /'épilepsie ,


tese, 1975, Universidade de Provence.
A ORDEM MÉDICA 197

Reunidos, se não pelas mesmas coisas, ao menos pelas


mesmas palavras, médicos e lingüistas quase ~ão se encontram.
Ou, antes, se os epistemólogos cont:mporaneos, co°!'o nota
13 precisamente Dominique Lecourt, se mteressaram mmto pela
medicina, é um andamento sem retorno. Do mes~o modo, a
Semiologia clínica e semiótica · 1 ia médica não se encontra em nada mod1f1cada pelos
sem10 og , 'd 1 - t de sê lo
trabalhos dos epistemólogos. Sem duv1 a, : a nao e~ -
e deste ponto de vista, pode-se situar a ep1stem~l~gia contem-
p~rânea na tradição filosófica inapta para mod1f1car_o curso
da ciência. Mas ainda resta perguntar, n,e~sas c~nd1çõe~,. se
este trajeto em sentido único não dá à cntica ep1stemolog1,:a
uma caução científica a uma elaboração que forçosamente nao
o é. . t
É em torno da palavra "sintoma" qu~ me p~rece m eres-
sante colocar algumas questões. Em seu hvro Nazssance de la
clinique, M. Foucault se detém nisso, ~ão, s~~ al~m ~mbaraço.
o sintoma, diz ele, é uma "camada pnmana md1ssoc1avelmente
Uma questão não pode deixar de ser colocada a partir da significante e significada" .1 Do mesmo modo, a relação
constatação de que a palavra semiologia (ou semeiologia) não si_gn~f~cante , dada pelos lingüistas como constitutiva do signo,
tem a mesma acepção e não recobre uma prática comparável em s1gmf1cado . ,
não seria aplicável ao sintoma, o que parece_ des1~na•_!? ~orno o
medicina e em lingüística. Entretanto, a semiologia é, tanto
lugar onde se cruzam significantes _corporais e ~mgu1sticos, e
nesta como naquela, definida como "ciência dos signos". Desta mereceria ser desenvolvido, em particular a partir do que nos
observação preliminar, podemos ao menos supor que é da ciên- traz sobre este assunto a clínica da histeria. Não no~ esclare-
cia e dos signos que médicos e lingüistas não têm nem a mesma cemos em quase nada quando Foucault acrescenta: "E a sobe-
prática, nem a mesma idéia. Revelando que estas palavras não rania da consciência que transforma o sintoma em signo" .2 A
têm a mesma significação na boca de um médico e na de um consciência se acha aqui de alguma forma identificada ao
lingüista, somos evidentemente conduzidos a reintroduzir a "olhar" médico, a este acesso ao visível com que sabemos que o
questão do Sujeito que fala. Não é, entretanto, a uma categoria autor constitui o tempo essencial do andamento médico. Mas a
idealista do Sujeito que nos referimos, porque o Sujeito de que se referência feita aqui à "consciência" quase não é mais convin-
trata é aquele que é definível como mantendo um certo discurso, cente para os filósofos quanto a do "olhar" não o é para os
o médico ou o lingüístico. médicos, que são cada vez mais levados a falar em termos de
Pelo menos podemos afirmar desde agora que a ambigüi- mensagens, de informações, de trocas celulares, e certamente
dade que acaba de ser ressaltada é ela própria um signo; signo de não mais a identificar a doença ao visível da anatomia pato-
uma evolução dupla e paralela do conceito "signo" de que lógica.
convém tomar nota; Evolução que não deixa de transparecer, se O dicionário de Ducrot e Todorov não vai mais longe defi-
não na definição, ao menos no uso das palavras, uma vez que os nindo o sintoma como "signo natural". Pois se o signo perma-
médicos contemporâneos falam quase exclusivamente de se-
miologia, enquanto que eis lingüistas falam indiferentemente
de semiologia e de semiótica (como faziam os antigos médi- (1) M. Foucault, Naissance de la clinique, op. cit.
cos).
(2) lbid., p. 92.
JEAN CLA VREUL
198
A ORDEM MÉDICA 199
nece do domínio da lingüística, ãque quer dizer
" ,,que a natureza
I
fala? Reconhecendo que ~ r~ ~ç o co~ ~. rea,, 1 descrita Pelo que , se as pessoas davam mais tossidelas no inv~~no, e~a porque
sintoma "não é do tipo s1gmf1cante-s1gmf1cado , mas do tipo ela própria piorava nesta estaç_ão. ~sta doente }ª ?,avia .consul-
"signo-referente", parece que s~ quer mantê-lo ligado às cate- tado diversos médicos que haviam compreend1d~ mmt~ ~em
gorias lingüísticas, o que se precisa quando se acrescenta que seu caso, isto é, empenharam-se em romper o circulo v1c1oso
sintoma médico, por ser "natural", não é menos convencional 0 "depressão-perseguição", seja aconselhando-a a se afastar do
0
exemplo dado sendo: "Não se tosse da mesma maneira ~a povoado, seja dando-lhe antidepressivos. Sem resultado, como
3
França e na Nova Zelândia". Podemos imaginar que tais consi- desconfiamos.
derações devem deixar os médicos numa infinita perplexidade Minha paciente, portanto, se complic~va tan~o quanto o
não sobre a sua semiologia, mas sobre o que dela dizem ~ dicionário de lingüística na distinção entre signo e smtoma'... m~s
0
lingüistas, e o exemplo lhes parecerá tão fútil quanto uma glosa seu discurso incitava pelo menos a situar a tosse de prefere~ci_a
sobre a icterícia nos negros ou as variações da expressão da dor do lado do sinal médico (enquanto representante ~e u~a •.~:•·
segundo as tradições culturais. Aí estão fatos absolutamente tação brônquica ou outra) e a tossidela do lado do signo lmguzs-
contingentes com relação a um andamento médico que visa tico (enquanto representante do suposto di~cu~so do povoa~o).
justamente extrair os sintomas das contingências raciais, cul- Nossa teórica não se detinha aí. Pois se ela nao tinha nada mais a
turais ou outras, para só retê-los como significantes inscritíveis dizer sobre a tossidela e a tosse, tinha por outro coletado toda
na linguagem médica. uma série de outros indícios da malevolência do povoado: olha-
A respeito do sintoma "tosse", parece-me mais interessante res fugidios ou arrogantes, sorrisos suspeitos, buzinadas dos
nos determos no que me dizia uma paciente que definia seu automobilistas, portas batidas pela empregada etc. Nenhum
estado como sendo depressivo. Esse estado, estimava ela, atraía- desses indícios era em si mesmo probatório, mas sua acumu-
lhe a desconfiança, o desprezo, a ironia do povoado onde mo- lação, esta série de pseudocoincidências, não podia ~eixar-lhe
rava. Inversamente, esta verdadeira perseguição de que era ob- nenhuma dúvida sobre a realidade da perseguição. Assim fazem
jeto era em grande parte responsável por sua depressão. O que os psicóticos, mais precisamente os paranóicos, que nunca detêm
retinha particularmente sua atenção era a "tosse", ou antes a uma prova formal que justifique suas idéias delirantes, mas acu-
"tossidela", pois era por este meio que os comerciantes, a empre- mulam indícios dos quais não duvidam que tenham uma signi-
gada e as raras pessoas que freqüentava lhe mostravam que ficação.
debochavam dela, lhe indicavam que todo um discurso hostil se Meu interesse por esta paciente era decidir onde ela delirava
desenvolvia às suas costas. a fim de descobrir onde nós mesmos corremos o risco de sair dos
Este "tossem" era acompanhado de uma observação sur- trilhos quando falamos de signos. Precisamos dizer uma palavra
preendente: "Evidentemente, é durante o inverno que eu pioro, sobre o que é um delírio. Com efeito, é bastante claro que uma
porque é nesta época que há mais tossidelas". Efetivamente era idéia delirante não é a mesma coisa que uma idéia falsa, quer
por volta do dia de Todos os Santos [Toussaint, em francês] isto agrade ou desagrade a nós que julgamos pensar certo. Uma
(tosse, hein!) [(tousse, hein!), em francês] que eu via aparecer teoria falsa, por exemplo, não é um delírio. E, reciprocamente,
minha doente, que desaparecia na Páscoa. Sua observação um delírio não deixa de sê-lo se seu conteúdo se revela exato.
podia levar ao riso pelo fato da mistura de duas ordens de causa- Assim, como já se observou há muito tempo, não é se tornando
lidade diferentes, a da tosse devida ao frio e a da tossidela devida corno que se cura de um delírio de ciúme, e não é obtendo os
à perseguição. Mas, uma lógica implacável lhe permitia dizer favores do objeto amado que se cura da erotomania. De resto,
no que concerne à minha paciente, o conteúdo do delírio, que se
resume na frase: "Falam mal de mim", tinha todas as chances
(3) Ducrot e Todorov n· • • ,. . de ser bastante verdadeiro, pois é provável que se bisbilhotasse
gage, Le Seuil, 1972 _ ' rctzonnaire encyc/opedrque des scrences du /an· no povoado sobre esta mulher de cidadão notável, bastante rude
e pouco afável.
201
JEAN CLA VREUL
200 A ORDEM Ml'.:.DICA
leva ao grau de signos - de
0 que nos faz decidir que esta paciente é psicótica n~ ,
nem m
esmo que ela seja
,
· ·m t erpre t an t e, d e maneira
b t
· abusiva ªº .e
, Pois
ela acredita poder reco~her e qu\ e tentados a lhe resp_?nder: /----
a interpretação e bastante po r~, mas an es porque ela instituía signos lingü_ís!icos . S~namos , an :~~r o discurso que voce ac:e-
" Não há SuJeito possivel p~ra ma ,._ se engana de semio-
elementos do real (tosses, . , . . t como
buzmadas) , sendo indícios a dita. Não há, portanto, discurso, e voce
recolher, elementos mterpretaveis, is o e, ~ue ela os constitui
como significantes, que fazem parte de um logia". . . d s médicos nada tem a ver com a
, discurso
. , sem dúv•ct
1 a É claro que a semiologia .º 1· gu·· ística estuda são
difíceis de compreen d er, mas compreensiveis em seu princíp' . ... t s Os signos que a in .d d
Essa paciente t_inh~, em_ suma, em_ r~la~ão ª. eles , a
atitude que o cientista diante ~os hi~roghfos, ilegíveis durante
mes:::~ semiologia dos 1mguis a . h, nhum elo de causah a e
signos arbitrários , já que nãof a tn~, que ele representa. Pelo
. .f. nte e o "re eren e ã
milênios, mas de que não se podia du~id~r_que eram uma escrita
e, conseqüentemente, portadores de significação. Podemos reco-
entre um sigm ica . .
contrário, eles são convencionaif ' º::~!~ ·a é através da convenç o
ser reconhecidos pelos
de uma linhagem co~um que e :esma comunidade lingüística.
nhecer, assim, a existência de uma coisa significante antes de s
ter extraído a sua significação. e interlocutores no s~10 de um~ médico recolhe são diretamente
Inversamente , os signos que t (não se fala mais de
Certamente não é loucura querer decifrar hieróglifos. E li áveis à "realidade " que rep~ese~ am da lín ua
também não é loucura querer interpretar o real: o que fazem os r!ferente). Eles não são convencionais, não d~pend~~ a !m _,,
cientistas. Mas . justamente, estes não interpretam o real como falada pelo médico ou pelo doente: eles preexis~en; ?- 1:~n~ís~
constituído de significantes organizados em discurso, pois é ao Os signos [sinais] médicos não obedecem s e1~ a
contrãrio, o discurso dos cientistas que é o organizador do qu~ se tica Se eles se agrupam, é em síndromes e não em smtal!mas o~
constitui, por ele, como realidade. par~digmas. A aparição de um signo insólito não vem a1 consti:
Minha paciente, admitindo que podia se enganar, por um tuir metáfora. Nada se encontra aí da orde1?1 ?ª alusão_ e n~o ha
lado, sobre o fato de que um elemento do real era para ser poética dos signos médicos. Nunca um medico susp~1tara que
interpretado e , por outro, sobre a significação a ser dada a este um signo seja mentiroso , pois, se pode ser eng_anador , e porque _o
elemento, o designava como significante, pois o único ponto no médico pode se enganar e não porque o .º:gani!mo men~e ..
qual ela era inabalãvel era que esses elementos, colocados uns Não foi sem dificuldade que a med1cma pode constituir para
após os outros, não poderiam ser sem significação. Logo, eles si um universo de signos que lhe fosse próprio. Pois , enquanto
constituíam um discurso . O que lhe parecia conveniente não era prevalecia uma concepção ontológica da doença , a distinção era
uma relação significante-significado, mas a existência de uma nítida entre a própria doença e suas manifestações sintomáticas
cadeia de significantes. A partir daí é que ela concluía pela exis- e mesmo anatomopatológicas. Os médicos eram, pois, levados a
tência de um discurso, e nós podemos de bom grado consignar se interessar pelo Ser da doença e a discorrer a respeito dele, mas
por ~sc1:1!º que, nisto , ela se reunia ao que diz Lacan do processo prestavam pouca atenção à sintomatologia, que era apenas a apa-
, ~a sigmf~ca?~º• quando ele a faz depender não da relação signi- rência sempre enganadora e suspeita. A clássica distinção entre
ficante-sigmficado, mas d.a seqüência significante. Ao nos dizer o Ser e o Aparecer levava a melhor aí. Foi porque os clínicos,
Lac3:n_ que o que se acha de saída significado em todo discurso é pouco a pouco , aceitaram a idéia de que todo signo recolhido se
0
SuJeito que o enuncia, nós vemos bem que minha paciente não ligava necessariamente a uma realidade e não podia ser inter-
est ava sem razão ao designar a existência de um Sujeito para pretado senão a partir desta, que a semiologia médica se desen-
manter esse discurso. volveu. M . Foucault concede um lugar de escolha à lesão anato-
nh Era º. povoado que ela designava como Sujeito que manti- mopatológica como constituindo esta realidade última, previsível
a esse discurso e ne t t ~ • .
mais ex t t ' . , s e pon ° nao podemos mais segui-la. Ou, ~ a partir da sintomatologia e marcada pelo selo da morte (a do
maledic:na~en e, Ja que não recusamos a probabilidade da homem e a do órgão). Mas , fora mesmo do fato de que aos olhos
empenhe e~ihº ':lue_ ~ecusamos é acreditar que o povoado se da medicina contemporânea o acometimento orgânico está longe

l
e sigmficar seu desprezo em todos os indícios que de constituir a marca essencial à qual a doença deve ser referida,

l
JEAN CLA VREUL 203
202 A ORDEM MtDICA

_ e parece possível aceitar esta dicotomia entre a lesa~ ã ' idêntica à do Ser.
nao m . - d . o e os A questão do Sujeito, entredtanto,t n <;>ã~ se deve ao discurso
. t mas que a representam, pois e1a nao e1xa de reconsti' t . . ã busiva da função o au or n t
sm o d ,._ . . u1r a
A val,0~1zaç o a d história das ciências, mais ex~ta~en e
dicotomia entre o ser da oença e sua aparenc1a sintomática.
cientifico, mas ao a . ,.. f ·t aliás na maioria das
A evolução da medicina se faz num sentido inteira desta história espontâ~ea, _mgenua, e1 ª~nfunde a história da
. . . f mente 'prios cientistas, e que c .
diverso. A sem1ologia, sempre ma\~ apro ~ndada do que Permite vezes pe1os pro . . dos sábios Em medicina, Junta-se,
a multipli~açãoddobs _exa?1-es pdarac 1dmcos, !ndo até O olhar direto ciência com a hagiografia_ a u~a doença o nome daquele
pelas tecmcas a 10psia e a en oscopia, tende a ident' f' assim , muitas vez~a u~t~1!;~~~e aos continuadores e admira-
. . lh'd . 1 1car
cada vez mais o signo reco 1 o com a realidade da doe que a descreveu., ~s is, . , ao contrário, notável que no
Paralelamente, a d1s . t·mç ão ent re as causas e os efeitos tende nça. dores, não ao propno sa.b10. ~ e,dito a denúncia do Sujeito da
tornar menos mi a, o que permi·te os autores contemporâna se
' t'd discurso científico propna~en e t 1 urso ao " nós" que
. - f ça aí explic1tamen e pe o rec . ' /
dizerem que se morre tanto pelos efeitos da doença quanto de ~os enu~ciaçao se a 1 ral majestático, mas que indica que
ambos tendendo a se confundir: por um lado, a procuras da, não e de modo algum um P ,u . nome da comu-
etiologia se revela cada vez mais complexa, problemática e final~ o autor não fala em seu propno no_me,lemgaadsoemao pé da página,
· ff
nidade c1en 1 ica, Pois seu nome e re ã de um texto que
mente especulativa, e, por outro, a clínica e a terapêutica se
como assinatura inútil para a compreens o d e
tornam cada dia mais próximas de uma sintomatologia que se não se justifica senão pela coerência e pela verdade o qu
enriquece e sobre a qual se pode agir diretamente. Assim se
reduz a oposição entre o Ser e o Aparecer. ' enuncia . . - , d Lacan toma
Esta queda do Sujeito da enunciaçao e o e que . .
0
Este trajeto, este progresso da semiologia médica, certa- nota quando fala do "discurso do mestre" inscrevendo o ~.1:3e1 !
mente não deixa de ter relação com o interesse que lhe dirigem os s sob a barra, enquanto que em cima dela é apenas a sequencia
epistemólogos contemporâneos. Pois há um paralelismo evidente dos significantes que aparece :
entre a eliminação progressiva da doença como Ser e a rejeição
pela epistemologia da categoria de Sujeito enquanto Ser suposto
' livre, autônomo, autor de seu discurso e se manifestando em sua ~• .. . S2 S3 S4 •••

verdade e seu engano sob as aparências da palavra. Depois de


Bachelard, suspeito de idealismo, com Canguilhem para a histó- O abuso que faz o historiador salientando o nome do a~tor,~ão
ria da medicina, Foucault para o discurso, Althusser para o se deve entretanto ao fato de que denuncia o discurso cientifico
materialismo histórico, há uma mesma recusa do recurso expli- no que ~ste pretende ser, isto é, enunciado por um autor vi_rtu_a~-
cativo ao gênio do sábio, do autor ou do personagem histórico mente anônimo e constituído por uma articulação dos s1gmf1-
providencial. E esta recusa é, evidentemente, fecunda na medida cantes que o constituem em saber. Seu abuso é o de não fazer
que permite interpretar o evento em função de uma conjuntura nada com esta exumação a não ser um memorial para a glória do
na qual o homem não desempenha mais que o papel de instru- autor, perfeitamente inútil para a própria ciência e obscurecedor
mento. para a história das ciências, juntando-lhe os atributos ideológicos
Não cabe retornar sobre a legitimidade desta posição que, do gênio, do senso de observação, da sorte etc. De um interesse
?ºr ou~ro lado, é e se quer política, uma vez que denuncia a completamente diverso seria este trabalho se fosse levado em
ideol_ogia humanista como destinada a entreter a ilusão da auto- conta o que Lacan indica pela barra que atravessa o S, isto é, a
no~i~ do Sujeito, a fim de mascarar a disparidade das condições divisão do Sujeito. Pois neste conluio que sempre se fez entre
soc1a1s cientistas e historiadores da ciência, o benefício da operação não
, . ' econômicas , cult ura1s,
as umcas
. h'is t'oncas
. .
sendo estas condições deve ser considerado sob seu aspecto trivial, de permitir que
que dev fd ,
correta d h' , .em serre 1 as para permitir uma interpretação outros se encarreguem de assegurar a glória do sábio, o qual
ticos. ª 1stona do pensamento, das ciências e dos fatos polí- pode assim permanecer pessoalmente modesto. Trata-se bem

l
JEAN CLA VREUL
204
A ORDEM MÉDICA 205
. d ascarar O Sujeito enquanto ele é dividido. Aí est'
mais e m , . t a uin
e qual será necessano re ornar. ão são os habitantes do povoado, mas ela mesma o Sujeito desse
pon tosObr O d ..
No que concerne ao afastamento a subJettvidade n~ ~iscurso, e é porque o conteúdo do discurso está marcado de /
,. , ao se
f
oderia superestimar o bene ic10 que encontram _ cad f raclusão que ela atribui sua origem aos outros, e particu-
Para si _ 0 médico e o doente no trabalho científico queª um l ºrmente a esta doméstica cujas tossidelas são as mais insis-
P d ,
titu~ o ato _m~dico. Tu o ai se ~cd a
esteja subjetivamente desengaJa o.
h
ci 1 d
oc~d? para _que cada uin
me 1co, pnmeirame t
cons- / ntes. Mas guardemos para nós a hipótese de que o inconfes-
~ vel se situa sem dúvida na relação de minha paciente com esta
que não está lá senão enquanto representante de valores 1-0 n e, ~~tra mulher que é sua empregada, pois isto é uma outra his-
. .,._ • ) d t con. tória, uma história que não me cabe desv~lar.
testes (humamdade, cienf ~1a ... t' e o doen ~• para quem se acha
demonstrado que seu so nmen o se re uz a dor, uma dor q , Quanto ao que nos concerne, farei agora algumas obser-
. t . ue e
. apenas um signo, como qua1quer ou ro signo recolhido no ex vações:
, f . . ame
O doente, ele tam bem, az assim a economia da confissão do ; 1. Sobre a confusão que resulta da utilização pelos lin-
ao menos a ou tra ver ten te de seu so fnmen
· t o, isto
· e, r1 e
' sua angúque güistas e pelos médicos da mesma palavra semiologia (ou semió-
É, pois , uma regra de deontologia que o médico não introJ ª· tica) e também da palavra signo. Algumas fórmulas lacanianas
. _ , t b, , uza
nen huma pa1xao, e e am em o que e esperado do doente podem nos esclarecer:
e1e nao - se de1xe
· 1evar por seus temores, seu pudor ou qualq ' que • J .ªfórmula: " Um signo é o que representa alguma coisa
outro sentimento. Se o contrato implícito é rompido, em p/t~ (e não um Sujeito) para al~ém (que saiba lê-lo)". A~sim .º
1
cular se o sintoma não pode ser ligado a nada objetivável r médico pode interpretar os signos que recolhe. A sem10log1a
doente é rejeitado e às vezes com furor, quando se trata '/ médica tornou-se científica estabelecendo as relações fixas, não
histéricas, tratadas de mentirosas ou, mais cientificamente de problemáticas entre estes signos e as coisas que representam.
' pitiáticas. Pelo menos respondem a ele: "Você não tem nada"e
Retornemos à minha paciente e ao sintoma de "tosse". o • 2.ª fórmula: "Um significante é o que representa um
Sujeito para um outro significante". Assim, a questão do Sujeito
médico não pode se livrar nesse caso afirmando que esse sintoma pode ser reintroduzida sem recurso a seus atributos ideológicos
"não é nada\já qu: é_justamente o que ela mesma afirma, que tradicionais, a partir do momento que é definido por sua repre-
nenhuma razao orgamca basta para explicar a tosse de seus sentação num sistema de significantes, isto é, somente ali por
perseguidores. O médico a exortará então, talvez, a uma atitude onde ele se significa.
científica, idêntica à sua, isto é, a interpretar a tosse como 2. Sobre o sintoma. Está claro que para o médico o sintoma
provavelmente devida a um acometimento orgânico daqueles se tornou sinônimo de signo, no sentido em que Lacan o define,
que tossem ~ a _se desinteressar pela subjetividade das pessoas, e não numa relação significante-significado, como o definem os
por su~ mahgmdade real ou suposta. Mas aí está justamente o lingüistas. Por isso, diante de um sintoma, o trabalho dos mé-
que mmha doente não podia consentir, porque se ela se servia dicos é redutor. Um sintoma remete de direito, senão de fato, a
da ambigüidade tosse-tossidela, era porque tÍnha de estabe- alguma coisa. Não há nenhum Sujeito atrás do sintoma médico.
\ lecer, co~ os meios a sua disposição, que um discurso devia ser Aí está o que foi adquirido com a rejeição da ontologia da
st
e ab~leci?o so~re alguma coisa cuja significação lhe escapava. doença.
psicanalista, se ele se meter nisso, terá uma atitude O problema é diferente para o sintoma psiquiátrico (neuró-
completamente di·fe t
,
1 - . .
ren e em re açao a esta paciente visto que
reconhecera de iní · · ,._ . ' tico, psicótico ou perverso) , mas a atitude médica continua a
d t cw a existenc1a de um discurso ouvido pela proceder com a mesma metodologia. Ela consiste em ler os
oen e ne st~ acúmulo de indícios recolhidos por ela. Esperemos sintomas como representantes de alguma coisa (infecção, intoxi-
que e1e consmta tamb ' - , .
se dispen d em em _nao compreender nada a1 e, assim, cação, degenerescência, distúrbios hormonais etc.) pelo menos
tão qu se e propor outras mterpretações sendo a única ques- ao tentar agrupá-los em síndromes (esquizofrenia, paranóia ,
e se coloca ª do Sujeito desse discu~so. Bem entendido, neurose obsessiva ... ) que constituem outro tanto de entidades
JEAN CLA VREUL
i
206 207
A ORDEM M~DICA
nosológicas. E é ainda uma atitude médica aquela que c .
. t . f ons1ste · · ·t da como o é pelo médico, se a psicanálise não tivesse
, em ligar o smtoma .ª u~a ca :rona(fundamentada com ou sem reJeI a , - · t , 1
lado O que o discurso tem por funçao ve1ar, 1s o e, o ugar em /
, razão so~re a tte~rb1_adps1canat 1 t1ca 1x)ação afetiva, estádio do revee O Sujeito se sustenta por sua f an t asia,
· o " o b"Je t o a " . Pois
.
desenvolv1men o 11 1 ma1, es ru ura... .
q~dentemente sabíamos antes da psicanálise, e a partir umca-
O sintoma psiquiátrico se torna psicanalítico quand , evi línica que é a partir de sua su b.Je t·1v1"da d e que a
_ como um signo,
ma d o nao . mas como um s1gm . ·t·1cante Ele o e to- men t e da C , · 1· t
histérica produz os sintomas ( S . S1): ~ que o ps1cana 1s a
não a a guma coisa, mas ao pr pno uJeito. Por esta· ra 2 ãremete
l . ó . S . .
mostrou foi que a verdade da posição subJetiva se desvela colo-
' d_ut1v~
~ão eãre f 1 ã
etn o podd e se trans forma~ senão acedendo à signi-
o, ele
o SuJ"eito (S) em relação com sua relação mascarada com o
f1caç o, 1s o e, oman o 1ugar _na cadeia dos significant can d g O◊ a, o que permite escrever para a h 1s
gozo " t'enca:
·
qual o Sujeito se representa. es Pela
Resta que todo sintoma deve ser considerado como tendo
duas vertentes: uma onde pode ser tomado como um si· (,
" · soma, t·1ca d e que fala Freud, a referência últ"
compl acenc1a gno e a
corpo que to d a ana'lº1se d e neurótico
. deixa aparecer)· a 1mat ao Do delírio, do qual se sabe a que ponto pode tomar ?
, e o o sm omda po e se cons 1tmr como significante,' 0 Sujeito
ond t d . t d t· . ou ra,
andamento do raciocínio rigoroso, e também os termos, ate
a1 se representan o em sua castração através dos signos d mesmo o aparelho do discurso científico, nós não diríamos que
·
desfa lec1men t ,.. • ( e seu
o orgamco o que foi muito bem descrito por Tho- se distingue deste último porque é falso, mas sim porque cons-
mas Mann em A Montanha mágica). titui uma teorização do gozo do Outro. É, pois, do discurso do
3. ~oh;~ o delírJo, enquanto deve ser aproximado do dis- psicanalista que ele mais se aproxima ( e é por esta ra~ão q~e a
curso. c1entif1co. Foi um dos méritos de Freud ter feito esta comparação entre teoria e delírio veio sob a pena do ps1canahsta
~pro~~~ação, ao menos sob a forma de uma resposta enigmá- e não sob a do cientista). Nossa proposição não é de aprofundar
tica: Tive sucesso ~nde o paranóico fracassou". 4 É verdade que aqui esse problema. Digamos apenas que a questão merece
quando Fr~ud, ou~mdo numa sessão os borborigmos emitidos permanecer colocada a todo instante, pois não se pode pretender
por seu paciente, d12 que seu intestino se mistura na conversa 5 que o psicanalista (sem dúvida pelas virtudes da psicanálise
deve-se per~ntar o ~ue distingue esta atitude interpretati;a didática) não esteja implicado subjetivamente nas interpretações
daquela de mmha paciente a respeito das tossidelas. que dá, diferentemente do psicótico, que projeta suas próprias
_Lacan, por sua vez, pergunta por que não se levaria em fantasias. Isto seria macaquear o discurso científico em sua
~onsideração as teorias propostas pelos doentes em seus delírios pretensão de afastar a subjetividade do sábio, e retornar implici-
e~~to. quanto aquelas que nos são infligidas por tantos livros tamente a uma ideologia do Sujeito a salvo de sua dependência
d" ediantes. Entretanto, não foi a partir do delírio mas do em relação aos significantes que o constituem, idealmente livre.
I~curso, ~a histérica, como se sabe, que se elaboro~ a teoria 4. Sobre os trabalhos dos epistemólogos. O modelo quase
psicanalítica Isto não . ·t· . ,
um s b · Sigm ica que a h1sterica nos tenha trazido exclusivo tomado pelos epistemólogos é o do discurso científico,
ª eremnão .encontrável
colocou . nos rivros, mas que reintroduziu, que pelo menos desse discurso tal como se dá em sua forma acabada,
ciador d dpnmeiro lugar, a questão do Sujeito enquanto enun- apresentável, tendo conseguido velar a questão do Sujeito. Isto
o iscurso do Sujeito e d" . - A. . os condena a não levar em consideração os significantes novos
ciso acrescent ' m sua 1v1sao. mda sena pre-
ar que neste lugar a histérica só poderia ter sido (S1) em sua emergência, mas somente a assinalá-los como já
estando aí, presentes nos discursos ao alcance do leitor. Nos
(4) Freud e; esquemas lacanianos, S 1 passa então para baixo da barra. O
(5) Freud' c.·nq psychana/yses, "Schreber" discurso científico só é estudado aí como um saber constituído
' mq psychana/yses' "O homem dos ratos". (S2) e julgado por seus efeitos, como produto de um "a mais"
208 JEAN CLA VREUL 209
A ORDEM Mf:DICA

designável como "objeto a", já que vem alimentar a fant · de antemão se o cutelo do não menos famoso :•~orte episte-
· t'f'
cien i 1ca, me, d'ica no que nos ocupa. Entendamos bem as1a
t t d f t . d , . que se sabe . " não recairá sobre aquele que tem a audac1a de mane-
ra a. a ~~ ~sia .º medico, e não da do doente, que, por sua ~ológ~~o é atentar contra a dignidade da_ ciência lemb_rá-la de
v~z, fica dividido diante da produção do saber médico. Pai-a ele, Ja- 10 ; f ·t por sábios mesmo se o maior cmdado destes e o de se
que e e1 a '
s? se ,f~z retorno d~sse mai~ s~ber por acréscimo, pois uma obra fazer esquecer.
cientifica, em particular ~e~ica, não será julgada por suas apli-
ca~ões, _ mas_ por sua ~phdao de enriquecer o discurso consti-
tm_do. E: pois, c~mo discurso universitário que os trabalhos dos
epistemologos se mscrevem.

S2
S1 - - - a .

. ~etornemos a~ nosso Sujeito: que o Sujeito apareça, e em


pnme1ro lugar no disc~rso ( como ocorre na histérica), não basta
para condenar esse discurso como incoerente. Sua coerência é
justamente o que mostrou o psicanalista revelando que as articu-
lações significantes funcionam no inconsciente, que é "estrutu-
rado como uma linguagem", assim como demonstrou Lacan
retomando a teoria das descobertas especificamente freudianas'.
O que aparece em evidência com a histérica é que não se pode
deixar de vê-la aí subjetivamente engajada, é que seu discurso é
endereçado por um Sujeito a um Outro que o escuta, e que todos
os jogos da sedução, da provocação, do ódio aí funcionam.
Concebe-se que ao epistemólogo repugna colocar em perigo a
calma serenidade que encontra :r:ias bibliotecas, mas não se pode-
ria por esta razão condenar o discurso da histérica por incoe-
rência, fazer dele uma espécie de não-discurso.
Também não se poderia reduzir o discurso científico ao que
ele se supõe ser: discurso do mestre, ao qual nós o identificamos
até aqui. Pois não se pode considerar como negligenciável o fato
de que o sábio, fazendo uma "comunicação" , se constitui de
saída ele mesmo como membro da comunidade científica, se
significa como sábio. Seja como for, ele não escapa aos jogos da
rivalidade da sedução, nem que seja ao se mostrar hábil em
, manejar os conceitos da moda. Se não se corre mais o risco da
fogueira dizendo que a terra gira, corre-se ao menos o risco de
cair no ridículo se se adianta uma novidade que põe em perigo a
ordenação teórica que tem a preferência do momento. Corre-se
ao menos o risco de parecer pretensioso. Os famosos "obstáculos
epistemológicos" estão votados a ser transpostos, mas não se

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