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POLÍTICAS EDUCACIONAIS NO BRASIL: DESAFIOS E AVANÇOS DA

EDUCAÇÃO ESCOLAR QUILOMBOLA EM BELO VALE/MG

Edna Vaz de Andrade1

RESUMO

O presente artigo tem por objetivo analisar as ações políticas desenvolvidas a partir da
Constituição Federal de 1988 quando reconhece o direito de propriedade das comunidades
remanescentes dos quilombos e as implicações do modelo de federalismo adotado para
efeitos de políticas públicas. Aborda o federalismo cooperativo quando os entes federados
compartilham responsabilidades. Analisa o processo de titulação como política redistributiva
e a educação escolar quilombola como resultado de políticas incrementais. Sinaliza a
necessidade de novas análises com vistas a aprofundar sobre a temática.

Palavras-chave: Política incremental – política redistributiva - políticas educacionais –


educação escolar quilombola –

INTRODUÇÃO

Longe de ser um artigo síntese que tem por objetivo resolver as questões e
controvérsias ainda não resolvidas sobre a questão da titulação dos territórios remanescentes
dos quilombos, seus fundamentos, execução e realizações, o propósito aqui é analisar as
ações política que se desenvolveram a partir da Constituição Federal de 1988 (C.F.), do
Decreto 4887/2003 que regulamenta o Artigo 68 do Ato das Disposições Constitucionais
Transitórias (ADCT), e as políticas educacionais para a educação escolar quilombola.
O texto está dividido em quatro partes. Na primeira, há uma breve apresentação das
comunidades remanescentes dos quilombos em Belo Vale/MG: Chacrinha e Boa Morte. Na
segunda, trataremos sobre o federalismo como estruturante organizacional do Estado
Brasileiro. Na terceira parte abordaremos as políticas de demarcação de terras no Brasil,
especificamente das terras ocupadas por essas comunidades e a sua estrutura política. Na
quarta parte, versaremos a educação escolar quilombola como direito postulado pela C.F.
quando, os artigos 215 e 216 dispõem sobre o direito de as comunidades remanescentes de
quilombos manterem suas culturas. O primeiro dispositivo determina que as manifestações

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Artigo apresentado como requisito parcial da disciplina Tendências do Pensamento Educacional (C): Políticas
Públicas de Educação, do Programa de Pós-Graduação em Educação em Educação: Conhecimento e Inclusão
Social, da Universidade Federal de Minas Gerais.
culturais afro-brasileiras sejam protegidas pelo Estado, e o segundo inclui como patrimônio
cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial, incluindo as formas de expressão
e o modo de vida dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira.

Belo Vale: Características gerais e comunidades remanescentes dos quilombos

O antigo arraial que deu origem à atual cidade de Belo Vale foi fundado pelos
primeiros Bandeirantes por volta de 1681. Localizada na região Central do Estado de Minas
Gerais, dentro do Quadrilátero Ferrífero, Belo Vale encontra-se a oitenta e dois quilômetros
de Belo Horizonte, as margens do Rio Paraopeba. O Município possui cerca de sete mil,
quinhentos e trinta e seis moradores, dos quais, 6 553 são alfabetizadas, conforme dados do
IBGE de 2010. O setor primário da economia é preponderante. No setor secundário
prevalecem as fábricas de tijolos e blocos. O setor de serviços está representado por postos
de atendimento do Banco Bradesco, Sicoob, Banco Postal na agência dos Correios e agência
lotérica da Caixa Econômica Federal. O comércio é pequeno, mas representativo. O
Município também conta com o Sindicato dos Produtores Rurais de Belo Vale, Moeda e
Piedade Gerais.
De acordo com a Fundação Cultural Palmares o estado de Minas abriga trezentas e
onze comunidades remanescentes dos quilombos em processos de regularização fundiária
em fases distintas. Dessas, Belo Vale abriga Chacrinha e Boa Morte também certificadas
pela Fundação e em processo de titulação pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma
Agrária (INCRA).
Esse número expressivo de comunidades remanescentes dos quilombos em Minas
Gerais se explica pela quantidade de escravizados trazidos durante o ciclo do ouro e
extrativismo de diamantes e pedras preciosas no século XVIII, além dos trabalhos
agropecuário e outros por eles desempenhados nas casas de fazenda, e cidades por onde
circulavam mercadorias e pessoas. Assim, formadas por escravizados foragidos, libertos ou
abandonados, as comunidades em Minas estão espalhadas por todo o território mineiro,
conforme demonstra a figura 1, em busca dos seus respectivos títulos de propriedade, do
reconhecimento de suas identidades, culturas, autonomia e defesa contra todas as formas de
segregação, preconceito e racismo.

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FIGURA 1 – Mapa das Comunidades remanescentes dos quilombos em Minas
Gerais.

FONTE: http://www.cpisp.org.br/comunidades/html/brasil/mg/mg_mapa.html.

A Comunidade Quilombola Boa Morte está entranhada na Serra da Moeda na


Cordilheira do Espinhaço, a 1700 metros de altitude. Seu entorno está degradado e a água
utilizada pelos residentes é canalizada em virtude da poluição causada pelo extrativismo
mineral. A Comunidade surgiu por volta de 1760, quando os antigos donos da Fazenda Boa
Esperança abandonaram os escravizados doentes ou incapacitados para o trabalho.
Recuperados, não voltavam mais à condição anterior, que mais tarde, em 1871, foi expresso
no Artigo 6º, parágrafo 4º da Lei do Ventre Livre:
Art. 6º. Serão declarados libertos:
§4. Os escravos abandonados por seus senhores. Se estes os abandonarem por
inválidos, serão obrigados a alimentá-los, salvo caso de penúria, sendo os
alimentos taxados pelo juiz de órfãos. (BRASIL, 1871)

Os primeiros escravizados levados para Boa Morte sobreviviam da agricultura e da


criação de animais de pequeno porte, segundo informações obtidas por meio de relatos dos
residentes. Somente depois da Lei do Ventre Livre, além da cultura de subsistência já
praticada, com o auxílio dos senhores proprietários da Fazenda Boa Esperança, o que durou
por pouco tempo em virtude da abolição.
Chacrinha fica a oito quilômetros da sede do município de Belo Vale, entre a Serra
da Moeda e a dos Mascates, no precioso vale do Rio Paraopeba. A origem da Comunidade
também está no ciclo do ouro. Diferentemente da Comunidade Boa Morte, Chacrinha tem
em sua história a marca de um amor entre o fazendeiro e a escravizada. Os residentes relatam

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que o fazendeiro acumulou muita riqueza e não tendo descendentes diretos, deixou toda a
fortuna, inclusive as terras da fazenda, para sua esposa. Logo após a morte do barão, a esposa
alforriou todos os escravizados e permitiu que vivessem em suas terras. Dessa forma,
originou-se o quilombo Chacrinha. Atualmente, tem cerca de cento e quarenta descendentes
daqueles escravizados.
O entorno da Comunidade Chacrinha está bastante degradado em função da ação
mineradora, o que também prejudica a qualidade da água, além da invasão das terras da
antiga fazenda. A antiga casa-grande está em ruínas devido à ação do tempo e da linha férrea
que corta o território, causando poluição sonora e colocando em risco a integridade física
dos moradores. Assim como Boa Morte, Chacrinha já é certificada pela Fundação Cultural
Palmares e o seu processo de titulação está em tramitação no INCRA.
Os residentes das Comunidades Quilombolas Chacrinha e Boa Morte defendem a
demarcação das suas terras, as suas identidades negras quilombola, suas culturas e memórias,
e o reconhecimento do quilombo como um espaço social, com identidade própria, com um
conjunto de elementos culturais que são passados de uma geração para outra de modo
contínuo, dentro de um país multicultural, sem prejuízo das inúmeras culturas brasileiras.
As comunidades remanescentes dos quilombos de Belo Vale/MG caracterizam-se,
como populações tradicionais, pelo forte liame com o território onde vivem, onde se verifica
a luta pela preservação dos recursos naturais. As duas comunidades têm a agricultura de
subsistência como forma de assegurar produtos básicos para o consumo familiar, e pequena
comercialização do excedente em uma feira nos fins de semana em Belo Vale, a fim de
garantir recursos financeiros em espécie para outras necessidades. Na comunidade
Chacrinha o vínculo familiar determina em maior grau as relações sociais.
É no sentido de garantir os direitos atribuídos pela Carta Magna aos remanescentes
dos quilombos que buscamos analisar as políticas de redistribuição de terras no Brasil.
Inferimos que, uma vez tituladas, as comunidades remanescentes dos quilombos encontrar-
se-iam legitimadas e poder-se-iam reivindicar a educação a que dispões as Diretrizes
Curriculares para a Educação Escolar Quilombola, bem como as metas estabelecidas no
Plano Nacional de Educação (2014-2024).

O Federalismo Brasileiro e suas implicações para políticas públicas

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O debate sobre a origem, constituição, desenvolvimento, função e outras
características do federalismo remonta de muito tempo. Para o professor Horta (? p. 10) “o
Estado federal é uma criação jurídico-política e pressupõe na sua origem a existência da
Constituição Federal, para institui-lo”. Originado na Constituição de 1891, que proclama a
indissolubilidade do vínculo federativo, congregando a União e os entes federados, o Estado
brasileiro tem características técnicas de um Estado descentralizado, na medida em que os
entes federados “ampliam as matérias da legislação comum” (HORTA, ?, p. 21) e concedem
“à União a legislação de normas gerais e aos Estados a legislação complementar, no campo
das normas gerais” (idem, ibidem), conservando “a pluralidade de centros de poder
soberanos [...], indispensável para garantir a unidade política e econômica” (BOBBIO ,
1998, p. 481).
No conjunto de temas/problemas que aparecem na fundamentação de análise, o
“Estado surge como principal elemento a partir do qual se pode compreender as relações
estabelecidas” (AROSA, 2016, p. 975), o problema tem natureza política e “o federalismo
parece fornecer o instrumento institucional para realizar, de um lado, a paz e, de outro, o
controle das comunidades sobre o desenvolvimento econômico e sobre a vida social”
(BOBBIO, op. cit, p. 485).
Franzese (2010, p.87) argumenta que, a partir da C.F. de 1988 o federalismo
brasileiro assume o caráter cooperativo e competitivo, “criando um quadro institucional
ambíguo, que promoverá um padrão de relações intergovernamentais predominantemente
competitivo no início da década de 1990”. A dinâmica estudada por Franzese acontece nos
anos 1990 quando os Estados buscam a redução de despesas, em virtude das alterações
econômicas no cenário mundial. Com isso, “as políticas expansão das políticas sociais pós-
1995 no Brasil se dará com limitações de recursos federais e com incremento de
responsabilidades subnacionais” (op. cit, p. 88).
Para Franzese (idem, p. 89) a C.F. não definiu claramente o modelo de federalismo,
contudo, o texto constitucional segue dando margens ao competitivo. Porém, aponta para o
modelo cooperativo quando designa o compartilhamento de responsabilidades.
Przeworsky (1995) acredita que o Estado, para justificar a sua existência política, tem
que redistribuir os recursos da forma mais igualitária possível e o critério de distribuição de
riquezas no capitalismo é conflitante, pois enquanto o mercado pretende distribuir
desigualdade, o Estado propõe uma regra coletiva de distribuição, o que nos remete à Lowi

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(1966) quando discute os três tipos de estruturas políticas: a distributiva, a regulatória e a
redistributiva.
Para Lowi (op. Cit.) as políticas distributivas caracterizam-se pela facilidade com que
podem ser desagregadas e seus recursos, dispensados de forma atomizada a unidades isoladas,
sem obediência a qualquer critério mais geral e universalista". Esta política, segundo o autor, pode
ter como sinônimo o "clientelismo" e a "patronagem", ou seja, existe sempre uma troca de interesses
individualizada e os não favorecidos deste "esquema" perdem sua força porque os mais influentes
entre eles podem sempre ter seus interesses acomodados.
As políticas regulatórias distinguem-se das distributivas pelo fato de, a curto prazo,
envolverem uma escolha direta entre quem será favorecido e quem será desfavorecido".
Estas decisões não têm como objetivo atender às demandas individuais, porque "as decisões
para cada caso devem ser tomadas com base em regras gerais", e permanecem no nível
setorial.
Para a elaboração destas políticas, existe uma forte instabilidade entre os grupos de
poder, impedindo a criação de uma elite organizadora no Congresso, "[parecendo]
desempenhar o papel clássico a eles atribuídos pelos pluralistas". O principal exemplo dado
pelo autor para confirmar sua tese é o da política tarifária americana.
Para Lowi, a questão redistributiva está mais ligada às expectativas de, por exemplo,
redistribuição de rende em programas sociais, ou do que ela possa ameaçar, do que pelos
resultados efetivos que serão obtidos. Os recursos são sempre destinados aos maiores setores
da sociedade, o que dialoga, de certa maneira, com Mills, não existindo vários setores
fragmentados como o pluralismo sugere, e sim uma elite conflitante.
Encontramos nas análises de Lowi (1966) um indicativo para se pensar a demarcação
de terras no Brasil, conforme veremos a seguir.

Demarcação de Terras no Brasil: a incompatibilidade entre a Lei e a ação política

A partir da redemocratização no final dos anos 1980 o Brasil entra em um processo


de elaborar uma nova Constituição. No processo constituinte (1987-1988) foram formados
vinte e quadro subcomissões temáticas, dentre elas, na Comissão da Ordem Social, a
subcomissão dos Negros, Populações Indígenas, Pessoas Deficientes e Minorias. Esta
subcomissão trabalhou para legitimar as aspirações dos cidadãos aos quais os legisladores
ali presentes representavam. Dentre as muitas contribuições da citada Subcomissão,

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destacamos os artigos 3º ao 9º do anteprojeto da seção “Direitos e Garantias” apresentado,
particularmente os artigos que dispõem sobre a educação e ensino de História das populações
negras. Houve mudança da proposta original que, por sua especificidade e particularidade
“deveria ser abordada em legislação específica (JESUS, 2007, P. 401), neste caso a Lei de
Diretrizes e Bases da Educação Nacional, que pouco modificou o inciso 1º do artigo 242 da
Constituição Federal. O artigo 7º do mesmo anteprojeto atribuiu ao Estado o dever de
garantir os títulos definitivos de propriedade definitiva das terras ocupadas pelas
comunidades negras remanescentes dos quilombos, o que está disposto no Artigo 622 do Ato
das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT).
Rua (2009) afirma que políticas públicas correspondem àquelas que resultam do
surgimento de novos atores políticos ou novos problemas. Também, são aquelas que
expressam problemas não resolvidos ou mal resolvidos, ou ainda, são aquelas constituídas
sob um estado de coisas ou por não-decisão.
Para enfrentar as desigualdades, aqui apresentadas pela exclusão de um grupo ao
acesso e permanência em seus territórios, faz-se necessário elaborar, implementar e executar
políticas redistributivas. Como já vimos Lowi (1966) as políticas públicas podem ser
distributivas, regulatórias e redistributivas. Lowi (op. cit, p. 3) argumenta:
As políticas redistributivas assemelham-se às políticas regulatórias, no sentido de
que envolvem relações entre amplas categorias de indivíduos e de que as decisões
individuais precisam ser inter-relacionadas [...]. São muito grandes, porém, há
diferenças na natureza do impacto. Os impactos das políticas redistributivas
atingem categorias do tipo das classes sociais ou alguma coisa próxima disso: ricos
e pobres, grandes e pequenos, burguesia e proletariado. O objetivo envolvido não
é o uso da propriedade, por exemplo, mas a propriedade em si; não está em questão
a igualdade de tratamento, mas a igualdade ou desigualdade em relação à posse;
não se questiona o comportamento, mas a existência. (LOWI, 1966, p. 3)

É na estrutura política atribuída por Lowi (1966) que identificamos o Artigo 68 e o


Decreto 4887/2003 que regulamentou “o procedimento para identificação, reconhecimento,
delimitação, demarcação e titulação das terras ocupadas por remanescentes das comunidades
dos quilombos de que trata o Artigo 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias”
(BRASIL, 2003) como políticas redistributivas.
Os impactos das políticas redistributivas na vida das comunidades remanescentes dos
quilombos são percebidos quando reduz o êxodo rural, o inchaço das cidades e o dispersar
de seus membros (das comunidades urbanas). Garantida a propriedade, garantir-se-á a

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Artigo 68. Aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas terras é
reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-lhes os títulos respectivos.

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produção, o trabalho, a renda, a memória coletiva, a identidade, a cultura, e tudo que é
inerente aos seus costumes.
Tamanha insatisfação dos latifundiários contemporâneos fez com que o Decreto
entrasse na agenda do Partido Democratas (DEM) e do Supremo Tribunal Federal (STF)
uma vez que fora contestada a sua constitucionalidade. Conforme a interpretação do STF
dada ao documento original da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI), o DEM alega
que:
[...] O Decreto presidencial nº 4.887/03 é formalmente inconstitucional, pois, ao
inovar na ordem jurídica, criando direitos e deveres para particulares, invade
espaço reservado à lei em sentido estrito.
Aduz, também, que o citado diploma normativo cria nova espécie de
desapropriação, diversa das modalidades previstas no art. 5º, inciso XXIV, da
Constituição Federal e das reguladas pela legislação correspondente.
Sustenta, outrossim, ser errônea a utilização do critério da autoatribuição para a
identificação dos remanescentes dos quilombos mediante mera declaração do
próprio interessado e que o art. 68 do ADCT exige, para o reconhecimento da
propriedade nele prevista, a comprovação da efetiva ocupação das terras pelos
remanescentes, e não apenas descendentes dos quilombolas. Por fim, defende que
a qualificação das terras como áreas ocupadas por remanescentes dos quilombos
não pode ser atribuída pelos próprios interessados, devendo antes ser objetos de
estudos histórico antropológicos. (BRASIL, STF, 2003)

O julgamento da ADI foi protelado por vários anos. Finalmente, em fevereiro desde
ano, o Supremo Tribunal Federal julgou a improcedência da ADI e a validade constitucional
do decreto. Com isso, a titulação está garantida. Consequentemente, esperam-se que o
INCRA agilize os processos de titulação que garantirá às comunidades maior visibilidade
social e o direito de exigir do Poder Público local suas escolas, ainda que compartilhadas.
Podemos perceber uma ligação direta entre a titulação das terras das comunidades
remanescentes dos quilombos com as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação
Escolar Quilombola (DCNEEQ). Entendemos que, sem o reconhecimento e titulação de suas
terras o movimento e a implementação de suas escolas ficam impedidos. O próximo subitem
tem por objetivo analisar as DCNEEQ na perspectiva de política pública, emanada do
Movimento Negro e decorrente do Artigo 68, do Decreto 4887/2003.

Educação Escolar Quilombola

Cury (2010) mostra que, a partir da C.F. de 1988, o federalismo brasileiro reparte
competências e atribuições legislativas entre os integrantes do sistema, respeitando os limites
expressos na Constituição. Cury defende um sistema nacional de educação, articulado e

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cooperativo sob o federalismo. Isso significa que, para cada ente federado há
responsabilidades e consequências as quais devem assumir e responder.
Já vimos que o federalismo brasileiro surge na base oligárquica por época da
Constituição de 1891. A Constituição de 1891 trouxe no artigo 1º a República Federativa
como forma de governo e a regra da união perpétua e indissolúvel dos Estados membros. A
Carta também instituiu o patrimônio de cada unidade federativa e adotou na repartição
constitucional de competências a técnica de poderes enumerados e reservados. Os poderes
dos Estados membros em matéria tributária foram fixados na Constituição, porém permitiu-
se aos entes no art. 65 exercer "todo e qualquer poder, ou direito que lhes não for negado por
clausula expressa ou implicitamente contida nas clausulas expressas da Constituição”. A
Carta de 1891 manteve a obrigação dos Estados membros de formarem a federação
brasileira, independentemente da vontade das populações locais, e previu, no art. 6º, a
possibilidade de intervenção da União nos entes federados para garantir à força a
manutenção da federação, o que é posto também no artigo 1º da atual C.F.
Sendo federativo, União, Estados e Municípios respondem com igual
responsabilidade às ações políticas, que são estratégicas do ponto de vista funcional do
Estado e da sociedade.
Cavalcanti (2016) busca responder questões acerca das tensões oriundas do/no
processo de financiamento da educação básica, na relação da União com os entes federados.
Conforme os seus estudos, a participação da União no financiamento da educação básica
tem aumentado e incorporado alguns mecanismos de coordenação federativa, embora ainda
não apresenta escala e mecanismos suficientes para promover a equidade e a qualidade
pretendidas.
No cenário de luta para garantir os direitos do povo quilombola desencadeou-se
também as reivindicações pela educação escolar quilombola enquanto política educacional.
Com a agenda das lutas dos movimentos e as conquistas das políticas públicas e dos
programas federais, mesmo que de maneira lenta e complexa, foi-se tornando um pouco mais
visível a necessidade de uma educação escolar específica para a população quilombola,
conforme indicado pela Conferência Nacional de Educação (CONAE) de 2010.
Tratando da Educação para as relações étnica-racial, o inciso VII da LDB dispõe
sobre “a consideração com a diversidade étnico-racial”. Tal dispositivo foi regulamentado
por meio da Lei 10.639/2003 que trata da obrigatoriedade do estudo da História da África e
da Cultura afro-brasileira e africana e do ensino das relações étnico-raciais, instituindo o

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estudo das comunidades remanescentes de quilombos e das experiências negras constituintes
da cultura brasileira. Pelo Parecer CNE/CP nº 03/2004 todo sistema de ensino precisará
providenciar “Registro da história não contada dos negros brasileiros, tais como os
remanescentes de quilombos, comunidades e territórios negros urbanos e rurais” (BRASIL,
2003, p.9) e, posteriormente com a Lei3 11.645/2008.
Consideramos que o Capítulo sobre a Educação da C.F. utiliza-se de políticas
incrementais para concretizar o direito à educação. É no sentido incremental que as
DCNEEQ4 chegam para as comunidades remanescentes dos quilombos, uma vez que agrega
ao conjunto de normas que as regulamentam. Conforme explicado por Lindblom (2009) a
política incremental, independentemente do método de análise usado, consiste em mudança
por meio de pequenos passos, variando de grau. Entende “que o tamanho dos passos, na
formulação de políticas, pode ser distribuído ao longo de um continuum de passos” (p. 182).
Em 2012, a Câmara de Educação Básica (CEB) do Conselho Nacional de Educação
(CNE) aprovou as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Escolar Quilombola
na Educação Básica, entendida como modalidade de educação que compreende as escolas
quilombolas (aquelas que estão localizadas em territórios quilombolas) e as escolas que
atendem estudantes oriundos de comunidades quilombolas.
A Educação Escolar Quilombola compreende a Educação Infantil, o Ensino
Fundamental, o Ensino Médio, a Educação Especial, a Educação Profissional Técnica de
Nível Médio, a Educação de Jovens e Adultos, inclusive a Educação a Distância, e destina-
se ao atendimento das populações quilombolas rurais e urbanas.
É importante compreendermos que a modalidade da educação quilombola está
inserida no contexto mais amplo de buscas para garantir espaços institucionais de educação
formal com vistas à superação da posição subalterna da população negra na sociedade
brasileira, legitimada ao longo da história, inclusive, pelo nosso sistema educacional.
Portanto:
É imprescindível considerar que a garantia da Educação Escolar Quilombola como
um direito das comunidades quilombolas rurais e urbanas vai além do acesso à
educação escolar. Significa a construção de um projeto de educação e de formação
profissional que inclua: a participação das comunidades quilombolas na definição
do projeto político-pedagógico e na gestão escolar; a consideração de suas
estruturas sociais, suas práticas socioculturais e religiosas, um currículo aberto e
democrático que articule e considere as suas formas de produção de conhecimento;

3
Altera a Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, modificada pela Lei nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003,
que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da rede de ensino a
obrigatoriedade da temática "História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena".
4
As DCNEEQ consideram todas os dispositivos constitucionais e legais que amparam os povos tradicionais.

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a construção de metodologias de aprendizagem adequadas às realidades
socioculturais das comunidades; a produção de material didático-pedagógico
contextualizado, atualizado e adequado; a alimentação que respeite a cultura
alimentar das comunidades; a infraestrutura escolar adequada e em diálogo com
as realidades regionais e locais; o transporte escolar de qualidade; a formação
específica dos professores quilombolas, em serviço e, quando for o caso,
concomitante à sua escolarização; a inserção da realidade sociocultural e
econômica das comunidades quilombolas nos processos de formação inicial e
continuada de docentes quilombolas e não quilombolas que atuarão ou receberão
estudantes dessas comunidades na educação. (BRASIL, 2012).

As policy, “no plural policies diz respeito à ação pública, às ações dos governos.
Envolve planejamento e implementação de medidas, práticas e estratégias” (STREMEL,
2016). Nesse sentido, esperamos que os municípios se adequem de tal sorte que garantam as
comunidades remanescentes dos quilombos suas escolas. Esta é a aspiração das
comunidades remanescentes dos quilombos de Belo Vale.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Longe de se apresentar como a única análise das políticas públicas destinadas a


atender as reivindicações do movimento negro, consideramos que muito ainda deve ser
realizado em termos de ação pública. Para além da constatação de lacunas na questão
educacional nas Comunidades Chacrinha e Boa morte, busca-se com estes apontamentos
fomentar a reflexão sobre a necessidade de tradução urgente das conquistas legais
representadas pelo Decreto 4887/2003 e pelas Diretrizes Curriculares Nacionais para a
Educação Escolar Quilombola na Educação Básica em situações de ensino que se
desenvolvam na sala de aula e promovam a construção de aprendizagens significativas pelos
alunos, contribuindo para o fortalecimento da identidade cultural quilombola. Tal
movimento requer a participação popular.
É necessário um esforço coletivo e sistematizado, cooperativo, entre a Secretaria da
Educação do município de Belo Vale, as diretorias de ensino da Secretária de Estado de
Educação de Minas Gerais, equipe de direção e coordenação da escola, equipe de professores
e representantes quilombolas visando construir coletivamente o Projeto Político Pedagógico
e o currículo escolar. É fundamental que os gestores e professores das escolas quilombolas
e das escolas que atendem alunos quilombolas compreendam a importância desses dois
instrumentos para a formação de alunos como sujeitos sociais conscientes do seu papel na
sociedade, que não tenham vergonha de sua cultura, dos modos de produzir e das tradições
do seu povo, ao mesmo tempo em que os prepare para viverem no mundo global, o que

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significa apropriar-se de conhecimentos diversos e não apenas daqueles relacionados ao seu
grupo cultural.
Tanto a formação inicial quanto a formação continuada de professores em serviço
são pilares estruturantes para a implementação da educação quilombola como modalidade
de ensino, juntamente com a elaboração de material didático que atenda às demandas
quilombolas. Para isso, urge mais esforços nas esferas municipal, estadual e federal.
Não duvidamos de que as ações políticas são fundamentais para a concretização do
direito dos povos tradicionais e para a qualidade de nossa democracia. A partir de ações
coletivas, cooperativas entre os entes federados e intencionais será possível construir um
projeto de educação capaz de superar a visão eurocêntrica e homogeneizadora da diversidade
cultural, que atenda aos princípios de uma educação para a igualdade racial e cumpra as
diretrizes estabelecidas na Resolução CEB/CNE nº 08/2012 (BRASIL, 2012b).

REFERÊNCIAS

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uma análise dos trabalhos apresentados no GT5 da ANPEd (2000-2010). Perspectiva,
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http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/lim/LIM2040.htm >. Acesso em 10 de junho de
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do Brasil de 1988. Brasília, DF, 1988. Disponível em: <
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BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros


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2003. Regulamenta o procedimento para identificação, reconhecimento, delimitação,
demarcação e titulação das terras ocupadas por remanescentes das comunidades dos
quilombos de que trata o art. 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias.
Brasília, DF, 2003a. Disponível em: <
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/2003/d4887.htm >.Acesso em: 14 de junho
de 2018.

12
BRASIL. Presidência da República. Casa Civil. Lei nº 10.639, de 09 de janeiro de 2003.
Altera a Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da
educação nacional, para incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da
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2003b. Disponível em: < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/2003/L10.639.htm >.
Acesso em: 14 de junho de 2018.

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