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TRABALHO INFANTIL NO TRÁFICO DE DROGAS: CAUSAS, CONSEQUÊNCIAS

E A APLICAÇÃO DAS MEDIDAS SOCIOEDUCATIVAS

BRITO, Bethiane Cabral


SANTOS, Vanessa Érica da Silva (Professor Orientador)

Centro de Ciências Jurídicas e Sociais-CCJS/UFCG

SUMÁRIO: INTRODUÇÃO – FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA – LEGISLAÇÃO


BRASILEIRA E OS DIREITOS FUNDAMENTAIS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
– TRÁFICO DE DROGAS NO BRASIL E A CAPTAÇÃO DA MÃO DE OBRA INFANTIL
– O TRABALHO INFANTIL NO TRÁFICO DE DROGAS CAUSAS E CONSEQUÊNCIAS
– APLICAÇÃO DAS MEDIDAS SOCIOEDUCATIVAS – METODOLOGIA –
CONSIDERAÇÕES FINAIS – REFERÊNCIAIS.

RESUMO
O presente artigo traz uma abordagem sobre o trabalho infantil no tráfico de drogas, as causas
que levam, crianças e adolescentes a entrarem nesse mundo ainda na infância e adolescência,
além de verificar as consequências que surgem e as medidas socioeducativas que são
aplicadas no jovem infrator. Para atingir os objetivos propostos foi utilizado o método de
abordagem dedutivo, o método de procedimento o comparativo e a técnica de pesquisa
Bibliográfica e documental. Analisou-se em primeiro momento a legislação que procura
estabelecer e resguardar os direitos fundamentais da criança e do adolescente, e que garantem
um crescimento adequado e digno, dando sequência com as causas e consequências e por
último discorre-se sobre as medidas socioeducativas encontrada na Lei n° 8,069/90, aplicadas
ao menor infrator. Dentro desse contexto foi discutido, os impactos sociais e os problemas que
podem surgir na vida da criança e do adolescente submetidos a essa forma de exploração. Ao
final, concluiu-se que o Estado se mostra ineficiente nas garantias previstas pelo ECA e que o
tráfico de drogas tem utilizado a mão de obra infantil, de modo a trazer a necessidade de
traçar políticas públicas para efetivar a ressocialização das crianças e adolescentes infratoras.

Palavras-chave: Trabalho infantil, Tráfico de drogas, Direito.

1. INTRODUÇÃO
O trabalho infantil é um tema que precisa ser continuamente debatido, mesmo que
em algumas situações ele passe pela invisibilidade diante da sociedade, é inegável que é uma
atividade cotidiana na vida de muitas famílias, crianças e jovens no Brasil.
Segundo dados fornecidos pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios
Contínua (PNAD), feita no ano 2016 mostra que de um total de 40,1 milhões de crianças entre
5 e 17 anos, 1,8 milhão tinha alguma ocupação durante a semana em que foi realizada a
pesquisa, desse total de crianças que se encontravam ocupadas, estavam no mercado de
trabalho em 2016, 34,7% eram do sexo feminino e 65,3%, do sexo masculino. Essa ocupação
varia entre atividades rural, doméstica, comércio e reparação, entre outros, dentre as crianças
com idade entre 14 e 15 anos na posição de empregado 85% não tinha carteira assinada e nas
idades entre 16 e 17 apenas um percentual de 29,2% tinha carteira assinada (IBGE,2016).

Dessa forma, a população infantil em ocupação não permitida é representada pelo


número de crianças de 5 a 13 anos de idade que realizaram alguma atividade durante
ao menos uma hora na semana de referência (estimado em 190 mil pessoas)
acrescido dos contingentes de crianças de 14 ou 15 anos ocupadas que não
obedeceram às condições legais de jovem aprendiz (estimado em 196 mil pessoas) e
das crianças de 16 ou 17 anos sem registro formal (estimado em 612 mil pessoas).
Esse somatório representou, em 2016, 54,4% das pessoas ocupadas no grupo etário
de 5 a 17 anos. Vale ressaltar que as demais condições que caracterizam o trabalho
infantil, como a realização de atividades insalubres ou perigosas (mesmo que o
trabalhador seja registrado) e o treinamento devido ao jovem aprendiz, não são
captadas pela pesquisa e, portanto, não foram contabilizadas no percentual referente
à população infantil em ocupação não permitida (IBGE, 2016, p. 04 e 05).

Tais informações demostram um grande número de crianças e adolescente, que se


submetem a condição de trabalho e muitas das vezes de forma precária, quase análoga a
escravidão, em um tempo de suas vidas onde deveriam usufruir da liberdade de poder estudar,
brincar e ter uma infância digna, com todos os seus direitos resguardados frente a sociedade e
com garantia do Estado.
No que diz respeito aos piores tipos de trabalho, onde se utiliza a mão de obra
infantil, o tráfico de drogas é considerado na lista da OIT como uma das piores formas (OIT,
1999).
Dentro dessa perspectiva, entende-se, que a utilização da mão de obra infantil se
caracteriza por ferir direitos fundamentais, a criança e o adolescente necessita de condições
adequadas para seu desenvolvimento social e pessoal, direitos relativos a educação, saúde,
lazer, podem ser retirados da criança ou adolescente que é submetido a exercer atividades que
empregam caráter de trabalho, quando estas deveriam ocupar seu tempo para evoluir de
acordo com a sua condição. O tráfico proporciona um ambiente de perigo duplo a criança não
só está sendo explorada, como também, sujeita a condição de virar um possível usuário de
drogas, ou mais tarde entrar para o mundo do crime nos mais diversos ramos.
Por meio do método de abordagem dedutivo, do método de procedimento
comparativo e da técnica de pesquisa bibliográfica, analisar-se-á a questão do trabalho infantil
no Brasil no tráfico de drogas, suas implicações e efeitos sobre a sociedade, o contexto onde
esta criança ou adolescente estão inseridos e principalmente o próprio indivíduo em destaque.
Desde modo será possível enriquecer os debates sobre o tema proposto, despertando o olhar
para o combate do trabalho infantil.

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.1 Legislação brasileira e a garantia dos direitos fundamentais da criança e do


adolescente

O legislador na elaboração do texto constitucional, deve a preocupação de


estabelecer os direitos e garantias fundamentais da criança e adolescente, em seu art. 227
dispõe:

Art. 227. É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao


adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à
alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao
respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a
salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade
e opressão. (BRASIL, 1988)

O artigo especifica, que a criança e o adolescente devem ter seus direitos assegurados
por todos, como considera Silva (2019, p.06) “A intenção do constituinte originário foi de
encarregar à família, a sociedade e ao Estado da importante tarefa de assegurar os direitos da
criança e do adolescente, em virtude da sua condição de pessoa em desenvolvimento”.
Além da previsão constitucional, temos no nosso ordenamento jurídico uma lei
específica que trata sobre a criança e o adolescente, é a Lei n° 8,069/90, que dispõe sobre o
Estatuto da criança e do adolescente e dá outras Providências (ECA), a lei considera criança
aquele cuja a idade vai até 12 (doze) anos e adolescente a pessoa entre 12 (doze) de até 18
(dezoito) anos, em seu Artigo. 3º estabelece:

A criança e o adolescente gozam de todos os direitos fundamentais inerentes à


pessoa humana, sem prejuízo da proteção integral de que trata esta Lei, assegurando-
se-lhes, por lei ou por outros meios, todas as oportunidades e facilidades, a fim de
lhes facultar o desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, em
condições de liberdade e de dignidade. (BRASIL, 1990)

O legislador ao elabora o Estatuto da Criança e adolescente trouxe em seu Artigo. 4º,


em consonância com o texto constitucional a seguinte redação. Veja-se:
Art. 4º É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público
assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à
saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à
cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária.
(BRASIL, 1990)

No que diz respeito ao trabalho infantil, o ECA procurou abordar em seus Artigos.
60° ao 69°, questões relativas do direito a profissionalização e à proteção no trabalho, pontos
que, o legislador atenta a idade mínima para adentrar no mercado de trabalho, sendo essa de
14 (quatorze anos) quando na condição de aprendiz, além de assegurar que o jovem esteja
inserido na escola e que sua condição peculiar na característica de pessoa enquanto ainda em
desenvolvimento seja respeitada, entre outras medidas. Veja-se o texto:

Art. 60. É proibido qualquer trabalho a menores de quatorze anos de idade, salvo na
condição de aprendiz.
[…] Art. 63. A formação técnico-profissional obedecerá aos seguintes princípios:
I - garantia de acesso e freqüência obrigatória ao ensino regular;
II - atividade compatível com o desenvolvimento do adolescente;
III - horário especial para o exercício das atividades.
Art. 65. Ao adolescente aprendiz, maior de quatorze anos, são assegurados os
direitos trabalhistas e previdenciários.
[…] Art. 67. Ao adolescente empregado, aprendiz, em regime familiar de trabalho,
aluno de escola técnica, assistido em entidade governamental ou não-governamental,
é vedado trabalho:
I - noturno, realizado entre as vinte e duas horas de um dia e as cinco horas do dia
seguinte;
II - perigoso, insalubre ou penoso;
III - realizado em locais prejudiciais à sua formação e ao seu desenvolvimento
físico, psíquico, moral e social;
IV - realizado em horários e locais que não permitam a freqüência à escola.
[…] Art. 69. O adolescente tem direito à profissionalização e à proteção no trabalho,
observados os seguintes aspectos, entre outros:
I - respeito à condição peculiar de pessoa em desenvolvimento;
II - capacitação profissional adequada ao mercado de trabalho. (BRASIL, 1990)

Percebe-se que, a lei nos artigos analisados, versa sobre as condições de trabalho em
que será submetido o jovem, demostrando grande preocupação para que este seja tratado de
acordo com sua condição, e que o mesmo não seja prejudicado em seu desenvolvimento.
Com base nas previsões legais que garantem o Estado, os pais, responsáveis e
também da sociedade em geral, é perceptível que em nada falha o legislador, contudo a
prática se mostra bem diferente. Diante de uma sociedade tão numerosa muitas crianças e
adolescentes estão jogados a margem, precisando serem responsáveis por si mesmas, quando
não também por parte de sua família, é nesse sentido que muitas delas adentram no mercado
de trabalho irregular e abusivo, que usam de sua fragilidade e necessidade para explorar sua
mão de obra.

2.2 Tráfico de drogas no Brasil e a captação da mão de obra infantil

O tráfico de drogas no Brasil tem crescido em grande escala e se tornado um


mercado ilícito que predomina a informalidade e a ilegalidade se tornando sem dúvida uma
forma de crime organizado, pois apresenta como tal, organização, divisão de trabalho,
hierarquia, além de outras características predominantes, como observa Pereira (2011, p.03),
“o tráfico de drogas ilícitas sempre se pautaram em manter uma certa organização, hierarquia,
divisão do “trabalho”, ilicitude, clandestinidade, planejamento de lucros, violência e
intimidação, aspectos que diferenciam o “crime organizado” de outras atividades ilícitas”.
No Brasil segundo o Levantamento Nacional de Informações penitenciarias
(INFOPEN, 2017), em dezembro de 2017 existem o total de 586.772 de homens e 21.022 de
mulheres presos por crimes com relação as drogas, já no sistema de medida socioeducativa
que trata do sistema relacionado ao menor infrator, o Conselho Nacional de Justiça, a infração
por tráfico de drogas é a que corresponde ao maior número de jovens cumprindo medidas
socioeducativas.
O tráfico de drogas mesmo sendo considerado um mercado de drogas ilícitas, ainda é
um mercado, onde emprega mesmo que de forma regular emprega uma boa quantidade de
mão de obra, que muita das vezes e fonte de sustento de muitas famílias, segundo Cabistani
(2017, p.36) “O tráfico, portanto, não se resume a uma questão puramente criminal, pois trata-
se de uma atividade em que milhares de pessoas empregam sua força de trabalho, seu tempo e
seu suor para conseguir manter o próprio sustento e o de suas famílias”. Dentro desse sistema
o mais comum é encontrar crianças e adolescentes vendendo sua mão de obra, a situação de
pobreza em que vivem é um perfeito aliado para serem capturadas pelos traficantes, conforme
Silva e Parrão (2017). Por outro lado as facções preferem crianças pois possuem maior
competência para algumas funções, a remuneração é menor, ficam menos tempo presas,
conforme explicita Romão e Patti (2011).Outra perspectiva que vale salientar é o que observa
Pessoa:
Em uma sociedade que hipervaloriza o consumo, produzindo a necessidade de
acessar bens manufaturados, é compreensível que adolescentes e jovens, que foram
altamente estimulados a participar desse mercado, ambicionem, de alguma forma, a
obtenção de tais produtos. Na impossibilidade da compra por meios convencionais,
ou seja, acumulando capital suficiente por meio do trabalho, alguns desses indivíduos
partirão para estratégias alternativas. O tráfico de drogas torna-se, então, atrativo para
esse segmento. (PESSOA, 2015, p. 44)

A marginalização e a falta de oportunidade para esses adolescentes segundo Pessoa


(2015), fazer com que procurem outra forma de preencher seus desejos, e mesmo com os
perigos e riscos é nesse meio que eles encontram uma maneira de suprir sua condição de
miserabilidade.

2.3 O trabalho infantil no tráfico de drogas causas e consequências.

O trabalho infantil tem destaque por ser uma forma de mão de obra, barata e fácil,
que levam muitas crianças e adolescentes a submissão de situações muitas vezes degradantes
e que prejudicam seu desenvolvimento pessoal, psicológico, causando sequelas e ferindo os
seus direitos fundamentais. A OIT na Convenção nº 182 convocada em Genebra em 1º de
junho de 1999 sobre Proibição das Piores Formas de Trabalho Infantil e Ação Imediata para
sua Eliminação em seu Artigo. 3°, considerou a tráfico de drogas umas das piores formas de
exploração do trabalho infantil veja-se: “utilização, recrutamento e oferta de criança para
atividades ilícitas, particularmente para a produção e tráfico de entorpecentes conforme
definidos nos tratados internacionais pertinentes;” as crianças submetidas a esse campo de
atuação em sua maioria se encontram em condições sociais de vulnerabilidade, financeira,
afetiva, familiar, além de muitas das vezes estarem vislumbradas com a ideia de poder,
riqueza que o tráfico passa.
Conforme observa Silva e Parrão (2017 , p.05) “Uma característica irrefutável
observada nestes casos é o consumo da droga, isto é, primeiro o adolescente passa a fazer o
uso de algum tipo de substância psicoativa para depois seguir para o tráfico”.
Além do mais como verifica os autores o alcance desse tipo de mão de obra está
localizado principalmente em lugares onde não alcançados pelas políticas públicas, capazes
de proporciona proteção social. Veja-se:

Outra característica importante é que essa forma ilegal de se utilizar a mão de obra
infantil avança nos locais onde não há proteção, isto é, locais no qual as políticas
públicas não chegam para atender as demandas desses adolescentes e suas famílias.
É seguro dizer que adolescentes em situação de pobreza acabam se tornando alvos
fáceis dos traficantes que conseguem a mão de obra desejada com facilidade.
(SILVA E PARRÃO, 2O17, p. 05)

Crianças e adolescentes com baixa escolaridade, com dificuldades de entrar no


mercado de trabalho, que vivem a margem da sociedade, vítimas de violência, que não
conseguem alcançar espaço para atingir seu desenvolvimento social, que ficam sujeitos a todo
tipo de influências ilícitas, longe do alcance do Estado, são alvos fáceis para o mercado das
drogas, segundo Feffermann :

Aqueles pertencentes às classes subalternas vivem em dupla situação de risco, pois,


participam de uma socialização incompleta (1), onde há poucas oportunidades de
integração no mercado de trabalho ‒ aspecto reforçado pela baixa escolaridade. Por
isso, são alvos fáceis para o mercado das drogas e do álcool e, quando surpreendidos
ao cometerem infrações, enfrentam reprimendas que podem lhes custar a vida. A
“vulnerabilização” social de adolescentes e jovens que vivem em favelas e ou áreas
periféricas das cidades e fazem parte das classes populares aparece em todas as
questões acima apontadas. (FEFFERMANN, 2018, p. 142)

As consequências advindas desse mercado são destrutivos na vida da criança e do


adolescente, são duplamente, autores e colaboradores para o mundo do crime e também em
sua maioria as grandes vítimas, como observa Feffermann (2018, p. 142) “Os adolescentes e
jovens inscritos no tráfico de drogas são considerados, com o empenho da Indústria Cultural,
os responsáveis pela violência, embora sejam, a um só tempo, as principais vítimas das mortes
violentas nas estatísticas policiais”.
Interessante abordagem traz Silva e Parrão (2017), quando aponta que o tráfico de
drogas por ser considerado crime hediondo gera outra forma de utilização da mão de obra
infantil, os traficantes usam desse benefício e procuram ludibriar os jovens com promessas de
dinheiro fácil, proteção e luxo, como consequência “quando esse adolescente percebe que isso
tudo na verdade é só ilusão, o dinheiro fácil, a vida de luxo, a proteção, ele já está envolvido e
dificilmente conseguira sair” (SILVA E PARRÃO,2017, p. 06).
Os jovens que são encontrados no tráfico de drogas, pela condição de sua idade, são
levados a cumprir medidas socioeducativas, que muita das vezes não são suficientes para
abolir a prática na vida dessa criança ou adolescente, fazendo surgir um grande índice de
reincidência. Veja-se:

[…] o adolescente que é flagrado cometendo o ato infracional de tráfico de drogas é


punido com as medidas socioeducativas, […] Por se tratar de uma atividade ilegal o
traficante não é atuado pela exploração, como ocorre nas empresas nas quais se
encontra crianças e adolescentes trabalhando ilegalmente […] se faz necessário a
realização de um trabalho rigoroso de prevenção e não somente a punição depois
que o ato já foi praticado (SILVA E PARRÃO, 2017, p.06).
É uma realidade de difícil compreensão, de um lado crianças e jovens marginalizados
pela sociedade, vivendo sob condições sub-humanas necessitadas do amparado Estatal, e que
encontram no mundo do crime uma alternativa, onde são levados também pela sua
fragilidade, sob o aspecto psicológico, onde não possuem ainda o discernimento apropriado
para lidar com algumas questões da vida, mas que se encontram no abandono e por isso são
facilmente aliciados.

2.4 Aplicação das medidas socioeducativas

Como já exposto em parágrafos anteriores, uma das formas de erradicar ou, pelo
menos, controlar a atividade e prevenir que o jovem volte atuar nesse mercado, são as
aplicações de medidas socioeducativas.
O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), considera no que diz respeito ao ato
infracional praticado por criança prevê no Artigo. 101, as possíveis medidas a serem
aplicadas, tais como:

Art. 101. Verificada qualquer das hipóteses previstas no art. 98, a autoridade
competente poderá determinar, dentre outras, as seguintes medidas:
I - encaminhamento aos pais ou responsável, mediante termo de
responsabilidade;
II - orientação, apoio e acompanhamento temporários;
III - matrícula e freqüência obrigatórias em estabelecimento oficial de ensino
fundamental;
IV - inclusão em serviços e programas oficiais ou comunitários de proteção,
apoio e promoção da família, da criança e do adolescente;
V - requisição de tratamento médico, psicológico ou psiquiátrico, em regime
hospitalar ou ambulatorial;
VI - inclusão em programa oficial ou comunitário de auxílio, orientação e
tratamento a alcoólatras e toxicômanos;
VII - acolhimento institucional;
VIII - inclusão em programa de acolhimento familiar;
IX - colocação em família substituta. (BRASIL,1990)

O seu Artigo. 112, estabelece as medidas que deverão ser consideradas no caso do
menor infrator (adolescente):
Art. 112. Verificada a prática de ato infracional, a autoridade competente poderá
aplicar ao adolescente as seguintes medidas:
I - advertência;
II - obrigação de reparar o dano;
III - prestação de serviços à comunidade;
IV - liberdade assistida;
V - inserção em regime de semi-liberdade;
VI - internação em estabelecimento educacional;
VII - qualquer uma das previstas no art. 101, I a VI. (BRASIL,1990)

Como não podem ser penalmente responsabilizados, as medidas cabíveis são mais de
caráter protecionista, a considerar o fator da idade, da condição psicológica, e a preocupação
do legislador em ressocializar, restaurar essa criança ou adolescente para o inserir na
sociedade, para que ele possa se desenvolver adequadamente.
O conselho nacional de Justiça (CNJ,2016) disponibiliza dados referentes ao número
de jovens que estão cumprindo medida socioeducativa no Brasil por tráfico de drogas, em
novembro do ano de 2015, 96 mil menores se encontravam cumprindo medida socioeducativa
e neste ano já são 192 mil. O tráfico de drogas é o crime mais frequente entre os jovens; há
quase 60 mil guias ativas expedidas pelas Varas de Infância e Juventude do país por este ato
infracional. Veja-se os dados:

(CNJ, 2016)1
O gráfico demostra o quanto a mão de obra infantil é utilizada e vantajosa para o
mercado do tráfico, como observa Silva (2019, p.17) “Os problemas no sistema
socioeducativo brasileiro persistem e até pioraram. Uma das questões que precisam ser
1
Disponível em:<http://www.cnj.jus.br/noticias/cnj/84034-trafico-de-drogas-e-o-crime-mais-cometido-
pelos-menores-infratores >.
enfrentadas pelos governos diz respeito ao uso de drogas e à cooptação dos jovens para o
tráfico”. O autor ainda observa que:

Se não houver uma política pública efetiva relativa à questão do uso e tráfico de
drogas, que envolva também os adolescentes, o problema persistirá. Não adianta
pensar em alteração legislativa se não houver efetiva política pública em relação ao
adolescente. O trabalho infantil e o mercado ilegal avançam nos locais onde não há
proteção ou políticas públicas para atender as demandas das crianças e da sociedade.
É preciso trabalhar muito mais a prevenção e um conjunto de ações que busque
ocupar o espaço dominado pela venda de droga. É notório no cenário
socioeconômico e cultural do Brasil que vivemos em uma sociedade desigual, na
qual são enormes as disparidades de suas condições de vida, educação, trabalho e
saúde. (SILVA, 2019, p. 17)

É necessário que haja políticas públicas realmente eficazes que pretendam realmente
reintegrar a comunidade essa população infanto juvenil que se encontram em conflito com a
lei, de forma que não ocorra reincidência, garantindo as condições necessárias para a condição
de vida adequada para eles possam se desenvolver.

3. METODOLOGIA
Para atingir aos objetivos propostos se utilizou do método dedutivo como método de
abordagem, tendo em vista que partiu da totalidade do tema de trabalho infantil associado ao
tráfico de drogas para se chegar ao problema setorial de formas de combate ao problema.
Quanto a natureza da pesquisa, se trata de pesquisa aplicada, pois “objetiva gerar
conhecimentos para aplicação prática, dirigidos à solução de problemas específicos”
(GERHARDT; SILVEIRA, 2009, p. 35), que na presente hipótese se destinou a trabalhar
especificadamente com a ressocialização do trabalho infantil ligado ao crime de tráfico de
drogas.
Para diagnóstico da pesquisa, adotou-se o procedimento comparativo, pois houve a
investigação das problemáticas enfrentadas pelas crianças e adolescentes, bem como a
comparação aos direitos preceituados na norma.
Quanto ao procedimento técnico, foi utilizado a pesquisa bibliográfica, em que se
realiza “através de levantamento de referências teóricas já analisadas, e publicadas por meios
escritos e eletrônicos, como livros, artigos científicos, páginas de web sites” (FONSECA,
2002, p. 32), bem como foi utilizada a pesquisa documental, que “recorre a fontes mais
diversificadas e dispersas, sem tratamento analítico, tais como: tabelas, estatísticas, jornais,
revistas, relatórios, documentos oficiais, fotografias […]” (FONSECA, 2002, p. 32), dando
enfoque aos dados levantados pelo CNJ e IBGE.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O trabalho infantil sob qualquer forma é algo impróprio, quando não falar destrutivo
na vida de muitas crianças e adolescentes que estão em uma fase da vida onde deveriam
usufruir do aprendizado, lazer, segurança, e outras situações proporcionais para sua idade,
crescimento pessoal e psicológico, sendo ilegal e desumano tirar desses indivíduos seus
direitos fundamentais e submetê-los a situações de risco e desfavorecimento.
Pela lei é obrigação do Estado, pais, responsáveis e toda a sociedade, que seus
direitos sejam efetivados, contudo é notório que existem muitas falhas que precisam ser
sanadas, o trabalho infantil já é inadmissível e torna-se pior quando se trata do que foi
considerado pela OIT umas das piores formas de exploração infantil, que é o tráfico de
drogas.
Crianças e adolescentes desassistidos pelo poder público, em situação de desajuste
familiar, fora do campo de ensino, frágeis financeiramente, psicologicamente, que acabam por
serem alvos fáceis, diante de um mercado que oferece, proteção, riqueza fácil, em um sistema
onde muita das vezes são considerados violadores da lei e vítimas ao mesmo tempo, sofrem
cotidianamente pelas perdas.
Infelizmente entende-se que mesmo havendo uma legislação que a princípio se
mostra eficaz, a falta de políticas públicas que venha alcançar esses jovens e crianças que
vivem sob essas circunstâncias ainda é notório, as medidas socioeducativas estabelecidas pelo
ECA nem sempre trazem o resultado esperado, muitos desses indivíduos tentem a retornar ao
mundo do crime por não acharem outra opção. É necessário que seja trabalhado de forma
eficaz e continua não só a ressocialização, mas também a prevenção, que pode ser a forma
mais eficiente para erradicar, essa e outras formas de exploração da mão de obra infanto
juvenil no nosso país.

5. REFERÊNCIAS

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DF: Senado Federal, 1988.

BRASIL. Lei no 8. 069, de 13 de julho de 1990. Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do


Adolescente e dá outras Providências, Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil,
Brasília, DF, 16 jul. 1990. Disponível em: <
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8069.htm > acesso em: 03 set. 2019
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