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JEANNE MARIE GAGNEBIN

APAGAR OS RASTROS,
RECOLHER OS RESTOS

Na tradição filosófica e historiográfica, o conceito de "rastro"


é caracterizado por sua complexidade paradoxal: presença de
uma ausência e ausência de uma presença, o rastro somente existe
em razão de sua fragilidade: ele é rastro porque sempre ameaçado
de ser apagado ou de não ser mais reconhecido como signo de
algo que assinala. Esse caráter paradoxal também afeta os usos
do conceito por Benjamin. Neste texto, gostaria de desenvolver
esse paradoxo de maneira mais precisa. Na reflexão de Benjamin,
o estatuto paradoxal do "rastro" remete à questão da manuten-
ção ou do apagamento do passado, isto é, à vontade de deixar
marcas, até monumentos de uma existência humana fugidia, de
um lado, e às estratégias de conservação ou de aniquilamento
do passado, do outro.
Na esteira de Bertolt Brecht, em particular na injunção do
poema paradigmático "Verwisch die Spuren", Benjamin denun-
cia a vontade individualista e "burguesa" de deixar rastros de
·sua existência na Terra, seja na arquitetura, seja na produção
artística ou econômica. Desejo, sem dúvida, de afirmação e de
perpetuação de uma dominação que deveria continuar intacta
mesmo depois da morte de um indivíduo da classe dominante,
mas desejo também de resistir à dissolução do indivíduo
enquanto ser privado na dinâmica do capitalismo avançado,
na multidão da grande cidade, na produção e no consumo de
massa. Lembramos em particular suas célebres análises a respeito
da arquitetura interior, da moradia como "cápsula" (Gehause)
..
aconchegante que deveria proteger do anonimato total, ou da
acumulação de souvenirs, de estojos ou caixinhas, que deveriam
compensar o "desaparecimento de vestígios da vida privada na
cidade grande" .1 O tom crítico de Benjamin nesse capítulo sobre a
figura do flâneur em Baudelaire não pode nos fazer esquecer que
essas descrições também concernem às possibilidades de sobre-
vivência do bibliófilo e colecionador que ele mesmo encarnava.
A obrigação de se despojar de imagens e de livros adquiridos
a duras penas, testemunhos de uma mínima continuidade da
própria existência, essa obrigação dolorosa nasce da condição
de refugiado, de clandestino ou de ilegal que Benjamin, como
tantos em sua época e ainda hoje, conheceu de perto.
Essa condição de clandestinidade e de ilegalidade é a chave
hermenêutica da leitura de Benjamin do primeiro e nono poemas
do Manual para habitantes de cidades, de Brecht. Trata-se de
"apagar os rastros", seja por cautela própria, no primeiro poema,
ou por intervenção rápida de anfitriões, cuja hospitalidade se torna ~
cada vez mais fugaz, no nono: "A injunção do primeiro poema
'Apague os rastros' completa-se para o leitor do nono na observa-
ção suplementar: melhor do que quando são apagados para ti." 2
Nos mesmos comentários sobre os poemas de Brecht, Benjamin
observa que esse ciclo, escrito antes da Segunda Guerra, tem um
..
COI
dei

dai
pnl
valor premonitório em relação à condição de ilegalidade e de ela
emigração à qual o autor se verá forçado em breve: "A criptoemi-
gração [isto é, um tipo de emigração interior do comunista Brecht

IIÍII
durante a República de Weimar] foi a forma anterior da emigração foi
autêntica; também era uma forma anterior de ilegalidade." 3 dil
No curto texto "Experiência e pobreza", Benjamin insistia c:ã
nas mutações que a pobreza, justamente, de experiência acarreta Dei
para as artes contemporâneas, enfatizando, na esteira de Brecht
e contra uma estética da harmonia e do belo, que não se trata
mais de ajudar, reconfortar ou consolar os homens pela edifi-
cação de uma beleza ilusória, defendendo antes as provocações

28
das vanguardas. Nesse contexto, já citava o famoso poema de
Brecht "Apague os rastros", do qual cito as duas últimas estrofes:

O que você disser, não diga duas vezes.


Encontrando seu pensamento em outra pessoa: negue-o.
Quem não escreveu sua assinatura, quem não deixou retrato
Quem não estava presente, quem nada falou
Como poderão apanhá-lo?
Apague os rastros!

Cuide, quando pensar em morrer


Para que não haja sepultura revelando onde jaz
Com uma clara inscrição a lhe denunciar
E o ano de sua morte a lhe entregar
Mais uma vez:
Apague os rastros!

(Assim me foi ensinado.) 4

Se, nesse texto, a ênfase de Benjamin sobre o desaparecimento


dos rastros é interpretada de maneira bastante afirmativa, no
contexto de uma polêmica contra a arte burguesa, contra o
desejo de perpetuação do indivíduo da classe dominante e numa
defesa da radical destrutividade das vanguardas, os comentários
dos poemas, escritos na mesma época, ressaltam muito mais a
precariedade da ilegalidade e da clandestinidade. Denunciam
claramente a política de terror do nazismo quando Benjamin
observa, em relação à última estrofe do poema, a ausência de
túmulo: "Somente essa injunção poderia ser caduca; esse cuidado
foi removido por Hitler e sua gente das preocupações do [cida-
dão] ilegal." 5 Essa observação, feita por Benjamin bem antes da
existência dos campos de concentração, aponta para uma temá-
tica essencial, mesmo que pouco desenvolvida, na sua reflexão: a
importância do túmulo, do respeito devido aos mortos (lembro
que Benjamin anota criticamente o gesto pretensamente ilumi-
nista dos protagonistas das Afinidades eletivas, de Goethe, que
não hesitam em remover túmulos para transformar um cemitério

29
em jardim); nem os mortos, segundo a tese VI, "Sobre o conceito
de história", estão em segurança diante da profanação do inimigo -~
tomla
que não para de vencer. Devemos lembrar que a palavra sema em
grego, traduzida geralmente como signo ou vestígio ou rastro,
significa originalmente "túmulo", por exemplo, em Homero,
quando os guerreiros da Ilíada lutam em torno do cadáver de
um companheiro, para poder enterrá-lo, ou imploram para serem
--,
éa . . .

..

sepultados, deixando assim um rastro material de sua existência


e de sua coragem. Deveremos voltar a isso.
No mesmo capítulo do flâneur, Benjamin introduz uma longa
digressão sobre a relação apaixonada de Baudelaire e Edgar
Allan Poe pelo viés de uma teoria do romance de detetive, já que
Baudelaire traduziu poemas e, sobretudo, as Histórias extraor-
dinárias, de Poe, trabalho que lhe rendeu regularmente algum
dinheiro. O interesse de Benjamin pelo romance de detetive e o
romance policial é grande. Quando se consulta a lista dos livros

...........
lidos por ele, anotados com regularidade, observa-se que entre
Montherlant, Gide, Kafka ou Trotsky surgem regularmente, em
particular desde 1933, quando mora em Paris, os romances de
o.
Georges Simenon e de outros autores de romances policiais ou
de detetives: Le relais d'Alsace, Les treize coupables, M. Gallet,
décédé, Le pendu de Saint-Pholien, Le port des brumes, Les gens
d'en-face, La nuit du carrefour, somente para evocar títulos de *c::IG
Simenon lidos por Benjamin em 1933 e 1934. 6 Por enquanto, ._.
~

...
não conheço nenhuma tese sobre Walter Benjamin e Georges
Simenon, mas acho que o assunto valeria a pena! Não se trata
cdilt
-tir~
somente de leituras contra as insónias certamente frequentes
de Benjamin. Com efeito, o que lhe interessa transparece nesse
capítulo do flâneur e remete, justamente, à questão da grande
cidade e do desaparecimento dos rastros:
........
iaael
drm

A história de detetive [die Detektivgeschichte], cujo interesse reside


numa construção lógica, que, como tal, a novela criminal não precisa
possuir, aparece na França pela primeira vez com a tradução dos contos
....

=-:=11
de Poe: "O mistério de Marie Roget", "Os crimes da Rua Morgue", "A ~ pll
carta roubada". Ao traduzir esses modelos, Baudelaire adotou o gênero. :as&II

30
. . J.:-e<,. ' ..•. ;·'·.i'..
/61h,~*'tÍ·"rilt
·:·,,~1r:r.:· ·- \~~!
. _,

Sua própria obra foi totalmente perpassada pela de Poe (... ) O conteúdo
social originário [ursprünglich] da história de detetive [Detektivgeschicht]
é a supressão dos vestígios [Die Verwischung der Spuren, o apagamento
dos rastros, a mesma expressão dos poemas de Brecht] do indivíduo na
multidão da cidade grande. 7

Se as palavras são idênticas, pois se trata tanto em Brecht


como em Poe/Baudelaire, de "apagamento de rastros" e da convi-
vência dos indivíduos na grande metrópole capitalista moderna,
o próprio conceito de rastro, de Spur, adquire no contexto da
história de detetive uma conotação mais precisa. Com efeito,
como o filósofo Emmanuel Lévinas observou num contexto
totalmente diferente, dever-se-ia fazer uma diferenciação entre
um conceito amplo de rastro como signo e um conceito mais
estrito, desprovido de conexão com a intencionalidade daquele
que deixa um rastro. Escreve Lévinas:

O rastro não é um signo como outro. Mas exerce também o papel


de signo. Pode ser tomado por um signo. O detetive examina como
signo revelador tudo o que ficou marcado nos lugares do crime, a obra
voluntária ou involuntária do criminoso; o caçador anda atrás do rastro
da caça; o rastro reflete a atividade e os passos do animal que ele quer
abater; o historiador descobre, a partir dos vestígios que sua existência
deixou, as civilizações antigas como horizontes de nosso mundo. Tudo
se dispõe em uma ordem, em um mundo, onde cada coisa revela outra
ou se revela em função dela. Mas, mesmo tomado como signo, o rastro
tem ainda isto de excepcional em relação a outros signos: ele significa
fora de toda intenção de fazer signo e fora de todo projeto do qual
ele seria a visada (... ) O rastro autêntico (... ) decompõe a ordem do
mundo; vem como "em sobreimpressão". Sua significância original
desenha-se na marca impressa que deixa, por exemplo, aquele que quis
apagar seus rastros, no cuidado de realizar um crime perfeito. Aquele
que deixou rastros ao querer apagá-los, nada quis dizer nem fazer pelos
rastros que deixou. Ele decompôs a ordem de forma irreparável. Pois
ele passou absolutamente. Ser, na modalidade de deixar um rastro, é
passar, partir, absolver-se. 8

31
Não precisamos seguir Lévinas em suas conclusões teológico-
-filosóficas para poder concordar com sua descrição do rastro
como um signo aleatório e não intencional, um signo/sinal
desprovido de visada significativa. O exemplo do ladrão que, ao
...
EI

04
querer apagar seus rastros, deixa outros que não quis é eloquente: 41111
enquanto signo, no sentido clássico do termo, em particular o ~
linguístico, que tenta transmitir uma "mensagem", como se diz, ~
relacionada às intenções, às convicções, aos desejos do seu autor,
o rastro pode se voltar contra aquele que o deixou e até ameaçar
•1
~1

~
sua segurança. Nesse sentido muito preciso de signo não inten-

.-..~
cional, o rastro remete a algo que excede a vontade consciente do
sujeito; a algo também que pode ameaçá-lo em sua integridade, PNi
como os poemas de Brecht ressaltam. A algo, continua Benjamin
no mesmo capítulo do flâneur, que, paradoxalmente, introduz a
uma "rede de controle ampla" 9 da parte do Estado e da polícia, ~
E4
...
controle crescente, desde a numeração dos domicílios citadinos
até as imagens gravadas por câmeras invisíveis, um controle que caim
deveria ajudar a perseguir indivíduos transformados em exem-
plares quase invisíveis do mesmo anonimato. ~
~
Num artigo fundamental, o historiador Carlo Ginzburg traça
um paralelo instigante entre as figuras do detetive, do historia-
dor e do psicanalista quando cita Freud, que, por sua vez, cita o
historiador de arte e médico italiano Giovanni Morelli, no seu
...-.
~

ensaio consagrado ao Moisés de Michelangelo: ~


~
Creio que o seu [de Morelli] método está estreitamente aparentado ~
O.t
à técnica da psicanálise médica. Esta também tem por hábito penetrar
em coisas concretas e ocultas através de elementos desdenhados ou
desapercebidos, dos detritos ou "refugos" de nossa observação. 10

Esses restos, esses detritos, cuja importância na obra de Kafka


será ressaltada por Adorno, 11 são sinais daquilo que escapa ao
controle da consciência em Freud e da memória voluntária em
Proust; rastros involuntários ou inconscientes de algo que não
está explícito.

32
... O pesquisador historiador, o detetive ou o psicanalista não
o se perguntam mais sobre as intenções do sujeito que deixou
u uma marca, escrita, artística, socioeconômica, mas sim sobre
o o que podem revelar rastros reconhecidos como signos de algo
e: que ficou sem que sejam frutos de uma intenção explícita. De
o maneira muito próxima, a historiografia crítica de Benjamin
z, procura por rastros deixados pelos ausentes da história oficial
~r, (os oprimidos, die Unterdrückten), à revelia da historiografia
ar em vigor e, também, por rastros de outras possibilidades de
n- interpretação de uma imagem imutável dos acontecimentos e das
lo obras do passado, tal como é transmitida pela tradição em vigor.
le, Procuram por aquilo que escapa ao controle da versão dominante
in da história, introduzindo na epicidade triunfante do relato dos
:a vencedores um elemento de desordem e de interrogação. Esses
rastros são geralmente pouco visíveis num duplo sentido: não
ia,
se destacam, não são os "traços dominantes de uma época",
os
como se costuma dizer, e também são muito mais detalhes que
ne
parecem aleatórios, restos insignificantes que, à primeira vista,
n-
poderiam e deveriam ser jogados fora.
Assim também, no conhecido conto de Kafka, Odradek, esse
ça
ser misto de restos, de pedaços de fio e de madeira, essa coisa viva
ia-
que fala, ri e se esconde, escapa ao controle do pai de família e é
lO
fonte de sua preocupação justamente por isso, sem precisar causar-
eu
-lhe, aparentemente, dano algum. 12 Essa relevância do detalhe, em
particular do dejeto e do caco, foi imortalizada por Baudelaire,
quando comparou o trabalho do poeta ao do Lumpensammler
ido
ou do chiffonier, 13 hoje talvez se diria do sucateiro, comparação
rar
realçada por Benjamin e que pode também ser uma metáfora do
ou
trabalho do historiador materialista. 14 Explicaria também essa
relevância a predileção de Benjamin por aquilo que ele mesmo
chama de filologia e sua desconfiança em relação a interpretações
ka globalizantes, a partir do todo, como tantas vezes seu amigo -
ao e censor - Adorno dele exigiu: o todo tende, mesmo quando
em segue um desígnio de denúncia crítica, a ofuscar a complexidade
ão esquecida dos objetos em prol da pretensa soberania do sujeito
(ninguém soube disso melhor, aliás, que o próprio Adorno!).15

33
i
1

O historiador materialista de Benjamin e o médico psicana-


lista de Freud são ambos caracterizados por essa atenção ao
detalhe, ao insignificante e ao detrito; nos termos de Baudelaire,
ambos seriam especialistas no capharnaüm des rebuts (no
"cafarnaum dos dejetos ou da escória"). Tanto Benjamin quanto
Freud retomam a metáfora do arqueólogo que procura os vestí- ""paci
gios do passado nas diversas camadas do presente, sem saber cm n:l
se encontrará somente alguns cacos, uma estátua quebrada, o DIU 41!
torso de uma figura desaparecida. O arqueólogo não pode temer \ffBII
remover a terra do presente, isto é, colocar talvez em perigo dc.E1
as edificações que ali se erguem. Deve ficar atento a pequenos cspal
restos, a detritos, irregularidades do terreno que, sob sua super- bmcl
fície aparentemente lisa e ordenada, talvez assinalem algo do noad
passado que foi ali esquecido e soterrado. Detlev Schottker 16 mo11
ressalta essa proximidade metafórica entre Freud e Benjamin
para descrever o processo de rememoração e de reconstru-
ção/destruição da história pessoal ou coletiva. Cita o texto
"Construção em análise", de Freud, que estabelece a analogia
entre o trabalho do arqueólogo e o do analista 17 e observa que
Benjamin utiliza a mesma imagem do arqueólogo por duas vezes:
quando reflete sobre o empreendimento de contar sua infância
e juventude, no manuscrito Berliner Chronik, que deveria ser
o primeiro esboço da Infância em Berlim, e numa "imagem de anlrl
pensamento", intitulada Ausgraben und Erinnern. 18 Aliás, nos
dois fragmentos, Benjamin usa a mesma palavra que Freud
para falar das cidades soterradas: elas se encontram verschüttet,
cobertas de terra e de Schutt, de detritos e de ruínas como aqueles
que deixam as bombas depois da destruição. Freud, no entanto,
--
alliat

do la
ao
p,l,e
pi:

relativiza essa destruição e afirma que, diferentemente da maior GMb.


parte das escavações arqueológicas, que somente encontram mip(II
fragmentos e ruínas a partir dos quais se pode ou não concluir Üffl
a respeito da totalidade do edifício, o analista geralmente pode
reencontrar uma formação psíquica intacta, mesmo que ela
tenha sido esquecida ou recalcada, como renasceu Pompeia

34
1uma exceção feliz na história da arqueologia!) sob as cinzas,
porque se "tem o direito de duvidar, se existe qualquer formação
psíquica que realmente foi objeto de uma total destruição" .19
Benjamin é menos confiante, certamente porque ele não fala do
trabalho construído pelo analista a partir dos fragmentos que o
.. paciente" evoca, mas da busca pessoal (e coletiva nas "Teses")
em relação a seu próprio passado: "Quem pretende se aproxi-
mar do próprio passado soterrado [der eigenen verschütteten
Vergangenheit] deve agir como um homem que escava", escreve
ele. E continua, explicando que se deve proceder com cuidado,
espalhar muita terra, voltar aos mesmos pontos, retomar as
buscas, ir segundo um mapeamento preciso, mas também confiar
no acaso. Sobretudo, como "num bom relatório arqueológico",
não se deve só indicar o que foi achado, mas também anotar
com precisão todas as camadas que tiveram que ser atravessadas,
marcar no "chão de hoje sítio e lugar" (im heutigen Boden Ort
,md Stelle) onde foi escavado.
Talvez à diferença de Freud, Benjamin não ressalta tanto o
resultado da escavação, mas muito mais o próprio processo.
Aliás, se algo for encontrado, será no melhor dos casos um ·
"'torso" quebrado, um caco, um pedaço de estátua incompleta. A
atividade do cavar e do escavar (graben, ausgraben) é uma cons-
tante na filosofia de Benjamin, desde suas reflexões sobre melan-
colia e interpretação alegórica do livro Origem do drama barroco
alemão. Ela não remete só ao abismo sem fundo (Abgrund)
do lembrar e do pensar, mas, essencialmente, à lembrança e
ao pensamento como formas de sepultamento: o verbo cavar,
graben, pertence ao mesmo radical que o substantivo túmulo,
Grab. E aqui reencontramos o motivo, ao qual já aludi antes, da
importância do túmulo e dos mortos no pensamento de Benjamin.
O verdadeiro lembrar, a rememoração, salva o passado, porque
procede não só à sua conservação, mas lhe assinala um lugar
preciso de sepultura no chão do presente, possibilitando o luto
e a continuação da vida. O historiador e psicanalista francês

35
Michel de Certeau descreverá de maneira muito próxima o
trabalho do historiador como um rite d'enterrement (um rito
de sepultamento). 2 º Somente esse trabalho de rememoração e de
• 11
- .
li

narração, sob a égide da morte e do túmulo, possibilita, como


diz Benjamin em Rua de mão única, que se possa esculpir uma
•a
..•
e:
outra imagem, a do futuro:
;
Torso. Somente quem soubesse considerar o próprio passado como
.,...
fruto da coação e da necessidade seria capaz de fazê-lo, em cada pre- ..,
sente, valioso ao máximo para si. Pois aquilo que alguém viveu é, no
melhor dos casos, comparável à bela figura à qual, em transportes,
foram quebrados todos os membros, e que agora nada mais oferece a
.. Ili

el
não ser o bloco precioso a partir do qual ele tem que esculpir a imagem
do seu futuro. 21 ..
~

NOTAS
1
"Die Spurlosigkeit des privaten Lebens in der grossen Stadt zu entschãdigen"

--
(Walter Benjamin, Gesammelte Schriften, herausgegeben von Rolf Tiedemann
ZJil
e Hermann Schweppenhãuser, Frankfurt/M., Suhrkamp, 1972-1989, v. 1-2,
p. 548) [tradução brasileira: idem, Charles Baudelaire: um lírico no auge do
capitalismo, trad. José Carlos Martins Barbosa e Hemerson Alves Baptista, São 3 ..

Paulo, Brasiliense, 1989, p. 43, Obras escolhidas, v. III].


••
••
2
"Die Vorschrift des ersten Gedichts 'Verwisch die Spuren' vervollstãndigt sich
dem Leser des neunten in dem Zusatz: besser ais wenn sie dir verwischt werden"
(idem, Gesammelte Schriften, v. 11-2, p. 560, tradução minha).
••
3

4
"Die Krypto-Emigration war die Vorform der eigentlichen; sie war auch eine
Vorform der Illegalitãt" (ibidem, p. 560, 556, tradução minha).
"Was immer du sagst, sag es nicht zweimal I Findest du deinen Gedanken bei
einem andem: veleugne ihn. / Wer seine Unterschrift nicht gegeben hat, wer ken
Bild hinterliess I Wer nicht dabei war, wer nichts gesagt hat I Wie soll der zu
--
~



ai
fassen sein! I Verwisch die Spuren! // Sorge, wenn du zu sterben gedenkst Idas
n

....
kein Grabmal steht und verrãt, wo du liegst I Mit einer deutlichen Schrift, die Oi
dich anzeigt I Und dem Jahr deines todes, das dich überführt! I Noch einmal: "'I
I Verwisch die Spuren! I (Das wurde mir gesagt.)" (Bertold Brecht, Poemas,
trad. Paulo César de Souza, São Paulo, Editora 34, 2000, p. 57-58, tradução
modificada). .:;.aj
IDI
5
"Diese Vorschrift allein konnte veraltet sein: diese Sorge wurde dem Illegalen ,e
von Hitler und seinen Leuten abgenommen" (Benjamin, Gesammelte Schriften, ?:i
V. 11-2, p. 556). ::,i

36
O \·er "Verzeichnis der gelesenen Schriften" (ibidem, v. VII-1, p. 466-468).
ro · Ibidem, v. I-2, p. 544-546 (tradução brasileira: Idem, Paris do Segundo Império,
p. 40-41).
de
' Emmanuel Lévinas, Humanismo do outro homem, trad. Pergentino Pivato,
no Petrópolis, Vozes, 1993, p. 75-76, grifo do autor, tradução ligeiramente mo-
na dificada. Tomo aqui a liberdade de remeter o leitor ao meu ensaio, "O rastro
e a cicatriz: metáforas da memória" (Jeanne Marie Gagnebin, O rastro e a
cicatriz: metáforas da memória, em Lembrar, escrever, esquecer, São Paulo,
Editora 34, 2006, p. 107-118).

no • "Ein ausgedehntes Kontrollnetz" (Benjamin, Gesammelte Schriften, v. I-2,


p. 549) [tradução brasileira: Idem, Paris do Segundo Império, p. 40-41].
re-
'" "Ich glaube, sein [Morellis] Verfahren ist mit der Technik der iirtzlichen
no Psychoanalyse nahe verwandt. Auch diese ist gewohnt, aus geringgeschiitzten
es, oder nicht beachteten Zügen, aus dem Abhub - dem 'refuse' - der Beobachtung,
Geheimes und Verborgenes zu erraten" (citado por Cario Ginzburg, Sinais:
ea raízes de um paradigma indiciário, em Mitos, emblemas, sinais: morfologia
:m e história, São Paulo, Companhia das Letras, 1991, p. 143) [Sigmund Freud,
Der Moses des Michelangelo, em Studienausgabe, Frankfurt/M., Fischer, 1969,
v. X, p. 207].
1
' "De acordo com Freud, a psicanálise dirige sua atenção aos 'refugos do mundo
das aparências': os elementos psíquicos, atos falhos, sonhos e sintomas neuróticos.
Kafka peca contra uma tradicional regra do jogo ao produzir arte exclusivamente
a partir do que é recusado pela realidade" (T. W. Adorno, Anotações sobre
n" Kafka, em Prismas: crítica cultural e sociedade, São Paulo, Ática, 1998).
nn
- Franz Kafka, A preocupação do pai de família, em Um médico rural: pequenas
-2, narrativas, São Paulo, Companhia das Letras, 1999, p. 41-42.
do
13
ão "Trapeiro e poeta - os dejetos dizem respeito a ambos; solitários, ambos realizam
seu negócio nas horas em que os burgueses se entregam ao sono; o próprio gesto é
o mesmo em ambos. Nadar fala dopas saccadé de Baudelaire; é o passo do poeta
eh que erra pela cidade procurando a presa das rimas; deve ser também o passo do
n" trapeiro que, a todo instante, se detém no seu caminho para recolher o lixo em
que tropeça" (Benjamin, Paris do Segundo Império, p. 79, tradução levemente
modificada). Baudelaire não só escreve o poema "Le vin des chiffoniers" ("O
ne vinho dos trapeiros" ), mas descreve da seguinte maneira o seu trabalho: "Voici
un homme chargé de remasser les débris d'une journée de la capitale. Tout ce
que la grande cité a rejeté, tout ce qu'elle a perdu, tout ce qu'elle a dédaigné,
lel
rout ce qu'elle a brisé, il le catalogue, il !e collectionne. II compulse les archives
rn
de la débauche, le capharnaüm des rebuts. II fait un triage, un choix intelligent; il
tU
ramasse, comme un avare un trésor, les ordures qui, remâchées par la divinité de
as !'Industrie, deviendront des objets d'utilité ou de jouissance" (Charles Baudelaire,
lie Oeuvres completes, Paris, Gallimard, 1961, p. 327) (tradução para o português:
LI: "Eis um homem encarregado de apanhar os restos de um dia da capital. Tudo o
IS, que a grande cidade rejeitou, tudo o que perdeu, tudo o que desdenhou, tudo o
io que partiu, ele o cataloga e coleciona. Compulsa os arquivos da libertinagem, a
cafarnaum dos refugos. Faz uma separação, uma escolha inteligente; reúne, como
um avarento um tesouro, os lixos que, mastigados pela divindade da Indústria,
:n se tornarão objetos de utilidade ou de recreio" (idem, Paraísos artificiais, em
n, Poesia e prosa, Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1995, p. 354)]. Benjamin cita esse
fragmento na obra supracitada e no caderno J das Passagens.

37
14
Ver, a esse respeito, o artigo de Irving Wohlfarth, Et Cetera? De l'historien comme
chiffonier, em Walter Benjamin et Paris, apres. e org. H. Wismann, Paris, Cerf,
1986.
15
Ver a troca de cartas entre Adorno e Benjamin, em particular a famosa carta
de 10 de novembro de 1938 (T. W. Adorno e Walter Benjamin, Briefwechsel,
1928-1940, Frankfurt/M., Suhrkamp, 1994, p. 364 et seq.), a respeito da primeira
versão do texto de Benjamin sobre Baudelaire, "Paris do Segundo Império".
16
Detlev Schottker, Erinnern, em Michael Opitz e Erdmut Wizisla (ed. ), Benjamins
Begriffe, Frankfurt/M., Suhrkamp, 2000.
17
Sigmund Freud, Konstruktion in der Analyse, em Studienausgahe. Erganzugsband,
Frankfurt/M., Fischer, [1937] 1969, p. 396-397: "Seine [des Analytikers] Arbeit
der Konstruktion oder, wenn manes so lieber hiirt, der Rekonstruktion, zeigt eine
weitgehende Übereinstimmung mit der des Archãologen, der eine zerstiirte und
verschüttete Wohnstãtte oder ein Bauwerk der Vergangenheit ausgrãbt" [tradução
para o português: "Seu trabalho [do analista] de construção, ou, se se preferir, e
de reconstrução, assemelha-se muito à escavação, feita por um arqueólogo, de
oco
alguma morada que foi destruída e soterrada, ou de algum edifício antigo" (idem,
Construções em análise, em Edição standard brasileira das obras psicológicas se.i
completas de Sigmund Freud, trad. Jayme Salomão, Rio de Janeiro, Imago, 1976,
v. XXIII, p. 293)]. qml

18
Respectivamente em Benjamin, Gesammelte Schriften, v. VI, p. 486-487; mil

19
v. IV-1, p. 400-401. Só existe tradução do segundo texto em: idem, Imagens
do pensamento, em Rua de mão única, trad. Rubens Rodrigues Torres Filho e
José Carlos Martins Barbosa, São Paulo, Brasiliense, 1987, p. 239-240, Obras
escolhidas, v. II. "Escavando e recordando" - eu traduziria mais literalmente:
"Escavar e lembrar".
"Man darf ja bekanntlich bezweifeln, ob irgendeine psychische Bildung wirklich
voller Zerstiirung anheimfallt" (Freud, Konstruktion in der Analyse, p. 398,
..
prol
sipi

a 311
CIII i
tradução minha). suai
20
"Por um lado, no sentido etnológico e quase religioso do termo, a escrita repre-
senta o papel de um rito de sepultamento (un rite d'enterrement); ela exorciza a
morte introduzindo-a no discurso. Por outro lado, tem uma função simboliza-
dora; permite a uma sociedade situar-se, dando-lhe, na linguagem, um passado
e abrindo assim um espaço próprio para o presente (... ) A escrita não fala do
passado senão para enterrá-lo. Ela é um túmulo no duplo sentido de que, através
do mesmo texto, ela honra e elimina" (Michel de Certeau, A escrita da história,
Rio de Janeiro, Forense-Universitária, [1975] 1982).
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Walter Benjamin, Rua demão única, São Paulo, Brasiliense, 1989, p. 41-42, Obras
escolhidas, v. II. "Torso. Nur wer die eigene Vergangenheit ais Ausgeburt des
Zwanges und der Not zu betrachten wüsste, der wãre fahig, sie in jeder Gegenwart
auf hochste für sich wert zu machen. Denn was einer lebte, ist bestenfalls der
schiinen Figur vergleichbar, der auf Transporten alie Glieder abgeschlagen
wurden, und die nun nichts ais den kostabaren Block abgibt, aus dem er das
Bild seiner Zukuft zu hauen hat" (idem, Einbahnstrasse, em Gesammelte
Schriften, herausgegeben von Rolf Tiedemann und Hermann Schweppenhãuser,
Frankfurt/M., Suhrkamp, 1972-1989, v. IV-1, p. 118).

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