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Balada ODD, marco na cena noturna

de São Paulo, celebra quatro anos de


vida
Festa faz uma mistura explosiva de música, performances
e ativismo em lugares abandonados ou escondidos da
cidade

4.abr.2019 às 20h15

João Perassolo

SÃO PAULO Passa da uma da madrugada em uma noite


de mais de 30 graus quando os baladeiros reunidos
na Vila dos Galpões, na Mooca, começa, a ouvir uma
série de barulhinhos eletrônicos que parecem saídos
de um filme de ficção científica dos anos 1980. É um
som um tanto experimental e viajante.

A jornada dura cerca de meia hora até que os “blips”,


“blops” e “tóins” vão cedendo lugar a uma sonoridade
dançante, que une a um só tempo o tradicional bate-
estaca da música eletrônica com bastante melodia. A
house music que toma conta da pista ao ar livre leva
o público a levantar os braços, a gritar e a assobiar
para o DJ. 
Era a primeira edição do ano da ODD (“odd” significa
estranho, em inglês), noite mensal de música
eletrônica que completa quatro anos agora. A balada
se transformou em um marco na cena noturna de São
Paulo ao levar para espaços inusitados da cidade uma
mistura de música, performance de corpo e ativismo
queer, atraindo um público médio de 1.500 pessoas
por edição.

“Desde o início a ideia era que a ODD fosse mais do


que um espaço de entretenimento ou só de audição
de música. Queria que fosse uma incubadora de
ideias e artistas”, diz Márcio Vermelho, um dos
fundadores da festa, ao lado dos DJs e produtores
musicais Davis e Pedro Zopelar
(https://120bpm.blogfolha.uol.com.br/2015/11/16/959-zopelar-contra-o-tempo/).

A ODD é o desdobramento de outro projeto de


Márcio Vermelho chamado Laço
(https://fotografia.folha.uol.com.br/galerias/25438-festa-laco#foto-395526),
que
durou de 2011 a 2016. O evento levava apresentações
musicais, performances e instalações para o subsolo
do extinto Paço das Artes
(https://www1.folha.uol.com.br/colunas/maryhee/2013/04/1258299-balada-flerta-
com-a-arte-modernosa.shtml) da Cidade Universitária e para a
Casa das Caldeiras.

“A gente convidava artistas que experimentavam de


mil formas —no som, por exemplo, era algo mais
‘noisy’, e a programação visual da festa era muito
importante. Naquele momento comecei a trazer
performers”, conta Vermelho, ele próprio um dos DJs
mais influentes da cidade.

Na ODD, as performances ganhariam protagonismo,


arrancando do público vibração semelhante às
discotecagens de estilos como house, techno e
synthwave. Há em média quatro performers por
edição, que se apresentam à frente ou ao lado dos
DJs, dançando sobre a mesa onde ficam os toca-
discos.

Uma das revelações é Aun Helden, que usa máscaras


de borracha que lembram ETs ou fetos com olhos
pretos esbugalhados. Com seus 13 mil seguidores no
Instagram, chamou a atenção até da descolada
revista britânica Dazed.
Aun Helden “se opõe aos rígidos padrões binários de
uma sociedade patriarcal 
cis-heteronormativa”, escreveu a publicação, dizendo
que seus shows refletem os medos da juventude
brasileira na era de Jair Bolsonaro
(https://www1.folha.uol.com.br/especial/2018/governo-bolsonaro/). “É arte
com uma agenda biopolítica firmemente enraizada
na condição humana”, acrescentava o artigo. 

A ODD, que teve sua primeira edição em um


inferninho na rua Bento Freitas, é talvez o expoente
máximo de uma cena de baladas nascidas no lastro
da extinta Voodoohop
(https://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff1204201026.htm), a primeira
noite a decretar que festa boa não era em boate, mas
sim na rua, de preferência em prédios abandonados
com uma estética de ruína que lembra Berlim.

Para a nova fornada de festas —que inclui Mamba


Negra (https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2018/12/mamba-negra-faz-cinco-
anos-virando-noites-em-fabricas-desativadas-de-sp.shtml), Metanol, Gop
Tun, Selvagem e A Tenda—, sair do confinamento dos
clubes não significou apenas uma mudança física. A
troca de ambientes trouxe um público muito mais
variado em relação ao das boates, em geral
extremamente segmentado.

Entre os frequentadores da ODD estão tanto o


menino magérrimo de camiseta justa, plataforma e
meia verde, com visual que lembra os clubbers dos
anos 1990, quanto jovens da periferia usando
camisetão e óculos escuros, escorados nas paredes
com cara de mau. Há também loirinhos de olhos
azuis de roupa de surfista e basicões de jeans e
camiseta.
Boa parte do público da festa é gay, abaixo dos 30
anos, e abraça a fluidez de gêneros. Nas áreas de
descanso, é comum ver meninos de miniblusa se
abanando com leque e conversando no feminino. Há
também uma lojinha que vende acessórios fetichistas
de látex colorido e argolas de metal. Ou seja, todas as
sexualidades são bem-vindas e, se não abraçarem
uma definição precisa, tanto melhor.

“A ODD é um espaço livre de homofobia e de


transfobia. É um lugar de trocas, de se sentir
protegido para ser quem a gente é”, afirma Vermelho,
que começou sua carreira tocando em saunas gays da
Santa Cecília. “A festa é um espaço de resistência a
essa tensão e a esse triste momento político em que
vivemos.”

O espírito político da ODD tem um lado. Vermelho


conta que a festa teve uma edição na véspera do
segundo turno das eleições presidenciais do ano
passado em uma praça na Barra Funda, de graça,
para todos. A escolha da data teria sido estratégica.
“Foi muito arriscado, porque estavam tendo aqueles
ataques na rua [contra gays]”, diz. “Mas foi
emocionante. A festa foi muito legal.”

A ODD, agora, se prepara para explorar outras áreas.


Está previsto para este mês o lançamento do
primeiro disco do selo musical da festa, a ODDiscos,
tocado pelo sócio Pedro Zopelar.

Será uma compilação de quatro faixas dos DJs


residentes Zopelar, Davis, Juliana Frontinn e Márcio
Vermelho. Em seguida, sai um EP do Vermelho
Wonder, projeto de Vermelho com a drag queen Ivana
Wonder (https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2017/06/1893830-rainhas-da-
montacao-novas-drag-queens-expandem-limites-do-humano.shtml).

ENDEREÇO DA PÁGINA

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2019/04/bal
odd-marco-na-cena-noturna-de-sao-paulo-celebra-
quatro-anos-de-vida.shtml