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A nova razão do mundo – ensaio sobre a sociedade neoliberal

Pierre Dardot e Christian Laval

Pierre Dardot é filósofo e pesquisador da Universidade Paris-Ouest Nanterre-La Defénse.


Christian Laval é professor de sociologia na mesma universidade.
Juntos publicaram também Comum – ensaio sobre a revolução no século XXI e uma outra obra que
ainda não tem tradução em português (O pesadelo que não termina – como o neoliberalismo
derrota a democracia, em tradução livre).

- O livro é uma obra de esclarecimento político sobre o neoliberalismo, entendido como uma lógica
normativa global.

- Primeira edição do livro: 2009. Objetivo era combater o erro de diagnóstico que surgiu com a
crise financeira de 2008 (“o fim do neoliberalismo”, reabilitação da intervenção governamental na
economia – ilusões). A crise não provocou o enfraquecimento das políticas neoliberais, e sim o seu
brutal fortalecimento com os planos de austeridade. Estados cada vez mais ativos na promoção da
lógica da concorrência dos mercados financeiros.

- Tese central do livro: o neoliberalismo não é somente uma ideologia e a política econômica
inspirada nessa ideologia, mas acima de tudo uma racionalidade que produz uma lógica normativa
(ou sistema normativo) que orienta internamente a prática efetiva dos governos, das empresas e
das pessoas, mesmo que elas não tenham consciência disso.

- Característica principal da racionalidade liberal: concorrência como norma geral de conduta e


empresa como modelo geral de subjetivação.

O neoliberalismo pode ser definido como um conjunto de discursos, práticas e dispositivos que
determinam um novo modo de governo dos homens segundo o princípio universal da concorrência.
Governo pela liberdade (e não contra ou a despeito da liberdade) – agir ativamente no espaço de liberdade
dos indivíduos para que se conformem por si mesmos a certas normas.

O neoliberalismo não apenas destrói regras, instituições, direitos, como também produz certos tipos de
relações sociais, certas maneiras de viver, certas subjetividades. Ele define uma norma de vida, a forma de
nossa existência: como somos levados a nos comportar, a nos relacionar com os outros e com nós mesmos;
rege as políticas públicas e as relações econômicas mundiais, transforma a sociedade e a subjetividade. O
neoliberalismo é a nova razão do mundo, global em ambos os sentidos (mundial / integradora de todas as
dimensões da existência humana).

- Papel ativo do Estado: instauração da ordem (construção do mercado) a partir do princípio da


concorrência (entendido como a essência da ordem de mercado) e supervisão do quadro geral
para que todos os agentes econômicos respeitem o princípio da concorrência.

- Estado-empresa: o Estado também se submete a essa racionalidade, à norma da concorrência,


também é obrigado a ver a si mesmo como uma empresa, a construir-se de acordo com as normas
do mercado. Governo empresarial / governança do Estado.

- Primazia absoluta do direito privado – esvaziamento progressivo das categorias de direito


público.
Não houve retirada do Estado diante do mercado, nem conquista dos Estados pelo mercado a partir de
fora. Foram os Estados, e os mais poderosos em primeiro lugar, que introduziram e universalizaram na
economia, na sociedade e neles próprios a lógica da concorrência e o modelo de empresa. Políticas
“intervencionistas” promovendo a financeirização da economia, alterando as relações sociais e os papéis
das instituições de proteção social e educação. Orientação das condutas para uma concorrência
generalizada entre os sujeitos. Os próprios Estados estão inseridos num campo de concorrência regional e
mundial que os leva a agir dessa forma. O mercado moderno não atua sozinho: ele foi sempre amparado
pelo Estado (Marx, Weber, Polanyi).

- Indivíduo-empresa: o Estado empreendedor e os atores privados da governança levam


indiretamente os indivíduos a conduzir-se como empreendedores. A racionalidade neoliberal
produz os sujeitos de que necessita impondo o governo empresarial de si mesmo: o indivíduo deve
buscar sempre a maximização de seus resultados, expondo-se a riscos e assumindo inteira
responsabilidade por eventuais fracassos.

Implantação de técnicas que visam a produzir formas mais eficazes de sujeição, com a marca das violências
sociais típicas do capitalismo: a tendência a transformar o trabalhador em uma simples mercadoria.
Corrosão progressiva dos direitos do trabalhador. Aumento considerável do grau de dependência dos
trabalhadores com relação aos empregadores. Naturalização do risco: exposição cada vez mais direta dos
assalariados às flutuações do mercado, pela diminuição das proteções e das solidariedades coletivas.
Transferindo os riscos para os assalariados, produzindo o aumento da sensação de risco, as empresas
puderam exigir deles disponibilidade e comprometimento muito maiores. As técnicas de gestão são usadas
para obter a adesão do indivíduo a essa norma de conduta e para medir o seu comprometimento
(avaliação), sob pena de sanções.

- Reflexão: a demanda por protagonismo e autonomia dos indivíduos, (“assumir as rédeas” da


própria vida, ser dono de si mesmo, liberdade de ser e fazer o que quiser) teve como contrapartida
neoliberal a redistribuição dos riscos do Estado e da empresa para o indivíduo.

- Uma racionalidade antidemocrática: a extensão da racionalidade empresarial a todas as esferas


da existência humana corrói os fundamentos da democracia liberal:
> desaparecimento da separação entre esfera privada e esfera pública;
> corrosão dos direitos sociais, afetando a igualdade entre os cidadãos (reforço das desigualdades
sociais e da exclusão social) e, consequentemente, a cidadania (fim do movimento de integração
dos assalariados no espaço político mediante o estabelecimento das condições concretas da
cidadania, que caracterizou o Estado de bem-estar social);
> corrosão das liberdades civis (consciência, pensamento, expressão) e do respeito às formas legais
e procedimentos democráticos – desempenho (eficácia) como único critério de validação das
ações políticas (discurso único: gerencial);
> dessimbolização da política;
> fortalecimento do Poder Executivo (depreciação da lei e tentativa de isentar-se do controle
judicial);
> redução da democracia a um procedimento de escolha dos dirigentes políticos (por eleição).

A igualdade de tratamento e a universalidade dos benefícios são questionadas pela individualização do


auxílio, pela seleção dos beneficiados e pela concepção consumista do serviço público (“só devo pagar por
aquilo que recebo diretamente”, “só deve ser beneficiado quem paga pelo benefício”). O acesso a certos
bens e serviços não é mais considerado ligado a um status que abre portas para direitos, mas o resultado
de uma transação entre um subsídio e um comportamento esperado (governamentalidade – adesão
“voluntária” à norma de conduta) ou um custo direto para o usuário (concepção consumista e
individualista). A figura do “cidadão” investido de uma responsabilidade coletiva desaparece pouco a pouco
e dá lugar ao homem empreendedor: “consumidor soberano” ao qual a sociedade não deve nada, aquele
que “tem de se esforçar para conseguir o que quer” e deve “trabalhar mais para ganhar mais”.
A reforma gerencial da ação pública atenta diretamente contra a lógica democrática da cidadania social,
reforçando as desigualdades sociais na distribuição de auxílios, serviços públicos e empregos, fortalecendo
a lógicas sociais de exclusão que fabricam um número crescente de “subcidadãos” e “não cidadãos”.

- Reflexão: a racionalidade neoliberal se impõe como a única racionalidade, como o único discurso
autorizado/legítimo (tentativa de suprimir o conflito / a política, reduzindo tudo a uma questão
técnica / econômica).

- Reflexão/crítica: ao falar em “democracia liberal”, os autores aparentemente se baseiam na


concepção republicana (comunitarista), ou na social-democracia (dúvida: são a mesma coisa?), e
não na concepção liberal, de acordo com a tipologia de Habermas. Por exemplo, a afirmação de
que a democracia liberal pressupõe uma valorização da participação direta do cidadão nas
questões públicas, quando o seu paradigma é a representação do cidadão (participação limitada às
eleições) e não a participação direta do cidadão nas decisões políticas, a meu ver um dos
problemas que levaram ao aparente esgotamento desse modelo nos dias atuais. Ou ao dizer que
os direitos sociais são fundamentais na democracia liberal. Aparentemente estão utilizando
“liberal” no sentido norte-americano (novo liberalismo, social-democracia), como os próprios
autores explicam no cap. 1. Mas de fato houve uma valorização da participação do cidadão que,
desde a crise de 2016 e especialmente no atual governo (no Brasil), vem sendo destruída.

- Desdemocratização: inutilização prática das categorias fundadoras da democracia liberal, em


especial suspensão da lei e transformação do estado de exceção em estado permanente, levando a
uma “nova configuração política” (Wendy Brown, Giorgio Agamben, também: Gunter Frankenberg
em Técnicas de Estado).

- Pós-democracia (Colin Crouch): não se trata apenas de um desencantamento democrático


passageiro, mas de uma mutação radical, uma nova fase da história das sociedades ocidentais.

- Não se trata de um novo regime político, e sim da propensão da lógica normativa neoliberal de
apagar as diferenças entre os regimes políticos, a ponto de relegá-los a uma indiferenciação
(regime híbrido, democracia iliberal).

- O liberalismo pode ser democrático ou autoritário (liberalismo como limitação do poder, ainda
que seja da maioria); a democracia poder ser liberal ou totalitária (dirigentes eleitos pela maioria,
mas sem limitações ao exercício do poder).

- Reflexão: o neoliberalismo se opõe tanto à social-democracia (welfarismo, Estado de bem-estar


social), com sua lógica individualista e contrária aos direitos sociais, quanto ao liberalismo clássico,
caracterizado pela limitação do poder (Estado de direito clássico).

- A crise financeira (2008) deu início a uma crise da governamentalidade neoliberal, mas esta teve
como resposta um reajuste de conjunto do dispositivo neoliberal Estado/mercado (dispositivo
global, de natureza essencialmente estratégica – Foucault), uma nova fase do neoliberalismo, e
não a sua superação.
- O neoliberalismo pode impor-se como governamentalidade (racionalidade) sem ser a ideologia
dominante: a racionalidade neoliberal pode articular-se a ideologias estranhas à pura lógica
mercantil, ainda que com tensões ou contradições. Exemplo: neoconservadorismo (hoje),
liberalização dos costumes (antes).

- A lógica normativa do neoliberalismo só poderia ser derrotada por revoltas de grandes extensões.

- Reflexão: as novas formas de pensar a economia e as relações sociais (economia compartilhada,


valorização da produção local, “reuse, reduza, recicle”, decrescimento econômico etc) podem ser
vistas como uma contraposição à racionalidade neoliberal?

- Desafio da esquerda: opor uma governamentalidade alternativa à governamentalidade


neoliberal. Uma governamentalidade socialista autônoma ainda precisa ser inventada, porque o
socialismo sempre dependeu de governamentalidades “emprestadas” (liberal, administrativista,
neoliberal).

- Os autores afirmam que a única forma de resistir à racionalidade neoliberal é promover formas
de subjetivação alternativas ao modelo da empresa de si. Uma mudança de política governamental
ou de governo não são suficientes para sair dessa racionalidade/governamentalidade. Propõem
uma contraconduta (Foucault – luta contra os procedimentos postos em ação para conduzir os
outros e a si mesmo) que consiste em um dupla recursa: de se conduzir a si mesmo como uma
empresa e se conduzir em relação aos outros de acordo com a norma da concorrência. Para eles,
uma outra razão do mundo possível seria a razão do comum.

A recusa de funcionar como uma empresa de si, que é distanciamento de si mesmo e recusa do total
autoengajamento na corrida ao bom desempenho, na prática só pode valer se forem estabelecidas, com
relação aos outros, relações de cooperação, compartilhamento e comunhão. A invenção de novas formas
de vida somente pode ser coletiva. Exemplo: recusa coletiva a trabalhar mais.

- “O capitalismo neoliberal não cairá como uma ‘fruta madura’ por suas contradições internas”
(Dardot e Laval). “A história não faz nada” (Marx), cabe aos homens mudar o futuro por meio de
suas ações.