Você está na página 1de 8

PROCESSOS DE ORIENTAÇÃO E SELEÇÃO

PROFISSIONAL: HISTÓRIA E REFLEXÕES


Sidnei Huebert dos Santos1
Regina Célia Pereira Campos2

RESUMO
Este estudo tem como objetivo delinear historicamente os processos de orientação e de seleção
profissional, com ênfase na trajetória de formação das organizações, ou seja, pretende descrever,
como, ao longo da história, as pessoas foram orientadas e selecionadas para o mercado de trabalho.
Neste sentido, buscamos analisar as fases de desenvolvimento do trabalho e das organizações e, em
cada uma delas, refletir acerca das práticas e concepções adotadas nos processos de “provisão de
pessoas” no Brasil, ainda que de maneira sucinta, dada a brevidade do texto.

Palavras-chave: orientação profissional, seleção profissional, mercado de trabalho, profissão.

I - Introdução sado. Mais recentemente observa-se o aumento


da preocupação de investigadores das ciências
O Serviço de Orientação e Seleção Profissional humanas, no contexto brasileiro, pela sistema-
– SOSP realizou, no período de seu funcionamen- tização de dados sobre tópicos específicos em
to, entre as décadas de 50 a 80, diversas seleções Orientação Profissional. No Brasil a quantidade
profissionais e desenvolveu inúmeros processos de de publicações neste domínio ainda é reduzida
orientação profissional para a escolha e definição da
se comparada a outras áreas do conhecimento
profissão visando a adequação de adolescentes, jo-
vens e adultos ao mercado de trabalho. Este artigo como a Psicologia e a Educação. Dessa forma,
vem introduzir, através de de um breve relato histó- torna-se necessário avaliar as possíveis contribui-
rico e algumas reflexões, a importância da orientação ções prestadas pela Orientação Profissional frente
profissional no cenário das práticas de gestão das or- às dificuldades relativas à escolha da profissão. A
ganizações no contexto do capitalismo. avaliação sistemática de procedimentos de in-
tervenção será útil no sentido de desencadear
No debate acadêmico, a questão relativa à se- melhorias nos serviços e programas, assim como,
leção e à orientação profissional é objeto de estudo fornecer diretrizes para a definição de políticas pú-
tanto da Psicologia e da Pedagogia, quanto da Socio-
blicas. (MELO-SILVA, 2005, p. 01).
logia, da Administração e da Economia. Conforme
afirma Melo-Silva (2005), no entanto, estudos sobre
Nosso interesse, portanto, gira em torno des-
os processos de orientação profissional são escassos
sa sistematização de dados sobre os processos de
no contexto brasileiro:
escolha das profissões e da escolha de profissionais
ao longo da história, principalmente, da história bra-
Decisões relativas à carreira, com maiores ou me-
sileira, a partir do Século XX, de forma a registrar
nores graus de liberdade de “escolha” constituem algumas das possíveis contribuições prestadas pelo
objeto de estudo desde meados do século pas- Serviço de Orientação e Seleção Profissional frente

1Mestrando em Educação Tecnológica do CEFET/MG, Professor da Faculdade de Educação da UEMG. email: siduemg@yahoo.com.br

2Doutora em Educação, professora da Faculdade de Educação FaE/CBH/UEMG, professora do Curso de Mestrado em Educação – UNI-
PAC/Barbacena. Coordenadora do Projeto “SOSP: uma investigação sobre a história da Educação e História da Psicologia em Minas Gerais”
E-mail: reginacampos2000@yahoo.com.br

56
às dificuldades relativas à escolha da profissão. A vida tribal, como pode ser verificada até hoje
[...] não prevê e nem pressupõe atividades e
A escolha de uma ocupação ou profissão, bem ocupações distintas entre seus membros, haven-
como a utilização sistemática de procedimentos
do apenas uma hierarquia no que se refere aos
voltados para a orientação e seleção profissional so-
mente ganham relevância significativa com a efetiva assuntos de guerra e aos cuidados com a saúde,
implantação do sistema capitalista e seus desdobra- funções que são exercidas por questão de bravu-
mentos nas relações sociais de produção e de tra- ra e/ou idade avançada e que alcançam grande
balho. Pimenta (1981) registra, na década de 80, a respeitabilidade entre os indivíduos da comunida-
existência da possibilidade de escolha da profissão
de. De fato, a caça é atribuição dos homens, pelo
pelo trabalhador:
vigor físico e possibilidade de descolamentos ágeis
O trabalho, enquanto dimensão da existência, que possuem, uma vez que as mulheres estão
sempre existiu nas sociedades dos homens. Po- encarregadas dos cuidados dos filhos. Logicamen-
rém, não se pode dizer que o homem sempre te, deve existir entre eles os mais hábeis, mas que
pôde escolher de trabalhar naquilo que gostaria. construíram tal habilidade pelo exercício e pela
No decorrer da história, os homens foram mais prática e que acabam tendo a função de ensinar
ou menos livres para escolher aquilo que gosta- aos outros a melhor forma do desempenho da-
riam de fazer. Houve períodos em que sequer a
quele trabalho. [...]. Depreende-se daí que, nesta
preocupação com escolha pôde surgir: nas socie-
situação, não há possibilidade e nem a necessida-
dades de castas, nas de estamentos e nas classes
de de grandes escolhas no que se refere ao de-
sociais rígidas. Nos dias atuais, pode-se (se não
sempenho de funções tanto para a sobrevivência
escolher), preocupar-se com a possibilidade de
vir a escolher. Se existe a possibilidade de escolha, material ou não. (BOCK, 2001, p. 3).
existe também a possibilidade de alguém ajudar
Nem sempre, entretanto, o trabalho está liga-
alguém a escolher, isto é, de orientação. (PIMEN-
do à sobrevivência. Se para as sociedades tribais, o
TA,1981, p. 19-20). trabalho tornava-se a garantia da sobrevivência, para
os gregos antigos era considerado algo de menor im-
A presença e a possibilidade de escolha indica, portância, destinado aos escravos. A condição de ser
segundo a autora, a flexibilização das classes e do trabalhador, na Grécia Antiga, era compulsória e he-
mercado de trabalho que, com o desaparecimen- reditária. Dependendo da origem familiar, cada um
to das classes sociais rígidas, hoje, vai possibilitando exercia determinado tipo de trabalho, geralmente,
maior ou menor liberdade ao trabalhador. Ao lon- não cabendo escolhas.
go do tempo, entretanto, nem sempre foi assim. O
significado de trabalho é historicamente construído Não se pode deixar de mencionar, também, as
e assume representações diferentes na medida em implicações da visão religiosa acerca do trabalho. O
que novas concepções são adotadas, de acordo com Cristianismo em sua vertente católica, por exemplo,
interesses diversos de cada sociedade. atribui ao trabalho um caráter penoso, através do
qual pode-se atingir a expiação de pecados. Por outro
II - Dos primórdios do trabalho até as lado, em sua vertente protestante e calvinista, como
Corporações de Ofício afirma Max Weber (1996) enfatiza as habilidades hu-
manas (música, artes, comércio, desenvolvimento in-
Nas sociedades tribais, o trabalho é uma atividade dustrial e outros) como dádivas divinas que, por essa
importante, visa a manutenção da vida e a garantia da razão devem ser incentivadas e aprimoradas. Ten-
sobrevivência. Geralmente, as atividades se diferen- dência que favoreceu o comportamento econômico
ciam em função do sexo, da capacidade e habilidade dos Estados Unidos e países da Europa incentivando
individual de cada um. Conforme relata Bock (2001): o desenvolvimento do sistema capitalista.
57
A Idade Média, com sua estrutura social baseada eram os donos das oficinas, das ferramentas, dos
no feudalismo, também oferece poucas opções e es- utensílios e das matérias primas e quem comandava
colhas profissionais aos homens que nascem servos. o trabalho dos aprendizes e oficiais. O mestre rece-
Geralmente, o exercício profissional estava ligado à bia o aprendiz que, na faixa etária dos dez ou doze
herança familiar, a produção era totalmente agrícola anos, passava a morar na oficina ou residência do
e o ensino das técnicas rudimentares era passado de mestre e iniciava o aprendizado das técnicas do novo
pai para filho, conforme relata Huberman (1986) so- ofício durante o trabalho do mestre.
bre a atividade de trabalho:
A duração do aprendizado variava de acordo
[...] era realizada na casa do próprio camponês, com o tipo da profissão, algumas eram aprendidas
qualquer que fosse seu gênero. A família preci- em cerca de dois, outras, levavam dez ou até doze
sava de móveis? Não se recorria ao carpinteiro anos de aprendizado. Vencida esta etapa, o aprendiz
para fazê-los, nem eram comprado numa loja da subia para o posto de oficial. Para chegar a mestre,
rua do Comércio. Nada disso. A própria família
era necessário passar por uma avaliação realizada pe-
los membros da corporação. O autor relata, ainda
do camponês derrubava a madeira, limpava-a,
que, conseguida a aprovação, caso houvesse condi-
trabalhava-a até ter os móveis de que necessita-
ções financeiras e materiais, poderia abrir sua própria
va. Precisavam de roupa? Os membros da família
oficina, senão, trabalhar para outro mestre.
tosquiavam, fiavam, teciam e costuravam – eles
mesmos. A indústria se fazia em casa, e o propó- A intensificação do comércio e o aumento da
sito da produção era simplesmente o de satisfazer produção tornaram as corporações incapazes de
as necessidades domésticas. (Huberman, 1986, atender às novas demandas colocadas pelo avanço
p. 53). da manufatura que se fortalecia. As corporações de
ofício foram perdendo seu espaço e sofreram o gol-
O trabalho, voltado apenas para o sustento pe fatal no Século XVIII. Rugiu (1998), ao reconstruir
próprio e/ou da família, não oferecia possibilidades a história da evolução das corporações de ofício, afir-
de ascenção social entre as classes, o que tornava a ma que:
questão da escolha profissional irrelevante.
Sabe-se que o tiro de misericórdia ao débil regi-
Foi preciso que o comércio se expandisse e que me jurídico-pedagógico das Corporações foi pro-
as cidades progredissem para que os artesãos pudes- duzido pelo difundir-se da manufatura já na fase
sem, então, “abandonar a agricultura e viver de seu
embrionária da revolução industrial, e, em algu-
ofício” (Huberman, 1986, p.53). Surgem as corpora-
mas zonas, já desde o século XVII, além do apa-
ções de ofício3 – associações em que se encontravam
reunidos os artesãos da Idade Média –, que garantiam, recimento de novos ofícios e de relativos novos
através da produção artesanal domiciliar, o suprimen- perfis profissionais que tornarão incongruentes ou
to de mercadorias para um mercado ainda incipiente, totalmente deficitárias as modalidades formativas
composto principalmente por habitantes dos “centros do artesanato. (RUGIU, 1998, p. 128).
urbanos” que começaram a surgir no final da Idade
Média. (Gama, 1928; Huberman, 1986). Após a queda das Corporações de Ofício, se-
gundo o autor, o Estado assume a função de conferir
O ensino dos ofícios, segundo Huberman os diplomas para as diversas profissões requeridas na
(1986), era realizado pelas próprias corporações, época. Desta forma, o papel regulador, exercido pe-
onde o aprendizado era construído através das prá- las Corporações no que diz respeito à formação dos
ticas realizadas diretamente no trabalho. Os mestres trabalhadores, passa a ser realizado pelo Estado.

3Uma discussão mais completa sobre as corporações de ofícios sobre podem ser encontradas nas obras de Huberman (1986) e de Gama
(1928), além de outros autores, uma vez que os estudos sobre a questão são numerosos.

58
III - O trabalho como opção e escolha sando a ser relacionada às habilidades e aos desejos
individuais.
Até este momento na história do trabalho, se-
gundo Pimenta (1981), a escolha de uma profissão Segundo Bravermann (1987), para garantir o au-
e o aprendizado da mesma aconteciam através de mento e controle da produção, os trabalhadores fo-
acordos realizados entre as relações familiares e as ram reunidos em um único espaço, dando origem às
Corporações de Ofício, não havendo preocupação fábricas. Os processos de trabalho tornaram-se mais
com a oferta de uma escolha ao aprendiz. complexos e a parcelização das tarefas intensificou-
se, o que exigiu ao capitalista assumir as “funções de
É, segundo Bock (1989), com a passagem do concepção e coordenação” ou a gerência. A partir de
Feudalismo para o Capitalismo e com o surgimen- então, começa-se a pensar em seleção e orientação
to dos ideais revolucionários da Revolução Francesa, profissional para verificar as habilidades do trabalha-
que o sistema de entrada no mercado de trabalho dor visando atender às demandas do mercado de
passa a dar relativa importância à escolha das pro- trabalho.
fissões. Neste momento da história das profissões,
segundo Bravermann (1987), a divisão do trabalho Para dar conta dos processos produtivos que ga-
ganha contornos firmes através da implantação do nhavam cada vez mais e maior complexidade, surge
modo de produção capitalista, cujo processo de a então Teoria Clássica da Administração “no senti-
fragmentação e parcelização das tarefas se acentua, do de aplicar os métodos da ciência aos problemas
vindo a separar-se, definitivamente, da concepção e complexos e crescentes do controle do trabalho nas
da execução propriamente dita. empresas capitalistas em rápida expansão.” (Braver-
man, 1987, p. 82).
Se, antes de surgirem as primeiras fábricas, os
trabalhadores, reunidos em oficinas, exerciam ati- Um dos maiores expoentes da administração
vidades da produção artesanal, realizando a troca científica é Frederick Winlow Taylor, que iniciou seus
entre os produtos dos diferentes ofícios, agora, os trabalhos no final do século XIX e publicou, em
produtos passam a pertencer ao capitalista, não mais 1911, o livro Principles of Scientific Management,
ao artesão. dando origem ao sistema de gestão denominado
Taylorismo. O taylorismo, segundo Lisboa (2002),
O surgimento das fábricas traz profundas trans- encontra-se baseado em três princípios:
formações nas relações de trabalho. Os homens,
que produziam para a garantia de sua própria so- [...] dissociação do processo de trabalho das
brevivência, tendo suas condições e posição na so- qualificações dos trabalhadores, separação da
ciedade “garantidas” pela sua origem ou por ordem
concepção e da execução do trabalho; e uso do
divina, passam a competir por um lugar no mercado
monopólio sobre o conhecimento para controlar
do sistema capitalista:
os distintos passos do processo de trabalho e seu
[...] esta posição é conquistada pelo indivíduo se- modo de execução. (LISBOA, 2002, p. 35).
gundo o esforço que despende para alcançar esta
Ao realizar a separação entre concepção e exe-
posição. Se antes esta posição era entendida em
cução do trabalho, dissociar, também, o processo de
função das leis naturais referendadas pela vonta-
trabalho das qualificações dos trabalhadores e deter o
de divina, agora, ao contrário, o indivíduo pode monopólio do conhecimento dos processos produ-
tudo, desde que lute, estude, trabalhe, se esforce tivos, o Taylorismo, nos moldes do capitalismo emer-
e também (por que não?) seja um pouco aqui- gente, afasta o trabalhador de seu produto final.
nhoado pela sorte. (BOCK, 1989, p. 15).
Wood Jr. (1992), cita, além de Taylor, Fayol, Ford,
A questão relativa à opção profissional, então, Mooney e Urwick, estudiosos do gerenciamento
vê-se descolada do caráter divino ou de origem, pas- que se tornaram importantes para a consolidação do

59
modo de produção capitalista. corporações, coube ao Estado assumir a formação
profissional da população e esta formação ocorrerá
Complementando os estudos sobre a gerência no ambiente escolar. No Brasil, por exemplo, con-
científica, Henry Ford lança mão de um novo concei- forme nos apresenta Brandão (1999), o ano de 1906
to de produção – a linha de montagem. Baseada na representa um importante marco para a educação
expectativa do consumo e da produção em massa, é profissional brasileira, devido à posse do Presidente
introduzida, no chão da fábrica de automóveis, uma Afonso Pena, cuja plataforma de governo pretendia
esteira rolante com o intuito de aumentar a produti- a criação de escolas de ensino técnico em todo o
vidade e de reduzir o esforço humano no processo Brasil. Ao longo do tempo, as escolas técnicas tam-
de montagem, diminuindo também os custos. Surge bém sofreram inúmeras transformações, em função
então o Fordismo, que segundo afirma Lisboa (2002) de sua própria evolução, bem como das mudanças
“apresenta uma separação radical entre concepção e do capitalismo e da ciência.
execução, com base em um trabalho simplificado e
fragmentado, de ciclos operatórios curtos, requeren- Hoje, estudos realizados na área da sociologia do
do pouca formação e pouco tempo de treinamento trabalho4 apontam a escola como um espaço propí-
dos trabalhadores”. (LISBOA, 2002, p. 35), cio para a efetivação de uma educação voltada para
a formação do trabalhador. Esses estudos afirmam
Braverman (1987) registra que, nesse contexto, que, de alguma forma, a escola sempre está voltada
são criadas as organizações e seus departamentos, à formação do trabalhador, conforme o desejo do
responsáveis pelo controle dos trabalhadores, cuja mercado de trabalho, contribuindo assim, inexora-
ocupação está centrada na “seleção, adestramento, velmente, para a perpetuação do sistema.
manipulação, pacificação e ajustamento da ‘mão-de-
obra’ para adaptá-la aos processos de trabalho assim Ao abordar a questão da educação como formação
organizado”. (BRAVERMAN, 1987, p. 84). humana, entretanto, Silva (2007) fundamentando-se
no conceito de capitalismo tardio de Adorno que
O aspecto da formação do trabalhador passa discute as novas formas de dominação econômica,
a se restringir somente aos saberes exclusivamente política e cultural, reflete que:
necessários para a execução de suas tarefas, intensa-
mente fragmentadas pela linha de montagem, dentro A formação humana, no contexto do capitalismo
de um tempo e num ritmo duramente controlados. tardio passa a ser, cada vez mais, fruto dessa ins-
De certa forma, podemos refletir que, tendo a ênfa- trumentalização da razão que produz e busca dar
se voltada para o produto final do trabalho - o consu- legitimidade ao controle impetrado às diferentes
mo em massa - continuam cerceadas as opções de práticas educativas. A educação adquire o status
escolha profissional do trabalhador. de formação administrada quando se demarcam
finalidades predeterminadas com vistas a adequá-
Constantes transformações mundiais influencia-
la a requisitos postos pela sociedade, e, no con-
ram as mudanças da economia baseada na agricultu-
texto em questão, tais requisitos estão sempre
ra para a economia industrial do final do século XVIII.
associados à adaptação da formação e da escola
A migração de milhares de pessoas das zonas rurais
a generalizáveis, e portanto, pretensas demandas
para os centros urbanos em busca de emprego na
indústria, tornou necessário o desenvolvimento das de formação para o trabalho. O caráter prescri-
práticas e estratégias de evolução organizacional, tivo de antecipação dos desígnios da formação
bem como, criou novas formas de administrar os obedece ao critério de adequação da educação a
trabalhadores. imperativos postos pelas relações de troca, e im-
puta uma forma coisificada às finalidades e práticas
Historicamente, podemos dizer que a escola educativas ao impetrar-lhes a lógica da mercado-
substitui as corporações de ofício. Com o fim das ria. (SILVA, 2007, p.3).

4Dentre tais teóricos destacam-se os reprodutivistas, como Bourdiue & Passeron, Althusser, Mariano Enguita e outros.

60
Esse caráter prescritivo, segundo a autora, limi- da gestão de pessoas a partir dos estudos de Marras.
tador e alienante, do ponto de vista da autodetermi- Estes autores, a partir de Marras, indicam como cinco
nação do trabalhador, por outro lado, possibilita que as fases de desenvolvimento: Contábil, Legal, Tecni-
essa formação seja administrada. Ao discutir as no- cista, Administrativa e Estratégica. A fase contábil e
ções de competência, realiza a critica sobre a fluidez pioneira surge antes de 1930 devido à preocupação
da formação profissional, apontando a necessidade com os custos da organização, nesta fase as pessoas
de re-significação da noção de competência. eram vistas somente sob enfoque contábil, como se
fossem máquinas.
IV - O surgimento das novas formas de
orientação e formação para o trabalho Na fase legal, no período entre 1930 e 1950,
surge a figura de um profissional denominado “chefe
A partir das grandes organizações industriais que de pessoal” que se ocupa das relações de trabalho
surgiram ao final do século XIX, são criadas novas segundo as leis trabalhistas. A terceira fase, a tecni-
formas de organização do trabalho e, principalmente, cista, surge após 1950, alavancanda pela utilização
novas formas de gerenciá-lo. Para manter a produção, do conceito de Recursos Humanos (RH) no nível
diante de um mundo do trabalho complexo, tornou- gerencial. A organização dos setores de Recursos
se necessário repensar a formação do trabalhador e Humanos nas indústrias passa a representar para as
os processos de escolha e de orientação profissional. organizações e para os trabalhadores grande melho-
Diversos estudos surgiram e teorias administrativas ria nas relações. Tornam-se funções dos setores de
foram criadas para fundamentar os procedimentos Recursos Humanos: o treinamento, o recrutamento
de seleção profissional adotados pelos departamen- e a seleção; adoção de cargos e salários, promoção
tos de seleção de pessoas e, também, as políticas de da higiene e segurança, garantia de benefícios aos tra-
educação e de orientação para o trabalho. balhadores, entre outros.

O surgimento da orientação profissional, de A fase administrativa, entre 1965 a 1985, tam-


modo sistematizado, ocorreu no início do século XX, bém conhecida como sindicalista, devido à revolu-
por meio das idéias e do trabalho de Frank Parsons, ção movida pelas bases trabalhadoras, é considerada
que criou, nos Estados Unidos, o primeiro centro um marco na história das organizações. Nessa fase,
de orientação profissional. Conforme indica Pimenta ocorre uma significativa mudança na responsabilidade
(1981), “foi a partir de Parsons que os esforços de do denominado gerente de RH, visando transformar
psicólogos de todos os países se voltaram para essa os procedimentos burocráticos e operacionais em
dupla tarefa: conhecer o indivíduo e conhecer o que responsabilidades voltadas para os indivíduos e suas
as profissões exigiam dele”. (PIMENTA, 1981, p. 20) relações.

Parsons, através do seu “Guidance Movement”, A última fase, a estratégica, surge após 1985, jun-
criou um método que buscava conhecer o jovem tamente com os primeiros “Programas de Planeja-
estudante e o mundo do trabalho de forma a rea- mento Estratégico”. Está relacionada à elaboração do
lizar um ajuste do primeiro em relação ao emprego planejamento estratégico central das organizações.
(Beck, 1977; Santos, 1985). Além de Parsons, outros Nessa fase, percebe-se uma preocupação a longo
pesquisadores da Psicologia do início do século XX, prazo por parte das empresas com seus trabalhado-
segundo Pimenta (1981), também criaram Centros res, o profissional de RH passa a agir para além do ní-
de Aconselhamento e Orientação profissional como vel tático, atingindo outros níveis, como as diretorias,
Binet, Claparède, Carl Rogers, Myra Y Lopes, dentre estratégicos dentro da organização.
outros.
Machado (1994) reflete que a crescente infor-
Losch e Correia (2004), ao discutirem a flexibi- matização das atividades industriais e de serviços, o
lização do trabalho e da gestão de pessoas limitadas desenvolvimento da microeletrônica, da informática e
pela racionalidade instrumental, explicam a evolução da robótica, transformaram os ritmos e a intensidade

61
da produção, das relações sociais de produção, dos V - Considerações Finais
padrões organizacionais e das formas de gerencia-
mento. Os discursos relativos às “qualidades totais” O surgimento das novas formas de orientação
vêm mascarar a cultura do controle dentro das orga- e formação para o trabalho, ao longo dos tempos,
nizações através da cooptação dos trabalhadores. cumpriu as finalidades de responder às demandas
da produção e assegurar a adaptação e adequação
Estudos realizados por Noronha & Ambiel (2006) dos trabalhadores aos devidos cargos, de forma a
analisam a produção acadêmica brasileira sobre a cumprir os requisitos do mercado de trabalho. Con-
Orientação Profissional, a partir da década de 1950, ceitos como recursos humanos, gestão de pessoas,
na tentativa de compreender como eram prestados qualidade total, habilidades, interesses, qualificação e
seus serviços e quais os instrumentos e procedimen- competências forjam, ao longo do tempo, discursos
tos mais utilizados. Os autores percebem, a partir e práticas que revelam limitações e contradições no
dos anos 90, um considerável aumento da produção campo das relações sociais no trabalho.
de conhecimento na área. Registram, ainda, que no
cenário nacional, na “década de 50, Barioni e Jorge A discussão sobre as formas de seleção, treina-
(1952) já relatavam o uso de diversos instrumentos mento, orientação profissional, de ontem, abre es-
no Departamento Regional de São Paulo do SE- paço para que novas práticas de formação humana
NAC, visando uma melhor adaptação dos menores no trabalho se estabeleçam, hoje, sem desconsiderar
que se formavam em seus cursos nos cargos ofe- que as relações sociais no trabalho continuam a refle-
recidos pelas empresas”. (NORONHA & AMBIEL, tir tensões e embates próprios das organizações do
2006, p. 76). contexto do sistema capitalista.

62
Referências MACHADO, L. R. S. TQC: forjando a cultura
do controle pela cooptação dos trabalhado-
BECK, C. E. Fundamentos filosóficos da orien- res. In: FIDALGO; M. (Org.) Controle da qualidade
tação educacional. São Paulo: EPU, Ed. da Uni- total: uma nova pedagogia do capital. Minas Gerais:
versidade de São Paulo, 1977. Movimento de Cultura Marxista, 1994.

BOCK, S. D. Orientação Profissional: avaliação MELO-SILVA, L. L. Avaliação de processos e resulta-


de uma proposta de trabalho na abordagem sócio- dos em orientação profissional no Brasil. La Orien-
histórica. 2001. Dissertação (Mestrado e em Educa- tación alrededor del Mundo, v.5, n.09, p. 01-
ção) - Faculdade de Educação da Universidade Esta- 07, 2005.
dual de Campinas. Campinas, 2001.
NORONHA, A. P. P.; AMBIEL, R. A. M. Orientação
BRANDÃO, M. Da arte do ofício à ciência da
profissional e vocacional: análise da produção cientí-
Indústria: a conformação do capitalismo indus-
trial no Brasil vista através da educação profissional. fica. São Paulo: Psico-USF, São Paulo, v. 11, n. 1, p.
In: Prêmio Senac de Educação Profissional, 1999. 75-84, jan./jun. 2006.
Disponível em: http://www.senac.br/informativo/
BTS/253/boltec253b.htm. Acessado em 20 de agos- PIMENTA, S. G. Orientação vocacional e deci-
to de 2007. são: estudo crítico da situação no Brasil. 2.ed. São
Paulo: Editora Loyola, 1981.
BRAVERMAN, H. Trabalho e capital monopo-
lista – a degradação do trabalho no século XX. RUGIU, A. S. Nostalgia do mestre artesão. São
3.ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1987. Paulo: Autores Associados, 1998.

GAMA, R. A tecnologia e o trabalho na histó- SANTOS, O. B. Psicologia aplicada à orienta-


ria. São Paulo: Nobel EDUSP, 1928 ção e seleção profissional. São Paulo: Pioneira,
1985.
HUBERMAN, L. História da riqueza do ho-
mem. Rio de Janeiro: Editora Guanabara,1986. SILVA, M. Competências: Fluidez e ambigüidades
para administrar a formação do “novo” trabalhador.
LISBOA, M. D. Orientação Profissional e mundo do UFPR / ANPED - GT-09, Disponível em
trabalho: reflexões sobre uma nova proposta frente a
www.anped.org.br/reunioes/27/gt09/t0913.pdf,
um novo cenário. In: LEVENFUS, R. S.; SOARES, D.
acessado em 08 de maio de 2007.
H. P. (Orgs.). Orientação Vocacional Ocupacio-
nal: novos achados teóricos, técnicos e instrumentais
para a clínica, a escola e a empresa. Porto Alegre: Art- WEBER, M. A ética protestante e o espírito do
med, 2002. Capitalismo. São Paulo: Pioneira, 11. ed. 1996.

LOSCH, C. L.; CORREIA, G. A flexibilização do tra- WOOD, T. Fordismo, Toyotismo e Volvismo: os


balho e da gestão de pessoas limitadas pela racionali- caminhos da indústria em busca do tempo perdido.
dade instrumental. Revista de Ciência da Admi- Revista de Administração de Empresas, São
nistração. Santa Catarina, v. 6, n.12, 2006. Paulo, n. 32, p. 6-18, Set/Out 1992.

63