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Bacharelado em Teologia

Graduação a distância

Fundamentos de Psicologia
Danilo Polverini Locatelli
Danilo Polverini Locatelli

Fundamentos de Psicologia

1ª edição
São Paulo
Fundação Mokiti Okada
2018
FACULDADE MESSIÂNICA
diretora geral: Rita Laura Avelino Cavalcante
direÇÃo acadÊmica: Emilson Soares dos Anjos

NÚCLEO DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA


Coordenação de Núcleo: Rita Laura Avelino Cavalcante
coordenaÇÃo acadÊmico-PedagÓgica: Camilla Schiavo Ritzmann
ProJeto e suPervisÃo didÁtica: Sônia Margareth de Figueiredo da Rosa
s uPorte e d esenvolvimento : Flávio Azevedo Marques

CONSELHO EDITORIAL
Alexandre Leite Souza Farias – Faculdade Messiânica - SP
Ana Paula Carneiro Renesto – Faculdade Messiânica - SP
Andréa Gomes Santiago Tomita – Faculdade Messiânica - SP
Daniel Gomes Mendes – Faculdade Messiânica - SP
Deborah Vogelsanger Guimarães – Faculdade Messiânica - SP
Elton de Oliveira Nunes – Faculdade Messiânica - SP
Emilson Soares dos Anjos – PUC/SP – Faculdade Messiânica - SP
Ivna Maia Fuchigami – Faculdade Messiânica - SP
Marisa Garcia – Faculdade Messiânica - SP
Paulo Roberto Pedrozo Rocha – Faculdade Messiânica - SP

EDIÇÃO E PROJETO GRÁFICO


PreParaÇÃo de conteÚdo: Ana Paula Nogueira de Assis,
Fernanda Kerry Bulhões e Sônia Margareth de Figueiredo da Rosa
revisÃo: Amanda Caroline Cuba
ProJeto grÁFico: Carla Vogel

PUBLICAÇÃO
Editora FMO

L788f Locatelli, Danilo Polverini


Fundamentos de Psicologia / Danilo Polverini Locatelli.
-1.ed.- São Paulo: Fundação Mokiti Okada, 2018.

68 p.

ISBN: 978-85-8355-133-1

1. Psicologia social 2. Psicologia da religião 3. Comportamento


4. Aconselhamento 5. Psicanálise
I.Título
CDD - 150.305

Catalogação na Publicação: Zilda Soledade / CRB - 8/9909


F u n da m e n t o s de Psicologia
D a n i l o P o lv e r i n i L o cat e l l i

Sumário
Apresentação 4

Unidade 1 – História da Psicologia moderna 5

Unidade 2 – Saúde mental e a questão da normalidade 13

Unidade 3 – Um pouco da história e alguns conceitos do Behaviorismo 21

Unidade 4 – Um pouco da história e alguns conceitos da Psicanálise 29

Unidade 5 – Psicologia social 37

Unidade 6 – Sensação e percepção 45

Unidade 7 – Inteligência e memória 53

Unidade 8 – Empatia, acolhimento e escuta 61


F u n da m e n t o s de Psicologia
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Apresentação

Olá, prezado(a) estudante! Seja bem-vindo(a) à disciplina Funda-


mentos de Psicologia.

Me chamo Danilo Polverini Locatelli, sou o atual professor de Funda-


mentos de Psicologia e considero importante apresentar um pouco da minha
trajetória e tecer comentários sobre esse conteúdo que veremos a partir de
agora. Sou graduado em Psicologia pela Universidade Presbiteriana Mac-
kenzie e Mestre em Ciências pelo Departamento de Psicobiologia da Univer-
sidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Tenho formação na área de saúde
coletiva e possuo como tema de pesquisa a epidemiologia e os aspectos
4 associados ao uso de drogas entre adolescentes e os processos formativos
na área de álcool e outras drogas. Atualmente, atuo como pesquisador da
Associação Fundo de Incentivo à Pesquisa (AFIP), colaborador do Núcleo
de Pesquisa em Saúde e Uso de Substâncias (NEPSIS) do Departamento
de Psicobiologia da UNIFESP, coordenador adjunto do Centro Regional de
Referência CRR-DIMESAD-UNIFESP e professor da Faculdade Messiânica.
Percorreremos um caminho teórico que visa brevemente:
• Apresentar a história da Psicologia moderna, apresentar as princi-
pais linhas teóricas da Psicologia e seus principais conceitos, con-
textualizar a Psicologia como ciência e prática, realizando correla-
ções com a Teologia.
• Discutir conceitos sobre habilidades e competências cognitivas e
emocionais, contextualizando com questões da vida cotidiana.
• Discutir conceitos sobre habilidades interpessoais, contextualizan-
do com questões da vida cotidiana.
Quanto mais colocar em prática tais conhecimentos, melhor perce-
berá as possíveis pontes teóricas e pragmáticas entre Teologia e Psicolo-
gia. Este é meu convite e assim desejo bons estudos!
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Unidade 1 – História da Psicologia moderna

Objetivo

Apresentar um breve histórico da construção da Psicologia como


ciência, ressaltando os principais elementos e contribuições que sustentam
essa área do conhecimento na atualidade.

Introdução

Ao nos depararmos com um componente curricular denominado


Fundamentos em Psicologia, imaginamos que encontraremos os principais
conceitos e estruturas teóricas que fazem parte do corpo do conhecimento
psicológico. A ideia da construção deste conteúdo não está distante desse
5
pensamento e os caminhos que trilharemos seguirão alguns tópicos que
julgamos importantes. A primeira pergunta que talvez não façamos, mas
que necessita ser feita, é o que é Psicologia. A rotineira presença da pala-
vra Psicologia em nosso cotidiano nos faz pensar em inúmeros significados
e cada leitor poderá, sem consultar algum material bibliográfico, citar uma
resposta que possa, de fato, aproximar-se ao conceito da Psicologia em
termos científicos. Reconhecer a Psicologia como ciência e conhecer sua
história será o nosso primeiro conteúdo, essencial para os futuros assuntos
a serem abordados neste material.
Visualizaremos, mais pra frente, conceitos existentes nas principais
linhas teóricas da Psicologia, veremos seus campos de atuação, suas apli-
cações práticas e seu alcance. Também discutiremos temas sobre as ha-
bilidades e competências cognitivas e emocionais, assim como sobre as
habilidades interpessoais. Esse caminho a ser trilhado foi imaginado para
ser útil ao estudante de Teologia em seu âmbito acadêmico e profissional,
possibilitando a reflexão e prática de conhecimentos humanos interligados.
BacHarelado em teologia

As primeiras explicações sobre o ser humano

O termo Psicologia tem origem grega, sendo uma junção das pa-
lavras psyché, que significa alma, e logos, que significa razão. Na Grécia
Antiga, a alma poderia ser compreendida como a parte imaterial do ser hu-
mano, abarcando suas sensações, emoções, pensamentos, desejos, etc.
Ainda que tenha origem grega, a Psicologia foi se estruturar como ciência
num período muito posterior ao do domínio da Grécia Antiga. No entan-
to, alguns pensadores e filósofos foram fundamentais para a estruturação
de um caminho de conhecimento humano, que depois se consolidaria e
ganharia forma científica, o que chamamos de Psicologia moderna. Entre
eles, Sócrates (470-395 a.C.) e Platão (427-347 a.C.) propuseram questio-
namentos sobre a natureza humana, trazendo inúmeras questões psicoló-
gicas ao centro dos debates filosóficos.
Outro filósofo grego que contribuiu com o avanço dessas discussões
6 foi Aristóteles (384-322 a.C), que fomentava a ideia da necessidade de se
utilizar a observação como forma de investigação dos eventos naturais,
sendo considerado um racionalista. E é ele quem sistematiza a primeira
doutrina sobre os fenômenos da vida psíquica, apresentada nos três livros
De Anima (2006). Para Aristóteles, as ideias, fazendo parte da alma, seriam
desconectadas dos fatores temporal, espacial e material. As ideias seriam,
portanto, imortais.
Após séculos, na Idade Média, Tomás de Aquino (1224-1275) retoma
os pensamentos aristotélicos sobre as relações matéria-alma, existência-
-essência. Nessa época, por influência dos fortes valores religiosos:

[...] o homem é tido como criado à imagem e semelhança de Deus


e seu comportamento sujeito, apenas, à sua própria vontade e à de
Deus. Tal concepção não favorece o desenvolvimento de uma ciência
do homem, já que ele não podia ser objeto de investigação científica.
(BRAGHIROLLI; BISI; RIZZON; NICOLETTO, 2012, p. 19)
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Nesse período específico, portanto, ainda que com contribuições de


alguns pensadores, não foi possível obter avanços nas reflexões sobre o
conhecimento a respeito do homem.
Foi no Renascentismo que se pronunciaram as aberturas para a
consolidação de tais reflexões. Descartes (1596-1650) teoriza sobre o dua-
lismo psicofísico, que se refere à dupla constituição humana, sendo uma
material, física, corporal, e a outra sendo uma realidade imaterial, repre-
sentada pela alma, que é livre de determinismos físicos. Materialmente,
portanto, o ser humano poderia ser previsível em seus comportamentos,
desde que se conhecessem as suas particularidades, as suas peças e suas
ligações. Tem-se, portanto, o modelo mecanicista de explicação das ações
do ser humano. Se, por um lado, todos os seres vivos possuem processos
fisiológicos, como a alimentação, a digestão e o crescimento, por outro,
seriam exclusivas do ser humano as funções da mente, como a memória
e o raciocínio. Já outras atividades, como a sensação, a imaginação e o
7
instinto seriam produtos da interação entre mente e corpo.
É fruto do olhar cartesiano a concepção de que existem duas áreas
de estudo sobre o homem: uma delas seria o corpo, a matéria, objeto de es-
tudo da ciência; já a parte imaterial, a mente, seria de domínio da Filosofia.
Nos séculos XVIII e XIX, destacam-se os filósofos que têm a men-
te e seu funcionamento como objeto de interesse, que se dividiram em
duas distintas escolas de pensamento: o empirismo inglês e o raciona-
lismo alemão.
Locke (1632-1704), tido como um dos precursores do empirismo,
comparou a mente a uma tábula rasa. Nesta, seriam marcadas, escri-
tas, gravadas, as impressões e experiências, bem como as ideias e os
conhecimentos. Essa corrente atribui grande importância ao meio am-
biente, que acaba por estimular a percepção, sendo essa a base de todo
conhecimento individual.
Inversamente, a escola racionalista argumentará que a mente tem
capacidade natural, inata, de gerar ideias, independentemente da relação e
dos estímulos que encontrar no meio. Os filósofos dessa escola, inclusive,
BacHarelado em teologia

afirmavam que a percepção humana é amplamente seletiva e as interpreta-


ções sobre o meio, individuais. Outro aspecto de discordância entre essas
duas escolas filosóficas se referia à possibilidade ou não de se analisar os
fenômenos mentais através de sua decomposição, ou seja, do recorte de
determinadas partes:

Para os empiristas, a percepção ou uma ideia complexa era compos-


ta de partes, ou elementos mais simples. Buscavam identificar com-
ponentes simples para poder compreender os fenômenos mentais
complexos. Para os racionalistas, cada percepção é uma entidade in-
divisível, global, cuja análise destruiria suas próprias características.
(BRAGHIROLLI; BISI; RIZZON; NICOLETTO, 2012, p. 21)

Essa diferença de aproximação do objeto de interesse e sua com-


preensão continua presente nos dias atuais, sendo uma das distinções en-
8
tre as diferentes linhas teóricas da Psicologia moderna.
O desenvolvimento da Fisiologia no século XIX possibilitou a análise,
em laboratórios, das funções cerebrais, ampliando-se a pesquisa, por
exemplo, do funcionamento dos órgãos mediante estimulação dos proces-
sos orgânicos da percepção e da sensação. Os estudos dessa área con-
tribuíram significativamente para o surgimento da Psicologia, em especial
pelos novos conhecimentos gerados e pela possibilidade de realizar expe-
rimentos em laboratório, com ampliação do método de investigação sobre
o ser humano.
Considerado o fundador da Psicofísica, que pode ser descrita como
o estudo quantitativo (mensurável) das relações existentes entre os as-
pectos mentais e os estímulos do mundo físico, Gustav Theodor Fechner
(1801-1887) demonstrou a possibilidade da utilização de modelos mate-
máticos no estudo de fenômenos psicológicos. Dessa forma, também é
considerado o precursor da Psicologia experimental.
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Este preâmbulo relacionado aos questionamentos e estudos so-


bre os processos mentais tem lugar na história anterior ao surgimento
da Psicologia como ciência. O ano de 1879 é estabelecido, entre muitos
teóricos, como o ano de nascimento da Psicologia, com a criação do
Laboratório de Psicologia na Universidade de Leipzig, na Alemanha, por
Wilhelm Wundt (1832-1920).
Influenciado pelos preceitos dos filósofos empiristas e pelo desenvol-
vimento da Fisiologia e Psicofísica experimentais, Wundt (1904) escreveu o
livro Princípios de Psicologia fisiológica, apresentando investigações sobre
as percepções simples e complexas e seus elementos estimuladores. Para
Wundt, o objeto da Psicologia era a análise da experiência consciente e
as correlações existentes entre seus componentes simples formariam uma
experiência complexa.
Com Wundt, nasce a escola psicológica denominada Estruturalismo,
que buscava identificar a estrutura da mente ou a estrutura dos processos 9
mentais, compreendendo os fenômenos psíquicos através da análise re-
partida, decomposta, dos estados de consciência, estes produzidos pelos
estímulos ambientais.
A descrição das sensações em função dos estímulos recebidos exi-
gia um olhar rigoroso e cuidadoso, que pudesse observar com precisão,
tendo como princípio a ideia de uma ciência pura.
Nos Estados Unidos, como reação ao Estruturalismo, nasce o Funcio-
nalismo, que tem outro objeto de estudo: o que a mente faz e suas funções.
Não se preocupava em identificar a estrutura da mente, mas sim a forma
como esta funcionava. Os funcionalistas, entre eles William James (1842-
1912) e John Dewey (1859-1952), criticavam a artificialidade da introspecção,
a decomposição dos fenômenos mentais complexos em aproximações sim-
plórias e a estreiteza do âmbito da investigação presentes no estruturalismo.
Tendo entre seus princípios a teoria evolucionista darwinista, os fun-
cionalistas estabelecem, como objeto de estudo da Psicologia, a interação
contínua e dinâmica entre o organismo e seu ambiente, que possibilitaria
a adaptação do homem ao seu meio. Dessa forma, as funções psíquicas
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relativas à percepção e à memória, por exemplo, teriam o propósito de tor-


nar possível a adaptação do sujeito ao seu ambiente. Seria possível, por-
tanto, uma evolução nesse processo adaptativo e os conhecimentos psico-
lógicos poderiam auxiliar nessa ampla finalidade. Entre suas contribuições,
o funcionalismo possibilitou o aumento do interesse e aproximações de
estudo da Psicologia.
Atualmente, o Estruturalismo e o Funcionalismo deixaram de existir,
sendo substituídos por novas correntes teóricas que possuem, em alguma
instância, influências de alguma dessas bases iniciais. Entre essas novas
linhas, podemos citar o Behaviorismo, a Psicanálise, a Gestalt, o Huma-
nismo e a Fenomenologia. Na sequência de nossos estudos, teremos a
oportunidade de nos aprofundarmos nos principais conceitos de algumas
dessas linhas, bem como debater sobre a aplicabilidade deles.

Retornando ao conceito de Psicologia


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O sentido vigente da palavra Psicologia tem a autoria de Philip Me-
lanchthon (1497-1560) e sua generalização ocorre cerca de um século
depois, quando Christian Von Wolff (1679-1754) estabeleceu a diferença
entre Psicologia empírica e racional.
Por possuir tantos objetos de interesse e distintas abordagens teó-
ricas, ainda hoje é difícil estabelecer uma definição precisa sobre o que é
a Psicologia, sendo que esta foi se alterando ao longo da sua constituição.
Quando é denominada como a “ciência do comportamento”, sua
definição recebe críticas daqueles que a consideram bastante alinhada à
tendência behaviorista, escapando de seu conceito outras possibilidades
de objeto de análise, como, por exemplo, o inconsciente, um dos temas de
investigação da Psicanálise.
Atualmente, o conceito de “comportamento” não se refere apenas
aos comportamentos observáveis, mensuráveis objetivamente. O conceito
seria, então, atribuído a uma ampla escala de atividades, incluindo reações
fisiológicas internas, alterações químicas sanguíneas e processos cons-
cientes de sensação, pensamento, sentimento, etc.:
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Na verdade, qualquer tentativa de tratamento isolado de fenômenos


ativos, sensíveis, intelectuais ou outros, não corresponde à realidade,
pois em cada ato, em qualquer reação do homem, há inter-relação dos
aspectos: a mente é uma unidade indivisível. (BRAGHIROLLI; BISI;
RIZZON; NICOLETTO, 2012, p. 38)

Podemos dizer que existem diferentes níveis de interferência na nos-


sa condição como ser humano e um dos modelos mais proeminentes na
Psicologia é o que leva em consideração os fatores biológicos, psicológicos
e socioculturais. Podemos denominá-lo de abordagem biopsicossocial:

Cada nível possibilita um excelente ponto de observação do compor-


tamento, ainda que, isoladamente, cada um deles seja incompleto.
Assim como as diversas disciplinas acadêmicas, as diversas pers-
pectivas da psicologia fazem diferentes perguntas e possuem seus
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próprios limites. Uma perspectiva pode enfatizar o nível biológico, ou
psicológico ou sociocultural, em detrimento do outro, mas as diferen-
tes visões [...] são complementares. (MYERS, 1999, p. 9)

Dada a distinção dos focos de interesse da Psicologia moderna, hou-


ve a necessidade de se estabelecer diferentes métodos de investigação,
que pudessem tornar possível a ampliação desse campo de conhecimento
e, nesse aspecto, os delineamentos quantitativos e qualitativos também
são considerados complementares.
Nesta unidade, vimos um breve histórico da construção da Psicolo-
gia como ciência. Discutimos alguns dos desafios ontológicos e epistemo-
lógicos existentes na sua concepção histórica como ciência, bem como a
contribuição de diferentes pensadores para essa origem.
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Referências

ARISTÓTELES. De anima. Apresentação, tradução e notas de Maria Cecí-


lia Gomes Reis. São Paulo: Editora 34, 2006.
BRAGHIROLLI, Elaine Maria; BISI, Guy Paulo; RIZZON, Luiz Antônio; NI-
COLETTO, Ugo. Psicologia geral. Petrópolis: Vozes, 2012.
MYERS, David. Introdução à Psicologia. Rio de Janeiro: LTC, 1999.
WUNDT, Wilhelm. Principles of physiological Psychology. Translated by E.
B. Titchener. 5ª ed. New York: Macmillan, 1904.

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Unidade 2 – Saúde mental e a questão da normalidade

Objetivo

Apresentar as discussões históricas e atuais sobre normalidade em


saúde mental, reforçando a necessidade de enfrentamento dos estigmas
presentes em nossa sociedade.

Introdução

A palavra loucura está presente em nosso cotidiano em diferentes


contextos e em múltiplas variações do termo. Em cada uma delas, dentro
do senso comum, podemos encontrar significados diversos e incontáveis
possibilidades de uso. Por exemplo, podemos chamar de louco algo que
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surpreende positiva ou negativamente, alguém que julgamos portar de-
terminados comportamentos estranhos, uma sensação acompanhada de
pensamentos incontroláveis e angustiantes, ou um repente de ação ines-
perada. No imaginário cultural popular, a palavra louco costuma ter cono-
tações negativas, sendo principalmente atribuída a pessoas cujas ações
não se encaixam naquilo que se espera delas, ou que sejam possuidoras
de falas tidas como esquisitas, ou que imaginam coisas que os outros não
conseguem enxergar. De fato, estamos falando sobre o sofrimento psíqui-
co humano e algumas de suas possíveis formas.
Contudo, atribuir essa valoração negativa a determinadas pessoas que
possuem características específicas pode trazer consequências prejudiciais e
de longo prazo a elas, implicando afastamento social, diminuição das redes
sociais de apoio e a quebra dos vínculos trabalhistas, entre outros. O fruto do
preconceito e do estigma será debatido em nosso último conteúdo. No entan-
to, como um dos principais objetos de estudo e atuação dentro da Psicologia
e de intrínseca presença em nossa vida cotidiana, a saúde mental é tema
fundamental quando nos aprofundamos no estudo sobre o ser humano, com
várias pontes possíveis com outras áreas das ciências humanas.
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Compreender, portanto, o que é saúde mental e a história recente do


conceito de loucura poderá nos aprimorar em concepções mais benéficas
e formas de vinculações humanas mais positivas. Poderemos pensar em
tentativas de superar ou minimizar parte do sofrimento humano.

A questão do sofrimento psíquico

As situações difíceis e de sofrimento são inerentes a qualquer vida


humana, nas esferas biológica, psíquica e social. Psiquicamente, vivemos
com intensidade e dor, por exemplo, os momentos de perda de entes queri-
dos, mas não apenas esses. Buscamos a superação desses sofrimentos, pro-
curamos nos organizar em nossa individualidade e a partir da relação com as
outras pessoas, tentando o retorno às condições anteriores a tais momentos.
Ainda que possamos considerar esse sofrimento como intenso:

14 [...] não é possível falar de doença nessas situações. É necessário


ter muito cuidado para não tornar patológico o sofrimento. Situações
como essas, todos nós podemos viver em algum momento da vida e,
nessas circunstâncias, o indivíduo necessita de apoio de seus gru-
pos (a família, o trabalho, os amigos), isto é, que estes grupos sejam
“continentes” de seu sofrimento e de suas dificuldades e que não o
excluam, não o discriminem, tornando ainda mais difícil o momento
que vive. (BOCK, FURTADO; TEIXEIRA, 2005, p. 344)

Outros recursos podem ser necessários, entre eles uma ajuda psi-
coterápica, que pode facilitar o suporte e a compreensão dos conteúdos
internos mentais que estejam associados ao sofrimento. Espera-se, como
resultado, uma possível reorganização pessoal dos pensamentos, senti-
mentos, valores, expectativas, formas diferentes de lidar com as perdas e
com o próprio momento de vida.
Diante desses exemplos, o critério de avaliação sobre o anunciado
sofrimento parte do próprio indivíduo, não estando presente o critério de
adaptação ou desadaptação social. Esse sofrimento pode ocorrer em um
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sujeito perfeitamente adaptado ao meio social, cumpridor de suas respon-


sabilidades perante as instituições às quais está vinculado. Por outro lado,
podemos pensar num sujeito que pode ser considerado como socialmente
desadaptado, diferente, mas que não vivencia momentaneamente nenhum
sofrimento psíquico relevante. Consegue lidar com seus conflitos e aflições
internas de um modo produtivo e criativo.
Não existe uma relação certa e sempre presente de causalidade
entre o sofrimento ou o distúrbio psicológico e a desadaptação social.
Assim, torna-se questionável a utilização de critérios exclusivamente de
adequação social para a avaliação psicológica de um sujeito como normal
ou doente. Assim:

[...] abordar a questão da doença mental, nesse enfoque psicológi-


co, significa considerá-la como produto da interação das condições de
vida social com a trajetória específica do indivíduo (sua família, os de-
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mais grupos e as experiências significativas) e sua estrutura psíquica.
(BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2005, p. 345)

Além de serem relevantes para a determinação do conceito de doen-


ça, podemos dizer que as condições externas devem ser entendidas como
possíveis desencadeadoras do distúrbio mental. Inversamente, também po-
dem ser desencadeadoras ou promotoras da saúde mental. Este tópico será
aprofundado na sequência do texto, em considerações sobre a normalidade.

Sobre a história da loucura

Michel Foucault (1926-1984), filósofo francês, contribuiu para com-


preendermos a constituição histórica do conceito de doença mental. Segun-
do ele, durante o Renascimento (século XVI), o louco vivia como um indiví-
duo errante, expulso das cidades, entregue aos peregrinos e navegantes.
Esse louco era comumente identificado como um ser com algum conheci-
mento esotérico sobre as pessoas, que poderia revelar verdades secretas.
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Naquele período histórico, a loucura significava um desregramento de con-


duta, desvio moral, ignorância, pois o louco tomava a mentira como reali-
dade. Seria um tipo de oposição à razão, verdade e moralidade. Na Idade
Média e no Renascimento, foram poucos os casos de internação de loucos
em hospitais e seu tratamento era igual ao dos demais doentes, com san-
grias, purgações, ventosas e banhos.
Nos séculos XVII e XVIII, a designação de louco era atribuída à per-
cepção que instituições como a igreja e a família tinham sobre o indivíduo e
os critérios que utilizavam se referiam à transgressão da lei e da moralida-
de. Ainda no século XVII, o Hospital Geral, uma instituição assistencial (não
médica), foi criado em Paris. Nesse local, teve início um grande movimento
de internação dos doentes venéreos, dos ditos feiticeiros (profanadores),
dos libertinos e dos loucos. Os loucos não eram tidos como doentes e inte-
gravam um grupo populacional composto pelos segregados da sociedade.
Paralelamente, procurava-se avançar na construção de um conheci-
16
mento médico sobre a loucura e, na segunda metade do século XVIII, ga-
nham forças reflexões médicas e filosóficas que situavam a loucura como
algo que ocorria no interior do homem, como perda de sua própria natu-
reza. Sendo considerada injusta a convivência com outras populações, é
criado então o asilo, a primeira instituição exclusivamente destinada à re-
clusão dos loucos. Nesses locais, o tratamento se baseava na religião, na
violência, na humilhação, no trabalho, no medo. A atuação do médico era
baseada na moralidade, voltando-se à normatização do louco, este visto
agora como capaz de se recuperar.
A medicalização tem seu início, procurando-se curar o doente mental,
novo nome atribuído ao louco, abrindo o espaço para o surgimento da Psi-
quiatria. Esta considera os sintomas do paciente como sinal de um distúrbio
orgânico, uma doença cerebral. Sua origem seria, portanto, dentro do orga-
nismo biológico, devido a alguma lesão física ou distúrbio fisiológico cerebral:
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Fala-se, mesmo, na química da loucura, e inúmeras pesquisas nesse


sentido estão em andamento. Nessa abordagem, algum distúrbio ou
anomalia da estrutura ou funcionamento cerebral leva a distúrbios
do comportamento, da afetividade, do pensamento etc. O sintoma
apoia-se e tem sua origem no orgânico. (BOCK; FURTADO; TEIXEI-
RA, 2005, p. 347)

Se a doença mental é tida como uma doença orgânica, será tratada


com medicamentos e substâncias químicas.
Por outro lado, a abordagem psicológica apresenta uma outra pers-
pectiva. Ela lida com os sintomas e, portanto, com a própria doença mental,
como sendo uma desorganização da personalidade. Existiria uma instala-
ção da doença na personalidade que levaria a mudanças em sua estrutura
ou a uma alteração de seu desenvolvimento. A doença mental se definiria
pelo grau de desvio do que é considerado comportamento padrão ou per-
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sonalidade normal.

Considerações sobre normalidade

Algumas áreas do conhecimento científico acabam por estabelecer pa-


drões de comportamento, de funcionamento do organismo sadio ou de adap-
tação de personalidade. Esse estabelecimento muitas vezes se dá através
de questões estatísticas sobre o que se espera de um organismo ou de uma
personalidade, em sua expressão e função. São usadas informações com
base na cultura do próprio cientista ou profissional, que no momento avalia e
faz o diagnóstico do indivíduo. É importante ressaltar que, portanto, o concei-
to de normal e patológico é bastante relativo. O que é considerado normal e
adequado numa cultura pode ser considerado anormal ou patológico noutra.
O poder da ciência para estabelecer algum tipo de diagnóstico pode
resultar em caminhos distintos para os indivíduos, rotulados a partir de tais
critérios, os quais impactam suas trajetórias de vida. Como exemplo, podemos
verificar a dificuldade em se conseguir um emprego, fruto de um árduo estigma
social que o paciente sofre, vinculado à internação em hospitais psiquiátricos.
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Baseando-se num conjunto de conhecimentos bastante relativos e


incompletos, os profissionais acabam por patologizar aspectos do compor-
tamento que não seriam considerados anormais em outros contextos histó-
ricos, o que demonstra a fragilidade do diagnóstico:

Outro aspecto conhecido e bastante alardeado pelos meios de comu-


nicação de massa é o uso da Psiquiatria ou do rótulo de doença men-
tal com fins políticos. O saber científico e suas técnicas surgem, então,
comprometidos com grupos que querem manter determinada ordem
social. Tranca-se no hospital psiquiátrico ou retira-se a legitimidade do
discurso do indivíduo que contesta esta ordem, transformando-o em
louco. (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2005, p. 349)

Essa crítica se expande em diversas correntes científicas que afir-


mam que a doença mental é um conceito construído pela sociedade, sen-
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do uma representação que procura diferenciar e isolar determinada ordem
de fenômeno que é diferente dos princípios da razão. Essas correntes
possuem elevada importância histórica na denúncia das condições desu-
manas e perversas de tratamento e reclusão que os chamados doentes
mentais vieram recebendo. Também buscaram cientificamente encontrar
possíveis causas sociais e culturais (como o trabalho, o sistema familiar,
educacional, as diferentes formas de violência) da doença mental, bem
como ampliaram as estratégias de atenção aos indivíduos que enfrentam
tamanho sofrimento psíquico.
Torna-se fundamental abordar a questão da loucura diferentemen-
te, de modo a ampliar a nossa compressão sobre as diferenças que são
construídas socialmente na história da vida de cada um. E, para isso, pre-
cisamos pensar em promoção da saúde mental, considerando o homem
como uma totalidade, isto é, como um ser biológico, psicológico e socioló-
gico. Paralelamente, é urgente pensar nas condições que possam propiciar
bem-estar físico, mental e social.
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Danilo Polverini Locatelli

Indistintamente, torna-se necessário o enfrentamento da pobreza,


que determina condições pouco propícias à satisfação das necessidades
básicas dos indivíduos, o que aumenta sua vulnerabilidade. São urgentes
também o enfrentamento da violência e a busca por melhores condições de
nossos sistemas de segurança, de saúde e educacional.
E precisamos ampliar nossas reflexões sobre como vivemos a
nossa contemporaneidade. De que forma será que auxiliamos na desu-
manização crescente das relações humanas? Será que ampliamos as
formas de tratamento desiguais que têm como base a descriminação e o
preconceito perante aquilo que a sociedade julga como diferente? Será
que contribuímos ou atrapalhamos quando nos deparamos com pessoas
que apresentam aspectos que diferem do conceito de normalidade que
nos é apresentado socialmente?
Nesta unidade, avançamos nas reflexões sobre a questão da nor-
malidade em saúde mental e as consequências que as ações nessa área
19
de atenção podem trazer ao indivíduo e seu meio social. A compreensão
das diferenças e o aprofundamento teórico podem propiciar melhores for-
mas de cuidado aos que apresentam intenso sofrimento psíquico.
BacHarelado em teologia

Referências

BOCK, Ana Mercês Bahia; FURTADO, Odair; TEIXEIRA, Maria de Lourdes


Trassi. Psicologias: uma introdução ao estudo de Psicologia. São Paulo:
Saraiva, 2005.

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Unidade 3 – Um pouco da história e alguns conceitos do


Behaviorismo

Objetivo

Apresentar alguns conceitos principais do Behaviorismo, contextua-


lizando a construção histórica dessa abordagem teórica.

Introdução

Historicamente, o Behaviorismo ocupa um lugar de destaque na for-


mação da Psicologia como ciência. Essa abordagem teórica fornece ele-
mentos metodológicos mensuráveis, o que faz a Psicologia se aproximar
do Positivismo, passo importante para o seu reconhecimento científico.
21
Conhecer alguns dos principais conceitos teóricos do Behaviorismo
poderá ampliar as reflexões sobre o comportamento humano e as conse-
quências possíveis de uma intervenção terapêutica com base nessa abor-
dagem, bem como identificar como nossas ações podem ser explicadas a
partir de tal teoria.
Conforme já explicado em outras unidades, é fundamental que os
leitores procurem identificar a aplicabilidade desses conceitos em suas vi-
das cotidianas. Também se deve ressaltar que essa é apenas uma (ainda
que bastante importante) das teorias que explicam o comportamento. Que
possamos encontrar neste conteúdo uma utilidade prática, sem nos abster-
mos da premissa crítica necessária para qualquer leitura.

Comportamento respondente

Um importante conceito do Behaviorismo é o de comportamento res-


pondente ou reflexo, o que costumamos chamar de não voluntário ou invo-
luntário e inclui as respostas que são produzidas (eliciadas) por estímulos
antecedentes do ambiente. Um exemplo de comportamento respondente
é o piscar de olhos ao contato de algum cisco ou sujeira no próprio olho.
BacHarelado em teologia

Refere-se a uma interação estímulo-resposta (ambiente-sujeito) incondicio-


nada, na qual certas ocorrências ambientais produzem certas respostas do
organismo que independem de algum processo de aprendizagem anterior.
Contudo, esse tipo de interação também pode ser provocado por
estímulos que inicialmente não produziam respostas em determinado or-
ganismo. Para isso ocorrer, precisamos do que chamamos de pareamen-
to. Assim, estímulos neutros (que não produzem respostas), quando tem-
poralmente pareados com estímulos eliciadores originais (geradores das
respostas), podem, em certas condições, produzir respostas semelhantes.
Essas novas interações, que podemos chamar também de reflexos, são
condicionadas devido a uma história de pareamento, o qual levou o orga-
nismo a responder a estímulos aos quais antes não respondia.
Esses conceitos foram originalmente pensados a partir de expe-
rimentos com animais, realizados em laboratório por Ivan Pavlov (1849-
1936). Ele percebeu que alguns estímulos, anteriormente neutros, pro-
22
vocavam a salivação de cães e a secreção estomacal no animal, o que
deveria ocorrer apenas quando o animal ingerisse um alimento. Assim, o
comportamento do animal parecia condicionado a esses estímulos apli-
cados poucos instantes antes ou no mesmo momento do cão se alimen-
tar. Pavlov, por exemplo, acionava uma campainha antes de fornecer
alimento ao animal e percebeu que, com o passar do tempo, bastava
acionar a própria campainha para o cão salivar. Assim, o estímulo cam-
painha provocou reflexos alimentares no cão (resposta) mesmo sem a
presença do alimento. Atualmente, esse tipo de condicionamento é bas-
tante utilizado no adestramento de animais.
Vamos a um exemplo que pode ser considerado triste, porém não dis-
tante da realidade de uma significativa parcela populacional. Suponha que
um pai, toda vez que chegue em casa, vindo trabalho, bata em seu filho.
Esse ato violento é constante e gera marcas físicas e psíquicas na crian-
ça. Ao chegar em casa, o pai pega a chave para abrir a porta e o estímulo
sonoro das chaves é escutado pelo filho dentro da casa. Com o passar do
tempo, o barulho das chaves (estímulo neutro) se torna estímulo eliciador e,
F u n da m e n t o s de Psicologia
Danilo Polverini Locatelli

assim que escutá-lo, o filho já poderá apresentar reações físicas relacionadas


ao comportamento agressivo do pai. Poderá ficar paralisado, suar frio, apre-
sentar aceleração cardíaca antes mesmo do pai entrar em casa.

Comportamento operante

O conceito de comportamento operante é elaborado por Skinner


(1904-1990) durante o desenvolvimento de seu trabalho de investigação
sobre a relação do indivíduo com seu ambiente, sendo esse tipo de com-
portamento predominante em nossas interações com o meio.
O comportamento operante abrange todos os movimentos de um
organismo que, em algum momento, têm efeito sobre ou fazem algo ao
ambiente. Se o comportamento respondente é um tipo de resposta que o
organismo apresenta ao mundo, o comportamento operante opera sobre o
mundo, é ativo, por assim dizer. Para explicar melhor esse conceito, vamos
relembrar um dos experimentos mais famosos do Behaviorismo. 23
Um ratinho, privado de água (necessidade orgânica) por 24 horas,
foi colocado na “caixa de Skinner” − um recipiente fechado no qual encon-
trava apenas uma barra. Essa barra, quando pressionada por ele, acionava
um mecanismo que lhe permitia obter uma gota de água, que chegava à
caixa por meio de uma haste. A primeira vez que isso ocorre (apertar a bar-
ra e receber água) é por acaso, acidentalmente, durante a exploração da
caixa. Devido à sede, essa gota foi instantaneamente consumida:

Por ter obtido água ao encostar na barra quando sentia sede, consta-
tou-se a alta probabilidade de que, estando em situação semelhante,
o ratinho a pressionasse novamente. Nesse caso de comportamento
operante, o que propicia a aprendizagem dos comportamentos é a ação
do organismo sobre o meio e o efeito dela resultante – a satisfação de
alguma necessidade, ou seja, a aprendizagem está na relação entre
uma ação e seu efeito. (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2005, p. 62)
BacHarelado em teologia

O comportamento operante pode ser representado da seguinte forma:


R —► S
Em que R é a resposta (pressionar a barra) e S (do inglês stimuli),
o estímulo reforçador (a água), que tanto interessa ao organismo, seja por
alguma necessidade orgânica, prazer, seja como forma de aliviar o despra-
zer. A flecha significa “levar a”.
O estímulo reforçador é chamado de reforço. O termo estímulo foi
mantido da relação R-S do comportamento respondente para designar-lhe
a responsabilidade pela ação, apesar de ela ocorrer após a manifestação do
comportamento. Na interação sujeito-ambiente, o organismo se comporta,
emitindo determinada resposta e sua ação produz alguma alteração am-
biental, uma consequência que retroage sobre o sujeito, alterando a pro-
babilidade futura de ocorrência. Dessa forma, podemos dizer que agimos
(operamos) sobre o mundo em virtude das consequências de nossas ações.
Agora, podemos pensar em quais comportamentos ocorrem diante
24
de alguma necessidade que temos. Ou podemos também pensar, em nos-
sa vida cotidiana, que tipo de estímulo reforçador buscamos.
Por razões claras, Skinner foi o teórico behaviorista que mais influen-
ciou o entendimento do processo ensino/aprendizagem e a prática escolar.
A concepção skinneriana de aprendizagem está relacionada a uma questão
de modificação do desempenho (comportamento): o processo de ensino
exitoso depende de organizar, de modo eficiente, as condições estimulado-
ras, possibilitando que o aluno saia da situação de aprendizagem diferente
de como entrou. Para Skinner, o ensino é um processo de condicionamento
através do uso de reforçamento das respostas que se quer obter.

Reforçamento

O termo reforço se refere a toda consequência que, seguindo uma


determinada resposta, altera a probabilidade futura de ocorrência dessa
resposta. Chamamos de reforço positivo o reforço que aumenta a probabi-
lidade futura da resposta que o produz. E de reforço negativo o reforço que
aumenta a probabilidade futura da resposta que o remove ou atenua.
F u n da m e n t o s de Psicologia
Danilo Polverini Locatelli

Podemos retornar ao exemplo da “caixa de Skinner” para compreen-


dermos melhor o conceito de reforço negativo. Suponhamos que, em novo
experimento, ao ser colocado na caixa, o ratinho receba choques do assoa-
lho. Após várias tentativas de evitar os choques, o animal, ao pressionar
a barra acidentalmente, percebe que os choques cessam. Diante de tal
fato, as respostas de pressão à barra tenderão a aumentar de frequência.
Chama-se de reforçamento negativo ao processo de fortalecimento dessa
classe de respostas (pressão à barra), ou seja, a remoção de um estímu-
lo aversivo controla a emissão da resposta. Podemos considerá-lo como
condicionamento por tratar-se de aprendizagem, e também reforçamento
porque um determinado comportamento é apresentado e aumentado em
sua frequência ao alcançar o efeito desejado.
Enquanto o reforçamento positivo oferece alguma coisa ao organis-
mo (gotas de água), o negativo permite a retirada/remoção de algo indese-
jável (os choques).
25
Importante ressaltar que a função reforçadora de algum evento am-
biental só pode ser definida por sua função sobre o comportamento do
indivíduo. Ainda assim, alguns eventos possuem uma tendência a serem
reforçadores para toda uma espécie e esses eventos tendem a ser relacio-
nados com a sobrevivência dessa espécie (por exemplo, água, alimento e
afeto), podendo ser chamados de reforçadores primários. Outros, secun-
dários, adquirem a função quando pareados temporalmente com os primá-
rios. Quando emparelhados com muitos outros reforçadores secundários,
“tornam-se reforçadores generalizados, como o dinheiro e a aprovação so-
cial” (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2005, p. 64).

Esquiva e fuga

A esquiva é um processo no qual os estímulos aversivos condiciona-


dos e incondicionados estão separados por determinado intervalo de tem-
po apreciável (não próximo), o que possibilita que o indivíduo/organismo
realize um comportamento que previna a ocorrência ou reduza o alcance
do segundo estímulo.
BacHarelado em teologia

Podemos retornar ao exemplo do pai que agride o filho toda vez que
chega em casa. Quando o filho escutar a chave, devido à distância de tempo
existente entre o barulho e a violência sofrida, poderá de alguma forma se
proteger da agressão, colocando algum objeto entre ele e o pai. No proces-
so de esquiva, após o estímulo condicionado (barulho da chave), o indivíduo
apresenta um comportamento que é reforçado pela necessidade de reduzir
ou evitar o segundo estímulo (agressão), que também é aversivo. Uma es-
quiva bem-sucedida impede a ocorrência do estímulo incondicionado.
Outro processo é o de fuga. Nesse caso, o comportamento reforça-
do é aquele que termina com um estímulo aversivo já em curso. Utilizando
a situação-exemplo acima, o filho tentaria fugir para algum dos quartos, no
momento em que a agressão se inicia. A isso podemos denominar fuga,
pois há um estímulo incondicionado que, quando apresentado, será evi-
tado pelo comportamento de fuga. Nesse caso, não se evita o estímulo
aversivo, mas se foge dele depois de iniciado.
26

Extinção

A extinção é um procedimento/processo no qual uma resposta deixa


de ser reforçada, de modo abrupto. Consequentemente, a resposta dimi-
nuirá de frequência e até mesmo poderá deixar de ser emitida. Contudo, o
tempo necessário para que a resposta deixe de ser emitida dependerá de
alguns fatores, como a história e o valor do reforço envolvido.

Punição

A punição é outro procedimento que envolve a consequência de


uma resposta quando existe apresentação de um estímulo aversivo ou re-
moção de um reforçador positivo presente. Algumas pesquisas mostram
que a punição leva à supressão temporária da resposta sem, contudo, al-
terar a motivação, as razões que levaram à ação. Temos as leis de trânsito
como exemplos. Apesar de estabelecerem punições a motoristas diante de
infrações cometidas, tais punições não os têm motivado a adotar um com-
portamento considerado adequado.
F u n da m e n t o s de Psicologia
Danilo Polverini Locatelli

Diante desse fato, os behavioristas propuseram a substituição defi-


nitiva das práticas punitivas por procedimentos de instalação de comporta-
mentos desejáveis, o que pode ser aplicável no cotidiano e em diferentes
espaços em que se procure trabalhar/modular comportamentos.
Nesta unidade, discutimos alguns dos conceitos iniciais do Beha-
viorismo, que permanecem presentes nas práticas e estudos behavioristas
da atualidade. A modulação do comportamento, através do avanço de ex-
perimentos objetivos, de caráter positivista, possui relevância histórica na
concepção da Psicologia como ciência.

27
BacHarelado em teologia

Referências

BOCK, Ana Mercês Bahia; FURTADO, Odair; TEIXEIRA, Maria de Lourdes


Trassi. Psicologias: uma introdução ao estudo de Psicologia. São Paulo:
Saraiva, 2005.

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Unidade 4 – Um pouco da história e alguns conceitos da


Psicanálise

Objetivo

Apresentar alguns conceitos principais da Psicanálise, contextuali-


zando a construção histórica dessa abordagem teórica.

Introdução

O início da história da Psicanálise é intrinsecamente ligado à história


de Sigmund Freud. Assim, quando partimos para compreendê-la, desde a
origem dessa ciência e durante parte de seu desenvolvimento, é natural que
busquemos também a trajetória de seu pioneiro e fundador. E essa relação se
29
torna mais relevante quando pensamos que o início da produção de conheci-
mento nessa área está baseado nas experiências pessoais de Freud, sempre
amplamente apresentadas com cuidado e rigorosidade em suas obras.
A compreensão básica da Psicanálise passa necessariamente pela
experiência inicial do autor na busca e no desvelamento das regiões ditas
obscuras da vida psíquica, ultrapassando resistências individuais interio-
res. Talvez aqui esteja um dos grandes enfrentamentos que a Psicanálise
tem como objetivo, considerando possível ser realizada por cada paciente
e por cada psicanalista.
Podemos dizer que a característica essencial do trabalho psicanalí-
tico é o deciframento do inconsciente e a integração de seus conteúdos na
consciência. A Psicanálise vê tal ato como importante por considerar que
esses conteúdos desconhecidos e inconscientes determinam grande parte
do comportamento individual e coletivo, estando presentes nas dificulda-
des cotidianas, no mal-estar constante sofrido pelo homem.
O objetivo do trabalho investigativo é o autoconhecimento, que po-
derá propiciar meios de enfrentamento dos sofrimentos, criar mecanismos
BacHarelado em teologia

de superação dos conflitos internos e das dificuldades, em direção a uma


produção humana mais autônoma, criativa e gratificante de cada indivíduo,
dos grupos, das instituições.
Para tal, é necessário que o profissional psicanalista ajude a des-
montar/desconstruir as ditas resistências inconscientes que formam
obstáculos para a passagem dos conteúdos/materiais inconscientes
para a consciência.
Ao longo de sua construção de conhecimento e prática, a Psicanálise
fluiu em diferentes campos de atuação, sendo mais reconhecida, pelo pú-
blico em geral, a área clínica. No entanto, torna-se necessário destacar sua
abrangência, percorrendo as áreas educacional, hospitalar, comunitária e
social. Além das atuações práticas, os psicanalistas também vêm amplian-
do a pesquisa e produção de conhecimentos. Por exemplo, no aprofunda-
mento de conteúdos que possam ser úteis na compreensão de fenômenos
sociais graves, como a violência e seu alarmante quadro no Brasil, o sur-
30
gimento e formas de enfrentamento do sofrimento produzido pelo modo de
existência no mundo contemporâneo. A busca pela compreensão sobre as
questões psicodinâmicas presentes nas distintas psicopatologias, como os
transtornos relacionados ao uso de drogas, a anorexia, a síndrome do pâni-
co, a excessiva medicalização do sofrimento e a sexualização da infância.
Há uma constante busca pela compreensão dos novos modos de
subjetivação e da expressão desse existir, bem como as novas formas que
o sofrimento psíquico adquire. Consequentemente, há também a busca
pela criação de novas modalidades de intervenção, seja no âmbito indivi-
dual seja no social, visando a superar diferentes tipos de mal-estar.
A Psicanálise se utiliza do método interpretativo para compreender
o real, o sintoma individual e social, assim como suas determinações. No
plano individual, o material de trabalho do psicanalista são os sonhos, as
associações livres, os atos falhos e as diferentes manifestações do incons-
ciente. E, para isso, o que é significativo é a história de cada um, pois
cada palavra, cada símbolo tem um significado particular que só pode ser
apreendido a partir de sua história, que é absolutamente única e singular.
F u n da m e n t o s de Psicologia
Danilo Polverini Locatelli

Assim, quando se deparar com um dicionário de sonhos, lembre-se que


os significados de cada símbolo não podem ser generalizados, assumindo
uma dimensão única coletiva.

A origem com Freud

Freud conclui sua formação de Medicina na Universidade de Vie-


na, em 1881. Especializando-se em Psiquiatria, começa a trabalhar em
um laboratório de Fisiologia e a ministrar aulas de Neuropatologia. Abdica
de se dedicar integralmente à vida acadêmica e de pesquisador por di-
ficuldades financeiras, migrando para o atendimento clínico de pessoas
acometidas de “problemas nervosos”. Obtém uma bolsa de estudo ao final
de sua residência médica e, em Paris, começa a trabalhar com Jean Char-
cot, psiquiatra francês que tratava as histerias com hipnose. Após esse
período, em 1886, retorna a Viena, onde volta a clinicar. Nesse momento,
seu principal instrumento de trabalho para a eliminação dos sintomas dos 31
distúrbios nervosos passa a ser a sugestão hipnótica. Ele muda a forma de
sua atuação, testando seus resultados diante das queixas apresentadas
pelos pacientes. A ligação entre a teoria psicanalítica e sua prática clínica é
aprofundada através do estudo de diferentes casos que trata, sendo esse
seu principal método de pesquisa. Migra, a partir de então, para o método
catártico e, finalmente, para a associação livre, técnica de grande relevân-
cia na Psicanálise atual.

A primeira teoria sobre a estrutura do aparelho psíquico

No livro A interpretação dos sonhos, Freud escreve a sua primeira


concepção sobre a estrutura e o funcionamento da personalidade. Também
denominada de primeira tópica, essa teoria se refere à existência de três sis-
temas ou instâncias psíquicas: inconsciente, pré-consciente e consciente.
O inconsciente é constituído por conteúdos reprimidos, que não
têm acesso aos sistemas pré-consciente/consciente, em decorrência da
ação de censuras internas. Isso pode ocorrer de duas formas diferentes:
BacHarelado em teologia

esses conteúdos podem ter sido conscientes em algum momento e terem


sido reprimidos, ou seja, migraram para o inconsciente, ou podem ser ge-
nuinamente inconscientes desde sua origem.
O pré-consciente é o sistema onde permanecem aqueles conteúdos
que de certa forma são acessíveis à consciência. São matérias que não
estão na consciência em determinado momento, mas podem estar em um
momento seguinte.
O consciente é o sistema do aparelho psíquico que recebe simultanea-
mente as informações do mundo exterior e as do mundo interior. Aqui temos
o fenômeno da percepção, a atenção, o raciocínio e outras funções mentais.

A descoberta da sexualidade infantil

Freud defendeu que a maioria dos pensamentos e desejos repri-


midos estava associada a conflitos de ordem sexual, que ocorriam nos
32 primeiros anos de vida dos indivíduos, ou seja, afirmou que as experiên-
cias de caráter traumático foram reprimidas na vida infantil, e estas se
configuravam como origem dos sintomas atuais. Para ele, o que ocorre
nesse período de vida deixa marcas na constituição do sujeito. Chocando
a sociedade em geral (e a própria sociedade médica), colocou a sexua-
lidade no centro da vida psíquica, afirmando a existência da sexualida-
de infantil. Escreveu que o período de desenvolvimento da sexualidade
é longo e complexo até chegar à sexualidade adulta, onde as funções
de reprodução e de obtenção do prazer podem estar associadas, tanto
no homem como na mulher. Atualmente, esse conteúdo pode parecer
normal para a sociedade contemporânea, mas trouxe muitos incômodos
para o meio social de sua época.
Freud estabelece, portanto, uma teoria de desenvolvimento psicos-
sexual, afirmando que o indivíduo, nos primeiros anos de vida, tem a fun-
ção sexual ligada à sobrevivência e que, consequentemente, o prazer é
encontrado no próprio corpo. É nesse terreno que Freud formula o conceito
de complexo de Édipo:
F u n da m e n t o s de Psicologia
Danilo Polverini Locatelli

No complexo de Édipo, a mãe é o objeto de desejo do menino, e o pai é


o rival que impede seu acesso ao objeto desejado. Ele procura então ser
o pai para “ter” a mãe, escolhendo-o como modelo de comportamento,
passando a internalizar as regras e as normas sociais representadas e
impostas pela autoridade paterna. Posteriormente, por medo da perda
do amor do pai, “desiste” da mãe, isto é, a mãe é “trocada” pela riqueza
do mundo social e cultural, e o garoto pode, então, participar do mundo
social, pois tem suas regras básicas internalizadas através da identifica-
ção com o pai. (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2005, p. 75-76)

Alguns outros conceitos

É importante ressaltar que todas as cenas relatadas pelos pacientes


tinham de fato ocorrido − podiam ser reais ou imaginadas −, mas tinham
a mesma força e consequências de uma situação real. O que importa é a
realidade psíquica de cada sujeito. 33
Quanto ao funcionamento psíquico, este:

[...] é concebido a partir de três pontos de vista: o econômico (existe uma


quantidade de energia que “alimenta” os processos psíquicos), o tópico
(o aparelho psíquico é constituído de um número de sistemas que são
diferenciados quanto a sua natureza e modo de funcionamento, o que
permite considerá-lo como “lugar” psíquico) e o dinâmico (no interior do
psiquismo existem forças que entram em conflito e estão, permanen-
temente, ativas. A origem dessas forças é a pulsão). Compreender os
processos e fenômenos psíquicos é considerar os três pontos de vista
simultaneamente. (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2005, p. 76)

Freud também se refere a dois tipos de pulsão, a de vida e de morte.


Chamou de pulsão o constante estado de tensão que busca, através de um
objeto, a supressão desse estado. A pulsão de vida abrange as pulsões sexuais
e as de autoconservação. Já a pulsão de morte pode ser considerada autodes-
trutiva ou estar direcionada para fora, manifestando-se de forma agressiva.
BacHarelado em teologia

Já o sintoma é uma produção, comportamental ou no campo do pen-


samento, resultante de um conflito psíquico entre o desejo e os mecanis-
mos de defesa.

A segunda teoria sobre a estrutura do aparelho psíquico

Aqui, Freud reestrutura a teoria do aparelho psíquico e introduz os


conceitos de id, ego e superego.
O id, como reservatório da energia psíquica, armazena as pulsões.
As características atribuídas ao sistema inconsciente, na primeira teoria,
são atribuídas ao id, sendo este regido pelo princípio do prazer.
O ego estabelece o equilíbrio entre as exigências do id, as exigên-
cias da realidade e as “ordens” do superego. Podemos considerar que o
ego é regido pelo princípio da realidade, atuando como um regulador, na
medida em que altera o princípio do prazer para buscar a satisfação, con-
34 siderando as condições objetivas da realidade.
O superego se origina com o complexo de Édipo, resultado da in-
ternalização das proibições, dos limites e da autoridade. O conteúdo do
superego se refere a exigências morais, sociais e culturais. O sentimento
de culpa está associado a essa estrutura, sendo este proveniente de um
ato ou de um pensamento individual.

Os mecanismos de defesa

Segundo Freud, para evitar o desprazer da percepção de algum acon-


tecimento constrangedor ou doloroso, a pessoa “deforma” ou suprime a rea-
lidade. Assim, deixando de registrar percepções externas, acaba por afastar
determinados conteúdos psíquicos. Os mecanismos que o indivíduo usa para
deformar essa realidade são chamados de mecanismos de defesa, são in-
conscientes e ocorrem independentemente da vontade do indivíduo.
Entre tantos mecanismos, há a formação reativa, em que o indivíduo
adota uma atitude oposta ao seu desejo. Temos também a projeção, que
ocorre quando o indivíduo localiza (projeta) algo que tem em si no mundo
F u n da m e n t o s de Psicologia
Danilo Polverini Locatelli

externo e acaba não percebendo que aquilo que foi projetado é algo seu
que considera indesejável. Já na racionalização, existe a construção de
uma argumentação racionalmente convincente e aceitável, que justifica os
estados “deformados” da consciência. Por exemplo, temos as justificativas
ideológicas para os impulsos destrutivos que eclodem na guerra, no pre-
conceito e na defesa da pena de morte.
Nesta unidade, apresentamos um pouco da história da Psicanálise,
ressaltando alguns dos principais conceitos iniciais que permanecem cen-
trais nas práticas e investigações psicanalíticas. O conhecimento sobre o
funcionamento psíquico avança de formas diferentes quando comparado
com o Behaviorismo ou outras abordagens teóricas, destacando-se o lugar
do desejo como princípio da formação de nossa personalidade.

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BacHarelado em teologia

Referências

BOCK, Ana Mercês Bahia; FURTADO, Odair; TEIXEIRA, Maria de Lourdes


Trassi. Psicologias: uma introdução ao estudo de Psicologia. São Paulo:
Saraiva, 2005.
FREUD, Sigmund. A interpretação dos sonhos. Rio de Janeiro: Imago,
2001. Trabalho original publicado em 1900.

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Unidade 5 – Psicologia social

Objetivo

Apresentar alguns conceitos principais presentes no campo da Psi-


cologia social.

Introdução

A Psicologia social é uma das muitas áreas da Psicologia. Em sua


origem, no século XIX, esse campo da Psicologia visava entender o com-
portamento dos indivíduos, quando se encontravam em grandes multidões,
em uma época em que o capitalismo se expandia. Atualmente, não existe
um consenso na explicação sobre o que é Psicologia social. Se para alguns
37
teóricos, esta é “o estudo científico da influência recíproca entre as pessoas
(interação social) e do processo cognitivo gerado por esta interação (pen-
samento social)” (RODRIGUES; ASSMAR; JABLONSKI, 2003, p. 21), para
outros pode ser considerada como o estudo da dimensão subjetiva dos
fenômenos sociais. Comum a ambas conceituações, está a preocupação
com a compreensão sobre a relação dos indivíduos e a sociedade em que
estão inseridos. Podemos dizer que a Psicologia social busca respostas
para perguntas sobre a influência social em nos tornarmos quem somos.
O primeiro conceito, considerado dicotômico, será formulado por
meio de constantes discussões sobre o que mais influencia a relação indi-
víduo-sociedade: a sociedade determina o comportamento dos indivíduos
ou o indivíduo com suas características organiza de forma própria a in-
fluência que recebe da sociedade, autodeterminando seu comportamento
perante o coletivo?
O segundo conceito surge após fortes críticas ao primeiro. Seus teó-
ricos argumentam que a Psicologia social até então estabelecida estava
destinada a corresponder aos interesses das elites e das empresas, com a
BacHarelado em teologia

busca do ajustamento social dos indivíduos para o trabalho e para o con-


vívio em sociedade, em detrimento da busca de melhores condições de
vida da maioria das populações. Nesse novo conceito busca-se a supera-
ção da dicotomia indivíduo-sociedade, pois se pondera que um não existe
sem o outro. Abre-se, consequentemente, a necessidade de se investigar
os fenômenos a partir da análise da subjetividade que vai sendo constituí-
da na atuação e interação social dos sujeitos. Ao mesmo tempo, também
vai constituindo os fenômenos (GONÇALVES; BOCK, 2003 apud BOCK;
FURTADO; TEIXEIRA, 2005, p. 184). O indivíduo transforma o mundo e,
simultaneamente, a si.
Nesta unidade, veremos alguns dos principais conceitos presentes
na Psicologia social, independente de qual movimento teórico esta faz parte.

Papéis sociais e o controle social

38 Compreendendo a sociedade como o conjunto de posições sociais


(como a posição de pai, filho, professor, jornalista), as expectativas estabe-
lecidas pelo conjunto social sobre o comportamento dos ocupantes dessas
posições é o que irá determinar o papel prescrito. Resumidamente, é o que
esperar de alguém pela posição que ocupa. É simples imaginar esse con-
ceito ao pensarmos em qualquer encontro interpessoal de nosso cotidiano.
Ao nos depararmos com um vizinho no elevador, nós o trataremos como
vizinho e poderemos conversar com ele sobre questões relativas ao con-
domínio em que moramos. Sobretudo, existe a expectativa que o outro aja
como morador e siga as normas de conduta. Mesmo quando encontramos
com pessoas que desconhecemos, utilizamos indícios da posição que elas
ocupam, por exemplo, o jaleco branco comum a profissionais de saúde.
Diante disso, decidimos o que fazer e como nos comportar. São esses
comportamentos manifestados, chamados de papel desempenhado, que
podem estar de acordo ou desacordo com o que é prescrito socialmente
para o desempenho de determinado papel (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA,
2005). Os papéis sociais, aprendidos conforme nossos processos de so-
cialização, possibilitam a compreensão da situação social que vivemos,
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sendo referências para o nosso comportamento. Sabemos, por exemplo,


como nos vestir caso sejamos convidados para sermos padrinhos de um
casamento e qual postura devemos ter diante do ritual litúrgico que iremos
participar. Possuímos distintos papéis sociais que diferem de acordo com a
situação vivida, e o desempenho destes é relevante para o curso da socie-
dade em que vivemos (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2005).
Já o controle social pode ser definido como a forma que a socieda-
de pressiona seus indivíduos para atuarem de acordo com as regras e as
expectativas sociais.

Percepção social e comunicação

Quando ocorre um encontro social, é desencadeado o processo de


percepção social, no qual um indivíduo percebe o outro, incluindo as im-
pressões e as características que ele apresenta. Tais impressões ocorrem
porque organizamos as informações provenientes de nosso contato com o 39
mundo em nossa cognição, que é o processo de organização do nosso co-
nhecimento no nível da consciência. “A percepção é, pois, um processo que
vai desde a recepção do estímulo pelos órgãos dos sentidos até a atribuição
de significado ao estímulo” (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2005, p. 180).
A comunicação se inicia a partir da percepção social, sendo esse
um processo de codificação (formação de um sistema de códigos) e de
decodificação (entendimento dessa codificação) de mensagens. A troca de
informações entre os indivíduos não é constituída apenas de código verbal,
mas também a partir de gestos, expressões faciais, movimentos, desenhos
e sinais. A Psicologia social busca estudar o processo de interdependência
e a influência entre as pessoas que se comunicam (transmissores e re-
ceptores), por exemplo, como se dá essa influência, como se apresenta o
processo de persuasão e quais são os processos psicológicos envolvidos
durante e após a comunicação (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2005).
BacHarelado em teologia

Atitudes e suas mudanças

A partir da percepção do meio social e dos outros, o indivíduo vai orga-


nizando essas informações, relacionando-as com afetos (positivos ou
negativos) e desenvolvendo uma predisposição para agir (favorável
ou desfavoravelmente) em relação às pessoas e aos objetos presen-
tes no meio social. A essas informações com forte carga afetiva, que
predispõem o indivíduo para determinada ação (comportamento), da-
mos o nome de atitudes. (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2005, p. 181)

Este é um conceito que difere do que costumamos escutar no senso


comum, no qual a atitude se refere ao ato comportamental, à ação. Para a
Psicologia social, nós desenvolvemos atitudes (crenças, valores, opiniões)
em relação aos distintos objetos do meio social em que vivemos. Temos
40 atitudes positivas relacionadas a algumas pessoas ou objetos e isso, pro-
vavelmente, resultará em ações favoráveis direcionadas a tais pessoas e
objetos. A atitude trará, portanto, uma predisposição à ação (BOCK; FUR-
TADO; TEIXEIRA, 2005).
A mudança de atitudes pode ocorrer diante de novos afetos, infor-
mações, comportamentos ou situações vivenciadas. Por exemplo, pode-
mos mudar de atitude diante de um colega de trabalho, quando percebe-
mos que ele nos auxilia em processos laborais específicos, melhorando
os resultados que temos. Mudamos de atitude diante de exercícios físicos,
quando começamos a perceber melhores condições de saúde e bem-estar
diário (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2005).

Processo de socialização e grupos sociais

Nosso comportamento é norteado pelas atitudes, pelos motivos,


interesses, bem como pelas necessidades. Nesse sistema, intitulado so-
cialização, ocorre a formação do conjunto de nossas crenças, significa-
ções e nossos valores. Ao se tornar parte de determinado conjunto social,
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Danilo Polverini Locatelli

haverá o aprendizado, isto é, de seus respectivos códigos, de suas normas


e regras, tomando contato com o conhecimento sistematizado acumulado
nesse conjunto (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2005).
A intermediação entre o indivíduo e o conjunto social mais amplo é
realizada pelos grupos sociais:

Os grupos sociais são conjuntos de indivíduos que, com objetivos co-


muns, desenvolvem ações na direção desses objetivos. Para garantir
essa organização, possuem normas, formas de pressionar seus in-
tegrantes para que se conformem às normas; um funcionamento de-
terminado, com tarefas e funções distribuídas entre seus membros;
formas de aspectos que atraem os indivíduos, impedindo que abando-
nem o grupo. (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2005, p. 182)

Esses grupos sociais são constituídos por grupos de amigos, pela


41
família, pelo grupo racial, grupo religioso, etc. Representamos os grupos
sociais que pertencemos ou que temos como referência e lidamos diariamente
com os indivíduos que representam grupos sociais diferentes dos nossos.

Atividade

Para a Psicologia social, a atividade “é unidade básica fundamental


da vida do sujeito material” (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2005, p. 186).
É a atividade que torna possível o ser humano se apropriar do mundo,
similarmente a transição entre o que está fora e o que está dentro do ser
humano. A atividade humana pode ser considerada a base do conhecimento
e do pensamento. A existência implica na necessidade de atuarmos
sobre o mundo, promovendo transformações de acordo com as nossas
necessidades, e, ao fazer isso, estamos nos construindo.
BacHarelado em teologia

Consciência e representações sociais

O ser humano apresenta o seu modo de agir e reagir perante o mundo


objetivo, compreendendo-o, transformando-o em ideias, estabelecendo rela-
ções entre as informações que teve acesso, de modo a ampliar a sua com-
preensão sobre a realidade do ambiente. A consciência expressa, portanto, a
forma como o indivíduo se relaciona com o mundo objetivo. Esse saber nos
possibilita reagir o mundo com alguma compreensão, o qual não é limitado
ao saber lógico. Consideramos também as emoções, os sentimentos e os
desejos, estando esse conteúdo total em constante movimento.
Como produto das relações sociais estabelecidas, a consciência hu-
mana é capaz de pensar através de imagens e símbolos, estabelecendo
relações com a realidade, tentando, inclusive, prevê-la. Esse é um proces-
so ativo que tem como base a atividade sobre o mundo, a linguagem e as
relações sociais. Existe a:
42
[...] compreensão sobre o mundo, sobre si mesmo e os outros, com-
preensão construída no processo da produção da existência, com-
preensão que tem sua matéria-prima na realidade objetiva e na rea-
lidade social, mas que é própria do indivíduo, pois é resultado de um
trabalho seu. (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2005, p. 186)

Uma das formas de se estudar a consciência é por meio da análi-


se das representações sociais, que é o conjunto de ideias que articula os
significados sociais, ou seja, o sentido coletivo que é dado ao objeto, pelo
sentido pessoal. As representações sociais envolvem crenças, valores e
imagens que os indivíduos constroem a partir da sua vivência em socieda-
de (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2005).
F u n da m e n t o s de Psicologia
Danilo Polverini Locatelli

Identidade

Se a consciência está em movimento, se o homem, consequentemen-


te, está em movimento, a consciência que se desenvolve sobre o “eu
mesmo” não poderia estar estática. [...] Identidade é a denominação
dada às representações (ideias e sentimentos) que o indivíduo desen-
volve a respeito de si próprio, a partir do conjunto de suas vivências.
A identidade é a síntese pessoal sobre o si mesmo, incluindo dados
pessoais (cor, sexo, idade), biografia (trajetória pessoal), atributos que
os outros lhe conferem, permitindo uma representação a respeito de
si. (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2005, p. 187)

Podemos verificar que este conceito supera a compreensão do ser


humano como um conjunto de papéis, valores e atitudes, considerando to-
dos os aspectos integrados. O ser humano em movimento, com constantes
mudanças em suas situações sociais, em sua história de vida e em suas 43
relações, conduzirá a um processo contínuo na definição de si (BOCK;
FURTADO; TEIXEIRA, 2005).

Sentido e significado

O sentido, para a Psicologia social, é a representação de um con-


junto de fatos psicológicos registrados pelo sujeito de modo emocionado
(carregado de afetos, imagens e sensações). O sentido é aspecto essen-
cial da subjetividade, pois acaba por definir como o indivíduo experiencia a
expressão de uma palavra, por exemplo.
O significado é mais duradouro e objetivo, sendo consensuado no
coletivo. Os significados estão presentes nas palavras, podendo ser, inclu-
sive, categorizados em dicionários (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2005).
Nesta unidade, discutimos alguns dos principais conceitos presen-
tes em distintas correntes da Psicologia social. A identificação dos aspec-
tos apresentados em nosso cotidiano é tarefa simples, que pode facilitar a
compreensão deste conteúdo.
BacHarelado em teologia

Referências

BOCK, Ana Mercês Bahia; FURTADO, Odair; TEIXEIRA, Maria de Lourdes


Trassi. Psicologias: uma introdução ao estudo de psicologia. São Paulo:
Saraiva, 2005.
RODRIGUES, Aroldo; ASSMAR, Eveline Maria Leal; JABLONSKI, Bernar-
do. Psicologia social. Petrópolis: Vozes, 2003.

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Unidade 6 – Sensação e percepção

Objetivo

Refletir sobre as influências biopsicossociais nas sensações e


percepções.

Introdução

Em múltiplas situações cotidianas, notamos a divergência de per-


cepção entre pessoas que presenciam o mesmo acontecimento. Se o fenô-
meno observado ou vivenciado é o mesmo, por quais razões as pessoas o
percebem de modos distintos? Compreender os mecanismos relacionados
às percepções, com base em teorias psicológicas, trará a possibilidade de
45
respeitarmos opiniões e visões distintas sobre os acontecimentos. Para
discutirmos sobre o tema percepção, torna-se também necessário aprofun-
darmos alguns conceitos relativos às sensações. Sensação e percepção
nos acompanham 24 horas por dia e, por serem importantes na forma de
interpretarmos e reagirmos à vida que nos cerca, tornam-se temas funda-
mentais para nossos estudos.

Conceitos básicos

A sensação é compreendida como o “processo pelo qual nossos


receptores sensoriais e o sistema nervoso recebem e representam ener-
gias de estímulos do ambiente” (MYERS, 2015, p. 175). Nossos receptores
sensoriais estão distribuídos, como a visão, a audição, o olfato, o paladar
e a cinestesia, além de outros sentidos, classificados diante de sua com-
plexidade e forma. Para este estudo, ressaltaremos alguns dos principais
sentidos de acordo com a presença destes na manutenção de nossa vida.
BacHarelado em teologia

A percepção é o “processo de organização e interpretação das in-


formações sensoriais, habilitando-nos a reconhecer objetos e eventos sig-
nificativos” (MYERS, 2015, p. 175). Diante desse conceito, podemos en-
tender que a sensação e a percepção estão associadas em um processo
contínuo que se inicia com os receptores sensoriais até a atribuição de
significados às sensações.

Sensações

Começamos com uma curiosidade que você já pode ter refletido em


algum momento. Quais são as atribuições necessárias para um profissio-
nal cujo trabalho é degustar sabores de cafés? Como se faz uma avaliação
detalhada e precisa do sabor de uma bebida, diferenciando características
entre distintos tipos de café, atribuindo notas e propondo harmonizações
culinárias? Podemos também recordar de pessoas que conseguem distin-
46 guir cheiros com rara habilidade ou que possuem reconhecimento, através
de algum sentido, por realizar a distinção de estímulos sensoriais.
As habilidades sensoriais estão relacionadas às necessidades do or-
ganismo que as tem. Como exemplo, uma rã consegue identificar a presença
de pequenos insetos voadores, inclusive em um ambiente com pouca pre-
sença de luz, para poder se alimentar e, consequentemente, sobreviver. Um
morcego, que possui visão pouco evoluída, utiliza-se de sons que ecoam nos
objetos para se locomover e encontrar seus alimentos. O próprio ser humano
está habilitado a obter informações essenciais com a precisão necessária
para sua sobrevivência, detectando informações importantes do seu ambien-
te. Conseguimos ouvir um barulho que indica alguém mexendo na porta de
nossas casas, o que nos trará um alerta ao perigo de invasão. Ainda no que
tange à audição, podemos escutar um bebê chorar no quarto ao lado e, tal
circunstância, despertará o nosso comportamento de verificação para com-
preendermos o que pode estar acontecendo com a criança.
F u n da m e n t o s de Psicologia
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Retornemos ao exemplo sobre o barulho na porta de casa. Por


que, dependendo da sua intensidade, algumas pessoas podem ouvi-lo
enquanto outras pessoas não? A explicação se deve a um limiar indivi-
dual para se detectar um estímulo específico. Esse limiar está associado
a aspectos biológicos e do contexto ambiental, mas também se deve à
atenção focada do indivíduo.
Os estímulos sensoriais que recebemos a cada segundo são incal-
culáveis e caso nosso organismo direcionasse a nossa atenção para todos,
não conseguiríamos realizar aquilo que precisamos conscientemente. As-
sim, ocorre um tipo de seleção para que possamos nos concentrar naquilo
que importa no momento.
Existem dois caminhos diferentes no que se refere aos processos
sensoriais. O processamento bottom-up (de baixo para cima) indica um ca-
minho de análise que começa com os receptores sensoriais e sobe para a
integração cerebral da informação sensorial. Já o processamento top-down
47
(de cima para baixo) se refere ao caminho de informações guiado por pro-
cessos mentais de nível mais elevado, como quando construímos percep-
ções com base em nossa experiência e nossas expectativas. No proces-
samento top-down existe um interesse cognitivo prévio para a identificação
desses estímulos, sendo constituído de modo ativo. Para exemplificarmos
esse conceito, podemos pensar nas cócegas, que são relacionadas a esti-
mulações sensoriais táteis. Cócegas feitas pela própria pessoa não produ-
zem o mesmo efeito de cócegas feitas por outra pessoa, pois contam com
a influência do processamento de cima para baixo.
Chamamos de estímulo subliminar aquele que está abaixo do limiar
individual da percepção consciente. Costumamos conhecer a existência dos
estímulos subliminares por meio de estratégias que ainda hoje estão presen-
tes em campanhas publicitárias, mas tal estimulação nos ocorre também fora
da publicidade, fruto de nossa relação com o ambiente que vivemos. Será que
somos afetados de alguma forma por esses estímulos que não notamos? Ain-
da que as influências sejam bem limitadas e estejam restritas a um tempo pró-
ximo ao recebimento do estímulo e a determinadas condições, estas ocorrem.
BacHarelado em teologia

Quando entramos numa sala onde existe um arranjo floral com lí-
rios brancos, facilmente sentimos seu perfume. No entanto, em questão de
minutos, deixamos de percebê-lo. Os lírios continuam lá e ninguém abriu
a janela, mas o perfume deixou de nos chamar a atenção. Isso se deve à
adaptação sensorial, que pode ser compreendida como a diminuição de
nossa sensibilidade a um estímulo constante. A adaptação permite focali-
zarmos nas mudanças do ambiente, tornando-nos mais alertas às novida-
des, liberando nossa atenção para aspectos ou assuntos mais importantes.

Dor

A dor nos permite atentar a alguma alteração corpórea que foge à


homeostase. Quando pisamos em falso, nosso corpo reage com dor, de
maneira a possibilitar a correção do comportamento de pisar, para que a
dor deixe de existir. Da mesma forma, quando estamos cozinhando e quei-
48 mamos a mão no fogão. A dor permite retirarmos o corpo antes que a quei-
madura se estenda e se torne amplamente prejudicial ao organismo:

Nossas experiências de dor variam amplamente, dependendo de nos-


sa fisiologia, de nossas experiências e nossa atenção e da cultura que
nos rodeia. Assim, nossas dores combinam sensações bottom-up e
processos top-down. (MYERS, 2015, p. 193)

Em certa medida, a fala popular de que a dor é psicológica tem al-


gum sentido. A dor também é psicológica. Entre as influências psicológicas
relacionadas às sensações de dor, temos a própria atenção à dor, ou seja,
o foco que a pessoa possui na dor que está sentindo. Nesse aspecto, a
distração com outros estímulos que possibilitem focos diferentes pode ser
uma estratégia para aliviar o sofrimento. Esse é um dos motivos que leva
um jogador de futebol profissional a motivar-se e continuar jogando uma
partida mesmo sofrendo uma forte lesão, pois ele se mantém concentra-
do em vencer a partida. Também temos o aprendizado baseado nas ex-
periências anteriores em que se sentiu dor similar. Quanto às influências
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socioculturais, a presença de outras pessoas pode ampliar ou diminuir a


sensação de dor, igualmente as expectativas culturais, como no caso da
dor presente em etapas da gravidez. A empatia pela dor dos outros também
nos faz ampliar a sensação de dor. Temos, portanto, a percepção da dor
como um fenômeno biopsicossocial.

Percepção

A percepção está relacionada à atitude corpórea. Essa nova com-


preensão de sensação modifica a noção de percepção proposta pelo
pensamento objetivo, fundado no empirismo e no intelectualismo,
cuja descrição da percepção ocorre através da causalidade linear
estímulo-resposta. Na concepção fenomenológica da percepção a
apreensão do sentido ou dos sentidos se faz pelo corpo, tratando-se
de uma expressão criadora, a partir dos diferentes olhares sobre o
mundo. (NÓBREGA, 2008, p. 142) 49

Se perceber é tomar conhecimento de um objeto, a focalização so-


bre tal objeto é necessária. Assim, a atenção é um condicionante para que
haja percepção. Por exemplo, quem estiver à procura de uma blusa verme-
lha em uma loja de roupas tem uma disposição perceptiva temporária para
encontrar peças de roupas vermelhas nas prateleiras, que persistirá até
encontrar o que procura ou abandonar a busca.
Para realizar a tarefa da busca pela blusa vermelha, precisamos pri-
meiro perceber os objetos dotados de forma, localização e movimentos
distintos, mas também reconhecê-los sem sermos enganados por mudan-
ças de tamanho, forma ou cor. Perceber a constância desses itens trará a
certeza de que estamos tratando de roupas. A identificação de objetos ou
pessoas ocorre muito rapidamente para nós através do processo de cima
para baixo (top-down).
BacHarelado em teologia

Interpretações perceptivas

Façamos um pequeno exercício. O que você vê na figura 1 abaixo?

Figura 1 Figura 2

Provavelmente, identificou a cena de um céu com algum objeto cen-


50 tral. É bem possível, inclusive, que tenha percebido algumas nuvens, mas
a que se apresenta bem no centro da imagem pode trazer alguma dúvida.
Algumas pessoas podem identificá-la como um óvni (objeto voador não
identificado), enquanto outras a denominarão como uma nuvem de formato
curioso, estranho. Agora, o que você vê na Figura 2? Possivelmente, iden-
tificou uma taça (em branco) ou faces de dois rostos se olhando (em preto).
É sabido através de nossas experiências cotidianas, que as
pessoas percebem objetos de modo diferente. Mas por que isso ocorre?
E como as nossas expectativas, contextos e emoções influenciam as
nossas percepções?
Nossas experiências, suposições e expectativas podem nos pro-
porcionar um conjunto perceptivo, ou predisposição mental, que influen-
cia em grande medida (de cima para baixo/top-down) o que percebemos.
Por exemplo, percebemos um adulto e uma criança como mais parecidos,
quando somos informados de que são pai e filho, temos mais facilidade de
identificar um sabor, quando somos sugestionados pela cor do alimento.
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Podemos dizer que existe a tendência de percebermos o mundo mais como


cremos ou queremos que este seja, do que como nos informam os diferen-
tes estímulos que chegam aos nossos sentidos. Ou seja, filtramos informa-
ções sensoriais e inferimos percepções, de modo que façam sentido para
nós. De certa forma, percebemos o mundo não exatamente como este é,
mas como é útil para nós percebê-lo.

Influências biológicas Influências psicológicas


• análise sensorial;
Percepção: • atenção seletiva;
• fenômenos visuais não nossa versão • esquemas aprendidos;
aprendidos; da realidade. • efeitos contextuais;
• período crítico para o
• conjunto perceptivo.
desenvolvimento sensorial.

Influências socioculturais
• suposições culturais e expectativas.

51
A percepção é um fenômeno biopsicossocial. Psicólogos estudam como
percebemos, por meio de diferentes níveis de análise, do biológico ao sociocultu-
ral (adaptado de MYERS, 2015, p. 212).

As emoções também realçam e diferenciam as nossas percepções.


A percepção de distância é alterada quando estamos caminhando can-
sados, se compararmos com o mesmo trajeto realizado após descanso.
Árbitros de futebol, quando ameaçados pela torcida e por integrantes de
um time, ampliam a possibilidade de perceber determinado lance de modo
diferente. Esposas que se sentem amadas e admiradas percebem menos
ameaça em eventos conjugais estressantes.
Nesta unidade, discutimos alguns elementos sobre sensação e per-
cepção. Saber que a nossa percepção é afetada por influências psicológi-
cas e socioculturais amplia a chance de reconhecermos a imprecisão de
nossas ideias e opiniões, assim como o respeito à diversidade de olhar
sobre os temas relacionados à vida humana.
BacHarelado em teologia

Referências

MYERS, David. Introdução à Psicologia. Rio de Janeiro: LTC, 2015.


NÓBREGA, Terezinha Petrucia da. Corpo, percepção e conhecimento em
Merleau-Ponty. In: Estudos de Psicologia, Natal, v. 13, n. 2, 2008. Disponível
em: <http://www.scielo.br/pdf/epsic/v13n2/06.pdf>. Acesso em: 26 maio 2018.

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Unidade 7– Inteligência e memória

Objetivo

Introduzir conceitos sobre inteligência e memória.

Introdução

O pensamento possibilita ao homem planejar, antever, recordar, re-


solver problemas, sonhar, criar, entre tantas outras ações. Somos capa-
zes de abstrair pensamentos altamente complexos, construindo nossas
relações, nossa comunidade e sociedade. Pensamos sobre nós mesmos,
construímos o conhecimento por meio da ciência, participamos de ativi-
dades artísticas, ou seja, transformamos o mundo ao nosso redor e a nós
53
mesmos. A inteligência e a memória ocupam papel central no desenvolvi-
mento de todas essas atividades.

Inteligência

A palavra inteligência assim como o adjetivo inteligente está presen-


te no diálogo popular cotidiano, tratando-se de um tema repleto de mitos e
crenças que diferem do que os estudos científicos apontam.
Ao avançar na discussão sobre o conceito de inteligência Gardner
(1994, p. 46) considera que:

[...] uma competência intelectual humana deve apresentar um conjun-


to de habilidades de resolução de problemas capacitando o indivíduo
a resolver problemas ou dificuldades genuínos que ele encontra e,
quando adequado, a criar um produto eficaz e deve também apre-
sentar um potencial para encontrar ou criar problemas em meio disso
propiciando o lastro para aquisição de conhecimento novo.
BacHarelado em teologia

No senso comum, quando classificamos alguém de inteligente, es-


tamos utilizando algum critério de avaliação comparativo, da mesma forma
quando nos referimos a alguém de estatura alta. Consideramos alto aque-
le que comparativamente aos demais indivíduos, apresenta estatura mais
elevada. A comparação se faz presente quando definimos pessoas baixas e
pessoas altas. O ser inteligente, nesse sentido, seria aquele que apresenta
respostas mais rápidas quando comparado aos demais, que propõe solu-
ções que os demais ainda não haviam pensado, que resolve uma equação
matemática mais rápida do que toda a classe escolar. Ainda de acordo com
o senso comum, a inteligência adquire características inatas: uma vez inte-
ligente, o ser humano será inteligente por toda a vida, por tratar-se de um
traço inerente à sua personalidade, sendo herdada e imutável.
Portanto, esse:

[...] critério da normalidade racional é uma noção genérica de inteli-


54
gência balizada pela capacidade de o indivíduo se destacar no de-
sempenho de atividades intelectuais e pela capacidade dos demais de
resolver problemas básicos do dia a dia (as pessoas ditas normais).
O contrário disso é a anormalidade, que por ser um termo muito va-
lorativo, gerou muito preconceito e desinformação em nome de sua
concepção. (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2005, p. 151)

Consequentemente, precisamos tecer algumas críticas a respeito des-


sas conceituações sobre inteligência, mas antes devemos considerar que a
própria Psicologia tem parte significativa na criação desse termo valorativo.
A chamada Psicologia diferencial, de tradição positivista, acredita
que a inteligência, para ser estudada, deve ser observável. Para isso, “de-
compôs” essa capacidade humana em aspectos e manifestações, na ten-
tativa de mensurá-la. Nessa perspectiva, não se observa a inteligência de
modo direto, mas sim através de comportamentos, sendo estes formas de
expressão da capacidade cognitiva. Essas formas seriam a capacidade de
verbalizar pensamentos, compreender instruções, perceber a organização
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espacial de um desenho, resolver problemas, comportar-se criativamente


frente a uma situação, etc. Para essa abordagem, a inteligência poderia ser
medida, verificada, por meio dos testes psicológicos de inteligência.
A inteligência seria um composto de habilidades e poderia ser medi-
da por meio dos conhecidos testes psicológicos de inteligência. Estes são
apresentados pelo que se denominou de Quociente de Inteligência (Q.I.),
índice obtido relacionando a idade da criança com o seu desempenho no
teste. Com o quociente, verifica-se se ela está no nível de desenvolvimento
intelectual considerado normal (médio) para a sua idade. Os testes, portan-
to, são elaborados através da comparação de respostas por grupos de pes-
soas, estabelecendo-se assim o que seria considerado normal e atípico.
A utilização dos testes gerou uma série de críticas. Um dos argumen-
tos diz que diferentes testes medem fatores parecidos ou completamente
diferentes. Assim, um mesmo indivíduo poderia ter um alto quociente inte-
lectual num teste e um baixo noutro. Argumenta-se também que os testes
55
são construídos em função de fatores valorizados pela sociedade, conside-
rados como desejáveis. Porém, a principal crítica se deu devido à rotulação
ou classificação das crianças. As classificações (deficientes, normais ou
superdotadas) levam os pais e professores a agirem em função das expec-
tativas geradas. Consequentemente, a criança se vê induzida a correspon-
der tais expectativas, agindo de acordo com o novo papel imposto.
Contudo, existe outra forma de interpretar os dados obtidos por meio
dos testes psicológicos. Estes passam a ser “vistos como medidas apenas
de eficiência do sujeito e as alterações dessa eficiência encaradas como
sintomas de perturbações globais e não como indicadores de potencial in-
telectual deficiente” (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2005, p. 154). O termo
inteligência passa a ser questionado, priorizando o uso do adjetivo inteli-
gente, que qualifica a produção cognitiva e intelectual do homem. Os testes
não se tornam medidas da eficiência intelectual do indivíduo. Tornam-se
instrumentos auxiliares, muitas vezes dispensáveis, na identificação de di-
ficuldades que são encaradas como sintomas de conflitos.
BacHarelado em teologia

A criança que apresenta resultados atípicos, provavelmente, vive,


naquele momento, dificuldades psicológicas, conflitos relacionados ao seu
desenvolvimento, sendo um de seus sintomas um rebaixamento da produ-
ção intelectual (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2005). Considerando seus
componentes cognitivos, afetivos e sociais, a produção intelectual deve ser
abordada em sua globalidade. A noção de unidade do organismo e totalida-
de de reações indica que os atos adjetivados como inteligentes não estão
isentos de componentes afetivos, além dos cognitivos.
Considerando seu aspecto dinâmico, quando o sujeito apresenta
adequadas condições em sua vida psíquica, lidando de modo resolutivo
com seus conflitos, tem as condições para se posicionar perante o mun-
do, resolvendo os problemas, sendo criativo, verbalizando suas ideias, ou
seja, realizando atos considerados inteligentes. Apresentando um exemplo
contrário, quando o indivíduo está cansado e com fome, preocupado com
aspectos emergenciais, dificilmente conseguirá apresentar boas soluções
56
às questões apresentadas no presente.
Junto ao desenvolvimento da inteligência humana, temos o aprimo-
ramento da memória como resposta aos desafios da sobrevivência imedia-
ta e da preocupação com o futuro.

Memória

A memória permite reter e consolidar informações, ocasionando a


aprendizagem de novos conteúdos. A memória compreende o conjunto
das representações mentais armazenadas pelo sistema cognitivo (TUL-
VING, 1971) e permite aos organismos adaptarem-se a partir de suas
experiências (SQUIRE, 2004). Faz parte do processo de memorização o
esquecimento, já que seria impossível se lembrar de tudo o tempo todo.
É uma forma de proteger nossa dinâmica de armazenamento de fatos
importantes e que merecem ser lembrados. A memória, no entanto, não
trata-se de uma entidade única, sendo formada por diversos sistemas
que diferem de acordo com o tipo de informação processada e o tempo
de armazenamento (BUENO, 2001).
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O processamento da informação se dá em três fases: codificação,


armazenamento e recuperação.
Codificação: as informações são codificadas através das capaci-
dades sensoriais, preparando a memória para posteriormente armazenar
esse conteúdo. A atenção está intimamente envolvida no processo de codi-
ficação (BUENO, 2001). Exemplo: visualizar um símbolo e codificar, inter-
pretando-o como a representação de uma letra.
Armazenamento: responsável pelo registro dos conteúdos que são
alocados a depender do tipo, tempo em que a informação precisa ser retida
e a quantidade de informação (BUENO, 2001). Exemplo: reter a informa-
ção de que um determinado símbolo representa uma letra.
Recuperação: mecanismo responsável pela restauração das infor-
mações. Pode ser automática, sem que precise de pistas ou evocação,
ou através do reconhecimento e evocação. O reconhecimento se dá pela
apresentação de conteúdos, os quais o indivíduo pode optar se são conhe-
57
cidos ou não (pistas), ou seja, se são informações que foram anteriormente
codificadas e estão armazenadas ou não. Enquanto a evocação se dá pela
tentativa de se lembrar das informações já codificadas e armazenadas,
podendo ser através de pistas ou não (BARCLAY; REID, 1974). Exemplos:
visualizo a letra aprendida (recuperação automática). Reconheço a letra
escrita numa placa (reconhecimento). Evoco a letra durante a realização de
uma tarefa escrita (evocação)
Os tipos de memória são divididos em: sensorial, curto prazo e
longo prazo.
Memória sensorial: recebe as informações através dos sentidos – vi-
são, audição, olfato, paladar e tato. Essas informações podem ser proces-
sadas, enviadas à memória de curto prazo ou descartadas após a expe-
riência imediata inicial (TULVING, 2001). Exemplo: provo um alimento pela
primeira vez (paladar).
A memória de curto prazo é dividida em: imediata e operacional
(trabalho).
BacHarelado em teologia

Memória de curto prazo (imediata): é um sistema limitado de retenção


e armazenamento temporário de informação. Os limites temporais situam-
-se à volta de alguns segundos dos limites de capacidade de informação
que se pode reter de modo integral e, por ordem, após a respectiva apre-
sentação, estão circunscritos em torno de 5 a 9 itens (BADDELEY, 1994).
Exemplos: conhecer uma pessoa e lembrar o nome dela segundos depois.
Ler uma notícia no jornal e contar a uma pessoa que está do seu lado.
Memória operacional: caracteriza-se pela retenção e manipulação
de informações num curto espaço tempo e com a limitação do número de
itens. Neste tipo de memória, a retenção e manipulação de informações
são necessárias para conseguir realizar determinada tarefa. O nome me-
mória de trabalho é comumente utilizado para conceituar a memória con-
ceitual, uma vez que trata-se da retenção e manipulação, caracterizando
um trabalho a ser realizado (BADDELEY, 1994). Exemplos: ouvir um núme-
ro de telefone e anotar ao mesmo tempo. Reter uma lista de palavras numa
58
determinada ordem e recuperar (em voz alta) na ordem inversa.

Memória de longo prazo declarativa

A memória de longo prazo é o sistema que armazena a informação e


o conhecimento durante longos períodos (TULVING, 1985). Esta é dividida
em: memória de longo prazo declarativa (explícita), a qual é subdividida em
episódica e semântica e memória de longo prazo não declarativa (implícita).
O sistema de memória responsável pelo armazenamento e recu-
peração de fatos e eventos de forma explícita e consciente é chamado de
memória de longo prazo declarativa, ou memória explícita, a qual ainda se
subdivide em memória episódica (responsável pela memória autobiográfi-
ca, lembrança de episódios experimentados pelo indivíduo, como, onde e
quando foram vividos) e memória semântica (que armazena fatos sobre o
mundo e conhecimentos gerais) (TULVING, 2001; SQUIRE, 2004).
A memória semântica é constituída por lembranças de fatos e conhe-
cimentos gerais sobre o mundo, sendo fundamental para o vocabulário e
linguagem (GLUCK; MERCADO; MYERS, 2008). Neste tipo de memória, a
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Danilo Polverini Locatelli

organização do conhecimento independe do episódio em que foi aprendida


(TULVING, 2001; SQUIRE, 2004). Em termos práticos, a memória semân-
tica auxilia a estruturar o mundo em conceitos (SQUIRE, 2004). Exemplos:
compreender o significado de uma palavra ou evocar o alfabeto.
A memória episódica se refere a acontecimentos marcados no tem-
po e no espaço. São informações sobre experiências que os indivíduos
podem declarar o momento em que ocorreram, construindo o percurso de
vida daquele indivíduo. Neste tipo de memória, a organização das infor-
mações depende exclusivamente do episódio vivido (TULVING, 2001). Em
termos práticos, a memória episódica estrutura a autobiografia dos indi-
víduos (TULVING, 2001). Exemplos: lembrar da comemoração do último
aniversário ou lembrar de datas históricas.
Memória não declarativa: também conhecida como memória explí-
cita, sendo composta por informações que não precisam ser declaradas,
dado que são processos que já se tornaram automáticos. Caracteriza-se
59
por procedimentos e habilidades desenvolvidas pelos indivíduos (TUL-
VING, 2001). Exemplos: andar de bicicleta ou apagar a lousa.
Nesta unidade, introduzimos alguns elementos sobre inteligência e
memória. Saber que a nossa inteligência e memória não são estáticas,
inatas ou herdadas, torna possível desmistificarmos elementos do sen-
so comum que classificam os seres em pressupostos de normalidade e
anormalidade.
BacHarelado em teologia

Referências

BADDELEY, Alan D.; HITCH, Graham J. Developments in the concept of


working memory. In: Neuropsychology, Washington, 8(4), 485-493, 1994.
BARCLAY, J. Richard; REID, Marylou. Characteristics of memory represen-
tations of sentence sets describing linear arrays. In: Journal of verbal learn-
ing and verbal behavior, Colorado, 13, 133-137, 1974.
BOCK, Ana Mercês Bahia; FURTADO, Odair; TEIXEIRA, Maria de Lourdes
Trassi. Psicologias: uma introdução ao estudo de Psicologia. São Paulo:
Saraiva, 2005.
BUENO, Orlando Francisco Amodeo. Incremento de recordação livre e re-
lacionamento semântico entre palavras: processamento automático ou que
demanda atenção? Tese (Livre Docência), UNIFESP, São Paulo, 2001.
GARDNER, Howard. Estruturas da mente: a teoria das inteligências múlti-
plas. Porto Alegre: Artes Médicas, 1994.
60 GLUCK, Mark A.; MERCADO, Eduardo; MYERS, Catherine E. Memória
episódica y semântica. In: Aprendizaje y memoria: del cerebro al comporta-
miento. México: McGraw Hill, 2008.
SQUIRE, Larry Ryan. Memory system of the brain: a brief history and
current perspective. In: Neurobiology of learning and memory, USA, 82,
171-177, 2004.
TULVING, Endel; THOMSON, Donald M. Retrieval process in recognition
memory: effects of associative context. In: Journal of experimental psychol-
ogy, Washington, 87, 116-124, 1971.
TULVING, Endel. Cue-dependent forgetting. In: American scientist, 62(1),
74-82, 1974.
TULVING, Endel. Memory and consciousness. In: Canadian psychology,
Canada, 26, 1-12, 1985.
TULVING, Endel. Episodic memory and common sense: how far apart? In:
Philosophical transactions of the royal society B: biological science, United
Kingdom, 356, 1505-1515, 2001.
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Unidade 8 – Empatia, acolhimento e escuta

Objetivo

Refletir sobre empatia, acolhimento, escuta e a possibilidade de de-


senvolvimento de habilidades interpessoais.

Introdução

As características da contemporaneidade em risco, diante de um narci-


sismo excessivo presente nas diferentes manifestações individuais, culturais
e sociais, resultam no impedimento da expressão dos diferentes indivíduos,
limitando suas formas de aparecerem e de serem ouvidos. As chamadas “bo-
lhas” presentes nas redes sociais, que ampliam o agrupamento de pessoas
61
que pensam de forma similar, impossibilitando diálogos com o “diferente”, são
exemplos de manifestações recentes desse narcisismo. Em cada “bolha” há
a negação do outro, da outra “bolha”, por esta representar aquilo que vejo
de ruim na sociedade. Diante da superficialidade na relação com o outro, a
cultura “líquida” estimula o acesso a objetos desejáveis, que se transformam
em objetos de necessidade, alimentando ilusões de preenchimento. O outro
se torna um objeto a ser negado, desejado, excluído e desprezado. Porém,
como elaborar reações para a transmutação desse atual quadro? Como utili-
zar objetos de estudo da Psicologia para colaborar com a construção de uma
sociedade mais equilibrada em seus cuidados e direitos humanos, ampliando
as condições básicas de vida de modo igualitário?

Habilidades interpessoais

O desenvolvimento de algumas habilidades interpessoais pode ser


uma resposta possível às perguntas acima. Contudo, para aprofundarmos
nesta reflexão, torna-se necessário apresentar uma discussão histórica den-
tro do campo da Psicologia. Desde sua origem, a prática psicoterapêutica
BacHarelado em teologia

foi alvo de debate entre os teóricos clínicos. Entre as perguntas presentes


estavam: será que a psicoterapia apresenta resultados positivos ao pacien-
te? Em que o paciente melhora ao fazer psicoterapia? Quais são os elemen-
tos de uma psicoterapia que a torna mais eficaz, ou seja, que faz com que
esta apresente melhores resultados? Vários especialistas ampliaram seus
estudos, o que possibilitou a identificação de duas vertentes de interpreta-
ção distintas. Para uma destas, os benefícios da psicoterapia estão asso-
ciados às técnicas que o psicólogo utiliza. Ou seja, o profissional aprende
uma série de técnicas de acordo com sua abordagem teórica e são estas
que auxiliam na transformação do cliente. Para a outra vertente, alguns
fatores comuns ao processo terapêutico são os geradores dos resultados
positivos e estes podem estar presentes em qualquer abordagem teórica,
desde a Psicanálise ao Behaviorismo. Seriam fatores comuns: qualidade
do terapeuta, empatia, aceitação, expectativa de se melhorar com a terapia
e relação terapêutica (LEONARDI; MEYER, 2015). Podemos concluir que
62
o ideal para o terapeuta é se aprimorar tanto na sua capacidade de exe-
cutar técnicas específicas, bem como se habilitar ao desenvolvimento dos
fatores comuns, ampliando, por exemplo, suas habilidades empáticas.
Na Psicologia, a empatia é essencial na prática profissional. Contu-
do, ainda que o presente conteúdo não tenha por objetivo a formação de
psicoterapeutas, podemos utilizar a base desses conhecimentos para ten-
tarmos aplicá-los no cotidiano. O desenvolvimento das habilidades inter-
pessoais, portanto, é uma ferramenta relevante para uma almejada trans-
formação das relações sociais e culturais.

Empatia

A empatia possui diferentes definições advindas de distintas corren-


tes teóricas, incluindo a Fenomenologia e as Neurociências, que buscam
explicar sua origem e seu desenvolvimento (SIMONE, 2010).
F u n da m e n t o s de Psicologia
Danilo Polverini Locatelli

Podemos definir empatia como a:

[...] capacidade de compreender, de forma acurada, bem como de com-


partilhar ou considerar sentimentos, necessidades e perspectivas de al-
guém, expressando esse entendimento de tal maneira que a outra pes-
soa se sinta compreendida e validada. (FALCONE et al., 2008, p. 323)

Entre os componentes envolvidos na empatia temos o cognitivo, que


possibilita a interpretação e compreensão dos sentimentos do outro; o afe-
tivo, que possibilita experienciar a emoção do outro; o comportamental,
que permite a expressão da compreensão e de sentimentos relacionados à
demanda do outro (VILLA, 2005).
Os estudos empíricos da Psicologia sobre a empatia se dividem em
duas frentes. Uma destas considera a empatia relacionada a traços de per-
sonalidade, ou seja, está mais condicionada ao jeito do indivíduo. Outra
63
frente identifica a empatia como estado-dependente, mais sujeita às in-
fluências de emoções positivas e negativas e ao “contágio” emocional, ou
seja, mais sujeita às experiências do contexto presente (SIMONE, 2010).
Se no campo da Psicologia a empatia está relacionada a resultados
benéficos ao paciente, como uma melhora de seus sintomas e adesão ao
tratamento, no cotidiano humano em geral pode auxiliar na adequada re-
solução das demandas presentes em situações interpessoais, conforme
parâmetros típicos de cada contexto e cultura.

Acolhimento

O processo de acolhimento está incluso nas diretrizes das políticas


públicas da área da Saúde. Podemos considerá-lo como a forma que os
serviços públicos devem atender os usuários, provendo uma série de cui-
dados integrais às suas necessidades mais amplas. O significado do verbo
acolher se remete a compreender, receber dando crédito àquilo que o outro
traz, ouvindo-o e considerando sua queixa como algo digno de atenção.
BacHarelado em teologia

Podemos também pensar nos verbos abrigar, hospedar, amparar, que im-
plicam trazer o outro para dentro de si mesmo, trazê-lo para dentro de sua
casa, como na abordagem religiosa ou de um serviço de saúde, implicando
relações de aproximação das pessoas (MATUMOTO, 1998).
A empatia está presente no adequado acolhimento, pois o amparo
das necessidades do outro requer a compreensão do seu estado emocio-
nal, compreendendo-o ou validando-o.
Em estudo realizado sobre o acolhimento a pacientes com trans-
tornos mentais observou-se que o modo que o paciente era tratado, com
acolhimento de qualidade, humanização da atenção e atitudes sem pre-
conceito, interessava mais que o lugar em que o cuidado fosse dispensa-
do (ALMEIDA, 2010). Compreendemos, portanto, que o acolhimento é um
processo que não se restringe ao espaço físico, mas diz respeito à situação
de contato, podendo ser praticado por todas as pessoas, seja no desen-
volvimento de práticas individuais ou coletivas. Acolher inclui uma série de
64
aspectos presentes na vida cotidiana.
Retornando ao campo da Saúde, o termo “humanização” geralmen-
te se designa à assistência que valoriza a qualidade do cuidado do ponto
de vista técnico, associada ao reconhecimento dos direitos dos pacien-
tes, de suas subjetividades e referências culturais (DESLANDES, 2004).
Se no caso da Saúde, o espaço da humanização se dá na relação entre
terapeuta-paciente, o processo de acolhimento humano é possível em
qualquer relação entre pessoas. Acolher é ampliar a:

[...] percepção, abrir-se para ajudar o outro, chamando-o pelo nome,


cumprimentando-o, enfatizando sua individualidade e sua importân-
cia, nutrindo-o fisicamente, com um copo de água ou café, o que pode
simbolicamente, nutri-lo emocionalmente. (MATUMOTO, 1998, p. 16)

No acolhimento humanizado preservam-se cortesia, afabilidade, dis-


crição, solidariedade e atenção, possibilitando o desencadeamento da cria-
ção de formas alternativas à resolução dos problemas.
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Danilo Polverini Locatelli

Mas será que estamos preparados para acolher as pessoas? Como


podemos desenvolver adequados acolhimentos? Que tipo de conhecimento
pode auxiliar a compreendermos melhor esse processo? Se no campo da
Saúde profissionais não se sentem capacitados para acolher, por se sentirem
despreparados diante da falta de capacitação, supervisão, pela sobrecarga
de funções e ausência de estrutura de um sistema de atendimento eficaz,
talvez essa realidade não seja diferente na esfera cotidiana das pessoas
que não necessariamente trabalham no sistema de saúde.
Entretanto, além do desenvolvimento das habilidades empáti-
cas, alguns princípios podem nos auxiliar na realização de um acolhi-
mento. Dentre estes temos a comunicação, a escuta, a autonomia e a
corresponsabilização.
O respeito à autonomia das pessoas tem ganhado amplitude nas dis-
cussões da área da Saúde. Se historicamente o médico sempre foi visto
como detentor da “verdade” sobre a saúde, por ter se aprofundado nos co-
65
nhecimentos científicos sobre o corpo humano, a atitude que impõe um tipo
de tratamento tem se demonstrado limitada. Estudos recentes demonstram
que quando o paciente se sente corresponsabilizado pelo seu caminho,
quando ele pode decidir junto ao profissional de saúde sobre qual tratamen-
to deve seguir, amplia-se a chance dele aderir à proposta de cuidado e me-
lhores resultados são verificados (GREENHALGH, 2008). A relação ideal é
de igualdade e de ter influência no processo de decisão sobre a sua saúde.
Quando se valoriza a autonomia em relação às suas vidas e a corres-
ponsabilidade, as pessoas ampliam suas práticas de autocuidado e sentem-
-se valorizadas em suas opiniões. E isso é possível no contato, mas requer
flexibilidade por parte do interlocutor, culminando na abertura para processos
criativos dinâmicos e transformadores. Essa é uma vinculação com a outra
pessoa que ocorre de modo humanizado. A autonomia se refere à capacidade
dos indivíduos e das comunidades de lidarem com suas dificuldades, enfren-
tando-as ou buscando apoio para reduzir seus efeitos (MATUMOTO, 1998).
BacHarelado em teologia

Escuta

O contato com outra pessoa implica comunicação consciente (voluntá-


ria) ou inconsciente (involuntária). A comunicação ocorre através de múltiplos
canais verbais, como a oralidade e a escrita, mas também por meio de canais
não verbais, como o gestual, entonação de voz, olhar e a expressão corporal.
Os elementos verbais da comunicação são mais facilmente controláveis,
enquanto os não verbais possuem pouco ou nenhum controle. Dizemos
que uma mensagem é coerente quando na comunicação os elementos ver-
bais estão em consonância com os não verbais. Opostamente, dizemos
que uma mensagem é incoerente quando existe contradição entre o que
está sendo dito verbalmente e o que está sendo expresso pela qualidade
da voz ou pela postura corporal. Os elementos não verbais da comunica-
ção estão presentes na interação entre as pessoas, mesmo que não se-
jam percebidos, tornados claros ao processo de consciência. Muitas vezes,
66 olhamos sem ver e escutamos sem ouvir.
Ainda que no cotidiano o espaço de escuta seja limitado, pois não
conseguimos manter a atenção plenamente ativa às suas particularidades,
a escuta deve ultrapassar a captação de mensagens verbais, buscando a
compreensão além da queixa explícita.
Alguns comportamentos podem facilitar a escuta: treinar a sensibi-
lidade, ficar calado, não interromper, ampliar a escuta reflexiva, fazer per-
guntas corretas, evitar distrações externas e internas e suspender julga-
mentos (MATUMOTO, 1998).
A escuta reflexiva pode ser uma poderosa ferramenta de comunica-
ção. Nesta, você simplesmente reflete a outra pessoa o que você pensa, o
que você ouviu, certificando-se de refletir os seus sentimentos. Esse pro-
cedimento permite que a outra pessoa se sinta escutada e compreendida.
Fazer perguntas também é uma habilidade indispensável, pois a forma e
o que se pergunta são meios eficazes para abrir canais de comunicação,
mas também pode bloqueá-los. Em contextos diversos, as perguntas preci-
sam de uma necessária adaptação, respeitando-se as diferenças culturais.
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Danilo Polverini Locatelli

Ao se fazer perguntas, sugere-se a mudança de enfoque para a pessoa, ao


invés do sintoma ou da queixa, possibilitando a compreensão integral do in-
divíduo, reunindo dados diversos que ampliam o reconhecimento do todo.
Alguns cuidados são fundamentais para uma boa escuta. O con-
tato com tom de impessoalidade acarreta bloqueio ou fechamento dos
canais de comunicação. O indivíduo pode assumir uma postura defen-
siva durante o processo e caberá o respeito a essa decisão pessoal.
Devemos evitar sempre lições de moral, frutos de juízos de valor a respeito
de condutas que se chocam com nossos valores ou modos de pensar.
Buscamos o respeito às diferenças culturais e de gênero e à autonomia de
ideias, caminhos e crenças.
O autoconhecimento também é um cuidado necessário para o esta-
belecimento de uma escuta adequada. Perceber o nosso próprio descon-
forto perante as emoções do outro, que muitas vezes expõe situações exis-
tenciais muito difíceis e dolorosas, propiciará a identificação dos nossos
67
próprios limites de contato.
Nesta unidade, discutimos sobre o desenvolvimento de algumas
habilidades interpessoais que podem resultar em aproximações humanas
pautadas pelo cuidado, respeito às diferenças e pela busca de um bem-
-estar individual e coletivo.
BacHarelado em teologia

Referências

ALMEIDA, Gilson Holanda. Acolhimento e tratamento de portadores de es-


quizofrenia na atenção básica: a visão de gestores, terapeutas, familiares
e pacientes. Tese de Doutorado em Saúde Pública. Universidade de São
Paulo, São Paulo, 2010.
DESLANDES, Suely F. Análise do discurso oficial sobre a humanização da
assistência hospitalar. In: Ciência e saúde coletiva, Rio de Janeiro, v. 9, n.
1, p. 7-14, 2004.
FALCONE, Eliane Mary de Oliveira; FERREIRA, Maria Cristina; LUZ, Rena-
to Curty Monteiro da; FERNANDES, Conceição Santos; FARIA, Camila de
Assis; D’AUGUSTIN, Juliana Furtado; SARDINHA, Aline; PINHO, Vanessa
Dordron de. Inventário de empatia (I.E.): desenvolvimento e validação de
uma medida brasileira. In: Avaliação Psicológica, Ribeirão Preto, v. 7, n. 3,
p. 321-334, 2008.
68 GREENHALGH, Trisha. Como ler artigos científicos. Porto Alegre: Art-
med, 2008.
LEONARDI, Jan Luiz; MEYER, Sonia Beatriz. Prática baseada em evidên-
cias em Psicologia e a história da busca pelas provas empíricas da eficácia
das psicoterapias. In: Psicologia: ciência e profissão, [on-line] v. 35, n. 4, p.
1139-1156, 2015.
MATUMOTO, Silvia. O acolhimento: um estudo sobre seus componentes e
sua produção em uma unidade da rede básica de serviços de saúde. Dis-
sertação de Mestrado em Enfermagem de Saúde Pública. Universidade de
São Paulo, São Paulo, 1998.
SIMONE, Adriana de. Sobre um conceito integral de empatia: intercâmbios
entre Filosofia, Psicanálise e Neuropsicologia. Tese de Doutorado em Psi-
cologia. Universidade de São Paulo, São Paulo, 2010.
VILLA, Miriam Bratfisch. Habilidades sociais no casamento: avaliação e
contribuição para a satisfação conjugal. Tese de Doutorado em Ciências.
Universidade de São Paulo, São Paulo, 2005.