Você está na página 1de 6

A nova teologia do Ecoceno.

Entrevista com Leonardo Boff

De um Brasil em crise, escravizado, “campo de batalha na guerra fria entre


Estados Unidos e China”, de um continente explorado “para satisfazer as
superpotências”, humilhado, pisoteado, chega uma mensagem de esperança. De
renovação. Que toca os temas do ambiente “rumo a um novo Ecoceno” e da
igualdade social. Que fala do papel da mulher, do novo rosto da Igreja – a do
Papa Francisco. Uma mensagem livre, “como o Espírito Santo”.

A reportagem é de Annachiara Sacchi, publicada no caderno La Lettura, do


jornal Corriere della Sera, 26-01-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Leonardo Boff, expoente de destaque da teologia da libertação, incômodo


quando era sacerdote e também depois (abandonou a batina em 1992; em 1985,
havia sido advertido pela Congregação para a Doutrina da Fé), ativista dos
direitos humanos, professor universitário, está confiante: “De toda grande crise,
vem a possibilidade de uma mudança, podem nascer novas forças. E o Brasil é
maior do que essa crise”.

Eis a entrevista.

Professor Boff, então o senhor está otimista ou não?

Na realidade, estou preocupado. A situação no Brasil é trágica: o ultraliberalismo


de Jair Bolsonaro, a extrema direita política que faz apologia da violência e dos
regimes ditatoriais, que exalta os torturadores como heróis nacionais... Nunca
vivemos nada semelhante.

Qual a explicação?

Por trás disso, está o projeto de recolonizar a América Latina e obrigá-la a ser
somente exportadora de commodities (carne, alimentos, minerais...). E, nessa
perversa estratégia, o Brasil é central.

Por quê?

Porque é um país riquíssimo, uma reserva de bens naturais que faltam no mundo.
Como disse várias vezes o prêmio Nobel Joseph Stiglitz, nos próximos anos toda a
economia dependerá da ecologia. E o Brasil terá um papel primordial nesse
jogo.

É difícil viver no Brasil hoje?

Muito. O ministro da Economia, Paulo Guedes, é um dos “Chicago Boys”,


formados na Universidade de Chicago, que trabalharam no Chile de Pinochet.
O ultraliberalismo de direita está fazendo uma política dos ricos para os ricos,
está privatizando tudo. Guedes está trazendo a política de Pinochet ao Brasil. E
você sabe por que ninguém protesta, por que as pessoas não saem às ruas como
está acontecendo agora no Chile?

Não.

Porque o governo anunciou que reprimirá qualquer protesto com o exército! Aqui
todos têm medo, mesmo que a discordância cresça. Mas dentro das paredes de
casa. Assistimos a uma triste forma de inércia popular.

Na América Latina, presidentes como Evo Morales e Lula encerraram a sua


era. Agora, novas forças orientam a opinião pública. Acabou o impulso
reformista?

Tivemos governos que fizeram muito pelos pobres. No Brasil, 36 milhões de


pessoas foram incluídas no welfare. Mas, no ano passado, um milhão de famílias
passou da pobreza para a miséria. O governo está desmontando as políticas
sociais de Lula. Estamos lidando com uma elite reacionária e escravista que
nunca aceitou que um operário – no caso do Brasil, Lula, ou um indígena no caso
da Bolívia, Evo Morales – chegasse à presidência do país. Essa elite fez de tudo,
com os meios mais brutais. Mas essa onda violenta está sendo oposta por um
movimento de grupos progressistas, de afro-latino-americanos, de
indígenas. São os brotos de uma realidade que veremos. Essa é a esperança que
alimentamos.

O senhor vê algum novo líder político?

Infelizmente não, estamos em um momento de vazio, faltam figuras carismáticas,


principalmente no Brasil. Talvez também por culpa de Lula, que não soube
formar uma classe dirigente.

O seu novo livro, “Soffia dove vuole” [Sopra onde quer] (no prelo, pela
editora Emi), fala do Espírito Santo. Por quê?

Os tempos inquietantes que estamos vivendo, exigem uma séria reflexão sobre o
Spiritus Creator.

Que ficou à margem da teologia.

Isso não é verdade. Existem estudos grandiosos sobre o Espírito, desde o de Yves
Congar até o de Jürgen Moltmann, em diálogo com o novo paradigma
cosmológico. Mas o que podemos dizer é isto: o Espírito Santo esteve quase
sempre à margem da hierarquia eclesiástica. E com razão.

Como assim?

A hierarquia está orientada para “áreas” como o poder, a ordem, os dogmas, o


direito canônico, em uma constante condição de autorreferência. São todos
aspectos que servem para manter o status quo e que têm a sua razão de existir, eu
não nego isso. Do mesmo modo, porém, eles não podem ser predominantes. O
Espírito é mais carisma do que poder, mais movimento do que estabilidade, mais
inovação do que permanência. Ele segue uma lógica diferente da hierarquia da
Igreja. Por isso, quase todos os pregadores do Espírito Santo foram
marginalizados ou perseguidos. Os fatos confirmam isso. O meu livro, julgado em
1985 pela Congregação para a Doutrina da Fé (cujo prefeito era Joseph
Ratzinger), intitulava “Igreja: carisma e poder”. Em Roma, porém, leram-no
como “Igreja: carisma ou poder”. Por causa dessa confusão, me condenaram.

Ao invés disso, o que o senhor queria dizer?

Eu queria criar um equilíbrio entre carisma e poder. Mas esse equilíbrio deve
começar pelo carisma. Se se começa pelo poder, corre-se o risco de que isso
sufoque o carisma. Em vez disso, se se começa do carisma, impede-se que o poder
seja exercido de forma autoritária, limites são-lhe impostos, e ele é obrigado a se
colocar a serviço da comunidade.

Qual é o papel do Espírito Santo hoje?

Estamos em um momento histórico, o Antropoceno, em que as bases que


sustentam a vida e a Terra foram profundamente atacadas. Ou mudamos ou
morremos. O Espírito é Spiritus Creator, Spiritus Vivificans. Só o Espírito pode
restaurar o equilíbrio destruído pela voracidade do homem. Só com o Espírito é
possível superar o Antropoceno e chegar ao Ecoceno, a uma sociedade
sustentável, vital, aberta à convivência de todos com todos.

Por que, na sua elaboração teológica, o senhor insiste em enfatizar o papel


da ciência?

Não é possível fazer uma teologia atualizada sem um diálogo profundo com a
nova visão do mundo proveniente das ciências da vida, da Terra, do cosmos.
Essa leitura já tem um século, mas não é hegemônica. São poucos os teólogos que
aceitaram esse desafio.

Por quê?

Porque obriga a estudar ciências diferentes: a física quântica, a nova biologia, a


astrofísica, a teoria do caos e da complexidade. Depois de tal caminho, digo isto
por experiência, é mais fácil fazer teologia, porque. com esses dados, Deus
aparece imediatamente como a energia misteriosa e amorosa que sustenta o todo
e que leva em frente todo o processo cosmogênico. A categoria teológica do
Espírito Santo é mais adequada para essa nova forma de teologia.

O que a consciência ecológica tem a ver com o Espírito Santo?

O principal objetivo do meu livro é afirmar que o diálogo com a ecologia e com a
nova cosmologia nos obriga a mudar o paradigma. O paradigma da filosofia e
da teologia ocidentais é de raiz grega, essencialista, baseado em natureza,
substância, essência e outros termos semelhantes que pertencem à área da
permanência, da estabilidade. Em vez disso, quando se fala de Espírito, tudo é
dinamismo, inovação. É preciso mudar a forma de pensar Deus, a história, a
Igreja. Deus é dinamismo de três pessoas divinas em comunicação entre si e com
a criação.

Teologia da ecologia, então?

Eu tentei fazer uma teologia com um novo horizonte de compreensão. O


mesmo que o Papa Francisco indica na encíclica Laudato si’: tudo é relação;
nada existe fora da relação. Poeticamente, Francisco escreve: “O sol e a lua, o
cedro e a florzinha, a águia e o pardal: o espetáculo das suas incontáveis
diversidades e desigualdades significa que nenhuma criatura se basta a si mesma.
Elas só existem na dependência umas das outras, para se completarem
mutuamente no serviço umas das outras”. A tese da ecologia é precisamente esta:
tudo está conectado para formar a grande comunidade de vida, o todo da
natureza e do universo. E esse modo de pensar corresponde à natureza do
Espírito Santo.

O senhor acha que a Igreja Católica está pronta para aceitar essas suas
reflexões?

Em cada país, a situação é diferente. Mas em toda parte faltam profetas. Com
Wojtyla e Ratzinger, assistimos ao retorno à grande disciplina, vimos uma
Igreja fechada em si mesma, preocupada com a ortodoxia, atenta a combater
inimigos como a modernidade, as novas liberdades. E, acima de tudo, distante do
povo, com uma teologia pobre e uma liturgia alheia à sensibilidade moderna.

Enquanto agora...?

Com o Papa Francisco, emerge outro tipo de Igreja, aberta como um hospital de
campanha, em que a centralidade não é tanto a ortodoxia, mas sim a pastoral do
encontro, da ternura, da convivência. Para o Papa Francisco, as doutrinas são
importantes, mas, acima de tudo, importa entender que Cristo veio para nos
ensinar a viver os bens do reino como o amor incondicional, a misericórdia, a
solidariedade, a compaixão por quem sofre, pelos últimos.

Mensagem recebida?

Nem sempre. Muitos católicos tradicionalistas não se deram conta de que


estamos diante de outro tipo de papa, menos doutor e mais pastor no meio do
seu povo. Um papa que carrega menos os símbolos pagãos dos imperadores
romanos e mais a simplicidade de um pároco de aldeia, simples, humilde, amigo
de todos. Um homem que vem de longe e, por isso, livre. Se não fosse assim, por
que o nome de Francisco? Seria uma contradição pensar em São Francisco de
Assis em um palácio pontifício. Mas temos outro Francisco de Roma que vive e
come junto com os outros, e não sozinho.
O crescimento de protestos públicos na Igreja contra o Papa Francisco lhe
preocupa?

Não me preocupa, porque não o preocupa. Como eu sei disso? Ele dorme às
21h30, dorme até as 5h30 como uma pedra, bebe o seu mate e leva em frente,
franciscanamente, a sua missão, com uma irradiação mundial em sentido
religioso, ético e político. Nós nos conhecemos desde 1972. Troquei com ele
algumas cartas sobre temas de ecologia e sobre o Sínodo para a Amazônia de
outubro passado.

A propósito, o que o senhor espera da exortação apostólica pós-sinodal de


Francisco, prevista para breve?

Algo de bom. Acima de tudo, sobre a defesa do rosto indígena da Igreja e sobre
as mulheres. Nas minhas cartas, eu pedi a ele que fizesse um gesto profético sem
pedir nada a ninguém, como João XXIII fez quando convocou o Concílio
Vaticano II.

Que gesto?

Ordenar as mulheres.

Ele lhe respondeu?

Agradeceu-me pela carta.

O senhor dedica seu livro às mulheres.

Eu digo que a primeira Pessoa divina a entrar neste mundo, ou a irromper no


processo da evolução, não foi o Filho, como diz a Igreja. Foi o Espírito Santo.
Isso está muito claro no texto de Lucas: “O Espírito virá sobre ti... E te cobrirá
com a sua sombra”. Eu fiz uma pesquisa de meses na patrologia: não há nenhum
rastro da centralidade do Espírito. Nem sequer nos grandes teólogos. De acordo
com uma leitura predominantemente masculina, prevalece o Filho. Mas o Filho
veio depois da aceitação (“fiat”) de Maria, portanto, depois do Espírito. Digo
mais: o Espírito assumiu Maria, divinizou-a. No projeto do Altíssimo, homem e
mulher são igualmente divinizados. Fazem parte de Deus.

Hoje, a teologia da libertação é ecoteologia, teologia feminista, teologia


afro. Mas os pobres continuam sendo muitos e oprimidos. A teologia da
libertação ainda tem um longo caminho pela frente?

A existência dos pobres, dos oprimidos sempre me faz pensar em Jesus, em São
Francisco e em tantos outros que tiveram misericórdia deles.

Acusaram-no de ser pró-marxista.


Marx nunca foi pai ou padrinho da teologia de Libertação, como insinuavam os
ditadores latino-americanos. Mas hoje, mais do que nunca, a teologia da
libertação é urgente. O exército dos pobres aumentou assustadoramente. Se a
teologia, seja ela qual for, não levar a sério a situação atual, dificilmente se livrará
da crítica de cinismo e de irrelevância histórica. É preciso ler os sinais do tempo.
O Espírito nos convida a tomar uma posição.

http://www.ihu.unisinos.br/595923-a-nova-teologia-do-ecoceno-entrevista-com-
leonardo-boff