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Natal é tempo de viver a gratuidade da vida e abrir-se à utopia, a outros

mundos possíveis. Entrevista especial com Leonardo Boff e Frei Betto

15 Dezembro 2019

A crise social e política vivida em vários países da América Latina de forma


acentuada neste último ano indica que “o que mais falta no mundo de hoje é
esperança” e que as mudanças políticas para alterar a condição atual “são quase
sempre mais do mesmo”, “por isso produzem frustração e desengano”, diz o
teólogo Leonardo Boff à IHU On-Line.

Segundo ele, apesar de a cultura dominante não alimentar “uma relação explícita
com Deus” e confiar “praticamente tudo” “à racionalidade e à política dos
meios e não dos fins”, precisamos fazer “experiências intangíveis, aquelas que
vão além dos interesses, do trabalho, do consumo e das ocupações do dia a dia:
viver a gratuidade da vida, experimentar um amor profundo, uma amizade sólida,
um sentido de vida que vai além do limite de nossa morte”. Neste tempo de
celebrar o Natal, aconselha, a forma mais concreta de vivê-lo “é olharmos cada
criança, nossos filhos e filhas, as crianças dos outros, especialmente aquelas que
perambulam pelas ruas, como a presença escondida da divina Criança”.

Para Frei Betto, celebrar o Natal significa “resgatar a esperança e guardar o


pessimismo para dias melhores” e “abrir-se à utopia, a outros mundos possíveis”.
Neste tempo de crise, recomenda, “devemos identificar os sinais de anti-Natal
vigentes hoje em nossa sociedade: desigualdade social, devastação ambiental,
concentração da riqueza em mãos de poucos e exclusão de multidões etc. Daí
nasce a esperança, aquela anunciada por Jesus no reino de César — o Reino de
Deus. Para Jesus, o Reino não estava ‘lá em cima’ ou apenas após esta vida. Inicia-
se aqui e deve ser realizado aqui. Por isso oramos ‘Venha a nós o vosso Reino’ e
não ‘levai-nos ao vosso Reino’. Jesus veio nos trazer as bases de um novo projeto
civilizatório. Por isso foi cruelmente assassinado, por pregar, no reino de César,
um outro Reino possível. Reino que se apoia em duas pernas: nas relações
pessoais, o amor; nas sociais, a partilha de bens”.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, eles refletem sobre
o sentido do Natal e sobre como essa data, que celebra o nascimento de Jesus e
a presença de Deus no mundo para os cristãos, pode ser uma fonte de esperança e
de transformação da realidade.

Leonardo Boff é doutor em Teologia pela Universidade de Munique, na


Alemanha. Foi professor de teologia sistemática e ecumênica com os
Franciscanos em Petrópolis e depois professor de ética, filosofia da religião e de
ecologia filosófica na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Entre os livros
publicados, destacamos, Ecologia, Mundialização, Espiritualidade (Rio de
Janeiro: Record, 1993), Civilização planetária (Rio de Janeiro: Sextante, 1994),
Ecologia: grito da Terra, grito do pobre (Petrópolis: Vozes, 1995), A voz do
arco-íris (Rio de Janeiro: Sextante, 2000), Do iceberg à Arca de Noé (Rio de
Janeiro: Sextante, 2002), Homem: satã ou anjo bom (Rio de Janeiro: Record,
2008), Evangelho do Cristo cósmico (Rio de Janeiro: Record, 2008), Opção
Terra. A solução da Terra não cai do céu (Rio de Janeiro: Sextante, 2009),
Proteger a Terra-cuidar a vida. Como evitar o fim do mundo (Rio de Janeiro:
Record, 2010), Ética e ecoespiritualidade (Petrópolis: Vozes, 2011), Saber
cuidar (Ed. 20. Petrópolis: Vozes, 2014), além de Reflexões de um velho
teólogo e pensador (Petrópolis: Vozes, 2018).

Frei Betto é frade dominicano e formado em Jornalismo. É militante de


movimentos pastorais e sociais e ocupou a função de assessor especial do ex-
presidente Lula. Também foi coordenador de Mobilização Social do Programa
Fome Zero. Entre suas obras, citamos Batismo de Sangue (Rio de Janeiro:
Rocco, 2000), Diário de Fernando - nos cárceres da ditadura militar
brasileira (Rio de Janeiro: Rocco, 2009), Um homem chamado Jesus (Rio de
Janeiro: Rocco, 2009) e Cartas da Prisão (São Paulo: Companhia das Letras,
2017).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Vários países da América Latina estão vivendo momentos


de crise política e social e de incertezas. O que significa celebrar o Natal
nesta conjuntura? Como o sentido do Natal pode ser uma fonte de
esperança para este momento?

Leonardo Boff - No Natal não há apenas a figura do Divino Infante, Jesus, de


Maria e de José, da estrela, dos anjos, dos pastores e dos reis magos. Há também a
figura de Herodes. Estamos vivendo, no mundo e no Brasil, o Natal de Herodes.
Ele, temendo que Jesus quando adulto poderia arrebatar-lhe o poder, mandou
matar todos os meninos da região que tivessem menos de dois anos. Ele era tão
cruel que mandou eliminar também toda a sua família. Hoje, especialmente no
Brasil, vivemos sob vários Herodes. Eles pregam ódio, discriminação e eliminação
de crianças, de indígenas, de jovens negros. O Rio de Janeiro é campeão de
matanças, de dezenas de jovens negros entre 14-20 anos e de seis crianças vítimas
de balas perdidas, seja da polícia, seja de traficantes ou de milicianos. Mesmo
assim, o Natal possui sua força intrínseca de nos apresentar o nascimento de um
menino, anunciado como Salvador e “alegria para todo o povo”. Sempre que
nasce uma criança é um sinal inequívoco de que Deus ainda acredita na
humanidade. Com Jesus foi mais do que isso. Deus mesmo quis fazer-se criança
para estar perto de nós. Como é consolador saber que seremos julgados por uma
criança que só quer brincar e sentir-se amada e amar.
Leonardo Boff (Foto: UFJF)

O Natal, no seu sentido mais profundo, quer dizer que Deus está definitivamente
ligado ao destino humano. E que nós, humanos, pertencemos a Deus a ponto de
fazer-se um de nós. Não precisamos mais temer: ele se chama Emanuel, quer
dizer, “Deus conosco”. Estando em Deus e Deus em nós, nutrimos a firme
esperança de que nossa vida está garantida para sempre. Pode haver, nas palavras
de Camões, “procelosa tempestade e soturna noite e sibilante vento”, mas o fim é
bom. Ainda na expressão de Camões, “há serena claridade, esperança de porto e
salvamento”. O Natal realiza esta promessa.

Frei Betto - Natal significa nascer. Celebrá-lo nessa conjuntura é resgatar a


esperança e guardar o pessimismo para dias melhores... A América Latina
passou, nos últimos 50 anos, por três grandes ciclos políticos: ditaduras militares,
governos messiânicos neoliberais (Collor no Brasil, Menem na Argentina,
Fujimori no Peru etc.), e governos democrático-populares. Agora entrou no ciclo
neofascista, que dificilmente terá vida longa, pois não tem como melhorar a vida
do povo com medidas neoliberais, como comprovou o governo de Macri na
Argentina.
Frei Betto (Foto: MST)

IHU On-Line - Qual é a resposta do cristianismo, em especial do


nascimento de Jesus, para o sofrimento da humanidade?

Leonardo Boff - Jesus não nasceu como nascem normalmente as crianças: em


suas casas, mesmo pobres ou, hoje, num hospital. Ele nasceu numa manjedoura
de animais, como os presépios bem o representam: aí estão o boi, o asno e as
ovelhas. O Menino, “o puer aeternus” (a Criança eterna) dos mitos antigos
agora se torna realidade. Ele treme de frio e choraminga. Seguramente tem os
bracinhos enfaixados. Então por que temer? Em vez de ajudar, ele deve ser
ajudado. A situação penosa de seu nascimento deve ser vista como uma forma de
solidariedade do Menino Deus com todas as crianças que nascem na penúria e
passando necessidades. Devemos respeitar esta forma como Deus quis entrar no
mundo: não através das comodidades de um palácio real nem do bercinho
aconchegante de uma família normal. Foi um nascimento anormal como de
tantas crianças pobres no Brasil e no mundo.

Frei Betto - A teologia lança o olhar da fé sobre as realidades naturais e


humanas. A cristã tem como referência número um o maior dom de Deus, a vida,
tanto das pessoas quanto da natureza. Portanto, é obrigação da teologia e dever
dos cristãos denunciar tudo que ameaça a vida das pessoas — estruturas injustas,
modelos econômicos excludentes, políticas que acentuam a desigualdade social
etc. — e da natureza (aquecimento global, desmatamento de florestas,
contaminação do ar, do mar e da terra etc.).

O Natal, no seu sentido mais profundo, quer dizer que Deus está definitivamente
ligado ao destino humano – Leonardo Boff

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IHU On-Line - De que forma a teologia cristã pode ser um instrumento


para questionar as estruturas políticas e sociais que geram sofrimento e
injustiça?

Leonardo Boff - A fé cristã não é somente boa para a eternidade. Deve ser boa
também para este mundo. Jesus não veio fundar uma nova religião já que havia
muitas naquele tempo. Veio para nos ensinar a viver. A viver os bens que
constituem a essência do que irá anunciar mais tarde e que ele chamou de Reino
de Deus. O conteúdo desse Reino é feito de amor incondicional, de solidariedade
para com os mais fracos, de misericórdia para com os perdidos na vida, de perdão
e de entrega confiante a Deus sentindo-o como um Pai bom que tem
características de mãe, pois cuida de cada cabelo de nossa cabeça, nos acolhe
como a galinha os seus pintainhos e ama, como diz São Lucas, até os ingratos e
maus. Viver estes valores é fazer uma revolução na sociedade e na política.
Revolução mesmo seria se pudéssemos considerar como Jesus considerou os
pobres e desesperados “como meus irmãos e irmãs mais pequenos”. Por que os
cristãos não vivem isso, nos espanta e nos mostra como é ainda forte a dimensão
do Negativo entre nós, coisa que Jesus quis superar e nos desafiou a superá-lo.

Frei Betto - Ressaltar que Deus não quer o sofrimento de ninguém. Criou-nos
para sermos felizes! O sofrimento é decorrente das estruturas injustas, da
violência humana e de enfermidades. O Natal enfatiza que a esperança de mudar
esse estado de coisas vem do excluído, do oprimido, do presépio e não do palácio
de César.

IHU On-Line - No 50º aniversário do Secretariado pela Justiça Social e a


Ecologia da Companhia de Jesus, o papa Francisco convidou os jesuítas a
frequentarem o futuro e a terem esperança nele. Ele disse: "Por favor,
abram o futuro, ou, para usar a expressão de um escritor atual,
frequentem o futuro. Abram futuro, suscitem possibilidades, gerem
alternativas, ajudem a pensar e atuar de um modo diverso. Cuidem de sua
relação diária com o Cristo ressuscitado e glorioso, e sejam trabalhadores
da caridade e semeadores de esperança". Como o senhor interpreta essa
mensagem? O que significa frequentar o futuro e ser semeador da
esperança?

Natal significa nascer. Celebrá-lo nessa conjuntura é resgatar a esperança e


guardar o pessimismo para dias melhores – Frei Betto

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Leonardo Boff - O que mais falta no mundo de hoje é esperança. As mudanças
são quase sempre mais do mesmo, por isso produzem frustração e desengano.
Numa situação desta devemos voltar aos relatos bíblicos que falam da criação,
onde sempre se termina com “e isso é bom”. Os intérpretes da Bíblia nos
deixaram claro que estes textos que quase nunca são referidos na Bíblia posterior
são proféticos. Querem nos pintar o futuro, o paraíso que virá. Agora nem tudo é
bom. Há tantos cataclismos naturais, guerras letais e mortes absurdas. Só no fim
de tudo, depois de um longo caminhar, vamos ouvir a palavra verdadeira de
Deus: “Tudo isso é muito bom”. Por isso um filósofo alemão de formação marxista
que escreveu três volumes fundamentais com o título “O princípio esperança”,
Ernst Bloch, disse: “O verdadeiro Gênesis não está no começo, mas no fim”. Ele
era judeu e assim pensavam os hebreus bíblicos e pensamos também nós cristãos.
O mundo e o gênero humano estão ainda nascendo até acabarem de nascer na
culminância do processo cosmogênico e antropogênico. Só então vai se realizar o
verdadeiro Gênesis. Até lá, devemos estar abertos ao futuro. A salvação não
vem do passado, mas do futuro. Ela vem ao encontro de nós porque
profundamente a ansiamos. Esta ânsia é um grito de Deus mesmo dentro de nós
nos reforçando a olharmos para o futuro e a confiarmos que, no final de todas as
coisas, tudo valeu a pena. “Et tunc erit finis”, traduzindo: “então eis o fim bom
porque tudo chegou a sua plenitude”.

Frei Betto - A sociedade, por força do neoliberalismo e de sua perversa filosofia


de que "a história acabou" (Fukuyama), está perdendo o senso e a consciência
históricos. Há um processo acelerado, em especial via novas tecnologias, como as
redes digitais, de fragmentar o presente. Estamos regredindo à concepção grega
de que a história é cíclica, o que ajuda a perpetuar o capitalismo e sua
apropriação dos bens da Terra e dos frutos do trabalho humano.

Portanto, frequentar o futuro é abrir-se à utopia, a outros mundos possíveis, a


novos modelos econômicos, como busca o papa Francisco ao convocar o evento
sobre economia alternativa em Assis, em março de 2020. Temos que resgatar a
consciência histórica, fazer com que as novas gerações saibam que no futuro
colheremos apenas o que semeamos no presente.

Frequentar o futuro é abrir-se à utopia, a outros mundos possíveis, a novos


modelos econômicos, como busca o papa Francisco – Frei Betto

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IHU On-Line - Nesta mesma ocasião, o Papa também disse que o


apostolado social tem a tarefa de “alentar esperanças” e trabalhar pela
“verdadeira esperança cristã, que procura o Reino escatológico, (e que)
gera sempre história”. Como podemos vivenciar a esperança da salvação
que nos vem pelo Natal, de maneira mais concreta?

Leonardo Boff - Esperamos aquilo que ainda não é, mas poderá ser e será. A
presença de Deus em nossa existência atribulada e mortal, mas também
abençoada e discretamente feliz, é uma antecipação de como será o fim
promissor. Devemos aprender a amar o invisível e darmo-nos conta de que o
invisível é o outro lado do visível. Jesus já como Criança é o visível humano que
esconde o invisível de Deus. Como dizia, de forma insuperável, Fernando Pessoa:
“Ele é a eterna Criança, o Deus que faltava… a Criança tão humana que é divina”.
A forma mais concreta de vivermos no Natal, esta verdade, é olharmos cada
criança, nossos filhos e filhas, as crianças dos outros, especialmente aquelas que
perambulam pelas ruas, como a presença escondida da divina Criança. Então,
trataríamos com amor e carinho a todos e a todas.

Frei Betto - Devemos identificar os sinais de anti-Natal vigentes hoje em nossa


sociedade: desigualdade social, devastação ambiental, concentração da riqueza
em mãos de poucos e exclusão de multidões etc. Daí nasce a esperança, aquela
anunciada por Jesus no reino de César — o Reino de Deus. Para Jesus, o Reino
não estava "lá em cima" ou apenas após esta vida. Inicia-se aqui e deve ser
realizado aqui. Por isso oramos "Venha a nós o vosso Reino" e não "levai-nos ao
vosso Reino". Jesus veio nos trazer as bases de um novo projeto civilizatório. Por
isso foi cruelmente assassinado, por pregar, no reino de César, um outro Reino
possível. Reino que se apoia em duas pernas: nas relações pessoais, o amor; nas
sociais, a partilha de bens.

IHU On-Line - O Papa concluiu seu discurso exortando para que não nos
afastemos da vida em oração, ao lembrar um pedido do padre Arrupe aos
jesuítas que estavam trabalhando em campos de refugiados na Tailândia:
“não deixem a oração”. Como podemos experimentar o sentido do Natal
através da oração?

Leonardo Boff - A oração é respiração da alma. Se não respirarmos, morreremos.


Assim é a oração como forma de andar sempre como quem se sente na palma da
mão de Deus. Isso é mais que um ato que fazemos e passamos para outros atos. É
uma atitude fundamental: como aquela de Abraão, de ser amigo de Deus e andar
em sua presença. Isso está dentro de nossas possibilidades espirituais. Nem
precisamos fazer formulações: é um entregar-se como uma criança que se entrega
confiante nos braços de sua mãe.

Frei Betto - Oramos para cultivar a nossa fé. E o contrário do medo não é a
coragem, é a fé. Jesus, como acentua o evangelho de Lucas, passava longas horas
em oração. Porque tinha fé como nós temos, e até passou por crise de fé ("Meu
Pai, por que me abandonaste?"). É fundamental que a nossa militância, a nossa
missão, seja alimentada pela oração, deixar Deus orar em nós, abrir-nos à ação do
Espírito em nossas vidas, de modo a não ficarmos reféns da racionalidade
instrumental. Assim como um casal alimenta a sua relação por momentos de
intimidade, nós cristãos nutrimos a espiritualidade na oração.

Devemos aprender a amar o invisível e darmo-nos conta de que o invisível é o


outro lado do visível – Leonardo Boff

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IHU On-Line - Alguns consideram que um dos maiores desafios do
cristianismo é vivê-lo na prática. Como podemos viver o cristianismo no
dia a dia?

Leonardo Boff - É difícil e é fácil. É difícil porque nossa cultura dominante não
alimenta uma relação explícita com Deus como aquele que, secretamente, conduz
o caminho de nossa vida e confere coesão à sociedade. Praticamente tudo é
confiado à racionalidade e à política dos meios e não dos fins. Essa cultura não
nos ajuda a fazermos experiências intangíveis, aqueles que vão além dos
interesses, do trabalho, do consumo e das ocupações do dia a dia: viver a
gratuidade da vida, experimentar um amor profundo, uma amizade sólida, um
sentido de vida que vai além do limite de nossa morte. E é também fácil porque o
que quis Jesus, definitivamente, quando peregrinou entre nós? Diria,
respondendo: que nos tratássemos humanamente, que nos amássemos, não só os
que estão do nosso lado (o que não é tão difícil), mas os invisíveis, aqueles que
ninguém olha ou se interessa por eles, que não discriminássemos a ninguém em
razão de sua etnia, de seu sexo, de sua opção de vida, que tivéssemos
solidariedade a partir dos últimos, misericórdia para com aqueles que fraquejam
e não conseguem avançar na vida, que pudéssemos perdoar para que a raiva e o
ódio não sejam a última página do livro de nossa vida e que mantivéssemos
intimidade com Deus, como Pai, amigo, Mãe de infinita bondade, pois
sempre estão misturados com tudo o que fazemos em nossa curta passagem por
esta vida.

Resumindo tudo, penso que no Pai Nosso está a “ipsissima intentio Jesu”,
traduzindo: “a intenção originária de Jesus”. Esta seria: unir Pai Nosso com o Pão
Nosso. Pai Nosso representa nosso impulso para cima, para a transcendência,
para o desígnio último de Deus, o seu Reino (uma absoluta revolução de tudo). O
Pão Nosso significa nosso enraizamento na Terra, com nossas necessidades de
sobreviver juntos (por isso não o Meu Pão), mas o Pão Nosso. Vivemos em
sociedade onde há sempre conflitos e cobranças. Daí a importância do perdão
que harmoniza. Por fim, superar a grande tentação da desesperança, de pensar
que com a morte, tudo acaba ou que podemos romper com Deus. Somente
quando mantemos unidos o Pai Nosso com o Pão Nosso, podemos dizer Amém…
Viver isso com a coerência possível à nossa fragilidade humana, é seguir o
seguimento de Jesus, viver cristãmente, viver plenamente como humanos.

Frei Betto - Saindo de si e amando a si mesmo (ter autoestima), o próximo, a


natureza e Deus. E se colocando organicamente neste lugar social — o mundo
dos pobres, como fez Jesus. Viver o cristianismo na prática é fazer o que Jesus fez:
empenhar a nossa vida, ainda que com risco de morte, para que todos tenham
"vida e vida em abundância" (Jo 10, 10).

IHU On-Line - Como levar essa mensagem do Cristo aos não cristãos,
respeitando e preservando sua cultura?

Jesus veio nos trazer as bases de um novo projeto civilizatório – Frei Betto
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Leonardo Boff - Eu lhe diria: tente tratar sempre humanamente o outro, ame
incondicionalmente, tenha compaixão operativa para com os pobres, supere o
rancor e a raiva quando for ofendido, cuide da Mãe Terra porque sem ela nada
mais seria possível e mantenha a porta aberta para as possíveis surpresas do
futuro. Talvez deste futuro lhe venha algo surpreendente que o poderá unir a
todos como “num ônibus, cheio de gente alegre” (Chico Buarque), alguém que
poderá ter mil nomes, que poderá ser o Deus da ternura humana e da jovialidade
da vida. Se seguir por este caminho, estará no seguimento de Jesus que viveu tudo
isso junto com outros antes e depois dele. Sejas tu também um destes.

Frei Betto - Por meio do testemunho, de um lado; e, de outro, sendo capaz de


identificar nas demais culturas os sinais do Reino, como a solidariedade e a
partilha de bens.

http://www.ihu.unisinos.br/159-noticias/entrevistas/595168-natal-e-tempo-de-
viver-a-gratuidade-da-vida-e-abrir-se-a-utopia-a-outros-mundos-possiveis-
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