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“O futuro da humanidade e da terra está

ligado ao futuro da Amazônia”. Entrevista


com Leonardo Boff

A Amazônia, o nosso "pulmão", está vivendo meses dramáticos. Quais são as


causas? Na defesa, entre os mais determinados líderes mundiais, do ecossistema
da Amazônia se posicionou o Papa Francisco. O pontífice, como sabemos,
convocou um Sínodo sobre a Amazônia para outubro próximo em Roma. Quais
são os objetivos? Falamos sobre isso nesta entrevista com Leonardo Boff. Boff,
brasileiro e teólogo da libertação, é um grande pensador da América Latina
envolvido na elaboração de uma autêntica ecologia integral.

A entrevista é de Pierluigi Mele, publicada por Confini, 05-09-2019. A tradução


é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

Leonardo Boff, a Amazônia está vivendo meses dramáticos. De janeiro a


hoje, em comparação com 2018, os incêndios na região aumentaram em
145%. Um número devastador. A comunidade internacional está se
mobilizando. Como você classificaria o comportamento da comunidade
internacional?

A reação foi muito forte e decisiva. O problema é que nosso presidente não tem
modos civis, não observa o protocolo oficial que está na base da relação entre as
autoridades. Ele ofendeu o presidente francês Macron e a chanceler da Alemanha,
Merkel. É uma pessoa má e estúpida. Ele não entende nada sobre a Amazônia e
sobre os índios. Ele quer ocupar suas reservas naturais para o agronegócio e para
a exploração de mineração. Mas quando o problema toca à carteira, tudo muda.
O presidente ouviu dizer que os europeus não querem mais soja e carne do Brasil,
que o tratado comercial entre a Comunidade Europeia e o Mercosul não será
realizado sem uma mudança radical de políticas em relação à Amazônia. Então
mudou um pouco o discurso.

Bolsonaro, de maneira desvairada, culpa as ONGs. Como estão as coisas?

Bolsonaro quer reinventar o Brasil no quadro de um ultraliberalismo radical. O


modelo é a idade média religiosa, pré-moderno, pré-iluminismo. Ele
praticamente desmontou tudo o que Lula e Dilma fizeram em benefício dos
pobres. Agora há fome no Brasil. E o presidente, absolutamente paranoico, vai à
televisão dizer que no Brasil não há fome. Um milhão de famílias passaram da
pobreza para a miséria no último ano e sofrem sistematicamente de fome. Todos
os conselhos de estado nas várias esferas da sociedade foram abolidos. Para
resumir em poucas palavras: "a era da estupidez entrou no Brasil". A sociologia e
a filosofia foram proibidas em universidades e em outros cursos. Isso é ter um
povo que não pensa. O Brasil, nessa lógica, pode se tornar um país de párias,
como a Índia.

Sabemos que nas bases das políticas tresloucadas do governo existe a


ideologia "extrativa". Mas há também o "soberanismo": ou seja, "a
Amazônia é do Brasil". Isso afirma Bolsonaro. É assim, Leonardo?

Nesse ponto, Bolsonaro não tem nenhuma cultura ecológica. Penso que
inclusive os membros do G7 tenham uma cultura ecológica apenas "verde", não
como aquela do Papa Francisco: uma ecologia integral.

Argumentei em vários lugares nesses termos, no sentido da nova visão da


ecologia. Na perspectiva dos astronautas que veem a Terra de fora da Terra,
todos dizem: Terra e Humanidade formam uma única entidade. Não há planeta
Terra de um lado e a humanidade do outro. Ambos formam uma única realidade.
O ser humano é a porção inteligente, amorosa e sensível da Terra. Somos a Terra,
por isso "homem" vem de "húmus", terra fértil ou "adam" em hebraico, ou "terra"
em árabe. Somos mais que filhos e filhas da Mãe Terra ... Somos a própria Terra,
que pensa, que ama, se cuida de todas as coisas. Essa é uma ideia da maioria dos
cosmólogos e astrofísicos.

Outro ponto. Vivemos na nova fase da Terra, o processo de planetização.


Estamos todos na mesma Casa Comum. Retornamos do exílio depois de milhões
de anos e agora estamos todos juntos no mesmo lugar, no planeta Terra.

A Terra não pertence a ninguém. É um bem comum de toda a humanidade e de


toda a comunidade da vida (animais, árvores, microrganismos etc.). A Amazônia
é parte da Terra; O Brasil não é o senhor da Amazônia. A Amazônia é de toda a
Terra, de toda a humanidade. O Brasil possui apenas a gestão dessa parte e a
administra mal e de forma não responsável. Hoje sabemos que a Amazônia, que
abrange 9 países, é fundamental para o equilíbrio do planeta, do sistema
climático, da absorção de dióxido de carbono e, além disso, regula o ciclo das
chuvas no mundo. Isso significa que toda a humanidade tem uma
responsabilidade sobre a Amazônia, que não é apenas do Brasil. O futuro da vida
na Terra é jogado sobre a conservação ou destruição da Amazônia. Não tenho
certeza se os membros do G7 têm essa visão integral do problema. Outro ponto
importante: nessas discussões, nunca foi falado sobre os povos indígenas, os
habitantes originais dessas terras. Eles conhecem o ritmo da floresta, sabem como
preservá-la. Eles são nossos mestres e doutores, não os cientistas que têm uma
visão de fora. A beleza do documento do Papa Francisco sobre o Sínodo Pan-
Amazônico é tornar os nativos os principais protagonistas para chegar a soluções
verdadeiras e sustentáveis para esse imenso bioma (ecossistema).

Além dessas ideologias (extrativistas e soberanistas), quais são as


"estruturas do pecado" que estão devastando a Amazônia?
As estruturas do pecado são a serra elétrica, a devastação sistemática da floresta
por madeiras valiosas, pela biodiversidade, por elementos importantes para a
medicina e, principalmente, as "terras ricas", elementos fundamentais para as
novas tecnologias do 5G.

Mas o maior pecado é o extermínio de etnias inteiras, a ocupação de suas


reservas, a contaminação dos rios devido à extração de ouro. Muitos indígenas
morrem de doenças porque o pessoal do agronegócio não quer tratá-los e curá-
los.

O que está fazendo a Igreja Católica para defender a Amazônia?

A Igreja Católica é certamente, juntamente com outras igrejas históricas como os


luteranos, uma presença constante e exigente na defesa dos povos originários.
Existe o Conselho Indigenista Missionário (CIMI), que há 30 a 40 anos realiza um
trabalho sistemático para a proteção dos povos indígenas. O documento do
Sínodo Pan-Amazônico faz outro discurso. Não se trata de converter as culturas,
mas de fazer a evangelização nas culturas, para que possa surgir uma igreja com
rosto indígena. Nesse sentido, pensa-se na ordenação de padres indígenas para
criar essa nova forma de igreja que não seja simplesmente a adaptação das igrejas
europeias.

O Papa Francisco, como sabemos, convocou, para o próximo mês de


outubro, o importante Sínodo sobre a Amazônia. No '' Istrumentum
laboris '', muito denso e profundo, existe a proposta de promover uma
"ecologia integral" na Amazônia. O que isso significa?

O sínodo é uma derivação e aplicação da encíclica Laudato Si’. Isso significa que
devemos respeitar esse imenso bioma (ecossistema) nos 9 países, em sua
singularidade, em suas culturas, em suas línguas. Como os primeiros cristãos
fizeram sua síntese da fé cristã com a cultura greco-latina, assim devem fazer seu
percurso. Criar verdadeiramente uma eclésio-gênese. Não é mais uma igreja
ocidental, mas indígena, afro-latino-americana, com elementos da tradição
europeia do tempo das coloniais.

Precisamente neste documento são propostos novos caminhos pastorais


para a Igreja na Amazônia. Por exemplo, há uma parte que pode levar a
uma nova visão dos ministérios. Em especial o ministério ordenado. Os
conservadores estão atacando esse ponto. Você acha que o Sínodo será
capaz de resistir?

O Papa Francisco tem uma imensa liberdade interior e coragem para abrir
novos caminhos. Eu acredito que serão consagrados verdadeiros presbíteros
indígenas. Apoio o Bispo Erwin Kräutler, amigo do Papa, que também defende
ordenar as mulheres. Ele diz que, em sua diocese, uma das maiores do mundo, às
margens do rio Xingu, as mulheres fazem tudo o que um sacerdote faz. Por que
não permitir também a ordenação presbiteral para as mulheres?
Os grandes teólogos como Karl Rahner e Luigi Sartori escreveram que não há
nenhum dogma ou doutrina que impeça de dar esse passo. Todas as outras igrejas
já o fizeram, incluindo os judeus. A igreja católica romana não pode continuar
sendo uma ilha de patriarcalismo e antifeminismo. O Espírito insta a Igreja a
tomar essa decisão, por amor aos povos mais afastados do mundo. Deus poluit,
decuit, ergo feci.

Reunião em San Miguel-AR, de 23-29/02/1972. Foto: Twitter Leonardo Boff

Última pergunta: o Papa Francisco está dando uma virada na Igreja no


sinal de "Igreja em saída" e de sinodalidade. Sabemos que os inimigos de
Francisco, que não são apenas eclesiásticos, estão fazendo o máximo para
limitar a força de suas reformas. Você acredita que o caminho assumido
por Francisco seja irreversível?

Penso que o Papa Francisco tenha inaugurado uma nova genealogia de Papas que
vêm de fora do velho cristianismo europeu, onde vivem apenas 25% dos católicos.
Nós nas Américas somos 64%. Os outros estão na África e na Ásia. Chegou a
hora, em minha opinião, de que o caminho do cristianismo no mundo
globalizado será feito a partir dessas novas igrejas, que já têm sua maturidade, sua
teologia e sua liturgia. Aqueles que são contra o Papa e o Sínodo são todos
"hereges", no sentido originário da teologia. A heresia não era, inicialmente, uma
questão de doutrina, mas de unidade da Igreja. Aqueles que são contra o Sínodo
e o Papa Francisco rompem essa unidade. São realmente hereges no sentido
verdadeiro e originário da palavra.

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