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“Uma possibilidade única de mudança na

Igreja Católica Romana”. Entrevista com


Leonardo Boff sobre o Sínodo da Amazônia

No Vaticano se reunirão, entre 6 e 27 de outubro, cerca de 300 personalidades –


entre as quais 110 bispos latino-americanos, da Bolívia, Brasil, Colômbia,
Equador, Peru e Venezuela – que participarão do Sínodo “Amazônia: Novos
caminhos para a Igreja e para uma Ecologia Integral”. Uma convocatória
transcendente para o futuro da Igreja, tal como aponta o pensador e militante
social brasileiro Leonardo Boff, um dos pais fundadores da Teologia da
Libertação. Como analisa nessa entrevista, Boff percebe a possibilidade, como
resultado deste conclave, de um reforço da postura da Igreja frente ao cada dia
mais vigente tema ecológico. E, ao mesmo tempo, a oportunidade para
incorporar mudanças importantes no interior da instituição.

A entrevista é de Sergio Ferrari, publicada por Alai, 02-10-2019. A tradução é de


Wagner Fernandes de Azevedo.

Eis a entrevista.

Entre 6 e 26 de outubro se realizará em Roma, o Sínodo para a Amazônia.


Qual é sua visão sobre a importância que pode ter essa convocatória do
Vaticano?

Percebo como uma oportunidade única que o papa Francisco tem para fazer
mudanças. O que desde o centro do poder religioso no Vaticano não poderia
fazer jamais. Em primeiro lugar, destaca o caráter sinodal do encontro, isso é, as
decisões dependem de todos os participantes, inclusive dos povos originários.
O texto é claro: não se trata de converter as culturas, mas sim de evangelizar nas
culturas, de forma que possa nascer uma Igreja nova, com rosto indígena, com
sua sabedoria ancestral, com seus ritos e hábitos. Nesse contexto promove a
discussão sobre a oportunidade de consagrar para o ministério laical, a casados e
indígenas que conviverão nessas comunidades distantes. E, também, sobre um
ministério oficial das mulheres. Há bispos que propõem não se referir a “viri
probati” (homens de caráter provado) mas sim a “personae probatae” (pessoa de
caráter provado), com a possibilidade de ampliar o sacerdócio às mulheres.

Não faltam setores na Igreja hierárquica conservadora que, desde antes de


começar o Sínodo, já começaram a levantar suas vozes contra certos
conteúdos propostos para o debate...

Aqueles que, na Europa e Estados Unidos, a raiz das afirmações do texto básico,
acusam o Papa de heresia, são os mesmos que vivem como reféns do paradigma
europeu, esquecendo-se que o cristianismo atual nasceu da incorporação de
cultura grega, romana e germânica. Por que não permitir que hoje nossos povos
possam fazer o mesmo? Por trás das acusações ao Papa se esconde uma questão
de poder. Os que o acusam, não aceitam a emergência de outro tipo de Igreja, de
igrejas mais vitais e mais numerosas, com suas teologias e liturgias. Finalmente, é
importante recordar que a maioria dos católicos está nas Américas com 62% do
total, enquanto que os europeus são somente 25% de todos os católicos no
mundo.

Aqui se dá uma verdadeira eclesiogênese (Nota: Remete a seu livro


Eclesiogênese, as comunidades de base reinventam a Igreja), o nascimento de uma
verdadeira Igreja, católica e com outro rosto. Há alguns cardeais – como os dos
alemães e um norte-americano que se pronunciaram publicamente – que não
aceitam tal visão, tal nascimento. Querem manter a hegemonia do tipo de Igreja
romano-católica, agora agônica e com pouca irradiação no mundo.

O papa Francisco representa esse tipo novo de Igreja com outra visão do
exercício do poder sagrado, simples, evangélico, sem se agarrar em doutrinas e
dogmas, mas sim no encontro vivo com Jesus. Assumindo seu exemplo porque,
disse, veio para nos ensinar a viver o amor incondicional, a solidariedade, a
compaixão, a abertura total ao Deus-Paizinho (Nota: Deus papai, cuidador).

Visão de proximidade, de caminho comum, que se reforça ademais no fato


que esse Sínodo prioriza a Amazônia, uma região hoje muito sensível para
todo o equilíbrio ecológico planetário e hoje, sumamente ameaçada...

Sim... o Papa escolheu a Amazônia como temática porque sabe de sua


importância para o equilíbrio da Terra e para o destino comum Terra-
Humanidade. Ela tem um papel decisivo para o futuro da vida. Por isso que quis
que o Sínodo se celebrasse em Roma, para que toda a humanidade pudesse
acompanhar as discussões e tomar consciência da grave crise que passa o
sistema-Terra e o sistema-vida.

Você participará do Sínodo?

Não fui convidado. É preciso reconhecer que sou uma figura polêmica para
muitos bispos, apesar de todo o apoio que dei ao papa Francisco e o apoio
pessoal que recebi de sua parte. Porém colaboro com textos, alguns enviados
diretamente ao Papa e ao grupo Ameríndia (uma articulação de muitos grupos
da Igreja latino-americana) que estará presente em Roma.

O Sínodo é um passo inteligente, oportunista, da Igreja Católica Romana


frente à gravidade da situação ambiental ou, sobretudo, uma maneira de
recuperar o tempo perdido na defesa ecológica da Terra?

A Igreja Católica, finalmente, despertou para se abrir ao problema ecológico


integral, o que o Conselho Mundial de Igrejas já havia assumido muitos anos
atrás com o lema: “Justiça, Paz e Preservação da Criação”. A encíclica Laudato
Si’ de 2015 sobre o cuidado da Casa Comum representa essa virada da Igreja
Católica. Não se trata de um texto para os cristãos, mas sim para toda a
humanidade. Nem se reduz a uma ecologia verde, mas sim integral, cobrindo o
ambiental, o social, o político, o cultural, o cotidiano e o espiritual. Com esse
texto, o Papa se põe à frente da discussão mundial sobre a ecologia. Até agora as
Igrejas eram mais um problema que uma solução para a situação da Terra. Agora
oferecem, por sua riqueza espiritual, uma contribuição de grande qualidade.

Leia mais

• “O futuro da humanidade e da terra está ligado ao futuro da Amazônia”.


Entrevista com Leonardo Boff
• “Quem disser ‘amo a Deus’, mas odeia o irmão, é mentiroso”. Entrevista
com Leonardo Boff
• Ecologia em fragmentos: as partes no Todo. Artigo de Leonardo Boff
• Carta do Papa Francisco a Leonardo Boff
• Antes do Sínodo, bispo católico prega 'não' à mineração e grandes obras na
Amazônia
• Às vésperas do Sínodo, representantes da CNBB participam de Audiência
Pública na Câmara
• “O Sínodo significa uma valorização, atenção, escuta, que a Igreja está
fazendo com nós, indígenas da Amazônia”. Entrevista com Mariluce
Mesquita, salesiana e auditora sinodal
• Sete chaves teológicas para o Sínodo da Amazônia. Artigo de Victor
Codina
• O Sínodo provoca a “exigência de compreender novos modelos de
ministerialidade para a Igreja na Amazônia”. Entrevista com Zenildo Lima,
reitor do Seminário de Manaus
• Sínodo é resistência pela proteção à Amazônia e povos indígenas, diz bispo
de São Gabriel da Cachoeira

http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/593137-uma-possibilidade-unica-de-
mudanca-na-igreja-catolica-romana-entrevista-com-leonardo-boff-sobre-o-
sinodo-da-amazonia