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Gramática e literatura em português I - aula 13

1. Resumo

Nesta aula, foi analisado o seguinte soneto de Camões:

Sustenta meu viver uma esperança


Derivada de um bem tão desejado
Que quando nela estou mais confiado,
Mor dúvida me põe qualquer mudança.

E quando inda este bem na mor pujança


De seus gostos me tem mais enlevado,
Me atormenta então ver eu que, alcançado
Será por quem de vós não tem lembrança.

Assim que, nestas redes enlaçado,


Apenas dou a vida, sustentando
Uma nova matéria a meu cuidado.

Suspiros d′alma tristes arrancando,


Dos silvos de uma pedra acompanhado,
Estou matérias tristes lamentando.

Este poema se destaca desde o início pela complexidade sintática, pouco recorrendo à
ordem direta e empregando numerosas inversões frasais. Do mesmo modo, há uma
fina trama de conceitos. No entanto, lendo com atenção, percebemos que a ideia
desenvolvida nele é relativamente simples. Trata-se da arte de se desenvolver uma ideia
simples em detalhes cuidadosos e finos.

O tema da esperança tem sido nosso companheiro constante nos sonetos que temos
analisado nas últimas aulas. Em “Enquanto quis Fortuna que tivesse”, trata-se de um
presente de Fortuna; em “Busque Amor novas artes, novo engenho”, é exatamente onde
Amor ataca para atormentar o poeta. Aqui, em um tom a princípio mais otimista, a
esperança é sustentadora da vida, baseada, descobrimos em um bem que tanto o poeta
deseja que a própria esperança se torna fonte de tensão diante de qualquer alteração na
possibilidade de lográ-lo. Trata-se da conhecida verdade de que, quanto mais se
valoriza algo, maior é o temor que sua possível perda nos causa, elaborado em
pormenores e em uma construção linguística que reproduz os movimentos de
intensidade e dúvida que o sentimento causa ao poeta.

No segundo quarteto, esse sentimento não só se intensifica, mas também se matiza em


diversos “gostos”, que, quanto mais pujantes, maior fonte são de tormento ao poeta.
Entretanto, vemos um elemento novo aqui: o poeta percebe que esse bem não será
conquistado por ele, mas por quem não o valorizará, alguém em cuja memória tal bem,
com suas ramificações, não existe.
O primeiro terceto apresenta o resultado de tal exercício interno: o poeta se perde em
seus pensamentos e sentimentos, não tendo mais sua vida sustentada pela esperança,
mas sustentando, ele mesmo, não a vida, que se esvai, mas outro tipo de matéria, que
nos é apresentada no segundo terceto: uma matéria morta, que se reflete nos elementos
do ar expelido nos suspiros arrancados da alma do poeta, e da pedra. A contínua
elaboração interna do poeta transforma a matéria viva derivada da esperança do
alcance de um bem desejado em matérias tristes e mortas, que não podem senão ser
lamentadas pelo poeta.

2. Exercícios

1. A conjunção subordinativa “quando” surge em dois momentos do poema – no


primeiro e no segundo quartetos – com função análoga. Que função é essa?
a. Sendo uma conjunção subordinativa de caráter temporal, ela marca o
momento exato em que ocorre uma mudança na percepção do poeta
sobre seu estado interno.
b. Apesar de seu caráter temporal, a conjunção é usada aí com sentido
concessivo, apresentando uma ideia que vai de encontro a tudo o que
está sendo dito no resto do quarteto.
c. A conjunção dá a ideia de proporcionalidade, apresentando elementos
cuja intensificação resulta no estado de espírito a que chega o poeta.
d. Transmite a ideia de finalidade, pois marca exatamente o estado de
conquista do desejo que o poeta quer alcançar.
e. Transmite a ideia de tempo, mas de um tempo passado, que existe
apenas na memória e que determinou a desesperança e sofrimento
expressos nos quartetos.
2. Como se pode desenvolver o significado da oração reduzida de particípio “nestas
redes enlaçado” em relação ao que ela expressa sobre o estado do poeta?
a. Há um paralelismo perfeito entre os níveis conotativo e denotativo da
linguagem: o poeta se refere, ao mesmo tempo, a um estado de espírito
de confusão e a uma situação em que ele se encontra fisicamente
enlaçado em redes de pesca.
b. As redes a que se refere o poeta podem ser lidas como seus pensamentos
e sentimentos sobre o bem que deseja, cuja mescla resultava antes em
uma intensificação, mas agora leva apenas à confusão.
c. Esse estado de que fala o poeta é um estado novo, que não guarda
qualquer relação com seu estado de espírito anterior desenvolvido ao
longo dos quartetos.
d. Essa sensação de enlaçamento tem origem em um fato concreto: o bem
desejado pelo poeta já foi de fato perdido por ele por completo, e ele
lamenta essa perda concreta.
e. A metáfora da “rede” reforça a presença de um elemento muito comum
na poesia de Camões e que é bastante visível neste soneto: o mar como
metáfora da vida.
3. O primeiro verso do poema – “Sustenta meu viver uma esperança” – encontra
ressonância vocabular em outro verso. Que verso é esse e como se caracteriza tal
ressonância?
a. “Apenas dou a vida, sustentando” – a troca de sujeito para o verbo
“sustentar” ressona a destituição da esperança como sustentadora da
vida.
b. “Mor dúvida me põe qualquer mudança” – há contradição entre
“esperança” e dúvida” nesses dois versos.
c. “Suspiros d′alma tristes arrancando” – os verbos “sustentar” e
“arrancar” referem-se ao mesmo objeto, ou seja, o viver do poeta.
d. “Estou matérias tristes lamentando” – “tristes” aí é sinônimo de
“mortas”, o que encontra ressonância com o viver sustentado pela
esperança no verso referido.
e. Nenhuma das alternativas acima está correta.
4. O ar, ou o vento, é um elemento de extremo valor metafórico nas tradições
poéticas não apenas ocidentais, não só por sua força, como por sua versatilidade
em termos de significado. Como mostra o crítico M. H. Abrams no ensaio “A
Correspondent Breeze”, o vento pode ser fertilizador, destruidor, conservador e
restaurador. Que significado, ou significados, a metáfora do ar e do vento
adquire no terceto que encerra o poema estudado aqui?
a. O vento é destruidor e preservador aqui, já que, ao mesmo tempo em
que varre as antigas ilusões do poeta, traz a promessa de renovação dos
sentimentos.
b. O vento é apenas destruidor, já que é evidentemente o agente
responsável por destroçar as ilusões que o poeta tem com relação à
consecução de um bem que sempre fora inacessível, como visto ao longo
do poema.
c. O ar aí está totalmente identificado à alma do poeta, ou seja, aquele
núcleo dinâmico capaz de revitalizar o poeta mesmo diante da perda das
esperanças.
d. O ar é visto aqui, acima de tudo, como dispersão da vida, na forma de
suspiros que se esvaem da alma do poeta; nesse sentido, os suspiros do
poeta encontram ressonância no ar que sopra na pedra.
e. O ar tem aqui uma função organizadora e ordenadora tanto da realidade
interna do poeta quanto da realidade externa.