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OS​ ​FILHOS​ ​DO​ ​DRAGÃO 

GEORGE​ ​R​ ​R​ ​MARTIN

O Rei Aegon I Targaryen, a história nos recorda, tomou ambas as irmãs como esposas. Tanto
Visenya quanto Rhaenys eram domadoras de dragões, abençoadas com cabelos platinados,
olhos violeta, e a beleza de verdadeiras Targaryen. Fora isso, as duas rainhas eram tão
diferentes entre si como só duas mulheres conseguem ser… exceto num aspecto. Cada uma
delas​ ​deu​ ​ao​ ​rei​ ​um​ ​filho.

Aenys veio primeiro. Nascido em 7AL da mulher mais jovem de Aegon, a Rainha Rhaenys, o
garoto era pequeno quando nasceu, e doentio. Ele chorava o tempo todo, e dizem que seus
membros eram tão finos e seus olhos tão lacrimejantes que os meistres do rei temeram por sua
sobrevivência. Ele cuspia os bicos dos seios de sua ama de leite e aceitava mamar apenas em sua
mãe, e os rumores dizem que ele gritou por uma quinzena quando foi desmamado. Tão diferente
ele era do Rei Aegon que alguns ousavam sugerir que Sua Graça não era o verdadeiro pai do
menino, e que Aenys era um bastardo nascido de um dos muitos favoritos charmosos da Rainha
Rhaenys, filho de um cantor, pantomimeiro ou mímico. E o príncipe foi lento para crescer
também. Até que ele recebeu a jovem dragão Quicksilver, chocada naquele ano em Pedra do
Dragão,​ ​e​ ​então​ ​Aenys​ ​começou​ ​a​ ​florescer.

O Príncipe Aenys tinha três anos de idade quando sua mãe, a Rainha Rhaenys, e o dragão dela,
Meraxes, foram assassinados em Dorne. A morte dela deixou o jovem príncipe inconsolável. Ele
parou de comer e até voltou a rastejar como fazia com um ano de idade, como se tivesse se
esquecido como andar. Seu pai se desesperou por ele, e espalharam-se na corte os rumores de
que o Rei Aegon talvez tomasse uma nova esposa, já que Rhaenys estava morta e Visenya não
tinha filhos, sendo provavelmente estéril. O rei manteve suas próprias opiniões neste assunto,
de modo que nenhum homem podia dizer o que se passava em sua cabeça, mas muitos grandes
senhores e nobres cavaleiros apareceram na corte com suas filhas donzelas, cada uma mais bela
do​ ​que​ ​a​ ​anterior.

Toda essa especulação acabou em 11AL, quando a Rainha Visenya repentinamente anunciou
que estava esperando um filho do rei. Um filho homem, ela proclamou confidencialmente, e isso
provou-se estar certo. O príncipe foi trazido a este mundo em 12AL. Nenhum recém-nascido
jamais foi tão robusto quanto Maegor Targaryen, os meistres e parteiras concordavam; seu peso
ao​ ​nascer​ ​era​ ​quase​ ​o​ ​dobro​ ​do​ ​irmão​ ​mais​ ​velho.

Os meio-irmãos nunca foram próximos. O Príncipe Aenys era o herdeiro aparente, e o Rei Aegon
o mantinha por perto, ao seu lado. Como o rei viajava pelo reino, de castelo em castelo, assim
fazia o príncipe. O Príncipe Maegor permanecia com sua mãe, sentado ao lado dela enquanto ela
governava a corte. A Rainha Visenya e o Rei Aegon estavam cada vez mais separados nessa
época,. Quando ele não estava em sua turnê real, Aegon retornava para o Forte de Aegon em
Porto Real, enquanto Visenya e o filho dela permaneciam em Pedra do Dragão. Por essa razão,
os​ ​senhores​ ​e​ ​plebeus​ ​começaram​ ​a​ ​se​ ​referir​ ​a​ ​Maegor​ ​como​ ​Príncipe​ ​de​ ​Pedra​ ​do​ ​Dragão.

A Rainha Visenya pôs uma espada na mão do filho quando ele fez três anos. Supostamente, a
primeira coisa que ele fez com a lâmina foi estripar um dos gatos do castelo, os homens dizem…
embora esse conto seja um dos que seus muitos inimigos inventaram para denegrí-lo mais,
muitos anos depois. Que o Príncipe se empenhou no manejo da espada não pode ser negado,
todavia. Como seu primeiro mestre de armas, sua mãe escolheu Sor Gawen Corbray, o mais
mortal​ ​cavaleiro​ ​que​ ​poderia​ ​ser​ ​encontrado​ ​nos​ ​Sete​ ​Reinos.

O Príncipe Aenys ficava tanto na companhia de seu pai que suas instruções de cavalaria vieram
na maior parte dos cavaleiros da Guarda Real de Aegon, e algumas vezes do próprio rei. O
menino era diligente, todos os seus instrutores concordavam, e não desprovido de coragem, mas
carecia do tamanho e da força do pai, e nunca mostrou-se além de adequado como lutador,
mesmo quando o rei punha em suas mãos a Blackfyre, algo que fazia de tempos em tempos.
Aenys não seria um completo fiasco numa batalha, seus tutores comentavam uns com os outros,
mas​ ​nenhuma​ ​canção​ ​seria​ ​feita​ ​sobre​ ​suas​ ​proezas.

Os dons que o príncipe possuía estavam em outros lugares. Aenys era um cantor talentoso, com
uma voz forte e doce. Ele era cortês, encantador e inteligente sem ser intelectual. Fazia amigos
com facilidade, e garotas jovens pareciam ser atraídas por ele, bem nascidas ou não. Aenys
adorava cavalgar também. Seu pai deu a ele corcéis, palafréns e cavalos de batalha, mas sua
montaria​ ​favorita​ ​era​ ​seu​ ​dragão,​ ​Quicksilver.

O Príncipe Maegor cavalgava também, mas não mostrou amores por cavalos, cachorros ou
qualquer animal. Quando ele tinha oito anos, um palafrém o escoiceou nos estábulos. Maegor
apunhalou o cavalo até a morte… e cortou metade do rosto do cavalariço que veio correndo
devido aos gritos do animal. O Príncipe de Pedra do Dragão fez vários companheiros no
decorrer dos anos, mas nenhum amigo verdadeiro. Era um menino brigão, rápido em se ofender,
lento em perdoar, terrível quando encolerizado. Suas habilidades marciais eram incomparáveis,
no entanto. Como escudeiro aos oito anos, ele desmontava garotos de quatro a cinco anos mais
velhos do que ele, e com doze ele batia em experientes homens de armas no pátio do castelo até
que se rendessem. No décimo terceiro dia do seu nome, em 25AL, sua mãe, a Rainha Visenya,
concedeu a ele sua própria lâmina de aço valiriano, a Irmã Negra… meio ano antes de seu
casamento.

A tradição entre os Targaryen era casar sempre parente com parente. Casar irmão com irmã era
o ideal. Na impossibilidade disso, uma garota poderia se casar com um tio, primo ou sobrinho;
um garoto poderia se casar com uma prima, tia ou sobrinha. Essa prática remontava à velha
Valíria, onde isso era comum entre a maioria das famílias tradicionais, principalmente aquelas
que criavam e domavam dragões. O sangue do dragão deve ser mantido puro, a sabedoria dizia.
Alguns dos príncipes feiticeiros também tomavam mais de uma esposa quando queriam, mas
isso era menos comum do que o casamento incestuoso. Na Valíria antes da Perdição, milhares de
deuses eram honrados, mas nenhum deles era temido, de modo que poucos ousavam falar
contra​ ​tais​ ​costumes.

Isso não era válido em Westeros, onde o poder da Fé era inquestionável. Os velhos deuses ainda
eram venerados no Norte, mas o resto do reino cultuava um deus com sete faces, e sua voz sobre
a terra era a do Alto Septão em Vilavelha. E as doutrinas da Fé, trazidas séculos atrás pelos
próprios ândalos, condenavam os costumes valirianos de casamento praticados pelos
Targaryen. Incesto era denunciado como um pecado vil, se entre pai e filha, mãe e filho ou irmão
e irmã, e os frutos dessas uniões eram considerados abominações aos olhos dos deuses e
homens. Em retrospectiva, é visível que o conflito entre a Fé e a Casa Targaryen era inevitável.
Na verdade, muitos dentre os Mais Devotos esperavam que o Alto Septão falasse contra Aegon e
suas irmãs durante a Conquista, e ficaram muito aborrecidos quando o Pai dos Fiéis aconselhou
Lorde Hightower a não se opôr ao Dragão ao invés disso, e até mesmo o abençoou e ungiu em
sua​ ​segunda​ ​coroação.

A convivência é a mãe da aceitação, dizem. O Alto Septão que coroara Aegon, o Conquistador,
permaneceu como Pastor dos Fiéis até sua morte em 11AL, altura em que o reino já se
acostumara em ter um rei com duas rainhas, sendo que ambas as esposas eram irmãs dele. O Rei
Aegon sempre tomou o cuidado de honrar a Fé, confirmando seus direitos e privilégios
ancestrais, isentando sua riqueza e propriedade da tributação e reafirmando que septões, septãs
e outros servos dos Sete acusados de irregularidades só poderiam ser julgados pelos tribunais
da​ ​própria​ ​Fé.

O acordo entre a Fé e o Trono de Ferro continuou por todo o reinado de Aegon I. De 11AL a
37AL, seis Alto Septões usaram a coroa de cristal; Sua Graça manteve um bom relacionamento
com cada um deles, indo ao Septo Estrelado cada vez que visitava Vilavelha. Ainda assim a
questão do casamento incestuoso permaneceu, apodrecendo embaixo da cortesia como veneno.
Enquanto os Alto Septões sob o reinado do Rei Aegon nunca falaram contra o casamento do rei
com suas irmãs, eles também nunca declararam as uniões legítimas. Os membros mais humildes
da Fé - septões de vilarejos, irmãs sagradas, irmãos mendicantes, Pobres Irmãos - ainda
acreditavam ser pecaminoso que um irmão se deitasse com um irmã e que um homem tomasse
duas​ ​esposas.
Aegon, o Conquistador, não teve filhas, no entanto, então o assunto não veio à tona naquela
época. Os filhos do Dragão não tinham irmãs para se casar, de modo que foram forçados a
procurar​ ​outras​ ​mulheres​ ​para​ ​serem​ ​suas​ ​noivas.

O Príncipe Aenys foi o primeiro a se casar. Em 22AL, ele tomou como esposa a Senhora Alyssa,
uma donzela filha do Senhor das Marés, Aethan Velaryon, Senhor Almirante e Mestre dos Navios
do Rei Aegon. Ela tinha quinze anos, a mesma idade do príncipe, e ostentava cabelos prateados e
olhos violeta também, já que os Velaryon eram uma família ancestral que viera de Valíria. A
própria mãe do Rei Aegon havia sido uma Velaryon, então o casamento consistia numa união
entre​ ​dois​ ​primos.

O casamento logo mostrou-se feliz e frutífero. No ano seguinte, Alyssa deu à luz uma filha. Aenys
batizou-a de Rhaena, e o reino festejou… com exceção, talvez, da Rainha Visenya. O Príncipe
Aenys era o herdeiro do Trono de Ferro, todos concordavam, mas agora surgia a questão se o
Príncipe Maegor continuava como o segundo na linha de sucessão ou se havia caído para o
terceiro, atrás da princesa recém nascida. A Rainha Visenya propôs resolver a questão ao
prometer Rhaena a Maegor, que tinha apenas doze anos. Aenys e Alyssa falaram contra a
proposta, no entanto… e quando a notícia alcançou o Septo Estrelado de Vilavelha, o Alto Septão
enviou um corvo, avisando o rei que o casamento não contaria com o apoio da Fé. Ele propôs
uma noiva diferente para Maegor: Ceryse Hightower, donzela filha do Senhor de Vilavelha (e
sobrinha do próprio Alto Septão). Aegon, consciente das vantagens em estreitar os laços entre a
família​ ​real​ ​e​ ​Vilavelha,​ ​viu​ ​a​ ​sabedoria​ ​na​ ​escolha,​ ​e​ ​concordou​ ​com​ ​a​ ​proposta.

Assim aconteceu que, em 25AL, Maegor Targaryen, Príncipe de Pedra do Dragão, casou-se com a
Senhora Ceryse Hightower no Septo Estrelado de Vilavelha, com o próprio Alto Septão
realizando a cerimônia. Maegor tinha treze anos, a noiva tinha dez anos a mais… mas todos os
senhores que visualizaram a roupa de cama concordaram que o príncipe fôra um marido
luxurioso, e Maegor em pessoa se gabou de ter consumado o casamento uma dúzia de vezes
naquela​ ​noite.

-​ ​Eu​ ​produzi​ ​um​ ​filho​ ​da​ ​Casa​ ​Targaryen​ ​nesta​ ​noite.​ ​-​ ​Ele​ ​proclamou​ ​ao​ ​partir.

O filho veio no ano seguinte… mas o garoto, chamado Aegon em honra ao avô, nasceu da
Senhora Alyssa, sendo filho do Príncipe Aenys. A Senhora Ceryse não engravidou nos anos que
se seguiram, apesar de Alyssa ter um filho atrás do outro. Em 29AL, ela deu a Aenys um segundo
filho, Viserys. Em 34 AL, ela deu à luz a Jaehaerys, sua quarta criança e terceiro fiilho. Em 36AL
veio outra filha, Alysanne. Cada filho empurrava Maegor para baixo na linha sucessória; alguns
diziam que ele ficava atrás das filhas do irmão também. Tudo isso acontecia enquanto Maegor e
Ceryse​ ​permaneciam​ ​sem​ ​filhos.

Nos torneios e campos de batalha, todavia, os feitos do Príncipe Maegor excediam em muito os
de seu irmão. No grande torneio em Correrrio em 28AL, o Príncipe Maegor desmontou três
cavaleiros da Guarda Real em justas sucessivas até cair para o eventual campeão. No corpo a
corpo, nenhum homem poderia enfrentá-lo. Posteriormente ele foi feito cavaleiro no campo por
seu pai, que o sagrou com nada menos que a Blackfyre. Com dezesseis anos, Maegor tornou-se o
mais​ ​jovem​ ​cavaleiro​ ​nos​ ​Sete​ ​Reinos.

Outras façanhas seguiram a estas. Em 29AL, e novamente em 30AL, Maegor acompanhou


Osmund Strong e Aethan Velaryon aos Degraus para eliminar o rei pirata liseno Sargoso Saan, e
lutou em refregas sangrentas, mostrando que era temível e mortal. Em 31AL, ele caçou e matou
um​ ​notório​ ​cavaleiro​ ​fora-da-lei​ ​nas​ ​Terras​ ​Fluviais,​ ​o​ ​então​ ​chamado​ ​Gigante​ ​do​ ​Tridente.

Maegor ainda não era um domador de dragão, contudo. Apesar de meia dúzia de crias terem
nascido nos poços de fogo e Pedra do Dragão nos últimos anos do reinado de Aegon, e terem
sido oferecidas ao príncipe, Maegor recusou a todos. A esposa de seu irmão o provocou um dia
na corte, perguntando em voz alta se “seu cunhado temia os dragões”. A fúria de Maegor foi
negra,​ ​e​ ​ele​ ​respondeu​ ​que​ ​apenas​ ​um​ ​dragão​ ​era​ ​digno​ ​dele.

Os últimos sete anos do reinado de Aegon, o Conquistador, foram pacíficos. Após as frustrações
na Guerra Dornesa, o rei continuou aceitando a independência de Dorne, e voou para Sunspear
em Balerion no décimo aniversário do tratado de paz para celebrar um “festim da amizade” com
Deria Martell, a Princesa que governava Dorne. O Príncipe Aenys o acompanhou em Quicksilver;
Maegor permaneceu em Pedra do Dragão. Aegon forjara os sete reinos com fogo e sangue, mas
após comemorar o sexagésimo dia de seu nome em 33AL, ele voltou-se para tijolos e argamassa.
A metade de todos os anos era destinada a uma turnê real, mas agora era o Príncipe Aenys e sua
esposa, Alyssa, que viajavam de castelo em castelo, enquanto o rei envelhecido permanecia em
casa,​ ​dividindo​ ​seus​ ​dias​ ​entre​ ​Pedra​ ​do​ ​Dragão​ ​e​ ​Porto​ ​Real.

A vila de pescadores em que Aegon havia desembarcado pela primeira vez havia crescido para
se tornar uma cidade fedorenta com cem mil almas naquela época; apenas Vilavelha e
Lannisporto eram maiores. Ainda assim, de muitos modos, Porto Real continuava não sendo
mais do que um acampamento militar que inchara a um tamanho grotesco: suja, malcheirosa,
não planejada e provisória. E o Forte de Aegon, que se espalhava até metade da Alta Colina de
Aegon naqueles altura, era um castelo feio como qualquer um nos Sete Reinos, uma grande
bagunça​ ​de​ ​madeira,​ ​terra​ ​e​ ​tijolos​ ​que​ ​haviam​ ​coberto​ ​o​ ​antigo​ ​forte​ ​com​ ​paliçadas​ ​de​ ​madeira.

Certamente não era a residência digna de um grande rei. Em 35AL, Aegon mudou-se com toda a
sua corte de volta a Pedra do Dragão, e deu ordens para que o Forte de Aegon fosse demolido de
modo que um novo castelo pudesse se erguer em seu lugar. Dessa vez, ele decretou, seria
construído em pedra. Para supervisionar o projeto e construção desse novo castelo, ele nomeou
sua Mão do Rei, Lorde Alyn Stokeworth (Sor Osmund Strong havia morrido no ano anterior), e a
Rainha Visenya. (A piada que rondava a corte dizia que o Rei Aegon encarregara Visenya da
construção​ ​da​ ​Fortaleza​ ​Vermelha​ ​para​ ​não​ ​ter​ ​de​ ​suportar​ ​sua​ ​presença​ ​em​ ​Pedra​ ​do​ ​Dragão.)

Aegon, o Conquistador, morreu de um derrame em Pedra do Dragão no trigésimo sétimo ano


depois da Conquista. Seus netos Aegon e Viserys estavam com ele na hora do morte, na Câmara
da Mesa Pintada; o rei estava contando a eles detalhes de suas conquistas. O Príncipe Maegor,
que residia em Pedra do Dragão na época, fez um discurso diante do corpo do pai quando
deitaram o cadáver na pira funerária nos jardins do castelo. O rei trajava sua armadura de
batalha, suas mãos por sobre o peito segurando a Blackfyre. Desde os dias da Velha Valíria,
havia sido o costume da Casa Targaryen queimar os seus mortos, em vez de depositar seus
restos na terra. Vhagar providenciou as chamas para acender a pira. A Blackfyre foi queimada
com o rei, mas recuperada por Aenys depois, com nenhuma outra marca além da lâmina
escurecida.​ ​Fogo​ ​comum​ ​não​ ​pode​ ​danificar​ ​o​ ​aço​ ​valiriano.

Sobreviveram ao Dragão sua irmã Visenya, seus filhos Aenys e Maegor, e cinco netos. O Príncipe
Aenys​ ​tinha​ ​trinta​ ​anos​ ​de​ ​idade​ ​quando​ ​o​ ​pai​ ​morreu,​ ​o​ ​Príncipe​ ​Maegor​ ​tinha​ ​vinte​ ​e​ ​cinco.

Aenys estava em Jardim de Cima em sua turnê quando o pai morreu, mas voltou em Quicksilver
a tempo para o funeral em Pedra do Dragão. Posteriormente ele colocou a coroa de ferro e rubi
do pai, e Grande Meistre Gawen o proclamou Aenys da Casa Targaryen, Primeiro de Seu Nome,
Rei dos Ândalos, dos Roinares e dos Primeiros Homens, Senhor dos Sete Reinos e Protetor do
Território. Os senhores, cavaleiros e septões que haviam ido a Pedra do Dragão para despedir-se
de seu rei ajoelharam-se e baixaram as cabeças. Quando o Príncipe Maegor começou a se
levantar,​ ​Aenys​ ​o​ ​ajudou​ ​a​ ​se​ ​pôr​ ​de​ ​pé,​ ​beijou​ ​suas​ ​bochechas​ ​e​ ​disse:

- Irmão, você nunca mais precisará se ajoelhar para mim novamente. Iremos governar este reino
juntos, você e eu. - E então o rei presenteou-o com a espada de seu pai, a Blackfyre. - Você fará
melhor​ ​uso​ ​dela​ ​do​ ​que​ ​eu.​ ​Use-a​ ​ao​ ​meu​ ​serviço,​ ​e​ ​eu​ ​ficarei​ ​contente.

Depois, o novo rei velejou para Porto Real, onde encontrou o Trono de Ferro em pé entre
montes de escombros e terra. O velho Forte de Aegon fôra posto abaixo, e a colina estava
arruinada com as crateras de poços e túneis onde as adegas e fundações da Fortaleza Vermelha
estavam sendo escavadas, mas o novo castelo ainda não começara a ser erguido. No entanto,
milhares compareceram para celebrar enquanto o Rei Aenys reivindicava o trono do pai como
seu. Logo depois, Sua Graça partiu para Vilavelha para receber a benção do Alto Septão,
passando por Correrrio, Lannisporto e Jardim de Cima numa grande turnê real. Sua esposa e
filhos fizeram a viagem com ele, e por todo o caminho os plebeus apareceram às centenas para
saudar os novos rei e rainha. No Septo Estrelado, o Alto Septão o ungiu como haviam feito com o
pai dele, e o presenteou com uma coroa de ouro amarelo, com os rostos dos Sete moldados em
jade​ ​e​ ​pérola.

No entanto, mesmo enquanto Aenys recebia a benção do Alto Septão, alguns lançavam dúvidas
sobre sua aptidão para sentar-se no Trono de Ferro. Westeros precisava de um guerreiro, não
de um sonhador, eles sussurravam uns aos outros, e o Príncipe Maegor era o mais forte dentre
os filhos do Dragão. E a maior figura dentre os que sussurravam era a própria mãe de Maegor, a
Rainha​ ​Viúva​ ​Visenya​ ​Targaryen.

- A verdade é clara o suficiente. - Dizia ela. - Até mesmo Aenys a viu. Porque mais ele daria a
Blackfyre​ ​ao​ ​meu​ ​filho?​ ​Ele​ ​sabe​ ​que​ ​apenas​ ​Maegor​ ​tem​ ​a​ ​força​ ​para​ ​governar.

A força do jovem rei acabaria por ser testada antes do que qualquer um teria imaginado. As
Guerras da Conquista haviam deixado cicatrizes por todo o reino. Filhos agora tinham idade
para sonhar com vingança pelos pais mortos havia muito. Cavaleiros se lembravam dos dias em
que um homem com um cavalo, espada e armadura poderia fazer seu caminho rumo a riquezas
e glórias. Senhores se lembravam dos tempos em que não precisavam que um rei desse
permissão​ ​para​ ​tributar​ ​os​ ​camponeses​ ​ou​ ​matar​ ​seus​ ​inimigos.

- As correntes que o Dragão forjou ainda podem ser quebradas. - Os descontentes diziam uns
aos outros. - Nós podemos recuperar nossa liberdade, mas a hora de atacar é agora, já que este
novo​ ​rei​ ​é​ ​fraco.

As primeiras agitações da revolta surgiram nas Terras Fluviais, entre as ruínas colossais de
Harrenhal. Aegon concedera o castelo a Sor Quenton Qoherys, seu velho mestre-de-armas.
Quando Lorde Qoherys morrera ao cair de seu cavalo em 9AL, o título passara para seu neto,
Gargon, um homem gordo e tolo com um apetite indecoroso por garotas jovens que se tornaria
conhecido como Gargon, o Convidado. Lorde Gargon logo se tornaria infame por comparecer em
todas as celebrações de casamento em seus domínios de modo a poder se aproveitar do direito
da primeira noite. O convidado de casamento mais indesejável que se pode imaginar. Ele
também​ ​tomou​ ​liberdades​ ​com​ ​as​ ​esposas​ ​e​ ​filhas​ ​de​ ​seus​ ​próprios​ ​servos.

O Rei Aenys ainda estava em sua turnê, agora hospedado com Lorde Tully de Correrrio, quando
o pai de uma garota que Lorde Qoherys desonrara abriu uma poterna em Harrenhal para um
fora-da-lei que se autointitulara Harren, o Vermelho, e declarava ser neto de Harren, o Negro. Os
foras-da-lei arrancaram sua senhoria da cama e o arrastaram até o bosque sagrado do castelo,
onde Harren arrancou suas genitais para dar de alimento ao seu cão. Um punhado de homens de
armas leais foram mortos; o resto concordou em se juntar a Harren, que se autodeclarara
Senhor​ ​de​ ​Harrenhal​ ​e​ ​Rei​ ​dos​ ​Rios​ ​(não​ ​sendo​ ​nascido​ ​no​ ​ferro,​ ​ele​ ​não​ ​reivindicou​ ​as​ ​ilhas).

Quando a notícia alcançou Correrrio, Lorde Tully insistiu para que o rei montasse em
Quicksilver e descesse sobre Harrenhal como seu pai fizera. Mas Sua Graça, talvez cuidadoso por
conta do que acontecera à sua mãe em Dorne, ordenou que Tully convocasse seus vassalos, e
aguardou em Correrrio enquanto eles eram reunidos. Apenas quando juntaram mil homens que
Aenys marchou… mas quando alcançaram Harrenhal, encontraram o castelo vazio com exceção
dos cadáveres. Harren, o Vermelho, passara os servos leais de Lorde Gargon na espada e levara
seu​ ​bando​ ​para​ ​os​ ​bosques.

Quando Aenys retornou a Porto Real, as novas eram ainda piores. No Vale, o irmão mais jovem
de Lorde Ronnel Arryn, Jonos, o havia deposto e aprisionado, e declarado a si mesmo como Rei
da Montanha e do Vale. Nas Ilhas de Ferro, outro rei-sacerdote surgira do mar, anunciando a si
mesmo como Lodos, o Duas Vezes Afogado, filho do Deus Afogado, que retornava finalmente da
visita ao seu pai. E do alto das Montanhas Vermelhas de Dorne, um pretendente chamado Rei
Abutre aparecera, e convocava todos os verdadeiros dorneses para vingar os males que os
Targaryen haviam infligido a Dorne. Apesar de a Princesa Deria condenar seus atos, jurando que
ela e os dorneses leais apenas queriam a paz, milhares surgiram para seguir seu estandarte,
enxameando das colinas, subindo das areias, e através das trilhas de cabras nas montanhas
rumo​ ​à​ ​Campina.

“Esse Rei Abutre é meio louco, e seus seguidores são ralé, indisciplinados e sujos”, Lorde
Harmon Dondarrion escreveu ao rei. “Podemos sentir seu fedor quando estão a cinquenta
léguas de distância.” Não muito depois, tal corja assaltou e tomou seu castelo, Portonegro. O Rei
Abutre em pessoa arrancou o nariz de Dondarrion antes de passar Portonegro na tocha e
marchar​ ​adiante.

O Rei Aenys sabia que esses rebeldes precisavam ser derrubados, mas parecia incapaz de
decidir por onde começar. Grande Meistre Gawen escreveu que o rei não conseguia
compreender como aquilo estava acontecendo. Os plebeus o amavam, não? Jonos Arryn, esse
novo Lodos, o Rei Abutre… por acaso ele os havia injustiçado? Se eles tinham queixas, porque
não​ ​as​ ​trouxeram​ ​a​ ​ele?

-​ ​Eu​ ​teria​ ​escutado​ ​a​ ​todos.​ ​-​ ​Ele​ ​disse.

Ele falou de enviar mensageiros aos rebeldes, para saber quais as razões para suas ações.
Temendo que Porto Real não estivesse segura com Harren, o Vermelho, vivo e tão próximo, ele
enviou sua esposa e filhos para Pedra do Dragão. Ele ordenou que sua Mão, Lorde Alyn
Stokeworth, levasse uma frota e exército ao Vale para derrubar Jonos Arryn e restaurar o
senhorio ao irmão, Ronnel. Mas, quando os navios estavam prestes a partir, ele anulou sua
ordem, temendo que a partida de Stokeworth deixasse Porto Real indefesa. Ao invés disso, ele
enviou a Mão com apenas algumas centenas de homens para caçar Harren, o Vermelho, e
decidiu que reuniria um Grande Conselho para discutir a melhor forma de lidar com os outros
rebeldes.

Como o rei hesitava, seus senhores saíram em campo. Alguns agiram pela própria autoridade,
outros com a permissão da Rainha Viúva. No Vale, Lorde Allard Royce de Pedrarruna reuniu
quarenta senhores leais e marchou contra o Ninho, facilmente derrotando os apoiadores do
autoproclamado Rei da Montanha e do Vale. Mas, quando eles exigiram a soltura de seu senhor
legítimo, Jonos Arryn jogou o irmão pela Porta da Lua. Esse foi o triste fim de Ronnel Arryn, que
voara três vezes por sobre a Lança do Gigante no dorso de um dragão. O Ninho era inexpugnável
a um assalto convencional, então o “Rei” Jonos e seus apoiadores cuspiram desafios aos lealistas
e se prepararam para um cerco… até que o Príncipe Maegor apareceu nos céus acima, montado
em Balerion. O filho do Conquistador reivindicara um dragão afinal, e não era outro que não o
Terror​ ​Negro,​ ​o​ ​maior​ ​de​ ​todos.

Ao invés de encarar seus fogos, a guarnição no Ninho prendeu o pretendente e o entregou a


Lorde Royce, abrindo a Porta da Lua uma vez mais para servir ao assassino de parentes o que
ele servira ao próprio irmão. A rendição poupou os seguidores do pretendente de queimar, mas
não da morte. Após tomar o Ninho, o Príncipe Maegor executou a todos. Até ao mais bem
nascido entre eles foi negada a honra de morrer pela espada; traidores mereciam apenas a forca,
Maegor declarara, então os cavaleiros capturados foram pendurados nus das muralhas do
Ninho, esperneando enquanto eram lentamente estrangulados. Hubert Arryn, um primo dos
irmãos mortos, foi feito Senhor do Vale. Como ele já havia produzido seis filhos com a senhora
sua​ ​esposa,​ ​uma​ ​Royce​ ​de​ ​Pedrarruna,​ ​a​ ​linhagem​ ​Arryn​ ​foi​ ​assegurada.

Nas Ilhas de Ferro, Goren Greyjoy, Senhor Ceifeiro de Pyke, trouxe um fim rápido e similar ao
“Rei” Lodos (Segundo de Seu Nome), levando uma centena de navios a Velha Wyk e Grande Wyk,
onde os seguidores do pretendente eram mais numerosos, e passando milhares deles na espada.
No fim, ele conservou a cabeça do rei-sacerdote em salmoura e a enviou a Porto Real. O Rei
Aenys gostou tanto que ofereceu a Greyjoy qualquer concessão que ele desejasse. Isso se provou
imprudente. Lorde Goren, desejando provar a si mesmo como um filho verdadeiro do Rei
Afogado, pediu ao rei o direito de expulsar todos os septãos e septãs que haviam ido para as
Ilhas de Ferro após a Conquista com a missão de converter os nascidos no ferro para a Fé dos
Sete.​ ​O​ ​Rei​ ​Aenys​ ​não​ ​teve​ ​outra​ ​escolha​ ​que​ ​não​ ​concordar.

A maior e mais ameaçadora rebelião seguia sendo a do Rei Abutre entre as Marcas Dornesas.
Apesar de a Princesa Deria continuar condenando-os de Sunspear, os rebeldes eram tantos que
começava a parecer que ela jogava um jogo duplo, já que ela não foi a campo contra eles, e
corriam rumores de que ela enviara reforços, ouro e suprimentos. Sendo isso verdade ou não,
centenas de cavaleiros dorneses e muitos milhares de lanceiros experientes haviam se juntado à
turba do Rei Abutre, e a turba em si crescera demais, chegando a mais de trinta mil homens. Tão
grande se tornara seu exército que o Rei Abutre tomou a péssima decisão de dividir suas forças.
Enquanto ele marchava contra Nocticantiga e Monte Chifre com metade de sua força dornesa, a
outra metade foi para o leste cercar Pedrelmo, sede da Casa Swann, sob o comando de Lorde
Walter​ ​Wyl,​ ​o​ ​filho​ ​do​ ​Amante​ ​de​ ​Viúvas.

Ambos os exércitos partiram rumo ao desastre. Orys Baratheon, conhecido agora como Orys
Uma-Mão, cavalgou de Ponta Tempestade pela última vez para esmagar os dorneses diante das
muralhas de Pedrelmo. Quando Walter Wyl foi entregue a ele, vivo apesar de ferido, Lorde Orys
disse:

- Seu pai tomou minha mão. Eu reivindico as suas como pagamento. - Tendo dito isso, ele
decepou a mão da espada de Lorde Walter. Então ele arrancou sua outra mão, assim como seus
dois pés também, dizendo que aquilo cobria os “juros”. É estranho dizer que o próprio Lorde
Baratheon morreu na marcha de volta a Ponta Tempestade das feridas que adquirira na batalha,
mas seu filho Davos costumava dizer que ele morrera contente, sorrindo com as mãos e pés
enrugados​ ​pendurados​ ​no​ ​teto​ ​de​ ​sua​ ​tenda​ ​como​ ​um​ ​cordão​ ​de​ ​cebolas.

O próprio Rei Abutre se saiu um pouco melhor. Incapaz de tomar Nocticantiga, ele abandonou o
cerco e marchou para o oeste, apenas para que a Senhora Caron saísse com uma tropa atrás dele
para se juntar a uma força maior de homens das Marcas liderada por Harmon Dondarrion, o
mutilado Senhor de Portonegro. Enquanto isso, Lorde Samwell Tarly de Monte Chifre surgiu
subitamente no flanco da linha de marcha dos dorneses com milhares de cavaleiros e arqueiros.
O lorde era conhecido como “Sam Selvagem”, e provou isso na batalha sangrenta que se seguiu,
cortando dezenas de dorneses com sua espada de aço valiriano, a Veneno de Coração. O Rei
Abutre tinha mais do que o dobro de homens que seus três inimigos combinados, mas a maioria
era destreinada e indisciplinada, e diante de cavaleiros blindados à sua frente e em sua
retaguarda, suas linhas desmoronaram. Largando suas lanças e escudos, os dorneses quebraram
e correram, indo em direção às montanhas distantes, mas os senhores das Marcas cavalgaram
atrás​ ​deles​ ​e​ ​os​ ​derrubaram​ ​no​ ​que​ ​ficou​ ​conhecido​ ​como​ ​“Caçada​ ​ao​ ​Abutre”.

Quanto ao próprio rei rebelde, o homem que chamara a si mesmo de Rei Abutre, foi levado vivo
e amarrado nu em dois postes pelo Sam Selvagem Tarly. Os cantores gostam de dizer que ele foi
feito em pedaços pelos próprios abutres de quem roubara o título, mas na verdade ele pereceu
de sede e insolação, e os pássaros não o atacaram antes que estivesse morto. (Nos séculos
seguintes, diversos outros homens tomariam o título de “Rei Abutre”, mas se tinham o mesmo
sangue​ ​do​ ​primeiro​ ​nenhum​ ​homem​ ​pode​ ​dizer).

O primeiro dos rebeldes acabou restando por último, mas Harren, o Vermelho, finamente foi
acuado num vilarejo a oeste do Olho de Deus. O rei fora-da-lei não morreu em submissão. Em
sua última luta, ele assassinou a Mão do Rei, Lorde Alyn Stokeworth, antes de ser golpeado pelo
escudeiro de Stokeworth, Bernarr Brune. Um agradecido Rei Aenys concedeu o título de
cavaleiro a Brune, e recompensou Davos Baratheon, Samwell Tarly, Dondarrion Sem-Nariz,
Ellyn Caron, Allard Royce e Goren Greyjoy com ouro, cargos e honras. Os maiores aplausos
foram destinados ao seu próprio irmão. Em seu retorno a Porto Real, o Príncipe Maegor foi
ovacionado como herói. O Rei Aenys o abraçou diante de uma multidão que aplaudia, e o
nomeou Mão do Rei. E quanto dois jovens dragões foram chocados nos poços de fogo de Pedra
do​ ​Dragão​ ​no​ ​final​ ​daquele​ ​ano,​ ​isso​ ​foi​ ​visto​ ​como​ ​um​ ​sinal.

Mas​ ​a​ ​amizade​ ​entre​ ​os​ ​dois​ ​filhos​ ​do​ ​Dragão​ ​não​ ​durou​ ​muito​ ​tempo.

Talvez o conflito fosse inevitável, já que os dois irmãos tinham natureza muito diferente. Amável
e gentil, é dito que o Rei Aenys amava sua esposa, seus filhos e seu povo, e desejava apenas ser
amado em troca. Espadas e lanças há muito não demonstravam atrativos para ele. Ao invés
disso, Sua Graça dominava a alquimia, astronomia e astrologia, se deleitava com música e dança,
usava as melhores sedas, samitas e veludos, e desfrutava da companhia de meistres, septões e
eruditos.

Seu irmão, Maegor, era mais alto, mais corpulento e terrivelmente forte, e não tinha paciência
para nada disso, mas vivia para a guerra, torneios e batalhas. Ele foi, justamente, considerado
um dos melhores cavaleiros de Westeros, embora tenham sido observadas também sua
selvageria em campo e dureza para com os inimigos derrotados. O Rei Aenys sempre procurava
agradar; quando confrontado com dificuldades, ele respondia com palavras suaves, enquanto
Maegor respondia com aço e fogo. Grande Meistre Gawen escreveu que Aenys confiava em
todos, e Maegor em ninguém. O Rei era facilmente influenciado, Gawen observou, balançando ao
vento conforme os conselheiros sussurravam em seus ouvidos. O Príncipe Maegor, por sua vez,
era​ ​rígido​ ​como​ ​uma​ ​haste​ ​de​ ​ferro,​ ​obstinado​ ​e​ ​inflexível.

A despeito de suas diferenças, os filhos do Dragão continuaram a governar juntos


amigavelmente durante a maior parte de dois anos. Mas, em 39AL, a Rainha Alyssa deu ao Rei
Aenys um novo herdeiro, uma garota que ela chamou de Vaella, que infelizmente não viveu
muito. Talvez as contínuas provas da fertilidade da rainha tenham incitado Maegor a fazer o que
fez. Qualquer que seja a razão, o príncipe chocou o reino e o rei ao repentinamente anunciar que
a Senhora Ceryse era estéril, e que ele tomara uma segunda esposa, Alys Harroway, filha do
novo Lorde de Harrenhal. O casamento ocorrera em Pedra do Dragão, celebrado pela Rainha
Viúva Visenya. Como o septão do castelo se recusara a realizar a cerimônia, Maegor e sua nova
esposa​ ​se​ ​casaram​ ​num​ ​rito​ ​valiriano,​ ​“casados​ ​pelo​ ​fogo​ ​e​ ​sangue.”

O casamento ocorrera sem a permissão, conhecimento ou a presença do Rei Aenys. Quando


chegou a público, os dois meio irmãos tiveram uma briga feia. Sua Graça não estava sozinho em
seu descontentamento. Lorde Hightower, pai da Senhora Ceryse, protestou com o rei, exigindo
que a Senhora Alys fosse posta de lado. E, no Septo Estrelado de Vilavelha, o Alto Septão foi
ainda mais longe, denunciando o casamento de Maegor como pecado e fornicação, e chamando a
nova esposa do príncipe de “aquela puta de Harroway”. Nenhum filho ou filha dos Sete deveria
se curvar a isso, ele trovejou. O Príncipe Maegor permaneceu desafiante. Seu pai tomara ambas
as irmãs como esposa, ele argumentou; as escrituras da Fé podiam reger a vida de homens
menores, mas não dos que tinham sangue do Dragão. Nenhuma palavra do Rei Aenys poderia
curar as feridas que as palavras de seu irmão haviam aberto, e muitos senhores piedosos em
todos os Sete Reinos condenaram o casamento, e começaram a falar abertamente da “Puta de
Maegor”.

Perturbado e furioso, o Rei Aenys deu a seu irmão uma escolha: pôr Alys Harroway de lado e
retornar para a Senhora Ceryse, ou sofrer cinco anos no exílio. O Príncipe Maegor escolheu o
exílio. Em 40 AL ele partiu para Pentos, levando a Senhora Alys, seu dragão Balerion e a espada
Blackfyre (é dito que Aenys exigiu que o irmão devolvesse a Blackfyre, mas o Príncipe Maegor
teria respondido “Sua Graça é livre para vir e tentar tomá-la de mim”). A Senhora Ceryse foi
deixada​ ​abandonada​ ​em​ ​Porto​ ​Real.

Para substituir seu irmão como Mão, o Rei Aenys se voltou para o Septão Murmison, um clérigo
piedoso que dizia ser capaz de curar os doentes pelo toque das mãos. (O Rei o enviou para tocar
o ventre da Senhora Ceryse todas as noites, na esperança de que, se ela se tornasse fértil, o
irmão se arrependesse de sua loucura, mas a mulher logo se cansou do ritual noturno e partiu
de Porto Real para Vilavelha, onde se juntou novamente a seu pai na Hightower.) Sem dúvida,
Sua Graça nutria esperanças de que sua escolha apaziguasse a Fé. Contudo, ele estava enganado.
O Septão Murmison não foi capaz de curar o reino, assim como não foi capaz de tornar Ceryse
Hightower fecunda. O Alto Septão continuava a trovejar, e através do reino os senhores falavam
em​ ​seus​ ​salões​ ​sobre​ ​a​ ​fraqueza​ ​do​ ​rei.

-​ ​Como​ ​ele​ ​pode​ ​governar​ ​os​ ​Sete​ ​Reinos​ ​se​ ​sequer​ ​consegue​ ​governar​ ​o​ ​irmão?​ ​-​ ​Eles​ ​diziam.

No entanto, o rei permaneceu estranhamente inconsciente do descontentamento do reino. A paz


havia retornado, seu irmão incômodo estava fora de vista do outro lado do Mar Estreito, e um
novo castelo começara a ser erguido no topo da Alta Colina de Aegon: todo construído em pedra
vermelha e pálida, a nova sede do rei seria maior e mais imponente do que Pedra do Dragão,
mais bonita do que Harrenhal, com muralhas grossas e barbacãs e torres capazes de resistir a
qualquer inimigo. O povo de Porto Real começou a chamá-lo de Fortaleza Vermelha. A
construção​ ​passou​ ​a​ ​ser​ ​a​ ​obsessão​ ​do​ ​rei.

- Meus descendentes reinarão deste lugar pelos próximos mil anos. - Sua Graça declarou. E foi
pensando nesses descendentes que, em 41AL, Aenys Targaryen cometeu um erro desastroso, e
deu​ ​a​ ​mão​ ​de​ ​sua​ ​filha​ ​Rhaena​ ​em​ ​casamento​ ​ao​ ​irmão​ ​dela,​ ​Aegon,​ ​herdeiro​ ​do​ ​Trono​ ​de​ ​Ferro.

A princesa tinha dezoito anos e o príncipe tinha quinze. Um casamento real era para ser um
evento alegre, uma ocasião para celebrar, mas havia sido contra esse tipo de união incestuosa
que o Alto Septão advertira, e o Septo Estrelado condenou-o como uma obscenidade, e os filhos
nascidos dos dois seriam “abominações aos olhos dos deuses e homens”. No dia do casamento,
nas ruas por fora do Septo da Recordação - construído pelo Alto Septão anterior na Colina de
Rhaenys e batizado em honra à rainha caída - havia formações de Filhos do Guerreiro em
reluzentes armaduras prateadas, franzindo o cenho para os convidados do casamento que
passavam a pé, a cavalo ou em liteiras. Os senhores mais sábios, talvez esperando por isso,
ficaram​ ​de​ ​fora.

Os que ficaram para testemunhar viram mais do que um casamento. No banquete que se seguiu,
o Rei Aenys agravou seu erro ao conceder o título de Príncipe de Pedra do Dragão ao seu
herdeiro Aegon. Um silêncio caiu sobre o salão com essas palavras, pois todos os presentes
sabiam que esse título pertencia ao Príncipe Maegor. Na mesa elevada, a Rainha Visenya
levantou-se e saiu do salão sem a permissão do rei. Naquela noite ela montou em Vhagar e
retornou para Pedra do Dragão, e está escrito que quando sua dragão passou diante da lua,
aquela​ ​orbe​ ​ficou​ ​vermelha​ ​como​ ​sangue.

Aenys Targaryen não parecia compreender até que ponto o reino se erguera contra ele.
Pensando em ganhar de volta o apoio dos plebeus, ele enviou Aegon e Rhaena numa turnê real,
apenas para descobrir que eles eram vaiados por onde passavam. O Septão Murmison, sua Mão,
foi expulso da Fé como punição por ter realizado a cerimônia, o que fez com que o rei escrevesse
ao Alto Septão pedindo que Sua Alta Santidade restaurasse “seu bom Murmison”, e explicando a
longa história de casamentos entre irmão e irmã na Velha Valíria. A resposta do Alto Septão foi
tão agressiva que Sua Graça ficou pálida ao lê-la. Longe de compadecer-se, a carta do Pastor dos
Fiéis chamava Aenys de “Rei Abominação”, e declarava-o um usurpador e tirano sem o direito de
governar​ ​os​ ​Sete​ ​Reinos.

Os fiéis ouviram. Menos de quinze noites depois, quando o Septão Murmison estava
percorrendo a cidade em sua liteira, um grupo de Pobres Irmãos surgiu de uma viela , e eles
cortaram-no em pedaços com seus machados. Os Filhos do Guerreiro começaram a fortificar a
Colina de Rhaenys, tornando o Septo da Recordação a sua cidadela. Como faltavam anos para
que a Fortaleza Vermelha ficasse completa, o rei percebeu que a sua mansão no topo da Colina
de Visenya era muito vulnerável, e fez planos para retirar-se para Pedra do Dragão com a Rainha
Alyssa e seus filhos mais novos. Foi uma precaução sábia. Três dias antes de sua partida, dois
Pobres Irmãos escalaram as paredes da mansão e irromperam nos aposentos do rei. Apenas a
chegada​ ​oportuna​ ​de​ ​Sor​ ​Raymont​ ​Baratheon​ ​da​ ​Guarda​ ​Real​ ​salvou​ ​Aenys​ ​da​ ​morte.

Sua Graça estava trocando a Colina de Visenya pela própria Visenya. Em Pedra do Dragão, a
Rainha​ ​Viúva​ ​recebeu-o​ ​do​ ​seguinte​ ​modo:

- Você é um tolo e um fraco, sobrinho. Pensa que qualquer homem ousaria falar dessa maneira
com seu pai? Você tem um dragão. Use-o. Voe para Vilavelha e faça do Septo Estrelado outro
Harrenhal. Ou deixe-me partir, e eu assarei esse tolo piedoso para você. Vhagar envelhece, mas
seus​ ​fogos​ ​ainda​ ​são​ ​quentes.

Aenys não a ouviu. Ao invés disso, ele enviou a Rainha Viúva para os aposentos na Torre do
Dragão​ ​Marinho,​ ​e​ ​ordenou​ ​que​ ​ela​ ​permanecesse​ ​lá.

No fim de 41AL, grande parte do reino encontrava-se no auge da rebelião contra a Casa
Targaryen. Os quatro falsos reis que haviam se erguido com a morte de Aegon, o Conquistador,
agora pareciam apenas tolos quando comparados à ameaça representada por essa revolta, já
que os novos rebeldes consideravam-se soldados dos Sete, lutando numa guerra santa contra a
tirania​ ​de​ ​um​ ​ímpio.

Dezenas de senhores piedosos por todos os Sete Reinos assumiram a causa, derrubando os
estandartes do rei e declarando-se pelo Septo Estrelado. Os Filhos do Guerreiro conquistaram os
portões de Porto Real, passando a controlar quem entrava e saía da cidade, e expulsaram os
trabalhadores da não concluída Fortaleza Vermelha. Milhares de Pobres Irmãos fluíram pelas
estradas, forçando viajantes a declarar se estavam com “os deuses ou com a abominação”, e
protestando fora dos portões dos castelos até que seus senhores se declarassem contra o rei
Targaryen. O Príncipe Aegon e sua esposa foram forçados a abandonar a sua turnê, e se
refugiaram no castelo de Crakehall. Um emissário do Banco de Ferro de Braavos, enviado a
Vilavelha para tratar com Lorde Hightower, escreveu ao banco para dizer que o Alto Septão era
“o​ ​verdadeiro​ ​rei​ ​de​ ​Westeros​ ​em​ ​tudo,​ ​menos​ ​no​ ​nome.”

O raiar do novo ano encontrou o Rei Aenys ainda em Pedra do Dragão, doente de medo e
indecisão. Sua Graça tinha apenas trinta e cinco anos de idade, mas dizem que ele parecia um
homem de sessenta, e Grande Meistre Gawen registrou como ele caiu de cama com os intestinos
soltos e sofrendo de cólicas. Quando nenhum dos tratamentos do Grande Meistre mostrou
eficácia, a Rainha Viúva passou a cuidar do rei, e Aenys pareceu melhorar por um tempo…
apenas para sofrer um colapso repentino quando vieram a ele notícias de que milhares de
Pobres Irmãos haviam cercado Crakehall, onde seu filho e filha eram relutantes “convidados”.
Três​ ​dias​ ​depois,​ ​o​ ​rei​ ​estava​ ​morto.

Assim como seu pai, Aenys Targaryen, o Primeiro do Seu Nome, foi entregue às chamas no pátio
de Pedra do Dragão. Seu funeral contou com a presença de seus filhos Viserys e Jaehaerys, com
doze e sete anos de idade respectivamente, e de sua filha Alysanne, com cinco. A Rainha Alyssa
cantou uma canção fúnebre para ele. A Rainha Viúva Visenya não estava presente. Dentro de
uma hora após a morte do rei, ela montara em Vhagar e voara para o leste, cruzando o Mar
Estreito.

Quando​ ​ela​ ​retornou,​ ​o​ ​Príncipe​ ​Maegor​ ​estava​ ​com​ ​ela​ ​em​ ​Balerion.

A parada de Maegor em Pedra do Dragão durou apenas o tempo de ele reivindicar a coroa; não a
de ouro ornamentado que Aenys preferira, com as imagens dos Sete, mas a coroa de aço que seu
pai usara, com os rubis cor de sangue. Sua mãe pousou-a em sua cabeça, e os senhores e
cavaleiros reunidos ali ajoelharam-se quando ele se autoproclamou Maegor da Casa Targaryen,
Primeiro de Seu Nome, Rei dos Ândalos, dos Roinares e dos Primeiros Homens, e Protetor do
Território.

Apenas o Grande Meistre Gawen ousou apresentar uma objeção. Por todas as leis de herança,
leis que o Conquistador em pessoa aceitara após a Conquista, o Trono de Ferro deveria passar
para​ ​o​ ​filho​ ​do​ ​Rei​ ​Aenys,​ ​Aegon,​ ​disse​ ​o​ ​velho​ ​meistre.

-​ ​O​ ​Trono​ ​de​ ​Ferro​ ​irá​ ​para​ ​o​ ​homem​ ​que​ ​tenha​ ​força​ ​para​ ​se​ ​apossar​ ​dele.​ ​-​ ​Maegor​ ​respondeu.
E então ele decretou a imediata execução do Grande Meistre, decepando a cabeça grisalha de
Gawen com um golpe da Blackfyre. A Rainha Alyssa e seus filhos não estavam presentes para
testemunhar a coroação do Rei Maegor. Ela os levara de Pedra do Dragão apenas algumas horas
após o funeral do marido, velejando até o castelo do senhor seu pai em Derivamarca. Quando
ficou sabendo disso, Maegor balançou os ombros… e então se retirou para a Câmara da Mesa
Pintada​ ​com​ ​um​ ​meistre,​ ​para​ ​ditar​ ​cartas​ ​a​ ​senhores​ ​grandes​ ​e​ ​pequenos​ ​por​ ​todo​ ​o​ ​reino.

Uma centena de corvos voou naquele dia. No dia seguinte, Maegor voou também. Montado em
Balerion, ele cruzou a Baía da Água Negra rumo a Porto Real em companhia da Rainha Viúva
Visenya em Vhagar. O retorno dos dragões desencadeou motins na cidade, enquanto centenas
tentavam fugir e encontravam os portões fechados. Os Filhos do Guerreiro mantinham a posse
das muralhas da cidade, a construção do que seria a Fortaleza Vermelha, e tornaram o Septo da
Recordação sua própria fortaleza. Os Targaryen ergueram seus estandartes no topo da Colina de
Visenya e convocaram os homens leais para que se reunissem a eles. Milhares o fizeram. Visenya
Targaryen​ ​declarou​ ​seu​ ​filho​ ​Maegor​ ​como​ ​rei.

- O legítimo rei, sangue de Aegon, o Conquistador, que foi meu irmão, meu marido e meu amado.
Se qualquer homem quiser questionar o direito de meu filho ao Trono de Ferro, deve provar
suas​ ​alegações​ ​com​ ​o​ ​próprio​ ​corpo.

Os Filhos do Guerreiro não hesitaram em aceitar o desafio dela. Da Colina de Rhaenys eles
vieram, setecentos cavaleiros em aço resplandecente liderados por seu grande capitão, Sor
Damon​ ​Morrigen,​ ​chamado​ ​de​ ​Damon,​ ​o​ ​Devoto.

-​ ​Não​ ​devemos​ ​brandir​ ​palavras.​ ​-​ ​Maegor​ ​disse​ ​a​ ​ele.​ ​-​ ​As​ ​espadas​ ​decidirão​ ​essa​ ​questão.

Damon​ ​concordou,​ ​dizendo​ ​que​ ​os​ ​deuses​ ​dariam​ ​a​ ​vitória​ ​àquele​ ​cuja​ ​causa​ ​fosse​ ​justa.

- Deixe que cada lado tenha sete campeões, como era feito com os ândalos de outrora. Você é
capaz​ ​de​ ​achar​ ​mais​ ​seis​ ​homens​ ​que​ ​o​ ​defendam?

Pois Aenys levara a Guarda Real para Pedra do Dragão, e Maegor estava sozinho. O rei então
voltou-se​ ​para​ ​a​ ​multidão.

-​ ​Quem​ ​virá​ ​para​ ​lutar​ ​por​ ​seu​ ​rei?​ ​-​ ​Ele​ ​conclamou.

Muitos se afastaram com medo ou fingiram que não ouviram, já que as proezas dos Filhos do
Guerreiro eram conhecidas por todos. Até que finalmente um homem se ofereceu; não era um
cavaleiro,​ ​mas​ ​apenas​ ​um​ ​homem​ ​de​ ​armas​ ​chamado​ ​Dick​ ​Bean.

-​ ​Eu​ ​fui​ ​um​ ​homem​ ​do​ ​rei​ ​desde​ ​garoto.​ ​-​ ​Ele​ ​disse.​ ​-​ ​Desejo​ ​morrer​ ​como​ ​um​ ​homem​ ​do​ ​rei.

Só​ ​então,​ ​o​ ​primeiro​ ​cavaleiro​ ​deu​ ​um​ ​passo​ ​a​ ​frente.
- Este feijão1 nos envergonha a todos. - Ele exclamou. - Não há cavaleiros de verdade aqui?
Nenhum​ ​homem​ ​leal?

Quem falava era Bernarr Brune, o escudeiro que matara Harren, o Vermelho, e fôra ungido
cavaleiro pelo próprio Rei Aenys. Seu desprezo levou outros a oferecerem suas espadas. Os
nomes dos outros quatro que Maegor escolheu ficaram registrados na história de Westeros: Sor
Bramm de Blackhull, um cavaleiro andante; Sor Rayford Rosby; Sor Guy Lothston, chamado de
Guy,​ ​o​ ​Glutão;​ ​ ​e​ ​Lorde​ ​Lucifer​ ​Massey,​ ​Senhor​ ​de​ ​Bailepedra.

Os nomes dos sete Filhos do Guerreiro também sobreviveram até nós. Eles eram: Sor Damon
Morrigen, chamado de Damon, o Devoto, Grande Capitão dos Filhos do Guerreiro; Sor Lyle
Bracken; Sor Harys Horpe, chamado de Harry Cabeça-Morta; Sor Aegon Ambrose; Sor Dickon
Flowers, o Bastardo de Beesbury; Sor Willam, o Magnífico; e Sor Garibald de Sete Estrelas, o
cavaleiro septão. Está escrito que Damon, o Devoto, iniciou uma prece, suplicando ao Guerreiro
seu​ ​favor​ ​para​ ​dar​ ​força​ ​aos​ ​seus​ ​braços.

Depois,​ ​a​ ​Rainha​ ​Viúva​ ​deu​ ​o​ ​comando,​ ​e​ ​o​ ​julgamento​ ​começou.

Dick Bean morreu primeiro, golpeado por Lyle Bracken alguns instantes após o combate
começar. A partir daí, os relatos diferem enormemente. Um cronista diz que o imensamente
gordo Sor Guy, o Glutão, foi cortado, e os restos de quarenta tortas meio-digeridas jorraram para
fora. Outro alega que Sor Garibald das Sete Estrelas cantava um hino enquanto lutava. Muitos
nos dizem que Lorde Massey decepou o braço de Harys Horpe. Em uma versão, Harry
Cabeça-Morta segurou seu machado de batalha com a outra mão e o enterrou entre os olhos de
Lorde Massey. Outros sugerem que Sor Harys simplesmente morreu. Alguns dizem que a luta
durou horas, e outros que o combate durou poucos minutos. Todos concordam que grandes
façanhas foram realizadas e golpes poderosos trocados, até que sobraram apenas Maegor
Targaryen sozinho contra Damon, o Devoto, e Willam, o Magnífico. Ambos os Filhos do
Guerreiro estavam terrivelmente feridos, e Sua Graça tinha a Blackfyre em mãos, mas mesmo
assim, as chances eram iguais, conforme dizem os meistres e cantores. Mesmo que tenha sido
derrotado, Sor Willam desferiu um golpe poderoso na cabeça de Maegor, destroçando seu elmo
e deixando-o inconsciente. Muitos acharam que Maegor morrera também, até que sua mãe
removeu​ ​seu​ ​elmo​ ​quebrado.

-​ ​O​ ​rei​ ​respira.​ ​-​ ​Ela​ ​proclamou.​ ​-​ ​O​ ​rei​ ​vive.​ ​A​ ​vitória​ ​é​ ​dele!

Sete dos melhores cavaleiros dos Filhos do Guerreiro estavam mortos, incluindo seu
comandante, mas setecentos restavam, armados, com armaduras e reunidos sobre o topo da
colina. A Rainha Visenya ordenou que seu filho fosse levado aos meistres. Quando os
carregadores o levaram colina abaixo, as Espadas da Fé dobraram os joelhos em submissão. A
Rainha Viúva ordenou que eles retornassem ao seu septo fortificado no topo da Colina de
Rhaenys.

1
​ ​“Bean”,​ ​em​ ​inglês.
Por vinte e sete dias, Maegor Targaryen permaneceu morto para o mundo, enquanto meistres o
tratavam com poções e cataplasmas, e septões oravam em seu leito. No Septo da Recordação, os
Filhos do Guerreiro também rezavam, e discutiam sobre o que fariam. Alguns alegavam que
agora a ordem não tinha outra escolha senão aceitar Maegor como rei, já que os deuses o tinham
abençoado com a vitória; outros insistiam que eles eram obrigados por juramento a obedecer o
Alto​ ​Septão,​ ​de​ ​modo​ ​que​ ​teriam​ ​de​ ​continuar​ ​lutando.

A Guarda Real chegou de Pedra do Dragão finalmente. Sob as ordens da Rainha Viúva, eles
assumiram o comando dos milhares de lealistas Targaryen na cidade e cercaram a Colina de
Rhaenys. Em Derivamarca, a viúva Rainha Alyssa proclamou seu próprio filho Aegon como
verdadeiro rei. Na Cidadela de Vilavelha, os arquimeistres se reuniram em Conclave para
debater a sucessão e escolher um novo Grande Meistre. Milhares de Pobres Irmãos tomaram o
rumo de Porto Real. Os que vinham do oeste seguiam Sor Horys Hill, um cavaleiro andante, e os
que vinham do sul eram liderados por um gigantesco cortador de árvores chamado Wat
Lenhador. Quando os bandos esfarrapados que acampavam sob as muralhas do castelo de
Crakehall marcharam para se juntar aos seus companheiros que avançavam, o Príncipe Aegon e
a Princesa Rhaena finalmente puderam partir dali. Abandonando a turnê real, eles foram para
Rochedo Casterly, onde Lorde Lyman Lannister lhes ofereceu sua proteção. Foi a mulher dele, a
Senhora​ ​Jocasta,​ ​que​ ​primeiro​ ​percebeu​ ​que​ ​a​ ​Princesa​ ​Rhaena​ ​estava​ ​grávida.

No vigésimo oitavo dia após o Julgamento de Sete, um navio chegou de Pentos na maré da tarde,
trazendo duas mulheres e seiscentos mercenários. Alys da Casa Harroway, segunda esposa de
Maegor Targaryen, retornara a Westeros… mas não sozinha. Com ela viajava outra mulher, bela,
pálida e de cabelos negros, conhecida apenas como Tyanna da Torre. Alguns dizem que a mulher
era a concunbina de Maegor. Outros, que era a amante da Senhora Alys. Filha bastarda de um
magíster pentoshi, Tyanna era uma dançarina de taverna que se tornara cortesã. Havia rumores
de que ela era uma envenenadora e feiticeira também. Muitos contos são ditos sobre ela… mas,
logo que ela chegou, a Rainha Visenya dispensou os meistres e entregou Maegor aos cuidados de
Tyanna.

Na manhã seguinte o rei acordou, despertando junto com o nascer do sol. Quando Maegor
apareceu nas muralhas da Fortaleza Vermelha, postado entre Alys Harroway e Tyanna de
Pentos, a multidão festejou intensamente, e a cidade inteira comemorou. Mas o deleite sumiu de
repente quando Maegor montou em Balerion e desceu sobre o topo da Colina de Rhaenys, onde
setecentos Filhos do Guerreiro estavam em suas preces matinais no septo fortificado. Enquanto
o fogo do dragão incendiava o edifício, arqueiros e lanceiros esperavam do lado de fora pelos
homens que irrompessem pelas portas. Dizem que os gritos dos homens queimando puderam
ser ouvidos por toda a cidade, e uma nuvem de fumaça pairou em Porto Real por dias. Assim os
Filhos do Guerreiro encontraram seu fim ardente. Apesar de outros capítulos permanecerem em
Vilavelha, Lannisporto, Vila Gaivota e no Septo de Pedra, a ordem nunca mais teria a mesma
força.

A guerra do Rei Maegor contra a Fé Militante havia apenas começado, no entanto. O primeiro ato
do rei ao reassumir o Trono de Ferro foi ordenar aos Pobres Irmãos que enxameavam em
direção à cidade que abandonassem suas armas, sob pena de proscrição e morte. Quando seu
decreto não teve efeito, Sua Graça ordenou que “todos os senhores leais” entrassem em campo e
dispersassem as furiosas hordas da Fé pela força. Em resposta, o Alto Septão em Vilavelha
convocou os “verdadeiros e devotos filhos dos deuses” para que pegassem em armas para
defender​ ​a​ ​Fé​ ​e​ ​pôr​ ​um​ ​fim​ ​no​ ​reinado​ ​dos​ ​“dragões,​ ​monstros​ ​e​ ​abominações”.

O conflito começou primeiro na Campina, na cidade de Ponte de Pedra. Nove mil Pobres Irmãos
comandados por Wat Lenhador foram encurralados por seis exércitos senhoriais ali em sua
tentativa de cruzar o Mander. Com metade de seus homens ao norte do rio e a outra metade ao
sul, o exército de Wat foi cortado em pedaços. Seus destreinados e indisciplinados
companheiros, vestidos em couro fervido, tecido grosseiro e restos de aço enferrujado, e
armados com machados de lenhador, estacas afiadas e ferramentas de arado, revelaram-se
completamente incapazes contra a carga de cavaleiros de armadura montados em cavalos
pesados. Tão grave foi a matança que o Mander correu vermelho por vinte léguas, e
posteriormente a cidade e o castelo onde a batalha foi travada passaram a ser conhecidos como
Ponteamarga. O próprio Wat foi capturado vivo, mas não antes de matar meia dúzia de
cavaleiros, entre eles Lorde Meadows de Grassy Vale, comandante do exército do rei. O gigante
foi​ ​despachado​ ​acorrentado​ ​para​ ​Porto​ ​Real.

Então, Sor Horys Hill já havia alcançado o Grande Ramo da Água Negra com um exército ainda
maior, cerca de treze mil Pobres Irmãos, suas fileiras engrossadas por duzentos Filhos do
Guerreiro montados vindos do Septo de Pedra, e por cavaleiros juramentados e arrendatários
de uma dúzia de lordes rebeldes das Terras Ocidentais e das Terras Fluviais. Lorde Rupert
Falwell, conhecido como Combatente Tolo, liderou as fileiras daqueles piedosos que haviam
respondido ao chamado do Alto Septão; cavalgavam com ele Sor Lyonel Lorch, Sor Alyn Terrick,
Lorde Tristifer Wayn, Lorde Jon Lychester e muitos outros cavaleiros devotos. O exército da Fé
contava​ ​com​ ​vinte​ ​mil​ ​homens.

O exército do Rei Maegor era de tamanho semelhante, contudo, e Sua Graça contava com o
dobro de cavaleiros montados e um grande contingente de arqueiros, e o próprio rei montava
em Balerion. Mesmo assim, a batalha acabou num selvagem massacre. O Combatente Tolo
matou dois cavaleiros da Guarda Real antes de ser ele mesmo morto pelo Lorde de Lagoa da
Donzela. Big Jon Hogg, lutando pelo rei, foi cegado por um golpe de espada logo no início da
batalha, mas mesmo assim liderou seus homens numa carga que atravessou e separou as linhas
da Fé Militante e colocou os Pobres Irmãos em fuga. Uma tempestade diminuiu os fogos de
Balerion mas não pôde apagá-los totalmente, e em meio à fumaça e gritos o Rei Maegor desceu
de novo e de novo para banhar seus inimigos com fogo. Ao cair da noite, a vitória era dele, e os
Pobres​ ​Irmãos​ ​remanescentes​ ​largaram​ ​seus​ ​machados​ ​e​ ​se​ ​dispersaram​ ​em​ ​todas​ ​as​ ​direções.

Triunfante, Maegor retornou a Porto Real para sentar-se no Trono de Ferro uma vez mais.
Quando Wat Lenhador foi entregue a ele, desafiante mesmo que acorrentado, Maegor decepou
os membros do gigante com seu próprio machado, mas ordenou que seus meistres o
mantivessem vivo “para testemunhar o seu casamento”. Então, Sua Graça anunciou a intenção
de tornar Tyanna de Pentos a sua terceira esposa. Apesar dos boatos de que sua mãe, a Rainha
Viúva, não nutria amores pela feiticeira pentoshi, apenas o Grande Meistre Myres ousou falar
contra​ ​a​ ​união​ ​abertamente:

-​ ​Sua​ ​única​ ​e​ ​verdadeira​ ​esposa​ ​aguarda​ ​por​ ​você​ ​em​ ​Hightower.​ ​-​ ​Teria​ ​dito​ ​Myres.
O rei ouviu-o em silêncio, e então desceu do trono, desembainhou a Blackfyre e matou-o onde
estava.

Maegor Targaryen e Tyanna da Torre casaram-se no topo da Colina de Rhaenys, em meio às


cinzas e ossos dos Filhos do Guerreiro que haviam morrido ali. É dito que Maegor precisou
matar uma dúzia de septões antes de encontrar um disposto a realizar a cerimônia. Wat
Lenhador, com os membros decepados, fôra mantido vivo para testemunhar o casamento. A
viúva do Rei Aenys, Rainha Alyssa, estava presente também, junto de seus filhos Viserys e
Jaehaerys, e de sua filha Alysanne. A visita da Rainha Viúva e Vhagar a havia persuadido a deixar
o santuário em Derivamarca e retornar à corte, onde Alyssa e seus irmãos e primos da Casa
Velaryon fizeram homenagens a Maegor como legítimo rei. A rainha viúva foi até obrigada a
escoltá-lo a seu leito nupcial onde consumaria o casamento, uma tradição que foi liderada pela
segunda esposa do rei, Alys Harroway. Com a tarefa cumprida, Alyssa e as demais senhoras
deixaram os aposentos reais, mas Alys permaneceu, juntando-se ao rei e à nova mulher dele em
sua​ ​noite​ ​de​ ​luxúria​ ​carnal.

Do outro lado do reino, em Vilavelha, o Alto Septão trovejava contra “abominação e suas putas”,
enquanto que a primeira esposa do rei, Ceryse da Casa Hightower, continuava a insistir que ela
era a única rainha legítima de Maegor. E, nas Terras Ocidentais, Aegon Targaryen, Príncipe de
Pedra do Dragão, permanecia inflexível como antes. Como filho mais velho do Rei Aenys, o
Trono de Ferro era seu por direito. O Príncipe Aegon tinha apenas dezessete anos, contudo, e
era o filho de um pai fraco; poucos lordes desejavam arriscar-se à ira do Rei Maegor para apoiar
sua reivindicação. Sua própria mãe, a Rainha Alyssa, abandonara sua causa, os homens
sussuravam uns aos outros. Até mesmo Lyman Lannister, o anfitrião do príncipe, não jurara sua
espada ao jovem pretendente, apesar de ter ficado firme quando Maegor ordenara que Aegon e
sua​ ​irmã​ ​fossem​ ​expulsos​ ​de​ ​Rochedo​ ​Casterly.

Por isso, foi em Rochedo Casterly que a Princesa Rhaena deu à luz às filhas de Aegon, gêmeas
que ela batizou de Aerea e Rhaella. Do Septo Estrelado veio outro anúncio aborrecido. Aquelas
crianças também eram abominações, o Alto Septão proclamou, frutos de luxúria e incesto, e
amaldiçoadas​ ​pelos​ ​deuses.

O alvorecer do ano de 43AL encontrou o Rei Maegor em Porto Real, onde ele tomara o controle
da construção da Fortaleza Vermelha pessoalmente. Muito do trabalho já finalizado foi desfeito
ou alterado, novos construtores e pedreiros foram trazidos, e passagens secretas e túneis
cavados no interior da Alta Colina de Aegon. Erguidas as torres de pedra vermelha, o rei
ordenou a construção de um castelo dentro do castelo, um fortificado refúgio cercado por um
fosso​ ​seco​ ​que​ ​logo​ ​passaria​ ​a​ ​ser​ ​conhecido​ ​como​ ​Fortaleza​ ​de​ ​Maegor.

No mesmo ano, Maegor fez Lorde Lucas Harroway, pai de sua esposa, a Rainha Alys, sua nova
Mão… mas não era uma Mão a quem o rei desse ouvidos. Sua Graça podia governar os Sete
Reinos, os homens sussurravam, mas ele mesmo era governado por três rainhas: sua mãe, a
Rainha Visenya, sua esposa, Rainha Alys, e a feiticeira pentoshi, a Rainha Tyanna. “Mestre dos
Sussurros”, Tyana era chamada, e “corvo do rei”, devido aos seus cabelos negros. Ela falava com
ratos e aranhas, era dito, e toda a escória vinha a ela durante a noite para relatar a identidade de
qualquer​ ​um​ ​que​ ​fosse​ ​tolo​ ​o​ ​suficiente​ ​para​ ​falar​ ​contra​ ​o​ ​rei.

Enquanto isso, milhares de Pobres Irmãos eram caçados nas estradas e lugares ermos da
Campina, do Tridente e do Vale; apesar de eles nunca mais terem se reunido em grandes grupos
para enfrentar o rei em batalha aberta, as Estrelas lutaram em menor escala, caindo sobre
viajantes e percorrendo as cidades, vilas e castelos mal defendidos, assassinado os lealistas do
rei onde quer que os encontrassem. Sor Horys Hill escapara da Batalha do Grande Ramo, mas a
derrota e a fuga o haviam enfraquecido, e agora seus seguidores eram poucos. Os novos líderes
dos Pobres Irmãos eram homens como Silas Esfarrapado, Septão Moon e Dennis, o Coxo,
dificilmente distinguíveis de foras-da-lei. Um de seus mais selvagens capitães era uma mulher
chamada Poxy Jeyne Poore, cujos seguidores selvagens fizeram dos bosques entre Porto Real e
Ponta​ ​Tempestade​ ​intrasponíveis​ ​para​ ​viajantes​ ​honestos.

Já os Filhos do Guerreiro acharam um novo grande capitão na pessoa de Sor Joffrey Dogget, o
Cão Vermelho das Colinas, que estava determinado a restaurar a ordem à sua antiga glória.
Quando Sor Joffrey saiu de Lannisporto em busca da benção do Alto Septão, uma centena de
homens cavalgou com ele. Quando finalmente chegou em Vilavelha, tantos cavaleiros,
escudeiros e cavaleiros andantes haviam se juntado a ele que seus números alcançavam dois
mil. Em outros lugares do reino, outros senhores e homens piedosos reúniam homens também,
e​ ​tramavam​ ​maneiras​ ​de​ ​derrubar​ ​os​ ​dragões.

Nada disso passou despercebido. Corvos voaram para cada canto do reino, convocando os
senhores e cavaleiros suspeitos de deslealdade a se dirigir para Porto Real para dobrar o joelho,
jurar lealdade e entregar um filho ou filha como refém para garantir sua obediência. As Estrelas
e as Espadas foram proscritas; ser membro de qualquer uma das ordens era púnivel com a
morte. O Alto Septão foi intimado a comparecer pessoalmente na Fortaleza Vermelha para ser
julgado​ ​por​ ​alta​ ​traição.

Sua Santidade respondeu do Septo Estrelado, ordenando que o rei se apresentasse em Vilavelha
para pedir perdão aos deuses por seus pecados e crueldades. Muitos dos fiéis ecoaram esse
desafio. Alguns senhores piedosos viajaram a Porto Real para jurar vassalagem e entregar
reféns, mas a maioria não o fez, acreditando que seus números e seus castelos os manteriam a
salvo.

O Rei Maegor deixou seu veneno apodrecer por quase meio ano, tão compenetrado que estava
na construção da Fortaleza Vermelha. Foi sua mãe que atacou primeiro. A Rainha Viúva montou
em Vhagar e trouxe fogo e sangue à Campina como outrora fizera em Dorne. Numa única noite,
as sedes das Casas Blanetree, Terrick, Deddlings, Lychester e Wayn foram incendiadas. Quando
Maegor voou, dirigiu-se em Balerion para as Terras Ocidentais, e queimou os castelos dos
Broome, Falwell, Lorche e Myatt, e de outros “lordes piedosos” que haviam desafiado suas
convocações reais. Por último ele desceu sobre a sede da Casa Dogget, reduzindo seu salão e
estábulos a cinzas. Os fogos levaram a vida do pai, da mãe e da jovem filha de Sor Joffrey, assim
como o de centenas de suas espadas juramentadas, servos e sua mobília. Com as colunas de
fumaça subindo aos céus na Campina e nas Terras Ocidentais, Vhagar e Balerion se viraram para
o sul. Outro Lorde Hightower, aconselhado por outro Alto Septão, abrira os portões de Vilavelha
durante a Conquista, mas agora parecia que a maior e mais populosa cidade em Westeros
certamente​ ​queimaria.

Milhares fugiram da cidade naquela noite através dos portões ou velejando para portos
distantes.​ ​Milhares​ ​mais​ ​ganharam​ ​as​ ​ruas​ ​numa​ ​revolta​ ​bêbada.

- Esta é uma noite para cantar, pecar e beber. - Os homens diziam uns aos outros. - Porque os
virtuosos​ ​e​ ​os​ ​vis​ ​queimarão​ ​igualmente​ ​amanhã.

Outros se reuniram em septos, templos e bosques antigos para rezar por salvação. No Septo
Estrelado, o Alto Septão ralhou e esbravejou, invocando a fúria dos deuses sobre os Targaryen.
Os Arquimeistres da Cidadela se fecharam em Conclave. Os homens da Patrulha da Cidade
encheram sacos com areia e baldes com água para combater os incêndios que eles sabiam que
viriam. Nas muralhas da cidade, bestas, balistas e trabucos foram postados nas ameias na
esperança de derrubar os dragões quando eles aparecessem. Liderados por Sor Morgan
Hightower, o irmão mais novo do Lorde de Vilavelha, duzentos Filhos do Guerreiro marcharam
de seu capítulo para defender Sua Alta Santidade, cercando o Septo Estrelado com um anel de
aço. No topo da Hightower, o grande farol se acendeu com luz verde, um sinal de que Lorde
Martyn Hightower convocava seus vassalos. Vilavelha então aguardou pelo amanhecer, e pela
chegada​ ​dos​ ​dragões.

E os dragões vieram. Primeiro Vhagar, quando o sol nascia, e então Balerion, perto do meio dia.
Mas eles encontraram os portões da cidade abertos, as tropas desbaratadas e os estandartes das
Casas Targaryen, Tyrell e Hightower esvoaçando por cima das muralhas da cidade. A Rainha
Viúva Visenya foi a primeira a saber das notícias. Em algum momento durante a hora mais
escura​ ​e​ ​medonha​ ​da​ ​noite,​ ​o​ ​Alto​ ​Septão​ ​morrera.

Um homem de apenas cinquenta e três anos, incansável como destemido, e aparentamente de


boa saúde, o Alto Septão era renomado por sua força. Mais de uma vez ele rezara por todo o dia
e a noite, sem parar para dormir ou se alimentar. Sua súbita morte chocou a cidade e consternou
seus seguidores. As causas são debatidas até os dias de hoje. Alguns dizem que Sua Alta
Santidade tomou a própria vida por medo de encarar a ira do Rei Maegor ou em um sacrifício
nobre para poupar a população de Vilavelha do fogo de dragão. Outros alegam que os Sete o
fulminaram​ ​pelo​ ​pecado​ ​do​ ​orgulho,​ ​por​ ​heresia,​ ​traição​ ​e​ ​arrogância.

Muitos outros tem certeza que ele foi assassinado… mas por quem? Sor Morgan Hightower teria
cometido o ato ordenado por seu irmão e senhor, alguns dizem (e Sor Morgan foi visto entrando
e saindo dos aposentos privados do Alto Septão naquela noite). Outros apontam para a Senhora
Patrice Hightower, tia e de Lorde Martyn a quem chamavam de bruxa (que solicitara uma
audiência com Sua Alta Santidade ao anoitecer, embora ele continuasse vivo quando ela partiu).
Os arquimeistres da Cidadela também são tidos como suspeitos, se através das artes negras, de
um assassino ou pergaminho envenenado permanece em debate (mensagens foram trocadas
entre a Cidadela e o Septo Estrelado durante toda a noite). E há outros que sustentam com
teimosia que a morte do Alto Septão foi trabalho de outra a quem chamavam de feiticeira, a
Rainha​ ​Viúva​ ​Visenya​ ​Targaryen.
A verdade provavelmente nunca será conhecida… mas sabemos da rápida reação de Lorde
Martyn quando a notícia o alcançou em Hightower. Ele despachou seus próprios cavaleiros para
desarmar e prender os Filhos do Guerreiro, entre eles seu próprio irmão. Os portões da cidade
foram abertos, e os estandartes Targaryen expostos por sobre as muralhas. Mesmo antes que as
asas de Vhagar fossem avistadas, os homens de Lorde Hightower estavam tirando os Mais
Devotos de suas camas e os forçando a ir ao Septo Estrelado na ponta de suas lanças para
escolher​ ​um​ ​novo​ ​alto​ ​septão.

Foi necessária apenas uma votação. Como se fossem um, os sábios homens e mulheres da Fé
escolheram um certo Septão Pater. Com noventa anos, cego, corcunda e fraco, mas muito
amigável, o novo Alto Septão quase colapsou sob o peso da coroa de cristal quando esta foi posta
sobre sua cabeça… mas quando Maegor Targaryen apareceu diante dele no Septo Estrelado,
teve​ ​muito​ ​prazer​ ​em​ ​proclamá-lo​ ​como​ ​rei,​ ​ungindo-o​ ​com​ ​os​ ​oléos​ ​sagrados​ ​e​ ​abençoando-o.

A Rainha Visenya logo retornou a Pedra do Dragão com Vhagar, mas o Rei Maegor permaneceu
em Vilavelha por quase meio ano, estabelecendo tribunais e presidindo os julgamentos. Aos
Filhos do Guerreiro cativos foi dada uma escolha. Renunciar à ordem e viver o resto de suas dias
como irmãos da Patrulha da Noite. Os que recusassem poderiam morrer como mártires de sua
Fé. Três quartos dos cativos escolheram vestir o negro. Os demais morreram. A sete deles,
famosos cavaleiros e filhos de lordes, foi dada a honra de ter como carrasco o próprio Rei
Maegor, que decepou suas cabeças com a Blackfyre. Os demais foram executados por seus
ex-irmãos. De todos esses homens, apenas um recebeu o perdão real: Sor Morgan Hightower. O
novo Alto Septão formalmente dissolveu tanto os Filhos do Guerreiro quanto os Pobre Irmãos,
ordenando que os membros remanescentes baixassem as espadas em nome dos deuses. Os Sete
não precisariam mais de guerreiros, proclamou Sua Alta Santidade; daquele dia em diante o
Trono de Ferro defenderia a Fé. O Rei Maegor declarou que os membros sobreviventes da Fé
Militante tinham até o fim do ano para baixar as armas e desistir de sua rebelião. Depois desse
prazo, os desafiantes teriam recompensas fixas: um dragão de ouro pela cabeça de qualquer
Filho do Guerreiro que não se arrependera, e um veado de prata pelo escalpo de um Pobre
Irmão.

O​ ​novo​ ​Alto​ ​Septão​ ​não​ ​se​ ​opôs,​ ​e​ ​nem​ ​o​ ​fizeram​ ​os​ ​Mais​ ​Devotos.

Durante seu tempo em Vilavelha, o rei também se reconciliou com sua primeira esposa, a Rainha
Ceryse, irmã de seu anfitrião, Lorde Hightower. Sua Graça concordou em aceitar as demais
esposas do rei, a tratá-las com respeito e honra e não falar mais contra elas, enquanto que
Maegor prometeu restaurar a Ceryse todos os direitos, benefícios e privilégios que ela teria
como rainha. Um grande banquete foi organizado em Hightower para celebrar sua
reconciliação; e uma “segunda consumação” teria ocorrido na mesma noite para que todos
soubessem​ ​que​ ​se​ ​tratava​ ​de​ ​uma​ ​verdadeira​ ​união​ ​amorosa.

Quanto tempo o Rei Maegor poderia ter ficado em Vilavelha é desconhecido pois, no final de 43
AL, chegaram aos seus ouvidos as notícias de outra ameaça ao seu reinado. Seu sobrinho Aegon,
Príncipe de Pedra do Dragão, finalmente emergiu do oeste para reclamar seu direito ao Trono
de Ferro. Voando em sua própria dragão, Quicksilver, o filho mais velho do falecido Rei Aenys
havia declarado seu tio um tirano e usurpador, e marchava pelas Terras Fluviais à frente de um
exército de quinze mil homens. Seus seguidores eram, em grande parte, ocidentais e homens das
Terras Fluviais: os senhores Tarbeck, Piper, Roote, Vance, Charlton, Frey, Paege, Parren e
Westerling estavam entre eles, em conjunto com Lorde Corbray do Vale, o Bastardo de Vila
Acidentada,​ ​e​ ​o​ ​quarto​ ​filho​ ​do​ ​Senhor​ ​de​ ​Poleiro​ ​do​ ​Grifo.

Embora suas fileiras incluíssem comandantes experientes e cavaleiros galantes, não havia
grandes senhores dentre os que se reuniram ao Príncipe Aegon... mas a Rainha Tyanna, Mestre
dos Sussurros, escreveu para Maegor informando-lhe de que Ponta Tempestade, o Ninho,
Winterfell e Rochedo Casterly comunicavam-se secretamente com a Rainha Viúva Alyssa. Antes
de se declarar pelo Príncipe de Pedra do Dragão, eles precisavam estar convencidos que ele
seria​ ​capaz​ ​de​ ​prevalecer.​ ​Aegon​ ​precisava​ ​de​ ​uma​ ​vitória.

Maegor negou-lhe isso. De Harrenhal veio Lorde Harroway, e Lorde Tully de Riverrun. Sor
Davos Darklyn da Guarda Real reuniu cinco mil espadas em Porto Real e partiu para o oeste
para se defrontar com os rebeldes. Da Campina vieram Lorde Rowan, Lorde Merryweather,
Lorde Caswell e seus vassalos. O lento exército do Príncipe Aegon viu-se cercado por outras
tropas; cada uma menor do que a sua, mas tantas que o jovem príncipe, de apenas dezessete
anos, não sabia para onde se virar. Lorde Corbray aconselhou-o a bater cada inimigo
separadamente antes que pudessem juntar suas forças, mas Aegon não dividiria seu exército. Ao
invés​ ​disso,​ ​ele​ ​decidiu​ ​marchar​ ​para​ ​Porto​ ​Real.

Ao sul do Olho de Deus, ele encontrou os portorrealenses do imperturbável Sor Davos Darklyn
barrando-lhe o caminho, em posição elevada, atrás de uma barreira de lanças, enquanto que
seus batedores o avisaram que os senhores Merryweather e Caswell se aproximavam do sul e
Tully e Harroway vinham do norte. O Príncipe Aegon ordenou a investida, na esperança de
romper os portorrealenses antes que os demais lealistas caíssem sobre seus flancos, e montou
em Quicksilver para liderar o ataque. Ele mal havia alçado vôo quando ouviu gritos e viu seus
homens​ ​abaixo​ ​apontando​ ​para​ ​onde​ ​Balerion,​ ​o​ ​Terror​ ​Negro,​ ​surgia​ ​no​ ​céu​ ​azul.

O​ ​Rei​ ​Maegor​ ​viera.

Pela primeira vez desde a Perdição de Valíria um dragão lutou contra o outro. Quicksilver, com
um quarto do tamanho de Balerion, não seria capaz de vencer o dragão mais velho e mais feroz,
e suas chamas brancas e pálidas foram engolidas pelo fogo negro. Então, o Terror Negro caiu
sobre ele vindo de cima, suas mandíbulas fechando-se em volta de seu pescoço enquanto ele
arrancava uma asa de seu corpo. Gritando e soltando fumaça, a jovem dragão foi atirado para o
chão,​ ​e​ ​o​ ​Príncipe​ ​Aegon​ ​com​ ​ela.

A batalha abaixo foi sangrenta, mas breve. Tendo caído Aegon, os rebeldes viram que sua causa
estava condenada e fugiram, deixando cair armas e armaduras enquanto corriam. Mas os
exércitos lealistas estavam à sua volta, e não havia escapatória. Dois mil homens de Aegon
morreram, enquanto que o rei perdera apenas cem. Entre os mortos estavam Lorde Alyn
Tarbeck, Denys Snow, o Bastardo de Vila Acidentada, Lorde Jon Piper, Lorde Ronnel Vance, Sor
Willam Whistler… e Aegon Targaryen, o Príncipe de Pedra do Dragão. A única perda notável
dentre os lealistas foi Sor Davos Darklyn da Guarda Real, assassinado por Lorde Corbray com a
Senhora Desespero. Meio ano de julgamentos e execuções seguiram a isso. A Rainha Visenya
persuadiu seu filho a poupar alguns dos senhores rebeldes, mas mesmo estes perderam suas
terras​ ​e​ ​títulos​ ​e​ ​tiveram​ ​de​ ​entregar​ ​reféns.

O ano de 44AL foi pacífico se comparado aos que vieram antes… mas os meistres que
escreveram sobre aquela época costumam dizer que o cheiro de sangue e fogo ainda pairava
pesado no ar. Maegor I Targaryen ocupava o Trono de Ferro enquanto a Fortaleza Vermelha era
construída ao redor dele, mas sua corte era sombria e triste apesar da presença de três
rainhas… ou talvez por causa disso. Todas as noites ele chamava uma de suas esposas para sua
cama, e ainda assim permanecia sem filhos, com nenhum herdeiro além dos filhos e netos de seu
irmão Aenys. Passou a ser chamado de “Maegor, o Cruel”, e “assassino de parentes” também,
embora​ ​dizer​ ​isso​ ​em​ ​sua​ ​presença​ ​acarretasse​ ​em​ ​morte.

Em Vilavelha, o velho Alto Septão morreu, e outro se ergueu no lugar. Apesar de ele não proferir
nenhuma palavra contra o rei e suas rainha, a inimizade entre o Rei Maegor e a Fé endureceu.
Centenas de Pobres Irmãos eram caçados e mortos, seus escalpos entregues aos homens do rei
em troca da recompensa, mas milhares mais vagavam por bosques, campos e lugares ermos dos
Sete Reinos, amaldiçoando os Targaryen a cada respiração. Um bando chegou a coroar o seu
próprio Alto Septão, um indivíduo barbado e rústico conhecido como Septão Moon. E uns
poucos Filhos do Guerreiro ainda sobreviviam, liderados por Sor Joffrey Dogget, o Cão Vermelho
das Colinas. Proscrita e condenada, a ordem não tinha mais forças para enfrentar os homens do
rei em campo aberto, então o Cão Vermelho os enviava sob o disfarce de cavaleiros andantes
para caçar e matar lealistas Targaryen e “traidores da Fé”. Sua primeira vítima foi Sor Morgan
Hightower, anteriormente da ordem, que foi derrubado e estripado no caminho para
Bosquemel. O velho Lorde Merryweather foi o próximo a morrer, seguido pelo filho e herdeiro
de Lorde Rowan, do velho pai de Davos Darklyn e até mesmo do Cego John Hogg. Apesar da
recompensa pela cabeça de um Filho do Guerreiro ser um dragão de ouro, os camponeses e
plebeus​ ​do​ ​reino​ ​os​ ​escondiam​ ​e​ ​protegiam,​ ​recordando-se​ ​do​ ​que​ ​eles​ ​haviam​ ​sido.

Em Pedra do Dragão, a Rainha Viúva Visenya emagrecera e ficara abatida, a carne derretendo
em seus ossos. A viúva de seu sobrinho, a antiga Rainha Alyssa, residia na ilha também, com seu
filho Jaehaerys e sua filha Alysanne. Maegor os havia colocado sob a custódia de sua mãe,
prisioneiros em tudo menos no nome, mas o Príncipe Viserys, o mais velho dentre os filhos
sobreviventes de Aenys e Alyssa, foi convocado à corte por Maegor. Um rapaz promissor de
quinze anos, habilidoso com a espada e a lança, Viserys foi feito escudeiro do rei… com um
cavaleiro​ ​da​ ​Guarda​ ​Real​ ​como​ ​sua​ ​sombra​ ​para​ ​mantê-lo​ ​longe​ ​de​ ​conspirações​ ​e​ ​traições.

Por um breve momento em 44AL, pareceu que o rei logo teria o filho que desejava tão
desesperadamente. A Rainha Alys anunciou que esperava uma criança, e a corte rejubilou. O
Grande Meistre Desmond confinou Sua Graça à cama à medida em que a gestação prosseguia
saudável, e tomou para si os cuidados dela, assistido por duas septãs, uma parteira, e as irmãs
da rainha, Jeyne e Hanna. Maegor insistiu para que suas outras esposas também servissem à
rainha​ ​grávida.

Durante a terceira lua de seu confinamento, contudo, Lady Alys iniciou um intenso sangramento
uterino e perdeu a criança. Quando o Rei Maegor veio para ver o natimorto, ficou horrorizado ao
perceber que o garoto era um monstro, com membros retorcidos, uma cabeça enorme e sem
olhos.

- Este não pode ser filho meu. - Ele urrou em agonia. E então seu pesar se transformou em fúria,
e ele ordenou a imediata execução da parteira e das duas septãs que estiveram cuidando da
rainha,​ ​além​ ​da​ ​do​ ​próprio​ ​Grande​ ​Meistre​ ​Desmond,​ ​poupando​ ​apenas​ ​as​ ​irmãs​ ​de​ ​Alys.

É dito que Maegor estava sentado no Trono de Ferro com a cabeça do Grande Meistre em suas
mãos quando a Rainha Tyanna surgiu para dizer que ele não estava enganado. A criança não era
de sua semente. Ao ver a Rainha Ceryse retornar à corte, velha, amarga e sem filhos, Alys
Harroway começou a temer que o mesmo destino a aguardava a menos que desse um filho ao
rei, e então ela se voltara ao senhor seu pai, a Mão do Rei. Nas noites em que o rei dividia a cama
com a Rainha Ceryse ou a Rainha Tyanna, Lucas Harroway enviava homens para a cama de sua
filha com intenção de engravidá-la. Maegor se recusou a acreditar. Ele disse que Tyanna era uma
bruxa​ ​ciumenta​ ​e​ ​estéril,​ ​jogando​ ​a​ ​cabeça​ ​do​ ​Grande​ ​Meistre​ ​nela.

- As aranhas não mentem. - A Mestre dos Sussurros respondeu. Ela estendeu ao rei uma lista de
nomes.

Estavam escritos ali os nomes de vinte homens que supostamente teriam dado sua semente à
Rainha Alys. Homens velhos e novos, encantadores e feios, cavaleiros e escudeiros, senhores e
serventes, até mesmo cavalariços, ferreiros e cantores; a Mão do Rei tinha lançado uma rede
ampla, ao que tudo indicava. Os homens tinham apenas uma coisa em comum: todos tinham
potência​ ​conhecidamente​ ​comprovada​ ​e​ ​eram​ ​pais​ ​de​ ​crianças​ ​saudáveis.

Sob tortura, todos confessaram exceto dois. Um, que era pai de doze, ainda tinha o ouro que
Lorde Harroway lhe teria pago por seu serviço. Os interrogatórios aconteceram de forma rápida
e secreta, então nem Lorde Harroway e nem a Rainha Alys desconfiavam das suspeitas do rei até
que a Guarda Real se lançou sobre eles. Arrastada de sua cama, a Rainha Alys viu suas irmãs
serem mortas diante de seus olhos enquanto tentavam protegê-la. Seu pai, que inspecionava a
Torre da Mão, foi jogado do telhado para ser esmagado no chão de pedra abaixo. Os filhos,
irmãos e sobrinhos de Harroway foram levados também. Empalados em lanças ao redor do
fosso seco da Fortaleza de Maegor, alguns levaram horas para morrer; Horas Harroway, de
mente simples, supostamente agonizou por dias. Os vinte nomes da lista da Rainha Tyanna logo
se​ ​juntaram​ ​e​ ​eles,​ ​e​ ​depois​ ​outros​ ​doze​ ​acusados​ ​pelos​ ​vinte​ ​primeiros.

A pior execução foi reservada para a Rainha Alys, que foi dada à sua irmã-esposa para tortura.
Sobre sua morte não falaremos, já que certas coisas é melhor esquecer. É suficiente dizer que
seu tormento durou a maior parte de uma quinzena, e que o próprio Maegor presenciou isso
tudo, testemunhando sua agonia. Após sua morte, o corpo da rainha foi desmembrado em sete
partes, os pedaços expostos em lanças sobre os sete portões da cidade, deixados ali para
apodrecer.

O Rei Maegor em pessoa marchou de Porto Real, tendo reunido uma grande força de cavaleiros
e homens de armas, em direção a Harrenhal para completar a destruição da Casa Harroway. O
grande castelo no Olho de Deus era fracamente defendido, e seu castelão, o sobrinho de Lorde
Lucas e primo da falecida rainha, abriu os portões para o rei. A rendição não o salvou; Sua Graça
passou a guarnição inteira na espada junto com cada homem, mulher e criança que ele suspeitou
ter qualquer gota de sangue Harroway. Então ele marchou para a Cidade de Lorde Harroway no
Tridente​ ​e​ ​fez​ ​o​ ​mesmo​ ​lá.

Quando o derramamento de sangue terminou, os homens começaram a dizer que Harrenhal era
amaldiçoado, já que todo senhor que o ocupara acabara tendo um final sangrento. Apesar disso,
muitos dos ambiciosos homens do rei cobiçavam a sede derradeira do Harren Negro, junto de
suas terras amplas e férteis… eram tantos que o Rei Maegor ficou cansado de suas súplicas e
decretou que Harrenhal devia ir para o mais forte entre eles. Assim, vinte e três cavaleiros do rei
lutaram com espadas e maças nas ruas ensanguentadas da Cidade de Lorde Harroway. Sor
Walton Towers emergiu como o vencedor, e Maegor o nomeou como Lorde de Harrenhal… mas
a refrega havia sido uma coisa sangrenta, e Sor Walton não viveu para aproveitar seu senhorio,
morrendo de suas feridas numa quinzena. Harrenhal então passou para seu filho mais velho,
mas com os territórios do senhorio diminuídos já que Maegor concedeu a Cidade de Lorde
Harroway​ ​a​ ​Lorde​ ​Alton​ ​Butterwell,​ ​e​ ​o​ ​resto​ ​das​ ​possessões​ ​Harroway​ ​a​ ​Lorde​ ​Dormand​ ​Darry.

Quando finalmente Maegor retornou a Porto Real para se sentar novamente no Trono de Ferro,
foi surpreendido com a notícia de que sua mãe, a Rainha Visenya, morrera. Além disso, com a
confusão que se seguira à morte da Rainha Viúva, a Rainha Alyssa e seus filhos conseguiram
embarcar num navio e escapar de Pedra do Dragão… ninguém sabia dizer para onde. Eles até
mesmo​ ​haviam​ ​levado​ ​a​ ​Irmã​ ​Negra​ ​dos​ ​aposentos​ ​de​ ​Visenya​ ​em​ ​sua​ ​fuga.

Sua Graça ordenou que o corpo de sua mãe fosse incinerado, seus ossos e cinzas enterrados ao
lado de seus irmão e irmã. Então ele enviou seus cavaleiros para prender seu escudeiro, o
Príncipe​ ​Viserys.

- Acorrentem-no numa cela negra e o interroguem de forma severa. - Maegor comandou. -


Perguntem-lhe​ ​para​ ​onde​ ​a​ ​mãe​ ​dele​ ​foi.

-​ ​Talvez​ ​ele​ ​não​ ​saiba.​ ​-​ ​Ponderou​ ​Sor​ ​Owen​ ​Bush,​ ​um​ ​cavaleiro​ ​da​ ​Guarda​ ​Real​ ​de​ ​Maegor,

-​ ​Então​ ​o​ ​deixem​ ​morrer.​ ​ ​-​ ​O​ ​rei​ ​respondeu.​ ​-​ ​Talvez​ ​a​ ​vadia​ ​retorne​ ​para​ ​o​ ​funeral​ ​dele.

O Príncipe Viserys não sabia o paradeiro de sua mãe, nem mesmo quando Tyanna de Pentos o
manipulou com suas artes negras. Após nove dias de interrogatório ele morreu. Seu corpo foi
deixado​ ​no​ ​pátio​ ​da​ ​Fortaleza​ ​Vermelha​ ​por​ ​uma​ ​quinzena​ ​por​ ​ordem​ ​do​ ​rei.

-​ ​Deixem​ ​que​ ​a​ ​mãe​ ​dele​ ​venha​ ​recuperá-lo.​ ​-​ ​Maegor​ ​disse.

Mas a Rainha Alyssa nunca apareceu, e então Sua Graça por fim entregou o corpo do sobrinho às
chamas. O príncipe tinha apenas dezesseis anos de idade quando foi morto, e havia sido muito
amado​ ​por​ ​plebeus​ ​e​ ​nobres.​ ​O​ ​reino​ ​chorou​ ​por​ ​ele.

Em​ ​45AL,​ ​a​ ​construção​ ​da​ ​Fortaleza​ ​Vermelha​ ​finalmente​ ​terminou


O Rei Maegor celebrou a conclusão dando um banquete aos construtores e pedreiros que
haviam trabalhado no castelo, enviando-lhes carroças de vinho forte e carnes doces, além de
prostitutas dos melhores bordéis da cidade. A diversão durou três dias. Depois disso, os
cavaleiros do rei surgiram e passaram todos os homens na espada, evitando assim que qualquer
um deles pudesse revelar os segredos da Fortaleza Vermelha. Seus ossos foram enterrados sob o
castelo​ ​que​ ​eles​ ​haviam​ ​construído.

Não muito após o fim da construção, a Rainha Ceryse foi acometida por uma doença repentina e
morreu. O rumor que circulou na corte foi de que Sua Graça ofendera o rei com um comentário
maldoso, e ele ordenara que Sor Owen removesse sua língua. A rainha então teria resistido, a
faca de Sor Owen escorregara e cortara sua garganta. Apesar de nunca ter sido provada, a
história era amplamente acreditada na época; hoje, no entanto, muitos meistres ponderam que é
uma calúnia inventada pelos inimigos do rei para tornar ainda mais escura a sua reputação.
Qualquer que seja a verdade, a morte de sua primeira esposa deixou Maegor com apenas uma
rainha, a pentoshi de cabelos escuros e coração negro, Tyanna, Mestre das Aranhas, que era
odiada​ ​e​ ​temida​ ​por​ ​todos.

Mal a última pedra se assentou na Fortaleza Vermelha, e Maegor ordenou que as ruínas do Septo
da Recordação fossem retiradas do topo da Colina de Rhaenys, e com elas os ossos e cinzas dos
Filhos do Guerreiro que ali haviam perecido. Em seu lugar, ele decretou, um grande “estábulo de
dragões” feito de pedra deveria ser erguido, um covil digno de Balerion, Vhagar e seus
descendentes. Assim começou a construção do Poço dos Dragões. Não foi surpreendente que
provou-se difícil achar construtores, pedreiros e engenheiros para trabalhar no projeto. Foram
tantos os que fugiram que o rei finalmente se viu forçado a usar prisioneiros das masmorras da
cidade​ ​como​ ​força​ ​de​ ​trabalho,​ ​supervisionados​ ​por​ ​construtores​ ​trazidos​ ​de​ ​Myr​ ​e​ ​Volantis.

No fim de 45 AL, o Rei Maegor foi a campo novamente para continuar sua guerra contra os
proscritos remanescentes da Fé Militante, deixando a Rainha Tyanna para governar Porto Real
com sua nova Mão, Lorde Edwell Celtigar. No grande bosque ao sul da Água Negra, as forças do
rei caçaram grupos de Pobres Irmãos que ali haviam se refugiado, mandando muitos para a
Muralha e enforcando os que se recusaram a vestir o negro. Sua líder, a mulher conhecida como
Poxy Jeyne Poore, continuou a fugir do rei até ser traída por três de seus próprios seguidores,
que​ ​acabaram​ ​recebendo​ ​perdões​ ​e​ ​títulos​ ​de​ ​cavaleiro​ ​como​ ​recompensa.

Três septões que viajavam com Sua Graça declararam que Poxy Jeyne era uma bruxa, e Maegor
ordenou que ela fosse queimada viva num campo ao lado do Guaquevai. Quando o dia marcado
para a execução chegou, trezentos de seus seguidores, todos Pobres Irmãos e camponeses,
irromperam dos bosques para salvá-la. O rei havia previsto isso, contudo, e seus homens
estavam prontos para o ataque. Os salvadores foram cercados e mortos. Dentre eles morreu seu
líder, que não era ninguém menos do que Sor Horys Hill, o cavaleiro andante bastardo que
escapara​ ​da​ ​carnificina​ ​no​ ​Grande​ ​Ramo​ ​três​ ​anos​ ​antes.​ ​ ​Desta​ ​vez​ ​ele​ ​tivera​ ​menos​ ​sorte.

No resto do reino, contudo, a maré dos tempos começou a se voltar contra o rei. Plebeus e
senhores pareciam desprezá-lo por suas muitas crueldades, e muitos começaram a prover ajuda
e conforto a seus inimigos. O Septão Moon, o “Alto Septão” coroado pelos Pobres Irmãos em
oposição ao homem que fôra eleito em Vilavelha, que eles chamavam de “Alto Bajulador”,
percorreu as Terras Fluviais até alcançar a Campina, atraindo multidões sempre que ele surgia
dos bosques para pregar contra o rei. As colinas ao norte do Dente Dourado eram governadas
em tudo exceto no nome pelo Cão Vermelho, Sor Joffrey Dogget, e nem Rochedo Casterly ou
Correrrio faziam esforço para se mover contra ele. Dennis, o Coxo, e Silas Esfarrapado
continuavam vagando em liberdade, e onde quer que eles estivessem os plebeus os mantinham
seguros.​ ​Cavaleiros​ ​e​ ​homens​ ​de​ ​armas​ ​enviados​ ​em​ ​sua​ ​busca​ ​frequentemente​ ​desapareciam.

Em 46AL, o Rei Maegor retornou à Fortaleza Vermelha com dois mil crânios, fruto de um ano de
campanha. Eram cabeças de Pobres Irmãos e Filhos do Guerreiro, ele anunciou, e os espalhou
diante do Trono de Ferro… mas secretamente acreditava-se aqueles horríveis troféus haviam
sido simples ermitões, pregadores e outros religiosos culpados por nenhum crime além de sua
fé.

O começo do novo ano encontrou Maegor ainda sem um filho, sequer um bastardo que pudesse
ser legitimado. Nem parecia provável que a Rainha Tyanna daria a ele o herdeiro tão desejado.
Enquanto ela servia ao rei como sua Mestre dos Sussurros, ele não procurou mais o caminho de
sua​ ​cama.

Já passara da hora do rei encontrar uma nova esposa, os conselheiros de Maegor


concordavam… mas divergiam sobre as possibilidades. O Grande Meistre Benifer sugeriu a
orgulhosa e amável Senhora de Starfall, Clarisse Dayne, na esperança de anexar suas terras e a
Casa da posse de Dorne. Alton Butterwell, Mestre da Moeda, ofereceu sua irmã viúva, uma
mulher corpulenta com sete filhos. Certamente ela não era bonita, ele admitiu, mas sua
fertilidade estava acima de qualquer dúvida. A Mão do Rei, Lorde Celtigar, tinha duas filhas
donzelas, de treze e doze anos. Ele instou o rei a escolher uma delas, ou casar com ambas se
preferisse. Lorde Velaryon de Derivamarca aconselhou Maegor a procurar por sua sobrinha, a
princesa Rhaena, filha de seu irmão e viúva de seu sobrinho, e tomá-la por esposa. Ao casar com
Rhaena,​ ​o​ ​rei​ ​uniria​ ​sua​ ​pretensão​ ​à​ ​dela​ ​e​ ​fortaleceria​ ​a​ ​linhagem​ ​real.

O Rei Maegor ouviu a cada um deles. Embora ele tenha desprezado a maioria das mulheres a ele
apresentadas, muitos dos argumentos o convenceram. Ele teria uma mulher com fertilidade
comprovada, decidira, mas não a irmã gorda e matrona de Butterwell. E ele tomaria mais de
uma esposa, conforme sugerido por Lorde Celtigar. Duas esposas dariam o dobro das chances de
conseguir um filho; três esposas significariam o triplo das mesmas. E uma dessas esposas
certamente seria sua sobrinha; havia sabedoria no conselho de Lorde Velaryon. A Rainha Alyssa
e seus dois filhos mais novos permaneciam escondidos (era sabido que haviam fugido para Além
do Mar Estreito, para Tyrosh ou Volantis), mas ainda representavam uma ameaça à coroa de
Maegor junto de quaisquer filhos que eles pudessem ter. Ao tomar a filha de Aenys como esposa,
enfraqueceria​ ​as​ ​pretensões​ ​de​ ​seus​ ​sobrinhos.

Após a morte de seu marido na Batalha Sob o Olho de Deus, Rhaena Targaryen agiu rapidamente
para proteger suas filhas. Sendo o Príncipe Aegon o legítimo herdeiro do Trono, então por lei
sua filha Aerea era a herdeira, possuindo a mais forte pretensão para ser a legítima Rainha dos
Sete Reinos… mas Aerea e sua irmã, Rhaella, mal tinham um ano de idade, e Rhaena sabia que
anunciar a pretensão delas significaria a morte de ambas. Ao invés disso, ela tingiu seus cabelos,
mudou seus nomes, e as confiou a aliados poderosos que as manteriam a salvo sem revelar suas
identidades. Sequer ela, como mãe, deveria saber o paradeiro das filhas, insistiu; para que não
pudesse​ ​revelar​ ​o​ ​segredo​ ​nem​ ​sob​ ​tortura.

Essa fuga não seria possível para a própria Rhaena. Mesmo que ela mudasse seu nome, tingisse
os cabelos, e trajasse as roupas de uma taverneira ou os robes de uma septã, não havia como
disfarçar sua dragão, Dreamfyre, uma fera azul-pálida que já produzira duas ninhadas de ovos e
que Rhaena montava desde os doze anos de idade. Dragões não são facilmente escondidos. Ao
invés disso, a princesa a selou, e voou para o mais longe de Maegor que podia, para Ilha Bela,
onde Lorde Farman lhe deu hospitalidade em seu castelo de torres brancas que se erguia sobre
o Mar do Poente. E ali ela descansou, lendo, rezando, e imaginando quanto tempo teria antes que
seu tio viesse atrás dela. Rhaena nunca duvidou que ele o faria. Era uma questão de quando, e
não​ ​se.

As convocações vieram mais cedo do que ela gostaria, mas não tão cedo quanto ela temera. Não
houve desafio. Isso apenas resultaria na visita do rei a Ilha Bela em Balerion. Rhaena gostara
muito de Lorde Farman, e mais ainda de seu segundo filho, Androw. Ela não pagaria por sua
bondade com fogo e sangue. Então montou Dreamfyre e voou para a Fortaleza Vermelha onde
descobriu​ ​que​ ​deveria​ ​se​ ​casar​ ​com​ ​seu​ ​tio,​ ​o​ ​assassino​ ​de​ ​seu​ ​marido.

E, ali, Rhaena conheceu as noivas que lhe fariam companhia, pois tratava-se de um casamento
triplo. Todas as três pretendentes a rainha eram viúvas. A Senhora Jeyne da Casa Westerling
fôra casada com Lorde Alyn Tarbeck, que marchara ao lado do Príncipe Aegon e morrera com
ele na Batalha Sob o Olho de Deus. Poucos meses antes, ela dera ao falecido marido um filho
póstumo. Alta e esguia, com um lustroso cabelo castanho, Lady Jeyne era cortejada pelo filho
mais novo do Senhor de Rochedo Casterly quando Maegor procurara por ela, mas isso
significara​ ​menos​ ​do​ ​que​ ​nada​ ​para​ ​o​ ​rei.

Mais preocupante foi o caso da Senhora Elinor da Casa Costayne, a ruiva ardente esposa de Sor
Theo Bolling, um cavaleiro com terras que lutara pelo rei em sua última campanha contra os
Pobres Irmãos. Com apenas dezenove anos, a Senhora Elinor dera a Bolling três filhos quando o
olhar do rei recaíra sobre ela. O filho mais novo ainda era amamentado quando seu pai, Sor
Theo, foi arrastado por dois cavaleiros da Guarda Real e acusado de conspirar com a Rainha
Alyssa para assassinar o rei e colocar o garoto Jaehaerys no Trono de Ferro. Apesar de Bolling
jurar inocência, foi condenado e decapitado no mesmo dia. O Rei Maegor deu à viúva sete dias
de​ ​luto,​ ​em​ ​honra​ ​aos​ ​deuses,​ ​então​ ​convocou-a​ ​para​ ​ser​ ​sua​ ​esposa.

No Septo de Pedra, o Septão Moon apareceu para denunciar os planos de casamento do Rei
Maegor, e centenas de plebeus o aclamaram, mas poucos outros ousaram erguer suas vozes
contra Sua Graça. O Alto Septão velejou de Vilavelha para Porto Real a fim de realizar os ritos
matrimoniais. Num dia quente de primavera, em 47AL, o Rei Maegor tomou três mulheres como
esposas. Embora cada uma das noivas estivesse vestida e coberta pelas cores das casas de seus
pais,​ ​o​ ​povo​ ​de​ ​Porto​ ​Real​ ​as​ ​apelidou​ ​de​ ​“as​ ​Noivas​ ​Negras”,​ ​já​ ​que​ ​todas​ ​eram​ ​viúvas.

A presença do filho da Senhora Jeyne e dos três garotos da Senhora Elinor na cerimônia
asseguravam sua conivência, mas havia muitos que esperavam alguma demonstração de desafio
da Princesa Rhaena. Tais esperanças desabaram quando a Rainha Tyanna apareceu escoltando
duas garotas de cabelos prateados e olhos violeta, vestindo o vermelho e o negro da Casa
Targaryen.

- Você foi uma tola ao pensar que podia escondê-las de mim. - Tyanna provocou a princesa.
Rhaena​ ​inclinou​ ​a​ ​cabeça​ ​e​ ​recitou​ ​os​ ​votos​ ​enquanto​ ​chorava.

Muitos relatos estranhos e contraditórios são contados sobre a noite que se seguiu, e a
passagem dos anos dificulta a separação entre a lenda e a verdade. Teriam as Noivas Negras
dividido uma única cama conforme alguns alegam? Parece improvável. Teria Sua Graça visitado
as três mulheres durante a noite e consumado as três uniões? Talvez. Teria a Princesa Rhaena
tentado matar o rei com uma adaga escondida embaixo de seu travesseiro como dizem alguns?
Teria Elinor Costayne feito as costas do rei em tiras sangrentas com as unhas enquanto eles
copulavam? Teria Jeyne Westerling bebido a poção de fertilidade que supostamente a Rainha
Tyanna lhe trouxera ou jogou a bebida na cara da mulher mais velha? Essa poção realmente foi
feita ou oferecida? A primeira versão disso não teria surgido até o reinado do Rei Jaehaerys,
vinte​ ​anos​ ​após​ ​as​ ​duas​ ​mulheres​ ​estarem​ ​mortas.

Sabemos o seguinte. Imediatamente após o casamento, o Rei Maegor declarou Aerea, a filha da
Princesa Rhaena, como sua legítima herdeira “até que os deuses lhe dessem um filho”, enquanto
enviava sua irmã gêmea, Rhaellla, a Vilavelha para se tornar uma septã. Seu sobrinho Jaehaerys,
considerado por muitos o legítimo rei, foi claramente deserdado no mesmo decreto. O filho da
Rainha Jeyne foi confirmado Senhor de Solar Tarbeck, e enviado a Rochedo Casterly para ficar
sob custódia da Casa Lannister, e os filhos mais velhos da Rainha Elinor foram mandados de
forma semelhante, um para o Ninho e outro para Jardim de Cima. O filho mais novo da rainha,
um bebê, foi entregue a uma ama de leite quando o rei achou cansativo o fato de a rainha dar de
mamar.

Meio ano após o casamento, Lorde Celtigar, a Mão do Rei, anunciou que a Rainha Jeyne esperava
uma criança. Mal a sua barriga começara a crescer quando o próprio rei revelou que a Rainha
Elinor estava grávida também. Maegor banhou ambas as mulheres com presentes e honras, e
concedeu novas terras e cargos aos pais delas, assim como seus irmãos e tios, mas sua alegria
provou ter vida curta. Três luas antes do esperado, a Rainha Jeyne caiu de cama atingida pelas
dores do parto e deu à luz a um natimorto tão monstruoso quanto o que Alys Harroway pusera
no mundo outrora, uma criatura sem pernas ou braços e dotada tanto do sexo feminino quanto
do​ ​masculino.​ ​A​ ​mãe​ ​não​ ​sobreviveu​ ​muito​ ​tempo​ ​ao​ ​filho.

Maegor estava amaldiçoado, os homens diziam. Ele matara seus sobrinhos, fizera guerra contra
a Fé e o Alto Septão, desafiara os deuses, cometera assassinato e incesto, adultério e estupro.
Seus órgãos de homem estavam envenenados, suas sementes cheias de vermes, e os deuses
nunca permitiriam que ele gerasse um filho vivo. Eram esses os sussurros. O próprio Maegor
levantou uma explicação diferente, e enviou Sor Owen Bush e Sor Maladon Moore para prender
a​ ​Rainha​ ​Tyanna​ ​e​ ​jogá-la​ ​nas​ ​masmorras.

A rainha pentoshi fez uma confissão completa mesmo enquanto os torturadores do rei
preparavam seus instrumentos; ela envenenara a criança de Jeyne Westerling no útero, assim
como fizera com Alys Harroway. Aconteceria o mesmo com a cria de Elinor Costayne, ela
prometeu.

É dito que o rei a matou pessoalmente, arrancando seu coração com a Blackfyre e alimentando
os cães com ele. Mesmo após a morte, Tyanna da Torre teve sua vingança, já que tudo ocorreu
conforme ela dissera. Veio uma lua e depois outra, e então a noite escura em que a Rainha Elinor
entregou​ ​um​ ​natimorto​ ​deformado​ ​ao​ ​mundo,​ ​um​ ​garoto​ ​sem​ ​olhos​ ​e​ ​com​ ​asas​ ​primitivas.

Era 48 AL, o sexto ano do reinado de Maegor e o último de sua vida. Nenhum homem dos Sete
Reinos duvidava agora de que o rei era amaldiçoado. Todos os seguidores que ele ainda tinha
começaram a abandoná-lo, evaporando como neve sob o sol de verão. Notícias chegaram a Porto
Real dizendo que Sor Joffrey Dogget fora visto entrando em Correrrio, não como cativo, mas
como convidado de Lorde Tully. O Septão Moon reaparecera, liderando milhares de fiéis numa
marcha cruzando a Campina até Vilavelha, anunciando sua intenção de forçar o Bajulador no
Septo Estrelado a denunciar “a Abominação no Trono de Ferro” e revogar o banimento das
ordens guerreiras. Quando Lorde Oakheart e Lorde Rowan se postaram diante de suas hostes,
eles se juntaram às fileiras de Moon ao invés de atacá-lo. Lorde Celtigar demitiu-se como Mão do
Rei​ ​e​ ​retornou​ ​à​ ​sua​ ​sede​ ​na​ ​Ilha​ ​da​ ​Garra.

Relatos das Marcas Dornesas sugeriam que os dorneses estavam se reunindo nos passos,
preparando​ ​a​ ​invasão​ ​do​ ​reino.

O pior golpe veio de Ponta Tempestade. Ali, nas praias da Baía dos Naufrágios, Lorde Rogar
Baratheon proclamou o jovem Jaehaerys Targaryen como verdadeiro e legítimo Rei dos
Ândalos, dos Roinares e dos Primeiros Homens, e o Príncipe Jaehaerys nomeou Lorde Rogar
como Protetor do Território e Mão do Rei. A mãe do Príncipe, a Rainha Alyssa e sua filha
Alysanne estavam do lado dele quando Jaehaerys sacou a Irmã Negra e jurou dar um fim ao
reinado de seu tio usurpador. Uma centena de lordes e cavaleiros com terras aclamou essa
proclamação. O Príncipe Jaehaerys tinha catorze anos de idade quando reivindicou o trono; um
belo garoto, habilidoso com a lança e o arco, e um cavaleiro talentoso. Mais, ele domara uma
enorme besta de bronze chamada Vermithor, e sua irmã Alysanne, uma donzela de doze,
também​ ​possuía​ ​o​ ​próprio​ ​dragão,​ ​Silverwing.

- Maegor tem apenas um dragão. - Lorde Rogar falou aos senhores da tempestade. - Nosso
príncipe​ ​tem​ ​dois.

E logo teria três. Quando a notícia de que Jaehaerys reunia suas forças em Ponta Tempestade
alcançou a Fortaleza Vermelha, Rhaena Targaryen montou em Dreamfyre e voou para se juntar
a ele, abandonando o tio com quem ela fôra forçada a se casar. Ela levara sua filha Aerea… e a
Blackfyre,​ ​roubada​ ​da​ ​própria​ ​bainha​ ​do​ ​rei​ ​enquanto​ ​ele​ ​dormia.

A resposta do Rei Maegor foi lenta e confusa. Ele ordenou que o Grande Meistre enviasse seus
corvos, convocando seus senhores e vassalos leais a virem a Porto Real, apenas para descobrir
que Benifer tomara um navio para Pentos. Ao perceber que a Princesa Aerea partira, ele enviou
um homem a Vilavelha com a missão de decepar a cabeça de sua gêmea, Rhaella, para punir a
mãe das meninas por sua traição, mas Lorde Hightower aprisionou o homem ao invés disso.
Dois cavaleiros da Guarda Real sumiram durante a noite, partindo para se juntar a Jaehaerys, e
Sor Owen Bush foi encontrado morto do lado de fora de um bordel com o membro viril enfiado
em​ ​sua​ ​boca.

Lorde Velaryon de Derivamarca estava entre os primeiros que se declararam por Jaehaerys.
Como os Velaryon eram os tradicionais almirantes do reino, Maegor descobriu que perdera toda
a sua frota real. Os Tyrell de Jardim de Cima foram os próximos, com todo o poderio da Campina.
Os Hightowers de Vilavelha, os Redwyne da Árvore, os Lannister de Rochedo Casterly, os Arryn
do​ ​Ninho,​ ​os​ ​Royce​ ​de​ ​Pedrarruna…​ ​um​ ​a​ ​um,​ ​eles​ ​se​ ​voltaram​ ​contra​ ​o​ ​rei.

Em Porto Real, um punhado de senhores menores se reuniram sob o comando de Maegor, entre
eles Lorde Darklyn de Valdocaso, Lorde Massey de Bailepedra, Lorde Towers de Harrenhal,
Lorde Staunton de Pouso de Gralhas, Lorde Bar Emmon de Ponta Aguda, Lorde Buckwell de
Antlers, e os senhores Rosby, Stokeworth, Hayford, Hart, Byrch, Rollingford, Bywater e Mallery.
No entanto, eles comandavam apenas quatro mil homens, e apenas um em dez entre esses eram
cavaleiros. Maegor reuniu-se com eles na Fortaleza Vermelha numa noite para discutir um plano
de batalha. Quando eles viram como eram poucos, e perceberam que nenhum dos grandes
senhores vinha para se juntar a eles, muitos perderam a coragem, e Lorde Hayford foi longe o
suficiente a ponto de instar Sua Graça a abdicar e vestir o negro. Sua Graça ordenou que
decapitassem Hayford, e continuou o conselho de guerra com a cabeça deste espetada numa
lança atrás do Trono de Ferro. Por todo o dia os senhores fizeram planos, até tarde da noite. Era
a hora do lobo quando finalmente Maegor ordenou que eles saísssem. O rei ficou para trás,
inquieto no Trono de Ferro enquanto eles partiam. Lorde Towers e Lorde Rosby foram os
últimos​ ​a​ ​ver​ ​Sua​ ​Graça.

Horas depois, com a alvorada raiando, a última das rainhas de Maegor encontrou-o ainda
sentado no Trono de Ferro, pálido e morto, sua túnica empapada de sangue. Seus braços haviam
sido​ ​estraçalhados​ ​pelas​ ​lâminas​ ​e​ ​outra​ ​delas​ ​perfurara​ ​seu​ ​pescoço​ ​e​ ​emergira​ ​sob​ ​o​ ​queixo.

Muitos até hoje acreditam que o Trono de Ferro o matou. Maegor estava vivo quando Rosby e
Towers deixaram a sala do trono, eles argumentavam, e os guardas nas portas juraram que
ninguém entrara depois disso até a Rainha Elinor fazer a descoberta. Alguns dizem que a rainha
quem o forçou sobre as farpas e lâminas para se vingar da morte de seu primeiro marido. A
Guarda Real pode tê-lo feito também, embora isso exigisse que tivessem agido em conjunto já
que havia dois cavaleiros postados em cada porta. Pode também ter sido uma pessoa ou pessoas
desconhecidas, entrando e deixando a sala do trono através de alguma passagem secreta. A
Fortaleza Vermelha possui segredos, conhecidos apenas pelos mortos. Pode ser também que o
rei tenha sucumbido ao desespero nas horas sombrias da noite e tomado a própria vida, abrindo
suas veias nas farpas do trono para se poupar da derrota e desgraça que certamente o
aguardavam.

O reinado do Rei Maegor I Targaryen, conhecido pela história como Maegor, o Cruel, durara seis
anos. Após sua morte, o cadáver foi queimado nos jardins da Fortaleza Vermelha, suas cinzas
enterradas em Pedra do Dragão ao lado de sua mãe. Ele morreu sem filhos, sem herdeiros de
seu​ ​sangue.
Nove dias depois, três dragões foram vistos nos céus acima de Porto Real. A Princesa Rhaena
retornara, e com ela seu irmão Jaehaerys e a irmã Alysanne. A mãe deles, a Rainha Viúva Alyssa,
chegou quinze dias depois, cavalgando com o Senhore de Ponta Tempestade à frente de um
grande exército, os estandartes tremulando. Os plebeus aclamaram. Corvos foram enviados para
todos os castelos do reino, convidando todos os senhores, grandes e pequenos, a vir a Porto Real
para​ ​testemunhar​ ​a​ ​coroação​ ​do​ ​novo​ ​rei,​ ​o​ ​legítimo​ ​rei.

E​ ​eles​ ​vieram.

Em 48 AL, diante dos olhos dos deuses e homens e de metade dos senhores de Westeros, o Alto
Septão de Vilavelha pousou a coroa dourada do pai sobre a cabeça do jovem príncipe e o
proclamou Jaehaerys da Casa Targaryen, Primeiro do Seu Nome, Rei dos Ândalos, dos Roinares e
dos primeiros Homens, e Senhor dos Sete Reinos. Sua mãe Alyssa agiria como regente nos
próximos anos de minoridade do rei, enquanto Lorde Rogar Baratheon era nomeado Protetor
do​ ​Território​ ​e​ ​Mão​ ​do​ ​Rei.​ ​(Meio​ ​ano​ ​depois,​ ​os​ ​dois​ ​se​ ​casariam.)

Coroado aos catorze anos, Jaehaerys sentaria-se no Trono de Ferro por cinquenta e cinco e, no
devido​ ​tempo,​ ​passaria​ ​a​ ​ser​ ​conhecido​ ​como​ ​“o​ ​Velho​ ​Rei”,​ ​e​ ​“o​ ​Conciliador”.

Mas​ ​esta​ ​é​ ​uma​ ​história​ ​para​ ​outra​ ​hora,​ ​para​ ​outro​ ​meistre.

Tradução​ ​amadora​ ​de​ ​“The​ ​Sons​ ​of​ ​the​ ​Dragon”,​ ​de​ ​George​ ​R.​ ​R.​ ​Martin.

Publicado nos Estados Unidos como um conto do livro “Book of Swords” pela
Bantam Books 2017 - Copyright © 2017 by George R. R. Martin. Todos os direitos
reservados.

Traduzido​ ​para​ ​fins​ ​de​ ​entretenimento.