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‘ENTRE PALAVRAS E COISAS’ E ‘LÍNGUA E REALIDADE’:

EM DIREÇÃO À UMA FENOMENOLOGIA DA LÍNGUA

Luis Henrique Pereira de Paula*

RESUMO

O presente trabalho tem por objetivo dialogar com a obra Entre Palavra e Coisas da
escritora Maria Sílvia Cintra Martins, atentando para a sua pesquisa da relação entre
as questões linguísticas de base saussuriana, especialmente daquelas relatadas no
Curso de Linguística Geral editado pelos alunos de Ferdinand de Saussure, e uma
abordagem fenomenológica da concepção da língua. Uma breve apresentação da
obra, assim como a definição de uma abordagem proposta pela autora serão
trabalhados no início de nosso texto para então atentarmos para a relação
desenvolvida nos âmbitos fenomenológicos e linguísticos do livro. Nas questões
filosóficas faremos uso de outros autores especificamente do campo da filosofia,
como Husserl, assim como do pensador tcheco-brasileiro Vilém Flusser e de sua
concepção fenomenológica da língua, buscando uma maior compreensão nas
questões que se ligam diretamente ao contexto do CLG e desdobrando algumas
possibilidades deste campo fértil que nasce deste diálogo.

Palavras-chaves: Linguística, Fenomenologia, Curso de Linguística Geral

1 INTRODUÇÃO

O presente livro é uma adaptação e ampliação da dissertação de mestrado da


autora, lançado em 2002 pela Editora Unesp. O objetivo principal da obra é discutir o
sentido da dialética, passando pelos diálogos de Teeto e Crátilo, de Platão, até
chegar em uma leitura do Curso de Linguística Geral de Ferdinand de Saussure,
assumindo um conflito epistêmico e histórico entre a racionalização apolínea e o
dinamismo dionisíaco (o primeiro com uma visada à estabilização e unidade, o
segundo adotando a multiplicidade e a diferença) como método de análise,
compreensão e produção do saber. Nesta encruzilhada, Martins assume como
fundamento de seu diálogo diversos autores tais como Deleuze, Nietzsche, Hegel,
Marx, Husserl e Merleau-Ponty e traz seus insights sobre uma possível leitura
dialética em Saussure. Em sua introdução sucinta, Martins evita retomar a dialética
como repetição do modelo materialista histórico defendido por Marx, originado em

*Mestrando em Linguística e Semiótica. E-mail: contato@luisdepaula.com


Hegel, da união de contrários e de sua superação, em favor daquilo que ela
chamada de “diálogo...dentro do espírito próprio às retomadas dialéticas” (p. 16), na
qual se evita o erro “da afirmação a partir do negativo” (comum aos dois filósofos)
preferindo um “a complementaridade do afirmativo e do negativo, da posição
diferencial e da afirmação da diferença” (p. 17). Nesta posição dialética a autora,
junto do Deleuze, identifica Platão como origem desta opção dialética em meio ao
seu ‘deslizar’ do mundo das ideias e dos simulacros para o mundo das
representações. Analisar brevemente sua trajetória nas páginas de seu trabalho
para então ampliarmos a discussão e o diálogo a partir de suas conclusões, é o que
faremos nos tópicos que seguem.

2 A TRAVESSIA: TEETETO E CRÁTILO.

Neste capítulo encontramos a situação histórica dos debates acerca da Dialética na


difícil questão filosófica do Uno e do Móvel. E a própria concepção dialética nos
coloca em uma nova percepção da realidade marcada por tensões:

Na dialética, confirma-se essa vocação filosófica para o diálogo,


para o questionamento constante, a mobilidade, o inacabamento.
A lógica dialética faz que as próprias afirmações nesse campo já
se deem como negações parciais, como interrogações. Toda
afirmação é apenas uma abertura para um diálogo e o
pressentimento de que o que se afirmou será negado,
constituindo-se, nessa permanente sondagem, o prazer do filósofo
(p. 23).
O ponto principal para esta abordagem é a tentativa de unificar a cisão entre o
pensamento original, em sentido histórico, e antagônico, assim como seus ramos em
nosso período, que opunha Heráclito a Parmênides. A máxima de Heráclito ensina
que não se pode estar duas vezes no mesmo rio: nem o rio nem aquele que retorna
uma segunda vez são os mesmos. A concepção epistêmica dinâmica e de caráter
múltiplo tem assim sua gênese. Para Parmênides, porém, havia uma unidade
homogênea por trás de toda aparente heterogeneidade do real. Em meio ao debate
encontramos a abordagem dialética, propondo uma união entre o Uno e o Móvel, da
qual o diálogo entre Sócrates e Teeteto é tomado como ponto de partida para
apreensão de uma epistemologia e metodologia próprias. Muito além da forma
dialógica, ali, segundo a autora, encontramos perguntas e respostas em uma
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sondagem contínua, afirmações momentâneas prontas a serem negadas e um
trabalho constante e sinérgico daquilo que pode ser tomado como uno e múltiplo,
estável e móvel, continuamente.

Não cabe a nós aqui abordar minuciosamente a leitura que a autora faz do dialogo
travado em Teeteto, que se inicia pela definição de conhecimento, mas podemos
momentaneamente registrar alguns pontos importantes que respaldam a
metodologia e uma epistemologia propriamente dialética e, mais adiante, identificada
com a fenomenologia.

Vemos então, no livro, uma série de axiomas que são expostos pela autora
enquanto trata do conteúdo do diálogo, que listamos a seguir:

 Na dialética temos a busca por uma essência, algo uno e universal, que se
manifeste nas particularidades, ou nas palavras da autora, “uma aproximação
entre palavras e coisas” (p. 26).

 Também pela ótica dialética surge uma relação entre saber e não-saber que
vê no horizonte uma impossibilidade de conclusão final (p. 27).

 O uno é a afirmação do múltiplo. No movimento encontra-se a conservação,


na mudança está o ser, como no conceito de eterno retorno de Nietzsche
encontra-se a lei do eterno retorno (p. 29).

 É no mergulho fenomenológico que dialeticamente pode-se evitar o


relativismo do puro raciocínio lógico (cf. 30-31).

 A lógica dialética se distância da lógica formal uma vez que a primeira é feita
de avanços e recuos, e o filósofo trabalha em um diálogo denso no qual as
“palavras se entrecruzam” (p. 39) e são rebatidas; enquanto a última está
assentada sobre a ideia de fundamentos inquestionáveis que conduzem a
aporias diversas (p. 38).

 A apreensão de diferenças é o cerne do conhecimento para a dialética. “Só


quando apanhamos, num determinado objeto, o que o distingue dos demais,
é que apreendemos sua explicação ou definição (p. 43)”.

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 O conhecimento é formulado em um constante desapego, no qual a dúvida
insistente e o questionamento radical lançam as respostas da tradição, e
consequentemente do discurso lógico e analítico por terra, sendo, pois, estes
últimos construídos argutamente de forma abstrata e sem contato com o real
(p. 45).

 A dialética não é mera arte do diálogo, mas tem uma natureza própria e
corrosiva que se substancia na dúvida, seu método abnega uma
compreensão analítica em favor de uma de natureza sintética (p. 46).

O diálogo aqui então se move em direção ao Crátilo em busca das definições das
palavras como serviçais de todas as ciências. É preciso avaliar, na discussão
iniciada pela autora na análise do Teeteto, se elas possuem algum vínculo com a
realidade, apelando agora dialeticamente para as coisas mesmas, ainda que
virtualmente isso seja impossível. Mas, é em tal aproximação e no ato de deter-nos
sobre a inacessibilidade ou não da verdade das coisas que se coloca um novo
diálogo de Sócrates em debate. Listamos também a seguir os principais axiomas
desta nova incursão da autora:

 Temos na perspectiva do século XX a consolidação da concepção de


Hermógenes, de que o convencionalismo, a definição arbitrária da linguagem
(conforme Aristóteles, Descartes, Whitney e Saussure posteriormente) é a
norma vigente, e não a relação apropriada entre as palavras e as coisas
(segundo Crátilo) (p. 48).

 Sócrates estabelece a relação da essência das coisas com algo das palavras,
guardando algum vínculo essencial entre ambas e que convém nomear de
modo adequado, sendo esta uma tarefa muito difícil do legislador (p. 49-50).

 Sócrates então antagoniza Saussure quanto ao convencionalismo assim


como na proposta de investigação, uma vez que evoca a busca de uma
origem plausível para a formação das primeiras palavras (p. 54).

 O filósofo ainda reconhece que é forçoso que haja sempre uma semelhança
entre as palavras e as coisas representadas, mas sustenta que “sem dúvida
alguma, o ideal seria que todas as palavras ou a maioria delas, fossem

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semelhantes, isto é, apropriadas às coisas designadas; o pior serio o
contrário disso” (p. 56).

 A autora evoca uma traição de Saussure no CLG, que nega-se a discutir a


própria relação da linguagem com as coisas, em favor de uma abordagem da
língua como sistema, para então aproximá-lo de Sócrates: “Cumpre notar que
definimos as coisas e não os termos... toda definição a propósito de um termo
é vã; é um mau método partir dos termos para definir as coisas. (SAUSSURE,
1975, p. 22)”

 O Crátilo então é tomado como fechamento (ou abertura) da tensão entre


Saussure e Platão, no qual o filósofo e escritor dos diálogos, diverge da
tradição saussuriano que toma a língua em si e o sistema de arbitrariedades
do universo semiológico como distinto daquele que é feito na vida real,
buscando a significação e origem das essências das coisas (p. 60-61).

 O pensamento da autora então entrecruza Bakhtin e Vygotsky na busca por


uma relação dialética que promova a síntese das duas tendências pela
compreensão do desenvolvimento linguística das etapas mais concretas ao
âmbito conceitual no desenvolvimento da fala e das crianças (p.65-68).

 Nas páginas finais desta seção a autora evoca o misto proposto Marleau-
Ponty ao “chamar o passado para o presente, mostrar que elementos do
passado persistem no presente, chamar mito e realidade, convocar palavras e
coisas – eis uma missão que nos parece reservada e que o passado nos
deixou como legado e como desafio” (p. 72).

3 SAUSSURE, A FENOMENOLOGIA E A DIALÉTICA DA DIFERENÇA

É a partir deste ponto que a autora começa a desenvolver uma relação mais
clara entre Saussure e Husserl, Merleau-Ponty e Deleuze, fazendo uso de uma
redução fenomenológica calcada nesta proposta antimetafísica e antiespeculativa do
século XX. Seu objetivo é que “por meio da intencionalidade, da dissolução do
Sujeito no Objeto” (p. 80) se estabeleça o vínculo entre palavras e coisas,
mergulhando na coisa mesma e compreendendo que tudo se dá como fenômeno “(o
objeto só existe como objeto para o Sujeito e este só existe enquanto visa o objeto)”

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(p. 81). Tal mergulho exige um abandono de preconceitos e até mesmo “do próprio
revestimento linguístico” (ibid.). Em uma postura dialeticamente cartesiana e não-
cartesiana que coloca o mundo entre parênteses, chega-se ao cogito tácito, onde o
cogito clássico é afirmado e negado para poder expandir-se. Cria-se assim uma rede
conceitual de intersubjetividade, no qual o Eu só se compreende em função do
Outro. Na metodologia proposta por Pos, segundo Martins, a fenomenologia é
situada no campo do real, e direciona-se a resolver o problema do idealismo
levantado contra Husserl, com alguns postulados que rejeitam a subjetividade
transcendental e definem a realidade da experiência natural, sem recorrer a
experiência subjetiva como fonte de conclusões ulteriores, mas é na existência se
encontram padrões constantes que são as essências; sendo a realidade um dado
rico, mas difícil de ser acessado em função de nossos preconceitos e de valores
pretensamente universais (entre outros) (p. 87). É útil destacarmos um trecho:

A fenomenologia não pode, pois, reconduzir-nos a um mundo das


transcendências após ter negado a idealidade psicológica. [...]
Para fenomenologia dizer que há uma verdade significa que,
quando meu ato encontra o projeto antigo ou alheio e a expressão
libera o que estava cativo, na espessura do tempo pessoal e
interpessoal se estabelece uma ‘comunicação interior’ pela qual
nosso presente torna-se a verdade de todos os outros momentos
e tentativas de conhecimento. Essa verdade existe como um
‘limite’ que atesta que nesse momento aconteceu alguma coisa
que se esperava ou se queria dizer havia muito tempo (p.89).

A noção de valor de Saussure e intersubjetividade de Husserl são então


desenvolvidos na perspectiva dialética e como conciliação de opostos, de onde
conclui que quanto ao valor linguístico, que estabelece que na língua não há valores
positivos, mas somente negativos e diferenças, tal pensamento está em posição de
equiparação com o Sujeito husserliano que só existe em relação com o Outro.

Passando por outros trechos do Curso a autora chega a uma síntese da


dialética saussuriana, e da fenomenologia do signo linguístico percebendo
“coexistência de elementos contrários”, “elementos negativos (diferenças) e positivos
(distinções); eixo vertical (relação significante/significado) e horizontal (relação de
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signo a signo); arbitrariedade e necessidade” assim como “mutabilidade e
imutabilidade (ou mudança e conservação)” (p. 124).

Em essência, a síntese da fenomenologia linguística saussuriana não avança


em direção a uma superação ou etapa posterior avançada, mas puramente “furtiva e
caótica” (p. 125). Há aí um jogo dialético de determinismo e indeterminismo, do
externo e do interno e da interdependência de todos os elementos constitutivos da
língua, tendo um caráter histórico e dinâmico sendo o indivíduo produto-produtor e
ativo-passivo (p. 125). Tal caráter afasta esta dialética da husserliana (sem tal
qualidade histórica e dinâmica), assim como da hegeliana e marxista (de movimento
ascendente e evolutivo). E, portanto, “pela ótica dialética, vislumbramos um universo
linguístico vivo, dinâmico, atravessado pelo tempo e pela realidade sociocultural.
Dionisíaco” (p. 127), e muito diferente da leitura tradicional estática, imóvel,
descolada da história e da sociedade muito mais Apolínea. A autora finaliza
reconhecendo as duas tendências no Curso e reforçando o papel da fenomenologia
em seu ponto de vista científico de desenvolver esta qualidade mista para o avanço
de novos paradigmas (p. 128).

4 UM DIÁLOGO INICIAL COM OUTRA FENOMENOLOGIA DA LÍNGUA

Dadas as análises pontuadas na pesquisa traçada no livro, temos como


interesse desenvolver algumas das percepções da autora quanto a uma abordagem
dialética e fenomenológica da linguagem evocando alguns trechos de Vilém Flusser,
filósofo tcheco-brasileiro, em Língua e Realidade (1963), obra na qual temos uma
apresentação também fenomenológica das questões da língua.

O nome de Flusser não só nos é convidativo por ser ele um exilado da guerra
radicado no Brasil, mas por vermos na obra em questão uma publicação a ser
explorada, uma vez que suas publicações seguintes projetam seu nome em
destaque no campo da comunicologia e das mídias (HANKE, 2004, 2013),
transferindo o peso de suas análises da língua para desdobramento em outros
campos. Como pretende-se mostrar, o diálogo com a obra seminal de seu
pensamento, publicada em português e em solo brasileiro, pode ser um frutífero
diálogo com as questões aqui levantadas. Em uma abordagem comparativa
poderemos verificar ainda postulados e concepções de Saussure que recebem e

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lançam luz na fenomenologia da língua flusseriana. Mas antes, devemos nos ater
brevemente a suas origens epistêmicas, sua formação intelectual, e sucintamente
situar o ponto em comum entre Flusser e a análise de Martins: seu diálogo frequente
com a fenomenologia de Edmund Husserl.

Eva Batlickova nos é bastante útil, ao traçar as origens de Flusser e de sua


formação intelectual:

Vilém Flusser nasceu em Praga, na antiga Tchecoslováquia, em


1920. Naquela época, Praga era um dos centros culturais da Europa.
A Universidade Carolíngia já no início do século vinte atingiu alto
nível científico, acolhendo grandes personalidades: entre 1901‐1906,
estudou Franz Kafka, na Faculdade de Direito; em abril de 1911
Albert Einstein se tornou professor de física teórica, atuando 16
meses; e também Edmund Husserl aceitou vários convites para
palestrar na Universidade Carolíngia. Em 1926, professores tchecos
e estrangeiros fundaram o Círculo Lingüístico de Praga, baseando
suas teorias no estruturalismo de Ferdinand de Saussure, opondo‐se
ao atomismo da escola lingüística histórica alemã. (BATLICKOVA,
2008).

Segundo a autora, Flusser ingressa na Universidade Carolíngia, mas, com o


seu fechamento pelos nazistas – que fecham as universidades tchecas em
novembro de 1939 – ele emigra de Praga para Inglaterra e, um ano depois, para o
Brasil.

É altamente provável que, por vir de família culta e abastada, Flusser tivesse
conhecimento das principais correntes filosóficas de sua época, e seu contato com a
fenomenologia, especialmente de Edmund Husserl e a filosofia da linguagem dela
decorrentes se deram neste contexto.

É a partir da fenomenologia como corrente filosófica, iniciada com Edmund


Husserl, que o projeto epistêmico daí advindo tem por objetivo a superação da
dicotomia entre idealismo e realismo. Tal abordagem parte, conforme Husserl, de um
método de descrição básica da experiência, tomando como eixo central a noção de
intencionalidade na qual a consciência é reconhecida fundamentalmente como
consciência de algo.

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A separação entre sujeito puro e objeto puro na fenomenologia é descartada
em função de uma compreensão de que ambos estão relacionados no “ato de
consciência, noesis, onde os objetos de constituem” (BATLICKOVA, 2008, p. 174).
O que reconhecemos então por realidade são fenômenos puros.

“Conseguimos alcançar estes fenômenos pelo método da redução


fenomenológica, sendo parte importante dela a époche, ou seja, a
suspensão de nossas crenças habituais sobre as coisas e o mundo,
que não é nada mais do que nossos preconceitos, que estamos
recebendo desde a infância e continuamos a receber via discurso
científico tradicional. Époche é um método que coloca nosso saber
sobre o mundo entre parênteses para, livres do saber
preconceituoso, enfrentarmos os fenômenos das coisas.”
(BATLICKOVA, 2008)

Husserl ainda propôs uma eidética (eidos = coisa), na qual seria possível
chegar a essência da coisa como ela nos é apresentada na percepção. Assim a
verdade, que seria a essência das coisas como captadas na percepção imediata,
seria alcançável pela intuição; do mesmo modo, a subjetividade poderia ser exposta
ao mesmo método alcançando assim um sujeito transcendental.

Este ponto crítico, destacado como o apego de Husserl ao


transcendentalismo por seus pares, desencadeou em Martin Heidegger (seu aluno e
maior crítico) o desenvolvimento do existencialismo. É interessante notar que
Martins em sua abordagem defende a proposta de Husserl (ainda que faça uso do
arremedo de Pos para a fenomenologia) apelando para o conceito de
intersubjetividade.

5 A FENOMENOLOGIA E O PONTO SENSÍVEL DAS ARBITRARIEDADES DA


LÍNGUA

O que podemos enxergar em Flusser, especialmente em língua e


realidade é um diálogo avançado com a fenomenologia, um desenvolvimento de
alguns postulados de Husserl, especialmente no que diz respeito seu logocentrismo
quanto a realidade:

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“O que transforma o caos em cosmos é a possibilidade de
conversação, é o vai e vem da língua. (...) O intelecto em
conversação conserva e aumenta o território da realidade.
Realizando-se, realiza”. (FLUSSER, 2004, p. 47)

Segundo JUNIOR e CAPELA (2016, p. 62):

Para Flusser, aquilo a que damos o nome de realidade chega


até nós através de duas formas: dados brutos e palavras. Em
princípio, poderíamos separar, dicotomicamente, os dados brutos ou
imediatos (a “realidade”) e as palavras, que nomeariam os dados
brutos. Teríamos a ideia de uma língua que descreve o mundo
objetivamente. No entanto, ele adverte que os dados brutos
alcançam o intelecto somente em forma de palavras. Sendo assim,
torna-se possível afirmar “que a realidade consiste de palavras e de
palavras in statu nascendi” (Flusser, 2007, p. 49).

Assim os dados brutos podem existir, mas eles só chegam a mente por meio
de palavras. Alguma realidade externa à língua para a qual a língua poderia apontar,
para Flusser, seria então impossível. “A língua, com seu significado e suas regras, é
o ‘dado’ por excelência” (Flusser, 2007, p. 56)

Para Flusser, eu e não-eu (realidade e subconsciente) são revelados nas


multiplicidades das línguas, que são representativos acerca da relatividade das
categorias de pensamento.

“Eu e não-eu são os horizontes ontológicos de toda língua, e


portanto inatingíveis, embora parcialmente articuláveis. Como
hipóteses extralinguísticas, podem ser eliminados do horizonte da
conversação.” (JUNIOR e CAPELA, 2016, p. 62).

“Essa é uma marca do pensamento flusseriano: considerar


também a conversação científica como língua, e, consequentemente,
como uma modalidade de ficção. O mesmo ele dirá da filosofia,
quando afirma que a verdadeira filosofia participa da camada de
conversação da poesia” (JUNIOR e CAPELA, 2016, p. 63).

É neste sentido que podemos enxergar em Flusser uma postura


fenomenológica, em seu viés linguístico, distinta da abordagem de Martins. Seu
apelo para a realidade da língua como único acesso a realidade, conforme
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amplamente sustentado e demonstrado por sua análise das línguas flexionais,
aglutinantes e isolantes (assim como do português, tcheco, francês, alemão e inglês)
parece tornar a proposta de busca pela relação entre palavras e coisas um tanto
quanto virtual. O caráter arbitrário é bastante asseverado por Flusser. Entretanto,
como veremos adiante, parece haver uma postura flusseriana que converge com
aquilo que é postulado por Martins em seu diálogo fenomenológico com Husserl e
Saussure, uma vez que ao instaurar a busca por uma relação mais profunda entre
palavras e coisas, temos por parte da autora uma atitude similar (mas de motivação
diversa) daquela iniciada por Flusser: ao estabelecer o horizonte da língua e as suas
múltiplas camadas nas quais a conversação (e a própria língua) se desenvolvem, o
filósofo nos mostra um padrão dinâmico de expansão da língua e consequentemente
da realidade. Aqui percebemos que as palavras finais de Martins, reconhecendo
uma dinâmica na dialética de Saussure (sem os idealismos de superação constante
da dialética materialista), um ponto de contato com o modelo expansivo de Língua e
Realidade. Outro fator em comum é a crítica constante de Martins paras as
virtualidade do sistema linguístico como puramente abstrato e conceitual, descolado
da realidade das coisas, algo que na visão de Flusser nos coloca no polo do indizível
(nada), no qual abstrações assumem uma codificação do mundo tão asseverada e
em que a própria língua passa a ser autorreferente.

Retornando para Saussure, observando alguns trechos do Curso, lemos com


Saussure, que “...é necessário colocar-se primeiramente no terreno da língua e
tomá-la como norma de todas as outras manifestações da linguagem”. (SAUSSURE,
2006, p. 16). Assim como, podemos ressaltar outros recortes para chegarmos em
algumas conclusões provisórias:

Os signos linguísticos, embora sendo essencialmente psíquicos,


não são abstrações; as associações, ratificadas pelo consentimento
coletivo e cujo conjunto constitui a língua, são realidades que têm
sua sede no cérebro. (SAUSSURE, 2006, p. 23).

Há, inicialmente, a concepção superficial do grande público: ele vê


na língua somente uma nomenclatura [...], o que suprime toda
pesquisa acerca de sua verdadeira natureza. (SAUSSURE, 2006, p.
25)

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A língua é um sistema de signos que exprimem ideias, e é
comparável, por isso, à escrita, ao alfabeto dos surdos-mudos, aos
ritos simbólicos, às formas de polidez, aos sinais militares etc., etc.
Ela é apenas o principal desses sistemas. (SAUSSURE, 2006, p. 24)

Se se quiser descobrir a verdadeira natureza da língua, será


mister considerá-la inicialmente no que ela tem de comum com todos
os outros sistemas da mesma ordem; e fatores linguísticos que
aparecem, à primeira vista, como muito importantes (por exemplo: o
funcionamento do aparelho vocal), devem ser considerados de
secundária importância quando sirvam somente para distinguir a
língua dos outros sistemas. (SAUSSURE, 2006, p. 25).

Portanto, ao criticar a ideia de língua como nomenclatura Saussure destaca


aspectos fundamentais para nossa compreensão do Curso e dos estudos
linguísticos que ele propunha:

 A impossibilidade de haver ideias anteriores às palavras.

 Que tal visão ignora a distinção da natureza vocal ou psíquica da


palavra.

 É errado supor que o vínculo entre uma coisa e um nome seja algo
simples.

 O signo linguístico então é concebido como um conceito associado a


uma imagem acústica (significante e significado).

No esclarecimento dos organizadores:

Para F. de Saussure, porém, a Língua é essencialmente um


depósito, uma coisa recebida de fora (ver p. 21). A imagem acústica
é, por excelência, a representação natural da palavra enquanto fato
de língua virtual, fora de toda realização pela fala.

[...]

Assim, para Saussure, somente as vinculações consagradas pela


língua nos parecem conformes à realidade, “e abandonamos toda e
qualquer outra que se possa imaginar” (SAUSSURE, 2006, p. 80).

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Ressaltam-se, e enfatizamos aqui, os dois grandes princípios do signo
linguístico: (1) sua arbitrariedade e (2) o caráter linear do significante.

APROXIMAÇÕES E DISTANCIAMENTOS

A ideia central do segundo capítulo do livro de Flusser remete ao fato de que


todo o pensamento ocidental e seus problemas filosóficos são fruto das variações de
língua: cada uma delas possui características e apresenta a realidade de uma forma
distinta. “Cada língua é um mundo diferente, cada língua é um mundo inteiro, e
diferente de toda outra língua” (FLUSSER, 2004, p. 128).

Neste ponto podemos ver uma distinção entre ambos. O sistema linguístico
com peças intercambiáveis não cabe para Flusser, que desenvolve uma abordagem
que caminha na mesma direção da hipótese Sapir-Whorf. O diálogo com Martins
pode ser ainda problemático por ter Flusser abertamente optado pela arbitrariedade
da língua enquanto ela buscou ancorar-se em uma fundamentação no viés platônico
convencionalista.

No capítulo terceiro Flusser destaca a língua como única realidade alcançada


pelo intelecto, fixada em um horizonte de conversação entre dois polos do indizível,
que ficam aquém ou além do único horizonte possível que é a língua: o balbuciar
(nada) e a oração (nada). Para Flusser os mitos, a música, a pintura, a matemática
são a expressão máxima da língua, desenvolvida por um exército de intelectos em
conversação que busca estender em todas as direções o território da realidade.
Especialmente a poesia assume um local de destaque no polo superior, uma vez
que ela se sobrepõe à muitas das ‘conversações’ estabelecidas nas diversas línguas
(aqui entenda-se que na visão flusseriana até mesmo a ciência e a matemática
envolvem códigos e sistemas de abstração da realidade, residindo estas, portanto,
no amplo espectro das línguas humanas pelas quais traduzimos a realidade).

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Cabe aqui uma distinção de Saussure (que não se ocupa de tais questões) e
uma alusão ao Círculo de Praga, que valorizava a estrutura da obra de arte como
um referencial para questões linguística.

“A língua, tal qual somos, tal qual ela se derramou até nós para
formar-nos, é o acúmulo de toda a sabedoria, de todo esforço
criador, de todas as vitórias e de todas as derrotas dos intelectos que
nos precederam.” (FLUSSER, 2004, p. 188).

A preocupação de Flusser com a conversação na história (civilização) é


totalmente distinta da abordagem de Saussure em seu viés, método e objetivos.
Flusser aqui se direciona para o desenvolvimento de realidades (compreensões) dos
intelectos em conversação e rumo às outras áreas do saber. Tal modelo
fenomenológico pode muito bem ser entrecruzado com o diálogo estabelecido por
Martins, uma vez que seu solo comum é estabelecer uma relação mais concreta
com a língua e com o mundo, por meio de uma abordagem dialética,
fenomenológica e marcada por uma dinamicidade comum a Flusser e Saussure.

CONCLUSÃO

O pensamento e a abordagem abrangentes de Flusser podem ser ricamente


aproveitados para novas comparações com os estudos linguísticos em suas

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confluências e distinções, especialmente quando integrados as pesquisas de base
fenomenológicas.

A pressuposição de língua como sistema em Flusser é um importante elo com


as correntes da linguística de viés estruturalista, carecendo hoje de pesquisa
científica.

As correlações entre o Estruturalismo Checo, o Estruturalismo Sapiriano e as


interações possíveis da linguística com a comunicologia no pensamento de Vilem
Flusser são um campo aberto para novas investigações. Seus apontamentos podem
ser tanto positivos para novas descobertas e insights nas diversas teorias, quanto
para a formulação de uma visada fenomenológica que teve sua origem inicial em
língua portuguesa, antes mesmo da chegada da tradução brasileira do Curso de
Linguística Geral.

Nossa breve incursão, trazendo apontamentos e colocando em diálogo a


proposta fenomenológica de Martins, Flusser e seus diálogos peculiares com
Saussure podem ser suspensos, na expectativa de que outros desdobramentos e
abordagens in loco tratem com a devida profundidade e extensão a importância
deste diálogo.

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REFERÊNCIAS

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Linguística. São Paulo: Contexto, 2013, p. 21-44.
BATLICKOVA, Eva. Em Busca dos Fundamentos do Pensamento de Vilém
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FLUSSER, Vilém. Língua e Realidade. São Paulo: Annablume, 2007.
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