Você está na página 1de 9

A PAZ QUE NASCE

DE UMA
NOVA JUSTIÇA

2012-2013
UM ANO DE IMPLANTAÇÃO DA JUSTIÇA RESTAURATIVA Coordenação: Leoberto Brancher I Reportagem: Caroline Pierosan I Projeto gráfico: Tati Rivoire I Revisão ortográfica: Fátima De Bastiani
COMO POLÍTICA DE PACIFICAÇÃO SOCIAL EM CAXIAS DO SUL
A PAZ QUE NASCE DE UMA NOVA JUSTIÇA

2012-2013
UM ANO DE IMPLANTAÇÃO DA JUSTIÇA RESTAURATIVA
COMO POLÍTICA DE PACIFICAÇÃO SOCIAL EM CAXIAS DO SUL
Sumário
Lentes restaurativas: um novo foco sobre os conflitos e os crimes 7
O que é a Justiça Restaurativa e por que ela é tão transformadora?
Entenda as principais diferenças entre a JR e o processo penal tradicional

A paz que nasce de uma nova Justiça 11


Modelo Restaurativo de Justiça inspira política pública pioneira em Caxias do Sul

Um lugar para buscar justiça na comunidade 27


Núcleo de JR tem por objetivo difundir as práticas restaurativas na solução de conflitos com a participação das famílias, amigos e comunidades

Central Judicial: Laboratório e Centro de Difusão 31


Casos judicializados têm oportunidade de encontrar um novo desfecho com as práticas restaurativas

Justiça que se aprende na infância 39


Conviver pacificamente, vivenciar valores positivos e aprender a relacionar-se com o diferente é o caminho para uma vida de paz

Justiça como poder da comunidade 47


Promover a Cultura da Paz em meio à comunidade da Zona Norte – região conhecida pelo contexto violento – é o desafio da
Central Comunitária

Voluntariado pulsa no coração da JR em Caxias do Sul 53


Ajudar a criar um mundo de paz e um planeta mais seguro é apenas uma fração do orgulho que um voluntário sente ao doar seu
tempo para uma causa em que acredita

Desmistificando os Círculos de Construção de Paz 61


Um processo que parece ser demorado mas que é, na verdade, mais econômico e rápido que o tradicional e na maioria dos casos
promove resultados estáveis

Kay Pranis avalia processo de implantação de JR em Caxias do Sul 67


Referência mundial em Círculos de Construção de Paz mostra-se impressionada com a amplitude da utilização das práticas
restaurativas na cidade

Fundação Caxias aproxima sociedade civil da JR 73


Entidade quer conscientizar empresários de que a promoção da Cultura de Paz é, também, responsabilidade do setor. Fundação
pretende manter gestão financeira do Núcleo de JR

UCS planeja pesquisa e ensino de Justiça Restaurativa 77


Em 2014 devem ser desenvolvidos cursos de extensão e pesquisa científica, com o intuito de produzir publicações internacionais
sobre a experiência pioneira da JR como Política Pública em Caxias do Sul

Município assume a JR como Política Pública de Pacificação Social 81


Prefeito e Secretário de Segurança reafirmam a importância de uma Lei Municipal para que a Justiça Restaurativa se torne prática
permanente na cidade e asseguram suporte ao projeto

Judiciário gaúcho institucionaliza e expande a JR como alternativa de solução de conflitos 85


Artigo de Leoberto Brancher, Juiz de Direito

ANEXO – RELATÓRIO DE MONITORAMENTO 89


A INTRODUÇÃO DA JUSTIÇA RESTAURATIVA EM CAXIAS DO SUL
Ana Caroline Montezano Gonsales Jardim
Cidades de Paz
As páginas a seguir contam a história da criação de uma política pública baseada
nos princípios e nas práticas da Justiça Restaurativa na cidade de Caxias do Sul,
Rio Grande do Sul.

A construção é uma confluência de várias contribuições e várias histórias.


Recapitulando nossas origens, vamos contar um pouco sobre o início da Justiça
Restaurativa no Rio Grande do Sul e, por via reflexa, no Brasil. Entremeamos
relatos de casos com noções sobre esse novo modelo de Justiça, ao lado de
definições estratégicas do programa local. Enfim, contamos sobre o passado e
o presente para anunciar nossos sonhos de futuro. Porque é disso que se trata:
um empreendimento dedicado a tornar um sonho em realidade. Por isso não
disfarçamos nossa intenção de contagiar. Ao contrário, essa publicação é um
convite à solidariedade. Para sonhar junto.

Apesar de tudo, nosso relato é pé no chão. E, assim é também, principalmente,


uma história de desafios.

A aliança institucional que lidera a proposta por si só já representa um desafio, ao


unir pela primeira vez Poder Judiciário, Prefeitura Municipal, Universidade e uma
Fundação privada em torno de um horizonte tão incomum quanto promissor: o de
promover a Justiça como Poder da Comunidade.

Vistas assim, as histórias que compõem a história objeto desse relato são fruto do
esforço de uma pequena multidão de pessoas que podem parecer anônimas, mas são
elas que verdadeiramente assinam e iluminam cada linha dessa trajetória.

Por fim, como nos une o propósito universal de promover a paz, é nosso desejo
que nossa cidade não caminhe só, mas esteja unida a um conjunto cada vez maior
de Cidades de Paz e de Cidadãos pela Paz, formando um autêntico movimento
da cidadania democrática em que o direito à palavra e o poder de coesionamento
social se exerce de baixo para cima e de dentro para fora, com o objetivo de
RESTAURAR A JUSTIÇA E A PAZ no nosso País.

Alceu Barbosa Velho


Prefeito Municipal de Caxias do Sul
Leoberto Brancher
Juiz Coordenador do CEJUSC
Isidoro Zorzi
Reitor da UCS
Paulo Poletto
Presidente da Fundação Caxias
A Justiça Restaurativa (JR) é uma nova forma de lidar com a questão
dos conflitos e dos crimes, centrada mais nas pessoas e nos relacionamentos
do que nas questões jurídicas. Antes que discutir questões legais, culpados
e punições, a JR promove intervenções focadas na reparação dos danos, no
atendimento das necessidades da vítima, na corresponsabilização do ofensor,
sua família e pessoas do seu relacionamento, tudo visando à recomposição do
tecido social rompido pela infração e o fortalecimento das comunidades.

O professor Howard Zehr, com sua obra “Trocando as Lentes – Um novo


foco sobre o crime e a justiça”, é considerado um dos principais mentores
da teoria restaurativa no mundo. Para ele, a grande diferença entre a Justiça
Restaurativa e a tradicional está na abordagem. A justiça tradicional trabalha
com três perguntas básicas: que lei foi infringida? Quem infringiu? Que
Para o Professor Zehr, o sistema castigo merece? É punitiva e gira em torno de questões legais. A Justiça
tradicional de Justiça penal Restaurativa se preocupa com questões como: Quem sofreu o dano?
dificilmente estimula o ofensor a O que essa pessoa precisa para que esse dano seja reparado? Quem tem a
compreender as consequências responsabilidade por melhorar a situação? É reintegrativa e se preocupa com
de seus atos ou desenvolver em- as pessoas e com os relacionamentos.
patia em relação à vítima. Pelo
As deliberações dos envolvidos num encontro estruturado e orientado por
contrário, exige que o ofensor
um facilitador podem servir como alternativa ou complemento às soluções
defenda os próprios interesses.
do sistema de justiça formal. O diálogo a respeito do problema pode servir
De acordo com Zehr, no sistema
de apoio aos participantes, auxiliar na solução, evitar a propagação de
tradicional o réu é desestimulado
conflitos, reduzir a reincidência e contribuir para o coesionamento da vida
a reconhecer sua responsabilidade
comunitária.
e tem poucas oportunidades de
agir de modo responsável concre- A JR propõe que os ofensores devem entender as consequências de seu

Lentes restaurativas: um novo foco tamente. Zehr afirma que o senso


de alienação social só aumenta
comportamento. Além disso, devem assumir a responsabilidade de corrigir a
situação na medida do possível, tanto concreta como simbolicamente. Zehr

sobre os conflitos e os crimes ao passar pelo processo penal e


pela experiência prisional.
afirma que a verdadeira responsabilidade consiste em olhar de frente para os
atos praticados, significa estimular o ofensor a compreender o impacto de
seu comportamento, os danos que causou – e instá-lo a adotar medidas para
corrigir tudo o que for possível.

Moldadas sob a alta exigência do acertamento de relações feridas por fatos

O que é a Justiça Restaurativa e por que ela é tão graves, como crimes, as práticas da Justiça Restaurativa têm se mostrado
eficientes na pacificação da mais ampla gama de conflitos: brigas em família,
transformadora? Entenda as principais diferenças entre maus comportamentos escolares, desentendimentos nos locais de trabalho,
confronto entre presos e até disputas por terras.
a JR e o processo penal tradicional
7 8
Caxias da Paz
JUSTIÇA RETRIBUTIVA JUSTIÇA RESTAURATIVA

Culpa Responsabilidade
Perseguição Encontro
Imposição Diálogo
Castigo Reparação do Dano
Coerção Coesão

Círculos Restaurativos
Os encontros restaurativos são organizados em formato de círculo, e para ele
são convidadas as pessoas envolvidas ou afetadas, ou que possam ajudar na
solução do problema – infratores, vítimas, seus familiares e comunidades.
Habitualmente excluídos dos processos de Justiça, ou quando muito apenas
ouvidos como meio de prova judicial, no processo restaurativo eles são Os principais objetivos da Justiça
chamados a expressar seus pontos de vista, sentimentos e necessidades e, Restaurativa incluem a RESPON-
principalmente, propor soluções para corrigir as coisas. SABILIZAÇÃO DO OFENSOR, com
apoio da sua família, amigos e
pessoas da sua comunidade, ob-
jetivando restaurar relaciona-

Resultados Restaurativos mentos e consertar as coisas.


A REPARAÇÃO DOS DANOS, direta
Satisfação da vítima: fortalecer a posição das vítimas, em consideração às suas necessidades, ou indiretamente, visa a atender
visando à superação da experiência traumática e buscando formas pelas quais o ofensor reconheça às NECESSIDADES DA VÍTIMA, e
o impacto de suas ações e, tanto quanto possível, repare os danos causados. dos demais atingidos pela vio-
lação. E um acordo ou plano de
Redução da reincidência: proporcionar que o ofensor compreenda o efeito de seu comportamento, comportamentos futuros costuma
o desvalor da sua conduta e se abstenha de repeti-los, oferecendo-lhe a oportunidade de ouvir a ser elaborado a fim de fortalecer
vítima, que poderá manifestar seus sentimentos e apresentar seus pleitos por reparação. vínculos afetivos e laços sociais,
promovendo o COESIONAMENTO
Coesão comunitária: prevenir a escalada de um conflito de menor potencial ofensivo para eventos DA COMUNIDADE.
de maior gravidade, restaurar o senso de corresponsabilização e de pertencimento a uma “co-
munidade” na qual os ofensores reparam o dano feito diretamente ao indivíduo ou à vizinhança,
permitindo que haja reintegração e a volta à normalidade.

Redução dos gastos públicos: otimizar as verbas públicas despendidas com segurança, mediante a
simplificação e, quando apropriado, até mesmo a dispensa dos procedimentos formais em casos que
possam ser resolvidos no âmbito comunitário.

9 60
Justiça Restaurativa Caxias da Paz
C onsiderada por alguns uma filosofia, a Justiça Restaurativa já chegou a ser
definida como “uma prática à busca de uma teoria” – mostrando que a grande
vocação das ideias restaurativas é a de serem colocadas em prática. As práticas
restaurativas podem seguir diferentes metodologias, como a mediação vítima-
-ofensor, as conferências neozelandesas e australianas, as reuniões restaurativas norte-
-americanas, ou os Círculos de comunicação não violenta.

Os Círculos de Construção de Paz são o método restaurativo até aqui utilizado pelas
O objetivo dos Círculos é propor
Centrais do Núcleo de Justiça Restaurativa de Caxias do Sul. A metodologia é uma
uma nova forma de pensar os
das mais difundidas no mundo e foi desenvolvida a partir do final dos anos 70 pelo
conflitos, além de solucionar casos
Juiz canadense Barry Stuart, quando jurisdicionava territórios indígenas cujos povos
que correm risco de enfrentar uma
mostravam resistência em participar dos processos da justiça tradicional.
longa fila de espera nos fóruns
para concluir seus trâmites, Stuart partiu então das práticas de justiça adotadas nas tradições desses povos,
alcançar resultados incertos e modernizando-as e adaptando-as à aplicação judicial através do que inicialmente
nem sempre satisfatórios. A pro- denominava de “Círculos de Prolação de Sentença”. Nesses procedimentos, os
posta parte da certeza de que é processos seguiam o percurso normal até o julgamento, mas ao final o juiz, promotor

preciso resolver as desavenças por e advogado se reuniam num Círculo com a participação do ofensor, da vítima, suas

intermédio da responsabilização
famílias e comunidade, para decidirem juntos qual seria o conteúdo da condenação.
Essa experiência originou os Círculos de Construção de Paz como atualmente são
dos ofensores e da valorização dos
praticados.
sentimentos da vítima.
Um Círculo de Construção de Paz é uma “roda” formada por pessoas que
buscam, por meio do diálogo, alcançar um determinado propósito (compreensão,
restabelecimento, sentenciamento, apoio, construção de senso comunitário,
resolução de conflitos, reintegração ou celebração). De acordo com Kay Pranis,
precursora na aplicação desta prática restaurativa nos Estados Unidos, o formato

Desmistificando os Círculos espacial do Círculo (os participantes se sentam em cadeiras dispostas em roda, sem
mesa no centro) simboliza liderança partilhada, igualdade, conexão e inclusão.

de Construção de Paz
Também promove foco, responsabilidade e participação de todos.

A conversa entre o grupo é conduzida por um facilitador, que tem a função de


propor o debate. O facilitador não deve agir como professor ou impor uma solução
ou proposta. A ideia é que a solução, decisão, medida ou acordo, surja a partir da
contribuição de cada participante do Círculo. Para Kay, em um Círculo chega-se
Um processo que parece ser demorado mas que à sabedoria por meio das histórias pessoais. Ali, a experiência vivida é mais valiosa
do que conselhos. “Círculos são uma forma de estabelecer uma conexão profunda
é, na verdade, mais econômico e rápido que o entre as pessoas, explorar as diferenças ao invés de exterminá-las e ofertar a todos

tradicional e na maioria dos casos promove igual e voluntária oportunidade de participar, falar e ser ouvido pelos demais sem
interrupção”, explica Kay.

resultados estáveis
61 62
Caxias da Paz
Os Círculos usam cinco elementos estruturais para criar um espaço seguro onde as “Percebo que, em todos os casos, fim de avaliar se valerá a pena colocá-la frente a frente com a outra parte. Katiane
pessoas se ligam às outras de modo positivo, mesmo em circunstâncias de conflito, os Círculos conseguem trazer à luz Boschetti da Silveira, coordenadora da Central de Práticas Restaurativas da Infância
dano ou dificuldades. Esses elementos incluem: cerimônia, orientações, o objeto da uma forte expressão de sentimen- e da Juventude, percebe que muitas pessoas têm dificuldade em compreender que
palavra, coordenação/facilitação e decisões consensuais. O objeto da palavra passa de tos e sensações que normalmente preparar o Círculo demanda tempo. “Às vezes é necessário realizar vários pré-
mão em mão, de pessoa para pessoa, dando a volta na roda. O detentor do objeto são contidas. O grupo permite -círculos, antes de promover um Círculo com todos os envolvidos”, explica.
tem a oportunidade de falar enquanto os demais escutam sem pensar numa resposta, uma construção de espaço seguro
Em algumas situações, depois do pré-círculo, chega-se à conclusão de que ainda não
ou pode decidir oferecer um período de silêncio. “O objeto da palavra desacelera o e de confiança que consegue ser
é o momento de reunir aquele grupo de pessoas, que algo mais precisa ser feito antes
ritmo da conversa e estimula interações refletidas e cuidadosas entre os participantes. continente para a expressão do
Em virtude de somente uma pessoa poder falar de cada vez e de o objeto de fala se disso, ou até que a reunião geral não será necessária. “Por exemplo, uma briga
afeto, seja doloroso ou amoroso.
Kay Pranis defende que os Círculos
mover sucessivamente por todas as pessoas, duas pessoas que estejam em desacordo entre adolescentes com soqueiras. Os pais já estavam se ameaçando. Eu precisava
Embora a expressividade de afeto
podem ajudar adultos e jovens
não podem entrar numa altercação durante o momento da raiva”, explica Kay. seja profunda e intensa, os Círculos estar segura de que no espaço do Círculo não iria acontecer nada. Nos pré-
a se relacionarem superando os
também criam uma síntese indivi- -círculos outras pessoas envolvidas foram indicadas, por fim precisei fazer sete
No Brasil os Círculos já vêm sendo identificados como ferramentas de suma conflitos com base no diálogo e
dual e única para cada indivíduo pré-círculos. Para ter qualidade, esse trabalho demanda tempo de preparação”,
importância para as práticas restaurativas, com aplicabilidade em inúmeras áreas, na construção de relacionamentos
que consegue ancorar-se em uma explica Katiane. “Para você sentar em um Círculo e fazer com que as pessoas
por promoverem o encontro de seres humanos em sua essência e na mais profunda para promover a solução dos
síntese mais ampla e coletiva se abram é preciso criar um relacionamento, criar valores, estabelecer limites...
expressão da verdade. problemas. O processo envolve
produzindo Integração e Unidade. depois se fala do problema”, descreve.
todas as partes afetadas no intuito
Na Central Judicial de Pacificação Restaurativa, casos envolvendo crimes, disputas e Os eixos da Razão/Emoção/
de pacificar alguma situação de Paulo Moratelli, coordenador da Central Judicial de Pacificação Restaurativa
conflitos judicializados são tratados em Círculos. Para o psicólogo Paulo Moratelli, Sensação/Intuição são utilizados e
desavença, e segue um roteiro concorda que o pré-círculo é sempre importante para avaliar interesses,
coordenador da Central, embora seja um procedimento sofisticado, se comparado despertados, abrindo recursos dinâ-
estruturado que assegura a disponibilidade e segurança do procedimento e se o encontro vai ser produtivo.
com as audiências judiciais ou mesmo as reuniões de rotina dos serviços da micos nos indivíduos participantes,
autoexpressão e facilita a aproxi- “Uma das coisas que aprendemos é que não devemos pular etapas. Isso
rede socioassistencial, é preciso colocar em perspectiva que um processo judicial promovendo um amadurecimento
mação das pessoas, gerando um comprometeria todo o processo. Muitos casos terão uma condução melhor
demora muito mais do que um processo circular, já que precisa seguir o passo a individual e das relações. Tenho 29
ambiente seguro e protegido onde e serão mais resolutivos se as pessoas tiverem tempo para absorver o que
passo previsto no Código de Processo Penal. “O Círculo envolve um atendimento anos de profissão e posso garantir
é possível abordar e propor solução aconteceu. Assim elas terão mais clareza do que estão fazendo no Círculo”,
pessoal demorado, mas no curso do tempo, ele alcança uma solução muito mais que poucos instrumentos conse-
para as questões mais difíceis. justifica Moratelli. O psicólogo defende que o que pode parecer uma demora
rapidamente. Às vezes em um único Círculo você resolve e pronto, enquanto um guem gerar resultados curativos e
processo pode demorar anos”. no atendimento é na verdade uma medida de precaução para fazer com que o
eficazes para tantas situações tão
Círculo seja mais rico e mais efetivo.
Ele destaca ainda que alguns processos judiciais encaminhados para a Central são diferentes”.
Denise Maria Tartarotti Postay,
casos que estão envolvidos com a rede socioassistencial há 10 anos, sem solução. psicóloga, voluntária do projeto Kay Pranis afirma que, embora tome tempo para construir relacionamentos no
“As pessoas perceberam que investir algumas horas em um Círculo não é uma Círculo, no final, esta aparente perda de tempo poderá render maior eficiência, pois
perda, mas sim um ganho”, compara. Moratelli afirma que hoje a própria rede a saúde dos relacionamentos é a base para criar soluções eficazes e sustentáveis.
socioassistencial de Caxias do Sul tem solicitado a realização de Círculos.

Empatia facilita Acordo


Pré-Círculos Para Paulo Moratelli, os processos restaurativos funcionam especialmente quando
existe alguma relação entre vítima e ofensor que justifique restabelecer algum
O pré-círculo é um encontro separado entre facilitador e cada uma das partes (que vínculo. Cada caso é único. “Praticamente em todos eles podemos usar o Círculo.
podem estar acompanhadas de seus familiares ou outras pessoas que as apoiam) A questão é para onde direcionar os esforços. E já sabemos que a resposta melhor
envolvidas para conhecer seu ponto de vista e sua disposição frente ao conflito, a para os Círculos é onde há uma relação continuada”, explica Moratelli. O psicólogo
garante que o foco é relacional. “Esse é o grande ponto em que podemos intervir.

63 64
Círculos de Paz Caxias da Paz
A Justiça Restaurativa vem da Justiça Criminal e propõe dar atenção à vítima. Se a
vítima tiver a ganhar com o Círculo, tendemos a realizá-lo”, avalia o psicólogo. Círculos não fazem milagres
Katiane Boschetti, coordenadora da Central de Práticas Restaurativas da Infância e
O coordenador da Central Judicial de Pacificação Restaurativa e a coordenadora
da Juventude relata que busca encontrar o que as pessoas têm em comum. “Tento
da Central de Práticas Restaurativas da Infância e da Juventude alertam para a
criar empatia. Quando se conhece outro ser não se quer mais feri-lo. O resultado
“Quando as pessoas partilham necessidade de compreender que o Círculo de Construção de Paz pode não ser
é permanente”, afirma. “Todo processo envolve significado e pertencimento.
histórias de dor e erros, e adequado para resolver certos tipos de problemas. “Não vamos dar conta de uma
Se as pessoas não se sentem parte, a coisa não funciona. Por isso o Círculo funciona,
“O que me envolveu desde o deixam cair camadas protetoras criança que tem transtornos psicológicos, por exemplo. Podemos fortalecer e
todo mundo ajuda a controlar o grupo. A decisão tomada é fruto da participação de
início foi perceber que era muito revelando-se como seres humanos organizar a família, mas é uma questão de saúde mental”, explica Katiane. Ela cita
todos”, completa Moratelli.
resolutivo. Muitas vezes envolver vulneráveis e batalhadores, nós também que casos que envolvem dependentes químicos não têm apresentado bons
Para Kay Pranis, no cerne dos Círculos está a importância de reconhecer o impacto as mesmas pessoas da rede em nos identificamos mais com essas resultados nos Círculos. “A drogadição vai muito além da vontade da pessoa em
de nosso comportamento sobre os outros, bem como a interconexão de nossos reuniões não resolve as coisas pessoas. Fica muito mais difícil mudar. Então essas duas questões (saúde mental e dependência química) é que não
destinos. “O mal praticado contra um é um mal para todos. O dano de um é um por um motivo ou por outro. manter distância daquele outro e estão ao nosso alcance. O Círculo não é uma varinha mágica”, explica a pedagoga.
dano para todos. O bem praticado a um é um bem para todos”, afirma. Kay explica Eu percebi que no Círculo essas deixar de sentir a ligação existente
Moratelli afirma que, para conseguir resultados em uma situação de
que o Círculo é um espaço distinto porque convida seus integrantes a entrarem em mesmas coisas se resolviam, muito em função da humanidade comum
dependência psíquica e física de drogas, é necessário mudar todo o entorno
contato com o valor de estarem profundamente ligados entre si. O Círculo incentiva por causa do objeto da palavra que que nos une”. Kay Pranis
social da pessoa. “Isso é um trabalho gigantesco, e sem isso não há solução.
as pessoas a deixarem cair as máscaras e defesas que normalmente usam para criar permite que todos falem, equilibra
Estamos refletindo profundamente sobre isso, mas ainda não temos um caso
uma distância em relação aos outros. as vozes. Como as perguntas tam-
bém são dirigidas e objetivas, as
feliz para contar”, lamenta o psicólogo.
Kay diz ainda que o Processo em Círculo se baseia num conceito simples: pelo fato
resoluções são combinadas, e não Outro grande desafio para facilitadores e coordenadores são situações em que o
de todos desejarem ter um bom relacionamento com os outros, quando se cria
impostas. No Círculo restaurativo, Círculo revela algum crime. “Temos que ter muito cuidado quando, por exemplo,
um espaço respeitoso e reflexivo, as pessoas conseguem encontrar um terreno em
além de obter informações, as pes- nos deparamos com uma situação de abuso sexual intrafamiliar. Não podemos
comum, vencer a raiva, a dor e o medo, e por fim chegar a uma condição em que o
soas podem conversar sobre seus permitir que essas pessoas voltem a conviver. É preciso encaminhar a situação
cuidado mútuo é natural. No Círculo os integrantes partilham experiências pessoais
sentimentos e tudo que passaram para medidas protetivas judiciais”, afirma Moratelli. Susana Córdova Duarte,
de alegria e dor, luta e conquista, vulnerabilidade e força, a fim de compreender a
e estão passando. Eu sei que isso coordenadora da Central Comunitária de Práticas Restaurativas, compartilha
questão que se apresenta. “Quando alguém conta uma história, mobiliza as pessoas
será muito mais eficaz, eficiente e da convicção do psicólogo. “Não podemos nos omitir: se tivermos que passar
à sua volta em muitos níveis: emocional, espiritual, físico e mental. Os ouvintes
efetivo para essas pessoas do que um caso para a rede, não podemos fugir a essa responsabilidade. Se o Círculo
absorvem as histórias de modo muito diferente do que se estivessem ouvindo
apenas conversar”. revela uma situação de violência grave, temos o dever de comunicar à rede
conselhos”, afirma Kay.
Paulo Moratelli, socioassistencial”, afirma Susana.
psicólogo, coordenador da Central
Kay acredita que os Círculos utilizam o forte desejo de se estar ligado a outros de Judicial de Pacificação Restaurativa

uma forma positiva como plataforma para desenvolver relacionamentos. “Isso


possibilita às pessoas explorarem as questões de modo mais profundo, o que resulta
afinal em soluções mais poderosas para problemas ou conflitos difíceis”, afirma.

Para Paulo Moratelli, o Círculo proporciona a compreensão de que é impossível


ter total razão, ou conseguir que as coisas sejam 100% como se quer. “A forma
de resolução dos conflitos é o consenso. Isso é essencial para o Círculo. Quando
conseguimos mostrar para as pessoas que raramente se consegue ganhar tudo e que
às vezes devemos abrir mão de algo em nome de um bem maior... a paz passa a ser
possível”, explica Moratelli.

65 66
Círculos de Paz Caxias da Paz

Você também pode gostar