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Gramática e literatura em português I - aula 10

1. Resumo

Nesta aula, foi analisado o seguinte soneto de Camões:

Enquanto quis Fortuna que tivesse


Esperança de algum contentamento,
O gosto de um suave pensamento
Me fez que seus efeitos escrevesse.

Porém, temendo Amor que aviso desse


Minha escritura a algum juízo isento,
Escureceu-me o engenho co'o tormento,
Para que seus enganos não dissesse

Ó vós que Amor obriga a ser sujeitos


A diversas vontades! Quando lerdes
Num breve livro casos tão diversos,

Verdades puras são e não defeitos;


E sabei que, segundo o amor tiverdes,
Tereis o entendimento de meus versos.

Esse soneto é utilizado como abertura da grande maioria das antologias de sonetos de
Camões. Não é para menos: nele, Camões apresenta os princípios que regem sua arte
poética na forma de uma espécie de narrativa ou mesmo uma biografia espiritual e
poética. Aqui nos é dito o que impulsionou o poeta ao trabalho poético e quais os efeitos
dos processos que o levaram.

No primeiro quarteto, o poeta nos apresenta a figura da Fortuna, que, recebendo inicial
maiúscula, se torna uma espécie de entidade ou gênio com vontade própria, a qual
exerce sobre o destino do poeta. Por decisão dela, o poeta teve a esperança de um
contentamento, podemos crer, amoroso. A partir dessa ocorrência, um doce
pensamento, que nos é apresentado sensorialmente na forma de um “gosto”, levou o
poeta a escrever os efeitos dessa esperança de contentamento.

O segundo quarteto, no entanto, nos dá a saber algo sobre a formação da técnica, do


“engenho” do poeta, de seu uso da linguagem. “Amor”, outro gênio tutelar desse soneto,
temeu que “seus enganos” chegassem ao conhecimento de um juízo isento, de ouvidos
imparciais, e tornou a escrita do poeta obscura, de difícil compreensão.

Nos tercetos, por fim, o poeta se dirige ao leitor, mas não a qualquer leitor: ali, ele
informa quais são os leitores que busca ou que estarão prontos para sua poesia: aqueles
que são afetados pelo amor das mais diversas maneiras. Para esses, os versos do poeta
aparecerão como as verdades que são, não defeitos. Esses leitores poderão penetrar na
obscuridade da linguagem e tirar dali um entendimento dos versos.

Apesar de sua linguagem comparativamente mais simples à de outros sonetos, este


apresenta ideias e pensamentos bastante complexos comprimidos em suas 14 linhas.

 
Nota-se que os dois quartetos apresentam dois momentos diferentes e consecutivos da
formação do poeta: o surgimento do impulso que o levou a poetizar a partir de um
desejo de Fortuna e a depuração de seu engenho a partir das determinações de Amor.
Tal como ocorre no soneto “Transforma-se o amador na cousa amada”, os tercetos se
constituem semanticamente em um quarteto e um dístico, já que a exortação que é
endereçada a “vós que Amor obriga a ser sujeitos” se conclui com “Verdades puras são e
não defeitos”, deixando os dois últimos versos para o convite final ao leitor.

2. Exercícios

1. Na primeira aula do curso, falamos que um dos elementos da poesia é a


articulação entre pensamento e emoção através da linguagem. Tal articulação
está concisamente ilustrada no seguinte verso:
a. “Escureceu-me o engenho co'o tormento”
b. “O gosto de um suave pensamento”
c. “Tereis o entendimento de meus versos.”
d. “Esperança de algum contentamento,”
e. “Porém, temendo Amor que aviso desse”

2. Há uma certa ironia na influência de Amor sobre o engenho do poeta. Qual


seria?
a. Mesmo tendo inspirado o poeta com a esperança de um contentamento,
Amor determinou que escrevesse seus efeitos em linguagem pouco
compreensível.
b. Amor leva o poeta a escrever seus versos por meio do tormento, não do
contentamento e da esperança.
c. Ao atormentar o poeta com enganos, Amor contraria a vontade de
Fortuna, que o queria esperançoso e contente, mas, mesmo assim, leva-o
a escrever.
d. É dos juízos isentos, imparciais, e não dos maliciosos e mal-
intencionados, que Amor quer ver seus enganos protegidos.
e. Amor não deseja que o poeta escreva sobre seus efeitos, mas, mesmo
assim e exatamente por isso, o leva ao ato poético.

3. Qual a função exercida pelo “tormento” referido no segundo quarteto?


a. É o instrumento por meio do qual Amor torna a arte do poeta de difícil
entendimento.
b. É o que, no fundo, impulsiona o poeta a escrever, acima mesmo da
esperança, do contentamento e do “gosto de um suave pensamento”.
c. É através do tormento que os leitores poderão lograr o entendimento
dos versos.
d. O tormento é o autor dos enganos que Amor quer ver protegido dos
juízos isentos.
e. Tormento impede a isenção de juízo nos leitores.

4. No convite que o poeta faz a seus leitores, há uma advertência sobre a forma de
compreendê-los. Que advertência é essa?
a. Para poderem compreender os versos de Camões, os leitores precisam
conhecer a vida e os amores do poeta que os criou.

 
b. A maneira de compreensão dos versos de Camões só pode ser
encontrada nas doutrinas estudadas por ele, acima de tudo a platônica e
a aristotélica, que devem ser conhecidas também pelo leitor.
c. O leitor entenderá os versos de acordo com a forma como ele mesmo
vivencia e experimenta o amor.
d. Para entender os versos, é preciso que o leitor tenha sido afetado por
Fortuna e Amor exatamente da mesma forma como o foi o poeta.
e. É preciso entender o amor tanto em suas verdades quanto em seus
defeitos para entender os versos de Camões.