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Gramática e literatura em português I - aula 11

1. Resumo

Nesta aula, foi analisado o seguinte soneto de Camões:

Busque Amor novas artes, novo engenho,


Para matar-me, e novas esquivanças;
Que não pode tirar-me as esperanças,
Que mal me tirará o que eu não tenho.

Olhai de que esperanças me mantenho!


Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças,
Andando em bravo mar, perdido o lenho.

Mas, conquanto não pode haver desgosto


Onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê.

Que dias há que n'alma me tem posto


Um não sei quê, que nasce não sei onde,
Vem não sei como, e dói não sei porquê.

No soneto analisado na aula anterior, que se inicia pelo verso “Enquanto quis Fortuna
que tivesse”, vimos uma espécie de resumo da formação do poeta enquanto poeta,
tutelada, em grande parte, por duas figuras, dois gênios: Fortuna e Amor. Vimos que
Fortuna era generosa, garantindo ao poeta a esperança do contentamento que o levou
ao fazer poético. Amor, no entanto, surgia como engenhoso e caprichoso, escurecendo a
arte do poeta com tormento para que seus enganos não fossem revelados.

Neste novo soneto, Amor retorna, mas em um momento diferente. O poeta se refere a
ele em um desafiador subjuntivo – “Busque Amor novas artes, novo engenho / Para
matar-me...” – admitindo em seguida que seu tom desafiador não transcorre da
coragem, mas sim da falta de esperanças, pois Amor, em sua continuada ação de
atormentar o poeta, tirou-lhe todas.

No segundo quarteto, agora em modo imperativo, o poeta se dirige ao leitor, o


convidando a contemplar e considerar a fragilidade das esperanças e das seguranças
em que ele se mantém: são tão pouco sólidas que os contrastes e as mudanças que
deveriam alertar o poeta, aos quais deveria estar atento parecem deixá-lo indiferente,
como se perambulasse no mar sem um navio.

Estamos acostumados a, ao lermos um soneto, ver mudanças de rumo na passagem dos


quartetos para os tercetos, e este soneto não é exceção a essa regra: assim como ocorre
no primeiro soneto analisado em nosso curso, “Transforma-se o amador na coisa
amada”, a conjunção adversativa “mas” marca uma outra perspectiva sobre o assunto
tratado ao longo dos quartetos, ou um novo dado, uma nova informação. O que vemos,

 
então, no primeiro terceto é algo novo: é exatamente onde esperança falta que Amor
esconde um mal desconhecido, invisível e discreto, quase imperceptível, mas que não
deixa de exercer seu efeito.

O segundo terceto, após o verso de abertura “Que dias há que n’alma me tem posto”,
apresenta um longo período, tomando dois versos, complexo e de tom até humorístico:
“Um não sei quê, que nasce não sei onde, / Vem não sei como, e dói não sei porquê.”
Em uma intercalação de orações, mostra-se a engenhosidade infinita de Amor, que,
quando crê o poeta não haver mais engenhos e tormentos que possam ser inventados, o
presenteia com um novo e difícil de detectar.

2. Exercícios

1. Na comparação deste soneto com o anterior, vemos que, dentre os gênios que
habitavam o anterior, é Amor quem tem o papel principal neste. No entanto, há
uma presença um tanto discreta, mas importante, de Fortuna. Onde se vê tal
presença?
a. Em uma mensagem final de esperança, que vemos nos tercetos: por
mais que Amor o atormente, o poeta sempre pode contar com Fortuna
para lhe favorecer.
b. Esse “não sei quê, que nasce não sei onde” é uma referência velada a
Fortuna.
c. Mudando de papel, é Fortuna quem fornece a Amor esse “novo
engenho” para seguir atormentando o poeta de formas novas.
d. Os tormentos de Amor agem exatamente sobre as esperanças – dádiva
de Fortuna no soneto analisado anteriormente.
e. Se no primeiro quarteto, o poeta se dirige a Amor; no segundo, se dirige
a Fortuna.
2. A linguagem utilizada por Camões neste soneto é predominantemente abstrata,
composta de conceitos e ideias mais que de imagens sensoriais. No entanto, há
um momento em que, modificando o padrão, o poeta utiliza uma imagem
bastante concreta. Que verso, ou grupo de versos, traz essa diferença?
a. “Um não sei quê, que nasce não sei onde, /Vem não sei como, e dói não
sei porquê.”
b. “Andando em bravo mar, perdido o lenho.”
c. “Amor um mal, que mata e não se vê.”
d. “Olhai de que esperanças me mantenho!”
e. Nenhuma das anteriores.
3. As orações subordinadas adverbiais concessivas apresentam uma ideia ou fato
de certa forma dissonante em relação à oração principal. No primeiro terceto, a
ideia contida na concessiva “conquanto não pode haver desgosto onde
esperança falta” é dissonante em relação a que outra ideia?
a. Àquela contida nos quartetos, ou seja, se nos quartetos se diz que, não
havendo esperanças, não há como Amor atormentar o poeta, a
concessiva diz exatamente o contrário.
b. À ideia principal (contida na oração principal) deste terceto: a de que há,
sim, ainda tormentos que Amor pode causar ao poeta, mesmo faltando
esperanças. Nesse sentido, a concessiva reitera temporariamente o que
foi dito nos quartetos, para que o dado novo seja apresentado a seguir.

 
c. À ideia contida no segundo quarteto: onde esperanças faltam, não pode
haver o tormento que, no referido quarteto, é comparado a uma andança
em um mar violento.
d. À ideia que será apresentada no segundo terceto: não havendo
esperança, não há tormento, e esse “não sei quê que nasce não sei onde”
é pura ilusão do poeta.
e. À ideia contida nos versos “Não pode tirar-me as esperanças / Que mal
me tirará o que não tenho.”
4. Os versos “Um não sei quê, que nasce não sei onde, / Vem não sei como, e dói
não sei porquê.” apresentam uma composição sintática extremamente
intrincada. Qual das alternativas seguintes apresenta uma afirmação correta
sobre sua estrutura sintática?
a. O período inteiro compõe o objeto direto do verbo “posto”, encontrado
no verso anterior, cujo núcleo é “não sei quê”, com as outras orações
referindo-se a esse núcleo.
b. “Um não sei quê” é a oração principal, todas as outras são adjetivas
restritivas.
c. É um caso raro de período sem oração principal.
d. Todas as orações presentes nesse verso são orações reduzidas.
e. Não há orações subordinadas nesse verso; trata-se de orações
justapostas, ou seja, coordenadas, de mesmo valor sintático.