Você está na página 1de 43

O impacto do letramento mais significativo, profundo e de longo

alcance na vida das pessoas é o seu potencial de empoderamento.


Ser letrado é libertar-se das amarras da dependência. Ser
letrado é ganhar voz e participar, de forma significativa e
assertiva, das decisões que afetam a vida dos cidadãos. Ser
letrado é ser politicamente consciente e criticamente desperto; é
desmistificar a realidade social... O letramento ajuda as pessoas
a se tornarem autoconfiantes e a resistirem à exploração e à
opressão. Letramento permite acesso ao conhecimento escrito, e
conhecimento é poder (JAMES, 1990, p. 16).

Práticas de letramento na Educação de Jovens e Adultos  |  Concepção de linguagem e práticas de letramento na EJA 2
Palavras da
Professora-autora
Caro aluno,

Seja bem-vindo à disciplina Práticas de letramento na EJA, a qual


se constitui como um espaço destinado ao diálogo e à reflexão sobre
o trabalho pedagógico com a leitura e a escrita nessa modalidade
de ensino. Por que discutir as práticas de letramento na Educação
de Jovens e Adultos (EJA)? Em linhas gerais, esta disciplina tem
por fim problematizar e discutir o papel dessas práticas na sala de
aula e a dimensão humanizadora dos letramentos no tocante ao
desenvolvimento da capacidade de contribuir com a formação do
pensamento crítico dos alunos da EJA, preparando-os para a vivência

Práticas de letramento na Educação de Jovens e Adultos  |  Concepção de linguagem e práticas de letramento na EJA 3
da cidadania. Desse modo, esperamos que a discussão, articulando
teoria e prática, realizada nesta disciplina possa reverberar nas práticas
pedagógicas desenvolvidas nas salas de aula dessa modalidade de
ensino, pois ainda há muito a ser feito para atingirmos melhores
resultados da EJA no Brasil.

De acordo com o Relatório Global sobre Aprendizagem e Educação de


Adultos, publicado em 2017 pela Organização das Nações Unidas para
a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), no mundo, existem mais
de 700 milhões de pessoas analfabetas, das quais 115 milhões são jovens
de 15 a 24 anos de idade e do número de adultos 63% são mulheres.
No Brasil, os dados de jovens e adultos com trajetórias de escolarização
marcadas pelo insucesso e pela descontinuidade são preocupantes, pois
40% da população maior de 15 anos não completou a Educação Básica,
possuindo níveis insatisfatórios na aferição do domínio das práticas de
leitura e de escrita.

Na Agenda 2030, carta de intenções produzida pela UNESCO em


favor do desenvolvimento sustentável, buscando a transformação do
mundo no qual vivemos, o objetivo 4 prevê “Assegurar a educação
inclusiva e equitativa de qualidade, e promover oportunidades de
aprendizagem ao longo da vida para todas e todos”. No item 4.3, a

Práticas de letramento na Educação de Jovens e Adultos  |  Concepção de linguagem e práticas de letramento na EJA 4
Agenda propõe “assegurar a igualdade de acesso para todos os homens
e mulheres à educação técnica, profissional e superior de qualidade…”;
no 4.4, objetiva, até 2030, “aumentar substancialmente o número
de jovens e adultos que tenham habilidades relevantes, inclusive
competências técnicas e profissionais, para emprego, trabalho decente
e empreendedorismo”.

No que diz respeito à alfabetização e aos letramentos, ainda estamos


muito distantes de atingir níveis satisfatórios, embora letramento
seja indispensável ao desenvolvimento econômico, social e político do
país. Isso significa que, em relação ao direito à educação, metade da
população brasileira jovem e adulta não completou o ciclo da Educação
Básica e 65 milhões de pessoas, as quais compõem o público da EJA,
continuam à margem dos processos educacionais mais produtivos
no Brasil. Dessa forma, é preciso de fartos esforços para se garantir o
direito universal à educação para todos. Considerando essa realidade,
no contexto da EJA, faz-se necessário discutir, compreender e explicitar
as relações entre letramento e poder, letramento e acesso, letramento e
cidadania, letramento e direitos humanos e letramento e inclusão social,
visto que, conforme dito na epígrafe deste livro, é importante considerar

Práticas de letramento na Educação de Jovens e Adultos  |  Concepção de linguagem e práticas de letramento na EJA 5
a profundidade e o impacto do letramento na vida das pessoas, levando
em conta o potencial de empoderamento advindo desse fenômeno.

Entendemos a EJA como a modalidade da Educação Básica que tem


por finalidade possibilitar ao educando aprender a ler, a escrever e
a compreender a língua materna, a partir de diferentes linguagens
e semioses, o domínio dos símbolos, das operações matemáticas
básicas e dos conhecimentos essenciais das ciências sociais e naturais
e o acesso aos meios de produção cultural, entre os quais o lazer, a
arte, a comunicação e o esporte, conforme propõem Gadotti e Romão
(2012). A EJA se constitui como um processo formal ou informal de
aprendizagem, em que as pessoas ampliam conhecimentos e podem
melhorar sua formação técnica e profissional, a fim de atender
demandas pessoais ou sociais.

Partindo dessa compreensão, refletiremos sobre as práticas de


letramento nessa modalidade de ensino em uma perspectiva crítica e
emancipatória, visando ao desenvolvimento dos letramentos múltiplos
dos educandos e à sua formação para a cidadania. Considerando,
por fim, os possíveis impactos deste curso nas salas de aula de EJA,
discutiremos fundamentos teóricos e metodológicos com professores
e gestores a ele vinculados, com o propósito de que possam ampliar

Práticas de letramento na Educação de Jovens e Adultos  |  Concepção de linguagem e práticas de letramento na EJA 6
seu próprio letramento e contribuir com a melhoria das práticas de
letramento na esfera escolar.

Especificamente, em relação ao letramento de professores, gestores


e técnicos os quais compõem a comunidade escolar, acreditamos que
lhes oferecendo uma formação, teoricamente informada, consigamos
formá-los melhor para desempenhar a contento a função de agentes
de letramento (KLEIMAN, 2006; OLIVEIRA, 2010), capazes de
contribuir com a melhoria das práticas letradas na sala de aula e,
consequentemente, com o desenvolvimento da competência leitora
e escritora dos educandos da EJA.

Práticas de letramento na Educação de Jovens e Adultos  |  Concepção de linguagem e práticas de letramento na EJA 7
Objetivo da disciplina
Discutir fundamentos epistemológicos, teóricos e metodológicos
como subsídios para o trabalho com as práticas de letramento na EJA.

Ementa da disciplina
Fundamentos teóricos para o trabalho com a linguagem na perspectiva
sócio-histórica. A função social do letramento na Educação de Jovens
e Adultos (EJA). Contribuições dos estudos de letramento para a EJA.
Alfabetização e letramento na EJA. Práticas e eventos de letramento
na EJA. Fundamentos metodológicos do trabalho com práticas de
letramento na perspectiva da Pedagogia Crítica.

Práticas de letramento na Educação de Jovens e Adultos  |  Concepção de linguagem e práticas de letramento na EJA 8
Currículo sintético da professora-autora
Ivoneide Bezerra de Araújo Santos Marques

Graduada em Letras, especialista em Leitura e Produção de Texto,


mestra e doutora em Estudos da Linguagem, na área de concentração
de Linguística Aplicada, pela UFRN. É professora do Instituto Federal
de Educação, Ciência e Tecnologia do RN (IFRN), membro dos grupos
de pesquisa Letramento, Educação e Identidade (IFRN), Letramento
e Etnografia (UFRN) e Letramento do Professor (na UNICAMP, onde
fez Estágio de Pós-Doutorado e, atualmente, desenvolve atividades
como pesquisadora colaboradora sob a coordenação da professora Dra.
Angela Kleiman). Seus interesses de pesquisa voltam-se para o ensino
de Língua Portuguesa, letramentos, Educação de Jovens e Adultos
(EJA/PROEJA) e formação de professores de Língua Portuguesa.

Práticas de letramento na Educação de Jovens e Adultos  |  Concepção de linguagem e práticas de letramento na EJA 9
Práticas de letramento na Educação de Jovens e Adultos

Unidade I
Concepção de linguagem e
práticas de letramento na EJA

Ivoneide Bezerra de Araújo Santos Marques


OBJETIVO DE APRENDIZAGEM
»»Discutir fundamentos teóricos necessários
a uma abordagem sócio-histórica da
linguagem como subsídio para o trabalho
com práticas de letramento na Educação
de Jovens e Adultos.

Práticas de letramento na Educação de Jovens e Adultos  |  Concepção de linguagem e práticas de letramento na EJA 11
Expectativas de aprendizagem
Ao final desta Unidade Didática I, você deverá ser capaz de:

»» distinguir diferentes concepções de linguagem que podem subsidiar o


trabalho com as práticas de letramento no contexto da EJA;

»» optar pela concepção que melhor atender às necessidades de


formação de alunos, os quais são capazes de agir socialmente pelos
usos da leitura e da escrita, concebidas como práticas sociais situadas;

»» compreender a importância do trabalho com as variedades


linguísticas como forma de combater o preconceito linguístico,
promovendo a inclusão social dos educandos da EJA.

Práticas de letramento na Educação de Jovens e Adultos  |  Concepção de linguagem e práticas de letramento na EJA 12
Apresentação da unidade didática i
Nesta primeira Unidade Didática, inicialmente, discutiremos
os conceitos de língua e linguagem, refletindo sobre a natureza
variacionista da língua. Em seguida, trataremos das concepções
de linguagem e de suas implicações para o ensino da leitura e da
escrita na Educação de Jovens e Adultos (EJA). Focaremos nossa
discussão no caráter interacional da linguagem e veremos que esta é
constitutivamente dialógica, razão pela qual assumimos a concepção de
linguagem como interação por ser aquela que melhor pode subsidiar o
trabalho do professor com as práticas letradas na sala de aula.

Práticas de letramento na Educação de Jovens e Adultos  |  Concepção de linguagem e práticas de letramento na EJA 13
1. Língua, linguagem
e variação linguística
Leia a tirinha abaixo.

“Ivo viu a uva na mesa O que é sala de estar?


da sala de estar.”

Por que não escrevem os livros


É living na língua da gente? “Ivo viu a uva”?
É assim que se aprende a ler?

Fonte: Ilustrado por Mariana Brito.

Práticas de letramento na Educação de Jovens e Adultos  |  Concepção de linguagem e práticas de letramento na EJA 14
A toda hora, nos interrogamos e interrogamos o outro e o mundo.
Fazemos isso usando a linguagem, quer seja para pensar sobre o mundo
e o outro, quer seja para tentar mudá-los, para agir no mundo, sobre o
mundo ou sobre o outro neles ou para compreendê-los. O certo é que em
todas essas operações necessitamos da linguagem. É por meio da língua/
linguagem que nos constituímos e somos constituídos por ela. E pela
língua/linguagem interagimos com o mundo e com o outro em um
permanente diálogo. A língua é um fenômeno social da interação verbal
e esta constitui a realidade fundamental daquela (BAKHTIN, 2003).

De acordo com Marcos Bagno, linguista e professor da Universidade


de Brasília, “a língua é uma atividade social, um trabalho coletivo,
empreendido por todos os seus falantes, cada vez que eles se põem a
interagir por meio da fala e da escrita” (BAGNO, 2007, p. 36). Para esse
autor, a língua é um processo permanentemente inconcluso. Isso ocorre
porque ela é heterogênea, múltipla, variável e está em permanente
estado de mudança. Por essa razão, podemos observar na língua
portuguesa algumas palavras, as quais variaram ao longo do tempo,
por exemplo, a palavra “você”. Assim, no seu processo histórico de
mudança, essa palavra já sofreu diversas transformações: vossa mercê
- vossemecê - vosmecê - você - vc.

Práticas de letramento na Educação de Jovens e Adultos  |  Concepção de linguagem e práticas de letramento na EJA 15
Na obra Norma culta brasileira: desatando alguns nós, o linguista
Carlos Alberto Faraco afirma: “A língua é em si o conjunto das
variedades. Ou seja, estas não são deturpações, corrupções, degradações
da língua, mas são a própria língua: é o conjunto das variedades (de
normas) que constitui a língua” (FARACO, 2008, p. 73). Significa dizer
que toda língua é marcada pela variação linguística, pela diversidade
de falares, e essa realidade de heterogeneidade linguística não pode
servir para alimentar o preconceito e a discriminação em relação a
quem não fala a norma-padrão, a qual se impõe de forma coercitiva pela
classe dominante às classes sociais subalternizadas.

No Brasil, a diversidade linguística ainda é sinônimo de discriminação,


de exclusão social e um poderoso instrumento para a violência simbólica.
Isso ocorre porque, geralmente, a sociedade, a qual se organiza a partir da
extratificação social, desvaloriza o modo de falar de pessoas das classes
sociais menos favorecidas, quando elas não dominam a norma-padrão,
pois esta se estabelece de forma impositiva por quem tem mais acesso
aos bens culturais, dentre eles, as variantes de maior prestígio social.

Práticas de letramento na Educação de Jovens e Adultos  |  Concepção de linguagem e práticas de letramento na EJA 16
A violência simbólica (BOURDIEU, 2007), muitas vezes, associada ao
preconceito linguístico, constitui-se instrumento de opressão. Esse tipo
de violência se materializa quando vemos, por exemplo, circulando, nas
redes sociais, vídeos com falas de pessoas que apresentam desvios da
norma-padrão da língua portuguesa, os quais são considerados “erros”
em relação a essa norma. Geralmente, essa situação descrita envolve
as camadas sociais mais pobres. Além das falas, esse tipo de vídeo
frequentemente costuma mostrar tais pessoas destacando um “sorriso
desdentado”, a cor da pele negra, a roupa velha e o distanciamento dos
padrões de beleza impostos pela sociedade de consumo.

O uso indevido da imagem de pessoas que não dominam a norma-


padrão, associada a uma imagem caricatural desses usuários da língua,
qualificados equivocadamente como “incapazes”, “analfabetos” ou
“incompetentes” e tratados de maneira jocosa e preconceituosa, serve
para manter a ideia equivocada de que pobre fala errado, de forma
defeituosa, e é incompetente do ponto de vista linguístico.

Assim, essas pessoas são tratadas com violência simbólica, pois se cria a
ideia equivocada de que a fala delas é errada, defeituosa e inadmissível
para os padrões sociais. Outro exemplo de violência simbólica, gerada
pela discriminação por meio da língua, ocorre comumente quando

Práticas de letramento na Educação de Jovens e Adultos  |  Concepção de linguagem e práticas de letramento na EJA 17
as pessoas descritas anteriormente têm a imagem delas explorada
cantando em língua estrangeira e têm sua fala deslegitimada, servindo
de escárnio e de deboche por “não saberem usar a língua estrangeira”,
sem que se leve em consideração as relações entre linguagem e poder e
linguagem e ideologia, as quais podem desvelar a luta de classes.

É preciso pensar: quem tem acesso a um ensino de qualidade de língua


estrangeira no Brasil? Certamente, apenas quem tem maior poder
aquisitivo, pois pode fazer intercâmbio e investir mais em cursos
de maior duração de carga horária do que a da disciplina oferecida
na escola, tendo acesso a laboratórios equipados com sofisticadas
tecnologias e diversificados recursos midiáticos, entre outros. Por isso,
a escola precisa combater o preconceito linguístico relativo ao uso de
línguas (materna ou estrangeira) e trabalhar um modelo de educação
linguística o qual contribua para incluir e não para excluir as pessoas
pela uso que fazem da língua.

Considerando essa realidade, a problemática da variação linguística


deve ser priorizada no trabalho com as práticas de letramento na
EJA. Logo, é preciso o aluno conhecer as diferentes formas de falar e
entender que o seu modo de falar é legítimo e precisa ser respeitado,
ainda que ele tenha de aprender outras variantes. A sala de aula da

Práticas de letramento na Educação de Jovens e Adultos  |  Concepção de linguagem e práticas de letramento na EJA 18
EJA deve ser um espaço de inclusão e não um espaço de exclusão pela
língua. Nesse sentido, é importante tomar, como ponto de partida no
ensino, o conhecimento prévio do aluno, os usos que ele já faz da língua.
Mas a escola precisa garantir a ele também o acesso à norma-padrão,
respeitando seu jeito de falar e mostrando-lhe as diferentes formas de
falar e de escrever, definidas na situação de comunicação, dependendo
das necessidades interlocutivas dele nos diferentes domínios ou esferas
da atividade humana. É papel da escola, portanto, educar para o respeito
às diferenças de ordem linguística e combater o preconceito linguístico.

Como fazer isso? Por exemplo, ensinando ao aluno que, dependendo


da situação, nem sempre é adequado falar com os outros como fala
com os amigos em uma conversa informal nas redes sociais ou em
um bate-papo. Igualmente, se ele for a uma entrevista de emprego,
é recomendável não tratar o chefe como trata costumeiramente os
amigos, demonstrando total intimidade. Em uma situação mais
formal de uso da linguagem, precisa saber adequar sua fala àquela
dada situação (e entender que isso faz parte do jogo de usos sociais da
linguagem), não por sua fala ser desprestigiada, não ter valor ou ser
errada etc., mas porque é a situação de comunicação que determina os
parâmetros e o comportamento linguístico do falante.

Práticas de letramento na Educação de Jovens e Adultos  |  Concepção de linguagem e práticas de letramento na EJA 19
Tendo em vista o conteúdo estudado até aqui, é possível dizer que a
inteligibilidade do mundo se dá mediante a língua/linguagem, razão
pela qual a personagem da tirinha questiona: “por que não escrevem
os livros na língua da gente?”. Talvez, não compreenda muito bem que
a língua permite mais de um sentido às palavras e os sentidos de uma
palavra não estão dados a priori, pois eles se definem no contexto, isto
é, na situação na qual foi utilizada tal palavra. Além disso, a interação
com o outro nos faz construir os sentidos das palavras e dos textos.

Por meio da língua, damos sentido à vida, às coisas e ao outro, por isso
ela se interroga e interroga o outro: “por que não escrevem os livros na
língua da gente?” Na interação com o outro, isto é, com o outro, com o
autor do livro e com o livro (o texto), a personagem conseguiu atribuir
sentido ao texto lido e compreendeu, dialogicamente, o sentido da
palavra “living”, compreendendo-a como “sala de estar”. No repertório
da personagem, não constava ainda a palavra “living”, a qual foi
incorporada a partir da sua experiência linguística.

Como você deve ter percebido também, nas palavras da personagem,


não existe uma língua única, uniforme e homogênea. Tanto é assim,
que ela questiona “por que não escrevem os livros na língua da gente?”,
fazendo uma crítica ao modo como a escola ensina mecanimente a ler.

Práticas de letramento na Educação de Jovens e Adultos  |  Concepção de linguagem e práticas de letramento na EJA 20
Ela tem razão, de fato, não existe mesmo uma língua única. Existem
muitas línguas em uma mesma língua, já que não falamos todos de uma
mesma maneira, entende?

Dependendo de diversos fatores, falamos diferente em uma ou outra


região do país. Por exemplo, uma pessoa natural do Rio Grande do
Sul não fala igual a uma do Rio Grande do Norte. Assim, no RN, um
doce chamado brigadeiro, no RS, chama-se negrinho. No Nordeste,
chamamos bolacha e no Sudeste chama-se biscoito um mesmo tipo de
alimento. Naturalmente, um jovem tende a usar muito mais gírias do
que um idoso. Além desses fatores geográficos e de faixa etária, outros
fatores podem evidenciar as variedades linguísticas, por exemplo, o nível
de escolaridade, a condição social, o gênero, a faixa etária, entre outros.

Mas o que seria mesmo, do ponto de vista teórico, variação linguística?


Variação linguística é um fenômeno natural de mudanças no
sistema linguístico (vocabulário, pronúncia, morfologia, sintaxe).
Isso ocorre, pois, geralmente, as línguas são bastante sensíveis à
influência de diversos fatores, os quais provocam mudanças, conforme
vimos anteriormente. Ocorre, fundamentalmente, porque a língua é
heterogênea. Em vista disso, é importante considerar: “uma variedade
linguística é um dos muitos “modos de falar” uma língua. [...] esses

Práticas de letramento na Educação de Jovens e Adultos  |  Concepção de linguagem e práticas de letramento na EJA 21
diferentes modos de falar se correlacionam com fatores sociais como
lugar, origem, idade, sexo, classe social, grau de instrução etc.”
(BAGNO, 2007, p. 47).

Por fim, você já percebeu que a palavra só ganha sentido no processo


de interação, certo? Ela é, em linhas gerais, a matéria constitutiva da
comunicação humana. Pela palavra nos constituímos como seres de
linguagem, pois para nos comunicarmos com o outro ou com o mundo,
servimo-nos desta ferramenta, a palavra (escrita ou falada).

Sendo assim, convém a escola ficar atenta para não acentuar


diferenças sociais as quais podem se estabelecer pelos usos
linguísticos. Especialmente, na EJA, essa atenção é necessária, visto
que, geralmente, os alunos vinculados a essa modalidade de ensino
são oriundos das classes sociais mais pobres e isso certamente tem
reflexos nos modos de falar e escrever desses educandos, pois eles nem
sempre têm as mesmas condições de acesso à cultura letrada e tendem
a não ter um maior domínio da norma-padrão. A esse respeito,
tornam-se oportunas as reflexões sobre a problemática do domínio da
norma-padrão como a apontada a seguir:

Práticas de letramento na Educação de Jovens e Adultos  |  Concepção de linguagem e práticas de letramento na EJA 22
A tarefa de aprender uma variante diferente da língua é enorme. Também
é enorme a tarefa de reverter a situação dos dominados na situação
de conflito diglóssico. A escola tem o dever de mudar a percepção da
sociedade sobre o que está envolvido na aprendizagem de um segundo
dialeto (KLEIMAN, 2012, p. 35).

Cabe, portanto, à escola garantir aos alunos o acesso à norma-


padrão, mas respeitando o modo de falar deles, para não haver
discriminação pela língua, a qual se configura como uma forma de
violência simbólica. Além disso, como principal agência de letramento,
a escola deve trabalhar na perspectiva de educar para a superação da
exclusão e do preconceito em relação à língua, fazendo ver que não
existe uma língua ou um modo de falar/escrever melhor ou superior
ao outro. O que existe são “modos de dizer” diferentes que devem se
adequar às necessidades, à situação de comunicação e aos propósitos
comunicativos dos falantes ou usuários da língua.

Práticas de letramento na Educação de Jovens e Adultos  |  Concepção de linguagem e práticas de letramento na EJA 23
PARA SABER MAIS

Língua e linguagem são a mesma coisa?

Língua e linguagem não são exatamente as mesmas coisas,


embora essas duas palavras mantenham entre si uma relação
indissociável. De um modo geral, em uma visão do senso comum,
enquanto a linguagem diz respeito a uma capacidade humana,
à capacidade que o homem tem para compreender a língua e
desenvolver outras manifestações culturais, como a escultura,
pintura, música, a dança etc., tendo também o potencial de produzir
essas manifestações e expressões, a língua configura-se como um
conjunto organizado de elementos como os sons e os gestos que
possibilitam a comunicação, podendo ser entendida também como
um código composto por palavras e regras, pelo qual as pessoas
se comunicam. Entretanto, essa é uma visão bastante simplista. É
importante compreender que a língua não é só isso. Mais do que isso,
ela é um instrumento de poder, usada para a ação social, que pode
viabilizar a nossa interação com a sociedade, conforme veremos de
forma mais aprofundada na seção a seguir.

Linguagem pode se referir tanto à capacidade especificamente


humana para aquisição e utilização de sistemas complexos de
comunicação quanto a uma instância específica de um sistema
de comunicação complexo. O estudo científico da linguagem, em
qualquer um de seus sentidos, é chamado de linguística.

Práticas de letramento na Educação de Jovens e Adultos  |  Concepção de linguagem e práticas de letramento na EJA 24
2 As diferentes concepções de
linguagem: implicações para o ensino

Concepções de linguagem

Expressão Instrumento Processo


do pensamento de comunicação de interação

A exteriorização do O emissor tem em sua O sujeito usa a língua


pensamento por meio mente uma mensagem não só para traduzir
de uma linguagem (informações) e exteriorizar um
articulada e organizada a transmitir a um pensamento ou
dependerá da receptor através de um transmitir informações
capacidade do homem código (conjunto de a alguém, mas para
organizar logicamente signos combinados) realizar ações e agir
esse pensamento sobre o mundo e
sobre o outro

Fonte: Elaboração própria em 2019.

Práticas de letramento na Educação de Jovens e Adultos  |  Concepção de linguagem e práticas de letramento na EJA 25
Certamente, você já entendeu que a linguagem dá acesso ao mundo e
ao pensamento. Ela é parte constitutiva da nossa vida. Como um ser
social, o homem tanto constitui como é constituído pela linguagem, a
qual é indispensável tanto para a produção do conhecimento quanto
para a nossa participação nos mais diversos contextos sociais de
interlocução. Vivendo em comunidades, precisamos nos comunicar com
outras pessoas e estabelecer com elas relações dialógicas de natureza
diversa, de atuar com e sobre elas e de interagir socialmente por meio
do discurso. Você já percebeu que a linguagem é algo imprescindível
ao convívio social, não é mesmo? A título de provocação, indagamos:
por que estudar diferentes concepções de linguagem? A concepção de
linguagem assumida pelo professor tem alguma implicação no trabalho
com as práticas de letramento na escola?

No contexto escolar, a opção por uma ou outra concepção de linguagem


faz toda diferença no trabalho com as práticas de letramento. Cada uma
dessas concepções permite uma abordagem diferente das práticas de
leitura e escrita na sala de aula. A maneira de conceber a linguagem
explicita o tipo de ensino e de trabalho com a língua/linguagem que
se quer oferecer aos educandos. Nesta disciplina, dada a tendência
pedagógica emancipatória assumida, temos por fim oferecer, em linhas

Práticas de letramento na Educação de Jovens e Adultos  |  Concepção de linguagem e práticas de letramento na EJA 26
gerais, algumas informações sobre cada uma das três concepções
esboçadas no Organograma 1, optando pela concepção que atende
aos interesses de formação do aluno para exercer a sua cidadania.

A primeira concepção, conforme observamos no Organograma 1,


filia-se à perspectiva teórica dos estudos tradicionais, que entende a
linguagem como expressão do pensamento. De acordo com Travaglia
(1997, p. 21), “para essa concepção, as pessoas não se expressam bem
porque não pensam”. A expressão/linguagem é construída no interior
da mente, e a enunciação, isto é, o ato individual de utilização da língua
pelo falante (=fala), configura-se como um ato monológico e individual.
A língua é concebida como um código, um produto acabado, um sistema
estável (léxico, gramática e fonética). A função da língua é apenas
representar (=refletir) o pensamento e o conhecimento de mundo do
falante (KOCH, 2003), por ser dissociada da vida social dos falantes.

Nessa perspectiva, o homem é dotado de capacidade inata de expressão


do pensamento, cabendo a ele, se quiser “se expressar bem”, organizar o
pensamento por meio da combinação de regras gramaticais prescritas a
serem aprendidas e obedecidas.

Práticas de letramento na Educação de Jovens e Adultos  |  Concepção de linguagem e práticas de letramento na EJA 27
A segunda concepção, vinculada aos estudos do estruturalismo e do
transformacionalismo, entende a linguagem como um instrumento
de comunicação. A língua é entendida como um sistema de regras
passíveis de descrição e estruturada a partir de leis específicas. Nessa
concepção, em que a língua é compreendida como código mediante
o qual um emissor comunica a um receptor uma mensagem, a
linguagem tem apenas a função de transmitir informações, e o sistema
linguístico é o centro organizador dos fatos linguísticos, o qual “é
percebido como um fato objetivo externo à consciência individual e
independente desta. A língua opõe-se ao indivíduo enquanto norma
indestrutível, peremptória, que o indivíduo só pode aceitar como tal.”
(NEDER,1993, p. 38).

Como vimos até aqui, esta segunda concepção, a exemplo da primeira,


tem o foco nos aspectos estruturais da língua e se apoia nos aspectos
gramaticais isoladamente. Aquela focaliza a palavra, enquanto esta
prioriza a frase. Em ambas, concebe-se a língua como um produto
pronto e acabado. Sob esse prisma, a língua descreve, prescreve e
valoriza fundamentalmente as relações entre os signos, abstraindo-se
as condições de produção e a historicidade dos falantes, ou seja, ambas
desconsideram a interação social dos usuários da língua.

Práticas de letramento na Educação de Jovens e Adultos  |  Concepção de linguagem e práticas de letramento na EJA 28
A linguagem em
uma perspectiva dialógica

PARA SABER MAIS

Mikhail Mikhailovich Bakhtin foi um filósofo e pensador russo,


teórico da cultura europeia e das artes e um verdadeiro
pesquisador da linguagem humana. Seus escritos trataram de uma
variedade de assuntos, inspiraram trabalhos de pesquisadores em
diferentes disciplinas (crítica literária, história, filosofia, antropologia
e psicologia). Ele é o líder intelectual de estudos científicos e
filosóficos desenvolvidos por um grupo de estudiosos russos,
que ficou conhecido como o “Círculo de Bakhtin”, cujos trabalhos
contribuem, dentre outras coisas, para embasar teoricamente os
estudos sobre concepções de linguagem e gêneros discursivos.

Práticas de letramento na Educação de Jovens e Adultos  |  Concepção de linguagem e práticas de letramento na EJA 29
A terceira concepção filia-se à Linguística da Enunciação, perspectiva
teórica na qual se situam os estudos bakhtinianos, que concebem a
linguagem como processo de interação verbal, conforme você pode
observar no Organograma 1. Escolhemos essa concepção para
subsidiar o trabalho do professor na sala de aula em razão de ser
uma abordagem diferenciada das práticas de letramento na EJA,
favorecendo o ensino da leitura e da escrita como práticas sociais, visto
que “situa a linguagem como o lugar de constituição de relações sociais,
onde os falantes se tornam sujeitos” (GERALDI, 1997, p. 41).

Na perspectiva bakhtiniana, a língua é processo de enunciação, uma


atividade social de natureza dialógica. Ela não se limita a uma atividade
mental, nem se configura como um sistema abstrato, nem se limita à
transmissão de informações. A língua é muito mais que isso, é produto
da interação entre falantes, resultante de uma determinada situação de
uso social da linguagem.

A linguagem é, assim, uma ação interindividual orientada por fins


específicos. Como um processo de interlocução, ela se realiza nas
práticas sociais existentes nas diversas esferas, nos mais diversos
grupos de uma sociedade e nos distintos momentos de sua história.
Interagimos pela linguagem num bate-papo com amigos, numa reunião

Práticas de letramento na Educação de Jovens e Adultos  |  Concepção de linguagem e práticas de letramento na EJA 30
de trabalho, escrevendo ou lendo uma carta pessoal ou um e-mail,
assistindo a um filme ou a um capítulo de novela, lendo livros, jornais,
revistas, placas de ruas, outdoors, cartazes, sinais de trânsito, através de
gestos ou da leitura de imagens, de sinais e de tantas outras linguagens
envolvidas nas práticas discursivas nas quais estamos enredados no dia
a dia. Considerar a linguagem, nessa perspectiva, implica compreendê-
la, necessariamente, como uma atividade de natureza social e dialógica.

Por todos esses motivos, optamos pela terceira concepção de linguagem,


por acreditarmos que, para atender às demandas de leitura, escrita
e fala - considerando as exigências da sociedade letrada e, cada vez
mais, semiotizada, a qual exige uma escola capaz de desenvolver no
aluno a competência comunicativa e a habilidade de atribuir sentido
às coisas e ao mundo de forma contextualizada -, é preciso o professor
assumir uma concepção de linguagem ancorada na ideia de atividade
e ação social, como a proposta no âmbito dos estudos bakhtinianos
(BAKHTIN; VOLOCHINOV, 2000; BAKHTIN, 2003).

No contexto escolar, a principal implicação pedagógica de ordem teórica


daí decorrente é a ruptura com o foco nos processos descritivos da
língua, passando-se a valorizar mais os aspectos ligados à organização
e à composição dos textos e dos gêneros discursivos, visto que, na

Práticas de letramento na Educação de Jovens e Adultos  |  Concepção de linguagem e práticas de letramento na EJA 31
perspectiva bakhtiniana, o texto, assumindo o estatuto de unidade da
comunicação verbal, é a materialização empírica do gênero. Do ponto de
vista metodológico, o ensino da língua deixa de ter como foco a descrição
e a classificação dos fatos linguísticos, passando à compreensão e à
interpretação deles (BAKHTIN, 2003), os quais passam a ser estudados
para além da palavra e da frase isoladas de seu contexto.

De acordo com o estudado até agora, podemos dizer que, como um


sistema simbólico construído e reconstruído pelo homem ao longo do
tempo, a linguagem é instrumento de poder, de comunicação entre as
pessoas e meio para a aquisição do conhecimento e para a circulação
da cultura. É, sobretudo, pressuposto para o desenvolvimento dos
processos mais elaborados do pensamento humano. Em síntese, a
linguagem é um conjunto de práticas sociais diversificadas, orais
e escritas, desenvolvidas por sujeitos sócio-históricos situados.
Para concluir essa discussão acerca das concepções de linguagem,
apresentamos um quadro-síntese (Organograma 2) com os principais
postulados bakhtinianos para cada uma das três concepções nas
seguintes afirmações:

Práticas de letramento na Educação de Jovens e Adultos  |  Concepção de linguagem e práticas de letramento na EJA 32
Exemplo das diferentes concepções de linguagem

Concepção 1

» A criação » A língua é um produto acabado. Na qualidade de sistema


» As leis de criação
» A língua é uma atividade, um linguística é uma estável (léxico, gramática, fonética), se apresenta como
linguística são
processo criativo ininterrupto de criação racional depósito inerte, tal como a lava esfriada da criação linguística,
essencialmente leis
construção, que se materializa sob análoga à criação abstratamente construída pelos linguistas em vista de sua
individual-psicológicas;
a forma de atos de fala individuais; artística; aquisição prática como ferramenta pronta para uso.

Concepção 2

» As leis da língua são » Os vínculos linguísticos específicos » Os atos individuais constituem, do ponto
» A língua é um sistema essencialmente leis linguísticas nada têm a ver com valores de vista da língua, simples refrações ou
estável, imutável, de específicas que estabelecem ideológicos. Não se encontra na base variações fortuitas ou mesmo
formas linguísticas vínculos entre os signos dos fatos da língua nenhum motor deformações das formas normalizadas.
submetidas a uma norma linguísticos no interior de um ideológico. Entre a palavra e seu Entre o sistema da língua e sua história
fornecida tal qual à sistema fechado. Essas leis são sentido não existe vínculo natural e não existe nem vínculo nem comunhão
consciência individual e objetivas em relação a toda compreensível para a consciência, de motores. O sistema e sua história são
definiva para esta; consciência subjetiva; nem vínculo artístico; estranhos um ao outro.

Concepção 3
» A língua é um » Todo signo é » A língua » A língua é » A enunciação é de natureza social,
» A língua é uma um fato social, ideológico. A ideologia só existe enunciação, portanto ideológica. Ela só existe em
atividade social em que cuja existência é um reflexo das onde houver um trabalho um contexto social. O falante tem
o importante não é o se funda nas estruturas sociais. possibilidade empreendido sempre um interlocutor em
enunciado (o produto), necessidades A variação é inerente de diálogo conjuntamente pelos potencial a quem dirige sua palavra.
mas a enuciação de comunicação à língua e reflete em interação falantes, por isso, Ele pensa e se expressa para um
(o processo); do homem; variações sociais; social; uma atividade social; auditório social bem definido.

Fonte: Ilustrado por Carol Costa, adaptado a partir de Barbara Weedwood (2002)

Práticas de letramento na Educação de Jovens e Adultos  |  Concepção de linguagem e práticas de letramento na EJA 33
Conforme estudamos até agora, das três concepções de linguagem a que
melhor pode subsidiar o trabalho com as práticas de leitura e escrita
na EJA, favorecendo a formação dos educandos para a cidadania,
é a terceira, na qual a língua é vista como um fato social, o falante/
escrevente tem sempre um interlocutor a quem se dirige. Nesse sentido,
a linguagem é sempre dialógica e oportuniza a interação entre os
participantes da enunciação.

Práticas de letramento na Educação de Jovens e Adultos  |  Concepção de linguagem e práticas de letramento na EJA 34
Síntese da unidade
Nesta primeira Unidade Didática, discutimos o conceito de língua/
linguagem e as diferentes concepções de linguagem as quais podem
subsidiar o trabalho com as práticas de letramento no contexto da EJA,
optando pela concepção de linguagem como processo de interação
verbal, nos moldes propostos pelos estudos bakhtinianos da linguagem,
por entendermos ser essa concepção a que melhor pode atender às
necessidades de formação de alunos capazes de agir socialmente
pelos usos da leitura e da escrita, concebidas como práticas sociais
situadas, preparando-os para a agência cívica nas diferentes esferas da
atividade humana. Além disso, vimos que a língua é constitutivamente
heterogênea, que não existe um único jeito de falar, pois todas as
línguas variam e vivem em permanente estado de mudança. Também
discutimos a importância de a escola assumir uma concepção de
educação linguística voltada à formação para o respeito à diversidade de
falares e para o combate ao preconceito linguístico.

Práticas de letramento na Educação de Jovens e Adultos  |  Concepção de linguagem e práticas de letramento na EJA 35
PARA SABER MAIS

Caro estudante,

Para aprofundar os conteúdos estudados sobre linguagem e contribuições do


filósofo russo Mikhail Bakhtin e de outros pensadores do “Círculo linguístico
de Bakhtin” ao trabalho com as práticas de linguagem em sala de aula,
sugerimos que você veja o vídeo Questões de linguagem: conversa com
o professor Carlos Alberto Faraco, sobre o tema Bakhtin e sua Filosofia
da Linguagem, disponibilizado no youtube, acessando o endereço a seguir:

Fonte: Bakhtin e sua Filosofia da Linguagem - YouTube. . Acessado em: 07 jun. 2019.

Práticas de letramento na Educação de Jovens e Adultos  |  Concepção de linguagem e práticas de letramento na EJA 36
Avaliação de aprendizagem
leia o texto abaixo:

Aí, brother, Faltou grana


num dá pra pra pegar o
ir hoje. busão, falou?

Os mano
quebram
o galho
aí.



Fonte: Ilustrado por Mariana Brito

Práticas de letramento na Educação de Jovens e Adultos  |  Concepção de linguagem e práticas de letramento na EJA 37
1. Analise o grau de adequação do uso da linguagem na situação de
comunicação descrita no texto, refletindo sobre a relação entre
os personagens, a linguagem utilizada, além de outros fatores do
contexto discursivo. Fundamente teoricamente a sua análise a partir
dos conteúdos estudados nesta unidade.

2. De acordo com o que você estudou sobre concepções de linguagem e


considerando que a concepção de linguagem deve orientar o professor
a selecionar o que e como ensinar, escreva um comentário,
discutindo por qual das três concepções de linguagem o professor da
EJA deve optar e por que optar por ela. Fundamente sua resposta a
partir dos conteúdos teóricos estudados nesta aula.

Práticas de letramento na Educação de Jovens e Adultos  |  Concepção de linguagem e práticas de letramento na EJA 38
Leituras complementares
NEDER, M. L. C. Concepções de linguagem e o ensino de língua
portuguesa. Rev. Polifonia, v. 0, n.00, 1993. Disponível aqui! . Acesso
em: 20 abr. 2019.

Práticas de letramento na Educação de Jovens e Adultos  |  Concepção de linguagem e práticas de letramento na EJA 39
Referências
BAGNO, M. Nada na língua é por acaso: por uma pedagogia da
variação linguística. São Paulo: Parábola Editorial, 2007.

BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins


Fontes, 2003 [1979].

BAKHTIN, M. M.; VOLOCHÍNOV, V. N. Marxismo e filosofia da


linguagem: problemas fundamentais do método sociológico na ciência
da linguagem. Tradução do francês por Michel Lahud e Yara Vieira. 12.
ed. São Paulo: Hucitec, 2000 [1929].

BOURDIEU. P. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand


Brasil, 2007.

BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros


Curriculares Nacionais: Língua Portuguesa. Brasília:
MEC/SEC, 1998.

FARACO, C. A. Norma culta brasileira: desatando alguns nós.


São Paulo: Parábola Editorial, 2008.

Práticas de letramento na Educação de Jovens e Adultos  |  Concepção de linguagem e práticas de letramento na EJA 40
GERALDI, J. W. Concepções de linguagem e ensino do português. In:
GERALDI, J. W. (org.). O texto na sala de aula. São Paulo: Ática, 1997.

KLEIMAN, A. B. EJA e o ensino da língua materna: relevância dos


projetos de letramento. Rev. EJA EM DEBATE. Florianópolis, v. 1, p.
23-38, nov. 2012.

KOCH, I. V. A interação pela linguagem. São Paulo: Contexto, 2003.

NEDER, M. L. C. Concepções de linguagem e o ensino de Língua


Portuguesa. Rev. Polifonia, v. 0, n.00, 1993. Disponível aqui! . Acesso em:
20 jul. 2018.

TRAVAGLIA, L. C. Concepções de linguagem: gramática e


interação: uma proposta para o ensino de 1º e 2º graus. São Paulo:
Cortez, 1997.

WEEDWOOD, B. História concisa da linguística. São Paulo/SP:


Parábola editorial, 2002.

PNGTREE. 2017-2019. Disponível aqui! . Acesso em: 20 abr. 2019.

Práticas de letramento na Educação de Jovens e Adultos  |  Concepção de linguagem e práticas de letramento na EJA 41
Glossário
Discurso - Configura-se como um texto ou enunciado, o qual é produzido
em uma determinada situação de enunciação, sendo determinado pelas
condições sócio-históricas, isto é, se dá em um determinado contexto,
envolvendo quem fala, para quem se fala, onde se fala, sobre o que se fala etc.

Preconceito linguístico - Consiste em avaliações negativas e na


discriminação a pessoas por causa do seu jeito de falar. Partindo-se de um
modelo ideal de língua e de valores pautados na ideia de certo e errado,
discrimina-se alguém que foge de um padrão linguístico estabelecido a
partir de dicionários e gramáticas normativas, desconsiderando-se as
diferentes maneiras das pessoas na sociedade. Nesse caso, valorizam-se os
usos feitos pelas classes sociais de maior poder econômico e desvalorizam-se
os usos daqueles que estão nas classes subalternizadas.

Variação linguística - É um traço característico inerente à natureza de


todas as línguas humanas (francês, espanhol, português, alemão, italiano
etc.), marcadas pelo caráter heterogêneo o qual elas assumem, já que não
são uniformes.

Práticas de letramento na Educação de Jovens e Adultos  |  Concepção de linguagem e práticas de letramento na EJA 42
Violência simbólica - Trata-se de conceito criado pelo sociólogo francês,
Pierre Bourdieu. A violência simbólica é um meio para o exercício do poder
simbólico. Ao discutir o poder simbólico (BOURDIEU, 2007), o autor diz
tratar-se de uma forma de violência em que não se usa exatamente a força
física, mas se causa sofrimento e danos morais e psicológicos a alguém
pela imposição de crenças e valores baseados em padrões do discurso
dominante. No contexto de usos da linguagem, por exemplo, esse tipo de
violência se manifesta quando se afirma que a única forma de falar deve ser
a norma-padrão, desconsiderando-se os fatores que determinam a situação
de comunicação. Esse tipo de violência se fundamenta em padrões de
ordem econômica, social, cultural, institucional ou simbólica com o intuito
de induzir comportamentos baseados nesses padrões, que reconhecem
exclusivamente a legitimidade do discurso dominante em detrimento de
outras questões. Para Pierre Bourdieu, a violência simbólica é um meio para
o exercício do poder simbólico.

Práticas de letramento na Educação de Jovens e Adultos  |  Concepção de linguagem e práticas de letramento na EJA 43