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Alexandre Dumas

Os três
MOSQUETEIROS

Tradução:
André Telles e Rodrigo Lacerda
Sumário

Prefácio
No qual se estabelece que, apesar de seus nomes em os e is, os heróis da
história que teremos a honra de contar aos nossos leitores nada têm de
mitológicos

1. Os três presentes do sr. d’Artagnan pai


2. A antecâmara do sr. de Tréville
3. A audiência
4. O ombro de Athos, o boldrié de Porthos e o lenço de Aramis
5. Os mosqueteiros do rei e os guardas do cardeal
6. Sua Majestade o rei Luís XIII
7. A vida privada dos mosqueteiros
8. Uma intriga de corte
9. D’Artagnan diz a que veio
10. Uma ratoeira no século XVII
11. A trama se complica
12. Georges Villiers, duque de Buckingham
13. O sr. Bonacieux
14. O homem de Meung
15. Homens de toga, homens de espada
16. Capítulo no qual o ministro da Justiça Séguier tenta novamente badalar o
sino, como fazia em outros tempos
17. O casal Bonacieux
18. O amante e o marido
19. Plano de campanha
20. A viagem
21. A condessa de Winter
22. O balé dos melros
23. O encontro
24. pavilhão
25. A amante de Porthos
26. A tese de Aramis
27. A mulher de Athos
28. Regresso
29. A caça ao equipamento
30. Milady
31. Ingleses e franceses
32. Um jantar de promotor
33. Criada e patroa
34. No qual se trata dos equipamentos de Aramis e de Porthos
35. À noite todos os gatos são pardos
36. Sonho de vingança
37. O segredo de Milady
38. Como, sem se coçar, Athos conseguiu seu equipamento
39. Uma visão
40. O cardeal
41. O cerco de La Rochelle
42. O vinho de Anjou
43. A taberna do Pombal Vermelho
44. Da utilidade do cano de uma estufa
45. Cena conjugal
46. O reduto de Saint-Gervais
47. O conselho dos mosqueteiros
48. Assunto de família
49. Fatalidade
50. Conversa entre cunhados
51. Oficial!
52. Primeiro dia de cativeiro
53. Segundo dia de cativeiro
54. Terceiro dia de cativeiro
55. Quarto dia de cativeiro
56. Quinto dia de cativeiro
57. Um artifício de tragédia clássica
58. Fuga
59. O que acontecia em Portsmouth em 23 de agosto de 1628
60. Na França
61. O convento das Carmelitas de Béthune
62. Duas variedades de demônio
63. A gota d’água
64. O homem da capa vermelha
65. O julgamento
66. A execução
67. Uma mensagem do cardeal
Epílogo
PREFÁCIO

No qual se estabelece que, apesar de seus


nomes em os e is, os heróis da história que
teremos a honra de contar aos nossos
leitores nada têm de mitológicos

H áXIVcercana deBiblioteca
um ano, ao realizar pesquisas para minha história de Luís
Real, dei por acaso com as Memórias do sr.
d’Artagnan, impressas — como a maior parte dos livros dessa época, em
que os autores falavam a verdade sem precisar dar um passeio mais ou menos
longo até a Bastilha — em Amsterdã, por Pierre Le Rouge. O título me
seduziu: levei-as para casa, autorizado pelo sr. bibliotecário-chefe,
naturalmente, e as devorei.
Não sendo minha intenção fazer aqui uma análise desse curioso livro,
contento-me em recomendá-lo àqueles de meus leitores que apreciam
quadros de época. Lá, encontrarão retratos desenhados com mão de mestre; e,
embora esses esboços sejam, na maior parte do tempo, rabiscados em portas
de caserna e paredes de cabaré, nem por isso meus leitores deixarão de
identificar, tão fidedignas quanto na história do sr. Anquetil, os perfis de Luís
XIII, Ana da Áustria, Richelieu, Mazarino e da maioria dos cortesãos da
época.
Porém, como é sabido, o que impressiona o temperamento voluntarioso do
poeta nem sempre é o que impressiona a massa dos leitores. Ora, a despeito
de admirarmos, como possivelmente outros o farão, os detalhes que
assinalamos, o que mais nos intrigou foi uma coisa à qual, muito
possivelmente, ninguém antes de nós tinha dado a mínima atenção.
D’Artagnan conta que, em sua primeira visita ao sr. de Tréville, capitão
dos mosqueteiros do rei, encontrou na antecâmara três rapazes pertencentes à
ilustre corporação na qual ele solicitava a honra de ser aceito, cujos nomes
eram Athos, Porthos e Aramis.
Francamente, esses três nomes estrangeiros nos causaram espécie e, na
hora, ocorreu-nos que não passariam de pseudônimos, com a ajuda dos quais
d’Artagnan disfarçara nomes talvez ilustres, isso no caso de os portadores
desses nomes de empréstimo não os terem escolhido eles mesmos no dia em
que, por capricho, insatisfação ou penúria, envergaram o modesto uniforme
de mosqueteiro.
Desde então, não tivemos mais descanso, pois não encontramos em obras
contemporâneas qualquer vestígio desses nomes extraordinários, que tanto
haviam aguçado nossa curiosidade.
O rol dos livros que lemos para alcançar esse objetivo bastaria para ocupar
um capítulo inteiro, o que talvez fosse bastante instrutivo, mas seguramente
pouco divertido para os nossos leitores. Julgamos suficiente, portanto,
informar-lhes que, prestes a abandonar nossas buscas, desanimados diante de
tantas investigações infrutíferas, encontramos finalmente, guiados pelos
conselhos de nosso ilustre amigo e cientista Paulin Paris, um manuscrito in-
folio, cotado sob o nº 4772 ou 4773, não lembramos muito bem, tendo por
título: Relato do sr. conde de La Fère concernente a alguns fatos ocorridos
na França no fim do reinado de Luís XIII e início do reinado de Luís XIV.
Qual não foi nossa alegria quando, ao folhear tal manuscrito, uma última
esperança, encontramos na vigésima página o nome de Athos, na vigésima
sétima o nome de Porthos e na trigésima primeira o nome de Aramis!
A descoberta de um manuscrito completamente desconhecido, numa época
em que a ciência histórica acha-se avançadíssima, pareceu-nos quase
milagrosa. Corremos então a requerer autorização para imprimi-lo, no intuito
de um dia candidatarmo-nos, com a bagagem de outros, na Academia das
Inscrições e Belas-Letras, caso não conseguíssemos, coisa bastante plausível,
entrar na Academia Francesa com a nossa própria. Essa autorização, cumpre
dizê-lo, foi-nos graciosamente concedida — o que aqui registramos para dar
um desmentido público aos maldosos, segundo os quais vivemos sob um
governo muito mediocremente receptivo aos literatos.
Ora, é a primeira parte desse precioso manuscrito que hoje oferecemos aos
nossos leitores, restituindo-lhe o título que lhe cabe e assumindo o
compromisso — no caso de, como não duvidamos, esta primeira parte
receber os louros a que faz jus — de publicar imediatamente a segunda.
Enquanto isso, como o padrinho é um segundo pai, convidamos o leitor a
comunicar-nos, e não ao conde de La Fère, seu deleite ou o seu tédio.
Dito isto, passemos à nossa história.
1. Os três presentes do sr. d’Artagnan pai

N aonde
primeira segunda-feira do mês de abril de 1625, a aldeia de Meung,
nasceu o autor do Romance da rosa, parecia viver uma revolução
tão explosiva como se os huguenotes tivessem irrompido para fazer uma
segunda Rochelle. Muitos aldeões, vendo as mulheres fugirem para o lado da
rua Grande, ouvindo o choro das crianças na soleira das portas, corriam para
vestir a couraça e, reforçando seu aparato, um tanto duvidoso, com um
mosquete ou uma partasana, dirigiam-se à estalagem do Franc Meunier,
diante da qual se espremia, engrossando a cada minuto, um grupo compacto,
ruidoso e picado pela curiosidade.
Nessa época, as desordens eram comuns e não se passavam muitos dias
sem que uma ou outra cidade registrasse em seus anais algum acontecimento
desse gênero. Havia os senhores que guerreavam entre si; havia o rei que
guerreava contra o cardeal; havia o Espanhol que guerreava contra o
rei. Além disso, afora essas guerras em surdina ou públicas, secretas ou
ostensivas, havia também os ladrões, os mendigos, os huguenotes, os lobos e
os lacaios, que guerreavam contra todos os demais. Os burgueses
continuavam a armar-se contra os ladrões, contra os lobos, contra os lacaios
— muitas vezes contra os nobres e huguenotes —, algumas vezes contra o
rei, mas jamais contra o cardeal e o Espanhol. Resultou então desse hábito
adquirido que, na supracitada primeira segunda-feira do mês de abril de 1625,
os burgueses, ouvindo barulho e não vendo nem o estandarte amarelo e
vermelho nem o séquito do duque de Richelieu, acorreram à estalagem do
Franc Meunier.
Lá chegando, puderam todos ver e identificar a causa daquele rumor.
Um rapaz… tracemos seu retrato de uma penada: imaginem dom Quixote
aos dezoito anos, dom Quixote sem peitoral, sem loriga e sem perneira, dom
Quixote num gibão de lã cuja tonalidade azul transformara-se numa mistura
indescritível de borra de vinho com azul-celeste. O rosto comprido e moreno;
a maçã do rosto saliente, sinal de esperteza; os músculos do maxilar
superdesenvolvidos, indício infalível pelo qual reconhecemos o gascão
mesmo sem boina, e o moço usava uma boina enfeitada com uma espécie de
penacho; olhar franco e inteligente; um nariz adunco, mas finamente
desenhado; alto demais para um adolescente, baixo demais para um homem
feito, e a quem um olho de pouco treino teria tomado pelo filho de um
fazendeiro em viagem, exceto pela longa espada, que, pendurada num boldrié
de pele, batia nas panturrilhas de seu proprietário quando ele estava a pé e no
pelo arrepiado de sua montaria quando estava a cavalo.
Pois o nosso mancebo possuía uma montaria, e essa montaria era de tal
forma notável que logo foi notada: era um pangaré do Béarn, com doze ou
catorze anos de idade, amarelado, sem crinas no rabo, mas não sem gabarros
nas patas, e que, apesar de marchar com a cabeça mais baixa que os joelhos,
o que tornava inútil o uso do cabresto, ainda fazia regularmente seus quarenta
quilômetros diários. Infelizmente, as qualidades do animal ficavam tão bem-
escondidas sob seu pelo estranho e aspecto incongruente que, numa época
repleta de peritos em cavalos, a aparição do supracitado pangaré em Meung,
onde entrara fazia uns quinze minutos pela porta de Beaugency, gerou um
sentimento de menosprezo que recaía também sobre seu cavaleiro.
E esse sentimento havia sido de tal forma penoso para o jovem d’Artagnan
(assim se chamava o dom Quixote desse outro Rocinante) que ele até
desistira de dissimular o aspecto ridículo que lhe conferia, por melhor
cavaleiro que fosse, uma cavalgadura daquelas. Da mesma forma, com um
grande suspiro, aceitara aquele presente do sr. d’Artagnan pai. O jovem não
ignorava que semelhante animal valia pelo menos vinte libras e, verdade seja
dita, as palavras que acompanharam o presente não tinham preço:
— Meu filho — dissera o fidalgo gascão, naquele puro sotaque do Béarn
do qual Henrique IV nunca conseguira se livrar —, esse cavalo nasceu na
casa de seu pai, já se vão quase treze anos, e aqui permaneceu desde essa
época, o que o obriga a amá-lo. Não o venda nunca, deixe-o morrer tranquila
e honradamente de velhice e, se for levá-lo para a batalha, trate-o como
trataria um velho criado. Na corte — continuou o sr. d’Artagnan pai —, se
porventura tiver a honra de lá se apresentar, honra à qual, em todo caso, sua
velha nobreza o habilita, defenda dignamente seu nome de fidalgo,
dignamente sustentado por seus ancestrais há mais de quinhentos anos. Por
você e pelos seus — pelos seus, quero dizer os parentes e amigos —, não
tolere nada a não ser do sr. cardeal e do rei. É com bravura, preste atenção, e
com bravura apenas, que um fidalgo abre caminho nos dias de hoje. Aquele
que vacila um segundo talvez esteja deixando escapar o anzol que,
justamente durante aquele segundo, a fortuna lhe estendia. Você é jovem, e
deve ser um bravo por duas razões: a primeira é por ser gascão, e a segunda,
por ser meu filho. Não se furte às oportunidades e procure as aventuras.
Ensinei-lhe o manejo da espada; você tem um jarrete de ferro, um punho de
aço. Bata-se por qualquer motivo, ainda mais que os duelos estão proibidos,
havendo, por conseguinte, duas vezes mais coragem em se bater. Só tenho
para lhe dar, meu filho, quinze escudos, meu cavalo e os conselhos que acaba
de ouvir. A isto sua mãe acrescentará a receita de certa pomada que ela
recebeu de uma cigana, cuja virtude milagrosa pode curar qualquer ferida que
não seja do coração. Faça bom uso de tudo, viva alegremente e por muito
tempo. Tenho apenas mais uma palavra a acrescentar, e é um exemplo que
lhe ofereço, não o meu, considerando que nunca estive na corte e só participei
das guerras de religião como voluntário. Refiro-me ao sr. de Tréville, que foi
meu vizinho no passado e teve a honra de, ainda criança, brincar com nosso
rei Luís XIII, que Deus o guarde! Às vezes suas brincadeiras degeneravam
em confronto, e nesses confrontos nem sempre o rei era o mais forte. Os
golpes que recebeu só fizeram aumentar sua estima e amizade pelo sr. de
Tréville. Mais tarde, o sr. de Tréville bateu-se com outros: em sua primeira
viagem a Paris, cinco vezes; depois da morte do finado rei e até a maioridade
do jovem, sem contar as guerras e os cercos, sete vezes; e, desde a
maioridade real até hoje, cem vezes, quem sabe! Assim, apesar dos éditos,
das ordenações e dos decretos, ei-lo capitão dos mosqueteiros, isto é, chefe de
uma legião de césares, que contam com grande apreço do rei e que o cardeal
teme — ele que não teme muita coisa, como todos sabem. Além disso, o sr.
de Tréville ganha dez mil escudos por ano; logo, é um poderoso grão-senhor.
Começou igual a você, procure-o com esta carta e espelhe-se nele, a fim de
agir como ele.
Nesse ponto, o sr. d’Artagnan pai afivelou em seu filho sua própria espada,
beijou-o carinhosamente nas duas faces e deu-lhe a bênção.
Ao sair do quarto paterno, o rapaz encontrou a mãe, que o esperava com a
famosa receita, da qual os conselhos que acabamos de reportar sugeriam um
uso bastante frequente. As despedidas, desse lado, foram mais longas e
carinhosas do que haviam sido do outro, não que o sr. d’Artagnan não amasse
seu filho, que era sua única prole, mas o sr. d’Artagnan era um homem, e
teria visto como indigno de um homem entregar-se à emoção, ao passo que a
sra. d’Artagnan era mulher, e, além de tudo, mãe. Ela chorou
abundantemente, e mencionemos, à guisa de elogio ao sr. d’Artagnan filho,
que, não obstante seus esforços para permanecer firme como devia ser um
futuro mosqueteiro, a natureza venceu, e ele acabou derramando muitas
lágrimas, metade das quais conseguiu esconder com grande dificuldade.
No mesmo dia, o rapaz pôs-se a caminho, equipado com os três presentes
paternos, que se compunham, como dissemos, de quinze escudos, do cavalo e
da carta para o sr. de Tréville. Como se pode deduzir, os conselhos vieram de
brinde.
Com esse vade-mécum, d’Artagnan viu-se, no plano moral e no físico, uma
cópia fiel do herói de Cervantes, ao qual o comparamos com tanta precisão
quando nossos deveres de historiador nos impuseram a necessidade de traçar
seu perfil. Dom Quixote tomava os moinhos de vento por gigantes e os
carneiros por exércitos, d’Artagnan encarava cada sorriso como um insulto e
cada olhar como uma provocação. Daí resultou que manteve o punho fechado
desde Tarbes até Meung, encaixando a mão no copos da espada dez vezes ao
dia. Todavia, o punho não desceu sobre nenhum maxilar, e a espada não saiu
da bainha. Não é que a visão do lastimável pangaré amarelo não fizesse
desabrochar muitos sorrisos nos rostos dos passantes, mas, como em cima do
pangaré retinia uma espada respeitável e em cima dessa espada brilhava um
olho mais feroz que orgulhoso, os passantes reprimiam sua hilaridade, ou,
caso a hilaridade vencesse a prudência, tratavam pelo menos de rir de um
lado só, como as máscaras antigas. D’Artagnan permaneceu então majestoso
e intocado em sua suscetibilidade até a aldeia de Meung.
Lá, porém, enquanto apeava do cavalo na porta do Franc Meunier, sem que
ninguém, estalajadeiro, garoto ou palafreneiro, tivesse vindo agarrar o estribo
do lado esquerdo da montaria, d’Artagnan percebeu, numa janela entreaberta
no rés do chão, um fidalgo de bela estatura e aspecto altivo, embora com a
expressão ligeiramente crítica, o qual conversava com duas pessoas que
pareciam escutá-lo com deferência. D’Artagnan, muito naturalmente, como
de costume, julgou ser o objeto da conversa e pôs-se a escutá-la. Dessa vez,
só se enganara pela metade: não era ele que estava na berlinda, mas seu
cavalo. O fidalgo parecia listar aos ouvintes todas as qualidades do animal, e
como, tal qual eu disse, os ouvintes pareciam ter uma grande deferência pelo
narrador, estes a toda hora caíam na gargalhada. Ora, como meio sorriso
bastava para despertar a intolerância do rapaz, compreende-se o efeito que
produziu sobre ele a ruidosa hilaridade.
Mas d’Artagnan quis primeiro examinar a fisionomia do impertinente que
zombava dele. Fixou seu olhar orgulhoso sobre o estranho e reconheceu um
homem na casa dos quarenta, quarenta e cinco anos, de olhos pretos e
penetrantes, tez pálida, nariz fortemente acentuado, bigode preto e
cuidadosamente aparado. Ele vestia um gibão e um calção roxos com
agulhetas da mesma cor, sem nenhum ornamento senão as nesgas habituais
pelas quais a camisa passava. Esse calção e esse gibão, embora novos,
pareciam amarfanhados, como roupas de viagem há muito tempo guardadas
num armário. D’Artagnan reuniu todas essas impressões com a rapidez do
observador mais minucioso e, sem dúvida, movido por uma intuição que lhe
dizia que aquele desconhecido viria a ter uma grande influência sobre seu
futuro.
Ora, no momento em que d’Artagnan fixava seu olhar no fidalgo de gibão
roxo, este fazia, a propósito do pangaré bearnês, uma de suas mais estudadas
e incisivas gozações. Seus dois ouvintes caíram na risada, e ele mesmo
visivelmente deixou, contrariando seus hábitos, errar, se assim podemos
dizer, um pálido sorriso sobre seu rosto. Agora não restava mais dúvida:
d’Artagnan havia sido realmente insultado. Assim, imbuído de tal convicção,
ele puxou sua boina para os olhos e, tentando imitar alguns trejeitos de corte
que surpreendera em fidalgos de passagem pela Gasconha, avançou, com
uma das mãos na guarda de sua espada e a outra apoiada no quadril.
Desafortunadamente, à medida que avançava, a raiva cegava-o cada vez mais
e, em vez do discurso digno e altivo que preparara para formular sua
provocação, não encontrou na ponta da língua nada a não ser uma
personalidade grosseira e um gesto furioso.
— Ei, cavalheiro! — exclamou. — Cavalheiro, escondido atrás desse
batente! Sim, o senhor. Divida a piada comigo, para rirmos juntos.
O fidalgo desviou lentamente os olhos da montaria para o cavaleiro, como
se precisasse de um certo tempo para compreender que a ele se dirigiam tão
estranhas interpelações. Então, quando não lhe restava mais nenhuma dúvida,
suas sobrancelhas franziram-se ligeiramente e, após uma longuíssima pausa,
respondeu a d’Artagnan num tom de ironia e insolência impossível de
descrever:
— Não estou falando com o senhor, cavalheiro.
— Mas eu estou falando com o senhor! — exclamou o rapaz, exasperado
diante daquele misto de insolência e boas maneiras, salamaleques e desdém.
O desconhecido olhou-o ainda por um instante com seu sorriso sarcástico.
Então, deixando a janela, saiu lentamente da estalagem para se postar a dois
passos de d’Artagnan e se plantar diante do cavalo. Seu aspecto tranquilo e
sua fisionomia trocista haviam redobrado a hilaridade daqueles com os quais
conversava e que, por sua vez, haviam ficado na janela.
D’Artagnan, ao vê-lo aproximar-se, sacou sua espada um palmo fora da
bainha.
— Esse cavalo realmente é, ou melhor, foi uma flor de ouro em sua
juventude — emendou o desconhecido, continuando sua vistoria e dirigindo-
se aos seus ouvintes da janela, sem dar nenhuma mostra de perceber a
exasperação de d’Artagnan, que no entanto estava entre ele e os dois outros.
— A cor dele é conhecidíssima em botânica, mas raríssima num cavalo até
este momento.
— Aquele que ri do cavalo não se atreveria a rir de seu dono! — exclamou
o êmulo de Tréville, furioso.
— Não rio com frequência, cavalheiro — prosseguiu o desconhecido —,
como pode constatar por si mesmo pela minha cara. Em compensação, faço
questão de conservar o privilégio de rir quando me apraz.
— E eu — bradou d’Artagnan — não permito que se riam quando não me
apraz!
— Verdade, cavalheiro? — continuou o desconhecido, mais calmo do que
nunca. — Ora, isso é perfeitamente justo. — E, girando nos calcanhares, fez
menção de retornar à estalagem pela porta principal, sob a qual d’Artagnan,
ao chegar, observara um cavalo todo selado.
Mas não era da natureza de d’Artagnan deixar escapar assim um homem
que tivera a insolência de o ridicularizar. Puxou sua espada por inteiro da
bainha e saiu atrás dele, gritando:
— Vire-se, vire-se então, sr. engraçadinho, para que eu não o golpeie pelas
costas.
— Golpear-me! A mim! — disse o outro, dando meia-volta e encarando o
mancebo com grande espanto e igual desprezo. — Ora, vamos, meu caro, o
senhor está louco!
Depois, a meia-voz, e como se falasse consigo mesmo:
— É uma pena! Que achado para Sua Majestade, que anda à procura de
valentes para seu corpo de mosqueteiros!
Ainda mal terminava, d’Artagnan desferiu-lhe uma estocada tão forte que,
se ele não tivesse dado um pulo brusco para trás, é provável que tivesse
gracejado pela última vez. O desconhecido então percebeu que a coisa
extrapolava o âmbito do gracejo, sacou sua espada, cumprimentou seu
adversário e pôs-se gravemente em guarda. Nesse instante, porém, seus dois
ouvintes, acompanhados pelo estalajadeiro, atacaram d’Artagnan com um
porrete, uma pá e uma pinça de lareira. Essa intromissão na disputa foi tão
rápida e radical que fez com que o adversário de d’Artagnan, enquanto este se
voltava para fazer face àquela chuva de golpes, guardasse a espada com a
mesma precisão e, de ator que quase fora, voltasse a ser espectador do
combate, função que cumpriu com a impassibilidade habitual, resmungando,
apesar de tudo:
— Malditos sejam os gascões! Ponham-no de volta em seu cavalo amarelo,
e que ele suma daqui!
— Não antes de matá-lo, covarde! — gritava d’Artagnan, enfrentando o
melhor que podia, e sem recuar um passo, seus três inimigos, que o moíam de
pancada.
— Outra gasconada — murmurou o fidalgo. — Palavra de honra, esses
gascões são incorrigíveis! Continuem então com a dança, já que ele faz
questão. Quando ele cansar, dirá que já teve o bastante.
Mas o desconhecido ainda não sabia o tipo de teimoso com que estava
lidando, não sendo d’Artagnan homem de pedir misericórdia jamais. O
combate prosseguiu, então, durante mais alguns segundos. Finalmente,
esgotado, d’Artagnan deixou escapar sua espada, que uma porretada rachou
ao meio. Outro golpe, que lhe acertou a testa, derrubou-o quase
simultaneamente, todo ensanguentado e semidesmaiado.
Nesse momento, acorreram de todos os lados para o local da cena. Com
medo do escândalo, o estalajadeiro carregou, com a ajuda de seus garotos, o
ferido para a cozinha, onde alguns cuidados lhe foram dispensados.
Quanto ao fidalgo, este voltara a ocupar seu lugar na janela e observava
com certa impaciência toda aquela multidão, que parecia igualmente causar-
lhe uma viva contrariedade.
— E então! Como vai esse cão raivoso? — indagou, voltando-se ao
barulho da porta que se abrira e dirigindo-se ao estalajadeiro, que vinha se
informar de sua saúde.
— Vossa Excelência está sã e salva? — perguntou o estalajadeiro.
— Sim, inteiramente sã e salva, prezado anfitrião, e sou eu quem lhe
pergunto o estado do nosso jovem.
— Está melhor — disse o estalajadeiro. — Desmaiou completamente.
— Verdade? — inquiriu o fidalgo.
— Antes de desmaiar, porém, reuniu todas as forças para interpelar-vos e
desafiar-vos.
— Mas então esse rapazola é o diabo em pessoa! — exclamou o
desconhecido.
— Oh, não, Vossa Excelência, não é o diabo — respondeu o estalajadeiro,
com uma careta de desprezo —, pois enquanto estava desmaiado nós o
revistamos e ele só carrega uma camisa na trouxa e onze escudos na bolsa, o
que não o impediu de dizer, ao perder os sentidos, que se uma coisa dessas
tivesse acontecido em Paris vós vos arrependeríeis imediatamente, ao passo
que aqui só vos arrependereis mais tarde.
— Então — disse friamente o desconhecido —, é algum príncipe de
sangue disfarçado.
— Digo-vos isto, meu fidalgo — retorquiu o hoteleiro —, para que estejais
preparado.
— Ele não disse o nome de ninguém em sua fúria?
— Justamente, batia em seu bolso e dizia: “Veremos o que o sr. de Tréville
pensará desse insulto contra seu protegido.”
— O sr. de Tréville? — perguntou o desconhecido, agora mais atento. —
Ele batia em seu bolso pronunciando o nome do sr. de Tréville…? Vejamos,
prezado anfitrião, enquanto seu homem estava desmaiado o senhor não
deixou, tenho certeza, de revistar o seu bolso… O que tinha lá?
— Uma carta endereçada ao sr. de Tréville, capitão dos mosqueteiros.
— Não acredito!
— É como tenho a honra de dizer-vos, Excelência.
O estalajadeiro, que não era dotado de grande perspicácia, sequer notou a
expressão que suas palavras imprimiram na fisionomia do desconhecido. Este
deixou o peitoril da janela, sobre a qual continuara apoiando o cotovelo, e
repuxou uma sobrancelha de homem preocupado.
— Diabos! — murmurou, rilhando os dentes. — Tréville me teria enviado
esse gascão? Ele é muito jovem! E um golpe de espada é um golpe de espada,
seja qual for a idade daquele que o desfere, e desconfiamos menos de uma
criança que de outro qualquer. Às vezes basta um obstáculo frágil para
contrariar um grande desígnio.
E o desconhecido caiu numa reflexão que durou alguns minutos.
— Vejamos, estalajadeiro — disse ele —, por acaso não se livraria desse
cão raivoso para mim? Não posso matá-lo em sã consciência, e no entanto —
acrescentou, com uma expressão fria e ameaçadora —, ele me incomoda.
Onde se encontra agora?
— No quarto da minha mulher, que está fazendo um curativo nele, no
primeiro andar.
— Suas roupas e sua bolsa estão com ele? Não despiu o gibão?
— Tudo isso está lá embaixo, na cozinha. Mas, visto que esse jovem louco
vos incomoda…
— Sem dúvida. Ele causa em sua estalagem um escândalo que pessoas
honestas não poderiam suportar. Vá até lá, faça minhas contas e avise meu
lacaio.
— O quê! Vós já ireis nos deixar?
— O senhor sabe muito bem, uma vez que lhe dei ordens para mandar
selar meu cavalo. Não me obedeceram?
— Perfeitamente, como Vossa Excelência pode ver, o cavalo está na porta
principal, pronto para partir.
— Muito bem, faça o que eu lhe disse, então.
“Estranho!”, pensou consigo o estalajadeiro. “Estaria ele com medo do
rapazola?”
Mas um imperativo piscar de olhos do desconhecido deixou-o petrificado.
Saudou humildemente e retirou-se.
— Não convém que Milady seja vista por esse destrambelhado —
continuou o estrangeiro —, ela não deve demorar a passar, já está inclusive
atrasada. Definitivamente, o melhor que tenho a fazer é pegar o cavalo e ir
colocar-me diante dela. Se pelo menos eu pudesse saber o que contém essa
carta destinada a Tréville!
E o desconhecido, sempre resmungando, dirigiu-se à cozinha.
Nesse ínterim, o estalajadeiro, sem desconfiar que não era a presença do
rapaz que expulsava o desconhecido de sua estalagem, subira até o quarto da
mulher e encontrara d’Artagnan finalmente senhor de si. Então, ao mesmo
tempo em que lhe explicava que a polícia poderia muito bem fazer-lhe uma
surpresa desagradável por ele ter procurado confusão com um grão-senhor —
pois, na opinião do estalajadeiro, o desconhecido só podia ser um grão-senhor
—, intimou-o, apesar de sua fraqueza, a se levantar e retomar seu caminho.
D’Artagnan, meio atordoado, sem gibão e com a cabeça enfaixada, levantou-
se e, empurrado pelo estalajadeiro, começou a descer. Porém, ao chegar à
cozinha, a primeira coisa que viu foi seu desafeto, que conversava
tranquilamente no estribo de uma pesada carruagem atrelada a dois grandes
cavalos normandos.
Sua interlocutora, cuja cabeça aparecia emoldurada pela portinhola, era
uma mulher de vinte, vinte e dois anos. Já comentamos a rapidez com que
d’Artagnan analisava as fisionomias. Viu então, ao primeiro relance, que a
mulher era jovem e bonita. Ora, essa beleza impressionou-o ainda mais na
medida em que era completamente estranha às regiões meridionais nas quais
d’Artagnan morara até então. Era uma jovem pálida e loura, com longos
cabelos cacheados caindo sobre os ombros, grandes e lânguidos olhos azuis,
lábios róseos e mãos de alabastro. Ela conversava acaloradamente com o
desconhecido.
— Quer dizer que Sua Eminência me ordena… — dizia a dama.
— … que retorne imediatamente à Inglaterra e lhe avise diretamente se o
duque deixar Londres.
— E quanto às minhas outras instruções? — perguntou a bela viajante.
— Estão trancadas nesse estojo, que a senhora só abrirá do outro lado do
canal da Mancha.
— Muito bem. E o senhor, o que fará?
— Voltarei a Paris.
— Sem castigar esse insolente rapazola? — perguntou a dama.
O desconhecido ia responder, porém, no momento em que abria a boca,
d’Artagnan, que ouvira tudo, irrompeu no umbral da porta, exclamando:
— É esse insolente rapazola que castiga os outros, e espero sinceramente
que agora aquele a quem procura castigar não lhe escape como da primeira
vez.
— Não lhe escape? — reagiu o desconhecido, franzindo o cenho.
— Pois diante de uma mulher o senhor não ousaria fugir, eu presumo.
— Pense bem no que vai fazer — advertiu Milady, vendo o fidalgo levar a
mão à espada —, pois o menor atraso pode colocar tudo a perder.
— Tem razão — exclamou o fidalgo. — Vá então para o seu lado, que eu
vou para o meu.
E, saudando a dama com a cabeça, pulou sobre seu cavalo, enquanto o
cocheiro da carruagem chicoteava vigorosamente sua parelha. Os dois
interlocutores partiram a galope, afastando-se cada um por um lado oposto da
estrada.
— Ei, sua conta! — vociferou o estalajadeiro, cuja afeição pelo viajante
transformava-se num profundo desdém ao ver que ele ia embora sem pagar as
despesas.
— Pague, idiota — gritou o viajante em pleno galope ao seu lacaio, o qual
atirou aos pés do estalajadeiro duas ou três moedas de prata e pôs-se a
galopar atrás do patrão.
— Ah, covarde! Miserável! Nobre fajuto! — berrou d’Artagnan, lançando-
se por sua vez atrás do lacaio.
Mas o ferido estava ainda muito fraco para suportar aquela investida. Mal
tinha dado dez passos, seus ouvidos zumbiram, ele ficou tonto, uma nuvem
de sangue atravessou seus olhos e ele caiu no meio da rua, ainda gritando:
— Covarde! Covarde! Covarde!
— É realmente um grande covarde — murmurou o estalajadeiro,
aproximando-se de d’Artagnan e tentando, com esse lisonjeio, voltar às boas
com o pobre rapaz, como a garça-real da fábula arranjou-se com seu caracol.
— Sim, um grande covarde — murmurou d’Artagnan. — Mas ela, que
beleza!
— Ela quem?
— Milady — balbuciou d’Artagnan.
E desmaiou pela segunda vez.
— Dá na mesma — disse o estalajadeiro —, perco dois, mas me sobra este,
que tenho certeza de conservar pelo menos alguns dias. São onze escudos
garantidos no bolso.
Sabemos que onze escudos perfaziam exatamente a soma restante na bolsa
de d’Artagnan.
O estalajadeiro havia calculado onze dias de doença a um escudo por dia;
mas ele não conhecia seu viajante. Na manhã seguinte, às cinco horas da
manhã, d’Artagnan levantou-se, desceu por conta própria até a cozinha,
pediu, além de alguns outros ingredientes cuja lista não chegou até nós,
vinho, azeite e alecrim, e, com a receita materna em punho, fabricou uma
pomada que passou em seus diversos ferimentos, renovando suas compressas
ele mesmo e recusando-se a admitir a presença de qualquer médico. Graças
provavelmente à eficácia da pomada da Boêmia, e talvez também graças à
ausência de qualquer tipo de médico, d’Artagnan viu-se de pé aquela mesma
noite, e praticamente curado no dia seguinte.
No momento, porém, de pagar o alecrim, o azeite e o vinho, única despesa
do cavaleiro, que fizera uma dieta radical, ao passo que, ao contrário, o
cavalo amarelo, pelo menos conforme o estalajadeiro, comera três vezes mais
do que poderíamos razoavelmente ter suposto para seu tamanho, d’Artagnan
só encontrou em seu bolso a bolsinha de veludo puído, bem como os onze
escudos lá contidos. Com respeito à carta dirigida ao sr. de Tréville, ela
desaparecera.
O rapaz pôs-se a procurar a carta com grande paciência, virando e
revirando vinte vezes seus bolsos e algibeiras, mexendo e remexendo sua
mala, abrindo e fechando sua bolsa. Quando chegou à convicção de que a
carta estava perdida, teve um terceiro acesso de fúria, o qual por pouco não o
obrigou a consumir uma nova dose de vinho e azeite aromatizados. Pois,
vendo aquela jovem cabeça sem juízo exaltar-se e ameaçar quebrar tudo no
estabelecimento se não achassem sua carta, o estalajadeiro já pegara um
chuço, sua mulher, um cabo de vassoura, e seus garotos, os mesmos porretes
usados na antevéspera.
— Minha carta de recomendação! — exclamava d’Artagnan. — Minha
carta de recomendação, pelo amor de Deus! Ou os espeto a todos como se
fossem codornas!
Para seu azar, uma circunstância opunha-se a que o jovem concretizasse
sua ameaça. É que, como dissemos, sua espada fora, naquela primeira luta,
quebrada em dois pedaços, algo de que ele tinha se esquecido
completamente. Daí resultou que, quando d’Artagnan quis efetivamente sacá-
la, viu-se armado pura e simplesmente com um toco de espada de cerca de
vinte ou vinte e cinco centímetros, que o estalajadeiro havia cuidadosamente
enfiado de novo na bainha. Quanto ao resto da lâmina, o dono da estalagem
havia desviado furtivamente para com ele fazer um espeto de carne.
Entretanto, essa decepção possivelmente não teria detido nosso fogoso
mancebo, se o estalajadeiro não tivesse ponderado que a reclamação que lhe
dirigia seu viajante era plenamente justa.
— Ora bolas — disse ele, abaixando o chuço —, onde pode estar essa
carta?
— Sim, onde pode estar? — gritou d’Artagnan. — Aviso desde já, essa
carta é para o sr. de Tréville, e é bom que a encontrem. Aliás, se ela não for
encontrada, ele próprio saberá muito bem fazerem encontrá-la!
Essa ameaça terminou de intimidar o estalajadeiro. Depois do rei e do sr.
cardeal, o sr. de Tréville talvez fosse o homem cujo nome era mais repetido
pelos militares e até mesmo pelos burgueses. Havia decerto o padre Joseph, é
verdade, mas seu nome só era pronunciado baixinho, tão grande era o terror
que inspirava a Eminência Parda, como era alcunhado o confidente do
cardeal.
Dessa forma, jogando seu chuço para longe e ordenando à mulher que
fizesse o mesmo com seu cabo de vassoura e aos criados com seus porretes,
deu o primeiro exemplo, pondo-se ele mesmo à procura da carta perdida.
— Essa carta continha alguma preciosidade? — perguntou o estalajadeiro,
no fim de um instante de buscas infrutíferas.
— É uma piada? Claro que sim! — exclamou o gascão, que contava com a
carta para abrir seu caminho na corte. — Continha minha fortuna.
— Apólices do Tesouro? — indagou o estalajadeiro, preocupado.
— Apólices do tesouro pessoal de Sua Majestade — respondeu
d’Artagnan, que, esperando entrar no serviço do rei graças àquela
recomendação, julgava poder dar sem mentir essa resposta um tanto atrevida.
— Diabos! — exclamou o estalajadeiro, efetivamente desesperado.
— O dinheiro não importa — continuou d’Artagnan, com a fleugma de sua
terra natal —, o dinheiro não é nada. A carta era tudo. Eu preferia ter perdido
mil pistolas a perdê-la.
Ele bem poderia ter dito vinte mil, mas reteve-o certo pudor juvenil.
Um raio de luz atingiu subitamente a inteligência do estalajadeiro, que se
amaldiçoava por não achar nada.
— Essa carta na verdade não se perdeu — exclamou ele.
— Ah! — fez d’Artagnan.
— Não, ela foi roubada.
— Roubada! E por quem?
— Pelo fidalgo de ontem. Ele desceu à cozinha, onde estava seu gibão.
Ficou lá sozinho. Aposto que foi ele quem a roubou.
— O senhor acha? — respondeu d’Artagnan, não muito convencido, pois
sabia melhor do que ninguém a importância toda pessoal dessa carta, e nela
não via nada que pudesse tentar a cupidez alheia. O fato é que nenhum dos
criados, nenhum dos hóspedes presentes teria ganhado nada com a posse
daquele papel. — Então está me dizendo — continuou d’Artagnan — que
suspeita daquele impertinente fidalgo.
— Estou lhe dizendo que tenho certeza disso — continuou o estalajadeiro.
— Quando anunciei que Vossa Senhoria era protegido do sr. de Tréville e
que o senhor tinha inclusive uma carta para esse ilustre fidalgo, ele pareceu
bastante preocupado, me perguntou onde estava essa carta e desceu
imediatamente à cozinha, onde sabia que estava seu gibão.
— Então é um ladrão — concluiu d’Artagnan. — Irei queixar-me dele ao
sr. de Tréville, e o sr. de Tréville irá queixar-se ao rei. — Tirou então
majestosamente dois escudos do bolso, deu-os ao estalajadeiro, que o
acompanhou, chapéu na mão, até a porta, e montou seu cavalo amarelo, que o
conduziu sem novos incidentes até a porta Saint-Antoine, em Paris, onde seu
proprietário o vendeu por três escudos, o que era um preço ótimo,
considerando que d’Artagnan exigira muito dele durante a última etapa da
viagem. Nem assim o alquilador, a quem d’Artagnan cedera-o mediante a
soma supracitada, escondeu do rapaz que só lhe pagava aquela soma
exorbitante por causa da originalidade de sua cor.
D’Artagnan, portanto, entrou em Paris a pé, sobraçando sua pequena
trouxa, e andou até encontrar um quarto para alugar que se ajustasse à
exiguidade de seus recursos. Esse quarto era uma espécie de mansarda,
situada à rua dos Coveiros, perto do Luxemburgo.
Entregue a Deus o último centavo, d’Artagnan tomou posse de seu
alojamento e passou o resto do dia a costurar seu gibão e os calções de
alamares que sua mãe arrancara de um gibão quase novo do sr. d’Artagnan
pai e lhe entregara às escondidas. Em seguida, foi até o cais de la Ferraille
arranjar uma lâmina para sua espada e voltou ao Louvre. Lá perguntou ao
primeiro mosqueteiro que encontrou a localização do palácio do sr. de
Tréville, que ficava na rua do Vieux-Colombier, isto é, muito próximo do
quarto alugado por d’Artagnan, circunstância que lhe pareceu auspiciosa para
o sucesso de sua viagem.
No fim de tudo, satisfeito com a forma como se comportara em Meung,
sem remorsos no passado, confiante no presente e esperançoso no futuro,
deitou-se e dormiu o sono dos bravos.
Tal sono, ainda bastante ingênuo, embalou-o até as nove horas da manhã,
quando se levantou para ir à casa do famoso sr. de Tréville, o terceiro nome
do reino segundo a avaliação paterna.
2. A antecâmara do sr. de Tréville

O sr.de deTréville,
Troisville, como ainda se chamava sua família na Gasconha, ou sr.
como ele mesmo terminara por se designar em Paris, tinha
realmente começado como d’Artagnan, isto é, sem um tostão furado, mas
com esse fundo de audácia, inteligência e compreensão que faz com que
qualquer pobre fidalgote gascão tenha suas expectativas pela herança paterna
melhor satisfeitas do que o mais rico fidalgo do Périgord ou do Berry recebe
na realidade. Sua coragem insolente, sua sorte mais insolente ainda, numa
época em que os golpes choviam como gelo, haviam-no alçado ao topo dessa
escada difícil que se chama o favor da corte, e cujos degraus ele subira de
quatro em quatro.
Era o amigo do rei, o qual reverenciava, como todos sabem, a memória do
pai, Henrique IV. O pai do sr. de Tréville havia-o servido tão fielmente em
suas guerras contra a Liga que, à falta de dinheiro no caixa — coisa que a
vida inteira faltou ao bearnês, o qual pagou constantemente suas dívidas com
a única coisa que nunca precisou pegar emprestado, isto é, a inteligência —
que à falta de dinheiro no caixa, dizíamos, o rei o autorizara, após a rendição
de Paris, a adotar como brasão um leão de ouro sobre goles com a divisa:
Fidelis et fortis. Era muito para a honra, mas era pouco para o bem-estar.
Assim, quando o ilustre companheiro do grande Henrique morreu, deixou
como única herança para o senhor seu filho a espada e a divisa. Graças a esse
duplo presente e ao nome sem mácula que o acompanhava, o sr. de Tréville
foi aceito na casa do jovem príncipe, onde serviu tão bem com sua espada e
foi tão fiel à sua divisa que Luís XIII, um dos melhores espadachins do reino,
tinha o costume de dizer que, se tivesse um amigo prestes a duelar, dar-lhe-ia
o conselho de tomar como testemunha ele em primeiro lugar, e Tréville em
segundo, e talvez até antes dele.
Portanto, Luís XIII tinha uma afeição autêntica por Tréville, afeição real,
afeição egoísta, é verdade, mas nem por isso menos afetuosa. É que, nesses
tempos infelizes, não havia quem não procurasse cercar-se de homens da
têmpera de Tréville. Muitos podiam adotar como divisa o epíteto forte, que
formava a segunda parte de seu mote, mas poucos fidalgos podiam reclamar
o epíteto fiel, que formava a primeira. Tréville era um destes últimos, uma
dessas raras combinações de inteligência obediente, como a do cão
dinamarquês, cega por natureza, olho rápido e mão ágil, a quem o olho não
fora concedido senão para ver se o rei estava descontente com alguém, e a
mão, senão para golpear esse impertinente: um Besme, um Maurevers, um
Poltrot de Méré, um Vitry. Enfim, para Tréville faltava apenas a
oportunidade, mas ele a espreitava, e prometia-se agarrá-la por seus três fios
de cabelo se um dia ela viesse a passar ao alcance de sua mão. Logo o rei
nomeou Tréville capitão de seus mosqueteiros, que eram para Luís XIII, pela
dedicação, ou antes pelo fanatismo, o que os ordinários eram para Henrique
III e o que a guarda escocesa era para Luís XI.
Nesse aspecto, o cardeal em nada ficava a dever ao rei. Quando vira a
formidável elite de que Luís XIII se rodeava, esse segundo, ou melhor, esse
primeiro rei da França também quisera ter sua guarda. Teve então seus
mosqueteiros, como Luís XIII tinha os seus, e era visível que as duas
potências rivais selecionavam para seus destacamentos, em todas as
províncias da França e mesmo em todos os Estados estrangeiros, os mais
célebres no manejo da espada. Era por isso que Richelieu e Luís XIII
discutiam frequentemente, jogando à noite o seu xadrez, acerca do mérito de
seus servidores. Cada um gabava a atitude e a coragem dos seus homens, e,
embora se pronunciassem, em alto e bom som, contra os duelos e as rixas,
estimulavam-nos na surdina a chegar às vias de fato, experimentando um
verdadeiro sofrimento ou uma alegria desmedida por cada derrota ou cada
vitória. Pelo menos assim dizem as Memórias de um homem que presenciou
algumas dessas derrotas e muitas dessas vitórias.
Tréville conquistara o lado mais terno de seu senhor, e era a essa
habilidade que devia o duradouro e constante favor de um rei que nunca
perdeu a reputação de ter sido fidelíssimo às suas amizades. Fazia seus
mosqueteiros desfilarem na frente do cardeal Armand Duplessis com um ar
zombeteiro que eriçava de raiva o bigode grisalho de Sua Eminência. Tréville
entendia admiravelmente bem a guerra dessa época, em que, quando não se
vivia à custa do inimigo, vivia-se à custa dos compatriotas. Seus soldados
formavam uma legião de endemoniados, indisciplinada perante qualquer um
que não ele.
Impertinentes, amantes do vinho, caluniados, os mosqueteiros do rei, ou
melhor, os do sr. de Tréville, espalhavam-se nos cabarés, nos passeios, nos
logradouros públicos, gritando alto e retorcendo seus bigodes, fazendo retinir
suas espadas, desafiando com volúpia os guardas do sr. cardeal quando os
encontravam. Em seguida, desembainhavam, no meio da rua, com mil piadas.
Às vezes morriam, mas nesse caso com a certeza de serem chorados e
vingados; outras, mais frequentes, matavam, mas aí com a certeza então de
não mofarem na prisão, o sr. de Tréville estando lá para resgatá-los. Por isso,
o sr. de Tréville era louvado em todos os tons, cantado em todas as escalas
por esses homens que o adoravam, e que, por mais desabridos que fossem,
tremiam à sua frente como colegiais diante de seu professor, obedecendo à
menor palavra e dispostos a morrer para lavarem qualquer desonra.
O sr. de Tréville fizera uso dessa poderosa alavanca, primeiro para o rei e
os amigos do rei — depois para ele mesmo e seus amigos. Em todo caso, em
nenhuma das memórias desse tempo, que deixou tantas memórias, vemos
esse digno fidalgo acusado — nem mesmo por seus inimigos, que existiam
tanto entre a gente da pena quanto entre a gente da espada —, em lugar
nenhum vemos, dizíamos, esse digno fidalgo ser acusado de receber dinheiro
por colaborar com seus sequazes. Com um raro talento para a conspiração,
páreo para os mais exímios conspiradores, permanecera um homem honesto.
Como se não bastasse, a despeito das grandes estocadas que alquebram e dos
exercícios penosos que cansam, tornara-se um dos mais gentis frequentadores
de bordéis, um dos mais finos galanteadores, um dos mais afetados literatos
anfigúricos de sua época. Falava-se da boa sorte de Trévillle como vinte anos
antes falara-se da de Bassompierre — o que não era falar pouco. O capitão
dos mosqueteiros era portanto admirado, temido e amado, o que constitui o
apogeu das fortunas humanas.
Luís XIV absorveu todos os pequenos astros de sua corte em sua vasta
irradiação. Mas seu pai, sol pluribus impar, irradiou seu esplendor sobre cada
um de seus favoritos, seu valor individual sobre cada um de seus cortesãos.
Afora a cerimônia do despertar do rei e o do cardeal, Paris contava na época
com mais de duzentas igualmente disputadas. Dentre essas duzentas, a de
Tréville era uma das mais concorridas.
O pátio de seu palácio, situado na rua do Vieux-Colombier, parecia um
acampamento, e isto desde as seis horas da manhã no verão e a partir das oito
no inverno. Cerca de cinquenta ou sessenta mosqueteiros, que pareciam
revezar-se para formarem um número sempre imponente, passeavam por ali
incessantemente, armados para a guerra e dispostos a tudo. Por uma das
grandes escadarias do local, cujas pedras bastariam a nossa civilização para
construir uma casa inteira, subiam e desciam os solicitadores de Paris, que
corriam atrás de um favor qualquer, fidalgos de província, ávidos por uma
colocação, e os lacaios pintalgados de todas as cores, que vinham trazer
mensagens de seus patrões para o sr. de Tréville. Na antecâmara, em
compridos bancos circulares, aguardavam os eleitos, isto é, os que haviam
sido convocados. Um burburinho reinava ali desde a manhã até o fim da
tarde, enquanto o sr. de Tréville, em seu gabinete contíguo a essa antecâmara,
recebia as visitas, escutava as queixas, dava suas ordens e, como o rei na
sacada do Louvre, tinha apenas que aparecer à janela para proceder à revista
de homens e armas.
No dia em que d’Artagnan se apresentou, a multidão impressionava,
sobretudo a um provinciano recém-chegado. É verdade que esse provinciano
era gascão, e que, ainda mais nessa época, os conterrâneos de d’Artagnan
tinham a fama de não se deixarem intimidar facilmente. Com efeito, depois
de atravessar a porta maciça, rebitada com pregos compridos de cabeça
quadrangular, caía-se no meio de um rebanho de guerreiros, que se cruzavam
no pátio interpelando-se, discutindo e gracejando uns com os outros. Para
atravessar essas ondas agitadas, convinha ser oficial, grão-senhor ou uma
linda mulher.
Foi então através dessa horda e dessa balbúrdia que nosso rapaz avançou, o
coração palpitante, chacoalhando seu espadão ao longo de suas pernas
magras, e mantendo uma das mãos na aba de seu chapéu de feltro, com
aquele sorriso encabulado do provinciano que quer fazer bonito. Quando
ultrapassava um grupo, então respirava mais à vontade. Mas percebia que se
voltavam para examiná-lo e, pela primeira vez na vida, d’Artagnan, que até
esse dia fazia uma excelente opinião de si mesmo, julgou-se ridículo.
Ao chegar à escada, foi pior ainda. Havia nos primeiros degraus quatro
mosqueteiros divertindo-se no exercício que descreveremos a seguir,
enquanto dez ou doze de seus colegas esperavam no andar de cima sua vez de
participar da brincadeira.
Um deles, instalado no degrau superior, com a espada nua na mão, impedia
ou pelo menos tentava impedir os outros três de subir.
Estes três esgrimiam contra ele com suas espadas agilíssimas. À primeira
vista, d’Artagnan achou que se tratava de floretes de esgrima. Julgou-os
arredondados nas pontas, mas logo percebeu, por alguns arranhões, que todas
aquelas armas eram, ao contrário, pontiagudas e afiadas para valer, e que, a
cada um daqueles arranhões, não apenas os espectadores, como também os
atores, riam feito loucos.
O que ocupava o degrau nesse momento continha maravilhosamente seus
adversários. Formou-se um círculo em volta deles. A regra impunha que a
cada toque a vítima saísse do jogo, deixando de ser o centro das atenções em
prol do vencedor. Em cinco minutos, três viram-se lanhados, um no punho,
outro no queixo, outro na orelha, pelo defensor do degrau, ele próprio sem
um arranhão — destreza que lhe valeu, segundo a convenção estipulada, três
rodadas extras.
Por menos impressionável que fosse, ou quisesse admitir, esse passatempo
espantou nosso jovem forasteiro. Vira em sua província, naquela terra onde
as cabeças esquentam por tão pouco, não mais que preliminares de duelos, e a
gasconada daqueles quatro jogadores pareceu-lhe a mais radical de todas as
que já ouvira falar, mesmo na Gasconha. Julgou-se transportado para aquele
célebre país dos gigantes, onde Gulliver esteve mais tarde, e sentiu grande
medo, mas ele ainda não vira tudo: faltavam o andar de cima e a antecâmara.
No andar de cima, ninguém se digladiava mais, contavam-se histórias de
mulheres, e na antecâmara, histórias da corte. No andar de cima, d’Artagnan
corou; na antecâmara, estremeceu. Sua imaginação ardente e volúvel, que na
Gasconha o tornava temível às jovens camareiras e até mesmo, vez por outra,
às jovens donas de casa, nunca sonhara, sequer nesses momentos de delírio,
com a metade daquelas maravilhas amorosas ou um quarto daquelas proezas
galantes, realçadas pelos nomes mais conhecidos e pelos detalhes menos
dissimulados. Mas se o seu amor pelos bons costumes viu-se melindrado no
andar de cima, seu respeito pelo cardeal escandalizou-se na antecâmara. Ali,
para seu grande espanto, d’Artagnan ouviu criticarem em altos brados a
política que fazia tremer a Europa, bem como a vida privada do cardeal, que
punira tantos insignes e poderosos senhores por terem tentado investigá-la.
Esse grande homem, reverenciado pelo sr. d’Artagnan pai, era motivo de
chacota para os mosqueteiros do sr. de Tréville, que troçavam de suas pernas
tortas e de sua corcunda. Alguns teciam elogios à sra. d’Aiguillon, sua
amante, e à sra. Combalet, sua sobrinha, enquanto os demais reuniam armas
contra os pajens e guardas do cardeal-duque, tudo coisas que pareciam a
d’Artagnan monstruosas impossibilidades.
Porém, quando o nome do rei às vezes surgia inesperadamente no meio de
todas essas barbaridades cardinalescas, uma espécie de mordaça tapava por
um momento aquelas bocas trocistas. Os mosqueteiros olhavam com
hesitação em torno de si, parecendo temer a indiscrição da divisória do
gabinete do sr. de Tréville, mas logo uma alusão trazia a conversa de volta
para Sua Eminência, e o vozerio ressuscitava ainda mais forte, e sua atitude
era retomada sem qualquer moderação.
“Naturalmente, essas pessoas vão ser atiradas na Bastilha e enforcadas”,
pensou d’Artagnan com terror. “E eu, provavelmente, irei junto com elas,
pois, a partir do momento em que as escutei e entendi, serei considerado seu
cúmplice. O que diria o senhor meu pai, que tanto me recomendou respeito
pelo cardeal, se me soubesse na companhia desses pagãos?”
Sendo assim — como é possível desconfiar sem que eu o diga —,
d’Artagnan não se atreveu a entrar naquelas conversas. Apenas observou com
os olhos bem abertos, todo ouvidos, estendendo avidamente seus cinco
sentidos para nada perder. Apesar da confiança que tinha nas recomendações
paternas, sentia-se impelido por suas inclinações, e arrastado por seus
instintos, a elogiar mais do que criticar as coisas inauditas que ali se
passavam.
Entretanto, como era absolutamente estranho ao grupo dos cortesãos do sr.
de Tréville, e como era a primeira vez que o viam naquele lugar, vieram-lhe
perguntar o que desejava. A essa pergunta, d’Artagnan identificou-se bastante
humildemente, recorrendo ao título de conterrâneo, e rogou ao criado que
viera lhe fazer essa pergunta para solicitar ao sr. de Tréville uma rápida
audiência, pedido que este, num tom protetor, prometeu transmitir na devida
hora.
D’Artagnan, recobrando-se do primeiro momento de surpresa, teve então
oportunidade de estudar um pouco os trajes e as fisionomias.
No centro do grupo mais animado estava um mosqueteiro de grande
estatura, com um semblante altivo e uma roupa bizarra, que atraía a atenção
geral para sua pessoa. Não usava, no momento, a capa do uniforme, que em
todo caso não era absolutamente obrigatória nessa época de liberdade menor
mas de independência maior, e sim uma sobreveste azul-celeste, bastante
usada e puída, e sobre esse traje um boldrié magnífico, bordado com fios de
ouro, e que reluzia como as escamas que cobrem a água quando o sol está a
pino. Um sobretudo comprido de veludo carmim caía com graça de seus
ombros, revelando na frente apenas o esplêndido boldrié, no qual estava
pendurada uma espada gigantesca.
Esse mosqueteiro acabava de deixar seu plantão exatamente naquele
instante, queixando-se de estar gripado e tossindo de tempos em tempos com
afetação. Eis a razão de usar o sobretudo, explicava ele aos que estavam à sua
volta, e enquanto falava, do alto de sua estatura, cofiando desdenhosamente o
bigode, todos admiravam com entusiasmo seu boldrié bordado, e d’Artagnan
mais que qualquer um.
— O que posso fazer? — dizia o mosqueteiro. — A moda está aí. É uma
loucura, eu bem sei, mas é a moda. Aliás, é sempre bom usarmos para
alguma coisa o dinheiro de nossas heranças.
— Ah! Porthos! — exclamou um dos presentes. — Não tente nos fazer
acreditar que esse boldrié é fruto da generosidade paterna. Decerto é um
presente da dama de véu com quem o encontrei outro domingo no caminho
da porta Saint-Honoré.
— Não, pela minha honra e fé de fidalgo, eu mesmo o comprei, e com meu
dinheiro — respondeu aquele que acabava de ser designado pelo nome de
Porthos.
— É, igualzinho a mim — disse um outro mosqueteiro —, que comprei
essa bolsa nova com o que minha amante enfiou na velha.
— Juro — disse Porthos —, e a prova é que paguei doze pistolas por ela.
A admiração redobrou, mas a dúvida persistia.
— Não foi, Aramis? — perguntou Porthos, voltando-se para outro
mosqueteiro.
Esse outro mosqueteiro formava um contraste perfeito com aquele que o
interrogava e que acabava de chamá-lo de Aramis. Era um jovem de vinte e
dois, vinte três anos no máximo, fisionomia ingênua e melosa, olhos negros e
meigos, faces cor-de-rosa e aveludadas como um pêssego no outono. Seu
bigode fino desenhava sobre o lábio superior uma linha reta perfeita; suas
mãos pareciam temer abaixar-se, com medo de incharem-lhe as veias, e de
tempos em tempos ele beliscava a ponta das orelhas para mantê-las num
encarnado claro e transparente. Normalmente ele falava pouco e devagar,
saudava muito, ria sem estardalhaço mostrando os dentes, que tinha bonitos e
aos quais, como de resto a toda sua pessoa, parecia dispensar grandes
cuidados. Respondeu com um sinal afirmativo à interpelação do amigo.
Essa afirmação pareceu ter dirimido todas as dúvidas a respeito do boldrié.
Continuaram então a admirá-lo, mas não falaram mais dele. E, por uma
dessas guinadas súbitas do pensamento, a conversa passou rapidamente a
outro assunto.
— E que tal a história do escudeiro de Chalais? — perguntou outro
mosqueteiro, sem interpelar diretamente ninguém, mas, ao contrário,
dirigindo-se a todo mundo.
— E o que ele conta? — perguntou Porthos num tom presunçoso.
— Ele conta que conheceu Rochefort em Bruxelas, a alma danada do
cardeal, disfarçado de capuchinho. O maldito Rochefort, graças a esse
disfarce, enganara o sr. de Laigues, como um tolo que ele é.
— Um tolo completo — enfatizou Porthos. — Mas será verdade?
— Foi Aramis quem me contou — respondeu o mosqueteiro.
— Sério?
— E você sabe muito bem, Porthos! — disse Aramis. — Contei a você
mesmo ontem, mas não falemos mais nisso.
— Não falemos mais nisso, é esta a sua opinião — replicou Porthos. —
Não falemos mais nisso! Nossa, como você conclui rápido. Mas então é
assim?! O cardeal manda espionar um fidalgo, manda roubar sua
correspondência por um traidor, um salteador, um sacripanta; manda, com a
ajuda desse espião e graças a essa correspondência, cortar o pescoço de
Chalais, sob o estúpido pretexto de ele ter querido matar o rei e casar
Monsieur com a rainha! Ninguém sabia uma palavra desse enigma, você nos
conta isso ontem, para grande satisfação de todos, e, quando ficamos
admirados com essa notícia, você vem nos dizer: “Não falemos mais nisso!”
— Falemos então, vá lá, já que assim o deseja — suspirou Aramis, com
paciência.
— Se eu fosse o escudeiro do pobre Chalais — exclamou Porthos —, esse
Rochefort passaria um mau momento comigo.
— E você, você passaria um triste quarto de hora com o Duque Vermelho
— instigou Aramis.
— Ah, o Duque Vermelho! Essa é boa, o Duque Vermelho! — respondeu
Porthos, batendo as mãos e aprovando com a cabeça. — O “Duque
Vermelho”, que beleza. Espalharei o chiste, meu caro, fique tranquilo. É uma
piada, esse Aramis! Que pena você não ter podido seguir sua vocação, meu
amigo! Que delicioso padre você teria dado!
— Oh, é apenas um atraso momentâneo — tornou Aramis —, um dia o
serei. Você sabe muito bem, Porthos, que para isso continuo a estudar
teologia.
— Ele está falando a verdade — continuou Porthos —, mais cedo ou mais
tarde ele chega lá.
— Mais cedo.
— Ele só espera uma coisa para decidir isso de uma vez por todas e
envergar a batina, que está pendurada atrás do seu uniforme — insinuou um
mosqueteiro.
— E o que ele espera? — indagou outro.
— Ele espera que a rainha dê um herdeiro à coroa da França.
— Não brinquemos com isso, senhores — censurou Porthos. — Graças a
Deus, a rainha ainda está em idade de providenciá-lo.
— Dizem por aí que o sr. de Buckingham está na França — sugeriu
Aramis, com um riso matreiro que dava a essa frase, aparentemente tão
simples, um significado razoavelmente escandaloso.
— Aramis, meu amigo, dessa vez você está errado — interrompeu Porthos
—, e sua propensão à piada acaba fazendo-o passar dos limites. Se o sr. de
Tréville o ouvisse, você seria repreendido.
— Vai me dar uma lição, Porthos? — exclamou Aramis, em cujos olhos
meigos viu-se uma faísca.
— Meu caro, ou você é mosqueteiro ou você é padre. Seja um ou outro,
mas não um e outro. — desafiou-o Porthos. — Abra o olho, e como Athos
lhe disse ainda outro dia: você está mamando em todas as tetas. Ah, não
vamos brigar, por favor, seria inútil, e você sabe muito bem o que está
combinado entre você, Athos e eu. Você vai à casa da sra. d’Aiguillon, e lhe
faz a corte; vai à casa da sra. de Bois-Tracy, a prima da sra. de Chevreuse, e
comentam que você goza dos favores da dama. Oh, meu Deus, não confesse
sua felicidade, não estamos interessados no seu segredo, conhecemos sua
discrição. Mas, uma vez que possui essa virtude, que diabos!, exercite-a no
que diz respeito a Sua Majestade. Do rei e do cardeal, ocupe-se quem quiser e
como quiser, mas a rainha é sagrada, e se dela quiserem falar, que falem bem.
— Porthos, você é presunçoso como Narciso, estou lhe avisando —
respondeu Aramis. — Sabe que odeio receber lições de moral, a não ser que
venham de Athos. Quanto a você, meu caro, tem um boldrié magnífico
demais para julgar-se magnífico também nesse aspecto. Serei padre quando
me aprouver; enquanto isso, sou mosqueteiro. Nessa função, digo o que me
apraz, e neste momento apraz-me dizer-lhe que está me fazendo perder a
paciência.
— Aramis!
— Porthos!
— Calma, senhores! Senhores! — exclamaram à sua volta.
— O sr. de Tréville aguarda o sr. d’Artagnan — interrompeu o lacaio,
abrindo a porta do gabinete.
A esse anúncio, durante o qual a porta conservou-se aberta, todos se
calaram e, em meio ao silêncio geral, o jovem gascão atravessou a extensão
da antecâmara e entrou na sala do capitão dos mosqueteiros, alegrando-se do
fundo de seu coração por escapar, bem na hora, daquele estranho bate-boca.
3. A audiência

O sr.cumprimentou
de Tréville estava de péssimo humor naquele momento. Não obstante,
educadamente o mancebo, que se inclinou até o chão, e
sorriu ao receber seu cumprimento, cujo sotaque do Béarn lembrou-lhe
ao mesmo tempo sua mocidade e sua terra, dupla lembrança que faz o
homem sorrir em todas as idades. Porém, aproximando-se quase ao mesmo
tempo da antecâmara e fazendo a d’Artagnan um sinal com a mão, como que
pedindo permissão para terminar com os outros antes de começar com ele,
chamou três vezes, engrossando a voz a cada uma delas, de maneira que
percorreu todos os intervalos entre a ênfase imperativa e a injunção irritada:
— Athos! Porthos! Aramis!
Os dois mosqueteiros com quem já travamos conhecimento, e que
respondiam pelos dois últimos desses três nomes, deixaram imediatamente os
grupos dos quais participavam e avançaram até o gabinete, cuja porta se
fechou atrás deles assim que atravessaram o umbral. Seu aspecto, embora não
estivesse totalmente tranquilo, despertou, entretanto, por sua insolência ao
mesmo tempo cheia de dignidade e submissão, a admiração de d’Artagnan,
que via naqueles homens semideuses, e em seu chefe um Júpiter olímpico,
armado com todos os raios.
Quando os dois mosqueteiros entraram, quando a porta se fechou atrás
deles, quando recomeçou o murmúrio sibilante da antecâmara, ao qual o
chamado que acabava de ser feito dera sem dúvida um novo alento, quando
finalmente o sr. de Tréville percorreu três ou quatro vezes, silencioso e com o
cenho franzido, todo o comprimento de seu gabinete, passando a cada vez
diante de Porthos e Aramis, ambos imóveis e mudos como em uma revista
das tropas, o capitão se deteve subitamente diante deles e, cobrindo-os dos
pés à cabeça com um olhar irritado, explodiu:
— Sabem o que me disse o rei, ainda ontem à noite? Sabem, cavalheiros?
— Não — responderam após um instante de silêncio os dois mosqueteiros.
— Não, senhor, ignoramos.
— Mas espero que o senhor nos faça a honra de dizê-lo — acrescentou
Aramis, em seu tom mais polido e com a mais graciosa reverência.
— Ele me disse que passaria a recrutar seus mosqueteiros entre os guardas
do sr. cardeal!
— Entre os guardas do sr. cardeal! E por que isso? — perguntou vivamente
Porthos.
— Decerto porque ele via que sua zurrapa precisava ser revigorada com a
mistura de um bom vinho.
Os dois mosqueteiros ruborizaram até o branco dos olhos. D’Artagnan não
sabia o que fazer e desejou estar enterrado a cem pés de profundidade.
— Sim, sim — continuou o sr. de Tréville, tomando embalo. — Sim, e Sua
Majestade tem razão, pois, palavra de honra, a verdade é que os mosqueteiros
fazem uma triste figura na corte. O sr. cardeal contava ontem no jogo do rei,
com um ar de condolência bastante desagradável, que anteontem esses
malditos mosqueteiros, esses endemoniados, e ele enfatizava suas palavras
com um acento irônico que me desagradou mais ainda, esses fanfarrões,
acrescentou ele, me olhando com seu olho de onça, haviam se reunido na rua
Férou, num prostíbulo, e que uma ronda de seus guardas, achei que ele iria rir
na minha cara, tinha sido obrigada a prender os arruaceiros. Jesus Cristo!
Vocês devem saber de alguma coisa! Prender mosqueteiros! Vocês também
estavam lá, não se defendam, foram reconhecidos, e o cardeal pronunciou
seus nomes. A culpa é toda minha, sim, minha culpa, uma vez que sou eu que
escolho meus homens. Vejamos, você, Aramis, por que diabos me pediu a
farda quando estava tão bem de batina? Vejamos, você, Porthos, seu
belíssimo boldrié de ouro serve apenas para pendurar uma espada de
brinquedo? E Athos! Não vejo Athos. Onde está ele?
— Senhor — respondeu tristemente Aramis —, ele está doente, muito
doente.
— Doente, muito doente, não me diga! E qual é a doença?
— Receamos que seja bexiga, senhor — respondeu Porthos querendo
misturar uma palavra à conversa —, o que seria lastimável, pois com certeza
isso estragaria o seu rosto.
— Bexiga! Eis aí outra história gloriosa que você me conta, Porthos!
Doente de bexiga, na idade dele…? Impossível! Mas ferido sem dúvida,
morto talvez… Ah, se eu soubesse…! Em nome de Deus! Senhores
mosqueteiros, não quero que frequentem esses lugares imundos, que batam
boca na rua e brinquem com a espada nas esquinas. Não quero, enfim, que
deem motivos para as risadas dos guardas do sr. cardeal, que são pessoas de
bem, sossegadas, direitas, que nunca se veem em situação de ser presos, e
que, por sinal, não se deixam prender, tenho certeza disso! Eles prefeririam
morrer sumariamente a dar um passo atrás… Correr, escafeder-se, fugir, isso
só é bom para os mosqueteiros do rei.
Porthos e Aramis tremiam de raiva. Teriam de bom grado estrangulado o
sr. de Tréville se, no fundo de tudo aquilo, não tivessem percebido que era o
grande amor que ele lhes dedicava que o fazia falar assim. Batiam os pés no
tapete, mordiam seus lábios até sangrar e apertavam com toda a força a
guarda de suas espadas. Do lado de fora, todos tinham ouvido chamar, como
dissemos, Athos, Porthos e Aramis, e logo presumiram, pelo tom de voz do
sr. de Tréville, que ele estava absolutamente colérico. Dez cabeças curiosas
haviam se apoiado no reposteiro e empalideciam de furor, pois seus ouvidos
grudados na porta não perdiam uma sílaba do que se dizia, ao passo que suas
bocas repetiam concomitantemente as palavras insultuosas do capitão a toda a
população da antecâmara. Num instante, desde a porta do gabinete até a porta
da rua, todo o palácio entrou em ebulição.
— Ah, os mosqueteiros do rei deixam-se prender pelos guardas do sr.
cardeal — continuou o sr. de Tréville, tão furioso por dentro quanto seus
soldados, mas escandindo as palavras e mergulhando-as uma a uma, por
assim dizer, como se fossem outras tantas estocadas no peito de seus
ouvintes. — Ah, seis guardas de Sua Eminência prendem seis mosqueteiros
de Sua Majestade! Por Deus, tomei uma decisão! Daqui vou ao Louvre, peço
minha demissão de capitão dos mosqueteiros do rei, solicito um posto de
tenente entre os guardas do cardeal e, se ele me negar, viro padre, por Deus!
A essas palavras, o murmúrio do exterior explodiu. Não se ouviam senão
pragas e blasfêmias de todos os lados. Os “Por Deus!”, os “Em nome de
Deus!”, os “Diabos que os carreguem!” entrecruzavam-se no ar. D’Artagnan
procurava um reposteiro atrás do qual se esconder, e sentia uma vontade
quase incontrolável de se enfiar sob a mesa.
— Pois bem, meu capitão — disse Porthos, fora de si —, a verdade é que
éramos seis contra seis, mas fomos surpreendidos traiçoeiramente e, antes
que tivéssemos tido tempo de sacar nossas espadas, dois de nós haviam caído
mortos, e Athos, ferido gravemente, não estava em melhores condições. Pois
o senhor conhece Athos. Ora, capitão, ele tentou levantar-se duas vezes e caiu
duas vezes. Ainda assim, não nos rendemos, não! Fomos levados à força. No
caminho, escapamos. Quanto a Athos, julgaram-no morto e deixaram-no
sossegadamente no campo de batalha, achando que não valia a pena
transportá-lo. Eis a história. Que diabos, capitão, ninguém vence todas as
batalhas! O grande Pompeu perdeu a de Farsala, e o rei Francisco I, que, pelo
que ouvi dizer, não fica atrás, perdeu não obstante a de Pavia.
— E tenho a honra de asseverar-lhe que matei um com sua própria espada
— disse Aramis —, pois a minha rachara na primeira defesa… Matei ou
apunhalei, senhor, como preferir.
— Eu não sabia disso — suavizou um pouco o sr. de Tréville. — O sr.
cardeal exagerou, ao que vejo.
— Peço-lhe uma graça, porém, senhor — continuou Aramis, vendo seu
capitão se acalmar e ousando arriscar um pedido —, não diga que Athos está
ferido, ele ficaria desesperado se isso chegasse aos ouvidos do rei e, como o
ferimento é dos mais graves, visto que após ter atravessado o ombro
trespassou-lhe o peito, poderíamos recear…
Nesse instante a porta se abriu e uma cabeça nobre e formosa, mas
pavorosamente pálida, apareceu sob a franja do reposteiro.
— Athos! — exclamaram os dois mosqueteiros!
— Athos! — repetiu o próprio sr. de Tréville.
— O senhor me convocou, senhor — disse Athos ao sr. de Tréville, com
uma voz fraca mas perfeitamente calma. — O senhor me solicitou, pelo que
me informaram nossos camaradas, e corro para me colocar às suas ordens.
Eis-me aqui, senhor, o que quer de mim?
E, a essas palavras, o mosqueteiro, em uniforme impecável, cintado como
de costume, entrou com um passo firme no gabinete. O sr. de Tréville,
comovido até o fundo do coração por essa prova de coragem, precipitou-se
em sua direção.
— Eu estava dizendo a esses senhores — acrescentou — que proíbo aos
meus mosqueteiros de exporem seus dias sem necessidade, pois os bravos são
muito caros ao rei, e o rei sabe que seus mosqueteiros são os mais bravos da
terra. Sua mão, Athos.
E sem esperar que o recém-chegado respondesse por si próprio a essa
prova de afeição, o sr. de Tréville agarrou sua mão direita e apertou-a com
toda a força, sem perceber que Athos, a despeito de seu autocontrole, deixava
escapar um movimento de dor e empalidecia mais, o que teríamos julgado
impossível.
A porta permanecera entreaberta, de tal forma a chegada de Athos, cujo
ferimento, apesar do segredo guardado, era conhecido de todos, causara
sensação. Um alarido de regozijo seguiu-se às últimas palavras do capitão, e
duas ou três cabeças, arrebatadas pelo entusiasmo, apareceram pelos vãos do
reposteiro. O sr. de Tréville, sem dúvida, partia para reprimir com veemência
aquela infração às leis da etiqueta, quando sentiu, subitamente, a mão de
Athos crispar-se na sua, e, levando os olhos até ele, percebeu que ia desmaiar.
No mesmo instante, Athos, que reunira todas as suas forças para lutar contra
a dor, vencido no fim por ela, caiu no assoalho como se tivesse morrido.
— Um cirurgião! — gritou o sr. de Tréville. — O meu, o do rei, o melhor!
Um cirurgião! Ou então, Deus nos proteja, meu bravo Athos morrerá!
Aos gritos do sr. de Tréville, precipitaram-se todos pelo gabinete adentro,
sem que ele cogitasse fechar a porta para ninguém, e comprimiram-se em
torno do ferido. Mas tamanha correria teria sido inútil se o médico solicitado
não estivesse no próprio palacete. Ele atravessou a multidão, aproximou-se
de Athos ainda desmaiado e, como o imenso barulho e agitação o
incomodassem muito, pediu de saída e urgentemente que o mosqueteiro fosse
levado para um quarto contíguo. Imediatamente o sr. de Tréville abriu uma
porta e mostrou o caminho a Porthos e Aramis, que carregaram seu colega
nos braços. Atrás deles vinha o cirurgião e, atrás do cirurgião, a porta voltou
a se fechar.
Então o gabinete do sr. de Tréville, lugar em geral tão respeitado, tornou-se
momentaneamente uma sucursal da antecâmara. Todos discorriam,
peroravam, falavam alto, xingando, amaldiçoando, mandando o cardeal e
seus guardas ao quinto dos infernos.
Um instante depois, Porthos e Aramis retornaram, deixando apenas o
cirurgião e o sr. de Tréville junto ao ferido.
Por fim, o sr. de Tréville reapareceu. O ferido recobrara os sentidos. O
cirurgião declarava que o estado do mosqueteiro nada tinha que pudesse
inquietar seus amigos. Sua fraqueza fora ocasionada pura e simplesmente
pela perda de sangue.
Então o sr. de Tréville fez um sinal com a mão, e todos se retiraram, exceto
d’Artagnan, que, não se esquecendo da audiência, com sua tenacidade de
gascão, permanecera no lugar.
Quando todo mundo havia saído e a porta se fechou, o sr. de Tréville
voltou-se e se viu a sós com o mancebo. O episódio que acabava de se
desenrolar lhe havia feito perder um pouco o fio das ideias. Informou-se
acerca do que desejava o obstinado solicitador. D’Artagnan então disse seu
nome, e o sr. de Tréville, reunindo num só golpe todas as lembranças do
presente e do passado, inteirou-se de sua situação.
— Perdão — disse-lhe, sorrindo —, perdão, meu caro conterrâneo, mas
tinha me esquecido completamente de você. Não leve a mal! Um capitão não
passa de um pai de família incumbido de uma responsabilidade maior que um
pai de família comum. Soldados são crianças grandes, mas como faço
questão de que as ordens do rei, e sobretudo as do sr. cardeal, sejam
executadas…
D’Artagnan não pôde dissimular um sorriso. Por aquele sorriso, o sr. de
Tréville julgou que não estava lidando em absoluto com um tolo, e, indo
direto ao assunto e mudando de conversa, disse:
— Fui muito amigo do senhor seu pai. O que posso fazer pelo filho?
Apresse-se, meu tempo não me pertence.
— Senhor — disse d’Artagnan —, quando saí de Tarbes e vinha para cá,
decidi pedir-lhe, em memória dessa amizade de que o senhor não se
esqueceu, um uniforme de mosqueteiro. Porém, depois de tudo que vi de duas
horas para cá, compreendo que um privilégio desses seria descomunal, receio
muito não merecê-lo.
— É um privilégio, realmente, meu rapaz — concordou o sr. de Tréville.
— Mas ele pode não estar tão longe quanto você crê ou parece crer.
Entretanto, uma decisão de Sua Majestade previu esse caso, e comunico-lhe
com pesar que não recebemos nenhum mosqueteiro antes do teste preliminar
de algumas campanhas, alguns feitos notáveis, ou um serviço de dois anos
em outro regimento menos favorecido que o nosso.
D’Artagnan inclinou-se sem nada responder. Sentia-se ainda mais sequioso
de envergar a roupa de mosqueteiro depois de ver as grandes dificuldades que
havia em obtê-la.
— Mas — continuou Tréville, fixando sobre seu companheiro um olhar tão
penetrante que parecia querer enxergar até o fundo de seu coração —, em
consideração ao seu pai, meu velho amigo, como eu lhe disse, quero fazer
alguma coisa por você, meu rapaz. Nossos cadetes do Béarn geralmente não
são ricos e suspeito que as coisas não mudaram muito depois que saí da
província. Logo, você não deve ter mais muita coisa, para se sustentar, além
do dinheiro que trouxe.
D’Artagnan empertigou-se altivamente, significando que não pedia esmola
a ninguém.
— Está bem, meu rapaz, está bem — prosseguiu Tréville —, conheço essa
atitude. Cheguei a Paris com quatro escudos no bolso, e teria desafiado
qualquer um que me houvesse dito que eu não estava em condições de
comprar o Louvre.
D’Artagnan empertigou-se cada vez mais. Graças à venda de seu cavalo,
começava a carreira com quatro escudos a mais que o sr. de Tréville
começara a dele.
— Então você precisa, eu dizia, conservar o que possui, por mais alta que
seja essa soma. Mas precisa também aperfeiçoar-se nos exercícios que
convêm a um fidalgo. Escreverei ainda hoje uma carta ao diretor da
Academia Real, e amanhã mesmo ele o receberá sem nada exigir em troca.
Não recuse essa pequena gentileza. Nossos fidalgos mais bem-nascidos e
mais ricos solicitam-na às vezes, sem sucesso. Você aprenderá o manejo do
cavalo, a esgrima e a dança. Travará uma boa rede de relações e, de tempos
em tempos, voltará a mim para dizer como vai e se posso fazer alguma coisa
por você.
D’Artagnan, por mais que ignorasse as sutilezas cortesãs, percebeu a frieza
dessa acolhida.
— Ah, senhor — disse ele —, agora percebo a falta que me faz a carta de
recomendação que meu pai me dera para entregar-lhe!
— Com efeito — respondeu o sr. de Tréville —, admira-me tenha
empreendido viagem tão longa sem esse viático de praxe, único recurso entre
nós, bearneses.
— Eu a tinha comigo, senhor, graças a Deus, conforme o protocolo —
exclamou d’Artagnan —, mas fui perfidamente roubado.
E contou toda a cena de Meung, descreveu o fidalgo desconhecido em seus
menores detalhes, sempre com um ardor e uma verdade que conquistaram o
sr. de Tréville.
— Eis o que é estranho — disse este último, meditando —, você então
mencionou meu nome em voz alta?
— Sim, senhor, provavelmente eu cometi essa imprudência. O que quer o
senhor? Um nome como o seu deveria servir-me de escudo na estrada.
Imagine se não me protegi com ele várias vezes!
A lisonja estava muito na moda na época, e o sr. de Tréville amava o
incenso tanto quanto um rei ou um cardeal. Não pôde então abster-se de
sorrir com visível satisfação, mas esse sorriso logo se extinguiu. Voltando
novamente à aventura de Meung, ele perguntou:
— Diga-me, esse fidalgo não tinha uma ligeira cicatriz numa das
têmporas?
— Sim, como se fosse o arranhão de uma bala.
— Não era um homem esbelto?
— Sim.
— De grande estatura?
— Sim.
— Tez pálida e cabelo castanho?
— Sim, sim, isso mesmo. Como é possível, senhor, que conheça esse
homem? Ah, se um dia eu voltar a encontrá-lo, e o farei, juro, ainda que seja
no inferno…
— Ele esperava uma mulher? — continuou Tréville.
— Pelo menos partiu depois de conversar por um instante com aquela que
o esperava.
— Não sabe qual era o assunto da conversa?
— Ele lhe entregava um estojo, dizia-lhe que aquele estojo continha suas
instruções, e lhe recomendava abri-lo apenas em Londres.
— Essa mulher era inglesa?
— Ele a chamava de Milady.
— É ele! — murmurou Tréville. — É ele! E eu que ainda o julgava em
Bruxelas!
— Oh, senhor, sabe quem é esse homem! — bradou d’Artagnan. — Basta
apontar-me onde ele está, e de onde é, que dispenso-o de tudo, inclusive de
sua promessa de me fazer entrar nos mosqueteiros, pois, acima de tudo, quero
me vingar.
— Evite isso a todo custo, meu rapaz — exclamou Tréville. — Se o vir de
um lado da rua, ao contrário, atravesse! Não se choque contra tamanho
rochedo: ele o quebraria como vidro.
— Isso não impede — disse d’Artagnan — que se um dia encontrá-lo de
novo…
— Enquanto isso — replicou Tréville —, não o procure, é o conselho que
tenho a lhe dar.
De repente, Tréville calou-se, invadido por uma suspeita súbita. Tal ódio
incontido manifestado tão altivamente pelo jovem forasteiro, por aquele
homem que, coisa pouco verossímil, roubara-lhe a carta de seu pai, tal ódio
não escondia alguma perfídia? Aquele jovem não seria um emissário de Sua
Eminência? Não estaria ali para estender-lhe uma armadilha? Aquele suposto
d’Artagnan não seria um emissário do cardeal que procuravam infiltrar em
sua casa, que haviam colocado perto de si para ganhar sua confiança e
desacreditá-lo mais tarde, como já tinham feito mil vezes? Ele olhou para
d’Artagnan ainda mais fixamente dessa segunda vez que da primeira.
Acalmou-se um pouco diante daquela fisionomia de astúcia ardente e
humildade afetada.
“Bem sei que é gascão”, pensou Tréville. “Mas pode sê-lo tanto para o
cardeal quanto para mim. Vamos testá-lo.”
— Meu caro — disse lentamente —, ao filho de meu velho amigo, pois
considero verdadeira a história dessa carta perdida, e para reparar a frieza que
você inicialmente observou em minha acolhida, quero desvendar-lhe os
segredos de nossa política. O rei e o cardeal são os melhores amigos um do
outro; suas aparentes desavenças só servem para enganar os mais crédulos.
Não posso acreditar que um conterrâneo, um belo cavaleiro, um rapaz
corajoso, feito para subir, seja um joguete de todos esses fingimentos e caia
na rede como um paspalho, no rastro de tantos outros que nela se perderam.
Lembre-se que sou leal a esses dois senhores todo-poderosos e que nunca
minhas honestas iniciativas terão outro objetivo senão o serviço do rei e o do
sr. cardeal, um dos talentos mais ilustres que a França produziu. Agora, meu
rapaz, modere sua conduta e, se tiver, seja por família, seja por relações, seja
por instinto mesmo, alguma dessas prevenções contra o cardeal, como as
vemos explodir nos fidalgos, diga-me adeus e façamos nossas despedidas.
Poderei então ajudá-lo em mil circunstâncias, mas sem o associar à minha
pessoa. Espero, em todo caso, que minha franqueza o torne meu amigo, pois,
até hoje, você é o único mancebo com quem falei dessa forma.
Tréville pensava com seus botões:
“Se o cardeal me enviou essa jovem raposa, ele, que sabe a que ponto o
execro, certamente não terá deixado de dizer ao seu espião que o melhor meio
de me agradar é maldizê-lo da pior maneira. Portanto, apesar de meus
protestos, com toda a certeza meu astucioso camarada responderá que tem
horror à Sua Eminência.”
Aconteceu bem diferente do que esperava Tréville. D’Artagnan respondeu
com a maior simplicidade:
— Senhor, chego a Paris com as mesmas intenções. Meu pai recomendou-
me não tolerar coisa alguma a não ser do rei, do sr. cardeal e do senhor, que
ele considera os três primeiros da França.
D’Artagnan acrescentou o sr. de Tréville aos outros dois, como podemos
perceber, mas o fez julgando que tal acréscimo não faria mal algum.
— Logo, tenho a maior veneração pelo sr. cardeal — continuou —, e o
maior respeito pelos seus atos. Tanto melhor para mim, senhor, se me fala,
como diz, com franqueza, pois assim me dará a honra de estimar essa
semelhança de pontos de vista. Porém, se alimenta alguma desconfiança,
bastante compreensível, aliás, sinto que me prejudico ao dizer a verdade.
Nesse caso, paciência, o senhor não deixará de me estimar, e a isso prezo
mais que tudo no mundo.
O sr. de Tréville foi pego inteiramente de surpresa. Tanta penetração, tanta
franqueza em suma, causava-lhe admiração, mas não eliminava inteiramente
suas dúvidas. Quanto mais aquele mancebo fosse superior aos outros
mancebos, mais ele tinha a temer se estivesse enganado. Contudo, apertou a
mão de d’Artagnan e disse:
— Você é um rapaz honesto, mas nesse momento não lhe posso
proporcionar nada além do que ofereci ainda há pouco. Meu palácio estará
sempre aberto para você. Mais tarde, podendo me solicitar a qualquer hora e
por conseguinte aproveitar todas as oportunidades, você provavelmente
obterá o que deseja obter.
— Isso quer dizer, senhor — replicou d’Artagnan —, que espera que eu
me torne digno desse favor. Pois bem, fique sossegado — acrescentou com a
familiaridade do gascão —, não irá esperar por muito tempo.
E fez uma saudação, preparando-se para sair, como se agora o resto fosse
por sua conta.
— Mas espere um instante — disse o sr. de Tréville, retendo-o —,
prometi-lhe uma carta para o diretor da Academia. Seu orgulho é grande
demais para que possa aceitá-la, jovem fidalgo?
— Não, senhor — disse d’Artagnan. — Garanto-lhe que não acontecerá
com esta o que aconteceu com a outra. Vou guardá-la tão bem que ela
chegará, juro-lhe, a seu destino, e coitado de quem tentar roubá-la!
O sr. de Tréville sorriu diante daquela bravata e, deixando seu jovem
conterrâneo no vão da janela onde eles se achavam e onde haviam
conversado, foi sentar-se a uma mesa para escrever a prometida carta de
recomendação. Durante esse tempo, d’Artagnan, que não tinha nada melhor a
fazer, pôs-se a tamborilar uma marcha no vidro da janela, observando os
mosqueteiros que se iam uns depois dos outros, e seguindo-os com o olhar
até desaparecerem na curva da rua.
O sr. de Tréville, após ter escrito a carta, lacrou-a e, levantando-se,
aproximou-se do mancebo para entregá-la, mas, no exato momento em que
d’Artagnan estendia a mão para recebê-la, o sr. de Tréville ficou perplexo de
ver seu protegido ter um sobressalto, afoguear-se de raiva e lançar-se para
fora do gabinete, gritando:
— Juro por Deus, dessa vez ele não me escapa!
— Quem, ora essa? — perguntou o sr. de Tréville.
— Ele, meu ladrão! — respondeu d’Artagnan. — Ah, traidor!
E desapareceu.
“Louco varrido!” refletiu o sr. de Tréville. “A menos”, acrescentou, “que
tenha sido uma maneira astuciosa de esquivar-se, vendo sua manobra
desarticulada.”
4. O ombro de Athos, o boldrié de Porthos e o lenço
de Aramis

Artagnan, furioso, havia atravessado a antecâmara em três pulos e


D’ lançado-se em direção à escada, cujos degraus pretendia descer de
quatro em quatro, quando, no impulso da corrida, esbarrou de cabeça
baixa num mosqueteiro que saía do gabinete do sr. Tréville por uma porta
particular, e, batendo com a testa em seu ombro, fez-lhe soltar um grito, ou
melhor, um uivo.
— Perdão — desculpou-se d’Artagnan, voltando a disparar de novo —,
perdão, mas estou com pressa.
Mal descera a primeira escada, um punho de ferro agarrou-o pelo cachecol
e o deteve.
— Está com pressa! — exclamou o mosqueteiro, pálido como uma
mortalha. — Sob esse pretexto, esbarra em mim, diz “Perdão”, e acha que
isso basta? Nada disso, meu rapaz. Acha, porque ouviu o sr. de Tréville nos
tratar com tanta amabilidade hoje, que qualquer um pode tratar-nos como ele?
Não se engane, companheiro, o senhor não é o sr. de Tréville.
— Por Deus! — reagiu d’Artagnan, que reconheceu Athos, o qual, após o
curativo efetuado pelo médico, ia voltando para seu apartamento. — Juro que
foi sem querer, e já pedi “Perdão.” Isso me parece suficiente. Entretanto,
peço-o de novo, e dessa vez é até demais, palavra de honra! Estou com
pressa, muita pressa. Solte-me, por favor, deixe-me ir resolver meu problema.
— Cavalheiro — disse Athos, soltando-o —, o senhor não está sendo
educado. Vê-se que vem de longe.
D’Artagnan já vencera três ou quatro degraus, mas, diante da observação
de Athos, estacou.
— Por Deus, senhor! — disse ele. — Ainda que eu venha de muito longe,
não é o senhor que vai me dar lição de boas maneiras, aviso-lhe desde já.
— Talvez — disse Athos.
— Ah, se eu não estivesse apressado — exclamou d’Artagnan —, se não
estivesse correndo atrás de alguém…
— Senhor apressadinho, o senhor me encontrará sem correrias,
compreende?
— E onde isso, por favor?
— Perto dos Carmelitas Descalços.
— A que horas?
— Por volta do meio-dia.
— Por volta do meio-dia, está bem, lá estarei.
— Trate de não me fazer esperar, pois ao meio-dia e quinze aviso-lhe que
serei eu que irei correr atrás do senhor e lhe cortarei as orelhas na corrida.
— Ótimo! — gritou-lhe d’Artagnan. — Nos veremos lá dez para o meio-
dia.
E pôs-se a correr como se o diabo o carregasse, esperando ainda
reencontrar seu desconhecido, cujos passos despreocupados não o deviam ter
levado muito longe.
Porém, na porta da rua, Porthos conversava com um soldado da guarda.
Entre os dois interlocutores havia exatamente o espaço de um homem.
D’Artagnan julgou que esse espaço lhe bastaria, e tomou impulso para passar
como uma flecha entre os dois. Mas d’Artagnan não tinha contado com o
vento. Quando ia passar, o vento engolfou-se no comprido sobretudo de
Porthos, no qual d’Artagnan veio a dar em cheio. Porthos, provavelmente,
tinha razões para não se desfazer daquela parte essencial de suas vestes, pois,
ao invés de soltar a aba que segurava, puxou-a para si, de maneira que
d’Artagnan enrolou-se no veludo por um movimento de rotação provocado
pela resistência do obstinado Porthos.
D’Artagnan, ouvindo o mosqueteiro praguejar, quis sair de debaixo do
sobretudo que o cegava, e procurou um caminho entre as dobras de pano. O
que mais temia era ter causado danos ao novíssimo e magnífico boldrié que já
conhecemos. Porém, ao abrir timidamente os olhos, viu-se com o nariz
enfiado entre os dois ombros de Porthos, isto é, precisamente sobre o boldrié.
Desafortunadamente, como a maioria das coisas deste mundo que só tem a
aparência a seu favor, o boldrié era de ouro na frente e de simples couro de
búfalo atrás. Porthos, orgulhoso como era, não podendo ter um boldrié todo
de ouro, tinha pelo menos a metade. Agora era possível entender a
necessidade da gripe e a urgência do casaco.
— Com os diabos! — gritou Porthos, fazendo de tudo para se desvencilhar
de d’Artagnan, que bufava nas suas costas. — O senhor por acaso é um
hidrófobo, para se atirar desse jeito contra as pessoas?
— Perdão — disse d’Artagnan, reaparecendo sob o ombro do gigante —,
mas estou com muita pressa, corro atrás de alguém e…
— O senhor por acaso esquece os olhos quando corre? — perguntou
Porthos.
— Não — respondeu d’Artagnan, espicaçado. — Não e, graças a meus
olhos, enxergo inclusive o que outros não enxergam.
Porthos compreendeu, ou não compreendeu; o fato é que, deixando-se
levar pela raiva, disse:
— Cavalheiro, o senhor acabará depenado, caso continue a se esfregar
assim nos mosqueteiros.
— Depenado, senhor! — disse d’Artagnan. — A palavra é forte.
— É a que convém a um homem acostumado a olhar seus inimigos de
frente.
— Oh, com certeza! Sei muito bem que o senhor não dá as costas aos seus
pares, meu caro.
E o mancebo, encantado com sua tirada, afastou-se, rindo gostosamente.
Porthos espumou de raiva e fez um movimento para se precipitar sobre
d’Artagnan.
— Mais tarde, mais tarde — gritou-lhe este —, quando o senhor tirar o
sobretudo.
— À uma hora então, atrás do Luxemburgo.
— Perfeito, à uma hora — respondeu d’Artagnan, dobrando a esquina da
rua.
Mas não avistou ninguém, nem na rua que acabava de percorrer, nem
naquela que agora abraçava com o olhar. Por mais lento que tivesse andado o
desconhecido, ele ganhara terreno, talvez também tivesse entrado em alguma
casa. D’Artagnan perguntou por ele a todas as pessoas com quem encontrou,
desceu até a estação da balsa, subiu pela rua do Sena e a da Cruz Vermelha,
mas não encontrou nada, absolutamente nada. A corrida foi-lhe proveitosa,
no entanto, pois, à medida que o suor encharcava sua testa, seu coração se
esfriava.
Pôs-se então a refletir sobre os recentes acontecimentos. Eram numerosos e
nefastos: mal haviam chegado as onze horas, e a manhã já lhe trouxera a
antipatia do sr. de Tréville, que não podia deixar de achar pouco cortês a
maneira como d’Artagnan o deixara.
Além disso, agendara dois bons duelos com dois homens capazes de matar,
cada um, três d’Artagnans; com dois mosqueteiros enfim, isto é, com duas
daquelas criaturas que ele estimava a ponto de as colocar, em seu pensamento
e em seu coração, acima de todos os homens.
A conjuntura era triste. Certo de ser morto por Athos, era compreensível o
rapaz não se preocupar muito com Porthos. Por outro lado, como a esperança
é a última coisa a extinguir-se no coração do homem, chegou a acreditar que
poderia sobreviver, com ferimentos horríveis, naturalmente, a esses dois
duelos. Considerando essa eventualidade, dirigiu a si próprio, para o futuro,
as seguintes exortações:
— Que desmiolado eu fui, e que grosseirão! Esse honesto e desventurado
Athos, ferido justamente no ombro contra o qual eu lhe dei uma cabeçada,
como um touro. Só me admira ele não ter me matado na hora. Teria esse
direito, e a dor que lhe causei deve ter sido atroz. Quanto a Porthos, ah,
quanto a Porthos, tenho que admitir, esse é mais engraçado.
E, à sua revelia, o rapazola pôs-se a rir, espreitando, ao mesmo tempo, se
aquele riso isolado e sem motivo, aos olhos dos que o viam rir, não
melindrava nenhum transeunte.
— Porthos é mais engraçado, mas nem por isso deixo de ser um miserável
trapalhão. Onde já se viu, alguém se jogar assim sobre as pessoas sem pedir
passagem! Em lugar nenhum. E, como se não bastasse, bisbilhotar debaixo
do sobretudo para ver o que lá não está! Ele decerto teria me perdoado. Teria
me perdoado se eu não lhe tivesse falado daquele maldito boldrié, por alusão,
é verdade, é, por alusão zombeteira! Ah, maldito gascão que sou, vou acabar
gracejando dentro de uma frigideira. Vamos, d’Artagnan, meu amigo —
continuou, conversando consigo mesmo com toda a amenidade que julgava
adequada —, se você sair dessa, o que é pouco provável, no futuro trate de
mostrar uma polidez absoluta. De agora em diante, precisa ser admirado e
citado como modelo. Ser cauteloso e educado não é ser covarde. Veja, por
exemplo, Aramis. Aramis é a doçura e a gentileza em pessoa. Pois bem,
alguém já se atreveu um dia a chamar Aramis de covarde? Não, com toda a
certeza, e de agora em diante pretendo espelhar-me nele em todos os
aspectos. Ah, justamente, aí está ele.
D’Artagnan, caminhando e monologando, chegara a poucos passos do
palácio d’Aiguillon e diante dele percebera Aramis conversando alegremente
com três fidalgos da guarda do rei. De onde estava, Aramis avistou
d’Artagnan. Mas, como não esquecera que tinha sido diante daquele rapaz
que o sr. de Tréville explodira aquela manhã, e que uma testemunha das
admoestações recebidas pelos mosqueteiros não lhe era de forma alguma
agradável, fingiu não vê-lo. D’Artagnan, contrariando completamente seus
planos de conciliação e cortesia, aproximou-se dos quatro rapazes fazendo-
lhes uma grande saudação, acompanhada do mais gracioso sorriso. Aramis
inclinou ligeiramente a cabeça, mas não sorriu. Todos os quatro, de resto,
interromperam a conversa na mesma hora.
D’Artagnan não era tolo a ponto de não perceber que estava sobrando, mas
ainda não dominava suficientemente as maneiras do mundo galante para se
afastar altivamente de uma situação falsa como é, em geral, a de um homem
que veio juntar-se a pessoas a quem mal conhece e a uma conversa que não
lhe diz respeito. Procurava, então, em si mesmo, um jeito de bater em retirada
o menos canhestramente possível, quando notou que Aramis deixara cair seu
lenço, e que, possivelmente por descuido, colocara o pé em cima dele.
Pareceu-lhe chegado o momento de reparar sua indiscrição. Abaixou-se e,
com a expressão mais graciosa que pôde encontrar, puxou o lenço de sob o pé
do mosqueteiro, apesar dos esforços que este fez para prendê-lo.
Devolvendo-lhe o dito cujo, falou:
— Creio, senhor, que aqui está um lenço que o cavalheiro não gostaria de
perder.
O lenço era de fato ricamente bordado e estampava uma coroa e um brasão
num dos cantos. Aramis enrubesceu exageradamente e arrancou, mais do que
pegou, o lenço das mãos do gascão.
— Ah! Ah! — zombou um dos guardas. — Insiste agora em dizer, discreto
Aramis, que não está nas boas graças da sra. de Bois-Tracy, quando essa
graciosa dama faz o obséquio de emprestar-lhe seus lenços?
Aramis lançou a d’Artagnan um desses olhares que fazem um homem
compreender que acaba de ganhar um inimigo mortal. Depois, recuperando
seu ar simplório, disse:
— Estão enganados, senhores, esse lenço não me pertence e não sei por
que o cavalheiro teve o capricho de me devolvê-lo e não a um dos senhores, e
a prova do que digo é que o meu está aqui no meu bolso.
A essas palavras, puxou o próprio lenço, também muito elegante, de fina
cambraia, mas embora a cambraia fosse cara nessa época, era um lenço sem
bordado, sem brasão e enfeitado com um único emblema, o de seu dono.
Dessa vez d’Artagnan não abriu a boca, dando-se conta de sua gafe. Mas
os amigos de Aramis não se deixaram convencer por suas negativas, e um
deles, dirigindo-se ao jovem mosqueteiro com uma seriedade afetada,
provocou:
— Se isso for verdade, serei obrigado, meu caro Aramis, a solicitá-lo de
volta. Como você sabe, Bois-Tracy é meu amigo íntimo, e não quero que
façam troféu dos pertences de sua mulher.
— Seu pedido não procede — respondeu Aramis —, e, mesmo admitindo a
justiça de sua queixa no mérito da coisa, não posso concordar com sua forma.
— O fato — atreveu-se timidamente d’Artagnan — é que não vi o lenço
sair do bolso do sr. Aramis. Ele estava com o pé em cima, só isso, e pensei
que, uma vez que estava com o pé em cima, o lenço fosse dele.
— E o senhor se enganou, meu caro — respondeu friamente Aramis,
pouco sensível à reparação.
Depois, voltando-se para o guarda que se declarara amigo de Bois-Tracy,
continuou:
— Aliás, pensando bem, meu caro amigo íntimo de Bois-Tracy, sou tão
amigo dele quanto você, de maneira que, a rigor, esse lenço pode
perfeitamente ter saído de seu bolso também.
— Pela minha honra, não! — reagiu o guarda de Sua Majestade.
— Você jura pela sua honra e eu pela minha palavra, evidentemente um de
nós estará mentindo. Ora, façamos melhor, Montaran, peguemos metade cada
um.
— Do lenço?
— Sim.
— Magnífico — exclamaram os outros dois guardas —, o veredito do rei
Salomão. Realmente, Aramis, você é um poço de sabedoria.
Todos os jovens caíram na risada e, como julgamos corretamente, o caso
não teve maiores consequências. No fim de um instante, a conversa morreu, e
os três guardas e o mosqueteiro, após se apertarem cordialmente as mãos,
debandaram, os três guardas para o seu lado e Aramis para o dele.
— Eis o momento de fazer as pazes com esse homem tão educado —
ruminou d’Artagnan, que se mantivera um pouco à distância durante toda a
última parte da conversa. Então, imbuído desse nobre sentimento, acercou-se
de Aramis, que se afastava sem lhe dar mais atenção, e disse:
— Espero que me perdoe, cavalheiro.
— Ah, cavalheiro — interrompeu Aramis —, permita-me observar-lhe que
não agiu nessa circunstância como um homem galante deve fazê-lo.
— O quê, senhor! — exclamou d’Artagnan. — Supõe…
— Suponho, cavalheiro, que o senhor não seja tolo e que saiba muito bem,
embora chegando da Gasconha, que ninguém pisa sem algum motivo sobre
lenços. Que diabos! Paris não é pavimentada com cambraia!
— Senhor, está errado em tentar me humilhar — disse d’Artagnan, em
quem o beligerante espontâneo começava a falar mais alto que as resoluções
pacíficas. — Sou da Gasconha, é verdade; já que sabe disso, não preciso
dizer-lhe que os gascões não são dotados de muita paciência. Sendo assim,
quando eles se desculpam uma vez, ainda que por uma ninharia, estão
convencidos de que já fizeram mais da metade do que deviam fazer.
— Cavalheiro, o que lhe digo — respondeu Aramis —, não é de modo
algum para me desentender consigo. Graças a Deus, não sou um espadachim.
Sendo mosqueteiro apenas interinamente, bato-me quando a isso me vejo
obrigado, e sempre com grande repugnância. Dessa vez, porém, o assunto é
grave, pois há uma dama comprometida pelo senhor.
— Por nós, quer dizer — exclamou d’Artagnan.
— Por que cometeu a deselegância de me dar o lenço?
— Por que cometeu a de deixá-lo cair?
— Digo e repito, cavalheiro, que esse lenço não saiu do meu bolso.
— Pois muito bem, senhor, então mentiu duas vezes, pois eu, de minha
parte, vi-o sair de lá!
— Ah, é esse o tom que deseja empregar, senhor gascão! Pois bem, vou
ensiná-lo a viver.
— E eu lhe ensinarei a missa, senhor vigário! Saque sua espada, por favor,
e agora mesmo.
— Não, por favor meu caro amigo, não aqui, pelo menos. Não vê que
estamos em frente ao palácio d’Aiguillon, o qual está repleto de criaturas do
cardeal? Quem me diz que não foi Sua Eminência que o incumbiu de levar-
lhe minha cabeça? Ora, prezo por demais minha cabeça, visto me parecer
encaixar-se bastante bem nos meus ombros. Quero matá-lo, fique
descansado, mas matá-lo bem lentamente, num lugar fechado e coberto, lá
onde o senhor não possa gabar-se de sua morte para ninguém.
— Estou às suas ordens, mas não se fie muito nisso, e leve o seu lenço.
Pertença-lhe ou não, talvez ainda precise fazer uso dele.
— O cavalheiro é gascão?
— Sou. E não adie um compromisso por prudência.
— A prudência, cavalheiro, é uma virtude bem inútil aos mosqueteiros, sei
disso, mas indispensável às pessoas da Igreja. Como sou mosqueteiro apenas
provisoriamente, insisto em permanecer prudente. Às duas horas, terei a
honra de esperá-lo no palácio do sr. de Tréville. Lá indicarei-lhe um local
apropriado.
Os dois rapazes cumprimentaram-se, e depois Aramis afastou-se subindo a
rua que ia até o Luxemburgo, enquanto d’Artagnan, vendo que se fazia tarde,
tomava o caminho dos Carmelitas Descalços, ao mesmo tempo em que dizia
consigo:
— Decididamente, não vejo como escapar, mas, pelo menos, se eu morrer,
será pelas mãos de um mosqueteiro.
5. Os mosqueteiros do rei e os guardas do cardeal

D’ Artagnan não conhecia ninguém em Paris. Dirigiu-se então para o duelo


com Athos sem levar testemunha, decidido a se contentar com as
escolhidas pelo adversário. Aliás, era sua firme intenção apresentar ao
mosqueteiro todas as desculpas apropriadas, mas sem fraqueza, temendo
resultar desse duelo o que sempre resulta de inoportuno num assunto dessa
espécie, quando um homem jovem e forte enfrenta um adversário ferido e
debilitado: vencido, ele engrandece o triunfo de seu antagonista; vencedor, é
acusado de covardia e de se aproveitar da situação.
De toda forma, ou expusemos mal o caráter de nosso caçador de aventuras
ou nosso leitor decerto já notou que d’Artagnan não era em absoluto um
homem comum. Por exemplo, repetindo para si mesmo que sua morte era
inevitável, nem por isso resignara-se a morrer frouxamente, como outro
menos corajoso e moderado o teria feito em seu lugar. Refletiu sobre os
diferentes temperamentos daqueles com quem iria duelar, e começou a ver
com mais clareza a situação. Graças às desculpas leais que lhe reservava,
esperava ficar amigo de Athos, cujos ares de grão-senhor e o semblante
austero agradavam-no bastante. Gabava-se de ter amedrontado Porthos com o
episódio do boldrié, o qual podia, se não fosse morto sumariamente, contar a
todo mundo, uma história que, trabalhada com habilidade, devia cobrir
Porthos de ridículo. Por fim, quanto ao dissimulado Aramis, não o temia
muito e, supondo que chegasse até ele, encarregaria-se de despachá-lo rápido
e rasteiro, ou de pelo menos feri-lo no rosto, como César recomendara fazer
com os soldados de Pompeu, desfigurando para todo o sempre aquela beleza
de que tanto se orgulhava.
Além disso, havia em d’Artagnan um inabalável fundo de resolução,
depositado em seu coração pelos conselhos do pai, conselhos cujo teor era
“Não tolerar nada de ninguém, exceto do rei, do cardeal e do sr. de Tréville.”
Voou então, mais que andou, até o convento dos Carmelitas Descalços, ou
melhor, Descalçados, como se dizia nessa época, espécie de construção sem
janelas, ladeada por pastos áridos, sucursal do Pré-aux-Clercs, e que serviam
geralmente para os encontros das pessoas que não tinham tempo a perder.
Quando d’Artagnan chegou nas imediações do acanhado terreno baldio
que se estendia ao pé desse mosteiro, Athos esperava havia apenas cinco
minutos, e acabava de dar meio-dia. Ele era então pontual como a
Samaritana, e o mais rigoroso jurisprudente em duelos nada lhe teria a
censurar.
Athos, que continuava a sentir fortes dores devido ao ferimento, embora
tivesse recebido um novo curativo por parte do cirurgião do sr. de Tréville,
sentara-se sobre um marco e esperava seu adversário com o semblante
tranquilo e o ar digno que nunca o abandonava. Ao avistar d’Artagnan,
levantou-se e deu educadamente alguns passos em sua direção. Este, por sua
vez, aproximou-se de seu adversário com o chapéu na mão e sua pluma
arrastando no chão.
— Senhor — disse Athos —, chamei dois amigos meus como testemunhas,
mas esses dois amigos ainda não chegaram. Estranho que se demorem, não
está entre seus hábitos.
— De minha parte, não trago testemunhas, senhor — disse d’Artagnan —,
pois, tendo chegado apenas ontem a Paris, ainda não conheço ninguém por
aqui afora o sr. de Tréville, a quem fui recomendado por meu pai, que teve a
honra de ser um de seus poucos amigos.
Athos refletiu um instante.
— Só conhece o sr. de Tréville? — perguntou.
— Sim, senhor, apenas ele.
— E essa agora… — continuou Athos, falando meio consigo mesmo, meio
com d’Artagnan —, se eu matá-lo, hei de parecer um comedor de criancinha!
— Nem tanto, senhor — respondeu d’Artagnan, com uma saudação na
qual não faltava dignidade —, uma vez que me faz a honra de sacar a espada
contra mim com um ferimento que lhe deve ser muito incômodo.
— Muito incômodo de fato, e o senhor deixou-o ainda mais dolorido, devo
dizer. Mas usarei a mão esquerda, é o que costumo fazer nesses casos. Não
pense que lhe dou uma vantagem, luto razoavelmente com as duas mãos. E
haverá inclusive uma desvantagem para o senhor: o canhoto costuma ser um
perigo para quem não está prevenido. Sinto não lhe ter participado mais cedo
dessa circunstância.
— O senhor demonstra, cavalheiro — disse d’Artagnan, inclinando-se
novamente —, uma cortesia pela qual lhe sou mais do que grato.
— O senhor me deixa confuso — respondeu Athos, com seu ar de fidalgo.
— Mudemos de assunto, por favor, a menos que não seja de seu agrado. Ah,
minha nossa, como o senhor me machucou! Meu ombro está em brasa!
— Caso me permita… — disse d’Artagnan com timidez.
— O quê, senhor?
— Tenho uma pomada milagrosa, uma pomada que vem da minha mãe e
que já testei em mim mesmo.
— E daí?
— E daí! Tenho certeza de que em menos de três dias essa pomada irá
curá-lo e, no fim de três dias, quando estiver curado, pois bem, senhor,
continuaria a ser uma grande honra para mim ser seu contendor.
D’Artagnan disse essas palavras com uma simplicidade que fazia jus a sua
cortesia, sem por isso representar desdouro algum a sua coragem.
— Por Deus, cavalheiro — disse Athos —, eis uma proposta que me
agrada, não que eu a aceite, mas dela se vê, a uma légua de distância, o berço
nobre. Era assim que falavam e agiam os heróis do tempo de Carlos Magno, a
cujo exemplo todo cavaleiro deve procurar modelar-se. Infelizmente, não
vivemos mais no tempo do grande imperador. Vivemos no tempo do sr.
cardeal, e daqui a três dias eles ficariam sabendo que iríamos duelar, por mais
guardado que fosse o nosso segredo, e se oporiam a tal combate. Mas assim
já é demais! Esses desocupados não chegam nunca?
— Caso esteja com pressa, cavalheiro — disse d’Artagnan a Athos, com a
mesma simplicidade usada um minuto antes para lhe propor os três dias de
adiamento do duelo —, e seja de seu agrado despachar-me sem mais
delongas, não se aborreça à toa, por favor.
— Outra declaração que me agrada — disse Athos, fazendo um gracioso
sinal com a cabeça para d’Artagnan. — Não que eu a aceite, mas não vem de
um homem desmiolado, vem certamente de um homem de bom coração.
Cavalheiro, gosto dos homens de sua têmpera e vejo que, se não nos
matarmos um ao outro, depois terei grande prazer em ser seu amigo.
Esperemos esses senhores, por gentileza, tenho tempo de sobra, e isso será
mais correto. Ah, lá vem um, acho.
Com efeito, no fim da rua de Vaugirard, começava a despontar o gigante
Porthos.
— O quê! — exclamou d’Artagnan. — Sua primeira testemunha é o sr.
Porthos?
— Exatamente, isso o desagrada?
— Não, em absoluto.
— E eis o segundo.
D’Artagnan voltou-se para o lado indicado por Athos, e reconheceu
Aramis.
— O quê! — exclamou num tom ainda mais perplexo que da primeira vez.
— Sua segunda testemunha é o sr. Aramis?
— Ignorava, porventura, que nunca somos vistos um sem o outro, e que
nos chamam, entre os mosqueteiros e os guardas, na corte e na cidade, Athos,
Porthos e Aramis ou os três inseparáveis? Enfim, como o senhor vem de Dax
ou de Pau…
— De Tarbes — corrigiu d’Artagnan.
— … é compreensível que ignore esse detalhe — relevou Athos.
— Palavra de honra — disse d’Artagnan —, sua alcunha lhes cai bem,
cavalheiros, e minha aventura, caso se torne conhecida, pelo menos provará
que sua união não se baseia nas diferenças entre os senhores.
Enquanto isso, Porthos se aproximara, saudara Athos, e depois, voltando-
se para d’Artagnan, ficou estupefato.
Mencionemos, de passagem, que ele trocara de boldrié e abandonara o
sobretudo.
— Ah, ah! — disse ele. — Mas que história é essa?
— É com o cavalheiro que me bato — disse Athos, apontando d’Artagnan
com a mão e saudando-o com o mesmo gesto.
— É com ele que me bato também — disse Porthos.
— Mas somente à uma hora — advertiu d’Artagnan.
— E eu também, é com o cavalheiro que me bato — disse Aramis,
chegando por sua vez ao ponto de encontro.
— Mas somente às duas horas — esclareceu d’Artagnan com a mesma
calma.
— Mas a propósito de que você se bate, Athos? — perguntou Aramis.
— Acredite, já nem lembro direito, ele esbarrou no meu ombro
machucado. E você, Porthos?
— Ora, eu me bato porque me bato — respondeu Porthos, ruborizando.
Athos, que não perdia nada, viu desenhar-se um sorriso matreiro nos lábios
do gascão.
— Tivemos uma discussão sobre moda — disse o jovem.
— E você, Aramis? — perguntou Athos.
— Quanto a mim, bato-me por uma questão teológica— respondeu
Aramis, ao mesmo tempo em que fazia sinal para d’Artagnan, pedindo-lhe
que mantivesse em segredo a causa do duelo.
Athos viu um segundo sorriso nos lábios de d’Artagnan.
— Não precisa dizer — ironizou Athos.
— É, um ponto de santo Agostinho sobre o qual discordamos — disse o
gascão.
— Definitivamente, o rapaz tem presença de espírito — murmurou Athos.
— E agora que estão reunidos, cavalheiros — disse d’Artagnan —
permitam-me apresentar minhas desculpas.
A essa palavra, “desculpas”, uma nuvem atravessou a fronte de Athos, um
sorriso altivo insinuou-se nos lábios de Porthos, e um sinal negativo foi a
resposta de Aramis.
— Não me entendam mal, senhores — disse d’Artagnan levantando o
rosto, sobre o qual brincava nesse momento um raio de sol que dourava suas
linhas finas e insinuantes. — Peço-lhes desculpas para o caso de eu não
conseguir pagar minha dívida a todos os três, pois o sr. Athos tem o direito de
me matar primeiro, o que tira muito valor de seu crédito, senhor Porthos, e o
que torna o seu praticamente nulo, senhor Aramis. Agora, cavalheiros, repito-
lhes, desculpem-me, mas apenas por isso, e em guarda!
A essas palavras, com o gesto mais nobre que se possa imaginar,
d’Artagnan sacou sua espada.
O sangue subira à cabeça de d’Artagnan, e nesse momento ele teria sacado
a espada contra todos os mosqueteiros do reino, como acabava de fazer
contra Athos, Porthos e Aramis.
Passavam quinze minutos do meio-dia. O sol estava em seu zênite, e o
local escolhido como teatro do duelo achava-se exposto a todo seu ardor.
— Faz muito calor — disse Athos, sacando a espada por sua vez —, porém
não posso tirar o meu gibão. Ainda agora, senti meu ferimento sangrando e
receio constrangê-lo, fazendo-lhe ver sangue não derramado pelo senhor.
— É verdade, cavalheiro — disse d’Artagnan —, mas derramado por outro
ou por mim, asseguro-lhe que eu veria sempre com grande pesar o sangue de
um fidalgo tão valoroso. Lutarei, portanto, de casaco como o senhor.
— Vamos, vamos — disse Porthos —, basta de gentilezas, não se
esqueçam de que esperamos nossa vez.
— Fale apenas por você, Porthos, quando tiver que dizer essas
incongruências — interrompeu Aramis. — De minha parte, julgo as coisas
que esses senhores dizem muito bem ditas e absolutamente dignas de dois
fidalgos.
— Quando quiser, cavalheiro — disse Athos, pondo-se em guarda.
— Eu esperava suas ordens — disse d’Artagnan, cruzando ferros.
Mas as duas lâminas mal haviam retinido ao se tocar quando um
destacamento dos guardas de Sua Eminência, comandado pelo sr. de Jussac,
apareceu na esquina do convento.
— Os guardas do cardeal! — exclamaram ao mesmo tempo Porthos e
Aramis. — Espada na cinta, cavalheiros! Espada na cinta!
Mas era tarde demais. Os dois duelistas haviam sido vistos numa pose que
não dissimulava suas intenções.
— Olá! — gritou Jussac, avançando na direção deles e fazendo sinal a seus
homens para fazerem o mesmo. — Olá, mosqueteiros, quer dizer que temos
um duelo por aqui? E a lei, o que fazemos com ela?
— Confiamos em sua generosidade, senhores guardas — disse Athos,
cheio de rancor, pois Jussac era um dos que o agrediram na antevéspera. —
Se víssemos os senhores se esgrimindo, respondo por mim, não os
impediríamos. Deixem-nos em paz, portanto, e divirtam-se sossegadamente.
— Senhores — disse Jussac —, é com grande pesar que lhes declaro tal
coisa impossível. Nosso dever antes de tudo. Portanto, embainhem as
espadas, por favor, e sigam-nos.
— Senhor — disse Aramis, imitando Jussac —, seria com um imenso
prazer que obedeceríamos a seu amável convite, se isso dependesse de nós.
Mas, infelizmente, é coisa impossível: o sr. de Tréville nos proibiu.
Continuem portanto seu caminho, que é o que têm de melhor a fazer.
A imitação irritou Jussac.
— Atacaremos então — disse ele —, caso desobedeçam.
— Eles são cinco — considerou Athos a meia-voz —, e somos apenas três.
Seremos novamente derrotados e teremos que morrer aqui, pois, eu o declaro,
não vou aparecer mais uma vez vencido perante o capitão.
Athos, Porthos e Aramis aproximaram-se imediatamente uns dos outros,
enquanto Jussac alinhava seus soldados.
Bastou esse instante para d’Artagnan tomar seu partido. Aquele era o tipo
de acontecimento que decide a vida de um homem, era uma escolha a ser
feita entre o rei e o cardeal. Feita a escolha, fazia-se necessário perseverar
nela. Duelar, isto é, desobedecer à lei, isto é, arriscar sua cabeça, isto é,
tornar-se num só golpe o inimigo de um ministro mais poderoso que o
próprio rei: eis o que vislumbrou o mancebo, e, digamos a seu favor, ele não
hesitou um segundo. Voltou-se para Athos e seus amigos:
— Cavalheiros, permitam-me acrescentar um detalhe às suas palavras. Os
senhores disseram que eram apenas três, mas, do meu ponto de vista, somos
quatro.
— Mas o senhor não é dos nossos — argumentou Porthos.
— É verdade — disse d’Artagnan —, não tenho o uniforme, mas tenho a
alma. Meu coração é mosqueteiro, sinto isso claramente, senhor, e ele me
arrebata.
— Afaste-se, rapaz — gritou Jussac, que provavelmente, pelos gestos e a
expressão do rosto de d’Artagnan, adivinhara sua intenção. — Tem
permissão para se retirar, nós o consentimos. Salve sua pele, suma daqui.
D’Artagnan não se mexeu.
—Não há como negar, o senhor é um belo rapaz — disse Athos, apertando
a mão do mancebo.
— E então?! Decidam — continuou Jussac.
— Vejamos — disseram Porthos e Aramis —, façamos alguma coisa.
— O cavalheiro é de uma generosidade ímpar — disse Athos.
Mas os três mosqueteiros pensavam na juventude de d’Artagnan e temiam
sua inexperiência.
— Seremos apenas três, um deles ferido, mais uma criança — disse Athos
—, mas irão dizer que éramos quatro homens.
— Sim, mas… recuar?! — exclamou Porthos.
— É uma decisão difícil — argumentou Athos.
D’Artagnan compreendeu aquela hesitação.
— Continuem a me testar, cavalheiros — disse ele —, e juro pela minha
honra que não pretendo sair daqui a menos que sejamos derrotados.
— Qual é o seu nome, meu bravo? — perguntou Athos.
— D’Artagnan, senhor.
— Muito bem! Athos, Porthos, Aramis e d’Artagnan, adiante! —
comandou Athos.
— E então, senhores, conseguiram se decidir? — gritou pela terceira vez
Jussac.
— Está feito, senhor — disse Athos.
— E o que decidiram?
— Teremos a honra de atacá-los — respondeu Aramis, erguendo seu
chapéu com uma das mãos e desembainhando a espada com a outra.
— Ah! Resistem! — exclamou Jussac.
— Por Deus, e isso o espanta?
E os nove combatentes precipitaram-se uns sobre os outros com uma fúria
que não excluía certo método.
Athos viu-se diante de um certo Cahusac, favorito do cardeal; a Porthos,
coube Biscarat, sobrando dois adversários para Aramis.
Quanto a d’Artagnan, viu-se às voltas com o próprio Jussac.
O coração do jovem gascão batia tão forte que estava a ponto de quebrar-
lhe as costelas, não por medo, graças a Deus!, não sentia sombra disso, mas
de ansiedade. Duelava como um tigre alucinado, rodopiando dez vezes em
torno de seu adversário, mudando vinte vezes suas guardas e seu terreno.
Jussac era, como se dizia então, um apreciador da lâmina, e praticara muito.
Entretanto, tinha todas as dificuldades do mundo para se defender contra um
adversário que, ágil e saltitante, afastava-se a todo momento das regras de
praxe, atacando de todos os lados ao mesmo tempo, e tudo isso defendendo-
se como um homem que sente o maior respeito por sua epiderme.
Aquela tática terminou por fazer Jussac perder a paciência. Furioso por ter
sido posto em xeque por aquele que vira como uma criança, afobou-se e
desandou a cometer erros. D’Artagnan, que, se não tinha prática, tinha uma
profunda teoria, redobrou sua agilidade. Jussac, querendo acabar com aquilo,
desferiu um golpe terrível em seu adversário, investindo com tudo, mas este o
bloqueou e, enquanto Jussac se levantava, insinuando-se como uma serpente
sob seu ferro, trespassou-lhe o corpo com sua espada. Jussac caiu como uma
rocha.
D’Artagnan passou um olho inquieto e rápido pelo campo de batalha.
Aramis já matara um de seus adversários, mas o outro pressionava-o
vivamente. Mesmo assim, Aramis estava em boa situação e ainda podia se
defender.
Biscarat e Porthos acabavam de se tocar ao mesmo tempo. Porthos
recebera um golpe no braço, e Biscarat, na coxa. Mas, como nem um nem
outro dos dois ferimentos era grave, passaram a digladiar-se ainda mais
encarniçadamente.
Athos, ferido novamente por Cahusac, empalidecia a olhos vistos, mas não
recuava um passo. Apenas mudara sua espada de mão, batendo-se com a mão
esquerda.
D’Artagnan, segundo as leis do duelo dessa época, podia socorrer alguém.
Enquanto procurava com o olhar qual de seus companheiros precisava de
ajuda, surpreendeu uma piscadela de Athos. O gesto foi de uma eloquência
sublime. Athos preferiria morrer a pedir socorro, mas podia olhar e, com os
olhos, pedir um auxílio. D’Artagnan captou a mensagem, deu um pulo
terrível e caiu ao lado de Cahusac, gritando:
— A mim, senhor guarda, vou matá-lo!
Cahusac voltou-se bem na hora. Athos, que vinha sendo sustentado apenas
por sua extrema coragem, caiu sobre um joelho.
— Pelo sangue de Deus! — gritava ele para d’Artagnan. — Não o mate,
rapaz, eu lhe peço. Tenho uma velha conta para acertar com ele, quando eu
estiver curado e em forma. Desarme-o apenas, arranque-lhe a espada. Isso.
Bom! Muito bom!
Athos soltara essa exclamação ao ver a espada de Cahusac arremessada a
quinze metros. D’Artagnan e Cahusac correram para ela, um para recuperá-
la, o outro para se apoderar dela, porém d’Artagnan, mais rápido, chegou
primeiro e pôs-lhe o pé em cima. Cahusac correu até o guarda que Aramis
matara, pegou sua espada, e quis voltar em direção a d’Artagnan, mas, no
caminho, encontrou Athos, que, durante a rápida pausa que lhe proporcionara
d’Artagnan, havia recobrado o fôlego e, receando que d’Artagnan matasse
seu inimigo, queria recomeçar o combate.
D’Artagnan compreendeu que vexaria Athos se o impedisse. Com efeito,
passados alguns segundos, Cahusac tombou com a garganta atravessada por
uma estocada.
No mesmo instante, Aramis encostava sua espada no peito de seu
adversário derrubado, obrigando-o a pedir misericórdia.
Restavam Porthos e Biscarat. Porthos fazia mil fanfarronadas, perguntando
a Biscarat que horas deveriam ser e dando-lhe os parabéns pela companhia
que seu irmão acabava de obter no regimento de Navarra, mas, apesar das
gozações, não conseguia se impor. Biscarat era um desses homens de ferro
que só tombam mortos.
No entanto, era preciso acabar com aquilo. A ronda podia chegar e prender
todos os combatentes, feridos ou não, realistas ou cardinalistas. Athos,
Aramis e d’Artagnan cercaram Biscarat e intimaram-no a render-se. Embora
sozinho contra todos, e com uma estocada que lhe atravessara a coxa,
Biscarat queria resistir; mas Jussac, que se soerguera sobre um cotovelo,
gritou-lhe para se render. Biscarat era gascão como d’Artagnan. Fez-se de
surdo e contentou-se em rir, tendo tempo de, entre duas paradas, apontar,
com a ponta de sua espada, um lugar na terra:
— Aqui — disse ele, parodiando um versículo da Bíblia —, aqui morreu
Biscarat, abandonado pelos que estão com ele.
— Mas são quatro contra você! Termine com isso, é uma ordem.
— Ah, se é uma ordem, é diferente! — disse Biscarat. — Afinal, devo
obedecer ao meu comandante.
E, dando um pulo para trás, quebrou sua espada no joelho para não
entregá-la, atirou os pedaços por cima do muro do convento e cruzou os
braços assobiando uma canção cardinalista.
A bravura é sempre respeitada, mesmo num inimigo. Os mosqueteiros
saudaram Biscarat com suas espadas e as guardaram de volta em suas
bainhas. D’Artagnan imitou-os e, ajudado por Biscarat, único que
permanecera de pé, carregou até a portaria do convento Jussac, Cahusac e um
dos adversários de Aramis, que estava apenas ferido. O quarto, como
dissemos, estava morto. Depois os mosqueteiros tocaram o sino e, levando
quatro das cinco espadas, encaminharam-se, inebriados de alegria, para o
palácio do sr. de Tréville.
Foram vistos de braços dados, ocupando toda a largura da rua e anexando
cada mosqueteiro que encontravam, de modo que no fim aquilo virou uma
marcha triunfal. O coração de d’Artagnan transbordava de júbilo enquanto
ele caminhava entre Athos e Porthos, abraçando-os carinhosamente.
— Se ainda não sou mosqueteiro — disse a seus novos amigos,
atravessando a porta do palacete do sr. de Tréville —, pelo menos fui aceito
como aprendiz, ou estou enganado?
6. Sua Majestade o rei Luís XIII

O episódio deu o que falar. O sr. de Tréville repreendeu seus mosqueteiros


em altos brados, e parabenizou-os em voz baixa. Porém, como era
urgente avisar ao rei, apresentou-se imediatamente no Louvre. Já era
muito tarde, o rei estava trancado com o cardeal, e disseram-lhe que o rei
trabalhava e não podia recebê-lo naquele momento. À noite, o capitão dos
mosqueteiros compareceu ao jogo do rei. O rei ganhava, e como Sua
Majestade era muito avarenta, estava de excelente humor. Portanto, ao avistar
Tréville, o rei lhe disse:
— Venha até aqui, senhor capitão, venha para que eu o repreenda. Sabia
que Sua Eminência veio me fazer queixas de seus mosqueteiros e que, de tão
alterado, ficou doente hoje à noite? Afinal, convenhamos, são verdadeiras
pestes, merecem a forca, os seus mosqueteiros.
— Não, Sire — respondeu Tréville, que ao primeiro relance percebeu
como a coisa iria funcionar —, muito pelo contrário, são boas criaturas,
dóceis como cordeiros, e nutrem um só desejo, do qual sou o avalista: que
suas espadas não sejam desembainhadas senão no benefício de Vossa
Majestade. Mas o que quereis, os guardas do sr. cardeal vivem procurando
confusão com eles, e, pela honra mesma da instituição, os pobres rapazes são
obrigados a se defender.
— Escutem o sr. de Tréville! — disse o rei. — Escutem! Não lhes parece
estar ele se referindo a uma comunidade religiosa? Na verdade, meu caro
capitão, minha vontade é confiscar-lhe sua patente e entregá-la à srta. de
Chemerault, a quem prometi uma abadia. Mas não pense que acredito no
senhor. Chamam-me Luís, o Justo, sr. de Tréville, e daqui a pouco, daqui a
pouco veremos.
— Ah, é porque confio nessa justiça, Sire, que esperarei paciente e sereno
as disposições de Vossa Majestade.
— Então espere, senhor, então espere — disse o rei —, não perderá muito
do seu tempo.
Com efeito, a sorte começava a virar e, como o rei começava a perder o
que ganhara, não o desagradava arranjar um pretexto para fazer — que nos
perdoem essa expressão de jogador, cuja origem, confessamos, não
conhecemos —, para “fazer um carlos-magno”. Depois de um instante, o rei
então se levantou e, enfiando no bolso o dinheiro que estava à sua frente e
cuja maior parte vinha de seu ganho, disse:
— La Vieuville, jogue no meu lugar, preciso conversar com o sr. de
Tréville um assunto importante. Ah…! Eu tinha oitenta luíses na mesa.
Aposte a mesma soma a fim de que os que perderam não tenham do que se
queixar. A justiça acima de tudo.
Depois, voltando-se para o sr. de Tréville e caminhando com ele em
direção a uma janela aberta, continuou:
— Muito bem, senhor, o senhor disse que foram os guardas do
Eminentíssimo que procuraram confusão com seus mosqueteiros?
— Sim, Sire, como sempre.
— E como a coisa se deu, afinal? Pois, como sabe, meu caro capitão, um
juiz deve sempre ouvir as duas partes.
— Ai, por Deus, da maneira mais simples e natural. Três dos meus
melhores soldados, que Vossa Majestade conhece de nome e cuja lealdade
mais de uma vez apreciou, e que, posso afirmá-lo ao senhor, são abnegados
em seu serviço, três dos meus melhores soldados, eu dizia, os srs. Athos,
Porthos e Aramis, planejaram dar um trote num jovem cadete da Gasconha
que eu lhes recomendara aquela manhã mesma. O trote ia acontecer em
Saint-Germain, creio, e eles o haviam marcado diante do convento dos
Carmelitas Descalços, quando a brincadeira foi perturbada pelo sr. de Jussac
e os srs. Cahusac, Biscarat e dois outros guardas, que não estavam ali em tão
numerosa companhia sem alguma má intenção: contra a lei.
— Ah, ah! O senhor me fez pensar na hipótese — disse o rei — de eles
estarem ali para duelar entre si.
— Não os acuso, Sire, mas deixo a Vossa Majestade apreciar o que podem
ir fazer cinco homens armados em local tão ermo como as cercanias do
convento dos Carmelitas.
— Sim, tem razão, Tréville, tem razão.
— Então, quando eles viram meus mosqueteiros, mudaram de ideia e
trocaram seu ódio particular pelo ódio à corporação. Pois Sua Majestade não
ignora que os mosqueteiros do rei, e de mais ninguém senão do rei, são
inimigos naturais dos guardas, que pertencem ao sr. cardeal.
— Sim, Tréville, sim — disse o rei melancolicamente —, é muito triste,
acredite, ver o estado em que se encontram os dois partidos na França, duas
cabeças para a realeza. Mas tudo isso vai acabar, Tréville, tudo isso vai
acabar. O senhor então afirma que os guardas procuraram confusão com os
mosqueteiros?
— Afirmo que é provável que as coisas se hajam desenrolado dessa forma,
mas não posso jurar, Sire. Sabeis como a verdade é difícil de conhecer e, a
menos que sejamos dotados desse instinto admirável que deu a Luís XIII o
epíteto de o Justo…
—E tem razão, Tréville, mas seus mosqueteiros não estavam sozinhos, não
havia com eles uma criança?
— Sim, Sire, e um homem ferido, de maneira que três mosqueteiros do rei,
entre eles um ferido e uma criança, não apenas fizeram frente a cinco dos
mais terríveis guardas do sr. cardeal, como ainda deitaram quatro por terra.
— Mas então é uma vitória, o episódio! — exclamou o rei radiante. —
Uma vitória completa!
— Sim, Sire, tão completa quanto a da ponte de Cé.
— Quatro homens, entre eles um ferido e uma criança, é o que diz?
— Um rapaz. O qual, diga-se de passagem, comportou-se tão dignamente
nessa oportunidade que tomo a liberdade de recomendá-lo à Vossa
Majestade.
— Como se chama ele?
— D’Artagnan, Sire. É filho de um de meus amigos mais antigos, filho de
um homem que fez junto com o rei vosso pai, de gloriosa memória, a guerra
de partisan.
— E o senhor diz que ele se comportou bem, esse rapaz? Conte-me isso,
Tréville, sabe o quanto gosto de relatos de guerra e combate.
E o rei Luís XIII levantou orgulhosamente o bigode, sentando de lado.
— Sire — retomou Tréville —, como eu vos disse, o sr. d’Artagnan é
quase uma criança e, como não tem a honra de ser mosqueteiro, estava à
paisana. Os guardas do sr. cardeal, percebendo sua grande juventude e, além
disso, que era estranho à corporação, convidaram-no a se retirar antes de
atacarem.
— Então, veja bem, Tréville — interrompeu o rei —, foram eles que
atacaram.
— Correto, Sire. Quanto a isso, não resta dúvida. Intimaram-no então a se
retirar, mas ele respondeu que era mosqueteiro de coração, por inteiro de Sua
Majestade, e que, por conseguinte, não abandonaria os senhores
mosqueteiros.
— Mas que bravo rapaz! — murmurou o rei.
— E, de fato, ficou com eles. Vossa Majestade tem nele um sólido
campeão, pois foi ele quem aplicou em Jussac a terrível estocada que deixou
o cardeal tão irado.
— Foi ele quem feriu Jussac? — exclamou o rei. — Ele, uma criança! Não
pode ser, Tréville.
— É como tenho a honra de dizer à Vossa Majestade.
— Jussac, uma das primeiras lâminas do reino!
— Pois bem, Sire! Ele encontrou seu mestre.
— Quero ver esse rapaz, Tréville, quero vê-lo, e, se pudermos fazer
alguma coisa por ele, ora, cuidemos disso.
— Quando Vossa Majestade irá dignar-se a recebê-lo?
— Amanhã ao meio-dia, Tréville.
— Trago-o sozinho?
— Não, traga-me os quatro juntos. Quero agradecer a todos ao mesmo
tempo. Os homens leais são raros, Tréville, e temos de premiar a lealdade.
— Ao meio-dia, Sire, estaremos no Louvre.
— Ah, pela escadinha, Tréville, pela escadinha. Não vale a pena o cardeal
saber…
— Sim, Sire.
— Você compreende, Tréville, lei é lei. Os duelos estão proibidos, afinal
de contas.
— Mas esse encontro, Sire, sai completamente das condições ordinárias de
um duelo: foi uma refrega, e a prova disso é que eram cinco guardas do
cardeal contra meus três mosqueteiros e o sr. d’Artagnan.
— É verdade — disse o rei. — Mas não importa, Tréville, use a escadinha
mesmo assim.
Tréville sorriu. Mas como já conseguira o milagre de fazer aquela
criança revoltar-se contra seu mentor, saudou respeitosamente o rei e, com
sua permissão, despediu-se dele.
Na mesma noite, os três mosqueteiros foram avisados da honra que lhes
era concedida. Como conheciam o rei havia muito tempo, não ficaram tão
alvoroçados, mas d’Artagnan, com sua imaginação gascã, viu nisso a glória
futura e passou a noite tendo sonhos dourados. Assim, às oito horas da manhã
já estava na casa de Athos.
D’Artagnan encontrou o mosqueteiro todo vestido e pronto para sair.
Como o compromisso com o rei era apenas ao meio-dia, ele programara, com
Porthos e Aramis, uma partida de péla numa quadra ao lado das estrebarias
do Luxemburgo. Athos convidou d’Artagnan a acompanhá-los e, apesar de
sua ignorância acerca desse jogo, do qual jamais participara, este aceitou, sem
saber o que fazer durante aquele tempo, das quase nove horas da manhã que
eram até o meio-dia.
Os dois mosqueteiros já haviam chegado e começado a jogar. Athos, que
era muito forte em todos os exercícios físicos, passou com d’Artagnan para o
lado oposto e lhes fez o desafio. Porém, no primeiro movimento que tentou,
embora jogasse com a mão esquerda, compreendeu que seu ferimento ainda
era muito recente para lhe permitir um exercício daqueles. D’Artagnan então
ficou sozinho, declarando-se muito inexperiente para sustentar uma partida
dentro das regras, ao passo que eles ficaram apenas lançando as bolas um
para o outro, sem contar pontos. Uma dessas bolas, no entanto, lançada pelo
punho hercúleo de Porthos, passou muito rente ao rosto de d’Artagnan,
fazendo-o avaliar que, se em vez de ter passado perto ela o tivesse pego de
cheio, sua audiência poderia acabar sendo cancelada, pois lhe teria sido
absolutamente impossível apresentar-se ao rei. Ora, como dessa audiência,
em sua imaginação gascã, dependia todo seu futuro, ele cumprimentou
polidamente Porthos e Aramis, declarando que só voltaria a jogar quando
fosse páreo para eles, e foi sentar perto da corda, na galeria.
Para má sorte de d’Artagnan, entre os espectadores estava um guarda de
Sua Eminência, o qual, ainda furioso com a derrota de seus companheiros,
acontecida na véspera apenas, prometera agarrar a primeira oportunidade de
vingá-la. Julgou ele que essa oportunidade chegara e, dirigindo-se a seu
vizinho, disse:
— Não admira que esse rapaz tenha tido medo de uma bola, deve ser um
aprendiz de mosqueteiro.
D’Artagnan voltou-se como se uma serpente o tivesse atacado, e olhou
fixamente o guarda que acabava de fazer aquela insolente declaração.
— Por Deus! — insistiu este último, cofiando arrogantemente o bigode. —
Olhe para mim o tempo que quiser, meu senhorzinho, não retiro o que acabei
de dizer.
— E como o que o senhor disse é muito claro para que suas palavras
exijam uma satisfação — respondeu d’Artagnan em voz baixa —, peço-lhe
que me siga.
— E quando isso? — perguntou o guarda, com o mesmo ar trocista.
— Imediatamente, por favor.
— Imagino que saiba com quem está falando…
— De minha parte, ignoro solenemente, e isso não me preocupa.
— Mas está errado, pois, se soubesse meu nome, talvez não tivesse tanta
pressa.
— Como se chama?
— Bernajoux, para servi-lo.
— Pois bem, sr. Bernajoux — disse tranquilamente d’Artagnan —, vou
esperá-lo na porta.
— Vá, cavalheiro, eu o sigo.
— Não se apresse, cavalheiro, para que não percebam que saímos juntos.
O senhor compreende que, para o que vamos fazer, o excesso de gente apenas
atrapalharia.
— Está bem — respondeu o guarda, admirado de que seu nome não tivesse
produzido o menor efeito sobre o rapaz.
De fato, o nome de Bernajoux era conhecido de todos, exceto talvez de
d’Artagnan, pois ele era um participante contumaz nas rixas diárias que todos
os decretos do rei e do cardeal não haviam sido capazes de reprimir.
Porthos e Aramis estavam tão concentrados na partida, à qual Athos
assistia com tamanha atenção, que eles nem viram seu jovem companheiro
sair. D’Artagnan, como dissera ao guarda de Sua Eminência, parou na porta.
Um instante depois, este desceu por sua vez. Como d’Artagnan não tinha
tempo a perder, visto que a audiência do rei estava marcada para o meio-dia,
lançou os olhos à sua volta. Vendo que a rua estava deserta, disse a seu
adversário:
— Que sorte a sua, embora o senhor se chame Bernajoux, estar lidando
com um mero aprendiz de mosqueteiro. Mas fique sossegado, farei o melhor
possível. Em guarda!
— Entretanto — disse aquele a quem d’Artagnan provocava dessa maneira
—, o lugar me parece muito mal-escolhido e penso que estaríamos melhor
atrás da abadia de Saint-Germain ou no Pré-aux-Clercs.
— O que o senhor diz faz muito sentido — respondeu d’Artagnan. —
Infelizmente, disponho de pouco tempo, tendo um encontro ao meio-dia em
ponto. Em guarda, portanto, cavalheiro, em guarda!
Bernajoux não era homem a quem se precisasse repetir duas vezes um
convite como esse. No mesmo instante, a espada cintilou em sua mão e ele
partiu para cima do adversário, a quem esperava intimidar aproveitando-se de
sua grande juventude.
Mas d’Artagnan fizera seu aprendizado na véspera e, ainda entusiasmado
com a vitória, todo cheio de si com sua futura recompensa, estava
determinado a não recuar um passo. Dessa forma, os dois ferros viram-se
cruzados até a guarda. Como d’Artagnan resistia firme no lugar, foi seu
adversário quem recuou um passo. Mas d’Artagnan, aproveitando-se do
instante em que, nesse movimento, o ferro de Bernajoux saíra da linha,
desvencilhou-se, atacou e tocou seu adversário no ombro. Imediatamente deu
um passo atrás e ergueu sua espada. Mas Bernajoux gritou-lhe que não era
nada e, investindo cegamente sobre ele, espetou-se a si próprio. Entretanto,
como não caía, como não se declarava vencido, mas apenas cambaleava em
direção ao palácio do sr. de La Trémouille, em cujo estafe tinha um parente,
d’Artagnan, ignorando a gravidade do último ferimento que seu adversário
recebera, investia vigorosamente contra ele, e possivelmente iria liquidá-lo
com um terceiro golpe, quando, tendo o rumor que vinha da rua alcançado o
jogo de péla, dois amigos do guarda, que haviam escutado seu diálogo com
d’Artagnan e o visto sair no fim desse diálogo, precipitaram-se de espada em
punho para fora da quadra e atacaram o vencedor. Ao mesmo tempo, porém,
surgiram Athos, Porthos e Aramis, que, no momento em que os dois guardas
atacavam seu jovem companheiro, obrigaram-nos a se voltar. Nesse instante,
Bernajoux caiu, e como os guardas eram apenas dois contra quatro, eles
puseram-se a gritar: “A nós, no palácio de La Trémouille!” A esses gritos,
todos que estavam no palácio saíram e correram em direção aos quatro
companheiros, que por sua vez puseram-se a gritar: “A nós, mosqueteiros!”
Esse grito era comumente ouvido, pois todos sabiam que os mosqueteiros
eram inimigos de Sua Eminência, e gostavam deles pelo ódio que
demonstravam em relação ao cardeal. Por isso os guardas das outras
companhias não subordinadas ao Duque Vermelho, como o chamara Aramis,
geralmente tomavam partido nesse tipo de querelas a favor dos mosqueteiros
do rei. De três guardas da companhia do sr. des Essarts que passavam, dois
vieram portanto ajudar aos quatro companheiros, enquanto o outro corria ao
palácio do sr. de Tréville, gritando: “A nós, mosqueteiros, a nós!” Como
sempre, o palácio do sr. de Tréville estava cheio de soldados da corporação,
que acorreram em socorro dos colegas. A confusão generalizou-se, mas a
força estava com os mosqueteiros. Os guardas do cardeal e a criadagem do sr.
de La Trémouille retiraram-se para o palácio, cujas portas se fecharam bem a
tempo de impedir que seus inimigos entrassem junto com eles. Quanto ao
ferido, havia sido transportado no início, em péssimas condições, como
dissemos.
A agitação estava no ápice entre os mosqueteiros e seus aliados, e estes já
deliberavam se, para punir a insolência dos criados do sr. de La Trémouille
de atacar os mosqueteiros do rei, não deveriam atear fogo em seu palácio. A
sugestão foi feita e acolhida com entusiasmo, quando felizmente soaram as
onze horas. D’Artagnan e seus companheiros lembraram-se de sua audiência
e, como não desejassem que um tão belo golpe fosse dado sem a sua
presença, trataram de acalmar os ânimos. Contentaram-se em atirar alguns
paralelepípedos nas portas, mas as portas resistiram. Então se cansaram.
Aliás, os que deviam ser vistos como os líderes da iniciativa haviam deixado
o grupo e caminhavam na direção do palácio do sr. de Tréville, que os
esperava, já informado do tumulto.
— Rápido, ao Louvre — disse ele —, ao Louvre sem perda de tempo, e
tratemos de ver o rei antes que ele seja avisado pelo cardeal. Contaremos a
coisa como uma consequência do episódio de ontem, e os dois passarão
juntos.
O sr. de Tréville, acompanhado dos quatro jovens, rumou então para o
Louvre, mas, para grande surpresa do capitão dos mosqueteiros,
comunicaram-lhe que o rei fora caçar cervos na floresta de Saint-Germain. O
sr. de Tréville exigiu que lhe repetissem duas vezes a notícia, e nas duas
vezes seus companheiros o viram fechando a cara.
— Será que Sua Majestade já tinha planos de fazer essa caçada ontem? —
perguntou ele.
— Não, Vossa Excelência — respondeu o mordomo. — Porém o grão-
couteiro veio anunciar esta manhã que, à noite, lhe haviam emboscado um
cervo. Ele primeiro respondeu que não iria, em seguida, não resistindo ao
prazer que lhe prometia a caçada, partiu depois do almoço.
— E o rei esteve com o cardeal? — perguntou o sr. de Tréville.
— Muito provavelmente — respondeu o mordomo —, pois vi esta manhã
os cavalos na carruagem de Sua Eminência, indaguei aonde ela ia, e me
responderam: “A Saint-Germain.”
— É um aviso — disse o sr. de Tréville. — Cavalheiros, verei o rei hoje à
noite. Mas não os aconselho a aparecerem por lá.
A recomendação era bastante razoável. Acima de tudo, vinha de um
homem que conhecia muito bem o rei para que os quatro rapazes tentassem
contrariá-lo. O sr. de Tréville convidou-os então a voltar para suas
respectivas casas e aguardar notícias suas.
De volta ao seu palácio, o sr. de Tréville julgou por bem ser o primeiro a
entrar com uma queixa. Enviou um de seus criados à casa do sr. de La
Trémouille com uma carta na qual solicitava que tirasse de dentro dela o
guarda do sr. cardeal e repreendesse sua criadagem pela audácia de
desafiarem os mosqueteiros. Mas o sr. de La Trémouille, já avisado por seu
escudeiro, do qual, como sabemos, Bernajoux era parente, mandou
responder-lhe que não cabia nem ao sr. de Tréville nem a seus mosqueteiros
queixar-se, e sim, muito pelo contrário, a ele, cujos criados tinham sido
atacados e que tivera sua casa ameaçada de incêndio. Ora, como a discussão
entre esses dois senhores poderia durar muito tempo, cada um devendo sem
dúvida teimar em sua opinião, o sr. de Tréville recorreu a um expediente que
tinha como finalidade encerrar o assunto: ir pessoalmente até a presença do
sr. de La Trémouille.
Dirigiu-se então sem demora ao seu palácio, e fez-se anunciar.
Os dois senhores cumprimentaram-se com polidez, pois, se não havia
amizade entre eles, ao menos havia estima. Ambos eram pessoas de coração e
de honra, e como o sr. de La Trémouille, protestante que raramente via o rei,
não era de nenhum partido, em geral ele não misturava qualquer preconceito
em suas relações sociais. Dessa vez, contudo, sua acolhida, embora cortês, foi
mais fria do que de costume.
— Senhor — disse o sr. de Tréville —, ambos nos julgamos prejudicados
um pelo outro, e vim pessoalmente para que, juntos, deixemos as coisas
esclarecidas.
— De bom grado — respondeu o sr. de La Trémouille. — Mas aviso-lhe
que estou bem-informado, e que a culpa é toda dos seus mosqueteiros.
— O senhor é um homem suficientemente justo e razoável — disse o sr. de
Tréville — para não aceitar a proposta que vou fazer.
— Faça, senhor, sou todo ouvidos.
— Como está o sr. Bernajoux, o parente do seu escudeiro?
— Ora, senhor, muito mal. Além da estocada que recebeu no braço e que
não representa grande perigo, recebeu outra que lhe atravessou o pulmão, de
modo que o médico não pressagia nada de bom.
— Mas o ferido conservou a consciência?
— Perfeitamente.
— Consegue falar?
— Com dificuldade, mas consegue.
— Pois bem, senhor, conversemos com ele, vamos intimá-lo, em nome de
Deus perante o qual talvez esteja prestes a comparecer, a falar a verdade.
Tomo-o como juiz de sua própria causa, senhor, e acreditarei no que ele
disser.
O sr. de La Trémouille refletiu um instante, depois, como era difícil fazer
uma proposta mais razoável, aceitou.
Desceram ambos até o quarto onde estava o ferido. Este, vendo entrar
aqueles dois nobres senhores que vinham visitá-lo, tentou erguer-se de sua
cama, mas estava muito fraco e, esgotado pelo esforço, caiu novamente quase
sem sentidos.
O sr. de La Trémouille aproximou-se dele e fez-lhe respirar sais que o
trouxeram de volta à vida. Então o sr. de Tréville, não querendo que o
acusassem de ter influenciado o doente, sugeriu ao sr. de La Trémouille que o
interrogasse.
O que previra o sr. de Tréville aconteceu. Entre a vida e a morte como
estava Bernajoux, sequer por um instante passou-lhe pela cabeça esconder a
verdade. E contou aos dois senhores exatamente como as coisas se passaram.
Era tudo que o sr. de Tréville podia querer. Desejou a Bernajoux uma
rápida convalescença, despediu-se do sr. de La Trémouille, retornou ao seu
palácio e mandou avisar imediatamente aos quatro amigos que os esperava
para jantar.
O sr. de Tréville recebia muita gente, por sinal toda ela anticardinalista.
Logo, é compreensível que a conversa rolasse durante todo o jantar sobre as
duas afrontas recentemente sofridas pelos guardas de Sua Eminência. Ora,
como d’Artagnan havia sido o herói dessas duas jornadas, foi sobre ele que
recaíram todas as congratulações, as quais Athos, Porthos e Aramis lhe
dispensaram não apenas como bons camaradas, mas como homens que
tinham tido frequentemente a vez para que lhe deixassem a sua.
Em torno das seis horas, o sr. de Tréville declarou que tinha de ir ao
Louvre. Porém, como passara da hora da audiência marcada por Sua
Majestade, em vez de solicitar a entrada pela escadinha, instalou-se com os
quatro rapazes na antecâmara. O rei ainda não voltara da caçada. Nossos
jovens já esperavam havia quase meia hora, misturados à multidão dos
cortesãos, quando todas as portas se abriram e Sua Majestade foi anunciada.
A esse anúncio, d’Artagnan estremeceu até a medula dos ossos. O próximo
instante, segundo toda a probabilidade, decidiria o resto de sua vida. Seus
olhos então fixaram-se com angústia na porta pela qual devia entrar o rei.
Luís XIII apareceu, caminhando na frente. Estava em trajes de caça, ainda
cheio de pó, calçando botas altas e segurando um chicote na mão. Ao
primeiro relance, d’Artagnan percebeu o mau humor de Sua Majestade.
Essa disposição, claramente estampada no semblante do monarca, não
impediu os cortesãos de se alinharem à sua passagem. Nas antecâmaras reais,
vale mais a pena ser visto com irritação do que não sê-lo de todo. Os três
mosqueteiros não hesitaram, e deram um passo à frente, enquanto
d’Artagnan, ao contrário, permaneceu escondido atrás dos amigos. Embora o
rei conhecesse pessoalmente Athos, Porthos e Aramis, passou por eles sem se
deter e como se nunca os tivesse visto. Quanto ao sr. de Tréville, quando os
olhos do rei fixaram-se por um instante sobre ele, sustentou o olhar com tanta
firmeza que foi o rei quem desviou a vista. Depois disso, continuando a
resmungar, Sua Majestade entrou em seus aposentos.
— As coisas vão mal — comentou Athos, sorrindo —, e ainda não será
dessa vez que seremos feitos cavaleiros da ordem.
— Esperem aqui dez minutos — disse o sr. de Tréville —, e se dentro de
dez minutos não me virem sair, retornem ao meu palácio, pois será inútil me
esperar mais tempo.
Os quatro rapazes esperaram dez, quinze, vinte minutos. Então, vendo que
o sr. de Tréville não reaparecia, saíram preocupadíssimos com o desenrolar
dos acontecimentos.
O sr. de Tréville entrara intempestivamente no gabinete do rei e encontrara
Sua Majestade de péssimo humor, sentada numa poltrona e batendo nas botas
com o cabo de seu rebenque, o que não o impedira de pedir-lhe com a maior
fleugma notícias de sua saúde.
— Está mal, senhor, muito mal — respondeu o rei. — Estou entediado.
Aquela era com efeito a pior doença de Luís XIII, que volta e meia pegava
um de seus cortesãos, chamava-o até uma janela e dizia: “Senhor fulano,
entediemo-nos juntos.”
— Como! Sua Majestade está entediada! — estranhou o sr. de Tréville. —
Não desfrutou hoje do prazer da caça?
— Belo prazer, senhor! Tudo degenera, ai de mim, e não sei se foi a caçada
que perdeu o rumo ou os cães que não têm mais faro. Lançamos um cervo,
corremos seis horas atrás dele e, quando está quase ao nosso alcance, quando
Saint-Simon já levava a trompa à sua boca para soar o halali, crac!, toda a
matilha passa a perseguir um filhote. O senhor verá que serei obrigado a
desistir das caçadas com cachorros como desisti das caçadas com aves de
rapina. Ah, sou um rei muito infeliz, sr. de Tréville! Eu tinha apenas um
gerifalte, e ele morreu anteontem.
— Com efeito, Sire, compreendo vosso desespero, a perda é grande, mas
resta-vos, me parece, um bom número de falcões, gaviões e treçós.
— E nenhum homem para adestrá-los; os falcoeiros estão em extinção, só
eu agora para conhecer a arte da caça. Quando eu me for, estará tudo
terminado e caçarão com mundéus, ciladas, ratoeiras. Se eu ainda tivesse
tempo para formar discípulos! Mas, claro, o sr. cardeal está aí, que não me
deixa um instante de paz, que me fala da Espanha, que me fala da Áustria,
que me fala da Inglaterra! Ah, sim, a respeito do sr. cardeal, sr. de Tréville,
estou descontente consigo.
O sr. de Tréville já esperava por isso. Conhecia o rei de longa data;
compreendera que todas as suas queixas não passavam de um prefácio, uma
espécie de estímulo para se dar coragem e que era àquele ponto, enfim, que
queria chegar.
— E em que fui tão desastrado a ponto de desagradar Vossa Majestade? —
perguntou o sr. de Tréville, fingindo o mais profundo espanto.
— É assim que desempenha seus deveres, senhor? — continuou o rei, sem
responder diretamente à pergunta do sr. de Tréville. — Foi para isso que o
nomeei capitão dos meus mosqueteiros, para que estes assassinem um
homem, amotinem um bairro inteiro e queiram incendiar Paris sem que o
senhor diga uma palavra sobre isso? Mas talvez eu o acuse precipitadamente,
talvez os arruaceiros estejam presos e o senhor tenha vindo me anunciar que a
justiça foi feita.
— Sire — respondeu tranquilamente o sr. de Tréville —, venho, ao
contrário, exigi-la de vós.
— E para quem? — exclamou o rei.
— Para os caluniadores — disse o sr. de Tréville.
— Ah, essa é boa — replicou o rei. — Vai me dizer agora que seus três
mosqueteiros endemoniados, Athos, Porthos e Aramis, além do seu cadete do
Béarn, não se lançaram como furiosos sobre o pobre Bernajoux, e não o
maltrataram de tal maneira que é provável que ele a essa hora esteja se
despedindo da vida! Depois vai me dizer que eles não sitiaram o palácio do
duque de La Trémouille e não quiseram incendiá-lo! O que talvez não tivesse
sido uma desgraça muito grande em tempos de guerra, visto que se trata de
um ninho de huguenotes, mas que, em tempos de paz, é um exemplo
deplorável. Fale, vai negar tudo isso?
— E quem vos fez esse belo relato, Sire? — perguntou tranquilamente o sr.
de Trévile.
— Quem me fez esse belo relato, senhor! E quem poderia ser senão aquele
que vela enquanto durmo, que trabalha enquanto me divirto, que supervisiona
tudo dentro e fora do reino, na França e na Europa?
— Sua Majestade está a falar de Deus, provavelmente — disse o sr. de
Tréville —, pois só Deus para estar tão acima de Sua Majestade.
— Não, senhor. Estou falando do arrimo do Estado, de meu único servidor,
de meu único amigo, do sr. cardeal.
— Sua Eminência não é Sua Santidade, Sire.
— O que quer dizer com isso, senhor?
— Que apenas o papa é infalível, e que essa infalibilidade não se estende
aos cardeais.
— O senhor quer dizer que ele me engana, o senhor quer dizer que ele me
trai. Logo, acusa-o. Vamos, diga, admita francamente que o acusa.
— Não, Sire, mas digo que ele próprio se engana. Digo que foi mal-
informado. Digo que se precipitou ao acusar os mosqueteiros de Vossa
Majestade, com os quais é injusto, e que não colheu suas informações em
fontes seguras.
— A acusação parte do sr. de La Trémouille, do próprio duque. O que
responderá a isso?
— Eu poderia alegar, Sire, que ele está por demais envolvido no litígio
para ser uma testemunha imparcial, mas, longe de mim, Sire, conheço o
duque como um leal fidalgo, e a ele me curvarei, mas com uma condição.
— Qual?
— Que Vossa Majestade o convoque e interrogue a sós, sem testemunhas,
e que Vossa Majestade me receba imediatamente após ter recebido o duque.
— Pois não! — concordou o rei. — E o senhor se curvará ao que disser o
sr. de La Trémouille?
— Sim, Sire.
— Aceitará seu veredito?
— Sem dúvida.
— E se conformará com as reparações que ele vier a exigir?
— Perfeitamente.
— La Chesnaye! — chamou o rei. — La Chesnaye!
O criado de confiança de Luís XIII, que continuava na porta, entrou.
— La Chesnaye — disse o rei —, que alguém vá agora mesmo buscar o sr.
de La Trémouille. Quero lhe falar hoje à noite.
— Sua Majestade me dá sua palavra de que não verá ninguém entre o sr.
de La Trémouille e eu?
— Ninguém, palavra de fidalgo.
— Até amanhã, então, Sire.
— Até amanhã, senhor.
— A que horas, me permita Vossa Majestade?
— A hora que quiser.
— Mas, muito cedo, receio acordar Vossa Majestade.
— Me acordar! E eu durmo? Não durmo mais, senhor. Sonho uma vez ou
outra, só isso. Venha tão cedo quanto quiser, às sete horas. Mas esteja
prevenido, se os seus mosqueteiros forem culpados!
— Se meus mosqueteiros forem culpados, Sire, os culpados serão
entregues nas mãos de Vossa Majestade, que disporá deles segundo seu
capricho. Vossa Majestade exige mais alguma coisa? Que o diga, estou
pronto a obedecer.
— Não, senhor, não, e não foi sem razão que me alcunharam Luís, o Justo.
Até amanhã, então, senhor, até amanhã.
— Deus proteja Vossa Majestade até lá!
Se pouco dormiu o rei, pior ainda dormiu o sr. de Tréville. Mandara avisar
aquela noite mesma a seus três mosqueteiros, e ao companheiro destes, para
estarem às seis e meia da manhã em sua casa. Levou-os consigo sem nada
lhes dizer, sem nada lhes prometer, e sem esconder que a sorte deles, e até
mesmo a sua, dependia de um lance de dados.
Ao chegar ao pé da escadinha, pediu que esperassem. Se o rei continuasse
irritado com eles, deveriam se afastar sem ser vistos; se consentisse em
recebê-los, atenderiam ao chamado.
Entrando na antecâmara particular do rei, o sr. de Tréville encontrou La
Chesnaye, que lhe comunicou que, na noite da véspera, não haviam
encontrado o duque de La Trémouille em seu palácio, que este voltara tarde
demais para se apresentar no Louvre, que havia acabado de chegar, e, naquele
momento, estava com o rei.
Essa circunstância agradou sobremaneira ao sr. de Tréville, que, dessa
forma, teve a certeza de que nenhuma influência estranha surgiria entre o
depoimento do sr. de La Trémouille e ele.
Com efeito, nem dez minutos haviam se passado quando a porta do
gabinete se abriu e o sr. de Tréville viu sair por ela o duque de La Trémouille,
o qual foi até ele e disse:
— Senhor de Tréville, Sua Majestade acaba de convocar-me para inteirar-
se dos fatos ocorridos na manhã de ontem em meu palácio. Disse-lhe a
verdade, isto é, que a culpa era do meu pessoal e que eu estava pronto a
pedir-lhe desculpas. Já que o encontro, queira aceitá-las e continuar tendo-me
como amigo.
— Senhor duque — disse o sr. de Tréville —, eu tinha tanta confiança em
sua lealdade que não quisera junto de Sua Majestade outro defensor a não ser
o senhor mesmo. Vejo que não me enganei, e agradeço-lhe por ainda existir
na França homem acerca de quem se pode dizer, sem medo de estar errado, o
que eu disse do senhor.
— Está bem, está bem! — aquiesceu o rei, que escutara todos esses elogios
entre as duas portas. — Falta apenas dizer, Tréville, já que o duque se
pretende um amigo seu, que eu também gostaria de ser amigo dele, mas o
duque me desdenha; faz quase três anos que não o vejo, e só o vejo quando o
mando buscar. Diga-lhe tudo isso de minha parte, pois estas são coisas que
um rei não pode dizer ele mesmo.
— Obrigado, Sire, obrigado — disse o duque. — Mas, que Vossa
Majestade acredite, sinceramente, e não digo isso no caso do sr. de Tréville,
não são aqueles a quem ela vê a todas as horas do dia que lhe são mais
devotados.
— Ah, o senhor ouviu o que eu disse. Melhor assim, duque, melhor assim
— disse o rei, avançando até a porta. — Ah, é o senhor, Tréville! Onde estão
seus mosqueteiros? Eu lhe havia dito anteontem para trazê-los aqui, por que
não fez isso?
— Estão lá embaixo, Sire, e com vossa permissão La Chesnaye irá chamá-
los.
— Sim, sim, que venham imediatamente. Vão dar oito horas, e às nove
espero uma visita. Vá, senhor duque, e, principalmente, volte. Pode entrar,
Tréville.
O duque saudou e saiu. No momento em que abria a porta, os três
mosqueteiros e d’Artagnan, guiados por La Chesnaye, apareciam no alto da
escada.
— Venham, meus bravos — disse o rei —, venham, tenho uma bronca
para lhes dar.
Os mosqueteiros aproximaram-se, inclinando-se. D’Artagnan vinha atrás
deles.
— Como se deu isso, diabos! — continuou o rei. — Vocês quatro
deixarem fora de combate sete guardas de Sua Eminência em dois dias! É
muito, cavalheiros, é muito. Nesse ritmo, Sua Eminência se verá forçada a
renovar seu regimento daqui a três semanas e eu, a aplicar a lei com todo o
seu rigor. Um, por acaso, não digo nada, mas sete em dois dias, repito, é
muito, é demasiado.
— É por isso, Sire, que eles vêm à Vossa Majestade contritos e
arrependidos apresentar-lhe suas desculpas.
— Contritos e arrependidos! Hum! — fez o rei. — Não acredito em seus
semblantes hipócritas, e ainda por cima temos aí atrás o típico gascão. Venha
até aqui, cavalheiro.
D’Artagnan, que compreendeu que era a ele que se dirigia o elogio,
aproximou-se, fazendo sua cara mais desesperada.
— Ora essa! E o senhor me dizia que era um rapaz? É uma criança, sr. de
Tréville, um criançola! E foi ele quem deu a cruel estocada em Jussac?
— E as duas belas estocadas em Bernajoux.
— Impressionante!
— Sem contar — disse Athos — que se ele não me arrancasse das mãos de
Biscarat, certamente eu não teria a honra de fazer neste momento minha mais
humilde reverência à Vossa Majestade.
— Mas então, sr. de Tréville, é um verdadeiro demônio esse bearnês. Pelo
Santo Cristo!, teria dito o rei meu pai. Que talento para furar gibões e quebrar
espadas! Ora, os gascões continuam pobres, não é?
— Sire, devo dizer que ainda não encontrei minas de ouro em suas
montanhas, embora Deus bem lhes devesse tal milagre, como recompensa
pela maneira como defenderam as pretensões do rei vosso pai.
— O que significa que foram os gascões que acabaram por me fazer rei,
não é, Tréville, uma vez que sou filho do meu pai? Pois bem! Vale o elogio,
não digo que não. La Chesnaye, verifique se, vasculhando todos os meus
bolsos, não encontra quarenta pistolas. Se as encontrar, traga-as para mim. E
agora, vejamos, rapaz, com a mão na consciência, como isso aconteceu?
D’Artagnan contou a aventura da véspera em todos os seus detalhes.
Como, não tendo conseguido dormir devido à alegria que sentia de ver Sua
Majestade, chegara à casa de seus amigos três horas antes da audiência, como
haviam ido juntos à quadra de péla, e como Bernajoux zombara dele quando
manifestou o receio de levar uma bola na cara, quase pagando essa zombaria
com a perda da vida, e o sr. de La Trémouille, que não tinha nada com aquilo,
com a perda de seu palácio.
— Foi exatamente assim — murmurava o rei. — Sim, foi assim que o
duque me contou a coisa. Pobre cardeal! Sete homens em dois dias, e de seus
prediletos, mas está bem, senhores, ouviram!, está bem. Os senhores tiraram
sua desforra da rua Férou, e com lucro. Devem estar satisfeitos.
— Se Vossa Majestade está — disse Tréville —, nós também estamos.
— Sim, de fato — acrescentou o rei, pegando um punhado de ouro da mão
de La Chesnaye e passando-a para a de d’Artagnan. — Aqui está — disse —
uma prova de minha satisfação.
Nessa época, as ideias de orgulho, tão habituais em nossos dias, ainda não
estavam na moda. Um fidalgo recebia dinheiro das mãos do rei e nem por
isso ficava minimamente humilhado. D’Artagnan enfiou então as quarenta
pistolas em sua algibeira, sem nenhuma cerimônia, muito pelo contrário, até
agradecendo imensamente à Sua Majestade.
— Feito — concluiu o rei, olhando o relógio da parede —, agora, que já
são oito e meia, retirem-se, pois, como lhes disse, espero uma pessoa às nove
horas. Obrigado por sua lealdade, cavalheiros. Posso contar com ela, não é
verdade?
— Oh, Sire! — exclamaram em uníssono os quatro companheiros. —
Aceitaríamos ser cortados em pedaços por Sua Majestade.
— Ótimo, ótimo, mas continuem inteiros, assim é melhor e os senhores me
serão mais úteis. Tréville — acrescentou o rei à meia-voz, enquanto os
rapazes saíam —, como o senhor não tem mais vagas nos mosqueteiros e
como, aliás, para entrar nessa corporação, estipulamos a exigência de um
noviciado, coloque esse homem na companhia dos guardas do sr. des Essarts,
seu cunhado. Ah, por Deus, Tréville, será uma alegria ver a careta do sr.
cardeal. Ele ficará furioso, mas pouco me importa: estou no meu direito.
E o rei acenou com a mão para Tréville, que saiu e foi juntar-se aos seus
mosqueteiros, os quais encontrou dividindo as quarenta pistolas com
d’Artagnan.
O cardeal, de fato, como dissera Sua Majestade, ficou furioso, tão furioso
que se ausentou no jogo do rei por uma semana, o que não impedia Sua
Majestade de continuar a tratá-lo com simpatia e lhe perguntar, com a voz
mais gentil, sempre que o encontrava:
— E então, senhor cardeal, como vão os seus homens, o pobre Bernajoux e
o pobre Jussac?
7. A vida privada dos mosqueteiros

Q uando d’Artagnan saiu do Louvre e consultou seus amigos sobre que


destino daria à sua parte das quarenta pistolas, Athos aconselhou-o a
encomendar um bom almoço na Pomme de Pin, Porthos, a contratar um
lacaio, e Aramis, a arranjar uma amante apresentável.
O almoço realizou-se no mesmo dia, e foi o lacaio quem serviu a mesa. A
comida fora encomendada por Athos, e o criado, fornecido por Porthos. Era
um picardo que o glorioso mosqueteiro contratara no mesmo dia, na ponte de
La Tournelle, enquanto desenhava círculos na água com seu cuspe.
Porthos declarara que tal passatempo atestava uma inteligência ponderada
e contemplativa, e se dedicava a ele com a maior naturalidade. O rosto grande
daquele fidalgo, por quem se julgou contratado, seduzira Planchet — era este
o nome do picardo. O homem teve um ligeiro desapontamento ao verificar
que o lugar já estava ocupado por um confrade seu chamado Mousqueton e
quando Porthos deu-lhe a entender que seu cerimonial, mesmo sendo grande,
não comportava dois criados, e que portanto ele devia trabalhar para
d’Artagnan. Entretanto, durante o jantar oferecido por seu patrão, viu-o tirar
do bolso um punhado de ouro na hora de pagar, e assim julgando sua fortuna
garantida, agradeceu aos céus por ter caído nas mãos daquele Creso.
Perseverou nessa opinião até depois do banquete, com cujos restos
compensou longas abstinências. À noite, porém, ao fazer a cama de seu
patrão, as quimeras de Planchet se evaporaram. A cama era a única do
apartamento, que se compunha de uma antecâmara e de um dormitório.
Planchet deitou-se na antecâmara, sobre uma coberta tirada da cama de
d’Artagnan, e que d’Artagnan dispensou desde então.
Athos, de sua parte, tinha um valete chamado Grimaud, a quem ele treinara
de modo muito peculiar para servi-lo. Era muito silencioso, esse digno
senhor. Referimo-nos a Athos, obviamente. Fazia cinco ou seis anos que
vivia na maior intimidade com os companheiros Porthos e Aramis, e estes
lembravam de tê-lo visto sorrir bastante, porém jamais o tinham ouvido
gargalhar. Suas palavras eram breves e expressivas, dizendo sempre o que
queriam dizer, nada além. Nada de embelezamentos, bordados, arabescos.
Sua fala era um fato sem nenhum episódio.
Embora Athos não contasse mais de trinta anos, e fosse um homem bonito
de corpo e alma, não se tinha notícia de ele ter qualquer amante. Nunca falava
de mulheres. Por outro lado, não impedia que se falasse delas à sua frente,
embora fosse fácil ver que esse tipo de conversa, da qual ele participava
apenas com palavras amargas e considerações misantrópicas, desagradava-lhe
sobremaneira. Sua discrição, sua selvageria e seu mutismo transformavam-no
quase num ancião. Logo, para não sair de sua rotina, habituara Grimaud a
servi-lo mediante um simples gesto ou movimento dos lábios. Só lhe falava
em circunstâncias supremas.
Às vezes, Grimaud, que temia seu patrão como ao fogo, mesmo tendo por
sua pessoa grande afeição, e por seu caráter grande veneração, julgava ter
compreendido claramente o que ele desejava, e lançava-se para executar a
ordem recebida, mas fazia exatamente o oposto. Então Athos dava de ombros
e, sem se irritar, aplicava-lhe uma coça. Nesses dias, falava um pouco.
Porthos, como pudemos ver, tinha um caráter diametralmente oposto ao de
Athos. Não apenas falava muito, como falava alto. Pouco lhe importava, em
todo caso, cumpre fazer-lhe essa justiça, que o escutassem ou não. Falava
pelo prazer de falar e pelo prazer de ser ouvido. Falava de todas as coisas
exceto de ciências, alegando em relação a isso o ódio inveterado que desde a
infância, segundo ele próprio, dispensava aos cientistas. Tinha um aspecto
menos altivo do que Athos, e a sensação de sua inferioridade nesse domínio
fizera-o ser, no início de sua amizade, frequentemente injusto com esse
fidalgo, ao qual se empenhara por superar com suas magníficas toaletes. Mas,
com seu simples uniforme de mosqueteiro, ou simplesmente pela maneira
como lançava a cabeça para trás e dava um passo, Athos na mesma hora
assumia o lugar que lhe era devido e relegava o exuberante Porthos ao
segundo plano. Porthos consolava-se enchendo a antecâmara do sr. de
Tréville e os regimentos da guarda do Louvre com o barulho de suas
conquistas, das quais Athos nunca falava. Durante aqueles dias, após ter
passado da nobreza de toga à nobreza de espada, da mulher do juiz à
baronesa, Porthos tinha como ideia fixa nada menos que uma princesa
estrangeira, a qual lhe queria um bem imenso.
Um velho provérbio diz: “Tal amo, tal criado.” Passemos então do criado
de Athos ao criado de Porthos, de Grimaud a Mousqueton.
Mousqueton era um normando cujo nome fora mudado por seu patrão de
Boniface para este, infinitamente mais sonoro e belicoso: Mousqueton.
Aceitara trabalhar para Porthos com a condição de receber apenas o que
vestir e onde morar, desde que fosse em grande estilo. Exigia apenas duas
horas por dia para dedicar-se a uma atividade capaz de prover suas outras
necessidades. Porthos aceitara a barganha, que vinha bem a calhar para ele.
Mandava cortar para Mousqueton gibões de suas roupas velhas e casacos
sobressalentes, e, graças a um alfaiate muito inteligente, que lhe devolvia
suas roupas novinhas em folha revirando-as do avesso, e cuja mulher era
suspeita de querer fazer Porthos descer de suas maneiras aristocráticas,
Mousqueton fazia excelente figura no estafe do patrão.
Quanto a Aramis, cujo caráter pensamos já haver suficientemente exposto,
caráter este que, aliás, como o de seus companheiros, poderemos acompanhar
em desenvolvimento, seu lacaio chamava-se Bazin. Graças à esperança
alimentada pelo patrão de um dia virar padre, vestia sempre preto, como deve
ser o criado de um homem da Igreja. Era um berrichon entre trinta e cinco e
quarenta anos, dócil, pacífico, rechonchudo, que ocupava as folgas que o
patrão lhe dava lendo obras pias e sabendo preparar no máximo um jantar
para dois, com pouco pratos, mas excelente. Para completar, era mudo, cego,
surdo e de uma fidelidade canina.
Agora que conhecemos, ao menos superficialmente, os patrões e os
criados, passemos às suas casas.
Athos morava na rua Férou, a dois passos do Luxemburgo. Seu
apartamento compunha-se de dois pequenos quartos, muito apropriadamente
mobiliados, numa casa de cômodos cuja dona, ainda moça e sedutora,
inutilmente atirava-lhe olhares adocicados. Algumas peças de grande
esplendor passado brilhavam aqui e ali nas paredes do modesto alojamento.
Uma espada, por exemplo, ricamente damasquinada, que pelo estilo
remontava à época de Francisco I e cujo punho sozinho, incrustado de pedras
preciosas, podia valer duzentas pistolas, e que no entanto, mesmo em seus
momentos de maior necessidade, Athos nunca consentira em penhorar ou
vender. Essa espada era um antigo objeto de desejo de Porthos, que teria dado
dez anos de sua vida para possuí-la.
Em certa ocasião, quando tinha um encontro galante com uma duquesa,
atreveu-se inclusive a pedi-la emprestada a Athos. Athos, sem nada dizer,
esvaziou seus bolsos, juntou todas as suas joias — bolsas, agulhetas e
correntes de ouro — e ofereceu tudo a Porthos. Quanto à espada, porém,
disse-lhe que estava cimentada em seu lugar e que só deveria deixá-lo quando
seu dono deixasse por sua vez o apartamento. Além dessa espada, havia
também um retrato de um senhor da época de Henrique III, elegantemente
vestido, e que exibia a ordem do Espírito Santo. Esse retrato apresentava
algumas semelhanças de linhas com Athos, certas similitudes de família,
indicando que o grão-senhor, cavaleiro das ordens do rei, era seu ancestral.
Por fim, uma arca de magnífica ourivesaria, com o mesmo brasão que a
espada e o retrato, colocada próximo à lareira, contrastava drasticamente com
o resto da decoração. Athos carregava sempre a chave dessa arca com ele.
Um dia, porém, abriu-a diante de Porthos, e Porthos pudera certificar-se de
que continha apenas cartas e papéis: cartas de amor e papéis de família, sem
dúvida.
Porthos habitava um apartamento bem amplo e com uma decoração
suntuosa, na rua do Vieux-Colombier. Sempre que passava com um amigo
defronte às suas janelas, numa das quais Mousqueton postava-se sempre em
libré de gala, Porthos erguia a cabeça e a mão, e dizia: “É ali que eu moro!”
Mas nunca era encontrado em casa, nunca convidava ninguém para entrar, e
ninguém fazia ideia das reais preciosidades que aquela suntuosa fachada
ocultava.
Quanto a Aramis, ele morava num pequeno alojamento, composto de uma
alcova, uma sala de refeições e um quarto de dormir, o qual, situado como o
resto do apartamento no rés do chão, dava para um jardinzinho fresco, verde,
sombreado e impenetrável aos olhos da vizinhança.
Sobre d’Artagnan, sabemos onde morava e já fomos apresentados a seu
lacaio, mestre Planchet.
D’Artagnan, curioso por natureza, como de resto o são as pessoas que têm
talento para a intriga, fez todos os esforços no intuito de saber quem eram ao
certo Athos, Porthos e Aramis. Pois, sob esses nomes de guerra, cada um dos
rapazes escondia seu nome de fidalgo, sobretudo Athos, que cheirava a grão-
senhor a uma légua de distância. Dirigiu-se então a Porthos para obter
informações sobre Athos, e a Aramis para conhecer Porthos.
Infelizmente, Porthos, por sua vez, nada sabia da vida de seu silencioso
camarada a não ser o que dela transpirara. Diziam que ele tivera grandes
dissabores amorosos, e que uma terrível traição envenenara para sempre a
vida desse homem galante. Que traição teria sido? Todo mundo ignorava.
Quanto a Porthos, exceto por seu nome verdadeiro, que apenas o sr. de
Tréville sabia, bem como o de seus dois companheiros, sua vida era um livro
aberto. Vaidoso e indiscreto, via-se através dele como através de um cristal.
A única coisa capaz de confundir uma eventual investigação seria ela dar
crédito a todo o bem que Porthos dizia de si.
Aramis, por fim, embora aparentasse não ter nenhum segredo, era um
rapaz recheado de mistérios, respondendo laconicamente às perguntas que lhe
faziam sobre os outros e eludindo as que lhe faziam sobre si próprio. Certo
dia, d’Artagnan, após havê-lo interrogado longamente sobre Porthos e se
inteirado do boato que corria sobre os sucessos do mosqueteiro com uma
princesa, quis também saber um pouco sobre as aventuras amorosas de seu
interlocutor.
— E o senhor, meu caro colega — disse-lhe —, que só fala das baronesas,
condessas e princesas dos outros?
— Perdão — interrompeu Aramis —, falei porque o próprio Porthos fala
delas, alardeando todas essas proezas na minha frente. Mas creia, meu caro
sr. d’Artagnan, que se tais informações viessem de outra fonte, ou se
tivessem sido confiadas a mim, ele não teria tido confessor mais discreto.
— Não duvido — rebateu d’Artagnan —, mas, enfim, o senhor parece ter
grande familiaridade com os brasões, como prova um determinado lenço
bordado ao qual devo a honra de conhecê-lo.
Aramis, dessa vez, não se aborreceu em absoluto, adotando seu ar mais
modesto e respondendo afetuosamente:
— Meu caro, não esqueça que eu quero ser da Igreja e que fujo de todas as
circunstâncias mundanas. O lenço que o senhor viu não me havia sido
confiado, mas esquecido em minha casa por um de meus amigos. Tive que
recolhê-lo para não comprometê-los, ele e a dama por quem está apaixonado.
Quanto a mim, não tenho e não pretendo ter amante, seguindo nisso o
inteligente exemplo de Athos, que tampouco quer uma.
— Mas, que diabos, o senhor não é padre, é mosqueteiro!
— Mosqueteiro interinamente, meu caro, como diz o cardeal, mosqueteiro
contra minha vontade, mas homem de Igreja no coração, acredite-me. Athos e
Porthos me meteram nesse negócio para eu não ficar sem nada para fazer.
Quando eu estava para ser ordenado, tive um probleminha com… Mas isso
não interessa ao senhor, e estou lhe tomando um tempo precioso.
— De forma alguma, me interessa muito — exclamou d’Artagnan —, e
não tenho absolutamente nada para fazer no momento.
— Sim, mas eu tenho meu breviário para rezar — respondeu Aramis —,
depois alguns versos para compor, que me foram encomendados pela sra.
d’Aiguillon, em seguida devo passar na rua Saint-Honoré, para comprar ruge
para a sra. de Chevreuse. Como vê, meu caro, se nada o apressa, eu de minha
parte estou afobado.
E Aramis estendeu afetuosamente a mão ao jovem companheiro,
despedindo-se dele.
D’Artagnan não conseguiu saber mais nada sobre seus três novos amigos,
por mais que se dedicasse a fazê-lo. Decidiu então acreditar no presente em
tudo que diziam de seu passado, esperando revelações mais precisas e amplas
no futuro. Provisoriamente, considerou Athos um Aquiles, Porthos um Ajax e
Aramis um José.
No mais, era alegre a vida dos quatro rapazes. Athos jogava, e perdia
sempre. Ainda assim, não pedia um tostão emprestado aos amigos, embora
sua bolsa estivesse sempre a seu dispor. E, quando jogava sob palavra,
sempre fazia o credor acordar às seis da manhã para lhe pagar a dívida da
véspera.
Porthos era um homem de extremos: quando ganhava, mostrava-se
insolente e radiante; quando perdia, sumia completamente durante alguns
dias, ao fim dos quais reaparecia com o rosto pálido e a cara comprida, mas
com dinheiro no bolso.
Quanto a Aramis, nunca jogava. Era de fato o pior mosqueteiro e o pior
comensal jamais visto. Tinha sempre que trabalhar. Às vezes, no meio de um
jantar, quando todos, no arrebatamento do vinho e no calor da conversa,
julgavam ter ainda duas ou três horas para continuar à mesa, Aramis
consultava seu relógio, levantava-se com um gracioso sorriso e despedia-se
do grupo, para ir, dizia, consultar um jurista com o qual tinha marcado uma
reunião. Outras vezes, voltava para casa a fim de escrever uma tese, e rogava
a seus amigos para não distraí-lo.
Mesmo assim, Athos dava o cativante sorriso melancólico que ia tão bem
com seu nobre rosto, e Porthos bebia jurando que Aramis nunca passaria de
um cura de aldeia.
Planchet, o criado de d’Artagnan, tolerava galantemente sua boa sorte.
Recebia trinta sous por dia, e durante o primeiro mês chegou ao trabalho
sempre alegre como um pintassilgo e todo afável com seu patrão. Quando o
vento da adversidade começou a soprar sobre o lar da rua dos Coveiros, isto
é, quando as quarenta pistolas do rei Luís XIII haviam sido devoradas, ou
quase isso, ele começou com queixas que Athos julgou nauseabundas,
Porthos, indecentes, e Aramis, ridículas. Athos aconselhou então a
d’Artagnan a despedir o engraçadinho; Porthos era de opinião que lhe deviam
aplicar uma sova antes; e Aramis afirmou que um patrão não devia ouvir
senão elogios sobre sua pessoa.
— Falar é fácil, senhores — respondeu d’Artagnan. — Para você, Athos,
que vive mudo com Grimaud, que proíbe o homem de falar e que, por
conseguinte, nunca troca palavras ríspidas com ele; para você, Porthos, que
ostenta um estilo de vida suntuoso, que é um deus para seu criado
Mousqueton; para você finalmente, Aramis, que, sempre absorto em seus
estudos teológicos, inspira um profundo respeito a seu serviçal Bazin, homem
dócil e religioso. Mas e eu, que não tenho estofo nem recursos, eu, que não
sou mosqueteiro ou sequer um guarda, eu, que posso fazer para inspirar
afeição, terror ou respeito a Planchet?
— A coisa é grave — responderam os três amigos —, é um assunto
privado. Há criados que são iguais às mulheres, temos que colocá-los, sem
demora, no lugar onde achamos que devem permanecer. Pense bem, portanto.
D’Artagnan refletiu e decidiu, por via das dúvidas, aplicar-lhe uma sova,
medida executada com a consciência que d’Artagnan empenhava em todas as
coisas. Quando já o surrara bastante, proibiu-lhe de abandonar o serviço sem
autorização, acrescentando:
— Pois o futuro não irá me decepcionar, espero inexoravelmente tempos
melhores. Sua fortuna então estará garantida se permanecer ao meu lado, e
sou um patrão bom demais para privá-lo da glória ao autorizar a folga que me
pede.
Essa maneira de agir infundiu grande respeito aos mosqueteiros no que se
refere à habilidade política de d’Artagnan. Planchet também ficou extasiado
de admiração e nunca mais falou em ir embora.
A vida dos quatro mosqueteiros tornara-se comunitária. D’Artagnan, que
não tinha ainda hábitos consolidados, visto que chegara da província e caíra
no meio de um mundo inteiramente novo para ele, logo adotou a rotina de
seus amigos.
Acordavam por volta das oito horas no inverno, ou às seis no verão, e iam
logo receber a ordem do dia, ou ver como estavam as coisas no palácio do sr.
de Tréville. D’Artagnan, embora não fosse mosqueteiro, apresentava-se
sempre com uma pontualidade comovente. Estava sempre montando guarda,
pois sempre fazia companhia àquele de seus três amigos que estivesse na
função. Era muito conhecido no palácio dos mosqueteiros e todos o
consideravam um bom companheiro. O sr. de Tréville, que à primeira vista
simpatizara com ele e que lhe dedicava uma verdadeira afeição, não cessava
de recomendá-lo ao rei.
Os três mosqueteiros, por sua vez, gostavam imensamente do jovem
companheiro. A amizade que unia esses quatro homens e a necessidade de se
verem três ou quatro vezes por dia, fosse para duelos, fosse para negócios,
fosse para divertimento, faziam-nos correr incessantemente um atrás do outro
como sombras. E os inseparáveis eram sempre vistos procurando-se entre o
Luxemburgo e a praça Saint-Sulpice, ou entre a rua do Vieux-Colombier e o
Luxemburgo.
Enquanto isso, as promessas do sr. de Tréville iam se cumprindo. Um belo
dia, o rei determinou ao sr. cavaleiro des Essarts que recebesse d’Artagnan
como cadete em sua companhia de guardas. D’Artagnan vestiu com um
suspiro aquele uniforme, que trocaria, ao preço de dez anos de sua vida, pelo
aparato de mosqueteiro. Mas o sr. de Tréville prometeu que essa promoção
viria após um estágio de dois anos, o qual poderia ser abreviado, inclusive, se
a oportunidade para d’Artagnan prestar algum serviço ao rei, ou executar
algum alto feito, se apresentasse. D’Artagnan retirou-se diante de tal
promessa e, no dia seguinte, começou no serviço.
Então foi a vez de Athos, Porthos e Aramis montarem guarda com
d’Artagnan quando ele estava no posto. O regimento do sr. cavaleiro des
Essarts ganhou assim quatro homens em lugar de um, no dia em que ganhou
d’Artagnan.
8. Uma intriga de corte

N esse meio-tempo, as quarenta pistolas do rei Luís XIII, assim como todas
as coisas deste mundo, após terem tido um começo, tiveram um fim, e
depois desse fim nossos quatro companheiros viram-se em dificuldades.
No começo, Athos sustentara durante algum tempo o quarteto. Porthos
sucedera-lhe e, graças a um daqueles desaparecimentos habituais,
subvencionara durante mais quinze dias as necessidades de todos.
Finalmente, ao chegar a vez de Aramis, este aquiescera de boa vontade e
conseguira, dizia ele, vendendo seus livros de teologia, arrecadar algumas
pistolas.
Depois disso, como de costume, não tiveram então outro remédio senão
recorrer ao sr. de Tréville, que lhes adiantou parte do soldo. Mas esses
adiantamentos não levariam os três mosqueteiros muito longe, pois já tinham
várias contas atrasadas, e tampouco ao guarda, que ainda não recebia.
Finalmente, quando pressentiram a escassez completa, os amigos reuniram
num último esforço oito ou dez pistolas, que Porthos apostou no jogo.
Desafortunadamente, estava num dia ruim. Perdeu tudo, mais vinte e cinco
pistolas que pegara emprestadas sob palavra.
Então a escassez virou aflição. Eles eram vistos famélicos, seguidos por
seus lacaios, correndo um e outro cais do porto, bem como os regimentos de
guarda para cobrar jantares dos amigos, pois, segundo o parecer de Aramis,
na prosperidade convinha semear refeições aqui e ali, para colher algumas na
penúria.
Athos foi convidado quatro vezes e em todas elas levou os amigos com
seus lacaios. Porthos teve seis oportunidades e, da mesma forma, permitiu
que seus companheiros as desfrutassem consigo. Aramis teve oito. Eis um
homem, como já pudemos perceber, de pouco barulho e muitos resultados.
Quanto a d’Artagnan, que ainda não conhecia ninguém na capital,
conseguiu apenas uma refeição à base de chocolate quente na casa de um
padre seu conterrâneo e um jantar na casa de certo corneteiro dos guardas.
Levou seu exército à casa do padre, cuja provisão de dois meses foi devorada,
e à casa do corneteiro, que preparou maravilhas. Mas, como dizia Planchet, a
gente come sempre uma vez só, mesmo quando come muito.
D’Artagnan sentiu-se humilhadíssimo por poder oferecer a seus
companheiros apenas uma refeição e meia, pois o chocolate do padre contava
apenas por meia refeição, em troca dos banquetes proporcionados por Athos,
Porthos e Aramis. Julgava-se um fardo para o grupo, esquecendo, em sua
boa-fé juvenil, que alimentara o dito grupo durante um mês. Assim, sua
mente preocupada pôs-se a trabalhar febrilmente. Suas reflexões o levaram a
crer que aquela coalizão de quatro homens jovens e corajosos,
empreendedores e ativos, devia ter objetivos mais nobres que passeios
maçantes, aulas de esgrima e chistes mais ou menos espirituosos.
Com efeito, quatro homens como eles, quatro homens dedicados uns aos
outros desde a bolsa até a vida, quatro homens apoiando-se sempre, jamais
recuando, executando isoladamente ou em grupo as decisões tomadas em
comum; quatro pares de braços ameaçando os quatro pontos cardeais ou
apontando para um único ponto, deviam, inevitavelmente, à sombra ou à luz
do dia, pela conspiração ou pela trincheira, pela astúcia ou pela força, abrir
caminho até o objetivo almejado, por mais defendido ou distante que ele
estivesse. A única coisa que deixava d’Artagnan admirado era isso nem
sequer passar pela cabeça dos mosqueteiros.
Pois na dele passava, e era inclusive levada a sério, queimava os miolos na
busca por uma direção para aquela força única quatro vezes multiplicada,
com a qual não duvidava que, como com a alavanca procurada por
Arquimedes, seria possível erguer o mundo. Nesse momento, bateram
baixinho na porta. D’Artagnan acordou Planchet e ordenou-lhe que fosse
abrir.
Que desta frase: “d’Artagnan acordou Planchet”, o leitor não deduza que
era noite ou que ainda não amanhecera. Pelo contrário! Acabava de dar
quatro horas, Planchet, duas horas antes, acabara de pedir algum almoço para
seu patrão, o qual lhe respondera com o provérbio: “Quem dorme, engorda.”
E Planchet engordava dormindo.
Um homem foi introduzido, de aspecto bem simples e com ares de
comerciante.
Planchet, à guisa de sobremesa, bem que desejou estender a conversa, mas
o comerciante declarou a d’Artagnan que o que tinha a lhe dizer era
importante e confidencial, desejando, pois, ficar a sós com ele.
D’Artagnan despachou Planchet e fez a visita sentar-se.
Houve um momento de silêncio, durante o qual os dois homens se
encararam, como que se estudando. Em seguida, d’Artagnan inclinou-se,
demonstrando que o escutava.
— Ouvi falar do sr. d’Artagnan como sendo um homem de grande
coragem — disse o burguês —, e essa reputação de que ele goza
merecidamente decidiu-me a lhe revelar um segredo.
— Fale, cavalheiro, fale — disse d’Artagnan, que instintivamente farejava
alguma coisa de vantajosa.
O burguês fez uma nova pausa e continuou:
— Minha mulher é costureira da rainha, cavalheiro, e a ela não faltam
sensatez nem beleza. Obrigaram-me a desposá-la já lá se vão três anos,
embora ela possuísse apenas um peculiozinho, porque o sr. de La Porte,
camareiro da rainha, é seu padrinho e a protege…
— E daí, cavalheiro? — indagou d’Artagnan.
— E daí! — explodiu o burguês. — E daí, senhor, que ontem pela manhã
minha mulher foi raptada quando saía de seu ateliê!
— E quem raptou sua mulher?
— Não faço a mínima ideia, claro, mas suspeito de uma pessoa.
— E que pessoa é essa de quem o senhor suspeita?
— Um homem que a persegue há muito tempo.
— Ora, vamos!
— O que posso lhe dizer, senhor — continuou o burguês —, se de minha
parte estou convencido de haver menos amor que política em tudo isso.
— Menos amor que política — repetiu d’Artagnan, com uma expressão
pensativa —, e de quem suspeita?
— Não sei se devo dizer-lhe de quem suspeito…
— Cavalheiro, permita-me observar que não estou lhe pedindo
absolutamente nada. Foi o senhor quem veio a mim. Foi o senhor quem disse
que tinha um segredo a me revelar. Faça então como quiser, ainda é tempo de
retirar-se.
— Não, senhor, não. O cavalheiro parece um jovem honesto, e confio em
sua pessoa. Devo então dizer que, para mim, não foi em virtude de seus
amores que minha mulher foi sequestrada, mas em virtude dos amores de
uma dama que está acima dela.
— Ah, ah! Seria em virtude dos amores da sra. de Bois-Tracy? —
perguntou d’Artagnan, que, na frente do seu visitante burguês, queria passar
como alguém informado sobre os assuntos da corte.
— Mais alto, senhor, mais alto.
— Da sra. d’Aiguillon?
— Mais alto ainda.
— Da sra. de Chevreuse?
— Mais alto, muito mais alto!
— Da… — d’Artagnan interrompeu-se.
— Sim, cavalheiro — confirmou, tão baixo que mal se pôde ouvir, o
burguês aterrorizado.
— E com quem?
— Com quem seria se não fosse com o duque de…
— O duque de…
— Ele mesmo, senhor — respondeu o burguês, dando à sua voz uma
entonação ainda mais cava.
— Mas como sabe de tudo isso?
— Ah, como sei de tudo isso?
— Sim, como sabe? E nada de meias confidências ou… o senhor
compreende.
— Sei pela minha mulher, cavalheiro, pela minha própria mulher.
— E ela, soube por quem?
— Pelo sr. de La Porte. Não lhe disse que ela era afilhada do sr. de La
Porte, o homem de confiança da rainha? Pois bem, o sr. de La Porte a pusera
ao lado de Sua Majestade para que nossa pobre rainha tivesse pelo menos
alguém em quem confiar, abandonada como se encontra pelo rei, espionada
como vem sendo pelo cardeal, traída como o é por todos.
— Ah, ha! O drama se desenha! — exclamou d’Artagnan.
— Ora, minha mulher visitou-me quatro dias atrás, senhor, ela havia
conseguido permissão para vir até mim duas vezes por semana, pois, como
tive a honra de lhe dizer, minha mulher me ama muito. Ela então veio me ver
e me revelou que a rainha, naquele momento, passava por graves aflições.
— É verdade?
— Sim. O sr. cardeal, ao que parece, persegue-a e atormenta-a como
nunca. Não lhe perdoa a história da sarabanda. Conhece a história da
sarabanda?
— Ora, se não conheço! — respondeu d’Artagnan, que não sabia de nada
mas pretendia fingir pleno domínio do assunto.
— De maneira que, agora, não é mais ódio, é vingança.
— É mesmo?
— E a rainha acha…
— Diga-me, o que acha a rainha?
— Ela acha que escreveram ao sr. duque de Buckingham em nome dela.
— Em nome da rainha?
— Sim, para fazê-lo vir a Paris e, uma vez aqui, atraí-lo para alguma
armadilha.
— Diabos! Mas sua mulher, meu caro senhor, o que ela tem a ver com
tudo isso?
— Sua fidelidade à rainha é conhecida, querem ou afastá-la da patroa, ou
intimidá-la para arrancar segredos de Sua Majestade, ou seduzi-la para usá-la
como espiã.
— É possível — admitiu d’Artagnan —, mas conhece o homem que a
raptou?
— Eu lhe disse que julgava conhecer.
— Seu nome?
— Não sei. Sei apenas que é uma criatura do cardeal, sua alma danada.
— Mas o senhor o viu?
— Sim, minha mulher apontou-o para mim um dia.
— Ele tem algum sinal pelo qual possamos identificá-lo?
— Oh, certamente, é um senhor de ar arrogante, cabelo preto, tez pálida,
olho penetrante, dentes brancos e uma cicatriz na têmpora.
— Uma cicatriz na têmpora! — exclamou d’Artagnan. — E isso com
dentes brancos, olho penetrante, tez pálida, cabelo preto e ar arrogante. É o
meu homem de Meung!
— É o seu homem, foi o que disse?
— Sim, sim, mas isso não muda nada as coisas. Não, estou errado,
simplifica-as bastante, ao contrário. Se o seu homem for o meu, bem,
executarei duas vinganças com um único golpe. Mas onde encontrar esse
homem?
— Não faço ideia.
— Não tem nenhuma informação sobre onde ele mora?
— Nenhuma. Um dia, quando eu reconduzia minha mulher até o Louvre,
ele saiu quando ela ia entrar, e ela o apontou para mim.
— Diabos, diabos! — murmurou d’Artagnan. — Isso tudo é muito vago.
Por quem soube do rapto de sua mulher?
— Pelo sr. de La Porte.
— Ele deu algum detalhe?
— Não tinha nenhum.
— E não soube nada de outra fonte?
— De fato, recebi…
— O quê?
— Mas não estarei eu cometendo uma grande imprudência?
— O senhor recua de novo. Observo-lhe porém que, dessa vez, é um pouco
tarde para isso.
— Mas não estou recuando, caramba! — exclamou o burguês, praguejando
para ficar um pouco mais exaltado. — Aliás, palavra de Bonacieux…
— O senhor se chama Bonacieux? — interrompeu d’Artagnan.
— Sim, é meu sobrenome.
— O senhor então dizia: palavra de Bonacieux! Perdão se o interrompi,
mas esse nome não me pareceu estranho.
— É possível, cavalheiro. Sou seu senhorio.
— Ah, ha! — fez d’Artagnan, erguendo-se um pouco em meio
cumprimento. — É meu senhorio?
— Sim, senhor. E, como já ocupa o meu imóvel há três meses e, decerto
absorto em suas grandes preocupações, vem se esquecendo de pagar o
aluguel, como, eu dizia, não o atormentei um único instante, pensei que o
senhor, em respeito à minha condescendência…
— Como não, meu caro sr. Bonacieux! — adiantou-se d’Artagnan. —
Creia que me sinto penhorado diante de sua atitude e, como lhe disse, se
puder ser-lhe útil em alguma coisa…
— Acredito no senhor, cavalheiro, acredito, e, como ia lhe dizendo,
palavra de Bonacieux, confio no senhor.
— Termine então o que começou a me dizer.
O burguês puxou um papel do bolso e apresentou-o a d’Artagnan.
— Uma carta! — exclamou o rapaz.
— Que recebi esta manhã.
D’Artagnan abriu-a e, como o dia começava a declinar, aproximou-se da
janela. O burguês foi atrás dele.
— “Não procure sua mulher” — leu d’Artagnan —, “ela lhe será devolvida
quando não precisarmos mais dela. Se der um único passo para resgatá-la,
estará perdido.” Isso é que é objetividade — comentou d’Artagnan. — Mas,
enfim, não passa de uma ameaça.
— Sim, mas essa ameaça me apavora. Pois estou longe de ser um homem
de espada, cavalheiro, e tenho medo da Bastilha.
— Ora! — fez d’Artagnan. — Eu também não morro de amores pela
Bastilha. Se tudo se resolvesse com um golpe de espada, ainda vá lá.
— Entretanto, senhor, eu contava muito com sua ajuda nesse episódio.
— É mesmo?
— Vendo-o incessantemente rodeado de mosqueteiros de aspecto soberbo
e reconhecendo que esses mosqueteiros eram os do sr. de Tréville, e por
conseguinte inimigos do cardeal, pensei que o senhor e seus amigos, sem
deixar de fazer justiça à nossa pobre rainha, teriam grande satisfação em
pregar uma peça em Sua Eminência.
— Sem dúvida.
— E depois eu tinha pensado que, devendo-me três meses de aluguel,
assunto em que nunca toquei…
— Sim, sim, o senhor já expôs esse motivo, e acho-o excelente.
— Além de, enquanto me der a honra de ocupar o meu imóvel, nunca mais
lhe falar de seu aluguel futuro…
— Muito bem.
— E acrescente a isso, se julgar necessário, a intenção de oferecer-lhe
cinquenta pistolas se, contra toda a probabilidade, vir-se em apuros nesse
momento.
— Magnífico. Mas então o senhor é rico, meu caro sr. Bonacieux.
— Estou numa posição confortável, senhor, a palavra é esta. Juntei cerca
de dois ou três mil escudos de renda como dono de um armarinho, e mais
ainda ao aplicar alguns fundos na última viagem do célebre navegador Jean
Mocquet, de maneira que, o senhor compreende… Ah, mas… — exclamou o
burguês.
— O quê? — perguntou d’Artagnan.
— O que vejo ali?
— Onde?
— Na rua, defronte às suas janelas, no vão daquela porta: um homem
envolto numa capa.
— É ele! — gritaram ao mesmo tempo d’Artagnan e o burguês, ambos
tendo reconhecido simultaneamente o seu homem.
— Ah, dessa vez — exclamou d’Artagnan, dando um pulo para pegar sua
espada —, dessa vez ele não me escapa.
E, desembainhando a espada, precipitou-se para fora do apartamento.
Encontrou na escada Athos e Porthos, que vinham procurá-lo. Estes se
afastaram, e d’Artagnan passou entre eles como uma flecha.
— Credo! Para onde vai com tanta pressa? — gritaram-lhe ao mesmo
tempo os dois mosqueteiros.
— O homem de Meung! — respondeu d’Artagnan, e desapareceu.
D’Artagnan contara mais de uma vez aos amigos sua aventura com o
estranho, bem como a aparição da bela viajante à qual o homem
supostamente entregara uma importantíssima missiva.
Athos era de opinião que d’Artagnan perdera a sua carta na briga. Um
fidalgo, segundo ele — e, pelo retrato que d’Artagnan fizera do estranho, só
podia ser um fidalgo —, seria incapaz de uma baixeza como roubar uma
carta.
Porthos não vira naquilo tudo senão uma entrevista amorosa concedida por
uma dama a um cavalheiro, ou por um cavalheiro a uma dama, e que fora
estragada pela presença de d’Artagnan e de seu cavalo amarelo.
Aramis dissera que coisas daquele tipo eram misteriosas, sendo melhor não
desvendá-las.
Compreenderam então do que se tratava, pelas poucas palavras escapadas
da boca de d’Artagnan, e julgando que, depois de ter encontrado seu homem
ou o perdido de vista, d’Artagnan terminaria voltando para casa, seguiram
adiante.
Quando entraram no quarto de d’Artagnan, o ambiente estava vazio. O
senhorio, temendo as consequências do encontro que provavelmente teria
lugar entre o mancebo e o desconhecido, havia julgado prudente debandar,
ratificando a exposição que ele mesmo fizera de seu caráter.
9. D’Artagnan diz a que veio

C omo Athos e Porthos tinham previsto, d’Artagnan voltou meia hora


depois. Perdera mais uma vez o seu homem, que havia desaparecido
como que por encanto. D’Artagnan correra, espada na mão, todas as ruas
vizinhas, mas não encontrara ninguém parecido com quem procurava.
Adotou então o expediente pelo qual talvez devesse ter começado, que era
bater à porta na qual o desconhecido recostara-se. Mas foi em vão que bateu a
aldrava dez ou doze vezes seguidas, pois ninguém respondeu, e os vizinhos,
atraídos pelo barulho, acorreram à soleira de suas portas ou meteram o nariz
para fora de suas janelas, assegurando-lhe que a tal casa, cujas janelas, aliás,
estavam todas fechadas, havia sido completamente abandonada seis meses
atrás.
Enquanto d’Artagnan corria as ruas e batia às portas, Aramis juntara-se a
seus dois companheiros, de maneira que, entrando em casa, d’Artagnan
encontrou a reunião pronta para começar.
— E então? — disseram juntos os três mosqueteiros, ao verem d’Artagnan
entrar, suando e com o semblante desfigurado pela raiva.
— E então! — exclamou ele, atirando sua espada na cama. — Esse homem
tem de ser o diabo em pessoa! Desapareceu como um fantasma, como uma
sombra, como um espectro.
— Acredita em aparições? — perguntou Athos a Porthos.
— Eu? Só acredito no que vejo e, como nunca vi aparições, não acredito
nelas.
— Na Bíblia — disse Aramis —, acreditar nelas é uma lei. A sombra de
Samuel apareceu para Saul, e este é um dogma que eu ficaria aborrecido de
ver questionado, Porthos.
— Em qualquer dos casos, homem ou diabo, corpo ou sombra, ilusão ou
realidade, esse homem nasceu para me arruinar, pois sua fuga nos faz perder
um negócio soberbo, senhores, um negócio no qual havia cem pistolas e
talvez mais a ganhar.
— Como assim? — indagaram ao mesmo tempo Porthos e Aramis.
Quanto a Athos, fiel a seu mutismo, contentou-se em interrogar d’Artagnan
com o olhar.
— Planchet — disse d’Artagnan a seu criado, que nesse momento passava
a cabeça pela porta entreaberta tentando surpreender alguns fiapos da
conversa —, desça até o meu senhorio, o sr. Bonacieux, e diga-lhe para nos
mandar meia dúzia de garrafas de vinho de Beaugency. É o meu predileto.
— E essa agora! Por acaso abriu uma linha de crédito com seu senhorio?
— perguntou Porthos.
— Sim — respondeu d’Artagnan —, a partir de hoje, fiquem descansados,
se o vinho estiver ruim, pediremos outro.
— Convém usar e não abusar — declarou sentenciosamente Aramis.
— Eu sempre disse que d’Artagnan era a melhor cabeça de nós quatro —
disse Athos, que, após ter emitido essa opinião, respondida por d’Artagnan
com uma saudação, voltou imediatamente ao silêncio habitual.
— Mas, enfim, vejamos, o que houve? — perguntou Porthos.
— Sim — disse Aramis —, conte-nos o que se passa, caro amigo. A menos
que a honra de alguma dama seja prejudicada por essa confidência, em cujo
caso você faria melhor guardando-a consigo.
— Fiquem tranquilos — respondeu d’Artagnan —, a honra de ninguém
terá do que se queixar ante o que vou lhes dizer.
E então desfiou palavra por palavra a seus amigos o que acabava de
acontecer entre ele e seu senhorio, e como o homem que raptara a mulher do
digno proprietário era o mesmo com quem vinha se desentendendo desde a
estalagem do Franc-Meunier.
— Não parece um mau negócio — disse Athos, após ter provado o vinho
como um connaisseur e demonstrando sua aprovação com um sinal da cabeça
—, e poderemos tirar desse excelente homem entre cinquenta e sessenta
pistolas. Agora, resta saber se vale a pena arriscar quatro cabeças por
cinquenta ou sessenta pistolas.
— Mas, atenção — exclamou d’Artagnan —, há uma mulher nisso tudo,
uma mulher raptada, uma mulher a quem provavelmente ameaçam, que
talvez torturem, e tudo isso por ela ser fiel à sua patroa!
— Cuidado, d’Artagnan, cuidado — disse Aramis —, na minha opinião,
você está exageradamente preocupado com o destino da sra. Bonacieux. As
mulheres foram criadas para nossa ruína, e é delas que provêm todas as
nossas misérias.
Athos, diante dessa frase de Aramis, franziu o cenho e mordeu o beiço.
— Não é em absoluto a sra. de Bonacieux que me preocupa — exclamou
d’Artagnan —, mas a rainha, que o rei abandona, o cardeal persegue, e que
vê cair, umas depois da outra, as cabeças de todos os seus amigos.
— Quem mandou ela gostar daqueles que mais detestamos no mundo: os
espanhóis e os ingleses?
— A Espanha é sua pátria — rebateu d’Artagnan —, e é muito natural que
ela goste dos espanhóis, que são filhos de sua terra. Quanto à segunda
censura que lhe faz, ouvi dizer que ela morria de paixões não pelos ingleses,
mas sim por um inglês.
— Palavra de honra — disse Athos —, temos que admitir que esse inglês
era muito digno de ser amado. Nunca vi semblante mais nobre que o seu.
— Sem contar que se veste como ninguém — concordou Porthos. — Eu
estava no Louvre quando ele distribuiu suas pérolas e, por Deus!, recolhi
duas que revendi depois por dez pistolas cada. E você, Aramis, conhece-o?
— Tanto quanto vocês, cavalheiros, pois eu estava entre aqueles que foram
presos no jardim de Amiens, onde fora introduzido pelo sr. de Putange, o
escudeiro da rainha. Eu me achava no seminário nessa época, e a aventura me
pareceu dolorosa para o rei.
— O que não me impediria — disse d’Artagnan —, se eu soubesse onde
está o duque de Buckingham, de pegá-lo pela mão e conduzi-lo até a rainha,
nem que fosse para irritar o sr. cardeal, pois nosso verdadeiro, único e eterno
inimigo, cavalheiros, é o cardeal. Se pudéssemos descobrir um jeito de lhe
pregar uma peça bem cruel, confesso que de boa vontade arriscaria minha
cabeça.
— Então — retornou Athos —, segundo o dono de armarinho, d’Artagnan,
a rainha achava que haviam atraído Buckingham com uma mensagem falsa?
— É o que ela receia.
— Mas, esperem — disse Aramis.
— O quê? — perguntou Porthos.
— Prossigam, estou tentando me lembrar das circunstâncias.
— E agora estou convencido — continuou d’Artagnan — de que o rapto
dessa mulher de confiança da rainha está ligado aos acontecimentos que
mencionamos e, talvez, à presença do sr. Buckingham em Paris.
— O gascão está cheio de ideias — disse Porthos com admiração.
— Gosto muito de ouvi-lo falar — gracejou Athos —, seu sotaque me
diverte.
— Senhores — disse Aramis —, ouçam isto.
— Estamos ouvindo, Aramis — responderam os três amigos.
— Ontem eu estava na casa de um erudito doutor em teologia, que às vezes
consulto para os meus estudos…
Athos sorriu.
— Ele mora num bairro ermo — continuou Aramis —, suas inclinações e
sua profissão assim o exigem. Ora, justamente quando que eu saía da casa
dele…
Neste ponto, Aramis calou-se.
— E então? — perguntaram seus ouvintes. — Justamente no momento em
que você saía da casa dele…
Aramis pareceu fazer um esforço sobre si mesmo, como um homem que, e
em pleno fluxo de mentira, vê-se paralisado por algum obstáculo imprevisto.
Mas os olhos de seus três companheiros estavam fixos nele, seus ouvidos
esperavam ávidos, não havia jeito de recuar.
— Esse doutor tem uma sobrinha — continuou Aramis.
— Ah, ele tem uma sobrinha! — interrompeu Porthos.
— Dama respeitadíssima — disse Aramis.
Os três amigos começaram a rir.
— Ah, se rirem ou duvidarem — replicou Aramis —, não saberão de nada.
— Somos crentes como maometanos e mudos como uma tumba — disse
Athos.
— Então eu continuo — prosseguiu Aramis. — Essa sobrinha vem às
vezes visitar seu tio. Pois bem, ontem ela estava lá ao mesmo tempo que eu,
por acaso, e fui obrigado a me oferecer para conduzi-la até sua carruagem.
— Ah, a sobrinha do doutor tem uma carruagem? — interrompeu Porthos,
que tinha entre seus defeitos uma grande incontinência verbal. — Belas
relações, meu amigo.
— Porthos — retrucou Aramis —, já o alertei mais de uma vez que você é
muito indiscreto, e que isso pode prejudicá-lo junto às mulheres.
— Senhores, senhores — exclamou d’Artagnan, tentando não perder de
vista o intuito daquela narrativa —, a coisa é séria. Evitemos então os
gracejos, se possível. Prossiga, Aramis, prossiga.
— De repente, um homem alto, pálido, com maneiras de fidalgo… meio
parecido com o seu, d’Artagnan.
— Talvez o mesmo — disse este.
— É possível… — continuou Aramis. — Ele se aproximou de mim,
acompanhado de cinco ou seis homens que o seguiam a uma distância de uns
passos, e, no tom mais polido: “Senhor duque”, disse-me ele, “e a senhora,
Madame”, continuou ele, dirigindo-se à dama que eu levava pelo braço…
— A sobrinha do doutor?
— Silêncio, Porthos! — repreendeu Athos —, você está insuportável!
— “Queiram fazer a gentileza de entrar nessa carruagem, e não tentem
resistir ou fazer qualquer barulho.”
— Ele o tomou por Buckingham! — exclamou d’Artagnan.
— É o que penso — respondeu Aramis.
— Mas e essa dama? — perguntou Porthos.
— Ele achou que era a rainha! — disse d’Artagnan.
— Justamente — ratificou Aramis.
— O gascão é um demônio! — exclamou Athos. — Não deixa passar uma!
— O fato é — observou Porthos — que Aramis tem a estatura e alguma
semelhança com o belo duque. Mas, apesar de tudo, me parece que o
uniforme de mosqueteiro…
— Eu estava com um enorme sobretudo — disse Aramis.
— No mês de julho, diabos! — estranhou Porthos. — Por acaso o doutor
receia que você seja reconhecido?
— Até admito — ponderou Athos — que o espião tenha se confundido
pelo aspecto, mas o rosto…
— Eu usava um chapelão — disse Aramis.
— Minha nossa! — exclamou Porthos. — Quantas precauções para estudar
teologia!
— Senhores, senhores — disse d’Artagnan —, não vamos perder tempo
com picuinhas. Poupemo-nos e procuremos a mulher do comerciante, ela é
que é a chave da trama.
— Uma mulher de condição tão inferior! Você acha, d’Artagnan? —
inquiriu Porthos, esticando os beiços com desprezo.
— É a afilhada de La Porte, o valete de confiança da rainha. Já não lhes
contei, cavalheiros? E, aliás, talvez tenha sido proposital o fato de Sua
Majestade dessa vez ter procurado apoio em alguém tão inferior. As cabeças
muito elevadas se veem de longe, e o cardeal enxerga muito bem.
— Que seja! — disse Porthos. — Primeiro combine um preço com o seu
dono de armarinho, e um preço bom.
— Isso é inútil — respondeu d’Artagnan —, pois creio que, se ele não nos
pagar, seremos muito bem pagos de um outro lado.
Nesse momento, um barulho precipitado de passos ressoou na escada, a
porta se abriu com estrépito e o infeliz armarinheiro projetou-se no quarto
onde o conselho estava em sessão.
— Ah, senhores! — gritou ele. — Salvem-me, em nome dos céus, salvem-
me! Quatro homens estão a caminho para me prender. Salvem-me, salvem-
me!
Porthos e Aramis ergueram-se.
— Um momento — exclamou d’Artagnan, fazendo-lhes sinal para que
enfiassem de volta na bainha suas espadas expostas pela metade. — Um
momento, não é de coragem que precisamos agora, é de prudência.
— Mas — exaltou-se Porthos —, não permitiremos…
— Deixem d’Artagnan resolver — disse Athos —, é, repito, a melhor
cabeça de todos nós. De minha parte, declaro que lhe obedeço. Faça como
achar melhor, d’Artagnan.
Nesse momento, os quatro guardas apareceram na porta da antecâmara.
Vendo quatro mosqueteiros de pé e com as espadas pendentes, hesitaram em
continuar.
— Entrem, cavalheiros, entrem — gritou d’Artagnan —, aqui os senhores
estão na minha casa, somos todos fiéis servidores do rei e do sr. cardeal.
— Isso quer dizer, senhores, que não irão se opor a que executemos as
nossas ordens? — perguntou aquele que parecia o chefe do destacamento.
— Ao contrário, senhores, e lhes apoiaremos com mão forte, caso
necessitem.
— Mas do que ele está falando? — balbuciou Porthos.
— Você é uma besta — disse Athos —, silêncio!
— Mas o senhor me prometeu… — disse baixinho o pobre comerciante.
— Só podemos salvá-lo permanecendo livres — respondeu rapidamente e
em voz baixa d’Artagnan. — Se fizermos menção de defendê-lo, vamos
presos junto com o senhor.
— Parece-me, entretanto…
— Venham, senhores, venham — disse bem alto d’Artagnan —, não tenho
nenhum motivo para defender o cavalheiro. Eu o vi pela primeira vez hoje
mesmo, e justo em que situação ele lhes dirá pessoalmente: quando veio
exigir o pagamento do meu aluguel. Não é verdade, sr. Bonacieux?
Responda!
— É a pura verdade — exclamou o dono de armarinho —, mas o
cavalheiro não está lhe dizendo…
— Silêncio sobre mim, silêncio sobre meus amigos, silêncio sobre a rainha
principalmente, ou o senhor condenará a todos sem se salvar. Vamos, vamos,
senhores, levem este homem!
E d’Artagnan empurrou o comerciante completamente aturdido para as
mãos dos guardas, dizendo-lhe:
— O senhor é um aproveitador, meu caro; vir me cobrar, a mim, um
mosqueteiro! Para a cadeia, senhores, repito, levem-no para a cadeia, e
deixem-no trancafiado o máximo de tempo possível, isso me dará tempo para
pagá-lo.
Os agentes confundiram-se em agradecimentos e levaram sua presa.
Quando iam descer, d’Artagnan deu uma tapinha no ombro do chefe:
— Não beberia eu à sua saúde e o senhor à minha? — disse ele, enchendo
dois copos do vinho de Beaugency proporcionado pela liberalidade do sr.
Bonacieux.
— Será uma grande honra para mim — disse o chefe dos agentes —,
aceito com gratidão.
— Então, à sua, senhor… como se chama?
— Boisrenard.
— Senhor Boisrenard!
— À sua, meu caro nobre. E a sua graça, senhor?
— D’Artagnan.
— À sua, sr. d’Artagnan.
— E acima de todas estas — berrou d’Artagnan, como que arrebatado pelo
entusiasmo —, à saúde do rei e do cardeal.
O chefe dos agentes teria talvez duvidado da sinceridade de d’Artagnan se
o vinho estivesse ruim, mas como o vinho estava bom, convenceu-se.
— Que espécie de torpeza você acabou de fazer? — esbravejou Porthos,
quando o oficial juntou-se a seus companheiros e os quatros amigos viram-se
novamente a sós. — Que papelão! Quatro mosqueteiros permitirem, sob suas
vistas, a prisão de um desafortunado que pede socorro! Um fidalgo brindar
com um esbirro!
— Porthos — disse Aramis —, Athos já lhe disse que você é uma besta, e
sou da mesma opinião. D’Artagnan, você é um grande homem, e quando
estiver no lugar do sr. de Tréville, conto com sua proteção para me arranjar
uma paróquia.
— Arre, estou ficando confuso — desesperou-se Porthos —, vocês
aprovam o que d’Artagnan acaba de fazer?
— Eu aprovo plenamente, por Deus — sentenciou Athos. — Não só
aprovo o que ele acaba de fazer, como o parabenizo por isso.
— E agora, senhores — disse d’Artagnan, sem dar-se ao trabalho de
explicar seu comportamento a Porthos —, um por todos, e todos por um, esta
é a nossa divisa, não é?
— Mas… — gaguejou Porthos.
— Estenda a mão e jure! — exclamaram ao mesmo tempo Athos e Aramis.
Vencido pelo exemplo, resmungando baixinho, Porthos estendeu a mão e
os quatro amigos repetiram, em uníssono, a fórmula ditada por d’Artagnan:
“Um por todos, e todos por um.”
— Ótimo, agora cada um vai para sua casa — disse d’Artagnan, como se
não tivesse feito outra coisa na vida a não ser comandar. — E atenção, pois,
de agora em diante, estamos enfrentando o cardeal.
10. Uma ratoeira no século XVII

A invenção da ratoeira não data de nossos dias. Assim que as sociedades, ao


se formarem, inventaram uma polícia qualquer, essa polícia, por sua vez,
inventou as ratoeiras.
Como talvez nossos leitores ainda não estejam familiarizados com a gíria
da rua de Jerusalém, e esta seja, desde que escrevemos — e já se vão uns
quinze anos — a primeira vez que empregamos tal palavra aplicada a essa
coisa, expliquemos o que é uma ratoeira.
Quando, numa determinada casa, prendem um indivíduo suspeito de
determinado crime, essa detenção é mantida em segredo. Colocam então
quatro ou cinco homens de emboscada no primeiro cômodo, abrem a porta a
todos os que batem, fecham-na com eles dentro e os prendem. Dessa forma,
no fim de dois ou três dias, estão ali quase todos os frequentadores da casa.
Eis o que é uma ratoeira.
O apartamento de mestre Bonacieux, portanto, foi transformado em
ratoeira, e todos que apareceram por lá foram detidos e interrogados pelos
homens do sr. cardeal. Desnecessário dizer que, como uma passagem privada
conduzia ao primeiro andar habitado por d’Artagnan, os que iam à sua casa
estavam isentos de tais encontros.
Além disso, os três mosqueteiros iam até lá sozinhos. Haviam começado a
procurar cada um de seu lado, mas não tinham encontrado nada, descoberto
nada. Athos chegara inclusive a interrogar o sr. de Tréville, atitude que,
considerando o mutismo habitual do digno mosqueteiro, deixara admirado o
seu capitão. Mas o sr. de Tréville não sabia de nada, a não ser que, da última
vez que estivera com o cardeal, o rei e a rainha, o cardeal tinha um semblante
muito preocupado, o rei estava inquieto, e os olhos vermelhos da rainha
indicavam que ela ou não dormira ou chorara. Mas essa última circunstância
não lhe causara muita espécie, pois a rainha, depois de seu casamento, ficava
sem dormir e chorava com muita frequência.
O sr. de Tréville, em todo caso, recomendou a Athos o serviço do rei e
sobretudo o da rainha, pedindo-lhe que fizesse a mesma recomendação a seus
companheiros.
Quanto a d’Artagnan, não arredava de casa. Convertera seu quarto em
observatório. Das janelas acompanhava a chegada dos que se deixavam
prender. Além disso, como arrancara os tacos do assoalho, escavando o piso,
e um simples teto o separava do quarto de baixo, no qual ocorriam os
interrogatórios, ele ouvia tudo que era dito entre os inquisidores e os
acusados.
Os interrogatórios, precedidos de uma revista minuciosa da pessoa detida,
consistiam quase sempre nas seguintes perguntas:
— A sra. Bonacieux entregou-lhe alguma coisa para seu marido ou para
qualquer outra pessoa?
— O sr. Bonacieux entregou-lhe alguma coisa para sua mulher ou para
qualquer outra pessoa?
— Seu marido ou sua mulher fez-lhe alguma confidência de viva voz?
“Se soubessem de alguma coisa, não perguntariam dessa forma”, pensou
consigo d’Artagnan. “Ora, o que procuram saber? Já que o duque de
Buckingham não está em Paris e não teve ou não deve ter entrevista alguma
com a rainha.”
D’Artagnan aferrou-se a essa ideia, a qual, por tudo que ouvira, não era de
todo absurda.
Enquanto isso, a ratoeira funcionava, e a vigilância de d’Artagnan também.
Na noite do dia seguinte à prisão do pobre Bonacieux, quando Athos
acabava de se despedir de d’Artagnan para dirigir-se à casa do sr. de Tréville,
quando as nove horas acabavam de soar e quando Planchet, que ainda não
fizera a cama, começava seu expediente, ouviu-se alguém batendo à porta da
rua. Dali a pouco essa porta se abriu e fechou. Alguém acabava de ser
apanhado na ratoeira.
D’Artagnan correu para o ponto desobstruído no assoalho, deitou-se de
bruços e escutou.
Logo ouviu gritos, e depois gemidos que alguém procurava abafar. Do
interrogatório, porém, nem sinal.
“Diabos”, pensou d’Artagnan, “acho que era uma mulher; estão a revistá-
la, ela resiste, violentam-na, os miseráveis!”
E d’Artagnan, apesar de sua prudência, mantinha-se de quatro para não se
misturar à cena que se desenrolava embaixo dele.
— Mas estou lhes dizendo que sou a dona da casa, senhores, e afirmo-lhes
que sou madame Bonacieux. Estou lhes dizendo que trabalho para a rainha!
— exclamou a desafortunada mulher.
— Sra. Bonacieux! — murmurou d’Artagnan. — Teria eu tido a sorte de
encontrar o que todos procuram?
— Era exatamente a senhora que esperávamos — emendaram os
interrogadores.
A voz tornou-se cada vez mais abafada. Um movimento tumultuoso fez as
madeiras estalarem. A vítima resistia na medida em que uma mulher pode
resistir a quatro homens.
— Perdão, senhores, per… — murmurou a voz, que agora só emitia sons
desarticulados.
— Estão amordaçando-a, vão levá-la — exclamou d’Artagnan, levantando-
se como se impulsionado por uma mola. — Minha espada. Ótimo, está aqui
ao meu lado. Planchet!
— Senhor?
— Corra e procure Athos, Porthos e Aramis. Um dos três certamente estará
em casa, talvez os três tenham se recolhido. Que tragam armas, que venham,
que acorram. Ah, agora me lembro, Athos está na casa do sr. de Tréville.
— Mas aonde vai, senhor, aonde vai?
— Vou descer pela janela — gritou d’Artagnan — para chegar lá mais
depressa. Você, recoloque os tacos, varra o assoalho, saia pela porta e vá
aonde lhe disse.
— Oh, senhor, senhor, vai se matar — assustou-se Planchet.
— Cale-se, imbecil — disse d’Artagnan. E, agarrando com a mão o
rebordo de sua janela, deixou-se cair do primeiro andar, que felizmente não
era alto, sem um arranhão. Bateu imediatamente na porta, sussurrando:
— Deixarei que me prendam na ratoeira, mas maldição aos gatos que
encostarem neste camundongo.
Assim que a alça da aldrava ressoou sob sua mão, o tumulto foi
interrompido, passos se aproximaram, a porta se abriu e d’Artagnan, de
espada em punho, lançou-se dentro do apartamento de mestre Bonacieux,
cuja porta, certamente movida por uma mola, fechou-se por si só atrás dele.
Então os que ainda residiam na desventurada casa de Bonacieux e os
vizinhos mais próximos ouviram gritos, pés batendo, um retinir de espadas e
um barulho prolongado de móveis se arrastando. Em seguida, imediatamente
depois, aqueles que, surpreendidos por essa barulheira, haviam se posto às
janelas para conhecer sua causa, puderam ver a porta se reabrir e quatro
homens de preto, não saírem dela propriamente, mas alçarem voo feito
corvos assustados, deixando no chão e nas quinas das mesas algumas penas
de suas asas, isto é, farrapos de suas roupas e fiapos de seus casacos.
D’Artagnan vencera sem grandes dificuldades, cumpre dizê-lo, pois apenas
um dos soldados estava armado, e mesmo este defendia-se pró-forma. É
verdade que os outros três haviam tentado abater o rapaz com cadeiras,
banquinhos e vasos. Mas bastaram dois ou três arranhões feitos pela lâmina
do gascão para aterrorizá-los. Dez minutos foram suficientes para derrotá-los,
e d’Artagnan era agora senhor do campo de batalha.
Os vizinhos, que haviam aberto suas janelas com o sangue-frio peculiar aos
moradores de Paris nesses tempos de rixas e motins intermináveis, voltaram a
fechá-las assim que viram fugir os quatro homens de preto. Seu instinto dizia-
lhes que, por enquanto, estava tudo terminado.
Aliás, fazia-se tarde e, naquela época, como hoje, dormia-se cedo no bairro
do Luxemburgo.
D’Artagnan, ficando a sós com a sra. Bonacieux, voltou-se para ela. A
pobre mulher estava prostrada numa poltrona, quase inconsciente.
D’Artagnan examinou-a com um olhar rápido.
Era uma encantadora mulher entre vinte e cinco e vinte e seis anos, morena
de olhos azuis, com um nariz ligeiramente arrebitado, dentes admiráveis, uma
pele marmorizada em cor-de-rosa e opala. Aí entretanto terminavam os sinais
que podiam fazê-la ser confundida com uma grande dama. As mãos eram
brancas, porém não bem-tratadas; os pés não anunciavam a mulher de estirpe.
Felizmente, d’Artagnan ainda não viera a preocupar-se com esses detalhes.
Enquanto examinava a sra. Bonacieux e ocupava-se com os seus pés, como
dissemos, d’Artagnan avistou no chão um fino lenço de cambraia, que
recolheu segundo seu costume e no canto do qual reconheceu o mesmo
emblema que vira no lenço que quase lhe fizera ter a garganta cortada por
Aramis.
Desde esse episódio, d’Artagnan desconfiava dos lenços com brasões.
Recolocou-o então no bolso da sra. Bonacieux, sem falar nada.
Nesse momento, a sra. Bonacieux recuperou os sentidos. Abriu os olhos,
olhou com terror à sua volta, viu que o apartamento estava vazio e que estava
sozinha com seu libertador. Estendeu-lhe imediatamente as mãos, sorrindo. A
sra. Bonacieux tinha o sorriso mais encantador do mundo.
—Ah, senhor! — exclamou ela. — Foi o senhor quem me salvou. Permita
que eu lhe agradeça.
— Senhora — disse d’Artagnan —, não fiz senão o que todo cavalheiro
faria no meu lugar, não me deve nenhum agradecimento.
— Ao contrário, ao contrário, e espero provar-lhe que não ajudou a uma
ingrata. Mas o que queriam de mim esses homens, a quem no início tomei
como ladrões, e por que o sr. Bonacieux não está aqui?
— Senhora, esses homens eram muito mais perigosos do que ladrões, pois
são agentes do sr. cardeal. Quanto a seu marido, o sr. Bonacieux não está
aqui porque ontem vieram prendê-lo para levá-lo à Bastilha.
— Meu marido na Bastilha! — desesperou-se a sra. Bonacieux. — Oh,
meu Deus, o que ele fez então? Pobre querido homem, ele, a inocência em
pessoa!
E algo como um sorriso despontou no semblante ainda bastante assustado
da jovem mulher.
— O que fez ele, senhora? — disse d’Artagnan. — Acho que seu único
crime é ter ao mesmo tempo a ventura e a desventura de ser seu marido.
— Mas então o senhor sabe…
— Sei que foi raptada, senhora.
— E por quem? O senhor sabe? Oh, se sabe, fale!
— Por um homem entre quarenta e quarenta e cinco anos, de cabelos
pretos, tez pálida, com uma cicatriz na têmpora esquerda.
— Exatamente, exatamente. Mas, seu nome?
— Ah, seu nome? É o que ignoro.
— E meu marido sabia que eu fora raptada?
— Foi avisado por uma carta escrita pelo próprio raptor.
— E ele suspeita — perguntou a sra. Bonacieux, embaraçada — qual seja a
causa desse acontecimento?
— Atribuía-o, creio, a uma causa política.
— Duvidei disso no início, mas agora penso como ele. Então quer dizer
que esse caro sr. Bonacieux não suspeitou de mim nenhum instante…?
— Ah, senhora, longe disso, estava orgulhosíssimo do seu bom
comportamento e principalmente do seu amor.
Um segundo sorriso quase imperceptível aflorou nos lábios cor-de-rosa da
bonita rapariga.
— Mas — continuou d’Artagnan —, como a senhora fugiu?
— Aproveitei um momento em que me deixaram sozinha e, como conhecia
desde esta manhã a causa de meu sequestro, desci pela janela com o auxílio
dos lençóis. Então, julgando encontrar meu marido aqui, corri para cá.
— Para colocar-se sob sua proteção?
— Oh, não, pobre e querido homem, eu sabia muito bem que ele era
incapaz de me defender, mas como ele podia nos servir de outra forma, quis
avisá-lo.
— De quê?
— Oh, esse segredo não me pertence. Logo, não posso contá-lo.
— Aliás… — disse d’Artagnan. — Perdão, senhora, se, humilde guarda
que sou, chamo-a à prudência, mas não creio que aqui seja o lugar adequado
para trocarmos confidências. Os homens que botei para correr voltarão com
reforços e, se nos encontrarem aqui, estaremos perdidos. Fiz bem em avisar
três amigos meus, mas quem sabe se os terão encontrado em suas casas?
— Sim, sim, tem razão — agitou-se a sra. Bonacieux, assustada. —
Fujamos, fujamos.
A essas palavras, ela enganchou o braço no de d’Artagnan e arrastou-o
com energia.
— Mas para onde fugir? — perguntou d’Artagnan? — Onde estaremos a
salvo?
— Para começar, afastemo-nos dessa casa, depois veremos.
E os dois jovens, sem se dar ao trabalho de fechar a porta, desceram
rapidamente a rua dos Coveiros, enveredaram pela rua dos Fossés-Monsieur-
le-Prince e só pararam na praça Saint-Sulpice.
— E agora, o que fazer? — perguntou d’Artagnan. — E para onde deseja
que eu a leve?
— Não sei o que lhe responder, confesso — disse a sra. Bonacieux. —
Minha intenção era, por intermédio do meu marido, avisar ao sr. de La Porte,
para que ele pudesse nos dizer precisamente o que aconteceu no Louvre três
dias atrás, e se não seria perigoso eu lá me apresentar.
— Mas eu — disse d’Artagnan — posso ir avisar ao sr. de La Porte.
— Talvez. Vejo apenas um problema: o sr. Bonacieux é conhecido no
Louvre e o deixariam passar, ao passo que ninguém conhece o senhor e lhe
fechariam a porta.
— Bobagem! — rebateu d’Artagnan. — A senhora não tem, em alguma
entrada lateral do Louvre, um porteiro que lhe seja fiel e que, graças a uma
senha…
A sra. Bonacieux olhou fixamente o rapaz.
— E se eu lhe desse essa senha — disse ela —, o senhor a esqueceria
assim que a tivesse usado?
— Palavra de honra, juro pelo nome de minha família! — prometeu
d’Artagnan, com uma ênfase sincera que não deixava dúvidas.
— Está bem, confio no senhor. O senhor parece um rapaz direito; aliás,
algo me diz que sua dedicação será o trampolim de sua fortuna.
— Farei sem esperar por recompensas e conscienciosamente tudo que
puder fazer para servir ao rei e ser agradável à rainha — disse d’Artagnan. —
Logo, disponha de mim como de um amigo.
— Mas e eu, onde me esconderá enquanto isso?
— A senhora tem uma pessoa na casa de quem o sr. de La Porte possa
passar para pegá-la?
— Não, não quero confiar em ninguém.
— Espere — disse d’Artagnan —, estamos na porta de Athos. Sim, é isso.
— O que é Athos?
— Um de meus amigos.
— Mas e se ele estiver em casa e me vir?
— Não está, e levarei a chave após deixá-la em seu apartamento.
— Mas e se ele voltar?
— Não voltará. Aliás, diriam-lhe que eu trouxe mulher, e que essa mulher
está na casa dele.
— Isso irá me comprometer terrivelmente, fique sabendo o senhor!
— E que importância tem isso?! Ninguém a conhece. Ademais, estamos
numa situação que nos obriga a ignorar tais conveniências!
— Vamos então para a casa do seu amigo. Onde ele mora?
— Na rua Férou, a dois passos daqui.
— Vamos.
E ambos retomaram o caminho. Como d’Artagnan previra, Athos não
estava em casa. Ele então pegou a chave que costumava carregar consigo
como amigo da casa, subiu a escada e introduziu a sra. Bonacieux no
pequeno apartamento cuja descrição já fizemos.
— Fique à vontade — disse. — Espere, feche a porta por dentro e não abra
para ninguém, a menos que ouça baterem três vezes. Assim, veja — e bateu
três vezes: duas batidas fortes seguidas uma da outra e uma batida mais
espaçada e mais fraca.
— Está bem — disse a sra. Bonacieux. — Agora é a minha vez de lhe
passar instruções.
— Estou ouvindo.
— Apresente-se na entrada lateral do Louvre, que fica junto à rua de
l’Échelle, mande chamar Germain.
— Está bem. E depois?
— Ele lhe perguntará o que deseja e o senhor lhe responderá com duas
palavras: Tours e Bruxelas. Ele se colocará sob suas ordens imediatamente.
— E que ordens devo lhe dar?
— Mande-o chamar o sr. de La Porte, criado de quarto da rainha.
— E depois que ele o encontrar e o sr. de La Porte aparecer?
— Despache-o para cá.
— Está bem, mas onde e como tornarei a vê-la?
— Faz tanta questão assim de me ver de novo?
— Mas é claro.
— Que seja. Deixe então essa parte comigo e fique descansado.
— Conto com sua palavra.
— Pode contar.
D’Artagnan despediu-se da sra. Bonacieux, dirigindo-lhe a piscadela mais
apaixonada que lhe foi possível depositar sobre sua encantadora e delicada
figura. Enquanto descia a escada, ouviu a chave girar duas vezes na fechadura
da porta. Em dois pulos, estava no Louvre. Quando entrou na portinha da
Échelle, dava dez horas. Todos os fatos que acabamos de contar se haviam
sucedido em meia hora.
Tudo aconteceu como dissera a sra. Bonacieux. À senha estipulada,
Germain obedeceu. Dez minutos, depois, La Porte estava na cabine da
portaria. Em duas palavras, d’Artagnan inteirou-o da situação e indicou-lhe
onde estava a sra. Bonacieux. La Porte certificou-se duas vezes da exatidão
do endereço e saiu às pressas. Entretanto, mal dera dez passos, voltou-se.
— Meu jovem — disse ele a d’Artagnan —, um conselho.
— Qual?
— O senhor deve estar preocupado com o que acaba de acontecer.
— Acha isso?
— Sim. Tem algum amigo cujo relógio atrase?
— Por quê?
— Vá visitá-lo, assim poderá testemunhar que o senhor estava na casa dele
às nove e meia. Em direito, isto se chama um álibi.
D’Artagnan julgou o conselho prudente. Botou sebo nas canelas e dirigiu-
se à casa do sr. de Tréville. Porém, em vez de passar pelo salão como todo
mundo, pediu para ir direto ao gabinete. Como d’Artagnan era um
frequentador assíduo do palácio, não teve dificuldade em ver esse pedido
aceito, e foram avisar ao sr. de Tréville que seu jovem conterrâneo, tendo
alguma coisa de importante a comunicar-lhe, solicitava uma audiência
particular. Cinco minutos depois, o sr. de Tréville perguntava a d’Artagnan o
que podia fazer por ele e o motivo daquela visita em hora tão adiantada.
— Perdão, senhor! — disse d’Artagnan, que aproveitara o momento em
que ficara sozinho para atrasar o relógio em quarenta e cinco minutos. —
Pensei que talvez, como ainda não passava de nove e vinte e cinco, ainda
fosse hora de me apresentar em sua casa.
— Nove e vinte e cinco! — exclamou o sr. de Tréville, consultando o
relógio de parede. — Mas isso é impossível!
— Veja, senhor — disse d’Artagnan —, não pode negar.
— Está certo — disse o sr. de Tréville —, eu teria jurado que era mais
tarde. Mas vejamos, o que deseja de mim?
Então d’Artagnan contou ao sr. de Tréville uma longa história sobre a
rainha. Expôs-lhe os temores que concebera a respeito de Sua Majestade.
Contou-lhe o que ouvira dizer sobre os planos do cardeal relativos a
Buckingham, e tudo com uma tranquilidade e desenvoltura que iludiram
completamente o sr. de Tréville, ainda mais que ele mesmo, como dissemos,
notara alguma coisa estranha entre o cardeal, o rei e a rainha.
Às dez em ponto, d’Artagnan despediu-se do sr. de Tréville, que
agradeceu-lhe por suas informações, recomendou-lhe nunca esquecer o
serviço do rei e da rainha, e dirigiu-se ao salão. Ao pé da escada, porém,
d’Artagnan percebeu que esquecera sua bengala. Isso o fez subir de novo,
precipitadamente, entrar mais uma vez no gabinete, com um piparote
recolocar o ponteiro na hora certa, para que no dia seguinte não percebessem
que tinha sido atrasado, e, certo agora de que contava com uma testemunha
para provar seu álibi, descer a escada e ver-se prontamente na rua.
11. A trama se complica

C oncluída sua visita ao sr. de Tréville, d’Artagnan, todo pensativo, tomou


o caminho mais comprido até sua casa.
Em que pensava d’Artagnan, que se afastava assim de seu caminho,
contemplando as estrelas, ora suspirando, ora sorrindo?
Pensava na sra. Bonacieux. Para um aprendiz de mosqueteiro, a moça era
quase uma idealização amorosa. Bonita, misteriosa, iniciada em quase todos
os segredos de corte, que conferiam tanta encantadora gravidade aos seus
traços graciosos, ela dava sinais de não ser insensível, o que é uma atração
irresistível para os amantes de primeira viagem. Como se não bastasse,
d’Artagnan libertara-a das mãos daqueles demônios que queriam revistá-la e
maltratá-la, e esse relevante favor consolidara entre os dois um desses
sentimentos de gratidão que com tanta facilidade assumem caráter mais
íntimo.
D’Artagnan já se via, de tal forma os sonhos voam nas asas da imaginação,
abordado por um mensageiro da rapariga e recebendo um bilhete para um
encontro amoroso, uma corrente de ouro ou um diamante. Dissemos que os
jovens cavaleiros recebiam mimos do rei sem nenhum constrangimento.
Acrescentemos que, nesses tempos de moral fácil, tampouco mostravam-se
envergonhados diante de suas amantes, que quase sempre lhes deixavam
lembranças valiosas e duradouras, como se tentassem conquistar a fragilidade
de seus sentimentos com a solidez de seus presentes.
Nessa época, os homens subiam na vida à custa das mulheres, sem corar.
As que eram apenas bonitas davam sua beleza, e é provavelmente daí que
vem o ditado segundo o qual a garota mais linda do mundo só pode dar o que
tem. As que eram ricas davam, além disso, parte de seu dinheiro, e
poderíamos citar um bom número de heróis dessa galante época que não teria
ganhado nem suas esporas, em primeiro lugar, nem suas batalhas, em
segundo, sem a bolsa mais ou menos recheada que as amantes prendiam no
arção de suas selas.
D’Artagnan não possuía nada. A hesitação do provinciano, verniz ligeiro,
flor efêmera, veludo do pêssego, evaporara-se ao vento dos conselhos pouco
ortodoxos que os três mosqueteiros davam a seu amigo. D’Artagnan,
seguindo um estranho costume da época, via-se em Paris numa expedição
militar, exatamente como se estivesse em Flandres: o Espanhol lá, a mulher
aqui. Havia em toda parte um inimigo a combater, façanhas a realizar.
Mas, verdade seja dita, naquele momento d’Artagnan era movido por um
sentimento mais nobre e mais desinteressado. O dono do armarinho dissera-
lhe que era rico. O mancebo pudera presumir que, tolo como era o sr.
Bonacieux, devia ser a mulher que ficava com a chave do cofre. Mas isso
tudo não influenciara em nada o sentimento produzido pela visão da sra.
Bonacieux, e o interesse permanecera praticamente alheio tanto a esse
começo de amor quanto ao que viria a seguir. Dizemos praticamente, pois a
ideia de uma mulher jovem, bonita, graciosa, inteligente e rica ao mesmo
tempo não desmerece em nada o começo de um amor, antes pelo contrário,
reforça-o.
Há na riqueza uma profusão de detalhes e caprichos aristocráticos que
casam bem com a beleza. Uma meia fina e branca, um vestido de seda, uma
camisinha de renda, um belo sapato no pé, uma faixa alegre na cabeça, são
incapazes de transformar uma mulher feia em bonita, mas realçam a beleza
da que já é bonita, sem falar nas mãos, superiores a tudo isso. As mãos, nas
mulheres em especial, precisam permanecer ociosas para permanecerem
belas.
D’Artagnan, além disso, como sabe muito bem o leitor, de quem não
escondemos sua condição financeira, não era um milionário. Esperava, claro,
vir a sê-lo um dia, mas a data que estipulara intimamente para essa feliz
mudança achava-se muito distante. Enquanto esperava, que desespero ver
uma mulher a quem se ama desejar esses mil nadas com os quais as mulheres
compõem sua felicidade, e não poder lhe dar esses mil nadas! Ao menos,
quando a mulher é rica e o amante não, o que ele não pode lhe oferecer, ela
própria se oferece, e, embora seja comumente com o dinheiro do marido que
ela se proporciona esse gozo, é raro o dito cujo receber sua gratidão.
Portanto, d’Artagnan, determinado a ser o amante mais carinhoso, era
enquanto isso um amigo absolutamente fiel. Em meio a seus planos amorosos
a respeito da mulher do comerciante, não esquecia dos amigos. A atraente
sra. Bonacieux era mulher para passear pela esplanada de Saint-Denis ou na
feira de Saint-Germain em companhia de Athos, Porthos e Aramis, a quem
d’Artagnan sentiria orgulho de mostrar aquela conquista. Depois, quem anda
muito sente fome, como d’Artagnan observara recentemente. Fariam então
aqueles jantarezinhos encantadores em que, de um lado, tocamos a mão do
amigo, e do outro, o pé da namorada. Enfim, nos momentos urgentes, nas
situações-limite, d’Artagnan seria o salvador de seus amigos.
E o sr. Bonacieux, que d’Artagnan empurrara para as mãos dos soldados,
renegando-o bem alto e que baixinho prometera salvar? Temos de admitir aos
nossos leitores que isso não passava pela cabeça de d’Artagnan, ou, se
passava, era para convencer a si mesmo de que ele estava bem onde estava,
onde quer que fosse. De todas as paixões, o amor é a mais egoísta.
Mas, tranquilizem-se nossos leitores: se d’Artagnan esquece o senhorio ou
finge esquecê-lo, a pretexto de que não sabe para onde o levaram, nós não
esquecemos, e sabemos onde ele está. Mas, por ora, imitemos o gascão
apaixonado. Quanto ao honesto varejista, voltaremos a ele mais tarde.
D’Artagnan, enquanto refletia sobre seus futuros amores, enquanto
conversava com a noite e sorria para as estrelas, ia subindo a rua do Cherche-
Midi ou do Chasse-Midi, como ela então se chamava. Estando no bairro de
Aramis, teve a ideia de fazer uma visita ao amigo, a fim lhe dar algumas
explicações sobre os motivos que o haviam feito enviar Planchet com o
recado para ele dirigir-se imediatamente à ratoeira. Ora, se Aramis estivesse
em casa quando Planchet chegara, sem dúvida nenhuma teria corrido à rua
dos Coveiros e, não encontrando ninguém lá, a não ser talvez seus dois outros
companheiros, eles não devem ter entendido, nem uns nem outros, o que
significava aquilo. Aquele desencontro, portanto, merecia uma explicação, eis
o que dizia d’Artagnan em voz alta.
Depois, falando baixo, murmurou que seria para ele uma oportunidade de
descrever a pérola que era a sra. Bonacieux, cuja imagem não saía de seu
espírito nem de seu coração. A um primeiro amor não se exige discrição. Ele
vem acompanhado de uma alegria tão grande que essa alegria precisa
transbordar, sem isso ela o sufocaria.
Paris estava escura havia duas horas e começava a ficar deserta. Dava onze
horas em todos os relógios do faubourg Saint-Germain e fazia uma
temperatura amena. D’Artagnan percorria uma ruela situada no local por
onde passa atualmente a rua d’Assas, respirando as emanações perfumadas
trazidas pelo vento da rua Vaugirard, que saíam dos jardins refrescados pelo
sereno do crepúsculo e pela brisa da noite. Ao longe ressoavam, ainda que
abafados por bons postigos, as cantorias dos bebedores em alguns cabarés
perdidos na esplanada. Ao chegar ao fim da ruela, d’Artagnan virou à
esquerda. A casa habitada por Aramis ficava entre a rua Cassette e a rua
Servandoni.
D’Artagnan acabava de deixar para trás a rua Cassette e já reconhecia a
porta da casa de seu amigo, escondida sob a folhagem de sicômoros e
clematites que formavam um imenso dossel acima dela, quando percebeu
alguma coisa parecida com uma sombra saindo da rua Servandoni. Essa
alguma coisa cobria-se com um manto encapuzado, e a princípio d’Artagnan
julgou tratar-se de homem, mas, pela baixa estatura, a instabilidade do andar,
a confusão do passo, logo percebeu ser mulher. E mais, essa mulher, como se
não estivesse muito segura da casa que procurava, levantava os olhos para
situar-se, parava, voltava atrás e tornava a seguir adiante. D’Artagnan ficou
intrigado.
— E se eu fosse oferecer-lhe meus préstimos? — pensou. — Pelo aspecto,
vê-se que é jovem. Talvez seja bonita. Oh, sim! Mas uma mulher correndo as
ruas numa hora dessas só pode ser para ir ao encontro do amante. Raios!
Atrapalhar um encontro amoroso é uma péssima forma de travar relações.
Enquanto isso, a mulher continuava a avançar, contando as casas e as
janelas. Não era, em todo caso, coisa nem demorada nem difícil. Havia
apenas três casarões naquela parte da rua, e duas janelas dando vista para ela.
Uma era a de um pavilhão paralelo ao ocupado por Aramis, a outra, a do
próprio Aramis.
— Por Deus! — pensou d’Artagnan, a quem a sobrinha do teólogo voltava
à mente. — Seria engraçado se esta pombinha atrasada estivesse procurando
a casa do nosso amigo. Mas, pela minha alma, tudo leva a crer que é isso. Ah,
meu caro Aramis, dessa vez eu exijo que nada fique sem explicação.
E d’Artagnan, encolhendo-se o máximo que pôde, abrigou-se no lado mais
escuro da rua, perto de um banco de pedra instalado no fundo de um nicho.
A jovem continuou a avançar, pois além da ligeireza do passo, que a
denunciava, ela acabava de emitir uma tossezinha que sugeria uma voz das
mais doces. D’Artagnan conjeturou que aquela tosse era um sinal.
De toda forma, fosse porque tivessem respondido à tosse com um sinal
equivalente, dirimindo as dúvidas da exploradora noturna, fosse porque sem
ajuda alheia ela concluísse que chegara ao fim de sua busca, a jovem
aproximou-se resolutamente da janela de Aramis e bateu com o nó do dedo,
em três intervalos iguais.
— É realmente a casa de Aramis — murmurou d’Artagnan. — Ah, senhor
hipócrita! Eis que o flagro em plena atividade teológica!
As três batidas mal haviam sido dadas quando uma portinhola se abriu e
uma luz surgiu através dos vidros do postigo.
— Ah, ah! — fez aquele que escutava não atrás das portas, mas das
janelas. — A visita era esperada. Agora o postigo se abrirá e a dama entrará
rapidamente. Muito bem!
Contudo, para grande espanto de d’Artagnan, o postigo permaneceu
fechado. Além disso, a luz que flamejara por um instante desapareceu e tudo
voltou à escuridão.
D’Artagnan, pensando que aquilo não ia durar para sempre, continuou a
observar e escutar atentamente.
Tinha razão: no fim de alguns segundos, duas batidas secas soaram no
interior.
A jovem da rua respondeu com uma única batida, e o postigo se abriu.
Desnecessário dizer que d’Artagnan era todo olhos e ouvidos!
Para seu azar, a luz havia sido transportada para outro aposento. Mas os
olhos do rapaz estavam acostumados à noite. A propósito, há quem diga que
os olhos dos gascões, como os dos gatos, têm a faculdade de enxergar no
escuro.
D’Artagnan percebeu então que a mulher tirava do bolso um objeto branco
que desdobrou com desenvoltura e que tomou a forma de um lenço.
Desdobrado aquele objeto, ela mostrou o canto a seu interlocutor.
Isso lembrou a d’Artagnan o lenço que encontrara aos pés da sra.
Bonacieux, o qual lhe remetera àquele que encontrara aos pés de Aramis.
Que diabos poderia significar tal lenço?
De onde estava, d’Artagnan não conseguia ver o rosto de Aramis; dizemos
de Aramis pois o rapaz não tinha nenhuma dúvida de que era seu amigo que,
de dentro, dialogava com a dama do lado de fora. A curiosidade venceu então
a prudência e, aproveitando-se da preocupação na qual a visão do lenço
parecia mergulhar os dois personagens que pusemos em cena, ele saiu do
esconderijo, rápido como o raio, mas abafando o rumor de seus passos, e foi
encostar-se no canto da fachada, de onde seu olho poderia comodamente
espionar o interior do apartamento de Aramis.
Ao chegar lá, d’Artagnan quase deu um grito de surpresa: não era Aramis
que conversava com a visitante noturna, era uma mulher. Entretanto, se
d’Artagnan enxergava o suficiente para reconhecer a forma de suas roupas,
não era capaz de distinguir seus traços.
Nesse instante, a mulher do apartamento tirou um segundo lenço do bolso
e trocou-o por aquele que acabavam de lhe mostrar. Seguiram-se algumas
palavras entre as duas mulheres. Por fim, o postigo tornou a fechar-se, a
mulher que se encontrava do lado de fora da janela voltou-se e veio passar a
quatro passos de d’Artagnan, ajustando o capuz de seu manto. Mas a
precaução fora tomada tardiamente, d’Artagnan já reconhecera a sra.
Bonacieux.
A sra. Bonacieux! A suspeita de que era ela já lhe ocorrera quando tirara o
lenço do bolso. Mas por que a sra. Bonacieux, que o enviara à procura do sr.
de La Porte para ser reconduzida ao Louvre, correria as ruas de Paris sozinha
às onze e meia da noite, sob o risco de ser raptada pela segunda vez?
Só podia ser por um assunto de grande importância. E qual é o assunto de
grande importância para uma mulher de vinte e cinco anos? O amor.
Mas era por iniciativa própria ou de outra pessoa que ela corria tantos
riscos? Eis o que se perguntava o rapaz, cujo coração o demônio do ciúme
fustigava como se ele já fosse o amante titular.
Havia, em todo caso, um jeito bem simples de certificar-se aonde ia a sra.
Bonacieux: segui-la. Esse recurso era tão simples que d’Artagnan adotou-o
por instinto e com toda a naturalidade.
Porém, diante da visão do rapaz, que se soltava da fachada como uma
estátua de seu nicho, e do barulho de passos que ouvira atrás dela, a sra.
Bonacieux deu um gritinho e fugiu.
D’Artagnan correu atrás dela. Não era nada difícil para ele alcançar uma
mulher enrolada num manto. Alcançou-a, portanto, mal ela percorrera um
terço da rua pela qual enveredara. A infeliz estava esgotada, não de cansaço,
mas de terror, e, quando d’Artagnan pousou-lhe a mão no ombro, ela caiu de
joelhos, gritando com uma voz estrangulada:
— Mate-me, se quiser, mas não saberá de nada!
D’Artagnan reergueu-a, passando-lhe o braço ao redor da cintura, mas, ao
constatar por seu peso que ela estava prestes a desmaiar, apressou-se em
tranquilizá-la com protestos de fidelidade. Esses protestos não eram nada
para a sra. Bonacieux, pois protestos desse tipo podem ser feitos com as
piores intenções do mundo, mas a voz era tudo. A moça julgou reconhecer o
som daquela voz, reabriu os olhos, lançou um olhar para o homem que lhe
causara tanto medo e, reconhecendo d’Artagnan, deu um grito de alegria.
— Oh, é o senhor, é o senhor! — exclamou ela. — Obrigada, meu Deus!
— Sim, sou eu — disse d’Artagnan —, eu, que Deus enviou para velar
pela senhora.
— Era com essa intenção que o senhor me seguia? — perguntou, com um
sorriso cheio de vaidade, a jovem, cuja natureza maliciosa voltava a
prevalecer, e na qual todo temor se extinguira a partir do momento em que
reconhecera um amigo naquele que tomara por inimigo.
— Não — respondeu d’Artagnan —, não, admito, foi o acaso que me
colocou em seu caminho. Vi uma mulher batendo na janela de um amigo
meu…
— Um amigo seu? — interrompeu a sra. Bonacieux.
— Certamente. Aramis é um grande amigo meu.
— Aramis! O que é isso?
— Não me venha com essa! Vai me dizer que não conhece Aramis?
— É a primeira vez que ouço esse nome.
— Então é a primeira vez que vem a essa casa?
— Sem dúvida.
— E não sabia que era habitada por um rapaz?
— Não.
— Por um mosqueteiro?
— De forma alguma.
— Então não era ele que a senhora procurava?
— Claro que não. Aliás, o senhor viu perfeitamente. A pessoa com quem
falei é uma mulher.
— É verdade, mas essa mulher é conhecida de Aramis.
— Não faço ideia.
— Considerando que está na casa dele.
— Isso não me diz respeito.
— Mas quem é ela?
— Oh, esse segredo não me pertence.
— Cara senhora Bonacieux, a senhora é encantadora, mas ao mesmo
tempo é a mulher mais misteriosa…
— Perco com isso?
— Não, ao contrário, a senhora é adorável.
— Então, dê-me seu braço.
— Com prazer. E agora?
— Agora, conduza-me.
— Para onde?
— Para onde vou.
— Mas aonde vai?
— O senhor verá, pois me deixará na porta.
— Devo esperá-la?
— Será inútil.
— Voltará então sozinha?
— Pode ser que sim, pode ser que não.
— Mas a pessoa que irá acompanhá-la será um homem ou uma mulher?
— Ainda não sei de nada.
— Pois eu saberei!
— E como pretende fazer isso?
— Vou esperá-la e vê-la sair.
— Nesse caso, adeus!
— Como assim?
— Não preciso do senhor.
— Mas a senhora havia pedido…
— A ajuda de um cavalheiro, não a vigilância de um espião.
— A palavra é um pouco dura!
— Como se chamam aqueles que seguem as pessoas à sua revelia?
— Indiscretos.
— A palavra é muito leve.
— Muito bem, senhora, vejo que devo ceder a todos os seus desejos.
— Por que se privou do mérito de fazê-lo prontamente?
— E não há nenhum mérito em meu arrependimento?
— E está de fato arrependido?
— Não sei. O que sei é que prometo fazer tudo que a senhora quiser se me
deixar acompanhá-la aonde vai.
— E irá embora depois?
— Sim.
— Sem espiar minha saída?
— Sim.
— Palavra de honra?
— Palavra de cavalheiro!
— Então pegue meu braço e caminhemos.
D’Artagnan ofereceu o braço à sra. Bonacieux, que se pendurou nele, meio
risonha, meio trêmula, e juntos alcançaram o topo da rua de La Harpe. Nesse
ponto, a moça fez como se hesitasse, como já fizera na rua de Vaugirard.
Entretanto, por certos sinais, pareceu reconhecer uma porta e, aproximando-
se dessa porta, disse:
— Pronto, senhor, é aqui o meu compromisso. Mil vezes obrigada por sua
honrosa companhia, que me salvou de todos os perigos aos quais, sozinha, eu
ficaria exposta. Mas é hora de cumprir sua palavra. Cheguei à minha
destinação.
— E não sentirá medo na volta?
— Só tenho medo dos ladrões.
— E isso é pouco?
— O que poderiam roubar de mim? Não tenho um tostão comigo.
— Está esquecendo esse lindo lenço, bordado com um brasão.
— Qual?
— O que encontrei aos seus pés e recoloquei no seu bolso.
— Cale-se, cale-se, infeliz! — exclamou a moça. — Quer me ver em
apuros?
— Bem vê que ainda corre perigo, pois bastou uma palavra para vê-la
tremer, e a senhora mesma diz que, se escutassem essa palavra, estaria
perdida. Ah, senhora — exclamou d’Artagnan, agarrando-lhe a mão e
cobrindo-a com um olhar ardoroso —, seja mais generosa, confie em mim.
Então não leu nos meus olhos que só há lealdade e simpatia no meu coração!
— Sim — respondeu a sra. Bonacieux. — Pergunte os meus segredos, e eu
lhe direi, mas, com o dos outros, é diferente.
— Está bem — disse d’Artagnan —, eu os descobrirei sozinho. Uma vez
que tais segredos podem exercer uma influência sobre sua vida, cumpre que
eu os desvende.
— Tenha muito cuidado — alertou a jovem, com uma seriedade que fez
d’Artagnan estremecer contra sua vontade. — Oh, não interfira nos meus
assuntos, não tente me ajudar no que realizo. E peço-lhe isso em nome do
interesse que lhe inspiro, em nome do favor que me prestou, e que jamais
esquecerei. Tente acreditar em mim. Não se preocupe mais comigo, eu não
existo mais para o senhor, que seja como se nunca me tivesse visto.
— Aramis deve fazer o mesmo que eu, senhora? — disse d’Artagnan,
despeitado.
— O senhor já pronunciou esse nome duas ou três vezes. Não obstante, eu
lhe disse que não o conhecia.
— A senhora não conhece o homem em cuja janela foi bater. Ora, vamos,
senhora, não me julgue tão crédulo!
— Confesse que é para me fazer falar que o senhor inventou essa história e
criou esse personagem.
— Não inventei nada, senhora, não criei nada, é a pura verdade.
— E diz que um de seus amigos mora naquela casa?
— Digo e repito pela terceira vez, meu amigo mora naquela casa, e esse
amigo é Aramis.
— Tudo isso irá se esclarecer mais tarde — murmurou a moça. — Agora,
senhor, cale-se.
— Se pudesse ver no fundo do meu coração — disse d’Artagnan —, nele
leria tanta curiosidade que teria pena de mim, e tanto amor que saciaria na
mesma hora minha curiosidade. Nada temos a recear daqueles que nos amam.
— O senhor fala muito depressa em amor, cavalheiro! — retrucou a moça,
balançando a cabeça.
— É porque o amor me surpreendeu pela primeira vez, e ainda não
completei vinte anos.
A moça observou-o furtivamente.
— Escute, tenho uma pista — disse d’Artagnan. — Três meses atrás, quase
duelei com Aramis por um lenço igual ao que a senhora mostrou à mulher
que estava na casa dele, por um lenço bordado da mesma maneira, tenho
certeza.
— Cavalheiro — interrompeu a moça —, devo dizer que o senhor me
cansa, com tantas perguntas.
— Mas a senhora, tão prudente, imagine se acabasse detida com esse lenço
e ele fosse apreendido, não se veria comprometida?
— E por que motivo? Essas iniciais não são as minhas, C.B., Constance
Bonacieux?
— Ou Camille de Bois-Tracy.
— Silêncio, senhor, silêncio! Ah, se os perigos que eu mesma corro não o
detêm, pense nos que o senhor poderia correr!
— Eu?
— Sim, o senhor. Quem me conhece corre não só o risco de ser preso,
como o de perder a vida.
— Então, não a deixo mais.
— Senhor — disse a moça, suplicando e juntando as mãos —, em nome
dos céus, em nome da honra de um militar, em nome da cortesia de um
cavalheiro, afaste-se. Ah, meia-noite, é a hora em que me esperam.
— Senhora — conformou-se o rapaz, fazendo uma saudação —, não sei
recusar nada a quem me pede dessa forma. Alegre-se, estou de partida.
— Mas não me seguirá, não me espionará?
— Volto para casa agora mesmo.
— Ah, eu sabia que o senhor era um rapaz direito! — exclamou a sra.
Bonacieux, estendendo-lhe uma das mãos e colocando a outra na aldrava de
uma portinha quase perdida na fachada.
D’Artagnan pegou a mão que lhe estendiam e beijou-a com ardor.
— Ah, antes eu quisera nunca tê-la conhecido — desabafou d’Artagnan,
com aquela brutalidade ingênua que as mulheres muitas vezes preferem às
afetações da polidez, porque revela o pensamento profundo e atesta que o
sentimento prevalece sobre a razão.
— Não diga isso! — replicou a sra. Bonacieux, com uma voz quase
acariciante e apertando a mão de d’Artagnan, que não largara a sua. — Tenho
uma opinião diferente: o que está perdido hoje não está perdido no futuro.
Quem sabe se, quando eu estiver livre do meu juramento, não irei satisfazer
sua curiosidade?
— E faz a mesma promessa ao meu amor? — exclamou d’Artagnan, no
auge da alegria.
— Oh, nesse aspecto não posso me comprometer, isso vai depender dos
sentimentos que souber me inspirar.
— Por exemplo, hoje, senhora…
— Hoje, senhor, ainda estou apenas cheia de gratidão.
— Ah, a senhora é encantadora demais — disse d’Artagnan com tristeza
—, e abusa do meu amor.
— Não, faço uso de sua generosidade, só isso. Mas, acredite, com certas
pessoas tudo é recuperável.
— Oh, a senhora me faz o mais feliz dos homens! Não se esqueça desta
noite, não se esqueça desta promessa.
— Fique descansado. No devido tempo, e no lugar apropriado, eu me
lembrarei de tudo. Vá então, vá, em nome dos céus! Sou esperada à meia-
noite em ponto, e estou atrasada.
— Apenas cinco minutos.
— Sim, mas, em certas circunstâncias, cinco minutos são cinco séculos.
— Quando se ama.
— Essa é boa! Quem lhe diz que não tenho um caso amoroso?
— É um homem que a espera? — exasperou-se d’Artagnan. — Um
homem!
— Pronto, agora a discussão começará novamente — disse a sra.
Bonacieux, com um meio sorriso que não escondia um sinal de impaciência.
— Não, não, estou de partida, retiro-me. Acredito na senhora, quero ter
todo o mérito de minha lealdade, ainda que essa lealdade seja uma estupidez.
Adeus, senhora, adeus!
E, como se não tivesse forças para desprender-se da mão que segurava
senão por um impulso, afastou-se correndo, enquanto a sra. Bonacieux dava,
como na janela de Aramis, três batidas lentas e regulares. Ao chegar à
esquina, d’Artagnan voltou-se. A porta se abrira e fechara, a linda esposa do
comerciante sumira.
D’Artagnan continuou seu caminho. Dera sua palavra de não espionar a
sra. Bonacieux e, dependesse sua vida de saber para onde ela se dirigia ou
quem iria acompanhá-la, d’Artagnan teria voltado para casa, pois dissera que
ia voltar. Cinco minutos mais tarde, estava na rua dos Coveiros.
— Pobre Athos — dizia —, não deve ter entendido nada. Possivelmente
dormiu enquanto me esperava, ou voltou para casa e, ao chegar lá, percebeu
que uma mulher estivera ali. Uma mulher na casa de Athos! Afinal —
continuou d’Artagnan —, havia efetivamente uma na casa de Aramis. Isso é
tudo muito estranho, e me pergunto como irá terminar.
— Mal, patrão, mal — respondeu uma voz que o rapaz reconheceu como a
de Planchet. Enquanto monologava em voz alta, à maneira das pessoas muito
preocupadas, enveredara por uma passagem que levava à escadinha de seu
quarto.
— Como, mal? Que quer dizer, imbecil? — perguntou d’Artagnan. — O
que aconteceu?
— Todo tipo de desgraças.
— Quais?
— Para começar, o sr. Athos está preso.
— Preso! Athos! Preso! Por quê?
— Foi encontrado em nossa casa, confundiram-no com o senhor.
— E quem o prendeu?
— A guarda chamada pelos homens de preto que o senhor escorraçara.
— Por que ele não se apresentou? Por que não falou que não tinha nada a
ver com esse caso?
— Foi de propósito que não o fez, senhor, ao invés disso ele se aproximou
de mim e declarou: “É o seu patrão que precisa de liberdade neste momento,
não eu, uma vez que ele sabe tudo e eu nada sei. Pensarão que está preso, e
isso lhe dará tempo. Daqui a três dias, direi quem sou e serão obrigados a me
soltar.”
— Bravo, Athos! Nobre coração! — exaltou d’Artagnan. — Sua marca é
inconfundível! E o que fizeram os guardas?
— Quatro escoltaram-no não sei se para a Bastilha ou para o Fort-
l’Évêque. Dois ficaram com os homens de preto, que revistaram tudo e
confiscaram todos os papéis. Por fim, os dois últimos, durante essa busca,
montaram guarda na porta. Depois, quanto tudo terminou, foram embora,
deixando a casa vazia e tudo revirado.
— E Porthos e Aramis?
— Não os encontrei, não apareceram.
— Mas podem aparecer de uma hora para outra, você não mandou dizer-
lhes que eu os esperava?
— Sim, senhor.
— Pois bem! Não saia daqui. Se eles aparecerem, conte-lhes o que me
aconteceu e peça que me esperem na taberna Pomme du Pin. Aqui, será
perigoso, a casa pode estar vigiada. Vou correr até a casa do sr. de Tréville
para comunicar-lhe tudo isso e depois irei ter com eles.
— Está bem, senhor — disse Planchet.
— Mas não arrede o pé daqui, não tenha medo! — ordenou d’Artagnan,
voltando sobre seus passos para recomendar coragem a seu lacaio.
— Fique tranquilo, patrão — disse Planchet —, o senhor ainda não me
conhece. Sou corajoso quando quero, o problema é eu querer. A propósito,
sou da Picardia.
— Então, está combinado — disse d’Artagnan —, deixe-se matar mas não
abandone seu posto.
— Sim, senhor, e não há nada que eu não faça para lhe provar minha
afeição.
“Bom”, pensou d’Artagnan, “aparentemente o método que apliquei a esse
rapaz funcionou. Voltarei a aplicá-lo se tiver chance.”
Então, com toda a velocidade de que suas pernas eram capazes, não
obstante estarem já um pouco cansadas pelo corre-corre do dia, d’Artagnan
dirigiu-se à rua do Vieux-Colombier.
O sr. de Tréville achava-se ausente, estando de guarda no Louvre com sua
companhia.
Era necessário encontrar o sr. de Tréville. Ele precisava ser posto a par do
que estava acontecendo. D’Artagnan decidiu tentar entrar no Louvre. Seu
traje de guarda da companhia do sr. des Essarts deveria servir-lhe de
passaporte.
Desceu então a rua dos Petits-Augustins, e percorreu o cais até chegar à
Pont-Neuf. Por um instante cogitou atravessar o rio de balsa, mas, prestes a
embarcar, enfiara mecanicamente a mão no bolso e constatara que não tinha
com que pagar o balseiro.
Quando chegava na altura da rua Guénégaud, viu irromper da rua
Dauphine um grupo composto de duas pessoas e cujo aspecto impressionou-
o.
As duas pessoas que compunham o grupo eram: uma, um homem; a outra,
uma mulher.
A mulher tinha os modos da sra. Bonacieux, e o homem tão parecido com
Aramis que enganaria qualquer um.
Como se não bastasse, a mulher usava aquele manto preto que d’Artagnan
ainda via desenhar-se na janela da rua de Vaugirard e na porta da rua de La
Harpe.
Para piorar, o homem envergava o uniforme dos mosqueteiros.
O capuz da mulher estava levantado, o homem mantinha um lenço no
rosto, e, como sugeria essa dupla precaução, ambos tinham interesse em não
ser reconhecidos.
Pegaram a ponte. Era o caminho de d’Artagnan, visto que ele se dirigia ao
Louvre. D’Artagnan seguiu-os.
Não tinha dado ainda vinte passos e já estava convencido de que a mulher
era a sra. Bonacieux e o homem, Aramis.
Sentiu na hora todas as suspeitas do ciúme agitando-se em seu coração.
Julgava-se duplamente traído, pelo amigo e por aquela a quem já amava
como sua amante. A sra. Bonacieux lhe jurara pelos grandes deuses que não
conhecia Aramis, e quinze minutos depois de lhe fazer esse juramento, ele a
encontrava nos braços do mosqueteiro.
D’Artagnan só não parou para pensar que conhecera a bonita esposa do
comerciante havia apenas três horas, que ela não lhe devia nada senão um
pouco de gratidão por havê-la libertado dos homens de preto que pretendiam
raptá-la, e que ela não lhe prometera nada. Viu-se como um amante ultrajado,
traído, achincalhado. O sangue e a raiva subiram-lhe à face, e ele resolveu
tirar satisfações.
A moça e o rapaz perceberam que estavam sendo seguidos e apertaram o
passo. D’Artagnan pôs-se a correr, ultrapassou-os, depois voltou na direção
deles no momento em que se encontravam defronte da Samaritana, iluminada
por um poste que projetava sua luminosidade sobre toda essa parte da ponte.
D’Artagnan estacou diante deles, e os dois pararam na sua frente.
— O que deseja, cavalheiro? — perguntou o mosqueteiro, recuando um
passo e com certo sotaque estrangeiro que provava a d’Artagnan como se
equivocara em parte de suas conjeturas.
— Não é Aramis! — exclamou.
— Não, senhor, não sou Aramis e, pela sua exclamação, vejo que me
confundiu com outra pessoa. Eu o perdoo por isso.
— O senhor me perdoa! — indignou-se d’Artagnan.
— Sim — respondeu o desconhecido. — Portanto, deixe-me passar, uma
vez que não é comigo que tem assuntos a tratar.
— Tem razão, cavalheiro — concordou d’Artagnan —, não é o senhor que
procuro, é a senhora.
— A senhora! O senhor não a conhece — disse o estrangeiro.
— Está enganado, cavalheiro, eu a conheço.
— Ah — fez a sra. Bonacieux num tom de censura —, ah, senhor! Eu tinha
sua palavra de militar e sua honra de cavalheiro. Esperava contar com elas.
— E eu, senhora — disse d’Artagnan, embaraçado —, a senhora me havia
prometido…
— Pegue meu braço, senhora — disse o estrangeiro —, e vamos em frente.
Entretanto, d’Artagnan, aturdido, aterrado, aniquilado por tudo que lhe
acontecia, permanecia de pé e com os braços cruzados diante do mosqueteiro
e da sra. Bonacieux.
O mosqueteiro deu dois passos à frente e afastou d’Artagnan com a mão.
D’Artagnan deu um passo atrás e sacou sua espada.
Ao mesmo tempo e com a rapidez de um raio, o desconhecido sacou a sua.
— Em nome dos céus, milorde! — exclamou a sra. Bonacieux, lançando-
se entre os contendores e agarrando as espadas diretamente com as próprias
mãos.
— Milorde! — exclamou d’Artagnan, iluminado por uma ideia súbita. —
Milorde! Perdão, mas seríeis…
— Milorde, duque de Buckingham — disse a sra. Bonacieux a meia-voz.
— E agora o senhor pode causar a perdição de todos.
— Milorde, senhora, perdão, mil perdões. Mas eu a amava, milorde, e
estava com ciúmes. Sabeis o que é amar, milorde. Perdoai-me e dizei-me
onde posso buscar a morte por Vossa Graça.
— O senhor é um rapaz corajoso — disse Buckingham, estendendo para
d’Artagnan uma mão que este apertou respeitosamente. — O senhor me
oferece seus préstimos, aceito-os. Siga-nos a vinte passos de distância até o
Louvre. E, se alguém nos estiver espionando, mate-o!
D’Artagnan sobraçou sua espada nua, deixou a sra. Bonacieux e o duque
adiantarem-se vinte passos e seguiu-os, disposto a executar ao pé da letra as
instruções do nobre e elegante ministro de Carlos I.
Mas, felizmente, o jovem admirador não teve nenhuma oportunidade de
dar ao duque essa prova de fidelidade. E a moça e o formoso mosqueteiro
entraram no Louvre pela portinha da rua de l’Échelle sem ser importunados.
Quanto a d’Artagnan, dirigiu-se imediatamente à taberna Pomme du Pin,
onde encontrou Porthos e Aramis, que o esperavam.
Porém, sem dar aos amigos nenhuma satisfação do incômodo que lhes
causara, comunicou que terminara sozinho o assunto para o qual, por um
instante, julgara precisar da intervenção dos dois.
E agora, embalados como estamos pela nossa narrativa, deixemos nossos
três amigos voltarem cada um para sua casa, e acompanhemos, pelo labirinto
do Louvre, o duque de Buckingham e sua guia.
12. Georges Villiers, duque de Buckingham

A sra.Bonacieux
Bonacieux e o duque entraram no Louvre sem dificuldade. A sra.
era conhecida por ser do estafe da rainha. O duque trajava o
uniforme dos mosqueteiros do sr. de Tréville, que, como dissemos, estava
de guarda esta noite. Germain, por sinal, estava nas graças da rainha e, se
algo acontecesse, a sra. Bonacieux seria acusada de haver introduzido seu
amante no Louvre, só isso. Ela assumiria o crime. Sua reputação estaria
perdida, é verdade, mas que valor tem no mundo a reputação de uma modesta
esposa de comerciante?
Já no pátio, o duque e a jovem mulher seguiram a muralha coisa de vinte e
cinco passos. Percorrido esse trecho, a sra. Bonacieux empurrou uma
portinhola de serviço, aberta durante o dia, mas geralmente fechada à noite. A
porta cedeu. Ambos entraram e viram-se no escuro, mas a sra. Bonacieux
conhecia todos os vãos e desvãos dessa parte do Louvre, destinada às pessoas
do séquito. Fechou novamente as portas atrás de si, pegou o duque pela mão,
deu alguns passos tateando, agarrou um corrimão, tocou o degrau com um pé
e começou a subir uma escada. O duque contou dois andares. Então ela virou
à direita, seguiu uma longa galeria, desceu novamente um andar, deu mais
alguns passos, introduziu uma chave na fechadura, abriu uma porta e
empurrou o duque num apartamento iluminado apenas por uma lamparina
noturna, dizendo: “Fique aqui, milorde duque, alguém virá.” Depois saiu pela
mesma porta, que fechou à chave, de maneira que o duque viu-se literalmente
prisioneiro.
Porém, ressaltemos, por mais isolado que se achasse, o duque de
Buckingham não sentiu um instante de medo. Uma das qualidades marcantes
de seu caráter era a busca da aventura e o amor ao romanesco. Corajoso,
temerário, empreendedor, não era a primeira vez que arriscava a vida nesse
tipo de peripécia. Ciente de que a pretensa mensagem de Ana da Áustria, na
qual fiara-se para vir a Paris, era uma armadilha, em vez de regressar à
Inglaterra, tinha, abusando do privilégio que lhe haviam concedido, declarado
à rainha que não partiria sem vê-la. Embora houvesse recusado a princípio, a
rainha acabou por recear que o duque, irritado, cometesse alguma loucura. Já
se decidira a recebê-lo e a suplicar-lhe que partisse imediatamente, quando,
na mesma noite dessa decisão, a sra. Bonacieux, que estava encarregada de ir
buscar o duque e conduzi-lo ao Louvre, foi raptada. Durante dois dias
ignorou-se completamente seu paradeiro, e tudo permaneceu em suspenso.
Porém, uma vez em liberdade, uma vez reconectada com La Porte, as coisas
retomaram seu curso, e ela acabava de realizar a perigosa tarefa que, sem a
sua prisão, teria executado três dias antes.
Buckingham, vendo-se sozinho, aproximou-se de um espelho. Aquele
uniforme de mosqueteiro caía-lhe maravilhosamente bem.
Na plenitude de seus trinta e cinco anos, era considerado, por todos os
motivos, o mais formoso fidalgo e o mais elegante cavaleiro da França e da
Inglaterra.
Favorito de dois reis, milionário, todo-poderoso num reino que ele sacudia
a seu bel-prazer e acalmava por um capricho, Georges Villiers, duque de
Buckingham, empreendia uma dessas existências fabulosas, que subsistem no
correr dos séculos como um assombro para a posteridade.
Dessa forma, autoconfiante, persuadido de seu poder, certo de que as leis
que regem os outros homens não podiam atingi-lo, ia direto ao objetivo que
se fixara, ainda que tal objetivo fosse tão elevado e deslumbrante que teria
sido loucura para qualquer outro meramente concebê-lo. Assim, conseguiu
aproximar-se várias vezes da bela e orgulhosa Ana da Áustria e inspirar-lhe
amor, deslumbrando-a finalmente.
Georges Villiers posicionou-se então diante de um espelho, como
dissemos, imprimiu à sua cabeleira loura os cachos que o peso de seu chapéu
lhe fizera perder, revirou os bigodes e, com o coração estufando de alegria,
feliz e orgulhoso de roçar o momento que tão longamente esperara, sorriu
para si mesmo de vaidade e esperança.
Nesse instante, uma porta escondida no reposteiro se abriu e uma mulher
apareceu. Buckingham acompanhou aquela aparição no espelho. Lançou um
grito, era a rainha!
Ana da Áustria tinha então vinte e seis ou vinte e sete anos, ou seja,
achava-se em todo o esplendor de sua beleza.
Seu andar era o de uma rainha, uma deusa. Seus olhos, que lançavam
reflexos de esmeralda, cheios de doçura e majestade, exibiam uma beleza
perfeita.
Sua boca era pequena, vermelha, e, embora seu lábio inferior, como o dos
príncipes da casa da Áustria, cobrisse ligeiramente o outro, era
eminentemente graciosa no sorriso, mas também profundamente severa no
desprezo.
Sua pele se destacava em suavidade e maciez, sua mão e braços eram de
uma beleza suprema, e todos os poetas da época cantavam-nos como
incomparáveis.
Por fim, seus cabelos dourados que eram em sua juventude, haviam se
tornado castanhos, e ela o usava frisados, bem claros e empoados,
emoldurando admiravelmente seu rosto, ao qual o crítico mais rigoroso só
poderia desejar um pouco menos de carmim, e o escultor mais exigente,
apenas mais um pouco de delicadeza no nariz.
Buckingham quedou-se extasiado por um momento. Ana da Áustria nunca
lhe parecera tão linda no meio dos bailes, festas e carrosséis, como se
mostrava naquele instante, num simples vestido de seda branca e
acompanhada de doña Estefana, única de suas aias espanholas que não fora
expulsa pela inveja do rei e as perseguições de Richelieu.
Ana da Áustria deu dois passos à frente. Buckingham lançou-se de joelhos
e, antes que a rainha pudesse impedi-lo, beijou a barra de seu vestido.
— Já sabeis, duque, que não fui eu quem lhe escrevi?
— Oh, sim, sim, Vossa Majestade — exclamou o duque —, sei que fui um
louco, um insensato, acreditando que a neve ganharia vida, o mármore, calor,
mas, o que quereis? Quando amamos, acreditamos piamente no amor. Aliás,
não perdi de todo a viagem, posto que vos encontro.
— Sim — respondeu Ana —, mas sabeis como e para que vos encontro,
milorde. Encontro-vos por compaixão; porque, insensível a todo o meu
sofrimento, vos obstinastes a permanecer numa cidade onde correis risco de
vida e colocais minha honra em perigo. Encontro-vos para dizer-vos que tudo
nos separa, as profundidades do mar, a inimizade dos reinos, a santidade dos
juramentos. É um sacrilégio lutar contra tanta coisa, milorde. Encontro-vos,
enfim, para dizer que não podemos mais nos ver.
— Falai, senhora, falai, rainha — disse Buckingham. — A doçura de vossa
voz cobre a dureza de vossas palavras. Dizeis sacrilégio! Mas o sacrilégio
está na separação de corações que Deus criou um para o outro.
— Milorde — exclamou a rainha —, esquecei-vos que eu nunca declarei
meu amor.
— Mas tampouco nunca me dissestes que não me amáveis. E,
efetivamente, dizer-me tais palavras seria uma imensa ingratidão da parte de
Vossa Majestade. Pois, dizei-me, onde encontrar um amor igual ao meu, um
amor que nem o tempo, nem a ausência, nem o desespero podem apagar, um
amor que se contenta com uma fita extraviada, um olhar perdido, uma palavra
escapada? Faz três anos, senhora, que vos vi pela primeira vez, e três anos
que vos amo da mesma maneira. Quer que vos descreva vossos trajes a
primeira vez que vos encontrei? Que detalhe cada um de vossos adornos?
Muito bem, ainda vejo vossa figura: sentada em coxins, à moda da Espanha,
num vestido de seda verde com bordados em ouro e prata, mangas bufantes e
abotoadas com pesados diamantes sob vossos braços, esses admiráveis
braços; um rufo fechado, uma touquinha na cabeça, da cor do vestido, e sobre
essa touca uma pluma de garça-real. Oh, vede, vede, fecho os olhos e vejo a
vós como antes; reabro-os e vejo-vos como sois agora, isto é, mil vez mais
bela!
— Que loucura! — repreendeu-o Ana da Áustria, que não tinha coragem
de querer mal ao duque por ter guardado tão bem seu retrato no coração. —
Que loucura alimentar uma paixão inútil com semelhantes recordações!
— E com que pretendíeis que eu vivesse? Pois só disponho de recordações.
É a minha felicidade, meu tesouro, minha esperança. Sempre que vos
encontro, é um diamante que guardo no escrínio do meu peito. Este é o
quarto que deixais cair e que eu recolho, pois, em três anos, senhora, só estive
convosco quatro vezes: a primeira que acabo de vos descrever, a segunda na
casa da sra. de Chevreuse, a terceira nos jardins de Amiens.
— Duque — disse a rainha, ruborizando —, não fale daquele sarau.
— Oh, pelo contrário, falemos dele. Foi o sarau mais feliz e radioso da
minha vida. Lembrai-vos da noite linda que fazia? Como o ar estava doce e
perfumado, como o céu estava azul e todo salpicado de estrelas! Ah, nessa
ocasião, majestade, pudemos ficar um instante a sós; nessa ocasião, estáveis
disposta a me contar tudo: o isolamento de vossa vida, as mágoas de vosso
coração. Estáveis apoiada no meu braço, vede, este aqui. Eu sentia,
inclinando minha cabeça, vossos belos cabelos roçarem meu rosto, e, a cada
vez que o roçavam, eu estremecia de alto a baixo. Oh, rainha, rainha! Oh, não
sabeis o que há de felicidade celestial ou de alegrias paradisíacas encerradas
num momento como esse. Eu daria tudo, meus bens, minha fortuna, minha
glória, os dias que me restam, eu daria tudo por um instante e uma noite
parecidos! Pois aquela noite, majestade, aquela noite vós me amáveis, eu vos
juro.
— É possível, milorde, que a influência do lugar, o encanto do belo sarau,
a fascinação de seu olhar, enfim, essas mil circunstâncias que às vezes se
conjugam para levar uma mulher à perdição, se tenham agrupado em torno de
mim naquela noite fatal. Mas como vistes, milorde, a rainha correu em
socorro da mulher que fraquejava. À primeira palavra que ousastes dizer, à
primeira temeridade à qual me vi obrigada a corresponder, interrompi
imediatamente.
— Oh, sim, sim, é verdade, e um outro amor que não o meu teria
sucumbido a essa provação. Mas o meu amor, o meu, dela saiu mais ardente e
mais eterno. Pensastes em fugir de mim, voltando a Paris, pensastes que eu
não me atreveria a abandonar o tesouro que meu soberano me encarregara de
vigiar. Ah, o que me importam todos os tesouros do mundo e todos os reis da
terra! Uma semana depois, eu estava de volta, majestade. Dessa vez, não
tivestes nada a me dizer: eu arriscara minha posição, minha vida, para ver-vos
um segundo, sequer toquei em vossa mão, e me perdoastes vendo-me tão
submisso e arrependido.
— Sim, mas a calúnia tomou conta de todas essas loucuras, de que eu era
inocente, sabeis muito bem, milorde. O rei, instigado pelo sr. cardeal, fez um
estardalhaço: a sra. de Vernet foi expulsa, Putange exilado, a sra. de
Chevreuse caiu no ostracismo, e, quando quisestes voltar como embaixador
na França, o próprio rei, lembrai-vos milorde, o próprio rei se opôs.
— Sim, e a França pagará com uma guerra a recusa de seu rei. Não vos
posso mais ver, Majestade, pois bem, espero que ouçais falar de mim todos
os dias. Que finalidade julgais que têm essa expedição de Ré e essa liga com
os protestantes de La Rochelle que eu planejo? O prazer de ver-vos! Não
tenho qualquer chance de a mão armada chegar até Paris, bem sei. Mas essa
guerra poderá inaugurar uma paz, essa paz necessitará de um negociador,
esse negociador serei eu. Não ousarão mais recusar-me, então, e voltarei a
Paris, e verei novamente vossa pessoa, serei feliz um instante. Milhares de
homens, é verdade, terão pago minha felicidade com suas vidas, mas o que
me importa, contanto que vos reveja! Pode ser que tudo isso seja loucura, um
desatino, mas, dizei-me, que mulher teve amante mais amoroso? Que rainha
teve escravo mais ardoroso?
— Milorde, milorde, invocais em vossa defesa coisas que vos acusam
ainda mais. Milorde, todas essas provas de amor que pretendeis me dar são
quase crimes.
— Porque não me amais, senhora. Se me amásseis, veria tudo isso de outra
forma. Se me amásseis… Oh, se me amásseis seria o cúmulo da felicidade e
eu enlouqueceria! Ah, a sra. de Chevreuse, que mencionastes ainda há pouco,
a sra. de Chevreuse foi menos cruel que vós. Holland amou-a e ela
correspondeu a seu amor.
— A sra. de Chevreuse não era rainha — murmurou Ana da Áustria,
vencida à sua revelia pelas juras de tão profundo amor.
— Se não o fôsseis, me amaríeis, então? Posso então crer que é apenas a
dignidade de vossa posição que vos torna cruel comigo, posso então crer que,
se fôsseis a sra. de Chevreuse, o pobre Buckingham teria esperanças?
Obrigado por essas doces palavras, ó minha bela Majestade, mil vezes
obrigado.
— Ah, milorde, entendestes mal, interpretastes mal. Não quis dizer…
— Silêncio! Silêncio! — disse o duque — Se um erro me torna venturoso,
não tenhais a crueldade de corrigi-lo. Vós mesma dissestes, atraíram-me para
uma cilada, na qual talvez eu perca a vida, pois, vede que estranho, de uns
tempos para cá tenho o pressentimento de que vou morrer — e o duque sorriu
um sorriso triste e encantador ao mesmo tempo.
— Oh, meu Deus! — assustou-se Ana da Áustria, demonstrando sem
querer o interesse que dispensava ao duque.
— Não digo isso para assustar-vos, não. É inclusive ridículo o que vos
digo, e crede que não me preocupo nem um pouco com sonhos desse tipo.
Mas essas palavras que acabastes de pronunciar, essa esperança que quase me
destes, terão pago tudo, nem que seja a minha vida.
— Pois bem, duque — disse Ana da Áustria —, também eu tenho
pressentimentos, também eu tenho sonhos. Sonhei que vos vi caído e
ensanguentado, com um ferimento.
— No lado esquerdo, não é, com uma faca? — interrompeu Buckingham.
— Isso mesmo, milorde, no lado esquerdo, com uma faca. Quem vos
poderia ter contado que tive esse sonho? Só o revelei a Deus, e ainda assim
apenas em prece.
— Não peço mais nada, amais-me, assim está bem.
— Eu? Amar-vos?
— Sim, vós. Deus teria porventura vos enviado os mesmos sonhos que os
meus, caso não me amásseis? Teríamos os mesmos pressentimentos, caso
nossas duas existências não se tocassem pelo coração? Amais-me, ó rainha?
Ireis chorar por mim?
— Oh, meu Deus, meu Deus! — exclamou Ana da Áustria. — Isso é mais
do que posso suportar. Por favor, duque, em nome dos céus, ide, retirai-vos.
Não sei se vos amo, ou se não vos amo, o que sei é que não cometerei
perjúrio. Tende então pena de mim, e ide. Oh, se caísseis ferido na França, se
morrêsseis na França, se eu pudesse supor que vosso amor por mim foi a
causa de vossa morte, eu nunca me consolaria, ficaria louca. Ide, então, ide,
suplico-vos.
— Oh, como sois bela assim! Oh, como vos amo! — exaltou-se
Buckingham.
— Ide! Ide! Suplico-vos, e retornai mais tarde. Retornai como embaixador,
como ministro, retornai cercado de guardas que vos defendam, de servidores
que zelem por vós, e então não me preocuparei mais com vossa vida, e terei
prazer em vos rever.
— Oh, é mesmo verdade o que me dizeis?
— Sim…
— Dai-me então uma prova de sua indulgência, um objeto que venha de
vós e que me lembre que isso não foi um sonho. Alguma coisa que tenhais
usado e que eu possa usar também, um anel, um colar, um cordão.
— E partireis, partireis se eu vos der o que me pedis?
— Sim.
— Imediatamente?
— Sim.
— Deixareis a França, regressareis à Inglaterra?
— Sim, juro!
— Então, esperai.
E Ana da Áustria entrou e saiu de suas dependências quase no mesmo
instante, segurando nas mãos um pequeno estojo de pau-rosa com seu brasão
todo incrustado em ouro.
— Aqui está, milorde — disse ela —, guardai isso para lembrar-vos de
mim.
Buckingham pegou o estojo e caiu de joelhos pela segunda vez.
— Havíeis me prometido ir embora — disse a rainha.
— E cumpro com a minha palavra. Vossa mão, vossa mão, senhora, e
parto.
Ana da Áustria estendeu uma das mãos, fechando os olhos e apoiando-se
com a outra em Estefana, pois sentia suas forças lhe faltarem.
Buckingham pousou com paixão seus lábios na bela mão, depois,
erguendo-se, disse:
— Em menos de seis meses, se eu não estiver morto, torno a ver-vos,
Majestade, nem que tenha que virar o mundo de cabeça para baixo.
E, fiel à promessa que fizera, lançou-se para fora do cômodo.
Na galeria, encontrou à sua espera a sra. Bonacieux, que, com as mesmas
precauções e o mesmo sucesso, acompanhou-o até fora do Louvre.
13. O sr. Bonacieux

H avia nisso tudo, como pudemos notar, um personagem acerca do qual, a


despeito de sua situação precária, não nos preocupamos senão
modestamente. Esse personagem é o sr. Bonacieux, respeitável mártir
das intrigas políticas e amorosas, tão emaranhadas umas nas outras nessa
época ao mesmo tempo tão heroica e galante.
Ainda bem — lembre-se ou não o leitor — que prometemos não perdê-lo
de vista.
Os guardas que efetuaram sua prisão levaram-no direto para a Bastilha,
onde o fizeram passar tremendo diante de um pelotão de soldados com
mosquetes.
Dali, conduzido a uma galeria subterrânea, foi, da parte dos que o haviam
trazido, objeto das mais grosseiras injúrias e dos mais atrozes maus-tratos. Os
guardas viam que ele não era um fidalgo, e o tratavam como verdadeiro
pobretão.
No fim de aproximadamente meia hora, um meirinho veio pôr fim às suas
torturas, mas não às inquietudes, dando ordens para levar o sr. Bonacieux à
sala dos interrogatórios. Geralmente os prisioneiros eram interrogados em
suas celas, mas com o sr. Bonacieux não fizeram tanta cerimônia.
Dois guardas apoderaram-se do comerciante, fizeram-no atravessar um
pátio, entrar num corredor onde havia três sentinelas, abriram uma porta e o
empurraram para um cômodo baixo, onde a mobília resumia-se a uma mesa,
uma cadeira e um comissário. O comissário estava sentado na cadeira e
ocupado em escrever sobre a mesa.
Os dois guardas conduziram o prisioneiro até a mesa e, a um sinal do
comissário, afastaram-se para fora do alcance da voz.
O comissário, que até então mantivera a cabeça abaixada sobre seus
papéis, levantou-a para examinar quem tinha pela frente. Esse comissário era
um homem de aspecto rebarbativo, nariz pontudo, maçãs do rosto amarelas e
salientes, olhos pequenos mas inquisidores e vivos, cuja fisionomia tinha algo
de fuinha e raposa ao mesmo tempo. Sua cabeça, assentada num pescoço
longo e móvel, saía de sua ampla toga preta balançando-se com um
movimento bem parecido com o de uma tartaruga que esticasse a cabeça para
fora da carapaça.
Ele começou por perguntar ao sr. Bonacieux seu nome e sobrenome, sua
idade, seu estado civil e seu endereço.
O acusado disse que se chamava Jacques-Michel Bonacieux, que tinha
cinquenta e um anos, que era um dono de armarinho aposentado, e que
morava na rua dos Coveiros nº 11.
O comissário então, em vez de continuar a interrogá-lo, fez-lhe um longo
sermão sobre o perigo que corre um burguês obscuro ao intrometer-se nas
coisas públicas.
Complicou esse falatório com uma exposição na qual discorreu sobre a
pujança e os feitos do sr. cardeal, ministro incomparável, vencedor dos
ministros passados, exemplo para os ministros futuros: feitos e pujança que
ninguém negava de maneira impune.
Depois da segunda parte de seu discurso, fixando o olhar de gavião no
pobre Bonacieux, convidou-o a refletir sobre a gravidade de sua situação.
As reflexões do comerciante já estavam todas feitas. Ele amaldiçoava o
momento em que o sr. de La Porte tivera a ideia de casá-lo com sua afilhada,
e sobretudo o instante em que tal afilhada fora recebida como costureira da
rainha.
A base do caráter de mestre Bonacieux consistia num misto de profundo
egoísmo e avareza sórdida, conjunto esse temperado por uma extrema
covardia. O amor que lhe inspirara sua jovem mulher, por ser um sentimento
absolutamente secundário, não podia lutar contra os sentimentos primitivos
que acabamos de enumerar.
Bonacieux refletiu, com efeito, no que acabavam de lhe dizer.
— Mas, senhor comissário — disse ele timidamente —, creia que ninguém
melhor do que eu conhece e aprecia o mérito da incomparável Eminência
pela qual temos a honra de ser governados.
— Realmente? — perguntou o comissário, com um ar de dúvida. — Mas
se isso é verdade, como veio parar na Bastilha?
— Como vim parar aqui, ou melhor, por que vim parar aqui — replicou o
sr. Bonacieux —, eis o que me é absolutamente impossível dizer, visto que eu
mesmo o ignoro; mas, seguramente, não é por ter desobedecido, pelo menos
conscientemente, ao sr. cardeal.
— Mas o senhor deve ter cometido um crime, uma vez que é acusado de
alta traição.
— De alta traição! — exclamou o sr. Bonacieux, apavorado. — E como
quer que um pobre varejista, que detesta os huguenotes e abomina os
espanhóis, seja acusado de alta traição? Reflita, senhor, a coisa é
materialmente impossível.
— Sr. Bonacieux — disse o comissário, olhando para o acusado como se
os seus olhinhos tivessem a faculdade de ler no mais recôndito dos corações
—, o senhor tem mulher?
— Sim, senhor — respondeu o comerciante, todo trêmulo, percebendo que
agora as coisas iriam se complicar —, isto é, eu tinha uma.
— Como, tinha uma?! O que fez dela, uma vez que não a tem mais?
— Raptaram-na, senhor.
— Raptaram-na? — disse o comissário. — Ah!
Bonacieux percebeu com esse “ah!” que o negócio se complicava cada vez
mais.
— Raptaram-na! — repetiu o comissário. — E sabe quem foi o homem
que cometeu esse rapto?
— Creio que o conheço.
— Quem é?
— Veja bem que não afirmo nada, sr. comissário, apenas suspeito.
— De quem suspeita? Vamos, responda francamente.
O sr. Bonacieux de repente ficou sem saber o que fazer. Devia negar tudo
ou falar tudo? Negando tudo, poderiam achar que ele sabia demais para
confessar; falando tudo, dava mostras de boa vontade. Decidiu-se então por
falar tudo.
— Suspeito — disse ele — de um moreno alto, fisionomia altiva, com tudo
de um grão-senhor. Desconfio que ele nos seguiu várias vezes quando eu
esperava minha mulher em frente à saída lateral do Louvre para acompanhá-
la até nossa casa.
O comissário pareceu experimentar certa inquietude.
— E o nome dele? — perguntou.
— Oh, quanto ao nome dele, não faço ideia, mas, se o reencontrasse um
dia, afianço-lhe que o reconheceria na hora, ainda que no meio de mil
pessoas.
O comissário carregou o sobrolho.
— Disse que o reconheceria no meio de mil pessoas? — continuou ele.
— Ou melhor — replicou o sr. Bonacieux, que percebeu ter enveredado
pelo caminho errado —, ou melhor…
— O senhor afirmou que o reconheceria — disse o comissário. — Muito
bem, por hoje, chega. Preciso, antes de continuarmos, avisar a uma pessoa
que o senhor conhece o raptor de sua mulher.
— Mas eu não disse que o conhecia! — exclamou Bonacieux,
desesperado. — Disse o contrário…
— Levem o prisioneiro — ordenou o comissário aos dois guardas.
— E para onde devemos levá-lo? — perguntou o escrivão.
— Para um calabouço.
— Qual?
— Oh, meu Deus, o primeiro que aparecer, contanto que a tranca seja boa
— respondeu o comissário, com uma indiferença que horrorizou o pobre
Bonacieux.
— Ai de mim! — murmurou ele consigo. — O mal se abateu sobre a
minha cabeça. Minha mulher deve ter cometido algum crime horrível,
julgam-me seu cúmplice e me punirão junto com ela. Ela deve ter falado,
deve ter confessado que me contou tudo. Como são fracas as mulheres! Um
calabouço, o primeiro que aparecer! É isso! Uma noite passa rápido, e
amanhã, a roda, o patíbulo! Oh, meu Deus, meu Deus, tende piedade de mim!
Sem dar quaisquer ouvidos às lamentações de mestre Bonacieux,
lamentações, aliás, às quais deviam estar habituados, os dois guardas
pegaram o prisioneiro por um dos braços e o levaram, enquanto o comissário
escrevia às pressas uma carta que seu meirinho aguardava.
Bonacieux não pregou o olho, e isto não porque seu calabouço fosse por
demais desconfortável, mas porque eram enormes suas inquietudes. Ele
passou a noite inteira em seu banquinho, estremecendo ao menor rumor, e,
quando os primeiros raios do dia penetraram em seu quarto, a aurora pareceu-
lhe assumir tonalidades fúnebres.
De repente, ouviu os ferrolhos serem puxados e teve um sobressalto
terrível. Achou que vinham buscá-lo com destino ao cadafalso. Assim,
quando viu pura e simplesmente aparecer, em lugar do verdugo que esperava,
o comissário e o meirinho da véspera, quase os abraçou.
— Seu caso se complicou bastante desde ontem à noite, meu bom homem
— disse-lhe o comissário —, e aconselho-o a dizer toda a verdade, pois só o
seu arrependimento pode conjurar a ira do cardeal.
— Mas estou pronto a dizer tudo — exclamou Bonacieux —, pelo menos
tudo que sei. Interrogue-me, por favor.
— Em primeiro lugar, onde está sua mulher?
— Mas já não falei que a tinham raptado?
— Sim, mas às cinco horas da tarde, graças ao senhor, ela escapou.
— Minha mulher escapou! — exclamou Bonacieux. — Oh, a infeliz!
Senhor, se ela escapou, não é culpa minha, juro.
— O que foi então fazer na casa do sr. d’Artagnan, seu vizinho, com quem
teve uma longa conversa durante o dia?
— Ah, sim senhor comissário, sim, isso é verdade, e admito que errei.
Estive na casa do sr. d’Artagnan.
— Qual era a finalidade dessa visita?
— Pedir-lhe que me ajudasse a encontrar minha mulher. Eu achava que
tinha o direito de reclamá-la. Enganei-me, ao que parece, e peço-lhe
encarecidamente perdão.
— E o que respondeu o sr. d’Artagnan?
— Prometeu-me sua ajuda, mas logo percebi que me traía.
— Não se brinca com a justiça! O sr. d’Artagnan fez um pacto com o
senhor e, em virtude desse pacto, pôs em fuga os homens da polícia que
tinham detido sua mulher e a subtraiu a todas as buscas.
— O sr. d’Artagnan raptou minha mulher! Não é possível! O que o senhor
está me dizendo?
— Felizmente, o sr. d’Artagnan está em nossas mãos e os senhores irão
passar por uma acareação.
— Por Deus, é tudo o que peço — exclamou Bonacieux. — Não me
incomodarei de ver um rosto conhecido.
— Faça entrar o sr. d’Artagnan — ordenou o comissário aos dois guardas.
Os dois guardas fizeram Athos entrar.
— Senhor d’Artagnan — disse o comissário a Athos —, relate o que se
passou entre o senhor e o cavalheiro.
— Espere! — exclamou Bonacieux. — Não é o sr. d’Artagnan que o
senhor me traz!
— Como assim? Este não é o sr. d’Artagnan? — exclamou o comissário.
— Absolutamente não — respondeu Bonacieux.
— Qual é o nome dele? — perguntou o comissário.
— Não sei dizer, não o conheço.
— Como assim? Não o conhece?
— Não.
— Nunca o viu?
— Vi, mas desconheço seu nome.
— Como se chama? — perguntou o comissário.
— Athos — respondeu o mosqueteiro.
— Mas isto não é nome de homem, isto é nome de montanha! — exclamou
o pobre interrogador, que começava a perder a cabeça.
— É o meu nome — disse tranquilamente Athos.
— Mas o senhor havia declarado chamar-se d’Artagnan.
— Eu?
— É, o senhor.
— Diga antes que me perguntaram: “O senhor é o sr. d’Artagnan?”
Respondi: “Acham isso?” Os guardas bradaram que tinham certeza. Não quis
contrariá-los. Aliás, eu podia enganar-me.
— Cavalheiro, o senhor insulta a majestade e a justiça.
— De forma alguma — replicou tranquilamente Athos.
— O senhor é o sr. d’Artagnan.
— Repare que está repetindo a mesma afirmação.
— Mas — exclamou o sr. Bonacieux —, afirmo-lhe, senhor comissário,
que é impossível ter qualquer tipo de dúvida. O sr. d’Artagnan é meu
locatário e, por conseguinte, embora não pague meus aluguéis, aliás
justamente por isso, devo conhecê-lo. O sr. d’Artagnan é um rapaz entre
dezenove e vinte anos no máximo, e o cavalheiro tem pelo menos trinta. O sr.
d’Artagnan está nos guardas do sr. des Essarts, e o cavalheiro está na
companhia dos mosqueteiros do sr. de Tréville. Veja o uniforme, senhor
comissário, veja o uniforme.
— É verdade — murmurou o comissário —, minha nossa, é verdade.
Nesse momento a porta se abriu com veemência e um mensageiro,
introduzido por um dos porteiros da Bastilha, entregou uma carta ao
comissário.
— Oh, a infeliz! — exclamou o comissário.
— O quê? O que disse? De quem está falando? Não é de minha mulher,
espero!
— Ao contrário, é dela mesma. O seu caso só piora.
— E essa agora! — exclamou o comerciante fora de si. — Faça-me a
gentileza de explicar, cavalheiro, o que tenho a ver com o que a minha
mulher faz enquanto estou preso!
— Ora, o que ela faz é a sequência de um plano armado pelos senhores,
um plano infernal!
— Juro, comissário, que o senhor está profundamente equivocado, que
nem desconfio o que minha mulher devia fazer, e que estou inteiramente
alheio ao que ela faz, e ainda que, se ela cometeu alguma tolice, renego-a,
desminto-a, amaldiçoo-a.
— Isso já é demais — disse Athos ao comissário —, se o senhor não
precisa mais de mim por aqui, envie-me para qualquer outro lugar, pois este
sr. Bonacieux está se tornando desagradável.
— Deixem os prisioneiros em seus calabouços — instruiu o comissário,
designando, com um mesmo gesto, Athos e Bonacieux. — E que sejam
vigiados mais severamente do que nunca.
— Entretanto — disse Athos com sua calma habitual —, se é com o sr.
d’Artagnan que o senhor tem negócios, não vejo como eu poderia substituí-
lo.
— Faça como lhes ordenei! — gritou o comissário. — E o mais absoluto
segredo! Ouviram?!
Athos seguiu seus guardas dando de ombros, enquanto o sr. Bonacieux
soltava lamentações de partir o coração de um tigre.
Encarceraram o comerciante no mesmo calabouço onde ele passara a noite
e lá o deixaram o dia inteiro. Por todos esse tempo, Bonacieux chorou como
um autêntico dono de armarinho, não sendo de forma alguma homem de
espada, como ele mesmo nos admitiu.
À noite, em torno das nove horas, quando se preparava para deitar, ele
ouviu passos no corredor. Esses passos aproximaram-se do calabouço, a porta
se abriu, surgiram guardas.
— Siga-nos! — comandou o oficial que vinha atrás dos guardas.
— Segui-los! — exclamou Bonacieux. — Segui-los a uma hora dessas! E
para onde, meu Deus?
— Para onde temos ordens de conduzi-lo.
— Mas isso não é uma resposta.
— Mas é a única que podemos lhe dar.
— Ah, meu Deus, meu Deus — murmurou o pobre comerciante —, dessa
vez estou perdido!
E ele seguiu mecanicamente e sem resistência os guardas que haviam ido
buscá-lo.
Percorreu o mesmo corredor que já percorrera, atravessou um primeiro
pátio interno, depois uma segunda caserna. Finalmente, na porta do pátio de
entrada, encontrou um coche cercado por quatro guardas a cavalo. Fizeram-
no entrar nesse coche, o oficial posicionou-se junto a ele, fecharam a
portinhola à chave, e ambos se viram numa prisão ambulante.
O coche pôs-se em movimento, lento como um carro fúnebre. Através da
grade aferrolhada, o prisioneiro avistava as casas e o calçamento, só isso.
Porém, como genuíno parisiense, Bonacieux reconhecia cada rua pelos
marcos, pelas tabuletas, pelos postes. Quando chegavam a Saint-Paul, local
onde eram executados os condenados da Bastilha, quase desmaiou, e
persignou-se duas vezes. Julgara que o coche pararia ali. Mas o coche
continuou.
Mais adiante, levou um novo e terrível susto, ao contornarem o cemitério
São João, onde eram enterrados os criminosos políticos. Apenas uma coisa
sossegou-o um pouco, foi que, antes serem enterrados, eles geralmente
tinham a cabeça cortada, enquanto a sua cabeça permanecia-lhe sobre os
ombros. Mas quando viu que o coche enveredava pelo caminho da Grève,
quando percebeu os telhados pontiagudos da prefeitura, quando o coche
entrou sob a arcada, julgou estar tudo terminado para ele, quis confessar-se
ao oficial, e, diante de sua recusa, soltou gritos lancinantes, a ponto de o
soldado anunciar que, se ele continuasse a ensurdecê-lo daquela forma, iria
amordaçá-lo.
Essa ameaça acalmou um pouco Bonacieux. Se tivessem que executá-lo na
Grève, não valia a pena amordaçá-lo, uma vez que haviam praticamente
chegado ao local da execução. Com efeito, o coche atravessou a praça fatal
sem se deter. Só restava a temer a Croix-du-Trahoir. O coche tomou
justamente esse caminho.
Dessa vez não havia mais dúvida, era na Croix-du-Trahoir que se
executavam os criminosos subalternos. Bonacieux tivera um surto de
grandeza, julgando-se digno de Saint-Paul ou da praça de Grève, mas era na
Croix-du-Trahoir que iriam terminar sua viagem e seu destino! Ainda não
conseguia ver a malfadada cruz, mas de alguma forma sentia-a vindo em sua
direção. Quando não restavam mais senão uns vinte passos, ele ouviu um
rumor, e o coche parou. Era mais do que podia aguentar o pobre Bonacieux,
já esmagado pelas sucessivas emoções por que passara. Soltou um débil
gemido, que poderia ser tomado pelo último suspiro de um moribundo, e
desmaiou.
14. O homem de Meung

A quela aglomeração não se devia, em absoluto, à espera de um condenado


à forca, mas sim à contemplação de um enforcado.
O coche, que se deteve por um instante, retomou seu caminho,
atravessou a multidão, seguiu em frente, entrou na rua Saint-Honoré, virou na
rua dos Bons-Enfants e parou diante de uma porta baixa.
A porta se abriu, dois guardas receberam um Bonacieux em frangalhos,
amparado pelo capelão. Empurraram-no para uma passagem, onde lhe
fizeram subir uma escada e o depositaram numa antecâmara.
Todos esses movimentos ele desempenhara de forma mecânica.
Havia caminhado como o fazemos num sonho, entrevendo os objetos
através de uma névoa. Seus ouvidos captaram sons sem compreendê-los.
Caso fosse executado naquele momento, não teria feito um gesto para se
defender, não teria emitido um grito implorando piedade.
Permaneceu então no banco, recostado na parede e com os braços arriados,
no mesmo lugar onde os guardas o tinham depositado.
Entretanto, como, olhando à sua volta, não via nenhum objeto ameaçador,
como nada indicasse que corria um perigo real, como o banco era
convenientemente estofado, como a parede era forrada com um belo couro de
Córdoba, como grandes cortinas de damasco vermelho esvoaçavam diante da
janela, presas em varais dourados, foi aos poucos se convencendo de que seu
pavor era exagerado, e começou a mover a cabeça para a direita e a esquerda,
para cima e para baixo.
Com esse movimento, ao qual ninguém se opôs, recuperou um pouco da
coragem e arriscou-se a esticar uma perna, depois a outra. Por fim, ajudando-
se com as duas mãos, levantou-se do banco e ficou sobre seus dois pés.
Nesse momento, um oficial de aparência mais amistosa abriu uma
portinhola, continuou a trocar algumas palavras com a pessoa que se
encontrava no aposento contíguo. Então, voltando-se para o prisioneiro,
disse:
— É o senhor que se chama Bonacieux?
— Sim, senhor oficial — balbuciou o comerciante, mais morto do que vivo
—, para servi-lo.
— Entre — disse o oficial.
E abriu passagem para Bonacieux, que obedeceu sem replicar, entrando
numa sala onde parecia ser esperado.
Era um amplo gabinete, com as paredes decoradas com armas de ataque e
de defesa, fechado e abafado, e no qual a lareira já estava acesa, embora
estivéssemos no fim de setembro. Uma mesa quadrada, cheia de livros e
papéis, sobre os quais se desenrolava um imenso mapa da cidade de La
Rochelle, ocupava o centro do aposento.
De pé, diante da lareira, encontrava-se um homem de estatura mediana,
aspecto altivo e soberbo, olhos penetrantes, testa larga, o perfil magro e ainda
mais alongado graças a um cavanhaque encimado por um bigode. Embora
esse homem tivesse uns trinta e seis, trinta e sete anos no máximo, cabelos,
bigode e cavanhaque já encaneciam. Esse homem tinha tudo de um guerreiro,
com exceção da espada, e suas botas de búfalo, ainda ligeiramente
empoeiradas, indicavam que montara a cavalo durante o dia.
Esse homem era Armand-Jean Duplessis, cardeal de Richelieu, não em
absoluto como o representam, alquebrado como um ancião, sofrendo como
um mártir, o corpo prostrado, a voz apagada, enterrado numa grande poltrona
como se num túmulo antecipado, vivendo exclusivamente da força de seu
gênio e sustentando sua luta com a Europa apenas graças à determinação
infinita de seu pensamento. Ele aparecia tal como realmente era nessa época,
isto é, um cavaleiro experiente e elegante, já enfraquecido fisicamente, mas
amparado pelo poder moral que fez dele um dos homens mais extraordinários
que já existiu, preparando-se, enfim, após ter apoiado o duque de Nevers em
seu ducado de Mântua, após ter tomado Nîmes, Castres e Uzès, para expulsar
os ingleses da ilha de Ré e sitiar La Rochelle.
À primeira vista, portanto, nada indicava tratar-se do cardeal, e era
impossível, para os que não conheciam seus traços, presumir diante de quem
se haviam colocado.
O pobre comerciante continuou parado na porta, enquanto os olhos do
personagem que acabamos de descrever fixaram-se sobre ele, como se
quisessem penetrar-lhe até o passado mais remoto.
— Esse aí é o tal Bonacieux? — perguntou Richellieu, após um instante de
silêncio.
— Sim, monsenhor — respondeu o oficial.
— Está bem, passe-me a papelada e saia.
O oficial pegou na mesa os papéis designados, entregou-os a quem os
pedia, inclinou-se até o chão, e saiu.
Bonacieux reconheceu naqueles papéis seus interrogatórios da Bastilha. De
tempos em tempos, o homem da lareira erguia os olhos do texto e
mergulhava-os como dois punhais até o fundo do coração do pobre dono de
armarinho.
Após dez minutos de leitura e dez segundos de reflexão, o cardeal chegou a
uma conclusão.
“Essa cabeça nunca conspirou”, sussurrou para si mesmo. “Mas não
importa, investiguemos.”
— O senhor é acusado de alta traição — disse lentamente o cardeal.
— Foi o que me disseram, monsenhor — exclamou Bonacieux, dando ao
interrogador o título que ouvira o oficial lhe dar. — Mas juro que eu não
sabia de nada.
O cardeal reprimiu um sorriso.
— O senhor conspirou com sua mulher, com a sra. de Chevreuse e com
milorde, o duque de Buckingham.
— De fato, monsenhor, ouvi-a pronunciar todos esses nomes.
— Em que circunstância?
— Ela dizia que o cardeal de Richelieu atraíra o duque de Buckingham a
Paris a fim de destruí-lo e, junto com ele, a rainha.
— Ela dizia isso? — gritou com violência o cardeal.
— Sim, monsenhor, mas eu lhe disse que estava errada em fazer
afirmações como aquela, e que Sua Eminência era incapaz…
— Cale-se, o senhor é um imbecil — ordenou o cardeal.
— Foi exatamente o que a minha mulher me respondeu, monsenhor.
— Sabe quem raptou sua mulher?
— Não, monsenhor.
— Mas tem alguma suspeita?
— Tinha, monsenhor, mas essa suspeita pareceu contrariar o sr.
comissário, e não a tenho mais.
— Sua mulher escapou, sabia disso?
— Não, monsenhor, soube depois, já na prisão, e sempre por intermédio do
sr. comissário, homem amabilíssimo!
O cardeal reprimiu um segundo sorriso.
— Então ignora o paradeiro de sua mulher após a fuga?
— Completamente, monsenhor, mas ela deve ter ido para o Louvre.
— Até a uma da manhã, ainda não havia dado entrada.
— Ai, meu Deus! O que terá acontecido?
— Saberemos, fique tranquilo. Ninguém esconde nada do cardeal, o
cardeal sabe tudo.
— Nesse caso, monsenhor, acreditai que o cardeal consentirá em me
informar o paradeiro da minha mulher?
— Talvez. Mas primeiro o senhor precisa confessar tudo o que sabe das
relações de sua mulher com a sra. de Chevreuse.
— Mas, monsenhor, não sei de nada. Nunca a vi.
— Quando o senhor ia pegar sua mulher no Louvre, ela voltava direto para
casa?
— Quase nunca. Tinha sempre negócios a tratar com os mercadores de
linho, então eu a acompanhava até eles.
— E com quantos mercadores ela se encontrava?
— Com dois, monsenhor.
— Onde moram?
— Um, na rua de Vaugirard; o outro, na rua de La Harpe.
— O senhor entrava com ela?
— Nunca, monsenhor, esperava-a na porta.
— E que pretexto ela lhe dava para entrar sozinha?
— Não me dava nenhum, falava para eu esperar, e eu esperava.
— O senhor é um marido complacente, meu caro senhor Bonacieux! —
disse o cardeal.
“Ele me chamou de seu caro senhor!”, pensou com seus botões o
comerciante. “Viva! Acho que me safei!”
— Seria capaz de reconhecer essas portas?
— Sim.
— Sabe os números?
— Sim.
— Quais são eles?
— O 25 na rua de Vaugirard, o 75 na rua de La Harpe.
— Muito bem — disse o cardeal.
A essas palavras, pegou uma campainha de prata e tocou. O oficial voltou.
— Vá — ordenou ele à meia-voz — me chamar Rochefort, e que se
apresente imediatamente, se estiver no palácio.
— O conde está aqui — respondeu o oficial — e pede insistentemente para
falar com Vossa Eminência!
“Com Vossa Eminência!”, pensou consigo mesmo Bonacieux, pois sabia
que, geralmente, aquele era o título dado ao sr. cardeal… “Com Vossa
Eminência!”
— Que venha então, que venha! — exclamou vivamente Richelieu.
O oficial lançou-se para fora do aposento, obedecendo-o com a mesma
rapidez praticada por todos os serviçais do cardeal.
“Com Vossa Eminência!” insistia Bonacieux, revolvendo os olhos
esbugalhados.
Nem cinco segundos depois da saída do oficial, a porta se abriu novamente
e um novo personagem entrou.
— É ele! — exclamou Bonacieux.
— Ele, quem? — perguntou o cardeal.
— O que raptou minha mulher.
O cardeal tocou uma segunda vez. O oficial reapareceu.
— Deixe esse homem com seus dois guardas, e que ele espere ser chamado
de volta.
— Não, monsenhor! Não é ele não! — bradou Bonacieux. — Não,
enganei-me, é outro, e completamente diferente! O cavalheiro é um homem
honesto.
— Levem esse imbecil! — disse o cardeal.
O oficial pegou Bonacieux pelo braço e reconduziu-o à antecâmara, onde
ele encontrou seus dois guardas.
O novo personagem que acabavam de introduzir seguiu impacientemente
Bonacieux com os olhos até a saída. Assim que a porta voltou a se fechar,
aproximando-se imediatamente do cardeal, disse:
— Eles estiveram juntos.
— Quem? — perguntou Sua Eminência.
— Ela e ele.
— A rainha e o duque? — exclamou Richelieu.
— Sim.
— E onde isso?
— No Louvre.
— Tem certeza?
— Certeza absoluta.
— Quem lhe contou?
— A sra. de Lannoy, que é toda de Vossa Eminência, como sabeis.
— Por que ela não lhe contou antes?
— Por acaso, ou por desconfiança, a rainha fez a sra. de Surgis dormir no
quarto dela e ficou vigiando-a o dia inteiro.
— Está bem, fomos derrotados. Tratemos de tirar nossa desforra.
— Contai com todo meu empenho, monsenhor, ficai tranquilo quanto a
isso.
— Como foi que aconteceu?
— À meia-noite e meia, a rainha estava com suas damas…
— Onde isso?
— Em seu quarto…
— Continue.
— Quando vieram entregar-lhe um lenço da parte de sua costureira.
— E depois?
— A rainha manifestou imediatamente uma grande perturbação e, a
despeito do ruge que cobria seu rosto, empalideceu.
— E depois?! E depois?!
— Depois levantou-se e, com uma voz alterada, disse às damas de
companhia: “Senhoras, esperem-me um pouco, voltarei dentro de dez
minutos.” E abriu a porta de sua alcova e saiu.
— Por que a sra. de Lannoy não foi avisá-lo imediatamente?
— Não havia nada de muito certo ainda. E a rainha dissera às suas aias:
“Esperem-me”. Ela não ousou desobedecer à Sua Majestade.
— E durante quanto tempo a rainha permaneceu fora do quarto?
— Quarenta e cinco minutos.
— Nenhuma de suas aias a acompanhava?
— Apenas doña Estefana.
— E ela voltou em seguida?
— Sim, para pegar um pequeno estojo de pau-rosa com seu brasão, com o
qual logo tornou a sair.
— E mais tarde, quando voltou, ela trouxe de volta o estojo?
— Não.
— A sra. de Lannoy sabia o que continha esse estojo?
— Sim, as agulhetas de diamantes com que Sua Majestade presenteou a
rainha.
— E ela voltou sem o estojo?
— Sim.
— Então a sra. de Lannoy acha que a rainha o entregou a Buckingham?
— Ela tem certeza disso.
— Como assim?
— Durante o dia, em sua qualidade de açafata da rainha, a sra. de Lannoy
procurou o estojo, fingiu estar preocupada ao não encontrá-lo e chegou a
perguntar dele para a rainha.
— E a rainha…?
— Ficou toda vermelha e respondeu que, tendo quebrado uma de suas
agulhetas na véspera, levara-o para seu ourives consertá-la.
— Convém passar lá e verificar se isso é verdade ou não.
— Já passei.
— E o ourives?
— Não estava sabendo de nada.
— Ótimo! Ótimo! Nem tudo está perdido, Rochefort, e talvez… talvez
tenha sido até melhor assim!
— Certamente, não duvido que o gênio de Vossa Eminência…
— Conserte as besteiras do meu espião, não é?
— Era justamente o que eu ia dizer, se Vossa Eminência me houvesse
permitido terminar a frase.
— Agora, sabe o senhor onde se escondiam a duquesa de Chevreuse e o
duque de Buckingham?
— Não, monsenhor, meu pessoal não conseguiu me afirmar nada de
objetivo quanto a isso.
— Pois eu sei.
— Vós, monsenhor?
— Sim, ou pelo menos desconfio. Uma estava na rua de Vaugirard nº 25, o
outro, na rua de La Harpe nº 75.
— Vossa Eminência deseja que eu mande prender os dois?
— Tarde demais, eles já se foram.
— Ora, podemos nos certificar.
— Pegue dez homens entre os meus guardas e reviste as duas casas.
— Estou a caminho, monsenhor.
E Rochefort saiu às pressas.
O cardeal, tendo ficado a sós, refletiu por um instante e tocou pela terceira
vez.
O mesmo oficial reapareceu.
— Faça o prisioneiro entrar — disse o cardeal.
O sr. Bonacieux foi novamente introduzido e, a um sinal de Richelieu, o
oficial se retirou.
— O senhor me enganou — disse o cardeal com severidade.
— Eu? — exclamou Bonacieux. — Eu, enganar Vossa Eminência!
— Sua mulher, quando ia à rua de Vaugirard e à rua de La Harpe, não ia
visitar mercadores de linho.
— E aonde ela ia, santo Deus?
— Ia visitar a duquesa de Chevreuse e o duque de Buckingham.
— É — disse Bonacieux, puxando pela memória —, é isso, Vossa
Eminência tem razão. Comentei diversas vezes com a minha mulher que
achava estranho mercadores de linho estarem sediados em casas como
aquelas, sem tabuletas, e minha mulher sempre caía na risada. Ah, monsenhor
— continuou Bonacieux, lançando-se aos pés de Sua Eminência —, ah, sois
efetivamente o cardeal, o grande cardeal, o homem de gênio reverenciado por
todos!
Richelieu, por mais irrelevante que fosse o triunfo sobre criatura tão vulgar
como Bonacieux, nem por isso deixou de gozá-lo por um instante. Em
seguida, quase imediatamente, como se um novo pensamento se apresentasse
a seu espírito, um sorriso repuxou sua boca, e ele, estendendo a mão ao
comerciante, disse:
— Levante-se, meu amigo, o senhor é um bom homem.
— O cardeal me deu a mão! Toquei na mão do grande homem! —
exclamou Bonacieux. — O grande homem me chamou de seu amigo!
— Sim, meu amigo, sim! — repetiu Richelieu, naquele tom paternal que
sabia assumir de vez em quando, mas que enganava apenas a quem não o
conhecia. — E, como suspeitaram injustamente do senhor, pois bem, o
senhor faz jus a uma indenização: aqui está! Pegue essa bolsa com cem
pistolas e me perdoe.
— Perdoar-vos, monsenhor! — estranhou Bonacieux, hesitando em pegar
a bolsa, provavelmente temendo que aquele suposto presente não passasse de
uma brincadeira. — Mas tínheis toda a liberdade de mandar prender-me,
tendes toda a liberdade de mandar torturar-me, tendes toda a liberdade de
mandar enforcar-me. Sois o amo, e eu não teria nada a dizer. Perdoar-vos,
monsenhor! Eu vos suplico, nem pensais nisso!
— Ah, meu caro sr. Bonacieux! O senhor está sendo generoso, percebo, e
agradeço-lhe por isso. Quer dizer então que aceitará esse dinheiro e partirá
sem mágoas?
— Partirei encantado, monsenhor.
— Adeus, então, ou melhor, até logo, pois espero revê-lo.
— Quantas vezes monsenhor desejar, estou à disposição de Sua
Eminência.
— Serão muitas vezes, não se preocupe, pois senti um prazer imenso em
sua companhia.
— Oh, monsenhor!
— Até logo, sr. Bonacieux, até logo.
E o cardeal fez-lhe um sinal com a mão, ao qual Bonacieux respondeu
inclinando-se até o assoalho. Saiu então recuando e, quando chegou à
antecâmara, o cardeal ouviu-o gritar e em altos brados: “Viva o monsenhor!
Viva Sua Eminência! Viva o grande cardeal!” O cardeal escutou sorrindo
aquela brilhante manifestação dos sentimentos entusiastas do sr. Bonacieux.
Depois, enquanto os gritos do comerciante perdiam-se na distância,
murmurou:
— Perfeito, eis um homem que agora dará a vida por mim.
E o cardeal pôs-se a examinar, com a maior atenção, o mapa de La
Rochelle, que, como dissemos, estava aberto sobre a escrivaninha, e traçou
com um lápis a linha por onde devia passar o famoso dique, que, dezoito
meses mais tarde, fecharia o porto da cidade sitiada.
Enquanto se entregava a suas meditações estratégicas, a porta se abriu e
Rochefort entrou novamente.
— E então? — indagou o cardeal com vivacidade, levantando-se com uma
prontidão equivalente ao grau de importância que atribuía à missão delegada
ao conde.
— E então! — disse este. — Uma mulher entre vinte e seis e vinte e oito
anos, e um homem de trinta e cinco a quarenta, alojaram-se efetivamente,
uma por quatro dias e o outro por cinco, nas casas indicadas por Vossa
Eminência. Mas a mulher partiu esta noite, e o homem, esta manhã.
— Eram eles! — rugiu o cardeal, olhando o relógio na parede. — E agora
— continuou —, é tarde demais para irmos no seu encalço. A duquesa está
em Tours, e o duque, em Boulogne. É em Londres que precisamos
reencontrá-los.
— Quais são as ordens de Vossa Eminência?
— Nenhuma palavra sobre o acontecido; que a rainha fique completamente
tranquila, que ignore o fato de conhecermos o seu segredo, que julgue
estarmos atrás de uma conspiração qualquer. Mande chamar Séguier, o
ministro da Justiça.
— E o que Vossa Eminência pretende fazer desse homem?
— Que homem?
— Esse Bonacieux.
— Fiz dele tudo que era possível fazer. Transformei-o no espião da própria
esposa.
O conde de Rochefort inclinou-se como homem que reconhece a grande
superioridade do mestre, e saiu.
Ao ficar sozinho, o cardeal sentou-se novamente, escreveu uma carta que
lacrou com seu sinete particular, depois tocou a campainha. O oficial entrou
pela quarta vez.
— Mande chamar Vitray — disse ele —, e diga-lhe para se preparar para
uma viagem.
Um instante depois, o homem que ele requisitara estava de pé à sua frente,
de botas e esporas.
— Vitray — disse ele —, o senhor partirá sem demora para Londres. Não
pare um instante sequer no caminho. Entregue esta carta a Milady. Aqui está
uma ordem de pagamento equivalente a duzentas pistolas, passe no meu
tesoureiro e retire o dinheiro. A mesma quantia aguarda-o se estiver aqui de
volta dentro de seis dias e houver desempenhado a contento a missão que lhe
confio.
O mensageiro, sem responder uma palavra, inclinou-se, pegou a carta, a
ordem de pagamento, e saiu.
Eis o que continha a carta:

Milady,
Compareça ao primeiro baile em que o duque de Buckingham estiver
presente. Ele exibirá em seu gibão doze agulhetas de diamantes, aproxime-
se e subtraia-lhe duas.
Assim que as agulhetas estiverem em seu poder, avise-me.
15. Homens de toga, homens de espada

N oreaparecera,
dia seguinte àquele em que ocorreram esses fatos, como Athos não
d’Artagnan e Porthos comunicaram seu desaparecimento ao
sr. de Tréville.
Quanto a Aramis, pedira uma licença de cinco dias e estava em Rouen; ao
que se dizia, para assuntos de família.
O sr. de Tréville era o pai de seus soldados. O mais insignificante e
desconhecido deles, assim que passava a trajar o uniforme da companhia,
estava tão certo de sua proteção e de seu apoio quanto se fosse um irmão.
O sr. de Tréville procurou imediatamente o juiz criminal. Foi convocado o
oficial responsável pelo posto da Cruz Vermelha, e todas as informações
obtidas diziam que Athos achava-se temporariamente instalado no Fort-
l’Évêque.
Athos passara por todas as provações já experimentadas por Bonacieux.
Assistimos à cena de acareação entre os dois cativos. Athos, que nada
dissera até então, receando que d’Artagnan ainda precisasse de um certo
tempo para resolver suas preocupações, a partir desse momento pôde declarar
que se chamava Athos, e não d’Artagnan.
Acrescentou que não conhecia nem o sr. nem a sra. Bonacieux, que jamais
falara com qualquer um dos dois, que por volta das dez horas da noite fora
visitar o sr. d’Artagnan, seu amigo, mas que até aquela hora permanecera na
casa do sr. de Tréville, onde havia jantado. Vinte testemunhas, acrescentou,
podiam atestar esse fato, e nomeou vários fidalgos distintos, entre os quais o
sr. duque de La Trémouille.
O segundo comissário do cardeal ficou tão pasmo quanto o primeiro com a
declaração simples e sem rodeios daquele mosqueteiro, de quem tanto
gostaria de tirar a desforra que a nobreza de toga tanto aprecia infligir à
nobreza de espada. Mas os nomes do sr. de Tréville e do sr. duque de La
Trémouille mereciam reflexão.
Athos, portanto, foi encaminhado ao cardeal, mas infelizmente o cardeal
estava no Louvre com o rei.
Nesse exato momento o sr. de Tréville, saindo da casa do juiz e da casa do
diretor de Fort-l’Évêque, sem ter localizado Athos, chegava ao Louvre.
Como capitão dos mosqueteiros, o sr. de Tréville tinha autorização para
falar a qualquer momento com o rei.
Ninguém ignorava as desconfianças de Sua Majestade em relação à rainha,
desconfianças astutamente alimentadas pelo cardeal, que, em matéria de
intriga, desconfiava infinitamente mais das mulheres que dos homens. Aliás,
uma das grandes causas dessas desconfianças era a amizade que Ana da
Áustria dispensava à sra. de Chevreuse. Essas duas mulheres preocupavam-
no mais que as guerras com a Espanha, as desavenças com a Inglaterra e o
desequilíbrio das finanças. Aos seus olhos e segundo sua convicção, a sra. de
Chevreuse servia à rainha não apenas em suas intrigas políticas, mas, o que o
atormentava muito mais, em suas intrigas amorosas.
Assim que o cardeal abriu a boca para contar que a sra. de Chevreuse, que
todos acreditavam encontrar-se exilada em Tours, na verdade estivera em
Paris e, durante os cinco dias de sua estadia, despistara a polícia, o rei foi
possuído por uma grande fúria. Caprichoso e infiel, Sua Majestade almejava
ser conhecida como Luís, o Justo e Luís, o Casto. A posteridade terá
dificuldade para compreender esse personagem, que a história não explica
senão pelos fatos e nunca pelo raciocínio.
Porém, quando o cardeal acrescentou que não apenas a sra. de Chevreuse
viera a Paris, mas também que a rainha reatara com ela, mediante uma dessas
correspondências misteriosas que, na época, eram conhecidas como uma
“cabala”; quando o cardeal afirmou ter estado, ele próprio, na iminência de
desemaranhar os fios mais obscuros dessa trama, mas que, no momento de
prender em pleno ato, em flagrante delito, abastecido de todas as provas, a
emissária da rainha junto à exilada, um mosqueteiro ousara interromper
violentamente o curso da justiça, caindo de espada na mão sobre honestos
homens da lei, encarregados de examinar com imparcialidade todo o caso,
para expô-lo aos olhos do rei, Luís XIII não se conteve mais e deu um passo
na direção dos aposentos da rainha, com aquela pálida e muda indignação
que, quando explodia, engendrava naquele príncipe a mais fria crueldade.
Não obstante, em meio a tudo isso, o cardeal não dissera ainda uma palavra
a respeito do duque de Buckingham.
Nesse momento entrou o sr. de Tréville, calmo, polido e irrepreensível no
trajar.
Advertido do que acabava de acontecer pela presença do cardeal e pelo
semblante alterado do rei, o sr. de Tréville sentiu-se forte como Sansão diante
dos filisteus.
Luís XIII já colocava a mão na maçaneta da porta. Com o barulho que o sr.
de Tréville fez ao entrar, voltou-se.
— Chega bem a propósito, cavalheiro — disse o rei, que, quando suas
paixões fervilhavam além de um certo grau, não sabia disfarçar —, acabo de
saber poucas e boas dos seus mosqueteiros.
— E eu — disse friamente o sr. de Tréville — tenho poucas e boas para
contar sobre os magistrados a quem Sua Majestade concedeu o uso da toga.
— Como disse? — perguntou o rei com altivez.
— Tenho a honra de comunicar à Vossa Majestade — explicou o sr. de
Tréville no mesmo tom — que um bando de promotores, comissários e
agentes da polícia, pessoas bastante estimáveis porém tornadas
excessivamente impulsivas, ao que parece, pelo seu uniforme, deram-se ao
direito de prender, numa residência particular, trazer para o meio da rua e
atirar em Fort-l’Évêque, tudo isso obedecendo a uma ordem que se recusaram
a me apresentar, um de meus mosqueteiros, ou melhor, um dos vossos, Sire,
cuja conduta é inatacável, cuja reputação é quase ilustre, e que Vossa
Majestade conhece e aprecia: o sr. Athos.
— Athos — disse o rei, mecanicamente —, sim, de fato, conheço esse
nome.
— Que Vossa Majestade lembre-se dele — prosseguiu o sr. de Tréville. —
O sr. Athos é aquele mosqueteiro que, no desastroso duelo que sabeis, teve a
infelicidade de ferir gravemente o sr. de Cahusac. A propósito, monsenhor —
continuou Tréville, dirigindo-se ao cardeal —, o sr. de Cahusac está
completamente recuperado, pois não?
— Que tanta gentileza! — disse o cardeal, mordendo o beiço de raiva.
— O sr. Athos tinha ido então visitar um de seus amigos, ausente na
ocasião — acrescentou o sr. de Tréville —, um jovem bearnês, cadete dos
guardas de Sua Majestade, na companhia des Essarts. Contudo, mal ele
acabava de se instalar na casa do amigo e de pegar um livro para esperá-lo,
uma nuvem de oficiais de justiça e soldados misturados veio sitiar a casa,
arrombou várias portas…
O cardeal fez ao rei um sinal que significava: “É com respeito ao caso de
que eu vos falava.”
— Sabemos de tudo isso — replicou o rei —, pois tudo isso foi feito em
meu nome.
— Então — disse Tréville —, foi também em nome de Vossa Majestade
que agarraram um mosqueteiro inocente, que o colocaram entre dois guardas
como se fosse um bandido, e fizeram desfilar, no meio de uma populaça
insolente, esse homem galante, que derramou dez vezes seu sangue em
benefício de Vossa Majestade, e está disposto a derramá-lo de novo?
— Ora! — exclamou o rei, abalado. — Foi assim que as coisas se
passaram?
— O sr. de Tréville não diz — interferiu o cardeal, com grande fleugma —
que esse mosqueteiro inocente, esse homem galante, acabava, uma hora
antes, de atacar com a espada quatro comissários judiciais investidos, por
mim, da missão de instaurar um processo da mais alta relevância.
— Desafio Vossa Eminência a prová-lo — alterou-se o sr. de Tréville, com
sua franqueza toda gascã e sua aspereza toda militar —, pois, uma hora antes,
o sr. Athos, que, asseguro à Vossa Majestade, é um homem da mais alta
estirpe, fazia-me a honra, após ter jantado na minha casa, de conversar no
salão de meu palácio com o sr. duque de La Trémouille e o sr. conde de
Châlus, igualmente presentes.
O rei olhou para o cardeal.
— Um inquérito comprova os fatos — defendeu-se o cardeal, respondendo
bem alto à interrogação muda de Sua Majestade —, e as pessoas molestadas
realizaram o seguinte, que tenho a honra de apresentar à Vossa Majestade.
— Um inquérito realizado pela nobreza de toga seria comparável à palavra
de honra da nobreza de espada?
— Vamos, vamos, Tréville, cale-se — ordenou o rei.
— Se Sua Eminência alimenta qualquer suspeita contra um de meus
mosqueteiros — disse Tréville —, a justiça do sr. cardeal é por demais
conhecida para que eu também requisite um inquérito.
— Na casa onde essa incursão da justiça foi realizada — continuou o
cardeal, impassível —, mora, creio, um bearnês amigo do mosqueteiro.
— Vossa Eminência refere-se ao sr. d’Artagnan?
— Refiro-me a um mancebo que o senhor protege, sr. de Tréville.
— Sim, Vossa Eminência, é ele mesmo.
— Não acha que esse mancebo deu maus conselhos…
— Ao sr. Athos, a um homem que tem o dobro de sua idade? —
interrompeu o sr. de Tréville. — Não, monsenhor. Por sinal, o sr. d’Artagnan
passou a noite em minha casa.
— Não me diga! — ironizou o cardeal. — Quer dizer que todo mundo
passou a noite em sua casa?
— Sua Eminência duvidaria de minha palavra? — rebateu Tréville,
vermelho de raiva.
— Não, Deus me livre! — disse o cardeal. — Um detalhe, porém: a que
horas ele se encontrava em sua casa?
— Oh, isso posso dizer conscienciosamente à Vossa Eminência, pois,
quando ele entrou, observei que eram nove e meia no relógio da parede,
embora eu pensasse que fosse bem mais tarde.
— E a que horas ele saiu de lá?
— Às dez e meia, uma hora após o incidente.
— Bom, para resumir — respondeu o cardeal, que não duvidava um
instante da sinceridade de Tréville e que percebia a vitória lhe escapando —,
Athos foi detido nessa casa da rua dos Coveiros.
— É proibido a um amigo visitar um amigo? A um mosqueteiro de minha
companhia confraternizar com um guarda da companhia do sr. des Essarts?
— Sim, quando a casa onde se dá essa confraternização é suspeita.
— Admito, Sire, eu não sabia disso. Em todo caso, ela pode até ser
suspeita, mas nego que o seja na parte habitada pelo sr. d’Artagnan, pois
afirmo-vos, Sire, que, a crer no que ele diz, não existe servidor mais fiel de
Sua Majestade nem admirador mais profundo do sr. cardeal.
— Não foi esse d’Artagnan que um dia feriu Jussac, no funesto encontro
ocorrido nas proximidades do convento dos Carmelitas Descalços? —
perguntou o rei, observando o cardeal, que ruborizou de despeito.
— E no dia seguinte, Bernajoux. Sim, Sire, sim, é ele mesmo, e Vossa
Majestade tem boa memória.
— Afinal, o que decidimos? — perguntou o rei.
— Isso concerne mais à Vossa Majestade do que à minha pessoa —
esquivou-se o cardeal. — Eu reiteraria a culpa.
— E eu a nego — insistiu Tréville. — Mas Sua Majestade tem juízes, e
seus juízes decidirão.
— É isso — disse o rei —, deixemos a causa para os juízes. É sua função
julgar, e eles julgarão.
— Por outro lado — observou Tréville —, não deixa de ser triste que,
nesses tempos infelizes, a vida mais pura e a virtude mais incontestável não
poupem um homem da infâmia e da perseguição. Além disso, o exército não
ficará satisfeito, asseguro-vos, de ser vítima de tratamento tão rude em uma
investigação policial.
A declaração era imprudente, mas o sr. de Tréville lançou-a com
conhecimento de causa. Queria uma explosão, porque assim incendeia-se a
mina e o fogo ilumina.
— Investigação policial! — exclamou o rei, repetindo as palavras do sr. de
Tréville. — Investigação policial! E o que sabe sobre isto, cavalheiro? Cuide
de seus mosqueteiros e não me crie problemas. Até parece, a ouvi-lo, que a
eventual prisão de um mosqueteiro põe a França em perigo. Ora! Quanto
barulho por um mosqueteiro! Mandarei prender dez, com os demônios, cem
até, toda a companhia! E não quero ouvir uma palavra!
— A partir do momento em que são suspeitos aos olhos de Vossa
Majestade — disse Tréville —, os mosqueteiros são culpados. Vede-me
assim, Sire, pronto a devolver-vos minha espada, pois, após ter acusado meus
soldados, o sr. cardeal, não duvido disso, terminará por acusar a mim mesmo.
Logo, o melhor que tenho a fazer é constituir-me prisioneiro junto com o sr.
Athos, que já está preso, e com o sr. d’Artagnan, que sem dúvida irão
prender.
— Já terminou, seu gascão teimoso? — perguntou o rei.
— Sire — respondeu Tréville, sem abaixar a voz —, ordenai que me
devolvam meu mosqueteiro ou que ele seja julgado.
— Vamos julgá-lo — disse o cardeal.
— Melhor ainda, pois, nesse caso, peço à Sua Majestade permissão para
assumir sua defesa.
O rei temeu um escândalo.
— Se Sua Eminência — começou ele — não tivesse motivações
pessoais…
O cardeal viu o rei vindo em sua direção e, caminhando até ele, disse:
— Perdão, mas a partir do momento em que Vossa Majestade vê em mim
um juiz parcial, eu me retiro.
— Vejamos — disse o rei —, o senhor jura, pelo meu pai, que o sr. Athos
encontrava-se em sua casa durante o incidente e que não tomou parte nele?
— Pelo vosso glorioso pai e por vós mesmo, que sois quem mais estimo e
venero no mundo, eu juro!
— Peço que reflitais, Sire — ponderou o cardeal. — Se soltarmos o
prisioneiro, não poderemos conhecer a verdade.
— O sr. Athos continuará aqui — rebateu o sr. de Tréville —, pronto a
responder quando assim aprouver aos juízes togados interrogá-lo. Ele não
desertará, senhor cardeal. Fique tranquilo, respondo por ele.
— De fato, ele não desertará — concordou o rei. — Poderemos encontrá-lo
quando quisermos, como diz o sr. de Tréville. Aliás — acrescentou,
abaixando a voz e olhando com um ar suplicante para Sua Eminência —,
cumpre dar-lhe segurança. Assim é a política.
Essa política de Luís XIII fez Richelieu sorrir.
— Ordenai, Sire — disse o cardeal —, detendes o instrumento do indulto.
— O instrumento do indulto aplica-se apenas aos culpados — disse
Tréville, que queria ter a última palavra —, e meu mosqueteiro é inocente.
Logo, não é indulto que ides promover, Sire, é justiça.
— Ele está no Fort-l’Évêque? — indagou o rei.
— Sim, Sire, e, que ninguém nos ouça, num calabouço, como o último dos
criminosos.
— Diabos, diabos! — murmurou o rei. — O que fazer?
— Assinar a ordem de soltura, e não falemos mais nisso — rendeu-se o
cardeal. — Creio, como Vossa Majestade, que a garantia do sr. de Tréville é
mais do que suficiente.
Tréville inclinou-se respeitosamente, com uma alegria não isenta de temor.
Teria preferido uma resistência obstinada do cardeal àquela súbita facilidade.
O rei assinou a ordem de soltura e Tréville agarrou-a sem piscar.
Quando já estava indo embora, o cardeal dirigiu-lhe um sorriso amistoso e
disse ao rei:
— Uma bela harmonia reina entre os chefes e os soldados no corpo de
vossos mosqueteiros, Sire, e essa harmonia é proveitosa para o serviço e
honrosa para todos.
“Ele há de me pregar uma peça, e não vai demorar”, dizia Tréville consigo
mesmo. “Nunca temos a última palavra com um homem desse tipo. Mas,
apressemo-nos, pois o rei pode mudar de opinião a qualquer momento e, no
fim das contas, é mais difícil devolver à Bastilha ou a Fort-l’Évêque um
homem que de lá saiu do que meter lá dentro um prisioneiro já encarcerado.”
Triunfalmente, o sr. de Tréville fez sua entrada em Fort-l’Évêque, onde
libertou o mosqueteiro, cuja pacífica indiferença permanecia intacta.
Depois, quando viu d’Artagnan pela primeira vez:
— O senhor escapou de boa — disse-lhe —, eis a sua estocada em Jussac
paga. Claro, falta a de Bernajoux, mas não deve vangloriar-se muito por isso.
Em todo caso, o sr. de Tréville tinha razão em desconfiar do cardeal e
pensar que aquilo não iria acabar assim, pois, mal o capitão dos mosqueteiros
fechou a porta atrás de si, Sua Eminência disse ao rei:
— Agora que estamos a sós, vamos conversar seriamente, se for do agrado
de Vossa Majestade. Sire, o sr. de Buckingham chegou a Paris cinco dias
atrás, e partiu apenas hoje de manhã.
16. Capítulo no qual o ministro da Justiça Séguier
tenta novamente badalar o sino, como fazia em
outros tempos

impossível fazer uma ideia do impacto que essas poucas palavras


É causaram em Luís XIII. Seu rosto ficou vermelho e pálido,
alternadamente, fazendo o cardeal logo perceber que acabara de
reconquistar, num só golpe, todo o terreno perdido.
— O sr. de Buckingham em Paris! — exclamou. — E o que veio fazer
aqui?
— Conspirar com vossos inimigos huguenotes e espanhóis, certamente.
— Não, por Deus, não! Ele veio conspirar contra minha honra, com a sra.
de Chevreuse, a sra. de Longueville e os Condé!
— Oh, Sire, não diga isso! A rainha é muito ajuizada e, acima de tudo, ama
deveras Vossa Majestade.
— A mulher é fraca, senhor cardeal — disse o rei —, e, quanto a me amar
deveras, tenho minha opinião formada sobre esse amor.
— Mesmo assim, permaneço convicto — insistiu o cardeal — que o duque
de Buckingham veio a Paris por um assunto eminentemente político.
— E eu tenho certeza de que veio por outra coisa, senhor cardeal. Mas, se a
rainha estiver envolvida, que ela trema!
— A bem da verdade, por mais que me repugne conjeturar tal traição,
Vossa Majestade me faz pensar: a sra. de Lannoy, a quem, por ordem de
Vossa Majestade, interroguei várias vezes, disse-me na manhã de hoje que
velara a rainha até tarde na véspera, que de manhã ela havia chorado muito e
que escrevera o dia inteiro.
— É isso — concluiu o rei —, para ele, sem dúvida. Cardeal, quero os
papéis da rainha.
— Mas como confiscá-los, Sire? Parece-me que nem eu nem Vossa
Majestade podemos nos incumbir de uma missão desse tipo.
— Agimos como no caso da mulher do marechal de Ancre? — exclamou o
rei quase fora de si. — Revistamos seus armários e, no fim, a revistamos
pessoalmente?
— A mulher do marechal de Ancre não passava da mulher do marechal de
Ancre, uma aventureira florentina, Sire, ao passo que a augusta esposa de
Vossa Majestade é Ana da Áustria, rainha da França, ou seja, uma das
maiores princesas do mundo.
— Torna-se ainda mais culpada por isso, senhor duque! Quanto mais ela
esqueceu a alta posição que ocupa, mais baixo ela desceu. Já faz tempo, aliás,
que resolvi terminar com todos esses conchavos políticos e amorosos. Ela
também tem ao lado dela um tal de La Porte…
— Que julgo a mola mestra de tudo isso, admito — disse o cardeal.
— Acha então, como eu, que ela me engana?
— Acho, e repito à Vossa Majestade, que a rainha conspira contra o poder
de seu rei, mas, contra sua honra, não sei dizer.
— Pois eu lhe digo: contra ambos; a rainha não me ama, ama outro. Digo-
lhe que ama esse infame duque de Buckingham! Por que não mandou prendê-
lo enquanto ele estava em Paris?
— Prender o duque! Prender o primeiro-ministro de Carlos I! Pensastes
nisso, Sire? O escândalo!? E se por acaso as suspeitas de Vossa Majestade,
das quais ainda duvido, tivessem alguma consistência, que escândalo
abominável, que escândalo desesperador!
— Mas, uma vez que ele se expunha como um vagabundo e um larápio,
cumpria…
Luís XIII interrompeu-se, assustado com o que ia dizer, enquanto
Richelieu, esticando o pescoço, esperava inutilmente a palavra que
permanecera nos lábios do rei.
— Cumpria?
— Nada — disse o rei —, nada. Mas, enquanto ele esteve em Paris, o
senhor não o perdeu de vista?
— Não, Sire.
— Onde ele se alojou?
— Na rua de La Harpe, nº 75.
— Onde fica isso?
— Para os lados do Luxemburgo.
— E tem certeza de que a rainha e ele não se viram?
— Julgo a rainha assoberbada por seus deveres, Sire.
— Mas eles se corresponderam, foi a ele que a rainha escreveu o dia todo.
Senhor duque, preciso dessas cartas!
— Sire, entretanto…
— Senhor cardeal, seja a que preço for, eu as quero.
— Eu contudo observaria à Vossa Majestade…
— Também me trai, senhor, opondo-se continuamente às minhas
vontades? Está assim tão afinado com o Espanhol e com o Inglês, com a sra.
de Chevreuse e com a rainha?
— Sire — respondeu o cardeal, suspirando —, eu julgava estar acima
desse tipo de suspeita.
— Senhor cardeal, o senhor me ouviu: quero essas cartas.
— Só haveria um meio.
— Qual?
— Seria encarregar dessa missão o sr. ministro da Justiça Séguier. A coisa
é inteiramente da alçada dele.
— Que mandem buscá-lo agora mesmo!
— As ordens de Vossa Majestade serão executadas, mas…
— Mas o quê?
— A rainha talvez se recuse a obedecer.
— Às minhas ordens?
— Sim, caso ignore que essas ordens vieram do rei.
— Muito bem, para que não duvide disso, vou avisar-lhe pessoalmente.
— Que Vossa Majestade não se esqueça, eu fiz tudo ao meu alcance para
evitar um rompimento.
— Sim, duque, sei que o senhor foi muito indulgente com a rainha; além
da conta, talvez. E teremos, não se esqueça, de voltar a isso mais tarde.
— Quando for do agrado de Vossa Majestade, mas para mim será sempre
motivo de orgulho e alegria, Sire, sacrificar-me pela boa harmonia que desejo
ver entre vós e a rainha da França.
— Ótimo, cardeal, ótimo, mas, até lá, mande chamar o sr. ministro da
Justiça. Eu, de minha parte, vou falar com a rainha.
E Luís XIII, abrindo a porta de comunicação, passou à galeria que levava
de seus aposentos até os de Ana da Áustria.
A rainha estava em meio às suas damas, a sra. de Guitaut, a sra. de Sablé, a
sra. de Montbazon e a sra. de Guéménée. Num canto, a camareira espanhola,
doña Estefana, que viera com ela de Madri. A sra. Guéménée lia em voz alta,
e todas escutavam atentamente a leitora, menos a rainha, que, ao contrário,
suscitara essa leitura a fim de, enquanto fingia atenção, poder seguir o fio de
seus próprios pensamentos.
Tais pensamentos, por mais dourados que um último reflexo de amor os
deixasse, nem por isso eram menos tristes. Ana da Áustria, posta sob suspeita
pelo marido, perseguida pelo ódio do cardeal, que não lhe podia perdoar a
rejeição de um sentimento mais terno, tendo sob os olhos o exemplo da
rainha-mãe, a quem esse ódio atormentara a vida inteira — embora Maria de
Médicis, a crermos nas memórias da época, tivesse começado por conceder
ao cardeal o sentimento que Ana da Áustria terminou sempre por lhe recusar
—, vira cair à sua volta os servidores mais devotados, os confidentes mais
íntimos, os protegidos mais caros. Como uma condenada possuída por um
gênio nefasto, ela incutia desgraça em tudo que tocava; sua amizade era um
sinal funesto, que atraía a perseguição. A sra. de Chevreuse e a sra. de Vernet
haviam sido exiladas, e La Porte não escondia de sua ama o receio de ser
preso de uma hora para outra.
Quando se achava mergulhada na mais recôndita e sombria de suas
reflexões, a porta do quarto se abriu e o rei entrou.
A leitora calou-se incontinente, todas as damas se levantaram e fez-se um
silêncio profundo.
Quanto ao rei, este não esboçou nenhum gesto de civilidade, limitando-se a
dizer, diante da rainha, com uma voz alterada:
— Ireis receber a visita do sr. chanceler, que vos comunicará certos
assuntos de que o encarreguei.
A desafortunada rainha, incessantemente ameaçada de divórcio, exílio e
até julgamento, empalideceu sob o ruge e não se conteve:
— Mas por que essa visita, Sire? O que me dirá o sr. chanceler que Vossa
Majestade não possa me dizer pessoalmente?
O rei voltou-lhe as costas sem responder. Quase no mesmo instante, o
capitão dos guardas, o sr. de Guitaut, anunciou a visita do sr. chanceler.
Quando o chanceler apareceu, o rei já saíra por outra porta.
O chanceler entrou, meio sorrindo, meio enrubescendo. Como
provavelmente o reencontraremos ao longo dessa história, não há mal algum
em que os leitores travem desde já relações com ele.
Esse chanceler era um homem curioso. Des Roches le Masle, cônego em
Notre-Dame e ex-mordomo do cardeal, fora quem o recomendara à Sua
Eminência como um homem dedicadíssimo. O cardeal deu-lhe ouvidos e não
se arrependeu.
Contavam-se a seu respeito certas histórias, entre elas a seguinte: após uma
juventude tempestuosa, ele se retirara para um convento, a fim de lá expiar,
pelo menos durante algum tempo, as loucuras da adolescência.
Ao entrar naquele lugar santo, porém, o pobre penitente não conseguira
fechar a porta suficientemente rápido de modo a que as paixões das quais
fugia não entrassem junto. Estava escravizado por elas, e o superior, a quem
ele segredara esse infortúnio, querendo ajudá-lo na medida do possível,
recomendou-lhe, para conjurar o demônio tentador, que recorresse à corda do
sino e a puxasse com toda a força. Ao ouvirem o barulho denunciador, os
monges estariam avisados de que a tentação atormentava um irmão, e toda a
comunidade começaria a orar.
O conselho pareceu auspicioso ao futuro chanceler, e ele passou a conjurar
o espírito maligno amparando-se nas orações dos monges. Mas o diabo não
se deixa expulsar facilmente de um lugar onde se estabeleceu. À medida que
redobravam os exorcismos, redobravam as tentações, de maneira que dia e
noite o sino badalava estrepitosamente, anunciando o extremo desejo de
mortificação sentido pelo penitente.
Os monges não tinham mais um minuto de descanso. De dia, não faziam
senão subir e descer as escadas que conduziam à capela; à noite, como se não
bastassem as completas e as matinas, ainda eram obrigados a pular vinte
vezes de suas camas e ajoelharem-se na pedra fria de suas celas.
Ignoramos se foi o diabo que desistiu ou os monges que cansaram, mas, no
fim de três meses, o penitente reapareceu na sociedade com a reputação do
mais terrível possesso jamais existente.
Ao sair do convento, entrou na magistratura, tornou-se presidente do
parlamento no lugar do tio e abraçou o partido do cardeal, o que não denotava
pouca sagacidade. Feito chanceler, alinhou-se dedicadamente à Sua
Eminência no ódio contra a rainha-mãe e na vingança contra Ana da Áustria.
Influenciou os juízes no processo de Chalais, patrocinou os experimentos do
sr. de Laffemas, fornecedor de patíbulos da França. Por fim, investido de toda
a confiança do cardeal, confiança que tão bem conquistara, fez jus à singular
missão para cuja execução apresentava-se perante a rainha.
A rainha ainda estava de pé quando ele entrou, mas, assim que o viu,
voltou a sentar-se em sua poltrona, fez sinal às suas damas de companhia
para sentarem-se em suas almofadas e banquinhos e, num tom de suprema
altivez, perguntou:
— Que deseja, cavalheiro? Com que finalidade apresenta-se aqui?
— Para proceder, em nome do rei, e com todo o respeito que tenho a honra
de dever à Vossa Majestade, uma busca minuciosa em seus papéis.
— Como, senhor!? Uma busca em meus papéis… Mas que impertinência!
— Dignai-vos perdoar-me por isso, senhora, mas, nessa circunstância, não
passo de um instrumento do rei. Sua Majestade não acabou de sair daqui e
não vos convidou pessoalmente a preparar-vos para esta visita?
— Vasculhe então, cavalheiro. Sou uma criminosa, ao que parece.
Estefana, dê-lhe as chaves de minhas mesas e escrivaninhas.
O chanceler procedeu a uma revista pró-forma na mobília, mas sabia muito
bem que não era num móvel que a rainha devia ter trancado a importante
carta que escrevera durante o dia.
Depois de abrir e fechar vinte vezes as gavetas da escrivaninha, o
chanceler viu-se obrigado, a despeito de qualquer resquício de hesitação, viu-
se obrigado, dizia eu, a adotar o último recurso, isto é, revistar a própria
rainha. O chanceler avançou então até Ana da Áustria e, num tom perplexo e
cheio de constrangimento, disse:
— E agora, resta fazer a busca principal.
— Qual? — perguntou a rainha, que não compreendia, ou melhor, que não
queria compreender.
— O rei tem certeza de que uma carta foi escrita por Vossa Majestade
durante o dia. Ele sabe que a carta ainda não foi enviada a seu destinatário.
Essa carta não se encontra nem em vossa mesa, nem em vossa escrivaninha,
mas, não obstante, encontra-se em algum lugar.
— Ousaria o senhor tocar em vossa rainha? — indignou-se Ana da Áustria,
levantando-se altivamente e fixando seus olhos, cuja expressão tornara-se
quase ameaçadora, sobre o chanceler.
— Sou um fiel súdito do rei, senhora, e tudo que Sua Majestade ordenar,
eu o farei.
— Está bem! É verdade — resignou-se Ana da Áustria. — E os espiões do
sr. cardeal trabalharam bem. Escrevi uma carta hoje, essa carta não partiu. Ei-
la.
E a rainha levou sua linda mão ao corpete.
— Entregai-me essa carta, Majestade — disse o chanceler.
— Só a entregarei ao rei, cavalheiro — disse Ana.
— Se o rei quisesse que essa carta lhe fosse entregue, senhora, ele viria
pedi-la pessoalmente. Mas, repito, foi a mim que incumbiu de exigi-la de vós,
e se não ma entregardes…
— O que fará?
— Também estou incumbido de arrancá-la de vós.
— Como assim? O que disse?
— Que minhas ordens vão longe, senhora, e que estou autorizado a
procurar o papel suspeito sobre a própria pessoa de Vossa Majestade.
— Que horror! — gritou a rainha.
— Fazei então a gentileza, senhora, de agir com o máximo de
condescendência.
— Esse comportamento é de uma violência infame, sabia disso,
cavalheiro?
— São ordens do rei, senhora, desculpai-me.
— Não irei tolerar isso, não, não, antes morrer! — exclamou a rainha, em
quem se revoltava o sangue imperioso da espanhola e da austríaca.
O chanceler fez uma profunda reverência, depois, com a intenção mais do
que manifesta de não recuar um centímetro no cumprimento da missão de
que estava incumbido, e como teria feito um ajudante de carrasco na câmara
de torturas, aproximou-se de Ana da Áustria, em cujos olhos viram-se
instantaneamente brotar lágrimas de furor.
A rainha era, como já dissemos, dotada de rara beleza.
A missão podia então ser considerada delicada, mas o rei conseguira, fruto
de seu ciúme de Buckingham, não sentir mais ciúme de ninguém.
Decerto, naquele momento, o chanceler Séguier procurou com os olhos a
corda do bem-aventurado sino, porém, não a encontrando, decidiu-se e
estendeu a mão para o lugar onde a rainha confessara estar o papel.
Ana da Áustria deu um passo para trás, tão pálida que parecia prestes a
morrer. Para não cair, apoiou-se com a mão esquerda numa mesa que tinha
atrás de si, puxou com a direita um papel de seu peito e o estendeu ao
ministro da Justiça.
— Tome, senhor, aqui está a carta — exaltou-se a rainha, com uma voz
entrecortada e arfante —, tome-a e poupe-me de sua odiosa presença.
O chanceler, que, por sua vez, tremia de uma emoção fácil de imaginar,
pegou a carta, fez uma mesura até o chão e saiu.
Assim que a porta se fechou, a rainha caiu quase desmaiada nos braços de
suas damas de companhia.
O chanceler foi levar a carta ao rei sem ter lido uma palavra de seu
conteúdo. O rei agarrou-a com a mão trêmula, procurou o destinatário, que
não havia, empalideceu, abriu-a devagar, depois, percebendo pelas primeiras
palavras que era destinada ao rei da Espanha, terminou rapidamente a leitura.
Era um elaborado plano de ataque contra o cardeal. A rainha incitava seu
irmão e o imperador da Áustria a simularem, ressentidos como estavam pela
política de Richelieu, cuja eterna preocupação foi a humilhação da casa da
Áustria, uma declaração de guerra à França, impondo, como condição da paz,
a exoneração do cardeal. De amor, porém, não havia uma única palavra em
toda a carta.
O rei, feliz da vida, procurou saber se o cardeal ainda estava no Louvre.
Disseram-lhe que Sua Eminência aguardava, no gabinete de trabalho, as
ordens de Sua Majestade.
O rei foi procurá-lo imediatamente.
— Veja, duque — disse-lhe —, o senhor tinha razão e eu estava errado. A
intriga é toda política. Não há uma palavra de amor na tal carta, que aqui está.
Em compensação, ela fala muito do senhor.
O cardeal pegou a carta e leu-a com a maior atenção. Depois, quando
chegou ao final, releu-a uma segunda vez.
— Pois bem, Vossa Majestade! — disse ele. — Vede a que ponto chegam
meus inimigos: ameaçam-vos de duas guerras, se não me demitirdes. Em
vosso lugar, na verdade, Sire, eu cederia a tão poderosas instâncias e, de
minha parte, com muito prazer eu me retiraria dos negócios.
— O que está dizendo, duque?
— Digo, Sire, que minha saúde sai prejudicada nessas lutas excessivas e
nesses trabalhos sem fim. Digo que, segundo toda a probabilidade, serei
incapaz de suportar as fadigas do cerco de La Rochelle, e que é melhor que
nomeeis para isso o sr. de Condé ou o sr. de Bassompierre, ou, enfim,
qualquer homem valente em condições de dirigir uma guerra, e não eu, que
sou homem de igreja e que desviam incessantemente de minha vocação,
voltando-me a coisas para as quais não sinto a menor aptidão. Sereis mais
feliz internamente, Sire, e não duvido que tenhais ainda maior glória no
estrangeiro.
— Senhor duque — disse o rei —, não se preocupe, eu compreendo. Todos
os que estão citados nessa carta serão punidos como merecem, incluindo a
rainha.
— O que dizeis, Sire? Deus me livre fazer a rainha passar por qualquer
contrariedade! Ela sempre me julgou seu inimigo, Sire, embora Vossa
Majestade possa atestar que sempre tomei ardorosamente seu partido,
inclusive contra vós. Oh, se ela traísse Vossa Majestade no que se refere à
sua honra, seria diferente, e eu seria o primeiro a dizer: “Nenhuma
misericórdia, Sire, nenhuma misericórdia para a culpada!” Felizmente, não é
nada disso, e Vossa Majestade acaba de obter mais uma prova.
— É verdade, senhor cardeal — disse o rei —, e o senhor tinha razão,
como sempre. Mas nem por isso a rainha deixa de merecer toda a minha
cólera.
— Vós, Sire, é que merecestes a dela. E, a bem da verdade, se ela atentasse
seriamente contra Vossa Majestade, eu até compreenderia. Vossa Majestade
tratou-a com uma severidade…!
— Assim tratarei sempre meus inimigos, e os seus, duque, por mais
notáveis que sejam e por maior que seja o perigo ao qual me exponho agindo
severamente com eles.
— A rainha é minha inimiga, mas não é vossa, Sire. Ao contrário, ela é
uma esposa devotada, submissa e inatacável. Permiti-me então, Sire,
interceder por ela junto à Vossa Majestade.
— Que ela se humilhe então, e que seja a primeira a se desculpar.
— Ao contrário, Sire, dai o exemplo: errastes primeiro, uma vez que
suspeitastes da rainha.
— Eu, ceder primeiro? — disse o rei. — Jamais!
— Suplico-vos, Sire.
— Aliás, como poderia eu me desculpar primeiro?
— Fazendo uma coisa que saberíeis ser-lhe agradável.
— O quê?
— Promovei um baile. Sabeis como a rainha gosta de dançar. Garanto-vos
que seu rancor não resistirá a tamanha gentileza.
— O senhor cardeal sabe que desdenho dos prazeres mundanos.
— Por isso mesmo a rainha não poderia senão ser-vos ainda mais grata,
uma vez que conhece sua antipatia por esse divertimento. E também será uma
boa oportunidade para ela usar as belas agulhetas de diamantes que lhe destes
no dia de seus anos e com as quais ela ainda não teve a chance de se enfeitar.
— Veremos, senhor cardeal, veremos — disse o rei, que, em sua alegria de
flagrar a rainha culpada de um crime com o qual pouco se preocupava, e
inocente de um erro que temia muito, ansiava pela reconciliação. —
Veremos, mas, palavra de honra!, o senhor é por demais indulgente.
— Sire — disse o cardeal —, deixai a severidade para os ministros, a
indulgência é virtude real. Fazei uso dela, e vereis que vos sentireis bem.
Nesse momento, ouvindo as onze horas soarem no carrilhão, Richelieu
inclinou-se profundamente, pedindo licença ao rei para retirar-se e
suplicando-lhe que fizesse as pazes com a rainha.
Ana da Áustria, que, depois do confisco de sua carta, esperava alguma
censura, ficou admiradíssima no dia seguinte, ao ver o rei fazendo tentativas
de aproximação. Sua primeira reação foi de repulsa, seu orgulho de mulher e
sua dignidade de rainha haviam sido ambos tão cruelmente ofendidos que ela
não podia ceder assim ao primeiro gesto. Porém, vencida pelo conselho de
suas aias, pareceu finalmente começar a esquecer. O rei aproveitou-se então
desse primeiro momento de conciliação para comunicar-lhe que pretendia dar
uma festa em breve.
Era uma coisa tão rara uma festa para a pobre Ana da Áustria que, diante
desse anúncio, como previra o cardeal, o último vestígio de seus
ressentimentos extinguiu-se, se não no coração, pelo menos no seu rosto. Ela
perguntou que dia essa festa devia realizar-se, mas o rei respondeu que antes
precisava entender-se com o cardeal.
Com efeito, diariamente o rei perguntava ao cardeal em que época aquela
festa teria lugar, e diariamente o cardeal, sob um pretexto qualquer, adiava
sua decisão.
Passaram-se dez dias assim.
No oitavo dia após a cena que narramos, o cardeal recebeu uma carta, com
selo de Londres, contendo apenas estas poucas linhas:
Tenho-as comigo, mas não pude deixar Londres, na medida em que me falta dinheiro. Enviai-me
quinhentas pistolas e, quatro ou cinco dias após tê-las recebido, estarei em Paris.

No mesmo dia em que o cardeal recebera esta carta, o rei fez-lhe sua
pergunta habitual.
Richelieu contou nos dedos e murmurou consigo:
“Ela chegará, pelo que diz, quatro ou cinco dias após ter recebido o
dinheiro. São necessários quatro ou cinco dias para o dinheiro ir, quatro ou
cinco para ela voltar, isso dá dez dias. Agora, levemos em conta os ventos
contrários, imprevistos, fraquezas de mulher, e ponhamos nisso doze dias.”
— E então, senhor duque — disse o rei —, fez as contas?
— Sim, Sire. Hoje é 20 de setembro. Os edis da cidade dão uma festa em 3
de outubro. Ora, isso vem muito a calhar, pois ninguém dirá que estareis
cedendo à rainha.
Em seguida, acrescentou:
— A propósito, Sire, não esqueçais de dizer à Sua Majestade, na véspera
dessa festa, que estais ansioso para vê-la com suas agulhetas de diamantes.
17. O casal Bonacieux

E radiamantes
a segunda vez que o cardeal voltava ao assunto das agulhetas de
com o rei, deixando Luís XIII tão impressionado com essa
insistência que ele pressentiu algum mistério por trás daquela
recomendação.
Mais de uma vez o rei sentira-se humilhado porque o cardeal — cuja
polícia, sem ter ainda atingido a perfeição da polícia moderna, era excelente
— estava mais bem-informado do que ele mesmo acerca do que se passava
em sua própria intimidade. Planejou, portanto, durante uma conversa com
Ana da Áustria, pescar mais alguma coisa e voltar em seguida para junto de
Sua Eminência com algum segredo que o cardeal soubesse ou não soubesse,
o que, em qualquer dos casos, o engrandeceria infinitamente aos olhos de seu
ministro.
Foi então procurar a rainha e, segundo seu costume, abordou-a com novas
ameaças contra aqueles que a cercavam. Ana da Áustria abaixou a cabeça,
esperou a tempestade passar sem responder, na esperança de que ela se
dissipasse completamente. Não era, porém, o que queria Luís XIII. O rei
queria uma discussão da qual brotasse uma luz qualquer, persuadido como
estava de que o cardeal tinha segundas intenções e preparava-lhe uma
surpresa terrível, daquelas que somente Sua Eminência sabia preparar.
Alcançou esse objetivo com um monte de acusações.
— Mas — exclamou Ana da Áustria, cansada de seus ataques sem motivo
—, mas Sire, não me dizeis tudo que pensais. O que fiz? Vejamos, que crime
cometi? Não é possível que Vossa Majestade faça tanto barulho por uma
carta escrita ao meu irmão.
O rei, por sua vez, atacado de maneira tão direta, não soube o que
responder. Julgou então ser o momento de fazer a recomendação que só
deveria ser pronunciada na véspera da festa.
— Senhora — disse ele, com majestade —, em breve será realizado um
baile na prefeitura. Desejo que, para homenagear nossos ilustres vereadores,
estejais em traje de gala, e, acima de tudo, não vos esqueçais das agulhetas de
diamantes com que vos presenteei no dia de seus anos. Eis a minha resposta.
A resposta era terrível. Ana da Áustria desconfiou que Luís XIII sabia de
tudo, que o cardeal lhe havia imposto a longa dissimulação de sete ou oito
dias, coisa, de toda forma, típica de seu caráter. Lívida, a rainha apoiou num
console sua mão de admirável beleza e que parecia de cera na ocasião.
Fitando o rei com olhos apavorados, não emitiu uma sílaba.
— Vós compreendeis, senhora — disse o rei, que gozava daquele
embaraço em toda a sua extensão, mas sem presumir a causa —, não
compreendeis?
— Sim, Sire, compreendo — balbuciou a rainha.
— Ireis a esse baile?
— Sim.
— Com vossas agulhetas?
— Sim.
A palidez da rainha intensificou-se, se é que era possível. O rei apercebeu-
se disso, comprazendo-se com a fria crueldade que era um dos lados funestos
de seu caráter.
— Então, estamos acertados — disse o rei —, e isso era tudo que eu tinha a
dizer-vos.
— Mas quando será esse baile? — perguntou Ana da Áustria.
Luís XIII percebeu instintivamente que não devia responder à pergunta,
pois a rainha a fizera com uma voz quase desfalecida.
— Muito em breve, senhora — disse ele —, mas não me lembro
exatamente o dia, perguntarei ao cardeal.
— Foi então o cardeal quem vos anunciou essa festa? — exclamou a
rainha?
— Sim, senhora — respondeu o rei, perplexo —, mas por que perguntais?
— Foi ele quem vos recomendou pedir que eu me apresentasse com essas
agulhetas?
— Vede, senhora…
— Foi ele, Sire, foi ele!
— Muito bem! O que importa se foi ele ou eu? Há algum crime nesse
pedido?
— Não, Sire.
— Então ireis?
— Sim, Sire.
— Ótimo — disse o rei, já se retirando —, ótimo, conto com isso.
A rainha fez uma reverência, não tanto por etiqueta, mas sim forçada por
seus joelhos, que cediam contra sua vontade.
O rei saiu encantado.
“Estou perdida” pensou consigo a rainha, “perdida, pois o cardeal sabe de
tudo, e é ele quem empurra o rei, que não sabe de nada ainda, mas logo
saberá. Estou perdida! Meu Deus! Meu Deus! Meu Deus!”
Ela se ajoelhou num coxim e rezou, com a cabeça enfiada entre seus braços
palpitantes.
De fato, a situação era terrível. Buckingham voltara a Londres, a sra. de
Chevreuse estava em Tours. Mais vigiada do que nunca, a rainha sentia,
latente, a traição de uma de suas aias, porém não saberia dizer de qual delas.
La Porte não podia deixar o Louvre. Ela não tinha uma alma no mundo à qual
recorrer.
Assim, diante da desgraça que a ameaçava e do abandono em que se
achava, caiu em prantos.
— Posso ser útil à Sua Majestade? — perguntou subitamente uma voz
cheia de doçura e piedade.
A rainha voltou-se com ardor, pois a expressão daquela voz não podia
enganar: era uma amiga que falava.
Com efeito, numa das portas que davam para os aposentos da rainha,
surgiu a bela sra. Bonacieux, que, quando o rei chegara, estava ocupada em
arrumar os vestidos e a roupa branca num gabinete. Sem poder sair, ela
ouvira tudo.
A rainha deu um grito estridente ao ver-se surpreendida, pois em sua
perturbação não reconheceu a moça recomendada por La Porte.
— Nada receeis, senhora — disse a jovem, juntando as mãos e chorando
também as angústias da rainha. — Pertenço de corpo e alma à Vossa
Majestade e, por mais distante que esteja de vós, por mais inferior que seja
minha posição, creio ter um plano para vos tirar dessa dificuldade.
— Você! Ó céus! Você! — exclamou a rainha. — Ora, vamos, olhe-me
nos olhos. Sou traída de todos os lados, posso confiar em você?
— Oh, senhora! — exclamou a moça caindo de joelhos. — Por tudo que é
mais sagrado, estou pronta a morrer por Vossa Majestade!
Esse grito saíra do fundo de seu coração, como da primeira vez, e não
deixava margem à dúvida.
— Sim — continuou a sra. Bonacieux —, sim, há traidores aqui, mas, pelo
santo nome da Virgem, juro que ninguém é mais devotado que eu à rainha.
Essas agulhetas que o rei exige, Vossa Majestade entregou-as ao duque de
Buckingham, não foi? Essas agulhetas estavam guardadas num estojinho de
madeira de pau-rosa que ele levava sob o braço? Ou estou enganada? Não
será isto?
— Oh, meu Deus, meu Deus! — murmurou a rainha, cujos dentes batiam
de pavor.
— Pois bem — continuou a sra. Bonacieux —, temos de recuperar essas
agulhetas!
— Sim, sem dúvida! — exclamou a rainha. — Mas como fazer isso, de
que modo?
— Temos de enviar alguém até o duque.
— Mas quem? Quem? Em quem confiar?
— Confiai em mim, majestade. Dai-me essa honra, e encontrarei o
mensageiro!
— Mas será preciso escrever.
— Oh, sim, isso é indispensável! Uma palavrinha do punho de Vossa
Majestade e vosso sinete particular.
— Mas essa palavrinha é minha condenação, é o divórcio, o exílio!
— Sim, se caírem em mãos infames! Mas vos afianço que essa mensagem
chegará a seu destinatário.
— Oh, meu Deus! Terei então que entregar minha vida, minha honra,
minha reputação em suas mãos!
— Sim, senhora, tereis, e eu consertarei tudo!
— Mas como? Fale, pelo menos.
— Meu marido foi solto há dois ou três dias. Ainda não tive tempo de vê-
lo. É um homem íntegro e honesto, sem ódio ou amor por ninguém. Ele fará
o que eu quiser, partirá a uma ordem minha, sem saber o que carrega consigo,
e entregará vossa carta, sem mesmo saber que é de Vossa Majestade, no
endereço que indicardes.
A rainha pegou as duas mãos da jovem num impulso de gratidão,
observou-a como se para ler no fundo de seu coração e, não vendo senão
sinceridade em seus belos olhos, beijou-a carinhosamente.
— Faça isso — exclamou —, e terá salvo minha vida, terá salvo a minha
honra!
— Oh, não exagereis o favor que tenho a felicidade de prestar-vos. Não
tenho nada a salvar de Sua Majestade, que é apenas vítima de pérfidos
complôs.
— É verdade, é verdade, criança — disse a rainha —, você tem razão.
— Dai-me então essa carta, senhora, o tempo urge.
A rainha correu até uma mesinha, sobre a qual se achavam tinta, papel e
penas. Escreveu duas linhas, lacrou a carta com seu sinete e entregou-a à sra.
Bonacieux.
— E agora — disse a rainha —, esquecemos uma coisa imprescindível.
— Qual?
— O dinheiro.
A sra. Bonacieux corou.
— Sim, é verdade — admitiu ela —, confesso à Vossa Majestade que meu
marido…
— Seu marido não tem, é isso que quer dizer.
— Na realidade, tem, mas é muito avarento, é o seu defeito. Entretanto,
que Vossa Majestade não se preocupe, daremos um jeito…
— É que eu também não tenho — disse a rainha (os que leram as
Memórias da sra. de Motteville não se surpreenderão com essa resposta). —
Mas, espere.
Ana da Áustria correu até o seu escrínio.
— Tome — disse ela —, é um anel de grande valor, ao que dizem. Vem de
meu irmão, o rei da Espanha, é meu e posso dispor dele. Tome esse anel,
transforme-o em dinheiro e que seu marido parta.
— Dentro de uma hora, sereis obedecida.
— Veja o destinatário — acrescentou a rainha, falando tão baixo que mal
se ouviam suas palavras. — A milorde, duque de Buckingham, Londres.
— A carta ser-lhe-á entregue pessoalmente.
— Alma generosa! — exclamou Ana da Áustria.
A sra. Bonacieux beijou as mãos da rainha, escondeu a carta em seu
vestido e desapareceu com a velocidade de um pássaro.
Dez minutos depois, estava em casa. Como havia dito à rainha, não tivera
tempo de rever o marido desde sua libertação. Logo, ignorava tudo acerca da
mudança que se operara nele em relação ao cardeal, mudança promovida pela
bajulação, pelo dinheiro de Sua Eminência e, desde então, reforçada por duas
ou três visitas do conde de Rochefort, que se tornara o melhor amigo de
Bonacieux, o qual convencera, sem maiores dificuldades, que o rapto de sua
esposa absolutamente não fora realizado por qualquer motivação condenável,
tratando-se tão somente de uma precaução política.
Ela encontrou o sr. Bonacieux sozinho. O pobre homem tentava dar um
jeito na casa, cujos móveis encontrara quase quebrados e os armários quase
vazios, a justiça não sendo uma das três coisas cuja passagem não deixa
vestígios, segundo o rei Salomão. Quanto à criada, fugira após o
encarceramento do patrão. O terror dominou a moça a tal ponto que ela
andara de Paris até a Borgonha, sua terra natal, sem parar nenhum instante.
O digno comerciante, assim que pôs os pés em casa, comunicou seu feliz
regresso à mulher, e a mulher respondeu felicitando-o e dizendo-lhe que sua
primeira hora de folga seria inteiramente dedicada a fazer-lhe uma visita.
Essa primeira hora levou cinco dias para chegar, o que, em qualquer outra
circunstância, teria parecido uma longa espera a mestre Bonacieux. Contudo,
após a visita que fizera ao cardeal, e as visitas que lhe eram feitas por
Rochefort, ele tinha muito o que refletir, e, sabemos bem disso, nada como a
reflexão para passar o tempo.
Ainda mais que as reflexões de Bonacieux eram todas cor-de-rosa.
Rochefort chamava-o de amigo, de caro Bonacieux, e dizia a todo momento
que o cardeal tinha por ele uma grande consideração. O comerciante já se via
no caminho das honras e da fortuna.
De seu lado, a sra. Bonacieux também refletia, mas, cumpre dizê-lo, em
coisa bastante diferente da ambição. Embora lutasse contra seus
pensamentos, eles tinham como objeto constante o bonito rapaz tão corajoso
e aparentemente tão apaixonado. Casada aos dezoito anos com o sr.
Bonacieux, desde então vivendo restrita ao círculo de amigos do marido,
pouco suscetíveis de inspirar qualquer sentimento a uma jovem mulher cujo
coração era mais elevado que sua posição, a sra. Bonacieux permanecera
insensível a seduções vulgares. Mas, sobretudo nessa época, o título de
fidalgo exercia um grande fascínio na burguesia, e d’Artagnan era um
fidalgo. Além do mais, vestia o uniforme dos guardas, o qual, depois do
uniforme dos mosqueteiros, era o mais apreciado pelas damas. Ele era,
repetimos, belo, jovem, aventureiro. Falava de amor como homem que ama e
tem sede de ser amado. Tudo isso era mais que o suficiente para virar uma
cabeça de vinte e três anos, e a sra. Bonacieux acabava de chegar a essa feliz
idade da vida.
Os dois esposos, apesar de não se verem há mais de uma semana, e a
despeito dos graves acontecimentos daquela semana, reuniram-se com
alguma dose de preocupação. Ainda assim, o sr. Bonacieux manifestou uma
autêntica alegria e recebeu a mulher de braços abertos.
A sra. Bonacieux ofereceu-lhe a testa.
— Precisamos conversar — ela anunciou.
— O que disse? — espantou-se Bonacieux.
— Isso que você ouviu, tenho uma coisa da mais alta relevância a lhe
dizer.
— Na verdade, também eu tenho algumas perguntas bem sérias a lhe fazer.
Ajude-me a entender um pouco o seu rapto, por favor.
— Não é esse o meu assunto por enquanto — rebateu a sra. Bonacieux.
— E do que se trata então? Do fato de eu ter sido preso?
— Soube disso no mesmo dia, mas, como você não era culpado de nenhum
crime, como não era cúmplice de nenhuma intriga, como não sabia de nada,
enfim, que pudesse comprometê-lo, nem a você nem a ninguém, não dei a
esse fato senão a importância que ele merecia.
— Você fala como se nada tivesse acontecido! — investiu Bonacieux,
ferido pelo pouco interesse da esposa. — Sabia que fui jogado por um dia e
uma noite no calabouço da Bastilha?
— Um dia e uma noite passam rápido. Esqueçamos portanto seu cativeiro
e voltemos ao que me traz até você.
— Como assim? O que a traz até mim! Então não é o desejo de rever seu
marido, que não vê há uma semana? — perguntou o comerciante, ofendido.
— Isso veio antes, agora é outra coisa.
— Fale!
— Uma coisa do mais alto interesse e da qual talvez dependa nossa sorte.
— Nossa sorte mudou muito depois que a conheci, sra. Bonacieux, e não
me admiraria se daqui a alguns meses ela causasse inveja a muita gente.
— Sim, principalmente caso se disponha a seguir as instruções que vou lhe
dar.
— A mim?
— Sim, a você. Há uma boa e santa ação a ser realizada, meu caro, e muito
dinheiro a ganhar ao mesmo tempo.
A sra. Bonacieux sabia que, ao falar de dinheiro com seu marido, ela o
pegava em seu ponto fraco.
Mas um homem, mesmo um mero dono de armarinho, depois de conversar
dez minutos com o cardeal de Richelieu, não é mais o mesmo homem.
— Muito dinheiro a ganhar! — disse Bonacieux, fazendo um bico com os
lábios.
— Sim, muito.
— Quanto, aproximadamente?
— Mil pistolas, talvez.
— O que tem a me pedir, então, é gravíssimo?
— Sim.
— O que é preciso fazer?
— Você partirá imediatamente; eu lhe entregarei um papel do qual não se
desfará, sob nenhum pretexto, e que entregará em mãos.
— E para onde devo partir?
— Para Londres.
— Eu, para Londres! Você só pode estar brincando, não tenho negócios em
Londres.
— Mas outras pessoas dependem de sua viagem.
— Quem são esses outros? Aviso-lhe desde já que não faço mais nada às
cegas e quero saber não apenas ao que me exponho, como também por quem
me exponho.
— Uma pessoa ilustre o envia, uma pessoa ilustre o espera. A recompensa
não irá decepcioná-lo, é tudo que lhe posso prometer.
— Intrigas novamente, sempre as intrigas! Obrigado, mas agora desconfio
delas; o cardeal me explicou umas coisas.
— O cardeal! — exclamou a sra. Bonacieux. — Esteve com o cardeal?
— Ele mandou me chamar — respondeu o comerciante, orgulhoso.
— E você atendeu ao chamado, imprudente como é.
— Devo dizer que não tinha escolha entre me apresentar ou não, pois
estava entre dois guardas. Também declaro que, por não conhecer Sua
Eminência previamente, se eu tivesse podido dispensar tal visita, eu o teria
feito de bom grado.
— Ele então o maltratou? Fez-lhe ameaças?
— Ele estendeu a mão para mim e me chamou de seu amigo, seu amigo!
Prestou atenção, madame? Sou amigo do grande cardeal!
— Do grande cardeal!
— Por acaso lhe negaria esse título?
— Não lhe negaria nada, mas afirmo-lhe que a benevolência de um
ministro é efêmera, e que é preciso ser louco para se associar a um ministro.
Ele representa poderes acima dos seus próprios, que não repousam no
capricho de um homem ou em circunstâncias determinadas. É a esses poderes
que convém associar-se.
— Sinto muito, mas não conheço outro poder senão o do grande homem a
quem tenho a honra de servir.
— Então está a serviço do cardeal?
— Sim, e, como seu servidor, não permitirei que a senhora se entregue a
complôs contra a segurança do Estado e participe das tramas de uma mulher
que não é francesa e que tem o coração espanhol. Felizmente, o grande
cardeal está lá, seu olhar vigilante permanece atento e penetra até o fundo do
coração.
Bonacieux apenas repetia, palavra por palavra, uma frase que ouvira da
boca do conde de Rochefort, mas a pobre mulher, que contara com o marido
e que, com esse alento, respondera por ele à rainha, nem por isso deixou de
estremecer, tanto pelo perigo no qual quase se lançara, quanto pela
impotência na qual se achava. Entretanto, conhecendo a fraqueza e,
sobretudo, a ganância do marido, não perdia as esperanças de levá-lo a seus
fins.
— Ah, então o senhor é cardinalista — exclamou. — O senhor é do partido
que maltrata sua mulher e insulta a rainha!
— Os interesses particulares não são nada face ao interesse de todos. Estou
do lado dos que salvam o Estado — disse Bonacieux, enfaticamente.
Era outra frase do conde de Rochefort, que ele guardara e que julgava
oportuno citar.
— E sabe o que é o Estado de que está falando? — perguntou a sra.
Bonacieux, dando de ombros. — O senhor não passa de um burguês sem
qualquer refinamento, sempre se virando para o lado que lhe oferece mais
vantagens.
— Ei, ei! — disse Bonacieux, batendo num saquinho bojudo que tilintou
um som metálico. — O que me diz disso aqui, senhora pregadora?
— De onde vem esse dinheiro?
— Não adivinha?
— Do cardeal?
— Dele e do meu amigo, o conde de Rochefort.
— O conde de Rochefort! Mas foi ele quem me raptou!
— É possível, minha cara.
— E recebe dinheiro desse homem?
— Não me disse que o rapto era todo político?
— Sim, mas o rapto tinha como finalidade fazer com que eu traísse minha
ama, arrancar de mim, sob tortura, confissões que pudessem comprometer a
honra e talvez a vida de minha augusta senhora.
— Madame — tornou Bonacieux —, sua augusta senhora é uma pérfida
espanhola e o que o cardeal faz, ele faz bem feito.
— Senhor, eu o sabia medroso, avarento e imbecil, mas não o sabia
infame!
— O que está dizendo, senhora? — assustou-se Bonacieux, que nunca vira
sua mulher com raiva e que recuava ante o entrevero conjugal.
— Estou dizendo que o senhor é um miserável! — continuou a sra.
Bonacieux, ao perceber que recuperava alguma influência sobre o marido. —
Ah, o senhor está metido na política! E na política cardinalista, ainda por
cima! Ah, por dinheiro o senhor se vende, de corpo e alma, ao demônio.
— Não, ao cardeal.
— É a mesma coisa! — exclamou a jovem. — Quem diz Richelieu, diz
Satã.
— Cale-se, senhora, cale-se, podem ouvi-la!
— Sim, tem razão, e eu teria vergonha por você, quando exposta a sua
covardia.
— Mas, então, o que exige de mim? Vejamos!
— Já lhe disse: que parta imediatamente, senhor, que cumpra lealmente a
missão que lhe concedo a honra de receber. Sob essa condição, esqueço tudo,
perdoo tudo. E tem mais — ela lhe estendeu a mão —, faço-lhe um voto de
amizade.
Bonacieux era poltrão e avaro, mas amava a mulher. Enterneceu-se. Um
homem de cinquenta anos não alimenta rancor durante muito tempo por uma
mulher de vinte e três. A sra. Bonacieux, notando que ele hesitava,
perguntou:
— E então, decidiu-se?
— Mas, minha cara amiga, reflita um pouco no que exige de mim. Londres
fica distante de Paris, muito distante, e talvez a missão que me atribui não
seja imune a alguns perigos.
— O que importa, se os evitar!
— Pois fique sabendo, sra. Bonacieux — disse o comerciante —, que
minha resposta é, definitivamente, não. As conspirações me apavoram.
Conheci a Bastilha. Brrr! Ela é horrível. Só de pensar, fico todo arrepiado.
Ameaçaram torturar-me. Sabe o que é tortura? Pedacinhos de madeira
enfiados entre as pernas até os ossos racharem! Não, está decidido, não vou.
E, aliás, por que não vai a senhora mesma? Pois, pensando bem, acho que me
enganei a seu respeito até agora. Acho que a senhora é um homem, e dos
mais furibundos ainda por cima!
— Pois o senhor é uma mulher, uma reles mulher, estúpida, burra. Ah, está
com medo! Preste atenção: se não partir imediatamente, mando prendê-lo por
ordem da rainha e trancafiá-lo nessa Bastilha que tanto o faz tremer.
Bonacieux caiu numa reflexão profunda. Pesou maduramente as duas
cóleras em seu cérebro, a do cardeal e a da rainha: a do cardeal venceu com
sobras.
— Se mandar prender-me em nome da rainha — disse ele —, recorrerei à
Sua Eminência.
Dessa vez a sra. Bonacieux percebeu ter exagerado e ficou assustada com
seu atrevimento. Com pavor, deteve-se um instante para contemplar aquele
rosto estúpido, de uma resolução invencível, como o dos tolos que têm medo.
— Pois bem, desisto! — resignou-se ela. — Pode ser que tenha razão no
fim das contas, afinal um homem entende muito mais de política que uma
mulher, e principalmente o senhor, caro Bonacieux, que conversou com o
cardeal. E, no entanto, é muito duro — acrescentou — ver o meu marido, um
homem cuja afeição eu supunha garantida, tratando-me tão
desrespeitosamente e não satisfazendo meus caprichos.
— É que seus caprichos podem me levar longe demais — triunfou
Bonacieux —, e desconfio deles.
— Já falei que desisto — disse a jovem, suspirando. — Está bem, não se
fala mais nisso.
— Se pelo menos a senhora me dissesse o que eu faria em Londres —
retomou Bonacieux, lembrando-se um pouco tarde que, por recomendação de
Rochefort, deveria tentar surpreender os segredos da esposa.
— Nada demais — disse a moça, a quem uma desconfiança instintiva
tornou prudente —, uma bagatela do desejo feminino, uma comprinha na
qual havia muito a ganhar.
Porém, em contrapartida, quanto mais a moça se acautelava, mais
Bonacieux suspeitava da importância do segredo que ela se recusava a lhe
revelar. Ele imediatamente resolveu correr até a casa do conde de Rochefort,
levando a notícia que a rainha procurava um mensageiro para enviar a
Londres.
— Peço desculpas por sair assim, minha querida sra. Bonacieux — disse
ele —, mas, sem saber quando receberia sua visita, marquei de me encontrar
com um amigo. Mas não demoro. Se quiser me esperar meio minutinho,
assim que houver terminado com esse amigo, volto para pegá-la e, como
começa a ficar tarde, acompanho-a até o Louvre.
— Obrigada, senhor — respondeu a sra. Bonacieux. — O senhor não tem
um pingo de coragem para me ser de qualquer utilidade, e voltarei para o
Louvre muito bem sozinha.
— Como for de seu agrado, sra. Bonacieux — respondeu o varejista
aposentado. — Vejo-a em breve?
— Sem dúvida. Semana que vem, espero. Vou ganhar uma folga e
aproveitarei para vir organizar nossas coisas, que devem estar um pouco
desarrumadas.
— Está bem, estarei à sua espera. Ficou com raiva de mim?
— Eu? Nem um pouco!
— Até breve, então?
— Até breve.
Bonacieux beijou a mão da mulher e afastou-se rapidamente.
— Quem diria — exclamou a sra. Bonacieux, quando seu marido fechou a
porta da rua e ela se viu sozinha. — Só o que faltava era esse imbecil virar
cardinalista! E eu, que jurei à rainha, que prometi à minha pobre ama… Ah,
meu Deus, meu Deus! Ela vai me tomar por uma daquelas vagabundas que
pululam no palácio, postas perto dela para espioná-la! Ah, sr. Bonacieux,
nunca gostei muito do senhor, mas agora é bem pior: odeio-o! E, palavra de
honra, o senhor me pagará por isso!
No momento em que dizia essas palavras, uma batidinha no teto a fez
levantar a cabeça, e uma voz, que lhe chegou através do forro, gritou:
— Cara sra. Bonacieux, abra a porta do corredor, vou descer.
18. O amante e o marido

–A h,abriasenhora — disse d’Artagnan, entrando pela porta que a moça lhe


—, permita-me dizer-lhe que tem um marido lamentável.
— Então ouviu nossa conversa? — perguntou ansiosamente a sra.
Bonacieux, observando d’Artagnan com preocupação.
— Do começo ao fim.
— Mas como, meu Deus?
— De um jeito que só eu conheço e pelo qual ouvi também a conversa
mais animada que teve com os agentes do cardeal.
— E o que compreendeu do que dizíamos?
— Mil coisas. Em primeiro lugar, que seu marido é um pateta e um pedaço
de asno, felizmente. Depois, que a senhora estava em dificuldades, do que
gostei muito, pois isso me dá a oportunidade de prestar-lhe um favor, e Deus
sabe que estou disposto a atirar-me no fogo pela senhora. Por último, que a
rainha necessita que um homem corajoso, inteligente e dedicado faça uma
viagem a Londres. Tenho pelo menos duas das três qualidades de que
necessita, e aqui estou.
A sra. Bonacieux não respondeu, mas seu coração palpitava de alegria e
uma secreta esperança brilhou em seus olhos.
— E que garantias me dá o senhor — ela perguntou —, no caso de eu
aceitar conceder-lhe tal missão?
— Meu amor pela senhora. Vamos, diga, ordene: o que devo fazer?
— Meu Deus, meu Deus! — murmurou a moça. — Será que devo revelar-
lhe um segredo desses, senhor? O senhor é quase uma criança!
— Ora, percebo que a senhora apreciaria uma recomendação.
— Confesso que isso me tranquilizaria muito.
— Conhece Athos?
— Não.
— Porthos?
— Não.
— Aramis?
— Não. Quem são esses cavalheiros?
— São mosqueteiros do rei. Conhece o sr. de Tréville, o capitão?
— Ah, sim, este eu conheço, não pessoalmente, mas por ter ouvido a
rainha falar dele mais de uma vez como um bravo e leal cavalheiro.
— Não teme que ele a traia em favor do cardeal, não é mesmo?
— Oh, não, de forma alguma!
— Pois bem! Conte-lhe o seu segredo e pergunte-lhe, por mais importante,
precioso e terrível que seja, se me pode confiá-lo.
— Mas esse segredo não me pertence, e não posso revelá-lo sem mais nem
menos.
— A senhora estava prestes a revelá-lo ao sr. Bonacieux — disse
d’Artagnan, com despeito.
— Como se revela uma carta ao oco de uma árvore, à asa de um pombo, à
coleira de um cão.
— E, contudo, vê que a amo.
— É o senhor quem diz.
— Sou um homem galante!
— Acredito.
— Corajoso!
— Oh, disso, tenho certeza.
— Vamos, ponha-me à prova.
A sra. Bonacieux olhou para o mancebo, hesitando numa última
desconfiança. Mas havia tal ardor em seus olhos, tal persuasão em sua voz,
que sentiu-se impelida a acreditar nele. De todo modo, achava-se numa
dessas circunstâncias em que é tudo ou nada. A rainha estaria perdida, tanto
pelo excesso de hesitação quanto pelo excesso de confiança. Por fim, cumpre
admitir, o sentimento involuntário que ela nutria por aquele jovem protetor
decidiu-a a falar.
— Escute — disse ela —, rendo-me aos seus protestos e cedo às suas
garantias. Mas juro perante o Deus que nos ouve: se o senhor me trair, que os
meus inimigos me perdoem, eu me matarei acusando-o de minha morte.
— E eu juro perante Deus, senhora — assentiu d’Artagnan —, que, se eu
for preso cumprindo as ordens que vier a me dar, morrerei antes de fazer ou
dizer algo que possa comprometer alguém.
Então a jovem mulher contou-lhe o terrível segredo do qual o acaso já lhe
revelara uma parte, defronte da Samaritana. Foi a mútua declaração de amor
trocada pelos dois.
D’Artagnan irradiava alegria e orgulho. O segredo que detinha, a mulher
que amava, a confiança e o amor, tudo fazia dele um gigante.
— Parto imediatamente — anunciou d’Artagnan.
— Como?! O senhor parte! — exclamou a sra. Bonacieux. — E seu
regimento, e seu capitão?
— Pela minha honra, a senhora me havia feito esquecer tudo isso, querida
Constance! Sim, tem razão, preciso de uma licença.
— Mais um obstáculo — murmurou a sra. Bonacieux, com pesar.
— Oh, este aí — exclamou d’Artagnan, após um momento de reflexão —,
eu o superarei, fique sossegada.
— De que modo?
— Irei hoje à noite mesmo encontrar o sr. de Tréville, a quem encarregarei
de pedir esse favor a seu cunhado, o sr. des Essarts.
— Agora, outra coisa.
— O quê? — perguntou d’Artagnan, percebendo que a sra. Bonacieux
hesitava continuar.
— O senhor talvez não tenha dinheiro…
— “Talvez” é bondade sua — admitiu d’Artagnan, sorrindo.
— Então — disse a sra. Bonacieux, abrindo um armário e tirando de lá a
bolsa que, meia hora antes, seu marido acariciava tão amorosamente —, tome
essa bolsa.
— O dinheiro do cardeal! — exclamou d’Artagnan, caindo na risada, pois
como todos se lembram, graças aos tacos retirados do assoalho ele não
perdera uma sílaba da conversa do comerciante com a mulher.
— O dinheiro do cardeal — repetiu a sra. Bonacieux. — Vê que ele se
apresenta sob um aspecto respeitabilíssimo.
— Essa é boa! — gracejou d’Artagnan. — Será duplamente divertido
salvar a rainha com o dinheiro de Sua Eminência!
— O senhor é um rapaz amável e encantador — disse a sra. Bonacieux. —
Creia que Sua Majestade não será ingrata.
— Oh, já me sinto imensamente recompensado! — exclamou d’Artagnan.
— Amo-a, e a senhora permite que eu o diga. Não me atreveria a esperar
maior felicidade.
— Silêncio! — sussurrou a sra. Bonacieux, estremecendo.
— O que foi?
— Ouço gente na rua.
— É a voz…
— Do meu marido. Sim, reconheço-a.
D’Artagnan correu até a porta e correu o ferrolho.
— Ele não entrará antes de eu partir — disse ele. — Assim que eu me for,
abra para ele.
— Mas eu também preciso sair. E o sumiço do dinheiro, como justificá-lo,
se eu estiver aqui?
— Tem razão, temos que sair.
— Sair, como? Se sairmos, ele nos verá.
— Então temos que subir para a minha casa.
— Nossa — exclamou a sra. Bonacieux —, o senhor fala isso num tom que
dá medo.
A sra. Bonacieux pronunciou essas palavras com uma lágrima nos olhos.
D’Artagnan viu essa lágrima e, perturbado, enternecido, lançou-se aos seus
joelhos.
— Na minha casa — disse ele —, a senhora estará tão segura quanto num
templo, dou-lhe minha palavra de fidalgo.
— Vamos — disse ela —, estou em suas mãos, meu amigo.
D’Artagnan então reabriu cautelosamente o ferrolho. Em seguida, os dois,
ligeiros como sombras, esgueiraram-se pela porta interna do corredor,
subiram sem barulho a escada e entraram no quarto de d’Artagnan.
Ali, para maior segurança, o rapaz montou uma barricada na porta.
Aproximaram-se ambos da janela e, por uma fresta do postigo, viram o sr.
Bonacieux conversando com um homem de capa.
Diante da visão daquele homem, d’Artagnan deu um pulo. Sacando de sua
espada, lançou-se em direção à porta.
Era o homem de Meung.
— O que vai fazer? — exclamou a sra. Bonacieux. — Vai nos entregar!
— Mas jurei matar esse homem! — rebateu d’Artagnan.
— Sua vida agora está comprometida e não lhe pertence. Em nome da
rainha, proíbo-o de correr qualquer perigo alheio à nossa viagem.
— E em seu próprio nome, não ordena nada?
— Em meu nome — disse a sra. Bonacieux, presa de uma viva emoção —,
em meu nome, eu lhe peço por favor. Mas, prestemos atenção, pois eles
parecem falar de mim.
D’Artagnan aproximou-se da janela, aguçando os ouvidos.
O sr. Bonacieux reabrira sua porta e, vendo o apartamento vazio, voltara
até o homem da capa, que por um instante deixara sozinho.
— Ela saiu — disse —, deve ter voltado ao Louvre.
— Tem certeza de que não desconfiou de suas intenções quando o senhor
saiu? — emendou o estranho.
— Tenho — respondeu Bonacieux, com presunção. — É uma mulher
muito pouco perspicaz.
— O cadete dos guardas está em casa?
— Não acredito. Como vê, sua janela está fechada, e nenhuma luz brilha
pelas frestas.
— Tanto faz, temos de averiguar.
— De que jeito?
— Vá bater na porta dele.
— Perguntarei ao criado.
— Vá.
Bonacieux voltou à sua casa, atravessou a mesma porta que acabava de dar
passagem aos dois fugitivos, subiu até o andar de d’Artagnan e bateu.
Ninguém respondeu. Porthos, para se exibir, pegara Planchet emprestado
essa noite. Quanto a d’Artagnan, se precavera para não dar sinal de vida.
No momento em que o dedo de Bonacieux ressoou na porta, os dois jovens
sentiram seus corações dispararem.
— Não tem ninguém — disse Bonacieux.
— Paciência, vamos então para sua casa, estaremos mais seguros do que na
soleira de uma porta.
— Ah, meu Deus! — murmurou a sra. Bonacieux —, não vamos ouvir
mais nada.
— Ao contrário — disse d’Artagnan —, ouviremos ainda melhor.
D’Artagnan retirou os três ou quatro tacos que faziam de seu quarto uma
outra orelha de Dionísio, estendeu um tapete no chão, pôs-se de joelhos e fez
sinal para a sra. Bonacieux debruçar, como ele fazia, na direção da abertura.
— Tem certeza de que não há ninguém? — disse o desconhecido.
— Respondo por isso — disse Bonacieux.
— E acha que sua mulher…
— Retornou ao Louvre.
— Sem falar com ninguém além do senhor?
— Tenho certeza disso.
— Este é um ponto importante, compreende?
— Então a notícia que lhe dei tem algum valor…?
— Muito grande, meu caro Bonacieux, não lhe escondo isso.
— Então o cardeal ficará satisfeito comigo.
— Não tenho a menor dúvida.
— O grande cardeal!
— Tem certeza de que, na conversa com o senhor, sua mulher não
pronunciou nomes próprios?
— Não creio.
— Ela não mencionou nem a sra. de Chevreuse, nem o sr. de Buckingham,
nem a sra. de Vernet?
— Não, disse apenas que iria me enviar a Londres para servir aos
interesses de uma pessoa ilustre.
— Traidor! — sussurrou a sra. Bonacieux.
— Silêncio! — disse d’Artagnan, segurando uma de suas mãos, o que ela
consentiu sem refletir.
— Não importa — continuou o homem da capa —, o senhor foi um tolo
por não ter fingido aceitar a missão, estaria com a carta agora. O Estado
ameaçado estava salvo, e o senhor…
— E eu?
— Ora, o senhor! O cardeal lhe daria cartas de nobreza…
— Ele disse isso?
— Sim, sei que ele gostaria de lhe fazer essa surpresa.
— Fique descansado — disse Bonacieux. — Minha mulher me adora e
ainda há tempo.
— Idiota! — murmurou a sra. Bonacieux.
— Silêncio! — insistiu d’Artagnan, apertando-lhe a mão com mais força.
— Como, ainda há tempo? — perguntou o homem da capa.
— Volto ao Louvre, mando chamar a sra. Bonacieux, digo que refleti,
tratamos do negócio, pego a carta e corro até o cardeal.
— Então, não demore. Voltarei daqui a pouco para saber o resultado dessa
empreitada.
O desconhecido foi embora.
— Infame! — indignou-se a sra. Bonacieux, dirigindo semelhante epíteto
também ao marido.
— Silêncio! — ordenou d’Artagnan mais uma vez, apertando a mão da
jovem com mais força ainda.
Um grito horrível interrompeu então as reflexões de d’Artagnan e da sra.
Bonacieux. Era seu marido, que percebera o desaparecimento da bolsa e saíra
gritando “pega ladrão”.
— Oh, meu Deus! — exclamou a sra. Bonacieux, ele vai convocar o bairro
inteiro.
Bonacieux gritou por um bom tempo, mas gritos como aquele, dada a
frequência com que eram ouvidos, já não atraíam ninguém à rua dos
Coveiros. E a casa do varejista, há algum tempo, era bastante mal-afamada.
Vendo que ninguém aparecia, ele continuou a andar e a gritar, com sua voz
sumindo pouco a pouco na direção da rua du Bac.
— E agora que ele se afastou, é sua vez de partir — disse a sra. Bonacieux.
— Coragem, mas sobretudo prudência, e lembre-se de sua lealdade à rainha.
— A ela e à senhora! — exclamou d’Artagnan. — Fique descansada, bela
Constance, voltarei digno de sua gratidão. Mas, voltarei igualmente digno de
seu amor?
A única resposta da moça foi o rubor intenso que tingiu suas faces.
Instantes depois, d’Artagnan foi embora, envolto, ele também, num grande
casaco que a bainha de uma longa espada franzia cavalheirescamente.
A sra. Bonacieux seguiu-o com os olhos num daqueles longos olhares de
amor com os quais a mulher acompanha o homem pelo qual sente-se amada.
Porém, quando ele desapareceu na esquina da rua, ela caiu de joelhos e,
juntando as mãos, implorou:
— Oh, meu Deus!, protegei a rainha, e a mim!
19. Plano de campanha

D’ Artagnan foi direto à casa do sr. de Tréville. Julgara que, dali a poucos
minutos, o cardeal seria avisado por aquele maldito desconhecido, seu
provável agente, e concluíra acertadamente que não havia um minuto a
perder.
O coração do rapaz transbordava de alegria. Uma oportunidade para
alcançar a glória e ao mesmo tempo ganhar dinheiro apresentava-se a ele, e,
como um incentivo inicial, acabava de aproximá-lo de uma mulher a quem
adorava. A circunstância trazia-lhe então, numa única tacada, mais do que ele
ousara pedir à Providência.
O sr. de Tréville estava no salão com sua habitual corte de fidalgos.
D’Artagnan, já conhecido como íntimo da casa, foi direto ao gabinete do
capitão e mandou avisá-lo de que o aguardava para tratar de um assunto
importante.
D’Artagnan esperava ali há quase cinco minutos, quando entrou o sr. de
Tréville. Num único olhar, e pela alegria que se desenhava no rosto do
jovem, o digno capitão sentiu o cheiro de novidade.
Ao longo de todo o caminho, d’Artagnan ficara em dúvida se devia fazer
do sr. de Tréville seu confidente ou apenas lhe pedir carta branca para um
assunto secreto. Mas o sr. de Tréville fora sempre tão correto com ele, era tão
dedicado ao rei e à rainha, odiava tão cordialmente o cardeal, que o rapaz
resolveu contar toda a verdade.
— Mandou chamar-me, jovem amigo? — perguntou o sr. de Tréville.
— Sim, senhor — disse d’Artagnan —, e espero que me perdoe o
incômodo quando souber o assunto importante de que se trata.
— Fale então, sou todo ouvidos.
— Não se trata de nada menos — disse d’Artagnan, abaixando a voz —
que a honra e talvez a vida da rainha.
— O que está me dizendo? — perguntou o sr. de Tréville, olhando em
volta para verificar se estavam de fato a sós, e em seguida reconduzindo o
olhar indagador na direção de d’Artagnan.
— Quero dizer, senhor, que o acaso me fez dono de um segredo…
— Que você protegerá, espero, meu jovem, com sua vida.
— Mas o qual devo lhe contar, pois apenas o senhor pode me ajudar na
missão que acabo de receber de Sua Majestade.
— Esse segredo pertence-lhe?
— Não, senhor, é da rainha.
— Está autorizado por Sua Majestade a me contar?
— Não, senhor, pelo contrário, foi-me recomendado o mais profundo
sigilo.
— E por que iria traí-lo comigo?
— Porque, como lhe disse, sem o senhor não posso nada e porque receio
que me recuse o favor que venho lhe pedir, caso não esteja informado do
objetivo com que o peço.
— Guarde o seu segredo, rapaz, e diga-me o que deseja.
— Desejo que obtenha para mim, do sr. des Essarts, uma licença de quinze
dias.
— Para quando?
— A partir de hoje à noite.
— Vai sair de Paris?
— Parto em missão.
— Pode me dizer para onde?
— Londres.
— Alguém tem interesse em que não alcance seu objetivo?
— O cardeal, creio, daria tudo no mundo para impedir meu sucesso.
— E parte sozinho?
— Parto sozinho.
— Nesse caso, asseguro-lhe que não passará de Bondy, palavra de Tréville.
— E por quê?
— Será assassinado.
— Morrerei cumprindo meu dever.
— Mas sua missão não será cumprida.
— É verdade — disse d’Artagnan.
— Creia-me — continuou Tréville —, em aventuras desse gênero, temos
que ser quatro para um chegar.
— Ah, tem razão, senhor — disse d’Artagnan. — O capitão conhece
Athos, Porthos e Aramis, e bem sabe que posso contar com eles.
— Sem lhes contar o segredo que eu não quis saber?
— Nós juramos, para sempre, cega confiança e lealdade a toda prova. E
também, se lhes disser que deposita toda a confiança em mim, eles decerto
não serão mais incrédulos que o senhor.
— Posso conceder uma licença de quinze dias a cada um, nada além: a
Athos, cujo ferimento continua a incomodar, para ir às águas de Forges; a
Porthos e a Aramis, para acompanharem seu amigo, a quem não desejam
abandonar numa situação tão dolorosa. O despacho dessa licença será a prova
de que autorizo a viagem dos três.
— Obrigado, o senhor é mil vezes bondoso.
— Vá procurá-los sem demora, e que tudo seja feito hoje à noite. Ah, antes
disso, escreva para mim seu requerimento ao sr. des Essarts. Pode haver um
espião no seu encalço, e sua visita, nesse caso já informada ao cardeal, terá
assim uma boa explicação.
D’Artagnan formulou esse pedido, e o sr. de Tréville, recebendo-o de suas
mãos, assegurou que antes das duas da manhã as quatro licenças estariam nos
respectivos domicílios dos viajantes.
— Tenha a bondade de enviar a minha para o endereço de Athos — pediu
d’Artagnan. — Receio que, ao voltar para casa, eu teria um encontro
desagradável.
— Fique descansado. Adeus e boa viagem! A propósito…! — disse o sr.
de Tréville, chamando-o de volta.
D’Artagnan voltou sobre seus passos.
— Você tem dinheiro?
D’Artagnan bateu na bolsinha que levava na algibeira.
— O suficiente? — perguntou o sr. de Tréville.
— Trezentas pistolas.
— Ótimo, isso dá para chegar ao fim do mundo. Pode ir.
D’Artagnan saudou o sr. de Tréville, que lhe estendeu a mão. D’Artagnan
apertou-a com um misto de respeito e gratidão. Desde que chegara a Paris,
felicitava-se por conhecer aquele excelente homem, que julgara sempre
digno, leal e generoso.
Sua primeira visita foi para Aramis. Não voltara à casa do amigo desde a
famosa noite em que havia seguido a sra. Bonacieux. E mais: via pouco o
jovem mosqueteiro, e a cada vez que o encontrava, pressentia uma imensa
tristeza em seu rosto.
Naquela noite mesmo, Aramis velava, sorumbático e sonhador, e
d’Artagnan fez-lhe algumas perguntas sobre aquela melancolia profunda.
Aramis jogou a culpa num comentário do décimo oitavo capítulo de santo
Agostinho, que ele devia escrever em latim para a semana seguinte e que o
preocupava muito.
Após os dois amigos conversarem por alguns instantes, um criado do sr. de
Tréville entrou com um envelope lacrado.
— O que é isso? — perguntou Aramis.
— A licença que o senhor requereu — respondeu o lacaio.
— Mas não requeri licença nenhuma.
— Cale-se e pegue — disse d’Artagnan. — E você, meu amigo, aqui está
meia pistola pelo seu trabalho. Você dirá ao sr. de Tréville que o sr. Aramis
lhe agradece com toda a sinceridade.
O lacaio curvou-se até o chão e saiu.
— O que significa isso? — perguntou Aramis.
— Junte o que precisa para uma viagem de quinze dias e siga-me.
— Mas não posso sair de Paris agora, sem saber…
Aramis interrompeu-se.
— O que aconteceu com ela, não é? — continuou d’Artagnan.
— Ela quem? — rebateu Aramis.
— A mulher que estava aqui, a mulher do lenço bordado?
— Quem disse que havia uma mulher aqui? — replicou Aramis, ficando
pálido como um cadáver.
— Eu a vi.
— E sabe quem ela é?
— Pelo menos acho que desconfio.
— Escute — disse Aramis —, já que sabe tanta coisa, sabe o que
aconteceu com essa mulher?
— Presumo que tenha voltado para Tours.
— Tours? Sim, de fato, você a conhece. Mas como ela voltou para Tours
sem me dizer nada?
— Porque teve medo de ser presa.
— Por que não me escreveu?
— Porque teve medo de comprometê-lo.
— D’Artagnan, você me restitui a vida! — exclamou Aramis. — Eu me
julgava desprezado, traído. Estava tão feliz de revê-la! Não podia acreditar
que ela arriscasse sua liberdade por mim e, não obstante, por que motivo teria
vindo a Paris?
— Pelo motivo que hoje nos obriga a ir à Inglaterra.
— E que motivo é esse? — perguntou Aramis.
— Você saberá um dia, Aramis, por ora imitarei a discrição da sobrinha do
doutor.
Aramis sorriu, lembrando-se da história imaginosa que havia contado certa
noite a seus amigos.
— Muito bem! Então, já que ela deixou Paris e que você tem certeza disso,
d’Artagnan, nada mais me prende aqui. Estou pronto para segui-lo. Você
dizia que estávamos indo a…?
— À casa de Athos, em primeiro lugar. Se você vem comigo, intimo-o
inclusive a se apressar, pois já perdemos muito tempo. A propósito, avise a
Bazin.
— Bazin vem conosco? — perguntou Aramis.
— Talvez. Em todo caso, agora é bom que ele nos siga até a casa de Athos.
Aramis chamou Bazin. Após lhe ter ordenado que fosse encontrá-lo na
casa de Athos:
— Vamos, então — disse ele, pegando seu casaco, sua espada e seus três
pistoletes, e abrindo inutilmente três ou quatro gavetas para ver se não
encontrava nelas nenhuma moeda perdida. Depois, quando se certificou de
que a busca era vã, seguiu d’Artagnan, perguntando-se como era possível o
jovem cadete dos guardas saber tão bem quanto ele quem era a mulher à qual
dera hospitalidade, e saber, melhor do que ele, do seu paradeiro.
Entretanto, ao sair, Aramis pôs a mão no braço de d’Artagnan e, olhando-o
fixamente, perguntou:
— Contou a alguém sobre essa mulher?
— A ninguém no mundo.
— Nem mesmo a Athos ou Porthos?
— Não abri a boca.
— Tanto melhor.
E, sossegado quanto a esse ponto importante, Aramis seguiu seu caminho
com d’Artagnan e ambos não demoraram a chegar à casa de Athos.
Encontraram-no com sua licença numa das mãos e a carta do sr. de Tréville
na outra.
— Podem me explicar o que significam a licença e a carta que acabo de
receber? — disse Athos, perplexo.
Meu caro Athos, consinto, uma vez que sua saúde o exige impreterivelmente, que o senhor descanse
quinze dias. Vá, pois, tomar as águas de Forges ou quaisquer outras que lhe façam bem, e se
restabeleça prontamente.
Seu afeiçoado,
Tréville

— Pois bem, Athos, essa licença e essa carta significam que deve me
acompanhar.
— Às águas de Forges?
— Para lá ou para outras plagas.
— Em nome do rei?
— Do rei ou da rainha. Não somos soldados de Suas Majestades?
Porthos entrou nesse momento.
— Com mil diabos — disse ele —, eis uma coisa estranha: desde quando,
no regimento dos mosqueteiros, licenças são distribuídas sem que ninguém as
solicite?
— Desde que eles têm amigos solicitando-as em seu lugar — respondeu
d’Artagnan.
— Ah, ah! — animou-se Porthos. — Parece que temos novidade por
aqui…
— Sim, vamos viajar — confirmou Aramis.
— Para onde? — perguntou Porthos.
— Pois não faço a mínima ideia — respondeu Athos. — Pergunte a
d’Artagnan.
— Para Londres, cavalheiros — disse d’Artagnan.
— Para Londres! — exclamou Porthos. — E o que vamos fazer em
Londres?
— Eis o que não posso dizer-lhes, precisam confiar em mim.
— Mas, para ir a Londres — acrescentou Porthos —, é necessário
dinheiro, e eu não tenho nenhum.
— Nem eu — disse Aramis.
— Nem eu — ecoou Athos.
— Mas eu tenho — afirmou d’Artagnan, puxando seu tesouro do bolso e
colocando-o sobre a mesa. — Nessa bolsa, há trezentas pistolas. Peguemos
setenta e cinco cada um. É o que basta para ir a Londres e voltar. Aliás, não
se iludam, não chegaremos todos a Londres.
— E por que isso?
— Porque, segundo toda a probabilidade, alguns de nós ficarão pelo
caminho.
— Mas então é uma campanha que empreendemos?
— E das mais perigosas, fiquem avisados.
— Essa é boa! Mas, uma vez que arriscamos nossas vidas, eu gostaria
muito de saber por quê, é possível?
— Você está querendo muito! — insistiu Athos.
— Pois também sou da opinião de Porthos — disse Aramis.
— O rei tem o hábito de lhes prestar contas? Não, ele simplesmente lhes
diz: “Senhores, há guerra na Gascônia, ou em Flandres, vão guerrear”, e
vocês vão. Por quê? Vocês nem sequer se preocupam com isso.
— D’Artagnan tem razão — rendeu-se Athos —, aqui estão nossas três
licenças enviadas pelo sr. de Tréville, e aqui estão trezentas pistolas vindas
não sei de onde. Vamos, pois, procurar a morte onde nos determinam. A vida
merece o trabalho de tantas perguntas? D’Artagnan, estou às suas ordens.
— Eu também — disse Porthos.
— E eu também — aderiu Aramis. — Aliás, não me aborrece sair de Paris.
Preciso de distração.
— Não seja por isso! Distração é o que não vai lhes faltar, cavalheiros,
estejam sossegados — garantiu d’Artagnan.
— E quando partimos? — perguntou Athos.
— Imediatamente — respondeu d’Artagnan. — Não há um minuto a
perder.
— Ei! Grimaud, Planchet, Mousqueton, Bazin! — gritaram os quatro
rapazes chamando seus lacaios. — Engraxem nossas botas e vão buscar
nossos cavalos no palácio dos mosqueteiros.
Com efeito, cada mosqueteiro deixava no quartel-general seu cavalo e o de
seu lacaio.
Planchet, Grimaud, Mousqueton e Bazin saíram às pressas.
— Agora, tracemos o plano de campanha — disse Porthos. — Para onde
vamos primeiro?
— Para Calais — respondeu d’Artagnan. — É o caminho mais curto para
chegarmos a Londres.
— Pois bem — disse Porthos —, eis a minha opinião.
— Fale.
— Quatro homens viajando juntos seriam suspeitos. D’Artagnan nos dará
instruções individualmente. Partirei na frente pela estrada de Boulogne, como
batedor. Athos partirá duas horas depois pela de Amiens. Aramis nos seguirá
pela de Noyon. Quanto a d’Artagnan, irá por onde quiser, com as roupas de
Planchet, enquanto Planchet nos seguirá como d’Artagnan e com o uniforme
dos guardas.
— Senhores — disse Athos —, minha opinião é que não convém misturar
lacaios num assunto desses. Um segredo pode ser eventualmente traído por
fidalgos, mas quase sempre é vendido por lacaios.
— O plano de Porthos parece-me impraticável — argumentou d’Artagnan
—, na medida em que eu mesmo ignoro as instruções que possa lhes dar. Sou
portador de uma carta, isso é tudo. Não tenho e não posso fazer três cópias
dessa carta, pois está lacrada. Logo, a meu ver, somos obrigados a viajar em
grupo. A carta está aqui, neste bolso. (E mostrou o bolso onde estava a carta.)
Se eu for morto, um de vocês a pegará e seguirá em frente; se ele for morto,
será a vez do outro, e assim por diante. Contanto que um chegue, é o que
basta.
— Bravo, d’Artagnan! Sou da mesma opinião — exclamou Athos. —
Aliás, temos de ser consequentes: vou me curar com água mineral, vocês me
farão companhia, só que, em vez das águas de Forges, preferi me tratar com
água do mar. Sou livre. Se quiserem nos deter, mostro a carta do sr. de
Tréville e vocês, suas licenças. Se nos atacarem, nos defenderemos; se nos
julgarem, sustentaremos obstinadamente que não tínhamos outra intenção a
não ser pularmos um certo número de vezes no mar. Quatro homens isolados
seriam presa fácil, ao passo que quatro homens reunidos formam uma tropa.
Armaremos os quatro lacaios com pistoletes e mosquetões. Se enviarem um
exército contra nós, lutaremos, e o sobrevivente, como disse d’Artagnan,
levará a carta.
— Muito bem dito — exclamou Aramis. — Você não fala muito, Athos,
mas, quando fala, é como um são João Boca de Ouro. Sou pelo plano de
Athos, e você, Porthos?
— Eu também — disse Porthos —, se for conveniente para d’Artagnan.
D’Artagnan, o portador da carta, é naturalmente o chefe da expedição. O que
ele decidir, executaremos.
— Pois bem! — disse d’Artagnan. — Decido adotar o plano de Athos e
partir dentro de meia hora.
— Apoiado! — repetiram em coro os três mosqueteiros.
E cada um, esticando sua mão para bolsa, pegou setenta e cinco moedas e
fez seus preparativos para partir na hora estipulada.
20. A viagem

À sbarreira
duas horas da manhã, nossos quatro aventureiros saíram de Paris pela
Saint-Denis. Enquanto ainda estava escuro, permaneceram
mudos. Contra sua vontade, sofriam a influência da escuridão e viam
emboscadas em toda parte.
Aos primeiros raios do dia, suas línguas desataram. Com o sol, a alegria
voltou. Tal qual na véspera de um grande confronto, o coração batia, os olhos
sorriam, e eles sentiam que a vida, talvez perto do fim, era na verdade uma
coisa boa.
O aspecto da caravana, em todo caso, era dos mais espetaculosos: os
cavalos pretos dos mosqueteiros, seu garbo marcial, o hábito de esquadrão,
que faz marchar regularmente esses nobres companheiros do soldado, teriam
denunciado o mais perfeito disfarce.
Os lacaios vinham atrás, armados até os dentes.
Tudo foi bem até Chantilly, aonde chegaram por volta das oito da manhã.
Tinham de comer alguma coisa. Apearam numa estalagem indicada por uma
tabuleta, na qual são Martinho estava representado dividindo seu agasalho
com um pobre. Recomendaram aos lacaios não desarrear os cavalos e estar a
postos para partir imediatamente.
Entraram na sala comum e puseram-se à mesa.
Um fidalgo, que acabava de chegar pela estrada de Dammartin, sentara-se
nessa mesma mesa e comia. Puxou conversa sobre a chuva e o tempo bom.
Os viajantes responderam. Ele bebeu à sua saúde. Os viajantes retribuíram-
lhe a gentileza.
Porém, no momento em que Mousqueton acabava de anunciar que os
cavalos estavam prontos e eles levantavam da mesa, o estranho sugeriu a
Porthos um brinde ao cardeal. Porthos respondeu que também não seria
muito pedir ao estranho, por sua vez, que brindasse à saúde do rei. O estranho
bradou não conhecer outro rei a não ser Sua Eminência. Porthos chamou-o de
bêbado. O estranho puxou a espada.
— Você fez uma tolice — reprovou Athos. — Mas não importa, é
impossível recuar agora. Mate esse homem e alcance-nos o mais rápido que
puder.
E todos os três montaram em seus cavalos e partiram a galope, enquanto
Porthos prometia ao adversário perfurá-lo com todos os golpes conhecidos na
esgrima.
— E lá se foi um! — pontuou Athos, após percorrerem uns quinhentos
passos.
— Mas por que esse homem dirigiu-se Porthos e não a outro qualquer? —
perguntou Aramis.
— Porque, como Porthos é o que fala mais alto de nós, ele o tomou pelo
chefe — concluiu d’Artagnan.
— Eu sempre disse que esse cadete da Gasconha é um poço de sabedoria
— admirou-se Athos.
E os viajantes seguiram em frente.
Em Beauvais, fizeram uma parada de duas horas, para os cavalos
descansarem e para aguardar Porthos. No fim de duas horas, como ele não
chegava, ou qualquer notícia a seu respeito, puseram-se novamente a
caminho.
A cinco quilômetros de Beauvais, num lugar onde a estrada estreitava-se
entre dois declives, encontraram oito ou dez homens que, aproveitando-se do
fato de que a estrada não era calçada naquele ponto, pareciam trabalhar nela
cavando buracos e construindo carris na lama.
Aramis, temendo sujar suas botas no atoleiro artificial, interpelou-os
rispidamente. Athos tentou contê-lo, mas era tarde. Os operários começaram
a zombar dos viajantes e, com sua insolência, irritaram até mesmo Athos, que
incitou seu cavalo contra um deles.
Todos aqueles homens recuaram então até a vala e lá pegaram um
mosquete escondido. Resultou disso que nossos sete viajantes foram
literalmente passados pelas armas. Aramis recebeu uma bala que lhe
atravessou o ombro, e Mousqueton uma bala que se alojou nas partes
carnudas que são uma extensão das costas. Entretanto, apenas Mousqueton
caiu do cavalo, não que estivesse gravemente ferido, mas, como não podia
ver seu ferimento, decerto julgou estar mais gravemente ferido do que estava.
— É uma emboscada — disse d’Artagnan —, não desperdicemos nossa
pólvora, vamos em frente!
Aramis, embora gravemente ferido, agarrou a crina de seu cavalo, que o
levou para junto de seus companheiros. O de Mousqueton reunira-se a eles, e
galopava em fileira, com a sela vazia.
— Isso nos dá um cavalo sobressalente — contabilizou Athos.
— Eu teria preferido um chapéu — disse d’Artagnan —, o meu foi
carregado por uma bala. Ainda bem que a carta não estava dentro dele.
— Mas pensem bem! Vão matar o pobre Porthos quando ele passar —
afligiu-se Aramis.
— Se Porthos estivesse de pé, estaria conosco agora — disse Athos. — Em
minha opinião, o tal bêbado recuperou a lucidez durante o combate.
Galoparam ainda por duas horas, apesar do cansaço dos cavalos, que
pareciam nas últimas.
Os viajantes tomaram um atalho, esperando dessa forma serem menos
importunados. Porém, em Crévecœur, Aramis declarou que não podia mais
continuar. Com efeito, fizera uso de toda sua coragem, que ele escondia sob
sua forma elegante e maneiras polidas, para chegar até ali. Volta e meia
empalidecia, e seus dois amigos eram obrigados a ampará-lo sobre o cavalo.
Desmontaram-no na porta de um cabaré, deixaram-lhe Bazin, que por sinal
era mais estorvante do que útil numa refrega, e partiram novamente, na
esperança de pernoitar em Amiens.
— Com mil demônios! — praguejou Athos, quando se viram na estrada
reduzidos a dois patrões e a Grimaud e Planchet. — Não serei enganado de
novo, e afianço-lhes que não me farão abrir a boca nem puxar a espada daqui
até Calais. Juro…
— Não juremos — disse d’Artagnan —, galopemos, quer dizer, se nossos
cavalos consentirem nisso.
E os viajantes espetaram suas esporas nos flancos dos cavalos, que, assim
vigorosamente estimulados, recuperaram forças. Entrando em Amiens à
meia-noite, apearam na estalagem do Lírio de Ouro.
O estalajadeiro parecia o homem mais honesto da terra, e recebeu os
viajantes com o castiçal numa das mãos e a touca de algodão na outra. Queria
alojar os dois viajantes cada um num quarto encantador, mas infelizmente
esses quartos ficavam na extremidade da estalagem. D’Artagnan e Athos
recusaram. O estalajadeiro respondeu que não tinha outros dignos de Suas
Excelências, mas os viajantes declararam que dormiriam na sala comum, em
colchões estendidos no chão. O estalajadeiro insistiu, os viajantes teimaram.
Sua vontade teve que ser atendida.
Acabavam de arrumar suas camas, e fazer uma barricada atrás da porta,
quando bateram na janela do pátio. Perguntando quem era, os mosqueteiros
reconheceram as vozes dos criados e abriram.
Com efeito, eram Planchet e Grimaud.
— Grimaud é suficiente para vigiar os cavalos — disse Planchet. — Se os
senhores quiserem, posso deitar atravessado junto à porta. Dessa maneira,
terão certeza de que nada chegará até eles.
— E onde se deitará? — perguntou d’Artagnan.
— Eis a minha cama — respondeu Planchet.
E mostrou uma enxerga de palha.
— Então, vá — disse d’Artagnan —, tem razão. A cara do estalajadeiro
não me convence, é simpática demais.
— A mim tampouco — endossou Athos.
Planchet subiu pela janela, instalou-se atravessado na porta, enquanto
Grimaud ia trancar-se na estrebaria, respondendo que às cinco horas da
manhã ele e os quatro cavalos estariam prontos.
A noite correu sem percalços. De fato tentaram abrir a porta às duas horas
da manhã, mas como Planchet acordou sobressaltado e perguntou: “Quem
vem lá?”, responderam que era engano e se afastaram.
Às quatro horas, ouviu-se um grande barulho nas estrebarias. Grimaud
tentara acordar os meninos que nelas trabalhavam, mas eles agora estavam
lhe dando uma sova. Ao abrirem a janela, os mosqueteiros viram o pobre
rapaz sem sentidos, com a cabeça rachada por um golpe do cabo de um
forcado.
Planchet desceu até o pátio e quis selar os cavalos. Encontrou-os
esgotados. Somente o de Mousqueton, que viajara sem cavaleiro durante
cinco ou seis horas na véspera, estava em condições de seguir adiante, mas,
por um engano inconcebível, o cirurgião veterinário que fora chamado, ao
que parece, para sangrar o cavalo do estalajadeiro, sangrara o de
Mousqueton.
Aquilo começava a ficar preocupante: tantos acidentes sucessivos podiam
ser resultado do acaso, mas podiam igualmente ser fruto de um complô.
Athos e d’Artagnan saíram, enquanto Planchet foi informar-se se não havia
três cavalos à venda nos arredores. Na porta da estalagem havia dois cavalos
arreados, descansados e vigorosos. Aquilo vinha a calhar. Ele perguntou onde
estavam os donos. Disseram-lhe que haviam passado a noite na estalagem e
estavam acertando as contas com o estalajadeiro.
Athos desceu para pagar a despesa, enquanto d’Artagnan e Planchet
mantinham-se na porta da rua. O estalajadeiro achava-se num recinto baixo e
recuado, Athos foi convidado a entrar.
Athos entrou sem desconfiança e pegou duas pistolas para pagar as
despesas. O estalajadeiro estava sozinho e sentado diante de uma mesa, da
qual uma das gavetas estava entreaberta. Pegou o dinheiro estendido por
Athos, virou-o e revirou-o nas mãos, e de repente, esbravejando que a moeda
era falsa, declarou que iria mandar prender a ele e a seu companheiro como
falsários.
— Impertinente! — indignou-se Athos, caminhando em sua direção. —
Vou cortar suas orelhas fora!
No mesmo instante, quatro homens armados até os dentes entraram pelas
portas laterais e lançaram-se sobre Athos.
— Fui apanhado — gritou ele, com todas as forças de seus pulmões. —
Fuja d’Artagnan! Sebo nas canelas! — e deu dois tiros de pistola.
D’Artagnan e Planchet não esperaram que gritasse outra vez, soltaram os
dois cavalos que se achavam na porta, pularam em cima deles, enfiaram-lhes
as esporas na barriga e partiram num galope desenfreado.
— Sabe o que aconteceu com Athos? — perguntou d’Artagnan a Planchet,
enquanto voava.
— Ah, patrão — disse Planchet —, vi dois caírem atingidos pelos seus
tiros, e me pareceu, através do vidro da porta, que ele esgrimia com os
demais.
— Grande Athos! — enalteceu d’Artagnan. — E quando penso que tenho
de abandoná-lo! Em todo caso, talvez a mesma coisa nos espere a dois passos
daqui. Em frente, Planchet, em frente! Você é um bom homem!
— Eu lhe disse, patrão — respondeu Planchet —, os homens da Picardia
mostram-se no uso. Aliás, aqui estou na minha terra, isso me excita.
E ambos, esporeando cada vez mais, chegaram a Saint-Omer, num único
estirão. Lá, deram de comer aos cavalos, com a rédea passada em seus
braços, temendo algum acidente, e comeram qualquer coisa de pé mesmo, na
rua, partindo em seguida.
A cem passos das portas de Calais, o cavalo de d’Artagnan foi ao chão, e
não houve meio de fazê-lo reerguer-se. Saía-lhe sangue pelo nariz e pelos
olhos. Restava o de Planchet, mas este empacara e nada o fazia sair do lugar.
Por sorte, como dissemos, estavam a cem passos da cidade. Deixaram as
duas montarias na estrada e correram até o porto. Planchet chamou a atenção
de seu patrão para um fidalgo que chegava com seu valete e que os precedia
apenas uns cinquenta passos.
Aproximaram-se rapidamente desse fidalgo, que parecia apressadíssimo.
Tinha as botas cobertas de pó e indagava se não poderia atravessar
imediatamente para a Inglaterra.
— Nada seria mais fácil — respondeu o capitão de um barco pronto para
largar as amarras —, mas hoje pela manhã recebemos ordens de não deixar
ninguém partir sem uma autorização expressa do sr. cardeal.
— Tenho essa autorização — assegurou o fidalgo, puxando um papel do
bolso. — Aqui está.
— Providencie o visto com o diretor do porto — disse o capitão —, e
conceda-me o privilégio de transportá-lo.
— Onde encontrarei o diretor?
— Em seu solar.
— E onde fica o tal solar?
— A uns dois quilômetros da cidade. Olhe, pode vê-lo daqui, ao pé
daquela pequena colina, com um telhado de ardósia.
— Ótimo! — disse o fidalgo.
E, seguido por seu lacaio, tomou o caminho rumo ao solar do diretor.
D’Artagnan e Planchet seguiram o fidalgo a cinquenta passos de distância.
Uma vez fora da cidade, d’Artagnan apertou o ritmo e alcançou o fidalgo
quando este entrava num pequeno bosque.
— Cavalheiro — disse-lhe d’Artagnan —, o senhor me parece apressado…
— Mais apressado impossível, meu caro.
— Estou desesperado — acrescentou d’Artagnan —, e, como também
estou com muito pressa, queria lhe pedir um favorzinho.
— Qual?
— Deixe-me passar na sua frente.
— Impossível — respondeu o fidalgo —, fiz trezentos quilômetros em
quarenta e quatro horas, e tenho que estar em Londres amanhã ao meio dia.
— Fiz o mesmo percurso em quarenta horas, e tenho que estar em Londres
amanhã às dez da manhã.
— Sinto muito, cavalheiro, mas fui o primeiro a chegar e não serei o
segundo a atravessar.
— Sinto muito, cavalheiro, mas fui o segundo a chegar e serei o primeiro a
atravessar.
— Em nome do rei! — advertiu o fidalgo.
— Em meu nome! — retrucou d’Artagnan.
— Isso me parece uma provocação, senhor.
— Ora, e o que mais o senhor esperava que fosse!
— O que deseja?
— Quer saber?
— Naturalmente.
— Pois bem, desejo sua autorização para viajar, considerando que não
tenho uma e que preciso dela.
— Isso é uma brincadeira, suponho.
— Eu nunca brinco.
— Deixe-me passar!
— Não passará.
— Meu bom rapaz, vou esmigalhar sua cabeça. Ei, Lubin, meus pistoletes!
— Planchet — disse d’Artagnan —, cuide do criado, eu me encarrego do
amo.
Planchet, animado com sua primeira façanha, pulou sobre Lubin e, como
era forte e vigoroso, virou-o de barriga para cima, colocando o joelho sobre
seu peito.
— Arranje-se com o seu, patrão — disse Planchet —, minha parte eu já fiz.
Vendo aquilo, o fidalgo sacou sua espada e investiu contra d’Artagnan,
mas encontrara um oponente poderoso.
Em três segundos, d’Artagnan desferiu-lhe três estocadas, dizendo a cada
uma delas:
— Uma por Athos, uma por Porthos, uma por Aramis.
À terceira estocada, o fidalgo veio abaixo como chumbo.
D’Artagnan julgou-o morto, ou pelo menos desmaiado, e aproximou-se
para pegar a ordem, porém, no momento em que estendia o braço a fim de
revistá-lo, o ferido, que não largara sua espada, desferiu-lhe uma estocada de
ponta no peito dizendo:
— Uma pelo senhor.
— Uma por mim! Ri melhor quem ri por último! — exclamou d’Artagnan,
furioso, cravando a barriga do adversário no chão com uma quarta estocada.
Dessa vez, o fidalgo fechou os olhos e perdeu os sentidos.
D’Artagnan vasculhou o bolso no qual vira o sujeito enfiar a autorização
para a travessia, e achou. Estava no nome do conde de Wardes.
Depois, olhando uma última vez para o formoso rapaz, que devia ter uns
vinte e cinco anos e que ele deixava ali, prostrado, sem sentidos e talvez
morto, deu um suspiro diante do curioso destino que leva os homens a
destruírem-se uns aos outros, em nome dos interesses de pessoas que não
conhecem e que geralmente nem sabem que eles existem.
Mas logo foi arrancado dessas reflexões por Lubin, que gemia e gritava por
socorro com todas as suas forças.
Planchet aplicou-lhe a mão na garganta e apertou-a com todas as suas
forças.
— Patrão — disse o lacaio —, enquanto eu o mantiver assim, ele não
gritará, disso tenho certeza, mas, no momento em que o largar, ele voltará a
gritar. Noto que é um normando, e os normandos são teimosos.
Com efeito, mesmo esganado, Lubin ainda tentava emitir alguns sons.
— Espere! — disse d’Artagnan.
E, pegando seu lenço, amordaçou-o.
— Agora — disse Planchet —, vamos amarrá-lo a uma árvore.
Tomaram essa providência com muito cuidado, depois arrastaram o conde
de Wardes para perto de seu criado. Já começava a anoitecer, o amordaçado e
o ferido estavam ambos alguns passos dentro do bosque, era óbvio, portanto,
que ali permaneceriam até o dia seguinte.
— E, agora — comandou d’Artagnan —, à casa do diretor!
— Mas me parece que está ferido, patrão… — disse Planchet.
— Não é nada, cuidemos do mais urgente. Depois trataremos do meu
ferimento, que, de toda forma, não me parece muito grave.
E ambos precipitaram-se em direção ao solar do digno funcionário.
Anunciaram o conde de Wardes.
D’Artagnan foi introduzido.
— Tem uma autorização assinada pelo cardeal? — perguntou-lhe o diretor.
— Sim, senhor — respondeu d’Artagnan —, aqui está.
— Ah, ah! Está em ordem e bem-recomendada — disse o diretor.
— É muito simples — respondeu d’Artagnan —, sou um de seus mais fiéis
servidores.
— Parece que Sua Eminência deseja impedir alguém de chegar à
Inglaterra.
— Justamente, um tal de d’Artagnan, um fidalgo bearnês que partiu de
Paris com três amigos na intenção de alcançar Londres.
— Conhece-o pessoalmente? — perguntou o diretor.
— Quem?
— Esse d’Artagnan.
— E muito bem.
— Faça-me então sua descrição.
— Nada mais fácil.
E d’Artagnan descreveu minuciosamente as feições do conde de Wardes.
— Ele está acompanhado? — perguntou o diretor.
— Sim, por um criado que se chama Lubin.
— Ficaremos atentos e, se lhes pusermos as mãos em cima, Sua Eminência
pode ficar descansada, serão reconduzidos a Paris sob forte escolta.
— Se assim o fizer, senhor diretor — disse d’Artagnan —, cairá nas boas
graças do cardeal.
— Irá encontrá-lo em seu retorno, senhor conde?
— Sem nenhuma dúvida.
— Diga-lhe, por favor, que sou seu grande admirador.
— Não me esquecerei.
E, alegre com aquela garantia, o diretor rubricou a autorização e entregou-a
a d’Artagnan.
D’Artagnan não perdeu tempo com rapapés. Cumprimentou o diretor,
agradeceu-lhe e partiu.
Uma vez do lado de fora, ele e Planchet tomaram seu caminho. Fazendo
um longo desvio, evitaram o bosque e entraram na cidade por outra porta.
A embarcação continuava preparada para zarpar, o capitão esperava no
porto.
— Como foi? — perguntou ele, avistando d’Artagnan.
— Aqui está minha autorização com o visto — disse este.
— E aquele outro fidalgo?
— Não viajará hoje — replicou d’Artagnan —, mas, não se preocupe,
pagarei as duas passagens.
— Nesse caso, vamos — disse o capitão.
— Vamos! — repetiu d’Artagnan.
E pulou com Planchet para o bote. Cinco minutos depois, zarparam.
Já não era sem tempo: pouco depois, d’Artagnan viu brilhar uma luz e
ouviu uma detonação.
Era o tiro de canhão que anunciava o fechamento do porto.
Chegara a vez de cuidar de seu ferimento. Felizmente, como pensara
d’Artagnan, não era dos mais graves: a ponta da espada atingira uma vértebra
e deslizara ao longo do osso. Além disso, sua camisa grudara imediatamente
no corte e ele não perdera muito sangue.
D’Artagnan foi tomado pelo cansaço. Estenderam-lhe um colchão no
convés, ele se jogou em cima e dormiu.
No dia seguinte, ao amanhecer, ainda faltavam três ou quatro léguas para a
costa da Inglaterra. O vento não ajudara a noite toda, e pouco tinham
avançado.
Às dez horas, a embarcação ancorou no porto de Dover.
Às dez e meia, d’Artagnan pisou em solo inglês, exclamando:
— Finalmente, aqui estou!
Mas ainda havia mais o que fazer: precisava chegar a Londres. Na
Inglaterra, o serviço de correio era bastante confiável. D’Artagnan e Planchet
arrumaram um pangaré cada um e correram atrás do primeiro postilhão. Em
quatro horas, estavam nos portões da capital.
D’Artagnan não conhecia Londres e não sabia uma palavra de inglês, mas
escreveu o nome de Buckingham num papel e as pessoas indicaram-lhe o
palácio do duque.
O duque estava caçando em Windsor, com o rei.
D’Artagnan mandou chamar o criado de confiança do duque, que, tendo-o
acompanhado em todas as suas viagens, falava um francês fluente. Disse-lhe
que chegava de Paris para um assunto de vida ou morte, e que precisava falar
com seu amo imediatamente.
A confiança demonstrada por d’Artagnan convenceu Patrick, nome desse
ministro do ministro, que mandou selar dois cavalos e encarregou-se de guiar
o jovem guarda. Quanto a Planchet, fora apeado de sua montaria duro como a
haste de um junco. O pobre moço estava no fim de suas energias; d’Artagnan
parecia de ferro.
Chegaram ao castelo. Lá, souberam que o rei e Buckingham estavam
caçando aves nos pântanos situados a dez ou quinze quilômetros dali.
Em vinte minutos, chegaram ao local indicado. Patrick não demorou a
ouvir a voz de seu amo, que chamava seu falcão.
— Quem devo anunciar a milorde? — perguntou Patrick.
— O mancebo que uma noite desacatou-o na Pont-Neuf, em frente à
Samaritana.
— Estranha recomendação!
— Verá que nenhuma outra seria melhor.
Patrick pôs seu cavalo a galope, alcançou o duque e anunciou-lhe, nos
termos já mencionados, que um mensageiro o esperava.
Buckingham lembrou-se prontamente de d’Artagnan e, supondo que
alguma coisa acontecera na França, não perdeu tempo e perguntou onde
estava o portador da mensagem. Ao reconhecer de longe o uniforme dos
guardas, pôs seu cavalo a galope e foi direto até d’Artagnan. Patrick, por
discrição, manteve-se afastado.
— A rainha foi vítima de algum infortúnio? — exclamou Buckingham,
impregnando nessa pergunta todo seu pensamento e amor.
— Não creio, mas temo que corra um grande perigo do qual apenas Vossa
Graça pode salvá-la.
— Eu? — exclamou Buckingham. — Não é possível! Porventura terei a
felicidade de ser-lhe útil em alguma coisa? Fale! Fale!
— Lede essa carta — disse d’Artagnan.
— Essa carta! De quem vem essa carta?
— De Sua Majestade, suponho.
— De Sua Majestade! — admirou-se Buckingham, empalidecendo tanto
que d’Artagnan achou que iria passar mal.
Ele rompeu o lacre.
— Que rasgo é esse? — perguntou, apontando para d’Artagnan um lugar
onde ela estava perfurada.
— Ah, ah! — disse d’Artagnan. — Nem reparei, a espada do conde deve
ter feito esse buraco antes de entrar no meu peito.
— Está ferido? — perguntou Buckingham, acabando de romper o lacre.
— Oh, não foi nada — disse d’Artagnan —, apenas um arranhão.
— Minha nossa! O que leio! — exclamou o duque. — Patrick, fique aqui,
ou melhor, procure o rei onde quer que ele esteja, e diga à Sua Majestade que
lhe suplico mui humildemente que me perdoe, mas um assunto da mais alta
importância me chama a Londres. Venha, cavalheiro, venha.
E ambos rumaram a galope para a capital.
21. A condessa de Winter

D urante o percurso, d’Artagnan informou ao duque não tudo que


acontecera, mas o que ele sabia. Cotejando o que ouvira sair da boca do
rapaz com suas próprias lembranças, Buckingham pôde ter uma noção
bem exata da situação, cuja gravidade, em todo caso, a carta da rainha, por
mais breve e pouco explícita que fosse, já lhe permitia dimensionar. O que
mais o espantava, no entanto, era que o cardeal, tão interessado em que o
rapaz não pusesse os pés na Inglaterra, tivesse sido incapaz de prendê-lo no
caminho. Foi diante dessa manifestação de espanto que d’Artagnan contou-
lhe das precauções tomadas, e de como, graças à ajuda dos três amigos que
deixara pelo caminho, cobertos de sangue, ele havia dado o troco pela
estocada que perpassara o bilhete da rainha, pagando ao sr. Wardes numa
terrível moeda. Enquanto escutava esse relato, feito com grande simplicidade,
o duque observava de tempos em tempos o rapaz com um ar perplexo, como
se não entendesse como tanta prudência, coragem e dedicação pudessem
conjugar-se num rosto que ainda não sugeria vinte anos de idade.
Os cavalos corriam como o vento e, em poucos minutos, estavam às portas
de Londres. D’Artagnan imaginara que o duque, ao chegar à cidade, conteria
o galope do seu, mas não foi esse o caso: ele continuou a toda brida, pouco se
preocupando se derrubava os que estavam em seu caminho. De fato,
ocorreram dois ou três acidentes do gênero enquanto atravessavam Londres,
mas Buckingham não desviou sequer a cabeça para ver o que havia
acontecido com os que atropelara. D’Artagnan seguia-o em meio aos gritos;
muito parecidos, aliás, com palavrões.
Ao entrar no pátio do castelo, Buckingham apeou de seu cavalo, sem se
preocupar com o que fariam com ele, e jogou a rédea sobre seu pescoço,
precipitando-se para a escadaria. D’Artagnan imitou-o, um pouco mais
preocupado, entretanto, com aqueles nobres animais cujo mérito tivera a
oportunidade de apreciar. Teve, porém, o consolo de ver que três ou quatro
valetes já haviam abandonado as cozinhas e cocheiras, encarregando-se
imediatamente das montarias.
O duque caminhava tão rapidamente que d’Artagnan tinha dificuldade em
acompanhá-lo. Atravessou vários salões em sequência, todos de uma
elegância sequer imaginada pelos mais importantes grãos-senhores da França,
até chegar finalmente a um dormitório que era um milagre de bom gosto e de
luxo ao mesmo tempo. Na alcova desse quarto, atrás de um reposteiro,
achava-se uma porta, que o duque abriu com uma chavinha de ouro, sempre
pendurada em seu pescoço numa corrente também preciosa. Por discrição,
d’Artagnan deixara-se ficar para trás, porém, no momento em que
atravessava o umbral dessa porta, Buckingham se voltou e, percebendo a
hesitação do rapaz, disse-lhe:
— Venha, e se tiver a sorte de ser admitido na presença de Sua Majestade,
conte-lhe o que viu.
Encorajado por esse convite, d’Artagnan seguiu o duque, o qual fechou a
porta atrás de si.
Ambos acharam-se então numa pequena capela toda forrada de seda da
Pérsia e brocada de ouro, ardentemente iluminada por um grande número de
velas. Acima de uma espécie de altar, e abaixo de um pálio de veludo azul,
encimado por plumas brancas e vermelhas, estava um retrato de tamanho
natural representando Ana da Áustria, tão fielmente retratada que d’Artagnan
soltou um grito de espanto: a rainha parecia prestes a falar.
Sobre o altar e acima do retrato, estava o estojo que encerrava as agulhetas
de diamantes.
O duque aproximou-se do altar e ajoelhou-se como teria feito um padre
diante de Jesus. Em seguida, abriu o estojo.
— Veja — disse ele, tirando do estojo um grande laçarote de fita azul todo
revestido de diamantes. — Veja, aqui estão as preciosas agulhetas com que
jurei ser enterrado. A rainha me deu, a rainha me toma: sua vontade, como a
de Deus, seja feita em todas as coisas.
Em seguida, começou a beijar uma depois da outra aquelas agulhetas, das
quais era obrigado a se separar. De repente, soltou um grito terrível.
— O que houve? — perguntou d’Artagnan, aflito —, o que aconteceu,
milorde?
— Aconteceu que estamos arruinados — exclamou Buckingham,
tornando-se pálido como um defunto. — Faltam duas agulhetas, aqui só há
dez.
— Milorde perdeu-as ou imagina que lhe foram roubadas?
— Foram roubadas — sentenciou o duque —, e foi o cardeal o mentor do
golpe. Pois, veja, as fitas que as prendiam foram cortadas com uma tesoura.
— Se milorde tivesse uma suspeita…
— Espere, espere! — exclamou o duque. — A única vez que usei as
agulhetas foi no baile do rei, uma semana atrás, em Windsor. A condessa de
Winter, com quem eu estava rompido, reaproximou-se de mim durante o
baile. Essa conciliação era uma vingança de mulher ciumenta. Não a vi mais
desde esse dia. Ela é uma agente do cardeal.
— Mas estão espalhados no mundo inteiro! — exclamou d’Artagnan.
— Oh, sim, sim! — disse Buckingham, rangendo os dentes. — Sim, ele é
um adversário terrível. Mas, a propósito, quando será o baile na França?
— Na próxima segunda-feira.
— Na próxima segunda-feira! Ainda faltam cinco dias, é mais do que
precisamos. Patrick! — exclamou o duque abrindo a porta da capela. —
Patrick!
Seu criado de confiança apareceu.
— Meu ourives e meu secretário!
O criado saiu com uma presteza e um mutismo que atestavam o hábito por
ele contraído de obedecer cegamente e sem perguntas.
Porém, embora tivesse sido o ourives que ele chamara primeiro, foi o
secretário que chegou antes. A razão disso era simples, ele morava no
palácio. Encontrou Buckingham sentado diante de uma mesa, no seu quarto,
a escrever algumas ordens de próprio punho.
— Senhor Jackson — disse-lhe —, o senhor irá sem demora procurar o
lorde chanceler para lhe dizer que o encarrego da execução dessas ordens.
Desejo que sejam promulgadas imediatamente.
— Mas, monsenhor, o que devo responder caso o lorde chanceler me
interrogue sobre os motivos que levaram Vossa Graça a medida tão
extraordinária?
— Que assim foi do meu agrado e que não tenho contas a prestar a
ninguém.
— Porventura é essa resposta que ele deverá transmitir à Sua Majestade —
respondeu, sorrindo, o secretário —, caso o rei, por um azar, tenha a
curiosidade de saber por que nenhum navio pode deixar os portos da Grã-
Bretanha?
— Tem razão, senhor — respondeu Buckingham —, nesse caso ele diria
ao rei que decidi pela guerra e que essa medida é meu primeiro ato de
hostilidade contra a França.
O secretário inclinou-se e saiu.
— Deste lado, estamos descansados — disse Buckingham, voltando-se
para d’Artagnan. — Se as agulhetas já não tiverem partido para a França, só
chegarão lá depois do senhor.
— Como assim?
— Acabo de decretar o bloqueio de todas as embarcações que se
encontram neste momento nos portos de Sua Majestade. Sem alguma licença
especial, nenhuma delas ousará levantar âncora.
D’Artagnan olhou com estupefação aquele homem que colocava o poder
ilimitado de que era revestido pela confiança de um rei a serviço de seus
amores. Buckingham percebeu, pela expressão do rosto do rapaz, o que se
passava em sua cabeça, e sorriu.
— Sim — disse ele —, sim, Ana da Áustria é minha verdadeira rainha. A
uma palavra dela, eu trairia meu país, trairia meu rei, trairia meu Deus. Ela
me pediu para não enviar o socorro que eu prometera aos protestantes de La
Rochelle, e o fiz. Faltei com a minha palavra, mas, que importa!, estava
obedecendo ao seu desejo. O que acha? Não fui generosamente pago por
minha obediência? Pois é a essa obediência que devo seu retrato.
D’Artagnan admirava-se diante dos fios desconhecidos e frágeis nos quais
às vezes estão pendurados os destinos de um povo e a vida dos homens.
Ia longe nessas reflexões quando o ourives entrou. Era um irlandês dos
mais habilidosos em sua arte, e que jurava ganhar cem mil libras por ano com
o duque de Buckingham.
— Senhor O’Reilly — disse-lhe o duque, conduzindo-o até a capela —,
examine essas agulhetas de diamantes e diga-me o valor das peças.
O ourives passou os olhos no arranjo elegante no qual elas estavam
dispostas, calculou o valor dos diamantes cotejando-os e, sem nenhuma
hesitação, respondeu:
— Mil e quinhentas pistolas a peça, milorde.
— Quantos dias necessita para fazer duas agulhetas iguais a estas? Observe
que faltam duas.
— Uma semana, milorde.
— Pagarei três mil pistolas por cada peça, preciso delas para depois de
amanhã.
— Milorde as terá.
— O senhor é um homem precioso, sr. O’Reilly, mas isso não é tudo. A
mais ninguém podem ser entregues essas agulhetas, as réplicas precisam ser
confeccionadas neste palácio.
— Impossível, milorde, apenas eu posso executá-las para que não
percebam a diferença entre as novas e as antigas.
— Então, meu caro sr. O’Reilly, declaro-o prisioneiro, não adianta querer
sair agora de meu palácio que não conseguiria. Portanto, decida-se. Diga-me
o nome dos assistentes que lhe serão necessários e faça uma lista das
ferramentas que eles devem trazer.
O ourives conhecia o duque, sabia que qualquer resistência era inútil,
decidiu-se então imediatamente, e perguntou:
— Posso avisar minha mulher?
— Oh, pode inclusive estar com ela, meu caro sr. O’Reilly. Seu cativeiro
será doce, não se preocupe. E, como todo incômodo merece uma indenização,
eis aqui, afora o preço das duas agulhetas, um extra de mil pistolas para fazê-
lo esquecer o aborrecimento que lhe causo.
D’Artagnan não se recobrava da perplexidade causada pelo ministro, que
dispunha a seu bel-prazer dos homens e dos milhões.
Quanto ao ourives, escrevia à esposa e enviava-lhe o extra de mil pistolas,
encarregando-a de mandar em troca seu mais talentoso aprendiz, um
sortimento de diamantes, cujo peso e título ele lhe fornecia, e uma lista das
ferramentas necessárias.
Buckingham conduziu o ourives até o recinto que a ele foi destinado, o
qual, ao cabo de meia hora, viu-se transformado em oficina. Em seguida,
dispôs uma sentinela em cada porta, com a proibição de deixar entrar quem
quer que fosse, à exceção de seu criado Patrick. Inútil acrescentar que estava
rigorosamente proibido ao ourives O’Reilly e a seu ajudante saírem sob
qualquer pretexto.
Acertado esse ponto, o duque voltou a d’Artagnan.
— Agora, meu jovem amigo — disse ele —, a Inglaterra é nossa. O que
quer, o que deseja?
— Uma cama — respondeu d’Artagnan. — No momento, confesso, é o
que mais necessito no mundo.
Buckingham deu a d’Artagnan um quarto contíguo ao seu. Queria manter o
rapaz sob seu alcance, não que desconfiasse dele, mas para ter alguém com
quem falar constantemente da rainha.
Uma hora mais tarde, era promulgado em Londres o decreto que proibia a
saída dos portos de qualquer embarcação rumo à França, incluindo o paquete
do correio. Aos olhos de todos, era uma declaração de guerra entre os dois
reinos.
Dois dias depois, às onze horas, as duas agulhetas de diamantes estavam
prontas, e tão perfeitamente copiadas, tão fielmente idênticas, que
Buckingham não conseguiu diferenciar as novas das antigas, e os mais
treinados em ourivesaria teriam se enganado como ele.
Mandou chamar d’Artagnan imediatamente.
— Veja — disse ele —, aqui estão as agulhetas de diamantes que o senhor
veio buscar, seja minha testemunha de que tudo que o poder humano podia
fazer, eu fiz.
— Ficai descansado, milorde, direi o que vi, mas… Vossa Graça me
entrega as agulhetas sem o estojo?
— O estojo seria um empecilho para o senhor. Aliás, prezo ainda mais esse
estojo, na medida em que é o que me resta. Diga que fiquei com ele.
— Cumprirei suas ordens à risca, milorde.
— E agora — disse Buckingham, olhando fixamente o rapaz —, como o
recompensarei?
D’Artagnan corou até o branco dos olhos. Viu que o duque procurava um
meio de fazê-lo aceitar alguma coisa, e a ideia de que o sangue de seus
companheiros e o seu iam ser pagos com ouro inglês, repugnava-lhe
estranhamente.
— Vamos entender-nos, milorde — respondeu d’Artagnan —, e pesemos
bem os fatos previamente, a fim de que não haja engano. Estou a serviço do
rei e da rainha da França, e faço parte da companhia dos guardas do sr. des
Essarts, o qual, assim como seu cunhado, o sr. de Tréville, é muito
particularmente afeiçoado às Suas Majestades. Fiz então tudo pela rainha e
nada por Vossa Graça. Ademais, talvez eu não tivesse feito nada disso se não
houvesse me empenhado em ser agradável à pessoa que é a minha dama,
como a rainha é a vossa.
— Sim — disse o duque, sorrindo —, e julgo inclusive conhecer essa outra
pessoa, é…
— Milorde, eu não disse o nome dela — interrompeu bruscamente o rapaz.
— Está certo — disse o duque. — Então é a essa pessoa que devo ser grato
por sua dedicação.
— Vós o dissestes, milorde, pois, justamente nesta hora em que se fala de
guerra, confesso-lhe que não vejo em Vossa Graça senão um inglês, e, por
conseguinte, um inimigo que me daria mais prazer de encontrar num campo
de batalha do que no parque de Windsor ou nas galerias do Louvre, o que, de
toda forma, não me impedirá de executar meticulosamente minha missão e
morrer, se preciso for, para realizá-la. Mas, repito-o à Vossa Graça, sem que
por isso tenha de me recompensar mais pelo que faço por mim, neste segundo
encontro, do que pelo que já fiz por ela no primeiro.
— Nós, ingleses, dizemos: “Orgulhoso como um escocês” — murmurou
Buckingham.
— E nós dizemos: “Orgulhoso como um gascão” — respondeu
d’Artagnan. — Os gascões são os escoceses da França.
Ele fez uma saudação ao duque e preparou-se para partir.
— Então parte desse jeito? Por onde? Como?
— É verdade.
— Deus me perdoe, mas os franceses são muito imprevidentes!
— Eu havia esquecido que a Inglaterra era uma ilha, da qual o senhor era o
rei.
— Dirija-se ao porto, pergunte pelo brigue Sund, entregue esta carta ao
capitão. Ele o conduzirá a um porto menor onde com certeza não o esperam e
onde geralmente atracam apenas os barcos pesqueiros.
— Esse porto se chama…
— Saint-Valéry, mas, ouça. Ao chegar lá, o senhor entrará numa espelunca
sem nome e sem tabuleta, um verdadeiro antro de marujos. Não há como se
enganar, há apenas um lugar assim.
— E depois?
— O senhor chamará pelo dono e lhe dirá: Forward.
— Que significa…
— “Em frente”, é a senha. Ele lhe dará um cavalo todo arreado e lhe
indicará o caminho que deve tomar. O senhor fará então quatro escalas em
seu percurso. Caso se disponha, em cada uma delas, a fornecer seu endereço
em Paris, quatro cavalos o seguirão. Já conhece dois deles e, pelo que pude
perceber, apreciou-os como conhecedor: são aqueles que montávamos. Creia-
me, os outros dois não lhes são em nada inferiores. Esses quatro cavalos
estarão equipados como que para a guerra. Por mais orgulhoso que seja, não
se negará a aceitar um deles e distribuir os outros três por seus companheiros.
É para os senhores nos guerrearem, por sinal. Os fins justificam os meios,
como vocês dizem, vocês franceses, não é verdade?
— Sim, milorde; então eu aceito — disse d’Artagnan. — E, se Deus
quiser, faremos bom uso de vossos presentes.
— Agora, sua mão, meu jovem. Pode ser que nos encontremos em breve
no campo de batalha, mas, até lá, despedimo-nos como bons amigos, espero.
— Sim, milorde, mas com a esperança de em breve nos tornarmos
inimigos.
— Fique tranquilo, prometo satisfazê-lo.
— Conto com vossa palavra, milorde.
D’Artagnan saudou o duque e disparou rumo ao porto.
Em frente à Torre de Londres, encontrou o navio designado, entregou a
carta ao capitão, que providenciou o visto do diretor do porto, e zarpou
imediatamente.
Cinquenta paquetes prontos para partir aguardavam.
Passando lado a lado pelo costado de um deles, d’Artagnan julgou
reconhecer a mulher de Meung, a mesma que o fidalgo desconhecido
chamara “Milady”, e que ele, d’Artagnan, julgara tão bela. Porém, graças à
correnteza do rio e aos bons ventos, seu navio ia tão rápido que a perdeu de
vista no fim de um instante.
No dia seguinte, por volta das nove da manhã, atracaram em Saint-Valéry.
D’Artagnan dirigiu-se imediatamente à estalagem indicada, reconhecendo-
a pelos gritos que dela saíam. Falava-se da guerra entre a Inglaterra e a
França como de algo iminente e inevitável, e os marujos se esbaldavam
alegres.
D’Artagnan atravessou a multidão, foi até o estalajadeiro e pronunciou a
palavra Forward. No mesmo instante, o estalajadeiro fez-lhe sinal para segui-
lo, saiu com ele por uma porta que dava no pátio, conduziu-o à estrebaria
onde o esperava um cavalo todo arreado e perguntou-lhe se precisava de mais
alguma coisa.
— Preciso saber que caminho devo seguir — disse d’Artagnan.
— Vá até Blangy, e de Blangy a Neufchâtel. Em Neufchâtel, entre na
estalagem do Arado de Ouro, dê a senha ao estalajadeiro e, como aqui,
encontrará um cavalo pronto para ser montado.
— Devo-lhe alguma coisa? — perguntou d’Artagnan.
— Está tudo pago — respondeu o estalajadeiro —, e com sobras. Vá então,
e que Deus o guie.
— Amém! — respondeu o rapaz, partindo a galope.
Quatro horas depois, estava em Neufchâtel.
Obedeceu rigorosamente às instruções recebidas. Em Neufchâtel, como em
Saint-Valéry, encontrou um cavalo selado à sua espera. Quis transportar os
pistoletes da sela que acabava de largar para a sela que iria montar. Os
alforjes estavam abarrotados com pistoletes iguais.
— Seu endereço em Paris?
— Palácio dos Guardas, companhia des Essarts.
— Certo — respondeu o estalajadeiro.
— Que estrada devo tomar? — perguntou d’Artagnan, por sua vez.
— A de Rouen, mas deixe a cidade pela direita. Na pequena aldeia de
Ecouis, pare, há apenas uma estalagem, O Escudo da França. Não a julgue
pela aparência, em suas estrebarias haverá um cavalo tão bom quanto este.
— A senha é a mesma?
— Exatamente.
— Até mais ver, patrão!
— Boa viagem, cavalheiro! Precisa de alguma coisa?
D’Artagnan fez sinal com a cabeça que não, e partiu a toque de caixa. Em
Ecouis, a cena se repetiu: ele encontrou um estalajadeiro já de sobreaviso, um
cavalo pronto e descansado. Deixou seu endereço como fizera antes, e partiu
no mesmo ritmo para Pontoise. Lá, trocou pela última vez de montaria e, às
nove horas, entrava a grande galope no pátio do palácio do sr. de Tréville.
Fizera aproximadamente trezentos e cinquenta quilômetros em doze horas.
O sr. de Tréville recebeu-o como se o tivesse encontrado aquela manhã
mesmo. Apertando-lhe a mão um pouco mais calorosamente do que de
costume, comunicou-lhe apenas que a companhia do sr. des Essarts estava de
guarda no Louvre e que ele podia tomar seu posto.
22. O balé dos melros

N ocidade
dia seguinte, o único assunto de Paris era o baile que os vereadores da
ofereciam ao rei e à rainha, e no qual Suas Majestades deviam
dançar o famoso balé dos melros, que era o favorito do rei.
Os preparativos para esse evento solene na prefeitura já duravam uma
semana. O carpinteiro da cidade construíra tablados especialmente para as
damas convidadas; o fabricante de velas da cidade enfeitara as salas com
duzentos archotes de cera branca, um luxo inusitado para a época; por fim,
vinte violinistas haviam sido contratados, e o preço acertado com eles era o
dobro do preço habitual, tendo em vista, diz o relato, que deveriam tocar a
noite toda.
Às dez horas da manhã, o veterano de La Coste, porta-estandarte dos
guardas do rei, seguido por dois oficiais e vários arqueiros da corporação,
veio pedir ao escrivão da cidade, chamado Clément, todas as chaves das
portas, salas e escritórios da prefeitura. Essas chaves foram-lhe entregues
prontamente. A fim de serem identificadas, cada uma delas trazia uma
etiqueta. A partir desse instante, o veterano de La Coste ficou encarregado de
guardar todas as portas e passagens.
Às onze horas, chegou por sua vez Duhallier, capitão dos guardas, trazendo
com ele cinquenta arqueiros que se espalharam imediatamente pela
prefeitura, guarnecendo as portas que lhe haviam sido indicadas.
Às três horas, chegaram duas companhias de guardas, uma francesa, outra
suíça. A companhia francesa era composta metade pelos homens do sr.
Duhallier, metade pelos homens do sr. des Essarts.
Às seis horas da tarde, os convidados começaram a chegar. À medida que
entravam, eram instalados no salão de festas, em tablados especiais.
Às nove horas, chegou a mulher do presidente da Câmara. Como era,
depois da rainha, a pessoa mais ilustre da festa, foi recebida pelos
representantes da cidade e instalada no camarote em frente ao que deveria ser
ocupado por Sua Majestade.
Às dez horas, serviram uma leve refeição à base de doces para o rei, na
saleta ao lado da igreja Saint-Jean, diante do faqueiro de prata da cidade, que
era guardado por quatro arqueiros.
À meia-noite, ouviram-se grandes vivas e aclamações. Era Luís XIII, que
desfilava nas ruas que levam do Louvre à prefeitura, todas iluminadas com
lanternas coloridas.
Imediatamente os digníssimos vereadores, trajando suas togas de lã e
precedidos por seis sargentos, cada qual com seu archote nas mãos, foram
postar-se diante do rei, a quem encontraram nos degraus, onde o preboste dos
comerciantes deu-lhe as boas-vindas, às quais Sua Majestade respondeu
desculpando-se por ter chegado tão tarde, mas pondo a culpa no sr. cardeal, o
qual o retivera até as onze da noite para discutir assuntos de Estado.
Sua Majestade, em traje de gala, fazia-se acompanhar por
S.A.R. Monsieur, pelo conde de Soissons, pelo grão-prior, pelo duque de
Longueville, pelo duque de Elbeuf, pelo conde d’Harcourt, pelo conde de La
Roche-Guyon, pelo sr. de Liancourt, pelo sr. de Baradas, pelo conde de
Cramail e pelo cavaleiro de Souveray.
Todos perceberam que o rei trazia o semblante triste e preocupado.
Uma cabine havia sido preparada para o rei, e outra para Monsieur. Em
cada uma dessas cabines estavam dispostos trajes de máscara. O mesmo fora
feito para a rainha e para a sra. presidente. Os pajens e aias dos séquitos de
Suas Majestades deviam vestir-se dois a dois nos quartos preparados para
esse fim.
Antes de entrar na cabine, o rei recomendou que lhe viessem avisar assim
que o cardeal chegasse.
Meia hora depois da entrada do rei, ouviram-se novas aclamações, dessa
vez anunciando a chegada da rainha. Os representantes municipais fizeram
como já haviam feito antes e, precedidos pelos sargentos, avançaram até sua
ilustre convidada.
A rainha entrou na sala. Notou-se igualmente que, como o rei, ela
apresentava uma fisionomia triste e, acima de tudo, cansada.
Enquanto fazia sua aparição, a cortina de uma pequena tribuna, que até o
momento permanecera fechada, se abriu e revelou a cabeça pálida do cardeal,
fantasiado de cavaleiro espanhol. Seus olhos fixaram-se nos da rainha, e seus
lábios esboçaram o sorriso de uma terrível alegria. A rainha não usava as
agulhetas de diamantes.
Ela ficou algum tempo recebendo os cumprimentos dos representantes da
cidade e respondendo às saudações das damas.
Subitamente, o rei apareceu com o cardeal em uma das portas do salão. O
cardeal conversava com ele em voz baixa, o rei estava muito pálido.
O rei atravessou a multidão, sem máscara, as fitas de seu gibão mal-
amarradas, e aproximou-se da rainha, dizendo-lhe com a voz alterada:
— Senhora, por favor, podeis explicar por que não estais usando vossas
agulhetas de diamantes, quando sabeis que teria sido do meu gosto
contemplá-las?
A rainha varreu com o olhar o espaço à sua volta e, atrás do rei, avistou o
cardeal, com seu diabólico sorriso.
— Sire — respondeu a rainha, com uma voz alterada —, porque fiquei
com medo de perdê-las no meio dessa multidão.
— Um grave equívoco, senhora! Se vos dei esse presente, era para vos
adornardes com ele. Digo-vos que errastes.
E a voz do rei tremia de raiva. Todos olhavam e escutavam com espanto,
sem fazer ideia do que estava acontecendo.
— Sire — disse a rainha —, posso mandar buscá-las no Louvre, onde elas
estão, e assim os desejos de Vossa Majestade serão realizados.
— Fazei-o, senhora, fazei-o o quanto antes, pois o balé vai começar dentro
de uma hora.
A rainha saudou em sinal de submissão e seguiu as aias que deviam
conduzi-la à sua cabine.
O rei, por sua vez, retornou à que lhe fora destinada.
No ambiente houve um momento de pasmo e confusão.
Todos haviam notado que alguma coisa se passara entre o rei e a rainha,
mas os dois tinham falado tão baixo que, como todo mundo se afastara alguns
passos por respeito, ninguém ouvira nada. Os violinos tocavam
freneticamente, mas ninguém prestava atenção neles.
O rei foi o primeiro a sair de sua cabine. Usava um traje de caça dos mais
elegantes, e Monsieur e os outros senhores vestiam-se como ele. Era a
fantasia que assentava melhor no rei, aquela com a qual ele realmente parecia
o primeiro fidalgo do reino.
O cardeal aproximou-se de Sua Majestade e entregou-lhe um estojo. O rei
o abriu e encontrou dentro dele duas agulhetas de diamantes.
— O que significa isso? — perguntou ao cardeal.
— Nada — respondeu Sua Eminência. — Porém, se a rainha aparecer com
as agulhetas, do que duvido, contai-as, Sire, e, se encontrardes apenas dez,
perguntai à rainha quem pode ter roubado as duas agulhetas que aqui estão.
O rei fitou o cardeal interrogativamente, mas não teve tempo de fazer
nenhuma pergunta. Um grito de admiração saiu de todas as bocas. Se o rei
parecia o primeiro fidalgo do reino, a rainha era seguramente a mulher mais
deslumbrante da França.
É verdade que seu traje de caçadora caía-lhe à perfeição. Usava um chapéu
de feltro com plumas azuis, um sobretudo em veludo cinza perolado, preso
com broches de diamantes, e uma saia de seda azul toda bordada em fio de
prata. Sobre seu ombro esquerdo resplandeciam as agulhetas, dispostas sobre
um laçarote da mesma cor que as plumas e a saia.
O rei estremeceu de alegria e o cardeal, de raiva. Porém, distantes como
estavam da rainha, eles não conseguiam contar as agulhetas. A rainha estava
com elas, mas eram dez ou doze?
Nesse momento, os violinos deram o sinal do balé. O rei avançou até a
mulher do sr. presidente, com quem devia dançar, cabendo a Sua Alteza
Monsieur dançar com a rainha. Todos se posicionaram e o balé começou.
O rei postara-se de frente para a rainha e, todas as vezes que passava perto
dela, devorava com o olhar as agulhetas, porém não conseguia contá-las. Um
suor frio cobria a testa do cardeal.
O balé durou uma hora. Havia doze entradas.
Por fim terminou, em meio aos aplausos de toda a sala, e enquanto os
cavalheiros reconduziam suas damas a seus lugares, o rei se aproveitou do
privilégio que tinha de deixar a sua onde ele estivesse para dirigir-se
ansiosamente à rainha.
— Agradeço-lhe, Majestade — disse-lhe ele —, a deferência com que
acolhestes meus desejos, mas creio que vos faltam duas agulhetas, as quais
trago para vós.
A essas palavras, estendeu para a rainha as duas agulhetas que o cardeal
lhe entregara.
— Como, Sire! — exclamou a jovem rainha, fingindo surpresa. — Me
ofereceis mais duas? Mas então ficarei com catorze!
Com efeito, o rei contou, e as doze agulhetas achavam-se no ombro de Sua
Majestade.
O rei chamou o cardeal, perguntando-lhe em tom severo:
— Muito bem! O que significa isso, sr. cardeal?
— Isso significa, Sire — respondeu o cardeal —, que eu desejava oferecer
essas duas agulhetas à Sua Majestade, e que, não ousando entregar-lhas
pessoalmente, arquitetei esse plano.
— E sou ainda mais grata à Vossa Eminência — respondeu Ana da
Áustria, com o sorriso de quem evidentemente não se deixava enganar por
aquele engenhoso galanteio —, na medida em que essas duas agulhetas, com
certeza, custaram-lhe tão caro quanto as outras doze à Sua Majestade.
Depois, tendo saudado o rei e o cardeal, a rainha retornou ao seu quarto,
onde se vestira e onde devia se trocar.
A atenção que nos vimos obrigados a dispensar, no início deste capítulo,
aos personagens ilustres que nele introduzimos, afastou-nos por um instante
daquele a quem Ana da Áustria devia o triunfo inaudito que acabava de obter
sobre o cardeal, e que, confuso, ignorado, perdido na multidão espremida
numa das portas, de lá observara a cena, compreensível apenas para quatro
pessoas: o rei, a rainha, Sua Eminência e ele.
A rainha acabava de voltar ao seu quarto, e d’Artagnan preparava-se para
se retirar, quando sentiu que lhe tocavam levemente no ombro. Voltou-se e
viu uma jovem mulher fazendo-lhe sinal para segui-la. Essa jovem mulher
tinha o rosto coberto por uma mantilha de veludo preto, mas, apesar de tal
precaução — que, de resto, fora antes tomada para os outros e não para ele
—, reconheceu na mesma hora sua indefectível guia, a graciosa e esperta sra.
Bonacieux.
Na véspera, eles mal tinham se visto na casa do suíço Germain, onde
d’Artagnan mandara chamá-la. A pressa da moça em levar à rainha aquela
excelente notícia do feliz retorno de seu mensageiro fez com que os dois
seres amorosos trocassem poucas palavras. D’Artagnan seguiu então a sra.
Bonacieux, movido por um duplo sentimento: o amor e a curiosidade.
Durante todo o caminho, e à medida que os corredores ficavam mais
desertos, sua vontade era deter a jovem mulher, agarrá-la, contemplá-la, nem
que fosse por um instante. Porém, ágil como um passarinho, ela escorregava
sempre de suas mãos e, quando o rapaz ameaçava falar, seu dedo, levado à
boca com um pequeno gesto, imperativo e cheio de encanto, lembrava a ele
que estava sob a influência de um feitiço ao qual devia obedecer cegamente, e
que lhe proibia até a mais ínfima reclamação. Enfim, após um ou dois
minutos de curvas e desvios, a sra. Bonacieux abriu uma porta e introduziu o
rapaz num gabinete completamente às escuras. Lá, fez-lhe um novo sinal de
silêncio e, abrindo uma segunda porta, escondida por um reposteiro cujos
vãos espalharam de repente uma luz intensa, desapareceu.
D’Artagnan ficou imóvel por alguns instantes, perguntando-se que lugar
era aquele, mas logo um raio de luz que penetrava por esse quarto, o ar
quente e perfumado que chegava até ele, a conversa de duas ou três mulheres
numa linguagem ao mesmo tempo respeitosa e elegante, a palavra Majestade
várias vezes repetida, sugeriram-lhe claramente que estava num gabinete
contíguo ao quarto da rainha.
O rapaz conservou-se na penumbra e esperou.
A rainha parecia alegre e feliz, o que muito admirava as pessoas a sua
volta, que tinham, ao contrário, o hábito de vê-la quase sempre taciturna. Sua
Majestade atribuía tamanho contentamento à beleza da festa e ao prazer que
sentira ao dançar. Como não é permitido contrariar uma rainha, esteja ela
sorrindo ou chorando, todas as damas de companhia louvavam com exagero a
amabilidade dos senhores representantes da cidade de Paris.
Embora d’Artagnan não conhecesse a rainha, distinguiu sua voz das outras
vozes, em primeiro lugar por um ligeiro sotaque estrangeiro, depois por esse
sentimento de dominação naturalmente impregnado em todas as palavras
soberanas. Ouviu-a aproximar-se e afastar-se daquela porta aberta, e por duas
ou três vezes chegou a ver a sombra de um corpo interceptar a luz.
Por fim, de repente, uma mão e um braço adoráveis na forma e na alvura
passaram através do reposteiro. D’Artagnan compreendeu que era sua
recompensa. Atirou-se de joelhos, tomou aquela mão e pousou-lhe
respeitosamente os lábios. Em seguida, a mão se recolheu, deixando nas suas
um objeto que ele identificou como sendo um anel. Imediatamente, a porta
voltou a ser fechada, e d’Artagnan ficou na mais completa escuridão.
Ele enfiou o anel em seu dedo e esperou novamente. Era evidente que nem
tudo terminara. Após a recompensa pela dedicação, vinha a recompensa pelo
amor. Aliás, o balé fora dançado, mas o sarau mal começara: ceava-se às três
horas, e o relógio de Saint-Jean, já fazia algum tempo, dera duas e quinze.
Com efeito, pouco a pouco o barulho das vozes diminuiu no quarto
vizinho. Depois se afastou. Em seguida, a porta do gabinete onde estava
d’Artagnan abriu-se outra vez, e a sra. Bonacieux apareceu.
— A senhora, finalmente! — exclamou d’Artagnan.
— Silêncio! — disse a moça, aplicando sua mão nos lábios do rapaz. —
Silêncio! E volte por onde veio.
— Mas onde e quando voltarei a vê-la? — bradou d’Artagnan.
— Leia o bilhete que encontrará ao chegar. Agora vá, vá!
Com essas palavras, ela abriu a porta do corredor e empurrou d’Artagnan
para fora do gabinete.
D’Artagnan obedeceu como uma criança, sem resistência e sem objeção
nenhuma, prova de que estava realmente apaixonado.
23. O encontro

D’ Artagnan voltou para casa às pressas e, embora fossem mais de três


horas da manhã e ele devesse atravessar os piores bairros de Paris, não
teve nenhum encontro desagradável. Sabemos que há um deus para os
bêbados e os apaixonados.
Achou entreaberta a porta da entrada de seu prédio, subiu a escada e bateu
discretamente, da forma estipulada entre ele e seu lacaio. Planchet, que fora
despachado duas horas antes até a prefeitura, com a recomendação que o
esperasse, veio lhe abrir a porta.
— Alguém trouxe uma carta para mim? — perguntou ansiosamente
d’Artagnan.
— Ninguém trouxe carta, patrão — respondeu Planchet —, mas houve
uma que chegou sozinha.
— O que quer dizer, imbecil?
— Quero dizer que, ao voltar, embora eu tivesse a chave de seu
apartamento no bolso e essa chave não tivesse saído de lá, achei uma carta
em seu quarto, no feltro verde da mesa.
— E onde está essa carta?
— Deixei-a onde estava, patrão. Não é normal as cartas entrarem desse
jeito na casa das pessoas. Se a janela ainda estivesse aberta, ou apenas
entreaberta, eu não estranharia. Mas estava tudo hermeticamente fechado.
Meu senhor, cuidado, pois decerto há alguma magia nisso.
Enquanto o lacaio falava, o rapaz irrompeu pelo seu quarto e abriu a carta.
Era da sra. Bonacieux e vinha concebida nos seguintes termos:
Sinceros agradecimentos lhe devem ser feitos e transmitidos. Esteja hoje à noite, por volta das dez
horas, em Saint-Cloud, defronte ao pavilhão que fica na esquina da casa do sr. d’Estrées.

Ao ler esta carta, d’Artagnan sentia o coração dilatar-se e contrair-se no


doce espasmo que tortura e afaga o coração dos apaixonados.
Era o primeiro bilhete que recebia, era o primeiro encontro a ele
concedido. Seu coração, inflado pela embriaguez da felicidade, achava-se
prestes a desfalecer no umbral daquele paraíso terrestre chamado amor.
— E então, senhor? — disse Planchet, que vira seu patrão corar e
empalidecer sucessivamente. — E então? Não adivinhei? Não é algum
negócio abominável?
— Está enganado, Planchet — respondeu d’Artagnan —, e a prova é que
aqui está um escudo para você beber à minha saúde.
— Agradeço ao senhor pelo escudo que me dá e prometo seguir à risca
suas instruções. Mas não deixa de ser verdade que, quando as cartas entram
desse jeito em casas fechadas…
— Caem do céu, meu amigo, caem do céu.
— Então, está contente? — perguntou Planchet.
— Meu caro Planchet, sou o mais feliz dos homens!
— E posso aproveitar a felicidade do patrão para ir dormir?
— Sim, vá.
— Que todas as bênçãos do céu chovam sobre o senhor, mas não deixa de
ser verdade que essa carta…
E Planchet retirou-se, balançando a cabeça, com um ar de dúvida que a
prodigalidade de d’Artagnan não conseguira extinguir completamente.
Sozinho, d’Artagnan leu e releu o bilhete, beijando vinte vezes aquelas
linhas traçadas pela mão de sua bela amante. Finalmente, deitou-se, dormiu e
teve sonhos dourados.
Às sete horas da manhã, acordou e chamou Planchet, que, ao segundo
chamado, abriu a porta, o rosto ainda com resquícios das preocupações da
véspera.
— Planchet — disse-lhe d’Artagnan —, pode ser que eu passe o dia na rua.
Logo, você está de folga até as sete da noite. Mas, às sete, esteja pronto com
dois cavalos.
— Ih, lá vamos nós! — suspirou Planchet. — Vejo que estamos prestes a
arriscar a pele em outras paragens.
— Pegue seu mosquete e seus pistoletes.
— Eu não disse? O que foi que eu disse? — exclamou Planchet. — Não
resta dúvida, maldita carta!
— Sossegue, imbecil, trata-se apenas de uma expedição recreativa.
— Sei! Como as viagens de recreação do outro dia, quando choviam balas
e driblávamos as armadilhas.
— Em todo caso, se está com medo, senhor Planchet — desdenhou
d’Artagnan —, irei sem vossa senhoria. Prefiro viajar sozinho a ter a
companhia de um homem que treme.
— O patrão me ofende — redarguiu Planchet. — Afinal, eu pensava que
tivesse me visto em ação.
— Vi, mas acho que você gastou toda a sua coragem de uma vez.
— O patrão verá, quando surgir a oportunidade, que ainda me sobrou
alguma. Peço apenas que não a desperdice, se quiser que ela dure algum
tempo.
— Acha que lhe resta alguma cota para usar hoje à noite?
— Espero que sim.
— Ótimo! Conto com você.
— Na hora marcada, estarei pronto. Mas eu pensava que o patrão tinha
apenas um cavalo na estrebaria dos guardas.
— Talvez neste momento haja apenas um, mas à noite haverá quatro.
— Será que nossa viagem foi uma viagem de remonta?
— Exatamente — encerrou d’Artagnan.
E, tendo feito a Planchet um último gesto de recomendação, saiu.
O sr. Bonacieux estava diante de sua casa. A intenção de d’Artagnan era
seguir em frente, sem falar com o digno comerciante. Mas este lhe fez um
cumprimento tão gentil e acolhedor que seu locatário viu-se obrigado não
apenas a retribuí-lo, como também a engatar uma conversa.
Aliás, como não ter certa condescendência com um marido cuja mulher
marcou um encontro com você exatamente aquela noite em Saint-Cloud, em
frente ao pavilhão do sr. des Estrées!? D’Artagnan aproximou-se com a
expressão mais amável que pôde.
A conversa recaiu muito naturalmente sobre o encarceramento do pobre
homem. O sr. Bonacieux, ignorando que d’Artagnan escutara sua conversa
com o desconhecido de Meung, contou ao jovem locatário as perseguições
desse monstro do sr. de Laffemas, que ele qualificou, durante toda a sua
história, com o título de carrasco do cardeal, e estendeu-se longamente sobre
a Bastilha, os ferrolhos, as portinholas, os respiradouros, as grades e os
instrumentos de tortura.
D’Artagnan escutou-o com uma complacência exemplar. Depois, quando
ele terminou, disse:
— E a sra. Bonacieux, sabe por acaso quem a raptou? Pois não esqueço
que é a essa circunstância aborrecida que devo a felicidade de tê-lo
conhecido.
— Ah! — suspirou o sr. Bonacieux. — Eles não me falaram nada, e minha
mulher por sua vez me jurou pelos seus deuses que não sabia. Mas e o senhor
— perguntou Bonacieux, num tom de perfeita bonomia —, por onde andou
durante todos esse dias? Não vi nem o senhor nem seus amigos, e julgo não
ter sido no paralelepípedo de Paris que acumulou toda a poeira que ontem
Planchet espanava de suas botas.
— Tem razão, meu caro sr. Bonacieux, meus amigos e eu fizemos uma
pequena viagem.
— Para longe daqui?
— Oh, por Deus, não, uns duzentos quilômetros apenas. Fomos
acompanhar o sr. Athos até as águas de Forges, onde meus amigos
permaneceram.
— E o senhor voltou, não é mesmo? — replicou o sr. Bonacieux, dando à
sua fisionomia sua expressão mais maligna. — Um belo rapaz como o senhor
não obtém longas folgas de sua amante, e éramos impacientemente esperados
em Paris, não é mesmo?
— Puxa — disse o rapaz, rindo —, pelo visto sou obrigado a confessar,
meu caro sr. Bonacieux, pois vejo que é impossível esconder-lhe alguma
coisa. Sim, eu era esperado, e muito impacientemente, posso lhe garantir.
Uma ligeira nuvem passou pelo rosto do sr. Bonacieux, mas tão ligeira que
d’Artagnan nem percebeu.
— E vamos ser recompensados por nossa diligência? — prosseguiu o
comerciante, com uma ligeira alteração na voz, alteração que d’Artagnan mal
percebera, assim como a nuvem momentânea que, um minuto antes,
escurecera a face do digno sujeito.
— Ah, o senhor quer que eu morra pela boca! — gracejou d’Artagnan,
sorridente.
— De forma alguma — replicou Bonacieux —, quero apenas saber se
voltaremos tarde.
— Por que essa curiosidade, meu caro senhorio? — perguntou d’Artagnan.
— Por acaso pretende me esperar?
— Não, é que depois da minha prisão e do roubo cometido em minha casa,
basta uma porta se abrindo para me assustar, principalmente à noite. Ora, o
que quer? Afinal, não sou homem de espada!
— Pois não se assuste se eu chegar à uma, duas ou três horas da
madrugada. E se eu não chegar, tampouco se assuste.
Dessa vez, Bonacieux ficou tão pálido que d’Artagnan não pôde senão
constatar esse fato, e perguntou-lhe o que ele tinha.
— Nada — respondeu Bonacieux —, nada. Devido aos meus infortúnios,
fiquei sujeito a fraquezas súbitas, e acabo de sentir um calafrio. Não se
impressione, o senhor que só deve se ocupar em ser feliz.
— Então estou muito ocupado, pois já o sou.
— Ainda não, calma lá, foi o senhor quem disse: hoje à noite.
— Ora, a noite chegará, com a graça de Deus, e talvez o senhor a espere
com a mesma impaciência que eu. Quem sabe a sra. Bonacieux não vem
visitar o domicílio conjugal hoje à noite também?
— A sra. Bonacieux não está livre esta noite — respondeu gravemente o
marido. — Está presa em seu serviço no Louvre.
— Pior para o senhor, meu caro senhorio. Quando fico feliz, gosto que
todos fiquem felizes, mas parece que isso não é possível.
E o jovem se afastou, rindo às gargalhadas, com as faíscas da ironia que
apenas ele, assim acreditava, podia compreender.
— Divirta-se bastante! — respondeu Bonacieux, num tom sepulcral.
Mas d’Artagnan já estava muito longe para ouvi-lo e, se o tivesse escutado,
na disposição de espírito em que se achava, decerto não teria prestado
atenção.
Dirigiu-se ao palácio do sr. de Tréville. Sua visita da véspera, lembremos,
fora muito breve e pouco esclarecedora.
Encontrou o sr. de Tréville no auge da alegria. O rei e a rainha tinham sido
encantadores com ele no baile. É verdade que o cardeal tinha sido de uma
antipatia só.
À uma da madrugada, Richelieu fora embora alegando uma indisposição.
Quanto às Suas Majestades, só retornaram ao Louvre às seis da manhã.
— Agora — disse o sr. de Tréville, abaixando a voz e interrogando com o
olhar todos os cantos do aposento para ver se estavam de fato sozinhos —,
falemos do senhor, meu jovem amigo, pois é evidente que seu feliz retorno
tem alguma coisa a ver com a alegria do rei, o triunfo da rainha e a
humilhação de Sua Eminência. Portanto, cautela!
— O que tenho a temer — respondeu d’Artagnan — enquanto viver a
felicidade de gozar da condescendência de Suas Majestades?
— Tudo, creia-me. O cardeal não é homem de esquecer um embuste
enquanto não tiver acertado suas contas com o embusteiro, e tudo indica que
o embusteiro seja um gascão meu conhecido.
— Acha que o cardeal está tão bem-informado quanto o senhor e identifica
a mim como quem esteve em Londres?
— Diabos! O senhor esteve em Londres? Terá sido de Londres que trouxe
esse belo diamante que brilha em seu dedo? Abra o olho, meu caro
d’Artagnan, um presente do inimigo nunca é coisa boa. Não há sobre isso um
verso latino… Deixe-me lembrar…
— Sim, sem dúvida — disse d’Artagnan, que nunca conseguiu enfiar na
cabeça o rudimento da primeira declinação e que, por ignorância, causara o
desespero de seu preceptor. — Sim, sem dúvida, deve haver um.
— Com certeza — insistiu o sr. de Tréville, que tinha um verniz de letras
—, e o sr. de Benserade citava-o para mim outro dia… Espere… Ah, ei-lo:
Timeo Danaos et dona ferentes. O que significa: “Desconfia do inimigo que
te dá presentes”.
— Esse diamante não vem de um inimigo, senhor — explicou d’Artagnan
—, vem da rainha.
— Da rainha! Oh, oh! — exclamou o sr. de Tréville. — De fato, é uma
verdadeira joia real, que vale claramente mil pistolas. Por quem a rainha lhe
enviou esse presente?
— Ela me deu pessoalmente.
— Onde?
— No gabinete contíguo ao quarto onde trocou de roupa.
— Como?
— Dando-me sua mão para beijar.
— O senhor beijou a mão da rainha! — admirou-se o sr. de Tréville,
encarando d’Artagnan.
— Sua Majestade me fez a honra de conceder essa graça!
— E isso na presença de testemunhas? Imprudente, mil vezes imprudente.
— Não, senhor, fique descansado, ninguém a viu — disse d’Artagnan. E
contou ao sr. de Tréville como as coisas haviam se passado.
— Oh, as mulheres, as mulheres! — exclamou o velho soldado. — Não há
como não reconhecer sua imaginação romântica. Tudo que recende a mistério
as enfeitiça. Bom, então o senhor viu o braço, só isso. Se reencontrasse a
rainha, não a reconheceria; ela poderia reencontrá-lo que não saberia quem o
senhor é.
— Não, mas graças a esse diamante… — observou o rapaz.
— Escute — disse o sr. de Tréville —, quer um conselho, um bom
conselho, um conselho de amigo?
— Ficaria honradíssimo, senhor — consentiu d’Artagnan.
— Pois bem! Procure o primeiro ourives que aparecer e venda-lhe esse
diamante pelo preço que ele der. Por mais judeu que seja, pagará no mínimo
oitocentas pistolas. As pistolas não têm nome, rapaz, mas esse anel tem, um
nome terrível, que pode trair seu dono.
— Vender este anel! Um anel que saiu do dedo de minha soberana!
Jamais! — reagiu d’Artagnan.
— Então pelo menos, vire o engaste para baixo, pobre homem louco; todos
sabem que um cadete da Gasconha não encontra joias como essa na
escrivaninha da mãe.
— Acha então que tenho alguma coisa a temer? — perguntou d’Artagnan.
— Quero dizer, rapaz, que aquele que dorme em cima de uma mina cuja
mecha está acesa deveria se julgar mais seguro que o senhor.
— Diabos! — disse d’Artagnan, cujo tom firme do sr. de Tréville
começava a preocupar. — O que devo fazer?
— Em primeiro lugar, manter a guarda erguida sempre e antes de todas as
coisas. O cardeal tem a memória tenaz e a mão pesada. Acredite, ele lhe
aprontará alguma.
— Mas o quê?
— E eu sei?! Não tem ele à sua disposição todas as astúcias do demônio?
O mínimo que lhe pode acontecer é ser preso.
— Como! Ousariam prender um homem a serviço de Sua Majestade?
— E como não?! Alguém mexeu um dedo por Athos? Em todo caso, rapaz,
acredite num homem que está há trinta anos na corte: não vacile com sua
segurança ou estará perdido. Em vez disso, e sou eu quem lhe diz, veja
inimigos em toda parte. Se procurarem briga com o senhor, evite-a, ainda que
seja uma criança de dez anos que a provoque. Se o atacarem, de dia ou de
noite, bata em retirada, sem pudor. Se atravessar uma ponte, teste as tábuas,
com medo que uma delas rache-lhe sob os pés. Se passar em frente a uma
casa em construção, olhe para o alto com medo de que uma pedra não lhe
caia na cabeça. Se voltar tarde, venha seguido por seu lacaio e que esse lacaio
esteja armado, isto, se tiver confiança em seu lacaio. Desconfie de todo
mundo, do amigo, do irmão, da amante, principalmente da amante.
D’Artagnan corou.
— Da amante… — repetiu ele, mecanicamente. — E por que dela mais
que de outra pessoa?
— É que a amante é um dos estratagemas favoritos do cardeal, sendo o que
dá resultado mais rápido: uma mulher nos vende por dez pistolas, como atesta
Dalila. Conhece as Escrituras, não?
D’Artagnan pensou no encontro que marcara, aquela mesma noite, com a
sra. Bonacieux, mas devemos dizer, a favor de nosso herói, que a má opinião
do sr. de Tréville sobre as mulheres não lhe inspirou a menor suspeita contra
sua bela locadora.
— Mas, a propósito — admirou-se o sr. de Tréville —, o que aconteceu
com seus três companheiros?
— Eu ia justamente lhe perguntar se o senhor não tinha notícias deles.
— Nenhuma.
— Pois bem! Deixei-os no caminho: Porthos em Chantilly, com um duelo
pela frente; Aramis em Crèvecœur, com uma bala no ombro; e Athos em
Amiens, com uma acusação de falsário nas costas.
— Veja só! — disse o sr. de Tréville. — E como escapou?
— Por milagre, senhor, devo dizê-lo, com uma estocada no peito,
espetando o sr. conde de Wardes no acostamento da estrada de Calais, como
uma borboleta num feltro.
— Mas não é possível, de novo! De Wardes, um homem do cardeal, primo
de Rochefort. Preste atenção, meu caro amigo, tive uma ideia.
— Diga, senhor.
— Em seu lugar, eu faria uma coisa.
— O quê?
— Enquanto Sua Eminência mandasse me procurar em Paris, eu tomaria
de novo, sem tambor e sem trombeta, a estrada da Picardia, indo colher
notícias de meus três companheiros. Que diabos! Eles bem que merecem essa
atenção de sua parte!
— O conselho é bom, senhor, e partirei amanhã.
— Amanhã! E por que não hoje à noite?
— À noite, senhor, prende-me em Paris um assunto inadiável.
— Ah, rapaz! Rapaz! Que namorico é esse? Cuidado, repito: foi a mulher
que nos desgraçou, a todos nós, e que nos desgraçará novamente, a todos nós.
Acredite em mim: parta hoje à noite.
— Impossível, senhor!
— Deu então sua palavra?
— Sim, senhor.
— Então, é diferente: mas prometa-me que, se não for morto hoje à noite,
partirá amanhã.
— Prometo-lhe.
— Precisa de dinheiro?
— Ainda tenho cinquenta pistolas. É justo o que preciso, creio.
— Mas e seus companheiros?
— Penso que estão bem-servidos. Saímos de Paris cada um com setenta e
cinco pistolas em nossos bolsos.
— Ainda o vejo antes de sua partida?
— Creio que não, senhor, a menos que haja novidade.
— Vá, boa viagem!
— Obrigado, senhor.
E d’Artagnan despediu-se do sr. de Tréville, mais do que nunca tocado por
sua solicitude toda paternal para com os mosqueteiros.
Passou sucessivamente nas casas de Athos, de Porthos e de Aramis.
Nenhum deles chegara de volta. Seus lacaios também estavam ausentes, e
não se tinham notícias nem de uns, nem de outros.
Poderia conseguir notícias deles com suas amantes, mas não conhecia nem
a de Porthos nem a de Aramis; quanto a Athos, não tinha nenhuma.
Ao passar em frente ao palácio dos Guardas, deu uma olhada na estrebaria:
três, dos quatro cavalos, já haviam retornado. Planchet, todo surpreso,
escovava-os, e já terminara o serviço em dois deles.
— Ah, senhor — saudou Planchet, percebendo d’Artagnan —, folgo em
vê-lo!
— E por que isso, Planchet? — perguntou o rapaz.
— O senhor confia no sr. Bonacieux, nosso senhorio?
— Eu? Nem um pouquinho.
— Pois faz muito bem, senhor.
— Mas por que essa pergunta?
— Porque, enquanto o senhor conversava com ele, eu o observava sem
escutá-los. Senhor, seu rosto mudou de cor duas ou três vezes.
— Bah!
— O patrão não percebeu, preocupado com a carta que acabava de receber,
mas eu, ao contrário, depois da estranha maneira pela qual essa carta chegara,
havia ficado de sobreaviso. Não perdi um movimento de sua fisionomia.
— E achou-a…
— Traiçoeira, patrão.
— Sério?!
— Além disso, assim que o patrão se despediu dele e desapareceu na
esquina, o sr. Bonacieux pegou seu chapéu, fechou sua porta e saiu em
disparada pela rua oposta.
— E não é que você tem razão, Planchet? Tudo isso me parece muito
suspeito, mas fique descansado, só lhe pagaremos o aluguel se a coisa nos for
categoricamente explicada.
— O patrão graceja, mas o patrão verá.
— O que quer, Planchet, o futuro já está escrito!
— O patrão então não desiste do passeio desta noite?
— Muito pelo contrário, Planchet, o ódio que sinto pelo sr. Bonacieux só
me dá mais vontade de ir ao encontro marcado por essa carta que tanto o
preocupa.
— Se é essa a decisão do patrão…
— Inabalável, meu amigo. Então, às nove horas, esteja preparado aqui no
palácio. Virei pegá-lo.
Planchet, vendo que não havia mais nenhuma esperança de fazer seu patrão
desistir de seus planos, deu um profundo suspiro e pôs-se a escovar o terceiro
cavalo.
Quanto a d’Artagnan, como era no fundo um moço cheio de prudência, em
vez de voltar para casa, foi jantar na casa daquele padre gascão que, no
momento de aflição dos quatro amigos, proporcionara-lhes um almoço de
chocolate.
24. O pavilhão

À sPlanchet
nove horas, d’Artagnan estava no palácio dos Guardas. Encontrou
fortemente armado. O quarto cavalo chegara.
Planchet estava armado com seu mosquete e um pistolete.
D’Artagnan tinha sua espada e enfiou dois pistoletes na cintura. Em
seguida, ambos montaram cada um em seu cavalo e afastaram-se sem
barulho. Fazia uma noite fechada, e ninguém os viu sair. Planchet pôs-se a
seguir o patrão a dez passos de distância.
D’Artagnan atravessou os locais de atracamento, saiu pela porta da
Conférence e tomou o caminho que leva a Saint-Cloud, muito mais bonito
nessa época do que nos dias de hoje.
Enquanto estavam na cidade, Planchet manteve respeitosamente a distância
que se impusera, mas, assim que o caminho começou a ficar mais ermo e
escuro, aproximou-se imperceptivelmente, de modo que, quando entraram no
Bois de Boulogne, já marchava com a maior naturalidade lado a lado com seu
patrão. Com efeito, não devemos dissimular que o balanço das grandes
árvores e o reflexo do luar nas moitas escuras causavam-lhe grande
preocupação. D’Artagnan percebeu que se passava com seu lacaio alguma
coisa extraordinária.
— Muito bem, sr. Planchet — perguntou-lhe —, o que foi agora?
— Não acha, patrão, que os bosques são como as igrejas?
— Por que diz isso, Planchet?
— Porque não ousamos falar em voz alta nem aqui nem lá.
— Por que não ousa falar em voz alta, Planchet? Porque tem medo?
— Medo de ser ouvido, sim, senhor.
— Medo de ser ouvido! Entretanto, nossa conversa é digna, meu caro
Planchet, e ninguém teria nada a nos recriminar.
— Ah, senhor! — disse Planchet, voltando à sua ideia-mãe. — Esse sr.
Bonacieux tem alguma coisa de sonso nas sobrancelhas e de inquietante no
movimento dos lábios.
— Que diabos o faz pensar em Bonacieux?
— Patrão, pensamos no que podemos e não no que queremos.
— Porque você é um covarde, Planchet.
— Patrão, não vamos confundir prudência com covardia; a prudência é
uma virtude.
— E você é virtuoso, não é, Planchet?
— Patrão, não é o cano de um mosquete que brilha ao longe? Que tal
abaixarmos nossas cabeças?
“Na verdade”, pensou d’Artagnan, à cuja memória voltavam as
recomendações do sr. de Tréville, “esse animal vai acabar me dando medo.”
E pôs seu cavalo para trotar.
Planchet acompanhou o movimento de seu patrão, exatamente como se
fosse sua sombra, e viu-se trotando próximo a ele.
— Vamos marchar desse jeito a noite inteira, patrão? — perguntou.
— Não, Planchet, pois você já chegou.
— Como assim, cheguei? E o senhor?
— Eu continuo ainda por alguns passos.
— E me deixa aqui sozinho?
— Está com medo, Planchet?
— Não, mas eu observaria ao patrão que a noite será muito fria, que as
friagens dão reumatismo, e que um lacaio com reumatismos é um péssimo
serviçal, sobretudo para um patrão irrequieto como o senhor.
— Pois bem, se sentir frio, Planchet, você entrará numa daquelas tabernas
e me esperará em frente à porta, às seis horas da manhã.
— Patrão, bebi e comi respeitosamente o escudo que o senhor me deu hoje
cedo, de maneira que não me resta um tostão no caso de eu sentir frio.
— Aqui tem meia pistola. Até amanhã.
D’Artagnan desceu de seu cavalo, jogou a rédea no braço de Planchet e se
afastou rapidamente, envolvendo-se em sua capa.
— Nossa, que frio! — exclamou Planchet, assim que perdeu de vista o
patrão. Com pressa de se aquecer, correu rumo à porta de uma casa ornada
com todos os atributos da taberna de subúrbio.
Nesse ínterim, d’Artagnan, que se lançara por um atalho, continuava seu
caminho e chegava a Saint-Cloud. Porém, em vez de percorrer a avenida
principal, virou atrás do castelo, alcançou uma espécie de beco bem afastado
e logo se viu diante do pavilhão indicado. Este ficava num lugar
completamente deserto. Um grande muro, em relação ao qual o pavilhão
fazia ângulo, reinava de um lado dessa ruela, e do outro uma sebe escondia
certo pequeno jardim, no fundo do qual se erguia um humilde chalé.
Chegara ao local do encontro, e como não lhe haviam dito para anunciar
sua presença por nenhum sinal, esperou.
Nenhum barulho se fazia ouvir, parecia-se estar a quinhentos quilômetros
da capital. D’Artagnan encostou-se na sebe após ter lançado um olhar
cauteloso atrás de si. Do outro lado dessa sebe, desse jardim e desse chalé,
uma bruma escura envolvia com suas pregas a imensidão em que dormia
Paris, vazia, oca, onde brilhavam alguns pontos luminosos, estrelas fúnebres
desse inferno.
Mas, para d’Artagnan, todos os aspectos revestiam-se de uma forma feliz,
todas as ideias tinham um sorriso, todas as trevas eram diáfanas. A hora do
encontro se aproximava. Com efeito, passados alguns instantes, o campanário
de Saint-Cloud soou lentamente doze badaladas, como se fossem rugidos
profundos. Havia alguma coisa de lúgubre naquela voz de bronze, que se
lamentava assim no meio da noite. Mas cada uma das horas que compunham
o horário marcado vibrava harmoniosamente no coração do mancebo. Seus
olhos estavam grudados no pequeno pavilhão situado no ângulo do muro,
cujas janelas estavam fechadas por postigos, exceto uma do primeiro andar.
Através dessa janela brilhava uma luz tênue, que prateava a folhagem trêmula
de duas ou três tílias agrupadas fora do parque. Evidentemente, por trás
daquela janelinha, tão graciosamente iluminada, a bela sra. Bonacieux o
esperava.
Embalado por essa ideia encantadora, d’Artagnan esperou uma meia hora
sem qualquer impaciência, os olhos fixados naquela simpática vivenda, da
qual ele avistava uma parte do teto com cornijas douradas, atestando a
elegância do resto do aposento.
O campanário de Saint-Cloud deu dez e meia.
Dessa vez, sem que d’Artagnan compreendesse por quê, um calafrio
percorreu suas veias. Talvez, também, o frio começasse a tomar conta do seu
corpo e ele tomasse por uma impressão moral uma sensação totalmente física.
Depois cogitou que não lera direito e que o encontro era apenas para as
onze horas.
Aproximou-se da janela, posicionou-se num raio de luz, puxou a carta do
bolso e a releu. Não se enganara, o encontro estava de fato marcado às dez
horas.
Voltou ao seu posto, começando a ficar bastante preocupado com aquele
silêncio e aquela solidão.
As onze horas soaram.
D’Artagnan começou a recear de fato que tivesse acontecido alguma coisa
com a sra. Bonacieux.
Bateu três vezes com as mãos, sinal tradicional dos namorados, mas
ninguém lhe respondeu, nem sequer o eco.
Então pensou, com certo despeito, que talvez a moça adormecera enquanto
o esperava.
Aproximou-se do muro e quis trepar nele, mas o muro fora recém-
chapiscado, e d’Artagnan quebrou inutilmente as unhas.
Nesse momento, atentou para as árvores, cujas folhas continuavam
prateadas pela luz. Uma delas avançava sobre o caminho, levando-o a pensar
que, do meio de seus galhos, poderia ver o que se passava no pavilhão.
A árvore era fácil. Afinal, d’Artagnan tinha apenas vinte anos e uma
lembrança próxima dos seus recreios na escola. Num instante, estava no meio
dos galhos. Pelos vidros transparentes, seus olhos mergulharam no interior do
pavilhão.
Coisa estranha e que deixou d’Artagnan arrepiado da planta dos pés à raiz
dos cabelos: a luz tênue, a pacífica lamparina, iluminava uma cena de
desordem terrível. Um dos vidros da janela estava quebrado, a porta do
quarto fora arrombada e, rachada ao meio, estava pendurada em suas
dobradiças; a mesa que deveria estar preparada para uma elegante ceia jazia
no chão; cacos de garrafas e frutas esmagadas espalhavam-se por todos os
cantos. Naquele quarto, tudo testemunhava uma luta violenta e desesperada.
D’Artagnan julgou inclusive reconhecer, no meio daquela estranha balbúrdia,
farrapos de roupas e algumas manchas de sangue na toalha e nas cortinas.
Correu de volta para a rua com uma palpitação horrível no coração, queria
ver se não encontrava mais indícios de violência.
O luar suave continuava a brilhar na calma da noite. D’Artagnan percebeu
então, coisa que não observara no início, pois nada o impelia a tal, que o
terreno, batido aqui, esburacado ali, apresentava rastros confusos de passos
de homens e patas de cavalos. Além disso, as rodas de um coche, que parecia
vir de Paris, haviam sulcado na terra mole uma marca profunda, que não ia
além da altura do pavilhão e que voltava rumo a Paris.
Por fim, d’Artagnan, prosseguindo com sua investigação, encontrou uma
luva feminina rasgada perto do muro. Entretanto, essa luva, em todos os
pontos que não tocaram a terra enlameada, era de um frescor inatacável. Era
uma dessas luvas perfumadas que os namorados gostam de arrancar de uma
bela mão.
À medida que d’Artagnan continuava suas explorações, um suor mais
abundante e mais gelado brilhava em sua testa, seu coração comprimia-se
numa horrível angústia, sua respiração ofegava. E, no entanto, ele se dizia,
para se tranquilizar, que o pavilhão talvez não tivesse nenhuma relação com a
sra. Bonacieux, que o encontro marcado pela moça tinha sido em frente à
construção e não dentro dela, e que seu serviço podia tê-la prendido em Paris,
ou talvez o ciúme do marido.
Mas todos esses raciocínios eram aniquilados, destruídos, derrubados por
aquela sensação de dor íntima que, em certas ocasiões, apodera-se de todo o
nosso ser e grita, por todos os meios destinados a nos fazer ouvir, que uma
grande desgraça paira a nossa volta.
Então d’Artagnan quase perdeu a cabeça. Correu até a estrada principal,
percorreu o mesmo caminho que já fizera, avançou até a balsa e interrogou o
barqueiro.
Por volta das sete da noite, ele transportara uma mulher envolta numa
manta negra, que parecia ter o maior interesse em não ser reconhecida.
Porém, justamente por causa das precauções que tomava, chamara a atenção
do barqueiro, que percebera o quanto a mulher era jovem e bonita.
Havia então, como hoje, uma multidão de jovens e belas mulheres que
vinham a Saint-Cloud e que tinham interesse em não ser vistas. Ainda assim,
d’Artagnan não duvidou um instante que fosse a sra. Bonacieux a mulher
descrita pelo barqueiro.
D’Artagnan aproveitou a lamparina que brilhava na cabine daquele homem
para reler mais uma vez o bilhete da sra. Bonacieux e certificar-se de que não
se enganara, de que o encontro estava mesmo marcado em Saint-Cloud e não
em outro lugar, em frente ao pavilhão do sr. d’Estrées e não numa outra rua.
Tudo concorria para provar a d’Artagnan que seus pressentimentos não o
enganavam e que uma grande desgraça havia acontecido.
Ele voltou correndo ao caminho que levava até o castelo. Parecia-lhe que,
em sua ausência, alguma coisa de novo talvez tivesse acontecido no pavilhão,
permitindo-lhe buscar informações por lá.
A ruela continuava deserta, a mesma luminosidade calma e amena se
revelava pela janela.
D’Artagnan examinou então a construção humilde, muda e cega, mas que
certamente fora testemunha e talvez pudesse falar.
A porta do cercado estava fechada, mas ele pulou por cima da sebe,
indiferente aos latidos do cão na corrente, e aproximou-se da cabine.
Às primeiras batidas, ninguém respondeu.
Um silêncio sepulcral reinava na cabine e no pavilhão, porém, como essa
cabine era seu último recurso, ele insistiu.
Dali a pouco, julgou ouvir um ligeiro rumor do lado de dentro, um rumor
atemorizante, que parecia, por sua vez, tremer ao ser ouvido.
D’Artagnan então parou de bater, suplicando, num tom de tal forma prenhe
de inquietude e promessas, pavor e bajulação, que sua voz teria o poder de
tranquilizar os mais medrosos. Finalmente um velho e carcomido postigo se
abriu, ou melhor, entreabriu, fechando-se no instante em que a luz de uma
rudimentar lamparina, queimando num canto, iluminou o boldrié, o punho da
espada e a coronha dos pistoletes de d’Artagnan. Entretanto, por mais rápido
que tivesse sido o movimento, d’Artagnan tivera tempo de vislumbrar a
cabeça de um velho.
— Em nome dos céus! — disse ele. — Escute-me. Eu esperava alguém
que não veio, estou morrendo de preocupação. Teria acontecido alguma
tragédia nos arredores? Fale.
A janela reabriu-se lentamente, e o mesmo rosto apareceu de novo, agora
ainda mais pálido que da primeira vez.
D’Artagnan contou sua história sem subterfúgios, com nomes
aproximados. Falou do encontro que tinha com uma jovem diante do
pavilhão, e de como, não a vendo chegar, subira na tília e, à luz da lamparina,
dera com o quarto revirado.
O velho escutou-o atentamente, enquanto fazia sinal de que sua história
correspondia aos fatos. Em seguida, quando d’Artagnan terminou, balançou a
cabeça com um ar que não prenunciava boas notícias.
— O que você sabe? — exclamou d’Artagnan. — Em nome dos céus!
Vamos, diga.
— Oh, senhor — gemeu o velho —, não me pergunte coisa alguma, pois,
se eu lhe contasse tudo que vi, decerto não me aconteceria nada de bom.
— Então viu alguma coisa? — perguntou d’Artagnan. — Nesse caso, em
nome dos céus — continuou, passando-lhe uma moeda —, fale, descreva o
que viu. Dou-lhe minha palavra de fidalgo que nenhuma de suas palavras
deixará o meu coração.
O velho leu tanta franqueza e sofrimento no rosto de d’Artagnan que lhe
fez sinal para escutar e disse em voz baixa:
— Eram mais ou menos nove horas, eu tinha ouvido um barulho na rua e,
querendo saber o que podia ser, me aproximei do portão e percebi que
tentavam entrar. Como sou pobre e portanto não receio que me roubem, fui
abrir e vi três homens a alguns passos dali. Na sombra, havia uma carruagem
com cavalos atrelados e cavalos selados. Os cavalos selados pertenciam
evidentemente aos três homens, que vestiam trajes de montaria.
“— Olá, bons senhores! — exclamei. — Precisam de alguma coisa?
“— Por acaso tem uma escada? — me perguntou o que parecia o chefe da
escolta.
“— Tenho, sim, senhor, a que uso para colher minhas frutas.
“— Passe-a para cá e volte para casa, aqui está um escudo pelo incômodo
que lhe causamos. Lembre-se apenas que, se disser uma palavra do que verá e
ouvirá (pois verá e ouvirá, tenho certeza disso), está perdido.
“A essas palavras, ele me jogou um escudo, que eu recolhi, e o
desconhecido pegou minha escada.
“Realmente, depois de ter fechado o portão da cerca atrás deles, fingi
voltar para casa, mas saí imediatamente pela porta dos fundos e, me
esgueirando na penumbra, cheguei a esse sabugueiro, de onde podia ver tudo
sem ser visto.
“Os três homens avançaram o coche silenciosamente, puxaram de dentro
um homenzinho gordo, baixote, grisalho, mesquinhamente trajado de cor
escura, o qual subiu com precaução na escada, examinou sorrateiramente o
interior do quarto, desceu com passo de lobo e murmurou em voz baixa:
“— É ela!
“Imediatamente, aquele que falara comigo aproximou-se da porta do
pavilhão, abriu-a com uma chave que trazia consigo, fechou a porta e
desapareceu. Ao mesmo tempo, os outros dois subiram na escada. O velhote
permanecia na portinhola, o cocheiro segurava os animais de seu veículo, e
um lacaio, os cavalos de sela.
“De repente, fortes gritos ecoaram no pavilhão, uma mulher acorreu à
janela e abriu-a como para se lançar. Porém, assim que percebeu os dois
homens, recuou. Eles a perseguiram pelo quarto adentro.
“Então, não vi mais nada, mas ouvi uma quebradeira de móveis. A mulher
gritava e pedia socorro, mas logo seus gritos foram abafados. Os três homens
reaproximaram-se da janela, carregando a mulher nos braços.
Dois desceram pela escada e a transportaram para o coche, onde o velhote
entrou depois. O que permanecera no pavilhão fechou novamente a janela,
saiu logo depois pela porta e certificou-se de que a mulher estava
efetivamente no veículo. Seus dois companheiros já o esperavam a cavalo, e
foi a vez de ele pular para a sela. O lacaio voltou a ocupar o lugar perto do
cocheiro, a viatura se afastou a galope escoltada pelos três cavaleiros, e tudo
se acabou. A partir desse momento, não vi mais nada, não ouvi mais nada.”
D’Artagnan, esmagado por tão terrível notícia, permaneceu imóvel e
silencioso, enquanto todos os demônios da raiva e do ciúme gritavam no seu
coração.
— Mas, meu fidalgo — continuou o velho, no qual esse mudo desespero
decerto causava mais efeito do que teriam produzido gritos e lágrimas —, não
desanime, eles não a mataram, isto é o essencial.
— Sabe me dizer, aproximadamente — perguntou d’Artagnan —, quem
era o homem que liderava essa infernal expedição?
— Não o conheço.
— Mas, se falou com ele, pôde vê-lo.
— Ah, é sua descrição que o senhor me pede?
— Sim.
— Um magro alto, pálido, bigodes pretos, olho preto, ares de fidalgo.
— Isso mesmo! — exaltou-se d’Artagnan. — Ele de novo! Sempre ele! É
meu demônio, ao que parece! E o outro?
— Qual?
— O baixote.
— Oh, este não é um senhor, garanto-lhe. Aliás, não carregava espada e os
demais o tratavam sem nenhuma consideração.
— Algum lacaio — murmurou d’Artagnan. — Ah, pobre mulher, pobre
mulher! O que fizeram com ela?
— O senhor me prometeu segredo — disse o velho.
— E renovo minha promessa, fique descansado, sou fidalgo. Um fidalgo
não tem senão sua palavra, e eu lhe dei a minha.
Numa tristeza profunda, d’Artagnan dirigiu-se novamente à estação das
barcas. Ora não conseguia acreditar que fosse a sra. Bonacieux, e esperava no
dia seguinte reencontrá-la no Louvre; ora temia que ela tivesse um caso com
outro, e que o ciumento a tivesse surpreendido e mandado raptar. Vacilava,
acabrunhava-se, desesperava-se.
— Oh, se eu tivesse meus amigos aqui! — exclamou. — Pelo menos teria
alguma esperança de encontrá-la, porém, mesmo com eles ninguém sabe o
que aconteceu!
A meia-noite se aproximava, era preciso ir ao encontro de Planchet.
D’Artagnan invadiu sucessivamente todas as tabernas nas quais percebeu um
pouco de luz. Em nenhuma delas estava Planchet.
Na sexta, caiu em si e viu que aquela procura era infrutífera. Só marcara
com seu lacaio às seis da manhã, e, onde quer que ele fora, estava no seu
direito.
Ademais, ocorreu ao mancebo a seguinte ideia: permanecendo nos
arredores do local onde o fato se dera, talvez obtivesse algum indício acerca
daquele misterioso incidente. Na sexta taberna, como dissemos, d’Artagnan
parou, pediu uma garrafa de vinho de primeira qualidade, abancou-se no
canto mais escuro e decidiu assim esperar o amanhecer. Sua esperança,
entretanto, foi novamente frustrada e, embora ele afinasse os ouvidos, não
ouviu, em meio aos palavrões, piadas e injúrias trocadas entre si pelos
operários, lacaios e balseiros que compunham a distinta sociedade da qual ele
fazia parte, nada que pudesse colocá-lo na pista da pobre mulher raptada.
Viu-se obrigado então, após ter engolido o vinho por desencargo de
consciência e para evitar suspeitas, a ajeitar-se no seu canto, na posição mais
confortável possível, e dormir tão bem quanto conseguisse. D’Artagnan tinha
vinte anos, lembremos, e nessa idade o sono tem direitos imprescritíveis que
ele reivindica imperiosamente, mesmo nos corações mais desesperados.
Em torno das seis da manhã, d’Artagnan acordou com aquele mal-estar que
geralmente acompanha o raiar do dia após uma noite ruim. Não precisou de
muito tempo para vestir-se. Apalpou-se para saber se não haviam tirado
vantagem de seu descanso para roubá-lo e, tendo encontrado seu diamante no
dedo, sua bolsa na algibeira e seus pistoletes na cintura, levantou-se, pagou a
garrafa consumida e saiu para ver se teria mais sorte de manhã do que à noite
na procura de seu lacaio. Com efeito, a primeira coisa que avistou através do
nevoeiro úmido e cinzento foi o honesto Planchet, que, com os dois cavalos
na mão, esperava-o à porta de uma pequena espelunca, diante da qual
d’Artagnan passara sem sequer desconfiar de sua existência.
25. A amante de Porthos

E me subiu
vez de ir direto para casa, d’Artagnan apeou na porta do sr. de Tréville
rapidamente a escada. Dessa vez, estava decidido a contar-lhe
tudo que acabara de acontecer. Provavelmente o capitão lhe daria bons
conselhos sobre aquele imbróglio. Além disso, como o sr. de Tréville via
quase diariamente a rainha, talvez conseguisse tirar de Sua Majestade alguma
informação sobre a pobre mulher a quem provavelmente faziam pagar por
sua lealdade à sua ama.
O sr. de Tréville escutou o relato do rapaz com gravidade, o que provava
que ele enxergava, em toda essa aventura, algo muito diferente de uma
simples intriga amorosa. Então, quando d’Artagnan terminou, o capitão disse:
— Hum! Tudo isso cheira a Sua Eminência a um quilômetro de distância.
— Mas o que fazer? — disse d’Artagnan.
— Nada, absolutamente nada, no presente momento, a não ser deixar Paris,
como já lhe disse, o mais cedo possível. Estarei com a rainha e a colocarei a
par dos detalhes do desaparecimento dessa pobre mulher, que possivelmente
ela ignora. Esses detalhes irão orientá-la por sua vez e, quando você voltar,
talvez eu tenha alguma boa notícia a lhe dar. Confie em mim.
D’Artagnan sabia que, embora gascão, o sr. de Tréville não tinha o hábito
de prometer, e portanto, quando eventualmente prometia, fazia mais do que
prometera. Saudou-o, então, cheio de gratidão pelo passado e pelo futuro. O
digno capitão, que intimamente sentia um vivo interesse por aquele rapaz tão
corajoso e resoluto, apertou-lhe afetuosamente a mão, desejando-lhe uma boa
viagem.
Decidido a pôr imediatamente em prática os conselhos do sr. de Tréville,
d’Artagnan encaminhou-se à rua dos Coveiros, com a intenção de preparar
sua bagagem. Aproximando-se de casa, reconheceu o sr. Bonacieux em trajes
matinais, de pé na soleira de sua porta. Tudo o que, na véspera, lhe dissera o
prudente Planchet sobre o caráter sinistro de seu senhorio, voltou então à
mente de d’Artagnan, que o observou com mais atenção do que fizera antes.
De fato, além da palidez amarelada e doentia que sugere uma infiltração da
bile no sangue e que, aliás, podia ser apenas acidental, d’Artagnan observou
alguma coisa de dissimuladamente pérfida no movimento habitual das rugas
em seu rosto. Um patife não ri da mesma maneira que um homem honesto,
um hipócrita não chora as mesmas lágrimas que um homem de boa-fé. Toda
falsidade é uma máscara, e por mais bem-feita tal máscara, sempre
conseguimos, com um pouco de atenção, diferenciá-la do semblante
verdadeiro.
Pareceu então a d’Artagnan que o sr. Bonacieux usava uma máscara, e até
mesmo que essa máscara era das mais desagradáveis de se ver.
Consequentemente, vencido por sua repugnância àquele homem, já se
preparava para passar diante dele sem lhe falar, quando, assim como na
véspera, o sr. Bonacieux interpelou-o, dizendo:
— Muito bem, mocinho, parece que passamos a noite em claro, não é?
Sete da manhã, caramba! Está querendo subverter a rotina convencional,
entrando em casa quando os outros saem?
— Ninguém pode lhe dirigir a mesma censura, sr. Bonacieux — ironizou o
rapaz —, e o senhor é o modelo das pessoas equilibradas. É verdade, quando
possuímos uma jovem e bela mulher, não precisamos correr atrás da
felicidade. É a felicidade que vem ao nosso encontro, não é, sr. Bonacieux?
Bonacieux ficou pálido como a morte e esgarçou um sorriso.
— Ah, ah! — disse Bonacieux. — O senhor até que é divertido. Mas onde
diabos foi parar esta noite, meu jovem mestre? O tempo não devia estar bom
pelas encruzilhadas.
D’Artagnan abaixou os olhos para as suas botas cobertas de lama, mas,
nesse movimento, seus olhares dirigiram-se ao mesmo tempo para os sapatos
e a meia do comerciante. Pareciam ter passado pelo mesmo atoleiro, ambos
sujos com manchas quase idênticas.
Então uma ideia atravessou a mente de d’Artagnan. Aquele homenzinho
gordo, baixote, encanecido, aquela espécie de lacaio trajando um terno
escuro, tratado sem consideração pela gente de espada que compunha a
escolta, era o próprio Bonacieux. O marido presidira o rapto da esposa.
D’Artagnan sentiu uma vontade louca de pular na garganta do ex-varejista
e estrangulá-lo. Por sorte, como dissemos, era um rapaz muito prudente e se
conteve. Entretanto, a revolução operada em seu rosto fora tão visível que
Bonacieux se assustou e tentou recuar um passo, mas encontrava-se
justamente imprensado contra o batente da porta, que estava fechada, e esse
obstáculo obrigou-o a ficar no mesmo lugar.
— Ah, entendi! Mas então é o senhor que está se divertindo, meu bom
homem — retomou d’Artagnan —, pois me parece que, se minhas botas
precisam de uma esponja, suas meias e sapatos também exigem uma escova.
Será que também ficou saracoteando por aí, mestre Bonacieux? Ah, diabos!
Isso seria indesculpável num homem de sua idade, que, além disso, tem uma
jovem e bonita mulher como a sua.
— Oh, meu Deus, não — desconversou Bonacieux —, ontem fui a Saint-
Mandé, para tomar informações sobre uma empregada da qual não posso de
forma alguma prescindir. Como o caminho estava em péssimas condições,
ficou essa lama, que ainda não tive tempo de fazer desaparecer.
O lugar designado por Bonacieux como o destino de seu passeio era uma
prova adicional, que só fazia reforçar as suspeitas concebidas por d’Artagnan.
Bonacieux dissera Saint-Mandé porque Saint-Mandé fica exatamente na
direção oposta a Saint-Cloud.
As suspeitas de d’Artagnan foram um primeiro consolo. Se Bonacieux
sabia onde estava a mulher, era sempre possível, empregando meios
extremos, obrigá-lo a dar com a língua nos dentes, revelando seu segredo.
Tratava-se apenas de transformar as suspeitas em certeza.
— Perdoe-me, meu caro sr. Bonacieux, essa minha sem-cerimônia — disse
d’Artagnan —, mas nada nos dá mais sede que uma noite em claro. Estou
com uma sede danada. Permita-me pegar um copo d’água em sua casa, afinal,
um vizinho não pode recusar coisa parecida.
Sem esperar a autorização do senhorio, d’Artagnan entrou
intempestivamente na casa, lançando um olhar para a cama. Não estava
desarrumada. Bonacieux não havia se deitado. Portanto, voltara apenas uma
ou duas horas atrás. Acompanhara a mulher até o lugar para o qual a haviam
conduzido, ou pelo menos até o primeiro posto de muda.
— Obrigado, mestre Bonacieux — agradeceu d’Artagnan, esvaziando o
copo —, não lhe peço mais nada. Agora vou para casa, farei Planchet escovar
minhas botas e, quanto ele houver terminado, posso emprestá-lo ao senhor, se
quiser escovar seus sapatos.
Com essa curiosa despedida, ele deixou o comerciante boquiaberto e se
perguntando se não havia delatado a si próprio.
No alto da escada, d’Artagnan encontrou Planchet muito aflito.
— Ah, senhor — exclamou Planchet, assim que avistou o patrão —, temos
novidade, ainda bem que chegou.
— O que houve? — perguntou d’Artagnan.
— Oh, dou-lhe cem, dou-lhe mil pistolas, patrão, se adivinhar a visita que
recebi pelo senhor durante sua ausência.
— Quando isso?
— Meia hora atrás, enquanto o patrão estava na casa do sr. de Tréville.
— Afinal, quem esteve aqui? Vamos, fale.
— O sr. de Cavois.
— O sr. de Cavois?
— Em pessoa.
— O capitão dos guardas de Sua Eminência?
— O próprio.
— Vinha me prender?
— Foi o que desconfiei, patrão, e isso apesar de seu ar de sonso.
— Ele tinha um ar de sonso?
— Pode-se dizer que estava mais doce que o mel.
— Sério?
— Vinha, dizia ele, em nome de Sua Eminência, a qual lhe quer muito
bem, pedir-lhe para acompanhá-lo ao Palais-Royal.
— E você lhe respondeu…
— Que era impossível, visto que o senhor estava fora, como ele podia
verificar.
— E o que ele disse?
— Para o senhor não deixar de passar na casa dele durante o dia. Depois,
acrescentou baixinho: “Diga a seu patrão que Sua Eminência acha-se muito
bem-disposta em relação a ele, e que sua fortuna talvez dependa dessa
entrevista.”
— A armadilha é por demais capenga para o cardeal — respondeu sorrindo
o rapaz.
— Também percebi a armadilha e respondi que o senhor, quando voltasse,
ficaria muito contrariado por ter se desencontrado dele.
“— Para onde ele foi? — perguntou o sr. de Cavois.
“— Para Troyes, na Champagne — respondi.
“— E quando partiu?
“— Ontem à noite.”
— Planchet, meu amigo — interrompeu d’Artagnan —, você é de fato um
homem valioso.
— Veja bem, patrão, pensei que, se o senhor quisesse ver o sr. de Cavois,
ainda seria tempo de me desmentir dizendo que abandonara os planos de
viagem. Teria sido eu, nesse caso, o verdadeiro mentiroso, e, como não sou
fidalgo, posso perfeitamente mentir.
— Fique descansado, Planchet, você conservará a reputação de homem
sincero. Partimos dentro de quinze minutos.
— Era o conselho que eu ia dar ao patrão. E para onde vamos, se não é
muita curiosidade minha perguntar?
— Ora essa! Para a direção oposta à que você disse que eu tinha ido. Aliás,
não está tão ansioso para ter notícias de Grimaud, de Mousqueton e de Bazin,
quanto eu para saber o que aconteceu com Athos, Porthos e Aramis?
— Realmente, patrão — disse Planchet —, e partirei quando assim desejar.
Tudo sugere que os ares da província nos farão bem, mais do que os ares de
Paris. Logo…
— Logo, prepare as nossas coisas, Planchet, e partamos. Eu vou indo na
frente, como quem não quer nada, para não denunciar nossos planos.
Encontre-me no palácio dos Guardas. A propósito, Planchet, acho que você
tem razão a respeito de nosso senhorio, trata-se indubitavelmente de um
grande canalha.
— Ah, acredite em mim, patrão, quando falo alguma coisa. Sou um
excelente fisionomista, admita!
D’Artagnan desceu primeiro, como fora combinado. Depois, ainda para
não despertar suspeitas, dirigiu-se uma última vez à casa de seus três amigos.
Não havia nenhuma notícia deles, apenas uma carta toda perfumada, numa
letra elegante e miúda, destinada a Aramis. D’Artagnan recolheu-a. Dez
minutos depois, Planchet juntava-se a ele nas estrebarias do palácio dos
Guardas. D’Artagnan, para não perder tempo, já tratara de selar seu cavalo.
— Está bem — disse ele a Planchet, quando o lacaio terminou de prender a
mala nos arreios. — Agora, sele os outros três, e vamos.
— Acha que iremos mais rápido se cada um tiver dois cavalos? —
perguntou Planchet, com seu jeito matreiro.
— Não, senhor estraga prazeres — devolveu d’Artagnan —, mas com
nossos quatro cavalos poderemos trazer nossos três amigos, se é que os
encontraremos vivos.
— O que seria uma grande sorte — respondeu Planchet —, mas, enfim,
não podemos descrer da misericórdia de Deus.
— Amém — disse d’Artagnan, montando seu cavalo.
E ambos saíram do palácio dos Guardas, afastando-se por diferentes lados
da rua. Um deveria deixar Paris pela barreira de La Vilette, o outro, pela
barreira de Montmartre, após o que se juntariam em Saint-Denis. Tal
manobra estratégica, tendo sido executada numa sincronia perfeita, foi
coroada pelos mais felizes resultados. D’Artagnan e Planchet entraram juntos
em Pierrefitte.
Planchet, a bem da verdade, era mais corajoso de dia do que à noite.
Entretanto, sua prudência natural não o abandonava um só instante. Não se
esquecera de nenhum dos incidentes da primeira viagem, e via como
inimigos a todos que encontrava no caminho. Daí resultava que tinha
incessantemente o chapéu na mão, o que lhe valia severas reprimendas por
parte de d’Artagnan, pois ele temia, graças ao excesso de polidez, que o
tomassem pelo valete de um remediado.
Seja como for, ou porque efetivamente os passantes ficassem tocados com
a civilidade de Planchet, ou porque dessa vez ninguém tivesse se colocado no
caminho do moço, nossos dois viajantes chegaram a Chantilly sem incidentes
e desceram na estalagem do Grand Saint Martin, a mesma na qual haviam
parado em sua primeira viagem.
O estalajadeiro, ao ver um rapaz seguido por um lacaio e dois cavalos
selados, avançou respeitosamente até a soleira da porta. Ora, como já havia
feito sessenta e seis quilômetros, d’Artagnan julgou apropriado interromper a
viagem, Porthos estivesse ou não na estalagem. Até porque, talvez não fosse
prudente indagar de supetão quanto ao destino do mosqueteiro. Pensando
assim, d’Artagnan, sem pedir nenhuma notícia do que quer que fosse, desceu,
pediu a seu lacaio que cuidasse dos cavalos, entrou num pequeno quarto
destinado aos que desejavam ficar sozinhos e solicitou ao estalajadeiro uma
garrafa de seu melhor vinho e uma refeição tão boa quanto possível. Tal
pedido corroborou a boa opinião que o estalajadeiro, à primeira vista, formara
de seu freguês.
Por tudo isso, d’Artagnan foi servido com milagrosa eficiência.
O regimento dos guardas era recrutado entre os primeiros fidalgos do
reino, e d’Artagnan, seguido por um lacaio e viajando com quatro magníficos
cavalos, não podia, apesar da simplicidade de seu uniforme, deixar de causar
sensação. O estalajadeiro quis servi-lo pessoalmente, o que fez d’Artagnan
pedir dois copos e puxar a seguinte conversa:
— Preste atenção, meu caro estalajadeiro — disse ele, enchendo os dois
copos —, eu lhe pedi do seu melhor vinho, e, se o senhor me enganou, vai ser
punido com seu próprio pecado, visto que, como detesto beber sozinho, o
senhor beberá comigo. Pegue logo este copo e vamos beber. A que
beberemos, sem ferir nenhuma suscetibilidade? Vejamos… Bebamos à
prosperidade de seu estabelecimento!
— Vossa Senhoria me honra — disse o estalajadeiro —, e agradeço-lhe
sinceramente pelos bons votos.
— Mas não se iluda — advertiu d’Artagnan —, talvez haja mais egoísmo
no meu brinde do que pensa. Só se é bem-recebido em estabelecimentos
prósperos; nas estalagens decadentes, é tudo uma bagunça, e o viajante é
vítima das contrariedades de seu estalajadeiro. Ora, eu, que viajo muito e
principalmente por essa estrada, gostaria de ver todos os estalajadeiros
prósperos.
— Com efeito — disse o estalajadeiro —, parece-me não ser a primeira
vez que tenho a honra de ver o cavalheiro.
— Ora! Passei umas dez vezes talvez em Chantilly e, em pelo menos três
ou quatro delas, devo ter parado em seu restaurante. Não faz dez ou doze dias
que estive por aqui. Eu ia com uns amigos, mosqueteiros. Por sinal, um deles
se desentendeu com um estranho, um desconhecido, um homem que o
interpelou não sei por que motivo.
— Ah, é mesmo! — exclamou o estalajadeiro. — Lembro-me
perfeitamente. Não é ao sr. Porthos que Vossa Senhoria se refere?
— É justamente este o nome de meu companheiro de viagem. Pelo amor
de Deus, estimado senhor, fale, lhe teria acontecido alguma desgraça?
— Mas Vossa Senhoria deve ter notado que ele não pôde continuar sua
viagem.
— Exatamente, ele ficou de ir ao nosso encontro e não o revimos desde
então.
— Ele me deu a honra de permanecer aqui.
— Como! Ele lhe deu a honra de permanecer aqui?
— Sim, senhor, nesta estalagem. Ficamos inclusive bastante preocupados.
— E com quê?
— Com certas despesas que ele fez.
— Ora, as despesas que ele fez, ele pagará!
— Ah, o senhor é a minha salvação! Ele já recebeu muita coisa fiado, e
ainda hoje de manhã o cirurgião declarou que, se o sr. Porthos não lhe
pagasse, eu é que teria de fazê-lo, pois fora eu que mandara chamá-lo.
— Mas Porthos então está ferido?
— Eu não saberia dizê-lo, senhor.
— Como, não saberia dizê-lo? Afinal, deve estar mais bem-informado que
qualquer um.
— É, porém, nas atuais circunstâncias, não dizemos tudo que sabemos,
senhor, sobretudo quando fomos alertados de que nossas orelhas
responderiam pela nossa língua.
— Muito bem, posso ver Porthos?
— Com certeza, cavalheiro. Pegue a escada, suba ao primeiro andar e bata
no nº 1. Mas deixe bem claro que é o senhor.
— Como assim? Por que deixar bem claro que sou eu?
— Caso contrário, poderia se arrepender.
— E como eu poderia me arrepender?
— O sr. Porthos pode achar que é alguém da casa e, num impulso de raiva,
atravessar seu corpo com a espada ou arrebentar sua cabeça.
— O que aprontaram com ele?
— Apresentamos-lhe a conta.
— Ah, diabos! Agora sim compreendo, é uma atitude que Porthos recebe
muito mal quando está sem recursos, mas não deveria ser este o caso.
— Era o que pensávamos também, cavalheiro. Como a casa é bastante
organizada e fazemos nosso balanço semanalmente, no fim de uma semana
apresentamos-lhe a conta, mas parece que não o fizemos numa hora boa,
pois, à nossa primeira palavra, ele nos mandou para o quinto dos infernos. É
verdade que ele tinha jogado na véspera.
— Como? Ele jogou na véspera? E com quem?
— Ah, quem pode saber? Com um senhor que passava e ao qual ele
sugeriu uma partida de lansquenê.
— Então é isso, o desgraçado deve ter perdido tudo.
— Até o cavalo, senhor, pois, quando o estranho estava de saída,
percebemos que seu lacaio selava o cavalo do sr. Porthos. Chamamos sua
atenção para isso, mas ele nos respondeu que não nos metêssemos no que não
era da nossa conta e que aquele cavalo era seu. Mandamos avisar
imediatamente ao sr. Porthos o que estava acontecendo, mas ele nos mandou
dizer que nos comportávamos como patifes, ao duvidar da palavra de um
fidalgo, e que, uma vez que o homem dissera que o cavalo era dele, só podia
ser mesmo dele.
— Posso vê-lo dizendo essa frase — murmurou d’Artagnan.
— Em seguida — continuou o estalajadeiro —, mandei responder-lhe que,
já que não parecíamos destinados a nos entender a respeito do pagamento, eu
esperava que pelo menos ele fizesse a gentileza de ir aplicar seu expediente
no meu rival, o dono da Águia de Ouro, mas o sr. Porthos me respondeu que
minha estalagem era melhor e desejava permanecer aqui.
“Essa resposta era muito lisonjeira para que eu insistisse em sua partida.
Limitei-me então a pedir que me devolvesse o quarto, que era o mais bonito
do estabelecimento, e se contentasse com um simpático gabinete no terceiro
andar. Mas a isto o sr. Porthos respondeu que, como esperava sua amante de
uma hora para outra, a qual era uma das mais ilustres damas da corte, eu
devia compreender que nem o quarto que ele me dava a honra de ocupar na
minha casa estava à altura de tal celebridade.
“Ainda assim, mesmo reconhecendo a verdade do que ele dizia, julguei
meu dever insistir. No entanto, sem mesmo se dar ao trabalho de negociar
comigo, ele pegou seu pistolete, colocou-o sobre a mesa de cabeceira e
declarou que, à primeira palavra que ouvisse sobre qualquer mudança dentro
ou fora do quarto, ele arrebentaria a cabeça de quem fosse imprudente a
ponto de se intrometer numa coisa que só dizia respeito a ele. E sendo assim,
desde então ninguém mais entra no quarto, a não ser o criado do sr. Porthos.”
— Quer dizer que Mousqueton está aqui?
— Sim, senhor. Cinco dias após sua partida, ele voltou para cá de péssimo
humor. Parece que também teve problemas no meio do caminho. Para nosso
pesar, ele é ainda mais turbulento que seu patrão, o que o leva a, em nome do
sr. Porthos, virar tudo de cabeça para baixo. Supondo que lhe poderiam
recusar algum pedido, ele então pega tudo que quer sem pedir.
— O fato é — respondeu d’Artagnan — que sempre observei em
Mousqueton uma lealdade e inteligência bem superiores.
— É uma forma de ver a coisa, senhor, mas tenha a certeza de que bastaria
eu ter contato com essa inteligência e essa lealdade quatro ou cinco vezes por
ano para ir à falência.
— Não, pois Porthos irá lhe pagar.
— Hum! — fez o estalajadeiro, num tom de dúvida.
— Ele é o favorito de uma ilustríssima dama, que não irá deixá-lo na mão
por uma miséria como a que ele lhe deve.
— Se eu me atrevesse a dizer o que penso sobre isso…
— O que pensa?
— E digo mais: o que sei.
— E o que sabe?
— E digo ainda mais: do que tenho certeza.
— E do que tem certeza, vejamos?
— Direi que conheço essa ilustre dama.
— O senhor?
— Sim, eu.
— E como a conhece?
— Oh, senhor, se eu acreditasse que podia confiar em sua discrição…
— Fale, e palavra de fidalgo, o senhor não terá por que se arrepender de
sua confiança.
— Muito bem! Como pode imaginar, cavalheiro, a preocupação nos leva a
fazer certas coisas.
— O que fez?
— Oh, por sinal, nada que não esteja no direito de um credor.
— Vai dizer, afinal?
— O sr. Porthos nos entregou um bilhete para essa duquesa,
recomendando-nos que o postássemos no correio. Seu criado ainda não tinha
chegado. Como ele não podia sair do quarto, éramos nós que nos
incumbíamos de seus afazeres.
— Prossiga.
— Em vez de postarmos a carta, o que nunca é muito seguro, aproveitei
que um de meus rapazes ia a Paris e ordenei-lhe que a entregasse em mãos à
duquesa. Isso era respeitar as intenções do sr. Porthos, que nos recomendara
muito essa carta, não é mesmo?
— De certa forma.
— Pois bem, senhor, sabe quem é essa ilustre dama?
— Não. Ouvi Porthos mencioná-la, apenas isso.
— Sabe quem é essa pretensa duquesa?
— Repito que não a conheço.
— É uma velha, mulher de um promotor no Châtelet, senhor, chamada sra.
Coquenard, que tem no mínimo cinquenta anos e ainda se dá ares de
ciumenta. Isso me pareceu bastante curioso, uma duquesa morando na rua
dos Gansos.
— Como sabe disso?
— Porque ela perdeu completamente a linha ao receber a carta, dizendo
que o sr. Porthos era um mulherengo e que devia ser por alguma outra que
recebera uma estocada.
— Mas então ele recebeu uma estocada?
— Ai, meu Deus, o que foi que eu disse?
— O senhor disse que Porthos recebeu uma estocada.
— Sim, mas ele me proibiu taxativamente de contar.
— Por quê?
— Estou perdido! Senhor, porque ele se gabara de perfurar o estranho com
quem os senhores o haviam deixado em pleno combate, mas foi esse
estranho, ao contrário, que, apesar de todas as suas esquivas, terminou
deitando-o no chão. Ora, como o sr. Porthos gosta muito de se vangloriar, a
ninguém além da duquesa, a qual ele julgara interessar fazendo-lhe o relato
de sua aventura, quis admitir que recebera uma estocada.
— Quer dizer então que é uma estocada que o prende na cama?
— E uma senhora estocada, posso lhe garantir. O seu amigo deve ter a
alma aparafusada no corpo.
— Presenciou tudo?
— Senhor, segui-os por curiosidade, de modo que vi o combate sem que os
combatentes me vissem.
— E como foi a coisa?
— Oh, não demorou muito, pode acreditar. Eles se puseram em guarda, o
estranho fez uma finta e atacou. Tudo isso de forma tão rápida que, quando o
sr. Porthos ameaçou reagir, já tinha três polegadas de ferro dentro do peito e
caiu de costas. O estranho pôs-lhe imediatamente a ponta de sua espada na
garganta, e o sr. Porthos, vendo-se a mercê do adversário, deu-se por vencido.
Diante disso o estranho perguntou seu nome e, ao saber que se chamava sr.
Porthos, e não sr. d’Artagnan, ofereceu-lhe o braço, trouxe-o para a
estalagem, montou no seu cavalo e sumiu.
— Quer dizer que era o sr. d’Artagnan que esse homem procurava?
— É o que parece.
— E sabe para onde ele foi?
— Não, nunca o tinha visto até aquele momento e não o vimos mais desde
então.
— Muito bem, sei o que queria saber. Agora, o senhor falou que o quarto
de Porthos é no primeiro andar, nº1?
— Sim, senhor, o mais bonito da estalagem, um quarto que já tive
oportunidade de alugar umas dez vezes.
— Não precisa chorar — disse d’Artagnan, rindo. — Porthos lhe pagará
com o dinheiro da duquesa Coquenard.
— Oh, senhor, promotora ou duquesa, tanto faz, se ela desatasse os
cordões da bolsa. Mas o que ela respondeu mesmo foi que estava cansada das
exigências e infidelidades do sr. Porthos, e que não lhe enviaria um tostão.
— E o senhor transmitiu essa resposta ao seu hóspede?
— Fomos mais prudentes; ele teria percebido o método pelo qual nos
havíamos incumbido de seus afazeres.
— De modo que ele continua a esperar pelo dinheiro?
— Oh, meu Deus, sim! Ainda ontem, escreveu, mas, dessa vez, foi seu
criado quem postou a carta.
— E o senhor diz que a mulher do promotor é velha e feia!
— Cinquenta anos por baixo, senhor, e nada bonita, pelo que diz Pathaud.
— Nesse caso, não se preocupe, ela se deixará enternecer. Aliás, a dívida
de Porthos não deve ser grande coisa.
— Não deve ser grande coisa! Duas dezenas de pistolas, para começar,
sem falar do médico. Oh, ele não se recusa nada; vemos que está acostumado
a uma vida boa.
— Pois bem, se a amante abandoná-lo, ele encontrará amigos, confie em
mim. Portanto, meu caro estalajadeiro, não se inquiete e continue a dispensar-
lhe os cuidados que seu estado exige.
— O senhor tem de prometer não tocar no assunto da mulher do promotor
e não falar uma palavra sobre o ferimento.
— Combinado, tem minha palavra.
— Oh, veja, é que ele me mataria!
— Não tenha medo, ele não é tão mau quanto parece.
Dizendo essas palavras, d’Artagnan subiu a escada, deixando seu anfitrião
um pouco mais serenado a respeito das duas coisas que parecia mais prezar:
seu crédito e sua vida.
No alto da escada, na porta mais visível do corredor estava desenhado, com
tinta preta, um número 1 gigantesco. D’Artagnan deu uma batida e, diante do
convite para seguir em frente vindo do interior, entrou.
Porthos estava deitado, jogando uma partida de lansquenê com
Mousqueton, para exercitar a mão, enquanto um espeto cheio de perdizes
girava diante do fogo. Em cada canto de uma grande lareira, ferviam sobre
dois réchauds duas panelas, exalando um duplo aroma de ensopado e de
caldeirada que rejubilava o olfato. Além disso, o tampo de uma escrivaninha
e o mármore de uma cômoda estavam tomados por garrafas vazias.
Ao ver o amigo, Porthos exultou de alegria, e Mousqueton, levantando-se
respeitosamente, cedeu-lhe o lugar e foi dar uma olhada nas duas panelas, as
quais pareciam ser submetidas a uma inspeção minuciosa.
— Olá, é você! — disse Porthos a d’Artagnan. — Seja bem-vindo, e
desculpe-me não ir até aí. Mas — acrescentou, observando d’Artagnan com
certa preocupação —, sabe o que me aconteceu?
— Não.
— O estalajadeiro não lhe contou nada?
— Perguntei por você e subi direto.
Porthos pareceu respirar mais à vontade.
— E o que aconteceu, meu caro Porthos?
— Aconteceu que, ao atacar meu adversário, em quem eu já tinha dado três
estocadas e de quem eu pretendia dar cabo com uma quarta, meu pé tropeçou
numa pedra e ralei o joelho.
— Sério?
— Palavra de honra! Sorte do pilantra, pois o mínimo que eu faria seria
matá-lo ali mesmo, pode acreditar.
— O que aconteceu com ele?
— Oh, não faço a mínima ideia. Já havia levado bastante e foi embora sem
esperar pelo resto. Mas e você, meu caro d’Artagnan, o que lhe aconteceu?
— De maneira — continuou d’Artagnan — que um joelho ralado, meu
caro Porthos, prende-o na cama.
— Ah, meu Deus, sim, uma bobagem. Em todo caso, dentro de poucos dias
estarei de pé.
— Por que então não pede para ser transportado até Paris? Deve entediar-
se cruelmente por aqui.
— Era minha intenção, mas tenho algo a lhe confessar, meu amigo.
— O quê?
— É que, como eu me entediava cruelmente, como você disse, e tinha no
meu bolso as setenta e cinco pistolas que você distribuíra entre nós, mandei
subir, para me distrair, um fidalgo que estava de passagem, a quem sugeri
uma partida de dados. Ele aceitou e, com a breca, minhas setenta e cinco
pistolas passaram do meu bolso para o dele, sem contar meu cavalo, que ele
ainda levou por um preço irrisório. Mas e você, meu caro d’Artagnan?
— O que quer, meu caro Porthos, não podemos triunfar em todos os
setores — disse d’Artagnan. — Você conhece o ditado: “Azar no jogo, sorte
no amor.” Você tem muita sorte no amor para que o jogo não se vingue, mas
o que lhe importam os reveses da fortuna! Afinal, seu malandro felizardo,
você tem a sua duquesa, que não deixará de vir em seu socorro.
— Para você ver, meu caro d’Artagnan, como o azar me persegue —
respondeu Porthos, com a maior desfaçatez do mundo —, escrevi-lhe para me
enviar uns cinquenta luíses, dos quais necessitava desesperadamente,
considerando a situação em que me achava…
— E aí?
— E aí! Ela deve estar numa de suas propriedades no campo, pois não me
respondeu.
— Não?
— Não! Então dirigi-lhe ontem uma segunda carta, mais imperiosa que a
primeira, e isso é tudo, meu caríssimo. Mas falemos de você. Confesso que
estava começando a ficar um pouco preocupado com sua pessoa.
— Mas vejo que seu estalajadeiro não o maltratou muito, meu caro Porthos
— provocou d’Artagnan, apontando ao doente as panelas cheias e as garrafas
vazias.
— Assim, assim! — respondeu Porthos. — Há três ou quatro dias que o
impertinente me apresentou sua conta e botei-os porta afora, sua conta e ele,
de maneira que aqui estou, como uma espécie de vencedor, de conquistador.
Temendo sempre acabar desalojado de minha posição, estou armado até os
dentes.
— Entretanto — disse, rindo, d’Artagnan — parece-me que de tempos em
tempos você dá umas saídas.
E apontava com o dedo as garrafas e panelas.
— Infelizmente, não! — disse Porthos. — Esse machucado miserável me
prende na cama, mas Mousqueton dá conta do recado e consegue víveres.
Mousqueton, meu amigo — continuou Porthos —, você vê que nos chegam
reforços, necessitamos de um suplemento de iguarias.
— Mousqueton — disse d’Artagnan —, preciso de um favor seu.
— Qual, senhor?
— Dê sua receita a Planchet. Eu poderia estar sitiado da mesma forma e
adoraria se ele me dispensasse as mesmas atenções com que você paparica
seu patrão.
— Por Deus, senhor — disse Mousqueton, com uma expressão de
modéstia —, nada mais fácil. Basta ser diligente, só isso. Fui criado no
campo e meu pai, em seus momentos de lazer, era um pouco caçador.
— E o que ele fazia o resto do tempo?
— Senhor, ele adotou um expediente que sempre me pareceu muito eficaz.
— Qual?
— Como era na época das guerras dos católicos contra os huguenotes, e ele
via os católicos exterminarem os huguenotes e os huguenotes exterminarem
os católicos, tudo em nome da religião, ele virou um crente misto, o que lhe
permitia ser ora católico, ora huguenote. Pois bem, ele sempre dava uns
passeios, com sua escopeta no ombro, por trás das cercas que acompanham as
trilhas. Então, quando cruzava com um católico sozinho, a religião
protestante logo prevalecia em seu espírito. Mirava sua escopeta na direção
do viajante, depois, quando estava a dez passos dele, iniciava um diálogo que
terminava quase sempre com o viajante abandonando a bolsa para salvar a
vida. Desnecessário dizer que, quando via aproximar-se um huguenote,
sentia-se arrebatado por um zelo católico tão ardoroso que não compreendia
como, quinze minutos antes, pudera ter dúvidas sobre a superioridade de
nossa fé sagrada. Pois eu, senhor, sou católico, já que meu pai, fiel a seus
princípios, fez um huguenote de meu irmão mais velho.
— E como terminou esse homem sensato? — perguntou d’Artagnan.
— Oh, o fim mais trágico, senhor. Um dia, viu-se encurralado, numa trilha
erma, entre um huguenote e um católico com quem já tivera problemas.
Ambos o reconheceram, de maneira que se uniram contra ele e o enforcaram
numa árvore. Depois vieram gabar-se de sua bela façanha na taberna do
primeiro vilarejo, onde estávamos a beber, meu irmão e eu.
— E vocês, o que fizeram? — indagou d’Artagnan.
— Deixamos que falassem — continuou Mousqueton. — Depois, saindo
dessa taberna, ambos tomaram caminhos opostos, meu irmão foi emboscar-se
no caminho do católico, e eu, no do protestante. Duas horas depois, tudo
estava terminado, fizemos o que tínhamos que fazer, sempre admirando a
clarividência de nosso pobre pai, que tomara a precaução de nos criar cada
um numa religião diferente.
— Não há como negar, Mousqueton, seu pai me parece ter sido um sujeito
muito inteligente. E você então diz que, em seus momentos de lazer, o bravo
homem era caçador?
— Sim, senhor, foi ele quem me ensinou a armar o laço e a jogar um anzol
dentro d’água. Daí que, quando vi nosso finório estalajadeiro nos
alimentando com um monte de carnes de segunda, boas para plebeus, e que
estas não caíam bem em dois estômagos tão debilitados como os nossos,
matei um pouco as saudades de meu antigo ofício. Enquanto passeava pelos
bosques do sr. príncipe, armei laços nas passagens; enquanto descansava na
beira dos lagos de Sua Alteza, deixava as linhas escorregarem até o fundo nos
viveiros. De maneira que, agora, graças a Deus, não nos faltam, como o
senhor pode verificar, perdizes e coelhos, carpas e enguias, alimentos leves e
saudáveis, apropriados para enfermos.
— Mas e o vinho — disse d’Artagnan —, quem fornece o vinho? O
estalajadeiro?
— A melhor resposta é, sim e não.
— Como, sim e não?
— Ele o fornece, é verdade, mas ignora que tem essa honra.
— Explique-se, Mousqueton, sua conversa é repleta de coisas instrutivas.
— É o seguinte, senhor. O acaso fez com que eu conhecesse em minhas
peregrinações um espanhol que visitara muitos países, entre eles o Novo
Mundo.
— Que relação pode ter o Novo Mundo com as garrafas sobre essa
escrivaninha e essa mesa?
— Paciência, senhor, cada coisa na sua vez.
— Está certo, Mousqueton, confio em você e sou todo ouvidos.
— Esse espanhol tinha um lacaio que o acompanhara em sua viagem ao
México. Esse lacaio era meu conterrâneo, de maneira que nos entendemos
rapidamente, ainda mais que havia entre nós grande afinidade de
temperamento. Ambos gostávamos de caçar acima de tudo, de maneira que
ele me contava como, nas planícies dos pampas, os nativos caçam o tigre e os
touros com simples laços corrediços, que arremessam nos pescoços desses
terríveis animais. No início, neguei-me a acreditar que fosse possível tal grau
de habilidade; lançar com precisão, a vinte ou trinta metros, a ponta de uma
corda. Mas, diante das provas, foi imperioso reconhecer a verdade do relato.
Meu amigo colocava uma garrafa a trinta passos e acertava sempre o laço no
gargalo. Dediquei-me a tal exercício e, como a natureza me dotou de certa
habilidade, hoje arremesso o laço tão bem quanto qualquer homem do
mundo. E então, percebeu? Nosso estalajadeiro tem uma adega muito bem
sortida, mas não se afasta nunca de sua chave. Contudo, essa adega tem um
respiradouro. Ora, por esse respiradouro, eu arremesso o laço, e como sei
agora onde é o canto bom, me abasteço ali. Pronto, senhor, eis como o Novo
Mundo tem relação com as garrafas que estão sobre essa cômoda e essa
mesa. Agora, quer provar do nosso vinho e dizer-nos, sem preconceito, o que
pensa dele?
— Obrigado, meu amigo, obrigado, infelizmente acabo de almoçar.
— Pois bem! — disse Porthos. — Ponha a mesa, Mousqueton, e enquanto
almoçamos nós dois, d’Artagnan nos contará o que aconteceu com ele nesses
dez dias em que não nos vimos.
— Com todo o prazer — concordou d’Artagnan.
Enquanto Porthos e Mousqueton comiam com o apetite dos convalescentes
e a cordialidade fraterna que aproxima os homens no infortúnio, d’Artagnan
contou como Aramis, ferido, fora obrigado a parar em Crèvecœur, como ele
deixara Athos se debater em Amiens, nas mãos de quatro homens que o
acusavam de ser um falsário, e como, ele, d’Artagnan, fora obrigado a furar a
barriga do conde de Wardes para chegar à Inglaterra.
Mas aí pararam as confidências de d’Artagnan. Ele apenas comunicou que,
em seu retorno da Grã-Bretanha, trouxera quatro cavalos magníficos, um dos
quais para ele e os outros para cada um de seus companheiros. Por fim,
anunciou a Porthos que o animal a ele destinado já se encontrava nas
cocheiras da estalagem.
Nesse momento, Planchet entrou, avisando a seu patrão que os cavalos
estavam suficientemente descansados e que seria possível pernoitarem em
Clermont.
Como d’Artagnan estava razoavelmente tranquilo com respeito a Porthos,
e ansiava por notícias de seus outros dois amigos, ele estendeu a mão ao
doente e avisou-lhe que ia pôr-se a caminho, dando continuidade a suas
buscas. De toda forma, pretendia voltar pelo mesmo caminho, e se, dali a sete
ou oito dias, Porthos ainda se encontrasse na estalagem do Gran Saint Martin,
ele o pegaria ao passar.
Porthos respondeu que, segundo toda a probabilidade, seu machucado não
lhe permitiria que se afastasse até lá. Aliás, precisava permanecer em
Chantilly aguardando uma resposta de sua duquesa.
D’Artagnan desejou-lhe que tal resposta lhe chegasse rápida e auspiciosa.
Então, após novamente recomendar Porthos a Mousqueton, pagou sua
despesa ao estalajadeiro e pôs-se a caminho com Planchet, já desembaraçado
de um de seus cavalos avulsos.
26. A tese de Aramis

N apromotora.
presença de Porthos, d’Artagnan evitara mencionar seu ferimento e sua
Era um rapaz bastante sensato o nosso bearnês, por mais
jovem que fosse. Logo, fingiu acreditar em tudo que lhe contara o
vaidoso mosqueteiro, convencido de que não há amizade que resista a um
segredo surpreendido, sobretudo quando esse segredo envolve o orgulho.
Depois, temos sempre certa superioridade moral sobre aqueles cujas vidas
conhecemos.
Ora, d’Artagnan, no que se refere aos planos que urdira para o futuro, e
decidido como estava a fazer de seus três companheiros os instrumentos de
sua fortuna, não estava contrariado por segurar, antecipadamente, os fios
invisíveis que o ajudariam a concretizar tais planos.
Entretanto, ao longo de todo o caminho, uma profunda tristeza fustigava
seu coração. Pensava naquela jovem e sedutora sra. Bonacieux, que devia
conceder-lhe o prêmio por sua lealdade. Essa tristeza, porém, apressemo-nos
em dizê-lo, vinha menos da angústia de sua felicidade perdida do que do
medo que sentia de ter acontecido uma desgraça com a pobre mulher. Para
ele, sem dúvida, a jovem fora vítima de uma vingança do cardeal, e, como
sabemos, eram terríveis as vinganças de Sua Eminência. O que o nosso
bearnês ignorava é como ele próprio tinha caído nas boas graças do ministro,
e certamente era isso que lhe teria revelado o sr. de Cavois, se o capitão dos
guardas o houvesse encontrado em casa.
Nada faz correr mais o tempo e abrevia mais o caminho do que um
pensamento capaz de absorver em si mesmo todas as faculdades mentais
daquele que pensa. A vida exterior assemelha-se então a um sono de que esse
pensamento é o sonho. Graças a ele, o tempo perde a medida, o espaço perde
a distância. Partimos de um lugar e chegamos a outro, e isso é tudo. Do
intervalo percorrido, nada permanece em nossa lembrança, a não ser um
nevoeiro difuso, no qual se diluem mil imagens confusas de árvores,
montanhas e paisagens. Foi às voltas com essa alucinação que d’Artagnan
atravessou, na velocidade estipulada por seu cavalo, os trinta ou quarenta
quilômetros que separam Chantilly de Crèvecœur, sem que, chegando a essa
aldeia, se lembrasse de qualquer coisa que tivesse encontrado no caminho.
Só então recuperou a memória, balançou a cabeça, avistou a taberna onde
deixara Aramis e, fazendo seu cavalo trotar, parou na porta.
Dessa vez não foi um estalajadeiro, mas uma estalajadeira que o recebeu.
D’Artagnan era bom fisionomista, de modo que, num único olhar, envolveu o
rosto rechonchudo e alegre da dona do estabelecimento, compreendendo que
não precisava dissimular com ela e que nada teria a temer da parte de tão
risonha fisionomia.
— Minha boa dama — perguntou-lhe d’Artagnan —, poderia me dizer
aonde foi parar um amigo meu, que fomos obrigados a deixar aqui há uns
doze dias?
— Um mancebo esbelto, de vinte e três a vinte e quatro anos, amável,
bem-educado, forte?
— Um que, por acaso, tinha um ferimento no ombro?
— Ele mesmo!
— Exatamente.
— Ora, senhor, ele continua aqui.
— Graças a Deus, cara dama — alegrou-se d’Artagnan, apeando e jogando
a rédea de seu cavalo no braço de Planchet —, a senhora me fez respirar
novamente. Onde está ele, esse querido Aramis, para que eu possa abraçá-lo?
Pois, confesso, estou louco para revê-lo.
— Perdão, senhor, mas desconfio que ele não possa recebê-lo neste
momento.
— E por quê? Por acaso ele está com uma mulher?
— Jesus! O que está dizendo! Pobre moço! Não, senhor, não está com uma
mulher.
— Então, com quem está?
— Com o pároco de Montdidier e o superior dos jesuítas de Amiens.
— Meu Deus! — exclamou d’Artagnan. — O pobre moço teria piorado?
— Não, senhor, ao contrário, mas, ao longo de sua enfermidade, ele foi
tocado pela graça e resolveu virar padre.
— É verdade — disse d’Artagnan —, eu tinha esquecido que ele só era
mosqueteiro temporariamente.
— Continua querendo vê-lo, senhor?
— Mais do que nunca.
— Pois bem, senhor, basta subir a escada à direita no pátio, é no segundo
andar, nº 5.
D’Artagnan lançou-se na direção indicada e encontrou uma dessas escadas
externas que ainda hoje vemos nos pátios das antigas estalagens. Mas não era
simples chegar aonde estava o futuro sacerdote. Os corredores que levavam
ao quarto de Aramis eram tão bem-protegidos quanto os jardins de Armida.
Bazin, postado no corredor, barrou-lhe a passagem com uma intrepidez
inaudita, visto que, após anos de provações, via-se finalmente prestes a
chegar ao fim que havia eternamente ambicionado.
Com efeito, o sonho do pobre Bazin sempre fora servir um homem de
igreja, e esperava com impaciência o momento, incessantemente vislumbrado
no futuro, em que Aramis jogaria seu uniforme no lixo para vestir a batina. A
única coisa que o prendia no serviço de um mosqueteiro, serviço no qual,
dizia ele, perdia-se inevitavelmente a alma, era a promessa diariamente
renovada por Aramis de que aquele momento não podia tardar.
Bazin, então, estava no auge da alegria, pois, segundo toda a probabilidade,
daquela vez seu patrão não voltaria atrás. A reunião da dor física à dor moral
produzira o efeito por tanto tempo almejado. Aramis, enfermo ao mesmo
tempo do corpo e da alma, finalmente detivera seus olhos e pensamento na
religião, enxergando como uma advertência do céu o duplo incidente que lhe
acontecera, isto é, o desaparecimento súbito de sua amante e o ferimento em
seu ombro.
Era compreensível que, na situação em que se encontrava, nada pudesse
ser mais desagradável para Bazin do que a chegada de d’Artagnan, capaz de
relançar seu patrão no turbilhão das ideias mundanas que o haviam seduzido
por tanto tempo. Ele resolveu então defender bravamente a porta, e como,
traído pela dona da estalagem, não podia dizer que Aramis estava ausente,
tentou provar ao recém-chegado que seria o cúmulo da indiscrição
importunar seu patrão na piedosa conversa que este entabulava desde cedo, e
que, nas palavras de Bazin, não deveria terminar antes do anoitecer.
Mas d’Artagnan ignorou solenemente o eloquente discurso de mestre
Bazin, e como não estava disposto a polemizar com o criado do amigo,
afastou-o pura e simplesmente com uma das mãos, rodando com a outra a
maçaneta da porta nº 5.
A porta se abriu e d’Artagnan entrou no quarto.
Aramis, de beca preta, a cabeça enfiada numa espécie de barrete redondo e
achatado, que lembrava muito uma calota, estava sentado diante de uma mesa
oblonga, tomada por rolos de papel e enormes in-folios. À sua direita estava
sentado o superior dos jesuítas e, à sua esquerda, o pároco de Montdidier. As
cortinas estavam fechadas pela metade, não deixando penetrar senão uma
claridade misteriosa, alimentada por um devaneio beatífico. Todos os objetos
mundanos que poderiam chamar nossa atenção quando entramos no quarto de
um rapaz, e especialmente quando esse rapaz é mosqueteiro, haviam
desaparecido como que por encanto e, decerto com medo de que sua visão
trouxesse o patrão de volta às ideias deste mundo, Bazin dera sumiço na
espada, nos pistoletes, no chapéu emplumado, nos bordados e rendas de todo
gênero e espécie.
Em vez de tudo isso, d’Artagnan julgou perceber, num canto escuro, uma
espécie de instrumento de penitência pendurado num prego na parede.
Ao barulho feito por d’Artagnan abrindo a porta, Aramis levantou a cabeça
e reconheceu o amigo. Porém, para grande surpresa do recém-chegado, sua
visão não pareceu produzir grande impacto sobre o mosqueteiro, de tal forma
seu espírito estava desligado das coisas da terra.
— Bom-dia, caro d’Artagnan — saudou Aramis. — Creia-me, é um prazer
revê-lo.
— Igualmente — disse d’Artagnan —, embora não esteja ainda muito
certo de que é com Aramis que falo.
— Com ele mesmo, meu amigo, com ele mesmo. Mas o que pôde fazê-lo
duvidar?
— Receava ter-me enganado de quarto, e a princípio julguei entrar no
aposento de algum homem de igreja. Cometi outro engano ao vê-lo na
companhia destes cavalheiros: achei que estivesse gravemente doente.
Os dois homens de preto dirigiram a d’Artagnan, cuja intenção
perceberam, um olhar quase ameaçador. Mas d’Artagnan não se alterou.
— Receio atrapalhar, caro Aramis — continuou d’Artagnan —, pois tudo
me sugere que você esteja se confessando a esses senhores.
Aramis foi tomado por um leve rubor.
— Você, atrapalhar? Oh, muito pelo contrário, caro amigo, juro. E, como
prova do que digo, permita que eu expresse minha alegria por vê-lo são e
salvo.
“Ah, ei-lo de volta”, pensou d’Artagnan. “Nada mau.”
— Pois o cavalheiro, que é meu amigo, acaba de escapar de um grande
perigo — prosseguiu Aramis, pondo uma especial doçura na voz e apontando
d’Artagnan para os dois eclesiásticos.
— Louvado seja Deus, cavalheiro — responderam estes em uníssono.
— Não deixei de louvá-lo, reverendíssimos — respondeu o jovem,
devolvendo a saudação.
— Chega bem a propósito, caro d’Artagnan — disse Aramis —, e irá,
participando da discussão, iluminá-la com suas luzes. O sr. principal de
Amiens, o sr. pároco de Montdidier e eu argumentamos sobre certas questões
teológicas, cujo interesse nos cativa há tempos. Seria um prazer ouvir sua
opinião.
— A opinião de um homem de espada não tem peso algum — respondeu
d’Artagnan, que começava a se preocupar com o aspecto que as coisas
tomavam —, e penso que você deva ater-se à ciência desses senhores.
Os dois homens de preto agradeceram inclinando a cabeça.
— Ao contrário — insistiu Aramis —, sua opinião nos será valiosa. Eis do
que se trata: o sr. principal acha que minha tese deve ser essencialmente
dogmática e didática.
— Sua tese! Por acaso está fazendo uma tese?
— Sem dúvida — respondeu o jesuíta. — Para o exame que precede a
ordenação, uma tese é imprescindível.
— Ordenação! — exclamou d’Artagnan, que não podia acreditar no que
lhe haviam dito sucessivamente a estalajadeira e Bazin. — Ordenação!
E passeava seus olhos estupefatos pelos três personagens que tinha diante
de si.
— Ora — continuou Aramis, adotando em sua poltrona a mesma pose
graciosa que teria adotado num beco, e examinando condescendente sua mão
branca e carnuda como uma mão de mulher, a qual mantinha erguida para
fazer descer o sangue —, como você ouviu, d’Artagnan, o sr. principal
gostaria que minha tese fosse dogmática, ao passo que eu, por minha vez,
preferiria que fosse ideal. Eis então por que o sr. principal me sugeriu este
tema que ainda não foi tratado, no qual reconheço haver material para
magníficos desdobramentos: “Utraque manus in benedicendo clericis
inferioribus necessaria est.”
D’Artagnan, cuja erudição conhecemos, não piscou mais diante dessa
citação do que diante da que lhe fizera o sr. de Tréville, a respeito dos
presentes que julgava ter d’Artagnan recebido do sr. de Buckingham.
— O que significa — emendou Aramis, para lhe facilitar as coisas: —
Ambas as mãos são indispensáveis aos sacerdotes das ordens inferiores
quando eles dão a bênção.
— Um tema admirável! — exclamou o jesuíta.
— Admirável e dogmático! — repetiu o pároco, que, sabendo tanto latim
quanto d’Artagnan, espreitava atentamente o jesuíta para não perdê-lo e
repetir suas palavras em eco.
Quanto ao nosso gascão, permaneceu completamente indiferente ao
entusiasmo dos dois homens de preto.
— Sim, admirável! Prorsus admirabile — continuou Aramis. — Mas que
exige um estudo acurado dos Padres e das Escrituras. Ora, confessei a estes
eruditos clérigos, e isto com toda a humildade, que os plantões na guarda e no
serviço do rei me haviam feito deixar um pouco o estudo de lado. Por
conseguinte, eu me sentiria mais à vontade, facilius natans, num tema da
minha escolha, o qual estaria para estas espinhosas questões teológicas como
a moral, na filosofia, está para a metafísica.
D’Artagnan entediava-se profundamente, o pároco também.
— Veja que exórdio! — exclamou o jesuíta.
— Exordium — repetiu o pároco para falar alguma coisa.
— Quemadmodum inter cœlorum immensitatem.
Num relance, Aramis olhou para d’Artagnan e viu que seu amigo bocejava
a ponto de desconjuntar o maxilar.
— Falemos francês, meu padre — pediu ele ao jesuíta. — D’Artagnan
desfrutará melhor de nossas palavras.
— De fato, a viagem me deixou esgotado — admitiu d’Artagnan —, e não
entendo nada desse latim.
— Como preferir — disse o jesuíta, um pouco decepcionado, enquanto o
pároco, aliviado, dirigia a d’Artagnan um olhar cheio de gratidão. — Muito
bem! Vejam o partido que tirarei dessa glosa. — Moisés, servo de Deus… ele
é apenas servo, prestem atenção! Moisés abençoa com as mãos, estende os
dois braços, enquanto os hebreus derrotam seus inimigos. Logo, abençoa com
ambas as mãos. Aliás, como afirma o Evangelho: Imponite manus, e não
manum: “Impõe as mãos”, e não “a mão”.
— Impõe as mãos — repetiu o pároco, fazendo um gesto.
— Em são Pedro, ao contrário, de quem os papas são sucessores —
continuou o jesuíta —, Porrige digitos, “Estende os dedos”. Percebeu agora?
— Decerto — respondeu Aramis, derretendo-se de prazer —, mas a coisa é
sutil.
— Os dedos! — repetiu o jesuíta. — São Pedro abençoa com os dedos.
Logo, o papa também abençoa com os dedos. E com quantos dedos ele
abençoa? Com três dedos, um para o Pai, um para o Filho e um para o
Espírito Santo.
Todos fizeram o sinal da cruz. D’Artagnan julgou-se na obrigação de
imitar o exemplo.
— O papa é sucessor de são Pedro e representa os três poderes divinos. O
resto, ordines inferiores da hierarquia eclesiástica, abençoa com o nome dos
santos arcanjos e anjos. Os mais humildes clérigos, como nossos diáconos e
sacristãos, abençoam com os aspersórios, que simbolizam um número
indefinido de dedos consagradores. Eis o tema simplificado, argumentum
omini dendatum ornamento. Com isso eu faria — continuou o jesuíta — dois
volumes do tamanho deste.
E, eufórico, batia no são Crisóstomo in-folio que vergava a mesa sob seu
peso.
D’Artagnan estremeceu.
— Muito bem — disse Aramis —, curvo-me às belezas dessa tese, mas ao
mesmo tempo reconheço que ela está além da minha capacidade. Eu tinha
escolhido o seguinte texto, diga-me, caro d’Artagnan, se não é do seu agrado:
Non inutile est desiderium in oblatione,ou, melhor ainda: “Um pouco de
desejo não é inútil numa oferenda ao Senhor.”
— Alto lá! — exclamou o jesuíta. — Essa tese beira a heresia. Há uma
proposição quase igual no Augustinus do heresiarca Jansênio, cujo livro será,
mais cedo ou mais tarde, queimado pelas mãos do carrasco. Cuidado, jovem
amigo, o senhor resvala nas falsas doutrinas, na perdição!
— Na perdição — disse o pároco, balançando desoladamente a cabeça.
— O senhor traz à tona esse terrível tópico do livre-arbítrio, que é um
escolho fatal, além de desafiar explicitamente as instituições dos pelagianos e
dos semipelagianos.
— Mas, meu reverendo… — reagiu Aramis, um tanto apalermado com a
chuva de argumentos que lhe caía na cabeça.
— Como o senhor poderá provar — prosseguiu o jesuíta, sem lhe dar
tempo de concluir a frase — que devemos sentir saudades das coisas do
mundo quando nos oferecemos a Deus? Escute este dilema: Deus é Deus, e o
mundo é o diabo. Ter saudades das coisas do mundo é ter saudades do diabo:
eis a minha conclusão.
— É a minha também — ecoou o pároco.
— Mas, por misericórdia…! — exclamou Aramis.
— Desideras diabolum, infeliz! — exclamou o jesuíta.
— Ele tem saudades do diabo! Ah, jovem amigo — interveio novamente o
pároco — não tenha saudades do diabo, eu lhe suplico.
D’Artagnan estava quase mentalmente paralisado. Julgava estar numa casa
de loucos, e que enlouqueceria como todos à sua frente. Entretanto, era
obrigado a calar-se, não compreendendo uma palavra da língua que falavam
diante dele.
— Mas, escute-me então — voltou à carga Aramis, com uma polidez sob a
qual começava a transparecer um pouco de impaciência —, não digo que
tenha saudades, não, jamais pronunciarei essa frase, que não seria muito
ortodoxa…
O jesuíta ergueu os braços para os céus, e o pároco fez o mesmo.
— Não — continuou Aramis —, mas ao menos admita que somos mal-
agradecidos, quando oferecemos ao Senhor apenas aquilo que já enjoamos de
fazer. Não concorda comigo, d’Artagnan?
— Mas plenamente! — bradou este.
O pároco e o jesuíta deram um pulo em suas cadeiras.
— Eis o meu ponto de partida, é um silogismo: não faltam atrativos no
mundo, eu abandono o mundo; logo, faço um sacrifício. Ora, a Escritura diz
claramente: “Faz um sacrifício ao Senhor.”
— Isso é verdade — disseram os antagonistas.
— E depois — continuou Aramis, beliscando a orelha para deixá-la
vermelha, assim como balançava as mãos para deixá-las brancas —, fiz um
certo rondó sobre isso, que expus ao sr. Voiture ano passado, e pelo qual esse
grande homem me fez mil elogios.
— Um rondó! — fez desdenhosamente o jesuíta.
— Um rondó! — disse mecanicamente o pároco.
— Recite, recite! — pediu d’Artagnan. — Isso mudará um pouco o rumo
da prosa.
— Não, pois ele é religioso — respondeu Aramis —, é, digamos, teologia
em versos.
— Diabos! — lamentou d’Artagnan.
— Ei-lo — disse Aramis, com um arzinho modesto, não isento de
hipocrisia:
Vós que chorais um passado de encantos,
E que padeceis longos dias desafortunados,
Todos vossos males se verão terminados,
Quando apenas a Deus oferecerdes os prantos,
Vós que chorais.

D’Artagnan e o pároco pareciam fascinados. O jesuíta persistiu em sua


opinião.
— Evite o sabor profano no estilo teológico. Que diz, na verdade, santo
Agostinho? Severus sit clericorum sermo.
— Sim, que o sermão seja claro! — disse o pároco.
— Ora — apressou-se o jesuíta em interrompê-lo, vendo que seu discípulo
divagava —, sua tese agradará às damas, só isso. Terá o sucesso de um libelo
do dr. Patru .
— Assim queira Deus! — exclamou Aramis, eufórico.
— Está vendo?! — exclamou o jesuíta — O mundo ainda fala alto dentro
do senhor, altissima voce. O senhor segue o mundo, meu jovem amigo, e
receio que a graça não seja eficaz.
— Fique descansado, meu reverendo, respondo por mim.
— Presunção mundana!
— Eu me conheço, meu padre, minha decisão é irrevogável.
— Então obstina-se em levar adiante essa tese?
— Sinto-me chamado a abordá-la, acima de qualquer outra. Portanto, irei
desenvolvê-la, e amanhã espero que fique satisfeito com as correções que
nela farei a partir de seu parecer.
— Trabalhe com vagar — disse o pároco —, nós o deixamos em
disposições excelentes.
— Sim, o campo está todo semeado — disse o jesuíta —, e não há por que
lamentar que parte do grão tenha caído sobre a pedra, a outra ao longo do
caminho, e que as aves do céu tenham comido o resto, aves cœli comederunt
illam.
“Que o demo o asfixie com seu latim!”, pensou d’Artagnan, que se julgava
no fim de suas forças.
— Adeus, meu filho — disse o pároco —, até amanhã.
— Até amanhã, jovem temerário — despediu-se o jesuíta. — O senhor
promete ser uma das luzes da Igreja, que os céus transformem essa luz num
fogo devorador!
D’Artagnan, que durante uma hora roera as unhas de impaciência,
começou a atacar a carne dos dedos.
Os dois homens de preto ergueram-se, cumprimentaram d’Artagnan e
caminharam em direção à porta. Bazin, que permanecera de pé e escutara
toda essa controvérsia num enlevo carola, precipitou-se para eles, pegou o
breviário do pároco, o missal do jesuíta e tomou respeitosamente a sua frente
para abrir caminho.
Aramis levou-os até o pé da escada e subiu imediatamente para junto de
d’Artagnan, que ainda divagava.
A sós, os dois amigos mantiveram a princípio um silêncio constrangido,
mas um deles devia rompê-lo. Como d’Artagnan parecia deixar esta honra ao
amigo, foi Aramis quem falou:
— Como pode ver, você me encontra de volta às minhas ideias
fundamentais.
— É, você foi tocado pela graça eficaz, como dizia esse cavalheiro ainda
há pouco.
— Oh, esses planos de aposentadoria estão decididos há muito tempo. Já
me ouviu falar deles, não é mesmo, meu amigo?
— Sem dúvida, mas confesso que julguei ser uma brincadeira de sua parte.
— Com esse tipo de coisas! Oh, d’Artagnan!
— Ora bolas, não brincamos com a morte?
— E estamos errados, d’Artagnan, pois a morte é a porta que leva à
danação ou à salvação.
— De acordo, mas, por favor, não teologizemos, Aramis, você já deve ter
muito disso pela frente, até o fim do dia. Quanto a mim, praticamente esqueci
o pouco de latim que eu nunca soube. Depois, confesso-lhe, não comi nada
desde as dez horas da manhã, e estou com uma fome dos diabos.
— Jantaremos agora mesmo, caro amigo. Entretanto, lembre-se que hoje é
sexta-feira. Ora, nesse dia, não posso nem ver, nem comer, carne. Se quiser
se contentar com meu jantar, ele se compõe de tetragônias cozidas e frutas.
— Quando você diz tetragônias, a que está se referindo? — perguntou
d’Artagnan, preocupado.
— Refiro-me aos espinafres — respondeu Aramis —, mas acrescentarei
ovos para você, e esta é uma grave infração à regra, pois ovos são carne, uma
vez que engendram a galinha.
— Não é um banquete muito suculento, mas paciência. Em nome da nossa
amizade, vou tolerá-lo.
— Sou-lhe grato pelo sacrifício — disse Aramis —, mas, se não for
proveitoso para seu corpo, será, esteja certo disso, para sua alma.
— Pelo que vejo, Aramis, você abraçou em definitivo a religião. O que
dirão nossos amigos, o que dirá o sr. de Tréville? Irão considerá-lo um
desertor, aviso-lhe desde já.
— Não abracei a religião, voltei para ela. Foi a Igreja que abandonei em
troca do mundo, pois você sabe que me violentei ao usar o uniforme de
mosqueteiro.
— Eu não sei do que você está falando.
— Ignora como deixei o seminário?
— Completamente.
— Eis a minha história. Aliás, as Escrituras dizem: “Confessai-vos uns aos
outros”, e eu me confesso a você, d’Artagnan.
— E dou-lhe antecipadamente a absolvição, para provar que sou um bom
sujeito.
— Não brinque com as coisas sagradas, meu amigo.
— Então fale, estou ouvindo.
— Eu estava no seminário desde os nove anos de idade, ia fazer vinte
dentro de três dias, ia ser padre e ponto final. Uma noite em que eu me
dirigia, como costumava fazer, a uma casa que frequentava com prazer —
éramos jovens, o que quer! éramos fracos! —, um oficial que me via, com um
olho invejoso, regularmente lendo as Vidas dos santos para a dona do lugar,
entrou repentinamente e sem ser anunciado. Justo naquela noite, eu havia
traduzido um episódio de Judith e acabava de apresentar meus versos à
anfitriã, que me fazia todo tipo de elogios e, debruçada em meu ombro, relia-
os comigo. A pose, que era um tanto relaxada, admito, ofendeu esse oficial.
Ele não falou nada, mas, quando saí, foi atrás de mim. Quando me alcançou,
disse:
“— Senhor padre, por acaso aprecia bengaladas?
“— Não posso dizê-lo, senhor — respondi —, ninguém nunca ousou
aplicá-las em mim.
“— Pois bem, escute aqui, senhor padre. Se o senhor puser novamente os
pés na casa onde o encontrei essa noite, eu ousarei.
“Acho que fiquei com medo, empalideci, senti as pernas bambearem,
procurei uma resposta e não encontrei, calei-me.
“O oficial aguardava essa resposta e, constatando que ela demorava, deu
uma risada, virou-me as costas e entrou na casa. Retornei ao seminário.
“Sou bom fidalgo e tenho o sangue quente, como pôde notar, meu caro
d’Artagnan. O insulto era terrível, por mais desconhecido que ele subsistisse
no mundo. Eu o sentia viver e revolver-se no fundo do meu coração. Declarei
a meus superiores que não me sentia suficientemente preparado para a
ordenação. Assim, a meu pedido, adiaram a cerimônia para o ano seguinte.
“Fui procurar o melhor mestre de armas em Paris, com ele acertando aulas
diárias de esgrima. Todos os dias, durante um ano, tive essas aulas. Então, no
dia em que o insulto completava um ano, pendurei minha batina num prego,
vesti um traje completo de cavaleiro e me dirigi a um baile promovido por
uma senhora amiga minha, onde eu sabia que o meu homem devia estar. Era
na rua des Francs-Bourgeois, bem perto de La Force.
“Com efeito, meu oficial estava lá. Aproximei-me quando ele cantava um
lai de amor, contemplando serenamente uma mulher, e o interrompi bem no
meio da segunda estrofe.
“— Cavalheiro — eu lhe disse —, o senhor ficaria muito contrariado se eu
voltasse a uma certa casa da rua Payenne e ainda me daria bengaladas, se me
desse na veneta desobedecer-lhe?
“O oficial me olhou com espanto, depois disse:
“— O que deseja de mim, senhor? Não o conheço.
“— Sou — respondi —, o padreco que lê as Vidas dos santos e que traduz
Judith em versos.
“— Ah, ah, claro que me lembro! — disse o oficial, com ar de chacota. —
O que deseja de mim?
“— Eu gostaria que me fizesse o obséquio de dar um passeio comigo.
“— Amanhã de manhã, se me fizer o favor, e será um imenso prazer.
“— Não, amanhã de manhã, não, por favor, imediatamente.
“— Se faz questão absoluta…
“— Sim, faço.
“— Então, vamos sair. Minhas senhoras — disse o oficial —, não se
preocupem. É só o tempo de matar o cavalheiro e volto para concluir a última
estrofe.
“Saímos.
“Levei-o à rua Payenne, até o lugar onde um ano antes, cravado no relógio
hora por hora, ele me havia feito o elogio que já mencionei. Um luar
esplendoroso brilhava sobre nós. Empunhamos as espadas e matei-o no
primeiro bote.”
— Diabos! — disse d’Artagnan.
— Ora — continuou Aramis —, como as damas aguardaram em vão o
retorno de seu cantor e como ele foi encontrado na rua Payenne com o corpo
trespassado por um golpe profundo de espada, cogitaram ter sido eu que o
deixara daquele jeito, e veio o escândalo. Fui então obrigado a pendurar a
batina durante certo tempo. Athos, que eu conheci nessa época, e Porthos,
que, fora das minhas aulas de esgrima, ensinara-me alguns golpes magistrais,
convenceram-me a requerer um uniforme de mosqueteiro. O rei gostava
muito do meu pai, morto no cerco de Arras, e concederam-me o uniforme.
Então é por isso que digo ter chegado a hora de voltar ao seio da Igreja.
— E por que hoje e não ontem ou amanhã? O que aconteceu, para lhe
incutir ideias tão cruéis?
— Esse ferimento, meu caro d’Artagnan, foi para mim um aviso dos céus.
— O ferimento? Que bobagem! Está praticamente curado, tenho certeza de
que não é ele que o faz sofrer mais no dia de hoje.
— E que outro poderia ser? — perguntou Aramis, ruborizando.
— Um que está no seu coração, Aramis, mais vivo, mais sangrento, e
provocado por uma mulher.
O olho de Aramis faiscou sem querer.
— Ah — disse ele, dissimulando a emoção sob uma displicência fingida
—, nem me fale numa coisa dessas. Eu, pensar nisso? Sofrer por amor!
Vanitas vanitatum! Teria eu então, a seu ver, perdido a cabeça? E por quem?
Por alguma costureirinha, alguma empregadinha, a quem eu teria feito a corte
num quartel… Ora, faça-me o favor!
— Perdão, querido Aramis, mas eu supunha que você sonhava mais alto.
— Mais alto! E quem sou eu para ter tantas ambições? Um reles
mosqueteiro, pobre e obscuro, que abomina as escravidões e se acha
imensamente deslocado no mundo!
— Aramis, Aramis! — exclamou d’Artagnan, observando seu amigo com
um ar de dúvida.
— Pó, ao pó retorno. A vida é um poço de humilhações e dores —
continuou ele, entristecendo-se. — Todos os fios que a prendem à felicidade
rompem-se um depois do outro na mão do homem, sobretudo os fios de ouro.
Ó, meu caro d’Artagnan! — exclamou Aramis, imprimindo à sua voz um
ligeiro tom de amargura —, acredite em mim, esconda bem suas chagas
quando as tiver. O silêncio é a última alegria dos desgraçados. Evite apontar,
para quem quer que seja, os rastros de suas dores. Os curiosos secam nossas
lágrimas como as moscas fazem ao sangue de um cervo ferido.
— Ai, meu caro Aramis! — disse d’Artagnan, também com um profundo
suspiro —, você parece estar contando a minha própria história.
— Como assim?
— Sim, uma mulher que eu amava, que eu adorava, acaba de me ser
arrebatada à força. Não sei onde está, para onde a levaram, talvez esteja
prisioneira, talvez esteja morta.
— Ao menos você tem o consolo de saber que ela não o deixou
voluntariamente; que, se não tem notícias dela, é porque toda comunicação
com você lhe está vedada, ao passo que…
— Ao passo que…
— Nada — disse Aramis —, nada…
— Quer dizer que renuncia para sempre ao mundo. É uma promessa, uma
decisão irrevogável?
— Para sempre. Hoje você é meu amigo, amanha não passará de uma
sombra para mim, ou até não existirá mais. Quanto ao mundo, é um sepulcro,
nada além disso.
— Diabos! É muito triste o que você me diz.
— O que quer? Minha vocação me atrai, me enleva.
D’Artagnan sorriu e não respondeu. Aramis continuou:
— Não obstante, enquanto ainda prezo a terra, eu queria que falasse de
você, de nossos amigos.
— E eu — disse d’Artagnan — queria lhe falar de você mesmo, mas vejo-
o desligado de tudo. Os amores, você os despreza; os amigos não passam de
sombras; o mundo é um sepulcro.
— Desafortunadamente, e você ainda verá que estou certo — suspirou
Aramis.
— Mudemos então de assunto — falou d’Artagnan — e queimemos essa
carta, que, provavelmente, comunicava-lhe alguma nova infidelidade de sua
costureira ou de sua empregada.
— Que carta? — exaltou-se Aramis.
— Uma carta que chegou na sua casa durante esses dias em que você não
estava lá. Ela me foi dada para que eu a fizesse chegar em suas mãos.
— Mas de quem é a carta?
— Ah, de alguma subalterna desconsolada, de alguma criada desesperada,
talvez da camareira da sra. de Chevreuse, que viu-se obrigada a voltar a
Tours com sua patroa e que, para parecer chique, roubou papel perfumado e
lacrou sua carta com uma coroa de duquesa.
— O que está dizendo?
— Ih, acho que a perdi! — disse hipocritamente o rapaz, fingindo procurar.
— Ainda bem que o mundo é um sepulcro, que os homens e,
consequentemente, as mulheres, não passam de sombras, que o amor é um
sentimento que você desdenha!
— Ah, d’Artagnan, d’Artagnan! — exclamou Aramis. — Você vai me
matar!
— Enfim, achei! — disse d’Artagnan.
E puxou a carta do bolso.
Aramis deu um pulo, agarrou a carta e leu-a, ou melhor, devorou-a. Seu
rosto ficou radiante.
— A moça parece ter um belo estilo — disse displicentemente o
mensageiro.
— Obrigado, d’Artagnan! — exclamou Aramis, quase em delírio. — Ela
foi obrigada a voltar a Tours, não me é infiel, continua a me amar. Venha,
meu amigo, venha para eu beijá-lo, a felicidade me sufoca!
E os dois amigos começaram a dançar ao redor do venerável são
Crisóstomo, pisoteando com vontade as folhas da tese que haviam se
espalhado no chão.
Nesse momento, Bazin entrou com os espinafres e a omelete.
— Fora, desgraçado! — berrou Aramis, atirando-lhe o barrete na cara. —
Volte para de onde você veio, leve esses horríveis legumes e essa gemada
paravora! Peça uma lebre recheada, um capão cevado, um pernil ao alho e
quatro garrafas de borgonha envelhecido.
Bazin, que olhava seu patrão e não compreendia em absoluto aquela
mudança, deixou melancolicamente escorregar a omelete nos espinafres, e os
espinafres no assoalho.
— Eis o momento de consagrar sua existência ao Rei dos Reis — disse
d’Artagnan —, se tiver a gentileza de lhe fazer uma cortesia: Non inutile
desiderium in oblatione.
— Vá para o diabo com seu latim! Meu caro d’Artagnan, bebamos, com a
breca, bebamos um fresquinho, bebamos muito, e conte-me as novidades.
27. A mulher de Athos

–R esta agora saber notícias de Athos — concluiu d’Artagnan ao animado


Aramis, quando o pôs a par do que acontecera na capital depois da
partida deles, e quando um excelente jantar os fez esquecer, um, sua
tese, o outro, seu cansaço.
— Acha que lhe aconteceu alguma desgraça? — perguntou Aramis. —
Athos é tão calmo, tão corajoso e maneja tão bem a espada!
— Sim, sem dúvida, e ninguém mais do que eu reconhece a coragem e a
destreza de Athos, mas prefiro contra a minha espada o choque das lâminas
ao choque dos porretes. Receio que Athos tenha sido moído pela criadagem,
os criados são pessoas que batem com força e não param tão cedo. Eis por
que, confesso, gostaria de partir o mais rápido possível.
— Tentarei acompanhá-lo — disse Aramis —, apesar de não me sentir em
condições de montar. Ontem, cumpri minha penitência, como você pode ver
nessa parede, e a dor me impediu de continuar no piedoso exercício.
— E também, meu caro amigo, porque nunca se viu alguém curar um tiro
de escopeta com açoites. Mas, como você estava doente, e a doença debilita o
cérebro, eu lhe desculpo.
— E quando parte?
— Amanhã, ao raiar do dia. Descanse bem esta noite, então, se puder,
partiremos juntos.
— Muito bem, até amanhã — disse Aramis —, porque você não é de ferro,
deve estar precisando de repouso.
No dia seguinte, quando d’Artagnan entrou no quarto de Aramis, ele estava
na janela.
— O que vê daí? — perguntou d’Artagnan.
— Por Deus! Admiro aqueles três magníficos cavalos que os meninos da
estrebaria seguram pela rédea. Deve ser um prazer de príncipe viajar num
equino desses.
— Pois bem, meu caro Aramis, você terá tal prazer, porque um desses
cavalos é seu.
— Ora, deixe disso… Qual deles?
— Você escolhe, não tenho preferência.
— E a rica manta que o cobre é minha também?
— Sem dúvida.
— Está querendo rir à minha custa, d’Artagnan?
— Não rio tanto desde que você voltou a falar francês.
— São meus esses metais dourados, essa manta de veludo, essa sela
rebitada de prata?
— É tudo seu, assim como o cavalo que pateia é meu e o outro que
cabeceia é de Athos.
— Raios! São três animais fora de série.
— Estimo muito que sejam do seu agrado.
— Foi então o rei quem lhe fez esse presente?
— O cardeal é que não foi, com certeza. Mas não se preocupe com a
origem dos animais, pense apenas que um dos três é propriedade sua.
— Pego o que o valete ruivo tem nas mãos.
— Magnífico!
— Viva! — exclamou Aramis. — Isso fez passar o que ainda sobrava da
minha dor. Eu montaria nele com trinta balas no corpo. E os estribos, meu
Deus, que beleza! Ei, Bazin, venha cá, imediatamente.
Bazin apareceu, cabisbaixo e lânguido, na soleira da porta.
— Dê um lustre na minha espada, modele meu chapéu, escove meu casaco
e carregue meus pistoletes! — ordenou Aramis.
— Esta última recomendação é inútil — interrompeu d’Artagnan —, há
pistoletes carregados nos coldres.
Bazin suspirou.
— Ora, meu caro Bazin, não se preocupe — disse d’Artagnan —, vamos
para o reino dos céus de qualquer maneira.
— O patrão já era um teólogo tão bom! — lamentou Bazin, quase
chorando. — Poderia ter sido bispo, quem sabe cardeal.
— Vejamos, meu pobre Bazin, pense um pouquinho. Qual a vantagem de
ser homem de igreja, diga-me por favor? Nem por isso deixa-se de ir à
guerra. Você não vê que o cardeal vai fazer a primeira campanha de capacete
na testa e partasana em punho? E o que me diz do sr. de Nogaret de la
Valette? Ele também é cardeal. Pergunte a seu lacaio quantos curativos ele já
fez no patrão?
— Ai de mim! — suspirou Bazin. — Sei disso, senhor, está tudo de pernas
para o ar nos dias de hoje.
Durante esse tempo, os dois rapazes e o lacaio haviam descido.
— Segure o estribo para mim, Bazin — disse Aramis.
E Aramis saltou sobre a sela com a graça e a leveza de sempre. Porém,
após algumas voltas e curvetas do nobre animal, o cavaleiro sentiu dores de
tal forma insuportáveis que empalideceu e vacilou. D’Artagnan, prevendo
essa possibilidade, não desgrudara os olhos dele, e lançou-se em sua direção,
amparando-o pelos braços e reconduzindo-o ao quarto.
— Está bem, meu caro Aramis, cuide-se — disse ele —, irei sozinho à
procura de Athos.
— Você é um homem de ferro, afinal — disse-lhe Aramis.
— Não, tenho sorte, só isso. Mas como vai viver enquanto me espera?
Chega de tese, hein, chega de glosa sobre dedos e bênçãos!
Aramis sorriu.
— Farei versos — ele disse.
— Sim, versos perfumados com o cheiro do bilhete da empregada da sra.
de Chevreuse. Por que não ensina prosódia a Bazin? Isso o consolará. Quanto
ao cavalo, monte nele aos poucos, diariamente, isso o acostumará às
manobras.
— Oh, quanto a isso, não se preocupe — tranquilizou-o Aramis —, você
me encontrará pronto para acompanhá-lo.
Despediram-se e, dez minutos depois, d’Artagnan, após ter recomendado
seu amigo a Bazin e à estalajadeira, trotava na direção de Amiens.
Como encontraria Athos, se é que o encontraria?
A circunstância em que o deixara era crítica, ele podia muito bem ter
sucumbido. Essa ideia, entristecendo-o, arrancou de d’Artagnan alguns
suspiros e fez com que formulasse, baixinho, algumas promessas de
vingança. De todos os seus amigos, Athos era o mais velho, e portanto, à
primeira vista, o menos próximo de seus gostos e simpatias.
Apesar disso, d’Artagnan sentia uma inegável preferência por aquele
fidalgo. A expressão nobre e distinta de Athos; seus lampejos de grandeza,
que, de tempos em tempos, irradiavam da sombra na qual ele se recolhia
voluntariamente; o temperamento inalterável, que fazia dele o mais fácil
companheiro da terra; a alegria forçada e mordaz; a valentia que teríamos
considerado cega se não fosse resultado do mais raro sangue-frio; tantas
qualidades atraíam mais que a estima de d’Artagnan, mais que sua amizade,
atraíam sua admiração.
Com efeito, mesmo em comparação ao sr. de Tréville, o elegante e nobre
cortesão, Athos, em seus dias mais inspirados, levava uma certa vantagem.
Era de estatura mediana, mas essa estatura era tão admiravelmente compacta
e bem-proporcionada que, mais de uma vez, em suas lutas com Porthos, ele
dobrara o gigante cuja força física era proverbial entre os mosqueteiros. Sua
cabeça, com olhos penetrantes, nariz aquilino, queixo desenhado como o de
Brutus, tinha um caráter indefinível de grandeza e graça. Suas mãos, às quais
não dispensava quaisquer cuidados, levavam ao paroxismo a inveja de
Aramis, que cultivava as suas recorrendo a preparados de amêndoas e óleo
aromatizado. O som de sua voz era penetrante e melodioso ao mesmo tempo,
e depois, o que havia de indefinível em Athos, que preferia sempre a
obscuridade e o retraimento, era aquele conhecimento delicado do requinte e
dos costumes da mais refinada sociedade, aquela desenvoltura de família
tradicional que transparecia, quase sem querer, em seus menores gestos.
Caso se tratasse de fazer um banquete, Athos organizava-o melhor do que
qualquer outro homem da sociedade, distribuindo cada comensal no lugar e
na classe legados por seus antepassados ou conquistados por eles mesmos. Se
fosse o caso de ciência heráldica, Athos conhecia todas as famílias nobres do
reino, sua genealogia, suas alianças, seus brasões e a origem de tais brasões.
A etiqueta não tinha minúcias que lhe fossem estranhas, sabia quais eram os
direitos dos grandes proprietários, conhecia a fundo a caça e a falcoaria, e
numa dada oportunidade, conversando sobre essa grande arte, impressionara
o próprio rei Luís XIII, que era mestre no assunto.
Como todos os grãos-senhores dessa época, era exímio no cavalo e no
manejo das armas. E não só isso: sua educação fora tão pouco desdenhada,
mesmo sob o aspecto dos estudos escolásticos, tão raros nessa época entre os
fidalgos, que ele sorria com os cacos de latim expelidos por Aramis, e com a
compreensão fingida de Porthos. Em duas ou três ocasiões, quando Aramis
deixava escapar algum erro de concordância, acontecera de ele colocar o
verbo em seu tempo e o substantivo em seu caso, para grande admiração dos
amigos. Além disso, sua probidade era inatacável, nesse século em que os
homens de guerra transigiam tão frouxamente com a religião e a consciência,
os amantes, com a delicadeza rigorosa de nossos dias, e os pobres, com o
sétimo mandamento de Deus. Tratava-se, portanto, de um homem
extraordinário esse Athos.
E, a despeito de tudo, via-se essa natureza tão distinta, essa criatura tão
bela, essa essência tão fina voltar-se imperceptivelmente para a vida material,
como os velhos voltam-se para a imbecilidade física e moral. Athos, em suas
horas de privação, e essas eram frequentes, apagava toda sua parte luminosa,
seu lado brilhante desaparecia numa espécie de noite profunda.
Então, desaparecido o semideus, mal restava um homem. Cabisbaixo, olhar
opaco, a palavra pesada e difícil, Athos observava durante longas horas fosse
sua garrafa e seu copo, fosse Grimaud, que, habituado a obedecer-lhe por
meio de sinais, lia no olhar átono do patrão até seu mínimo desejo, ao qual
satisfazia imediatamente. Se os quatro amigos estivessem juntos num desses
momentos, uma palavra, emitida com violento esforço, era todo o contingente
que Athos fornecia à conversa. Paradoxalmente, Athos sozinho bebia por
quatro, e isso sem deixar maiores indícios, senão por uma sobrancelha mais
acentuadamente franzida e uma tristeza mais profunda.
D’Artagnan, cujo espírito investigador e penetrante conhecemos, tinha sido
incapaz, por maior interesse que tivesse em matar a curiosidade, de
identificar uma causa para tamanho marasmo, e tampouco de entender suas
ocorrências. Athos nunca recebia cartas, Athos nunca tomava nenhuma
iniciativa que não fosse do conhecimento de seus amigos.
Não se podia dizer que o vinho lhe infundisse tanta tristeza, pois, ao
contrário, não bebia senão para combatê-la, embora tal remédio, como
dissemos, a deixasse ainda mais forte. Não se podia atribuir o excesso de
amargor ao jogo, pois, ao contrário de Porthos, que acompanhava com sua
cantoria ou seus palavrões todas as variações da sorte, Athos, quando
ganhava, permanecia tão impassível como quando perdia. Foi visto uma
noite, no círculo dos mosqueteiros, ganhar três mil pistolas, perdê-las até o
cinturão bordado de ouro dos dias de gala, e ganhar de novo tudo isso, mais
cem luíses, sem que sua bonita sobrancelha preta tivesse levantado ou
abaixado uma linha, sem que suas mãos tivessem perdido o tom de
madrepérola, sem que sua conversa, que estava agradável aquela noite,
tivesse deixado de ser serena e afável.
Tampouco era, como em nossos vizinhos ingleses, uma influência
atmosférica que entristecia seu rosto, pois a tristeza tornava-se em geral mais
intensa durante os belos dias do ano. Junho e julho eram os meses terríveis de
Athos.
Se não tinha mágoas do presente, dava de ombros quando lhe falavam do
futuro. Seu segredo então estava no passado, como disseram vagamente a
d’Artagnan.
Aquela tez misteriosa espalhada sobre toda sua pessoa tornava ainda mais
interessante o homem cujos olhos e cuja boca nunca, nem na bebedeira mais
profunda, haviam revelado nada, fosse qual fosse a astúcia das perguntas a
ele dirigidas.
— Pois bem — murmurou d’Artagnan —, o pobre Athos talvez esteja
morto a uma hora dessas, e morto por minha culpa, pois fui eu que o envolvi
nesse negócio do qual ele ignorava a origem, ignorará o resultado e do qual
não tirará nenhum proveito.
— Sem contar, patrão — acrescentou Planchet —, que provavelmente lhe
devemos a vida. Lembra-se como ele gritou: “Fuja, d’Artagnan! Fui
apanhado.” E, depois de descarregar dois pistoletes, que barulho terrível ele
fazia com sua espada! Parecia vinte homens, ou melhor, vinte demônios
enraivecidos!
E essas palavras redobraram o ardor de d’Artagnan, que esporeou o cavalo,
o qual, sem precisar disso, carregava seu cavaleiro a galope.
Por volta das onze da manhã, avistaram Amiens. Às onze e meia, estavam
na porta da estalagem maldita.
D’Artagnan arquitetara várias vezes contra o pérfido estalajadeiro uma
dessas boas vinganças que consolam apenas na esperança. Entrou então no
albergue, com o chapéu sobre os olhos, a mão esquerda no punho da espada,
enquanto com a direita fazia seu chicote assoviar.
— Você me reconhece? — perguntou ele ao estalajadeiro, que vinha
recebê-lo.
— Não tenho essa honra, moço — respondeu o homem, com os olhos
ainda ofuscados diante do reluzente equipamento com que d’Artagnan se
apresentava.
— Ah, não me reconhece!
— Não, moço.
— Pois bem! Duas palavras vão restituir-lhe a memória. O que fez com
aquele fidalgo a quem teve a audácia, há cerca de quinze dias, de acusar de
falsário?
O estalajadeiro empalideceu, pois d’Artagnan adotara a posição mais
ameaçadora, e Planchet pautava-se pelo patrão.
— Ah, moço, nem me fale — exclamou o estalajadeiro, com o tom de voz
mais lamuriento. — Ah, o que sofri por esse erro! Ah, como sou infeliz!
— Esse fidalgo, eu lhe pergunto, o que foi feito dele?
— Ouça-me, por favor, moço, e seja clemente. Vamos, sente-se, por
misericórdia!
D’Artagnan, mudo de cólera e desconfiança, sentou-se, ameaçador como
um juiz. Planchet recostou-se orgulhosamente em sua poltrona.
— Eis a história, moço — continuou o estalajadeiro, todo trêmulo —, pois
agora o reconheço. Foi o senhor que partiu quando tive o infeliz
desentendimento com esse fidalgo mencionado pelo senhor.
— Eu mesmo. Vê claramente, portanto, que não tem misericórdia a esperar
de mim se não falar toda a verdade.
— Então queira escutar-me, e a saberá de ponta a ponta.
— Sou todo ouvidos.
— Eu tinha sido avisado pelas autoridades que um célebre falsário
chegaria à minha estalagem com vários comparsas, todos disfarçados de
guarda ou mosqueteiro. Seus cavalos, seus lacaios, seu aspecto, meus
senhores, tudo me havia sido descrito.
— E depois, e depois? — perguntou d’Artagnan, que reconheceu
rapidamente de onde vinha a descrição tão exatamente fornecida.
— Curvando-me às ordens da autoridade, que me enviou um reforço de
seis homens, tomei então determinadas medidas que julguei urgentes a fim de
me certificar da identidade dos pretensos falsários.
— O senhor insiste! — disse d’Artagnan, cujas orelhas ardiam a cada vez
que ouvia a palavra falsário.
— Perdoe-me, seu moço, quando digo essas coisas, mas elas são
justamente a minha justificativa. A autoridade me ameaçou, e o senhor sabe
que um estalajadeiro tem que se entender com a autoridade.
— Bom, vou repetir novamente, onde está esse fidalgo? O que foi feito
dele? Está morto? Está vivo?
— Paciência, moço, vamos chegar lá. Aconteceu então o que o senhor
sabe, cujo desfecho sua partida precipitada — acrescentou o estalajadeiro,
com uma malícia que não escapou a d’Artagnan — parecia autorizar. O
fidalgo seu amigo defendeu-se como um desesperado. Seu criado, que, por
uma fatalidade imprevista, desafiara os representantes da autoridade,
disfarçados de cavalariços…
— Ah, miserável! — preguejou d’Artagnan. — Vocês estavam todos
mancomunados e não sei o que me impede de liquidá-los um por um.
— Pobre de mim! Não, moço, não estávamos todos mancomunados, e o
senhor logo verá. O senhor seu amigo (desculpe-me por não chamá-lo pelo
honrado nome que ele carrega, certamente, mas ignoramos qual seja), após
ter deixado fora de combate dois homens com seus tiros de pistolete, bateu
em retirada defendendo-se com a espada, com a qual estropiou ainda um de
meus homens, e me deixou zonzo com uma bandejada na cabeça.
— Vai terminar com essa tortura? — suplicou d’Artagnan. — Athos, o que
aconteceu com Athos?
— Ao bater em retirada, como expus ao senhor, ele topou atrás de si com a
escada da adega, e como a porta estava aberta, pegou a chave e se
entrincheirou lá dentro. Como tínhamos certeza de que não iria sair,
resolvemos deixá-lo à vontade.
— Sim — disse d’Artagnan —, não faziam nenhuma questão de matá-lo,
só queriam aprisioná-lo.
— Santo Deus! Aprisioná-lo, seu moço? Ele se aprisionou sozinho, estou
lhe dizendo. Em primeiro lugar, fez o trabalho sujo; um homem estava morto
e dois outros gravemente feridos. O morto e os dois feridos foram carregados
pelos colegas e nunca mais ouvi falar deles. Eu mesmo, quando recuperei os
sentidos, fui procurar o sr. governador, a quem contei todo o ocorrido, e a
quem perguntei o que devia fazer com o prisioneiro. Mas o sr. governador
pareceu cair das nuvens, me dizendo que ignorava completamente o assunto,
que as ordens que haviam chegado a mim não emanavam dele, e que se eu
tivesse a infelicidade de dizer, a quem quer que fosse, que ele estava
envolvido um mínimo que fosse em todo aquele disparate, me mandaria para
a forca. Parece que eu tinha me enganado senhor, que tinha prendido um no
lugar do outro, e aquele que deveria ser preso havia escapado.
— Mas, e Athos? — exclamou d’Artagnan, cuja impaciência aumentava
com o abandono do caso por parte da autoridade. — O que aconteceu com
Athos?
— Como eu estava ansioso para reparar meus erros junto ao prisioneiro —
continuou o estalajadeiro —, dirigi-me à adega a fim de lhe devolver a
liberdade. Ah, senhor, não era mais um homem, era um diabo. A essa oferta
de liberdade, declarou que era uma armadilha que lhe estendiam e que antes
de sair pretendia impor suas condições. Eu lhe disse muito humildemente,
pois não me iludia acerca da enrascada em que me metera, agarrando um
mosqueteiro de Sua Majestade, que estava disposto a me submeter às
condições.
“— Para começo de conversa — disse ele —, quero que me devolvam meu
lacaio todo armado.
“Corremos para obedecer a essa ordem, pois, o senhor compreende,
estávamos dispostos a fazer tudo o que seu amigo quisesse. O sr. Grimaud
(ele, sim, disse seu nome, embora não fale muito) então desceu à adega,
mesmo ferido. Então, seu patrão, depois de recebê-lo, montou outra barricada
na porta e nos ordenou que fôssemos para a nossa loja.”
— Mas, afinal — gritou d’Artagnan —, onde está ele? Onde está Athos?
— Na adega, senhor.
— Como, infeliz! Deixou-o trancado na adega esse tempo todo?
— Bondade divina! Não, senhor. Nós, trancá-lo na adega! O senhor não
imagina o que ele faz lá na adega! Ah, se conseguir tirá-lo de lá, senhor, eu
lhe seria grato pelo resto da vida e o adoraria como meu padroeiro!
— Então ele continua lá, vou encontrá-lo lá?
— Sem dúvida, senhor, ele teimou em ficar. Diariamente passamos-lhe
pelo respiradouro pão na ponta de um forcado e carne quando ele pede, mas,
ai de mim!, não é de pão e carne que ele faz o maior consumo. Uma vez,
tentei descer com dois de meus garotos, mas ele foi tomado por uma fúria
terrível. Ouvi o barulho de seus pistoletes, que ele armava, e de seu
mosquete, armado pelo criado. Depois, quando lhes perguntamos quais eram
suas intenções, o patrão respondeu que tinham quarenta tiros prontos para ser
disparados, ele e seu lacaio, e que preferiam disparar até o último antes de
permitir que um de nós pusesse os pés na adega. Então, senhor, fui me
queixar ao governador, o qual me respondeu que eu tinha apenas o que
merecia, e assim aprenderia a respeitar os ilustres personagens que vinham
hospedar-se em meu estabelecimento.
— De maneira que esse tempo todo… — disse d’Artagnan, não podendo
deixar de rir diante da expressão lastimosa do estalajadeiro.
— De maneira que, esse tempo todo, moço — continuou o homem —,
levamos a vida mais triste que se pode imaginar, pois, convém que o senhor
saiba, todas as nossas provisões estão na adega. Há nosso vinho em garrafas e
nosso vinho em barris, a cerveja, o azeite e os temperos, o toucinho e os
salames. E, como nos é vedado descer, somos obrigados a recusar bebida e
comida aos viajantes que aqui chegam, de maneira que a cada dia que passa
nosso estabelecimento vai perdendo credibilidade. Mais uma semana com seu
amigo na adega, e estamos arruinados.
— E será bem feito, energúmeno. Não viram pela nossa cara que éramos
autênticos fidalgos e não falsários, hein?
— Sim, senhor, sim, tem razão — admitiu o estalajadeiro. — Mas, ouça,
ouça, ei-lo encolerizado.
— Certamente o perturbaram — disse d’Artagnan.
— Mas é indispensável perturbá-lo — exclamou o estalajadeiro —,
acabam de nos chegar dois fidalgos ingleses!
— E daí?
— E daí! Os ingleses apreciam o bom vinho, como sabe, senhor. Estes
pediram do melhor. Então minha mulher solicitou ao sr. Athos autorização
para entrar a fim de satisfazer a esses senhores. E ele recusou, como de
costume. Ah, santo Deus! O ritual macabro começou!
D’Artagnan, com efeito, ouviu um grande barulho para o lado da adega.
Levantou-se, precedido pelo estalajadeiro, que retorcia as mãos, e seguido
por Planchet, que empunhava seu mosquete engatilhado, então aproximou-se
do local onde a cena ocorria.
Os dois fidalgos estavam enfurecidos, tinham feito uma longa viagem e
morriam de fome e sede.
— Mas é uma tirania — reclamavam num excelente francês, embora com
sotaque estrangeiro —, esse sujeito maluco impedir que pessoas de bem
bebam seu vinho em paz. Ora, vamos arrombar a porta e, se ele estiver
furioso demais, pois bem, o mataremos.
— Calma lá, meus senhores! — disse d’Artagnan, puxando seus pistoletes
da cintura. — Não matarão ninguém, por favor.
— Ora, ora — dizia atrás da porta a voz calma de Athos —, deixem entrar
esses comedores de criancinhas, e veremos.
Por mais corajosos que parecessem ser, os dois fidalgos ingleses
entreolharam-se, hesitando. Dir-se-ia que havia na adega um desses ogros
famélicos, gigantescos heróis das lendas populares, cuja caverna ninguém
invade impunemente.
Houve um momento de silêncio, mas, finalmente, os dois ingleses ficaram
com vergonha de recuar. O mais enfezado dos dois desceu os cinco ou seis
degraus de que se compunha a escada e deu na porta um pontapé capaz de
derrubar uma parede.
— Planchet — disse d’Artagnan, armando seus pistoletes —, eu cuido do
que está em cima, encarregue-se do que está embaixo. Ah, senhores, querem
guerra! Pois a terão!
— Meu Deus — exclamou a voz rouca de Athos —, parece-me a voz de
d’Artagnan.
— Exatamente — disse d’Artagnan, levantando também a voz —, sou eu
mesmo, querido amigo.
— Ah, bom! Então — disse Athos —, vamos cuidar desses arrombadores
de porta.
Os fidalgos estavam de espada em punho, mas se achavam presos entre
dois fogos. Hesitaram ainda um instante, mas, como da primeira vez, o
orgulho prevaleceu, e um segundo pontapé fez a porta rachar de cima a baixo.
— Proteja-se, d’Artagnan, proteja-se — gritou Athos — proteja-se, vou
atirar.
— Senhores — disse d’Artagnan, a quem a reflexão nunca abandonava —,
pensem um pouco! Paciência, Athos. Os senhores estão entrando numa
história perigosa, e vão terminar crivados de balas. Meu criado e eu temos
três balas para os senhores, o mesmo número reservado na adega. Depois
ainda teremos nossas espadas, as quais, asseguro-lhes, meu amigo e eu
manejamos razoavelmente. Deixem que eu resolva os seus problemas e os
meus. Daqui a pouco os senhores terão sua bebida, dou-lhes minha palavra.
— Se é que sobrou alguma — resmungou a voz irônica de Athos.
O estalajadeiro sentiu um suor frio correndo-lhe ao longo da espinha.
— Se é que sobrou! — lamentou ele.
— Que diabos, alguma coisa terá sobrado — consolou-o d’Artagnan —,
fique tranquilo, os dois não podem ter bebido toda a adega. Senhores,
embainhem suas espadas.
— Muito bem! E os senhores, reponham os pistoletes na cintura.
— Com prazer.
E d’Artagnan deu o exemplo. Depois, voltando-se para Planchet, fez-lhe
sinal para desarmar seu mosquete.
Os ingleses, convencidos, embainharam suas espadas, resmungando.
Foram informados sobre o encarceramento de Athos e, como eram bons
fidalgos, censuraram o estalajadeiro.
— Agora, senhores — disse d’Artagnan —, subam aos seus quartos.
Dentro de dez minutos, têm a minha palavra de que disporão de tudo que
desejarem.
Os ingleses cumprimentaram e saíram.
— Agora que estou sozinho, meu caro Athos — disse d’Artagnan —, abra
a porta, por favor.
— Agora mesmo — concordou Athos.
Ouviu-se então um grande estrépito, feixes de lenha entrechocando-se e
vigas rangendo: eram os contrabaluartes e baluartes de Athos, que o sitiado
demolia pessoalmente.
Um instante mais tarde, a porta moveu-se e surgiu a cabeça pálida de
Athos, que, com um olhar ressabiado, explorava os arredores.
D’Artagnan pulou em seu pescoço e beijou-o carinhosamente, depois
tentou arrastá-lo para fora daquela morada úmida, quando percebeu que
Athos mancava.
— Está ferido? — perguntou-lhe.
— Eu! Nem um arranhão. Estou caindo de bêbado, só isso, e nunca homem
nenhum fez melhor o que eu fiz para estar assim. Santo Deus! Caro
estalajadeiro, devo ter bebido, só eu, umas cento e cinquenta garrafas.
— Misericórdia! — desesperou-se o estalajadeiro. — Se o criado bebeu a
metade do patrão, estou arruinado.
— Grimaud é um lacaio de casa tradicional, que não se teria permitido o
mesmo ritmo do que eu. Ele bebeu só do barril. Veja, acho que esqueceu de
recolocar o batoque. Não ouve alguma coisa escorrendo?
D’Artagnan deu uma gargalhada que transformou o arrepio do
estalajadeiro em febre alta.
Ao mesmo tempo, Grimaud apareceu atrás de seu patrão, o mosquete no
ombro, a cabeça tremendo, como aqueles sátiros bêbados dos quadros de
Rubens. Estava molhado atrás e na frente por um líquido gorduroso que o
estalajadeiro reconheceu como seu melhor azeite de oliva.
O cortejo atravessou o salão e foi instalar-se no melhor quarto da
estalagem, do qual d’Artagnan tomou posse por imposição.
Nesse ínterim, o estalajadeiro e sua mulher haviam corrido com lamparinas
para a adega, que lhes havia sido por tanto tempo interditada e onde um
pavoroso espetáculo os aguardava.
Do outro lado das fortificações que Athos botara abaixo para sair e que se
compunham de feixes de lenha, tábuas e tonéis vazios amontoados segundo
todas as regras da arte estratégica, viam-se, aqui e ali, boiando nas poças de
azeite e vinho, as ossadas de todos os pernis comidos, ao passo que um monte
de garrafas quebradas juncava todo o canto esquerdo da adega e um barril,
cuja torneira continuara aberta, perdia por esse orifício as últimas gotas de
sangue. A imagem da devastação e da morte, como diz o poeta da
antiguidade, reinava como num campo de batalha.
Dos cinquenta salames, pendurados nos caibros, restavam apenas dez.
Então os uivos do estalajadeiro e da estalajadeira percorreram a abóbada da
adega, e o próprio d’Artagnan comoveu-se. Athos nem virou a cabeça.
Mas à dor sucedeu a fúria. O estalajadeiro armou-se com um espeto e, em
seu desespero, invadiu o quarto para o qual os dois haviam se retirado.
— Vinho! — disse Athos, avistando o estalajadeiro.
— Vinho! — exclamou o estalajadeiro, estupefato. — Vinho! Mas o
senhor me bebeu mais de cem pistolas de vinho, eu sou um homem falido,
perdido, aniquilado!
— Ora — disse Athos —, estamos constantemente com sede.
— Se o senhor se contentasse em beber, ainda ia, mas o senhor quebrou
todas as garrafas.
— O senhor me empurrou sobre uma pilha que desabou. A culpa é sua.
— Todo meu azeite perdido!
— O azeite é um bálsamo soberano para os ferimentos, e Grimaud
naturalmente tinha que tratar daqueles provocados pelo senhor.
— Todos os meus salames roídos!
— Há muitos ratos nessa adega.
— O senhor vai me pagar tudo isso! — gritou o estalajadeiro, exasperado.
— O senhor é três vezes imbecil! — rebateu Athos, levantando-se. Mas
logo voltou a cair. Acabava de dar a medida de suas forças. D’Artagnan veio
em seu socorro, erguendo o chicote.
O estalajadeiro recuou um passo e caiu no choro.
— Isso o ensinará — disse d’Artagnan — a tratar de maneira mais cortês
os hóspedes que Deus lhe envia.
— Deus… o senhor quer dizer o diabo!
— Meu caro amigo — disse d’Artagnan —, se continuar a nos encher os
ouvidos, vamos nos trancar os quatro em sua adega e veremos se realmente o
estrago é tão grande como diz.
— Está bem, senhores — resignou-se o estalajadeiro —, errei, mas todo
pecado merece misericórdia; os senhores são ilustres e eu sou um pobre
estalajadeiro, tenham piedade de mim.
— Ah, falando desse jeito — ironizou Athos —, o senhor vai derreter o
meu coração e as lágrimas vão vazar dos meus olhos como o vinho vazava
dos seus barris. Não somos o diabo que parecemos. Vejamos, venha até aqui
e conversemos.
O estalajadeiro aproximou-se, inquieto.
— Venha, estou lhe dizendo, não tenha medo. Quando fui lhe pagar, deixei
minha bolsa na mesa.
— Sim, senhor.
— Essa bolsa continha sessenta pistolas, onde está ela?
— Depositada no cartório, seu moço; disseram que era dinheiro falso.
— Muito bem! Peça para devolverem minha bolsa e fique com as sessenta
pistolas.
— Mas o senhor sabe que o cartório não larga o que apanha. Se fosse
dinheiro falso, ainda havia esperança, mas infelizmente é dinheiro de
verdade.
— Arranje-se com ele, meu bom homem, isso não é da minha conta, ainda
mais que não me sobrou uma libra.
— Vejamos — intrometeu-se d’Artagnan —, o velho cavalo de Athos,
onde está?
— Na estrebaria.
— Quanto vale ele?
— Cinquenta pistolas, no máximo.
— Vale oitenta, fique com ele, e estamos conversados.
— Como! Você vende meu cavalo — disse Athos —, vende o meu
Bajazet? E com que irei eu combater? Montado em Grimaud?
— Eu lhe trouxe outro — explicou d’Artagnan.
— Outro?
— E magnífico! — exclamou o estalajadeiro.
— Então, se há outro mais bonito e mais jovem, pegue o velho, e bebamos!
— De qual? — perguntou o estalajadeiro, completamente serenado.
— Daquele que está no fundo, perto das ripas; ainda restam vinte e cinco
garrafas, todas as outras se quebraram na minha queda. Mande subir seis.
“Mas é um furacão, esse homem!”, disse consigo o estalajadeiro. “Se ficar
aqui nem que seja por quinze dias, e pagando o que bebe, meus negócios vão
se recuperar.”
— E não esqueça — arrematou d’Artagnan — de subir quatro garrafas do
mesmo vinho para os senhores ingleses.
— Agora — disse Athos —, enquanto trazem nossa bebida, conte-me,
d’Artagnan, o que aconteceu com os outros. Vejamos.
D’Artagnan contou-lhe que encontrara Porthos na cama, com um
ferimento, e Aramis, diante de uma mesa, entre dois teólogos. Quando
terminava, o estalajadeiro entrou com as garrafas pedidas e um pernil que,
para sorte dele, salvara-se fora da adega.
— Muito bem — disse Athos, enchendo seu copo e o de d’Artagnan —,
isso no que se refere a Porthos e Aramis. Mas e você, amigo, o que há com
você e o que lhe aconteceu pessoalmente? Acho-lhe com um ar sinistro.
— Ai de mim! — suspirou d’Artagnan. — É que sou o mais infeliz de
todos nós!
— Você infeliz, d’Artagnan! — espantou-se Athos. — Mas, vejamos, por
que se sente infeliz? Conte-me.
— Mais tarde — disse d’Artagnan.
— Mais tarde! E por que mais tarde? Porque acha que estou bêbado,
d’Artagnan? Guarde bem isto: nunca tenho as ideias mais claras do que no
vinho. Fale então, sou todo ouvidos.
D’Artagnan contou sua aventura com a sra. Bonacieux.
Athos escutou-o sem piscar. Depois, quando ele terminou, disse:
— Isso tudo são ninharias, ninharias!
Era a palavra favorita de Athos.
— Você não se cansa de dizer ninharias! Meu caro Athos — replicou
d’Artagnan —, só fala assim porque nunca amou.
O olho morto de Athos incendiou-se de repente, mas foi apenas um clarão,
voltando a ficar imóvel e vago como antes.
— É verdade — disse ele, tranquilamente —, nunca amei.
— Admita então, coração de pedra — aproveitou-se d’Artagnan —, que
você erra sendo muito duro conosco, corações moles.
— Corações moles, corações trespassados — sofismou Athos.
— O que você disse?
— Disse que o amor é uma loteria, na qual aquele que ganha, ganha a
morte! Você teve muita sorte de ter perdido, acredite em mim, querido
d’Artagnan. E se tenho um conselho a lhe dar é: perca sempre.
— Ela tinha um ar tão amoroso!
— Tinha um ar…
— Oh, ela me amava!
— Criança! Não existe um homem que, como você, não tenha acreditado
que sua amante o amava, e não existe um homem que não tenha sido
enganado pela amante.
— Exceto você, Athos, que nunca teve uma.
— É verdade — disse Athos, após um momento de silêncio —, nunca tive
uma. Bebamos!
— Mas então, meu filósofo — retomou d’Artagnan —, instrua-me,
defenda-me! Preciso saber e ser consolado.
— Consolado de quê?
— De minha tristeza.
— Sua tristeza me faz rir, d’Artagnan — desdenhou Athos, dando de
ombros. — Eu ficaria curioso de saber o que você diria se eu lhe contasse
uma história de amor.
— Acontecida com você?
— Ou com um de meus amigos, pouco importa!
— Conte, Athos, conte.
— Bebamos, é melhor.
— Beba e conte.
— Tudo bem, isso eu posso fazer — concedeu Athos, esvaziando e
enchendo seu copo —, as duas coisas combinam maravilhosamente.
— Estou escutando — apressou d’Artagnan.
Athos recolheu-se e, à medida que se recolhia, d’Artagnan via-o
empalidecer. Estava naquela fase da embriaguez em que os bebedores
vulgares caem e dormem. Ele sonhava em voz alta e sem dormir. Esse
sonambulismo da embriaguez tinha algo de assustador.
— Quer mesmo? — ele perguntou.
— Por favor — pediu d’Artagnan.
— Seja feita sua vontade. Um amigo meu, um amigo meu, preste atenção,
não eu! — disse Athos, interrompendo-se com um sorriso triste. — Um dos
condes da minha província, isto é do Berry, nobre como Dandolo ou
Montmorency, apaixonou-se aos vinte cinco anos por uma moça de
dezesseis, de beleza estonteante. Através de sua ingenuidade adolescente,
insinuava-se um temperamento ardente, um temperamento não de mulher,
mas de poeta: ela não agradava, ela inebriava. Morava num pequeno vilarejo,
perto de seu irmão, que era padre. Ambos haviam chegado à região vindos
não se sabe de onde, mas, vendo-a tão bela e seu irmão tão pio, pouco
importava saber sua origem. Além do mais, diziam-nos de boa família. Meu
amigo, que era o senhor da região, teria podido seduzi-la ou possuí-la à força,
ao seu bel-prazer, pois era o suzerano. Quem teria vindo acudir dois
forasteiros, dois desconhecidos? Desafortunadamente, como um homem
honesto, casou-se com ela. Tolo, estúpido, imbecil!
— Mas por que diz isso, uma vez que ele a amava? — perguntou
d’Artagnan.
— Espere e verá — prometeu Athos. — Ele a levou para o seu castelo,
transformando-a na primeira-dama da província. E, cumpre fazer-lhe justiça,
ela fazia jus à sua posição.
— E daí? — perguntou d’Artagnan.
— E daí! Num dia em que estava caçando com o marido — continuou
Athos, em voz baixa e falando atropeladamente —, ela caiu do cavalo e
desmaiou. O conde projetou-se para socorrê-la e, como as roupas a
sufocavam, ele as rasgou com seu punhal, descobrindo-lhe o ombro.
Adivinhe o que havia no ombro dela, d’Artagnan? — perguntou Athos, com
uma grande gargalhada.
— Como posso saber? — rebateu d’Artagnan.
— Uma flor-de-lis — disse Athos. — Ela era marcada! E Athos esvaziou
num só gole o copo que tinha nas mãos
— Que horror! — abismou-se d’Artagnan. — O que me conta!
— A verdade, meu caro, o anjo era um demônio. A pobre moça era uma
ladra.
— E o que fez o conde?
— O conde era um grão-senhor, em suas terras era o árbitro das grandes e
pequenas causas. Terminou de rasgar as roupas da condessa, amarrou suas
mãos nas costas e enforcou-a numa árvore.
— Céus, Athos! Um assassinato! — exclamou d’Artagnan.
— Sim, um assassinato, nem mais nem menos — disse Athos, pálido como
a morte. — Mas fiquei sem vinho, me parece.
E Athos agarrou pelo gargalo a última garrafa que restava, aproximou-a de
sua boca e a esvaziou de um trago, como teria feito com um simples copo.
Depois deixou cair a cabeça sobre as duas mãos, e d’Artagnan permaneceu
diante dele, assombrado.
— Isso me curou das mulheres belas, poéticas e amorosas — disse Athos,
levantando-se e sem pensar em continuar a fábula do conde. — Deus
conceda-lhe o mesmo! Bebamos!
— Então ela morreu? — balbuciou d’Artagnan.
— Que pergunta! — disse Athos. — Ora, estenda seu copo. Pernil,
energúmeno! — gritou Athos. — Assim não é possível beber!
— E o irmão dela?
— O irmão? — repetiu Athos.
— É, o padre.
— Ah, fui atrás dele para enforcá-lo também, mas ele se antecipara,
abandonando a paróquia na véspera.
— Pelo menos vieram a saber quem era esse miserável?
— Era provavelmente o amante principal e cúmplice da beldade, um
homem respeitável que fingira ser padre possivelmente para casar a amante e
garantir-lhe um futuro. Deve ter sido esquartejado, espero.
— Oh, meu Deus, meu Deus! — exclamou d’Artagnan, abalado diante
daquela história horrível.
— Mas prove desse pernil, d’Artagnan, é papa-fina — gracejou Athos,
destrinchando uma fatia que pôs no prato do rapaz. — Pena que havia apenas
quatro desse tipo na adega! Eu teria bebido mais cinquenta garrafas.
D’Artagnan não podia mais suportar aquela conversa, sob o risco de
enlouquecer. Deixou a cabeça pender sobre as duas mãos e fingiu adormecer.
— Os moços não sabem mais beber — lamentou Athos, olhando-o com dó
—, e, não obstante, este é dos melhores…!
28. Regresso

D’ Artagnan continuava estupefato diante da terrível confidência de Athos.


Entretanto, muitas coisas ainda lhe pareciam obscuras naquela
revelação parcial. Em primeiro lugar, ela fora feita por um homem
completamente bêbado a outro que o estava pela metade, e, contudo, apesar
dessa vaga que faz subir ao cérebro os eflúvios de duas ou três garrafas de
borgonha, d’Artagnan, ao acordar na manhã seguinte, tinha cada palavra de
Athos presente em seu espírito, como se, à medida que iam saindo de sua
boca, estas fossem se imprimido em sua mente. Tantas dúvidas davam-lhe
um forte desejo de obter alguma certeza, e ele passou na casa do amigo no
firme intuito de retomar a conversa da véspera. Mas encontrava Athos
inteiramente refeito, ou seja, o mais elegante e o mais impenetrável dos
homens. Seja como for, o mosqueteiro, após ter trocado com ele um aperto de
mão, antecipou-se ao seu pensamento.
— Bebi em excesso ontem, meu caro d’Artagnan, senti esta manhã pela
minha língua, até agora bem pastosa, e meu pulso, ainda muito agitado.
Aposto que falei mil extravagâncias.
E, dizendo estas palavras, olhou para o amigo com uma fixidez que deixou
d’Artagnan embaraçado.
— De forma alguma— ele respondeu. — Se bem me lembro, você não
falou senão banalidades.
— Muito estranho! E eu que pensava ter-lhe contado uma história das mais
escabrosas.
E olhava para o rapaz como se quisesse ler no fundo de seu coração.
— Eu, hein! — disse d’Artagnan. — Então eu devia estar mais bêbado que
você, visto que não lembro nada.
Athos não se deu por satisfeito com essa declaração, e voltou à carga:
— Você não deve ter deixado de notar, meu caro amigo, que cada um tem
seu estilo de ebriedade, triste ou alegre. No meu caso, tenho a ebriedade
triste; quando fico ébrio, minha mania é contar todas as lúgubres histórias que
minha tola babá me inculcou no cérebro. É o meu maior defeito, um defeito
capital, concordo, mas, afora isso, sou um bom bebedor.
Athos falava de uma maneira tão natural que d’Artagnan sentiu-se abalado
em sua convicção.
— Oh, então é isso, tem razão — fingiu o rapaz, tentando descobrir a
verdade. — Agora estou me lembrando, como, aliás, nos lembramos de um
sonho, que falamos de enforcados.
— Ah, está vendo! — exclamou Athos, empalidecendo e ao mesmo tempo
tentando rir. — Eu tinha certeza, os enforcados são o meu pesadelo.
— Sim, sim — disse d’Artagnan —, a lembrança está vindo, sim, tratava-
se… espere… tratava-se de uma mulher.
— Está vendo — respondeu Athos, tornando-se quase lívido —, é a minha
famosa história da mulher loura. Quando escolho essa para contar, é porque
cheguei no auge da bebedeira.
— Sim, é isto — concordou d’Artagnan —, a história da mulher loura, alta
e sedutora, de olhos azuis.
— Sim, e enforcada.
— Pelo marido, que era um fidalgo amigo seu — continuou d’Artagnan,
olhando fixamente para Athos.
— Para você ver como é possível comprometer um homem quando não
sabemos mais o que estamos falando — encerrou Athos, levantando os
ombros como se tivesse pena de si mesmo. — Está decidido, d’Artagnan, não
me embriagarei mais, é um péssimo hábito.
D’Artagnan manteve-se em silêncio.
Em seguida, Athos mudou o rumo da conversa com uma única frase:
— A propósito, obrigado pelo cavalo que você me trouxe.
— Gostou dele? — perguntou d’Artagnan.
— Sim, embora não seja um cavalo resistente.
— Está enganado, fizemos cinquenta quilômetros em menos de uma hora e
meia, e ele parecia ter dado apenas uma voltinha na praça Saint-Sulpice.
— E essa agora! Vou acabar me sentindo culpado.
— Culpado?
— É, me desfiz dele.
— Como assim?
— Eis o fato: acordei hoje de manhã às seis horas, você dormia como uma
pedra e eu não tinha o que fazer. Ainda zonzo com a orgia de ontem, desci
até o salão e avistei um dos nossos ingleses comprando um cavalo de certo
negociante local, já que o dele morreu ontem após um sangramento.
Aproximei-me do inglês e, como vi que ele oferecia cem pistolas por um
alazão chamuscado, eu lhe disse: “Por Deus, meu fidalgo, também tenho um
cavalo para vender.
“— E inclusive muito bonito — disse ele —, eu o vi ontem, quando o
criado do seu amigo segurava-o pelas rédeas.
“— Acha que ele vale cem pistolas?
“— Sim, e quer me vendê-lo por este preço?
“— Não, mas apostá-lo no jogo.
“— Está me convidando para jogar?
“— Sim.
“— O quê?
“— Dados.”
“Dito e feito, assim perdi o cavalo. Ah, mas pelo menos recuperei a teliz.”
D’Artagnan pareceu um pouco chateado.
— Isso o aborrece? — perguntou Athos.
— Confesso que sim — admitiu d’Artagnan. — Aquele cavalo era para
sermos reconhecidos num dia de batalha, era um penhor, uma recordação.
Athos, isso foi um erro.
— Oh, meu caro amigo, ponha-se no meu lugar — disse o mosqueteiro. —
Eu me entediava mortalmente, e depois, palavra de honra, não gosto de
cavalos ingleses. Ora, se o problema é apenas ser reconhecido por alguém, a
sela bastará, ela é realmente notável. Quanto ao cavalo, encontraremos
alguma desculpa para explicar seu desaparecimento. Com os diabos, um
cavalo é mortal! Digamos que o meu pegou mormo, ou lamparão.
D’Artagnan não desanuviou a fronte.
— Isso me deixa chateado — continuou Athos —, que você pareça gostar
tanto desses animais, pois ainda não terminei minha história.
— O que mais você fez?
— Depois de ter perdido meu cavalo, nove contra dez, veja você, tive a
ideia de apostar o seu.
— Entendo, mas ficou só na ideia, eu espero?
— Não, coloquei-a em prática na mesma hora.
— Ah! E o que aconteceu? — exclamou d’Artagnan, inquieto.
— Apostei e perdi.
— O meu cavalo?
— O seu cavalo, sete contra oito. Basta um tento para… você conhece o
provérbio.
— Athos, você não está em seu juízo perfeito, juro a você!
— Meu caro, era ontem, quando eu lhe contava minhas histórias estúpidas,
que você devia ter me dito isso, e não hoje de manhã. Perdi-o então com
todos os arreios e acessórios possíveis.
— Mas isso é terrível!
— Espere um pouco, ainda não chegamos lá, eu seria um excelente jogador
se não insistisse, mas insisti, é assim quando bebo, então insisti…
— Mas o que você ainda tinha para apostar? Não lhe restava mais nada!
— De forma alguma, meu amigo, de forma alguma, restava-nos esse
diamante que brilha no seu dedo e que eu notei ontem.
— Esse diamante! — exclamou d’Artagnan, levando rapidamente a mão
ao anel.
— E como sou um especialista, tendo tido alguns de minha propriedade,
avaliei-o em mil pistolas.
— Espero — disse seriamente d’Artagnan, semimorto de pavor — que não
tenha dito uma palavra sobre ele!
— Ao contrário, caro amigo. Compreenda, esse diamante tornara-se nosso
último recurso. Com ele, eu podia recuperar nossos arreios, nossos cavalos e,
além deles, o dinheiro para a viagem.
— Athos, você me faz tremer! — exclamou d’Artagnan.
— Falei então de seu diamante com meu parceiro, o qual também reparara
nele. Também, meu caro, que diabos, você ergue o dedo para apontar uma
estrela no céu e não quer que ninguém preste atenção! Impossível!
— Termine, meu caro, termine! — pediu d’Artagnan. — Pois, palavra de
honra, você me mata com o seu sangue-frio.
— Dividimos então esse diamante em dez partes de cem pistolas cada.
— Ah! Quer se divertir e me fazer sofrer? — disse d’Artagnan, a quem a
cólera começava a agarrar pelos cabelos como Minerva agarra Aquiles, na
Ilíada.
— Não, não é uma piada, caramba! Queria ver se estivesse no meu lugar!
Fazia quinze dias que eu não me deparava com face humana e ficava lá me
entorpecendo e entupindo com um monte de garrafas.
— Esta não é uma razão para apostar meu diamante! — rebateu
d’Artagnan, apertando a mão numa crispação nervosa.
— Escute então o fim: dez partes de cem pistolas cada uma, em dez
jogadas sem revanche. Em treze jogadas, perdi tudo! O número 13 sempre foi
fatal para mim, foi no dia 13 de julho que…
— Isso é demais! — berrou d’Artagnan, levantando-se da mesa e com a
história do dia fazendo-lhe esquecer da história da véspera.
— Calma — disse Athos —, eu tinha um plano. O inglês era um
excêntrico, eu o vira de manhã conversando com Grimaud, e Grimaud me
comunicara que ele lhe fizera uma proposta de trabalho. Apostei então
Grimaud, o silencioso Grimaud, dividido em dez pedaços.
— Ah, você se supera! — disse d’Artagnan, caindo na risada sem querer.
— Grimaud em pessoa, ouça bem isto! E com as dez partes de Grimaud,
que inteiro não vale um ducado, recuperei o diamante. Fale agora que a
persistência não é uma virtude.
— Meu Deus, isso é uma loucura! — exclamou d’Artagnan, consolado e se
segurando de tanto rir.
— Você compreende que, sentindo-me com sorte, apostei de novo o
diamante.
— Ah, diabos! — disse d’Artagnan, voltando a se preocupar.
— Recuperei sua sela, depois seu cavalo, depois minha sela, depois meu
cavalo, depois perdi de novo. Abreviando, recuperei sua sela, depois a minha.
Eis onde estamos. Foi um golpe soberbo. Concluindo, foi aí que parei.
D’Artagnan respirou como se tivessem tirado a estalagem de cima de seu
peito.
— Enfim, continuo com o diamante? — disse ele, timidamente.
— Intacto, caro amigo! Além das selas do seu Bucéfalo e do meu.
— Mas o que faremos com nossas selas sem cavalos?
— Tenho uma ideia quanto a elas.
— Athos, você me dá calafrios.
— Escute, você não joga já faz um tempo, não é, d’Artagnan?
— E não tenho nenhuma vontade de jogar.
— Não seja tão radical. Você não joga já faz um tempo, eu dizia, logo deve
estar com a mão boa.
— Muito bem! E daí?
— E daí! O inglês e seu companheiro ainda estão aqui. Notei que
lamentaram muito a perda das selas. Já você, parece louco pelo cavalo. No
seu lugar, eu apostaria a sela contra o cavalo.
— Mas ele não vai querer só uma sela.
— Aposte as duas, ora bolas! Não sou nem um pouco egoísta como você.
— Você faria isso? — perguntou d’Artagnan, indeciso, de tal forma a
confiança de Athos começava a contagiá-lo à sua revelia.
— Palavra de honra, numa rodada só.
— Mas é que, depois de perder os cavalos, eu queria muito ficar com as
selas.
— Aposte seu diamante, então.
— Oh, isso é diferente: jamais, jamais.
— Diabos! — disse Athos. — Eu bem que lhe proporia apostar Planchet,
mas, como isso já foi feito, o inglês talvez nem queira mais.
— Para falar a verdade, meu caro Athos — concluiu d’Artagnan —,
prefiro não arriscar nada.
— Pena — disse friamente Athos —, o inglês está montado no dinheiro.
Ora, meu Deus, arrisque um lance, um lance não é nada.
— E se eu perder?
— Você ganhará.
— Mas, e se perder?
— Simples, você entrega a sela.
— Que seja, uma rodada então — decidiu-se d’Artagnan.
Athos saiu à cata do inglês e o encontrou na estrebaria, onde examinava as
selas com um olho cúpido. A ocasião era propícia. Ele impôs suas condições:
as duas selas contra um cavalo ou cem pistolas, a escolher. O inglês calculou
rápido: as duas selas valiam trezentas pistolas: topou.
D’Artagnan lançou os dados tremendo e conseguiu um três. Sua palidez
assustou Athos, que se contentou em dizer.
— Jogada lastimável, companheiro. O senhor terá os cavalos todos
selados, cavalheiro.
O inglês, triunfante, sequer deu-se ao trabalho de rolar os dados, lançou-os
sobre a mesa sem olhar, tão certo estava da vitória. D’Artagnan esquivara-se
para esconder o mau humor.
— Puxa vida — disse Athos, com sua voz tranquila —, esse lance de dados
é extraordinário, e só o vi quatro vezes na minha vida: dois ases!
O inglês olhou e foi tomado de espanto, d’Artagnan olhou e foi tomado de
alegria.
— Sim — continuou Athos —, apenas quatro vezes: uma vez na casa do
sr. de Créquy; outra vez na minha casa, no campo, no meu castelo de…
quando eu tinha um castelo; a terceira na casa do sr. de Tréville, quando nos
surpreendeu a todos; e finalmente, uma quarta vez, na taberna, quando fui a
vítima e perdi com ele cem luíses e uma ceia.
— Então, o senhor recupera seu cavalo — disse o inglês.
— Certamente — regozijou d’Artagnan.
— Então não há revanche?
— Nossas condições diziam: sem revanche, lembra-se?
— É verdade, o cavalo será entregue a seu criado, cavalheiro.
— Um momento — disse Athos —, com sua licença, senhor, peço para ter
uma palavrinha com meu amigo.
— Pois não.
Athos puxou d’Artagnan à parte.
— Muito bem! — disse-lhe d’Artagnan. — O que quer agora, voz da
tentação, que eu jogue, não é?
— Não, quero que reflita.
— Em quê?
— Vai pegar seu cavalo de volta, não é?
— Sem dúvida.
— Está errado, eu pegaria as cem pistolas. Você sabe que jogou a sela
contra o cavalo ou cem pistolas, à sua escolha.
— Sei.
— Eu pegaria as cem pistolas.
— Pois pego o cavalo!
— E está errado, repito. O que faremos com um cavalo para nós dois? Não
posso montar na garupa, iríamos parecer dois filhos de Aymon que perderam
seus irmãos. Você não pode me humilhar cavalgando ao meu lado, nesse
magnífico puro-sangue. Eu, sem titubear um instante, pegaria as cem pistolas,
precisamos de dinheiro para voltar a Paris.
— Prezo muito esse cavalo, Athos.
— E está errado, amigo. Um cavalo desgarra, um cavalo tropeça e perde o
joelho, um cavalo come num comedouro onde comeu um cavalo com mormo.
Eis um cavalo, ou melhor, cem pistolas perdidas. O dono tem que alimentar
seu cavalo, ao passo que, ao contrário, cem pistolas alimentam seu dono.
— Mas como retornaremos?
— Nos cavalos de nossos lacaios, caramba! Pelo nosso aspecto, todos
perceberão que somos gente de classe.
— Que triste figura faremos sobre dois pangarés, enquanto Aramis e
Porthos corcoveiam sobre seus puros-sangues!
— Aramis! Porthos! — exclamou Athos, e começou a rir.
— Qual é a graça? — perguntou d’Artagnan, que não compreendia a
hilaridade do amigo.
— Bem, bem, continuemos — disse Athos.
— Quer dizer que, na sua opinião…
— Você deveria pegar as cem pistolas, d’Artagnan. Com cem pistolas,
festejaremos até o fim do mês. Já sofremos bastante, pense bem, seria bom
descansarmos um pouco.
— Descansar! Oh, não, Athos, assim que chegar a Paris vou atrás dessa
pobre mulher.
— Muito bem! Acha que seu cavalo será mais útil para esse fim do que
bons luíses de ouro? Pegue as cem pistolas, meu amigo, pegue as cem
pistolas.
D’Artagnan precisava apenas de um motivo para render-se. Este pareceu-
lhe excelente. Aliás, resistindo por mais tempo, temia parecer egoísta aos
olhos de Athos. Aquiesceu então, e escolheu as cem pistolas, que o inglês
contou ali na hora.
Em seguida, pensaram apenas em partir. A paz obtida com o estalajadeiro,
além do velho cavalo de Athos, custou seis pistolas. D’Artagnan e Athos
pegaram os cavalos de Planchet e de Grimaud e os dois criados puseram-se a
caminho a pé, carregando as selas sobre suas cabeças.
Embora estando em péssimas montarias, os dois amigos logo deixaram os
criados para trás e chegaram a Crèvecœur. De longe, avistaram Aramis
debruçado na janela e interrogando, como “minha irmã Ana”, o horizonte
coruscante.
— Ei, Aramis! Que diabos está fazendo aí? — perguntaram os dois
amigos.
— Ah, é você, d’Artagnan, é você, Athos — disse o moço. — Eu refletia
na velocidade com que se vão os bens deste mundo, e meu cavalo inglês, que
se afastava e acabava de desaparecer no meio de um turbilhão de poeira, era
para mim a imagem viva da fragilidade das coisas da terra. A própria vida
pode se resumir em três palavras: Erat, est, fuit.
— Isso quer dizer exatamente o quê? — perguntou d’Artagnan, que
começava a desconfiar da verdade.
— Isso quer dizer que acabo de cair no conto do vigário: sessenta luíses
por um cavalo que, pelo jeito como trota, pode fazer vinte e cinco
quilômetros por hora.
D’Artagnan e Athos caíram na gargalhada.
— Meu caro d’Artagnan — disse Aramis —, não me odeie por isso, por
favor: a necessidade não tem lei. Aliás, sou o primeiro punido, uma vez que
esse infame cavalariço me roubou pelo menos cinquenta luíses. Ah, já vocês
são bons negociantes! Vêm nos cavalos de seus criados, enquanto os seus
vêm puxados pela rédea, lenta e descansadamente.
No mesmo instante, um furgão que acabava de despontar na estrada de
Amiens parou, e dele viu-se saírem Grimaud e Planchet com suas selas na
cabeça. O furgão voltava vazio para Paris e os dois lacaios haviam se
comprometido, mediante o transporte, a matar a sede do carroceiro durante o
trajeto.
— O que significa isso? — disse Aramis, olhando a cena. — Nada além
das selas?
— Compreende agora? — perguntou Athos.
— Meus amigos, foi a mesma coisa comigo. Conservei os arreios, por
instinto. Ei, Bazin! Traga meu arreio novo para junto dos arreios desses
senhores.
— E o que fez dos seus padrecos? — indagou d’Artagnan.
— Meu caro, convidei-os para jantar no dia seguinte — disse Aramis. —
Aqui há um vinho sofisticado, diga-se de passagem. Embriaguei-os como
pude, então o pároco me proibiu de largar o uniforme e o jesuíta me suplicou
para ingressar nos mosqueteiros.
— Sem tese! — gritou d’Artagnan. — Sem tese! Porque eu exijo a
supressão da tese!
— Desde então — continuou Aramis —, vivo no sossego. Comecei um
poema em versos de uma sílaba. É dificílimo, mas o mérito de todas as coisas
está na dificuldade. O tema é galante, lerei o primeiro canto para vocês; ele
tem quatrocentos versos e dura um minuto.
— Acredite, meu caro Aramis — disse d’Artagnan, que detestava os
versos quase tanto quanto o latim —, se acrescentar o mérito da dificuldade
ao da brevidade, com certeza o seu poema terá no mínimo dois méritos.
— Além de tudo — continuou Aramis —, ele respira paixões honestas,
como verão. E agora, meus amigos, para Paris? Bravo, estou pronto. Vamos
então rever esse bom Porthos, magnífico. Vocês acham que eu não estava
com saudades desse grande bobalhão? Ele pelo menos não teria vendido seu
cavalo nem por um reino. Estou ansioso para vê-lo sobre seu animal e sua
sela, tenho certeza de que está o próprio grão-mogol.
Athos e d’Artagnan fizeram uma parada de uma hora para os cavalos
respirarem. Aramis pagou sua conta, colocou Bazin no furgão com os colegas
e todos se puseram a caminho para reencontrar Porthos.
Encontraram-no restabelecido, menos pálido do que o vira d’Artagnan em
sua primeira visita, e sentado a uma mesa na qual, embora estivesse
desacompanhado, estava servido um jantar para quatro. Esse jantar
compunha-se de carnes elegantemente amarradas, vinhos seletos e frutas
soberbas.
— Ah, quem diria! — saudou ele, levantando-se. — Vocês chegam muito
a propósito, senhores, eu estava justamente na sopa, e vocês vão jantar
comigo.
— Oh, oh! — animou-se d’Artagnan. — Não foi Mousqueton quem laçou
essas garrafas, e eis um fricandó apimentado e um belo bife…
— Convalesço — disse Porthos —, convalesço, nada enfraquece mais que
essas malditas distensões musculares. Já teve uma distensão, Athos?
— Nunca, mas me lembro que na nossa refrega da rua Férou recebi uma
estocada que, no fim de quinze ou dezoito dias, me produziu exatamente o
mesmo efeito.
— Mas esse jantar, meu caro Porthos, não era para você sozinho? —
perguntou Aramis.
— Não — respondeu Porthos. — Eu esperava alguns fidalgos da
vizinhança, que acabam de me mandar uma mensagem dizendo que não vêm.
Vocês os substituirão, e não perderei com a troca. Ei, Mousqueton! Cadeiras,
e providencie o dobro de garrafas!
— Sabem o que estamos comendo? — interrogou Athos, depois de dez
minutos.
— Ora! — respondeu d’Artagnan. — Eu estou comendo uma vitela
recheada com cardos e moela.
— E eu, filé de cordeiro — disse Porthos.
— E eu, uma canja — disse Aramis.
— Estão todos errados, cavalheiros — respondeu Athos. — Os senhores
estão comendo cavalo.
— Que ideia! — retrucou d’Artagnan.
— Cavalo! — fez Aramis, com uma careta de nojo.
Só Porthos não respondeu.
— Cavalo, não é mesmo, Porthos? Não estamos comendo cavalo? Talvez
até com as mantas junto!
— Não, senhores, guardei os arreios — admitiu Porthos.
— Pela minha fé, nenhum de nós vale nada — disse Aramis. — Parece
uma combinação.
— O que querem — disse Porthos —, esse cavalo desonrava meus
convidados, e não quis humilhá-los.
— A propósito, sua duquesa continua na estação de águas, não é? —
perguntou d’Artagnan.
— Continua — respondeu Porthos. — E, acreditem, o governador da
província, um dos fidalgos que eu esperava hoje para o jantar, pareceu
desejá-lo tanto que lhe dei de presente.
— Deu! — exclamou d’Artagnan.
— Oh, meu Deus, sim, dei, é a palavra certa! — disse Porthos. — Pois ele
valia certamente cento e cinquenta luíses e o safado só quis me pagar oitenta.
— Sem a sela? — quis saber Aramis.
— Sim, a sela ficou.
— Como podem observar, senhores — disse Athos —, foi mais uma vez
Porthos quem fez o melhor negócio de todos nós.
Explodiu então uma saraivada de risadas que contagiou até o pobre
Porthos, e quando os amigos explicaram a razão daquela hilaridade, ele a
partilhou ruidosamente, como era de seu feitio.
— De maneira que estamos todos ricos? — perguntou d’Artagnan.
— Eu não — disse Athos. — Achei tão bom o xerez de Aramis que
mandei colocarem sessenta garrafas no furgão dos criados. Foi o que me
descapitalizou.
— Quanto a mim — disse Aramis —, imaginem só, dei meu último
centavo para a igreja de Montdidier e os jesuítas de Amien. Além disso,
assumi compromissos que precisava honrar, missas encomendadas em minha
intenção e na de vocês, senhores, que se dizem respeitáveis, e por tudo isso
creio poder garantir-nos uma situação altamente favorável.
— E eu — justificou-se Porthos —, minha distensão, acham que não me
custou nada? Sem falar no ferimento de Mousqueton, que me obrigou a
chamar o cirurgião duas vezes por dia, o qual me cobrou em dobro suas
visitas, a pretexto de que o imbecil do Mousqueton tinha levado uma bala
num local que em geral só mostramos aos boticários. Naturalmente,
recomendei-lhe não levar mais balas ali.
— Vamos, vamos — concluiu Athos, trocando um sorriso com d’Artagnan
e Aramis —, vejo que se comportou com grandeza a respeito do pobre rapaz:
é um bom patrão.
— Resumindo — continuou Porthos —, paga minha despesa, não me
restarão senão uns trinta escudos.
— E a mim, uma dezena de pistolas — disse Aramis.
— Vamos, vamos — disse Athos —, parece que somos os Cresos da
sociedade. Quanto lhe resta de suas cem pistolas, d’Artagnan?
— Das minhas cem pistolas? Para começar, dei-lhe cinquenta.
— Tem certeza?
— Ora, se tenho!
— Ah, é verdade, estou me lembrando.
— Depois, paguei seis ao estalajadeiro.
— Que animal esse estalajadeiro! Por que lhe deu seis pistolas?
— Foi você quem me disse para dar.
— É verdade, sou muito generoso. Resumindo, quanto em caixa?
— Vinte e cinco pistolas — contabilizou d’Artagnan.
— Já eu — disse Athos, puxando um trocado de seu bolso —, eu…
— Você, nada.
— É mesmo, ou tão pouca coisa que não vale a pena constar do capital.
Agora, calculemos quanto possuímos em conjunto: Porthos?
— Trinta escudos.
— Aramis?
— Dez pistolas.
— E você, d’Artagnan?
— Vinte e cinco.
— Isso dá quanto? — perguntou Athos.
— Quatrocentos e setenta e cinco libras! — disse d’Artagnan, que fazia
contas como Arquimedes.
— Em Paris, ainda nos restarão quatrocentas — acrescentou Porthos —,
mais os arreios.
— Mas e nossos cavalos de esquadrão? — perguntou Aramis.
— Pois bem! Dos quatro cavalos dos lacaios faremos, por sorteio, dois
serem de patrão; das quatrocentas libras, faremos meio para um dos
desmontados, depois daremos as raspas de nossos bolsos a d’Artagnan, que
tem a mão boa e irá apostá-las na primeira rodinha que aparecer, pronto.
— Jantemos, então — disse Porthos —, vai esfriar.
Os quatro amigos, agora mais tranquilos com seu futuro, honraram a
refeição, cujas sobras deixaram para os srs. Mousqueton, Bazin, Planchet e
Grimaud.
Ao chegar a Paris, d’Artagnan encontrou uma carta do sr. de Tréville
informando-o que, a seu pedido, o rei acabava de lhe conceder o privilégio de
ingressar no regimento dos mosqueteiros.
Como isso era tudo que d’Artagnan ambicionava no mundo, afora,
naturalmente, o desejo de encontrar a sra. Bonacieux, ele correu felicíssimo
até a casa de seus camaradas, que acabava de deixar havia apenas meia hora,
mas a quem encontrou muito tristes e preocupados. Estavam reunidos em
conselho na casa de Athos, o que indicava sempre circunstâncias de certa
gravidade.
O sr. de Tréville acabava de mandar avisar-lhes que, sendo a intenção
inabalável de Sua Majestade deflagrar a campanha em 1º de maio, eles teriam
que providenciar imediatamente sua equipagem.
Os quatro filósofos entreolharam-se, estupefatos. O sr. de Tréville não
brincava no quesito disciplina.
— E quanto vocês acham que os apetrechos de guerra podem custar? —
perguntou d’Artagnan.
— Oh, é melhor nem dizer — disse Aramis. — Acabamos de fazer nossas
contas com uma parcimônia espartana, e precisamos cada um de mil e
quinhentas libras.
— Quatro vezes quinze, sessenta, ou seja, seis mil libras — disse Athos.
— Pois me parece que com mil francos cada um… — disse d’Artagnan. —
É verdade que não falo como espartano, mas como promotor…
A palavra promotor despertou Porthos.
— Eureca, tive uma ideia! — animou-se Porthos.
— Já é alguma coisa, porque eu não tive nem sombra de uma — devolveu
friamente Athos. — Mas, quanto a d’Artagnan, senhores, a felicidade de
agora ser um dos nossos enlouqueceu-o. Mil libras! Declaro que eu sozinho
preciso de duas mil.
— Quatro vezes dois, oito — calculou então Aramis. — Logo, é de oito
mil libras que necessitamos para nossos equipamentos, dos quais, é verdade,
já temos as selas.
— E mais uma coisa — disse Athos, esperando enquanto d’Artagnan, que
ia saindo para agradecer ao sr. de Tréville, fechava a porta da casa —, aquele
belo diamante que brilha no dedo do nosso amigo. Que diabos! D’Artagnan é
um ótimo camarada e não vai deixar seus irmãos em dificuldade quando tem,
no dedo médio, o resgate de um rei.
29. A caça ao equipamento

O mais preocupado dos quatro amigos era certamente d’Artagnan, embora


o rapaz, em sua qualidade de guarda, fosse mais fácil de equipar que os
imponentes mosqueteiros, hierarquicamente superiores. Mas nosso
cadete da Gasconha era, como pudemos verificar, de uma natureza precavida
e quase avarenta, e, apesar de tudo isso (vá explicar os paradoxos), quase tão
exibido quanto Porthos.
À preocupação com a vaidade, d’Artagnan nesse momento acrescentava
uma inquietação menos egoísta. O pouco que conseguira descobrir sobre a
sra. Bonacieux não trazia nenhuma novidade. O sr. de Tréville discutira o
assunto com a rainha, que ignorava o destino da jovem costureira e prometera
mandar que a encontrassem. Mas essa promessa era muito vaga e não
tranquilizava d’Artagnan.
Athos não saía de seu quarto, determinado a não dar um passo para se
equipar.
— Temos quinze dias ainda — ele dizia aos amigos. — Pois bem, se no
fim desses quinze dias eu não encontrar nada, ou melhor, se nada vier ao meu
encontro, como sou um católico dedicado demais para me arrebentar os
miolos com um tiro de pistolete, arranjarei uma boa briga com quatro guardas
de sua Eminência, ou com uns oito ingleses, e lutarei até que um me mate, o
que, pela superioridade numérica, não pode deixar de acontecer. Dirão então
que morri pelo rei, de maneira que terei cumprido meu dever sem ter tido que
me equipar.
Porthos continuava a andar de um lado para o outro, com as mãos nas
costas, balançando a cabeça para cima e para baixo, dizendo:
— Valeria a pena tentar a minha ideia.
Aramis, preocupado e descabelado, não dizia nada.
Como se vê por esses detalhes desastrosos, o desânimo imperava na
comunidade.
Os lacaios, por sua vez, como os corcéis de Hipólito, partilhavam a aflição
de seus patrões. Mousqueton fazia estoque de pão; Bazin, que acabava
sempre apelando à devoção, não saía mais das igrejas; Planchet observava o
voo das moscas; e Grimaud, que a angústia geral não estimulava a romper o
silêncio imposto por seu patrão, soltava suspiros de enternecer pedras.
Os três amigos — pois, como dissemos, Athos jurara não dar um passo
para se equipar — saíam então bem ao raiar do dia e voltavam tarde da noite.
Perambulavam pelas ruas, examinando cada paralelepípedo para ver se algum
transeunte não havia deixado cair alguma bolsa. Pareciam seguir pistas, de tal
forma mostravam-se alertas aonde quer que fossem. Quando se encontravam,
dirigiam-se olhares decepcionados que pareciam perguntar: “Arranjou
alguma coisa?”
Entretanto, como fora o primeiro a ter uma ideia, e nela decidira
perseverar, Porthos foi o primeiro a agir. Era um homem de ação, o digno
Porthos. D’Artagnan avistou-o certo dia a caminho da igreja de Saint-Leu, e
seguiu-o instintivamente. Porthos entrou no lugar santo após ter levantado
seu bigode e esticado seu cavanhaque, o que anunciava sempre intenções
conquistadoras de sua parte. Como d’Artagnan tomara certas precauções para
não ser visto, Porthos julgou-se incógnito. D’Artagnan entrou atrás dele.
Porthos foi recostar-se num dos lados de uma coluna. D’Artagnan, sempre
furtivamente, apoiou-se do outro.
Era hora do sermão, o que fazia com que a igreja estivesse lotada. Porthos
aproveitou-se da circunstância para espiar as mulheres. Graças aos cuidados
dispensados por Mousqueton, sua aparência estava longe de refletir sua
secreta penúria. Decerto seu chapéu estava um pouco puído, seu penacho, um
pouco desbotado, seus bordados, um pouco manchados, seus rendados,
bastante esfiapados, mas, na penumbra, todas essas bagatelas desapareciam, e
Porthos continuava a ser o belo Porthos.
D’Artagnan observou, no banco mais próximo da coluna em que ele e
Porthos estavam recostados, uma espécie de beldade madura, um pouco
loura, um pouco ressequida, mas empertigada e altiva sob sua touca preta. Os
olhos de Porthos abaixavam-se furtivamente para essa dama, depois
borboleteavam ao longo da nave.
Por seu turno, a dama, que de tempos em tempos corava, lançava com a
rapidez do raio um relance para o volúvel Porthos, e imediatamente os olhos
de Porthos borboleteavam furiosamente. Estava claro que tal manobra
espicaçava a dama de touca preta, pois ela mordia os lábios até sangrar,
coçava a ponta do nariz e se remexia desesperadamente em seu assento.
Vendo isso, Porthos repuxou novamente seu bigode, esticou uma segunda
vez seu cavanhaque e pôs-se a fazer sinais para uma bela dama junto ao coro,
e que não apenas era uma bela dama, como também, sem dúvida, uma dama
ilustre, pois tinha atrás de si um negrinho que trouxera o coxim sobre o qual
ela estava ajoelhada, e uma criada que segurava a bolsa armoriada onde
guardava seu missal.
A dama de touca preta seguiu através de todos os seus desvios o olhar de
Porthos, e percebeu que ele se detinha na dama com o coxim de veludo, o
negrinho e a criada.
Enquanto isso, Porthos não arrefecia: eram piscadelas, dedos colocados
nos lábios, pequenos sorrisos assassinos que realmente assassinavam a bela
desdenhada.
Foi quando ela emitiu, em forma de mea culpa e batendo no peito, um
“Hum!” tão alto que todo mundo, até mesmo a dama do coxim vermelho,
voltou-se para o seu lado. Porthos ouvira-a claramente, mas, impassível, fez-
se de surdo.
A dama do coxim vermelho produzia um grande efeito, devido a sua
extrema beleza, na dama de touca preta, que viu nela uma rival digna de ser
temida; um grande efeito sobre Porthos, que a achou mais bonita que a dama
de touca preta; um grande efeito sobre d’Artagnan, que reconheceu a dama de
Meung, de Calais e de Dover, a qual seu perseguidor, o homem da cicatriz,
cumprimentara com o nome de Milady.
D’Artagnan, sem perder de vista a dama do coxim vermelho, continuou a
acompanhar as manobras de Porthos, que o divertiam sobremaneira. Ele
presumiu que a dama de touca preta era a mulher do promotor da rua dos
Gansos, ainda mais que a igreja de Saint-Leu não ficava distante da dita cuja.
Concluiu assim, por indução, que Porthos procurava tirar sua desforra da
derrota de Chantilly, quando a matrona mostrara-se tão recalcitrante a
respeito do dinheiro.
Porém, em meio a tudo isso, d’Artagnan não deixou de observar que
ninguém respondia aos galanteios de Porthos. Tudo não passava de quimeras
e ilusões, mas, para um amor real, para um ciúme de verdade, existe outra
realidade senão as ilusões e as quimeras?
O sermão terminou. A mulher do promotor avançou até a pia de água-
benta. Porthos ultrapassou-a e, em vez de um dedo, enfiou a mão. A mulher
do promotor sorriu, julgando que era por ela que Porthos fazia aquela fineza.
Mas viu-se pronta e cruelmente frustrada: quando estava a apenas três passos
dele, Porthos desviou a cabeça e fixou resolutamente o olhar na dama do
coxim vermelho, que se levantara e viera em sua direção, seguida por seu
negrinho e sua aia.
Quando a dama do coxim vermelho aproximou-se de Porthos, Porthos
tirou sua mão toda gotejante da pia de água-benta. A bela devota tocou com
sua mão esguia a manzorra do mosqueteiro, fez o sinal da cruz sorrindo e saiu
da igreja.
Aquilo foi demais para a mulher do promotor. Ela teve certeza que a outra
dama e Porthos estavam flertando. Se fosse uma grande dama, teria
desmaiado, mas, como era apenas mulher do promotor, contentou-se em dizer
ao mosqueteiro, com uma fúria concentrada:
— Então, senhor Porthos, não vai me oferecer também um pouco de água-
benta?
Porthos teve, ao som daquela voz, um sobressalto como teria um homem
que despertasse após um sono de cem anos.
— Sen… senhora! — exclamou. — É mesmo a senhora? Com vai seu
marido, o adorável sr. Coquenard? Continua tão ladrão quanto antes? Onde
eu tinha os olhos que sequer a avistei durante as duas horas que durou esse
sermão?
— Eu estava a dois passos do senhor, cavalheiro — respondeu a mulher.
— O senhor não me viu porque só tinha olhos para a bela dama a quem acaba
de oferecer água-benta.
Porthos fingiu estar embaraçado.
— Ah — disse ele —, a senhora percebeu…
— Era preciso ser cega para não perceber.
— Sim — respondeu displicentemente Porthos —, é uma duquesa amiga
minha, com a qual tenho grande dificuldade de me encontrar por causa do
ciúme do marido, e que mandara me avisar que viria hoje, nessa humilde
igreja, nos confins desse bairro afastado, apenas para me ver.
— Sr. Porthos — disse a promotora —, teria a bondade de me oferecer o
braço durante cinco minutos? Gostaria de conversar consigo.
— Como não, senhora — disse Porthos, dando uma piscadela para si
mesmo como um jogador que ri do golpe que vai aplicar.
Nesse momento, d’Artagnan passou por eles, no encalço de Milady.
Lançou um olhar de esguelha para Porthos e viu a piscadela triunfante.
“Eh, eh!” disse consigo, raciocinando no sentido da moral estranhamente
fácil dessa época galante. “Este é um que certamente vai estar equipado no
prazo estipulado.”
Porthos, cedendo à pressão do braço de sua matrona como uma
embarcação cede ao impulso do leme, chegou ao claustro de Saint-Magloire,
passagem pouco frequentada, fechada por uma tramela em suas duas pontas.
Não se via ali, durante o dia, senão mendigos comendo ou crianças
brincando.
— Ah, sr. Porthos! — suspirou a mulher do promotor, quando teve certeza
de que nenhuma pessoa estranha à população habitual da localidade podia vê-
los ou ouvi-los. — O senhor é um grande conquistador, ao que parece!
— Eu, madame! — disse Porthos, regozijando-se. — E por que diz isso?
— E os sinais de ainda há pouco, e a água-benta? Ora, essa dama com seu
negrinho e sua aia é no mínimo uma princesa!
— Nada disso, por Deus, a senhora está enganada — respondeu Porthos.
— Ela é simplesmente uma duquesa.
— E o batedor que esperava na porta, e a carruagem com um cocheiro de
libré impecável aguardando em seu posto?
Porthos não vira nem o batedor nem a carruagem, mas, com seu olhar de
mulher ciumenta, a sra. Coquenard vira tudo.
Porthos arrependeu-se de não ter feito, logo de cara, uma princesa da dama
do coxim vermelho.
— Ah, o senhor é o queridinho das beldades, sr. Porthos! — suspirou
novamente a mulher do promotor.
— Ora — respondeu Porthos —, a senhora compreende que, com um
físico como este de que a natureza me dotou, não me faltam boas
oportunidades.
— Meu Deus, como os homens esquecem rápido! — exclamou a mulher,
erguendo os olhos para o céu.
— Menos rápido que as mulheres, me parece — respondeu Porthos. —
Pois afinal, eu, senhora, posso dizer que fui sua vítima, quando, ferido e
moribundo, vi-me desenganado pelos cirurgiões; eu, oriundo de uma família
ilustre, que me fiara em sua amizade, quase fui morto primeiro por meus
ferimentos, e depois de fome, numa espelunca de Chantilly, e isto sem que a
senhora tivesse se dignado a responder uma única vez às veementes cartas
que lhe escrevi.
— Mas, sr. Porthos… — murmurou a mulher do promotor, sentindo que, a
julgar pela conduta das grandes damas dessa época, estava errada.
— Eu, que sacrifiquei pela senhora a condessa de Peñaflor…
— É verdade, eu sei.
— A baronesa de…
— Sr. Porthos, não me confunda.
— A duquesa de…
— Sr. Porthos, seja generoso!
— Tem razão, senhora, isso não teria fim.
— Mas é meu marido que não quer ouvir falar de empréstimo.
— Sra. Coquenard — disse Porthos —, lembre-se da primeira carta que me
escreveu e que conservo gravada na memória.
A mulher do promotor soltou um gemido.
— Mas também — justificou-se ela — a soma que o senhor pede ao
emprestador é um pouco alta.
— Sra. Coquenard, dei-lhe a preferência. Eu só precisava escrever à
duquesa de… não desejo pronunciar seu nome, pois não me passaria pela
cabeça comprometer uma mulher, entretanto bastava eu lhe escrever para que
ela me enviasse mil e quinhentos.
A mulher do promotor verteu uma lágrima.
— Sr. Porthos — disse ela —, esteja certo de que me castigou
severamente, e que, caso o senhor, no futuro, se encontrasse novamente
diante de tal situação, só precisaria dirigir-se a mim.
— Deixe disso, madame! — exclamou Porthos, com um ar revoltado. —
Não falemos de dinheiro, por favor, é humilhante!
— Então não me ama mais! — gemeu a mulher do promotor, lenta e
tristemente.
Porthos conservou um majestoso silêncio.
— É esta sua resposta? Ai de mim! Compreendo.
— Pense na ofensa que me fez, senhora. Ela não saiu daqui — disse
Porthos, colocando a mão no coração e pressionando-a com força.
— Posso repará-la. Por favor, querido Porthos!
— Aliás, o que eu lhe pedia? — continuou Porthos, com um indulgente
meneio dos ombros. — Um empréstimo, só isso. Afinal de contas, não sou
um desmiolado. Sei que não é rica, sra. Coquenard, e que seu marido é
obrigado a sugar o sangue dos pobres litigantes para extrair alguns míseros
escudos. Oh, se fosse condessa, marquesa ou duquesa, seria diferente, aí não
haveria perdão para a senhora.
A mulher do promotor perdeu a linha.
— Saiba, sr. Porthos — disse ela — que o meu cofre, por mais cofre de
mulher de promotor que seja, pode se revelar mais bem-abastecido do que o
de todas as suas ridículas falidas.
— Dupla ofensa que me fez então — rebateu Porthos, desvencilhando-se
do braço —, pois, se é rica, sra. Coquenard, aí é que a sua recusa não tem
mais desculpa.
— Quando digo rica — contornou a promotora, que viu que se deixara
levar longe demais —, não deve tomar a palavra ao pé da letra. Não sou
precisamente rica, digamos que eu viva no conforto.
— Preste atenção, senhora — disse Porthos —, não toquemos mais nesse
assunto, eu lhe peço. A senhora me ignorou. Toda simpatia entre nós está
morta.
— Como é ingrato!
— Ah! Aconselho-a a depositar uma queixa! — disse Porthos.
— Vá então com sua bela duquesa! Não o prendo mais.
— Ótimo, ela não é tão ressequida, quero crer!
— Por favor, sr. Porthos, mais uma vez, a última: ainda me ama?
— Ai de mim, senhora! — disse Porthos, no tom mais melancólico que
pôde —, quando vamos à guerra, uma guerra em que meus pressentimentos
me dizem que serei morto…
— Oh! Não diga uma coisa dessas! — exclamou a promotora, explodindo
em soluços.
— Alguma coisa me diz isso — continuou Porthos, aprofundando mais e
mais sua melancolia.
— Prefiro ouvir que tem um novo amor.
— Não, falo a verdade. Nenhum novo objeto amoroso me toca, e inclusive
sinto agora, no fundo do coração, alguma coisa que me fala a seu favor. Mas,
dentro de quinze dias, como sabe ou como não sabe, terá início a fatal
campanha. É uma preocupação terrível essa questão do equipamento. Pois
vou fazer uma viagem às terras de minha família, nos confins da Bretanha,
para reunir a soma necessária à minha partida.
Porthos notou um último embate entre o amor e a avareza.
— E como — prosseguiu ele — a duquesa que a senhora acaba de ver na
igreja tem suas terras próximas às minhas, faremos a viagem juntos. As
viagens, a senhora sabe, parecem menos longas quando feitas a dois.
— Então não tem amigos em Paris, sr. Porthos? — perguntou a mulher do
promotor.
— Achei que tinha — disse Porthos, retomando sua expressão melancólica
—, mas percebi que estava enganado.
— O senhor os tem, sr. Porthos, o senhor os tem — rendeu-se a mulher do
promotor, numa efusão que a ela mesma surpreendeu. — Venha amanhã à
minha casa. O senhor é filho da minha tia, meu primo por conseguinte. O
senhor vem de Noyon, na Picardia, tem vários processos em Paris, e não tem
advogado. Vai se lembrar de tudo isso?
— Palavra por palavra, senhora.
— Apareça na hora do jantar.
— Combinado.
— E não fraqueje diante do meu marido, que é astuto, apesar de seus
setenta e seis anos.
— Setenta e seis anos! Que idade bonita! — ironizou Porthos.
— Que idade avançada, o senhor quer dizer, sr. Porthos. Afinal, o pobre e
querido homem pode me deixar viúva de uma hora para outra — continuou a
mulher do promotor, lançando um olhar significativo para Porthos. —
Felizmente, por contrato de casamento, passamos tudo para o sobrevivente.
— Tudo? — perguntou Porthos.
— Tudo.
— A senhora é uma mulher precavida, vejo isso, minha querida sra.
Coquenard — disse Porthos, apertando ternamente a mão da promotora.
— Então fizemos as pazes, querido sr. Porthos? — indagou ela,
afetadamente.
— Para sempre — replicou Porthos, com uma careta igual.
— Até mais ver, traidor.
— Até mais ver, indiferente.
— Até amanhã, meu anjo!
— Até amanhã, chama da minha vida!
30. Milady

D’ Artagnan seguira Milady sem ser percebido. Viu-a entrar em sua


carruagem, e ouviu-a ordenar ao cocheiro que se dirigisse a Saint-
Germain.
Era inútil tentar seguir a pé um coche puxado pelo trote de dois vigorosos
cavalos. D’Artagnan então retornou à rua Férou.
Na rua do Sena, encontrou Planchet, parado em frente a uma confeitaria e
com um ar de êxtase diante de um brioche dos mais apetitosos.
Ordenou-lhe que fosse selar dois cavalos nas estrebarias do sr. de Tréville,
um para ele, d’Artagnan, o outro para ele, Planchet, e viesse encontrá-lo na
casa de Athos — o sr. de Tréville, de uma vez por todas, colocara suas
estrebarias à disposição de d’Artagnan.
Planchet encaminhou-se para a rua do Colombier e d’Artagnan para a rua
Férou. Athos estava em casa, esvaziando tristemente uma das garrafas
daquele famoso xerez proveniente de sua viagem à Picardia. Com um sinal,
pediu a Grimaud que trouxesse um copo para d’Artagnan, e Grimaud
obedeceu, como de hábito.
D’Artagnan então contou a Athos tudo que se passara na igreja entre
Porthos e a mulher do promotor, e como seu colega estava, provavelmente
naquele momento, em vias de se equipar.
— Quanto a mim — respondeu Athos a todo esse relato —, não tenho com
que me preocupar, não serão as mulheres que irão financiar os custos dos
meus arreios.
— E, no entanto, belo, educado, grão-senhor como você é, meu caro
Athos, não haveria princesa nem rainha capaz de resistir às suas iniciativas
amorosas.
— Como esse d’Artagnan é moço! — exclamou Athos, dando de ombros.
E fez sinal a Grimaud para trazer uma segunda garrafa.
Nesse momento, Planchet passou modestamente a cabeça pela porta
entreaberta e comunicou a seu patrão que os dois cavalos estavam ali.
— Que cavalos? — perguntou Athos.
— Dois que o sr. de Tréville me empresta para passear e com os quais vou
dar uma volta em Saint-Germain.
— E o que vai fazer em Saint-Germain? — perguntou ainda Athos.
Então d’Artagnan contou-lhe o encontro na igreja, e como reencontrara a
mulher que, com o nobre de capa preta e cicatriz na têmpora, era sua
preocupação eterna.
— Isso quer dizer que agora está apaixonado por esta, como estava pela
sra. Bonacieux — concluiu Athos, balançando desdenhosamente os ombros,
como se a fraqueza humana lhe causasse pena.
— Eu, está maluco! — indignou-se d’Artagnan. — Tenho apenas
curiosidade de esclarecer o mistério ligado a ela. Não sei por quê, imagino
que essa mulher, por mais desconhecida que me seja, e por mais
desconhecido que eu lhe seja, exerce uma influência na minha vida.
— E você tem razão — disse Athos —, não conheço uma mulher que
mereça o trabalho de ser procurada quando está perdida. A sra. Bonacieux
está perdida, azar o dela! Que ela se encontre!
— Não, Athos, não, você está enganado — insistiu d’Artagnan. — Amo
minha pobre Constance mais do que nunca, e se soubesse onde ela está, ainda
que estivesse no fim do mundo, eu partiria para arrancá-la das mãos de seus
inimigos. Mas ignoro-o, todas as minhas buscas foram inúteis. O que quer,
não custa nada me distrair um pouco.
— Distraia-se então com Milady, meu caro d’Artagnan. É o que desejo de
todo meu coração, se isso é capaz de diverti-lo.
— Escute, Athos — disse d’Artagnan —, em vez de viver fechado aqui
como se estivesse numa prisão, pegue um cavalo e venha passear comigo em
Saint-Germain.
— Meu caro — replicou Athos —, pego meus cavalos quando os tenho,
senão vou a pé.
— Pois eu — respondeu d’Artagnan, sorrindo da misantropia de Athos,
que vinda de outro homem o teria magoado profundamente —, sou menos
orgulhoso que você, pego o que vejo. Portanto, até logo, meu caro Athos.
— Até logo — disse o mosqueteiro, fazendo sinal a Grimaud para abrir a
garrafa que ele acabava de trazer.
D’Artagnan e Planchet montaram e tomaram o caminho de Saint-Germain.
Ao longo de todo o trajeto, o que Athos dissera ao rapaz a respeito da sra.
Bonacieux voltava à mente de d’Artagnan. Embora ele não tivesse um caráter
muito sentimental, a bela esposa do comerciante causara uma impressão
genuína em seu coração. Estava disposto a ir ao fim do mundo para procurá-
la. Mas o mundo tem muitos fins, por isso mesmo é redondo, de maneira que
não sabia para que lado se voltar.
Enquanto não se decidia, tinha resolvido descobrir quem era aquela
Milady. Ela falara com o homem de capa preta, logo, o conhecia. Ora, na
cabeça de d’Artagnan, fora o homem da capa preta que raptara a sra.
Bonacieux pela segunda vez, como a raptara da primeira. D’Artagnan,
portanto, mentia apenas pela metade, o que é mentir pouco, ao dizer que,
pondo-se à procura de Milady, punha-se ao mesmo tempo à procura de
Constance.
Assim divagando, e de tempos em tempos esporeando seu cavalo,
d’Artagnan avançara e chegara a Saint-Germain. Acabava de avistar o
casarão onde, dez anos mais tarde, devia nascer Luís XIV. Ele atravessou
uma rua completamente deserta, olhando à direita e à esquerda para ver se
não percebia algum vestígio de sua bela inglesa, quando, no rés do chão de
uma bonita casa, a qual, segundo o costume da época, não tinha nenhuma
janela para a rua, viu surgir uma figura conhecida. Essa figura passeava por
uma espécie de terraço enfeitado de flores. Planchet foi o primeiro a
reconhecê-la.
— Ei, patrão — disse ele, dirigindo-se a d’Artagnan —, não conhece
aquele rosto ali, pensando na morte da bezerra?
— Não — respondeu d’Artagnan. — E, no entanto, tenho certeza de que
não é a primeira vez que o vejo.
— Sem dúvida que o viu — afirmou Planchet. — É aquele pobre Lubin, o
lacaio do conde de Wardes, aquele com quem o senhor se mostrou tão
generoso há um mês, em Calais, na estrada que levava ao solar do diretor do
porto.
— Ah, é verdade — disse d’Artagnan —, agora sim. Acha que Lubin seria
capaz de reconhecê-lo?
— Para ser franco, patrão, ele estava tão zonzo que duvido que se lembre
direito de mim.
— Ótimo! Então vá conversar com esse moço — ordenou d’Artagnan —, e
informe-se durante a conversa se o seu patrão morreu.
Planchet desceu do cavalo, foi direto até Lubin, que, com efeito, não o
reconheceu, e os dois lacaios começaram a conversar no maior entendimento
do mundo, enquanto d’Artagnan levava os dois cavalos por um beco,
contornando uma casa, e voltava para assistir à conversa atrás de uma cerca
de aveleiras.
No fim de um instante de observação atrás da sebe, ele ouviu o barulho de
um coche e viu parar à sua frente a carruagem de Milady. Não havia como
duvidar, Milady estava no interior. D’Artagnan deitou-se sobre o pescoço de
seu cavalo, a fim de ver tudo sem ser visto.
Milady passou sua encantadora cabecinha loura pela portinhola e deu
ordens à sua aia.
Esta última, atraente rapariga de vinte a vinte e dois anos, alerta e
irrequieta, autêntica criadinha de dama ilustre, pulou do estribo sobre o qual
estava sentada, segundo o costume da época, e dirigiu-se ao terraço onde
d’Artagnan vira Lubin.
D’Artagnan seguiu a rapariga com os olhos e viu-a encaminhar-se para o
terraço. Mas, por acaso, uma ordem do interior havia chamado Lubin, de
maneira que Planchet ficara sozinho, olhando para todos os lados a fim de ver
onde d’Artagnan se metera.
A criada aproximou-se de Planchet, que ela tomou por Lubin e,
estendendo-lhe um pequeno bilhete, disse:
— Para o seu patrão.
— Para o meu patrão? — indagou Planchet, perplexo.
— Sim, e é urgente. Pegue rápido.
Depois disso, correu de volta para a carruagem, já manobrada para a
mesma direção de onde viera. Lançou-se no estribo e a carruagem partiu.
Planchet virou e revirou o bilhete. Depois, acostumado à obediência
passiva, pulou do terraço para o beco e logo encontrou d’Artagnan, que,
tendo tudo presenciado, foi em sua direção.
— Para o senhor, patrão — disse Planchet, apresentando o bilhete ao
rapaz.
— Para mim? — estranhou d’Artagnan. — Tem certeza disso?
— E como não?! A rapariga disse: “Para o seu patrão.” Não tenho outro a
não ser o senhor, logo… Um pedacinho de mulher, aliás, aquela rapariga!
D’Artagnan abriu a carta e leu estas palavras:
Uma pessoa que se interessa pelo senhor mais do que o poderia dizer gostaria de saber o dia em que
estará livre para um passeio na floresta. Amanhã, no restaurante do Champ du Drap d’Or, um lacaio
de preto e vermelho aguardará sua resposta.

— Oh, oh! — disse d’Artagnan. — A coisa se complica. Parece que


Milady e eu estamos preocupados com a saúde da mesma pessoa. Muito bem!
Planchet, como vai indo esse simpático sr. de Wardes? Quer dizer que ele não
morreu?
— Não, patrão, ele vai indo como pode ir alguém com quatro estocadas no
corpo, pois o senhor aplicou, sem resposta, quatro nesse fidalgo, e ele ainda
está fraco, tendo perdido quase todo o sangue. Como eu tinha dito ao patrão,
Lubin não me reconheceu e me contou nossa aventura de ponta a ponta.
— Excelente, Planchet, você é o rei dos lacaios. Agora, monte seu cavalo e
alcancemos a carruagem.
Não demorou muito. No fim de cinco minutos avistaram a carruagem
parada no lado oposto da estrada. Um cavaleiro trajado suntuosamente
mantinha-se na portinhola.
A conversa entre Milady e o cavaleiro estava tão animada que d’Artagnan
parou do outro lado da carruagem sem que ninguém, exceto a graciosa
criadinha, percebesse sua presença.
A conversa transcorria em inglês, língua que d’Artagnan não dominava,
mas, pelo tom, o rapaz julgou presumir que a bela inglesa estava louca de
raiva. Ela encerrou com um gesto que não deixou dúvida quanto à natureza
dessa conversa: foi um golpe de leque aplicado com tamanha força que o
pequeno atavio feminino voou em mil pedaços.
O cavaleiro deu uma risada que pareceu irritar Milady.
D’Artagnan pensou ser o momento de intervir. Aproximou-se da outra
portinhola, apresentando-se respeitosamente, e perguntou:
— Posso ser-lhe útil em alguma coisa, senhora? Parece-me que o cavaleiro
irritou-a. Diga uma palavra, e me encarrego de punir sua falta de cortesia.
Mal ouvira as primeiras palavras, Milady voltara-se, olhando para o
mancebo com espanto. Quando ele terminou, a bela dama respondeu num
excelente francês:
— Cavalheiro, com muito gosto me colocaria sob sua proteção se a pessoa
que me provoca não fosse meu irmão.
— Ah, nesse caso, peço desculpas — disse d’Artagnan. — Bem vê que eu
o ignorava.
— O que deu na cabeça desse aloprado — bradou o cavaleiro que Milady
designara como seu parente, abaixando-se até a portinhola —, e por que ele
não segue seu caminho?
— Aloprado é quem me chama — retrucou d’Artagnan, abaixando-se por
sua vez sobre o pescoço de seu cavalo, e respondendo da portinhola do seu
lado. — Não sigo meu caminho porque me deu vontade de parar aqui.
O cavaleiro dirigiu algumas palavras em inglês à irmã.
— Dirijo-me ao senhor em francês — disse d’Artagnan —, faça-me então
o favor de responder na mesma língua. O senhor é irmão da senhora, pois
seja, mas não é meu, felizmente.
Seria de se supor que Milady, medrosa como geralmente são as mulheres,
iria se interpor nesse início de provocação, a fim de impedir que a discussão
fosse mais longe, mas, ao contrário, ela se jogou no fundo de sua carruagem e
gritou friamente ao cocheiro.
— Já para o palácio!
A bela criadinha lançou um olhar de preocupação para d’Artagnan, cuja
fisionomia simpática parecia ter tido algum efeito sobre ela.
A carruagem partiu e deixou os dois homens um diante do outro. Nenhum
obstáculo material os separava mais.
O cavaleiro fez menção de seguir o coche, porém d’Artagnan, cuja raiva já
fervilhante aumentara mais ao reconhecer nele o inglês que, em Amiens,
ganhara seu cavalo e quase ganhara de Athos seu diamante, agarrou-lhe as
rédeas e o deteve.
— Ei, cavalheiro — disse ele —, o senhor me parece ainda mais aloprado
que eu, pois algo me diz que finge esquecer a pendência que temos a
resolver.
— Ah, ah — disse o inglês —, é o senhor, meu mestre. Pelo visto, continua
louco por um joguinho?
— Sim, e isso me lembra que tenho uma desforra a tirar. Veremos, meu
caro senhor, se maneja tão habilidosamente o florete quanto os dados.
— Bem vê que não tenho espada — disse o inglês. — Quer bancar o
valente contra um homem desarmado?
— Espero sinceramente que tenha uma em casa — replicou d’Artagnan. —
Em todo caso, tenho duas e, se quiser, empresto-lhe uma.
— Desnecessário — devolveu o inglês —, tenho um bom estoque desses
utensílios.
— Muito bem, nobre fidalgo — disse d’Artagnan —, escolha a mais
comprida e venha me mostrá-la esta noite.
— Onde, por favor?
— Atrás do Luxemburgo. É um bairro encantador para passeios do tipo
que estou lhe propondo.
— Está bem, estaremos lá.
— A que horas?
— Às seis.
— A propósito, tem provavelmente um ou dois amigos.
— Ora, tenho três, que ficarão honradíssimos de fazer o mesmo programa
que eu.
— Três? Que coincidência magnífica! — disse d’Artagnan. — É
exatamente a minha conta!
— Agora, quem é o senhor? — perguntou o inglês.
— Sou o sr. d’Artagnan, fidalgo gascão servindo nos guardas, companhia
do sr. des Essarts. E o senhor?
— Eu sou lorde de Winter, barão de Sheffield.
— Seu criado, senhor barão — disse d’Artagnan —, embora o senhor
tenha nomes bem difíceis de guardar.
Esporeando seu cavalo, o rapaz saiu a galope e retomou o caminho de
Paris.
Como sempre fazia nessas ocasiões, d’Artagnan foi direto à casa de Athos.
Encontrou-o deitado num grande sofá, onde esperava, como prometido,
que seu equipamento surgisse do nada.
Contou-lhe tudo que acabava de acontecer, sem porém mencionar a carta
do sr. de Wardes.
Athos ficou encantado ao saber que ele iria duelar com um inglês. Já
dissemos que este era o seu sonho.
Os dois mandaram os lacaios chamarem imediatamente Porthos e Aramis,
a quem informaram do que se tratava.
Porthos desembainhou sua espada e começou a lutar com a parede,
recuando de tempos em tempos e fazendo mesuras como um dançarino.
Aramis, que continuava a trabalhar em seu poema, fechou-se no banheiro de
Athos e pediu que só o incomodassem no momento de desembainhar.
Athos fez um sinal a Grimaud, pedindo uma garrafa.
Quanto a d’Artagnan, ele concebeu silenciosamente um pequeno plano
pessoal, que veremos mais tarde posto em prática, o qual lhe prometia
alguma graciosa aventura, como era possível supor pelos sorrisos que, de
tempos em tempos, atravessavam seu rosto, iluminando seus devaneios.
31. Ingleses e franceses

C hegada a hora, foram todos e mais os quatro lacaios para os fundos do


Luxemburgo, até um cercado cheio de cabras. Athos deu uma moeda ao
cabreiro para que desaparecesse. Os lacaios foram encarregados da
sentinela.
Dali a pouco, uma tropa silenciosa aproximou-se do mesmo cercado,
entrou e juntou-se aos mosqueteiros. Em seguida, de acordo com os costumes
de além-mar, foram feitas as apresentações.
Os ingleses eram todos gente da mais alta estirpe, o que fez com que os
nomes extravagantes de seus adversários fossem para eles objeto não apenas
de surpresa, como de inquietude.
— Mas, com isso tudo — disse lorde de Winter, quando os três amigos
declinaram seus nomes —, não sabemos quem são vocês, e não duelamos
com nomes desse tipo. São nomes de pastores.
— Isso mesmo, como supõe corretamente, milorde, são nomes falsos —
disse Athos.
— O que nos dá um desejo ainda maior de conhecer os nomes verdadeiros
— rebateu o inglês.
— O senhor jogou conosco sem conhecê-los — disse Athos —, e o
resultado foi que nos ganhou dois cavalos!
— É verdade, mas não arriscávamos senão nosso dinheiro; dessa vez,
arriscamos nosso sangue. Jogamos com qualquer um, duelamos apenas com
nossos pares.
— Está certo — disse Athos. E chamou à parte aquele dos quatro ingleses
com o qual devia bater-se, e disse-lhe seu nome baixinho.
Porthos e Aramis fizeram o mesmo de seu lado.
— Isso lhe basta — perguntou Athos a seu adversário —, já me considera
suficientemente ilustre para se dispor a cruzar ferros comigo?
— Sim, senhor — disse o inglês, inclinando-se.
— Pois bem! Agora, querem que eu lhes diga uma coisa? — continuou
friamente Athos.
— O quê? — perguntou o inglês.
— Os senhores teriam feito melhor em não exigir que lhes revelasse minha
identidade.
— Por quê?
— Porque me julgam morto, porque tenho razões para desejar que não
saibam que estou vivo, e porque serei obrigado a matá-lo para que meu
segredo não se espalhe por aí.
O inglês fitou Athos, julgando que este gracejava, mas Athos estava muito
longe de gracejar.
— Senhores — disse ele, dirigindo-se ao mesmo tempo a seus
companheiros e a seus adversários —, estamos prontos?
— Sim — responderam numa só voz ingleses e franceses.
— Então, em guarda — anunciou Athos.
E imediatamente oito espadas brilharam aos raios do sol poente. O
combate foi encarniçado desde o princípio, como seria natural entre pessoas
duas vezes inimigas.
Athos esgrimia com tanta calma e método que parecia estar numa sala de
armas.
Porthos, provavelmente corrigido do excesso de confiança por sua aventura
de Chantilly, jogava com um pouco mais de sutileza e prudência.
Aramis, que tinha o terceiro canto de seu poema para terminar,
empenhava-se como um homem apressado.
Athos foi o primeiro a matar seu adversário. Deu-lhe apenas uma estocada,
mas, como tinha avisado, uma estocada mortal, com a espada atravessando-
lhe o coração.
Porthos, o segundo, deitou o seu no capim. Trespassou-lhe a coxa. Então,
como o inglês, sem muita resistência, entregara-lhe sua espada, Porthos
tomou-o nos braços e carregou-o para sua carruagem.
Aramis pressionou o seu com tanto vigor que este, após uns cinquenta
passos para trás, acabou fugindo com tudo o que as suas pernas podiam dar, e
desapareceu sob os apupos dos lacaios.
Quanto a d’Artagnan, optara pura e simplesmente por uma tática defensiva.
Depois, quando seu adversário acusou o cansaço, ele, com um vigoroso
esbarrão, fez saltar sua espada. O barão, vendo-se desarmado, recuou dois ou
três passos. Nesse movimento, porém, seu pé escorregou e ele caiu para trás.
D’Artagnan num pulo estava em cima dele, com a espada em sua garganta.
— Eu poderia matá-lo, cavalheiro — disse ao inglês —, e está à minha
mercê, mas concedo-lhe a vida por amor à sua irmã.
D’Artagnan estava no auge da alegria, acabava de realizar o plano que
arquitetara previamente, cujo desdobramento gerara em seu rosto os sorrisos
que mencionamos.
O inglês, encantado por estar lidando com um fidalgo tão compreensivo,
deu um abraço em d’Artagnan, fez mil agrados aos três mosqueteiros e, como
o adversário de Porthos já estava no coche e o de Aramis botara sebo nas
canelas, todos voltaram seus pensamentos apenas para o defunto.
Quando Porthos e Aramis já o despiam, na esperança de que seu ferimento
não fosse mortal, uma grande bolsa escapou de seu cinto. D’Artagnan
recolheu-a e estendeu-a a lorde de Winter.
— E que diabos quer que eu faça com isso? — perguntou o inglês.
— Devolva à família dele — respondeu d’Artagnan.
— Sua família não precisa dessa miséria para nada. Ela herda quinze mil
luíses de renda. Guarde essa bolsa para seus lacaios.
D’Artagnan guardou a bolsa em sua algibeira.
— E agora, meu jovem amigo, pois me permitirá, espero, dar-lhe esse
título — disse lorde de Winter —, esta noite, se for de seu agrado, vou
apresentá-lo à minha irmã, lady Clarick, pois quero que caia em suas boas
graças também. Como não anda malvista na corte, talvez no futuro uma
palavra dita por ela possa ser-lhe útil.
D’Artagnan até corou de tanto prazer, inclinando-se para demonstrar seu
assentimento.
Nesse ínterim, Athos aproximara-se de d’Artagnan.
— O que pretende fazer com a bolsa? — perguntou-lhe baixinho ao
ouvido.
— Ora, eu pretendia devolvê-la a você, meu caro Athos.
— Para mim? E por que isso?
— Mas não foi você que o matou? São seus ricos despojos.
— Eu, herdeiro de um inimigo! — esbravejou Athos. — Por quem me
toma?
— É a tradição na guerra — explicou d’Artagnan. — Por que não seria
num duelo?
— Mesmo no campo de batalha — disse Athos —, nunca fiz uma coisa
dessas.
Porthos deu de ombros. Aramis, com um movimento dos lábios, aprovou
Athos.
— Então — disse d’Artagnan —, doemos esse dinheiro aos lacaios, como
lorde de Winter nos aconselhou a fazer.
— Sim — disse Athos —, doemos essa bolsa, mas não a nossos lacaios, e
sim aos lacaios ingleses.
Athos pegou a bolsa e jogou-a na mão do cocheiro:
— Para você e seus colegas.
Essa grandeza de atitude num homem totalmente sem recursos
impressionou o próprio Porthos, e a generosidade francesa, relatada por lorde
de Winter e seu amigo, fez grande sucesso em toda a parte, exceto junto a
Grimaud, Mousqueton, Planchet e Bazin.
Lorde de Winter, despedindo-se de d’Artagnan, forneceu-lhe o endereço de
sua irmã. Ela morava na Place Royale, então o bairro da moda, no nº 6. Aliás,
comprometia-se a vir buscá-lo para promover o encontro. D’Artagnan então
marcou às oito horas, na casa de Athos.
Essa apresentação a Milady tomou conta da cabeça do nosso rapaz. Ele se
lembrava da maneira estranha como aquela mulher se misturava ao seu
destino. Tinha convicção de que era uma criatura do cardeal, e no entanto
sentia-se irresistivelmente atraído por ela. Temia apenas ser reconhecido por
Milady como o homem de Meung e de Dover. Ela então saberia de sua
amizade com o sr. de Tréville e, por conseguinte, que pertencia de corpo e
alma ao rei. Tal revelação, feita precocemente, o faria perder parte de suas
vantagens, pois, sabendo Milady como a conhecera, jogaria com ele de igual
para igual. Se havia algum indício de ligação amorosa entre ela e o conde de
Wardes, nosso jovem presunçoso preocupava-se muito pouco com isso,
embora o conde fosse também jovem, esbelto, rico e paparicado pelo cardeal.
Nada como ter vinte anos, sobretudo quando nascemos em Tarbes.
A primeira providência de d’Artagnan foi dirigir-se o quanto antes à sua
casa, para fazer uma toalete rutilante. Depois voltou à casa de Athos e, como
sempre fazia, contou-lhe tudo. Athos ouviu seus planos. Então balançou a
cabeça, com uma espécie de amargura, e recomendou-lhe prudência.
— Como! — disse-lhe ele. — Você acaba de perder uma mulher que
julgava boa, simpática, perfeita, e já corre atrás de outra!
D’Artagnan sentiu a verdade dessa censura.
— Eu amava a sra. Bonacieux com o coração, e amo Milady com a cabeça
— explicou ele. — Indo à casa dela, meu interesse principal é esclarecer o
papel que desempenha na corte.
— O papel que desempenha… Pelo amor de Deus! Não é difícil adivinhar,
por tudo que você me disse. Ela é alguma emissária do cardeal: a mulher que
o atrairá para uma armadilha, na qual você perderá a cabeça na mais santa
ingenuidade.
— Diabos, meu caro Athos, parece-me que você vê as coisas sob uma luz
negra demais!
— O que quer, meu caro, eu desconfio das mulheres. Sou pago para isso, e
sobretudo das mulheres louras. Milady é loura, pelo que me diz…
— Ela tem os cabelos do louro mais deslumbrante que se pode imaginar.
— Pobre d’Artagnan — disse Athos.
— Escute, quero apenas colher informações. Quando souber o que desejo
saber, eu me afastarei.
— Pois colha suas informações — respondeu fleugmaticamente Athos.
Lorde de Winter chegou na hora marcada, mas Athos, avisado a tempo,
refugiou-se no segundo cômodo. Portanto, ele encontrou d’Artagnan sozinho.
Como eram quase oito horas, conduziu o rapaz.
Uma elegante carruagem esperava embaixo, a qual, atrelada a dois
excelentes cavalos, num instante os levou à Place Royale.
Milady Clarick recebeu graciosamente d’Artagnan. Seu palácio era de uma
suntuosidade notável. Embora a maioria dos ingleses, expulsos pela guerra,
houvesse deixado a França, ou estivesse prestes a deixá-la, Milady acabava
de mandar construir novas despensas em sua casa, numa demonstração de
que a medida geral que enxotava os ingleses não lhe dizia respeito.
— A senhora tem aqui — disse lorde de Winter, apresentando d’Artagnan
à irmã — um jovem fidalgo que teve minha vida nas mãos, e que não quis
abusar de suas vantagens, embora fôssemos duas vezes inimigos, pois fui eu
que o insultei e sou inglês. Agradeça-lhe então, senhora, se tem alguma
amizade por mim.
Milady franziu ligeiramente o cenho. Uma nuvem quase imperceptível
atravessou sua fronte, e um sorriso tão estranho apareceu em seus lábios que
o mancebo, percebendo essa tripla nuance, sentiu um calafrio.
O irmão não percebeu nada, pois se voltara para brincar com o macaco
favorito de Milady, que o puxara pelo gibão.
— Seja bem-vindo, cavalheiro — disse Milady, com uma voz cuja doçura
singular contrastava com os sintomas de mau humor que d’Artagnan acabava
de observar —, o senhor adquiriu hoje direitos eternos à minha gratidão.
O inglês então voltou-se novamente e narrou o combate sem omitir um
detalhe. Milady escutou-o com grande atenção. Entretanto, via-se facilmente,
por maior que fosse o esforço dela em esconder suas impressões, que aquele
relato não lhe agradava. O sangue subia-lhe à cabeça e seu pezinho agitava-se
impacientemente sob o vestido.
Lorde de Winter não percebeu nada. Depois, quando terminou, aproximou-
se de uma mesa onde havia uma bandeja com uma garrafa de xerez e copos.
Ele encheu dois copos e, com um sinal, convidou d’Artagnan a beber.
D’Artagnan sabia ser uma desfeita para um inglês alguém recusar-se a
brindar com ele. Aproximou-se então da mesa e pegou o segundo copo.
Enquanto isso, não perdera Milady de vista, e por um espelho percebeu a
mudança que acabava de se operar no rosto da anfitriã. Agora que não se
julgava mais observada, um sentimento similar à ferocidade estampava-se em
sua fisionomia. Ela mordia um lenço com seus belos dentes.
Foi quando entrou a criada bonitinha que já chamara a atenção de
d’Artagnan. Ela disse em inglês algumas palavras a lorde de Winter, que
pediu imediatamente a d’Artagnan licença para se retirar, desculpando-se
pela urgência do assunto que o esperava e encarregando a irmã de obter o
perdão de seu convidado.
D’Artagnan trocou um aperto de mão com lorde de Winter e voltou para
perto de Milady. A fisionomia dessa mulher, com uma mobilidade
surpreendente, recuperara sua expressão graciosa, apenas algumas
manchinhas vermelhas disseminadas no lenço indicavam que tinha mordido
os lábios até sangrar. Lábios que, aliás, eram magníficos, dir-se-iam feitos de
coral.
A conversa fluiu melhor. Milady parecia totalmente refeita. Contou que
lorde de Winter era apenas seu cunhado, e não seu irmão. Tinha se casado
com o caçula da família, que a deixara viúva e com um filho. Esse filho era o
único herdeiro de lorde de Winter, se lorde de Winter não viesse a se casar.
Tudo isso confirmava para d’Artagnan a existência de um véu encobrindo
alguma coisa, mas ele ainda não distinguia nada sob esse véu.
Em todo caso, ao fim de meia hora de conversa, d’Artagnan estava
convencido de que Milady era sua compatriota. O francês que falava era tão
castiço e elegante que não deixava nenhuma dúvida a esse respeito.
D’Artagnan foi pródigo em declarações galantes e protestos de fidelidade.
A todas as banalidades que nosso gascão deixava escapar, Milady sorria com
benevolência. Chegada a hora de partir, d’Artagnan despediu-se de Milady e
saiu do salão como o mais feliz dos homens.
No alto da escada, encontrou a criadinha bonita, a qual docemente roçou
nele ao passar, enrubescendo por completo. Ela desculpou-se por havê-lo
tocado, com uma voz tão gentil que o perdão lhe foi concedido no mesmo
instante.
D’Artagnan voltou no dia seguinte, sendo recebido ainda melhor do que na
véspera. Lorde de Winter não se encontrava, e foi Milady quem lhe fez todas
as honras da casa. Pareceu dispensar grande interesse por ele, perguntando-
lhe de onde era, quem eram seus amigos e se não lhe passara pela cabeça
alistar-se no serviço do cardeal.
D’Artagnan, que, como sabemos, era mais do que prudente para um rapaz
de vinte anos, lembrou-se então de suas suspeitas sobre Milady. Fez-lhe um
grande elogio de Sua Eminência, declarando que não teria deixado de entrar
nos guardas do cardeal em vez de entrar nos guardas do rei se, por exemplo,
tivesse conhecido o sr. de Cavois em vez de conhecer o sr. de Tréville.
Milady mudou de assunto sem nenhuma afetação, e perguntou a
d’Artagnan da maneira mais displicente do mundo se já estivera algum dia na
Inglaterra.
D’Artagnan respondeu que havia sido enviado pelo sr. de Tréville para
cuidar de um remonte de cavalos, inclusive trazendo quatro de amostra.
Milady, durante a conversa, mordeu o beiço por duas ou três vezes: tinha à
sua frente um gascão que jogava para ganhar.
Na mesma hora da véspera, d’Artagnan retirou-se. No corredor, encontrou
novamente a linda Ketty, pois este era o nome da criada. Ela o olhou com
uma expressão de benevolência misteriosa que não deixava margem à dúvida,
mas d’Artagnan estava tão concentrado na ama que nem de longe reparou nos
sinais que a criada lhe enviava.
Ele voltou à casa de Milady no dia seguinte e no outro, e todas as vezes
Milady recebeu-o magnificamente.
Todas as vezes também, fosse na antecâmara, fosse no corredor, ele
encontrava a bela criadinha.
Mas, como dissemos, d’Artagnan ignorava solenemente a perseverança da
pobre Ketty.
32. Um jantar de promotor

A pesar de tudo, o duelo no qual Porthos desempenhara papel tão brilhante


não o fizera esquecer do jantar para o qual fora convidado pela mulher do
promotor. No dia seguinte, por volta de uma hora, ele mandou que
Mousqueton lhe desse uma última escovada, e encaminhou-se para a rua dos
Gansos, no passo do homem duplamente afortunado.
Seu coração disparava, mas não, como o de d’Artagnan, por um jovem e
impaciente amor. Não, um interesse mais material fustigava-lhe o sangue. Iria
finalmente transpor aquele umbral misterioso, subir aquela escada
desconhecida que haviam subido, um a um, os velhos escudos do dr.
Coquenard.
Veria com os próprios olhos certo baú cuja imagem vira vinte vezes em
sonhos; baú comprido e profundo, fechado a cadeado, aferrolhado, pregado
no solo; baú de que ouvira falar muito, e cujas mãos um tanto ressequidas, é
verdade, mas não sem elegância, da mulher do promotor abririam a seus
olhares admirativos.
E depois ele, o homem nômade, o homem sem fortuna, o homem sem
família, o soldado afeito às estalagens, aos bares, às tabernas, às pousadas, o
gastrônomo forçado, na maior parte do tempo, a se contentar com lanches
rápidos, iria experimentar refeições familiares, saborear um interior
confortável e entregar-se àquelas filigranas que, quanto mais duros somos,
mais nos deleitam, como dizem os velhos soldados.
Apresentar-se na qualidade de primo, sentar-se diariamente a uma boa
mesa, desenrugar a fronte amarela e vincada do velho promotor, depenar um
pouco os jovens escreventes, ensinando-lhes a banca, o passa-dez e o
lansquenê dentro das regras mais sutis, e tirando deles à guisa de honorários,
por uma hora de aula, suas economias de um mês, tudo isso atraía Porthos
enormemente.
O mosqueteiro, naturalmente, estava a par das maledicências que corriam
nessa época sobre os promotores e que lhes sobreviveram: a sovinice, a
mesquinhez e os dias de jejum. Mas como, afinal de contas, salvo alguns
acessos de economia que sempre achara muito intempestivos, Porthos vira a
promotora muito liberal, para uma promotora, bem entendido, ele esperava
encontrar uma casa de aspecto nababesco.
Na porta, porém, o mosqueteiro foi assaltado por algumas dúvidas, a
chegada não era muito animadora: uma aleia suja e escura, uma escada
sombria, onde grades encobriam parcialmente a luz de um pátio contíguo. No
primeiro andar, uma porta baixa e rebitada com enormes pregos, como a
porta principal do Grand Châtelet.
Porthos deu uma batidinha com o dedo. Um escrevente alto, pálido e
enfiado numa indômita floresta de cabelos veio abrir a porta e o
cumprimentou com ar de homem obrigado a respeitar no outro, ao mesmo
tempo, a alta estatura que indica a força, o hábito militar que sugere a patente,
e o rosto corado que denota o hábito de viver bem.
Havia outro escrevente mais baixo, atrás do primeiro, outro mais alto, atrás
do segundo, e um contínuo de doze anos atrás do terceiro. No total, três
escreventes e meio, o que, nas circunstâncias da época, sugeria uma freguesia
das mais abundantes.
Embora o mosqueteiro só devesse chegar à uma hora, desde o meio-dia a
mulher do promotor espreitava, contando com o coração de seu adorador, e
talvez também com o estômago, para fazê-lo vir mais cedo.
A sra. Coquenard chegou, pela porta do apartamento, quase ao mesmo
tempo que seu convidado chegava pela porta da escada, e a aparição da
ilustre dama tirou-o de um grande embaraço. Os escreventes dirigiam-lhe
olhares curiosos, e ele, não sabendo muito o que dizer àquela escala
ascendente e descendente, permanecia mudo.
— É meu primo! — gritou a sra. Coquenard. — Entre, entre, sr. Porthos.
O nome Porthos produziu seu efeito sobre os escreventes, que puseram-se
a rir, mas Porthos voltou-se e todos os rostos recuperaram sua natural
gravidade.
Chegaram ao gabinete do promotor após terem atravessado a antessala
onde estavam os escreventes, e o escritório onde eles deveriam estar. Este
último cômodo era uma espécie de sala escura e atulhada de papéis. Ao
saírem do escritório, deixaram a cozinha à direita e entraram na sala de
recepção.
Todos esses aposentos intercomunicantes não pareceram promissores a
Porthos. As palavras deviam ser ouvidas de longe através de todas aquelas
portas abertas. Além do mais, ao passar, lançara um olhar rápido e inquisitivo
para a cozinha, e constatou, para vergonha da promotora e para seu grande
arrependimento, a inexistência do fogo, da animação, do movimento que, na
hora de uma boa refeição, geralmente reinam no santuário da gastronomia.
O promotor decerto fora avisado dessa visita, pois não demonstrou
qualquer surpresa diante de Porthos, que avançou até ele com desenvoltura e
cumprimentou-o amavelmente.
— Então somos primos, ao que parece, sr. Porthos? — perguntou o
promotor, levantando-se com força dos braços de sua poltrona de junco.
O ancião, envolto num folgado gibão preto, no qual seu corpo franzino se
perdia, era verde e seco. Seus olhinhos cinzentos brilhavam como
carbúnculos, parecendo, junto com a boca repuxada, a única parte de seu
rosto onde a vida se conservara. Infelizmente, as pernas começavam a negar
apoio a toda sua máquina óssea. Fazia cinco ou seis meses que tal achaque
fizera-se sentir, tornando o digno promotor praticamente um escravo da
mulher.
O primo foi aceito com resignação, nada além. Em forma, o dr. Coquenard
teria se negado a reconhecer qualquer parentesco com o sr. Porthos.
— Sim, senhor, somos primos — respondeu Porthos, sem qualquer
constrangimento, pois, afinal, nunca cogitara ser recepcionado com
entusiasmo pelo marido.
— Por parte das mulheres, presumo? — disse maliciosamente o promotor.
Porthos não acusou a indireta e a recebeu como uma ingenuidade, da qual
riu com seu grande bigode. A sra. Coquenard, sabendo que o promotor
ingênuo era uma variedade raríssima na espécie, sorriu um pouco e corou
muito.
O dr. Coquenard tinha, desde a chegada de Porthos, ficado de olho num
grande armário instalado em frente à sua escrivaninha de carvalho. Porthos
compreendeu que aquele armário, embora não correspondesse em nada à
forma que vira em seus sonhos, devia ser o bendito baú, e congratulou-se
porque, na realidade, o móvel tinha seis pés a mais de altura que no sonho.
O dr. Coquenard não aprofundou suas pesquisas genealógicas, mas,
movendo seu olhar inquieto do armário para Porthos, contentou-se em dizer:
— O senhor nosso primo, antes de sua partida para o campo, fará a
gentileza de jantar uma vez conosco, não é, sra. Coquenard?
Dessa vez, Porthos recebeu o golpe de cheio no estômago, e doeu.
Tampouco a sra. Coquenard pareceu insensível, pois acrescentou:
— Meu primo não voltará se achar que o tratamos mal. Mas, por outro
lado, tem muito pouco tempo para passar em Paris, e por conseguinte para
nos visitar, para que não o requisitemos quase todos os instantes de que pode
dispor até sua partida.
“Oh, minhas pernas, malditas pernas! Onde estão vocês?” pensou
Coquenard. E tentou sorrir.
O socorro que chegara a Porthos, quando suas esperanças gastronômicas
iam sendo atacadas, inspirou ao mosqueteiro uma gratidão imensa por sua
promotora.
Não demorou a chegar a hora da refeição. Passaram todos à sala de jantar,
um grande aposento escuro situado defronte à cozinha.
Os escreventes, ao que parece, tinham sentido aromas inabituais na casa, e
foram de uma pontualidade militar, segurando na mão seus banquinhos,
ansiosos para se sentar. Seus maxilares remexiam-se antecipadamente com
intenções pavorosas.
“Que horror!” pensou Porthos, lançando um olhar para os três famintos,
pois o contínuo não era admitido às honras da mesa processual, como seria
razoável pensarmos. “Que horror! Seu eu fosse meu primo, não sustentaria
esses glutões. Parecem náufragos que não comem há seis semanas.”
O dr. Coquenard entrou, empurrado em sua cadeira de rodas pela sra.
Coquenard, a quem Porthos, por sua vez, veio ajudar a deslizar o marido até a
mesa.
Assim que chegou, ele remexeu o nariz e os maxilares, imitando seus
escreventes.
— Oh, oh! — exclamou o promotor —, eis uma sopa convidativa!
“Que diabos eles cheiram de tão extraordinário nessa sopa?” perguntou-se
Porthos, diante de um caldo pálido, abundante mas completamente opaco,
sobre o qual boiavam umas torradinhas, raras como as ilhas de um
arquipélago.
A sra. Coquenard sorriu e, a um sinal seu, sentaram-se todos com
afobação.
O dr. Coquenard foi o primeiro a ser servido, depois Porthos. Em seguida,
a sra. Coquenard encheu seu prato e distribuiu as torradas sem caldo para os
escreventes indóceis.
Nesse momento, a porta da sala de jantar se abriu sozinha, rangendo, e
Porthos, através dos batentes entreabertos, percebeu o contínuo, que, sem
poder tomar parte no banquete, comia seu pão aproveitando o duplo aroma da
cozinha e da sala de jantar.
Depois da sopa, a criada trouxe uma galinha cozida, magnificência que fez
dilatar as papilas dos comensais, como se estivessem prestes a engalfinhar-se.
— Percebe-se que ama sua família, sra. Coquenard — disse o promotor,
com um sorriso quase trágico. — Trata-se, com certeza, de uma amabilidade
sua para com seu primo.
A pobre galinha era esquálida e revestida por uma dessas peles grossas e
enrugadas que os ossos, por mais que tentem, jamais conseguem perfurar.
Devem ter pelejado para arrancá-la de seu poleiro, para o qual se retirara para
morrer de velhice.
“Diabos!” pensou Porthos. “Eis o que é bem triste: a velhice, eu respeito,
mas dispenso-a tranquilamente, cozida ou assada.”
E ele observou ao redor para verificar se sua opinião era partilhada, mas,
ao contrário dele, viu apenas olhos flamejantes, que devoravam
antecipadamente a sublime galinha, objeto de seu desprezo.
A sra. Coquenard puxou a bandeja para si e destrinchou habilidosamente as
duas grandes coxas escuras, que colocou no prato do marido; cortou o
pescoço junto com a cabeça, que reservou para si própria; soltou a asa para
Porthos, e devolveu à criada, que acabava de trazê-lo, o animal, que voltou
praticamente intacto e desapareceu antes de o mosqueteiro ter tido tempo de
examinar as variações que o desapontamento, segundo as naturezas e
temperamentos dos que dele padecem, imprime nas fisionomias.
Depois da galinha, uma bandeja de favas fez sua entrada, bandeja enorme,
na qual alguns ossos de carneiro, que poderíamos julgar à primeira vista
acompanhados de carne, fingiam exibir-se. A sra. Coquenard distribuiu essas
iguarias aos rapazes com a moderação de uma boa dona de casa.
A hora do vinho chegara. De uma garrafa de arenito bem exígua, o dr.
Coquenard serviu um terço de copo para cada um dos rapazes, serviu-se a si
mesmo em proporções aproximadamente iguais, e a garrafa passou depois
para o lado de Porthos e da sra. Coquenard.
Os rapazes completavam com água esse terço de vinho, depois, quando
tinham bebido metade do copo, enchiam-no de novo, e assim fazendo
chegavam ao fim da refeição engolindo uma bebida que, da cor do rubi,
passara à do topázio queimado.
Porthos comeu timidamente sua asa de galinha e estremeceu quando
sentiu, sob a mesa, o joelho da promotora vindo ao encontro do seu. Bebeu
então meio copo daquele vinho batizado, reconhecendo-o como da intragável
cepa de Montreuil, o terror dos palatos calejados.
O dr. Coquenard observou-o tomar o vinho sem água e suspirou.
— Aceita um pouco dessas favas, primo Porthos? — ofereceu a sra.
Coquenard, num tom que queria dizer: “Vá por mim, recuse.”
“Deus me livre provar uma coisa dessas!” murmurou Porthos consigo.
Depois, bem alto:
— Obrigado, prima — disse ele —, não tenho mais fome.
Fez-se um silêncio. Porthos não sabia mais o que fazer. O promotor repetiu
várias vezes:
— Ah, sra. Coquenard, dou-lhe meus parabéns, seu jantar estava um
verdadeiro banquete. Meu Deus, como comi!
O dr. Coquenard tomara sua sopa, comera as coxas escuras da galinha e o
único osso de carneiro no qual havia um pouco de carne.
Porthos julgou-se ludibriado e começou a levantar seu bigode e a franzir a
sobrancelha. Porém, o joelho da sra. Coquenard veio delicadamente
recomendar-lhe paciência.
Esse silêncio e essa interrupção do serviço, que continuavam ininteligíveis
para Porthos, tinham, ao contrário, um significado terrível para os
escreventes: a um olhar do promotor, acompanhado de um sorriso da sra.
Coquenard, ele se levantaram da mesa, dobraram seus guardanapos ainda
mais lentamente, cumprimentaram e saíram.
— Vão, rapazes, o trabalho ajuda a digestão — disse gravemente o
promotor.
Quando eles se foram, a sra. Coquenard levantou-se e tirou do bufê um
pedaço de queijo, uma marmelada e um bolo de amêndoa e mel que ela
mesma havia feito.
O dr. Coquenard franziu o cenho, vendo naquilo um excesso. Porthos
mordeu o beiço, vendo que não havia jantar.
Ele olhou para verificar se a bandeja de favas ainda estava ali, mas a
bandeja de favas desaparecera.
— Um autêntico banquete — exclamou o dr. Coquenard, agitando-se em
sua cadeira —, um autêntico banquete, epulaœ epularum. Lúculo janta na
casa de Lúculo.
Porthos olhou para a garrafa perto dele e ponderou que, com vinho, pão e
queijo, jantaria, porém não havia mais vinho, a garrafa estava vazia. O sr. e a
sra. Coquenard pareceram não se aperceber disso.
“Entendi”, disse Porthos consigo mesmo, “estou avisado.”
Ele passou a língua numa colherinha de geleia e cravou os dentes na torta
grudenta da sra. Coquenard.
“Agora”, pensou Porthos, “o sacrifício está consumado. Ah, se não fosse a
esperança de examinar, com a sra. Coquenard, o armário do marido!”
O dr. Coquenard, após as delícias daquela refeição, que ele qualificava
como um exagero, sentiu necessidade de fazer a sesta. Porthos esperava que a
coisa se desse imediatamente naquele exato local, mas o maldito promotor
não fez por menos. Tiveram que conduzi-lo para o seu quarto e ele gritou
enquanto não o puseram diante de seu armário, sobre cujo rebordo, por maior
precaução, ainda descansou os pés.
A mulher do promotor levou Porthos a um aposento contíguo e começaram
a estabelecer as bases da reconciliação.
— O senhor poderia vir jantar três vezes por semana — propôs a sra.
Coquenard.
— Obrigado — recusou Porthos —, não gosto de abusar. Além do quê,
preciso pensar no meu equipamento.
— É verdade… — lembrou-se a promotora, gemendo —, é esse malfadado
equipamento.
— Oh — suspirou Porthos — sim, é ele.
— Mas de que, afinal, se compõe o equipamento de sua corporação, sr.
Porthos?
— Oh, são muitos itens — disse Porthos. — Os mosqueteiros, como a
senhora sabe, são soldados de elite, e precisam de vários objetos de que não
carecem os guardas ou os suíços.
— Fale um pouco mais, entre nos detalhes.
— Ora, isso pode chegar a… — disse Porthos, que preferia discutir o
atacado, e não o varejo.
A mulher do promotor esperava, fremente.
— A quanto? — perguntou ela. — Espero que não exceda…
Calou-se, faltavam-lhe as palavras.
— Oh, não, não excede duas mil e quinhentas libras. Acho inclusive que,
economizando aqui e ali, com duas mil libras eu me arranjo.
— Meu Deus, duas mil libras! — exclamou ela. — Mas é uma fortuna!
Porthos fez uma careta das mais significativas, a sra. Coquenard
compreendeu-a.
— Perguntei os detalhes — explicou ela —, porque, tendo muitos parentes
e fregueses no comércio, estou quase certa de conseguir as coisas cem por
cento abaixo do preço que o senhor pagaria por elas.
— Ah! — alegrou-se Porthos. — Se foi isso que quis dizer.
— Sim, querido sr. Porthos! Diga-me, não precisa primeiro de um cavalo?
— Sim, um cavalo.
— Pois bem, está resolvido.
— Ah! — disse Porthos, radiante. — Então, no que se refere ao cavalo,
assunto resolvido. Depois, preciso dos arreios completos, que se compõem de
objetos que apenas um mosqueteiro pode comprar, e que não custam, aliás,
mais de trezentas libras.
— Trezentas libras, consideremos então trezentas libras — disse a mulher
do promotor, com um suspiro.
Porthos sorriu. Todos se lembram que ele possuía a sela proveniente de
Buckingham, o que significava trezentas libras que pretendia enfiar
furtivamente no bolso.
— Depois — continuou o mosqueteiro —, temos o cavalo do meu lacaio e
a mala. Quanto às armas, não precisa se preocupar.
— Um cavalo para o lacaio? — repetiu, hesitando, a mulher do promotor.
— Mas é um luxo de grão-senhor, meu amigo.
— E por acaso sou algum pé de chinelo! — indignou-se orgulhosamente
Porthos.
— Não, eu lhe dizia apenas que uma bonita mula às vezes é tão imponente
quanto um cavalo, e me parece que, se dermos uma bonita mula para
Mousqueton…
— Vá lá, uma bonita mula — concedeu Porthos. — A senhora tem razão,
vi ilustríssimos senhores espanhóis cujo séquito inteiro andava de mula. Mas
então, deixemos claro, sra. Coquenard, uma mula com penachos e guizos?
— Fique descansado — disse a sra. Coquenard.
— Falta a mala — prosseguiu Porthos.
— Oh, fique descansado! — exclamou a sra. Coquenard. — Meu marido
tem cinco ou seis malas, o senhor escolherá a melhor. Há uma, em especial,
que ele gostava muito de usar em suas viagens, cabe um mundo dentro dela.
— Então essa mala está vazia? — perguntou ingenuamente Porthos.
— Claro que está vazia — respondeu ingenuamente a promotora.
— Ah, mas a mala de que eu preciso é uma mala bem-estufada, minha
querida.
A sra. Coquenard soltou novos suspiros. Molière ainda não escrevera a
peça O avarento, a sra. Coquenard, portanto, está à frente de Harpagon.
Enfim, o resto do equipamento foi sucessivamente debatido do mesmo
modo, e o desfecho da cena foi que a mulher pediria ao marido um
empréstimo de oitocentas libras em dinheiro, além de fornecer o cavalo e a
mula que teriam a honra de carregar para a glória Porthos e Mousqueton.
Estabelecidas essas condições e estipulados tanto os juros quanto o prazo
do reembolso, Porthos despediu-se da sra. Coquenard. Ela bem que tentou
segurá-lo, lançando olhares adocicados, mas Porthos alegou os deveres de
ofício e a promotora viu-se obrigada a ceder a vez ao rei.
O mosqueteiro chegou em casa com fome e de péssimo humor.
33. Criada e patroa

E nquanto isso, como apontamos, a despeito dos gritos de sua consciência e


dos ponderados conselhos de Athos, d’Artagnan sentia-se cada vez mais
apaixonado por Milady. O atrevido gascão, portanto, cortejava-a
diariamente, convencido de que, cedo ou tarde, ela corresponderia.
Uma noite em que chegava leve e saltitante como um homem que espera
uma chuva de ouro, encontrou a criada sob o portão do pátio, mas dessa vez a
bonita Ketty não se contentou em lhe sorrir. Quando ele passou, pegou-lhe
delicadamente a mão.
“Ótimo!” pensou d’Artagnan. “Ela está encarregada de alguma mensagem
para mim da parte de sua patroa. Quer marcar um encontro comigo que não
teria ousado marcar pessoalmente.”
E ele olhou a bela moça com a expressão mais triunfante que pôde.
— Eu gostaria de lhe dizer duas palavrinhas, senhor cavaleiro… —
balbuciou a criada.
— Fale, minha jovem, fale — disse d’Artagnan. — Sou todo ouvidos.
— Aqui é impossível. O que tenho a lhe dizer é muito longo e, acima de
tudo, secreto.
— Muito bem! Como fazer então?
— Se o senhor cavaleiro quiser me seguir — disse timidamente Ketty.
— Aonde quiser, meu anjo.
— Então, venha.
E Ketty, que não largara a mão de d’Artagnan, arrastou-o por uma
escadinha escura e em espiral. Depois de lhe ter feito subir uns quinze
degraus, abriu uma porta e disse.
— Entre, senhor cavaleiro, aqui estaremos sozinhos e poderemos
conversar.
— E que quarto é este, meu anjo? — perguntou d’Artagnan.
— O meu, senhor cavaleiro. Ele comunica com o da minha patroa por essa
porta. Mas fique tranquilo, ela não poderá ouvir o que vamos dizer, pois
nunca vem para a cama antes da meia-noite.
D’Artagnan deu uma olhada à sua volta. O quartinho era encantador, de
bom gosto e limpo, mas, malgrado seu, acabou se fixando naquela porta que
Ketty lhe havia dito conduzir ao quarto de Milady.
Ketty adivinhou o que se passava na alma do rapaz, e soltou um suspiro.
— Quer dizer que gosta muito da minha patroa, senhor cavaleiro! — disse
ela.
— Oh, mais do que posso dizer! Sou louco por ela!
Ketty deu um segundo suspiro.
— Que tristeza, senhor — disse ela —, eu lamento!
— E que diabos você vê nisso de tão desagradável? — perguntou
d’Artagnan.
— É que, senhor, minha patroa não gosta nem um pouco do senhor.
— Hein! — exclamou d’Artagnan. — Ela a teria encarregado de me
transmitir isso?
— Oh não, senhor! Fui eu que, no seu interesse, tomei a decisão de avisar-
lhe.
— Obrigado, minha boa Ketty, mas pela intenção apenas, pois a
confidência, você há de convir, não é nada agradável.
— Isso significa que não acredita em nada do que eu lhe disse, não é?
— Temos sempre dificuldade para acreditar nessas coisas, meu anjo, nem
que seja por amor-próprio.
— Quer dizer que não acredita em mim?
— Confesso que, até que se disponha a apresentar provas do que afirma…
— O que me diz desta aqui?
E Ketty puxou de seu peito um pequeno bilhete.
— Para mim? — inquiriu d’Artagnan, apoderando-se ansiosamente da
mensagem.
— Não, para outro.
— Para outro?
— Sim.
— Seu nome, seu nome! — exigiu d’Artagnan.
— Veja o destinatário.
— O sr. conde de Wardes.
A lembrança da cena de Saint-Germain veio de supetão à mente do
presunçoso gascão. Num gesto rápido como o pensamento, ele rasgou o
envelope a despeito do grito de Ketty ao ver o que estava prestes a fazer, ou
melhor, o que já estava fazendo.
— Oh, meu Deus! O que está fazendo, senhor cavaleiro? — afligiu-se ela.
— Eu, nada. — disse d’Artagnan. E leu:
O senhor não respondeu ao meu primeiro bilhete. Está doente ou teria esquecido dos olhares que me
deitou no baile da sra. de Guise?

Eis a oportunidade, conde, não a deixe escapar!


D’Artagnan empalideceu. Sentia-se ferido em seu amor-próprio, julgou-se
ferido em seu amor.
— Coitadinho do querido sr. d’Artagnan! — apiedou-se Ketty, com uma
voz cheia de compaixão e apertando novamente a mão do rapaz.
— Tem pena de mim, minha pequena! — disse d’Artagnan.
— Oh, sim, do fundo do coração, pois sei o que é o amor!
— Sabe o que é o amor? — disse d’Artagnan, observando-a pela primeira
vez com certa atenção.
— Ai de mim, sei!
— Pois bem, em vez de me lastimar, o melhor a fazer seria me ajudar a me
vingar de sua patroa.
— E de que tipo de vingança gostaria?
— Gostaria de conquistá-la, de suplantar meu rival.
— Nunca o ajudarei nesse sentido, senhor cavaleiro! — disse vivamente
Ketty.
— E por que não?
— Por duas razões.
— Quais?
— A primeira é que minha patroa nunca irá amá-lo.
— Por que diz isso?
— O senhor feriu-a no coração.
— Eu! Em que posso tê-la ferido; desde que a conheço, vivo a seus pés
como um escravo! Fale, por favor.
— Eu só diria isso ao homem… que lesse no fundo da minha alma!
D’Artagnan observou Ketty pela segunda vez. A moça era de um frescor e
uma beleza que muitas duquesas teriam comprado com sua coroa.
— Não seja por isso, Ketty — disse ele —, lerei no fundo de sua alma
quando você quiser.
E deu-lhe um beijo que fez a moça ficar vermelha como um pimentão.
— Oh, não! O senhor não me ama. É minha patroa que o senhor ama, o
senhor disse agora mesmo.
— E isso a impede de me informar a segunda razão?
— A segunda razão, senhor cavaleiro — disse Ketty animada, com o beijo
primeiro e, depois, com a expressão nos olhos do rapaz —, é que, no amor,
cada um por si.
Somente então d’Artagnan se lembrou dos olhares derramados de Ketty, de
seus encontros na antecâmara, na escada, no corredor, de sua mão roçando na
dele cada vez que se encontravam, e de seus suspiros arfantes. Concentrado
no desejo de agradar à ilustre dama, desdenhara a empregada: quem caça a
águia ignora o passarinho.
Mas dessa vez nosso gascão percebeu, de um único relance, todo o partido
que poderia tirar daquele amor que Ketty acabava de confessar de maneira
tão ingênua ou ofendida: interceptação das cartas dirigidas ao conde de
Wardes, informantes in loco, entrada a qualquer hora no quarto de Ketty,
contíguo ao de sua patroa. A perfídia, como vemos, já sacrificava a pobre
moça na origem, a fim de conquistar Milady por livre e espontânea vontade
ou à força.
— Pois bem! — disse ele à moça. — Quer que eu lhe dê, minha querida
Ketty, uma prova desse amor de que você duvida?
— Que amor? — perguntou a moça.
— Aquele que estou prestes a sentir por você.
— E que prova é essa?
— Quer que eu passe com você esta noite o tempo que eu ficava com sua
patroa?
— Oh, sim! — exclamou Ketty batendo as mãos. — E como quero!
— Então, meu anjo — disse d’Artagnan, acomodando-se numa poltrona.
—, venha para cá, quero lhe dizer que você é a criada mais bonita que já
vi!
E de tal maneira e tão bem lhe disse isso que a pobre moça, que não queria
outra coisa senão acreditar nessas palavras, acreditou… No entanto, para
grande pasmo de d’Artagnan, a bela Ketty defendia-se com alguma
tenacidade.
O tempo passa depressa, quando passa entre ataques e defesas.
Deu meia-noite e, quase ao mesmo tempo, ouviu-se a campainha no quarto
de Milady.
— Meu Jesus! — apavorou-se Ketty. — É minha patroa chamando! Saia,
saia depressa!
D’Artagnan levantou-se e pegou seu chapéu, como se tivesse a intenção de
obedecer. Depois, abrindo bruscamente a porta de um grande armário em vez
de abrir a da escada, encolheu-se no meio dos vestidos e penhoares de
Milady.
— Mas o que pretende?
D’Artagnan, que pegara a chave calculadamente, trancou-se no armário
sem responder.
— E, então? — gritou Milady, com uma voz contrariada. — Dorme
quando lhe chamo?
E d’Artagnan ouviu a porta de comunicação abrir-se violentamente.
— Estou aqui, Milady, estou aqui! — exclamou Ketty, lançando-se ao
encontro de sua patroa.
Entraram ambas no quarto de dormir e, como a porta de comunicação
permaneceu aberta, d’Artagnan pôde ouvir Milady repreender sua criada
ainda por algum tempo. Finalmente ela se acalmou, e a conversa recaiu sobre
ele, enquanto Ketty ajudava sua patroa a se preparar para dormir.
— Você reparou? — disse Milady. — Não vi nosso gascão hoje à noite!
— Como, senhora — disse Ketty —, ele não veio! Seria ele volúvel antes
de ser feliz?
— Oh, não! Deve ter sido impedido pelo sr. de Tréville ou pelo sr. des
Essarts. Conheço essas coisas, Ketty, e esse homem está sob meu poder.
— O que fará com ele, patroa?
— O que farei com ele? Não se preocupe, Ketty. Esse homem ignora uma
coisa entre nós: ele quase destruiu minha credibilidade junto à Sua
Eminência. Mas eu terei minha vingança!
— Eu julgava que o amava…
— Eu, amá-lo! Detesto-o! Um tolo, que tem a vida de lorde de Winter nas
mãos e não o mata, fazendo-me perder trezentas mil libras de renda!
— É verdade — disse Ketty. — Seu filho era o único herdeiro do tio, e a
senhora teria o usufruto da fortuna até sua maioridade.
D’Artagnan sentiu um calafrio até a medula dos ossos ao ouvir aquela
suave criatura censurar-lhe, com a voz estridente que ela tanto lutava para
esconder na conversa, por não ter matado um homem que ele a vira cumular
de agrados.
— Aliás — continuou Milady —, eu já me teria vingado dele se, não sei
por quê, o cardeal não me houvesse recomendado que o poupasse.
— Oh, sim! Mas a senhora não poupou aquela mulherzinha que ele amava.
— Oh, a varejista da rua dos Coveiros! E ele por acaso já não esqueceu que
ela existe? Bela vingança, essa!
Um suor frio escorria pela testa de d’Artagnan: então aquela mulher era um
monstro.
Voltou a escutar, mas infelizmente a toalete terminara.
— Chega — encerrou Milady —, volte para o seu quarto e amanhã trate de
ter uma resposta para a carta que lhe entreguei.
— Para o sr. de Wardes? — perguntou Ketty.
— Sem dúvida, para o sr. de Wardes.
— Aí está um — disse Ketty — que me parece o oposto do sr. d’Artagnan.
— Saia, senhorita — ordenou Milady —, odeio comentários.
D’Artagnan ouviu a porta se fechando, depois o barulho de dois ferrolhos
corridos por Milady, a fim de se trancar em seus aposentos. Enquanto isso, o
mais suavemente que pôde, Ketty girou a chave na fechadura. D’Artagnan
então empurrou a porta do armário.
— Oh, meu Deus! — disse em voz baixa Ketty. — O que tem o senhor?
Como está pálido!
— Abominável criatura! — sussurrou d’Artagnan.
— Silêncio! Silêncio! Saia — implorou Ketty. — Há apenas uma divisória
entre meu quarto e o de Milady, ouve-se tudo que se diz do outro lado!
— É justamente por isso que não sairei — disse d’Artagnan.
— Como? — perguntou Ketty, ruborizando.
— Ou, pelo menos, sairei… mais tarde.
Puxou Ketty para si. Não havia mais como resistir — a resistência faz
muito barulho! —, e Ketty cedeu.
Era um gesto de vingança contra Milady. D’Artagnan ruminou que
estavam certos os que diziam que a vingança é o prazer dos deuses. Assim, se
houvesse de sua parte um pouco de amor, ter-se-ia contentado com essa nova
conquista. Mas d’Artagnan era apenas ambição e orgulho.
Uma coisa precisa ser dita a seu favor: o primeiro uso que fez de sua
influência sobre Ketty fora no sentido de tentar saber o paradeiro da sra.
Bonacieux. Mas a pobre moça jurou sobre um crucifixo que o ignorava
completamente, pois sua patroa deixava-a entrever apenas parte de seus
segredos. Entretanto, julgava poder responder que ela não estava morta.
Quanto à causa que quase destruíra a credibilidade de Milady junto ao
cardeal, Ketty nada sabia sobre isso, e d’Artagnan estava mais adiantado que
ela. Tendo visto Milady num navio impedido de zarpar, quando ele mesmo ia
deixando a Inglaterra, desconfiou que nesse caso ela estava se referindo às
agulhetas de diamantes.
Mas, entre tantos motivos, saltava aos olhos que o ódio verdadeiro, o ódio
profundo, o ódio inveterado de Milady advinha de que o mosqueteiro não
matara seu cunhado.
No dia seguinte, d’Artagnan voltou à casa de Milady, a qual se achava de
péssimo humor. D’Artagnan desconfiou que a causa de tamanha irritação era
a ausência de resposta do sr. de Wardes. Quando Ketty entrou, Milady
recebeu-a rispidamente. Um relance da moça na direção de d’Artagnan
expressava: “Veja o que sofro pelo senhor.”
Entretanto, lá pelo fim da noite, a bela leoa amansou, escutou sorrindo as
doces declarações de d’Artagnan, deu-lhe inclusive sua mão para beijar.
D’Artagnan saiu sem saber o que pensar. No entanto, como era um rapaz
ao qual ninguém fazia perder a cabeça com facilidade, enquanto cortejava
Milady urdira um pequeno plano secreto.
Encontrou Ketty na porta e, como na véspera, subiu ao quarto dela para ter
notícias. Ketty fora duramente repreendida, acusada de negligência. Milady
não compreendia o silêncio do conde de Wardes e ordenara-lhe que
retornasse às nove da manhã para pegar o ditado de uma terceira carta.
D’Artagnan fez Ketty prometer levar-lhe essa carta no dia seguinte. A
pobre moça jurou tudo que seu namorado pediu: estava louca de amor.
As coisas se passaram como na véspera: d’Artagnan trancou-se em seu
armário, Milady chamou, fez sua toalete, dispensou Ketty e fechou a porta.
Como na véspera, d’Artagnan só chegou em casa às cinco da manhã.
Às onze, Ketty apareceu. Dessa vez, tinha nas mãos um novo bilhete de
Milady. Dessa vez a pobre moça sequer tentou discutir com d’Artagnan,
deixando-o agir a seu bel-prazer. Pertencia de corpo e alma ao seu formoso
soldado.
D’Artagnan abriu o bilhete e leu o que se segue:
Já pela terceira vez escrevo para dizer-lhe que o amo. Não permita que eu
lhe escreva uma quarta para dizer que o detesto.
Caso se arrependa da maneira como agiu comigo, a jovem portadora desse
bilhete lhe dirá de que maneira um homem galante pode obter o perdão.
D’Artagnan corou e empalideceu várias vezes ao ler este bilhete.
— Oh, o senhor continua a amá-la! — disse Ketty, que nem por um
instante desviara os olhos do rosto do rapaz.
— Não, Ketty, você está enganada, não a amo mais. Quero me vingar de
seu desprezo.
— Oh, conheço sua vingança, já me falou dela.
— Não se preocupe, Ketty! Você sabe muito bem que eu só amo você.
— Como posso saber?
— Pelo desprezo que dispensarei a Milady.
Ketty suspirou.
D’Artagnan pegou uma pena e escreveu:
Senhora, até este momento eu duvidava de que fosse a mim que se destinavam seus dois primeiros
bilhetes, de tal forma julgava-me indigno desta honra. Ademais, sofria tanto que teria em todo caso
hesitado responder.
Mas hoje devo efetivamente acreditar no excesso de sua bondade, uma vez que não apenas sua
carta, como também sua criada, me afirma que tenho a felicidade de ser amado pela senhora.
Ela não precisa me dizer de que maneira um galante homem pode obter seu perdão. Irei, portanto,
pedir o meu hoje à noite às onze horas. Adiar um dia seria, a meus olhos, agora, fazer-lhe uma nova
ofensa.
Aquele que a senhora fez o mais venturoso dos homens.
conde de Wardes

Esse bilhete era, em primeiro lugar, uma falsificação, em segundo, uma


indelicadeza. Era inclusive, do ponto de vista de nossos costumes atuais, algo
como uma infâmia, mas não se transigia menos nessa época do que se faz nos
dias de hoje. D’Artagnan, aliás, por suas próprias declarações, sabia Milady
culpada de traição em episódios bem mais relevantes, e não tinha por ela
senão uma estima bem débil. E no entanto, apesar dessa pouca estima, sentia
que uma paixão desvairada queimava-o por essa mulher. Paixão inebriada de
desprezo, mas paixão, ou sede, como preferirem.
A intenção de d’Artagnan era bem simples: pelo quarto de Ketty ele
chegaria ao de sua patroa. Aproveitaria o primeiro momento de surpresa, de
vergonha ou de terror para triunfar sobre ela. Podia ser também que
fracassasse, mas era preciso deixar alguma coisa por conta do acaso. Dentro
de uma semana começava a campanha, e ele precisaria partir. D’Artagnan
não tinha mais tempo para correr atrás do amor perfeito.
— Tome — disse o rapaz, entregando a Ketty o bilhete todo lacrado —,
entregue esta carta a Milady. É a resposta do sr. de Wardes.
A pobre Ketty ficou pálida como a morte, pois desconfiava do teor do
bilhete.
— Escute, meu anjo — disse-lhe d’Artagnan —, entenda que isso precisa
terminar de uma maneira ou de outra. Milady pode descobrir que você
entregou o primeiro bilhete ao meu criado, em vez de entregá-lo ao criado do
conde, que fui eu que abri os outros que deviam ser abertos pelo sr. de
Wardes. Então Milady a expulsa, e você a conhece, ela não é mulher de parar
sua vingança por aí.
— Ai de mim! — lamentou-se Ketty. — Por quem me exponho a tudo
isso?
— Por mim, eu sei, minha linda — respondeu o rapaz —, e sou-lhe muito
grato por isso, juro.
— Mas, enfim, o que contém o seu bilhete?
— Milady lhe dirá.
— Ai, o senhor não me ama! — exclamou Ketty. — Sou uma infeliz!
Para tal censura, há uma resposta que sempre engana as mulheres.
D’Artagnan respondeu de maneira a iludir completamente Ketty.
Ainda assim, ela chorou muito antes de se decidir a entregar aquela carta a
Milady, mas finalmente aceitou fazê-lo. Era tudo que d’Artagnan queria.
Ele ainda lhe prometeu que, à noite, sairia bem cedo dos aposentos de sua
patroa e, ao sair, subiria até o quarto dela.
Essa promessa terminou de consolar a pobre Ketty.
34. No qual se trata dos equipamentos de Aramis e de
Porthos

esde que se puseram à cata do equipamento, os quatro amigos não se


D reuniam mais como antes. Jantavam uns sem os outros, onde estivessem,
ou melhor, onde pudessem. O serviço, por sua vez, também ocupava
parte desse tempo precioso, que passava rápido. Haviam combinado de se
encontrar apenas uma vez por semana, em torno de uma hora, na casa de
Athos, visto que este último, segundo o juramento que fizera, não passaria da
soleira da porta.
O dia em que Ketty viera encontrar d’Artagnan em casa era justamente o
dia da reunião dos mosqueteiros.
Assim que se despediu de Ketty, d’Artagnan se dirigiu à rua Férou.
Encontrou Athos e Aramis a filosofar. Aramis tinha certas veleidades de
voltar à batina. Athos, como era seu costume, não o dissuadia nem o
encorajava. Ele defendia o livre-arbítrio de cada um. Nunca dava conselhos a
não ser quando solicitado, e ainda assim era preciso pedir duas vezes.
— Em geral, as pessoas só pedem conselhos — dizia — para não segui-
los, ou, quando os seguem, só para ter alguém a quem recriminar por havê-
los dado.
Porthos chegou logo depois de d’Artagnan. A reunião dos amigos estava
completa.
Os quatro rostos exprimiam quatro diferentes estados de espírito: o de
Porthos, tranquilidade; o de d’Artagnan, esperança; o de Aramis,
preocupação; o de Athos, indiferença.
Ao fim de um instante de conversa, no qual Porthos deu a entender que
uma pessoa de alto gabarito dispusera-se a tirá-lo do aperto, Mousqueton
entrou.
Vinha pedir a Porthos que fosse até em casa, pois, dizia ele com uma
expressão de dar pena, sua presença fazia-se urgente.
— É meu equipamento? — perguntou Porthos.
— Sim e não — respondeu Mousqueton.
— Mas o que é afinal…?
— Venha, patrão.
Porthos levantou-se, cumprimentou os amigos e seguiu Mousqueton.
Um instante depois, Bazin apareceu na porta.
— O que quer de mim, meu amigo? — perguntou Aramis, com aquela fala
mansa que se observava nele sempre que suas ideias induziam-no à Igreja…
— Um homem espera o patrão lá em casa — respondeu Bazin.
— Um homem! Que homem?
— Um mendigo.
— Dê-lhe uma esmola, Bazin, e diga-lhe para rezar por um reles pecador.
— Esse mendigo quer falar consigo de qualquer maneira e afirma que o
senhor folgará em vê-lo…
— Não disse nada de particular para mim?
— Disse sim. “Se o sr. Aramis”, disse ele, “hesitar em vir me encontrar,
diga-lhe que chego de Tours”.
— De Tours? — exclamou Aramis. — Senhores, mil perdões, mas
provavelmente esse homem traz as notícias que eu esperava.
E, levantando-se prontamente, saiu às pressas.
Ficaram Athos e d’Artagnan.
— Pelo visto, esses malandros já estão resolvidos. O que acha,
d’Artagnan?
— Sei que Porthos estava indo bem — disse d’Artagnan. — Quanto a
Aramis, para falar a verdade, nunca me preocupei seriamente. Mas e você,
meu caro Athos, você que tão generosamente distribuiu o dinheiro do inglês
que era seu patrimônio legítimo, o que vai fazer?
— Estou muito contente de ter matado aquele excêntrico, rapaz, visto que é
uma bênção matar um inglês. Se eu tivesse embolsado o dinheiro, ele me
pesaria como um remorso.
— Ora, vamos, meu caro Athos, você realmente tem ideias inconcebíveis.
— Mudemos de assunto! E não é que o sr. de Tréville, que ontem me fez a
honra de uma visita, me contou que você anda frequentando esses ingleses
suspeitos protegidos pelo cardeal?
— Melhor dizendo, eu visito uma inglesa, a que eu lhe falei.
— Ah, sim, a mulher loura a respeito da qual eu lhe dei conselhos que
naturalmente você fez de tudo para não seguir.
— Já lhe dei minhas razões.
— É verdade, você vê nela o seu equipamento, creio, pelo que me disse.
— De forma alguma! Estou convicto de que essa mulher teve alguma
participação no rapto da sra. Bonacieux.
— Ah, compreendo! Para encontrar uma mulher você corteja outra… É o
caminho mais longo, porém o mais divertido.
D’Artagnan sentiu-se prestes a contar tudo a Athos, mas uma circunstância
o deteve. Athos era um fidalgo severo em questões de honra, e havia, em todo
esse pequeno plano arquitetado pelo nosso galanteador a respeito de Milady,
algumas coisas que, a princípio, ele tinha certeza, não teriam o assentimento
do puritano. Preferiu então calar-se e, como Athos era o homem menos
curioso da Terra, as confidências de d’Artagnan pararam por aí.
Deixaremos, portanto, os dois amigos, que nada tinham de muito
importante a se dizer, para acompanhar Aramis.
Diante daquela notícia, de que o homem que desejava lhe falar chegara de
Tours, vimos com que rapidez o rapaz seguira, ou melhor, ultrapassara Bazin,
percorrendo a toque de caixa o trajeto da rua Férou à rua de Vaugirard.
Ao entrar em casa, encontrou efetivamente um homem de pequena
estatura, olhos inteligentes, mas coberto de andrajos.
— É o senhor que me procura? — disse o mosqueteiro.
— Na verdade, procuro o sr. Aramis; é o senhor que tem esse nome?
— Eu mesmo. Tem algo a me entregar?
— Sim, se me mostrar determinado lenço bordado.
— Aqui está ele — disse Aramis, puxando uma chave de seu peito e
abrindo uma caixinha de madeira de ébano incrustada de madrepérola. —
Aqui está, veja.
— Muito bem — disse o mendigo. — Dispense o seu criado.
Com efeito, Bazin, curioso em saber o que o mendigo queria de seu patrão,
ajustara suas passadas às de Aramis e chegara quase junto com ele. Mas tal
celeridade não lhe foi de muita serventia; compelido pelo mendigo, seu
patrão fez-lhe sinal para sair e ele se viu obrigado a obedecer.
Quando Bazin saiu, o mendigo lançou um olhar à sua volta, a fim de se
certificar de que ninguém podia vê-lo ou ouvi-lo. Então, abrindo seu
sobretudo esfarrapado, mal-apertado por um cinto de couro, começou a
descosturar a parte de cima do gibão, de onde puxou uma carta.
Aramis lançou um grito de alegria diante daquele lacre, beijou a caligrafia
e, com um respeito quase religioso, abriu a epístola, cujo teor era o que
segue:
Amigo, o destino quer que ainda permaneçamos separados por algum tempo, mas os belos dias da
mocidade não se perdem sem recompensa. Cumpra seu dever no exército; cumpro o meu em outro
lugar. Aceite o que o portador lhe entregar. Lute como formoso e bom fidalgo e pense em mim, que
beijo com ternura seus olhos negros.
Adeus, ou melhor, até breve!

O mendigo continuava a descosturar seu gibão. Tirou uma a uma de suas


roupas imundas trezentas pistolas da Espanha, que alinhou sobre a mesa. Em
seguida, abriu a porta, cumprimentou e partiu antes que o rapaz, estupefato,
ousasse lhe dirigir uma palavra.
Aramis então releu a carta e percebeu que ela continha um post-scriptum:
PS: Pode receber o portador, que é conde e ilustre da Espanha.

— Sonhos dourados! — exclamou Aramis. — Oh, como a vida é bela!


Sim, somos jovens! Sim, ainda teremos dias felizes! Oh, são seus meu amor,
meu sangue, minha vida, tudo, tudo, minha bela amante!
E beijou a carta com paixão, sem sequer olhar o ouro que reluzia sobre a
mesa.
Bazin arranhou a porta. Aramis, que não tinha mais razão para manter
distância, autorizou-o a entrar.
Bazin, estupefato ao ver todo aquele ouro, esqueceu que vinha anunciar
d’Artagnan, pois o gascão, curioso para saber que mendigo era aquele, vinha
à casa de Aramis saindo da de Athos.
Ora, como d’Artagnan não fazia cerimônia com Aramis, vendo que Bazin
esquecia de anunciá-lo, anunciou-se pessoalmente.
— Ah, diabos, meu caro Aramis — exclamou d’Artagnan —, se o que vejo
são as ameixas que lhe mandaram de Tours, dê os meus parabéns ao hortelão
que as colheu.
— Está enganado, meu caro — tergiversou Aramis, sempre discreto —, é o
meu livreiro que acaba de me enviar o pagamento por esse poema em versos
de uma sílaba que eu comecei durante nossa viagem.
— É mesmo? — ironizou d’Artagnan. — Que livreiro generoso, é tudo que
lhe posso dizer!
— É verdade, patrão? — exclamou Bazin. — Um poema rende tanto
assim? Incrível! Oh, patrão, faça tudo que quiser, mas o senhor pode vir a ser
um colega do sr. de Voiture e do sr. de Benserade. Isso também me agrada,
um escritor é quase um padre. Ah, sr. Aramis, vire um poeta, por favor.
— Bazin, meu amigo — atalhou Aramis —, creio que você está se
intrometendo na nossa conversa.
Bazin compreendeu que cometera um deslize, abaixou a cabeça e saiu.
— Ah — fez d’Artagnan com um sorriso —, você está vendendo sua
produção a peso de ouro! Tem bastante sorte, meu amigo, mas, cuidado, vai
perder essa carta que está saindo de seu sobretudo, e ela também deve ser do
seu livreiro.
Aramis corou dos pés à cabeça, guardou melhor a carta e abotoou seu
gibão.
— Meu querido d’Artagnan — disse ele —, que tal irmos encontrar nossos
amigos? Agora que estou rico, recomeçaremos hoje mesmo a jantar juntos,
enquanto esperamos você ficar rico também.
— Que ótimo! — exclamou d’Artagnan, com grande satisfação. — Há
muito tempo não fazemos um jantar decente e, como tenho uma incursão um
tanto temerária a realizar hoje à noite, isso não me desagradaria, eu lhe
asseguro, de preparar um pouco a cabeça com algumas garrafas de um velho
borgonha.
— Até que um velho borgonha não ia mal, não o rejeito mais — disse
Aramis, cujas ideias de aposentadoria a visão do ouro arrebatara como se
com a mão.
Tendo enfiado três ou quatro pistolas no bolso, para responder às
necessidades do momento, ele trancou as demais na caixa de ébano
incrustada de madrepérola, onde já se encontrava o conhecido lenço que lhe
servira de talismã.
Os dois amigos dirigiram-se primeiro à casa de Athos, que, fiel ao
juramento de não sair, encarregou-se de encomendar um jantar. Como ele era
um especialista nas minúcias da gastronomia, d’Artagnan e Aramis não
criaram nenhum obstáculo e deixaram a seus cuidados aquela importante
tarefa.
Estavam a caminho da casa de Porthos quando, na esquina da rua du Bac,
encontraram Mousqueton, o qual, com uma expressão desapontada, incitava à
sua frente uma mula e um cavalo.
D’Artagnan deu um grito de surpresa e alegria.
— Ah, meu cavalo amarelo! — exclamou. — Aramis, observe esse cavalo!
— Oh, que pangaré horroroso! — assustou-se Aramis.
— Pois bem, meu caro — replicou d’Artagnan —, é o cavalo sobre o qual
cheguei a Paris.
— Como, o senhor conhece esse cavalo? — perguntou Mousqueton.
— Ele tem uma cor original — comentou Aramis —, é o primeiro que vejo
com um pelo desses.
— Acredito piamente — concordou d’Artagnan —, daí eu tê-lo vendido
por três escudos, e decerto foi em virtude do pelo, pois a carcaça não vale
dezoito libras. Mas como esse cavalo foi parar em suas mãos, Mousqueton?
— Ah! — disse o criado. — Nem me fale, senhor, foi um golpe baixo do
marido da nossa duquesa!
— Como assim, Mousqueton?
— É que somos muito bem-vistos por uma mulher da alta roda, a duquesa
de…, oh, desculpe!, meu patrão recomendou-me discrição. Ela nos forçara a
aceitar uma lembrancinha, um magnífico ginete espanhol e uma mula
andaluz, que era uma beleza de se ver. O marido soube da coisa, confiscou
sumariamente as magníficas bestas a nós destinadas e substituiu-as por esses
animais pavorosos!
— Que você está lhe devolvendo? — indagou d’Artagnan.
— Exatamente! — respondeu Mousqueton. — O senhor compreende que
não podemos aceitar essas montarias no lugar das que nos haviam prometido.
— Em hipótese alguma, embora eu fosse gostar de ver Porthos no lombo
do meu Botão de Ouro. Isso me teria dado uma ideia do meu aspecto quando
cheguei a Paris. Mas não vamos detê-lo, Mousqueton, vá e faça o que o seu
patrão mandou, vá. Ele está em casa?
— Sim, senhor — disse Mousqueton —, mas num humor de cão, como
poderão ver.
E ele seguiu seu caminho em direção ao cais dos Grands-Augustins,
enquanto os dois amigos iam bater à porta do desafortunado Porthos. Este os
vira atravessando o pátio e decidira não abrir. Bateram em vão.
Enquanto isso, Mousqueton seguiu adiante e, atravessando a Pont-Neuf,
sempre incitando à sua frente as duas cavalgaduras, chegou à rua dos Gansos.
Lá, conforme as ordens de seu patrão, amarrou o cavalo e a mula na aldrava
da porta do promotor. Em seguida, sem se preocupar com o destino dos
animais, voltou a Porthos e comunicou-lhe que a tarefa estava cumprida.
Após algum tempo, as duas infelizes bestas, que não haviam comido desde
a manhã, fizeram tamanha zoeira levantando e abaixando a aldrava da porta
que o promotor enviou seu contínuo para se informar na vizinhança sobre a
quem pertenciam o cavalo e a mula.
A sra. Coquenard reconheceu seu presente e, a princípio, não entendeu
aquela devolução. Mas a visita de Porthos logo veio esclarecer tudo. A cólera
que brilhava nos olhos do mosqueteiro, apesar da compostura que ele se
impunh