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A DOUTRINA DA TRINDADE: FUNDAMENTAÇÃO BÍBLICO-SISTEMÁTICA E

PARADIGMAS PARA A ATUALIDADE

André Ribeiro de Oliveira1

Luiz Felipe Xavier2

RESUMO
A Trindade é Deus; o único Deus, que se revela em três pessoas distintas e divinas. Na Trindade está a unidade
ontológica do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Por isso, a doutrina da Trindade é essencial à fé cristã. Embora
não de maneira explícita, usando a expressão “Trindade”, esta doutrina encontra suas raízes nas Escrituras. Isto é,
a Bíblia dá testemunho do Deus que é Trino. No decorrer da história, muitas foram as formulações teológicas sobre
a Trindade, algumas se aproximaram outras se distanciaram do que está revelado nas Escrituras. Fato é que esta
doutrina permanece ocupando lugar central na fé cristã e precisa ser constantemente analisada e atualizada.

PALAVRAS-CHAVE
Trindade, Pai, Filho, Espírito Santo, Teologia, doutrina.

ABSTRACT
The Trinity is God, the only God, who revealed Himself in three distinct and divine persons. In the Trinity is the
ontological unity of the Father, the Son and the Holy Spirit. Therefore, the doctrine of the Trinity is essential to
the Christian faith. Although not explicitly, using the expression “Trinity”, this doctrine finds its roots in the
Scriptures. That is, the Bible bears witness to the Triune God. Throughout history, many were the theological
formulations about the Trinity, some approaching and others distanced themselves from what is revealed in the
Scriptures. It is a fact that this doctrine remains central to the Christian faith and needs to be constantly analyzed
and updated.

KEYWORDS
Trinity, Father, Son, Holy Spirit, Theology, doctrine.

1. INTRODUÇÃO

Este artigo apresenta uma fundamentação bíblico-sistemática da doutrina da Trindade e


propõe, a partir dessa doutrina, paradigmas para a atualidade. Por Trindade entende-se o único
Deus, que se revela em três pessoas distintas e divinas: Pai, Filho e Espírito Santo. Revelada
nas Escrituras, formulada na história e relevante em todos os tempos, a doutrina da Trindade
precisa sempre ser revisitada e atualizada, dada sua enorme riqueza.
As Escrituras testemunham a existência e a manifestação do Deus que é Trino. Embora
não de maneira explícita, usando a expressão “Trindade”, a Bíblia revela o Deus que é Pai,

1Graduado em Teologia (FBMG).


2 Doutorando em Teologia (FAJE), mestre em Teologia Dogmática (FAJE), mestre em Filosofia da
Religião (FAJE), especialista em Estudos da Bíblia (FATE-BH), especialista em Teologia Sistemática
(FATE-BH) e graduado em Teologia (FATE-BH). É professor de Teologia na Faculdade Batista de
Minas Gerais e professor de Teologia e Direito no Centro Universitário Metodista Izabela Hendrix.
2

Filho e Espírito Santo. Esse Deus é eternamente três pessoas e se revela historicamente em três
pessoas. Como será observado, a partir dessa revelação de Deus como Trindade é possível
propor alguns paradigmas para os dias de hoje. Dentre esses paradigmas se encontram o
familiar, o social, o político, o eclesiástico e o escatológico.
A metodologia utilizada neste artigo é a pesquisa bibliográfica ou revisão de literatura.
Os principais referenciais teóricos são Wayne Grudem, Millard Erickson e Leonardo Boff.
Esses autores foram escolhidos por serem de tradições cristãs diferentes e por discorrerem de
maneira específica sobre a temática apresentada. O artigo está dividido em dois tópicos. O
primeiro apresentará a fundamentação bíblico-sistemática da doutrina da Trindade e segundo
apresentará, a partir dessa doutrina, paradigmas para o mundo atual.

2. APROXIMAÇÃO BÍBLICO-SISTEMÁTICA

O Deus revelado nas Escrituras é três pessoas. Isto é, sem dúvida, um mistério: um só
Deus que existe e se revela em três pessoas distintas e divinas. Mas é possível discernir parte
deste mistério levando em consideração três indícios presentes na Bíblia: primeiro, o indício de
que só existe um Deus; segundo, o indício de que Deus é três pessoas; terceiro, o indício de que
o Pai é Deus, o Filho é Deus e o Espírito Santo é Deus.

2.1 Só existe um Deus

A religião dos antigos hebreus era baseada numa fé rigorosamente monoteísta. No


Antigo Testamento, estão presentes diversas declarações sobre a unidade de Deus. Essas
declarações partem do próprio Deus, que revela quem ele é, e do povo, que testemunha a ação
divina e identifica que no universo há somente um Deus.
Um dos mais importantes textos do Antigo Testamento é o que narra a concessão por
Deus a Moisés dos chamados “Dez Mandamentos”. Na narrativa do Êxodo, Deus se revela
como o único Deus e exige que não existam outros deuses diante dele: “Eu sou o Senhor, teu
Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão. Não terás outros deuses diante de mim.”
(Êxodo 20.2,3). Erickson (1997, p.128), em relação a este texto, diz:
A proibição da idolatria, o segundo mandamento (v.4), também repousa
sobre a singularidade de Jeová. Ele não tolerará nenhuma adoração de
objetos feitos por mãos humanas, pois somente ele é Deus.
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Ainda sobre a revelação de Deus como o único Deus sobre toda a criação, Grudem
(1999, p.174-175) afirma:
Quando Deus fala, repetidamente deixa claro que ele é o único Deus
verdadeiro; a ideia de que existem, três Deuses a adorar, e não um só,
seria impensável diante de declarações tão veementes. Só Deus é o
único Deus verdadeiro, e não há nenhum outro como ele. Quando ele
fala, só ele fala – não fala como um Deus dentre três que devem ser
adorados. Mas diz: “Eu sou o Senhor, e não há outro; além de mim não
há Deus; eu te cingirei, ainda que não me conheces. Para que se saiba,
até ao nascente do sol e até ao poente, que além de mim não há outro;
eu sou o Senhor, e não há outro” (Isaias 45.5-6).

No Antigo Testamento, além do próprio Deus se revelar como único Deus, há também
o testemunho e as declarações do povo de Deus sobre a unicidade divina. Em Deuteronômio
6.4-5, que é parte do Shema3, Moisés diz ao povo: “Ouça, ó Israel: O Senhor, o nosso Deus, é
o único Senhor. Ame o Senhor o seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todas
as suas forças.”.
Já no Novo Testamento, são os apóstolos que ensinam sobre a unicidade de Deus.
Quanto a esses ensinos, Grudem escreve-se:
O Novo Testamento também afirma que só há um Deus. Escreve Paulo:
“Porquanto há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens,
Cristo Jesus, homem” (1Tm 2.5). Paulo afirma que “Deus é um só” (Rm
3.30) e que “há um só Deus, o Pai, de quem são todas as coisas e para
quem existimos” (1Co 8.6). Por fim, Tiago admite que até os demônios
reconhecem que só há um Deus, ainda que essa aceitação intelectual do
fato não seja suficiente para salvá-los: “Crês, tu, que Deus é um só?
Fazes bem. Até os demônios crêem e tremem” (Tg 2.19). Mas
nitidamente Tiago afirma que “faz bem” quem crê que “Deus é um só”
(GRUDEM, 1999, p.175).

2.2 Deus é três pessoas

Por mais paradoxal e estranho que pareça, é correto afirmar que o Deus que reclama
unicidade é, ao mesmo tempo, o Deus que deve ser compreendido como três pessoas. Ou seja,
esse Deus existe e se revela como três pessoas distintas, que possuem uma única natureza divina
(ERICKSON, 1997, p.131). Logo, o Deus revelado nas Escrituras, o Deus que é o único Deus
do universo, existe como três pessoas distintas. Deus é a Trindade, três pessoas em unidade
ontológica.

3Palavra hebraica que significa “ouça”. Veio a ser a confissão de fé judaica, recitada diariamente pelos
piedosos (cf. Mt 22.37-38; Mc 12.29-30; Lc 10,27).
4

A condição da unidade de natureza e da pluralidade de pessoas divinas pode ser


encontrada no nome designado ao Deus de Israel, Elohîm. O nome de Deus é um substantivo
que se apresenta no plural. Sobre o uso “singular” e “plural”, Erickson (1997, p.131) diz:
Existem ainda outras formas plurais. Em Gênesis 1.26, Deus diz:
“Façamos o homem à nossa imagem”. Aqui, o plural aparece tanto no
verbo “façamos” como no sufixo possesivo “nossa”. Quando Isaías foi
chamado, ouviu o Senhor dizendo: “A quem enviarei, e quem há de ir
por nós?” (Is 6.8). O que é significativo do ponto vista da análise lógica
é a mudança do singular para o plural. Gênesis 1.26 diz na realidade:
“Também disse [singular] Deus: Façamos [plural] o homem à nossa
[plural] imagem”. Deus é citado usando um verbo no plural em
referência a si mesmo. De modo semelhante, Isaías 6.8 traz: “A quem
enviarei [singular], e quem há de ir por nós [plural]?”

No início do livro de Gênesis encontramos a criação da humanidade: “Criou Deus, pois,


o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou (Gênesis 1.27).”
É interessante observar que Deus criou conforme à sua imagem e que essa criação é homem e
mulher. Por inferência, a imagem de Deus é o casal. A imagem de Deus, impressa na
humanidade, são dois seres distintos, plurais. Em relação a essa questão, Erickson (1997,
p.132), afirma:
Isso significa que a imagem de Deus deve consistir em uma unidade em
pluralidade, uma característica tanto do éctipo quanto do arquétipo. De
acordo com Gênesis 2.24, homem e mulher devem tornar-se um
(echãd); exige-se uma união de duas entidades distintas. É significativo
que a mesma palavra é usada para Deus no Shema: “O SENHOR, nosso
Deus, é o único [echãd] SENHOR” (Dt 6.4). Parece que existe alguma
afirmação acerca da natureza de Deus – ele é um organismo, ou seja,
uma unidade de partes distintas.

Assim como homem e mulher são a humanidade, Pai, Filho e Espírito Santo são a
divindade. Erickson (1997, p.132), sobre a unidade e igualdade essencial entre as três pessoas
da Trindade, diz:
Em algumas partes das Escrituras, as três pessoas são associadas em
unidade e aparente igualdade. Umas delas é a fórmula batismal
conforme prescrita na grande comissão (Mt 28.19,20): batizando-os em
nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Note que “nome” é
singular, embora haja envolvimento de três pessoas. Ainda outra
associação direta dos três nomes é a benção paulina em 2Coríntios
13.13 – “A graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a
comunhão do Espírito Santo sejam com todos vós”. Aqui temos
novamente a associação dos três nomes em unidade e aparente
igualdade.
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Também, sobre a igualdade essencial entre as três pessoas da Trindade, sobre Deus ser
três pessoas em unidade ontológica, Grudem (1999, p. 167), ao comentar parte do capítulo 48
do livro de Isaías, afirma:
[...] em Isaías 48.16, aquele que fala (aparentemente o servo do Senhor)
diz: “Agora, o SENHOR Deus me enviou a mim e o seu Espírito”. Aqui
o Espírito do Senhor, como o servo do Senhor, foi “enviado” pelo
Senhor Deus para uma missão particular. O paralelismo entre os dois
objetos de enviar (“mim” e “o seu Espírito”) é compatível com a
interpretação de que são pessoas distintas: parece significar mais do que
meramente “o Senhor enviou a mim e o seu poder”. De fato, do ponto
de vista do Novo Testamento (que reconhece Jesus, o Messias, como o
verdadeiro Servo do Senhor predito nas profecias de Isaías), Isaías
48.16 carrega implicações trinitárias: “Agora, o Senhor Deus me enviou
a mim e o seu Espírito”, se dito por Jesus, o Filho de Deus, menciona
as três pessoas da Trindade.

2.3 O Pai é Deus, o Filho é Deus e o Espirito Santo é Deus

Os dois primeiros indícios afirmaram que Deus é um, que só existe um Deus, e que este
Deus é três pessoas, que existem em unidade ontológica. O terceiro indício da Trindade nas
Escrituras se atém ao fato de que as três pessoas que fazem parte da Trindade são Deus.
A deidade do Pai é, sem dúvida, a mais fácil de ser discernida. Logo no primeiro versículo da
Bíblia, é atribuída a Deus Pai a criação do universo: “No princípio Deus criou os céus e a terra”
(Gênesis 1.1). Sabe-se que “Deus”, em Gn 1.1 e em outras passagens do texto bíblico, se
equivale a pessoa de Deus Pai, pelo fato de que no relato da criação, posteriormente, aparecerem
as pessoas de Deus Filho e de Deus Espírito Santo.
Já no Novo Testamento, outro texto que se refere a Deus Pai como sendo Deus é o de 1
Timóteo 2.5: “Pois há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens: o homem Cristo
Jesus.” Timóteo afirma que Deus Filho, Jesus Cristo, homem, é o mediador entre o homem e
Deus Pai, que é Deus. Porém, Jesus Cristo, homem, que é mediador entre Deus e os homens,
não é somente homem. Cristo Jesus também é Deus.
Quanto a deidade do Filho, o apóstolo João4, no prólogo do seu Evangelho, diz que o
“Verbo”, a “Palavra” (Jesus Cristo), estava “com” Deus e “era” Deus. Jesus estava “com” Deus,
pois é uma pessoa distinta de Deus Pai. Entretanto “era” Deus, porque ele também tem a
natureza divina. Outra passagem das Escrituras que comprova a deidade do Filho é a de
Filipenses 2.5-11. Sobre esse texto, Erickson (1997, p.129-130) diz:

4 “No princípio era aquele que é a Palavra. Ele estava com Deus, e era Deus” (João 1:1).
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Ao que tudo indica, nos versículos 5-11 Paulo toma o que era um hino
da igreja primitiva e o usa como base para pedir aos leitores que
pratiquem a humildade. Paulo observa que “ele [Jesus], subsistindo em
forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus” (v.6). A
palavra aqui traduzida por forma é morphe. Esse termo, tanto no grego
clássico como no bíblico, significa “conjunto de características que
fazem com que uma coisa seja o que é”. Denotando a genuína natureza
de uma coisa, morphe contrasta com schema, que também é em geral
traduzida por “forma”, mas no sentido de formato ou aparência
superficial, em lugar de substância. O uso de morphe nessa passagem,
refletindo a fé da igreja primitiva, insinua uma profunda confiança na
plena deidade de Cristo.

Jesus Cristo é Deus. Ainda sobre o testemunho da sua deidade nas Escrituras, Grudem
(1999, p.172), comentando João 20.28, afirma:
João 20.28, no seu contexto também é uma sólida prova em favor da
divindade de Cristo. Tomé duvidava dos relatos dos outros discípulos,
de que haviam visto Jesus ressuscitado, e disse que não acreditaria se
não visse as marcas dos cravos nas mãos de Jesus e não lhe tocasse com
a mão na ferida do lado (Jo 20.25). Então Jesus apareceu novamente
aos discípulos, estando agora Tomé com eles. Disse a Tomé: “Põe aqui
o dedo e vê as minhas mãos; chega também a mão e põe-na no meu
lado; não sejas incrédulo, mas crente” (Jo 20.27). Diante disso, lemos:
“Respondeu-lhe Tomé: Senhor meu e Deus meu!” (Jo 20.28). Aqui
Tomé chama Jesus de “Deus meu”. A narrativa mostra que tanto João
no modo como escreveu o seu evangelho quanto o próprio Jesus
aprovam o que Tomé disse e incentivam todos os que ouvirem falar de
Tomé a crer nas mesmas coisas que Tomé creu. Jesus imediatamente
disse a Tomé: “Porque me viste, creste? Bem-aventurados os que não
viram e creram” (Jo 20.29).

Jesus menciona aqueles que, mesmo sem ver, crerão. João, logo depois, diz ao leitor que
o Evangelho foi escrito para que as pessoas imitassem Tomé em sua confissão de Fé: “Senhor
meu e Deus meu”.
O Pai é Deus, o Filho é Deus e o Espirito Santo é Deus; ambos são, ontologicamente,
divinos. A deidade do Espirito Santo pode ser inferida das declarações de que “o Pai é Deus” e
de que “o Filho é Deus”. Sobre essa questão:
As expressões trinitárias em versículos como Mateus 28.19
(“batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo”) se
revestem de relevância para a doutrina do Espirito Santo, pois mostram
que o Espírito Santo está classificado no mesmo nível do Pai e do Filho.
Isso se verifica quando percebemos quão impensável seria que Jesus
dissesse algo como “batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do
arcanjo Miguel”, dando a um ser criado uma posição totalmente
descabida, mesmo para um arcanjo. Os crentes de todas as épocas
sempre foram batizados em nome (assumindo, portanto o caráter) do
próprio Deus. (GRUDEM, p.173, 1999)
7

Se o Espírito Santo está inserido, em determinadas passagens do texto bíblico, como a


de Mateus 28.19, no mesmo nível do Pai e do Filho, ele reclama para si a deidade. Outra
indicação da deidade do Espírito Santo deriva das suas características, funções e qualidades que
são aplicadas a Deus. Além disso, de acordo com os apóstolos Pedro e Paulo, o que se faz contra
o Espírito Santo se faz contra Deus. Em Atos 5.3-4, segundo o apóstolo Pedro, Ananias mente
ao Espírito Santo. E logo em seguida, Pedro afirma diante de Ananias: “Não mentiste aos
homens, mas a Deus”. Mentir ao Espirito é mentir a Deus. Já em 1 Coríntios 3.16, o Apóstolo
Paulo afirma: “Não sabeis que sois santuário de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?”.
Grudem (1999, p.173) propõe que o “templo de Deus é o local onde o próprio Deus habita, o
que Paulo explica pelo fato de que o “Espírito de Deus” ali habita, igualando o Espírito de Deus
ao próprio Deus.
Voltando ao Antigo Testamento, no Salmo 139.7-8 é imputado ao Espírito Santo a
característica divina da onipresença. O salmista pergunta: “Para onde me ausentarei do teu
Espírito? [...] Se subo aos céus, lá estás”. Se Deus é o único ser onipresente e o salmista afirma
que não se pode fugir da presença do Espírito, conclui-se que o Espírito é onipresente e,
consequentemente, que o Espírito é Deus.
Além disso, o Espírito é gerador de vida, algo que só Deus pode fazer. Sobre isso Grudem
(1999, p.174) diz:
[...] o ato de dar novo nascimento a todo aquele que nasce de novo é
obra do Espírito Santo. Disse Jesus “... quem não nascer da água e do
Espírito não pode entrar no reino de Deus. O que é nascido da carne é
carne; e o que é nascido do Espírito é espírito. Não te admires de eu te
dizer: importa-vos nascer de novo” (Jo 3.5-7). Mas o ato de dar nova
vida espiritual às pessoas quando se tornam cristãs é algo que só Deus
pode fazer (1Jo 3.9, “nascido de Deus”). Essa passagem portanto dá
nova indicação de que o Espírito Santo é plenamente Deus.

Assim, o Pai, o Filho e o Espírito Santo são Deus por existirem em uma unidade
ontológica, na qual possuem atributos comuns. Ferreira (2007, p.177-179), faz uma lista desses
atributos: O Pai é santo (João 17.11), onipotente (Marcos 14.36), salvador (1 Pedro 1.3) e digno
de louvor (Joao 4.23). O Filho também é santo (1 Pedro 1.19), onipotente (1 Coríntios 1.24),
salvador (Marcos 2.7) e digno de louvor (Mateus 14.33). Semelhantemente o Espírito Santos é
santo (Atos 1.8), onipotente (Lucas 1.35,37), salvador (Romanos 8.2) e digno de louvor (1
Coríntios 3.16).

3. PARADIGMAS PARA A ATUALIDADE


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Tendo fundamentado biblicamente a doutrina da Trindade, cabe atualizá-la. Aqui, a


grande questão é: Como a compreensão sobre a Trindade pode iluminar paradigmas
comunitários hoje? É como afirma Leonardo Boff (2009, p.53):
Mais importante que a consciência do bem é fazer o bem. Mais
importante que saber como o Pai, o Filho e o Espírito Santo são um só
Deus, é viver a comunhão que é a essência da Trindade (BOFF, 2009,
p. 53).

Assim sendo, importa que a existência humana se expresse a partir do paradigma da


Trindade. Isto é, a relação entre as pessoas da Trindade pode inspirar o estabelecimento de
paradigmas para as relações humanas atuais. O que segue são cinco exemplos disso.

3.1 Paradigma familiar

A Trindade é uma família. É a primeira família existente. Pai, Filho e Espírito Santo
existem numa profunda relação de amor. Então, a Trindade constitui-se como um modelo de
família. A família trinitária existe em amor, em respeito, em cuidado, em serviço e em
disposição mútuos. Existe em perfeita comunhão. Por isso, a Trindade torna-se um paradigma
familiar. Ela é a utopia possível da família humana. Sobre essa família, Boff (2009, p.70) diz:
Na família temos uma imagem, das mais ricas, da Santíssima Trindade.
Primeiramente existem os três elemento: pai-mãe-criança. Em seguida
há a distinção das pessoas. Uma não é a outra. Cada qual tem a sua
autonomia e sua tarefa própria. Entretanto, estão relacionados por laços
vitais e fortes, como o amor. Há uma só comunhão de vida. Por isso,
permanecendo três, formam uma só família. A unidade da família é
semelhante àquela da Santíssima Trindade. A unidade é expressão do
amor, da saída de cada Pessoa na direção da outra, da comunhão da
mesma vida.

Todavia, mesmo a família contendo em sua essência um apontamento à Trindade, ela


não é estritamente igual à família trinitária. De acordo com Boff (2009, p.32), uma das ameaças
ao êxito da Trindade como paradigma para a família é o machismo. O fato de Deus ser Pai é
representado como sendo do gênero masculino. Consequentemente, o masculino assume todos
os valores e rebaixa o gênero feminino. Desta forma surge o domínio do macho e a cultura
machista, cultura essa que não é de acordo com o paradigma da Trindade. É preciso esforço
humano e graça divina para que o paradigma familiar seja real. Sobre isso, Boff (2009, p. 70-
71) afirma:
Para que seja o sacramento da Trindade, a família humana precisa
buscar sua perfeição. Historicamente a família humana vem marcada
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também pelo pecado e pela desunião. Mas sempre que a família procura
se orientar pela busca da integração e pela vivência consequentemente
do amor, ela se faz um sinal do Deus trino dentro da história.

3.2 Paradigma social

A família, por assim dizer, é parte de um todo, que é a sociedade. A sociedade é formada
pelas relações humanas, por suas organizações, divisões de tarefas e de poder, produções,
construções, etc.. Portanto, a sociedade diz respeito ao ser humano e à sua manifestação como
coletividade. A Trindade, por sua vez, existe numa relação de três pessoas distintas: Pai, Filho
e o Espírito Santo. Contudo, ambas formam o todo denominado “Trindade”. Logo, em
perfeição, a Trindade pode ser paradigma de sociedade. Sobre isso Boff (2009, p.95) diz:
A comunhão entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo, constituindo um só
Deus, é um mistério de inclusão. As três divinas Pessoas se abrem para
fora e convidam as pessoas humanas e todo o universo a participarem
de sua comunidade e de sua vida. Jesus o disse muito bem: “Que todos
sejam um como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, para que eles estejam
em nós” (Jo 17,21). A presença da comunhão trinitária na história
permite que se superem todas as barreiras que transformam as
diferenças em desigualdades e discriminações (...) no nível social
“todos são um só coração e uma só alma” (At 4,32).

Este é o paradigma de sociedade inspirado pela Trindade, um paradigma marcado pela


inclusão de todos, pela possibilidade de participação do diferente, pelo nivelamento entre os
seres humanos. Tal paradigma, ao ser experimentado, vai ao encontro do anseio humano. Para
Boff (2009, p.95,96), existe um anseio fundamental na alma humana, anseio de participação,
de igualdade e de respeito às diferenças. Ou seja, anseio de comunhão. Assim, a Trindade se
revela como a melhor comunidade.

3.3 Paradigma político

Em toda sociedade existe relações de poder. Quando se concebe essas relações de poder
entra-se no campo da política. “Pela política criamos as relações humanas e projetamos as
instituições necessárias para fazer funcionar a sociedade, para satisfazer as necessidades
materiais, espirituais e culturais das pessoas.” (BOFF, 2009, p.72). Assim sendo, como parte
tão significativa da expressão social, a política também pode ser inspirada pela Trindade.
Aqueles que consideram a Trindade como paradigma político, terão seus pressupostos e ações
políticas completamente transformados. Sobre isso, Boff (2009, p.31-32) afirma:
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Houve gente que outrora dizia: como existe um só Deus no céu, deve
existir também um só chefe na terra. Assim surgiram reis, líderes e
chefes políticos que dominavam sozinhos seus povos, com a alegação
de que imitavam Deus no céu. Deus sozinho governa e dirige o mundo,
sem dar explicações a ninguém. O totalitarismo político criou, do lado
dos líderes, a prepotência, e, do lado dos liderados, o submetimento. Os
ditadores pretendem saber sozinhos o que é melhor para o povo. Só eles
querem exercer sozinhos a liberdade. Todos os demais devem acatar
suas ordens e obedecer. A maioria dos países são herdeiros de uma
compreensão assim do poder. Ela foi introjetada na cabeça do povo. Por
isso é difícil aceitar a democracia, na qual todos exercem liberdade e
todos são filhos de Deus.

Aqui está um problema: Ao conceber Deus como uma só pessoa, a sociedade organiza-
se politicamente conferindo a uma só pessoa todo o poder. Ao que parece, a solução para tal
problema encontra-se na adoção de um paradigma político inspirado pela Trindade. Isso porque
na Trindade há participação das três pessoas, há interação e unidade entre elas. Contrapondo os
modelos capitalista e socialista, Boff (2009, p.96) diz:
O capitalismo se assenta sobre o indivíduo e seu desempenho pessoal
sem ligação essencial com os outros e a sociedade. No capitalismo, os
bens são apropriados privadamente com a exclusão das grandes
maiorias. Valoriza-se a diferença, em prejuízo da comunhão. No
socialismo se valoriza a participação de todos (...) O mistério trinitário
acena para formas sociais onde se valorizam todas as relações entre as
pessoas e as instituições, de forma igualitária, fraterna e respeitadora
das diferenças. Só assim superar-se-ão as opressões e triunfarão a vida
e a liberdade.

3.4 Paradigma eclesiástico

A ecclesia5 contém em si uma latente possibilidade de ser conforme o paradigma


trinitário. Isso porque ela é a comunidade dos discípulos de Jesus Cristo de Nazaré; é a
instituição que submete-se ao governo da Trindade. Contudo, conceber a Deus como sendo uma
só pessoa pode resultar na existência, por exemplo, do autoritarismo na igreja – à semelhança
do autoritarismo na política. Para que isso não ocorra, é necessário um paradigma eclesiástico
inspirado na Trindade. Quanto a isso, Boff (2009, p.17) afirma:
A volta a uma compreensão radicalmente trinitária de Deus ajudaria a
Igreja a superar o clericalismo e o autoritarismo ainda vigentes nos
comportamentos eclesiásticos. O desafio para a estrutura da Igreja não
é propriamente a secularização nem a politização da fé; estes são riscos
menores; o verdadeiro desafio para o tipo atual de instituição que
concentra ainda demasiado poder no clero é a vivência da fé trinitária,

5 Transliteração do termo grego traduzido por “igreja”.


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da fé comunhão entre distintos, formando uma comunidade viva e


aberta (BOFF, 2009, p.17).

Então, o paradigma eclesiástico inspirado pela Trindade considera a comunhão, a


participação, a abertura, a diversidade, a unidade, a igualdade e a co-responsabilidade.
Consequentemente, a Igreja é convidada a se deixar inspirar novamente pela Trindade. Acerca
disso, Boff (2009, p.74) diz:
Quanto mais a Igreja beber de sua fonte eterna que é a comunhão
trinitária, pela qual os três Distintos se unificam e são um só Deus, tanto
mais ela superará as divisões internas, deixará de ser clerical e laical e
se transformará num espaço de relações igualitárias num Povo de Deus,
de verdadeiros irmãos e irmãs no serviço do Reino da Trindade.

3.5 Paradigma escatológico

A escatologia é, por definição, a doutrina do que acontecerá no fim do tempo presente.


Entretanto, qual é a relação entre escatologia e Trindade? A Trindade é ponto de partida e ponto
de chegada para a família, para a sociedade, para a política e para a igreja. Ela está na origem e
no fim da história. É para a Trindade que todas as coisas se convergem. Nela, tudo encontrará
o seu desfecho. Sobre isso, Boff (2009, p. 144-146) afirma:
Haverá um momento na história quando se manifestará a realidade de
Deus assim como ela é e pode ser captada dentro dos limites da criatura
humana? Haverá sim. A antecipação disso já a tivemos com a
encarnação do Filho e a vinda do Espírito Santo (...) Quer dizer, uma
parte de nossa história virou história da Trindade. Agora a história em
sua totalidade vai ser história trinitária. (...) A criação para sempre
estará unida ao mistério da vida, do amor e da comunhão do Pai, do
Filho e do Espírito Santo. (...) É a festa dos redimidos. É a dança celeste
dos libertos. É o convívio dos filhos e filhas na pátria e no lar da
Trindade com o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Na criação trinitarizada
brincaremos e louvaremos. Louvaremos e amaremos a cada uma das
divinas Pessoas e a comunhão entre todas elas. E seremos por elas
convidados a amar e a louvar, a brincar e a cantar, a bailar e a adorar
pelos séculos dos séculos (BOFF, 2009, p.144,146).

Este é o paradigma escatológico: Na eternidade, a Trindade brinca numa ciranda de roda


e abre espaço para que a criação participe dessa ciranda. Em outras palavras, no fim de tudo, a
criação brincará com o Pai, com o Filho e com o Espírito Santo. No entanto, até que isso torne-
se uma realidade, há de existir sinais da eterna dança Trinitária no tempo e no espaço, na
história, junto à humanidade.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
12

A partir do que foi acima exposto, fica evidente que a doutrina da Trindade encontra sua
fundamentação nas Escrituras. Textos do Antigo e do Novo Testamento pressupõem e se
referem a Deus como Pai, Filho e Espírito Santo. Por trás e nos mesmos está a noção de Deus
como três pessoas distintas e divinas, que existem eternamente e se revelam historicamente.
Portanto, é possível afirmar que “só existe um Deus”, que esse “Deus é três pessoas” e que “as
três pessoas da Trindade são divinas”.
Também observou-se que a doutrina da Trindade pode inspirar novos paradigmas
relacionais para os dias atuais. A partir dela é possível repensar a família, a sociedade, a política,
a Igreja e a escatologia. Obviamente, o que aqui se fez foi apenas uma tentativa de mostrar a
amplitude dos desdobramentos da doutrina da Trindade. Com toda certeza, os paradigmas
compartilhados podem ser questionados e ampliados, e novos paradigmas podem ser propostos.
Se o presente artigo promover inquietações que levem a novas reflexões sobre a doutrina da
Trindade ele terá cumprido um de seus principais objetivos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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BOFF, Leonardo. A Santíssima Trindade é a melhor comunidade. Petrópolis: Vozes, 2009.


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apologética para o contexto atual. São Paulo: Vida Nova, 2007.

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HAGGLUND, Bengt. História da Teologia. Porto Alegre: Concórdia Editora, 1986.

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Paulo: Vida Nova, 1994.

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cristã. São Paulo: Shedd Publicações, 2005.