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Escolher um Nível Mais Elevado

Henry B. Eyring

© 2013 Henry B. Eyring.


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© 2013 Henry B. Eyring

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ISBN 978-1-60907-463-0

Impresso nos Estados Unidos da América

Edwards Brothers Malloy, Ann Arbor, MI

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Table of Contents
Um Firme Alicerce
Hoje
Ajudá-los no Caminho para Casa
Famílias sob Convênio
Andar na Luz
Preparação Espiritual: Começar Cedo e Ser Constante
Crescimento Pessoal por Meio da Ajuda ao Próximo
Nosso Exemplo Perfeito
Filhos de Deus
Confiar em Deus e, Então, Agir
Preparação
“Soldado Abatido!”
Fortalecidos pela Adversidade
Adversidade
A Fé dos Nossos Antepassados
O Poder da Libertação
Na Força do Senhor
Viver uma Vida Consagrada
Oportunidades de Fazer o Bem
Servir com o Espírito
Estar à Altura do Chamado
Agir com Toda a Diligência
Um Filho e Um Discípulo
Com os Corações Entrelaçados em União
Ajuda para Enfrentar os Últimos Dias
Dons do Espírito para Momentos Difíceis
Bem-Aventurados os Pacificadores
Fé e Chaves
Oh, Lembrai-vos, Lembrai-vos!
Elevar os Padrões
Um Firme Alicerce
Hoje
A expressão algum dia, quando pressupõe “hoje não”, é muito perigosa.
“Algum dia vou-me arrepender.” “Algum dia vou perdoá-lo.” “Algum dia
vou falar da Igreja para o meu amigo.” “Algum dia vou começar a pagar o
dízimo.” “Algum dia vou voltar ao templo.” “Algum dia ... ”
As escrituras deixam bem claro o perigo de adiar as coisas. O perigo é
descobrirmos que nosso tempo se esgotou. Deus, que nos dá cada dia como
um tesouro, pedirá que prestemos contas. Nós vamos chorar, e Ele vai chorar
também se nossa intensão de arrepender-nos e servir a Ele tiverem ficado
sempre para um amanhã que nunca chegou ou se tivermos passado a vida
sonhando com as oportunidades perdidas do passado. O dia de hoje é um
dom precioso de Deus. A atitude de deixar as coisas para “algum dia” pode
roubar-nos as oportunidades de aproveitar nosso tempo e receber as bênçãos
da eternidade.
Há uma solene advertência e um conselho nas seguintes palavras do
Livro de Mórmon:
“E agora, como vos disse antes, já que haveis tido tantos testemunhos,
peço-vos, portanto, que não deixeis o dia do arrependimento para o fim;
porque depois deste dia de vida que nos é dado a fim de nos prepararmos para
a eternidade, eis que, se não fizermos melhor uso de nosso tempo nesta vida,
virá a noite tenebrosa, durante a qual nenhum labor poderá ser executado.
Não podereis dizer, quando fordes levados a essa terrível crise:
Arrepender-me-ei para retornar a meu Deus. Não, não podereis dizer isso;
porque o mesmo espírito que possuir vosso corpo quando deixardes esta vida,
esse mesmo espírito terá poder para possuir vosso corpo naquele mundo
eterno” (Alma 34:33–34).
Então, Amuleque adverte que procrastinar o arrependimento e o serviço
pode fazer o Espírito do Senhor afastar-Se de nós. Mas, além dessa
advertência, ele nos dá a seguinte esperança: “E isto eu sei, porque o Senhor
disse que não habita em templos impuros, mas no coração dos justos ele
habita; sim, e disse também que os justos se sentarão em seu reino para não
mais sair; suas vestimentas, porém, deverão ser alvejadas pelo sangue do
Cordeiro” (Alma 34:36).
As escrituras estão repletas de exemplos de sábios servos de Deus que
valorizavam o dia presente e optaram por fazer todo o possível para se
purificar. Josué foi um deles: “Escolhei hoje a quem sirvais; (…) ”, disse ele,
“porém eu e a minha casa serviremos ao Senhor” (Josué 24:15).
O serviço ao Senhor convida o Espírito Santo a estar conosco. O
Espírito Santo, por sua vez, purifica-nos dos pecados.
Até o Salvador, que não tinha pecados, mostrou-nos pelo exemplo a
necessidade de não procrastinar. Ele disse:
“Convém que eu faça as obras daquele que me enviou, enquanto é dia; a
noite vem, quando ninguém pode trabalhar.
Enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo” (João 9:4–5).
O Salvador, agora ressurreto, é hoje e sempre a Luz do Mundo. É Ele
que nos convida a achegar-nos a Ele e a servir a Ele sem demora. Este é Seu
incentivo para nós: “Eu amo aos que me amam, e os que cedo me buscarem,
me acharão” (Provérbios 8:17).
Isso se aplica tanto a cada dia como à vida como um todo. Se fizermos
uma oração matinal e estudarmos as escrituras logo cedo para descobrir como
servir ao Senhor, isso poderá determinar o curso do nosso dia. Podemos
descobrir quais atividades, entre todas a serem escolhidas, são mais
importantes para Deus e, portanto, para nós. Aprendi que tais orações são
sempre respondidas, caso peçamos e ponderemos com a submissão de uma
criança e caso estejamos dispostos a agir sem tardar na realização até do
serviço mais humilde.
Haverá muitos dias em que não será fácil fazer aquilo que é mais
importante. E não é para ser fácil. O propósito de Deus na criação foi pôr-nos
à prova. O plano foi-nos explicado no mundo espiritual, antes de nascermos.
Lá, fomos valentes o bastante para termos a oportunidade de resistir à
tentação aqui na Terra a fim de nos prepararmos para a vida eterna, que é o
maior de todos os dons de Deus. Ficamos exultantes ao saber que a prova
seria de obediência e fidelidade, ainda que não fosse fácil.
Mesmo sabendo o quanto a prova seria difícil, ficamos alegres porque
sabíamos que era possível ser bem-sucedidos. Nossa confiança advinha de
sabermos que Jesus Cristo viria ao mundo para ser nosso Salvador. Ele
venceria a morte e possibilitaria que fôssemos purificados de nossos pecados
se nos qualificássemos para que os efeitos de Sua Expiação agissem em nós.
Também conhecíamos alguns detalhes tranquilizadores sobre o que
teríamos de fazer para ser devidamente purificados. Para a purificação dos
pecados, tudo o que precisaríamos fazer seria ser batizados pela devida
autoridade, receber o Espírito Santo pelas mãos de portadores do sacerdócio
autorizados, recordar-nos do Senhor e, consequentemente, ter Seu Espírito
conosco e, por fim, guardar Seus mandamentos. Tudo seria possível até para
o mais humilde de nós. Não seria preciso uma inteligência excepcional nem
riquezas ou vida longa. E sabíamos que o Salvador nos atrairia a Ele e teria o
poder de ajudar-nos quando a prova fosse difícil demais e a tentação de
procrastinar, forte demais.
Todos nós necessitaremos da ajuda Dele para evitarmos a tragédia de
adiar o que precisamos fazer aqui e agora para conquistar a vida eterna. Para
a maioria de nós, a tentação de procrastinar virá de um destes dois
sentimentos diametralmente opostos (ou de ambos): um é o sentimento de
satisfação com o que já fizemos; o outro é o desânimo diante do que ainda
precisamos fazer.
A complacência é um perigo para todos nós. Pode atingir jovens
ingênuos, que acham que terão muito tempo pela frente para as coisas
espirituais. Talvez suponham já ter feito muito considerando-se o pouco
tempo que viveram. Sei por experiência própria que o Senhor pode ajudar os
jovens nessa situação a verem que já estão imersos em coisas espirituais hoje.
Ele pode ajudá-los a ver que os colegas da escola os estão observando. Pode
ajudá-los a ver que o futuro eterno desses colegas será afetado pelo que virem
vocês fazerem ou deixarem de fazer. Um simples “obrigado” pela influência
positiva deles sobre vocês poderá inspirá-los mais do que vocês imaginam.
Se pedirem a Deus, Ele pode e vai revelar-lhes oportunidades de elevar o
próximo por Ele, oportunidades essas que Ele pôs a sua volta desde a
infância.
A complacência pode afetar até adultos experientes. Quanto mais tempo
passamos servindo ao Senhor com dedicação, mais fácil é para o tentador
colocar em nossa mente a seguinte mentira: “Agora você merece descansar”.
Talvez você já tenha sido a presidente da Primária do seu ramo duas vezes;
ou talvez tenha trabalhado com afinco na missão e feito muitos sacrifícios
para servir; ou talvez tenha sido o pioneiro da Igreja na sua região. Pode ser
surja o pensamento: “Por que não deixar a obra para os mais novos? Já fiz
minha parte”. A tentação será acreditar que você voltará a servir um dia.
O Senhor pode ajudá-los a enxergar o perigo de descansar por acharem
que já fizeram o bastante. Ele me ajudou ao dar-me a oportunidade de
conversar com um de Seus servos idosos. Ele estava fraco, com o corpo
debilitado por décadas de trabalho fiel e enfermidades. Tinha ordens médicas
para não sair mais de casa. A seu pedido, relatei uma viagem que fizera a
serviço do Senhor por vários países, com dezenas de reuniões e muitas
entrevistas pessoais, nas quais ajudei pessoas e famílias. Falei-lhe da gratidão
que as pessoas me tinham externado por ele e seus muitos anos de serviço.
Ele perguntou se eu teria outra designação em breve. Mencionei outra longa
viagem dentro em pouco. Ele me surpreendeu e me deu uma vacina contra a
complacência — que espero que dure para sempre — quando me segurou
pelo braço e pediu: “Ah, por favor, leve-me junto”.
É difícil saber quando já fizemos o bastante para que a Expiação
transforme nossa natureza e, assim, nos torne merecedores da vida eterna.
Não sabemos quantos dias teremos para prestar o serviço necessário para que
essa mudança ocorra, mas sabemos que teremos dias suficientes, contanto
que não os desperdicemos. Eis as boas novas:
“E os dias dos filhos dos homens foram prolongados de acordo com a
vontade de Deus, para que se arrependessem enquanto estivessem na carne;
portanto o seu estado se tornou um estado de provação e o seu tempo foi
prolongado, de acordo com os mandamentos dados pelo Senhor Deus aos
filhos dos homens” (2 Néfi 2:21).
Essa garantia do Mestre pode ajudar aqueles de nós que se sentem
oprimidos devido a circunstâncias difíceis. Nas provas mais difíceis, contanto
que tenhamos forças para orar, poderemos pedir a um Deus amoroso: “Por
favor, deixa-me servir hoje. Pouco importa se sou capaz de fazer apenas
poucas coisas. Só me mostra o que posso fazer. Hoje, eu serei obediente. Sei
que conseguirei, com o Teu auxílio”.
O Senhor pode inspirá-los serenamente a fazer algo simples como
perdoar alguém que os ofendeu. Isso pode ser feito até de uma cama de
hospital. Pode orientá-los a ajudar alguém que esteja com fome. Talvez vocês
já se sintam sobrecarregados pela sua própria falta de recursos ou pelos
afazeres do dia, mas, se decidirem não esperar até terem mais forças e mais
dinheiro, e se orarem e pedirem para ter o Espírito no cotidiano, saberão, no
momento certo, o que fazer e como ajudar alguém ainda mais necessitado que
vocês. Assim, talvez acabem por descobrir que essas pessoas estavam orando
e esperando que alguém como vocês aparecesse em nome do Senhor.
Para aqueles que estão desanimados com as circunstâncias em que se
encontram e, por isso, sentem-se tentados a achar que não podem servir ao
Senhor hoje, faço duas promessas. Por mais difíceis que as coisas pareçam
hoje, elas vão melhorar amanhã se vocês optarem hoje por servir ao Senhor
de todo o coração. Talvez sua situação não melhore tanto quanto gostariam,
mas vocês receberão novo alento para levar seus fardos e renovada confiança
de que, quando sua carga estiver pesada demais, o Senhor, a quem servem,
arcará com o peso que vocês não forem capazes de suportar. Ele sabe como
fazê-lo; está preparado há muito tempo. Ele sofreu suas enfermidades e dores
quando ainda na carne a fim de saber como os socorrer.
A outra promessa que lhes faço é que, se decidirem servir a Ele, sentirão
o Seu amor e passarão a amá-Lo ainda mais. Talvez se lembrem da seguinte
escritura:
“Digo-vos: quisera que vos lembrásseis de conservar sempre o nome
escrito em vosso coração (…) para que ouçais e conheçais a voz pela qual
sereis chamados e também o nome pelo qual ele vos chamará.
Pois como conhece um homem o mestre a quem não serviu e que lhe é
estranho e que está longe dos pensamentos e desígnios de seu coração?”
(Mosias 5:12–13.)
Se servirem a Ele hoje, vocês O conhecerão melhor. Sentirão Seu amor
e Sua gratidão. Não creio que desejem adiar essa bênção. Sentir esse amor os
levará a voltar a servir a Ele, eliminando tanto a complacência quanto o
desânimo.
Ajudá-los no Caminho para Casa
Nosso Pai Celestial deseja e precisa de nossa ajuda para trazer Seus
filhos espirituais de volta a Sua presença. E isso inclui os jovens que já estão
em Sua Igreja verdadeira e já começaram a trilhar o caminho estreito e
apertado que nos leva de volta ao nosso lar celestial. Ele quer que adquiram
cedo a força espiritual para permanecer no caminho. Ele precisa de nossa
ajuda para levá-los rapidamente de volta ao caminho caso comecem a se
afastar Dele.
Eu era um jovem bispo quando comecei a entender claramente por que o
Senhor quer que fortaleçamos crianças e jovens desde cedo e que os
resgatemos rapidamente. Vou contar-lhes a história de uma jovem que
representa muitos daqueles que tentei ajudar ao longo dos anos.
Ela estava sentada diante de mim no bispado. Falou-me de sua vida.
Havia sido batizada e confirmada membro da Igreja quando tinha oito anos.
Não havia lágrimas em seus olhos ao contar-me o que lhe acontecera nos
mais de 20 anos seguintes, mas havia tristeza em sua voz. Ela disse que a
espiral descendente começara com a decisão de associar-se a pessoas que ela
considerava animadas e divertidas. Começou a quebrar o que a princípio lhe
pareceram ser mandamentos menos importantes.
No começo, sentiu um pouco de tristeza e uma pontada de culpa, mas o
convívio com os amigos proporcionou-lhe um sentimento novo de ser aceita
e querida, de modo que suas ocasionais decisões de arrepender-se começaram
a parecer-lhe cada vez menos importantes. À medida que aumentava a
gravidade dos mandamentos que ela quebrava, o sonho de um lar eterno e
feliz pareceu desfazer-se.
Sentada diante de mim sentia-se angustiada e triste. Queria que eu a
resgatasse da armadilha de pecados em que se havia enredado. Mas, a única
para ela, a única saída seria ter fé em Jesus Cristo, quebrantar o próprio
coração e arrepender-se para, assim, ser purificada, transformada e fortalecida
pela Expiação do Senhor. Prestei-lhe meu testemunho de que isso ainda era
possível. Foi, porém, muito mais difícil do que teria sido se ela tivesse sido
guiada pela fé, mais cedo na vida, em sua jornada de volta à presença de
Deus, logo que começou a afastar-se do caminho.
Portanto, a melhor maneira de ajudarmos os filhos de Deus é
proporcionar-lhes meios de edificar a própria fé em Jesus Cristo e em Seu
evangelho restaurado desde cedo. Depois, precisamos ajudar a reacender essa
fé rapidamente, antes que ela se apague, sempre que eles começarem a
afastar-se do caminho.
Portanto, todos podemos contar que teremos quase que continuamente
oportunidades de ajudar os filhos de Deus em sua jornada de volta ao lar. O
Salvador disse-nos por que isso aconteceria ao descrever a perigosa jornada
que todos os filhos espirituais de Deus enfrentam na tentativa de voltar para
casa através da névoa criada pelo pecado e por Satanás:
“Entrai pela porta estreita; porque larga é a porta e espaçoso o caminho
que conduz à destruição e muitos são os que entram por ela;
porque estreita é a porta, e apertado é o caminho que conduz à vida; e
poucos são os que a encontram” (3 Néfi 14:13–14).
Prevendo as necessidades de Seus filhos amados, o bom Pai Celestial
deixou instruções e colocou salvadores ao longo do caminho. Enviou o
próprio Filho, Jesus Cristo, para tornar possível e visível esse caminho
seguro. Chamou profetas para nos ensinar não apenas como permanecer no
caminho, mas também como resgatar os que se desviaram para um caminho
de tristezas.
O Pai Celestial espalhou-nos ao longo do caminho nos mais diversos
postos, com a responsabilidades de fortalecer e, sempre que necessário, guiar
os viajantes para um lugar seguro. Nossa responsabilidade mais importante e
prioritária é para com nossa família. Isso porque a família tem a oportunidade
de plantar os pés de cada filho firmemente no caminho de volta ao lar, logo
no início de sua vida. Os laços de amor, característicos da própria natureza da
família, fazem com que pais, irmãos e irmãs, avós, tios e tias sejam nossos
guias e salvadores mais eficazes.
A família tem uma vantagem nos oito primeiros anos da vida de uma
criança. Nesses anos protegidos, graças à Expiação de Jesus Cristo, as névoas
de escuridão criadas por Satanás para ocultar o caminho não nos podem
afetar. Nesses anos preciosos, o Senhor ajuda a família chamando líderes da
Primária para ajudar a fortalecer espiritualmente as crianças. Também
proporciona portadores do Sacerdócio Aarônico para preparar e distribuir o
sacramento. Nas orações sacramentais, as crianças ouvem a promessa de que
poderão um dia receber o Espírito Santo para orientá-las se forem obedientes
aos mandamentos de Deus. O resultado é que elas são fortalecidas para
resistir à tentação quando ela surgir e, depois, em alguma época futura,
poderão resgatar outras pessoas.
Muitos bispos da Igreja são inspirados a chamar as pessoas mais firmes
da ala para ensinar as crianças da Primária. Eles sabem que, se as crianças
forem fortalecidas com fé e testemunho, é menos provável que precisem ser
resgatadas quando adolescentes. Sabem que um firme alicerce espiritual pode
fazer a diferença durante toda a vida.
Todos podem ajudar. Os avós e todos os membros que conhecem uma
criança podem ajudar. Não é preciso ter um chamado formal na Primária.
Tampouco há restrições de idade. Uma dessas mulheres, quando era mais
jovem, fez parte da junta geral da Primária que ajudou a criar o lema do CTR.
Ela era incansável no serviço às crianças. Deu aulas na Primária de sua
ala, a seu próprio pedido, até ter quase 90 anos de idade. As crianças sentiam
o quanto ela as amava. Viam seu exemplo. Aprendiam com ela os princípios
simples do evangelho de Jesus Cristo. E, acima de tudo, graças a seu
exemplo, aprendiam a sentir e a reconhecer o Espírito Santo. E quando isso
acontecia, estavam bem adiantadas em seu progresso na obtenção da fé
necessária para resistir às tentações. Era menos provável que precisassem de
resgate, e estariam preparadas para resgatar outras pessoas.
Aprendi, quando nossos filhos eram pequenos, a força que tem a simples
fé na oração e no Espírito Santo. Nosso filho mais velho ainda não tinha sido
batizado. Os pais, as professoras da Primária e os líderes do sacerdócio
tinham tentado ajudá-lo a sentir e a reconhecer o Espírito, e a aprender a
receber Sua ajuda.
Certa tarde, minha mulher o levou à casa da professora particular que o
ensinava a ler. Nosso plano era que eu parasse para buscá-lo em meu
caminho de volta do trabalho para casa.
A aula acabou mais cedo do que o esperado. Ele tinha certeza que sabia
voltar para casa. Por isso, pôs-se a caminho, a pé. Mais tarde, ele nos contou
que se sentia plenamente confiante e que havia gostado da ideia de voltar
sozinho para casa. Depois de ele andar quase um quilômetro, começou a
escurecer. Ele começou a achar que ainda estava muito longe de casa.
Até hoje ele se lembra de ver, com a vista embaçada pelas lágrimas, a
luz dos faróis dos carros que passavam um após o outro. Sentia-se como uma
criancinha, e não o menino confiante que havia começado a caminhar
sozinho de volta para casa. Deu-se conta de que precisava de ajuda. Foi então
que algo lhe veio à mente. Ele sabia que precisava orar. Então, saiu da estrada
e foi até umas árvores que, na escuridão, mal conseguia enxergar e encontrou
um lugar para se ajoelhar.
Por entre os arbustos, ouviu vozes de pessoas que se aproximavam. Dois
jovens ouviram-no chorar. Ao se aproximarem, perguntaram: “Precisa de
ajuda?” Em lágrimas, ele disse que estava perdido e que queria ir para casa.
Perguntaram se ele sabia o telefone ou o endereço de sua casa. Ele não sabia.
Perguntaram se sabia o próprio nome. Isso ele sabia. Levaram-no para a
própria casa, ali perto, e encontraram o nome de nossa família na lista
telefônica.
Quando recebi o telefonema, corri para resgatá-lo, agradecido pelas
pessoas bondosas que foram colocadas em seu caminho de volta para casa.
Sempre serei grato por ele ter sido ensinado a orar com fé pedindo ajuda
quando estivesse perdido. Essa fé o conduziu para a segurança e levou
salvadores até ele incontáveis vezes.
O Senhor estabeleceu um padrão de resgate e de salvadores em Seu
reino. Em Sua sabedoria, Ele inspirou Seus servos a proporcionar-nos
algumas maneiras mais eficazes de fortalecer-nos durante nossa adolescência
e a empregar os melhores salvadores para ajudar-nos nessa fase.
Vocês conhecem dois programas importantíssimos proporcionados pelo
Senhor. Um deles, para as moças, chama-se “Progresso Pessoal”. O outro,
para os portadores do Sacerdócio Aarônico, chama-se “Dever para com
Deus”. Incentivamos os jovens da nova geração a reconhecer o próprio
potencial de tornarem-se espiritualmente muito fortes. Imploramos aos que se
importam com esses jovens que se coloquem à altura do que o Senhor exige
de nós para ajudá-los. E como o futuro da Igreja depende deles, todos nós nos
importamos.
Os dois programas foram aprimorados, mas seu propósito continua o
mesmo. O Presidente Thomas S. Monson declarou que precisamos “aprender
o que devemos aprender”, “fazer o que devemos fazer” e “ser o que devemos
ser” (“Aprender, Fazer e Ser”, A Liahona, novembro de 2008, p. 60).
O livreto Progresso Pessoal para as moças deixa bem claro o propósito
do programa para elas: “O Programa de Progresso Pessoal utiliza os oito
valores das Moças para ajudá-la a entender mais plenamente quem você é,
por que está na Terra e o que deve fazer como filha de Deus a fim de
preparar-se para entrar no templo e fazer convênios sagrados”.
Prossegue declarando que cada moça vai “assumir compromissos e
cumpri-los e relatar seu progresso a seu pai, sua mãe ou sua líder”. Também
promete que “os padrões que você estabelecer ao fazer o Progresso Pessoal
— tais como, fazer oração, estudar as escrituras, servir e manter um diário —
vão tornar-se hábitos de seu dia a dia. Esses hábitos fortalecerão seu
testemunho e vão ajudá-la a aprender e a aperfeiçoar-se no decorrer de toda a
sua vida” (Progresso Pessoal das Moças, livreto, 2009, p. 6).
O programa Dever para com Deus para os rapazes do Sacerdócio
Aarônico é outra ferramenta poderosa, que fortalece o testemunho dos
rapazes, estreita seu relacionamento com Deus e os ajuda a aprender seus
deveres do sacerdócio e a ter o desejo de cumpri-los. Esse programa fortalece
o relacionamento dos rapazes com os pais, com os membros do quórum e
com seus líderes.
Os dois programas colocam grande parte da responsabilidade sobre os
ombros dos próprios jovens. Eles são incentivados a aprender e a fazer coisas
que seriam difíceis para qualquer pessoa. Ao refletir sobre minha própria
juventude, não me lembro de ter-me sido proposto tão grande desafio. É
verdade que, em algumas ocasiões, tive que passar em provas semelhantes,
mas só de vez em quando. Esses programas exigem constância, grande
empenho e acúmulo de conhecimento e de experiências espirituais ao longo
de anos.
Ao refletir, dou-me conta de que o conteúdo desses livretos é uma
manifestação física da confiança do Senhor na nova geração e em todos nós
que a amamos. Já tive provas de que essa confiança é merecida.
Nas visitas que fiz, vi os quóruns do Sacerdócio Aarônico em ação. Vi
rapazes que seguiam padrões de aprendizado, que planejavam fazer o que
Deus pedia deles e depois saíam para realizar o que se comprometeram a
fazer e para testificar aos outros a mudança espiritual ocorrida em sua vida.
Observei e ouvi atentamente, e ficou bem evidente para mim que os pais, as
mães, os líderes, os amigos e até as pessoas da congregação foram tocados
pelo Espírito ao ouvirem os jovens prestar testemunho de como foram
fortalecidos. Os jovens foram edificados e inspirados ao prestarem seu
testemunho, e o mesmo aconteceu com os que procuravam ajudá-los a
erguer-se.
O programa das Moças tem esse mesmo vigoroso padrão que
proporciona o desenvolvimento espiritual das moças e oferece-nos
oportunidades de ajudar. O Progresso Pessoal ajuda as moças a preparar-se
para receber as ordenanças do templo. Nisso são auxiliadas pelo exemplo das
mães, das avós e de todas as mulheres justas da Igreja. Vi como os pais de
uma moça a ajudaram a alcançar suas metas e seus sonhos, percebendo e
valorizando todas as coisas boas que ela fazia. Vi mãe e filha levantarem-se
para receber uma distinção que lhes era concedida em reconhecimento por
terem-se tornado exemplos de mulheres de valor. Quando me contaram o que
isso significava para elas, senti a aprovação e o incentivo do Senhor a todos
nós.
De toda a ajuda que podemos oferecer a esses jovens, a maior será
deixar que percebam que sabemos que eles estão no caminho de volta ao lar,
rumo à presença de Deus, e que hão de conseguir chegar lá. E o melhor modo
de fazê-lo é acompanhá-los nessa jornada. Como o caminho é íngreme e às
vezes pedregoso, pode ser que se sintam desanimados e até tropecem. Pode
ser que fiquem confusos sobre o destino a ser alcançado e se desviem na
tentativa de atingir metas de menor importância eterna. Esses programas
inspirados tornam tais percalços menos prováveis porque preparam os jovens
para receber a companhia do Espírito Santo.
O melhor conselho que podemos dar aos jovens é dizer-lhes que eles só
conseguirão voltar à presença do Pai Celestial se forem guiados e corrigidos
pelo Espírito de Deus. Portanto, se formos sábios, vamos incentivar, elogiar e
dar o exemplo de tudo que propicie a companhia do Espírito Santo. Quando
eles nos contam o que fazem e sentem, também precisamos estar dignos da
companhia do Espírito. Desse modo, eles sentirão em nossos elogios e
sorrisos a aprovação de Deus. Se houver a necessidade de corrigi-los, eles
sentirão nosso amor e o amor de Deus, e não repreensão e rejeição, o que
poderia permitir que Satanás os desvie ainda mais do caminho.
O melhor exemplo que podemos lhes dar é fazer nós mesmos as mesmas
coisas que eles precisam fazer. Precisamos orar pedindo os dons do Espírito.
Precisamos ponderar as escrituras e as palavras dos profetas vivos.
Precisamos fazer planos que não sejam meros desejos, mas convênios. E
então, precisamos cumprir as promessas que fizermos ao Senhor. E
precisamos edificar outras pessoas e levar-lhes as bênçãos da Expiação que
recebemos.
Precisamos, por meio de nossa própria vida, dar o exemplo da firme e
contínua fidelidade que o Senhor espera deles. Assim fazendo, nós os
ajudaremos a sentir a confirmação do Espírito de que, se perseverarem,
ouvirão o Salvador e o Pai Celestial dizerem-lhes com amor: “Bem está,
servo bom e fiel. Sobre o pouco foste fiel, sobre muito te colocarei; entra no
gozo do teu senhor” (Mateus 25:21). E todos nós, que os ajudamos durante a
jornada, ouviremos essas palavras com alegria.
Testifico que o Senhor ama vocês e todos os outros filhos de Deus.
Prometo que, se seguirmos a orientação inspirada desta, que é a verdadeira
Igreja de Jesus Cristo, nossos jovens e aqueles que os ajudam e os amam
poderão ser levados em segurança para o lar onde o Pai Celestial e o Salvador
habitam, para viver em família e em alegria para sempre.
Famílias sob Convênio
Tenho um amigo que voltou à atividade na Igreja depois de um período
longo de inatividade, isso, em grande parte, graças às chaves que nosso
profeta possui para selar as famílias para a eternidade. Ele e a mulher amam
seus dois filhinhos, um menino e uma menina. Como outros pais, ele antevê a
felicidade celestial ao ler estas palavras: “E (...) a mesma sociabilidade que
existe entre nós, aqui, existirá entre nós lá, só que será acompanhada de
glória eterna, glória essa que não experimentamos agora” (Doutrina e
Convênios 130:2).
Esse pai conhece o caminho para esse destino glorioso. Não é fácil. Ele
já sabe que não é. Exigiu fé em Jesus Cristo, profundo arrependimento e a
mudança no coração que lhe sobreveio quando um bondoso bispo o ajudou a
sentir o amor e o perdão do Senhor.
Continuaram a haver mudanças maravilhosas quando ele foi ao templo
sagrado para receber a investidura que o Senhor descreveu aos que Dele
receberam poder no primeiro templo desta dispensação, em Kirtland, Ohio. O
Senhor disse a esse respeito:
“Portanto por esta razão vos dei o mandamento de que fôsseis para o
Ohio; e lá vos darei minha lei e lá sereis investidos de poder do alto;
E de lá, (…) eis que tenho uma grande obra reservada, pois Israel será
salvo e guiá-lo-ei para onde eu desejar; e nenhum poder deterá minha mão”
(Doutrina e Convênios 38:32–33).
Para meu amigo que voltou à atividade na Igreja e para todo o
sacerdócio, uma grande obra nos está reservada, a de sermos líderes na
salvação da parte de Israel pela qual somos ou seremos responsáveis: nossa
família. Meu amigo e sua esposa sabiam que isso exigia que fossem selados
num templo sagrado de Deus pelo poder do Sacerdócio de Melquisedeque.
Ele pediu-me que eu realizasse o selamento. Ele e a mulher queriam ser
selados o mais rápido possível. Mas, devido à aproximação da época
atarefada da conferência geral, deixei que o casal e o bispo combinassem com
meu secretário a melhor data.
Imaginem minha surpresa e meu deleite quando o pai me disse, na
Igreja, que o selamento estava marcado para 3 de abril. Esse foi o dia, em
1836, em que Elias, o profeta transladado, foi enviado ao Templo de Kirtland
para conferir o poder selador a Joseph Smith e a Oliver Cowdery. Essas
chaves estão na Igreja hoje e continuarão nela até o fim dos tempos (ver
Joseph Fielding Smith, “Sealing Power and Salvation”, Brigham Young
University Speeches of the Year, 12 de janeiro de 1971; speeches.byu.edu).
É a mesma autoridade divina dada pelo Senhor a Pedro, em
cumprimento da promessa: “E eu te darei as chaves do reino dos céus; e tudo
o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra
será desligado nos céus” (Mateus 16:19).
O retorno de Elias abençoou todos os portadores do sacerdócio. O Élder
Harold B. Lee deixou isso bem claro em uma conferência geral, ao citar estas
palavras do Presidente Joseph Fielding Smith: “Eu tenho o sacerdócio.
Vocês, irmãos, têm o sacerdócio. Recebemos o Sacerdócio de
Melquisedeque, o mesmo que tinha Elias e outros profetas e Pedro, Tiago e
João. Contudo, embora tenhamos autoridade para batizar, para impor as mãos
para o dom do Espírito Santo e para ordenar outros e fazer todas essas coisas,
sem o poder de selamento nada poderíamos fazer, porque nada que
fizéssemos seria válido”.
As palavras do Presidente Smith prosseguem:
“As ordenanças mais elevadas, as maiores bênçãos que são essenciais à
exaltação no reino de Deus e que somente podem ser obtidas em certos
lugares, nenhum homem tem direito de realizá-las, a menos que receba
autoridade para tanto daquele
que tem as devidas chaves. (…) Não há nenhum homem na face desta
Terra que tenha o direito de ministrar quaisquer das ordenanças deste
evangelho a menos que o Presidente da Igreja, que é o detentor das chaves,
autorize. Ele concedeu-nos a autoridade e o poder de selamento do sacerdócio
porque ele possui essas chaves” (citado por Harold B. Lee, Conference
Report, outubro de 1944, p. 75).
Essa mesma certeza foi confirmada pelo Presidente Boyd K. Packer, ao
escrever sobre o poder selador. O fato de eu saber que essas palavras são
verdadeiras é um consolo para mim: “Pedro foi o escolhido para ser o
portador das chaves. A Pedro foi conferido o poder selador, (…) ligar ou
selar, ou (…) desligar na Terra e também no céu. Essas chaves pertencem ao
presidente da Igreja — o profeta, vidente e revelador. Esse poder selador
sagrado está na Igreja hoje. Nada é considerado mais sagrado por aqueles que
conhecem o significado dessa autoridade. Nada é conservado com maior
cuidado. Há relativamente poucos homens a quem foi [delegado] esse poder
selador na Terra, em qualquer época — em cada templo há irmãos aos quais
foi conferido o poder selador. Ninguém pode obtê-lo a não ser que o receba
do profeta, vidente e revelador, e presidente de A Igreja de Jesus Cristo dos
Santos dos Últimos Dias” (“O Templo Sagrado”, A Liahona, outubro de
2010, p. 28).
Na vinda de Elias, não apenas se conferiu poder ao sacerdócio, mas foi
prometido que corações seriam tocados: “O espírito, poder e chamado de
Elias, o profeta, é que vocês têm o poder de portar a chave da revelação,
ordenanças, oráculos, poderes e investiduras da plenitude do Sacerdócio de
Melquisedeque e do reino de Deus na Terra; e para receber, obter e realizar
todas as ordenanças pertencentes ao reino de Deus, sim, para voltar o coração
dos pais aos filhos e o coração dos filhos aos pais, sim, daqueles que estão no
céu” (Ensinamentos dos Presidentes da Igreja: Joseph Smith, 2007, p. 326).
Esse sentimento que nos leva a voltar o coração já sobreveio a meu
amigo e sua família. O mesmo pode estar acontecendo com vocês nesta
reunião. Ao ler essas palavras, pode ser que tenham visto mentalmente o
rosto de seu pai ou sua mãe. Pode ter sido o rosto de uma irmã ou um irmão.
Ou ainda de uma filha ou um filho.
Talvez eles estejam no mundo espiritual ou em outro continente da
Terra. Mas vocês se alegraram, pois sentiram que esse vínculo com eles
perdurará, pois vocês estão ligados, ou podem vir a estar ligados, a eles por
ordenanças do sacerdócio que serão honradas por Deus.
Os portadores do Sacerdócio de Melquisedeque que são pais e cuja
família foi selada aprenderam o que precisam fazer. Nada que tenha
acontecido ou que venha a acontecer em sua família é tão importante quanto
as bênçãos do selamento. Nada é mais importante do que honrar os convênios
matrimoniais e familiares que vocês fizeram, ou que farão, nos templos de
Deus.
O modo de fazer isso acontecer é bem claro. O Santo Espírito da
promessa, por meio de nossa obediência e nosso sacrifício, precisa selar os
convênios que fizermos no templo para que eles sejam válidos no mundo
vindouro. O Presidente Harold B. Lee explicou o que significa ser selado
pelo Santo Espírito da promessa, citando as palavras do Élder Melvin J.
Ballard: “Podemos enganar os homens, mas não podemos enganar o Espírito
Santo, e nossas bênçãos não serão eternas a menos que também sejam seladas
pelo Santo Espírito da promessa. O Espírito Santo é quem lê os pensamentos
e as intensões dos homens e concede Seu selo de aprovação às bênçãos
proferidas sobre a cabeça deles. Então, elas se tornam válidas, eficazes e
entram plenamente em vigor” (citado por Harold B. Lee, Conference Report,
outubro de 1970, p. 111).
Quando minha mulher e eu fomos selados no Templo de Logan Utah, eu
não compreendi, naquele momento, o pleno significado daquela promessa.
Ainda procuro entender seu significado completo, mas minha mulher e eu
decidimos no início de nossos quase 50 anos de casados que propiciaríamos
ao máximo a presença do Espírito Santo em nossa vida e em nossa família.
Eu era um jovem pai, selado no templo e com o coração voltado para
minha mulher e para minha jovem família, quando conheci o Presidente
Joseph Fielding Smith. Na sala de conselho da Primeira Presidência, para a
qual fui convidado, senti um testemunho plenamente seguro quando o
Presidente Harold B. Lee, apontando para o Presidente Smith, que estava
sentado a seu lado, perguntou: “Acredita que este homem possa ser o profeta
de Deus?”
O Presidente Smith acabara de entrar na sala e ainda não tinha falado
nada. Serei eternamente grato por ter podido responder, graças ao que senti
no coração: “Eu sei que ele é”, e soube tão seguramente quanto sabia que o
sol brilhava que ele tinha o poder selador do sacerdócio para o mundo inteiro.
Para minha mulher e eu, essa minha experiência emprestou mais força
às palavras proferidas pelo Presidente Joseph Fielding Smith em uma sessão
de conferência, em 6 de abril de 1972, ao dar o seguinte conselho: “É a
vontade do Senhor fortalecer e preservar a unidade familiar. Pedimos aos pais
que assumam seu lugar de direito na liderança da casa. Pedimos às mães que
apoiem o marido e sejam uma luz para os filhos” (“Counsel to the Saints and
to the World” [Conselho aos Santos e ao Mundo], Ensign, julho de 1972, p.
27).
Gostaria de sugerir quatro coisas que vocês, pais que são portadores do
sacerdócio, podem fazer para guiar sua família de volta à presença do Pai
Celestial e do Salvador.
Primeiro, adquiram e conservem um testemunho seguro de que as
chaves do sacerdócio estão conosco e que o presidente da Igreja as possui.
Orem por isso todos os dias. A resposta virá acompanhada de uma maior
determinação de liderar sua família, de uma maior esperança e de maior
alegria de servir. Vocês se tornarão mais alegres e otimistas, o que será uma
grande bênção para sua esposa e sua família.
A segunda coisa essencial é amar a esposa. Será preciso fé e humildade
para colocar os interesses dela acima dos seus próprios nos momentos difíceis
da vida. Vocês têm a responsabilidade de sustentar a família e de, com ela,
cuidar da família, ao mesmo tempo em que prestam serviço ao próximo. Isso,
às vezes, pode consumir toda a energia e as forças que temos. A idade e a
doença podem aumentar as necessidades de sua esposa. Se decidirem mesmo
colocar a felicidade dela acima da sua própria, prometo que seu amor por ela
vai aumentar.
Terceiro, conclamem a família inteira a amar uns aos outros. O
Presidente Ezra Taft Benson ensinou:
“Num sentido eterno, a salvação é uma questão de família. (…)
Acima de tudo, os filhos precisam saber e sentir que são amados,
queridos e valorizados. Precisam que isso lhes seja confirmado sempre.
Obviamente, esse é um papel que os pais devem desempenhar e, na maioria
das vezes, é a mãe quem consegue fazer isso melhor” (“Salvação — Um
Assunto Familiar”, A Liahona, novembro de 1992, p. 2).
Mas outra fonte essencial desse sentimento de ser amado é o amor entre
os filhos. O constante cuidado dos irmãos e das irmãs uns pelos outros só
vem depois de esforço persistente dos pais, com a ajuda de Deus. Vocês
sabem que isso é verdade pelo que vivenciaram em sua própria família. E
isso se confirma toda vez que leem os conflitos familiares enfrentados pelo
justo Leí e sua esposa Saria no Livro de Mórmon.
Os sucessos por eles obtidos são um guia para nós. Eles ensinaram o
evangelho de Jesus Cristo tão bem e com tanta persistência que os filhos e até
alguns descendentes, ao longo de gerações, abrandaram o coração para com
Deus e uns para com os outros. Por exemplo: Néfi e outros escreveram para
outros membros da família que eram seus inimigos e estenderam a mão para
eles. O Espírito, em certas ocasiões, abrandou o coração de milhares e
substituiu o ódio pelo amor.
Uma maneira de vocês alcançarem o mesmo sucesso do patriarca Leí é
pelo modo como conduzem a oração familiar e as atividades em família,
como, por exemplo, a noite familiar. Deem aos filhos que já saibam orar a
oportunidade de fazê-lo e de pedir bênçãos para os membros da família que
precisarem. Discirnam rapidamente o início de discórdias e reconheçam atos
de serviço abnegado, especialmente os prestados uns aos outros. Se eles
orarem uns pelos outros e servirem uns aos outros, o coração deles se
abrandará e se voltará para os irmãos e para os pais.
A quarta oportunidade de liderar a família, à maneira do Senhor, surge
quando é necessário disciplinar alguém. Podemos cumprir essa nossa
obrigação à maneira do Senhor e, depois, guiar nossos filhos rumo à vida
eterna.
Vocês devem se lembrar destas palavras, mas talvez não tenham visto
seu grande impacto para o portador do Sacerdócio de Melquisedeque que está
no processo de preparar sua família para viver com a mesma sociabilidade
que terão no Reino Celestial. Vocês hão de lembrar-se, é uma declaração
muito conhecida:
“Nenhum poder ou influência pode ou deve ser mantido em virtude do
sacerdócio, a não ser com persuasão, com longanimidade, com brandura e
mansidão e com amor não fingido;
Com bondade e conhecimento puro, que grandemente expandirão a
alma, sem hipocrisia e sem dolo—
Reprovando prontamente com firmeza, quando movido pelo Espírito
Santo; e depois, mostrando então um amor maior por aquele que
repreendeste, para que ele não te julgue seu inimigo;
Para que ele saiba que tua fidelidade é mais forte que os laços da morte”
(Doutrina e Convênios 121:41–44).
Depois, vem a promessa tão importante para nós, pais em Sião: “O
Espírito Santo será teu companheiro constante, e teu cetro, um cetro imutável
de retidão e verdade; e teu domínio será um domínio eterno e, sem ser
compelido, fluirá para ti eternamente” (Doutrina e Convênios 121:46).
Esse é um padrão elevado, mas, quando controlamos nosso
temperamento e subjugamos nosso orgulho com fé, o Espírito Santo concede
Sua aprovação e assegura-nos promessas e convênios sagrados.
Vocês terão sucesso se tiverem fé que o Senhor nos enviou de volta as
chaves do sacerdócio — que ainda estão conosco — por meio de um firme
laço de amor à sua esposa, tendo a ajuda do Senhor para voltar o coração de
seus filhos para os irmãos e para os pais; e deixando que o amor os guie para
que corrijam e exortem de tal modo que propicie a presença do Espírito.
Andar na Luz
Para todos nós, a vida é uma jornada. O Pai Celestial a preparou por
causa de Seu amor por nós. Todos temos experiências e características
exclusivas, mas nossa jornada começou no mesmo lugar, antes de nascermos
neste mundo.
Fomos todos ensinados por Eloim, o Pai de nosso espírito. Nós O
amávamos, queríamos ser semelhantes a Ele e viver com Ele para sempre.
Ele nos explicou claramente o que seria exigido de nós para termos essa
felicidade. Teríamos que receber um corpo físico, com todas as provações
que isso nos acarretaria. Ficaríamos sujeitos a doenças e teríamos em nosso
corpo processos que acabariam levando-nos à morte; e nosso corpo teria em
si um forte anseio por satisfação física.
O Pai Celestial explicou o que teríamos de enfrentar para fazer a jornada
do lugar onde estávamos na época até o ponto em que poderíamos habitar
com Ele para sempre e ter a vida que Ele tem. Teríamos que empreender a
jornada da vida sem a lembrança do tempo que passamos com Ele na
existência pré-mortal e o único meio de voltarmos à presença Dele seria
vencer a morte física e as consequências do pecado, resultantes da violação
dos mandamentos. Ele disse que não poderíamos vencer os efeitos da morte
ou do pecado sozinhos, sem um Salvador que quebrasse as cadeias da morte e
provesse um meio de sermos purificados dos pecados que sem dúvida
cometeríamos.
Vocês sabem, por meio das escrituras reveladas por Deus aos profetas,
que houve uma rebelião na existência pré-mortal quando o plano de nossa
jornada nos foi apresentado. Aqueles que se rebelaram não queriam aceitar
um Salvador e depender Dele nem correr qualquer risco de ficar impedidos
de voltar à presença do Pai Celestial. Todos vocês estavam entre os
corajosos, fiéis e leais naquele conflito. Vocês aceitaram o Salvador e o plano
desta jornada de volta à felicidade de viver na presença do Pai Celestial.
Vocês são notáveis, mesmo entre aqueles que fizeram a escolha certa na
batalha ocorrida na existência pré-mortal. Vocês se qualificaram para vir à
mortalidade e realizar esta jornada numa época em que o evangelho de Jesus
Cristo estaria na Terra e, entre os bilhões de filhos do Pai Celestial que vivem
hoje, tiveram o privilégio de conhecer o evangelho de Jesus Cristo e Sua
Igreja verdadeira. Vocês escolheram fazer a jornada da vida andando na luz.
Todo filho do Pai Celestial nascido no mundo recebeu, ao nascer, como
dádiva gratuita, a luz de Cristo. Vocês já a sentiram. É a noção do que é certo
e do que é errado, do que é verdadeiro e do que é falso. Ela está com vocês
desde o início de sua jornada da vida. O fato de terem sido batizados e de
terem recebido o Espírito Santo é uma prova de que escolheram andar na luz
de Cristo.
Quando vocês foram confirmados membros da Igreja, receberam o
direito de ter a companhia do Espírito Santo. Ele é uma grande fonte de luz
que nos permite reconhecer a verdade, seguir e amar o Senhor Jesus Cristo e,
após esta vida, encontrar nosso caminho de volta para Deus.
Mas o espírito que liderou a rebelião no mundo anterior ainda se opõe ao
plano e quer torná-los infelizes. Ele não quer que vocês encontrem o caminho
de volta para casa. Esse inimigo de sua alma conhece vocês e suas
qualidades. Ele sabe que, se puder impedi-los de andar na luz, conseguirá
capturá-los e impedi-los de ajudar outras pessoas ao longo da jornada. Ele
sabe como vocês são bons e conhece sua capacidade de ensinar e influenciar
centenas de filhos do Pai Celestial nesta vida e milhares ao longo das
gerações que seguirão seu exemplo. Se ele conseguir que vocês se desviem
da luz em sua jornada, prejudicará muitas pessoas e as tornará infelizes.
Deus reconhece sua grande importância e que vocês optaram por andar
na luz por Ele oferecida. Nem sempre é fácil ver claramente essas escolhas.
Todos os dias e a quase todo momento, vocês fazem escolhas que os mantêm
no caminho da luz ou que os afastam dela, conduzindo-os em direção às
trevas. Algumas das escolhas mais importantes têm a ver com os desejos de
seu coração.
Há muitas coisas que vocês podem considerar desejáveis. Por exemplo:
todos nós desejamos certo grau de aprovação de outras pessoas. Todos
sentimos a necessidade de ter amigos. Todos procuramos alguma
comprovação de nosso valor pessoal. Fazemos escolhas baseadas nesses
desejos. Algumas delas podem afastar-nos da luz que Deus oferece para
guiar-nos. Outras podem tornar mais brilhante a luz que nos mostra o
caminho.
Ao rever minha vida, dei-me conta de que não estava ciente da
importância de alguns desses desejos e dessas escolhas. Eu queria ser
escolhido para equipes esportivas. Queria tirar boas notas na escola. Queria
encontrar amigos bons e leais. Nas ocasiões em que fiz escolhas baseadas
nesses desejos, não percebi que elas me levavam ou para perto ou para longe
da luz.
Algumas das minhas realizações e amizades foram fatores importantes
para que eu visse a luz. Outras, mais do que eu tinha consciência na época,
afastavam-me da luz. De modo importante e duradouro, as escolhas que fiz
para satisfazer meu anseio por companhia e reconhecimento me levaram para
perto ou para longe da luz que me mostrava o caminho.
Há muito tempo, o Pai Celestial, por meio de Seus profetas, ensinou
uma maneira de sabermos quais escolhas são as mais importantes, bem como
a razão e o modo de fazermos essas escolhas. O melhor resumo que conheço
está nas palavras de Morôni, ao citar seu pai, Mórmon:
“Eis, porém, que aquilo que é de Deus convida e impele a fazer o bem
continuamente; portanto, tudo o que convida e impele a fazer o bem e a amar
a Deus e a servi-lo, é inspirado por Deus.
Portanto tende cuidado (…) a fim de que não julgueis ser de Deus o
que é mau; ou ser do diabo o que é bom e de Deus.
Pois eis que, meus irmãos, dado vos é julgar, a fim de que possais
distinguir o bem do mal; e a maneira de julgar, para que tenhais um
conhecimento perfeito, é tão clara como a luz do dia comparada com as
trevas da noite” (Morôni 7:13–15).
As escrituras nos dizem qual é a fonte e o poder da luz.
“Pois eis que o Espírito de Cristo é concedido a todos os homens, para
que eles possam distinguir o bem do mal; portanto vos mostro o modo de
julgar; pois tudo o que impele à prática do bem e persuade a crer em Cristo é
enviado pelo poder e dom de Cristo; por conseguinte podeis saber, com um
conhecimento perfeito, que é de Deus.
Mas tudo que persuade o homem a praticar o mal e a não crer em Cristo
e a negá-lo e a não servir a Deus, podeis saber, com conhecimento perfeito,
que é do diabo; porque é desta forma que o diabo age, pois não persuade
quem quer que seja a fazer o bem; não, ninguém; tampouco o fazem seus
anjos; nem o fazem os que a ele se sujeitam” (Morôni 7:16–17).
Agora vejo mais claramente do que quando era jovem como eu poderia
ter usado essa orientação. Participei de equipes esportivas que tinham
jogadores e técnicos que me influenciaram a fazer o bem. Houve outros que
não fizeram isso. Tive amigos, e alguns deles não eram membros da Igreja de
Jesus Cristo, que, com seu exemplo, influenciaram-me a fazer o bem e a
lembrar-me do Salvador.
Tive colegas e professores cuja aprovação e amizade procurei conquistar
e que, de alguma forma, motivaram-me a fazer o bem e aprofundar meu
vínculo com o Salvador. Tive a bênção de encontrar meu caminho, mas teria
me saído ainda melhor se tivesse compreendido mais claramente a
importância de minhas escolhas e a maneira certa de fazê-las.
Mórmon sabia dessas coisas. Se eu tivesse lido com mais atenção suas
palavras no Livro de Mórmon e outras semelhantes, teria sido ainda mais
abençoado e protegido. Estas são as palavras de Mórmon:
“Vendo que conheceis a luz pela qual podeis julgar, luz essa que é a luz
de Cristo, tende cuidado para não julgardes erradamente; porque com o
mesmo juízo com que julgardes, sereis também julgados.
Portanto (…) [procurai] diligentemente, na luz de Cristo, diferenciar o
bem do mal; e se vos apegardes a tudo que é bom e não o condenardes,
certamente sereis filhos de Cristo.
E agora, (…). como será possível vos apegardes a tudo que é bom?”
(Morôni 7:18–20.)
A fé é o que lhes permite apegar-se a tudo que é bom. Da mesma forma
que são visados como alvo pelo inimigo da retidão, o Pai Celestial e o Senhor
Jesus Cristo os protegem e zelam por vocês. Eles os conhecem. Conhecem
todas as forças e pessoas que os cercam. Eles sabem o que o futuro lhes
reserva. Portanto, Eles sabem que escolhas vocês fazem, quais de seus
desejos decidem satisfazer e que circunstâncias mais os influenciam a
continuar andando na luz. Testifico que pelo Espírito de Cristo e pelo Espírito
Santo vocês podem caminhar confiantes, sejam quais forem as dificuldades
que encontrarem. Como vocês são muito preciosos, algumas de suas
provações podem ser árduas. Nunca desanimem nem fiquem com medo. A
maneira de vencerem as dificuldades já lhes foi preparada, e vocês a
encontrarão se tiverem fé.
Vocês precisam ter fé para orar; precisam ter fé para ponderar a palavra
de Deus; precisam ter fé para fazer as coisas e procurar os lugares que
propiciam a companhia do Espírito de Cristo e do Espírito Santo.
Se vocês andarem na luz, sentirão agora parte do aconchego e da
felicidade que serão seus quando forem recebidos de volta ao lar,
acompanhados das centenas ou talvez milhares de pessoas que terão andado
na luz graças ao seu exemplo.
Preparação Espiritual: Começar Cedo e Ser Constante
A maioria de nós já pensou em como preparar-se para as tempestades. Já
vimos e nos condoemos do sofrimento das mulheres, dos homens, das
crianças, dos idosos e dos fracos atingidos por furacões, tsunamis, guerras e
secas. Uma das reações é perguntar: “Como me preparar?” Acontecem
corridas para comprar e armazenar tudo o que as pessoas acham que podem
precisar para o dia em que talvez tenham de enfrentar essas calamidades.
Mas há outro aspecto, até mais importante, em que temos de preparar-
nos para as provas que certamente todos enfrentaremos. Essa preparação deve
começar com muita antecedência, porque leva tempo. O que precisamos não
está à venda, não se empresta, não se pode armazenar e tem de ser feito com
regularidade e frequência.
O que precisaremos no dia em que formos provados é de preparação
espiritual; é ter desenvolvido tal fé em Jesus Cristo que consigamos passar na
prova da vida da qual depende tudo o que nos aguarda na eternidade. Essa
prova faz parte do propósito de Deus para nós na Criação.
O Profeta Joseph Smith deu-nos a descrição que o Senhor fez da prova
que enfrentamos. O Pai Celestial criou o mundo junto com Seu Filho, Jesus
Cristo. Estas palavras nos falam do propósito da Criação: “Desceremos, pois
há espaço lá, e tomaremos destes materiais e faremos uma terra onde estes
possam habitar; e assim os provaremos para ver se farão todas as coisas que o
Senhor seu Deus lhes ordenar” (Abraão 3:24–25).
Assim, a grande prova da vida é ver se escutaremos os mandamentos de
Deus e obedeceremos a eles em meio às tempestades da vida. Não é enfrentar
as tempestades, mas escolher o certo durante as tempestades. A tragédia da
vida é não passar nessa prova e, portanto, não se qualificar para voltar com
glória ao lar celestial.
Somos filhos espirituais do Pai Celestial. Ele nos amou e ensinou antes
de nascermos neste mundo e disse que desejava dar a nós tudo o que tinha.
Para qualificar-nos para receber essa dádiva, precisávamos receber um corpo
mortal e ser provados. Por causa do corpo mortal, enfrentaríamos a dor, a
doença e a morte.
Ficaríamos sujeitos às tentações por causa dos desejos e das fraquezas
inerentes ao nosso corpo mortal. Haveria forças do mal, sutis e poderosas,
que nos incitariam a ceder a essas tentações. Na vida, haveria tempestades em
que teríamos de fazer escolhas por meio da fé naquilo que não vemos com os
olhos naturais.
Foi-nos prometido que Jeová, Jesus Cristo, seria nosso Salvador e
Redentor. Ele garantiria a ressurreição para todos nós e nos possibilitaria
passar na prova da vida se exercêssemos fé Nele por meio da obediência. Nós
alçamos a voz exultantes com as boas-novas.
Uma passagem do Livro de Mórmon, Outro Testamento de Jesus Cristo,
diz o quanto a prova é difícil e o que será preciso para ser aprovado:
“Animai-vos, portanto, e lembrai-vos de que sois livres para agir por vós
mesmos—para escolher o caminho da morte eterna ou o caminho da vida
eterna.
Portanto, reconciliai-vos, meus amados irmãos, com a vontade de Deus
e não com a vontade do diabo e da carne; e lembrai-vos, depois de vos
reconciliardes com Deus, de que é somente na graça e pela graça de Deus que
sois salvos.
Possa Deus, portanto, levantar-vos da morte pelo poder da ressurreição e
também da morte eterna, pelo poder da expiação, a fim de que sejais
recebidos no eterno reino de Deus para louvá-lo pela graça divina. Amém” (2
Néfi 10:23–25).
Será preciso ter fé inabalável no Senhor Jesus Cristo para escolher o
caminho da vida eterna. É por meio dessa fé que podemos saber qual é a
vontade de Deus. É agindo de acordo com essa fé que conseguimos ter forças
para fazer a vontade de Deus; e é exercendo essa fé em Jesus Cristo que
podemos resistir às tentações e receber o perdão por meio da Expiação.
Precisaremos desenvolver e cultivar a fé em Jesus Cristo muito antes
que Satanás nos ataque, como certamente fará, com as dúvidas, com os
apelos aos nossos desejos carnais e com as vozes mentirosas que chamam o
bem de mal e dizem que não existe pecado. Essas tempestades espirituais já
estão sobre nós. Podemos ter certeza de que elas ficarão cada vez piores até
que o Salvador volte.
Não importa quanta fé tenhamos agora para obedecer a Deus,
precisaremos fortalecê-la continuamente e renová-la sempre. Podemos fazer
isso tomando agora a decisão de obedecer mais prontamente e perseverar
com mais determinação. Aprender a começar cedo e ser constante é a chave
da preparação espiritual. A procrastinação e a inconstância são seus inimigos
mortais.
Quero sugerir quatro contextos nos quais devemos obedecer com
rapidez e constância. O primeiro é o mandamento de banquetear-nos na
palavra de Deus; o segundo é orar sempre; o terceiro é o mandamento de
pagar o dízimo integralmente e o quarto é fugir do pecado e de seus efeitos
terríveis. Em cada um, é preciso fé para começar e, depois, para perseverar; e
todos eles têm o potencial de fortalecer nossa capacidade de obedecer aos
mandamentos do Senhor.
Vocês devem estar lembrados de quando, há alguns anos, o Presidente
Gordon B. Hinckley convidou todos os santos a lerem o Livro de Mórmon
até o final do ano. Ele disse: “Prometo-lhes sem reservas que, se seguirem
esse programa simples, não importando quantas vezes tiverem lido o Livro de
Mórmon antes, haverá em sua vida e em sua casa mais do Espírito do Senhor,
uma determinação mais firme de obedecer a Seus mandamentos e um
testemunho mais forte da realidade viva do Filho de Deus” (“Um
Testemunho Vibrante e Verdadeiro”, A Liahona, agosto de 2005, p. 3).
Essa declaração prometia-nos exatamente o aumento em nossa fé que
seria necessário a nossa preparação espiritual; mas, se demorássemos para
começar a obedecer a esse convite inspirado, o número de páginas a serem
lidas por dia aumentaria. Além disso, se acontecesse de passarmos mesmo
que só alguns dias sem ler, a probabilidade de não conseguir ler tudo tornava-
se maior. Foi por isso que decidi ler sempre um pouco mais do que minha
meta diária, para ter certeza de qualificar-me para receber a bênção da
resolução e a do testemunho de Jesus Cristo. Aprendi a atender aos
mandamentos do Senhor assim que os receber e a ser constante na
obediência.
E mais: ao ler o Livro de Mórmon, orei pedindo que o Espírito Santo me
ajudasse a saber o que Deus queria que eu fizesse. O próprio livro traz a
promessa de que esse pedido seria atendido: “Por isto eu vos disse:
Banqueteai-vos com as palavras de Cristo; pois eis que as palavras de Cristo
vos dirão todas as coisas que deveis fazer” (2 Néfi 32:3).
Decidi ser rápido em fazer o que o Espírito Santo me dissesse que
deveria fazer ao ler e ponderar o Livro de Mórmon. Quando terminei o
projeto em dezembro, havia passado por muitas experiências nas quais, para
ser obediente, precisei de toda a minha fé. E assim minha fé se fortaleceu. E
eu aprendi por experiência própria o que recebemos por consultar as
escrituras logo e com persistência para saber o que Deus quer que façamos e
por atender a vontade Dele. Se fizermos isso, estaremos mais bem preparados
quando tempestades maiores nos sobrevierem.
Aqueles de nós que aceitaram o conselho do profeta e terminaram de ler
o Livro de Mórmon aquele ano, viram-se diante da escolha do que fazer
depois de 1º de janeiro. Uma escolha possível era a de suspirar aliviados e
dizer a nós mesmos: “Já formei uma grande reserva de fé por ter começado
logo e ter sido obediente. Vou guardá-la para os momentos de provação”. Há
um meio melhor de preparar-nos, já que a fé, ainda que muita, dura pouco se
não for usada. Podemos resolver persistir no estudo das palavras de Cristo
encontradas nas escrituras e ensinamentos dos profetas vivos. Foi isso o que
decidi fazer. Volto a beber da fonte do Livro de Mórmon sem parcimônia e
com frequência. E sou grato por aquilo que o desafio e a promessa do profeta
me ensinaram sobre como aumentar e cultivar a minha fé.
A oração individual também nos ajuda a cultivar a fé que precisamos
para fazer o que Deus ordena. Recebemos o mandamento de orar sempre para
não ser vencidos. Parte da proteção de que precisamos virá da intervenção
direta de Deus, mas uma parte ainda maior provém de cultivarmos a fé
necessária para obedecer. Podemos orar todos os dias para saber o que Deus
quer que façamos; podemos assumir o compromisso de atender prontamente
ao receber a resposta. Sei por experiência própria que Ele sempre atende a
esses pedidos. Depois, podemos decidir obedecer. Se fizermos isso, nossa fé
aumentará até ser suficiente para que não sejamos vencidos, e ganharemos a
fé necessária para sempre voltar a pedir orientação. Quando as tempestades se
abaterem, estaremos prontos para seguir em frente e cumprir as ordens do
Senhor.
O Salvador deu-nos um grande exemplo de oração de submissão. Ele
orou no Jardim do Getsêmani ao realizar a Expiação, pedindo que fosse feita
a vontade do Pai. Ele sabia que a vontade do Pai seria que Ele passasse por
algo tão doloroso e terrível que não somos capazes de compreender. Em
oração, não pediu apenas para aceitar, mas para fazer a vontade do Pai. Ele
mostrou-nos a maneira de orar com perfeita e determinada submissão.
O princípio de exercer a fé prontamente e com constância também se
aplica ao mandamento do dízimo. Não devemos esperar pelo acerto anual do
dízimo para resolver pagar o dízimo integralmente. Podemos decidir isso já.
Leva tempo para aprender a controlar os gastos, acreditando que o que temos
vem de Deus. É preciso fé para pagar o dízimo prontamente, sem
procrastinar.
Se decidirmos desde já que pagaremos o dízimo integralmente, e se
formos constantes em fazê-lo, receberemos bênçãos o ano inteiro, não só na
época do acerto do dízimo. Se resolvermos agora pagar o dízimo
integralmente e nos esforçarmos sempre por fazê-lo, nossa fé se fortalecerá e,
com o tempo, nosso coração se abrandará. É essa mudança interior por meio
da Expiação de Jesus Cristo, que ultrapassa a doação de dinheiro ou bens, o
que torna possível ao Senhor prometer aos dizimistas integrais proteção nos
últimos dias (ver Doutrina e Convênios 64:23). Podemos ter certeza de que
nos qualificaremos para receber essa bênção de proteção se nos
comprometermos agora a pagar o dízimo integralmente e se nos mantivermos
fiéis no cumprimento desse compromisso.
A mesma força que advém de decidir-se logo a exercer a fé e ser
persistente em obedecer aplica-se a obter a fé para resistir às tentações e
alcançar o perdão. O melhor momento para resistir à tentação é logo no
início. O melhor momento para o arrependimento é agora. O inimigo de
nossa alma colocará pensamentos em nossa mente para tentar-nos. Podemos
decidir-nos logo a exercer a fé e expulsar os maus pensamentos antes de agir
de acordo com eles, e, quando pecarmos, podemos ser rápidos na decisão de
arrepender-nos, antes que Satanás enfraqueça nossa fé e nos subjugue. É
sempre melhor buscar o perdão agora do que deixar para depois.
Quando meu pai estava no leito de morte, perguntei a ele se não achava
que esse seria um bom momento para arrepender-se e orar pedindo perdão
por qualquer pecado que ainda não tivesse resolvido com Deus. Ele
provavelmente percebeu em minha voz alguma insinuação de que talvez
temesse a morte e o juízo. Deu uma risadinha, sorriu para mim e disse: “Ah,
não, Hal! Eu já fui me arrependendo pelo caminho”.
Se tomarmos agora a decisão de exercer a fé e sempre obedecer, isso nos
dará grande fé e confiança. Essa é a preparação espiritual de que todos
precisamos e, nos momentos de crise, é ela que nos qualificará para receber o
que o Senhor prometeu: “Se estiverdes preparados, não temereis” (Doutrina e
Convênios 38:30).
Isso se concretizará quando enfrentarmos as tempestades da vida e a
perspectiva da morte. O Pai Celestial nos ama, Ele e Seu Filho Amado nos
deram toda a ajuda possível para passarmos pela prova da vida que temos
diante de nós, mas temos de tomar a decisão de obedecer e, então, agir. É por
meio de nossas escolhas diárias que adquirimos a fé necessária para passar
nas provas de obediência que o tempo traz por meio de nossas escolhas
diárias. Podemos decidir agora que faremos prontamente tudo o que Deus
pedir de nós e podemos decidir agora que seremos firmes nas pequenas
provas de obediência que aumentam nossa fé para enfrentar as grandes
provas que com certeza virão.
Sei que, por meio do Espírito Santo, podemos saber o que Deus quer que
façamos. Testifico que Ele pode dar-nos a capacidade para fazer o que nos
pede, seja o que for e sejam quais forem as nossas provações. Oro e rogo que
decidamos ser rápidos em obedecer ao Senhor, sempre, nos momentos de paz
e em meio às tempestades. Com isso, nossa fé aumentará, teremos paz nesta
vida e ganharemos a certeza de que nós e nossa família poderemos qualificar-
nos para a vida eterna no mundo futuro.
Crescimento Pessoal por Meio da Ajuda ao Próximo
Nosso Exemplo Perfeito
Por mais diferentes que sejam nossas condições e nossa experiência de
vida, compartilhamos o desejo de tornar-nos melhores do que somos. Talvez
haja alguns que erroneamente supõem serem suficientemente bons ou alguns
que desistiram de tentar melhorar. Mas, para todos, a mensagem do
evangelho restaurado de Jesus Cristo é a de que podemos e devemos ter a
expectativa de tornar-nos cada vez melhores enquanto vivermos.
Parte dessa expectativa nos foi explicada em uma revelação dada por
Deus ao Profeta Joseph Smith. Ela descreve o dia em que nos encontraremos
com o Salvador, como acontecerá com todos nós. Diz o que devemos fazer
para preparar-nos e o que devemos esperar.
Está no livro de Morôni: “Portanto, meus amados irmãos, rogai ao Pai,
com toda a energia de vosso coração, que sejais cheios desse amor que ele
concedeu a todos os que são verdadeiros seguidores de seu Filho, Jesus
Cristo; que vos torneis os filhos de Deus; que quando ele aparecer, sejamos
como ele, porque o veremos como ele é; que tenhamos esta esperança; que
sejamos purificados, como ele é puro. Amém” (Morôni 7:48).
Isso deve ajudá-los a compreender por que todo santo dos últimos dias
fervoroso é otimista em relação ao que o futuro lhe reserva, por mais difícil
que seja o presente. Cremos que, ao vivermos o evangelho de Jesus Cristo,
podemos tornar-nos semelhantes ao Salvador, que é perfeito. A reflexão
sobre os atributos de Jesus Cristo deve extinguir o orgulho daquelas pessoas
satisfeitas consigo mesmas que acham que não precisam melhorar. E até a
pessoa mais humilde pode passar a ter esperança diante do convite de tornar-
se semelhante ao Salvador.
Para mim, o modo pelo qual essa maravilhosa transformação acontecerá
foi descrito num hino composto para as crianças. Lembro-me de observar o
rosto das muitas crianças que enchiam uma sala e cantavam esse hino num
domingo. Todas elas estavam inclinadas para a frente, quase na beira da
cadeira. Vi o brilho em seus olhos e a determinação em seu rosto ao cantarem
com muito entusiasmo:

Eu quero ser como Cristo, Seguindo Seus passos vou,


Eu quero amar a todos Tal como Ele sempre amou
Às vezes eu fico tentado a fazer
Uma coisa errada mas a minha consciência diz:

“Ame a seu próximo como Jesus


Ama você e seus passos conduz.
Gentil e bondoso você deve ser
E o exemplo de Cristo aprender”

(Janice Kapp Perry, “Eu Quero Ser Como Cristo”, Músicas para
Crianças, 1989, pp. 40–41).
Pareceu-me que elas não estavam apenas cantando; estavam afirmando
sua determinação. Jesus Cristo era seu exemplo. Sua firme meta era ser como
Ele. E seu olhar ávido e seus olhos brilhantes convenceram-me de que elas
não tinham dúvidas. Acreditavam que teriam sucesso. Acreditavam que a
instrução do Salvador de sermos perfeitos não era uma esperança, mas, sim,
um mandamento. Tinham certeza de que Ele havia preparado o caminho.
Essa determinação e essa confiança podem e devem estar no coração de
todo santo dos últimos dias. O Salvador preparou o caminho por meio de Sua
Expiação e de Seu exemplo. E até as crianças que cantavam aquele hino
sabiam como fazê-lo.
O amor é o princípio motivador pelo qual o Senhor nos conduz ao longo
do caminho que nos torna semelhantes a Ele, que é nosso exemplo perfeito.
Nosso modo de vida, a cada momento, precisa ser cheio de amor a Deus e
amor ao próximo. Não há surpresa nisso, já que o Senhor proclamou que
esses são os dois primeiros grandes mandamentos. É o amor a Deus que nos
leva a cumprir Seus mandamentos. E o amor ao próximo é o cerne de nossa
capacidade de obedecer a Ele.
Assim como Jesus, em Seu ministério mortal, usou uma criança como
exemplo do puro amor que as pessoas precisavam e podiam ter para
tornarem-se semelhantes a Ele, Cristo deu-nos a família como exemplo de um
ambiente ideal no qual podemos aprender a amar como Ele ama.
Isso acontece por que é no relacionamento familiar que encontramos
nossas maiores alegrias e nossas maiores tristezas. As alegrias advêm de
colocarmos o bem dos outros acima do nosso próprio. Isso é que é o amor. E
as tristezas advêm principalmente do egoísmo, que é a ausência de amor. O
ideal que Deus estabeleceu para nós é o de formar uma família da maneira
mais acertada para conduzir-nos à felicidade e afastar-nos das tristezas. Um
homem e uma mulher devem fazer convênios sagrados que colocarão o bem
e a felicidade do outro no centro de sua vida. Os filhos devem nascer em uma
família na qual os pais consideram as necessidades dos filhos tão importantes
quanto as suas próprias; e os filhos devem amar os pais e amarem-se uns aos
outros.
Esse é o ideal de uma família amorosa. Em muitos lares, há estas
palavras: “Nossa Família Pode Ser Eterna”. Perto da minha casa, há um
túmulo de uma mulher que foi mãe e avó. Ela e o marido foram selados um
ao outro e à sua posteridade no templo de Deus para esta vida e para toda a
eternidade. A inscrição na lápide diz: “Peço que não fique faltando ninguém”.
Ela pediu que essa inscrição fosse gravada em sua lápide porque sabia que as
escolhas de cada membro da família determinariam se a família voltaria a
estar toda reunida. A palavra “peço” está ali porque nem Deus nem ela
poderiam compelir ninguém a escolher a felicidade. Além disso, há Satanás,
que quer a miséria e não a felicidade das famílias nesta vida e na eternidade.
O que espero hoje é sugerir algumas escolhas que talvez pareçam
difíceis, mas que lhes assegurarão a qualificação para que não fique faltando
ninguém em sua família no mundo vindouro.
Primeiro, dou um conselho para o marido e a mulher. Orem pelo amor
que lhes permita ver o que há de bom em seu cônjuge. Orem pelo amor que
faz as fraquezas e os erros parecerem pequenos. Orem pelo amor que faz da
alegria de seu cônjuge a sua alegria. Orem pelo amor que os fará querer
aliviar o fardo e amenizar os sofrimentos de seu cônjuge.
Vi isso no casamento de meus pais. Na doença terminal de minha mãe,
quanto mais desconfortável ela ficava, mais meu pai se dedicava a dar-lhe
conforto. No hospital, pediu que fosse colocado um leito para ele no quarto
dela. Estava determinado a estar presente para certificar-se de que nada
faltasse a ela. Caminhava vários quilômetros todas as manhãs para ir
trabalhar e mais outro tanto à noite para estar de volta a seu lado, durante
todo aquele período difícil da vida dela. Creio que foi uma dádiva de Deus a
ele o fato de sua capacidade de amar ter aumentado quando isso era tão
importante para ela. Acho que era por amor que ele fazia o que Jesus teria
feito.
Agora, dou um conselho para os pais de filhos rebeldes. O Salvador é o
exemplo perfeito de persistência em amar. Lembrem-se de Suas palavras de
consolo ao povo nefita que havia rejeitado os convites anteriores de achegar-
se a Ele. Ele disse aos sobreviventes da destruição ocorrida após Sua
Crucificação: “Ó vós, casa de Israel a quem poupei, quantas vezes vos
ajuntarei como a galinha ajunta seus pintos sob as asas, se vos arrependerdes
e voltardes a mim com firme propósito de coração!” (3 Néfi 10:6.)
A história do filho pródigo dá esperança a todos nós. O filho pródigo
lembrou-se de casa, e seus filhos também se lembrarão. Eles vão sentir seu
amor atraí-los de volta. O Élder Orson F. Whitney, numa conferência geral
em 1929, fez uma promessa extraordinária, que sei que é verdadeira, aos pais
fiéis que honram o selamento a seus filhos realizado no templo: “Embora
algumas ovelhas se percam, o Pastor não as perde de vista e, cedo ou tarde,
elas sentirão os braços da Divina Providência estenderem-se para elas,
atraindo-as de volta ao redil”.
Depois, ele prossegue, dizendo: “Orem por seus filhos descuidados e
desobedientes. Apeguem-se a eles com sua fé. Continuem a ter esperança e a
confiar até verem a salvação de Deus” (Conference Report, abril de 1929, p.
110). Vocês podem orar por seus filhos, amá-los e estender a mão para eles
com a certeza de que Jesus também estende a mão para eles com vocês. Se
continuarem tentando, estarão fazendo o que Jesus faria.
Agora, eis meu conselho para os filhos. O Senhor lhes deu um
mandamento com promessa: “Honra a teu pai e a tua mãe, para que se
prolonguem os teus dias na terra que o Senhor teu Deus te dá” (Mosias
13:20). É o único dos Dez Mandamentos que inclui uma promessa. Talvez
seus pais não estejam vivos. Em alguns casos, pode ser que vocês pensem
que seus pais não são dignos da honra e do respeito dos filhos; pode ser até
que vocês nem os conheçam; mas vocês lhes devem a vida. Em todo caso,
mesmo que sua vida não seja prolongada, sua qualidade será melhor
simplesmente por se lembrarem de seus pais com honra.
Agora, para os que adotaram a família de outros como a sua própria:
Tenho amigos que se lembram do aniversário de meus filhos melhor do que
eu. Minha mulher e eu temos amigos que raramente deixam de nos visitar nos
feriados ou de lembrar-se de nós. Muitas vezes fico tocado quando alguém
começa uma conversa dizendo: “Como vai sua família?” e, depois, com uma
expressão amorosa, espera para ouvir a resposta. Essas pessoas ouvem com
atenção o que lhes conto da vida de cada um de meus filhos. Seu amor me
ajuda a sentir mais intensamente o amor do Salvador por nossos filhos. Com
sua pergunta, sinto que sentem o mesmo que Jesus e perguntam o que Ele
perguntaria.
Todos nós talvez achemos difícil ver em nossa vida uma capacidade
cada vez maior de amar e de tornar-nos mais semelhantes ao Salvador, que é
nosso exemplo perfeito. Quero incentivá-los. Vocês têm evidências de que
estão progredindo na jornada para se tornarem mais semelhantes a Jesus. Será
útil lembrarem-se de como, às vezes, sentiram-se como criancinhas mesmo
em meio a preocupações e provações. Pensem nas crianças que cantaram
aquele hino. Pensem nos momentos em que se sentiram, talvez recentemente,
como aquelas crianças ao cantar: “Eu quero ser como Cristo, seguindo seus
passos vou”. Devem estar lembrados de que Jesus pediu aos discípulos que
levassem as crianças até Ele, dizendo: “Deixai vir os meninos a mim (…);
porque dos tais é o reino de Deus” (Marcos 10:14). Vocês já sentiram a paz
que sente uma criancinha pura, em certos momentos, quando tentaram ser
como Cristo.
Pode ter sido quando foram batizados. Ele não precisava do batismo
porque era puro, mas, quando vocês foram batizados, sentiram que ficaram
puros como uma criancinha. Quando Ele foi batizado, os céus se abriram e
Ele ouviu a voz do Pai Celestial dizer: “Este é o meu Filho amado, em quem
me comprazo” (Mateus 3:17). Vocês não ouviram uma voz, mas sentiram a
aprovação do Pai Celestial por terem feito o que Jesus fez.
Sentiram isso em sua família quando pediram o perdão de seu cônjuge
ou perdoaram a um filho por algum erro ou alguma desobediência. Tais
momentos serão mais frequentes se vocês procurarem fazer as coisas que
sabem que Jesus faria. Graças à Expiação que Ele realizou por vocês, se
forem obedientes como uma criança, sentirão o amor do Salvador por vocês e
seu amor por Ele. Essa é uma das dádivas prometidas a Seus discípulos fiéis.
E essa dádiva pode ser concedida não só a vocês, mas também aos membros
amorosos de sua família. A promessa foi feita em 3 Néfi: “E todos os teus
filhos serão instruídos pelo Senhor; e a paz de teus filhos será abundante” (3
Néfi 22:13).
Espero que vocês saiam hoje à procura de oportunidades de fazer o que
Ele fez e de amar como Ele ama. Posso prometer-lhes que a paz que vocês
sentiram na infância lhes virá mais vezes e permanecerá por mais tempo com
vocês. A promessa que Ele fez a Seus discípulos é verdadeira: “Deixo-vos a
paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo a dá” (João 14:27).
Nenhum de nós já é perfeito, mas podemos ter a confirmação frequente
de que estamos trilhando o caminho certo. Ele nos guia e nos chama a segui-
Lo.
Filhos de Deus
O General James Gavin era um jovem general do exército americano
durante a Segunda Guerra Mundial. Ele comandou a 82ª Divisão Aérea e
chefiou-a na invasão da Sicília. Houve baixas lá. Ele e sua divisão saltaram
de paraquedas por trás das linhas inimigas durante as invasões da França,
onde perderam mais homens. Então ele comandou-os em batalhas sangrentas
na Bélgica durante os contra-ataques alemães, e suas tropas sofreram grandes
baixas.
Os soldados do General Gavin receberam uma merecida licença. Alguns
foram para Paris, onde foram vistos por um general de outro exército aliado.
Mais tarde, quando encontrou o General Gavin, esse outro general disse-lhe
que nunca tinha visto soldados com melhor aparência. O General Gavin
prontamente respondeu que eles mereciam ter uma boa aparência: eram
sobreviventes.
Vocês estão entre os sobreviventes. Graças a terem escolhido o que é
certo e à ajuda de inúmeros servos de Deus, vocês conseguiram sobreviver a
uma saraivada de balas espirituais. Houve dezenas de milhares de vítimas.
Vocês conhecem algumas delas porque são seus amigos, seus irmãos e suas
irmãs espirituais. Vocês são mais do que simples sobreviventes daquela
guerra espiritual: são o futuro da Igreja. Deus sabe disso e espera mais de
vocês do que de todos os que os precederam, porque o reino precisará de
mais. Satanás sabe que vocês são o futuro da Igreja, o que me dá a solene
obrigação de alertá-los dos perigos que estão à frente e explicar como
sobreviver a eles durante a preparação para receber os privilégios que Deus
lhes dará.
Vocês têm a missão de buscar a excelência. Vocês, bem como todos os
santos dos últimos dias, precisam continuar a aprender durante toda a vida. E,
contudo, o Senhor adverte-nos do perigo ao dar-nos esse encargo. Lembrem-
se das palavras do Livro de Mórmon:
“Oh! Quão astuto é o plano do maligno! Oh! A vaidade e a fraqueza e a
insensatez dos homens! Quando são instruídos pensam que são sábios e não
dão ouvidos aos conselhos de Deus, pondo-os de lado, supondo que sabem
por si mesmos; portanto sua sabedoria é insensatez e não lhes traz proveito. E
eles perecerão” (2 Néfi 9:28).
Vocês devem buscar excelência e, ao mesmo tempo, fugir do orgulho, o
grande destruidor espiritual. A maioria das pessoas questiona se é possível
buscar excelência em qualquer coisa sem sentir um pouco de orgulho.
Um jogador de basquete profissional da NBA sentou-se ao meu lado em
um avião pouco depois do discurso do Presidente Ezra Taft Benson sobre os
perigos do orgulho. Na conferência geral, o Presidente Benson dissera que
não existia tal coisa como o orgulho justo. Meu colega de voo não tinha
escutado o discurso, então eu lhe contei o que fora dito e perguntei se seria
possível destacar-se na NBA se ele se despojasse de todo o orgulho. Ele
respondeu calmamente que não sabia se poderia sobreviver, muito menos se
sobressair.
Um astro da Broadway deu sua opinião sobre o lugar que o orgulho
ocupava em seu trabalho de uma forma muito expressiva. Ele tinha sido
contratado para o papel principal em uma produção de Um Violinista no
Telhado, com um elenco de estudantes universitários. Pediram-me que
fizesse uma oração com o elenco na noite de estreia. O veterano da
Broadway, que tinha feito o papel centenas de vezes, ficou atrás do círculo de
estudantes que se formou em torno de mim um pouco antes de a cortina subir.
Ele parecia confuso.
Pelo que me lembro, pedi a Deus que os membros do elenco
conseguissem exceder suas habilidades naturais, que o equipamento de cena
funcionasse bem, que o coração do público fosse suavizado e fosse tocado.
Não me recordo de muito mais da oração, mas me lembro do que aconteceu
logo depois que disse “Amém”.
O astro da Broadway saltou no ar, pousou no palco fazendo um som
explosivo com suas botas pesadas, bateu as mãos nas coxas, em seguida as
jogou para cima e gritou: “Okay, agora vamos lá!” Se o público ouviu seu
grito, e imagino que ouviu, deve ter achado que o elenco atravessaria a
cortina e se lançaria sobre a plateia criando um grande caos.
Só posso supor que ele estava determinado a combater o terrível erro
que tinha acabado de presenciar. A última coisa no mundo que ele queria era
subir no palco com um grupo de atores amadores que tinham sido infectados
pela humildade.
Não pretendo dizer a vocês como buscar excelência e humildade
simultaneamente na NBA ou na Broadway. Se chegarem nesses lugares,
terão que encontrar seu próprio caminho.
Mas vou dizer-lhes que não só é possível buscar excelência e humildade
ao mesmo tempo para evitar o perigo espiritual como também que o caminho
para a humildade é também a porta de entrada para excelência. O melhor
antídoto que conheço para o orgulho também pode gerar em nós as
características que levam à excelência.
Vamos começar com o problema de orgulho. Há mais do que um
antídoto para ele. Alguns antídotos não necessitam de nenhuma ação de nossa
parte. A vida se encarrega deles. O fracasso, a doença, os desastres e as
perdas de todos os tipos costumam desbastar o orgulho. Mas esses antídotos
vêm em doses irregulares. Quando vêm em grande quantidade de uma só vez,
podem levar-nos ao desânimo ou à amargura. Ou podem chegar tarde demais,
depois que o orgulho já nos tornou vulneráveis à tentação.
Existe um método melhor. Há algo que, se decidirmos fazer no nosso
cotidiano, proporcionará uma proteção constante contra o orgulho. É
simplesmente lembrarmo-nos de quem é Deus e do que significa ser Seus
filhos. É esse o convênio que fazemos todas as vezes que tomamos o
sacramento e prometemos lembrar-nos sempre do Salvador. Devido ao que
nos foi revelado sobre o plano de salvação, lembrar-se Dele pode gerar a
humildade que será nossa proteção. E como veremos mais tarde, a mesma
escolha de lembrar-nos Dele produzirá em nós com o tempo uma capacidade
maior de aprender tanto o que precisamos saber para viver neste mundo como
para a vida futura.
Lembrar-se do Salvador gera humildade da seguinte maneira: Por
sermos abençoados com revelações por meio dos profetas desta dispensação,
vemos qual é o papel Dele no plano de salvação e passamos a conhecer nosso
amoroso Pai Celestial e a saber o que significa ser Seus filhos espirituais.
Quando nos lembramos do Salvador, nós O vemos como Criador de
todas as coisas, das quais até o mais sábio de nós sabe muito pouco.
Lembramo-nos de como dependemos de Seu sacrifício ao pensarmos na
queda do homem e em nossos próprios pecados. Lembramo-nos de Seu amor
infinito por nós e de seus braços estendidos para nós ao ponderamos, apesar
do pouco que entendemos, naquilo que Ele fez para expiar nossos pecados.
Lembramo-nos que só voltaremos à presença de nosso Pai Celestial para
vivermos para sempre em família por meio da obediência a Seus
mandamentos e da orientação do Espírito Santo. E lembramo-nos de Seu
exemplo de completa submissão à vontade de Seu Pai, que também é nosso
Pai.
Essas lembranças, se lhes dermos lugar, podem produzir uma poderosa
mistura de coragem e mansidão. Nenhum problema é difícil demais para nós
com a ajuda Dele. Não há preço é alto demais a pagar por aquilo que Ele nos
oferece. E, contudo, em nossos maiores sucessos, nos sentimos como
criancinhas, e, em nossos maiores sacrifícios, ainda nos sentimos em dívida
para com Ele e queremos fazer mais. Essa é uma humildade que nos dá
energia, não nos debilita. Podemos optar por usar esse escudo como proteção
contra o orgulho. E quando tomamos essa decisão, de lembrarmo-nos Dele,
estamos ao mesmo tempo optando por fazer algo que pode levar-nos a
adquirir características que nos permitirão aprender muito.
A visão do que significa ser filho de Deus, se decidirmos pautar nossas
ações por ela, como uma realidade, vai levar-nos a fazer o que os bons alunos
fazem. Esses hábitos não são exclusivos daqueles que entendem as revelações
de Deus e têm fé nelas. Os princípios de aprendizagem funcionam da mesma
forma para todas as pessoas, quer conheçam e acreditem ou não no plano de
salvação. Mas temos uma vantagem. Podemos lembrar-nos do Salvador,
ponderar o que as revelações nos dizem sobre quem somos e, depois, optar
por agir de acordo com essa realidade. Isso nos transformará em bons alunos.
Vou mencionar apenas alguns dos hábitos dos bons alunos. Em cada
caso, vocês vão reconhecê-los. Vocês já conheceram grandes estudiosos e já
os observaram atentamente. Existem alguns padrões comuns no que fazem, e
cada um desses hábitos será reforçado se, na vida diária, agirmos de acordo
com nossa crença de que o plano de salvação é a descrição da realidade.
O primeiro comportamento característico é o de aceitar correção. Vocês
devem ter visto isso, por exemplo, em alunos que valorizam a sábia correção
de seus trabalhos. Os alunos que procuram quem os corrija, estudam as
correções feitas e, depois, revisam o que escreveram tornam-se melhores
escritores. Da mesma forma, os cientistas progridem mais rápido quando
entregam seu trabalho para ser analisado por pessoas que entendam seus
métodos e os resultados da pesquisa. E, no processo de aprender um novo
idioma, sábio é aquele que, em vez de procurar um professor que o elogie por
qualquer coisa que ele diga, procura um professor que não deixe uma palavra
mal pronunciada nem um erro de conjugação verbal passar sem ser corrigido.
O desejo de ser corrigido, um traço dos bons alunos, é algo natural para
os santos dos últimos dias que sabem o que é ser filho de Deus e valorizam
isso. Para essas pessoas, o primeiro passo é buscar com frequência a correção
que vem diretamente do Pai Celestial. Uma das mais valiosas formas de
revelação pessoal pode vir antes da oração particular. Pode vir na calma
reflexão de como talvez tenhamos ofendido, decepcionado ou desagradado
nosso Pai Celestial. O Espírito de Cristo e o Espírito Santo nos ajudarão a
sentir ao mesmo tempo a repreensão pelo erro e o incentivo ao
arrependimento. Com isso, as orações pedindo perdão tornam-se menos
gerais e aumenta a probabilidade de que a Expiação opere em nossa vida.
Nós, santos dos últimos dias, temos outra vantagem: Sabemos que o Pai
nos ama e, por isso, permitiu que vivêssemos em uma época em que Jesus
Cristo chamou profetas e outros para servirem como juízes em Israel. Por
causa disso, ouvimos a voz do profeta ou aconselhamo-nos com o bispo na
esperança de sermos corrigidos.
Isso é assim porque sabemos um pouco a respeito da natureza de Deus e
de nossa própria condição. Houve uma queda. Um véu de esquecimento foi
colocado sobre nós. Andamos pela fé. Porque somos mortais, todos pecamos.
Não podemos voltar à presença do Pai a menos que nos arrependamos e
cumpramos nossos convênios e, assim, sejamos purificados por meio do
sacrifício de Seu Filho. Sabemos que Ele providenciou servos para oferecer-
nos Seus convênios e Sua correção. Consideramos o que damos e recebemos
no processo de correção como algo inestimável e sagrado. Essa é pelo menos
uma das razões pelas quais o Senhor advertiu-nos a buscar como professores
somente homens e mulheres inspirados por Ele, e essa é uma das razões pelas
quais aceitamos com prazer profetas para nos guiar.
Uma segunda característica dos bons alunos é que eles cumprem os
compromissos assumidos. Qualquer comunidade funciona melhor quando as
pessoas que vivem nela cumprem a promessa de viver de acordo com as
normas aceitas pela comunidade. Mas para um aluno ou para uma
comunidade de alunos, a observância de compromissos tem especial
importância.
É por isso que algumas vezes nos referimos aos campos formais de
estudo como “disciplinas”. Campos diferentes têm regras diferentes. Na física
existem algumas regras sobre como decidir acreditar que algo é verdadeiro. A
isso, algumas vezes dá-se o nome de “método científico”, mas, em outras
disciplinas, como a engenharia ou a geologia, as regras são um pouco
diferentes. Em história, em literatura francesa ou em contabilidade,
encontraremos conjuntos de regras ainda mais diversas. Vocês um dia
enfrentarão, se é que ainda não enfrentaram, a inquietação de tentar aprender
uma disciplina que está passando pelo processo de adoção de novas regras a
respeito das quais os especialistas estão tentando chegar a um consenso, mas
sem sucesso.
O que todas as disciplinas têm em comum é a busca por regras que as
orientem e o compromisso para com essas regras, e o que todos os bons
alunos têm em comum é que, ao encontrarem regras mais perfeitas, dão-lhes
grande valor e sentem-se comprometidos a segui-las. Por isso os bons alunos
consideram com cuidado os compromissos antes de assumi-los e, depois,
cumprem esses compromissos escrupulosamente.
Os santos dos últimos dias que se veem como filhos de Deus em tudo o
que fazem encaram com naturalidade o ato de assumir e cumprir
compromissos. O plano de salvação é marcado por convênios. Prometemos
obedecer aos mandamentos. Em troca, Deus promete-nos bênçãos nesta vida
e na eternidade. Ele é exato no que requer de nós e é perfeito em cumprir Sua
palavra. Ele requer exatidão de nós, porque nos ama e porque o propósito do
plano é que nos tornemos como Ele. As promessas que Ele nos faz sempre
incluem o potencial de aumentarmos nossa capacidade de guardar os
convênios. Ele permite que conheçamos Suas regras. Quando tentamos de
todo o coração cumprir os padrões estabelecidos por Deus, Ele nos concede a
companhia do Espírito Santo, que, por sua vez, aumenta nossa capacidade de
cumprir compromissos e discernir o que é bom e verdadeiro. E essa é a
capacidade de aprender tanto as coisas relativas aos estudos seculares como
aquelas que precisamos para a eternidade.
Há uma terceira característica que vemos nos bons alunos. Eles são
muito empenhados. Quando as pessoas param de se empenhar, param de
aprender, o que é um dos perigos de obter muito reconhecimento cedo na
carreira e de levar esse reconhecimento muito a sério.
Podem reparar que os alunos que mantêm essa capacidade de empenhar-
se ao longo da vida geralmente não o fazem só pelas notas, só para alcançar a
estabilidade como professor universitário nem pelas recompensas do mundo.
Algo mais os impulsiona. Para alguns, pode ser uma curiosidade natural de
ver como as coisas funcionam.
Para os filhos de Deus que têm fé suficiente no plano de salvação para
tratá-lo como realidade, o empenho é a única opção lógica. Até a vida mais
longa é curta. O que fazemos aqui determina nossa condição para o resto da
eternidade. Deus, nosso Pai, oferece-nos tudo o que tem e pede apenas que
Lhe demos tudo o que tivermos. É uma troca tão desequilibrada a nosso favor
que, por mais que façamos, é impossível esforçar-nos demais e é impossível
dedicar horas demais a Seu serviço, a serviço do Salvador e dos filhos do Pai.
Todo esse empenho é o resultado natural de simplesmente saber o que
significa ser filho de Deus e de acreditar nisso.
Isso nos leva à descrição de uma outra característica dos bons alunos: Os
bons alunos ajudam os outros. Todo bom aluno que já conheci ajudou-me,
tentou ajudar-me ou claramente desejou ajudar-me. Isso pode parecer um
paradoxo, já que as pessoas que estão esforçando-se para aprender poderiam
justificadamente ficar totalmente absortas em si mesmas e no que estão
tentando aprender. Agora sei que vão me corrigir. Vou antecipar sua
correção. Vocês diriam: “Será que isso se aplica a todos os bons alunos?”
Eu respondo: “Claro que não!” Há estudiosos renomados que são
egoístas e até mesmo cruéis com aqueles que consideram menos dotados.
Vocês ainda vão conhecer gente assim, se é que já não conhecem. Mas
aqueles que aprendem mais durante uma longa vida parecem ter uma visão
generosa dos outros, tanto no que se refere ao que eles mesmos podem
aprender com outras pessoas como à capacidade que os outros têm de
aprender. Aqueles que são intolerantes com os que julgam tolos tornam-se
mais tolos. Eles se fecham para o que poderiam aprender com outras pessoas.
Aqueles que mais aprendem parecem ver que todas as pessoas que
cruzam seu caminho sabem alguma coisa que eles não sabem e podem ter
uma habilidade que eles não têm. Por esse motivo, vocês verão, essas pessoas
que mais aprendem são as melhores companhias.
Essa visão bondosa e otimista dos outros é algo natural para os santos
dos últimos dias que têm fé. Todas as pessoas que eles já conheceram ou que
ainda conhecerão na vida são filhos de Deus — seus irmãos e suas irmãs de
fato, não apenas metaforicamente. Todas as pessoas que eles encontrarem,
seja qual for sua condição nesta vida, foram redimidas pelo sacrifício de amor
do Salvador do mundo. Toda pessoa responsável pelos próprios atos pode
exercer fé em Jesus Cristo a ponto de arrepender-se, fazer e guardar
convênios e qualificar-se para a vida eterna, a vida que Deus vive. Mesmo
aquelas que não são responsáveis aqui, algum dia terão o mesmo potencial.
Tendo isso como nossa realidade, não é difícil considerar as
necessidades dos que nos rodeiam tão importantes quanto as nossas nem
achar que até a pessoa mais humilde tem potencial divino. Tal forma de
pensar nos levará não só a ser mais bondosos e mais generosos em nossas
avaliações, mas também a ter expectativas elevadas quanto aos outros. Às
vezes, a melhor coisa que alguém pode fazer por nós é esperar mais de nós do
que nós mesmos esperamos, porque essas pessoas veem mais claramente os
traços divinos que herdamos.
Eis mais uma característica: o bom aluno espera resistência e a supera.
Vocês devem se lembrar de terem lido na escola sobre os inúmeros materiais
que Thomas Edison experimentou na tentativa de criar um filamento para a
lâmpada elétrica. A persistência que ele precisou ter para continuar tentando
apesar de sofrer fracasso após fracasso é um exemplo da aplicação dessa
regra de aprendizagem, não uma exceção a ela.
Vocês também já passaram por isso. Aprenderam certas coisas com
facilidade, mas, com mais frequência, tiveram que enfrentar o desânimo.
Podemos tentar evitar isso escolhendo aprender apenas o que é fácil para nós,
procurando o caminho de menor resistência. Mas o bom aprendiz sabe que as
dificuldades fazem parte do processo de aprendizado e está decidido a
persistir até vencê-las.
Entre os santos dos últimos dias que têm fé, esse ponto de vista é
comum. Talvez, como eu, vocês tenham sido abençoados com uma mãe para
quem o plano de salvação é uma realidade. Mais de uma vez eu me queixei
de dificuldades na escola. Ela respondia em um tom prático: “Hal, o que você
esperava? A vida é uma prova”. Então ela ia fazer outra coisa e me deixava
ali pensando. Ela sabia que, porque eu conhecia o plano, sua declaração do
óbvio iria me dar esperança, não desânimo.
Eu sabia e ela sabia que, para receber as bênçãos de Abraão, Isaque e
Jacó, precisamos enfrentar e passar por provas semelhantes às deles. Ela
sabia e eu sabia que quanto maior a prova, maior será o elogio que
receberemos de nosso amoroso Pai Celestial.
Ela morreu de câncer depois de uma década de sofrimento. No funeral, o
Presidente Spencer W. Kimball disse mais ou menos isto: “Alguns de vocês
devem estar-se perguntando que grandes pecados a Mildred terá cometido
para justificar tanto sofrimento. Não teve nada a ver com pecado. É só que o
Pai Celestial queria aperfeiçoá-la um pouco mais”.
Lembro-me de, sentado ali naquele momento, perguntar-me que
provações haveriam de estar à minha frente se uma mulher tão boa quanto ela
foi abençoada com um processo tão difícil de aperfeiçoamento.
Enfrentaremos dificuldades nos estudos e na vida, com base no que
sabemos de Deus e como sabemos que somos Seus filhos, o que Ele espera
de nós e o quanto Ele nos ama, essas dificuldades são de se esperar. Ele não
nos dará prova alguma sem antes preparar o caminho para que tenhamos
sucesso. Por causa do que sabemos sobre o papel da adversidade no
aprendizado, nesta comunidade de santos reverenciamos determinados
alunos, pois sabemos o preço que eles, de boa vontade, pagam. Sabemos
também de onde vem essa força para persistir em meio às dificuldades.
Nesta comunidade sabemos que somos irmãos e irmãs de Jó, de José do
Egito, de Joseph na Cadeia de Carthage e de Jesus no Getsêmani e no monte
do Calvário. Assim, não ficamos surpresos quando as tristezas nos atingem.
Respeitamos seu papel e conhecemos seu potencial.
Vocês podem muito bem estar-se perguntando que resultado espero
dessa breve recapitulação do poder que a fé no plano de salvação tem de
produzir humildade e capacidade de aprender. Não quero dizer que saiamos
daqui em busca de alguma experiência grandiosa que transforme nossa vida e
nosso aprendizado.
A melhor forma de aumentarmos nossa fé no fato de que somos filhos
do Pai Celestial é agirmos como tais. Agora é a hora de começarmos. Quando
forem inspirados quanto a algo que Deus quer que façam, ou quanto a algo
que Ele quer que façam de forma diferente, sigam a inspiração. Ajam
imediatamente. Depois de obedecerem, receberão mais inspirações divinas
quanto ao que Ele pede de vocês. Guardar os mandamentos aumenta nossa
capacidade de guardar outros mandamentos.
Vocês podem buscar ser corrigidos hoje. Podem cumprir um
compromisso. Podem trabalhar com empenho. Podem ajudar outra pessoa.
Podem persistir em meio às adversidades. E se fizermos essas coisas dia após
dia, aos poucos, veremos que aprendemos aquilo que Deus queria ensinar-
nos, não importa o que seja, e que a lição valerá para esta vida e para a
próxima, com Ele.
Você é filho de Deus. Nosso Pai Celestial vive. Jesus é o Cristo, nosso
Salvador. Por meio de Joseph Smith, o conhecimento do plano de salvação
foi restaurado. Se agirmos de acordo com esse plano como devemos, teremos
direito à vida eterna, que é nossa herança. Se o colocarmos em prática,
seremos abençoados com a humildade que nos permite aprender, que nos dá
capacidade para servir e que possibilita que nos coloquemos em condições de
receber os privilégios que Deus quer nos conceder.
Confiar em Deus e, Então, Agir
As necessidades dos santos dos últimos dias em todo o mundo são
muitas e diversas. Cada um de vocês é um filho incomparável de Deus. Deus
os conhece individualmente. Ele envia mensagens de incentivo, correção e
orientação, sob medida para vocês e suas necessidades.
Um dia, enquanto ponderava e orava sobre como poderia ajudar a
atender essas necessidades, recebi a resposta a minha oração ao ler as
palavras de Alma, um grande servo do Senhor, no Livro de Mórmon:
“Oh! eu quisera ser um anjo e poder realizar o desejo de meu coração de
ir e falar com a trombeta de Deus, com uma voz que estremecesse a terra, e
proclamar arrependimento a todos os povos!
Sim, declararia a todas as almas, com voz como a do trovão, o
arrependimento e o plano de redenção, para que se arrependessem e viessem
ao nosso Deus, a fim de não haver mais tristeza em toda a face da Terra.
Mas eis que sou um homem e peco em meu desejo; porque deveria
contentar-me com as coisas que o Senhor me concedeu” (Alma 29:1–3).
Depois descobri, na reflexão de Alma, a orientação pela qual vinha
orando: “Porque eis que o Senhor concede a todas as nações que ensinem a
sua palavra em sua própria nação e língua, sim, em sabedoria, tudo o que ele
acha que devem receber; vemos, portanto que o Senhor aconselha com
sabedoria, segundo o que é justo e verdadeiro” (Alma 29:8).
Deus envia mensagens e mensageiros autorizados a Seus Filhos.
Precisamos desenvolver confiança suficiente em Deus e em Seus servos a
ponto de agir e obedecer a Seus conselhos. Ele quer isso porque nos ama e
deseja nossa felicidade. Ele sabe que a falta de confiança Nele traz
infelicidade.
Essa falta de confiança causou sofrimento para os filhos do Pai Celestial
desde antes de o mundo ser criado. Sabemos, por meio de revelações de Deus
ao Profeta Joseph Smith, que muitos de nossos irmãos e irmãs no mundo pré-
mortal rejeitaram o plano para nossa vida mortal apresentado por nosso Pai
Celestial e Seu Filho mais velho, Jeová (ver Doutrina e Convênios 29:36–37;
Abraão 3:27–28).
Não sabemos todas as razões do terrível sucesso que Lúcifer obteve em
incitar aquela rebelião. Contudo, uma delas é clara. Aqueles que perderam a
bênção de vir para a mortalidade careciam de suficiente confiança em Deus
para evitar a miséria eterna.
O triste padrão da falta de confiança em Deus persiste desde a Criação.
Tomarei cuidado ao citar exemplos da vida de alguns filhos de Deus, pois
não conheço todos os motivos que os levaram a não ter suficiente fé para
confiar Nele. Muitos de vocês já estudaram os momentos de crise da vida
dessas pessoas.
Jonas, por exemplo, não apenas rejeitou a mensagem do Senhor
dizendo-lhe que fosse a Nínive como tomou o rumo oposto. Naamã não
confiou na instrução dada pelo profeta do Senhor, de banhar-se no rio, para
que o Senhor o curasse da lepra, considerando aquela simples tarefa indigna
de sua nobreza.
O Salvador convidou Pedro a sair da segurança do barco e a caminhar
até Ele sobre as águas. Sofremos por ele e reconhecemos nossa própria
carência de uma fé maior em Deus ao ouvir este relato:
“Mas, à quarta vigília da noite, dirigiu-se Jesus para eles, andando por
cima do mar.
E os discípulos, vendo-o andando sobre o mar, assustaram-se, dizendo:
É um fantasma. E gritaram com medo.
Jesus, porém, lhes falou logo, dizendo: Tende bom ânimo, sou eu, não
temais.
E respondeu-lhe Pedro, e disse: Senhor, se és tu, manda-me ir ter
contigo por cima das águas.
E ele disse: Vem. E Pedro, descendo do barco, andou sobre as águas
para ir ter com Jesus.
Mas, sentindo o vento forte, teve medo; e, começando a ir para o fundo,
clamou, dizendo: Senhor, salva-me!
E logo Jesus, estendendo a mão, segurou-o, e disse-lhe: Homem de
pouca fé, por que duvidaste?” (Mateus 14:25–31.)
Dá-nos coragem o fato de Pedro ter passado a confiar no Senhor a ponto
de permanecer fiel a serviço Dele por toda a vida, até o próprio martírio.
O jovem Néfi, no Livro de Mórmon, desperta em nós o desejo de
desenvolver confiança no Senhor para obedecer a Seus mandamentos, por
mais difíceis que nos pareçam. Néfi enfrentou perigos e arriscou a vida ao
declarar estas palavras confiantes que podemos e precisamos sentir com
firmeza no coração: “Eu irei e cumprirei as ordens do Senhor, porque sei que
o Senhor nunca dá ordens aos filhos dos homens sem antes preparar um
caminho pelo qual suas ordens possam ser cumpridas” (1 Néfi 3:7).
Essa confiança advém do conhecimento de Deus. Mais do que qualquer
outro povo da Terra, e graças aos gloriosos eventos da Restauração do
evangelho, sentimos a paz que o Senhor ofereceu a Seu povo nestas palavras:
“Aquietai-vos, e sabei que eu sou Deus” (Salmos 46:10). Meu coração se
enche de gratidão pelo que Deus revelou a respeito de Si mesmo para que
confiemos Nele.
Isso, em minha opinião, começou em 1820, com um jovem que foi a um
bosque, numa fazenda do Estado de Nova York. O rapaz, Joseph Smith Jr.,
caminhou por entre as árvores até um lugar isolado. Ajoelhou-se em oração,
com total confiança de que Deus responderia a sua súplica para saber o que
devia fazer a fim de ser purificado e salvo por meio da Expiação de Jesus
Cristo (ver Ensinamentos dos Presidentes da Igreja: Joseph Smith, 2007, p.
31).
Toda vez que leio seu relato, minha confiança em Deus e em Seus
servos aumenta:
“Vi um pilar de luz acima de minha cabeça, mais brilhante que o sol,
que descia gradualmente sobre mim.
Assim que apareceu, senti-me livre do inimigo que me sujeitava.
Quando a luz pousou sobre mim, vi dois Personagens cujo esplendor e glória
desafiam qualquer descrição, pairando no ar, acima de mim. Um deles falou-
me, chamando-me pelo nome, e disse, apontando para o outro: Este é Meu
Filho Amado. Ouve-O!” (Joseph Smith—História 1:16–17).
O Pai nos revelou que Ele vive, que Jesus Cristo é Seu Filho Amado e
que Ele nos amou tanto que enviou esse Filho para salvar a nós, Seus filhos.
E por ter um testemunho de que Ele chamou aquele rapaz sem instrução para
ser apóstolo e profeta, confio em Seus apóstolos e profetas atuais, e naqueles
a quem eles chamam para servir a Deus.
Essa confiança abençoou minha vida e a de minha família. Há vários
anos, ouvi o Presidente Ezra Taft Benson aconselhar-nos a fazer tudo o que
pudéssemos para livrar-nos das dívidas e manter-nos livres delas. Ele
mencionou o financiamento da casa própria. Disse que talvez não fosse
possível, mas que seria melhor se conseguíssemos quitar nossa dívida do
financiamento (ver, por exemplo, “Preparai-vos para os Dias de Tribulação”,
A Liahona, março de 1981, p. 44).
Virei para minha mulher, depois da reunião, e perguntei: “Acha que
existe alguma maneira de fazermos isso?” A princípio, não nos parecia
possível. Depois, à noite, lembrei-me de uma propriedade que havíamos
comprado em outro estado. Por vários anos tínhamos tentado vendê-la, sem
sucesso.
Mas, como confiávamos em Deus e naquelas poucas palavras proferidas
no meio da mensagem de Seu servo, na manhã da segunda-feira telefonamos
para o corretor encarregado da venda de nossa propriedade, em San
Francisco. Eu tinha ligado para ele poucas semanas antes, mas ele dissera:
“Há anos que ninguém mostra interesse por sua propriedade”.
No entanto, na segunda-feira depois da conferência, ouvi uma resposta
que até hoje fortalece minha confiança em Deus e em Seus servos.
O homem ao telefone disse: “Fico surpreso por você ter ligado.
Apareceu um homem hoje perguntando se poderia comprar sua propriedade”.
Maravilhado, perguntei: “Quanto ele ofereceu?” Eram alguns dólares além do
valor de nossa dívida.
Alguns diriam que foi mera coincidência, mas nosso financiamento da
casa própria foi quitado. E nossa família ainda procura escutar toda palavra
que possa vir a ser proferida na mensagem do profeta para dizer-nos o que
fazer para ter a paz e a segurança que Deus deseja conceder-nos.
Essa confiança em Deus pode abençoar nossa comunidade e nossa
família. Criei-me numa cidadezinha em New Jersey. Nosso ramo da Igreja
tinha pouco mais de 20 membros que frequentavam regularmente as reuniões.
Entre eles havia uma mulher idosa e muito humilde, que se havia
convertido à Igreja. Era imigrante e falava com forte sotaque norueguês. Ela
era o único membro da Igreja em sua família, era também o único membro da
Igreja na cidade em que morava.
Por meio do meu pai, que era presidente do ramo, o Senhor chamou-a
para ser presidente da Sociedade de Socorro do ramo. Ela não tinha um
manual que lhe dissesse o que tinha de fazer nem outro membro da Igreja que
morasse por perto. Ela sabia apenas que o Senhor Se importava com os
necessitados e também conhecia o breve lema da Sociedade de Socorro: “A
caridade nunca falha”.
Isso aconteceu bem no meio da época que conhecemos como a “Grande
Depressão”. Milhares de pessoas estavam desempregadas e desabrigadas.
Portanto, sentindo que recebera uma tarefa do Senhor, ela pediu roupas
velhas a seus vizinhos. Lavou e passou as roupas e as pôs em caixas de
papelão, na varanda dos fundos de sua casa. Quando surgiam homens sem
dinheiro, que precisavam de roupas, pedindo ajuda a seus vizinhos, eles
diziam: “Vá até a casa que fica no fim da rua. Ali mora uma senhora mórmon
que lhe dará o que você precisa”.
O Senhor não governava a cidade, mas Ele mudou parte dela para
melhor. Chamou uma pequena mulher — sozinha — que confiava Nele o
suficiente para procurar saber o que Ele queria dela e, então, fazê-lo. Graças a
sua confiança no Senhor, ela conseguiu ajudar naquela cidade centenas de
filhos necessitados do Pai Celestial.
Essa mesma confiança em Deus pode abençoar nações. Aprendi que
podemos confiar que Deus cumprirá esta promessa feita por Alma: “Porque
eis que o Senhor concede a todas as nações que ensinem a sua palavra em sua
própria nação e língua, sim, em sabedoria, tudo o que ele acha que devem
receber” (Alma 29:8).
Deus não está no governo das nações, mas Ele Se importa com elas. Ele
pode colocar em posição de influência pessoas que desejam o que é melhor
para o povo e que confiam no Senhor, e Ele realmente o faz (ver II Crônicas
36:22–23; Esdras 1:1–3; Isaías 45:1, 13).
Já vi isso em minhas viagens pelo mundo. Em uma cidade de mais de 10
milhões de pessoas, falei a milhares de santos dos últimos dias reunidos em
uma conferência, realizada em um grande estádio esportivo.
Antes do início da reunião, percebi um homem jovem e de boa aparência
sentado na primeira fila. Rodeavam-no outros que, tal como ele, estavam
mais bem-vestidos do que a maioria das pessoas a sua volta. Perguntei à
autoridade geral da Igreja ao meu lado quem eram aqueles homens. Ele
sussurrou-me que eram o prefeito da cidade e seus assessores.
Ao caminhar para meu carro após a reunião, fiquei surpreso ao ver o
prefeito esperando para cumprimentar-me, acompanhado de seus assessores.
Ele se adiantou, estendeu-me a mão e disse: “Obrigado por ter vindo a nossa
cidade e ao nosso país. Sentimo-nos gratos pelo que vocês fazem para
edificar seu povo. Com pessoas e famílias assim, podemos criar a harmonia e
a prosperidade que desejamos para nosso povo”.
Percebi naquele momento que ele era uma das pessoas de coração
sincero colocadas por Deus em cargos influentes em meio a Seus filhos.
Somos uma minoria muito pequena entre os cidadãos daquela grande cidade
e nação. O prefeito pouco sabia sobre nossa doutrina e conhecia bem poucos
membros de nossa Igreja. Mas Deus lhe enviara a mensagem de que os santos
dos últimos dias, sob o convênio de confiar em Deus e em Seus servos
autorizados, viriam a tornar-se uma luz entre seu povo.
Sei que os servos de Deus que apoiamos como profetas, videntes e
reveladores, foram chamados por Deus para transmitir mensagens a Seus
filhos. O Senhor disse o seguinte a respeito deles: “O que eu, o Senhor, disse
está dito e não me desculpo; e ainda que passem os céus e a Terra, minha
palavra não passará, mas será toda cumprida, seja pela minha própria voz ou
pela voz de meus servos, é o mesmo” (Doutrina e Convênios 1:38).
Demonstramos nossa confiança Nele quando ouvimos com a intenção de
aprender e de arrepender-nos e, depois, fazemos tudo o que Ele nos pede. Se
confiarmos em Deus o suficiente para ouvir todos os discursos, hinos e
orações na Igreja com atenção à procura de Sua mensagem, nós a
encontraremos. E, se depois fizermos o que Ele deseja que façamos, nossa
capacidade de confiar Nele aumentará e, com o tempo, seremos dominados
pela alegria de descobrir que Ele passou a confiar em nós.
Preparação
Onde quer que eu esteja, de dia ou de noite, sempre tenho comigo um
pequeno frasco de azeite de oliva. Há um que deixo na gaveta do meio da
minha mesa de trabalho. Carrego outro no bolso, sempre que saio para
trabalhar no quintal ou quando estou em trânsito. Tenho mais um no armário
da cozinha de casa.
Cada um deles tem uma data gravada. É a data em que alguém,
exercendo o poder do sacerdócio, consagrou o azeite puro para a bênção e
cura dos enfermos.
Talvez vocês achem que sou um tanto exagerado na minha preparação.
Porém, o telefonema durante o dia ou a batida na porta à noite é sempre uma
surpresa. Alguém chega e pede: “Por favor, será que o senhor pode vir
depressa?” Certa vez, há alguns anos, um pai me ligou do hospital. Sua
filhinha de três anos de idade tinha sido arremessada a 15 metros de distância
por um carro quando ela correu para atravessar a rua ao encontro da mãe.
Quando cheguei ao hospital, o pai implorou que o poder do sacerdócio
preservasse a vida dela. Os médicos e as enfermeiras relutaram em nos deixar
colocar as mãos no interior da barreira plástica que isolava a menina a fim de
pôr uma gota de óleo entre as grossas ataduras que lhe cobriam a cabeça. Um
dos médicos, irritado, disse-me: “Façam depressa o que têm de fazer. Ela está
morrendo”.
Mas ele estava errado. Ela sobreviveu e, ao contrário do que o médico
tinha dito, não apenas sobreviveu, mas reaprendeu a andar.
Quando o chamado chegou, eu estava pronto. A preparação consistiu de
muito mais do que ter o óleo consagrado à mão. Ela começa muito antes da
crise que requer o poder do sacerdócio. Aqueles que estiverem preparados
estarão prontos a atender.
A preparação começa na família, nos quóruns do Sacerdócio Aarônico e,
principalmente, na vida particular de cada rapaz. Os quóruns e a família têm
de ajudar, mas a verdadeira preparação vem dos próprios rapazes que
precisam fazer escolhas que os elevem ao seu grandioso destino de
portadores do sacerdócio e servos de Deus.
O destino das novas gerações de portadores do sacerdócio vai muito
além de estar preparados para empregar o poder de Deus para curar os
enfermos. A preparação consiste em estar prontos para fazer qualquer coisa
que o Senhor queira enquanto o mundo se prepara para a Sua vinda. Nenhum
de nós sabe exatamente que tarefas nos serão confiadas. Porém, sabemos o
que é necessário para estarmos prontos, portanto cada um de nós pode se
preparar.
Aquilo de que precisaremos no momento crítico será aquilo que
adquirimos no desempenho constante de um serviço obediente. Vou dizer-
lhes duas coisas de que precisaremos e qual é o preparo necessário para
estarmos prontos.
A primeira é ter fé. O sacerdócio é a autoridade para agir em nome de
Deus. É o direito de invocar os poderes do céu. Portanto, precisamos ter fé
que Deus vive e que conquistamos Sua confiança a ponto de Ele permitir que
usemos Seu poder para Seus propósitos.
Um exemplo do Livro de Mórmon os ajudará a ver como determinado
homem se preparou. Um certo portador do sacerdócio, chamado Néfi,
recebeu do Senhor uma difícil tarefa. Ele foi enviado pelo Senhor para
chamar um povo iníquo ao arrependimento antes que fosse tarde demais. Em
sua iniquidade e ódio, eles estavam matando uns aos outros. Mesmo as
tristezas não os tornaram humildes o suficiente para se arrepender e obedecer
a Deus.
Por causa da preparação de Néfi, Deus o abençoou com poder para
cumprir sua missão. As carinhosas palavras com as quais o Senhor deu poder
a Néfi servem-nos de orientação:
“Bem-aventurado és tu, Néfi, pelas coisas que tens feito; pois observei
que foste infatigável em pregar a este povo as palavras que te dei. E não o
temeste nem te preocupaste com tua própria vida, mas procuraste conhecer
minha vontade e cumprir meus mandamentos.
E agora, por teres feito isso com tanta perseverança, eis que te
abençoarei para sempre e te farei poderoso em palavras e ações, em fé e em
obras; sim, para que todas as coisas se realizem segundo tua palavra, pois
nada pedirás que seja contrário a minha vontade.
Eis que tu és Néfi e eu sou Deus. Eis que te declaro, na presença de
meus anjos, que terás poder sobre este povo e ferirás a terra com fome e com
pestilência e destruição, segundo a iniquidade deste povo.
Eis que te dou poder para que tudo quanto ligares na Terra seja ligado
no céu e tudo quanto desligares na Terra seja desligado no céu; e assim terás
poder entre este povo” (Helamã 10:4–7).
O Livro de Mórmon conta que o povo não se arrependeu. Então, Néfi
pediu a Deus que mudasse o clima. Ele pediu um milagre para ajudar as
pessoas a se arrependerem por causa da fome. E a fome lhes sobreveio. E o
povo se arrependeu e depois implorou a Néfi que pedisse a Deus que enviasse
chuva. Néfi pediu a Deus e Deus honrou sua fé inabalável.
Essa fé não surgiu no momento em que Néfi precisou dela, e a confiança
de Deus em Néfi também não. Ele obteve essa grande fé e a confiança de
Deus por meio de seu trabalho corajoso e contínuo a serviço do Senhor.
Vocês, rapazes, estão edificando essa fé agora, para o futuro, quando
precisarão dela.
Ela pode ser edificada por coisas tão simples quanto fazer
meticulosamente a ata das reuniões do quórum de diáconos ou mestres. Há
vários anos, certos rapazes mantinham registros meticulosos do que era
decidido e o que era feito por outros, que eram poucos meses mais velhos do
que eles mesmos. Para isso, era preciso ter fé, acreditar que Deus chamava
até rapazes de 12 anos de idade para servir a Ele e que esses rapazes eram
guiados por revelação. Alguns secretários de quórum daquela época fazem
agora parte dos conselhos presidentes da Igreja. Agora, eles leem as atas que
outros escrevem. E a revelação flui para eles agora como fluía para os líderes
a quem eles serviram quando eram jovens como vocês. Eles foram
preparados para confiar que Deus revela Sua vontade, mesmo nas questões
aparentemente pequenas de Seu reino.
O Senhor disse que Néfi merecia confiança porque jamais pediria coisa
alguma contrária à vontade de Deus. Para confiar tanto assim em Néfi, o
Senhor tinha de ter certeza que Néfi acreditava em revelações, que as buscava
e que seguia o que era revelado. Néfi, como parte de sua preparação do
sacerdócio, adquiriu longa experiência em seguir as inspirações de Deus.
Vocês precisam fazer o mesmo.
Vejo isso acontecer hoje. Nos últimos meses, ouvi diáconos, mestres e
sacerdotes fazerem discursos tão inspirados e vigorosos quanto os que
ouviríamos numa conferência geral. Ao perceber o poder que é dado aos
jovens portadores do sacerdócio, ocorre-me que as novas gerações estão se
erguendo ao nosso redor como as águas na maré cheia. O que peço em oração
é que nós, das gerações anteriores, consigamos elevar-nos junto com essa
maré. A preparação do Sacerdócio Aarônico é uma bênção para todos nós,
bem como para todos a quem eles servirão em sua geração e nas gerações
futuras.
No entanto, nem tudo está bem em Sião. Nem todos os jovens decidem
se preparar. Essa escolha deve ser de cada um. Eles são responsáveis por si
mesmos. Essa é a maneira do Senhor em Seu plano de amor. Mas há muitos
rapazes que têm pouco ou nenhum apoio daqueles que poderiam ajudá-los a
se preparar. Aqueles de nós que podem ajudar terão de prestar contas ao
Senhor. O pai que negligenciar ou prejudicar o desenvolvimento da fé ou da
habilidade de seguir a inspiração por parte do filho enfrentará tristezas no
futuro. Isso também vale para todo aquele que se encontra em posição de
ajudar os rapazes a fazer escolhas sábias em seus dias no sacerdócio
preparatório.
Uma segunda coisa da qual eles vão precisar é a confiança de que são
capazes de viver à altura das bênçãos e da confiança que Deus lhes oferece. A
maior parte das influências que os rodeiam arrasta-os para baixo e os leva a
duvidar da existência de Deus, do Seu amor por eles, bem como da
veracidade das mensagens, por vezes silenciosas, que recebem do Espírito
Santo e do Espírito de Cristo. Seus colegas podem instigá-los a escolher o
pecado. E se os rapazes escolherem o pecado, as mensagens de Deus ficarão
cada vez menos perceptíveis.
Podemos ajudá-los a optar por preparar-se, amando-os, alertando-os e
demonstrando confiança neles. Mas podemos ajudar ainda mais com nosso
exemplo de servos fiéis e inspirados. Em nossa família, nos quóruns, nas
aulas e sempre que estivermos juntos, podemos agir como verdadeiros
portadores do sacerdócio, que usam seu poder da maneira que Deus ensinou.
Para mim, essa instrução está claríssima na seção 121 de Doutrina e
Convênios. O Senhor alerta, nessa seção, que nossos motivos devem ser
puros: “Nenhum poder ou influência pode ou deve ser mantido em virtude do
sacerdócio, a não ser com persuasão, com longanimidade, com brandura e
mansidão e com amor não fingido” (Doutrina e Convênios 121:41). Quando
lideramos e influenciamos os rapazes, nunca devemos fazê-lo para satisfazer
nosso orgulho ou nossa ambição. Nunca devemos usar da compulsão em
qualquer grau de injustiça. Esse é o elevado padrão do exemplo que devemos
ser para os jovens.
Vi isso acontecer quando eu era mestre e sacerdote. Meu bispo e os que
serviam com ele estavam determinados a não perder nenhum de nós. Tanto
quanto eu conseguia perceber, a determinação deles era motivada por seu
amor ao Senhor e a nós, nunca por propósitos egoístas.
O bispo adotava um sistema. Cada consultor de quórum devia entrar em
contato com cada rapaz com quem não tivesse falado no domingo. Não
podiam ir dormir até que falassem com o rapaz que faltara, com os pais dele
ou com um amigo chegado. O bispo lhes prometia que não apagaria a luz do
próprio quarto até receber um relato sobre cada rapaz. Não acredito que ele
lhes tenha dado uma ordem. Ele simplesmente deixou claro que esperava que
eles não se deitassem antes de fazer o relato.
O bispo e os que com ele serviam estavam fazendo muito mais do que
cuidar de nós. Estavam nos mostrando pelo exemplo o significado de cuidar
das ovelhas do Senhor. Nenhum esforço era demais para ele ou para aqueles
que serviam nos quóruns. Com seu exemplo, ensinaram-nos o significado de
ser incansáveis no serviço do Senhor. O Senhor estava-nos preparando pelo
exemplo.
Não faço ideia se eles achavam que algum de nós se tornaria alguém
especial, mas nos tratavam como se achassem, pois estavam sempre dispostos
a fazer qualquer sacrifício para evitar que perdêssemos a fé.
Não sei como o bispo conseguiu que tantas pessoas tivessem
expectativas tão altas. Pelo que sei, conseguiu isso por meio de “persuasão,
com longanimidade, com brandura e mansidão e com amor não fingido”. O
método de “não apagar as luzes”, que o bispo usava, não funcionaria em
alguns lugares, mas o exemplo de cuidar de cada rapaz, sem falhar,
buscando-o de imediato, trouxe o poder dos céus à nossa vida. E sempre
trará. Isso ajudou os rapazes a prepararem-se para os dias em que Deus
precisaria deles nas famílias e em Seu reino.
Para mim, meu pai foi um exemplo daquilo que o Senhor ensina na
seção 121, sobre como obter a ajuda do céu para preparar os rapazes. Na
minha juventude, ele às vezes se decepcionava com meu empenho. E ele me
dizia quando isso acontecia. Eu percebia na voz dele que ele achava que eu
era capaz de agir melhor, mas ele demonstrava isso à maneira do Senhor:
“Reprovando prontamente com firmeza, quando movido pelo Espírito Santo;
e depois, mostrando então um amor maior por aquele que repreendeste, para
que ele não te julgue seu inimigo” (Doutrina e Convênios 121:43).
Eu sabia, mesmo quando a correção era a mais direta possível, que ela
era feita com amor. De fato, o amor de meu pai parecia aumentar quando ele
aplicava sua forma mais forte de correção, que era um olhar de desaprovação
e decepção. Ele foi meu líder e meu treinador e nunca empregou compulsão.
Tenho certeza de que a promessa feita em Doutrina e Convênios será
cumprida para ele. A influência que exerceu sobre mim fluirá para ele
eternamente (ver Doutrina e Convênios 121:46).
Muitos pais e líderes, ao ouvirem as palavras da seção 121 de Doutrina e
Convênios, sentem que precisam aperfeiçoar-se para atingir esse padrão. Eu
sinto isso. Lembram-se de alguma ocasião em que tenham repreendido uma
criança ou um jovem com firmeza, movidos por outra coisa que não a
inspiração? Lembram-se de alguma ocasião em que tenham pedido a um filho
que fizesse alguma coisa ou algum sacrifício que vocês mesmos não estivam
dispostos a fazer? Esse pesar pode inspirar-nos ao arrependimento que fará
com que nos tornemos exemplos mais perfeitos daquilo que, por convênio,
prometemos ser.
Ao cumprirmos nossos deveres como pais e líderes, ajudaremos as
novas gerações a elevar-se e alcançar um futuro glorioso. Eles serão melhores
do que nós, da mesma forma como tentamos ser melhores pais do que nossos
pais e melhores líderes do que os grandes líderes que nos ajudaram.
Minha oração é que tenhamos a determinação necessária para ser
melhores a cada dia na preparação das novas gerações. Toda vez que eu vir
um frasco de óleo consagrado, hei de lembrar-me de meu desejo de fazer
mais para ajudar os rapazes a se prepararem para os dias de serviço e as
oportunidades que terão. Oro por uma bênção de preparação para eles. Tenho
certeza de que, com a ajuda do Senhor e a nossa, eles estarão prontos.
“Soldado Abatido!”
Não estamos em tempo de paz. Estamos em guerra desde que Satanás
reuniu suas forças contra o plano do Pai Celestial na existência pré-mortal.
Não conhecemos os detalhes da batalha ali travada, mas sabemos qual foi um
dos resultados. Satanás e seus seguidores foram expulsos e lançados à Terra.
Essa guerra continua desde a criação de Adão e Eva, e vemos que ela se
intensificou. As escrituras sugerem que a guerra se tornará ainda mais
violenta e que haverá muitas baixas espirituais nas fileiras do Senhor.
Quase todos já viram um campo de batalha mostrado em um filme ou
leram a descrição numa história. Em meio às explosões e aos gritos dos
soldados, ouve-se alguém clamar: “Soldado abatido!”
Ao ouvir esse grito, os leais companheiros do soldado abatido se
dirigem ao local de onde partiu o aviso. Outro soldado ou um oficial médico
ignora o perigo e se aproxima do companheiro ferido. O soldado abatido sabe
que a ajuda virá. Seja qual for o risco, alguém vai se esgueirar ou se arrastar
para chegar até ele a tempo de protegê-lo e dar-lhe assistência. Isso acontece
com qualquer grupo de homens unidos numa missão difícil e perigosa, a qual
decidiram cumprir a qualquer custo. As histórias desses grupos estão repletas
de relatos de homens leais que tomaram a firme decisão de não deixar
ninguém para trás.
Eis uma dessas histórias, extraída de um relato oficial (ver The U.S.
Army Leadership Field Manual, 2004, pp. 28–29). Na guerra da Somália, em
outubro de 1993, dois soldados do exército dos Estados Unidos estavam em
um helicóptero durante um tiroteio e souberam que dois outros helicópteros
haviam sido atingidos e caíram nas redondezas. Os dois soldados, em sua
posição relativamente segura, ficaram sabendo pelo rádio que não havia
forças terrestres disponíveis para resgatar os tripulantes de um dos
helicópteros derrubados. Um número cada vez maior de soldados inimigos se
aproximava do local da queda.
Os dois soldados que observavam do alto se ofereceram para descer ao
solo (as palavras que usaram foram “ser infiltrados”) a fim de proteger seus
companheiros gravemente feridos. Seu pedido foi negado porque a situação
era demasiadamente perigosa. Pediram mais uma vez. Novamente a
permissão foi negada. Só depois de seu terceiro pedido é que eles foram
abaixados até o solo.
Contando apenas com suas armas portáteis, abriram caminho à força até
o local em que os helicópteros haviam caído, onde estavam os soldados
feridos. Moveram-se sob intenso tiroteio, pois os inimigos convergiam para o
local da queda. Tiraram os feridos do meio dos destroços. Colocaram-se em
posição defensiva ao redor dos feridos, assumindo as posições mais
perigosas. Protegeram seus companheiros até ficar sem munição e, depois,
foram mortalmente feridos. Sua coragem e seu sacrifício salvaram a vida de
um piloto que, de outra forma, a teria perdido.
Ambos receberam postumamente a Medalha de Honra, a mais alta
condecoração de seu país, por bravura diante de um inimigo armado. A
homenagem declarava que o que eles fizeram foi “muito além do que exigia
seu dever”.
Pergunto-me, porém, se foi assim que encararam a situação ao descer
para ajudar seus companheiros feridos. Movidos pela lealdade, sentiram-se na
obrigação de defender seus companheiros a qualquer custo. Sua coragem para
agir e seu serviço abnegado emanavam do sentimento de que eram
responsáveis pela vida, felicidade e segurança dos companheiros.
Esse sentimento de responsabilidade por outras pessoas é o ponto central
do serviço fiel no sacerdócio. Nossos companheiros estão sendo feridos na
batalha espiritual que nos cerca. O mesmo se dá com as pessoas a quem
fomos chamados para servir e proteger. As feridas espirituais não são
facilmente visíveis, a não ser para olhos inspirados. Mas os bispos,
presidentes de ramo e presidentes de missão que entrevistam outros
discípulos do Salvador conseguem enxergar os feridos e suas feridas.
Isso vem acontecendo há muitos anos, no mundo inteiro. Lembro-me de
um bispo que observava o semblante e a atitude de um rapaz do sacerdócio
quando este pensamento lhe veio à mente de modo tão claro que quase lhe
pareceu audível: “Preciso falar com ele… e rápido! Algo está acontecendo.
Ele precisa de ajuda”.
Eu jamais ignoraria esse tipo de impressão, porque aprendi que as
feridas do pecado muitas vezes não são logo sentidas pela pessoa que se
feriu. Satanás às vezes parece injetar um anestésico para amortecer a dor
espiritual enquanto inflige o ferimento. A menos que algo aconteça de
imediato para iniciar o arrependimento, a ferida pode agravar-se e aumentar.
Consequentemente, como portador do sacerdócio responsável pela
sobrevivência espiritual de alguns dos filhos do Pai Celestial, você entra em
ação para ajudar, sem esperar que alguém grite “Soldado abatido!” Pode ser
que nem mesmo o melhor amigo, outros líderes ou os pais do jovem tenham
percebido o que você percebeu.
Talvez você seja o único a perceber, por inspiração, o grito de alerta. Os
outros podem achar, e você também pode ficar tentado a pensar: “Talvez o
problema que pensei ter visto seja apenas imaginação minha. Que direito
tenho eu de julgar as pessoas? Não é minha responsabilidade. Vou deixá-lo
em paz até que me peça ajuda”.
Somente um juiz autorizado em Israel recebe o poder e a
responsabilidade de verificar se existe um ferimento grave e explorá-lo; e
depois, sob inspiração de Deus, prescrever o tratamento necessário para que a
cura tenha início. Mesmo assim você está sob o convênio de procurar os
filhos de Deus que estejam espiritualmente feridos e tem a responsabilidade
de ser corajoso e destemido e de não fugir do dever.
Preciso explicar, da melhor forma possível, pelo menos duas coisas.
Primeiro: Por que você tem a responsabilidade de agir para ajudar seu amigo
ferido? E segundo: Como você pode cumprir essa responsabilidade?
Primeiro, como lhe foi claramente explicado, quando aceitou de Deus a
responsabilidade de receber o sacerdócio, você fez um convênio e aceitou a
responsabilidade por tudo o que fizer ou deixar de fazer pela salvação do
próximo, não importa quão difícil ou perigosa a situação lhe pareça.
Há incontáveis exemplos de portadores do sacerdócio que cumpriram
essa séria responsabilidade, e tanto eu como você precisamos fazer o mesmo.
Foi assim que Jacó, no Livro de Mórmon, descreveu sua sagrada
responsabilidade de prestar auxílio em uma situação difícil: “Agora, meus
amados irmãos, eu, Jacó, de acordo com a responsabilidade que tenho para
com Deus de magnificar meu ofício com sobriedade e para livrar minhas
vestimentas de vossos pecados, venho hoje ao templo para declarar-vos a
palavra de Deus” (Jacó 2:2).
Você pode argumentar que Jacó era profeta, mas você não é. Seja qual
for seu ofício no sacerdócio, ele traz consigo a obrigação de “[erguer] as
mãos que pendem e [fortalecer] os joelhos enfraquecidos” (Doutrina e
Convênios 81:5) das pessoas ao seu redor. Você é servo do Senhor e fez o
convênio de fazer pelos outros, da melhor forma possível, o que Ele faria.
Sua grande oportunidade e responsabilidade está descrita em
Eclesiastes:
“Melhor é serem dois do que um, porque têm melhor paga do seu
trabalho.
Porque se um cair, o outro levanta o seu companheiro; mas ai do que
estiver só; pois, caindo, não haverá outro que o levante” (Eclesiastes 4:9–10).
A partir disso, compreendemos as palavras verdadeiras e inspiradoras de
Joseph Smith: “Ninguém, a não ser o tolo, trata com leviandade a alma dos
homens” (History of the Church of Jesus Christ of Latter-day Saints, 1932–
1951, vol. 3, p. 295). Como Jacó acreditava, o sofrimento de qualquer ser
humano decaído que ele pudesse ter ajudado — caso não o fizesse — se
tornaria seu próprio sofrimento. A sua felicidade e a daqueles a quem você
foi chamado para servir como portador do sacerdócio estão interligadas.
Chegamos, então, à questão de como ajudar aqueles a quem vocês foram
chamados a servir e resgatar. Isso vai depender de sua capacidade e de sua
posição no sacerdócio em relação à pessoa que está em perigo espiritual. Vou
apresentar três casos que talvez correspondam a suas oportunidades de
prestar serviço no sacerdócio.
Para começar, imaginemos que você é um inexperiente companheiro
júnior, um mestre no Sacerdócio Aarônico, encarregado de acompanhar um
companheiro mais experiente na visita a uma jovem família. Antes de
preparar-se para a visita, você ora pedindo forças e inspiração para perceber
as necessidades das pessoas e saber que tipo de ajuda pode oferecer a elas. Se
possível, essa oração deve ser feita com seu companheiro, mencionando
especificamente as pessoas que vão visitar. Ao orar, seu coração se abrirá a
cada uma dessas pessoas individualmente e a Deus. Você e seu companheiro
devem chegar a um acordo sobre o que pretendem realizar e planejar o que
vão fazer.
Seja qual for o plano, você deve observar e ouvir as pessoas com muita
atenção e humildade durante a visita. Você é jovem e inexperiente, mas o
Senhor conhece perfeitamente a situação espiritual e as necessidades dessas
pessoas. Ele as ama. Por saber que Ele o enviou para agir em nome Dele,
você pode crer com fé que conseguirá perceber as necessidades delas e o que
você pode fazer para ajudá-las. Isso acontecerá quando você visitá-las em
casa e conversar com elas face a face. É por isso que a seguinte
responsabilidade do sacerdócio foi registrada e Doutrina e Convênio: “Visitar
a casa de todos os membros, exortando-os a orarem em voz alta e em segredo
e a cumprirem todas as obrigações familiares” (Doutrina e Convênios 20:47).
Além disso, você tem outro encargo que exige ainda maior
discernimento:
“O dever do mestre é zelar sempre pela igreja, estar com os membros e
fortalecê-los;
E certificar-se que não haja iniquidade na igreja nem aspereza entre uns
e outros ' nem mentiras, maledicências ou calúnias;
E certificar-se que a igreja se reúna amiúde e também certificar-se que
todos os membros cumpram seus deveres” (Doutrina e Convênios 20:53–55).
Você e seu companheiro raramente terão inspiração para saber
exatamente até que ponto as pessoas estão cumprindo esse padrão, mas posso
prometer, por experiência própria, que você terá o dom de saber o que está
indo bem na vida delas e, assim, poderá incentivá-las. Há outra promessa que
posso fazer: você e seu companheiro serão inspirados a saber quais mudanças
elas podem fazer para dar início à cura espiritual de que precisam. A
inspiração que vocês receberem e as palavras que proferirem certamente
conterão algumas mudanças importantes que o Senhor deseja que elas façam.
Se seu companheiro tiver a inspiração de aconselhar uma mudança,
observe o que ele fizer. Provavelmente você ficará surpreso com o modo pelo
qual o Espírito o orientará a falar. Haverá amor em sua voz e ele encontrará
um modo de vincular a mudança necessária a uma bênção. Se for o pai ou a
mãe quem precisa fazer uma mudança, talvez ele mostre como isso trará
felicidade aos filhos. Ele descreverá a mudança como um afastamento da
infelicidade e a conquista de um lugar melhor e mais seguro.
Sua contribuição durante a visita talvez lhe pareça pequena, mas ela
pode surtir mais efeito do que você imagina. Você vai mostrar com seu
semblante e sua atitude que se importa com aquelas pessoas. Elas verão que
seu amor por elas e pelo Senhor o torna destemido. E você terá a coragem
para prestar testemunho da verdade. Seu testemunho humilde, simples e por
vezes breve pode tocar o coração de uma pessoa mais facilmente do que o
testemunho de seu companheiro mais experiente. Já vi isso acontecer.
Seja qual for o papel que você venha a desempenhar nessa visita do
sacerdócio, seu desejo de visitar as pessoas em nome do Senhor para ajudá-
las vai proporcionar pelo menos duas bênçãos. Primeira: você sentirá o amor
de Deus pelas pessoas a quem visita. Segunda: você sentirá como o Salvador
é grato por você ter sentido o desejo de ajudar as pessoas naquilo que Ele
sabia que elas precisavam.
Ele o enviou àquelas pessoas porque sabia que você as visitaria sentindo
a responsabilidade de convidá-las a achegar-se a Ele e a buscar a felicidade.
Quando ficar um pouco mais velho, você terá outra oportunidade em seu
serviço no sacerdócio. Você conhecerá muito bem seus companheiros de
quórum. Pode ser que jogue futebol ou basquete com eles, ou que vocês
participem juntos de algumas atividades e projetos de serviço. Com alguns,
você desenvolverá maior amizade.
Você aprenderá a reconhecer quando eles estão felizes ou quando estão
tristes. Pode ser que nem você, nem seu amigo tenha um cargo de autoridade
no quórum, mas você sentirá que é responsável por seu colega no sacerdócio.
Talvez ele confidencie a você que está começando a quebrar um mandamento
e você sabe que isso vai prejudicá-lo espiritualmente. Pode ser que ele lhe
peça conselhos, porque confia em você.
Posso dizer, por experiência própria, que, se você puder influenciá-lo
para que se afaste do caminho perigoso, nunca mais esquecerá a alegria que
sentiu por ter agido como um verdadeiro amigo. Se não conseguir, prometo
que, quando ele sentir pesar e tristeza, o que certamente acontecerá, você
sentirá as dores dele como se fossem suas, mas, se você tentou ajudar, ele
ainda será seu amigo. E, na verdade, talvez por muitos anos, ele converse
com você sobre as coisas boas que poderiam ter acontecido e sobre quão
grato ele se sentiu por você ter se importado e tentado ajudá-lo. Você vai
consolá-lo, então, e convidá-lo novamente, como fez na juventude, a voltar
para a felicidade que a Expiação ainda permite que ele tenha.
Mais tarde na vida, você se tornará pai, um pai com o sacerdócio. As
coisas que aprendeu, graças aos serviços prestados no sacerdócio para ajudar
as pessoas a afastarem-se da tristeza e achegarem-se à felicidade, lhe darão a
força que você desejará e precisará ter. Os anos que passou sendo responsável
por almas humanas vão prepará-lo para ajudar e proteger sua família, a qual
você amará mais do que podia imaginar em sua juventude. Você saberá
liderá-la, com o poder do sacerdócio, para a segurança.
Minha oração é que você tenha alegria em servir no sacerdócio nesta
vida e para todo o sempre. Oro para que você desenvolva a mesma coragem e
mesmo amor pelos filhos do Pai Celestial que levaram os filhos de Mosias a
implorar pela oportunidade de enfrentar a morte e o perigo para levar o
evangelho a um povo de coração endurecido. O desejo e a coragem que eles
tiveram emanavam de seu senso de responsabilidade pela felicidade eterna de
desconhecidos em risco de sofrimento eterno (ver Mosias 28:1–8).
Que tenhamos ao menos um pouco do mesmo desejo que Jeová teve, no
mundo pré-mortal, quando pediu para descer das esferas de glória a fim de
servir-nos e dar Sua vida por nós. Ele rogou ao Pai: “Envia-me” (Abraão
3:27).
Testifico-lhes que vocês foram chamados por Deus e que foram
enviados para servir a Seus filhos. Ele não quer que ninguém fique para trás.
Deus dará a vocês inspiração e forças para cumprirem seu encargo de ajudar
os filhos Dele a encontrar o caminho da felicidade, o que é possível graças à
Expiação de Jesus Cristo.
Fortalecidos pela Adversidade
Adversidade
Com todas as diferenças em nossa vida, temos pelo menos um desafio
em comum. Todos precisamos lidar com a adversidade. Pode haver períodos,
às vezes bem longos, em que nossa vida parece fluir quase sem dificuldades.
Mas é natural que, na vida dos seres humanos, o conforto seja substituído
pela aflição, que períodos de boa saúde cheguem ao fim e que infortúnios
aconteçam. Especialmente quando os bons tempos se prolongam, a chegada
do sofrimento ou a perda da segurança material pode causar temor e às vezes
raiva.
A raiva, ao menos em parte, decorre do sentimento de que ocorreu uma
injustiça. A saúde e a tranquilidade de sentir-se seguro podem passar a
parecer-nos merecidas e naturais. Quando desaparecem, podemos achar que é
injustiça. Até um homem valoroso que conheci chorou e clamou em meio a
seu sofrimento físico aos que lhe foram ministrar: “Sempre procurei ser bom.
Como isso pôde acontecer?”
Esse anseio pela resposta à pergunta “Como isso pôde acontecer?” se
torna ainda mais doloroso quando as pessoas aflitas são nossos entes
queridos. Achamos particularmente difícil de aceitar quando os afligidos nos
parecem inocentes. Nesse momento, a aflição pode abalar a fé na realidade de
um Deus amoroso e todo-poderoso. Alguns de nós vimos essa dúvida infectar
toda uma geração de pessoas em tempos de guerra ou fome. Essa dúvida
pode crescer e alastrar-se até fazer com que alguns se afastem de Deus, a
quem acusam de indiferença ou crueldade. Se não forem combatidos, esses
sentimentos podem levar à perda da fé na existência de Deus.
Quero assegurar-lhes que nosso Pai Celestial e o Salvador vivem e que
Eles amam toda a humanidade. A própria oportunidade de enfrentarmos
adversidades e aflições é uma das provas de Seu infinito amor. Ele nos
concedeu a dádiva de viver na mortalidade a fim de que nos preparássemos
para receber o maior de todos os dons de Deus, que é a vida eterna. Então,
nosso espírito será transformado. Seremos capazes de desejar o que Deus
deseja, de pensar como Ele pensa e, assim, estaremos preparados para que
nos seja confiada uma posteridade infinita para ensinar e liderar ao longo das
provas da vida, para que nossos descendentes sejam criados de modo a se
qualificarem para a vida eterna.
É claro que, para receber essa dádiva e essa responsabilidade,
precisamos ser transformados por meio de escolhas corretas tomadas em
momentos difíceis. Somos preparados para tamanha responsabilidade ao
passarmos por experiências que nos provem e testem na mortalidade. Esse
aprendizado só pode acontecer se estivermos sujeitos a provações enquanto
servimos a Deus e ao próximo em nome Dele.
Durante esse aprendizado, temos aflições e felicidade, vivenciamos a
doença e a saúde, sentimos a tristeza do pecado e a alegria do perdão. Só
podemos receber esse perdão por meio da infinita Expiação do Salvador, que
sofreu dores que não podemos suportar e que só compreendemos muito
vagamente.
Tenho visto fé e coragem brotarem de um testemunho de que realmente
estamos sendo preparados para a vida eterna. O Senhor resgatará Seus
discípulos fiéis. E o discípulo que aceitar a provação como um convite para
aperfeiçoar-se e assim qualificar-se para a vida eterna encontrará paz em
meio às dificuldades.
Conversei, recentemente, com um jovem pai que perdeu o emprego na
recente crise econômica. Ele sabia que centenas de milhares de pessoas com
as mesmas qualificações que ele estavam desesperadamente procurando
emprego para sustentar a família. Sua serena confiança me fez perguntar o
que ele havia feito para ter tanta certeza de que encontraria um meio de
sustentar a família. Disse-me que havia examinado a própria vida para ter
certeza de que havia feito todo o possível para ser digno da ajuda do Senhor.
Era evidente que, devido a suas necessidades e sua fé em Jesus Cristo, ele
estava sendo levado a obedecer aos mandamentos de Deus mesmo que isso
fosse difícil. Ele disse que percebeu essa oportunidade quando ele e a esposa
leram, em Alma, a escritura que diz que o Senhor preparou certo povo para
receber o evangelho por meio da adversidade.
Vocês devem lembrar-se da ocasião em que Alma se dirigiu ao homem
que liderava aquelas pessoas angustiadas. Esse homem disse para Alma que
eles haviam sido perseguidos e rejeitados por sua pobreza. Assim diz o
registro:
“E então, quando ouviu isso, Alma voltou-se para ele e olhou com
grande alegria, pois viu que suas aflições verdadeiramente os haviam tornado
humildes e que estavam preparados para ouvir a palavra.
Portanto ele não falou mais à outra multidão; mas estendeu a mão e
clamou aos que via e eram verdadeiramente penitentes; e disse-lhes:
Vejo que sois humildes de coração; e, se assim é, benditos sois” (Alma
32:6–8).
A escritura prossegue elogiando os que se prepararam para a
adversidade em momentos de maior prosperidade. Muitos de vocês tiveram
fé para, antes que a crise chegasse, tentar qualificar-se para receber a ajuda de
que agora precisam.
E Alma prosseguiu: “Sim, aquele que verdadeiramente se humilhar e
arrepender-se de seus pecados e perseverar até o fim, esse será abençoado—
sim, será muito mais abençoado do que aqueles que são compelidos a
humilhar-se devido a sua extrema pobreza” (Alma 32:15).
Esse jovem com quem conversei recentemente foi um dos que fizeram
mais do que apenas armazenar alimentos e economizar para conseguir
enfrentar os infortúnios preditos pelos profetas vivos. Ele começara a
preparar o coração para ser digno da ajuda do Senhor, da qual sabia que
precisaria nos momentos de necessidade de um futuro não muito distante.
Quando perguntei à esposa dele, no dia em que ele perdeu o emprego, se
estava preocupada, ela disse com alegria: “Não. Acabamos de falar com o
bispo. Somos dizimistas integrais”. Ainda é cedo para dizer, mas tive a
mesma impressão que eles pareciam ter: “Tudo vai dar certo”. O infortúnio
não abalou sua fé; provou-a e fortaleceu-a. E o sentimento de paz que o
Senhor prometera foi concedido ainda em meio à tempestade. Outros
milagres sem dúvida acontecerão.
O Senhor sempre adapta a ajuda ao necessitado de modo a fortalecê-lo e
purificá-lo. Muitas vezes, para receber o auxílio de que precisa, a pessoa
necessitada é inspirada a fazer algo que lhe parece especialmente difícil
devido à sua situação. Uma das grandes provações da vida é perder o cônjuge
amado. O Senhor conhece as necessidades daqueles que foram separados de
seus entes queridos pela morte. Ele viu o sofrimento das viúvas e
testemunhou suas necessidades durante Sua experiência terrena. Ele pediu a
um apóstolo amado, na agonia da cruz, que cuidasse de Sua mãe viúva que
agora perderia um filho. Ele agora sente as necessidades do marido que perde
a esposa, e da esposa que fica sozinha com a morte do marido.
A maioria de nós conhece uma viúva que precisa de atenção. O que me
emociona é ouvir, como já aconteceu, uma viúva idosa, que eu pretendia
voltar a visitar, dizer que fora inspirada a visitar uma viúva mais jovem para
consolá-la. Uma viúva que precisava de consolo foi enviada para consolar
outra. O Senhor auxiliou e abençoou as duas viúvas inspirando-as a
encorajarem-se mutuamente. Desse modo, Ele socorreu ambas.
O Senhor enviou ajuda dessa mesma forma aos pobres humildes, como
narrado em Alma 34, que aceitaram os ensinamentos e o testemunho de Seus
servos. Depois de se arrependerem e serem convertidos, eles continuaram
pobres, mas o Senhor mandou que fizessem por outras pessoas o que eles,
com razão, poderiam achar que estava além de sua capacidade, pois eles
próprios precisavam de ajuda. O Senhor lhes disse que eles precisavam dar a
outros o que esperavam receber do Senhor. Por meio de Seu servo, o Senhor
deu àqueles pobres conversos esta árdua tarefa: “E agora, meus amados
irmãos, eis que vos digo que não penseis que isto é tudo; porque depois de
haverdes feito todas estas coisas, se negardes ajuda aos necessitados e aos nus
e não visitardes os doentes e aflitos nem repartirdes o vosso sustento, se o
tendes, com os que necessitam—digo-vos, se não fizerdes qualquer destas
coisas, eis que vossa oração é vã e de nada vos vale e sois como os hipócritas
que negam a fé” (Alma 34:28).
Talvez pareça demasiado pedir isso de pessoas que estavam, elas
próprias, passando grandes necessidades. Mas conheço um jovem que foi
inspirado a fazer exatamente isso no início de seu casamento. Ele e a esposa
mal conseguiam sustentar-se com um orçamento bem limitado. Mas, ao ver
outro casal ainda mais pobre, para surpresa de sua própria esposa, ele os
ajudou com seus escassos recursos financeiros. Receberam a bênção
prometida de paz enquanto ainda eram pobres. A bênção de uma
prosperidade que estava além de seus maiores sonhos chegou mais tarde. Mas
ele continua seguindo esse padrão de procurar ajudar alguém necessitado,
alguém que tenha menos do que ele ou que esteja sofrendo.
Ainda há outra provação que, se for bem suportada, pode proporcionar
bênçãos nesta vida e na eternidade. A idade e a doença podem ser as maiores
provações. Tenho um amigo que foi nosso bispo quando minhas filhas ainda
moravam conosco. Elas contam o que sentiam quando ele prestava seu
simples testemunho junto à fogueira durante acampamentos nas montanhas.
Ele as amava, e elas sabiam disso. Ele foi desobrigado do bispado. Já havia
servido como bispo antes em outro Estado. As pessoas que conheci na ala
anterior lembram-se dele da mesma forma que minhas filhas.
Eu o visitava em casa de tempos em tempos para agradecer-lhe e dar-lhe
uma bênção do sacerdócio. Sua saúde começou a se deteriorar lentamente.
Não me lembro todas as doenças que teve. Precisou ser operado. Sentia dores
constantes. Entretanto, toda vez que eu o visitava para dar-lhe consolo, a
situação se invertia: Era eu que sempre saia consolado. As dores nas costas e
nas pernas forçaram-no a usar uma bengala para caminhar. Mas ele estava
sempre na Igreja, sentado junto à porta, onde podia cumprimentar, com um
sorriso, os que chegavam cedo.
Jamais esquecerei minha admiração e meu espanto no dia em que abri a
porta dos fundos e o vi chegando a nossa casa. Era o dia em que colocávamos
as latas de lixo para serem recolhidas pelo lixeiro. Eu as havia colocado na
calçada pela manhã e, agora, lá vinha ele subindo a rampa da minha garagem
arrastando uma de minhas latas de lixo com uma mão e equilibrando-se com
a ajuda da bengala na outra. Estava me ajudando com algo que ele imaginava
que eu precisava, mas que ele próprio precisava muito mais. E fazia isso com
um sorriso, sem ninguém pedir.
Eu o visitei quando ele finalmente teve que ser tratado por médicos e
enfermeiras. Estava no leito de um hospital, sentindo dores, mas sempre
sorridente. Sua esposa me ligara para dizer que ele estava ficando mais fraco.
Meu filho e eu lhe demos uma bênção do sacerdócio em seu leito, quando ele
estava todo conectado a tubos e frascos. Selei a bênção com a promessa de
que ele teria tempo e forças para fazer tudo o que Deus esperava dele nesta
vida para passar em todas as provas. Ele estendeu a mão para segurar a minha
quando me afastei do leito para sair. Fiquei surpreso com a força de seu
aperto de mão e a firmeza de sua voz ao dizer: “Vou conseguir”.
Deixei-o achando que o veria de novo em breve, mas recebi um
telefonema no dia seguinte. Ele tinha ido para o lugar glorioso em que verá o
Salvador, que é o juiz perfeito, tanto dele como nosso. Ao falar em seu
funeral, lembrei-me das palavras proferidas por Paulo quando soube que iria
para o lugar para o qual meu vizinho e amigo tinha ido:
“Mas tu, sê sóbrio em tudo, sofre as aflições, faze a obra de um
evangelista, cumpre o teu ministério.
Porque eu já estou sendo oferecido por aspersão de sacrifício, e o tempo
da minha partida está próximo.
Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé.
Desde agora, a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, justo
juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos os que
amarem a sua vinda” (II Timóteo 4:5–8).
Tenho certeza de que meu vizinho conseguiu vencer sua provação e que
se apresentará ao Juiz com um sorriso alegre.
Presto-lhes meu testemunho de que Deus, o Pai, vive. Ele estabeleceu,
para cada um de nós, um rumo capaz de refinar-nos e aperfeiçoar-nos para
que habitemos com Ele. Testifico que o Salvador vive. Sua Expiação permite
que sejamos purificados se guardarmos Seus mandamentos e nossos
convênios sagrados. Sei por experiência própria que Ele pode e vai dar-nos
forças para vencer todas as provações.
A Fé dos Nossos Antepassados
Se eu pudesse conversar com cada um de vocês e ouvir a história de sua
vida e o que vocês sabem da vida de seus antepassados, meu palpite é que
iríamos descobrir grandes diferenças. Cada vida é única. Isso chamou minha
atenção ao reler diários e histórias que foram passadas através de gerações,
descrevendo a vida de pessoas tão diversas como a de Mary Bommeli, minha
bisavó, e a de Wilford Woodruff, um profeta de Deus. Apesar disso, vejo a
fé, uma fé peculiar, que percorre como um fio a tapeçaria da vida desses
heróis da Restauração, cuja firmeza e coragem nos deixam admirados.
Talvez, se examinássemos esse fio, poderíamos encontrá-lo na tapeçaria de
nossa própria vida e fortalecê-lo.
Nessas histórias, a fé se revela tanto no que as pessoas fizeram como
naquilo que disseram. Por mais diferentes que tenham sido os desafios e as
reações de cada uma dessas pessoas, acho que reconheci um padrão em
comum, que é:
Todas elas acreditavam que o reino de Deus havia sido estabelecido pela
última vez, que iria triunfar sobre grande oposição e se tornaria glorioso, em
preparação para o dia em que o Salvador viria para aceitá-lo. Acreditavam
que esse reino perduraria para sempre e que a elas fora concedido o raro
privilégio de terem sido chamadas a deixar o mundo para edificá-lo.
Elas tinham certeza de que estavam estabelecendo Sião, um lugar de
refúgio. Não é surpresa, então, que pedissem pelo advento de Sião e que
esperassem não só construí-la, mas também desfrutar da vida nela. O que é
surpreendente é que sua fé tenha aumentado mesmo nas ocasiões em que, ao
suplicarem que Sião fosse edificada, viram períodos de segurança
transformarem-se em períodos de provação.
Vejam o apelo do Profeta Joseph em uma carta datada de 10 de
dezembro de 1833 e enviada de Kirtland para os santos exilados no Missouri:
“Ouçam agora a oração de seu humilde irmão no novo e eterno
convênio: — Oh, meu Deus! Tu que, por meio de Teu instrumento imperfeito
e por mandamento, chamaste e escolheste alguns poucos e enviaste-os ao
Missouri, ao lugar ao qual chamaste Sião, e ordenaste a Teus servos que o
consagrassem a Ti como lugar de refúgio e segurança para a coligação de
Teus Santos e para a edificação de uma cidade sagrada a Ti; e como Tu
disseste que não nos seria concedido outro lugar como este, portanto, peço-Te
em nome de Jesus Cristo que restaures Teu povo a suas casas e sua herança
para gozarem o fruto de seu trabalho. Rogo-Te que todos os lugares
desolados sejam edificados; que todos os inimigos de Teu povo que não se
arrependerem nem se voltarem a Ti sejam destruídos da face da terra; que
uma casa seja edificada e estabelecida em Teu nome; que teu povo seja
compensado por todas as perdas sofridas e que seu galardão seja quatro ou
mais vezes maior do que aquilo que perderam, de modo que o território de
Sião seja ampliado para sempre e que Sião seja estabelecida para nunca mais
ser derrubada; que todos os santos, quando forem dispersados como ovelhas e
quando forem perseguidos, fujam para Sião e nela se estabeleçam; e que ela
seja organizada de acordo com a Tua lei. Rogo-te também que esta oração
permaneça gravada diante da Tua face para sempre. Concede Teu Espírito
Santo a meus irmãos a quem escrevo; envia Teus anjos para guardá-los; livra-
os de todo o mal; e, quando eles voltarem a face para Sião e curvarem-se
diante de Ti em oração, não contemples seus pecados e nem lhes dá lugar no
livro de Tua lembrança; e que Teus santos se apartem de todas as suas
iniquidades. Concede-lhes alimento como o concedes aos corvos; dá-lhes
roupas para cobrir sua nudez e casas para habitar; concede-lhes amigos em
abundância e que seu nome seja gravado no livro da vida, que é o livro do
Cordeiro, e permaneça eternamente diante de Tua face. Amém” (History of
the Church of Jesus Christ of Latter-day Saints, 7 vols., 1932–1951, vol. 1, p.
456).
Agora, depois de tal súplica, vejam a fé neste relato escrito pelo Profeta
Joseph Smith em 1º de março de 1842, após os sofrimentos passados no
Missouri e da promessa de Nauvoo. Vejam se a decepção diminuiu a fé.
“Depois disso, estabelecemo-nos nos Condados de Caldwell e Daviess,
onde fundamos grandes e amplas cidades, imaginando que nos livraríamos da
opressão se nos estabelecêssemos em condados recém-criados, com
pouquíssimos habitantes. Todavia, não nos deixaram viver em paz nesse
lugar. Em 1838, fomos novamente atacados pelas turbas; uma ordem de
extermínio foi promulgada pelo governador Boggs; e, com a aprovação da
lei, um grupo organizado de malfeitores assaltou nossas terras, roubando
nosso gado, nossas ovelhas, nossos porcos, etc.; muitos dos nossos foram
assassinados a sangue frio, nossas mulheres foram violentadas e fomos
forçados a assinar a transferência de nossas terras sob a ameaça de armas.
Depois de suportar todas as indignidades que nos foram impostas por um
bando desumano e ímpio de bandidos, 1.200 a 1.500 almas, entre homens,
mulheres e crianças, foram expulsas de junto de suas próprias lareiras e das
terras das quais possuíam a escritura para vaguear sem teto, sem amigos e
sem lar (no meio do inverno), como desterrados, e procurar abrigo em um
lugar de clima mais favorável e em meio a um povo menos bárbaro. Muitos
adoeceram e morreram devido ao frio e às dificuldades que tiveram de
enfrentar. Muitas mulheres ficaram viúvas e muitas crianças, órfãs e
carentes.”
E a declaração prossegue dizendo:
“Nas referidas condições, chegamos ao Estado de Illinois, em 1839,
onde encontramos um povo hospitaleiro e um lugar agradável de se morar:
um povo disposto a ser governado pelos princípios da lei e da humanidade.
Começamos a construir uma cidade chamada ‘Nauvoo’ no condado de
Hancock. Somos aproximadamente de 6 a 8 mil morando aqui, além de
muitos outros espalhados pelo condado e em quase todos os condados do
Estado. Obtivemos o direito de promulgar uma carta constitucional municipal
e de criar uma legião, que atualmente se compõe de 1.500 soldados.
Recebemos também autorização para fundar uma universidade e uma
Sociedade Agrícola e Fabril; temos nossas próprias leis e administradores,
bem como todos os privilégios desfrutados por quaisquer outros cidadãos
livres e instruídos.
A perseguição não impediu o progresso da verdade, mas apenas
acrescentou lenha na fogueira, e ela espalhou-se com velocidade cada vez
maior. Com orgulho da causa que abraçaram, cônscios de nossa inocência e
da veracidade de seu sistema, em meio a calúnias e acusações, os élderes
desta Igreja seguiram adiante e plantaram o evangelho em quase todos os
Estados da União. Ele penetrou em nossas cidades, espalhou-se por nossas
vilas e fez com que milhares de nossos cidadãos inteligentes, nobres e
patrióticos obedecessem a seus divinos mandamentos e fossem governados
por suas verdades sagradas. Também se espalhou pela Inglaterra, Irlanda,
Escócia e pelo País de Gales, para onde, em 1840, foram enviados alguns de
nossos missionários, sendo que mais de 5 mil se congregaram sob o
estandarte da verdade, e muitos estão se congregando sob esse estandarte
atualmente em toda parte.
Nossos missionários estão levando esta obra a diversas nações; e o
estandarte da verdade já foi erguido na Alemanha, Palestina, Nova Holanda,
Austrália, nas Índias Orientais e em outros lugares. Nenhuma mão ímpia
conseguirá impedir o progresso desta obra; mesmo que sejam deflagradas
violentas perseguições, que se reúnam multidões enfurecidas, que exércitos
sejam mobilizados, mesmo que haja calúnias e difamações, a verdade de
Deus seguirá adiante, com destemor, nobreza e independência, até que tenha
penetrado em todos os continentes, visitado todas as regiões, varrido todos os
países e soado em todos os ouvidos, até que os propósitos de Deus sejam
cumpridos e o grande Jeová declare estar a obra concluída” (“The Wentworth
Letter” em History of the Church, vol. 4, pp. 539–540; ver também
“Ensinamentos dos Presidentes da Igreja: Joseph Smith”, pp. 466–468).
O Profeta e os santos fiéis esperavam adversidades e sabiam que o
Senhor os socorreria. Eles acreditavam no que Néfi ensinou:
“E eis, porém, que eu, Néfi, vos mostrarei que as ternas misericórdias do
Senhor estão sobre todos aqueles que ele escolheu por causa de sua fé, para
torná-los fortes com o poder de libertação” (1 Néfi 1:20).
E eles sabiam que precisariam dessa libertação repetidamente, sempre
que surgisse oposição. Sabiam que os períodos de paz seriam temporários e
assim transformaram-nos em períodos de gratidão e coragem para levar o
trabalho adiante.
A fé dos líderes aumentou durante os ciclos de oposição e libertação e,
depois, de mais oposição, e o mesmo aconteceu com a fé das pessoas do
povo. Uma dessas pessoas foi minha bisavó, Mary Bommeli; essa suíça de
olhos negros era apenas uma adolescente quando cruzou as planícies.
Recentemente estive na região onde ela passou a infância. Sempre imaginei
que fosse na encosta de um dos alpes, mas estava errado. Fica nas colinas
verdes do norte da Suíça, com terras férteis e vinhas produtivas. Eu queria
muito ter encontrado a casa onde os missionários ensinaram a ela e sua
família, onde eles ficaram sabendo que o evangelho de Jesus Cristo e o reino
de Deus tinham sido restaurados e onde decidiram dedicar a própria vida ao
reino — de onde os meninos mais velhos saíram em missão e de onde o
restante dirigiu-se à América para construir Sião. Eles deixaram um lugar
belo e seguro e partiram rumo ao desconhecido.
Mary decidiu deixar os outros partirem primeiro, sem ela. Ela sabia que
podia conseguir o dinheiro da passagem com seu trabalho de tecelã, mas os
outros não. Optou por deixá-los sair em missão e irem para a América usando
todo o dinheiro que conseguiram com a venda de tudo o que possuíam. Ela
seguiu de cidade em cidade tecendo roupas para as mulheres e confiando em
Deus. Além disso, foi presa por pregar o evangelho na Alemanha, onde isso
era ilegal, porque não conseguia conter as boas novas dentro de si.
Ela chegou à América, juntou-se a uma companhia de pioneiros e
atravessou as planícies a pé. Segundo ela, essa travessia a pé foi um dos
períodos mais felizes de sua vida. Na caminhada, ela conheceu um
missionário que voltava ao lar, era Henry Eyring. Eles andavam à frente da
caravana para ficarem livres da poeira. Em suas conversas, referiam-se àquela
caminhada não como uma provação, mas como um tempo de alegria e
comentavam entre si como era extraordinário que servos de Deus os tivessem
encontrado e que eles tivessem a oportunidade de ajudar a edificar o reino de
Deus nos últimos dias. Eles se apaixonaram. Para eles, essa travessia não foi
uma provação, mas um tempo de refrigério e de refúgio. Eles optaram por
encarar essa fase como um período de descanso, ele de sua missão de cinco
anos, e ela dos trabalhos e da viagem solitária que lhe permitiram imigrar da
Suíça. Foi essa fé juvenil que transformou a viagem em um passeio
romântico.
Para Mary e Henry, foi na terra prometida que as provações começaram.
Depois do casamento, foi graças apenas ao trabalho de tecelã da Mary que
eles não passaram fome. Henry tinha formação universitária na Alemanha,
mas não aprendera as habilidades necessárias para ser um pioneiro no
deserto. Eles construíram uma casinha. Nenhum dos dois sabia fazer tijolos.
Quando vieram as chuvas, o telhado vazou e, em seguida, uma parede
desabou sobre Mary, que estava grávida de seu primeiro filho. Só não
aconteceu o pior devido ao fato extraordinário de o tear havê-la protegido dos
tijolos que caíam, mas a criança em seu ventre foi ferida. O menino nasceu
com deficiências físicas que carregou para o resto da vida.
Com orações e trabalho incessante, eles começaram a sair da pobreza no
Condado de Davis e em Salt Lake City, mas esse período de paz foi
interrompido. O Presidente Brigham Young sugeriu que se mudassem para
St. George. Eles partiram para o desconhecido novamente, construíram lares,
plantaram jardins e trabalharam no reino. Henry foi prefeito de St. George
por um tempo, também foi conselheiro na presidência da estaca e gerente do
armazém da cooperativa. Ajudaram a construir o Templo de St. George, no
qual Mary oficiou com prazer durante 12 anos. Ela escreveu sobre aquele
serviço como se sentisse a paz que o Senhor prometera muito tempo antes ao
ordenar que um templo fosse construído.
Esta é a promessa contida no livro de Ageu no Velho Testamento: “A
glória desta última casa será maior do que a da primeira, diz o Senhor dos
Exércitos, e neste lugar darei a paz, diz o Senhor dos Exércitos” (Ageu 2:9).
Mas Mary ouviu o que considerou ser a voz de um apóstolo chamando-
os a deixar para trás aqueles tempos de paz. Foi-lhes sugerido que
participassem do estabelecimento das colônias mórmons no norte do México.
Eles foram acreditando que o Senhor os susteria no que fizessem a Seu
serviço.
Sentiram mais segurança em seguir adiante rumo ao desconhecido para
servir no reino do que em ficar no que lhes era o conhecido e confortável.
Deixaram o que para eles tinha se tornado Sião a fim de ajudar o Senhor a
construir outra — não por obediência cega, uma vez que foram convidados e
não convocados, mas por fé que o mais sábio a fazer era ir para onde
pudessem melhor edificar o reino.
No México, viram repetir-se esse padrão de livramento. Com o tempo,
foram abençoados com casas e jardins. Henry foi em missão para o sul do
México, como havia feito anteriormente de Utah à Alemanha. Ele fundou e
administrou com grande sucesso o armazém cooperativo de Colonia Juárez
como fizera em St. George. Mary mais uma vez trabalhou incansavelmente
na Sociedade de Socorro. Seu trabalho e fé novamente lhes deram uma ideia
da paz que haverá na cidade de Sião. Então, Henry morreu. Veio a Revolução
Mexicana. Mary e sua família deixaram tudo o que haviam construído e
novamente migraram para os Estados Unidos. Ela morreu viúva, uma
refugiada daqueles tempos idílicos no México, mas cheia de fé no destino do
reino de Deus e no seu Cabeça, Jesus Cristo, seu Salvador.
A história de Mary é digna de ser contada não por ser excepcional, mas
por não ser. Sua fé parecia aumentar com igual constância tanto nos
momentos de libertação como nos momentos de provação. Parece que o
mesmo aconteceu a cada pioneiro cuja história li. Parece-me que isso
acontecia porque sua fé alicerçava-se no entendimento do motivo pelo qual
Deus permite que passemos por situações tão difíceis e de como Ele nos
liberta. O “como” nasce do “porquê”. O “porquê” é que nosso amoroso Pai
Celestial e Seu filho, Jesus Cristo, desejam que sejamos santificados para que
vivamos eternamente com Eles. Para isso é preciso que sejamos purificados
pela fé em Jesus Cristo, arrependamo-nos por causa dessa fé e provemos que
somos fiéis aos convênios colocados à nossa disposição somente por meio de
Seus servos mortais no reino de Deus. Quando conhecemos seu propósito
amoroso, fica mais fácil entender por que Eles permitem as provações e como
Eles nos socorrem.
Eles poderiam resolver todos os problemas na edificação do reino e em
nossa vida. Eles permitem que as provações aconteçam mesmo quando
somos fiéis porque nos amam. Há algumas escrituras que agora me parecem
claras depois de ler os diários desses pioneiros.
Esta vem de Doutrina e Convênios 105:19:
“Ouvi suas orações e aceitarei sua oferta; a mim convém que sejam
trazidos até aqui para uma prova de sua fé”.
Esta é outra que ouvimos sempre, de Éter 12:6:
“E agora eu, Morôni, quisera falar algo a respeito dessas coisas. Quisera
mostrar ao mundo que fé são coisas que se esperam, mas não se veem;
portanto, não disputeis porque não vedes, porque não recebeis testemunho
senão depois da prova de vossa fé”.
Mas, para mim, o maior conforto vem desta escritura em Doutrina e
Convênios 95:1:
“Em verdade assim diz o Senhor a vós, a quem amo; e a quem amo
também castigo, para que seus pecados sejam perdoados, pois com o castigo
preparo um meio para livrá-los da tentação em todas as coisas; e eu vos
amo”.
Comecei a entender que provar nossa fé não é somente uma questão de
testá-la, mas de fortalecê-la, que o testemunho que adquirimos depois da
provação fortalece nossa fé e Deus planejou tudo de forma que nossa
libertação ocorrerá no momento certo, de forma a permitir que nossa fé se
fortaleça ao máximo.
É claro que nem sempre o livramento chega mais rápido para aqueles
que têm mais fé. Um exemplo notável de libertação imediata foi a
preservação dos filhos de Israel não quando tiveram mais fé, mas quando
murmuravam. Vocês devem lembrar de suas queixas e da resposta do Senhor
por meio de Moisés:
“Não é esta a palavra que te temos falado no Egito, dizendo: Deixa-nos,
que sirvamos aos egípcios? Pois que melhor nos fora servir aos egípcios, do
que morrermos no deserto.
Moisés, porém, disse ao povo: Não temais; estai quietos, e vede o
livramento do Senhor, que hoje vos fará; porque aos egípcios, que hoje vistes,
nunca mais os tornareis a ver” (Êxodo 14:12–13).
Em Seu amor, o Pai pode tê-los livrado prontamente para firmar sua fé
oscilante, mas aqueles que têm uma fé maior podem beneficiar-se mais com a
espera. Pelo menos essa parece ser a sina de muitas pessoas que estão entre as
melhores e mais fiéis que existem. Talvez seja a esses santos fiéis que se
dirijam as palavras de consolo e confiança do Senhor encontradas em
Doutrina e Convênios 58:3–4:
“Por agora não podeis, com vossos olhos naturais, ver o desígnio de
vosso Deus com respeito às coisas que virão mais tarde nem a glória que se
seguirá depois de muitas tribulações.
Pois após muitas tribulações vêm as bênçãos. Portanto vem o dia em que
sereis coroados de muita glória; ainda não é chegada a hora, mas está
próxima”.
O “está próximo” para o Senhor nem sempre está tão próximo quanto
gostaríamos. É que, às vezes, dá aos mais fiéis o privilégio de ver o tempo
por Sua perspectiva. Admiramos aqueles que pacientemente aceitam o
desenrolar do tempo do Senhor no processo de se tornarem mais semelhantes
Ele e de aprenderem a ver as coisas pela perspectiva Dele.
Algumas de nossas tribulações não terminam nesta vida. Por isso, nosso
Senhor nos promete forças para suportar, dizendo:
“E agora, ó Helamã, meu filho, eis que estás na juventude; peço-te,
portanto, que ouças minhas palavras e aprendas de mim; porque sei que
aqueles que confiarem em Deus serão auxiliados em suas tribulações e em
suas dificuldades e em suas aflições; e serão elevados no último dia” (Alma
36:3).
De todas as provas que enfrentamos, nenhuma dói mais do que a morte
de um ente querido ou a desgraça do pecado. Por meio da Ressurreição de
Jesus Cristo, todos são libertados da morte e todos se levantarão na
ressurreição, sejam quais forem suas transgressões. E pela Expiação de Jesus
Cristo todos podem alcançar paz nesta vida, ser purificados e, assim,
libertados das tristezas do pecado e ter a esperança de uma gloriosa
ressurreição com os justos.
Certo homem explicou-me o que, na opinião de sua família, significava
ter Jesus Cristo como alicerce. Para eles, isso significava que seu filho, que a
morte levara ainda recém-nascido, se ergueria na ressurreição e que ele, o pai,
poderia terminar de criá-lo. Por meio da fé que tinham no Salvador, os
membros dessa família foram libertados do sofrimento e elevados a uma
condição de paz. A gratidão por semelhante libertação aparece
frequentemente nas histórias dos pioneiros, em parte porque as mortes eram
muitas e ocorriam muitas vezes prematuramente.
A libertação do pecado é menos mencionada, uma vez que é uma
questão muito particular, mas certamente ocorreu, tão certo como ocorre em
nossa vida. Todos nós experimentamos em certo grau a libertação descrita na
história de Alma, o filho. Vocês se lembram de suas palavras, que nos
alegram todas as vezes que as ouvimos e que nos enchem de gratidão por
nossa própria libertação:
“E então, eis que quando pensei isto, já não me lembrei de minhas dores;
sim, já não fui atormentado pela lembrança de meus pecados.
E oh! que alegria e que luz maravilhosa contemplei! Sim, minha alma
encheu-se de tanta alegria quanta havia sido minha dor.
Sim, digo-te, meu filho, que nada pode haver tão intenso e cruciante
como o foram minhas dores. Sim, meu filho, digo-te também que, por outro
lado, nada pode haver tão belo e doce como o foi minha alegria.
Sim, parecia-me ver, assim como nosso pai Leí viu, Deus sentado em
seu trono, rodeado por inúmeras multidões de anjos na atitude de cantar e
louvar a Deus; e minha alma sentia o desejo de lá estar” (Alma 36:19–22).
Podemos ter a paz do perdão e da esperança na ressurreição onde quer
que estejamos. A paz que transcende todo o entendimento não depende de
nossa localização geográfica. O local de refúgio está, finalmente, em nosso
coração. O Senhor quis dizer pelo menos duas coisas quando afirmou:
“Portanto, em verdade, assim diz o Senhor: Que Sião se regozije, pois isto é
Sião—Os puros de coração” (Doutrina e Convênios 97:21). Sião é o lugar
onde os puros de coração estão reunidos; é esse ajuntamento o que dá origem
a Sião. Mas também há um lugar de paz e refúgio no coração daquele que foi
purificado pela Expiação e que permitiu que a esperança da vida eterna
preenchesse seu ser.
Com essa paz vem o desejo de servir. É por isso que aqueles que
sentiram as bênçãos do batismo e da confirmação sentem o impulso de levar
o evangelho às outras pessoas. Foi por isso que Mary Bommeli foi presa.
Quaisquer que sejam nossas circunstâncias, podemos lembrar-nos do
Salvador e de que é uma bênção fazer parte de Seu reino, e podemos ter em
nosso coração a pergunta: “Como o Mestre quer que eu sirva a Ele?” Se
fizermos essa pergunta com fé, determinados a seguir os sussurros que vêm
do Espírito Santo, esses sussurros virão. Encontraremos meios de ajudar a
edificar o reino. Sentiremos nosso coração renovado e teremos a certeza de
que aquilo em que os pioneiros acreditavam é verdade: o reino de Deus foi
restaurado e temos a bênção de estar entre os poucos, dentre os inúmeros
filhos de nosso Pai, a edificá-lo para o Mestre pela última vez.
O Poder da Libertação
Quero prestar-lhes meu testemunho do poder que Deus tem para
socorrer-nos. Em algum momento da vida, todos precisamos desse socorro.
Toda pessoa viva está em meio a uma prova. Deus concedeu-nos o dom
precioso de vivermos em um mundo que foi criado para ser nosso campo de
provas e nossa escola preparatória. As provas que enfrentaremos, seu grau de
dificuldade, o momento em que acontecerão e sua duração serão diferentes
para cada um de nós. Mas duas coisas são iguais para todos e fazem parte de
como a vida mortal foi planejada.
Em primeiro lugar, às vezes, essas provas exigirão tanto de nós que
sentiremos necessidade de ajuda. E, em segundo lugar, Deus, em Sua
bondade e sabedoria, colocou o socorro ao nosso alcance.
Vocês bem poderiam perguntar: “Se o Pai Celestial nos ama, por que
Seu plano de felicidade inclui provações tão difíceis?” É porque Seu
propósito é oferecer-nos a vida eterna. Ele quer dar-nos uma felicidade que só
é possível se vivermos em família para sempre, em glória, com Ele, e as
provações são necessárias para que sejamos moldados e nos tornemos aptos a
receber a felicidade que virá de nos qualificarmos para obter o maior de todos
os dons de Deus.
Há muitas diferentes provas, mas aqui vou falar de apenas três. Talvez
vocês estejam passando por uma delas neste momento. Em cada uma dessas
provas, o socorro está ao nosso alcance — não para fugir à prova, mas para
suportá-la bem.
Primeira: O sentimento esmagador de tristeza e dor devido à morte de
um ente querido.
Segunda: A forte oposição que todos nós, sem exceção, vamos ter que
enfrentar. Parte dessa oposição pode advir de nossas necessidades físicas e
outra parte virá de nossos inimigos.
Terceira: Todo nós que alcançamos a idade da responsabilidade e
seguimos vivendo sentiremos a necessidade de escapar aos efeitos do pecado.
Cada uma dessas provas pode nos dar a oportunidade de ver que
precisamos do poder de Deus para ajudar-nos a vencê-las bem.
Talvez alguns de vocês estejam sentindo agora a pressão dessas provas,
mas todos nós teremos de enfrentá-las. É bom saber que elas não acontecem
por acaso nem vêm de um Deus cruel. Saber que uma recompensa
maravilhosa nos aguarda ajuda-nos a suportá-las bem. O Profeta Joseph
Smith precisou de tal certeza, e a conseguiu, quando se sentia abandonado e
oprimido sob o peso esmagador da perseguição e das contendas entre aqueles
a quem presidia e amava:
“Meu filho, paz seja com tua alma; tua adversidade e tuas aflições não
durarão mais que um momento;
E então, se as suportares bem, Deus te exaltará no alto” (Doutrina e
Convênios 121:7–8).
O Senhor disse a Joseph que suas tribulações durariam apenas um
momento. Isso se aplicava a ele e aplica-se a nós se compararmos a duração
de qualquer tribulação do mundo com a imensidão da eternidade; e a
recompensa por passar nas provas, suportá-las bem, é tornarmo-nos
merecedores da vida eterna. Essa garantia nos ajudará quando os inimigos
nos difamarem ou quando um médico informar-nos de um prognóstico
sombrio.
Com isso chegamos à primeira categoria de provações que vamos
considerar: a tragédia que a morte pode representar. A vida termina cedo para
alguns, mas, cedo ou tarde, chegará ao fim para todos nós. Todos nós
seremos provados com a morte de alguém que amamos. Ainda outro dia,
encontrei um homem que não via desde a morte de sua esposa. Foi um
encontro casual em uma situação social agradável, num feriado. Ele estava
sorrindo quando se aproximou de mim. Lembrando da morte de sua esposa,
formulei uma saudação comum com muito cuidado: “Como vai você?”
O sorriso desapareceu, seus olhos ficaram úmidos e ele respondeu sério
em voz baixa: “Estou bem. Mas é muito difícil”.
É muito difícil, como a maioria de vocês sabe e como todos nós um dia
saberemos. A pior parte dessa prova é saber o que fazer com a tristeza, a
solidão e a sensação de perda que pode fazer-nos sentir que perdemos uma
parte de nós. O luto pode persistir como uma dor crônica e algumas pessoas
podem revoltar-se ou sentir que foram injustiçadas.
Devido à Sua Expiação e Ressurreição, o Salvador tem o poder de
socorrer-nos nessa provação. Ele conhece todas as nossas dores por
experiência própria. Ele poderia tê-las conhecido por meio do Espírito, mas
em vez disso optou por conhecê-las em primeira mão. Diz a escritura:
“E eis que nascerá de Maria, em Jerusalém, que é a terra de nossos
antepassados, sendo ela uma virgem, um vaso precioso e escolhido; e uma
sombra a envolverá; e conceberá pelo poder do Espírito Santo e dará à luz um
filho, sim, o Filho de Deus.
E ele seguirá, sofrendo dores e aflições e tentações de toda espécie; e
isto para que se cumpra a palavra que diz que ele tomará sobre si as dores e
as enfermidades de seu povo.
E tomará sobre si a morte, para soltar as ligaduras da morte que prendem
o seu povo; e tomará sobre si as suas enfermidades, para que se lhe encham
de misericórdia as entranhas, segundo a carne, para que saiba, segundo a
carne, como socorrer seu povo, de acordo com suas enfermidades” (Alma
7:10–12).
As pessoas boas ao seu redor vão tentar entender seu sofrimento pela
morte de um ente querido. Talvez elas mesmas estejam sofrendo. O Salvador
compreende o sofrimento e Ele mesmo sofre, mas não é só isso: Ele sofre
aquilo que você e só você sofre. Ele conhece você perfeitamente, conhece seu
coração. Sendo assim. Ele sabe quais, dentre as muitas opções, são as
melhores coisas que você pode fazer para permitir que o Espírito Santo o
console e abençoe. Ele saberá por onde será melhor você começar. Às vezes,
pode ser por uma oração ou pode ser ir consolar uma outra pessoa. Sei de
uma viúva com uma doença debilitante que foi inspirada a visitar outra viúva.
Eu não estava presente, mas tenho certeza de que o Senhor inspirou uma
serva fiel a estender a mão à outra e desse modo socorreu as duas.
O Salvador dispõe de muitas maneiras de socorrer os que sofrem, e
pessoas diferentes precisam ser socorridas de formas diferentes. Mas vocês
podem ter certeza de que Ele pode socorrer, e socorrerá, cada pessoa que
sofre. Ele fará isso da forma que for melhor para ela e para aqueles que a
cercam. Uma constante, quando Deus liberta as pessoas da dor, é elas
sentirem-se humildes como criancinhas perante Deus. Na vida de Jó,
encontramos um grande exemplo do que é possível quando se é humilde e
fiel. Vocês devem estar lembrados da história:
“Então Jó se levantou, e rasgou o seu manto, e rapou a sua cabeça, e se
lançou em terra, e adorou.
E disse: Nu saí do ventre de minha mãe e nu tornarei para lá; o Senhor o
deu, e o Senhor o tomou: bendito seja o nome do Senhor.
Em tudo isto Jó não pecou, nem atribuiu a Deus falta alguma” (Jó 1:20–
22).
A humildade é uma constante naqueles que têm suas dores sanadas ou
aliviadas. A outra constante — e essa era uma qualidade de Jó — é fé
inabalável no poder da Ressurreição do Salvador. Todos nós ressuscitaremos.
Nossos entes queridos que morrem ressuscitarão como o Salvador.
Voltaremos a estar com eles não sob forma etérea, mas com um corpo que
nunca mais morrerá nem envelhecerá ou ficará enfermo. Quando o Salvador
apareceu aos apóstolos depois da Ressurreição, não só consolou-os em seu
sofrimento, mas também a todos nós que ainda viríamos a sofrer. Ele os
consolou, e consola a nós, da seguinte maneira:
“Paz seja convosco. (…)
Vede as minhas mãos e os meus pés, que sou eu mesmo; apalpai-me e
vede, pois um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que eu tenho”
(Lucas 24:36, 39).
O Senhor nos inspira, em meio a nossas aflições, a buscar a forma de
socorro mais adequada para nós. Podemos, em humilde oração, convidar o
Espírito Santo a estar conosco. Podemos decidir servir a outras pessoas pelo
Senhor. Podemos prestar testemunho do Salvador, de Seu evangelho e da
Restauração de Sua Igreja. Podemos guardar seus mandamentos. Todas essas
escolhas convidam o Espírito Santo. É o Espírito Santo quem pode consolar-
nos da forma que precisamos, e é por meio da inspiração que recebemos Dele
que nos é possível obter um testemunho da ressurreição e uma visão clara do
glorioso reencontro que nos aguarda. Senti esse consolo ao olhar para o
túmulo de alguém que eu conhecia — alguém que sei que no futuro poderei
voltar a ter em meus braços. Essa certeza não apenas libertou-me do
sofrimento como também encheu-me de doces esperanças.
Se aquela menininha tivesse vivido até a maturidade, precisaria ser
socorrida em meio a outra série de tribulações. Sua fidelidade a Deus teria
sido provada por meio de obstáculos físicos e espirituais, como acontece com
todos. Embora o corpo seja uma criação magnífica, mantê-lo funcionando é
um desafio que nos coloca à prova. Para muitas pessoas no mundo, é difícil
conseguir comida e água para beber que bastem para o dia. Todos nós temos
que enfrentar as doenças e os efeitos do envelhecimento.
Além dos problemas físicos originados em nosso próprio corpo,
enfrentamos a oposição externa que vem de nossos inimigos. Há raiva e ódio
no mundo ao nosso redor e às vezes eles serão direcionados a nós. Como o
Profeta Joseph percebeu, a oposição aumentou à medida que ele se tornou
mais valioso para os propósitos do Senhor.
O poder capaz de socorrer-nos em meio a essas provações é real. Ele
funciona da mesma forma que o poder que nos socorre quando enfrentamos a
morte de um ente querido. Assim como esse socorro nem sempre significa
que a vida de um ente querido será poupada, o socorro que recebemos em
outras provações nem sempre significa que elas serão removidas. Talvez não
venhamos a ter uma saúde perfeita e nossos inimigos não desapareçam ou
passem a ignorar-nos. Talvez Ele não nos dê alívio até desenvolvermos a fé
necessária para fazer escolhas que permitam que o poder da Expiação opere
em nossa vida. Ele não age assim por indiferença, mas por amor a nós. Esta é
Sua advertência:
“Porque eis que o Senhor disse: Não socorrerei meu povo no dia de sua
transgressão, mas obstruirei seus caminhos para que não prosperem; e suas
obras serão como pedra de tropeço diante deles” (Mosias 7:29).
Somos orientados quanto ao que fazer para receber o socorro do Senhor
em meio aos reveses da vida. Thomas B. Marsh, que era na ocasião o
Presidente do Quórum dos Doze Apóstolos, recebeu essa orientação. Ele
estava passando por muitas provações difíceis e o Senhor sabia que ele
enfrentaria mais. Eis o conselho dado a ele, que tomo para mim e ofereço a
vocês: “Sê humilde; e o Senhor teu Deus te conduzirá pela mão e dará
resposta a tuas orações” (Doutrina e Convênios 112:10).
O Senhor sempre quer conduzir-nos, pela senda que nos levará a
desenvolver maior retidão, ao ponto em que Ele nos dará alívio. Para isso,
precisamos arrepender-nos e precisamos ser humildes. Para que o Senhor nos
socorra, é imprescindível que, primeiro, sejamos humildes, assim
permitiremos que Ele nos leve pela mão para onde quiser, passando por
tribulações e seguindo rumo à santificação.
Podemos cometer o erro de supor que as doenças, as perseguições e a
pobreza serão suficientes para tornar-nos humildes. Elas nem sempre
produzem por si só o tipo e o grau de humildade que precisaremos ter para
ser resgatados. As provações podem causar ressentimento e desânimo. A
humildade de que precisamos para que o Senhor nos leve pela mão vem da
fé. Ela vem da fé em que Deus de fato vive, que nos ama e que o que Ele
quer, não importa quão difícil seja, sempre será o melhor para nós.
O Salvador foi um exemplo dessa humildade. Vocês já leram a história
de quando Ele orou no horto, ao sofrer por nós, sofrimento esse que em muito
excede nossa compreensão e que eu nem seria capaz de descrever. Vocês
devem lembrar de Sua súplica: “Pai, se queres, passa de mim este cálice;
todavia não se faça a minha vontade, mas a tua” (Lucas 22:42).
Ele conhecia e confiava no Pai Celestial, o grande Eloim. Sabia que Seu
Pai era todo-poderoso e infinitamente bondoso. O Filho Amado pediu o
socorro de que precisava com a humildade de uma criancinha.
O Pai não socorreu o Filho eliminando a provação. Para o nosso bem,
Ele não fez isso, mas permitiu que o Salvador concluísse Sua missão.
Contudo, o Pai enviou outra forma de socorro, e saber disso pode ser sempre
uma fonte coragem e consolo para nós:
“E apareceu-lhe um anjo do céu, que o fortalecia.
E, posto em agonia, orava mais intensamente. E o seu suor tornou-se em
grandes gotas de sangue, que corriam até ao chão.
E, levantando-se da oração, veio para os seus discípulos, e achou-os
dormindo de tristeza.
E disse-lhes: Por que estais dormindo? Levantai-vos, e orai, para que
não entreis em tentação” (Lucas 22:43–46).
O Salvador orou por socorro. Não foi Lhe dado escapar ao sofrimento,
mas, sim, o consolo necessário para que Ele o superasse gloriosamente.
Seu mandamento aos discípulos, que estavam, eles próprios, sendo
provados, serve-nos de orientação. Podemos decidir segui-lo. Podemos
decidir levantar-nos e orar com grande fé e humildade e podemos seguir a
ordem contida no livro de Marcos: “Levantai-vos, vamos” (Marcos 14:42).
Disso podemos tirar um conselho para passar pelas provas físicas e
espirituais da vida. Precisaremos da ajuda de Deus depois de termos feito
tudo o que pudermos. Então, levantem-se e ajam, mas busquem a ajuda Dele
o mais cedo possível, não esperem a hora da crise para pedir a ajuda divina.
Vocês enfrentarão oposição e obstáculos na vida. Vocês podem e
precisam prosseguir com confiança. Se começarem determinados a
colocarem-se em condições de receber o socorro divino em todas as
dificuldades da mortalidade, vão triunfar. Serão fortalecidos, serão guiados
por entre os obstáculos, terão ajuda e consolo. Sua fé no Pai Celestial e no
Salvador aumentarão. Terão mais forças para resistir ao mal e sentirão o
evangelho de Jesus Cristo agindo em sua vida.
E com isso chegamos ao terceiro tipo de provação. Por vezes, todos nós
vamos lutar para nos sentir livres dos efeitos do pecado. Somente o Salvador
foi capaz de resistir a todas as tentações e nunca pecar. Assim, a provação
mais importante e mais difícil para todos nós é nos purificarmos e sabermos
que estamos puros. Todos nós, por vezes, ansiamos pela esperança de ver a
face do Senhor (o que certamente acontecerá no juízo final) e de vê-la com
alegria e prazer.
Pelo que entendemos das provações e do que é preciso para receber o
socorro divino, podemos ter a esperança de felicidade no dia do julgamento,
que virá para todos nós. As mesmas coisas que nos dão condições de receber
o auxílio divino em meio às provas da vida são também as que nos darão a
tão necessária confirmação de que passamos na grande prova da mortalidade.
Vimos que, para ser socorridos em nossas aflições, a humildade perante
Deus é imprescindível. É preciso submissão à Sua vontade. É preciso orar e
estar disposto a obedecer. É preciso servir aos outros por amor a eles e ao
Salvador, e é sempre indispensável a companhia do Espírito Santo, o qual
convidamos a estar conosco quando fazemos essas coisas.
Quando recebemos o socorro divino em meio às provações, o Espírito
Santo vem a nós. Muitos de vocês já sentiram o resultado do contato
frequente com o Espírito Santo. Pode ter sido no seu serviço missionário,
quando com frequência precisavam de auxílio divino. O Espírito Santo veio
consolá-los e guiá-los. A medida que isso se repetia, talvez tenham notado
uma mudança em vocês mesmos. As tentações que antes os incomodavam
pareceram perder a intensidade. As pessoas que antes pareciam difíceis
começaram a parecer mais agradáveis. Vocês começaram a ver um potencial
quase absurdo em pessoas muito humildes. Passaram a preocupar-se mais
com a felicidade delas do que com a sua própria.
Se essa transformação ocorreu, é mais provável que tenha sido gradual,
não repentina. No entanto, isso é o que as escrituras chamam de “vigorosa
mudança” (Mosias 5:2; Alma 5:12–14). E é a evidência que nós precisamos
para ter esperança e confiança para aguardar a grande e última prova, o Juízo
Final que ocorrerá após esta vida. A experiência adquirida ao suportar bem as
provações da vida, lançando mão do poder de Deus para socorrer-nos, pode-
nos dar a confiança de que precisamos para encontrar paz nesta vida e
confiança na vida futura.
Na Força do Senhor
Quando eu era jovem, fui conselheiro de um sábio presidente de distrito
da Igreja. Ele tentou ensinar-me. Um conselho seu que lembro ter-me feito
pensar foi: “Quando falar com alguém, trate-o como se ele estivesse em
sérios apuros e você estará certo em mais da metade das vezes”.
Achei na época que ele estava sendo pessimista. Hoje, mais de 40 anos
depois, percebo quão bem ele compreendia o mundo e a vida. Com o passar
dos anos, o mundo se torna cada vez mais difícil e nossa capacidade física vai
lentamente diminuindo com a idade. É evidente que precisaremos de mais do
que apenas a nossa força humana. O salmista estava certo: “Mas a salvação
dos justos vem do Senhor; ele é a sua fortaleza no tempo da angústia”
(Salmos 37:39).
O evangelho restaurado do Senhor Jesus Cristo ajuda-nos a saber como
qualificar-nos para receber a força do Senhor ao lidarmos com as
adversidades; explica por que enfrentamos provações na vida e, o que é mais
importante, diz-nos como conseguir proteção e auxílio do Senhor.
Temos de enfrentar provações porque o Pai Celestial nos ama. Seu
propósito é ajudar-nos a qualificar-nos para a bênção de viver com Ele e Seu
Filho Jesus Cristo para sempre, em glória e em família. Para qualificar-nos
para essa dádiva, tínhamos que receber um corpo mortal. Sabíamos que na
mortalidade seríamos provados por meio de tentações e dificuldades.
O evangelho restaurado não apenas nos ensina por que precisamos ser
provados, mas deixa bem claro qual é a prova pela qual precisamos passar. O
Profeta Joseph Smith deu-nos uma explicação. Por revelação, ele registrou
palavras proferidas na Criação do mundo. Elas se referem a nós, os filhos
espirituais de nosso Pai Celestial que viriam para a mortalidade. Estas são as
palavras:
“E assim os provaremos para ver se farão todas as coisas que o Senhor
seu Deus lhes ordenar” (Abraão 3:25).
Essa explicação nos ajuda a compreender por que enfrentamos provas na
vida. Elas dão-nos a oportunidade de provar-nos fiéis a Deus. Há tantas
coisas que nos acometem na vida que nos parece quase impossível
simplesmente perseverar. Pareceu-me que era isso o que a expressão “deveis
(…) [perseverar] até o fim” (ver 2 Néfi 31:20) significava quando a li nas
escrituras pela primeira vez. Parecia-me algo muito difícil, como sentar-me
quieto e agarrar-me aos braços da cadeira enquanto alguém me arrancava um
dente.
Sem dúvida é o que pode parecer a uma família que depende da colheita
numa época de seca. Ela pode perguntar-se: “Por quanto tempo
conseguiremos aguentar?” É o que pode parecer a um jovem que tenha de
resistir à crescente enxurrada de imoralidade e tentações. É o que pode
parecer a um rapaz que esteja se esforçando para concluir os estudos
necessários para conseguir um emprego que lhe permita sustentar esposa e
filhos. É o que pode parecer a uma pessoa que não consegue encontrar
emprego ou que tenha perdido um emprego depois do outro à medida que as
empresas foram fechando suas portas. É o que pode parecer a uma pessoa que
esteja enfrentando a deterioração da saúde ou da força física, seja a dela
mesma ou a de um ente querido, o que pode acontecer no início ou no fim da
vida.
Mas o teste que Deus, em Seu amor, colocou diante de nós não é para
ver se conseguimos suportar as dificuldades, mas, sim, para avaliar se
conseguiremos suportá-las bem. Passamos no teste quando demonstramos
que nos lembramos Dele e dos mandamentos que Ele nos deu. Suportar bem
significa guardar esses mandamentos, a despeito de toda oposição, seja qual
for a tentação e sejam quais forem os tumultos que nos cerquem. Temos esse
claro entendimento porque o evangelho restaurado explica o plano de
felicidade de modo bem simples.
Essa clareza permite-nos perceber o quanto necessitamos de auxílio.
Precisamos de forças superiores às nossas para guardar os mandamentos em
todas as situações que a vida nos apresentar. Para alguns, pode ser a pobreza,
mas para outros pode ser a prosperidade. Pode ser a debilitação da idade ou a
exuberância da juventude. As provações podem ter as mais diversas durações
e vir combinadas das mais diversas formas, sua variedade se iguala à dos
filhos de Deus: não há dois iguais. Contudo, o que está sendo testado é
sempre o mesmo, em todos os momentos de nossa vida e para todas as
pessoas: Faremos tudo o que o Senhor nosso Deus nos ordenar?
Se soubermos o motivo pelo qual somos provados e qual é a prova,
saberemos como conseguir auxílio. Temos que recorrer a Deus. Ele nos dá os
mandamentos. E precisamos de uma força superior à nossa para guardá-los.
O evangelho restaurado novamente deixa bem claro quais são as coisas
simples que precisamos fazer e nos dá confiança de que receberemos a ajuda
necessária se fizermos essas coisas desde cedo e persistentemente, bem antes
do momento da crise.
Se há uma coisa que precisamos fazer antes, durante e depois das
provações, é orar. O Salvador ensinou como devemos fazê-lo. Uma das
escrituras em que Ele ensina isso mais claramente encontra-se em 3 Néfi:
“Eis que em verdade, em verdade vos digo que deveis vigiar e orar
sempre para não cairdes em tentação; porque Satanás deseja ter-vos para vos
peneirar como trigo.
Portanto deveis sempre orar ao Pai em meu nome.
E tudo quanto pedirdes ao Pai em meu nome, que seja justo, acreditando
que recebereis, eis que vos será dado.
Orai ao Pai no seio de vossa família, sempre em meu nome, a fim de que
vossas mulheres e vossos filhos sejam abençoados” (3 Néfi 18:18–21).
Portanto, precisamos orar sempre.
Outra coisa simples que temos de fazer e que permite que Deus nos dê
forças é banquetear-nos com a palavra de Deus: ler e ponderar as obras-
padrão da Igreja e as palavras dos profetas vivos. Há uma promessa de ajuda
divina que acompanha essa prática diária. O estudo fiel das escrituras traz o
Espírito Santo até nós. A promessa foi feita no Livro de Mórmon, mas se
aplica também a todas as palavras que Deus nos deu e nos dará por
intermédio de Seus profetas.
“Eis que desejo exortar-vos, quando lerdes estas coisas, caso Deus
julgue prudente que as leiais, a vos lembrardes de quão misericordioso tem
sido o Senhor para com os filhos dos homens, desde a criação de Adão até a
hora em que receberdes estas coisas, e a meditardes sobre isto em vosso
coração.
E quando receberdes estas coisas, eu vos exorto a perguntardes a Deus,
o Pai Eterno, em nome de Cristo, se estas coisas não são verdadeiras; e se
perguntardes com um coração sincero e com real intenção, tendo fé em
Cristo, ele vos manifestará a verdade delas pelo poder do Espírito Santo.
E pelo poder do Espírito Santo podeis saber a verdade de todas as
coisas” (Morôni 10:3–5).
Devemos reivindicar o cumprimento dessa promessa não apenas uma
vez e não somente quanto ao Livro de Mórmon. O cumprimento dessa
promessa é garantido. O poder do Espírito Santo é real. Ele virá, repetidas
vezes. E uma verdade suprema que ele sempre testificará é que Jesus é o
Cristo.
Esse testemunho nos aproximará do Salvador e nos levará a aceitar a
ajuda que Ele oferece a todos que estão sendo postos à prova nas aflições da
mortalidade. O Senhor disse mais de uma vez que nos reuniria como uma
galinha reúne seus pintos sob suas asas. Ele disse que precisamos decidir
achegar-nos a Ele, com mansidão e fé suficiente Nele para arrepender-nos
com um “firme propósito de coração” (3 Néfi 10:6).
Uma maneira de fazer isso é reunir-nos com os santos em Sua Igreja.
Assistam às reuniões, mesmo quando isso lhes pareça difícil. Se tiverem
determinação, Ele os ajudará a ter forças para isso.
Uma irmã escreveu-me da Inglaterra. Quando o bispo perguntou se ela
aceitaria o chamado para dar aula no seminário matutino, ele disse que seria
melhor que ela orasse a esse respeito antes de aceitar. Ela orou e aceitou o
chamado. Quando se reuniu com os pais dos alunos pela primeira vez, o
bispo estava a seu lado. Ela anunciou que sentia que o programa deveria
passar para cinco dias por semana. Alguns pais ficaram em dúvida. Alguém
disse: “Eles não virão. Em protesto, eles não virão”.
Ora, em parte eles estavam certos. Muitos alunos realmente não
compareceram. Mas a frequência nessas manhãs frias e escuras está agora
acima de 90%. Aquela professora e seu bispo acreditaram que, se os alunos
começassem a vir, seriam fortalecidos por um poder superior à sua
capacidade. Foi o que aconteceu. Esse poder os protegerá quando tiverem de
ir a lugares em que serão os únicos santos dos últimos dias. Não estarão
sozinhos nem indefesos porque aceitaram o convite de reunirem-se com os
santos quando isso não era fácil.
Essa força não é dada apenas aos jovens, mas também aos mais idosos.
Conheço uma viúva que tem mais de 90 anos e anda em cadeira de rodas. Ela
ora, como vocês, pedindo ajuda para solucionar problemas que estão acima
de sua capacidade humana. A resposta é um sentimento no coração que a faz
cumprir um mandamento: “E eis que vos reunireis com frequência” (3 Néfi
18:22). Portanto, ela dá um jeito de ir às reuniões. As pessoas que frequentam
as mesmas reuniões que ela dizem: “Ficamos muito felizes ao vê-la. Ela traz
muito espírito com ela”.
Ela toma o sacramento e renova um convênio. Lembra-se do Salvador e
procura cumprir Seus mandamentos e, assim, o Espírito Dele está com ela
sempre. Seus problemas talvez não sejam resolvidos. A maioria deles
depende de escolhas de outros; e até mesmo o Pai Celestial, que ouve suas
orações e a ama, não pode forçar as pessoas a escolherem o certo. Mas Ele
pode enviar-lhe a segurança do Salvador e a promessa de que Seu Espírito
estará com ela. E assim, tenho certeza de que, na força do Senhor, ela vai
passar na prova que tem diante de si, porque cumpre o mandamento de
reunir-se frequentemente com os santos. O cumprimento desse mandamento,
por um lado, deixa claro sua perseverança e, por outro, é o que lhe dará
forças para enfrentar o que o futuro lhe reserva.
Há outra coisa simples a ser feita. A Igreja do Senhor foi restaurada e,
portanto, qualquer chamado para servir nela é um chamado para servir ao
Senhor. Aquele bispo da Inglaterra foi muito sábio. Pediu àquela mulher que
orasse a respeito de seu chamado para servir. Ele sabia qual seria a resposta
que ela receberia. Seria um convite do Pai e de Seu Filho Amado. Ele já sabia
algo que ela aprendeu ao responder ao chamado do Mestre. Nesse serviço, o
Espírito Santo será companheiro daqueles que se esforçarem para fazer o
melhor possível. Ela deve ter sentido isso ao se colocar diante dos pais e ao
ver os alunos manifestarem sua vontade. O que parecia difícil, quase
impossível para sua capacidade, tornou-se uma alegria, com a força do
Senhor.
Quando ela lê, pondera as escrituras e ora a fim de preparar-se para as
aulas, sabe que o Salvador pediu ao Pai que lhe enviasse o Espírito Santo,
como prometeu a Seus discípulos na Última Ceia, ciente das provações pelas
quais eles teriam de passar e de que precisaria deixá-los. Ele, porém, não os
deixou sem consolo. Prometeu-lhes o Espírito Santo e o promete a nós, que
estamos a Seu serviço. Portanto, sempre que o convite para servir chegar,
aceite-o. Ele traz consigo a ajuda necessária para passarmos num teste que
está muito além desse chamado.
Nem todos recebem chamados formais. Mas todo discípulo serve ao
Mestre prestando testemunho e sendo gentil com as pessoas a seu redor.
Todos prometeram nas águas do batismo que fariam isso. E todos receberão a
companhia do Espírito se perseverarem em cumprir os compromissos que
assumiram com Deus.
Quando estiverem a serviço do Mestre, aprenderão a conhecê-Lo e amá-
Lo. Se perseverarem em oração e serviço fiel, começarão a sentir que o
Espírito Santo Se tornou seu companheiro. Muitos serviram durante algum
tempo e sentiram essa companhia. Se pensarem naqueles momentos,
lembrarão que passaram por mudanças. A tentação de fazer coisas erradas
pareceu diminuir. O desejo de fazer o bem aumentou. Aqueles que os
conheciam e amavam talvez tenham dito: “Você está mais gentil, mais
paciente. Nem parece a mesma pessoa”.
Vocês não eram a mesma pessoa porque a Expiação de Jesus Cristo é
real. E também é real a promessa de que podemos nos tornar novas pessoas,
diferentes e melhores. Podemos também nos tornar mais fortes e capazes de
passar nas provas da vida. Depois disso, andamos na força do Senhor, uma
força desenvolvida quando estamos a serviço Dele. Ele segue conosco. E com
o tempo, tornamo-nos Seus discípulos fortalecidos e provados.
Vocês notarão uma diferença em suas orações. Elas se tornarão mais
fervorosas e mais frequentes. As palavras proferidas terão um significado
diferente para vocês. Recebemos o mandamento de orar sempre ao Pai em
nome de Jesus Cristo, mas vocês sentirão uma confiança maior ao orarem ao
Pai, sabendo que se achegarão a Ele como discípulos experimentados e de
confiança de Jesus Cristo. O Pai lhes concederá maior paz e força nesta vida
e a feliz expectativa de ouvirem estas palavras quando a prova da vida estiver
terminada: “Bem está, servo bom e fiel” (Mateus 25:21).
Viver uma Vida Consagrada
Oportunidades de Fazer o Bem
Nosso Pai Celestial ouve as orações de Seus filhos do mundo inteiro que
rogam pedindo alimento, roupas para cobrir o corpo e a dignidade de serem
capazes de se sustentar. Esses pedidos chegam até Ele desde que Ele colocou
o homem e a mulher na Terra.
Vocês ficam sabendo de pessoas que enfrentam essas necessidades perto
de onde moramos e no mundo inteiro. Muitas vezes, sentimos nosso coração
repleto de compaixão. Quando encontramos alguém com dificuldade para
conseguir emprego, sentimos o desejo de ajudar. Sentimos isso quando
vamos à casa de uma viúva e percebemos que ela não tem comida. Sentimos
isso quando vemos fotografias de crianças chorando junto às ruínas de uma
casa destruída por um terremoto ou pelo fogo.
Como o Senhor ouve o clamor dessas pessoas e sente a profunda
compaixão que temos por elas, desde o princípio dos tempos Ele
proporcionou meios pelos quais Seus discípulos podem ajudar. Ele convidou
Seus filhos a consagrarem seu tempo, seus recursos e a si mesmos para, com
Ele, servirem ao próximo.
Houve época em que as pessoas usavam a expressão “viver a lei da
consagração” para referir-se à Sua maneira de ajudar. Em outra época, a
maneira Dele recebeu o nome de “ordem unida”. Em nossa época, ela se
chama Programa de Bem-Estar da Igreja.
Os nomes e os detalhes operacionais mudam para condizer com as
necessidades e condições das pessoas, mas a maneira como o Senhor socorre
os que passam por necessidades materiais sempre requer o envolvimento de
pessoas que, por amor, consagram a si mesmas e as coisas que possuem a
Deus e a Sua obra.
Ele convidou-nos a participar de Seu trabalho de ajudar os necessitados
e ordenou-nos que participássemos. Nas águas do batismo e nos templos
sagrados de Deus, assumimos o convênio de fazer isso. Renovamos esse
convênio aos domingos, quando tomamos o sacramento.
Há um hino sobre o convite do Senhor para essa obra que canto desde
menino. Na infância, eu prestava mais atenção na alegre melodia do que na
força de sua letra. Oro para que vocês sintam hoje essa letra em seu coração.
Neste mundo, acaso, fiz hoje eu
A alguém um favor ou bem?
Se ainda não fiz ser alguém mais feliz,
Falhei ante os céus, também!

A carga de alguém mais leve fiz eu,


Porque um auxílio lhe dei?
Ou, acaso, ao pobre que as mãos estendeu
Um pouco do meu ofertei?

Desperta e faz algo mais,


Não queiras somente sonhar
Pelo bem que fazemos a paz ganharemos
No céu que será nosso lar!

Will L. Thompson, “Neste Mundo”, Hinos, nº 136.


O Senhor envia-nos regularmente avisos para despertar-nos. Às vezes,
pode ser um súbito sentimento de compaixão por alguém necessitado. Um pai
pode sentir isso ao ver um filho cair e ralar o joelho. Uma mãe pode sentir
isso ao ouvir o grito assustado do filho durante a noite. Um filho pode sentir
compaixão por alguém que pareça triste ou temeroso na escola.
Todos já fomos tocados por um sentimento de compaixão por pessoas
que nem sequer conhecemos. Por exemplo: ao ouvir as notícias das ondas que
varreram o Pacífico após o terremoto ocorrido no Japão, vocês ficaram
preocupados com os possíveis feridos.
Milhares de vocês sentiram compaixão quando souberam das
inundações em Queensland, Austrália. As notícias continham apenas
estimativas do número de pessoas necessitadas. Muitos de vocês, porém,
condoeram-se dessas pessoas. Na Austrália, 1.500 ou mais voluntários da
Igreja atenderam à convocação de despertar e dar auxílio e consolo.
Essas pessoas transformaram seu sentimento de compaixão na decisão
de agir de acordo com seus convênios. Vi as bênçãos recebidas pelas pessoas
necessitadas que recebem ajuda e pelas pessoas que aproveitam a
oportunidade de ajudar.
Os pais sábios enxergam em toda necessidade alheia uma maneira de
trazer bênçãos para a vida dos próprios filhos. Recentemente, três crianças
levaram recipientes contendo um jantar delicioso até a porta de nossa casa.
Os pais delas ficaram sabendo que precisávamos de ajuda e envolveram os
filhos na oportunidade de nos servir.
Aqueles pais abençoaram nossa família com seu serviço generoso.
Graças a sua decisão de fazer com que os filhos participassem da doação,
estenderam as bênçãos a seus futuros netos. O sorriso das crianças ao saírem
de nossa casa deixou-me confiante no que vai acontecer. Elas vão contar a
seus próprios filhos a alegria que sentiram ao prestarem bondosamente
serviço ao Senhor. Lembro-me do sentimento de serena satisfação que tive
em minha infância quando arranquei ervas daninhas do jardim de um vizinho
a convite de meu pai. Sempre que sou convidado a doar, lembro-me com fé
da letra do hino “Doce é o trabalho, ó Senhor” (Isaac Watts, “Doce é o
Trabalho”, Hinos, nº 54).
Sei que essa letra foi escrita para descrever a alegria resultante da
adoração ao Senhor em Seu dia, mas aquelas crianças que trouxeram comida
a nossa porta sentiram num dia de semana a alegria de fazer a obra do
Senhor. E os pais viram a oportunidade de fazer o bem e de espalhar alegria
ao longo de gerações.
A maneira do Senhor de cuidar dos necessitados proporciona outra
oportunidade para os pais abençoarem os filhos. Vi isso acontecer em uma
capela num domingo. Um menininho entregou o envelope de doações de sua
família ao bispo quando este entrou na capela, antes da reunião sacramental.
Eu conhecia a família e o menino. A família soubera que alguém da ala
estava necessitado. O pai do menino, ao colocar uma oferta de jejum mais
generosa do que a comum no envelope, disse-lhe algo mais ou menos assim:
“Jejuamos e oramos hoje pelas pessoas necessitadas. Por favor, entregue este
envelope ao bispo por nós. Sei que ele vai usá-lo para ajudar os que passam
necessidades maiores que as nossas”.
Em vez de pensar na fome que sentiu naquele domingo, o menino vai se
lembrar desse dia com ternura. Percebi por seu sorriso e pelo modo como
segurava o envelope, com tanta força, que ele sentia a grande confiança que o
pai depositara nele ao pedir que ele levasse a oferta da família para os pobres.
Quando for diácono, ele vai lembrar-se daquele dia, talvez lembre-se para
sempre.
Vi essa mesma felicidade no rosto de pessoas que ajudaram outras para
o Senhor em Idaho, há vários anos. A barragem do Rio Teton ruiu no dia 5 de
junho de 1976. Onze pessoas morreram. Milhares tiveram que abandonar sua
casa em poucas horas. Algumas casas foram arrastadas pela enchente. E para
que centenas de outras voltassem a ser habitáveis, seria preciso muito
trabalho e recursos — ambos muito além do que os proprietários poderiam
fazer com aquilo que poderiam arcar.
Aqueles que ouviram falar da tragédia sentiram compaixão e alguns
foram compelidos a fazer o bem. Vizinhos, bispos, presidentes de Sociedade
de Socorro, líderes de quórum, mestres familiares e professoras visitantes
deixaram sua casa e empregos para limpar as casas de outros que haviam sido
inundadas.
Um casal de Rexburg voltara das férias pouco depois da inundação. Não
foram ver sua própria casa. Em vez disso, procuraram o bispo para saber
onde poderiam ajudar. Ele os encaminhou a uma família necessitada.
Após alguns dias, foram verificar a própria casa. Ela havia sido levada
pela enxurrada. Voltaram para o bispo e perguntaram: “Agora, o que gostaria
que fizéssemos?”
Onde quer que vocês morem, já viram esse milagre de compaixão
transformar-se em atos altruístas. Talvez não tenha sido após uma grande
catástrofe natural. Já vi isso em um quórum do sacerdócio, no qual um irmão
se levantou para descrever as necessidades de uma pessoa que procurava uma
oportunidade de trabalho para sustentar a si mesma e a sua família. Senti a
compaixão na sala, e alguns sugeriram nomes de pessoas que poderiam
empregar a pessoa necessitada.
O que aconteceu naquele quórum do sacerdócio e o que aconteceu nas
casas inundadas de Idaho são uma manifestação de como ajudar à maneira do
Senhor os que passam grandes necessidades a tornarem-se autossuficientes.
Sentimos compaixão e sabemos como agir à maneira do Senhor para ajudar.
O Programa de Bem-Estar da Igreja foi criado há mais de 75 anos para
atender às necessidades dos que perderam emprego, fazendas e até a casa no
período que se tornou conhecido como a Grande Depressão.
Os filhos do Pai Celestial passam grandes necessidades materiais em
nossa época, como aconteceu e como acontecerá em todas as épocas. Os
princípios em que o Programa de Bem-Estar da Igreja se alicerça não são
apenas para uma época ou um lugar. São para todas as épocas e para todos os
lugares.
Esses princípios são espirituais e eternos. Por esse motivo, quando os
compreendemos e os entesouramos sinceramente no coração, eles permitem
que vejamos e aproveitemos as oportunidades de ajudar, seja onde for,
quando quer que o Senhor nos convide a isso.
Eis alguns princípios que me guiaram quando eu quis ajudar à maneira
do Senhor e quando outros me ajudaram.
Em primeiro lugar, todos se sentem mais felizes e têm mais respeito
próprio se puderem sustentar a si mesmos e a sua família e, depois, estender a
mão para cuidar de outros. Houve ocasiões em que senti gratidão pela ajuda
que recebi de outros para atender a minhas necessidades. Ao longo dos anos,
senti-me ainda mais grato àqueles que me ajudaram a ser autossuficiente. E
sinto-me mais grato ainda àqueles que me mostraram como usar meus
excedentes para ajudar outros.
Aprendi que a maneira de ter excedentes é gastar menos do que ganho.
Com esse excedente, aprendi que é mesmo muito melhor doar do que
receber. Isso acontece em parte porque, quando ajudamos à maneira do
Senhor, Ele nos abençoa.
O Presidente Marion G. Romney disse o seguinte sobre o trabalho de
bem-estar: “Não é possível você tornar-se pobre ao doar-se nesse trabalho”.
Em seguida, ele citou seu presidente de missão, Melvin J. Ballard: “Ninguém
doa uma casca de pão ao Senhor sem receber um pão inteiro como
retribuição” (“Serviços de Bem-Estar: Um Programa do Salvador”, A
Liahona, março de 1981, p. 133).
Descobri por experiência própria que isso é verdade. Quando sou
generoso para com os filhos necessitados do Pai Celestial, Ele é generoso
comigo.
Um segundo princípio do evangelho que me tem guiado no trabalho de
bem-estar é a força e a bênção da união. Quando damos as mãos para servir
aos necessitados, o Senhor une nosso coração. O Presidente J. Reuben Clark
Jr. explicou: “O ato de servir (…) proporcionou (…) um sentimento de
irmandade quando homens de todas as formações e profissões trabalharam
lado a lado na horta de bem-estar ou em outros projetos do programa”
(Conference Report, outubro de 1943, p. 13).
Esse sentimento maior de irmandade é real tanto para o que recebe
quanto para o que doa. Até hoje, o homem com quem trabalhei lado a lado
para remover a lama de sua casa inundada em Rexburg tem um forte vínculo
de amizade comigo. E ele sente que preservou o sentimento de dignidade por
ter feito tudo o que podia por si mesmo e por sua família. Se tivéssemos
trabalhado sozinhos, ambos teríamos perdido uma bênção espiritual.
Isso nos leva ao meu terceiro princípio de ação no trabalho de bem-
estar: Envolva sua família em seu trabalho para que eles aprendam a cuidar
uns dos outros ao cuidarem de outras pessoas. É mais provável que seus
filhos ajudem-se mutuamente quando estiverem necessitados se trabalharem
como você a serviço de outras pessoas necessitadas.
Aprendi o quarto princípio valioso do bem-estar da Igreja quando era
bispo. Isso aconteceu quando segui o mandamento das escrituras de procurar
os pobres. É dever do bispo procurar os que necessitam de ajuda e oferecer-
lhes auxílio depois de tudo o que eles e sua família puderem fazer. Descobri
que o Senhor envia o Espírito Santo que nos permite buscar e encontrar (ver
Mateus 7:7–8) e cuidar dos pobres como Ele cuida. Mas também aprendi a
envolver a presidente da Sociedade de Socorro nessa busca. É possível que
ela receba a revelação antes de vocês.
Pelo serviço amoroso que vocês renderam ao Senhor, recebi o
agradecimento das pessoas que vocês ajudaram ao conhecê-las pelo mundo
afora. Vocês encontraram um meio de elevá-las ao ajudarem-nas à maneira
do Senhor. Vocês e outros humildes discípulos do Salvador prestaram serviço
às pessoas, e elas procuraram oferecer-me abundante gratidão como
retribuição.
Ouço a mesma gratidão ser expressa pelas pessoas que trabalharam com
vocês. Lembro-me de estar certa vez ao lado do Presidente Ezra Taft Benson.
Estávamos conversando sobre o serviço de bem-estar na Igreja do Senhor.
Ele surpreendeu-me com seu vigor juvenil ao dizer, agitando as mãos,
entusiasmado: “Adoro este trabalho, e é trabalho!”
Agradeço ao Mestre pelo trabalho que vocês realizaram para servir aos
filhos do Pai Celestial. Ele conhece vocês e vê seu empenho, sua diligência e
seu sacrifício. Oro que Ele lhes conceda a bênção de ver os frutos de seu
trabalho na felicidade daqueles a quem vocês ajudaram e daqueles com quem
trabalharam em nome do Senhor.
Servir com o Espírito
Guardo comigo a sagrada lembrança de dois portadores do sacerdócio
que foram dignos da companhia do Espírito de Deus na missão para a qual o
Senhor os chamou. Eles próprios haviam conhecido o evangelho restaurado
nos Estados Unidos. Foram eles os servos do Senhor que primeiro falaram do
evangelho a dois de meus antepassados europeus.
Um desses antepassados era uma menina que morava em uma pequena
fazenda na Suíça. O outro era um rapaz órfão que emigrara da Alemanha para
os Estados Unidos e morava em St. Louis, Missouri.
Os dois ouviram um portador do sacerdócio prestar testemunho do
evangelho restaurado: no caso da menina, junto à lareira de sua casinha na
Suíça, e no do rapaz, no mezanino de um salão alugado nos Estados Unidos.
Ambos souberam pelo Espírito que a mensagem transmitida por aqueles
élderes era verdadeira.
O rapaz e a menina decidiram ser batizados. Os dois se conheceram,
anos depois, numa trilha empoeirada, quando percorriam centenas de
quilômetros rumo às montanhas do Oeste americano. Enquanto caminhavam
juntos, conversaram sobre a bênção milagrosa de, dentre todas as pessoas do
mundo, terem sido encontrados pelos servos de Deus e sobre outra bênção
mais milagrosa ainda: a de saberem que a mensagem desses servos era
verdadeira.
Apaixonaram-se e casaram-se. Graças ao testemunho do Espírito que
teve início quando ouviram as palavras dos portadores do sacerdócio, sob a
influência do Espírito Santo, foram selados para a eternidade pelo poder do
sacerdócio. Sou um dentre as dezenas de milhares de descendentes daquele
rapaz e daquela menina que bendizem o nome dos dois portadores do
sacerdócio que levaram consigo a ministração do Espírito de Deus quando
subiram o monte na Suíça ou se ergueram para falar naquela reunião em St.
Louis.
Essa história feliz e milhões de outras semelhantes repetem-se no mundo
inteiro e continuarão a repetir-se ao longo de gerações. Para alguns, é a
história de um jovem mestre familiar que disse palavras que despertaram no
avô de uma família o desejo de voltar a ser ativo na Igreja. Para outros, são as
palavras de consolo e bênção de um patriarca, que deram alento à mãe
quando uma tragédia a deixou quase sem forças para prosseguir.
Há um tema comum em todas essas histórias. É o tema do poder do
sacerdócio exercido por um homem cuja capacidade de servir foi ampliada
pelo Espírito Santo.
Façamos todo o necessário para sermos dignos da companhia do
Espírito Santo e prossigamos sem medo, sabendo que teremos a capacidade
de fazer tudo o que o Senhor nos chamar a fazer. Pode ser que esse aumento
da capacidade de servir ocorra lentamente, talvez em pequenos passos que
são difíceis de ver, mas sem dúvida ocorrerá.
Sabemos que, ao sermos confirmados na Igreja, é-nos concedido o dom
do Espírito Santo. Mas, para termos a companhia do Espírito Santo, para que
Ele Se manifeste em nossa vida e nosso serviço, para sermos dignos de contar
com essa companhia, precisamos colocar nossa vida em ordem.
Cultivamos os dons espirituais guardando os mandamentos e procurando
viver uma vida íntegra. Isso exige fé em Jesus Cristo para arrepender-nos e
purificar-nos por meio de Sua Expiação. Portanto, nós, portadores do
sacerdócio, jamais devemos perder a oportunidade oferecida a todos os
membros da Igreja restaurada de, a cada reunião sacramental, fazer a
promessa de “tomar sobre [nós] o nome [do Filho de Deus] e recordá-lo
sempre e guardar os mandamentos que ele [nos] deu, para que [possamos] ter
sempre [conosco] o seu Espírito” (Doutrina e Convênios 20:77).
Assim como precisamos ser limpos dos pecados para ter o Espírito
conosco, precisamos ser suficientemente humildes perante Deus para
reconhecer que necessitamos desse Espírito. Os discípulos do Salvador
ressurreto demonstraram essa humildade, conforme lemos no Livro de
Mórmon.
O Salvador os estava preparando para o ministério deles. Eles se
ajoelharam para orar. Diz a escritura: “E oraram por aquilo que mais
desejavam; e desejavam que o Espírito Santo lhes fosse dado” (3 Néfi 19:9).
Eles foram batizados, assim como vocês. E o registro narra que, em resposta
a sua súplica, eles ficaram cheios do Espírito Santo e fogo.
O Salvador orou em voz alta para agradecer ao Pai por conceder o
Espírito Santo aos que Ele havia escolhido por acreditarem Nele. Então, o
Salvador pediu em oração uma bênção espiritual para aqueles a quem eles
serviam. O Senhor suplicou ao Pai: “Pai, rogo-te que dês o Espírito Santo a
todos os que crerem em suas palavras” (3 Néfi 19:21).
Tal como os humildes servos do Salvador, devemos orar pedindo que o
Espírito Santo Se manifeste a nós, em nosso serviço, e as pessoas a quem
servimos. É essencial que oremos humildemente a nosso Pai Celestial, com
profunda fé em Jesus Cristo, para tornar-nos dignos da companhia do Espírito
Santo.
A humildade e a fé que propiciam os dons espirituais aumentam quando
lemos, estudamos e ponderamos as escrituras. Todos já ouvimos essas coisas.
Mas pode ser que leiamos umas poucas linhas ou páginas das escrituras a
cada dia e esperemos que seja o suficiente.
No entanto, ler, estudar e ponderar não são a mesma coisa. Lemos o que
está escrito, e podem ocorrer-nos ideias. Estudamos e, por vezes,
descobrimos padrões e conexões nas escrituras. Mas, quando ponderamos,
propiciamos a revelação do Espírito. Ponderar, para mim, é a reflexão e a
oração que faço depois de ler e estudar as escrituras atentamente.
Para mim, o Presidente Joseph F. Smith deixou o exemplo de como, ao
ponderar, podemos convidar a luz de Deus. Está na seção 138 de Doutrina e
Convênios. Ele estava lendo e estudando diversas escrituras, tentando
compreender como os efeitos da Expiação do Salvador chegariam aos que
haviam morrido sem ouvir Sua mensagem. Eis o seu relato de como a
revelação lhe veio: “Enquanto refletia sobre essas coisas que estão escritas, os
olhos de meu entendimento foram abertos e o Espírito do Senhor repousou
sobre mim e vi as hostes dos mortos, tanto pequenos como grandes”
(Doutrina e Convênios 138:11).
O arrependimento, a oração e a reflexão a respeito das escrituras são
partes essenciais do processo de qualificar-nos para contar com os dons do
Espírito em nosso serviço no sacerdócio. Nossa capacidade de servir
aumentará ainda mais se agirmos com fé e seguirmos com firmeza em nossos
chamados, com o Espírito Santo para nos ajudar.
O Presidente Monson explicou isso desta forma: “O que significa
magnificar um chamado? Significa encará-lo com o máximo respeito (…),
exercê-lo de modo a cumpri-lo o mais plenamente possível e fazer tudo a
nosso alcance para que o trabalho a ele relacionado seja executado de tal
forma que permita que a natureza divina desse chamado se manifeste aos
olhos dos outros homens. E como alguém pode magnificar seu chamado?
Simplesmente desempenhando as funções a ele pertinentes” (“O Poder do
Sacerdócio”, A Liahona, janeiro de 2000, p. 58).
Vou mencionar dois chamados para servir que todos nós recebemos. Ao
cumpri-los sob a influência do Espírito, vocês e outros sentirão sua
capacidade de servir tornar-se cada vez maior.
O primeiro é o de agir em nome Dele para ensinar e testificar por Ele às
pessoas. O Senhor incluiu os mais jovens e menos experientes portadores do
Sacerdócio Aarônico nesse chamado para servir. Depois de descrever os
deveres dos portadores do Sacerdócio Aarônico, Ele disse:
“Mas nem os mestres nem os diáconos têm autoridade para batizar,
administrar o sacramento ou impor as mãos;
Devem, contudo, admoestar, explicar, exortar e ensinar e convidar todos
a virem a Cristo” (Doutrina e Convênios 20:58–59).
Nesta semana, em algum lugar do mundo, algum diácono receberá de
seu presidente de quórum o encargo de convidar para a reunião um membro
de seu quórum que ele nunca viu. Com seus 13 anos de idade, o presidente
provavelmente não dirá as palavras “admoestar, exortar e ensinar”, mas é isso
que o Senhor espera do diácono enviado a fazer o resgate.
Ao diácono que recebe o chamado de visitar um membro do quórum,
farei três promessas. Primeiro, se você orar pedindo ajuda, o Espírito vai
acalmar seus temores. Segundo, você ficará surpreso ao ver que saberá o que
dizer quando chegar à casa dele e durante sua caminhada com ele de volta à
Igreja. O que você dirá talvez lhe pareça sem sentido. Mas você sentirá que as
palavras lhe foram dadas no momento em que precisava delas. E, terceiro,
você sentirá a aprovação do Senhor, que foi quem o chamou, por meio de seu
presidente, seja qual for o resultado final.
Não posso prometer que terá sucesso, porque toda pessoa é livre para
decidir como responderá ao convite de um servo de Deus. Mas o diácono
com quem você falar em nome do Senhor vai-se lembrar de que você o
visitou. Conheço um menino, hoje adulto, mas ainda afastado da atividade na
Igreja, que recebeu uma visita dessas e, 20 anos depois, falou dela a seu avô.
A visita aparentemente não tivera nenhum efeito, mas ele sabia até o nome do
diácono que o visitou. O avô pediu-me que procurasse o diácono que fora
chamado a convidar, exortar e ensinar seu neto a fim de agradecer-lhe. Foi
apenas um dia na vida de um menino, mas o avô e o Senhor se lembraram das
palavras que o menino foi inspirado a dizer e do nome dele.
Peço a todos, jovens ou idosos, quando forem chamados para falar em
uma reunião em nome do Senhor, ponham de lado os sentimentos de dúvida
ou incapacidade. Não é preciso usar uma linguagem rebuscada nem transmitir
pensamentos profundos. Algumas palavras simples de testemunho são o
bastante. O Espírito lhes dará as palavras que devem dizer e as levará ao
coração das pessoas humildes que procuram a verdade de Deus. Se
continuarmos a empenhar-nos em falar em nome do Senhor, um dia
perceberemos surpresos que admoestamos, exortamos, ensinamos e
convidamos as pessoas a virem a Cristo e que fizemos isso com a ajuda do
Espírito para abençoar vidas e com um poder superior ao nosso
Além do chamado para ensinar, todos seremos enviados pelo Senhor
para socorrer os necessitados. Esse é outro serviço do sacerdócio em que
sentiremos a influência do Espírito aumentar nossa capacidade de servir.
Vocês se sentirão mais capazes de reconhecer o sofrimento e a preocupação
no rosto das pessoas. O nome ou o rosto das pessoas de seu quórum lhes
virão à mente com a impressão de que eles passam necessidades.
Os bispos muitas vezes têm essa impressão no meio da noite e toda vez
que se sentam ao púlpito e olham para os membros de sua ala, pensando nos
que não estão presentes. Isso pode acontecer quando estiverem próximos a
um hospital ou a um asilo de idosos. Mais do que uma vez, ao entrar pela
porta de um hospital, ouvi estas palavras: “Ah, eu sabia que você viria”.
Não precisamos preocupar-nos se saberemos a coisa certa a dizer ou
fazer quando chegarmos ali. O amor de Deus e o Santo Espírito podem bem
ser o suficiente. Quando eu era rapaz, tinha medo de não saber o que fazer ou
dizer para as pessoas que passavam por grandes necessidades.
Certa vez, eu estava no hospital, junto ao leito de meu pai, que parecia
prestes a morrer, quando ouvi uma agitação entre as enfermeiras, no corredor.
De repente, o Presidente Spencer W. Kimball entrou no quarto e sentou-se
em uma cadeira, do outro lado do leito. Pensei comigo: “Agora vou poder
observar e ouvir como um mestre cuida daqueles que estão sofrendo e
aflitos”.
O Presidente Kimball cumprimentou meu pai e perguntou se ele já tinha
recebido uma bênção do sacerdócio. Quando meu pai respondeu que sim, o
profeta acomodou-se melhor na cadeira.
Esperava uma demonstração das técnicas de consolação, das quais eu
achava que tanto necessitava. Após uns cinco minutos, em que os dois
ficaram simplesmente sorrindo em silêncio um para o outro, vi o Presidente
Kimball levantar-se e dizer: “Henry, acho que já vou embora, antes que eu o
deixe cansado”.
Achei que tinha deixado escapar a lição, mas ela veio depois. Em um
momento tranquilo que tive com meu pai, depois que ele se recuperou o
suficiente para voltar para casa, falamos da visita do Presidente Kimball. Meu
pai disse serenamente: “De todas as visitas que recebi, a dele foi a que mais
me elevou o ânimo”.
O Presidente Kimball não disse muitas palavras de consolo, ao menos
que eu pudesse ouvir, mas ele chegou com o Espírito do Senhor como
companheiro para dar consolo. Dou-me conta agora de que ele estava
demonstrando a lição que o Presidente Monson ensinou: “Como alguém
magnifica seu chamado? Simplesmente desempenhando as funções a ele
pertinentes”.
Isso é verdade, quer sejamos chamados a ensinar o evangelho pelo
Espírito ou a ajudar, com a companhia do Espírito Santo, aqueles que têm
joelhos enfraquecidos e mãos que pendem (ver Doutrina e Convênios 81:5).
Nosso serviço no sacerdócio será realizado de forma mais plena, as pessoas
serão abençoadas e a luz do céu estará presente. A luz do céu estará presente
para nós e também para aqueles a quem servimos. Talvez estejamos
cansados. Nossos próprios problemas e os de nossa família podem ser bem
grandes. Mas há uma bênção de incentivo para os que servem sob a
influência do Espírito.
O Presidente George Q. Cannon enfrentou muito sofrimento, muita
oposição e muitas provações em seus anos de serviço no sacerdócio. Também
sentiu a influência da companhia do Espírito Santo em momentos difíceis e
de trabalho árduo. Esta é a garantia que temos quanto ao serviço do
sacerdócio que prestarmos na Igreja e em nossa família. Para mim, esta
promessa se cumpriu quando senti o Espírito ao servir no sacerdócio:
“Sempre que as trevas nos enchem a mente, podemos saber que não temos o
Espírito de Deus conosco. (…) Quando estamos repletos do Espírito de
Deus, sentimo-nos cheios de alegria, paz e felicidade, sejam quais forem as
circunstâncias; porque esse é um espírito de alegria e felicidade. O Senhor
nos concedeu o dom do Espírito Santo. É nosso privilégio ter o poder do
Espírito Santo conosco, de modo que, desde a manhã até a noite, e da noite
até a manhã, tenhamos alegria, luz e a revelação do Espírito Santo” (Brian H.
Stuy, comp., Collected Discourses Delivered by President Wilford Woodruff,
His Two Counselors, the Twelve Apostles, and Others, 5 vols.,1987–1992,
vol. 4, p. 137).
Podemos contar que, quando precisarmos, nos momentos difíceis que
enfrentaremos ao prestar serviço do sacerdócio, receberemos essa bênção de
felicidade e alegria.
Estar à Altura do Chamado
Há pouco tempo, um rapaz que eu não conhecia veio falar comigo em
meio a uma multidão. Ele disse numa voz contida, porém emocionada: “Élder
Eyring, acabei de ser chamado para ser presidente do meu quórum de élderes.
Que conselho o senhor me daria?”
Aquele rapaz não é o único que deseja ajuda. Todas as semanas,
milhares de membros da Igreja em todo o mundo são chamados para servir, e
muitos são recém-conversos. A diversidade de seus chamados é bem grande,
e a diversidade de sua experiência prévia na Igreja é ainda maior. Se você for
um dos que chamam ou treinam essas pessoas ou que simplesmente se
preocupam com elas, como todos nós, há algumas coisas que precisa saber
sobre como ajudá-las a ter sucesso.
A primeira coisa que você provavelmente fará será assegurar-se de que
recebam o manual referente ao cargo ou os registros que elas devem manter.
Pode ser que você até entregue a elas uma lista do horário e local das
reuniões das quais elas devem participar. Talvez você já esteja prestes a
dizer-lhes como seu trabalho será avaliado quando perceberá a preocupação
no olhar delas.
Até o membro mais novo da Igreja sabe que um chamado para servir
deve ser essencialmente algo que fazemos por amor. É dedicando-nos ao
Mestre de todo o coração e guardando Seus mandamentos que O
conhecemos. Com o tempo, pelo poder da Expiação, nosso coração será
transformado e nos tornaremos semelhantes a Ele. Portanto, existe um modo
melhor de ajudar as pessoas que são chamadas do que descrever o que
precisam fazer.
O que elas precisam, mais até do que ser treinadas em seus deveres, é
ver com os olhos espirituais o que significa ser chamado para servir na Igreja
restaurada de Jesus Cristo. A Igreja é o reino de Deus na Terra. Por esse
motivo, ela tem um poder que está além de qualquer outro empreendimento
do qual os seres humanos possam participar. Esse poder depende da fé
daqueles que são chamados para servir nela.
Assim sendo, meu conselho se dirige a todo homem, mulher, rapaz ou
moça que foi ou venha a ser chamado. Há umas poucas coisas que vocês
precisam saber que são verdadeiras. Tentarei traduzi-las em palavras.
Somente o Senhor, por meio do Espírito Santo, pode colocá-las no fundo de
seu coração. São as seguintes:
Em primeiro lugar, você foi chamado por Deus. O Senhor o conhece.
Ele sabe quem Ele deseja que sirva em cada cargo de Sua Igreja. Ele escolheu
você. Ele preparou o caminho para que você pudesse fazer o seu chamado.
Ele restaurou as chaves do sacerdócio e concedeu-as a Joseph Smith. Essas
chaves foram passadas adiante numa sucessão ininterrupta até o atual profeta.
Por meio dessas chaves, outros servos do sacerdócio receberam chaves para
presidir nas estacas e alas, nos distritos e ramos. Foi por meio dessas chaves
que o Senhor o chamou. Essas chaves trazem consigo o direito à revelação. E
a revelação vem em resposta à oração. A pessoa que foi inspirada a
recomendá-lo para esse chamado não o fez porque gostava de você ou porque
precisava de alguém para realizar determinada tarefa. Ela orou e sentiu, como
resposta, que você era a pessoa a ser chamada.
A pessoa que chamou você não fez o chamado simplesmente porque, ao
entrevistá-lo, ficou sabendo que você era digno e estava disposto. Essa pessoa
orou para saber a vontade do Senhor quanto a você. Foram a oração e a
revelação concedidas a pessoas autorizadas pelo Senhor que o conduziram a
seu chamado. Seu chamado é um exemplo de uma fonte de poder exclusiva
da Igreja do Senhor. Homens e mulheres são chamados por Deus por profecia
e pela imposição de mãos por pessoas autorizadas por Deus.
Você foi chamado para representar o Salvador. Quando você testifica é
como se Ele estivesse testificando, quando suas mãos ajudam é como se Ele
estivesse ajudando. O trabalho Dele é abençoar os filhos espirituais do Pai
com a oportunidade de escolher a vida eterna. Portanto, você foi chamado
para abençoar vidas. Isso se aplica até às tarefas mais comuns das quais você
for encarregado, aplica-se até aos momentos em que estiver fazendo algo
aparentemente sem relação alguma com o seu chamado. O simples modo de
você sorrir e a maneira com que oferece ajuda às pessoas pode edificar-lhes a
fé. Mas não se esqueça de quem você é, pois até seu modo de falar e sua
maneira de agir podem destruir a fé.
Seu chamado tem consequências eternas para outras pessoas e para
você. No mundo vindouro, milhares poderão louvar seu nome, até mais
pessoas do que você serviu aqui. Serão os antepassados e os descendentes
daqueles que escolheram a vida eterna graças a algo que você disse, fez ou
graças simplesmente a seu modo de ser. Se alguém rejeitar o convite do
Salvador porque você não fez tudo o que poderia ter feito, o sofrimento dessa
pessoa será seu também. Não existem chamados pequenos quando
representamos o Senhor. Seu chamado envolve sérias responsabilidades.
Entretanto, não é preciso temer, porque seu chamado é acompanhado de
grandes promessas.
Uma dessas promessas é a segunda coisa que você precisa saber. Assim
como o Senhor chamou-o por revelação, Ele o guiará por revelação. É preciso
pedir com fé que lhe seja revelado o que fazer. Todo chamado é
acompanhado da promessa de que as respostas virão. A orientação virá
somente quando o Senhor tiver certeza de que você obedecerá. Para conhecer
Sua vontade, você precisa estar comprometido com ela. As palavras “Seja
feita a Tua vontade”, escritas no coração, abrem as portas da revelação.
A resposta vem pelo Santo Espírito. Você precisará dessa orientação
com frequência. Para ter o Espírito Santo como seu companheiro, você
precisa ser digno por ter sido purificado pela Expiação de Jesus Cristo.
Portanto, sua obediência aos mandamentos, sua disposição e suas perguntas
determinarão com que clareza o Mestre poderá guiá-lo, respondendo suas
orações.
Muitas vezes, você receberá as respostas por meio do estudo das
escrituras. As escrituras contêm a história daquilo que o Senhor fez em Seu
ministério mortal e as orientações que deu a Seus servos. Nelas há doutrinas
que se aplicam a todas as épocas e a todas as situações. Caso pondere as
escrituras, você será levado a fazer as perguntas certas em oração. E tão certo
como os céus se abriram para Joseph Smith, depois que ele ponderou as
escrituras com fé, Deus responderá suas orações e o guiará pela mão.
Há uma terceira coisa que você precisa saber: Assim como Deus o
chamou e vai guiá-lo, Ele também vai magnificá-lo. Você vai precisar disso.
Seu chamado sem dúvida suscitará oposição. Você está a serviço do Mestre.
Você é representante Dele. Vidas eternas dependem de você. Ele enfrentou
oposição e disse que isso aconteceria também com aqueles a quem chamasse.
As forças reunidas contra você tentarão não apenas frustrar seu trabalho, mas
também derrubá-lo. O Apóstolo Paulo descreveu isso da seguinte maneira:
“Porque não temos que lutar contra a carne e o sangue, mas, sim, contra os
principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século”
(Efésios 6:12).
Haverá ocasiões em que você se sentirá assoberbado. Uma das maneiras
pelas quais você será atacado será pelo sentimento de que não está à altura de
seu chamado. É verdade, você não tem condições de atender a um chamado
para representar o Salvador apenas com sua própria capacidade. No entanto,
você tem acesso a bem mais do que suas habilidades naturais e não realizará
seu trabalho sozinho.
O Senhor vai magnificar o que você disser e fizer aos olhos das pessoas
a quem você serve. Ele enviará o Espírito Santo para manifestar a elas que o
que você disse é verdade. O que você disser e fizer levará esperança e
orientará as pessoas muito além do que a sua capacidade natural e seu próprio
entendimento lhe permitiriam fazer. Esse milagre é uma característica da
Igreja do Senhor em todas as dispensações e é uma parte tão intrínseca ao seu
chamado que você pode começar a não lhe dar o devido valor.
No dia de sua desobrigação, você aprenderá uma grande lição. No dia
em que fui desobrigado do cargo de bispo, um dos membros da ala foi até
minha casa e disse: “Sei que você já não é meu bispo, mas será que podemos
conversar mais uma vez? Você sempre me disse aquilo que eu precisava
ouvir e me deu excelentes conselhos. O novo bispo não me conhece tão bem
quanto você. Será que podemos conversar só mais uma vez?”
Com relutância, concordei. O membro sentou-se à minha frente. Aquela
parecia ser uma situação idêntica às centenas de vezes que eu tinha
entrevistado os membros da ala como juiz em Israel. Começamos a
conversar. Chegou o momento em que seria necessário aconselhá-lo. Esperei
que as ideias, as palavras e os sentimentos fluíssem a minha mente, como
sempre havia acontecido.
Nada aconteceu. Em meu coração e minha mente, havia apenas silêncio.
Depois de alguns momentos, eu disse: “Sinto muito. Agradeço sua bondade e
sua confiança, mas infelizmente não posso ajudá-lo”.
Quando você for desobrigado do seu chamado, aprenderá o que aprendi
naquele momento. Deus magnifica aqueles a quem chama, mesmo que seu
trabalho pareça pequeno ou insignificante. Você terá o dom de ver seu
trabalho ser magnificado. Agradeça enquanto ele for seu. Você vai apreciá-lo
mais do que pode imaginar quando ele se for.
O Senhor não Se limitará a magnificar os efeitos de seu trabalho. Ele
próprio trabalhará a seu lado. O que Ele disse a quatro missionários,
chamados pelo Profeta Joseph Smith para realizar uma tarefa difícil, dá
coragem a todos os que Ele chama em Seu reino: “E eu mesmo irei com eles
e estarei em seu meio; e eu sou seu advogado junto ao Pai e nada prevalecerá
contra eles” (Doutrina e Convênios 32:3).
O Salvador é um ser ressurreto e glorificado, de modo que não pode
estar fisicamente com cada um de Seus servos a todo o momento. Entretanto,
Ele está perfeitamente ciente de cada um deles e da situação em que se
encontram e é capaz de intervir com Seu poder. É por isso que Ele pode
prometer: “E quem vos receber, lá estarei também, pois irei adiante de vós.
Estarei a vossa direita e a vossa esquerda e meu Espírito estará em vosso
coração e meus anjos ao vosso redor para vos suster” (Doutrina e Convênios
84:88).
Existe ainda outra forma pela qual o Senhor vai magnificá-lo em seu
chamado para o serviço Dele. Você sentirá às vezes, talvez muitas vezes, que
é incapaz de fazer tudo o que acha que precisa fazer. O pesado fardo de suas
responsabilidades parecerá grande demais. Você se preocupará por não poder
passar mais tempo com sua família. Você se perguntará como encontrar o
tempo e a energia necessários para cuidar de suas responsabilidades além da
família e do chamado. Pode ser que se sinta desanimado ou até culpado
depois de ter feito tudo a seu alcance para cumprir todas as suas obrigações.
Tive dias e noites assim. Deixe-me contar o que aprendi.
É o seguinte: Se eu pensar apenas em meu próprio desempenho, minha
tristeza aumenta. Mas quando me lembro de que o Senhor prometeu que Seu
poder estaria comigo, começo a procurar evidências de Sua mão na vida das
pessoas a quem devo servir. Peço em oração que me seja dado ver com os
olhos espirituais os efeitos de Seu poder.
Então, invariavelmente começo a lembrar-me do rosto das pessoas.
Lembro-me do brilho nos olhos de meu filho cujo coração foi acalmado, das
lágrimas de felicidade no rosto de uma menina sentada na última fileira de
uma classe da Escola Dominical que eu ensinava ou de um problema que foi
solucionado antes mesmo de eu ter tempo para resolvê-lo. Sei então que fiz o
suficiente para que a promessa feita por Joseph Smith fosse cumprida
novamente: “Façamos alegremente todas as coisas que estiverem a nosso
alcance; e depois aguardemos, com extrema segurança, para ver a salvação de
Deus e a revelação de seu braço” (Doutrina e Convênios 123:17).
Você pode ter a mais completa certeza de que sua capacidade será
muitas vezes multiplicada pelo Senhor. Tudo que Ele pede de você é que dê o
melhor de si, de todo o coração. Trabalhe com alegria e ore sempre com fé. O
Pai e Seu Amado Filho enviarão o Espírito Santo para ser seu companheiro
para guiá-lo. Seu trabalho surtirá um efeito redobrado na vida das pessoas a
quem você serve. E quando olhar para trás e se lembrar dos momentos de
serviço e sacrifício que hoje parecem difíceis, o sacrifício terá se
transformado uma bênção, e você saberá que viu o braço de Deus elevar
aqueles a quem você servia para Ele e elevar você.
Agir com Toda a Diligência
O Presidente Brigham Young fez uma grande promessa aos portadores
do sacerdócio que forem diligentes ao longo de toda a vida: “Um homem
portador do sacerdócio, que se mantém fiel a seu chamado, que se deleita
continuamente em fazer as coisas requeridas pelo Senhor e que durante toda
sua vida desempenha fielmente seus deveres, assegurará para si não apenas o
privilégio de receber, mas também de saber como receber as coisas de Deus,
para que possa sempre conhecer a mente de Deus” (ver Ensinamentos dos
Presidentes da Igreja: Brigham Young, 1997, p. 128).
Há poucas semanas, vi um novo diácono começar a trilhar esse caminho
de diligência. O pai dele mostrou-me um diagrama feito pelo filho. Esse
diagrama mostrava todos os bancos da capela, continha um número para cada
diácono encarregado de distribuir o sacramento e mostrava o trajeto que cada
um deveria seguir pela capela para servir o sacramento aos membros. O pai e
eu sorrimos ao pensar que aquele menino havia feito, sem que ninguém lhe
pedisse, um plano para garantir seu sucesso no serviço que devia prestar
como portador do sacerdócio.
Reconheci em sua diligência o padrão delineado no novo livreto Dever
para com Deus. Trata-se de descobrir o que o Senhor espera de você, fazer
um plano para realizar isso, colocar esse plano em prática com diligência e,
depois, contar a outros como essa experiência mudou sua vida e abençoou
outras pessoas.
Aquele diácono fez aquele desenho para garantir que conseguiria
cumprir a tarefa da qual o Senhor o encarregara. No início de seu serviço no
sacerdócio, o Senhor o ensinou a deleitar-se continuamente “em fazer as
coisas requeridas pelo Senhor” (Ensinamentos: Brigham Young, p. 128).
Tive também uma experiência tocante ao ver um homem que já chegava
ao fim de seus dias de serviço no sacerdócio nesta vida. Ele foi bispo duas
vezes. A primeira vez que ele foi chamado para ser bispo foi quando ele era
jovem, vários anos antes de eu conhecê-lo. Agora, estava idoso e havia sido
desobrigado pela segunda vez do cargo de bispo. Suas limitações físicas
crescentes tornavam qualquer serviço no sacerdócio muito difícil,
mas ele tinha um plano para agir com diligência. Todos os domingos em
que conseguia ir à Igreja, sentava-se no banco próximo à porta, por onde a
maioria das pessoas entrava para a reunião sacramental. Chegava bem cedo
para garantir que o lugar estaria vago. Toda pessoa que chegava via em seu
olhar o mesmo amor e o mesmo espírito acolhedor que em outros tempos,
quando se sentava ao púlpito como bispo, transpareciam em seu semblante.
Sua influência nos animava e inspirava porque tínhamos ideia do preço que
ele pagava para servir. Sua tarefa como bispo estava encerrada, mas seu
serviço no sacerdócio ainda não.
Vocês já viram exemplos comparáveis de grandes servos do sacerdócio.
O exemplo começa quando eles aprendem a serviço de quem estão e o
motivo por que servem. A partir do momento em que isso penetra seu
coração, tudo muda.
Aos rapazes do Sacerdócio Aarônico, eu digo: vocês se tornarão mais
diligentes à medida que sentirem a magnitude da confiança que Deus
depositou em vocês. Há uma mensagem da Primeira Presidência para vocês
no livreto Dever para com Deus: “O Pai Celestial deposita grande confiança
em você e tem uma importante missão para você cumprir. Ele o ajudará
quando buscá-Lo em oração, ouvir a orientação do Espírito, obedecer aos
mandamentos e cumprir os convênios que fez” (Cumprir Meu Dever para
com Deus: Para Portadores do Sacerdócio Aarônico, livreto, 2010, p. 5).
João Batista voltou à Terra para restaurar o sacerdócio que vocês,
rapazes, possuem. Ele tinha as chaves do Sacerdócio Aarônico. Foi João
quem Jesus procurou para ser batizado. João sabia quem o havia chamado.
Ele disse ao Senhor: “Eu careço de ser batizado por ti” (Mateus 3:14).
João sabia que o sacerdócio de Aarão possuía “as chaves do ministério
de anjos e do evangelho do arrependimento e do batismo por imersão para
remissão de pecados” quando o Senhor o enviou para ordenar Joseph Smith e
Oliver Cowdery, em 15 de maio de 1829 (ver Doutrina e Convênios 13:1).
Ele sabia quem o havia chamado e para que glorioso propósito havia sido
enviado.
O sacerdócio do qual são portadores permite-lhes oferecer o sacramento
da Ceia do Senhor aos membros de Sua Igreja hoje em dia. Esse é o mesmo
privilégio que o Salvador concedeu aos Doze Apóstolos em Seu ministério
mortal. Ele fez isso de novo quando chamou 12 discípulos para liderar Sua
Igreja após Sua Ressurreição.
O próprio Senhor, conforme descrito no Livro de Mórmon, providenciou
os emblemas de Seu infinito sacrifício e os administrou ao povo. Pensem
Nele e no quanto Ele os honra quando vocês desempenham o serviço que lhes
cabe no sacerdócio. Se vocês se lembrarem Dele, terão determinação de fazer
tudo o que puderem para seguirem o mais de perto possível o exemplo que
Ele deu e, dentro de suas possibilidades, servirem tão bem e tão fielmente
quanto Ele serviu (ver 3 Néfi 20:3–9).
Isso pode tornar-se um padrão em sua vida, e esse padrão aumentará sua
capacidade de ser diligente em todo serviço do sacerdócio que vierem a
prestar — e o Senhor já está preparando vocês para isso e vai chamá-los a
prestar esses serviços. Essa determinação vai ajudá-los a prepararem-se para
receber o Sacerdócio de Melquisedeque que, no passado, era chamado de
“Santo Sacerdócio segundo a Ordem do Filho de Deus” (Doutrina e
Convênios 107:3; ver também Alma 13:1–9).
Tal como o Sacerdócio Aarônico, o Sacerdócio de Melquisedeque é
mais do que a responsabilidade de fazer o que o Senhor faria: é um convite a
tornarmo-nos como Ele é. Ele promete:
“Pois aqueles que forem fiéis de modo a obter estes dois sacerdócios de
que falei e a magnificar seu chamado serão santificados pelo Espírito para a
renovação do corpo.
Tornam-se os filhos de Moisés e de Aarão e a semente de Abraão; e a
igreja e reino e os eleitos de Deus.
E também todos os que recebem este sacerdócio a mim me recebem, diz
o Senhor;
Pois aquele que recebe os meus servos, a mim me recebe;
E aquele que me recebe a mim, recebe a meu Pai;
E aquele que recebe a meu Pai, recebe o reino de meu Pai; portanto tudo
o que meu Pai possui ser-lhe-á dado” (Doutrina e Convênios 84:33–38).
Há um padrão pelo qual todos os portadores do sacerdócio são elevados
de modo a receber essa gloriosa bênção. Uma passagem das escrituras em
que o Senhor nos ensina esse padrão é a seção 107 de Doutrina e Convênios:
“Portanto agora todo homem aprenda seu dever e a agir no ofício para o
qual for designado com toda diligência.
Aquele que for preguiçoso não será considerado digno de permanecer; e
o que não aprender seu dever e não mostrar ter sido aprovado não será
considerado digno de permanecer. Assim seja. Amém” (Doutrina e
Convênios 107:99–100).
O Senhor nos ensina nosso dever, nós precisamos aprendê-lo e, então,
agir com toda a diligência, sem nunca ser preguiçosos nem indolentes. O
padrão é simples, mas não é fácil de seguir. Distraímo-nos facilmente. As
notícias diárias podem parecer mais interessantes do que o estudo do manual
de lições do sacerdócio. Sentar-se para descansar pode parecer mais
agradável do que marcar visitas para os que precisam de nosso serviço no
sacerdócio.
Quando me sinto pouco motivado a cumprir meus deveres do sacerdócio
por causa de outros interesses e quando meu corpo suplica por um descanso,
estas palavras me dão ânimo: “Lembre-se Dele”. O Senhor é nosso exemplo
perfeito de diligência no serviço no sacerdócio. Ele é nosso capitão. Ele nos
chamou e Ele segue adiante de nós. Ele nos escolheu para segui-Lo e para
levar outros conosco. Lembro-me do exemplo que Ele nos deu nos dias que
antecederam Sua Ressurreição.
Devido ao amor que sentia pelo Pai e por nós, Ele aceitou sofrer além da
capacidade humana. Ele falou-nos de parte do que esse sacrifício infinito
exigiu Dele. Sei que se lembram destas palavras:
“Pois eis que eu, Deus, sofri essas coisas por todos, para que não
precisem sofrer caso se arrependam;
Mas se não se arrependerem, terão que sofrer assim como eu sofri;
Sofrimento que fez com que eu, Deus, o mais grandioso de todos,
tremesse de dor e sangrasse por todos os poros; e sofresse, tanto no corpo
como no espírito—e desejasse não ter de beber a amarga taça e recuar—
Todavia, glória seja para o Pai; eu bebi e terminei meus preparativos
para os filhos dos homens” (Doutrina e Convênios 19:16–19).
Da cruz do Calvário, o Salvador anunciou: “Está consumado” (João
19:30). Então Seu espírito deixou Seu corpo e Seus restos mortais foram
carinhosamente colocados em um sepulcro. Ele nos deu uma lição, por meio
do que fez durante os três dias que passou no mundo espiritual, antes da
Ressurreição; lição essa da qual me lembro sempre que me sinto tentado a
achar que terminei uma tarefa árdua a serviço Dele e que mereço um
descanso.
O exemplo do Salvador me dá coragem para prosseguir com firmeza.
Seus labores na mortalidade haviam terminado, mas Ele foi para o mundo
espiritual decidido a dar continuidade a Sua gloriosa obra de salvar almas.
Organizou o trabalho dos espíritos fiéis para resgatar aqueles que ainda
poderiam vir a partilhar da misericórdia que se tornou possível graças a Seu
Sacrifício Expiatório. Relembremos as palavras registradas na seção 138 de
Doutrina e Convênios:
“Mas eis que, dentre os justos, organizou suas forças e designou
mensageiros, revestidos de poder e autoridade, e comissionou-os para levar a
luz do evangelho aos que estavam nas trevas, sim, a todos os espíritos dos
homens; e assim foi o evangelho pregado aos mortos.
E os mensageiros escolhidos foram anunciar o dia aceitável do Senhor e
proclamar liberdade aos cativos que estavam presos, sim, a todos os que se
arrependessem de seus pecados e recebessem o evangelho” (Doutrina e
Convênios 138:30–31).
Sempre que nos lembramos Dele, torna-se mais fácil resistir à tentação
de querer descansar de nossos labores no sacerdócio. E graças a Seu
exemplo, vamos perseverar até o fim nas tarefas que Ele nos der nesta vida e
nos comprometer a fazer a vontade do Pai para sempre, como Ele fez e faz.
Esta é a Igreja do Senhor. Ele nos chamou e confiou em nós, a despeito
das fraquezas que Ele sabia que tínhamos. Ele sabia das provações que
iríamos enfrentar. Por meio de serviço fiel e por meio de Sua Expiação,
podemos aprender a querer o que Ele quer e a ser o que precisamos ser para
abençoar as pessoas a quem servimos em nome Dele. Se servirmos a Ele por
tempo suficiente e com diligência, seremos transformados. Podemos passar a
ser cada vez mais semelhantes a Ele.
Vejo a prova desse milagre na vida de Seus servos. Vi isso há poucas
semanas, na sala de estar de um fiel portador do sacerdócio. Eu o conheci
quando ele ainda era diácono, vi-o tornar-se pai, bispo e membro da
presidência de uma estaca. Observei por décadas sua diligência em servir aos
filhos de Deus com seu sacerdócio.
A família estava reunida ao seu redor na sala de estar. Ele sorria e
trajava camisa branca, terno e gravata. Fiquei surpreso porque tinha ido
visitá-lo por terem-me informado que ele passava por um doloroso
tratamento médico que ainda não o havia curado.
No entanto, ele me cumprimentou como deve ter feito com centenas de
outros que o visitaram ao longo de toda uma vida de serviço no sacerdócio:
sorrindo. Eu tinha ido ajudá-lo nas provações que enfrentava, mas, como
muitas vezes acontece no serviço do sacerdócio, fui eu que recebi ajuda e
aprendi.
Sentados ali, tivemos uma conversa agradável. Ele me contou que seu
pai havia cuidado de minha mãe quando ela estava prestes a morrer. Eu não
sabia disso. Dei-me conta, então, de que ele aprendera desde menino, com o
pai, que era um diligente portador do sacerdócio, a prestar socorro ao
próximo. Esse pensamento me fez sentir gratidão pelas vezes em que eu
levara meus filhos pequenos comigo ao fazer visitas do sacerdócio para
consolar e abençoar outras pessoas.
Após alguns minutos, ele perguntou serenamente: “Será que posso lhe
pedir uma bênção?” Seu antigo presidente de estaca, com quem ele havia
servido por anos, ungiu-lhe a cabeça com óleo consagrado pelo poder do
Sacerdócio de Melquisedeque.
Quando selei a bênção, o Espírito Santo mostrou-me pelo menos parte
do que o Senhor já havia feito por aquele fiel portador do sacerdócio. Ele
estava limpo: seus pecados tinham sido lavados. Sua natureza tinha sido
transformada e ele passara a querer aquilo que o Salvador queria. Não temia a
morte. O desejo de seu coração era viver para prestar serviço a sua família e a
outros filhos do Pai Celestial que precisavam dele.
Saí da casa dele, à noite, sentindo-me grato por haver testemunhado a
bondade do Senhor para com Seus servos do sacerdócio que são
infalivelmente diligentes. Ele transforma o coração desses servos para que
queiram o que Ele quer e ajam como Ele agiria.
Convido-os a ponderar profunda e diligentemente as escrituras e as
palavras dos profetas vivos. Perseverem em oração para que o Espírito Santo
lhes revele a natureza de Deus, o Pai, e de Seu Filho Amado. Supliquem que
o Espírito lhes mostre o que o Senhor deseja que façam. Prometam-Lhe que
obedecerão. Ajam com determinação até terem feito o que Ele pediu. E
depois, orem para agradecer pela oportunidade de servir e para saber o que
fazer em seguida.
Um Filho e Um Discípulo
Todos nós que estamos sob o convênio batismal prometemos levar o
evangelho a outras pessoas (ver Doutrina e Convênios 88:81; Mosias 18:9).
Muitas vezes, o medo de sermos rejeitados ou de ofendermos coloca-se à
nossa frente como um obstáculo intransponível. Mas alguns membros
conseguem transpor essa barreira com facilidade. Observei-os
cuidadosamente em minhas viagens. Gostaria de descrever alguns deles.
O sábado é um dia de mercado no mundo inteiro. No interior de Gana,
no Equador e nas ilhas Filipinas, um número incontável de pessoas leva os
produtos da roça e suas obras de artesanato para vender na cidade.
Conversam com as pessoas que encontram no caminho. E também com as
pessoas que estão a seu redor enquanto esperam que alguém compre suas
mercadorias. Grande parte da conversa gira em torno da luta pela
sobrevivência, do esforço para livrar-se da pobreza e às vezes sobre perigos.
Entre essas pessoas que estão nas estradas e nos mercados, há santos dos
últimos dias. Grande parte dos assuntos de sua conversa com as pessoas que
encontram pelo caminho são os mesmos que ouviríamos em qualquer lugar
do mundo. “De onde você é?” “Esse que está com você é seu filho?”
“Quantos filhos você tem?” No entanto, há uma diferença em relação aos
santos dos últimos dias. Isso pode ser percebido tanto em seu olhar quanto
em suas palavras. Eles ouvem atentamente com uma expressão que mostra
que se importam com as respostas e que se importam com a outra pessoa.
Se a conversa durar mais de alguns minutos, passará a abordar assuntos
de profunda importância para as duas pessoas. Conversarão sobre o que
acreditam que proporciona felicidade e o que traz tristezas. E o assunto
passará para a esperanças quanto a esta vida e a vida futura. Os santos dos
últimos dias expressarão então a sua serena certeza. Nem sempre, mas muitas
vezes, as pessoas perguntam aos santos dos últimos dias: “Por que você
parece ter tanta paz na vida?” “Como você sabe essas coisas que diz saber?”
Virá então uma resposta serena. Talvez eles falem sobre o Pai Celestial e
Seu Filho Jesus Cristo e como Eles apareceram a um rapazinho chamado
Joseph Smith. Pode ser que falem do carinho com o qual, após a
Ressurreição, o Salvador ministrou, conforme descrito no Livro de Mórmon,
a pessoas comuns que tinham fé Nele e que O amavam como nós O amamos.
Se ouvissem uma conversa assim a respeito de coisas espirituais, num
mercado ou na rua, pode ser que vocês se perguntassem: “Como posso fazer
isso? Como posso ser melhor em falar de minha fé àqueles que ainda não
sentem o que eu sinto?” Essa é uma pergunta que todos nós, que somos
membros, devemos fazer. Essa mesma pergunta está na mente de todo bispo
ou presidente de ramo da Igreja que agora tem a responsabilidade de liderar o
trabalho missionário entre seu povo. A resposta a essa pergunta é o principal
motivo pelo qual muitas pessoas ainda se interessarão pela Igreja.
Estudei atentamente, em espírito de oração, o exemplo de algumas
pessoas que são testemunhas admiravelmente fiéis e eficazes do Salvador e
de Sua Igreja. Suas histórias são inspiradoras. Um homem humilde foi
chamado para presidir um pequeno ramo. Havia tão poucos membros que ele
não sabia como fazer o ramo funcionar. Foi até um bosque para orar.
Perguntou a Deus o que deveria fazer e recebeu uma resposta. Ele e alguns
membros começaram a convidar amigos para participar das reuniões. Em um
ano, centenas entraram nas águas do batismo e tornaram-se concidadãos na
Igreja do Senhor.
Conheço um homem que viaja quase todas as semanas a trabalho. Todos
os dias, há missionários em algum lugar do mundo ensinando alguém que ele
conheceu. Há outro homem que parece não se deixar abater pelo número de
pessoas com quem tem de falar para conseguir encontrar uma que deseje ser
ensinada pelos missionários. Ele não mede esforços, pensando apenas na
felicidade das pessoas que mudam de vida graças ao evangelho.
Não há um padrão único no modo como essas pessoas agem. Não há
uma técnica comum. Algumas levam sempre consigo um Livro de Mórmon
para oferecer. Outras marcam uma data limite para encontrar alguém para ser
ensinado pelos missionários. Outras pessoas descobrem perguntas que
evocam sentimentos quanto às coisas que mais importam na vida das pessoas.
Cada um desses membros da Igreja orou para saber o que fazer. Cada um
deles parece ter recebido uma resposta diferente e específica para sua vida e
para as pessoas que encontra.
No entanto, em um aspecto são todos iguais. É o seguinte: Eles têm um
modo comum de ver quem são. Conseguem fazer o que foram inspirados a
fazer porque são quem são. Para fazer o que temos de fazer, precisamos
tornar-nos semelhantes a eles em pelo menos dois aspectos. Primeiro, esses
membros sentem que são filhos amados de um Pai Celestial amoroso. Por
causa disso, oram a Ele com muita frequência e com facilidade. Têm certeza
que receberão Sua orientação pessoal. Obedecem com mansidão e humildade,
como filhos de um pai perfeito. Ele está próximo deles.
Segundo, são gratos seguidores de Jesus Cristo ressurreto. Sabem por si
mesmos que a Expiação é real e necessária para todos. Sentiram-se
purificados ao serem batizados por alguém que tinha autoridade e por terem
recebido o Espírito Santo. E por causa da paz que sentiram, são como os
filhos de Mosias, que “desejavam que a salvação fosse declarada a toda
criatura, porque não podiam suportar que qualquer alma humana se perdesse;
e até mesmo a ideia de que alguma alma tivesse de sofrer o tormento eterno
fazia-os tremer e estremecer” (Mosias 28:3).
As pessoas que falam com facilidade e com frequência a respeito do
evangelho restaurado dão grande valor ao que ele significa para elas. Pensam
frequentemente nessa grande bênção. É a lembrança da dádiva que receberam
que faz com que anseiem que outras pessoas o recebam. Sentiram o amor do
Salvador. Para elas, estas palavras são uma realidade diária:
“No amor não há temor, antes o perfeito amor lança fora o temor;
porque o temor tem consigo a pena, e o que teme não é perfeito em amor.
Nós o amamos porque ele nos amou primeiro” (l João 4:18–19).
Mesmo tendo sentido esse amor, o verdadeiro discípulo pode às vezes
sentir ansiedade. O Apóstolo João foi bem claro: O temor desaparecerá
quando nos tornarmos perfeitos em amor. Podemos orar por esse dom de
perfeito amor. Podemos orar com a confiança de que sentiremos o amor que
o Salvador tem por nós e por todas as pessoas que conhecermos. Ele nos
amou e também amou essas pessoas a ponto de pagar o preço de todos os
nossos pecados. Uma coisa é acreditar nisso. Outra bem diferente é ter nosso
coração transformado de tal forma que sintamos isso o tempo todo. O
mandamento de orar para sentir o amor do Salvador traz também consigo
uma promessa:
“De modo que, meus amados irmãos, se não tendes caridade, nada sois,
porque a caridade nunca falha. Portanto, apegai-vos à caridade, que é, de
todas, a maior, porque todas as coisas hão de falhar—
Mas a caridade é o puro amor de Cristo e permanece para sempre; e para
todos os que a possuírem, no último dia tudo estará bem.
Portanto, meus amados irmãos, rogai ao Pai, com toda a energia de
vosso coração, que sejais cheios desse amor que ele concedeu a todos os que
são verdadeiros seguidores de seu Filho, Jesus Cristo; que vos torneis os
filhos de Deus; que quando ele aparecer, sejamos como ele, porque o
veremos como ele é; que tenhamos esta esperança; que sejamos purificados,
como ele é puro” (Morôni 7:46–48).
O Senhor confia em Seus discípulos fiéis. Ele envia pessoas preparadas
a Seus servos preparados. Vocês já tiveram a experiência, como eu tive, de
conhecer pessoas que, sem dúvida alguma, não cruzaram seu caminho por
acaso.
Tenho um amigo que todos os dias ora e pede para encontrar alguém que
esteja preparado para receber o evangelho. Ele sempre leva consigo um
exemplar do Livro de Mórmon. Na véspera de uma viagem curta, ele decidiu
não levar um livro com ele, mas um cartão com informações sobre a Igreja,
um “cartão da amizade”. Mas, na manhã da viagem, teve a inspiração: “Leve
um Livro de Mórmon com você”. Ele colocou um livro na mala.
Uma mulher sentou-se a seu lado no avião, e ele se perguntou: “Será ela
a pessoa?” Ela viajou novamente a seu lado na viagem de volta. Ele pensou:
“Como devo fazer para introduzir o evangelho na conversa?”
Em vez disso, ela perguntou a ele: “Você paga o dízimo na sua Igreja,
não é?” Ele disse que sim. Ela disse que devia pagar o dízimo para sua igreja,
mas não o fazia. Aí ela perguntou: “O que é o Livro de Mórmon?” Ele
explicou que era um livro de escrituras, um outro testamento de Jesus Cristo,
traduzido pelo Profeta Joseph Smith. Ela pareceu interessada. Então, ele
apanhou o livro na mala e disse: “Senti que devia trazer este livro comigo.
Acho que é para você”.
Ela começou a lê-lo. Quando se despediram, ela disse: “Nós dois vamos
conversar de novo sobre isso”. O que meu amigo não poderia saber, mas que
Deus sabia, era que ela estava procurando uma igreja. Deus sabia que ela
tinha observado meu amigo e se perguntado por que sua Igreja o fazia tão
feliz. Deus sabia que ela perguntaria sobre o Livro de Mórmon e sabia que
ela estaria disposta a ser ensinada pelos missionários. Ela estava preparada, e
meu amigo também. E também podemos estar.
Sua dignidade e seu desejo de servir brilharão em seu semblante e em
seu olhar. Vocês ficarão entusiasmados com a Igreja do Senhor e Sua obra, e
isso transparecerá. Vocês serão Seus discípulos 24 horas por dia, em todas as
situações. Não será preciso juntar coragem para um grande momento em que
vão falar com alguém e depois retrair-se. O fato de a maioria das pessoas não
estar interessada no evangelho restaurado terá pouca influência no que vão
fazer e dizer. Falar daquilo em que acreditam será algo natural para vocês.
Meu pai era assim. Ele era cientista. Dava palestras a grandes audiências
em diversos países do mundo. Certo dia, li um discurso que ele fez numa
grande convenção científica. Nesse discurso, ele mencionou a criação e o
Criador ao falar de ciência. Eu sabia que poucos, ou mesmo nenhum,
daqueles que o ouviam compartilhavam sua fé. Por isso, disse-lhe com
assombro e admiração: “Pai, o senhor prestou seu testemunho”. Ele olhou
para mim, surpreso, e disse: “Foi mesmo?”
Ele nem sequer tinha notado que fora corajoso. Simplesmente disse o
que sabia ser verdade. Quando ele prestava testemunho, até os que rejeitavam
o que ele dizia sabiam que isso não era algo planejado, mas, sim, algo que
fazia parte da natureza dele. Ele era o que era, onde quer que estivesse.
Essa é a característica de toda pessoa corajosa e eficaz em levar o
evangelho ao próximo. Essas pessoas se veem como filhas de um Pai
Celestial amoroso e vivo. Elas se veem como discípulas de Jesus Cristo. Não
precisam exercer grande autodisciplina para orar. Elas o fazem naturalmente.
Não precisam fazer um esforço especial para lembrarem-se do Salvador. O
amor que Ele tem a elas e o amor que elas sentem por Ele estão sempre com
elas. É assim que elas são e é assim que veem a si mesmas e as pessoas a seu
redor.
Talvez pareça que isso exigiria uma grande transformação, mas
podemos ter certeza de que essa transformação acontecerá. Ela já está
acontecendo individualmente nos membros em toda a Igreja, em todos os
países. Esta é a época grandiosa que foi prevista pelos profetas desde a
Criação. O evangelho restaurado entrará em todas as nações. O Salvador
revelou estas palavras ao Profeta Joseph Smith:
“Enviei meu anjo voando pelo meio do céu, com o evangelho eterno, e
ele apareceu a alguns e entregou-o ao homem e aparecerá a muitos que
habitam na Terra.
E este evangelho será pregado a toda nação e tribo e língua e povo”
(Doutrina e Convênios 133:36–37).
Quaisquer que sejam as turbulências, podemos saber que Deus
estabelecerá limites para que Suas promessas sejam cumpridas. É Ele, e não
os homens, quem controla as nações e os acontecimentos para permitir que
Seus propósitos sejam cumpridos. Dentre todas as pessoas e em todos os
países surgirão aqueles que servem com absoluta certeza de que são filhos de
Deus, surgirão aqueles que foram purificados e se tornaram do Cristo
ressuscitado em Sua Igreja.
Há poucos anos, falei aos missionários no Centro de Treinamento do
Japão. Prometi-lhes que um dia grandioso iria alvorecer naquela nação. Disse
que haveria um grande aumento no número de membros que avidamente
falariam a outras pessoas acerca de seu testemunho do evangelho restaurado.
Meu pensamento naquele instante foi o de que a coragem para falar adviria
de uma crescente admiração pela Igreja naquele país. Sei agora que o grande
milagre, a grande mudança, acontecerá entre os membros, e não no mundo a
seu redor.
Os membros do Japão e de todo o mundo amarão, ouvirão, falarão e
testificarão com um coração modificado. Os bispos e presidentes de ramo
liderarão pelo exemplo. A colheita de almas será grande e estará segura nas
mãos do Senhor (ver Doutrina e Convênios 50:41–42).
Para participar desse milagre, vocês não precisam esperar até sentirem-
se mais próximos do Pai Celestial ou até terem certeza de que foram
purificados por meio da Expiação de Jesus Cristo. Orem pela oportunidade de
encontrar pessoas que sintam que pode haver algo melhor em sua vida. Orem
para saber o que poderiam fazer para ajudá-las. Suas orações serão
respondidas. Vocês conhecerão pessoas preparadas pelo Senhor. Sentirão e
dirão coisas que estarão além de sua experiência de vida. E com o tempo,
vocês se sentirão mais próximos do Pai Celestial e sentirão a purificação e o
perdão que o Salvador promete a Suas fiéis testemunhas. Sentirão também a
Sua aprovação, sabendo que fizeram o que Ele lhes pediu, porque Ele os ama
e confia em vocês.
Com os Corações Entrelaçados em União
Os profetas do Senhor sempre nos exortaram à união. Ouvi essa
exortação de todos os profetas de Deus ao longo de toda a minha vida. A
última mensagem do Presidente David O. McKay da qual me lembro foi um
apelo por união. A necessidade de receber esse dom e o desafio de mantê-lo
vão aumentar nos dias futuros, nos quais seremos preparados como povo para
nosso glorioso destino.
Vemos cada vez mais conflitos entre os povos do mundo ao nosso redor.
Essas divisões e discórdias podem contaminar-nos, mas o grande dia de união
está chegando. O Senhor Jeová retornará para viver com aqueles que se
tornaram Seu povo e os encontrará unidos, unos de coração com Ele e com o
Pai Celestial.
Estamos melhorando como santos dos últimos dias. Pais e mães estão
rogando por união no lar, e essas orações estão sendo atendidas. As famílias
estão orando juntas pela manhã e à noite. Fui convidado a ajoelhar-me com
uma família na hora de dormir, quando me hospedei em sua casa. Pediram ao
filho caçula que fizesse a oração. Como um verdadeiro patriarca, ele orou por
todas as pessoas da família, citando o nome de cada uma. Abri os olhos um
instante para ver o rosto dos outros filhos e dos pais. Vi que cada um unia sua
fé e seu coração à oração do menino.
Recentemente, algumas irmãs da Sociedade de Socorro oraram em
conjunto ao prepararem-se para visitar pela primeira vez uma jovem viúva
cujo marido falecera repentinamente. Elas queriam saber o que fazer e como
trabalhar juntas para ajudar a preparar a casa para a chegada dos familiares e
amigos que viriam para o funeral. Precisavam saber quais palavras de
consolo poderiam dizer em nome do Senhor. Sua oração foi respondida.
Quando chegaram lá, cada irmã foi realizar sua tarefa. A casa ficou pronta tão
rapidamente que algumas irmãs se lamentaram por não terem mais nada a
fazer. Palavras de conforto perfeitamente acertadas foram proferidas. As
irmãs serviram ao Senhor em união, com um só coração.
Vocês também devem ter visto evidências de que nos estamos tornando
unos de coração. O milagre da união está-nos sendo concedido à medida que
oramos e nos empenhamos à maneira do Senhor para que isso ocorra. Nossos
corações se entrelaçarão em união. Deus prometeu essa bênção a Seus santos
fiéis, sejam quais forem suas diferenças de formação e os conflitos travados
ao seu redor. Ele estava orando por nós, bem como por Seus discípulos,
quando pediu ao Pai que nos fosse concedida a perfeita união (ver João
17:21; ver também Doutrina e Convênios 50:43; 93:3).
O motivo pelo qual oramos e pedimos essa bênção é o mesmo motivo
pelo qual o Pai a concede a nós. Sabemos por experiência própria que temos
alegria quando somos abençoados com união. Ansiamos, como filhos
espirituais de nosso Pai Celestial, pela alegria que tivemos com Ele na vida
anterior a esta. Ele quer atender a esse sagrado desejo de união, por causa do
amor que tem por nós.
Ele não pode conceder-nos isso individualmente. A alegria da união que
Ele tanto almeja dar-nos não pode ser concedida a indivíduos isolados.
Precisamos buscá-la e tornar-nos dignos dela juntamente com outros. Não é
de se admirar, portanto, que Deus nos exorte a que nos unamos para que Ele
possa abençoar-nos. Ele quer que estejamos juntos, em família. Ele criou
classes, alas e ramos e ordenou que nos reuníssemos com frequência. Nessas
reuniões que Deus planejou para nós estão nossa grande oportunidade.
Podemos orar e trabalhar em prol da união que nos trará alegria e multiplicará
nossa capacidade de servir.
Para os três nefitas, o Salvador prometeu alegria na união com Ele como
recompensa final após seu serviço fiel. Ele disse: “Tereis alegria completa e
sentar-vos-eis no reino de meu Pai; sim, vossa alegria será completa, assim
como completa foi a alegria que me deu o Pai; e sereis como eu sou e eu sou
como o Pai; e o Pai e eu somos um” (3 Néfi 28:10).
O Senhor providenciou guias para que saibamos o que fazer a fim de
receber as bênçãos e a alegria de uma união sempre crescente. O Livro de
Mórmon nos conta a história de uma época de sucesso. Foi nos dias que
passou Alma junto às Águas de Mórmon. O que as pessoas fizeram naquela
situação difícil e perigosa serve de guia e incentivo para todos nós.
Tudo o que Alma e seu povo foram inspirados a fazer se relacionava
com a decisão dessas pessoas de permitirem que uma grande mudança
ocorresse em seu coração por meio da Expiação de Jesus Cristo. Essa é a
única maneira pela qual Deus pode conceder-nos a bênção de sermos unos de
coração.
Lemos em Mosias:
“E foram chamados Igreja de Deus, ou seja, Igreja de Cristo, daquele
tempo em diante. E aconteceu que todos os que eram batizados pelo poder e
autoridade de Deus eram somados a sua Igreja. (…)
E mandou que não ensinassem senão as coisas que ele ensinara, as quais
haviam sido declaradas pela boca dos santos profetas.
Sim, mandou-lhes que não pregassem senão arrependimento e fé no
Senhor, que redimira seu povo.
E mandou-lhes que não contendessem entre si, mas que olhassem para a
frente com um único fito, tendo uma fé e um batismo, tendo os corações
entrelaçados em unidade e amor uns para com os outros.
Deste modo mandou que eles pregassem. E tornaram-se, assim, filhos de
Deus” (Mosias 18:17, 19–22).
Foi por isso que Alma ordenou ao povo que ensinasse fé e
arrependimento. Foi por isso que meus filhos passaram a já esperar, em cada
aula da noite familiar, que eu incentivasse alguém a prestar testemunho do
Salvador e de Sua missão. Às vezes, éramos nós, pais, que fazíamos isso. Nas
melhores noites, encontrávamos uma forma de incentivar nossos filhos a
fazê-lo, fosse dando-lhes a oportunidade de darem a aula ou de responderem
perguntas. Sempre que um testemunho do Salvador era proferido, o Espírito
Santo o confirmava. Nessas noites, sentíamos que o coração de cada um se
entrelaçava ao dos outros.
Além das ordenanças, há princípios que estamos seguindo coletivamente
e que nos conduzem à maior união.
Um desses princípios é o da revelação. A revelação é a única maneira de
saber como seguir juntos a vontade do Senhor. Para isso é preciso luz do alto;
e o Espírito Santo prestará testemunho, ao nosso coração e ao coração dos
que estão reunidos ao nosso redor, daquilo que o Senhor deseja que façamos.
E é guardando Seus mandamentos que nossos corações se entrelaçarão em
união.
Um segundo princípio que deve guiar nosso processo de tornar-nos
unidos é o da humildade. O orgulho é o grande inimigo da união. Vocês já
viram e sentiram seus terríveis efeitos. Há poucos dias, observei duas pessoas
— e as duas eram boas pessoas — darem início a um pequeno
desentendimento. O que começou como uma conversa sobre o que era
verdade tornou-se uma disputa para provar quem estava certo. As vozes
foram tornando-se cada vez mais altas. Os rostos se enrubesceram. Em vez de
falar da questão, as pessoas começaram a falar de si mesmas para demonstrar
que, considerando-se sua formação e grande habilidade, era mais provável
que seu ponto de vista estivesse certo.
Vocês teriam ficados alarmados, como eu fiquei. Todos já vimos os
efeitos destruidores desses trágicos conflitos. Todos conhecemos pessoas que
deixaram a companhia dos santos por causa de orgulho ferido.
Felizmente, tenho visto um número cada vez maior de pacificadores
habilidosos que acalmam as águas revoltas e evitam estragos. Vocês podem
ser esses pacificadores, quer estejam no conflito, quer sejam observadores.
Já vi pessoas que conseguiram isso procurando algum ponto em que
concordavam. Para ser esse pacificador, é preciso ter uma fé singela de que,
por sermos todos filhos de Deus, apesar de todas as nossas diferenças,
quando alguém é categórico em um ponto de vista, é provável que haja nele
elementos da verdade. O grande pacificador, o restaurador da união, é aquele
que encontra maneiras de ajudar as pessoas a ver essa verdade compartilhada.
Essa verdade que compartilham sempre é maior e mais importante para eles
do que suas diferenças. Vocês podem ajudar a si mesmos e outras pessoas a
verem esses pontos comuns se pedirem a ajuda de Deus e depois agirem. Ele
responderá a suas orações e os ajudará a restaurar a paz, tal como fez comigo.
Esse mesmo princípio se aplica quando em nosso esforço aumentar a
união entre pessoas que têm formações muito diferentes. Os filhos de Deus
têm mais coisas em comum do que diferenças. E até as diferenças podem ser
vistas como oportunidades. Deus nos ajudará a ver o que é diferente em
outras pessoas não como motivo de irritação, mas como contribuição. O
Senhor pode ajudar-nos a ver e a valorizar o que a outra pessoa tem para
contribuir e que nos falta. Mais de uma vez, o Senhor me ajudou a ver Sua
bondade ao conceder-me a oportunidade de conviver com alguém que, por
ser diferente de mim, era exatamente a pessoa capaz de ajudar-me. Essa foi a
maneira de o Senhor acrescentar-me algo de que eu precisava para servir a
Ele melhor.
Isso nos leva a outro princípio de união: o de falar bem uns dos outros.
Pensem na última vez em que alguém lhes perguntou sua opinião sobre
alguém de sua família ou da Igreja. Há momentos em que precisamos julgar
as pessoas. Às vezes, é imprescindível que façamos esses julgamentos, mas
com mais frequência temos outra escolha. Suponham, por exemplo, que
alguém lhes pergunte o que acham do novo bispo.
À medida que melhoramos nossa capacidade de criar união, sempre que
nos fizerem essa pergunta, pensaremos nesta escritura: “E agora, meus
irmãos, vendo que conheceis a luz pela qual podeis julgar, luz essa que é a
luz de Cristo, tende cuidado para não julgardes erradamente; porque com o
mesmo juízo com que julgardes, sereis também julgados” (Morôni 7:18).
Sabendo que vemos as pessoas sob uma luz imperfeita, é mais provável
que sejamos um pouco mais generosos no que vamos dizer. Além dessa
escritura, vocês devem lembrar-se de ter ouvido sua mãe dizer — a minha
dizia — “Se não tiver nada de bom a dizer sobre uma pessoa, não diga nada”.
Isso nos ajudará a procurar o que há de melhor no desempenho e caráter
do bispo. O Salvador, como nosso juiz amoroso, sem dúvida fará isso quando
for julgar o nosso desempenho. Essa escritura e as palavras de sua mãe
podem levá-los a procurar o melhor no desempenho do bispo e nas suas boas
intenções. Posso prometer-lhes um sentimento de paz e alegria quando forem
generosos ao falar das pessoas, vendo-as pelo prisma da Luz de Cristo. Vocês
terão, por exemplo, um sentimento de união em relação ao bispo e à pessoa
que lhe perguntou sua opinião, não porque o bispo seja perfeito nem porque a
pessoa que lhe fez a pergunta concorde com sua generosa avaliação, mas
porque o Senhor fará com que vocês sintam Sua satisfação em ver que
decidiram esquivar-se da possibilidade de semear a desunião.
Precisamos seguir esse mesmo princípio, pois o Senhor reúne cada vez
mais pessoas que não são semelhantes a nós. O que se tornará mais evidente
para nós é que a Expiação produz as mesmas mudanças em todos nós.
Tornamo-nos discípulos humildes, amorosos e de fácil convívio e, ao mesmo
tempo, passamos a ser destemidos e fiéis em todas as coisas. Vivemos ainda
em países diferentes, mas entramos na Igreja por meio de um processo que
nos modifica. Por meio dos dons do Espírito, as palavras do Apóstolo Paulo
passam a aplicar-se a nós:
“Porque por ele ambos temos acesso ao Pai em um mesmo Espírito.
Assim que já não sois estrangeiros, nem forasteiros, mas concidadãos
dos santos, e da família de Deus” (Efésios 2:18–19).
Com essa união, que pelo que tenho observado vem aumentando, o
Senhor poderá realizar algo que o mundo considerará um milagre. Os santos
são capazes de cumprir qualquer propósito do Senhor quando unidos em
retidão.
Há presidentes de países, governadores e líderes de organizações de
caridade do mundo inteiro que nos elogiaram — em minha presença — com
palavras como estas: “Sua igreja foi a primeira a chegar para ajudar quando a
calamidade aconteceu. Centenas de seus membros chegaram trazendo com
eles tudo de que os sobreviventes necessitavam. Até trouxeram suas próprias
barracas e seus suprimentos. Eram incansáveis e animados. Pareciam saber
para onde deviam ir e quando fazê-lo”. Depois, normalmente ouvimos algo
assim: “Sua igreja sem dúvida sabe organizar-se para fazer as coisas”.
Eu agradeço, sem dizer que o milagre não está apenas na organização,
mas no coração das pessoas. Os santos vão em nome do Senhor proporcionar
o socorro que Ele proporcionaria. Eles vão seguindo a orientação de líderes
escolhidos pelo Senhor. Como têm os corações entrelaçados em união, sua
capacidade é multiplicada.
Presto-lhes meu testemunho solene de que a união que hoje vivemos
aumentará. Deus, o Pai, vive. Ele ouve e responde a nossas orações com
amor. O Salvador Jesus Cristo, ressurreto e cheio de glória, vive e estende-
nos a mão com misericórdia. Se formos unidos e fizermos com obediência e
disposição o que Deus quer que façamos, juntos veremos aumentar nossa
capacidade de ir aonde Deus nos mandar e de transformarmo-nos no que Ele
desejar que sejamos.
Ajuda para Enfrentar os Últimos Dias
Dons do Espírito para Momentos Difíceis
Estamos todos passando pela prova da mortalidade. E, onde quer que
vivamos, a prova se tornará cada vez mais difícil. Estamos na última
dispensação dos tempos. Os profetas de Deus viram essa época há milhares
de anos. Viram que coisas maravilhosas aconteceriam. A Restauração do
evangelho de Jesus Cristo ocorreria. A verdadeira Igreja retornaria com
profetas e apóstolos. O evangelho seria levado a todas as nações, tribos,
línguas e povos. E o mais maravilhoso de tudo é que a verdadeira Igreja e
seus membros haverão de tornar-se dignos de presenciar a vinda do Salvador
à Sua Igreja e a Seus discípulos purificados.
Mas os profetas verdadeiros também viram que nos últimos dias Satanás
se enfureceria. Haveria guerras e rumores de guerras. Isso espalharia o medo.
A coragem de muitos se enfraqueceria. Haveria muita iniquidade e Satanás
enganaria muitas pessoas.
No entanto, felizmente, muitos não se deixariam dominar e muitos não
seriam enganados. A chave para cada um de nós será aceitar e preservar o
dom que nos foi prometido por Deus. Vocês que são membros da Igreja
verdadeira de Jesus Cristo devem lembrar que, depois de seu batismo, servos
autorizados de Deus prometeram-lhes que poderiam receber o Espírito Santo.
Talvez alguns de vocês tenham sentido algo acontecer quando essa ordenança
foi realizada. A maioria sentiu na própria vida os efeitos do cumprimento da
promessa. Direi a vocês como é possível reconhecer esse dom, recebê-lo a
cada dia de sua vida e como ele vai abençoá-los no futuro.
Vocês já sentiram no coração e na mente a serena confirmação de que
algo era verdade e souberam que essa era uma inspiração de Deus. Para
alguns de vocês, isso pode ter ocorrido quando receberam os ensinamentos
dos missionários antes do batismo. Pode ter acontecido durante um discurso
ou uma aula na Igreja. O Espírito Santo é o Espírito da Verdade. Vocês
sentem paz, esperança e alegria quando ele confirma em seu coração e em sua
mente que algo é verdadeiro. Quase sempre também sinto uma sensação de
luz. Qualquer sensação de escuridão que eu tivesse anteriormente se dispersa
e aumenta o meu desejo de fazer o que é certo.
O Senhor prometeu que vocês também passariam por experiências
assim. Eis o que Ele disse, como se encontra em Doutrina e Convênios:
“E agora, em verdade, em verdade eu te digo: Põe tua confiança naquele
Espírito que leva a fazer o bem—sim, a agir justamente, a andar em
humildade, a julgar com retidão; e esse é o meu Espírito.
Em verdade, em verdade eu te digo: Dar-te-ei do meu Espírito, o qual
iluminará tua mente e encher-te-á a alma de alegria” (Doutrina e Convênios
11:12–13).
O Senhor também prometeu que aqueles que aceitarem o dom do
Espírito Santo em sua vida não serão enganados. Ele tranquilizou a nós, que
vivemos nesta época em que a Igreja se prepara para o dia em que Ele
voltará. Eis a promessa:
“E nesse dia, quando eu vier em minha glória, cumprir-se-á a parábola
de que falei, concernente às dez virgens.
Pois aqueles que são prudentes e tiverem recebido a verdade e tomado o
Santo Espírito por seu guia e não tiverem sido enganados—em verdade vos
digo que não serão cortados e lançados no fogo, mas suportarão o dia.
E a Terra ser-lhes-á dada por herança e multiplicar-se-ão e tornar-se-ão
fortes; e seus filhos crescerão sem pecado para a salvação.
Porque o Senhor estará em seu meio e sua glória estará sobre eles; e ele
será seu rei e seu legislador” (Doutrina e Convênios 45:56–59).
Essas palavras descrevem o dia em que estaremos ao lado do Salvador,
que falou das dez virgens e de Sua vinda que, desta vez, será em glória. Elas
descrevem o dia no qual poderemos estar com Ele e ter Sua glória sobre nós.
Dentre todas as coisas das quais o Espírito Santo testifica, nenhuma é mais
valiosa para nós do que saber que Jesus é o Cristo, o Filho vivo de Deus; e
nada tem tanta probabilidade de nos dar luz, esperança e alegria. Por isso não
nos surpreende o fato de que, quando sentimos a influência do Espírito Santo,
também sentimos que nossa natureza está sendo mudada graças à Expiação
de Jesus Cristo. Sentimos mais vontade de guardar Seus mandamentos, fazer
o bem e agir com justiça.
Muitos de vocês sentiram esse efeito em suas frequentes experiências
com o Espírito Santo. No campo missionário, por exemplo, alguns de vocês
tiveram que confiar no Espírito para encontrar as palavras para ensinar aquilo
que as pessoas necessitavam aprender. Mais de uma vez, talvez todos os dias,
receberam a mesma bênção que Néfi e Leí receberam quando estavam entre
as pessoas em sua própria missão:
“E aconteceu que Néfi e Leí pregaram aos lamanitas com grande poder e
autoridade, porque haviam recebido poder e autoridade para falar, sendo
também inspirados quanto ao que deveriam dizer—
Por conseguinte, falaram de tal maneira que encheram os lamanitas de
assombro, convencendo-os de tal forma que oito mil lamanitas dos que se
achavam na terra de Zaraenla e imediações receberam o batismo para o
arrependimento e convenceram-se da iniquidade das tradições de seus pais”
(Helamã 5:18–19).
Mesmo que vocês não tenham sido abençoados com uma colheita tão
extraordinária, receberam do Espírito Santo as palavras que deveriam dizer
quando entregaram seu coração ao serviço do Senhor. Em determinados
momentos de sua missão, tais experiências ocorreram com frequência. Se
buscarem na lembrança e ponderarem, verão que o seu desejo de obedecer
aos mandamentos aumentou gradualmente. Sentiram diminuir o desejo de
ceder à tentação. Sentiram aumentar cada vez mais o desejo de ser obedientes
e servir ao próximo. Sentiram um amor maior pelas pessoas.
Um dos efeitos de receber a manifestação do Espírito Santo
repetidamente foi a transformação de sua natureza. Assim, devido a esse
serviço fiel ao Mestre, vocês não só receberam o testemunho do Espírito
Santo de que Jesus é o Cristo, mas também viram evidências em sua própria
vida de que a Expiação é real. Tal serviço, que nos proporciona a influência
do Espírito Santo, corresponde ao ato de plantamos a semente, que Alma
descreve assim:
“E agora, eis que por haverdes feito a experiência e plantado a semente
que inchou e brotou e começou a crescer, deveis forçosamente saber que a
semente é boa.
E agora, eis que é perfeito o vosso conhecimento? Sim, vosso
conhecimento é perfeito nisto e vossa fé permanece adormecida; e isto
porque sabeis, pois sabeis que a palavra vos dilatou a alma e sabeis também
que ela germinou, que vossa compreensão começa a iluminar-se e vossa
mente começa a expandir-se.
Oh! então isto não é real? Digo-vos que sim, porque é luz; e o que é luz
é bom, porque pode ser discernido; portanto deveis saber que é bom; e agora,
eis que, depois de haverdes experimentado esta luz, é perfeito o vosso
conhecimento?
Eis que vos digo: Não, nem deveis pôr de lado a vossa fé, porque haveis
somente exercido vossa fé para plantar a semente a fim de fazer a
experiência, para saber se a semente é boa.
E eis que, à medida que a árvore começar a crescer, direis: Tratemos
dela com muito cuidado, para que crie raiz, para que cresça e dê frutos. E
agora, eis que se a tratardes com muito cuidado, criará raiz e crescerá e dará
frutos” (Alma 32:33–37).
Agora, se vocês e eu estivéssemos sozinhos (gostaria que estivéssemos),
conversando um a um de maneira que se sentissem à vontade para perguntar
o que quisessem, posso imaginá-los dizendo coisas como: “Élder Eyring,
senti algumas das coisas que o senhor descreveu. O Espírito Santo tocou meu
coração e minha mente de tempos em tempos, mas vou precisar dele
constantemente para não ser vencido nem enganado. Isso é possível? Será
que é possível? E, se for, o que devo fazer para receber essa bênção?”
Bem, vamos começar com a primeira parte de sua pergunta. Sim, é
possível. Sempre que preciso dessa certeza, e eu também preciso dela de
tempos em tempos, lembro-me de dois irmãos. Néfi e Leí, e os outros servos
do Senhor que trabalhavam a seu lado, enfrentaram forte oposição. Eles
serviam em um mundo que se tornava cada vez mais iníquo. Tiveram que
lidar com terríveis mentiras. Dessa forma, retomo o ânimo, e vocês podem
fazer o mesmo, lendo as palavras deste versículo de Helamã. A certeza é
encontrada em meio à história dos acontecimentos de um ano inteiro, quase
como se o autor não se surpreendesse:
“E no septuagésimo nono ano começaram a surgir muitas contendas.
Aconteceu, porém, que Néfi, Leí e muitos de seus irmãos que conheciam os
verdadeiros pontos da doutrina, recebendo diariamente muitas revelações,
pregaram ao povo, de modo que puseram fim a suas contendas nesse mesmo
ano” (Helamã 11:23).
Eles recebiam “diariamente muitas revelações”. Então, vocês e eu
encontramos aqui a resposta à nossa primeira pergunta. Sim, é possível ter a
companhia do Espírito Santo a ponto de receber muitas revelações
diariamente. Não é fácil, mas é possível. Para cada pessoa, as condições serão
diferentes, pois cada um de nós começa de onde está em seu conjunto único
de experiências na vida. Para todos nós, haverá pelo menos três exigências.
Nenhuma delas pode ser adquirida e mantida a partir de uma única
experiência. Todas precisam ser constantemente renovadas.
Primeiro, para receber o Espírito Santo, é preciso ter fé em nosso Pai
Celestial e em Seu Filho Amado, Jesus Cristo. A lembrança de uma
experiência espiritual, ocorrida há algum tempo, que lhes tenha confirmado
essa verdade, não será suficiente. Será nos momentos de crise, que podem
ocorrer a qualquer hora do dia ou da noite, que, ao suplicarem a influência do
Espírito, vocês precisarão ter certeza de sua fé. Será nesse momento que
precisarão da inabalável certeza de que Deus vive e ouve seu pedido de ajuda,
e que o Salvador ressuscitado fará por vocês o que prometeu a Seus servos
durante Seu ministério mortal. Vocês devem lembrar-se:
“Mas, quando vier o Consolador, que eu da parte do Pai vos hei de
enviar, aquele Espírito de verdade, que procede do Pai, ele testificará de
mim” (João 15:26).
Os irmãos Néfi e Leí recebiam muitas revelações diariamente. Os
registros dizem que eles conheciam os pontos verdadeiros da doutrina. De
todas as doutrinas verdadeiras, nenhuma é mais importante, tanto para vocês
como para mim, do que a que nos revela a verdadeira natureza de Deus, o
Pai, e de Seu Filho, Jesus Cristo. É para conhecer Sua natureza que recorro
repetidamente às escrituras. É para conhecer Sua natureza que recorro
repetidamente à oração. É para conhecer Sua natureza que recorro
repetidamente ao sacramento. E, acima de tudo, passo a conhecer melhor a
Deus e Jesus Cristo quando cumpro os mandamentos e sirvo na Igreja. Por
meio do serviço diligente na Igreja, passamos não só a conhecer as
características de Deus, mas também a amá-Lo. Se seguirmos Seus
mandamentos, nossa fé Nele aumentará e poderemos, então, qualificar-nos
para ter a companhia de Seu Espírito.
A fé vibrante em Deus advém de servir a Ele regularmente. Nem todos
são chamados para cargos na Igreja. Talvez alguns de vocês nunca tenham
sido formalmente chamados a fazer qualquer coisa que seja, mesmo assim
todo membro tem múltiplas oportunidades de servir a Deus. Por exemplo, há
anos ouvimos a frase: “Todo membro é um missionário”. Isso não é opcional,
é algo inerente ao fato de sermos membros da Igreja. Mas temos a escolha de
falar ou não do evangelho a outras pessoas. Da mesma forma, cada membro
deve cuidar dos pobres que existem entre nós e à nossa volta. Uma parcela
desse trabalho fazemos em particular e sozinhos. Outra parcela fazemos junto
com outros membros. É por isso que temos as ofertas de jejum e os projetos
de serviço. O que temos a fazer é decidir se ficaremos ao lado do Senhor e
Seus demais discípulos dos dias atuais para fazer o mesmo que Ele e Seus
discípulos da antiguidade fizeram durante o Seu ministério mortal.
A maioria de nós tem ou virá a ter o chamado de mestre familiar ou
professora visitante. Nesses chamados, há uma grande oportunidade de
aumentar a fé no fato de que o Senhor envia o Espírito Santo a Seus servos
humildes. Isso edifica e renova a fé que temos Nele. Já vi isso acontecer e
muitos de vocês também viram. Recebi um telefonema de uma mãe aflita que
morava em outro Estado. Ela disse-me que sua filha solteira tinha-se mudado
para outra cidade bem longe da casa dos pais. Com o pouco contato que
tivera com a filha, pressentiu que algo estava terrivelmente errado. A mãe
temia pela segurança moral da filha. Suplicou que eu ajudasse sua filha.
Procurei saber quem era o mestre familiar da jovem e telefonei para ele.
Ele era jovem, mas tanto ele como seu companheiro tinham acordado no
meio da noite, não só preocupados com a moça, mas também com a
inspiração de que ela estava prestes a fazer escolhas que trariam tristeza e
infelicidade. Guiados unicamente pela inspiração do Espírito, foram visitá-la.
Inicialmente, ela não quis dizer-lhes nada sobre sua situação. Eles rogaram a
ela que se arrependesse e optasse por trilhar o caminho que o Senhor traçara
para ela e que lhe fora ensinado por seus pais. Ao ouvi-los, ela se deu conta
de que somente por revelação divina eles poderiam saber tanto sobre a vida
dela. A oração de uma mãe havia chegado ao Pai Celestial, e o Espírito Santo
tinha sido enviado aos mestres familiares com uma missão importante.
Mais de uma vez, ouvi líderes do sacerdócio dizerem que foram
inspirados a visitar alguém que estava precisando de ajuda e descobriram que
o mestre familiar ou a professora visitante já havia estado lá. Minha esposa
sempre foi um grande exemplo nesse assunto. Tínhamos um bispo que me
disse uma vez: “Sabe, sempre que tenho uma inspiração de procurar alguém,
sua esposa já esteve lá”. Sua fé aumentará à medida que servirem ao Senhor e
cuidarem dos filhos do Pai Celestial como professores que o Senhor enviou a
seu lar. Suas orações serão respondidas. Passarão a saber por si mesmos que
Ele vive, que nos ama e que inspira aqueles que têm ainda que seja só um
princípio de fé Nele e o desejo de servir a Ele em Sua Igreja. Permaneçam na
Igreja se quiserem que sua fé em Deus aumente. À medida que ela aumenta,
também crescerá sua capacidade de receber os dons do Espírito Santo que
lhes foram prometidos.
A primeira condição para que isso ocorra é ter fé no Senhor Jesus Cristo
e em nosso Pai Celestial. A segunda condição para a companhia e orientação
frequente do Espírito Santo é a pureza. O Espírito é compelido a afastar-se de
quem está impuro. Vocês devem lembrar a triste imagem descrita na história
do povo do Livro de Mórmon:
“E em virtude de sua iniquidade, a igreja começou a decair; e eles
começaram a perder a crença no espírito de profecia e no espírito de
revelação; e defrontaram-se com os julgamentos de Deus.
E viram que se haviam tornado fracos como seus irmãos, os lamanitas, e
que o Espírito do Senhor não mais os preservava; sim, havia-se afastado
deles, porque o Espírito do Senhor não habita em templos impuros” (Helamã
4:23–24).
O que nos leva a receber o Espírito Santo é exercer fé em Jesus Cristo
para o arrependimento. Podemos tornar-nos limpos se agirmos de forma a
qualificar-nos para que a Expiação do Salvador tenha efeito sobre nós. Os
convênios realizados no batismo por servos autorizados de Deus trazem essa
purificação. Renovamos nossa promessa de guardar esses convênios cada vez
que tomamos o sacramento. E a paz que todos buscamos é a certeza de que
recebemos o perdão pelos nossos pecados, inclusive para os pecados de
omissão.
O Salvador é o único ser que recebeu o direito de assegurar esse perdão
e dar essa certeza. Aprendi que o Senhor nos dá essa certeza a Seu próprio
tempo e a Sua própria maneira. Aprendi também a pedir isso em oração. Uma
das maneiras pelas quais Ele nos assegura isso é por meio do Espírito Santo.
Se estiverem com dificuldade de sentir o Espírito Santo, devem ponderar
sabiamente se existe algo de que é preciso arrepender-se e receber perdão.
Se já sentiram a influência do Espírito Santo, vocês podem considerar
esse fato como evidência de que a Expiação está agindo em sua vida. Por esse
motivo e por vários outros, é bom que estejam em lugares e que façam coisas
que convidem a influência do Espírito Santo. Sentir a influência do Espírito
Santo funciona de duas maneiras: Ele habita somente em templos puros e a
companhia do Espírito Santo nos purifica por meio da Expiação de Jesus
Cristo. Orem fervorosamente para saber o que fazer para serem purificados e
assim qualificarem-se para ter a companhia do Espírito Santo e o auxílio do
Senhor. E em Sua companhia, serão fortalecidos contra a tentação e serão
investidos de poder para perceber os ardis e enganos.
A terceira condição para termos a companhia do Espírito Santo é uma
motivação pura. Se quisermos receber os dons do Espírito Santo, teremos que
desejá-los pelas razões corretas. Nossos propósitos devem ser os propósitos
do Senhor. Quando nossos motivos são egoístas, vamos achar difícil receber
os dons do Espírito Santo que nos foram prometidos.
Esse fato serve tanto como um alerta quanto como uma instrução útil.
Primeiro, o alerta: Deus Se ofende quando buscamos os dons do Espírito
Santo para atingir nossos próprios propósitos em vez de para atingir os
propósitos Dele. Nossos motivos egoístas podem não ser visíveis para nós,
mas poucos de nós seriam tão cegos quanto o homem que buscou comprar o
direito aos dons do Espírito Santo. Vocês devem lembrar-se da triste história
de um homem chamado Simão e da repreensão de Pedro:
“E Simão, vendo que pela imposição das mãos dos apóstolos era dado o
Espírito Santo, lhes ofereceu dinheiro,
Dizendo: Dai-me também a mim esse poder, para que aquele sobre
quem eu puser as mãos receba o Espírito Santo.
Mas disse-lhe Pedro: O teu dinheiro seja contigo para perdição, pois
cuidaste que o dom de Deus se alcança por dinheiro.
Tu não tens parte nem sorte nesta palavra, porque o teu coração não é
reto diante de Deus.
Arrepende-te, pois, dessa tua iniquidade, e ora a Deus, para que
porventura te seja perdoado o pensamento do teu coração;
Pois vejo que estás em fel de amargura, e em laço de iniquidade.
Respondendo, porém, Simão, disse: Orai vós por mim ao Senhor, para
que nada do que dissestes venha sobre mim” (Atos 8:18–24).
Aparentemente Simão reconheceu os próprios motivos corruptos. Pode
não ser tão fácil para nós. Quase sempre temos mais de um motivo por vez e
alguns podem ser um misto daquilo que Deus quer e daquilo que nós
queremos. Não é fácil separar as duas coisas.
Por exemplo: imaginem-se às vésperas de uma prova na escola ou de
uma entrevista de emprego. Vocês sabem que a orientação do Espírito Santo
pode ser de grande ajuda. Sei por experiência própria, por exemplo, que o
Espírito Santo conhece certas equações matemáticas usadas para resolver
problemas de termodinâmica, que é um ramo da ciência. Quando eu era aluno
de Física, estava estudando em um livro que ainda possuo, mas estava com
muita dificuldade para entender a matéria. Eu ainda guardo esse livro por
razões históricas e espirituais. Mais ou menos no meio da página (eu até
posso mostrar o lugar na página), no meio de alguns cálculos, tive a firme
convicção de que aquilo que eu estudava era verdadeiro. Foi exatamente a
mesma sensação que eu já tivera antes, ao ponderar as escrituras do Senhor, e
que tive muitas vezes depois disso. Portanto, eu soube que o Espírito Santo
entende tudo o que é verdadeiro em qualquer questão que me fosse
apresentada para resolver na prova de termodinâmica.
Imaginem, então, a tentação que eu tive de pedir a Deus que me enviasse
o Espírito Santo durante a prova, assim eu não precisaria estudar mais. Eu
sabia que Ele podia fazer isso, mas não pedi. Senti que Ele preferia que eu
aprendesse por meio do meu próprio esforço. Pode muito bem ser que Ele
tenha-me mandado ajuda na prova, mas eu temia que meus motivos não
fossem os motivos Dele. Vocês já tiveram que fazer o mesmo tipo de escolha
com frequência. Talvez para uma entrevista de emprego ou talvez quando
preparavam um discurso ou uma palestra missionária. Sempre existe a
possibilidade de vocês terem um objetivo próprio que é menos importante
para o Senhor.
Por exemplo: eu posso querer uma boa nota em um determinado curso,
enquanto Ele prefere que eu aprenda a trabalhar arduamente a serviço de
outros. Talvez eu queira determinado emprego devido ao salário ou ao
prestígio, enquanto Ele quer que eu trabalhe em outro lugar para abençoar a
vida de alguém que nem conheço ainda. Talvez eu tivesse o desejo de entretê-
los ou impressioná-los, mas tentei suprimir meu desejo e sujeitar-me ao Dele.
Vi um homem fazer isso certa vez e isso mudou minha vida. Uma
autoridade geral veio fazer um discurso em uma conferência e eu estava
sentado ao púlpito. Eu servia na presidência local do sacerdócio. Conhecia
em primeira mão as dificuldades das famílias e dos membros locais. A
autoridade geral acabara de chegar de uma longa designação na Europa e
estava visivelmente cansada. Começou a fazer o seu discurso. A mim pareceu
que ele divagava de um assunto para outro. No começo senti pena do orador.
Achei que ele não estava conseguindo fazer um daqueles sermões bem
preparados que eu sabia que ele já havia proferido tantas vezes.
Depois de algum tempo, fiquei emocionado ao reconhecer que, ao
passar de um assunto para o outro, de uma forma aparentemente aleatória, ele
estava atendendo às necessidades de todo o membro e toda família em
dificuldades a quem tentávamos ajudar. Ele não os conhecia e nem suas
necessidades, mas Deus conhecia.
Como sou grato porque seu motivo não foi dar uma palestra brilhante
nem ser considerado um grande profeta! Ele deve ter feito o que espero que
vocês e eu sempre façamos, deve ter orado mais ou menos assim: “Pai,
preciso de Tua ajuda. Estou muito cansado. Por favor, guia-me por
intermédio do Espírito Santo. Abençoa estas pessoas. Eu as amo. Só peço que
me concedas fazer a Tua vontade para ajudá-las”.
O Espírito Santo esteve ali naquela noite. E foi feita a vontade do
Senhor. A autoridade geral passou sua vida inteira nutrindo-se e nutrindo os
outros com a boa palavra de Deus. Esse homem servia ao Mestre fielmente.
Era uma testemunha especial de Jesus Cristo porque pagou o preço para sê-
lo. Tudo isso foi o resultado de ter mantido os seus motivos o mais próximo
possível daquilo que o Senhor queria. Isso possibilitou que Senhor enviasse
os sussurros do Espírito Santo ao Seu servo e, assim, abençoasse as pessoas.
Por certo não entendo plenamente o significado do que as escrituras
chamam de “o puro amor de Cristo”, mas o que sei é que: É-nos prometido
que receberemos esse dom quando a Expiação de Jesus Cristo tiver agido em
nós. É o dom de querer o que Ele quer. Quando amamos com o amor de
Cristo, esse amor é puro porque Ele é puro. E quando sentimos que nossos
desejos com relação às pessoas começam a se alinhar com os Seus, essa é
uma maneira pela qual podemos saber que estamos sendo purificados.
Quando oramos pelos dons do Espírito Santo — e devemos orar —, um dos
dons do Espírito pelos quais oro é o de ter motivos puros, é o de querer o que
Ele quer, tanto para os filhos do Pai como para mim mesmo. Peço também
pelo dom de sentir o desejo sincero de que seja feita a vontade Dele, para que
esse desejo não se resuma a palavras vazias.
Oro ao Pai com toda a energia de meu coração que suas orações sejam
respondidas de modo a atenderem as condições necessárias para receberem o
Espírito Santo. E oro para que vocês perseverem fielmente até o fim e que,
para vocês, esse fim seja glorioso.
Bem-Aventurados os Pacificadores
Quando lemos o jornal ou assistimos à televisão, não vemos muita coisa
que fale de paz. Todos os dias, os noticiários estão cheios de violência,
parece que ela é crescente em todo o mundo e em nossas próprias cidades.
Provavelmente até planejamos o que faremos à noite levando em conta nossa
segurança. Esperamos evitar assim a violência de outras pessoas.
Se prestarmos bastante atenção aos debates sobre como estabelecer a
paz, ouviremos alguns temas comuns. Curiosamente os temas permanecem
praticamente os mesmos, quer a questão seja como obter a paz no mundo ou
no nosso próprio bairro. Um desses temas é o desarmamento. As pessoas que
consideram bombas e armas como algo perigoso sentem-se aliviadas quando
qualquer país ou qualquer grupo de pessoas abandonam as armas. Mas há
aqueles que, igualmente certos, argumentam que o mais seguro é ter bombas
ou armas suficientes para que ninguém venha nos atacar.
Outro tema é o da negociação. Se pudermos apenas fazer com que as
pessoas conversem umas com as outras, então elas escolherão a paz. E assim
lemos e vemos fotografias de diplomatas, ministros de relações exteriores e
chefes de estado voando para Genebra ou qualquer outro lugar para
conversarem. Os jornalistas estão sempre presentes para contar-nos como as
coisas estão se desenvolvendo e tentam avaliar, pelo que ocorre nas
negociações, se haverá um cessar-fogo ou não. Mas mesmo com o cessar-
fogo, que geralmente dura pouco, as reuniões e a mídia só mudam de lugar
porque, em algum outro lugar, começaram outros tiroteios.
Um outro tema em busca da paz é o da educação. Se as pessoas tivessem
um entendimento melhor sobre as coisas, se tivessem recebido uma boa
instrução para terem uma vida melhor, escolheriam a paz. E, assim,
procuramos maneiras de proporcionar a mais pessoas uma educação melhor.
Ainda no tema educação, encontra-se uma chave para entendermos tanto
as dificuldades encontradas na maioria das soluções propostas para a
violência como também o caminho certo para a paz. A esperança de acabar
com a violência por meio de uma educação de qualidade é que, se as pessoas
conseguissem ter um entendimento melhor, elas desejariam a paz e a
escolheriam. Se acreditarmos que a educação pode promover a paz,
acreditaremos que qualquer um que consiga pensar claramente não escolherá
a violência. Mas, quando vemos o que acontece na prática, tanto em nossa
própria vida quanto nas tentativas do mundo de alcançar a paz, percebemos
que os atos mais devastadores de violência começam com escolhas
criteriosas. Tratados de desarmamento são assinados e, depois, as nações e as
pessoas decidem quebrá-los em interesse próprio. Geralmente o fazem
primeiro em segredo e, finalmente, com o conhecimento de todos. Ou então,
as pessoas decidem que, se elas se armarem, manterão a paz; então, muito
racionalmente, adquirem mais armas para igualarem-se ao seu inimigo. Os
dois lados acabam com tanto armamento que suas próprias bombas e armas
tornam-se tão perigosas para eles quanto aquelas que estão nas mãos de seus
inimigos.
Até as propostas para a construção de mais presídios, para a criação de
leis mais rígidas e de mais policiamento fundamentam-se na esperança de que
as pessoas que poderiam ferir-nos pensem e façam a escolha sensata de nem
tentar. Mas vocês sabem por experiência própria e por observar outras
pessoas que isso no final não surte efeito. Enquanto as pessoas quiserem algo
para si mesmas a ponto de estar dispostas a ferir outros para consegui-lo,
continuarão procurando até encontrar um meio de conseguir o que querem. E
não há muro que segure essas pessoas. Por mais longo, mais alto e mais forte
que seja, alguém vai sempre dar um jeito de passar, seja por cima, por baixo
ou pelo meio dele.
É por isso que nem a educação formal, nem o desarmamento, nem o
armamento, nem as negociações, nem a combinação de todas essas coisas
conseguirão criar paz duradoura nem no mundo, nem no bairro. Para que isso
aconteça, é necessário que haja uma mudança no coração humano. A
mudança tem que estar no que as pessoas desejam. Quase todas as pessoas do
mundo já ouviram falar dessa mudança, porque ela é comum a religiões e
filosofias do mundo todo e ao longo dos séculos. Já foi dito de formas
diferentes nas escrituras e em outros escritos, mas as palavras que vocês
reconhecerão mais facilmente são estas: “Portanto tudo o que vós quereis que
os homens vos façam, fazei-o também a eles, porque esta é a lei e os
profetas” (3 Néfi 14:12).
Podemos ver como isso funcionaria se o coração de cada um de nós
passasse por essa transformação. Se fosse assim que todos nós encarássemos
a vida, pouco importaria quem tem ou quem não tem armas. A menos, é
claro, que vivêssemos de caça e quem tivesse arma a emprestasse a quem não
tivesse, mas precisasse caçar algo para comer.
Certamente ainda teríamos que negociar quando discordássemos, mas
nossas negociações tomariam um rumo diferente. Há alguns anos, vi dois
desses homens — homens transformados — negociarem um lugar na fila de
um refeitório. Um deles, o mais jovem, tentou colocar o mais velho à sua
frente porque achava que o tempo do mais idoso era mais valioso que o seu.
Mas o mais velho recusou. Eles estavam negociando sua divergência
enquanto eu observava, cada qual determinado a deixar que o outro fosse
primeiro. Lembro-me de que o mais idoso venceu. Seu nome era Spencer W.
Kimball. O jovem provavelmente achava que o tempo do Presidente da Igreja
era mais precioso que o seu. Mas acho que o Presidente Kimball achava que
o jovem devia estar com mais fome. Houve divergência e negociação, mas
que tipo de divergência foi essa! Imaginem o sorriso que tinham no rosto
quando, juntos, encontraram o caminho da paz.
Ser instruído pode ajudar-nos a entender o que é melhor para nossos
irmãos e o que é melhor para nós e pode ajudar-nos a saber como gerar e
proporcionar essas coisas. Os frutos da ciência e de outros campos do saber
hoje enriquecem nossa vida de formas que nossos antepassados, mesmo há
poucas gerações, não poderiam nem imaginar. Grande parte disso vem graças
às pessoas que se sacrificaram e perseveraram para adquirir instrução e,
depois, usaram seus conhecimentos a serviço do próximo.
Mas saber o que é melhor para nós e ter o conhecimento necessário para
produzir essas coisas não fazem necessariamente com que passemos a desejar
o bem do próximo tanto quanto desejamos o que é de nosso próprio interesse.
Essa é a transformação essencial; e somente uma educação muito especial e
rara, aquela que o Salvador Jesus Cristo oferece, é capaz de operá-la no
coração humano. E é disso que precisamos em nós mesmos, na família, no
bairro e no mundo.
Pois bem, nós, santos dos últimos dias, devemos promover a paz. Vocês
devem-se lembrar de que o Senhor disse: “Portanto renunciai à guerra e
proclamai a paz” (Doutrina e Convênios 98:16).
Portanto devemos estudar e, depois, apoiar qualquer coisa que reduza a
guerra e a violência, mas, de todas as propostas que podemos ponderar,
apenas uma vai ao cerne do que é necessário para a paz. Prestem atenção na
frase seguinte em Doutrina e Convênios, depois da ordem divina de renunciar
à guerra e proclamar a paz. São somente algumas palavras — a alguns, pode
até parecer que não têm relação com o que veio antes, mas elas nos dizem
onde procurar o caminho para a paz. Esta é a frase completa:
“Portanto renunciai à guerra e proclamai a paz; e procurai
diligentemente voltar o coração dos filhos para seus pais e o coração dos pais
para os filhos” (Doutrina e Convênios 98:16).
O caminho para longe das guerras e da violência e em direção à paz está
na transformação dos corações. E sabiamente começamos voltando nossos
sentimentos a outras pessoas — àquelas mais próximas de nós, àquelas a
quem devemos mais, àquelas de quem dependemos e em quem confiamos
mais e àquelas cuja companhia nos é mais desejável.
Por mais esforço, reflexão e cuidado que dediquemos à busca da paz,
não devemos nunca deixar de buscar maneiras de transformar corações. E o
ponto de partida é bem pertinho, com nosso próprio coração e com o coração
das pessoas que estão mais próximas de nós.
Mais do que isso, conhecemos o caminho a percorrer para encontrar a
paz, porque foi-nos ensinado por Deus, por meio de Seus servos. Nenhum
caminho leva à paz, seja individual ou mundial, a não ser que nos afaste dos
efeitos do pecado e da influência de Satanás. Satanás sempre ensinou o ser
humano a conquistar o que quiser pela força, tirando outras vidas. Gosto da
maneira franca com que John Taylor, um Presidente da Igreja desta
dispensação, nos indicou o rumo a seguir. Ele disse:
“A paz é um dom de Deus. Querem ter paz? Acheguem-se a Deus.
Querem que haja paz na sua família? Acheguem-se a Deus. Querem que a
paz envolva sua família? Se quiserem, vivam de acordo com sua religião e
terão a paz de Deus e ela permanecerá com vocês, pois essa é a origem da paz
e ela não permanece em nenhum outro lugar” (Journal of Discourses, 26
vols., 1854–1886, vol. 10, p. 56).
Quando o Presidente Taylor nos exorta a dirigir-nos a Deus para
encontrar a paz, o que ele está dizendo que façamos é muito mais do que
simplesmente orar pedindo paz. A mudança em nossos desejos, a
transformação que trará a paz ao nosso coração e entre as pessoas é o fruto
natural da atuação da Expiação de Jesus Cristo em nossa vida. O Presidente
Spencer W. Kimball descreveu nossa paz interior desta maneira:
“A essência do milagre do perdão é que proporciona a paz à alma
anteriormente angustiada, intranquila, frustrada e aflita. Num mundo de
agitação e contenda essa é sem dúvida uma dádiva inestimável” (O Milagre
do Perdão, 1999, p. 363).
Poucas páginas depois, ele escreveu, quase como se estivesse explicando
como seguir as instruções do Presidente Taylor:
“Não é fácil estar em paz no mundo agitado de hoje. A paz, sem
qualquer dúvida, é uma aquisição pessoal (…), ela só pode ser conseguida
mantendo-se uma atitude de arrependimento constante, buscando perdão dos
pecados pequenos e grandes, e assim aproximando-se cada vez mais de Deus.
Para os membros da Igreja, essa é a essência da preparação que devem fazer,
a fim de estarem prontos para encontrar o Salvador quando Ele vier” (O
Milagre do Perdão, p. 366).
A maneira como essa purificação dos pecados muda nosso coração e
leva-nos para mais perto de Deus é descrita de várias formas nas escrituras,
mas uma me parece mais clara em dizer-nos o que fazer para ajudar os outros
a desejarem essa mudança e, depois, decidirem fazê-la. É como se fosse uma
lista de instruções muito simples, que podemos seguir:
“E o primeiro fruto do arrependimento é o batismo; e o batismo vem
pela fé, para cumprirem-se os mandamentos; e o cumprimento dos
mandamentos traz remissão de pecados.
E a remissão de pecados traz mansidão e humildade; e a mansidão e a
humildade resultam na presença do Espírito Santo, o Consolador, que nos
enche de esperança e perfeito amor, amor que se conserva pela diligência na
oração até que venha o fim, quando todos os santos habitarão com Deus”
(Morôni 8:25–26).
Essas palavras merecem ser lembradas. A remissão dos pecados traz
mansidão e humildade. Por isso, recebemos o Espírito Santo, que nos dá
esperança e o amor perfeito. E esse amor — se pedirmos sempre a Deus com
bastante fé e sinceridade — permanecerá conosco em meio a todas as
dificuldades e todo o ódio que venhamos a enfrentar. E, depois, viveremos
com Deus.
Agora, com esse esclarecimento, uma das passagens de Isaías, que às
vezes lemos muito superficialmente porque achamos que não vamos entendê-
la, faz todo o sentido: “E o efeito da justiça será paz, e a operação da justiça,
repouso e segurança para sempre” (Isaías 32:17).
Mas vocês poderiam muito bem perguntar: “Mas será que tenho que
esperar até que eu e as pessoas ao meu redor sejamos perfeitos para viver em
paz?” Imagino que de certa forma a resposta é “sim” se quiserem dizer viver
em perfeita paz, mas há uma resposta mais otimista e que é verdadeira. É a
seguinte: Foi-nos prometido que poderíamos ter paz nesta vida antes de
sermos perfeitos. Vocês devem estar lembrados de como o prefácio do Livro
de Mórmon descreve sua mensagem mais importante:
“O acontecimento de maior relevância registrado no Livro de Mórmon é
o ministério pessoal do Senhor Jesus Cristo entre os nefitas, logo após sua
ressurreição. O livro expõe as doutrinas do evangelho, delineia o plano de
salvação e explica aos homens o que devem fazer para ganhar paz nesta vida
e salvação eterna no mundo vindouro” (Introdução, parágrafo 3).
Testifico a vocês que podem experimentar a paz nesta vida. Deus nos
concede a paz ao caminharmos pela estrada que leva à perfeição. Vou dizer-
lhes como sei de algumas coisas que podem fazer para tornar mais provável
que as pessoas à sua volta encontrem a paz que o evangelho traz. O motivo
pelo qual posso fazer isso é que as pessoas à minha volta me ajudaram a fazer
escolhas que me ajudaram a mudar e deram-me paz. Agora, para ser honesto
com vocês, também sei o que recomendar-lhes porque, quando aquelas
pessoas à minha volta não fizeram o que vou dizer-lhes, houve menos paz e,
algumas vezes, houve tristeza para mim. Não foi porque as pessoas me
fizeram infeliz, mas porque sem essas influências de que vamos falar,
diminuiu a probabilidade de eu fazer as escolhas que me dariam paz.
Posso imaginar uma pergunta se formando na mente de vocês. É mais ou
menos assim: “Espere aí, irmão Eyring, o senhor está dizendo que a minha
obediência ao evangelho depende das pessoas à minha volta? O senhor não
sabe que estou praticamente na luta para viver o evangelho?”
Sei que muitos de vocês se esforçam com pouca ajuda de outras pessoas.
Não, é claro que nós não dependemos, nem vocês, nem eu, de ter pessoas à
nossa volta para ajudar-nos. Todos somos responsáveis por nossas escolhas.
E Deus não vai deixar-nos tão desamparados que não consigamos viver o
evangelho de Jesus Cristo. Ele nunca dá um mandamento sem antes preparar
o caminho pelo qual é possível cumpri-lo. E eu penso como vocês: Quero ser
forte o suficiente para resistir sozinho quando necessário. Mas que bênção
cada um de nós pode ser se tentarmos abençoar aqueles que nos rodeiam!
Testifico que sua força para resistir sozinhos, para viver o evangelho de Jesus
Cristo em situações difíceis, aumentará à medida que tentarem ajudar outras
pessoas a vivê-lo. Então se sentirão menos sozinhos.
Não é difícil saber o que fazer para ajudar. As pessoas precisam fazer
algumas coisas que são fáceis de dizer, mas difíceis de fazer: Primeiro,
precisam ter fé no Senhor Jesus Cristo; segundo, arrepender-se, com o
coração quebrantado e o espírito contrito; terceiro, aceitar as ordenanças do
evangelho de Jesus Cristo e, quarto, obter a companhia constante do Espírito
Santo. Vocês sabem e eu testifico a vocês que, a partir dessas coisas simples,
virá com o tempo a grande transformação e, com ela, a esperança de vida
eterna no mundo vindouro.
Vamos começar ajudando as pessoas a ter mais fé: O que vocês
poderiam fazer para tornar mais provável que alguém com quem se têm
contato exerça fé no Senhor Jesus Cristo? Uma das maneiras é por meio do
exemplo, e ver o exemplo de outros foi o que mais me motivou a exercer fé.
Vocês e eu já vimos grandes demonstrações de fé. Vocês viram jovens
decidirem sair em missão quando tanto a família e como as circunstâncias
tornavam isso mais difícil. Talvez um deles tenha sido seu companheiro.
Vocês já viram uma criança, já perto do fim de um dia de jejum, observar
atentamente a preparação do jantar. E então lhes ocorreu que ela jejuou por
24 horas porque ama o Salvador, sem ninguém mandar e sem reclamar. Já
viram pais no funeral de um filho, com lágrimas o rosto banhado em
lágrimas, agradecerem-lhes a gentileza de terem comparecido. Talvez tenham
sussurrado para vocês: “Estamos bem. Sabemos que estaremos juntos
novamente”. Vocês se lembram de seu sorriso tanto quanto de suas palavras e
sentiram a fé que eles tinham.
Vocês podem ser o exemplo que tornará mais provável que as pessoas a
sua volta decidam exercer fé no Senhor Jesus Cristo. Há pelo menos uma
maneira simples de decidir o que fazer e, a propósito, vocês não precisam
planejar ser observados. Nem venham com a ideia de fazer as coisas para ser
vistos. Para começar, basta isto: Façam a si mesmos esta pergunta: “O que o
Senhor gostaria que eu fizesse e que venho adiando porque acho difícil?”
Facilmente pensarão em várias coisas. Não precisam ser difíceis para
ninguém mais, só para vocês. Depois escolham um item da lista e façam.
Vocês podem até tentar não ser observados. As pessoas que vivem e
trabalham a seu lado percebem mais do que vocês imaginam. Elas perceberão
que vocês, por terem fé em Jesus Cristo, estão fazendo algo que exige
sacrifício, e isso aumentará a probabilidade de elas mesmas agirem movidas
pela fé.
Haverá momentos em que o melhor será vocês prestarem testemunho do
Salvador com palavras. Isso pode edificar a fé. Embora devam prestar esse
testemunho a seu modo quando forem inspirados, vou dizer-lhes o que mais
me ajuda. Sinto meu coração repleto de fé quando a pessoa que fala expressa
ao mesmo tempo convicção e amor. É o comportamento da pessoa que fala,
mais do que a emoção em sua voz, que transmite essa convicção. Portanto,
seu exemplo pode transmitir mais convicção do que suas palavras, mas, como
meu coração precisa voltar-se para o Salvador, o que mais me ajuda é quando
suas palavras demonstram que vocês sabem o quanto o Salvador os ama e o
quanto Ele me ama. Isso faz com que eu me sinta mais próximo Dele, e isso é
o que preciso para ter fé suficiente para querer arrepender-me e sentir que
serei perdoado.
Vocês podem ter certeza disto: Quando as pessoas começam a sentir
verdadeira fé em Jesus Cristo, começam a entristecer-se ao pecar. Não
podemos fazer outra pessoa arrepender-se, mas podemos ajudá-la a ter o
desejo de arrepender-se sinceramente. As pessoas que me ajudaram mais
foram aquelas que pediram meu perdão como se isso fosse importante para
elas e que me perdoaram facilmente quando as ofendi. Já notei como talvez
vocês também tenham notado que tal ajuda na maioria das vezes vem das
crianças. Vocês não ficam comovidos quando veem uma criança perdoar tão
facilmente? Ou quando uma lhes diz com a voz embargada: “Desculpe,
papai. O senhor me perdoa?”
Acho que o motivo por que essa atitude vinda de uma criancinha cala
tão forte em meu peito é porque me faz querer ser como elas — puro. E essa
simples reflexão dá início a uma análise interior que muitas vezes leva-nos a
pedir perdão tanto a quem ofendemos como a Deus.
A maioria de nós precisa ser perdoada com frequência de falhas que
esperamos que sejam pequenas e corrigidas logo. É muito difícil pedir
perdão, seja a Deus ou a outras pessoas, mas, quando alguém próximo de
vocês começar a sentir o desejo de arrepender-se de pecados maiores e mais
graves, há outra coisa que vocês podem fazer para ajudar. Precisam começar
cedo, muito antes que essas pessoas sintam a necessidade do perdão,
e o motivo é este simples fato: O perdão de infrações graves exige tanto
o perdão do Senhor como dos servos do Senhor em Sua Igreja, a quem Ele
chama “juízes de Israel”. Vocês devem estar lembrados de como, em Mosias,
esses servos foram instruídos a lidar com os casos de arrependimento:
“Digo-te, portanto: Vai; e o que transgredir contra mim, julgarás de
acordo com os pecados que houver cometido; e se confessar seus pecados
diante de ti e de mim e arrepender-se com sinceridade de coração, tu o
perdoarás e eu também o perdoarei.
Sim, e tantas vezes quantas o meu povo se arrepender, perdoá-lo-ei de
suas ofensas contra mim” (Mosias 26:29–30).
Com isso, vocês podem ver o que poderiam começar a fazer. E quanto
mais cedo melhor. Vocês poderiam procurar hoje elementos que confirmem
seu testemunho de que o bispo, o presidente de sua estaca ou algum outro
servo de Deus na Igreja é inspirado. E vocês poderiam encontrar um
momento para falar disso a alguém de seu relacionamento. Digo-lhes que, se
continuarem a agir assim por longo tempo, suas palavras pode vir a ser a
chave para que, algum dia, a pessoa com quem conversaram encontre a paz.
Sempre será difícil, mesmo para quem tem fé e quer muito se livrar do
peso de um pecado grave, ir até o bispo, uma pessoa comum, para confessar o
pecado e pedir perdão. Pode ser mais difícil ainda aceitar a decisão de
suspender um privilégio ou até a condição de membro da Igreja, tomada por
inspiração pelo bispo ou presidente da estaca com o fim de ajudar alguém que
amamos a conquistar o perdão e encontrar a paz. Se vocês falarem cedo e
com frequência sobre sua fé no ofício e no chamado dos servos de Deus, de
preferência daqueles que vocês conhecem bem, e se falarem de sua sincera
confiança de que esses são servos inspirados, algum dia isso fará muita
diferença para alguém. A pessoa que vocês abençoarem dessa forma ficará
mais propensa a escolher o arrependimento e a remissão dos pecados.
Vocês sabem qual o próximo passo no caminho que nos leva a Deus e à
paz: o batismo. Para alguém que ainda não é batizado ou que perdeu sua
condição de membro, essa ordenança é necessária para que a Expiação atue e
opere uma vigorosa mudança em seu coração. Mas mesmo quem está na
Igreja precisa colocar os efeitos do batismo em ação na própria vida
frequentemente. Vocês podem pensar em mais formas de ajudar do que eu
poderia mencionar, mas lhes darei duas sugestões que ouvi de outras pessoas.
Talvez lhes pareçam coisas comuns, mas elas têm um efeito extraordinário.
As pessoas ao meu redor me mostraram, pelo exemplo, o quanto honram
e valorizam os convênios. Outros tiveram essa mesma bênção. Lembro-me de
ouvir o Presidente Ezra Taft Benson contar que observava a mãe passar
cuidadosamente as roupas do templo e que observava os pais saírem de carro
para ir ao Templo de Logan. Não sei o quanto seus pais precisavam dizer em
palavras sobre o valor dos convênios do templo. Não é preciso dizer muito
para ajudar as pessoas ao nosso redor a valorizar os convênios a ponto de
sentirem a remissão dos pecados que Deus promete àqueles que os guardam.
Vocês podem mostrar o quanto valorizam o convênio batismal pela
regularidade e pela atenção com que o renovam. Vocês podem estar presentes
para tomar o sacramento quando lhes for oferecido, sejam quais forem seus
compromissos e as pressões que enfrentem. Toda semana, façam o que o
Senhor ordenou na seção 59 de Doutrina e Convênios, versículo 9: “E para
que mais plenamente te conserves limpo das manchas do mundo, irás à casa
de oração e oferecerás teus sacramentos no meu dia santificado”.
E no versículo 12, Ele disse: “Lembra-te, porém, de que no dia do
Senhor oferecerás tuas oblações e teus sacramentos ao Altíssimo,
confessando teus pecados a teus irmãos e perante o Senhor”.
A orações sacramentais foram ditadas pelo próprio Senhor para lembrar-
nos dos convênios do evangelho que fizemos. O fato de estarem lá todo
domingo para tomar o sacramento vai fazer diferença para as pessoas
próximas a vocês. E há outra maneira de mostrarem que valorizam esses
convênios. Eis o que Alma afirma que vocês prometeram quando fizeram o
convênio do batismo:
“Sim, e estais dispostos a chorar com os que choram; sim, e consolar os
que necessitam de consolo e servir de testemunhas de Deus em todos os
momentos e em todas as coisas e em todos os lugares em que vos encontreis,
mesmo até a morte; para que sejais redimidos por Deus e contados com os da
primeira ressurreição, para que tenhais a vida eterna” (Mosias 18:9).
Muitos de vocês, e alguns de minha família, mostraram-me o que
significa acreditar nesse convênio e honrá-lo. Alguns trabalharam duro para
tirar carvão de um porão e colocar em outro para alguém, outros construíram
casas para os desabrigados, outros consertaram uma secadora quebrada e
enferrujada no apartamento de uma mãe que criava seus filhos sozinha,
outros ensinaram criancinhas e assim por diante — confortando os que
precisavam, como prometeram que fariam, e o fizeram quando eu não
conseguia ver como encaixariam mais coisa alguma em suas agendas lotadas.
Ah, e como vocês me ajudaram levando um Livro de Mórmon sempre que
viajavam e, depois, vindo contar-me com entusiasmo que o livro foi aceito.
Por causa de vocês, esforço-me cada vez mais para servir de testemunha em
todos os momentos, em todas as coisas e em todos os lugares que eu esteja.
Agora, ouçam o final daquele convite ao convênio do batismo. Ouçam o
que Deus promete àqueles que honram esse convênio:
“Agora vos digo que, se for este o desejo de vosso coração, o que vos
impede de serdes batizados em nome do Senhor, como um testemunho,
perante ele, de que haveis feito convênio com ele de servi-lo e guardar seus
mandamentos, para que ele possa derramar seu Espírito com mais abundância
sobre vós?” (Mosias 18:10.)
Vocês sabem que a transformação e a paz que buscamos vêm somente
sob a influência do Espírito Santo. Lembrem-se de como esse maravilhoso
processo se dá, porque nos diz algo sobre como ajudar os outros. Vocês se
lembram que foi descrito desta maneira em Morôni:
“E a remissão de pecados traz mansidão e humildade; e a mansidão e a
humildade resultam na presença do Espírito Santo, o Consolador, que nos
enche de esperança e perfeito amor” (Morôni 8:26).
Pensem nisto — o efeito de sentir o perdão é sentir-se manso e humilde.
E é isso o que, então, permite que tenhamos a companhia do Espírito Santo.
Por um lado, é preciso ser manso e humilde para receber o Espírito Santo e,
por outro, o efeito de Sua visitação é tornar-nos mansos e humildes. Uma
passagem de Gálatas traz uma sugestão do que podemos fazer para ajudar
outra pessoa a acolher o Espírito Santo. A passagem descreve aquilo que a
companhia do Espírito Santo nos traz:
“Mas o fruto do Espírito é: amor, gozo, paz, longanimidade,
benignidade, bondade, fé,
mansidão, temperança. Contra estas coisas não há lei.
E os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e
concupiscências.
Se vivemos em Espírito, andemos também em Espírito.
Não sejamos cobiçosos de vanglórias, irritando-nos uns aos outros,
invejando-nos uns aos outros” (Gálatas 5:22–26).
Vi e senti como as pessoas ao meu redor me ajudaram a acolher o
Espírito Santo com mais frequência na vida. Lá em casa, quando faço algo
por vaidade, só para aparecer ou para ser elogiado, ninguém me dá atenção.
Mesmo quando provoco, eles não devolvem a provocação. E nunca sinto ou
vejo inveja, pelo menos não dos mais íntimos. Não sei o quanto de tudo isso é
consciente. Talvez seja somente porque eles sabem, assim como vocês, que
quando sou manso, humilde e calmo, fica mais fácil para mim ter a
companhia do Espírito Santo. E porque me amam, querem isso para mim.
Vocês podem levar em consideração outra coisa que poderiam fazer para
ajudar aqueles que os rodeiam a ter o Espírito Santo como companheiro. Não
sei que tipo de quadros vocês têm pendurados em sua sala ou seu quarto. Não
sei que músicas vocês tocam nem que revistas vocês têm por perto para os
outros verem ou lerem. Mas tive a bênção de ter ao meu redor pessoas que
parecem fazer essas escolhas, talvez inconscientemente, como se quisessem
que todas as imagens e todos os sons me ajudassem a sentir e manter o
sentimento de amor, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fé,
mansidão e temperança. Nem por isso meu lar é um lugar maçante como
talvez imaginem. Senti e sinto o Espírito Santo com mais frequência por
causa das músicas, das gravuras e das palavras impressas, escolhidas pelas
pessoas à minha volta. Vocês poderiam ajudar alguém dessa mesma maneira
e poderiam começar hoje.
Vocês certamente vão encontrar mais formas do que eu sugeri de ajudar
as pessoas a ter fé, arrepender-se, fazer e guardar os convênios e acolher o
Espírito Santo, mas é importante que sejam realistas quanto aos resultados
que esperam obter.
Talvez certas pessoas os rejeitem, talvez até fiquem com raiva de vocês.
Agora, vocês poderiam bem perguntar: “Espere aí, o senhor disse que
poderíamos promover a paz; e, quando tento, recebo guerra em troca! Como
pode ser?”
Primeiro, não vão sentir-se injustiçados, achando que só acontece com
vocês, porque isso acontece com todos nós. Lembro-me de ver meus
meninos, no chão, dando pontapés uns nos outros bem na minha frente
durante nossa noite familiar enquanto eu dava uma lição sobre paz na família.
Na verdade, é isso mesmo que acontece, falar de paz atrai briga. Eles me
ouviram e me entenderam, mas não era de hoje que faziam aquilo, eles já
davam pontapés uns nos outros muito tempo antes de eu dar aquela aula.
Agora, anos depois, atravessam meio mundo se preciso for para ajudarem-se
uns aos outros. Mas essa mudança leva tempo, portanto sejam pacientes e
persistentes.
Existem técnicas para trazer rápidos e breves períodos de paz em
família, assim como acontece em cidades e entre nações. Recomendo
qualquer uma dessas técnicas que funcione e não interfira no processo de
mudança que nos dará paz nesta vida e na vida eterna no mundo vindouro.
Mas a mudança que precisamos, a grande e permanente mudança que
precisamos, leva algum tempo. Dá para sentir a paciência que precisamos
nestas palavras ditas a Alma. Elas nos dão uma ideia da magnitude da
mudança que pode vir das coisas simples e pequenas sobre as quais
conversamos. É preciso lembrar-nos de como são simples as coisas que
temos a fazer e de quão grande é a mudança prometida. Testifico a vocês
agora que isso é verdade.
“E o Senhor disse-me: Não te admires de que toda a humanidade, sim,
homens e mulheres, toda nação, língua, tribo e povo tenham de nascer de
novo; sim, nascer de Deus, serem mudados de seu estado carnal e decaído
para um estado de retidão, sendo redimidos por Deus, tornando-se seus filhos
e filhas;
E tornam-se, assim, novas criaturas; e a menos que façam isto, não
poderão de modo algum herdar o reino de Deus” (Mosias 27:25–26).
É de se esperar que isso leve tempo e esforço, e é de se esperar que
ocorram contratempos ao longo do caminho. Por um lado, nem todo o ódio
vem do pecado. Em parte, o ódio é transmitido a nós por tradição. Vocês
devem-se lembrar do que Jacó disse aos nefitas que estavam caindo em
pecado. Ele disse que os lamanitas eram mais justos do que eles e que os
lamanitas somente os odiavam por causa das tradições que lhes foram
transmitidas. Mesmo diante do poder do evangelho, o hábito do ódio muitas
vezes só morre aos poucos.
Mas quero incentivá-los com algo garantido. Em primeiro lugar, por
maiores que tenham sido o tumulto e a violência com que tiveram de
conviver, seus anseios espirituais, que vêm do Pai de seu espírito, são pela
paz. Por mais duros e insensíveis que tenham se tornado, talvez só para
conseguir sobreviver, o que vocês realmente querem é um coração suavizado
pelo evangelho. E essa transformação no coração das pessoas próximas a
vocês lhes dará paz, tanto a elas como às pessoas que as rodeiam.
E ao ajudarem as pessoas a viver o evangelho de Jesus Cristo, esse
evangelho também age em vocês. Achegamo-nos a Cristo e nos tornamos
mais semelhantes a Ele à medida que convidamos outros a achegarem-se a
Ele. Quando nos tornamos pacificadores, oferecendo a outros o evangelho de
Jesus Cristo, esse mesmo poder também nos transforma. Isso pode ajudá-los
a entender uma escritura que é parte da promessa feita a vocês. O Salvador
sempre faz a Seus discípulos esta promessa, que Ele repetiu em 3 Néfi da
mesma forma e com as mesmas palavras que a fizera em seu ministério
mortal em Jerusalém: “E bem-aventurados são todos os pacificadores, porque
eles serão chamados filhos de Deus” (3 Néfi 12:9).
Ao ler isso, quando menino, fiquei intrigado com essa promessa.
Lembrem-se de que Ele prometeu aos humildes que eles herdariam a terra e
que os puros de coração veriam a Deus. A promessa de ser chamado de filho
de Deus por ser pacificador não me parecia lá muito gloriosa, mas agora
vocês e eu vemos que a promessa não só é gloriosa como é garantida.
Aqueles que terão a vida eterna são os filhos de Deus. O coração desses
filhos de Deus é necessariamente como o das criancinhas, e o nosso passará a
sê-lo à medida que semearmos a paz no coração das pessoas que nos
rodeiam.
Chegamos com isso a outra coisa que pode incentivá-los. Talvez
duvidem que possam ter grande influência sobre as pessoas ao seu redor, mas
vocês terão ajuda. Quando receberam o evangelho, foi-lhes prometido que
teriam ajuda ao estenderem a mão para ajudar o próximo. O Senhor fez uma
promessa aos 12 discípulos que escolheu nas Américas, depois da Sua
ressurreição. Explicou-lhes seu papel e fez-lhes uma promessa: “Vós sois
meus discípulos; e sois uma luz para esse povo” (3 Néfi 15:12).
Testifico que Deus os conhece, que não é por acaso que encontraram o
evangelho de Jesus Cristo e Sua Igreja restaurada. Ele Se importa com as
pessoas que os cercam e Ele ama vocês. Vocês são discípulos Dele, o que
significa que são uma luz para as pessoas. Quando agem com fé para levar o
evangelho e a paz àqueles que estão a sua volta, a luz que brilhará sobre eles
excederá o seu exemplo e as suas palavras. Eles sentirão a luz do Salvador e
ela os aproximará Dele. Vocês terão apontado o caminho que o Presidente
Taylor disse que era preciso seguir. Lembram-se do que ele disse? “A paz é
um dom de Deus. Querem ter paz? Acheguem-se a Deus. Querem que haja
paz na sua família? Acheguem-se a Deus”.
Testifico a vocês que Deus vive, que Jesus é o Cristo. Testifico que, por
meio do Profeta Joseph Smith e de cada um dos profetas que o seguiram, veio
o poder que nos proporciona ordenanças que, se honradas, levam a uma
grande transformação e proporcionam a paz nesta vida e a vida eterna no
mundo vindouro. Peço em oração que vocês semeiem a paz e, assim, como
pacificadores, tornem-se filhos de Deus.
Fé e Chaves
Em uma capela que fica bem longe de Salt Lake City, num lugar que
raramente recebe a visita de um membro do Quórum dos Doze, um pai veio
falar comigo. Ele segurava a mão de seu filhinho. Quando se aproximaram,
ele olhou para o menino, chamou-o pelo nome e disse, apontando para mim
com a cabeça: “Ele é um apóstolo”. Percebi pelo tom de voz do pai que ele
esperava que o filho sentisse algo mais do que sentiria se estivesse
conhecendo apenas um visitante ilustre. Ele esperava que o filho sentisse a
convicção de que as chaves do sacerdócio estavam na Terra, na Igreja do
Senhor. O filho precisará dessa convicção muitas vezes na vida. Ele precisará
dela quando abrir a carta de algum futuro profeta que ele nunca terá visto,
chamando-o para uma missão. Precisará dela quando tiver que sepultar um
filho, a esposa ou um de seus pais. Precisará dela para ter a coragem de seguir
o mandamento de servir. Precisará dela para ter a paz e o consolo que
sentimos quando confiamos no poder selador que une para sempre.
Os missionários convidam hoje os pesquisadores a conhecerem o bispo
ou o presidente do ramo com essa mesma intenção. Eles esperam que os
pesquisadores sintam algo bem maior do que sentiriam se tivessem conhecido
um bom homem ou mesmo um homem ilustre. Eles oram pedindo que os
pesquisadores sintam a convicção de que aquele homem aparentemente
comum tem as chaves do sacerdócio na Igreja do Senhor. Os pesquisadores
precisarão dessa convicção quando entrarem nas águas do batismo.
Precisarão dela quando pagarem o dízimo. Precisarão dessa convicção
quando o bispo for inspirado a dar-lhes um chamado. Precisarão dela quando
o virem presidir a reunião sacramental e quando ele os nutrir, ensinando-lhes
o evangelho.
Portanto, os missionários, os pais e todos nós que servimos ao próximo
na Igreja verdadeira queremos ajudar aqueles que amamos a conseguir um
testemunho duradouro de que os servos do Senhor em Sua Igreja têm as
chaves do sacerdócio. Isso fica mais fácil se reconhecermos algumas coisas.
Primeiro, Deus é persistente e generoso em oferecer as bênçãos do poder do
sacerdócio a Seus filhos. Segundo, Seus filhos precisam decidir por si
próprios que vão qualificar-se para essas bênçãos e recebê-las. E terceiro,
Satanás, o inimigo da retidão, desde o princípio, vem tentando destruir a fé
necessária que precisamos ter para receber as bênçãos proporcionadas pelo
poder do sacerdócio.
Aprendi essas verdades com um sábio professor há mais de 30 anos.
Falei num antigo teatro em Éfeso. A luz brilhante do sol inundava o local em
que, um dia, o Apóstolo Paulo pregou o evangelho. O tema de meu discurso
era Paulo, o apóstolo chamado por Deus.
O público era formado por centenas de santos dos últimos dias. Eles
estavam sentados nas fileiras de bancos de pedra em que os efésios se
sentaram mais de um milênio antes. Entre eles havia dois apóstolos vivos, o
Élder Mark E. Petersen e o Élder James E. Faust.
Como podem imaginar, eu havia me preparado muito bem. Tinha lido o
livro dos Atos dos Apóstolos e as epístolas, tanto as de Paulo como as dos
outros apóstolos. Eu tinha lido e ponderado a Epístola de Paulo aos efésios.
Procurei fazer o melhor que pude para honrar Paulo e seu ofício. Depois
do discurso, várias pessoas me cumprimentaram gentilmente. Os dois
apóstolos vivos foram muito generosos em seus comentários. Mais tarde,
porém, o Élder Faust me chamou de lado e, com um sorriso no rosto e muita
brandura na voz, disse: “Foi um bom discurso, mas você deixou de
mencionar a coisa mais importante que poderia ter dito”.
Perguntei a ele o que era. Semanas depois, ele concordou em dizer-me.
Sua resposta até hoje serve-me de lição.
Ele disse que eu poderia ter dito às pessoas que, se os santos que
ouviram Paulo falar tivessem um testemunho da importância e do poder das
chaves que ele possuía, talvez os apóstolos não tivessem sido tirados da
Terra.
Isso me fez pensar novamente na carta de Paulo aos efésios. Percebi que
Paulo queria que as pessoas sentissem a importância da corrente de chaves do
sacerdócio que vinham desde o Senhor, passando por Seus apóstolos, até
eles, os membros da Igreja do Senhor. Paulo estava tentando gerar neles um
testemunho daquelas chaves.
Paulo testificou aos efésios que Cristo era o Cabeça de Sua Igreja. E
ensinou que o Salvador edificou a Sua Igreja sobre um alicerce de apóstolos e
profetas, que portam todas as chaves do sacerdócio.
Apesar da clareza e do vigor de seus ensinamentos e de seu exemplo,
Paulo sabia que haveria uma apostasia. Ele sabia que os apóstolos e profetas
seriam tirados da Terra e também sabia que, num dia grandioso, no futuro,
eles seriam chamados novamente. Em seus escritos, ele descreveu naquela
época aos efésios e disse-lhes o que o Senhor faria: “[Tornará] a congregar
em Cristo todas as coisas, na dispensação da plenitude dos tempos, tanto as
que estão nos céus como as que estão na terra” (Efésios 1:10).
Paulo aguardava o ministério do Profeta Joseph Smith quando os céus se
abririam novamente. Isso aconteceu. João Batista veio e conferiu a mortais o
sacerdócio de Aarão e as chaves da ministração dos anjos e do batismo por
imersão para a remissão de pecados.
Apóstolos e profetas antigos voltaram e conferiram a Joseph as chaves
que portavam na mortalidade. Homens mortais foram ordenados ao santo
apostolado em fevereiro de 1835. As chaves do sacerdócio foram dadas aos
Doze Apóstolos no final de março de 1844.
O Profeta Joseph Smith sabia que sua morte era iminente. Ele sabia que
as preciosas chaves do sacerdócio e o apostolado não podiam e não seriam
perdidos novamente.
Um dos apóstolos, Wilford Woodruff, deixou-nos este relato do que
aconteceu em Nauvoo quando o Profeta falou aos Doze:
“Naquela ocasião, o Profeta Joseph levantou-se e disse-nos: ‘Irmãos,
desejaria estar vivo para ver este templo construído. Não viverei para vê-lo,
mas vocês viverão. Selei sobre sua cabeça todas as chaves do reino de Deus.
Selei sobre vocês todas as chaves, os poderes e os princípios que o Deus do
céu me revelou. Agora, onde quer que eu vá ou o que quer que eu faça, o
reino continuará com vocês’” (“As Chaves do Reino”, A Liahona, abril de
2004, p. 41).
Todo profeta que veio depois de Joseph, desde Brigham Young até o
Presidente Thomas S. Monson, recebeu e exerceu essas chaves e recebeu o
santo apostolado.
Mas, tal como na época de Paulo, para que o poder dessas chaves do
sacerdócio tenha efeito sobre nós, precisamos ter fé. Temos que saber, por
inspiração, que as chaves do sacerdócio estão com aqueles que nos lideram e
servem. Isso exige o testemunho do Espírito.
E esse testemunho, por sua vez, depende de nosso testemunho de que
Jesus é o Cristo e de que Ele vive e lidera esta Igreja. Precisamos também
saber por nós mesmos que o Senhor restaurou Sua Igreja e as chaves do
sacerdócio por intermédio do Profeta Joseph Smith. E precisamos, por meio
do Espírito Santo, ter sempre a revigorada certeza de que essas chaves foram
passadas sem interrupção para o profeta vivo e que o Senhor abençoa e dirige
Seu povo por meio da linha das chaves do sacerdócio, que chegam até nós
por meio dos presidentes de estaca e distrito, e por meio dos bispos e
presidentes de ramo, não importa onde estejamos e por mais distantes que nos
encontremos do profeta e dos apóstolos.
Isso não é fácil hoje em dia. Não era fácil nos dias de Paulo. Sempre foi
difícil reconhecer em seres humanos imperfeitos os servos autorizados por
Deus. Muitos deviam achar que Paulo era um homem comum. Alguns
achavam que a natureza alegre de Joseph Smith não condizia com aquilo que
esperavam de um profeta de Deus.
Satanás sempre trabalhará para fazer com que os santos de Deus percam
sua fé nas chaves do sacerdócio. Uma maneira pela qual ele faz isso é apontar
as falhas humanas dos portadores dessas chaves. Desse modo, ele pode
enfraquecer nosso testemunho e afastar-nos da linha de chaves com a qual o
Senhor nos une a Ele, as quais podem levar-nos com nossa família de volta
para viver com Ele e com nosso Pai Celestial.
Satanás teve sucesso em destruir o testemunho de homens que, junto
com Joseph Smith, viram os céus abertos e ouviram a voz de anjos. A prova
irrefutável de seus olhos e ouvidos não foi suficiente quando deixou de arder
em seu peito o testemunho de que as chaves do sacerdócio ainda estavam
com Joseph.
A advertência para nós é bem clara. Se procurarmos fraquezas humanas
nos seres humanos, sempre as encontraremos. Se nos concentrarmos em
procurar as fraquezas dos portadores das chaves do sacerdócio, estaremos
correndo um grande risco. Quando falamos dessas fraquezas para outras
pessoas ou escrevemos sobre elas, colocamos essas pessoas em risco.
Vivemos num mundo em que o esporte favorito parece ser procurar
defeitos no próximo. Há muito tempo, é nisso que se fundamentam as
estratégias utilizadas nas campanhas políticas. É o tema de muitos programas
de televisão em todo o mundo. Isso vende jornais. Sempre que conhecemos
alguém, nossa primeira reação, quase que inconscientemente, é procurarmos
suas imperfeições.
Para nos mantermos firmes na Igreja do Senhor, podemos e precisamos
treinar nossos olhos para reconhecer a mão do Senhor no trabalho realizado
por aqueles a quem Ele chamou. Precisamos ser dignos da companhia do
Espírito Santo. Precisamos orar pedindo que o Espírito Santo nos ajude a
saber que os homens que nos lideram têm esse poder. Para mim, muitas vezes
essas orações são respondidas quando me encontro plenamente envolvido no
serviço do Senhor.
Isso aconteceu em consequência de um grande desastre. Uma represa em
Idaho rompeu-se certo ano, em junho. As comunidades abaixo da barragem
foram atingidas por uma terrível enxurrada. Milhares de pessoas, em sua
maioria santos dos últimos dias, fugiram de suas casas para um lugar seguro.
Estive com aquelas pessoas quando enfrentavam a terrível tarefa de
reconstrução. Vi o presidente da estaca reunir os bispos para liderar o povo.
Nos primeiros dias, ficamos isolados, sem nenhuma supervisão de fora. Eu
estava na reunião dos líderes locais quando um dos diretores do órgão federal
responsável por prestar socorro em casos de catástrofe chegou.
Ele tentou assumir a liderança da reunião. Com grande ímpeto, ele
começou a citar uma série de coisas que disse que precisavam ser feitas.
Assim que ele lia um item, o presidente da estaca, que estava sentado
próximo dele, dizia brandamente: “Já fizemos isso”. Depois de continuar
fazendo isso por cinco ou dez minutos, o funcionário federal ficou quieto e
sentou-se. Ele ouviu em silêncio enquanto o presidente da estaca recebia os
relatórios dos bispos e dava instruções.
Na reunião do dia seguinte, o funcionário federal chegou cedo e sentou-
se no fundo da sala. O presidente da estaca deu início à reunião. Recebeu
outros relatórios e deu instruções. Depois de alguns minutos, o funcionário
federal que tinha vindo com toda a autoridade e os recursos de seu importante
órgão governamental perguntou: “Presidente Ricks, o que o senhor gostaria
que fizéssemos?”
Ele reconheceu a autoridade, mas vi mais do que isso. Vi a prova das
chaves e da fé que libera seu poder.
Aprendi, naquela ocasião e em outras depois dela, que as estacas de Sião
são locais seguros. Elas se tornam uma grande família, unida, cujos membros
cuidam uns dos outros. Isso acontece simplesmente pela fé.
Pela fé, seus membros são batizados e recebem o Espírito Santo. À
medida que continuam a guardar os mandamentos, essa dádiva torna-se
constante. São capazes de reconhecer coisas espirituais. Torna-se mais fácil
ver o poder de Deus operar por meio das pessoas comuns que Deus chama
para servir a eles e liderá-los. O coração das pessoas é abrandado. Pessoas
antes desconhecidas tornam-se concidadãs do reino do Senhor, unidas por
laços de amor.
Essa condição feliz não dura muito sem uma constante renovação da fé.
O bispo que amamos será desobrigado, bem como o presidente da estaca. Os
apóstolos a quem seguimos com fé serão levados de volta ao lar, para o Deus
que os chamou.
Essas contínuas mudanças trazem uma grande oportunidade. Podemos
agir de modo a qualificar-nos a receber as revelações que permitem que
saibamos que as chaves estão sendo passadas de uma pessoa para a outra por
Deus. Podemos procurar ter essa experiência repetidas vezes. E precisamos
fazê-lo para receber as bênçãos que Deus reservou para nós e que deseja que
ofereçamos a outros.
A resposta para suas orações provavelmente não será tão drástica como
a recebida por algumas pessoas que, em certa ocasião, viram Brigham Young
assumir, ao falar, a aparência do Profeta Joseph que havia sido assassinado.
Mas ela pode ser igualmente segura. E com essa segurança espiritual virão
paz e força. Vocês saberão novamente que esta é a Igreja verdadeira e viva do
Senhor, que Ele a lidera por meio de Seus servos ordenados e que Se
preocupa conosco.
Se um número suficientemente grande de nós exercer essa fé e receber
essa certeza, Deus elevará aqueles que nos lideram e assim abençoará nossa
vida e nossa família. Alcançaremos aquilo que Paulo tanto desejava para
aqueles a quem serviu, ou seja, seremos “edificados sobre o fundamento dos
apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina”
(Efésios 2:20).
Oh, Lembrai-vos, Lembrai-vos!
Quando nossos filhos eram pequenos, passei a anotar alguns
acontecimentos do nosso cotidiano. Vou contar como isso começou. Eu
voltava para casa tarde, após uma designação da Igreja. Já estava escuro e eu
me dirigia à porta da frente quando, surpreso, avistei meu sogro, que morava
perto de nós. Ele usava roupas de trabalho, andava a passo muito rápido e
levava ao ombro alguns canos. Eu sabia que ele estava construindo um
sistema para bombear água de um riacho próximo até a nossa propriedade.
Ele sorriu, cumprimentou-me em voz baixa e, apressado, seguiu
caminho no escuro para continuar o trabalho. Andei em direção à nossa casa,
pensando no que ele estava fazendo por nós e, assim que cheguei à porta,
ouvi mentalmente as seguintes palavras: “Essas experiências não são somente
para você. Anote-as”.
Entrei. Não fui me deitar, embora estivesse cansado. Peguei algumas
folhas e comecei a escrever. Ao fazê-lo, compreendi a mensagem que ouvira
mentalmente. Eu devia escrever para que meus filhos lessem no futuro como
eu vira a mão de Deus abençoar nossa família. O vovô não precisava fazer o
que estava fazendo por nós. Ele poderia ter delegado a tarefa para outra
pessoa ou simplesmente não ter feito nada. Mas ele estava servindo a nós, sua
família, como sempre fazem aqueles que, por convênio, são discípulos de
Jesus Cristo. Eu sabia que isso era verdade. Assim, registrei essas coisas para
que meus filhos se lembrassem um dia, quando precisassem.
Escrevi algumas linhas diariamente durante anos. Não falhei um único
dia, por mais cansado que estivesse nem por mais cedo que precisasse
acordar no dia seguinte. Antes de redigir, refletia sobre a pergunta: “Será que
hoje vi Deus estender a mão para nós, nossos filhos ou nossa família?” Com a
continuidade, algo começou a acontecer. Ao relembrar o dia, via evidências
do que Deus fizera por algum de nós e que eu não reconhecera nos momentos
mais atarefados. À medida que isso ocorria — e era com frequência —,
percebi que esse esforço de memória permitiria a Deus mostrar-me o que Ele
realizara.
Algo mais do que a simples gratidão começou a crescer em meu
coração. Meu testemunho aumentou, adquiri uma certeza ainda maior de que
o Pai Celestial ouve e responde a nossas orações, senti maior gratidão pelo
efeito enternecedor e purificador da Expiação do Salvador Jesus Cristo e
fiquei mais confiante de que o Espírito Santo pode fazer-nos lembrar de tudo,
até de coisas que não notamos ou que não nos chamaram a atenção quando
aconteceram.
Passaram-se os anos, meus meninos hoje são homens feitos e, de vez em
quando, um deles me surpreende ao dizer: “Pai, eu li no meu exemplar do seu
diário a história daquela ocasião em que …” e então me conta como a leitura
de algo ocorrido há tanto tempo o ajudou a perceber a mão de Deus em sua
própria vida.
Meu objetivo é exortá-los a achar maneiras de reconhecer e recordar a
bondade de Deus. Isso fortalecerá seu testemunho. Talvez vocês não tenham
um diário ou talvez não costumem mostrar às pessoas a quem amam e servem
aquilo que escrevem, mas tanto elas como vocês serão abençoados se
recordarem das obras do Senhor. Vocês devem estar lembrados do hino que
às vezes cantamos: “Conta as bênçãos (…), uma a uma, dize-as de uma vez, e
verás, surpreso, o quanto Deus já fez” (“Conta as Bênçãos”, Hinos, nº 57).
Não vai ser fácil lembrar. Por causa do véu que nos cobre os olhos, não
recordamos como era nossa vida ao lado do Pai Celestial e de Seu Filho
Amado, Jesus Cristo, no mundo pré-mortal nem podemos, com os olhos
físicos ou somente com a razão, enxergar a mão de Deus em nossa vida. Para
vermos tais coisas, precisamos do Espírito Santo. E não é fácil ser digno da
companhia do Espírito Santo num mundo iníquo.
É por isso que se esquecer de Deus é um problema recorrente entre Seus
filhos, desde o início do mundo. Pensem na época de Moisés, quando Deus
enviava maná e, por outros meios miraculosos e visíveis, dirigia e protegia
Seus filhos. Ainda assim, o profeta admoestou as pessoas que tinham sido tão
abençoadas, como os profetas sempre fizeram e sempre farão: “Tão-somente
guarda-te a ti mesmo, e guarda bem a tua alma, que não te esqueças daquelas
coisas que os teus olhos têm visto, e não se apartem do teu coração todos os
dias da tua vida” (Deuteronômio 4:9).
O desafio de recordar foi sempre maior para quem é abençoado em
abundância. Quem é fiel a Deus recebe proteção e prospera. Isso resulta do
serviço a Deus e da obediência a Seus Mandamentos. Mas com essas bênçãos
vem também a tentação de esquecer sua origem. É fácil começar a achar que
as bênçãos não provêm de um Deus amoroso de quem somos dependentes,
mas da nossa própria força. Muitas e muitas vezes os profetas repetiram este
lamento:
“E assim podemos ver quão falso e também quão inconstante é o
coração dos filhos dos homens; sim, podemos ver como o Senhor, na
grandeza de sua infinita bondade, abençoa e faz prosperar os que colocam
nele a sua confiança.
Sim, e vemos que é justamente quando ele faz prosperar seu povo, sim,
aumentando seus campos, seu gado e seus rebanhos e ouro e prata e toda
sorte de coisas preciosas de todo tipo e de todo estilo, preservando-lhes a vida
e livrando-os das mãos de seus inimigos, abrandando o coração dos inimigos
para que não lhes façam guerra; sim, e, em resumo, fazendo tudo para o bem
e a felicidade de seu povo; sim, então é quando endurecem o coração,
esquecendo-se do Senhor seu Deus e pisando o Santíssimo—sim, e isto em
virtude de seu conforto e de sua enorme prosperidade.”
E o profeta prossegue dizendo: “Sim, quão rápidos em se
ensoberbecerem; sim, quão rápidos em se vangloriarem e em praticarem toda
sorte de iniquidades; e quão lentos são em se recordarem do Senhor seu Deus
e em dar ouvidos a seus conselhos; sim, quão lentos em trilhar os caminhos
da sabedoria” (Helamã 12:1–2, 5).
Infelizmente, não é só a prosperidade que leva as pessoas a esquecerem-
se de Deus. Também pode ser difícil recordar-nos Dele quando nossa vida vai
mal. Quando, como acontece com muitos, vemo-nos em extrema pobreza,
quando nossos inimigos prevalecem contra nós ou quando não recebemos a
cura de uma doença grave, o inimigo de nossa alma pode transmitir sua
mensagem maléfica de que não há Deus ou, caso exista, que Ele não Se
importa conosco. Então, pode custar muito ao Espírito Santo trazer-nos à
memória uma vida inteira de bênçãos concedidas pelo Senhor desde a
infância e mesmo em nosso infortúnio.
Há uma cura simples para o terrível mal de esquecermo-nos de Deus, de
Suas bênçãos e de Suas mensagens para nós. Jesus Cristo prometeu-a a Seus
discípulos quando estava prestes a ser crucificado, a ressuscitar e a retirar-Se
da presença deles para ascender em glória para o Pai. Eles estavam
preocupados, desejosos de saber como conseguiriam perseverar quando Ele
não estivesse mais em seu meio.
Eis a promessa que se cumpriu para eles e pode cumprir-se para todos
nós hoje:
“Tenho-vos dito isto, estando convosco.
Mas aquele Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu
nome, esse vos ensinará todas as coisas, e vos fará lembrar de tudo quanto
vos tenho dito” (João 14:25–26).
A chave dessa lembrança, que gera e conserva o testemunho, é receber a
companhia do Espírito Santo. É o Espírito Santo que nos ajuda a ver o que
Deus já fez por nós. É o Espírito Santo que pode ajudar aqueles a quem
servimos a verem o que Deus fez por eles.
O Pai Celestial concedeu-nos um meio simples de termos a companhia
do Espírito Santo, não apenas uma vez, mas continuamente, em nosso
cotidiano agitado. Esse método é repetido na oração sacramental.
Prometemos recordar-nos sempre do Salvador, tomar Seu nome sobre nós e
guardar Seus mandamentos. E recebemos a promessa de que, se fizermos
essas coisas, teremos Seu Espírito conosco (ver Doutrina e Convênios 20:77,
79). Essas promessas se entrelaçam de modo maravilhoso para fortalecer o
nosso testemunho e, finalmente, por meio da Expiação, transformar nossa
natureza caso cumpramos nossa parte do trato.
É o Espírito Santo que testifica que Jesus Cristo é o Filho Amado de um
Pai Celestial que nos ama e deseja que tenhamos a vida eterna com Ele em
família. Mesmo quando ainda estamos começando a adquirir esse
testemunho, sentimos o desejo de servir a Ele e guardar Seus mandamentos.
Se persistirmos, receberemos os dons do Espírito Santo para nos dar forças
para servir. Passaremos a ver a mão de Deus com maior clareza, a tal ponto
que passaremos não só a recordar-nos Dele, mas a amá-Lo e, graças ao poder
da Expiação, tornarmos mais semelhantes a Ele.
Vocês poderiam perguntar: “Mas como esse processo pode iniciar-se no
caso de alguém que não sabe nada sobre Deus e afirma não se recordar de
nenhuma experiência espiritual?” Todos já passaram por experiências
espirituais, mesmo sem as terem reconhecido. Ao vir ao mundo, todos
recebem o Espírito de Cristo. Mesmo antes de as pessoas terem direito aos
dons do Espírito Santo, após serem confirmadas membros da Igreja, e mesmo
antes de o Espírito Santo lhes confirmar a verdade antes do batismo, elas
passam por experiências espirituais. O Espírito de Cristo já as convidou,
desde a infância, a fazer o bem e as alertou contra o mal. Elas têm lembranças
dessas experiências mesmo que ainda não tenham reconhecido sua fonte.
Essas lembranças lhes voltarão à mente quando ouvirem a palavra de Deus.
Recordarão a sensação de alegria ou tristeza ao aprender as verdades do
evangelho; e essa lembrança lhes abrandará o coração para permitir que o
Espírito Santo lhes preste testemunho. Isso as levará a guardar os
mandamentos e a desejar tomar sobre si o nome do Salvador. E ao fazê-lo,
nas águas do batismo, e ao ouvirem as palavras de confirmação: “Recebe o
Espírito Santo”, proferidas por um servo autorizado do Senhor, sua
capacidade de recordar-se sempre de Deus aumentará.
Todas as noites ao orarem e ponderarem, sugiro que façam a pergunta:
“Será que hoje Deus mandou uma mensagem específica para mim? Vi Sua
mão em minha vida ou na vida dos meus filhos?” Eu vou fazer isso. E, então,
preservarei essa lembrança para o dia em que eu e meus entes queridos
precisarmos recordar o quanto Deus nos ama e o quanto necessitamos Dele.
Testifico que Ele nos ama e nos abençoa, mais do que a maioria de nós
consegue reconhecer. Sei que isso é verdade e sinto alegria ao recordar-me
Dele.
Elevar os Padrões
As mudanças estão-se acelerando no mundo ao nosso redor. Algumas
dessas mudanças são para melhor, mas, em grande parte, o que vem se
acumulando em ritmo cada vez mais acelerado são os problemas há muito
profetizados para os últimos dias. Cada vez que assistimos ao noticiário
noturno, vemos fortes evidências disso. Vocês devem estar lembrados desta
escritura: “Pois eis que nesse dia ele [Satanás] se enfurecerá no coração dos
filhos dos homens e incitá-los-á a irarem-se contra o que é bom” (2 Néfi
28:20).
Na época do Profeta Joseph Smith, o Senhor disse-nos que as guerras se
alastrariam por todas as nações. Vemos o trágico cumprimento dessa
profecia, trazendo com ela grande sofrimento aos inocentes.
Gigantescos terremotos e consequentes tsunamis que varrem o litoral
dos arredores de onde esses terremotos acontecem são apenas o começo,
apenas uma parte, do que está por vir. Vocês devem estar lembrados das
palavras de Doutrina e Convênios, que agora parecem extremamente
precisas:
“E depois de vosso testemunho vêm ira e indignação sobre o povo.
Pois depois de vosso testemunho vem o testemunho de terremotos, que
farão gemer a Terra em seu âmago; e homens cairão por terra e não poderão
ficar de pé.
E vem também o testemunho da voz de trovões e da voz de relâmpagos
e da voz de tempestades e da voz das ondas do mar, arremessando-se além de
seus limites.
E todas as coisas estarão tumultuadas; e certamente o coração dos
homens lhes falhará; pois o temor tomará conta de todos” (Doutrina e
Convênios 88:88–91).
O medo recairá sobre todas as pessoas, mas sabemos que o Senhor
preparou lugares seguros aos quais está ansioso por guiar-nos. Penso nisso
muitas vezes. Imaginem, por exemplo, duas histórias que ouvi de como Deus
guiou Seus filhos a um lugar seguro na costa da Tailândia quando um
tsunami monstruoso atingiu-a em 2004.
Uma é a história de pessoas que aceitaram Seu chamado, aparentemente
rotineiro, para comparecerem a uma reunião dominical da Igreja. A reunião
foi convocada por homens comuns, portadores do sacerdócio de Deus. O
local da reunião era em um lugar elevado, longe da costa. As pessoas que se
reuniram com os santos foram poupadas da morte, enquanto os lugares onde
estariam, na região litorânea, foram destruídos. Ao mesmo tempo em que
eram poupadas da morte física, essas pessoas eram fortalecidas contra as
tentações espirituais e a onda de tragédia eterna que sobrevirá àqueles que são
desobedientes.
A outra história que ouvi me foi contada por um santo dos últimos dias
que estava em um lugar seguro graças à orientação do Espírito Santo. Ele deu
entrada em um hotel à beira-mar na Tailândia um dia antes de a onda atingir
o país. Foi até a praia, sentiu-se apreensivo e voltou ao hotel determinado a
deixá-lo. Os funcionários, provavelmente preocupados, achando que ele não
tivesse gostado do hotel, pressionaram-no para que desse um motivo. Só com
muita relutância concordaram que ele saísse. Ele mudou-se para outro hotel,
longe da praia. Esse hotel ficava em um lugar mais alto. Por causa disso, ele
não só sobreviveu, mas também ficou ali para ajudar os sobreviventes.
O Senhor está ansioso por conduzir-nos à segurança de lugares mais
elevados e tirar-nos da rota do perigo físico e espiritual. Para chegar a esse
local elevado, teremos que enfrentar uma subida difícil. Quando eu reclamava
que as coisas estavam difíceis, minha mãe sempre me dizia: “O caminho
certo é sempre ladeira acima”. E como o mundo se torna cada vez mais
sombrio e mais perigoso, temos que continuar subindo. Temos a opção de
subir ou ficar onde estamos, mas o Senhor nos convidará a subir e nos guiará
para o alto, e fará isso por meio da orientação do Espírito Santo concedida
aos líderes por Ele chamados e àqueles de Seu povo dispostos a aceitar essa
orientação.
As névoas de escuridão espiritual ficarão cada vez mais densas à medida
que subirmos. Elas são descritas desta maneira no Livro de Mórmon: “E as
névoas de escuridão são as tentações do diabo que cegam os olhos e
endurecem o coração dos filhos dos homens, conduzindo-os a caminhos
espaçosos para que pereçam e se percam” (1 Néfi 12:17).
Mas a palavra de Deus guiará aqueles que desenvolverem a capacidade
de recebê-la por meio das ministrações do Espírito Santo. A luz clara
penetrará a escuridão e mostrará o caminho àqueles que tomarem o Espírito
Santo como seu confiável e constante companheiro de viagem.
A maioria de nós, que somos membros da Igreja restaurada, tem fé
suficiente para querer a companhia do Espírito Santo de vez em quando. Esse
desejo pode ser fraco e intermitente, mas ele vem, geralmente, quando
estamos em apuros. Para sermos conduzidos para um lugar elevado no qual
teremos segurança em tempos vindouros, é preciso que esse desejo se torne
constante e intenso.
O problema da maioria dos seres humanos é que, quando as coisas vão
bem, achamos que somos autossuficientes. Vocês devem lembrar-se da
advertência:
“E a outros pacificará [novamente falando de Satanás] e acalentará com
segurança carnal, de modo que dirão: Tudo vai bem em Sião; sim, Sião
prospera. Tudo vai bem—e assim o diabo engana suas almas e os conduz
cuidadosamente ao inferno” (2 Néfi 28:21).
E depois vem a advertência:
“Maldito é aquele que confia no homem ou faz da carne o seu braço ou
dá ouvidos aos preceitos dos homens, a menos que seus preceitos sejam
dados pelo poder do Espírito Santo” (2 Néfi 28:31).
Se examinarem suas próprias experiências com cuidado e honestidade,
verão que tendem a buscar o Espírito Santo mais fervorosamente quando se
sentem humildes em meio a circunstâncias difíceis ou a decisões cruciais na
vida. Lembrem-se de quando tiveram que enfrentar a perspectiva de ensinar o
evangelho na missão, talvez em um novo idioma em que não entendiam o
que as pessoas diziam e em que não conseguiam nem formar uma frase. Ou
lembrem-se da ocasião em tiveram que tomar decisões que poderiam levá-los
a casar-se com alguém ou a romper o namoro. Esses momentos
provavelmente trouxeram um grande desejo de ter a fé e a capacidade de
obter a ajuda do Espírito Santo,
mas, se precisarmos estar em dificuldades para querer o Espírito Santo
como nosso companheiro constante, então, para ter sempre esse desejo,
teremos que estar sempre em dificuldade. Tem que haver uma maneira
melhor,
e felizmente há — só que vocês terão que encontrar a sua própria. Vou
lhes contar a minha. Isto é o que funciona para mim: Eu decido lembrar-me
sobre as experiências que tive com o que os profetas ensinaram sobre a paz e
a felicidade que vem da manifestação do Espírito Santo. Já vi isso acontecer
em minha própria vida. Wilford Woodruff descreveu isso desta forma:
“Podemos cobrir qualquer homem ou mulher de todas as riquezas e
glória que a imaginação humana for capaz de conceber, e eles ficarão
satisfeitos? Não. Ainda assim haverá um vazio doloroso. Por outro lado,
mostrem-me um mendigo na rua que tenha o Espírito Santo, cuja mente
esteja cheia desse Espírito e poder, e lhes mostrarei uma pessoa com paz de
espírito, detentora de riquezas verdadeiras, e essas bênçãos não podem ser
recebidas de nenhuma outra fonte” (Journal of Discourses, 26 vols., 1854–
1886, vol. 2, p. 199).
Isso aconteceu comigo. Uma das formas como sei que estou sentindo a
influência do Espírito Santo é que me sinto feliz e tenho uma sensação de luz.
Parece-me que, quando o Espírito Santo está longe de mim, tenho uma
sensação de escuridão e não me sinto feliz. Eu já senti esse fluxo e refluxo de
luz e felicidade em minha vida e vocês também.
Gosto de sentir essa luz e gosto de ser feliz. Não tenho que esperar por
dificuldades e provações que me façam querer a ajuda do Espírito Santo.
Posso decidir lembrar-me de como me senti quanto desfrutei dessa
companhia; e, sempre que faço isso, volto a desejar essa bênção novamente
de todo o meu coração.
Quando quisermos a companhia do Espírito Santo, a paz de espírito e as
bênçãos que vêm com ele, sabemos o que fazer: Temos que rogar isso a Deus
com fé. É preciso orar com fé para receber a companhia do Espírito Santo.
Temos que acreditar com fé que Deus, o Pai, o Criador de todas as coisas,
vive e quer que tenhamos o Espírito Santo, que Ele quer enviar-nos o
Consolador. Temos que acreditar com fé que Jesus é o Cristo, que Ele expiou
nossos pecados e quebrou as cadeias da morte. Com essa fé, dirigimo-nos a
nosso Pai com reverência e com confiança de que Ele nos atenderá. Com essa
fé, encerramos nossa oração em nome de Jesus Cristo, como seus verdadeiros
discípulos, confiantes de que nosso profundo arrependimento, nosso batismo,
realizado por Seus servos, e nosso fiel serviço à Sua causa nos purificaram e
nos tornaram limpos e dignos da bênção que desejamos: a companhia do
Espírito Santo.
Graças aos grandes exemplos de outras pessoas, comecei a adotar um
padrão mais elevado: pedir em oração a companhia do Espírito Santo. Um de
meus exemplos prediletos está em 3 Néfi. Jesus tinha escolhido discípulos
que precisariam da companhia do Espírito Santo depois de Sua partida. Seu
exemplo me eleva toda vez que o leio e talvez também eleve vocês: “E
oraram por aquilo que mais desejavam; e desejavam que o Espírito Santo lhes
fosse dado” (3 Néfi 19:9). Sempre que releio a resposta a essa oração, isso
me ajuda a rogar com mais sinceridade e fé:
“O Espírito Santo desceu sobre eles e ficaram cheios do Espírito Santo e
fogo. E eis que eles foram envoltos, como que por fogo; e o fogo desceu dos
céus e a multidão testemunhou-o e testificou-o” (3 Néfi 19:13–14).
A reflexão sobre as coisas registradas nas escrituras ajudou minhas
orações pela ajuda do Espírito Santo a tornarem-se mais fervorosas. O
mesmo aconteceu com minha capacidade de reconhecer as mensagens que o
Espírito Santo traz. As escrituras nos dizem por que isso acontece. A
escritura declara:
“Os anjos falam pelo poder do Espírito Santo; falam, portanto, as
palavras de Cristo. Por isto eu vos disse: Banqueteai-vos com as palavras de
Cristo; pois eis que as palavras de Cristo vos dirão todas as coisas que deveis
fazer.
Portanto, agora que vos disse estas palavras, se não as puderdes
compreender será porque não pedis nem bateis; de modo que não sereis
levados para a luz, mas perecereis na escuridão.
Pois eis que vos digo novamente que, se entrardes pelo caminho e
receberdes o Espírito Santo, ele vos mostrará todas as coisas que deveis
fazer” (2 Néfi 32:3–5).
Descobri que é verdade: as palavras de inspiração advindas do Espírito
Santo são as palavras que o Senhor usava. Quando leio nas escrituras as
palavras ditas pelo Salvador, minha capacidade de reconhecer a inspiração do
Espírito Santo aumenta. Por essa razão, minhas escrituras tendem a desgastar-
se de forma desigual. Recorro com mais frequência às passagens do Livro de
Mórmon, de Doutrina e Convênios e da Bíblia nas quais é o próprio Senhor
quem está falando. Com isso, as palavras do Salvador ecoam facilmente em
minha mente e fica mais fácil reconhecer a voz do Espírito.
Estudar as escrituras nos traz a companhia do Espírito Santo e o mesmo
acontece quando seguimos prontamente as inspirações recebidas. Foi-nos
prometido que as escrituras e o Espírito Santo nos diriam todas as coisas que
devemos fazer. Quando arregaçamos as mangas e fazemos o que nos foi dito
com todo o empenho, colocamo-nos em condições de receber mais instruções
sobre o que fazer. Se não agirmos, não receberemos mais instruções. Nessa
matéria, meu herói é o profeta Néfi, citado no livro de Helamã. Ele é meu
exemplo de pessoa que vai e faz:
“E eis que então aconteceu que quando o Senhor disse estas palavras a
Néfi, ele se deteve e não seguiu para sua casa, mas voltou para as multidões
que estavam espalhadas pela face daquela terra e principiou a proclamar-lhes
as palavras que o Senhor lhe dissera a respeito de sua destruição, caso não se
arrependessem” (Helamã 10:12).
Sua pronta obediência trouxe-lhe a companhia do Espírito Santo, e o
mesmo acontecerá conosco. Diz a escritura:
“Mas eis que o poder de Deus estava com ele; e não puderam agarrá-lo,
a fim de pô-lo na prisão, porque ele foi arrebatado pelo Espírito e levado do
meio deles.
E aconteceu que assim foi ele levado pelo Espírito, de multidão em
multidão, pregando a palavra de Deus até havê-la anunciado a todos ou tê-la
espalhado entre todo o povo” (Helamã 10:16–17).
Bem, todas essas coisas de que falamos podem integrar-se de uma forma
maravilhosa. O desejo de ter o Espírito Santo nos leva a orar com fé.
Ponderar as palavras do Salvador nas escrituras aumenta nossa capacidade de
reconhecer a voz do Espírito. O Espírito e as palavras de Cristo nos ensinam
tudo o que precisamos fazer e, quando fazemos essas coisas, colocamo-nos
em condições de receber mais inspirações do Espírito. E, com o tempo, a
companhia do Espírito Santo nos transforma. Sentimos os efeitos da
Expiação, nosso desejo por luz aumenta e, portanto, passamos a orar com
mais fé, acreditando que nossas orações serão respondidas. As escrituras se
revelam para nós de forma mais clara, nossa capacidade de obedecer aumenta
e somos elevados cada vez mais rumo à pureza, felicidade e segurança eterna
(ver 3 Néfi 27:20; Alma 19:33; 3 Néfi 9:20).
Agora, tudo isso tem algumas aplicações práticas para nós. Uma delas é
que podemos arrepender-nos e ser purificados e, assim, ficar em condições de
exercer o dom do Espírito Santo. Isso nos torna otimistas. Podemos ser
perdoados e ser dignos de receber o Espírito Santo. Com esse dom, as coisas
vão dar certo. O Espírito Santo tem uma influência santificadora; sendo
assim, as pessoas podem melhorar. O amanhã será melhor. Podemos ter
expectativas mais elevadas.
Podemos elevar um pouco mais o padrão que estabelecemos para nós
mesmos e, depois, podemos voltar a elevá-lo, aos poucos, mais e mais.
Por exemplo: vocês que foram missionários de tempo integral podem
estabelecer a meta não de manter a espiritualidade que sentiram no campo
missionário, mas de aumentá-la cada vez mais. Isso exigirá trabalho e
determinação, mas é possível. Outras pessoas fizeram parte do trabalho que
cabia a vocês, o qual vocês precisam agora fazer por si mesmos. Por
exemplo, a Igreja elevou o padrão a ser atingido pelos que se preparam para
ser missionários de tempo integral. O presidente da missão incentivou-os e
ajudou-os a atingir padrões mais elevados. Agora, vocês têm a
responsabilidade de estabelecer padrões mais elevados para si mesmos e de
elevar esses padrões cada vez mais.
Isso se aplica a todos nós, não apenas àqueles que foram missionários.
Nos dez anos que ensinei na Universidade de Stanford, tive a bênção de
nunca dar o mesmo curso duas vezes. Mudei de área para área e todos os
cursos que ministrei eram sempre totalmente diferentes. Lembro-me das
noites em que trabalhei até o amanhecer. Lembro-me da adrenalina que corria
em minhas veias no momento de encarar os alunos, sabendo que a matéria do
curso era tão nova para mim quanto para eles. Sei que recebi ajuda do
Espírito Santo.
À medida que os desafios ao nosso redor aumentam, temos que nos
comprometer a fazer mais para nos qualificarmos para ter a companhia do
Espírito Santo. Não vai bastar orar ocasionalmente. Não vai bastar ler só
alguns versículos das escrituras. Não vai bastar fazer somente o mínimo que
o Senhor pede. Não vai bastar meramente ter esperança de que a Expiação
opere em nossa vida e que, talvez, de vez em quando sintamos a influência do
Espírito Santo. E fazer um esforço supremo em uma única ocasião também
não vai adiantar.
Apenas o esforço constante e progressivo permitirá que o Senhor nos
conduza a um patamar mais elevado. Sei o que alguns de vocês estão
tentados a pensar: “Vou ter que tomar cuidado para não estabelecer um
padrão elevado demais para mim mesmo. Não quero falhar e ficar
decepcionado”.
Fiz um pouco de salto em altura quando estava no Ensino Médio e na
faculdade. Sei o que é correr em direção à barra e ver que ela está mais alta
do que da última vez que saltamos e que agora, para vê-la, é preciso olhar
bem lá para o alto. Alguns de vocês já praticaram salto em altura e, portanto,
sabem que tudo muda de figura no momento em que já se encontram tão
próximos à barra que conseguem olhar por cima dela. Sei o que acontece
quando estamos em baixo e olhamos para a barra lá no alto. Nessa hora
pensamos: “Esta barra está acima da minha cabeça. Será que é fisicamente
possível lançar todo o meu corpo por cima de uma barra que está acima da
minha cabeça?” Quando olho para trás (lembre-se: eu era aluno de Física),
percebo que devo ter decidido que certas leis da Física me limitavam. Bem,
as leis da Física se aplicavam a mim, mas as limitações eram mais coisa da
minha cabeça do que da realidade. Agora, quando vejo os alunos do Ensino
Médio, algumas delas meninas, saltarem mais alto do que o meu melhor
salto, tenho vontade de voltar a ser jovem. Eu elevaria minhas expectativas.
Era possível ir mais alto do que eu imaginava e, espiritualmente, é possível ir
mais alto, tanto para vocês como para mim. E é necessário ir mais alto.
Elevem um pouco mais o padrão que pretendem atingir e, depois, repitam o
processo. Nas coisas espirituais, vocês contam com forças celestiais para
erguê-los além de onde estão agora. O Senhor, de Sua própria voz, promete
em Doutrina e Convênios essa ascensão eterna: “Aquilo que é de Deus é luz;
e aquele que recebe luz e persevera em Deus recebe mais luz; e essa luz se
torna mais e mais brilhante, até o dia perfeito” (Doutrina e Convênios 50:24).
Vocês podem estabelecer padrões mais elevados e obter uma fé mais
inabalável para orar pelo dom do Espírito Santo. Podem estabelecer padrões
mais elevados para si mesmos no que se refere ao estudo das escrituras de
forma que venham a conhecer a voz do Salvador. Podem decidir ser mais
obedientes naquilo que Ele pede de vocês e podem adotar um padrão mais
elevado de paz nesta vida e de esperança, e até de certeza de vida eterna no
mundo futuro. Vocês podem, aos poucos, elevar mais e mais suas
expectativas, com a confiança de que o Pai Celestial os ama e que Ele e Seu
Filho Amado hão de enviar-lhes o Espírito Santo e erguê-los cada vez mais
alto, que hão de trazê-los cada vez mais para perto de onde Eles estão.