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100 anos de Etnomusicologia - e a “éra fonográfica” da

disciplina no Brasil.
Millena Sampaio Leite dos Santos

“Musicologia comparativa” ​: Primeiro nome dado à disciplina. Essa, por sua vez, inserida
primeiramente em 1884, por Guido Adler em seu artigo. Segundo Adler, a subdivisão
musicológica teria como principal objetivo a “análise da música dos povos extra-europeus e
das culturas ágrafas”, exclusivamente a música de tradição oral e não européia. Para tal, eram
observados os seguintes pontos:

a) acústica (harmonia, ritmo e melodia)


b) estética (o “belo musical”)
c) pedagogia e didática musical
d) “musikologie”, ou seja a “investigação e comparação (dos produtos musicais,
'Tonproducte'), para fins etnográficos”.

“​Inicialmente a musicologia comparativa recebeu a sua orientação científica de áreas


que não pertenciam à musicologia.”

Mesmo sendo considerado o introdutor da musicologia comparativa, o trabalho de Adler


mostra sua visão reduzida e avulsa à verdadeira importância desses sistemas musicais. “a
música oriental e aquela de ‘povos naturais’ são confinadas em um capítulo prévio, dando a
entender que se trata de algo sem história, sem estilo definido, em estágio evolutivo anterior
ao da música da antiguidade grega.”

Na Inglaterra, Alexander J. Ellis (físico e fonógrafo) examinava a particularidade de escalas


e afinações em instrumentos orientais com equipamentos de medição acústica. sistemas de
afinação. ​Através dos seus estudos de instrumentos orientais, afirmou que muitos intervalos
musicais encontrados nesses não pertenciam a um sistema sonoro “natural” - no caso, o
sistema ocidental - e que seriam resultados de construções culturais.
“... a escala musical não é apenas uma, não é natural, nem mesmo necessariamente
fundamentada nas leis de constituição do som musical, (...) mas muito diversificada,
muito artificial e muito caprichosa” (Ellis, 1885).
A partir disso, há uma ruptura na musicologia, essencialmente epistemológica. Pode ser
resumida em dois pontos:
1. A descoberta de que a música ocidental não obedece a leis universais e, por
conseguinte.
2. O fato de a cultura musical do ocidente não ser única e tampouco representar modelo
obrigatório sine qua non para toda e qualquer prática musical do globo. Estar “fora do
tom” ou “desafinado” em si são então conceitos etnocêntricos.

​ fonógrafo​: inventado em 1877 por Thomas Alva Edison, é o principal recurso técnico
O
utilizado para realizar as pesquisas e estudos. O fonógrafo era usado primordialmente para a
documentação acústica de idiomas e dialetos europeus, registro de falas, frases e discursos de
personalidades célebres. Mas ainda, para registrar a música, “a mais efêmera das artes”. Isso
possibilitou a criação de uma biblioteca sonora (arquivo) que viria a ser decisiva para a
continuidade dos trabalhos da área, o ​Berliner Phonogrammarchiv. O ​Berliner
Phonogrammarchiv cresce rapidamente e se torna uma importante instituição de pesquisa e
de produção de saber. As condições básicas para poder abrir o novo campo de pesquisa estão
garantidas com o método comparativo e com a invenção do fonógrafo de Edison.

Ainda não completamente solidificada, a musicologia comparativa se filiava com a


psicologia, ciências biológicas e exatas em torno do mesmo arquivo e objetos de estudo.
Responsável pelo ​Phonogrammarchiv, ​o sucessor de sucessor de Stumpf, Erich Moritz von
Hornbostel amplia a coleção iniciada por Stumpf no instituto de psicologia. Para ele, era
necessário ter-se ao menos provas de manifestações musicais de todos os pontos do globo
para resolver questões básicas da musicologia através de um estudo comparativo de larga
escala. (Hornbostel, 1905).
Em 1937, Marius Schneider, sucessor de Hornbostel, envia um fonógrafo ao Brasil, via
embaixada brasileira em Paris e por iniciativa do então chefe do Departamento Cultural da
Prefeitura de São Paulo, Mário de Andrade.

Novos paradigmas:
A virada para o século XX influenciou a musicologia comparativa com suas teorias e novos
questionamentos. Foi incentivada pela teoria evolucionista, onde se vigora a preocupação em
se delinear uma história da humanidade, incluindo os seus vários estágios, dos supostamente
mais primitivos aos mais evoluídos. Também a “Teoria da Relatividade” de Einstein.
“Neste mesmo período, e em reação à postura evolucionista de história da humanidade,
propaga-se uma contra-corrente na ​antropologia,​ inicialmente através do chamado
difusionismo, que se opõe à idéia da linearidade única de uma evolução cultural.”
Com os novos conceitos, surge uma das características inerentes à etnomusicologia. Ela
prevê o final das convenções tradicionais de certas linhas de pesquisa, ou se opõe a opiniões
estéticas onde as artes são vistas unicamente em consequência do seu meio natural. Se
debruçando sobre o que muitas vezes é visto como o “exótico”.
É nesse período também que surgem obras emblemáticas das artes plásticas. Que
juntamente com a etnomusicologia, possui abertura e vontade de inovar, assim como e
utilizando o auxílio das descobertas tecnológicas.
As ​“Certidões de Nascimento” da musicologia: 2 artigos publicados em 1904 e 1905.
“Sobre a importância do fonógrafo para o trabalho musicológico comparativo” (O autor
enxerga claramente que o registro de campo não se pode restringir ao parâmetro sonoro, e
que também o ​filme teria de desempenhar função essencial na recolha de dados) e ​“A
importância de gravações fonográficas para a Antropologia”.
Vemos então que, rejeitada inicialmente pela musicologia e acolhida pela antropologia, a
etnomusicologia se constitui e logo ganha o perfil que lhe é próprio: “duplo” e “dividido”.

BRASIL: As primeiras gravações fonográficas feitas durante expedição de pesquisa no


Brasil e das quais se tem notícia, foram feitas por uma missão da academia imperial de
ciências da Áustria sob a direção de Richard Wettstein em 1901 no sul do país. Em guarani:
cantiga religiosa e de um breve relato. Além disso foram registradas em São Paulo falas do
português do Brasil.
❏ “Algumas flautas de pan do noroeste brasileiro” do vol. 1 da obra de
Koch-Grünberg.
❏ Hornbostel tem a partir de 1913 à mão mais de cem cilindros de cera
gravados com música vocal e instrumental dos índios brasileiros, podendo
assim realizar uma análise musicológica que a seu ver tinha todas as
prerrogativas para trazer resultados relevantes, não somente ao conhecimento
da música de povos indígenas brasileiros, mas à disciplina como um todo.
❏ Edgard Roquette Pinto (1884-1954), realizava gravações com um fonógrafo de
Edison em pesquisa de campo no noroeste do Mato Grosso entre os Parecis e
Nhambiquara em 1912. (Brasileiro).
❏ Mário de Andrade busca acesso aos arquivos de Berlim e de Koch-Grünberg.
Trata-se do mito Makuxi sobre o herói Maku-Naima, que em 1928 se torna
protagonista do grande romance modernista de Mário de Andrade:
“Macunaíma”. Encomenda um fonógrafo que foi encaminhado para uma
cantora e violonista que registrou cantigas do candomblé baiano.

1938: ​O gravador elétrico ​começa a ser empregado no Brasil.

DILEMA DA GRAVAÇÃO FONOGRÁFICA: dificuldade face à falta de documentos


escritos na antropologia, acreditava-se que a decodificação hermenêutica dos objetos levaria à
leitura do processo mental que dera origem aos artefatos, viabilizando assim a compreensão
aprofundada da cultura em questão.
❏ o dilema básico da antropologia da primeira metade do século XX: a
necessidade em se obter elos de compreensão para a transposição de
informações e de saberes.
❏ O perfil duplo e dividido da etnomusicologia se mantém, e, por isso mesmo, é
sua a prerrogativa destes últimos cem anos de unir duas áreas tão
essencialmente ligadas quanto diversas, uma pertence às artes musicais, a
outra ao homem responsável por estas artes e pelo saber inerente a elas.