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MELIÁ, Bartomeu. Educação Indígena e Alfabetização.

individualização que logo se manifesta fonte de tensões e


Edições Loyola. São Paulo, 1979. Coleção Missão conflitos sociais entre dominante e dominado.
Aberta – II. Todavia, para algumas sociedades indígenas, após
o contato com a chamada sociedade nacional, surge a
EDUCAÇÃO INDÍGENA E ALFABETIZAÇÃO necessidade (se não, a ameaça) da alfabetização. Daí
provém a questão básica: qual seria a função da
INTRODUÇÃO alfabetização na educação indígena?
No mês de setembro de 1978, na aldeia Rikbaktsa
Educação pode dar-se muito bem sem do Barranco Vermelho, realizou-se um curso no qual
alfabetização. Alfabetização, no entanto, nem sempre foram tratadas as relações entre educação indígena e
assegura uma boa educação. As sociedades indígenas alfabetização. São os participantes deste encontro,
brasileiras, como, aliás, muitas outras sociedades em pessoas que trabalham na alfabetização junto aos
todo mundo, se educaram perfeitamente durante século indígenas e que vivem o duro dia-a-dia de ter que
sem recorrer à alfabetização, conseguido, com meios alfabetizar sem deseducar, os verdadeiros autores deste
quase que exclusivamente orais, criar e transmitir uma texto, onde certamente há mais questionamento que
rica herança cultural. A educação baseada na soluções. E por isso que este trabalho está ainda em
comunicação oral até apresenta não poucas vantagens andamento, enquanto são levadas para a prática algumas
sobre a baseada na escrita. Nas culturas orais, nota-se das sugestões propostas.
uma participação mais homogeneizada e plena de todos Ao colega José Moura e Silva, pelo trabalho
no saber tradicional, uma grande riqueza de sabedoria assumido na transcrição das notas do curso, como
proverbial, uma visão mais unitária do mundo, uma forte também por sua estreita colaboração na redação final,
vivencia do presente como tal, uma captação da vida mais sinceros agradecimentos.
como um todo e não simplesmente acumulação de coisas
separadas. A alfabetização, de fato, incentiva a 1. EDUCAÇAO INDÍGENA
privatização do saber e contribui para um tipo de
1.1. O processo educativo na sociedade indígena
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explicações fisiológico-raciais, além de conterem
1.1.1. Reflexões prévias ideologias racistas, carecem de qualquer fundamento
cientifico.
O processo educativo nas sociedades indígenas Pensar que o índio não tem educação, como
apresenta diferenças, tais como, respeito ao que se dá na pensar que ele se perpetua por natureza, ambas as
chamada educação “nacional”, que, às vezes, se tem colocações são resultado, ou de desconhecimento ou de
concluído que não existe educação indígena. Em outros preconceito.
termos, pressupõe-se que os índios não têm educação, A educação indígena é certamente outra. Como
porque não tem essa educação. Consideramos, por vamos ver, ela está mais perto da noção de educação,
exemplo, que o índio está nu, quando, mesmo com todos enquanto processo total. A convivência e a pesquisa
os seus enfeites rituais, cobre apenas o sexo com o mostram que, para o índio, a educação é um processo
estojo peniano. Do mesmo modo, consideramos que o global. A cultura indígena é ensinada e aprendida em
índio não tem religião, porque não tem templos, nem termos de socialização integrante. O fato dessa educação
imagens sagradas. não ser feita por profissionais da educação, não quer
A conseqüência desse tipo de preconceitos é que dizer que ela se faz por uma coletividade abstrata. Os
julgamos necessário fazer a educação do índio, educadores do índio têm rosto e voz; têm dias e
preconceito, aliás, que vem dos primeiros tempos momentos; têm materiais e instrumentos; têm toda uma
coloniais. série de recursos bem definidos para educar a quem vai
Por outra parte, muitos dos que tentaram fazer a ser um indivíduo de uma comunidade com sua
educação para o índio, constatam com amargor e personalidade própria e não elemento de uma multidão. A
desespero que o “índio não muda”. O índio perpetua o educação do índio, nesse sentido, não é geral e muito
seu modo de ser, nos seus costumes, na sua visão do menos genérica. A educação do índio é menos parcial do
mundo, nas relações com os outros, na sua religião. E que a nossa, aplicando-se ao ensino e aprendizagem do
isso com tal firmeza e força, que desafia as explicações modo de satisfazer às necessidades fisiológicas, como a
simplistas. Uma dessas é que o índio é “índio mesmo por criação de formas de arte e religião. Nem por isso se tem
natureza”: como o bicho do mato. É fácil de ver que essas que pensar que o processo seja indefinido nos seus
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aspectos. Têm-se aspectos e fases da educação indígena a cultura. Mas a convivência dentro de uma sociedade
que requerem mais tempo do que outros, mais esforço, indígena mostra bem o contrário: que o índio está
mais dedicação, tanto no ensino, como na aprendizagem. educado para o prazer de viver e que o seu ‘tempo de
O processo não é indiferente. cultura’, dedicado a rituais, jogo ou simples gracejos, é
A educação de cada índio é interesse da mais extenso e intenso do que aqueles das sociedades
comunidade toda. A educação é o processo pelo qual a modernas que trabalha para comer. O índio trabalha para
cultura atual sobre os membros da sociedade para criar viver.
indivíduos ou pessoas que possam conservar essa A educação indígena permite, de fato, um alto grau
cultura (cfr. BEALS/ HOIJER, pp. 668/69). Os sistemas de espontaneidade, que facilita a realização dos
indígenas pretendem produzir pessoas que sejam um indivíduos dentro de uma margem de muita liberdade.
“bom Paresí”, um “bom Boróro”, um “Xavante autêntico”, Como dizia Malinowski: ‘ sempre que um nativo pode
com todas as suas características específicas. Para nós furtar-se às suas obrigações, sem perda de prestígio, ou
até parece que, por vezes, o ideal de um bom brasileiro é sem a possível perda de lucros, ele não hesita em fazê-lo,
ser um ‘bom norte-americano’, como assim de um exatamente como faria o homem de negócios civilizado’.
camponês é fazer do filho um ‘bom doutor’. Isso não quer No índio, a norma não pode ser confundida com a
dizer que todos os índios sejam iguais. E nada mais repetição mecânica de atos. Até, às vezes, diríamos com
contrário à realidade que a afirmação de alguns cronistas Malinowski que o homem tribal é uma ‘norma’ que não
coloniais: ‘ Visto um índio, vistos todos’. A frase somente conhece senão exceções. É isso que foi tido algumas
poderia se aplicar para aqueles índios colonizados, que vezes como anarquia e despreocupação. Para os
foram igualados na tristeza de viver. Até que é um índice métodos impositivos de educação, que se queria dar ao
da duração e intensidade do contato, a tristeza índio esse proceder tornava impossível a manipulação,
estampada no rosto. Índio alegre é índio que teve pouco motivando boa parte dos preconceitos negativos a que
tempo de contato. nos temos referido acima.
Também se pensou, com freqüência, que a
educação indígena é simplesmente utilitária, orientada 1.1.2. Definições de educação indígena.
somente à sobrevivência, sem tempo nem interesse para
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Quem viu a educação indígena como um processo que abrange as atitudes, práticas, e precauções,
específico, distinto do que normalmente se entende por conscientes ou inconscientes, intencionais ou não, que
educação de tipo escolar, tende a dar novas definições, conferem - ou dos quais se supõe que ajudem a conferir –
nas quais se descreve o processo, sobretudo nas suas aos membros do grupo características físicas, mentais e
relações com a cultura e a sociedade indígena global. morais necessárias à vida adulta no contexto social.
‘A educação, como processo, deve ser pensada Educar é, enfim, formar o tipo de homem ou de mulher
como a maneira pela qual membros de uma dada que, segundo o ideal válido para a comunidade,
sociedade socializam as novas gerações, objetivando a corresponda à verdadeira expressão da natureza
continuidade dos valores e instituições consideradas humana. De acordo com a definição deste ideal e na
fundamentais... As sociedades tribais possuem maneiras medida em que o admite e exige a cultura, a educação
específicas para socializar seus membros jovens, dentro age no sentido de tornar semelhantes os indivíduos. Por
dos padrões da cultura tradicional. A diferenciação básica outro lado, os diversifica na medida em que o impõe o
entre os procedimentos utilizados pelas sociedades tribais funcionamento normal do sistema, em correspondência
e uma sociedade nacional qualquer, em tempos do com sua maior ou menor complexidade’(SCHADEN,
presente, está na não formalização dos sistemas de 1976, P.23).
socialização tribais. Não há, assim, escolarização formal A autodenominação de muitos povos indígenas
entre os indígenas, em termos das culturas reflete claramente que eles se considerem a verdadeira
tradicionais’(SANTOS, Sílvio Coelho dos, pp. 53-54). expressão da natureza humana, que eles são ‘a gente’,
Em um dos poucos artigos dedicados ideais de toda educação. Os Guarani se autodenominam
especificamente à educação indígena no Brasil, Egon AVA (homem adulto), ou MBYA (gente), e ainda com
Schaden coloca essa definição: ‘... a vida em sociedade outros nomes, conforme as parcialidades e subgrupos
requer obediência a um conjunto de normas de étnicos. Os Paresí se autodenominam HALÍTI (pessoa
comportamento aprovadas pela tradição. Estas normas, humana). Os Iranxe, MUNKU (gente). Os Xavante, AWE
variáveis de um povo para outro, devem ser aprendidas e (povo autêntico). Os Boróro, BOE (gente).
aceitas pelo individuo enquanto se desenvolve a sua Nas suas excelentes ‘Notas sobre educação na
personalidade. Isto se obtém pela educação, processo sociedade tupinambá’, Florestan Fernandes faz notar que
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‘numa sociedade tradicionalista, sagrada e fechada, o indígena é ensinar e aprender cultura, durante toda a vida
foco da educação deriva, material, estrutural e e em todos os aspectos. Por isso, análise do sistema
dinamicamente, das tendências de perpetuação da ordem educativo de um povo indígena vem a confundir-se com o
social estabelecida. Ela não visa preparar o homem para estudo total da sua cultura. Para compreender o processo
a ‘ experiência nova’, mas prepará-lo para ‘conformar-se educativo numa tribo qualquer, seria necessário a rigor
aos outros’, sem perder a capacidade de realizar-se como conhecer a fundo o sistema sócio - cultural a que ela
pessoa e de ser útil à coletividade como um todo ( ou, corresponde’( SCHADEN, 1976,P.24).
como já te disse, à colméia). Isso pressupõe que o O exame de um sistema educativo indígena
indivíduo seja adestrado tanto para fazer certas coisas, apresente as dificuldades próprias de uma análise
quanto para ‘ser’ homem segundo certos ideais da cultural, onde as diversas teorias antropológicas propõem
pessoa humana’( FERNANDES, Florestan, 1975, p. 38). cada uma seus próprios esquemas e modelos de análise.
Essas definições não são axiomáticas, no sentido Num intento de facilitar a descrição do processo da
de que a educação indígena tenha que se conformar com educação indígena apresentamos algumas categorias
elas, mas elas foram induzidas do estudo e análise fundamentais no seguinte quadro:
comparativos de muitas sociedades indígenas. De fato,
existem tantos modelos de educação indígena, quantas
culturas. Por isso, será necessário identificar cada
sistema e analisá-lo.

1.1.3. Categorias fundamentais para a análise dum


sistema de educação indígena

Citando novamente Egon Schaden, ‘a educação


nos grupos tribais se relaciona em cada um de seus
aspectos com a vida coletiva em suas múltiplas
dimensões’( SCHADEN, 1976, p. 24). A educação
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LingüísticasCapacidades
técnicasHabilidades

rituaisPráticas

pessoalRealizaçãoAuto-

religiosasPolíticas e/ouPara funçõesEspecialização


motoresHábitos
rotineirasSociaisAtividades
de

simbólicada linguagemDomínio
Velhice

Como se pode ver, nesse quadro se combinam dois


tipos de categorias: aquelas que se referem às condições
dentro das quais se processa a educação do índio, ou
seja,o ciclo de vida, com a separação nítida entre o
homem e mulher; as outras se referem ao que se pode
considerar os aspectos fundamentais de uma cultura.
Mas convém lembrar que não todas as culturas focalizam
do mesmo modo os aspectos fundamentais.
Por outra parte, o caráter complexo do processo
educativo indígena torna difícil delimitar uma faixa de
idade para a aprendizagem de outro elemento da cultura
e também separar a aprendizagem de um aspecto
cultural de outro. Ao fim, o que se faz é colocar rótulo
1ª para distinguir aspectos de um só processo educativo,
Infância que vai da concepção e parto do índio até a sua morte e
2ª que abrange todo o seu modo de ser e todas as
Infância possibilidades que lhe oferece a própria vida.
Puberda Talvez se poderiam considerar ainda três etapas
de nesse processo educativo: a primeira seria a
Adolesc socialização, que assimila o indivíduo dentro das normas
ência da vida tribal. Chamaremos à segunda ritualização,
Maturida enquanto integra o indivíduo numa ordem simbólica e
religiosa mais específica. Essas duas etapas vêm
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alimentar-se do que é tradicional, ao mesmo tempo em A educação de hábitos motores, o estreito
que perpetuam essa tradição. Uma terceira etapa vem ser relacionamento com a mãe, são geralmente as
a historização, quando a pessoa assume inovações, que principais características da educação nesse período.
vão permitir a sua auto-realização e às vezes o exercício b) A segunda infância ou meninice apresenta duas
de funções específicas únicas singulares dentro do etapas: a imitação da vida do adulto pelo jogo e
próprio grupo. imitação pelo trabalho participado. A criança indígena
De todos os modos ‘inovação’ e ‘tradição’ faz em miniatura o que o adulta faz. Vive no jogo a
interpenetram-se de tal modo, que uma conduz à outra, vida dos adultos: Aprende as atividades sociais
interpenetram-se de tal modo, que uma conduz à outra, rotineiras, participa da divisão social do trabalho e
podendo-se afirmar: 1. que toda inovação, por mais adquire as habilidades de usar e fazer instrumentos e
radical que seja, lança raízes no passado e se alimenta utensílios de seu trabalho, de acordo com a divisão de
de potencialidades dinâmicas contidas nas tradições; 2. sexo.
que a inovação já nasce, culturalmente, como tradição, c) Na puberdade surge geralmente algum tipo de
como ‘experiência sagrada’ de um saber que transcende iniciação, que, por sua vez, supõe até uma educação
ao indivíduo e ao imediatismo do momento’ formal relativamente intensiva. Na mulher a iniciação
(FERNANDES, Florestan, 1975, p.). sempre que estiver relacionada com a primeira
menstruação, terá um desenvolvimento individual. A
Quanto às categorias do ciclo de vida, convém iniciação dos rapazes, porém, pode acontecer mais
anotar o seguinte: facilmente por grupo.
d) A adolescência costuma permitir uma participação
a) A criança da primeira infância com muita freqüência mais intensa em trabalhos mais diretamente ligados às
não é objeto de especificação sexual. Até necessidades da comunidade como tal, em serviços
lingüisticamente se tem comumente um só termo para para rituais, em ofícios pesados, como ser canoeiro ou
indicar o infante menino ou menina, do nascimento até carregador. Ao mesmo tempo o adolescente mostra a
a idade de andar. Assim: peitan entre os Tupinambá; capacidade de viver por si e assumir a
mitã, entre os Guarani atuais: Kowpá, entre os Munku. responsabilidade da futura família.
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e) Na maturidade o domínio das práticas culturais se ontem, mas hoje bastante deturpado pela imposição de
intensifica. Homem ou mulher, o adulto passa a ser antivalores da ‘civilização’ pode e deve ser revitalizado?
chefe de família e depois de parentelas mais ou - Não seria ingênuo e utópico pensar que a educação
menos amplas. Eles continuam a aprender o domínio indígena, tal como foi apresentada, é ideal demais? Não
da linguagem simbólica, contar mitos ou dirigir rituais. teria também ela os seus contra valores?
Alguns se orientam ou são orientados para a chefia
política ou religiosa.
f) A velhice intensifica a personalidade específica
adquirida. Os velhos são escutados como portadores PONTO DE VISTA DA UNESCO SOBRE A EDUCAÇÃO
de tradição e consultados como orientadores na NA SOCIEDADE PRIMITIVA
inovação. Mesmo a morte tem um grande valor
educativo dentro de uma sociedade indígena, onde ‘Nas sociedades primitivas, a educação era
toda a comunidade participa solidariamente da múltipla e contínua. Ela incidia junto ao caráter, às
passagem. Na sociedade indígena, o indivíduo ‘sabe atitudes, às competências, à conduta, às qualidades
morrer’. morais da pessoa, que se auto-educava em simbiose
com o meio, mais do que ela não era educada. Vida
familiar ou de clã, trabalhos ou jogos, ritos, cerimônias -
tudo constituía ao longo dos dias, ocasião de se instruir:
dos cuidados maternais a’t as lições do pai caçador, da
observação das estações à dos animais familiares, das
QUESTIONAMENTOS narrações dos antigos aos encantamentos do Xamã...
Estas modalidades não formais, não institucionalizadas
- Acreditamos que exista uma educação indígena? A de aprendizagem prevaleceram até nossos dias 1 em
educação, que existe, tem ainda hoje uma função real, 1
Em todas as sociedades, sejam elas primitivas ou extremamente civilizadas, e isso até uma data muito recente, a
operativa? No estágio atual de aculturação, pensamos educação da maior parte das crianças teve lugar de modo incidente e não nas escolas destinadas a esta função. Os
adultos executavam suas tarefas econômicas e outras funções sociais; as crianças não eram deixadas à margem,
que os elementos genuínos da educação indígena, bonito ocupavam-se delas e elas aprendiam a fazer parte do grupo; não lhes é dispensado um ‘ensino’ no sentido
convencional do termo. Em muitas instituições semelhantes de adultos foi sempre admitido que a educação

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vastas regiões do mundo, onde elas constituem ainda o força de uma degenerescência interna, destruídos ou
único modo de educação oferecida a milhões de seres desnaturalizados pela ação de forças exteriores –
humanos. No entanto, isso não é assim, tão diferente notadamente o colonialismo. Importa observar, portanto,
como nos parece à primeira vista, nas sociedades que numerosas nações, que conheceram a tutela do
escolarizadas contemporâneas. Tanto isso è verdade que estrangeiro, das quais algumas estão mais preocupadas
é sempre de seu meio, de sua família, de sua sociedade a tutela do estrangeiro, das quais algumas estão mais
que a criança e o adulto recebem e tiram direta e preocupadas em afirmar sua independência assumiram
existencialmente, uma grande parte da educação: claramente, em especial em matéria de educação, a
aquisição tanto mais importante que condiciona a melhor parte das disciplinas intelectuais e cultura dita
receptividade ao ensino escolar, o qual fornece em clássica que elas haviam assimilado nos tempos de
contrapartida ao educando a ‘moldura’ que lhe permitirá colônia.
ordenar e conceptualizar os conhecimentos que retira do A segunda evidência é que a educação de hoje
seu meio’. sofreu o peso de dogmas e dos usos caducos e que a
‘... A educação tem um passado muito mais rico do justo título, sob este prisma as velhas nações não
que a relativa uniformidade que suas estruturas atuais padeceram menos os anacronismos de seus sistemas de
nos permitiria pesá-lo. As civilizações ameríndias, as ensino do que os jovens Estados que herdaram somente
culturas africanas, as filosofias da Ásia e muitas modelos importados.
tradições, encobrem os valores donde poderiam inspirar- Assim é que existe uma dupla tarefa, de restituição e de
se não somente os sistemas de educação dos países que renovação simultâneas, a que nos parece convidar a
são herdeiros, mas ainda o pensamento educativo história da educação’. in Faure, Edgar- Apprendre à
universal. È certo que, bens eminentemente preciosos être. Paris: UNESCO- FAYARD, 1972, p.5 e pp. 11-12.
foram perdidos, por vezes antes da época colonial, por 1.2. Aspectos relevantes da educação indígena no
‘incidente’ era um elemento essencial do seu funcionamento – por exemplo: nas famílias e nos grupos compostos
Brasil.
de crianças da mesma idade, em trabalhos comunitários, nas relações entre o mestre e o aprendiz, na iniciação
sexual, assim como nos ritos religiosos. Na ‘Paidea grega’, o conjunto da rede de instituições, a polis, era vista
como encarregada da função educativa. Assim, John Dewey o disse de modo admirável, a essência de toda a
filosofia é a filosofia da educação, ela consiste em estudar como edificar um mundo’. (Paul Goodman: Quelques
Egon Schaden faz notar que “o estudo do processo
idées insolites sur I’éducation: dês jeunes, Document de 1ª comission internationale sur lê développement de
I’éducation, Série ‘O pinions’, n. 37, UNESCO, Paris, 1971, p. 2).
educativo em nossas populações nativas tem sido
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negligenciado pelos etnólogos” (SCHADEN, 1976, p. 23). cultural, pode-se encontrar em ‘Índios Brisio’(Melatti,
Dever-se-ia acrescentar que ainda mais negligenciado foi 1972, pp. 36-53).
pelos educadores e pedagogos. A educação indígena é difícil de analisar
Tentar identificar os aspectos relevantes da principalmente porque não é parcelada. Descrever a
educação indígena no Brasil não é tarefa fácil, dada a educação indígena no Brasil seria quase descrever o dia-
inter-relação entre a educação e todos os demais dia de todas as comunidades indígenas, que
aspectos da cultura e que atualmente se conhecem uns simplesmente vivendo, estão se educando.
143 grupos tribais no Brasil, e só se tem informações Todavia, o fato da população indígena estar hoje
sobre a população de 109. O tipo de cultura e a situação dentro de fronteiras ‘ nacionais’, tem criado às vezes para
mais ou menos intensa de contato com a sociedade um mesmo povo indígena situações de contato e destino
nacional diversificam notavelmente os grupos entre si. divergentes. Veja-se o caso dos índios Makuxí,
Daí a hesitação e o receio com que o etnólogo se estabelecidos parte no Brasil e parte na Venezuela. O
aventura a dizer algo sobre educação primitiva em termos mesmo para os Yanonami. Os Guarani, hoje estão
gerais. Mas, apesar de indispensável cautela contra a repartidos pelos estados brasileiros de Mato Grosso do
afoiteza de perigosas generalizações e apesar das Sul, Paraná, Rio Grande do Sul e São Paulo e pelo
ressalvas que se recomendam a cada passo, o estudioso Paraguai, pela Bolívia e pela Argentina. Cada uma
de populações indígenas - e aqui nos limitaremos a índios dessas sociedades nacionais pretende interferir,
do Brasil e de regiões vizinhas - não deixa de registrar conforme o próprio sistema de política educativa, no
desde logo inegável semelhança em muitos traços da destino desses povos.
educação, na medida, pelo menos, em que estes Apesar de toda a complexidade apresentada pelas
decorrem das condições da própria existência sociedades indígenas, pode-se falar de aspectos
tribal’(SCHADEN, 1976, p.24). relevantes da educação indígena no Brasil.
Uma síntese sobre a população indígena atual do Os tópicos principais, que deveriam ser tratados,
Brasil, a sua distribuição em grupos, o tipo de contato poderiam ser os seguintes:
apresentado, a diversidade biológica, lingüística e
1.2.1. Concepção e nascimento
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tabus alimentares, a que se submetem o pai ou ambos, a
Ninguém, e muito menos o índio, nasce libertação mais ou menos prolongada dos trabalhos
simplesmente como ‘bicho’. Todo filho que nasce, cai pesados, pretendem assegurar a boa criação do recém-
num chão cultural, onde o húmus étnico se tem nascido.
acumulado durante séculos. De uma maneira mais O fato de muitas mulheres indígenas quererem ter
imediata, ele, no ato mesmo da concepção, é gerado parto no chão, às vezes sobre um oco cavado na terra, é
biologicamente, mas conforme as idéias que aquela altamente simbólico.
cultura tem sobre como uma criança é concebida. Que a Fácil é perceber que uma maneira mais moderna
união do união do homem e da mulher seja acidental e de ver a concepção e o parto, se bem que
essencial seja que uma palavra divina se assente como fisiologicamente mais objetiva e medicamente mais
um banquinho no seio da mãe – esse modo de pensar a higiênica, transtorna profundamente, desde o inicio, o
concepção vai ter uma grande influência na formação do processo educativo indígena.
corpo e da alma da criança. Uma alma espiritual vinda só
de Deus pode-se pensar que é intocável e inatingível pela 1.2.2. O Jogo
ação da educação humana. Ela só será influenciada pela
inspiração. Os Guarani têm, por exemplo, essa forma de Possivelmente é o jogo um dos elementos mais
crença. importantes da educação indígena. Sabe-se que a
O parto tem o seu próprio ritual. As pessoas criança aprende brincando. A originalidade aqui é que o
implicadas nele normalmente vão ter muita influência na índio, já desde de pequeno, brinca de trabalhar. Seu
educação da criança, seja quem recebe a criança nas brinquedo é, conforme o sexo, o instrumento de trabalho
suas mãos, seja quem corta o cordão umbilical, seja do pai ou da mãe. O índio, que brincou de trabalhar,
quem dá o primeiro banho, seja quem impõe o nome ( se depois vai trabalhar brincando. O seu jogo é brinquedo,
a nominação se dá logo no momento do parto, o que nem não lhe negará. Pequenos arcos e flechas nas mãos de
semple acontece ). O comportamento do pai e da mãe da um menino ou pequenos cestos dependurados da cabeça
criança no parto tem também uma projeção educativa. O de uma menina, que vai com a mãe buscar mandioca na
resguardo observado pelo pai, ou couvade, a direita e os
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roça são cenas que têm encantado qualquer visitante de fora de casa, até durante a noite, que com mais liberdade,
uma aldeia indígena. se põem a corrigir.
Diante de comportamentos reprováveis, às vezes,
1.2.3. Correção não é a criança quem é o objeto da correção direta, mas
aqueles que são considerados responsáveis por ela,
Uma dupla atitude aparentemente contraditória correção que vem por meio de comentários e conversas
chama a atenção do observador de fora numa sociedade perfeitamente audíveis numa aldeia, onde tudo é ouvido.
indígena: as crianças gozam de uma grande liberdade A correção dificilmente consiste em bater na
nos seus movimentos, fazendo o que bem querem, sem criança. Os Guarani pensam que o sangue vai sair da
que os adultos se imponham a elas com contínuas mão do pai ou da mãe que bate no filho. Todavia, como
admoestações ou proibições; por sua vez essas mesmas exceção, se pode ter visto índio bater na sua criança. Mas
crianças não dão motivo de aborrecimento aos pais ou a quando isso acontece, em muitos casos é uma
outros membros da comunidade. conseqüência da aculturação, mostrando-se índice de
O respeito que os pais têm para a criação, o modo ‘civilização’.
de falar com ela, de persuadi-la quase que nos
pareceriam exagerados. O adulto considera o papel da 1.2.4. Conhecimento de natureza
criança na sociedade com muita seriedade. O que não
quer dizer que as relações entre eles sejam tensas ou Dá-se muito cedo na criança indígena um notável
tristes. Adulto brinca com criança brinca com adulto. conhecimento da natureza ambiental. ‘É preciso explorar
Todavia, acontece que a criança se afasta da a natureza em múltiplos sentidos para que o sistema
norma de conduta considerada certa, e o seu mau cultural possa fornecer base segura para a
comportamento se repete. Aí é onde intervém a correção. sobrevivência. Numa escola primária fundada entre os
Essa correção começa a se dar por via de persuasão. Se Amuêxa, da selva peruana, organizou-se um concurso
ela não basta, passa-se a algum tipo de afastamento da entre os alunos para ver quem sabia escrever o maior
convivência comunitária – por exemplo, deixar a criança número de nomes de aves. O vendedor alcançou o

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número de 336 e nenhum dos animais arrolou menos de exclusiva, de preparação para o rito, que vem fechar e
cem. completar o período de iniciação.
Depois se lhes pediu que escrevessem nomes de A iniciação do homem ou da mulher apresenta
plantas; houve um meninote que apresentou uma lista de características distintas. A iniciação do homem ou da
nada menos de 661. E, nota curiosa, os pais do aluno mulher costuma se relacionar com a primeira
consideravam muito ignorantes os seus filhos’ (Duff, menstruação. A mulher é fechada física e moralmente,
Martha, citada por SCHADEN, 1976, p. 24). ficando a sua comunicação reduzida a poucas pessoas.
Durante tempo de fechamento, ela é provada com dietas
e trabalhos mais ou menos pesados e instruída de forma
bastante metódica e formal sobre vários aspectos da sua
vida futura de mulher dentro da tribo, do comportamento
sexual permitido a ela, do melhor modo de enfrentar a
sua vida matrimonial para a qual desde já está orientada.
A iniciação do homem tem um caráter mais
comunitário, comportando, porém, duas provas de
resistência, prolongadas dietas, práticas de danças e
1.2.5. Ritos de iniciação cantos, escuta assídua de ensinamentos, alguns deles
agora totalmente novos, respeito a crenças e mitologia.
Até esse momento, da iniciação da mulher costuma Homens experimentados se ocupam com essa importante
a educação se tem feito geralmente de modo muito fase pedagógica indígena.
informal. A iniciação, que pelo comum aparece como Uma festa não raramente centrada sobre um rito de
período de educação formal, quase que uma verdadeira marcação - furo na orelha, no lábio, tatuagem etc.- fecha
escola, com seu mestre ou mestres, permanência num de alguma maneira a iniciação.
local determinado – que às vezes é o mato -, é o mato -, é
um tempo relativamente comprido de dedicação 1.2.6. Nominação

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São várias as sociedades indígenas onde o índio A participação nos rituais constitui para o índio uma
não tem somente um nome, mas é o seu nome. Dar fonte importante de educação religiosa. Danças, toques
nome equivale, em alguns casos, a descobrir, por de flautas, músicas e cantos são formas de viver na terra
intermédio da inspiração, o verdadeiro nome, que a a vida perfeita das divindades. Os rituais educam,
pessoa tem já no além. O nome pode estar bem ligado à sobretudo pela ação comunitária, que fazem viver, e pela
personalidade que, qualquer mudança significativa na comunhão de gestos, de que todos participam. Mas junto
vida da pessoa - ato de bravura heróica, saída de doença aos rituais co-participados, dá-se às vezes uma instrução
de nomes, marca profundamente a história de muitos moral já em formas de conselhos breves, já em forma de
índios e é causa de prestígio social e religioso. A relação amplo código de normas, que devem ser retidas nos mais
entre a nominação e o processo educativo é por isso, pequenos detalhes.
muito estreita. Nesse contexto se podem considerar o ensino e
Veja-se como os Nambikwára pensam o sistema de aprendizagem da visão mítica do mundo com a
nominação: ‘No Halu.halu.nekusu (lugar no além) sempre linguagem simbólica correspondente. Conhecimentos
viveu e viverá Dá.uãsununsu, o dono do mundo e técnicos, trabalhos práticos, atividades rotineiras da vida,
conhecedor de todas as coisas. Dà.uasununsu ouve e sistema de parentesco, organização social, enfim, todos
conhece tudo, até o pensamento e o sangue. Ele sabe se os aspectos da cultura, são colocados na sua verdadeira
somos bons ou maus. Dà.uãsununsu. pode tudo. É o explicação sobrenatural e mística. Até o homem não
dono dos nomes próprios dos Nambikwára. O uaníndisu chegar a esse conhecimento, em realidade não sabe
(pajé) vai buscar o nome com Dà.Uãsununsu. nada.
Dà.Uãsununsu entrega o nome às almas. Estas ao A educação do homem adulto visa sobre tudo à
uaníndisu. O uaníndisu, cantando, à pessoa. Por isso, o esse objetivo.
nome próprio é coisa sagrada’ (PEREIRA, Adalberto
Holanda,1974,p. 4). 1.2.8. Formação de personalidades específicas

1.2.7. Rituais e linguagem mítica. O alto grau de homogeneização dos indivíduos de


uma sociedade tribal não exclui a formação e treinamento
14
para funções específicas. Chefia política e pajelança, por 1.3.1. A educação na sociedade tupinambá
exemplo, podem dar-se conjuntamente ou em separado.
Também varia o tipo de preparo ou treinamento para Num artigo, hoje famoso e no seu tempo realmente
estes cargos. É comum que o treinamento seja apenas pioneiro, ‘Notas sobre a Educação na Sociedade
um motivo, mas não a causa, do carisma que vai receber. Tupinambá’, Florestan Fernandes (1975, pp. 33-83)
De todos os modos, tanto o pajé, como em menor grau o analisa o processo educativo dos índios Tupinambá, tal
chefe político, são considerados como exemplos como ainda se dava nos tempos iniciais da conquista. O
acabados do que tem que ser o processo educativo resumo, que aqui apresentamos, não dispensa a leitura e
indígena. Eles encarnam o tipo de personalidade ideal, no mediação desse estudo.
qual se espelham os valores éticos daquela cultura. No
pajé costuma dar-se conjuntamente um domínio profundo 1.3.1.1. Características gerais
da religião, da magia e da medicina. Ele é o homem para
a comunidade. A sociedade Tupinambá pode ser qualificada como
‘tradicionalista’, ‘sagrada’ e ‘fechada’. O tipo de educação
1.3. Análise de alguns processos educativos que os Tupinambá punham em práticas é uma ‘educação,
específicos para uma sociedade estável. Trata-se, portanto, de uma
educação, que tinha por base assimilar o indivíduo à
Não todos os aspectos relevantes da educação ordem social tribal ( ou ao ‘nós coletivo’) nos limites que
indígena se dão em cada cultura indígena, e nem com a isso se torna possível, sem destruir psico-fisiológico da
mesma especificidade. Por isso, a análise da educação pessoa, unidade e fundamento dinâmico da vida em
indígena deve atingir em cada caso a realidade mais sociedade. Importante que a intervenção da sociedade
concreta da sociedade considerada. tupinambá permitia uma ampla variedade de atitude, de
A modo de exemplificação, vão se considerar alguns comportamento e aspirações, o que deixava uma margem
processos educativos indígenas específicos, que muito rica à auto-realização dos indivíduos com referencia
poderiam ajudar a outras análises. a emoções, sentimentos e desejos, que pudessem ser
alimentados no seio da herança cultural... Numa
15
sociedade tupinambá, os homens diferem muito entre si... Os conhecimentos se transmitiam por via oral, face
Em suma, uma educação que integra também é uma a face, pela rotina de vida diária. Todos aprendiam de
educação que diferencia’(pp. 39-40). todos. Aprendia-se até sem ser ensinado.
Vê-se claramente que esse tipo de educação não Na transmissão de conhecimentos se dava também
produz homens em série, que vão repetir ações um grande valor vivo e exemplar. A tradição não era um
mecânicas, como foi e é o objetivo da educação armazém de coisas passadas, mas um modelo para
colonialista. situações futuras.
As peculiaridades principais desse sistema de Um homem com tradição pode se adaptar melhor
educação eram as seguintes: transmissão de frente às inovações que um homem sem tradição.
conhecimentos e participação geral na cultura. Somente o Aqui se pode dizer que o caboclo é um índio
princípio de divisão sexual e por idade estabeleciam desmitizado, sem tradição.
algumas separações nessa participação. Na transmissão de conhecimentos, contam o valor
O sentimento comunitário da educação na da ação e o valor do exemplo... ‘Aprender fazendo,
sociedade tupinambá permitia o acesso de todos a todos constitui a máxima fundamental da filosofia educacional
os conhecimentos, salvo as condições prescritas. dos Tupinambá. Mesmo antes de que a significação das
A ausência de tendência apreciáveis à ações pudesse ser captada e compartilhada, os adultos
especialização permitia que a transmissão de cultura se envolviam os imaturos em suas atividades ou
fizesse através do intercâmbio quotidiano, por contatos estimulavam a reprodução de situações análogas entre
pessoais e diretos. Não existiam propriamente as crianças (p. 44 ).
especialistas da educação. O adulto não podia fugir da responsabilidade da
ação e de dar exemplo. Nesse sentido o adulto não deixa
1.3.1.2. Aspectos da educação tupinambá. de se educar, quanto educa. O educando exige do
educador uma contínua auto-educação.
a) Processo de transmissão de cultura.
b) Condições de transmissão da cultura.

16
As principais condições, que modificam e com os sagrados. Assim se pode distinguir
diferenciam o processo educativo, eram o sexo e a idade. conhecimentos que se referem à tecnologia e àquela
O autor, baseado nas fontes quinhentistas, tendo em forma de trabalho comum, tão características, conhecida
conta as denominações lingüísticas, estabelece as hoje como mutirão; conhecimentos que se referem à
distintas fases do ciclo de vida tupinambá, indicando em organização social tribal, que entre os Tupinambá trazia
cada fase as peculiaridades educativas mais bastante complexidades: regras de polidez, de
significativas. companheirismo, sistema de parentesco, ritos
comunitários, como a antropologia ritual, função social da
c) Natureza dos conhecimentos. guerra etc; conhecimentos por fim referentes à religião.
Nesta última área de conhecimentos se podia observar
Os conhecimentos transmitidos não dizem relação que os adultos podiam continuar sua aprendizagem até
somente aos conteúdos, mas às atitudes, convicções e uma idade avançada; que muitos conhecimentos mágicos
aspirações, que têm que ser assimiladas para uma religiosos eram especialmente reservados aos homens e
pessoa poder viver como bom tupinambá. ‘Um autêntico só em menor grau, às mulheres; que de fato, somente os
mestre da vida’, a quem caberia ensinar ‘como viver em velhos poderiam vangloriar-se de um conhecimento
dadas circunstâncias’... exige o ensino de certo saber extenso e profundo das tradições tribais.
mais o ensino de como produzi-lo’(p.50). ‘Ao aprender certas coisas, os homens também
’‘Os conhecimentos transmitidos afetavam toda as aprendiam o que elas significavam dentro de seu cosmos
esferas da vida social organizada’’. Mas para facilitar a moral e como elas deviam ser postas em práticas’(p. 53 ).
análise se podem se considerar os conhecimentos
transmitidos em três níveis: conhecimentos segundo os d) Funções sociais da educação tupinambá
quais o homem controla a natureza; conhecimentos
segundo os quais o homem controla a natureza; A primeira função era o ajustamento das gerações.
conhecimentos segundo os quais o homem se relaciona O ensino dado gradativamente, pela ação e pelo
consigo mesmo e com os seus semelhantes; exemplo, fazia que todos estivessem envolvidos num só
conhecimentos segundo os quais o homem se relaciona processo educacional.
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A segunda função era a preservação e valorização desprestigiar e destruir o sistema tupinambá de educação
do saber tradicional. ‘Toda inovação tinha de lançar vieram depois, quando surgiu a necessidade de submetê-
raízes no saber produzido pelos antepassados ou pelo los como mão-de-obra e de se apropriar de suas terras.
menos de ser coerente com os ensinamentos, que se
poderiam extrair, casuisticamente, do confronto do 1.3.2. A educação entre os Pai-Tavyterã (Kayová)
presente com o passado’(p.56).
A terceira função era a adequação dos dinamismos Os Pai-Tavyterã do Paraguai formam parte da
da vida psíquico ao ritmo da vida social. ‘Os Tupinambá mesma etnia guarani, que no sul de Mato Grosso é
preparavam e ordenavam as transições que marcavam a conhecida como Kayová Eles são muito provavelmente
passagem de uma posição social para outra, através de os descendentes históricos dos Itati dos tempos da
técnicas especificamente educativas’(p. 56 ). primeira colônia. Apresenta-se aqui uma parte da análise
Por fim, podem-se indicar duas funções sociais etnográfica de MELIA, B.GRUNBERG, G. e F, Los Pai-
complementarias: a seleção das personalidades aptas Tavyterã (1976, pp. 251-256).
para o exercício da dominação xamanística; e a O sentido da educação pai é formar um ‘bom pai’
integração do comportamento coletivo. no sentido, sobretudo moral e espiritual – e, portanto
O resultado era que o chefe ou o pajé não estavam conservando e aperfeiçoando o nosso modo de ser’. A
‘fora’ da sociedade e a sociedade se sentia unida educação está orientada a saber para que viver e viver
formando uma unidade integrada de todos, que permitia perfeitamente, alcançando a perfeição através da reza
dizer: nós, os tupinambá. (que é ao mesmo tempo canto e dança), da não violência
Uma seleção de textos sobre as práticas e da visão ‘tecnológica’ do mundo. Essas metas só
educacionais dos Tupinambá prova até que ponto o podem ser alcançadas através da comunidade e também
sistema educativo desses índios do Brasil impressionou da inspiração.
os europeus recém-chegados, que naquele tempo ainda
tinham capacidade para apreciar os valores daquele
tempo ainda tinham capacidade para apreciar os valores
daquela educação indígena. Os intentos para
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Assegurar o crescimento da alma da criança é a
maior preocupação dos seus pais, durante o primeiro ano.
Pais e filho estão em estado quente e são numerosas as
ameaças contra as quais se têm que defender.
Continuam as proibições alimentares. O pai deve se
abster de trabalhos pesados. Deve sobretudo evitar o
comportamento violento. Arco e flecha ou arma de fogo
não deve usar nem para caçar. Mas pode pescar e
1.3.2.1. O ciclo de vida colocar armadilhas. A criança mama quando quer, recebe
o máximo de atenção, procura-se satisfazer suas
a) Gravidez e parto necessidades. O período de lactência estende-se até os
dois anos e às vezes mais. O desenvolvimento da alma,
A preparação para assegurar a vida e a alma da que em guarani é chamada ‘palavra, se considera
criança começa já durante a gravidez. A mulher nesse completo, quando a criança começa a pronunciar as
tempo deve se abster de toda de toda comida pesada primeiras palavras. E então quando o vidente, uma classe
(banha sal etc) e lhe está tabuada a carne de um grande de pajés, talvez vá descobrir o nome religioso da criança,
número de bichos do mato. O pardo se faz estando no isto é, o nome daquela alma-palavra estabelecido já antes
chão sobre uma pele de bicho e a parteira sentada detrás do seu envio para se assentar, como sobre um
dela, apertada contra ela e massageando o ventre dela. O banquinho, no corpo da sua futura mãe.
cordão umbilical é cortado com uma taquara. O recém –
nascido recebe um banho com água morna e é entregue c) Socialização
à sua mãe, que seguirá sendo, de fato, a sua ‘morada’
45durante aquele primeiro ano de vida. É a família extensa, em muitos casos de fato
idêntica com a comunidade mesma, a que tem o encargo
b) O novo ser humano. da socialização das crianças. Nesse processo se podem
distinguir várias passagens.
19
- A comunidade de jogo (de um a cinco anos) - Iniciação
No primeiro período (de um a cinco anos), é, A iniciação marca o fim da etapa que chamamos de
sobretudo, a comunidade a que atua sobre a criança, participação. A menina, ao chegar à sua primeira
aprovando ou rechaçando suas atividades ou menstruação, está novamente em estado quente e tem
comunicando-lhe através de jogo e de exemplo da própria que observar um resguardo e dieta muitos apertados.
vida atitudes e valores. Uma criança de três anos já sabe Uma parente próxima está perto para acompanhá-la,
distribuir, entre os companheiros, o que tem, mas sem protegê-la e instruí-la. A menstruação tem que se guardar
nunca ser obrigado ou pressionado pelo ambiente. De de alguns perigos míticos como é, por exemplo, o arco-
três a cinco anos, a criançada constitui uma verdadeira íris. Os seus cabelos são cortados rasos, até um ou dois
mini-sociedade, onde a vida adulta é imitada em todas as centímetros.
atividades diárias, até as religiosas. A independência de A iniciação dos homens é bem mais complexa e
movimentos dessa sociedade de crianças é notável. Mas importante. A participação da comunidade toda é
os pais já começam a exigir deles alguns pequenos intensiva. Ela faz o objeto de uma prolongada preparação
serviços, bem que excusas como cansaço, frio ou e de uma festa importante. A iniciação dos pais é a
simplesmente não ter vontade, são, todavia, aceitas sem celebração da incorporação de novos membros
criar maior problema. masculinos na comunidade, mediante a perfuração do
lábio inferior e a imposição do tembetá.
- Processo de participação (seis a doze anos) Seria impossível dar aqui um resumo desse ritual
Nessa etapa, as crianças começam a participar de iniciação, que está no centro da vida social e processo
regulamente da vida dos adultos. A divisão por sexos se educativo de toda a comunidade guarani e não somente
faz patente. Os meninos acompanham o pai, enquanto as dos iniciandos. Veja-se a descriação etnográfica em
meninas realizam tarefas domésticas e têm a seu cargo o MELIA-GRUNBERG (1976, pp. 236-241 ).
cuidado de irmãozinhos menores. A participação nas
festas religiosas é já ativa e vem a ser uma introdução
quase que formal nas tradições orais.
20
futuros filhos; recomendação especial é feita de não
reagir violentamente contra eles e, sobretudo, de nunca
bater neles. ‘Não castigues os meus netos, diz a mãe
para o filho que vai casar, que se Deus o vir, a tua própria
mão vai sangrar’.
A vida de família será, por sua vez, um fator
importante de educação dadas as relações sociais e de
parentesco, que vão se estabelecer.

d) O indivíduo na sociedade

A etapa, que se abre depois da iniciação, vai


concluir com o casamento. Os jovens assumem
responsabilidade e atitudes independentes, tanto na vida
de trabalho, como na participação nas festas. Atualmente
eles são atirados freqüentemente para procurarem
trabalho da comunidade, entre os civilizados, o que
motiva sérias críticas dos adultos mais tradicionais, dado
os perigos deseducativos desse tipo de contato.
Para poder se casar, o homem tem que comprovar
frente à família do futuro sogro, que é capaz de ser um 1.3.2.2. A comunidade educativa
bom trabalhador e cuidar da própria família. Quando se
casar, os noivos vão receber uma série de conselhos Os principais mecanismos da educação pai são: o
morais especialmente com respeito à educação dos exemplo, a comunicação verbal, a aceitação ou renhaço
21
dentro da vida social. Todos os conhecimentos e
capacidades de um indivíduo são considerados bons e
prestigiados como tais na medida em que redundam em OS XAVANTE
benefício da comunidade. O comportamento mau é
sancionado, não tanto para corrigir o individuo, quanto ‘Este é o caso dos Xavante, de Mato Grosso, entre
para proteger a comunidade das conseqüências os quais a atividade sexual feminina começa muito cedo.
negativas de um tal comportamento, já que o mal Isto parece não lhes trazer problemas. Ao contrário, a
comportamento pode enfadar a divindade em prejuízo da atitude das mulheres diante do sexo é muito positiva.
comunidade. É a comunidade toda que está Fazer amor é uma coisa boa. Também esta é a opinião
comprometida com os seus membros, nenhum deles é dos homens para que, na sociedade Xavante, a atitude
inteiramente alheio. A comunidade se sente inclinada a sexual tem início mais tardiamente. Quando alcançam de
prestar ajuda na solução dos problemas pessoais, nove a doze anos de idade os meninos deixam a casa
sobretudo quando essa ajuda é solicitada. Os casos dos seus pais e passam numa ‘casa dos solteiros’,
graves de mau comportamento podem provocar a recebem alimentos que suas mães e irmãs lhes enviam,
expulsão do individuo da comunidade, e até do conjunto mas dormem sempre nessa casa. Espera-se que andem
das comunidades. todos juntos, que dividam tudo entre si, que sejam
Não havendo instituições especializadas para a recatados e que evitem o contato com mulheres. Isto se
educação, pode-se dizer que o individuo não é educado, prolonga por cinco ou seis anos, durante os quais os
mas que ele se educa através do convívio com os outros. meninos são formados, desenvolvendo as qualidades
que nesta sociedade são prezados como típicas de um
1.3.3. A educação entre os Xavante e Nambikwára verdadeiro homem: força, resistência física, agilidade,
destreza, agressividade. Também é nessa época que
Nas etnografias ocorrem textos que, em termos de aprende a confeccionar seus instrumentos de trabalho e
discussão cultural, se referem ao processo educativo de defesa, e seus orçamentos.
indígena. Vejam-se dois textos selecionados entre muitos As técnicas de caça, agricultura e pesca, bem
outros, sobre Xavante e Nambikwára. como atividades como a dança, o canto, a corrida com
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toras de buriti, são também intensamente desenvolvidas recém-nascido não está desmamado, isto é, por vezes
nesse período. até o seu terceiro ano de idade. A mãe leva a criança às
A fase termina com os rituais de iniciação, que se cavalitas na coxa, segura por uma larga bandoleira de
prolongam por seis meses, e que marcam a passagem casca ou de algodão; ser-lhe-ia impossível além de levar
da adolescência a idade adulta. Só depois disto é que o seu cesto, levar um segundo filho. As exigências da
são permitidas as relações sexuais. Os rapazes têm vida nômade, a pobreza do meio impõe aos indígenas
então de 16 a 18 anos. Suas noivas são ainda meninas. uma grande prudência; sempre que é necessário, as
Uma vez iniciados, os rapazes são vistos como aptos mulheres não hesitam em recorrer a meios mecânicos ou
para a vida sexual. Sua aprendizagem sexual faz-se, plantas medicinais para provocar o aborto.
quase sempre, com uma cunhada (a esposa de seu ‘ No entanto, os indígenas sentem pelos seus
irmão). Com ela e com outras cunhadas terá uma vida filhos, e manifestam quanto a eles, uma afeição muito
sexual geralmente ativa, até que chegue o momento da viva, que é retribuída. Mas esses sentimentos são por
consumação do seu próprio casamento’. vezes dissimulados pelo nervosismo, pela instabilidade
de que também dão provas. Um rapazinho sofre de
(LOPES DA SILVA, Aracy. Aprendizado sexual para o indigestão; dói-lhe a cabeça, vomita, passa metade do
casamento. Índios do Xingu, p. 64). tempo a gemer e a outra a dormir. Ninguém lhe presta a
mínima atenção e deixam-no sozinho um dia inteiro.
Quando chega a noite, a mãe aproxima-se dele,
despiolha-o docemente enquanto dorme, faz-lhe com os
OS NAMBIKWÁRA braços uma espécie de berço.
‘ Ou então é uma jovem mãe que brinca com o seu
‘Os Nambikwára têm poucos filhos: como eu iria bebê, dando-lhe pequenas palmadas nas costas; o bebê
notar mais tarde, os casais sem filhos não são raros e põe-se a rir, ela deixa-se levar pela brincadeira, de tal
uma ou duas crianças parece um número normal, é maneira que bate cada vez com mais força até o fazer
excepcional encontrar-se mais de três num casal. As chorar. Então para e consola-o.
relações sexuais entre os pais são proibidas enquanto o ‘Vi a pequena órfã de que já falei literalmente
23
pisada durante uma dança; na excitação geral, tinha andam nom tebu, vou atirar-te ao chão ! nihui, responde o
caído sem que ninguém prestasse atenção. bebê com uma voz estridente: não quero!
‘ Quando são contrariadas, as crianças batem ‘Reciprocamente, as crianças rodeiam a mãe de
facilmente na mãe e esta não se lhes opõe. As crianças uma ternura inquieta e exigente; cuidam de que ela
não são castigadas e nunca vi que batessem em receba a sua parte dos produtos da caça. A criança
nenhuma, nem mesmo esboçar o gesto a não ser por viveu, primeiro, junto da mãe. Em viagem, esta
brincadeira. Algumas vezes, uma criança chora porque transporta-a até que ela possa caminhar; mais tarde,
se magoou, discutiu ou porque tem fome, ou porque não caminha ao seu lado. Fica com ela no acampamento ou
quer deixar despiolhar-se. Mas este último caso é raro: a na aldeia enquanto o pai vai caçar. Ao fim de alguns ano,
despiolhagem parece encantar o paciente, tanto pelo no entanto, é preciso distinguir entre os sexos. Um pai
menos como diverte o autor; é, de resto, considerada mostra mais interesse, relativamente, ao filho, do que à
também um sinal de interesse e de afeição. Quando é filha, uma vez que lhe deve ensinar as técnicas
preciso ser despiolhada, a criança – ou o marido – pousa masculinas; e acontece o mesmo quanto às relações
a cabeça nos joelhos da mulher, apresentando entre uma mãe e sua filha. Mas as relações dos pais com
sucessivamente os dois lados da cabeça. A operadora os filhos revestem-se da mesma ternura e da mesma
procede, dividindo a cabeleira por riscos ou olhando para solicitude que já sublinhei. O pai passeia o seu filho,
as madeixas à transparência. O piolho apanhado é levando-o em cima do ombro; confecciona armas à
imediatamente trincado. A criança que chora é consolada medida do braçinho.
por um membro da família ou por uma criança mais ‘É igualmente o pai que conta às crianças mitos
velha. tradicionais, transpondo-os para um para um estilo mais
‘Deste modo, o espetáculo de uma mãe com a sua compreensível pelos pequenos: ‘toda a gente tinha
criança é cheio de alegria e de frescura. A mãe dá um morrido! Já não havia ninguém! Nenhum homem!
objeto à criança, através da palha do abrigo e tira-o no Nada!’Assim começa a visão infantil da lenda sul-
momento em que ela julga que o vai apanhar: ‘pega pela americana do dilúvio, ao qual remonta a destruição da
frente, pega por trás’, ou então agarra na criança e com primeira humanidade’.
grandes risadas faz de conta que vai atirá-la para o chão:
24
elaboração’ e, como conseqüência, o estilo de vida e o
tipo fundamental de personalidade. Na formação de sua
(LÉVI-STRAUSS, C. Tristes Trópicos. Portugalia cultura, cada tribo se decide, pois, por determinadas
Editora - Livraria Martins Fontes, Lisboa, 1955, pp. diretrizes de acordo com os interesses dominantes, que
346-348). podem referir-se quer ao problema da morte, quer ao
mundo sobrenatural, à guerra e a outras tantas esferas
1.4. Focos de elaboração educativa em detrimento de aspectos que ou se relegam a plano
secundário ou são praticamente negligenciados. De
Como se fez notar, não todos os aspectos acordo com os ideais que assim se constituem, a tribo
relevantes que poderiam ser considerados no processo confere maior valor a certos tipos de personalidade,
educativo indígena se dão de fato com a mesma reconhecidos como padrão para a atribuição de prestígio
importância em todas e em cada uma das sociedades ou de aprovação social. Há tribos em que a personalidade
indígenas. A análise, que de modo de simplificação foi combativa é a preferida, em outras se preza o individuo
apresentada da educação das sociedades tupinambá e cordato e conciliador, em outras, ainda, o que pende para
pai-tavyterã, mostrou um perfil próprio, que os diferencia as vivências místicas ou religiosas’ (SCHADEN, 1976, pp.
de outras sociedades indígenas. 23-24).
‘ Cada tribo é única em sua maneira de ser e de Todavia, qual seja o foco ou os focos de elaboração
viver. Em virtude de sua experiência histórica peculiar e educativa numa determinada sociedade, nem sempre é
das condições espeçíficas do ambiente natural a que se fácil de determinar. Um aspecto relevante à primeira vista
adaptou, cada uma criou as suas próprias instituições e pode se manifestar menos significativo depois de uma
os seus sistemas de valores, a sua concepção do mundo análise mais profunda. Depende muito também do ponto
e da vida humana. Cada qual reage a seu modo às de vista teórica do analista, sem falar das deficiências e
necessidades que enfrenta, constituindo, com relativa preconceitos, que falseiam a observação e compreensão
liberdade de escolha, uma configuração cultural própria, e da realidade. O ideal seria entender a sociedade indígena
que se acentua preferencialmente um número limitado de da perspectiva do mesmo índio é entendido como ele se
interesses centrais, que determinam os ‘focos de entende.
25
Um lugar privilegiado para o índio se entender a si munku vê o mundo e atua nele a partir da ‘casa da jejta’.
mesmo costuma ser o mito. Mas compreender um mito Mesmo a vida da mulher está na órbita dessa casa,
significa viver a vida daquela sociedade. mesmo estando-lhe a entrada proibida. Parte da sua vida
Aqui, em forma de primeiro abordagem e como econômica está ocupada em dar alimento aos ‘habitantes’
indicação, vão ser apresentados alguns aspectos do da ‘casa da jejta’. Língua, ritual e trabalho saem dessa
processo educativo de várias sociedades indígenas, que casa e ela voltam. Para a mulher, o lar é o seu campo de
parecem ser focos de elaboração educativa. influencia junto às crianças. O lar se estende a todo o
Os povos referidos estão localizados no Estado de espaço da aldeia, uma vez que a ‘casa da jejta’ se situa
Mato Grosso, sendo a área onde trabalhamos. na entrada do mato.
Se essa hipótese se verificar realmente, fácil é de
1.4.1. Munku-Iránxe se entender que atingir a ‘casa da jejta é atingir toda a
cultura. (Informação fornecida por José de Moura e Silva
O povo Münkü-Iránxe está localizado em duas e Elizabeth Aracy Rondon Amarante).
aldeias, uma delas aparentemente muito aculturada na Os mitos sustentam ainda com força o pensamento
reserva Cravari e outra de recente contato na margem do e a visão do mundo dos Iranxe. Os meninos os imaginam
rio Papagaio. com maravilhosa criatividade e conseguem expressá-los
Poder-se-ia aventurar como hipótese que o foco de gráfica e esteticamente com muita originalidade.
elaboração educativa para os Munku seja a ‘casa’. A casa A modo de ilustração reproduzem-se aqui os
por excelência é a ‘casa da jejta’, que é a ‘casa do canto’, desenhos de uma menina de 7 anos que viu assim a
onde se guardam as flautas sagradas e onde os homens História do Guri que virou roça.
se reúnem; e a ‘casa domestica’, campo predominante
das mulheres. Ambas são análogas à ‘casa de cima’. História do Guri que virou roça
Essas três casas definem o perfil cultural dos Munku e
governam o seu processo educativo. 1.
A vida econômica, o trabalho na roça e as caçadas
se desenvolvem em relação à ‘casa da jejta’. O homem
26
2.

5.

6.

4.

27
3. Ao chegarem numa clareira de derrubada, depois de
7. muita insistência o filho conseguiu que a mãe o
enterrasse, dizendo: mãe, eu não vou morrer.
4. Você vai para casa, fala com o pai para preparar xire,
ralo, peneira... Depois, voltem aqui.
5. A mãe foi e falou com o pai.
6. Fizeram xire, ralo, apá ....
7. Quando voltaram no lugar onde o filho fora enterrado,
havia uma grande roça; dos braços do guri nasceu a
mandioca; das unhas, o amendoim; da cabeça, a
cabeça...
8.
8. Colheram tudo, levaram para casa.

1.4.2. Boróro

Nos Boróro o foco de elaboração educativa poderia


se situar na organização social e mais concretamente na
estruturação da aldeia. A estruturação em duas metades,
Desenho de Atusi Alice, 7 anos. Aldeia Iranxe do cada metades, cada metade em quatro clãs e cada clã
Cravari. 1978. em três ( mais ou menos sub-clãs ), assim como a
situação e localização desses clãs num espaço, é que
A história, em resumo, é a seguinte: educa primordialmente ao índio Boróro. É ainda essa
1. Quando o pai voltava da roça o filho queria conversar organização espacial, que condiciona a extensão, mas
com ele, mas ele, só respondia assobiando. também os limites dos conhecimentos e atividades, que
2. Um dia o filho disse para mãe: - Vamos passear. um Boróro pode manifestar. ‘ Vista do alto de uma árvore
ou de um teto, a aldeia Boróro pareça uma roda de
28
carroça, da qual as casas familiares desenhariam o
circulo, as veredas, os raios, e no centro da qual a casa
dos homens figuraria como mancal... A distribuição 1.4.3. Rikbáktsa – Canoeiro
circular das cabanas em torno da casa dos homens é de
tal importância no que se refere à vida social e à prática Os Rikbátksa estão hoje em uma reserva entre os
do culto, que os missionários salesianos da região do Rio rios Sangue e Juruena. A sua ‘ participaçao’ data dos
das Graças logo perceberam que o meio mais seguro de anos de 1957 a 1962, num tempo em que os ataques
converter os Boróro consistia em fazê-los abandonar sua mútuos entre seringueiros e Rikbáktsa permitiam falar de
aldeia por outra em que as casas estivessem dispostas uma guerra dos seringueiros.
em linhas paralelas. Desorientados com relação aos Também entre os Rikbáktsa se dá uma
pontos cardiais, privados do plano que fornece um organização social por metades: arara azul / arara
argumento ao seu saber, os seus sistemas social e cabeçudo. Esta estruturação especifica a denominação
religioso (veremos que são indissociáveis ) fossem dos parentes dentro da mesma metade, a relação com
complicados demais para dispensar o esquema que o outras metades, a organização das aldeias, as funções
plano da aldeia tornava patente e cujos contornos os seus dos indivíduos nas festas e até as peculiaridades dos
gestos cotidiano refrescavam perpetuamente. enfeites. Desde pequenos, os Rikbáktsa se educam no
Digamos, em favor dos Salesianos, que se deram conhecimento desse sistema.
um trabalho externo para compreender essa estrutura Outros aspectos relevantes do processo educativo
difícil e para preservar-lhe a lembrança’ ( LEVI- como o rito de iniciação, a moradia dos jovens solteiros
STRAUSS C. 1957, pp. 230-231 ). na casa dos homens e o sistema de nominação,
Vendo-se a riqueza, a complexidade, a beleza de adquirem seu significado próprio no sistema de metades.
um funeral Boróro, poderia perguntar-se se não está aí (informação de Balduíno Loebens, Nicolau, Pedro, José e
outro foco de elaboração cultural. Mas o funeral não seria Beatriz ).
mais que a manifestação mais eminente e brilhante da
organização social dos Boróro? ( informação fornecida
por Gonçalo Ochoa).
29
pelos índios e assimilados aos seus costumes até na
QUESTIONAMENTOS participação dos sacrifícios humanos e da antropofagia
ritual, assim como na agregação no sistema de
 A educação indígena, mesmo preservada de parentesco indígenas.
contatos, mostraria em si algumas deficiências ou O desejo de educar o índio aparece mais definido
caracteres disfuncionais? quando ‘o anseio de submeter’ o indígena passou a ser o
 Todo o contato acarreta efeitos desintegradores no elemento central da ideologia dominante no mundo
sistema organizatório indígena? colonial lusitano’ (Fernandes, Florestan, 1975, p. 25).
 A incapacidade de reajustar-se a situações novas Participavam desse desejo, bem que com gradações
manifesta-se somente nas situações impostas pelo várias, os colonos e a coroa. Mas foram os jesuítas, sem
contato do invasor branco? excluir outros religiosos, os que tomaram sobre si a nova
 A ‘ morte’ das sociedades indígenas tem que se educação para o índio. Aos jesuítas ‘coube-lhes
explicar pela incapacidade delas ou pela violência de desempenhar as funções de agentes de assimilação dos
determinado tipo de invasão? índios à civilização cristã. Em seus relatos, percebemos
como eles concentraram seus esforços na destruição da
 Pode-se determinar onde e como se dá, de uma
influência conservantista dos pajés e dos velhos ou de
maneira significativa, a ruptura no processo de
instituição tribais nucleares, como o xamanismo, a
educação indígena?
antropafagia ritual, a poliginia etc; como eles instalavam
no ânimo das crianças, principalmente, dúvidas a respeito
da integridade das opiniões dos pais ou dos mais velhos
2. EDUCAÇÃO PARA O INDIGENA
e da legitimidade das tradições tribais; e por fim, como
solaparam a eficiência adaptativa do sistema
O objetivo de educar o índio, a partir de um foco de
organizatório tribal, pela aglomeração dos indígenas em
elaboração europeu, data quase do início da ocupação
reduzido número de ‘aldeias’, agravando os efeitos da
colonial. Todavia, nos primeiros tempos se davam
escassez de viveres ( resultante da competição com os
numerosos casos onde os europeus eram educados
brancos ) e introduzindo desequilíbrios insanáveis nas
30
relações dos sexos e no intercambio do homem com a ‘missionária’e uma educação nacional. A análise terá por
natureza. Esses aspectos negativos inevitáveis da objeto práticas e ideologias ainda recentes.
atuação dos jesuítas assinalam em que sentido eles
operavam como autênticos agentes da colonização e 2.1. Educação missionária.
situam suas funções construtivas no plano da
acomodação e do controle das tribos submetidas à ordem 2.1.1. Funcionamento
criada pelo invasor branco’(FERNANDES, Florestan,
1975 pp. 26-27). É rara a missão onde não funcione uma escola.
A história da educação imposta ao índio está Missão e escola tendem a se identificar e se justificar
intimamente ligada com a história da Igreja no Brasil, pelo mutuamente. Em muitos casos a escola funciona como
menos até a expulsão dos jesuítas em 1759. internato. Nele se reúnem os índios da aldeia distantes e
Pouco antes dessa expulsão, em 1757, Pombal mesmo de povos diferentes.
editava uma regulamentação da Lei de 6-6-1755, na qual, O ensino se desenvolve em três áreas principais: a
entre outras coisas, se determinava o ensino obrigatória catequese, a escola, a capacitação técnico-profissional.
do português, o direito de distribuir honrarias e títulos no Local e tempo são distribuídos conforme essas três
desempenho de cargos públicos e pedia que se áreas.
observassem os costumes de índios diferentes para ver A catequese, conceituada também como formação
que poderiam viver juntos. religiosa e prática sacramentaria, tem como centro a
Por paradoxal que isso pareça, a retomada desses Igreja ou Capela. Em se levantando, meninos e meninas
pontos de vista assimilacionistas foi feita com profunda se dirigem bem cedo para assistir à Santa Missa. As
devoção pelos novos missionários deste século vinte – festas – a do santo fundador da ordem: Santo Inácio de
jesuítas, salesianos, capuchinhos – até quase hoje. Loyala ( por exemplo) – e as grandes datas de Natal,
Em termos globais a educação para o índio, venha Páscoa, Sagrado Coração de Jesus, São João ( com
ela do lado religioso ou dos novos apóstolos leigos, fogueira ), são motivos de grandes festejos, de jogos
substancialmente, na teoria e na prática, é idêntica. com prêmios, de recepção de presentes doados por
Todavia, para facilitar a análise da educação benfeitores da alta sociedade das grandes cidades. A
31
preocupação religiosa da missão se concretiza também Grande importância se dá à Matemática, em vistas
no arranjo de matrimônios, que às vezes saltam por cima a saber fazer contas, que poderão servir para o índio não
do sistema parentesco tribal. Em outros casos, essa ser enganado no salário ou nos negócios.
preocupação religiosa da missão se concretiza também A capacitação técnico-profissional, que conta
no arranjo de matrimônios, que às vezes saltam por cima também com pessoal altamente especializado, às vezes
do sistema parentesco tribal. Em outros casos, essa angariados no estrangeiro, provenientes de sociedades
preocupação junto com os ideais assimilacionistas fortemente industrializadas, conta com secções de
propicia a união e fusão de índios de povos diferentes. carpintaria, ferraria, mecânica, sapataria, eletricidade,
A Escola, geralmente bem equipada de material tipografia. Para as moças as opções são mais modestas:
didático e com pessoal docente bem formado e corte e costura, bordado, arte culinária.
profundamente dedicado à sua tarefa, centra-se sobre o Pensando também que o trabalho tem que ser
ensino de um português correto, sem sotaque e até produtivo, os moços dedicam várias horas por dia à
literário. As outras matérias não diferem do currículo agricultura e manutenção do estabelecimento e as moças
ordinário do Estado. Entre os livros usados podem-se ler a trabalhos de lavagem, cozinha, cuidado de crianças
textos como esse: ‘Nossa história começa ao tempo em menores, horta e pomar.
que o Brasil foi descoberto (... ). Na ocasião, os índios A missão – escola vira logo, em alguns casos,
que habitavam nosso Estado eram os Carijós . Viviam missão – aldeia, que chama para si mão- de – obra
seminus e usavam penas e colares como enfeites. indígena, remunerada financeiramente. Forma-se, nestes
Moravam em choças de palhas e pau-a-piqui. casos, uma aldeia artificial com grupos que tendem a se
Alimentavam-se da pesca, da caça e de frutos da terra. misturar intertribalmente. A presença de brancos, que se
Não maltratavam os visitantes, desde que não fossem pensam mais capacitados par certo tipo de trabalho para
ofendidos. Eram cobiçosos, chegando, algumas vezes, a o qual o índio não serve, aumenta cada dia mais, até às
vender os próprios irmãos como escravos aos brancos’. vezes superar a população indígena, pelo menos a
(Nosso Estado, Série Estudos Sociais complemento adulta. A escola-missão, tendo que atender às
referente à Santa Catarina, p. 21, Editora ao Livro necessidades das crianças dos brancos, se torna cada
Técnico S/A, Rio). vez mais branca.
32
A missão – escola, devido às necessidades de no dia seguinte ao da chegada eram despojados dos
auto-subsistência, se torna missão-fazenda, onde o padre adornos, enfeites, que traziam e viam os seus cabelos
passa a ser considerado como patrão. E de fato ele cortados: os meninos a zero e com franginhas; as
organiza os trabalhos da roça, introduz o gado na região, meninas à moda ‘civilizadas’.
emprega pessoal assalariado. Para melhor rendimento no Logo também eram chamados com o nome
trabalho, monta-se um verdadeiro parque móvel com ‘civilizados’, em geral os mesmos nomes dos padres e
caminhões pesados, Jipes, barcos e para a mecanização irmãs presentes na missão: Maurilo, Edgar, Albano,
da agricultura tratores e toda a sorte de implementos. Adalberto, Henrique, Thomaz e Inês, Tarsila, Paulina...
Uma usina elétrica é instalada logo, procura-se a água
encanada. Nas construções começa-se por usar o barro e 2.1.2. Justificações ideológicas
acaba no cimento armado.
Outras atividades praticadas na missão-escola são Sendo o objetivo essencial da missão a
os jogos, onde se misturam jogos, onde se misturam evangelização e vindo os agentes dessa evangelização
jogos indígenas: exercício de arco e flecha, natação, do mundo ‘civilizado’, passa-se facilmente ao suposto que
corridas, provas de forças; e jogos ‘civilizados’futebol, civilizar é cristianizar e para cristianizar se tem que
perna-de-pau , peteca tradição da corda, baile, bocha etc. civilizar. Todos os modos de vida civilizada, que na escola
Devem-se notar duas coisas: que os jogos, mesmo têm um tempo e lugar privilegiado, são tidos como
indígenas são praticados agora com espírito competitivo, condições indispensáveis para atingir os objetivos da
e que alguns jogos ‘civilização’ vêm substituir jogos missão.
indígenas similares, como o jogo de cabeça dos Paresí e Por outra parte, vê-se com extremado pessimismo
Iranxe, a peteca e as danças. Todas as festas na missão a sobrevivência e destino futuros dos índios. Os
escola têm agora um sentido e uma participação bem seringueiros estão empenhados na destruição sistemática
diferente daquela que se tinha nas aldeias indígenas. dos índios da região. O ambiente todo está impregnado
Outros fatos que se desenvolviam nessa missão- de descriminação racial. A cultura e modo de ser nem
escola tinham grande importância educativa - ou merecem ser conservados. Prova disso seria que o
deseducativa. Meninos e meninas, vindos da maloca já mesmo índio, conhecida a ‘civilização’, não quer mais ser
33
índio, e parece querer se afastar e esquecer mandados para a cidade, idealizando-se as seguintes
definitivamente a sua língua, a vida da maloca, o parecer etapas: maloca, Utiariti, Diamantino, S. Paulo.
índio. 2.1.3. Resistência indígena e revisão
Uma série de expressões espontâneas no
missionário mostram bem esses tipos de preconceitos. A educação missionária mostra logo uma série de
Como castigo ameaçava-se aos faltosos de serem fracassos e frustrações. O educador constata que o índio
enviados novamente à maloca. Havia quem não aprende e que no profundo do seu ser é intocável.
desaconselhava as moças rikbáktsa a se casarem com Algumas comunidades indígenas resistem a entregar as
seus patrícios mais antigos com ditos desse teor: ‘Mas crianças para a missão-escola. Os Nambikwára, por
você vai casar com esse orelhudo!?’. Lembre-se que os exemplo, nunca entregaram meninas; os Paresí exigiam
Rikbáktsa colocam no lóbulo da orelha enormes discos de até pagamento; os Iranxe, se bem que se entregassem
pau. Quando os Nambikwára, em algumas épocas do com bastante facilidade, retomavam com muita
ano, apareciam em Utiariti e ficavam acampados nas freqüência a volta para as suas aldeias; os Rikbáktsa,
suas proximidades, eram apontados como ‘bugres’, sujos, atacados pelos seringueiros e dizimados pela gripe se
avessos à civilização. As moças tinham que aprender a viam reduzidos a aceitar a transferência das crianças,
cozinha ‘civilizada’, porque comida de índio não é comida principalmente as órfão, para a missão – conhece-se
da gente. Mas é sobretudo contra a língua que as porém pelo menos um caso de abordo de uma índia que
pressões se tornam mais sistemáticas. A língua indígena não queria ver sua criança ir para a missão.
se diz facilmente que é pobre, que sendo falada por Os numerosos casos de meninos e meninas índias
poucas centenas não vale à pena ser aprendida, que que fugiam da missão-escola, enchiam de perplexidade e
atrapalha a pronuncia correta do português. preocupação os missionários.
O futuro do índio estaria em si tornar um ‘civilizado’, Não era difícil ver que a escola missionária
bem capacitado numa profissão técnica. Assim como era supunha uma mudança comportamental violenta na vida
considerado o maior castigo voltar para a maloca, o maior do índio. Aqueles meninos, contrariados por esse novo de
prêmio para os mais bem sucedidos no estudo, era serem vida, se fechavam por dias, o que era qualificado de ‘ficar
de burro’.
34
Fracassos, frustrações e perplexidades chegaram a proteção, ‘que melhor entende com o espírito e a letra da
questionar a prática e a teoria da missão-escola. Um constituição’.
aprofundamento nos estudos antropológicos realizados Não se pretende aqui analisar toda a ideologia do
por alguns dos missionários iniciou o processo de revisão, Estado com respeito à educação para o índio, nem se
processo lento de maneira alguma igual para todos. pode descrever o seu funcionamento concreto.
Também a nova pastoral indigenista no Brasil trouxe A modo de indicação recolhemos conclusões dos
novas orientações. (informação fornecida por vários estudos realizado em 19 postos indígenas, localizados na
antigos missionários de Utiariti. Lembre-se que Utiariti região sul, por Sílvio Coelho dos Santos, Educação e
como missão-escola foi fechada em 1971). Sociedade Tribais ( 1975).
‘Vivendo em contato permanente com componentes
2.2. Educação ‘nacional’ da sociedade nacional há várias décadas e, em alguns
casos, há mais de um século, os indígenas da região sul
A educação, que a ‘sociedade’ pensa para o índio, do Brasil sofreram as mais diversas pressões destinadas
não difere estruturalmente, nem no funcionamento, nem a garantir a sua submissão ou a sua diluição na
nos seus pressupostos ideológicos, da educação sociedade nacional. A educação foi sempre considerada
missionária. E ela recolhe fracassos do mesmo tipo. como instrumento estratégico para se atingirem aqueles
Somente não sabemos se ela recolhe fracassos do objetivos. Assim, os missionários que realizaram
mesmo tipo. Somente não sabemos se ela passou por tentativas para a catequese dos Kaingang do Paraná
uma revisão. fizeram várias experiências educacionais com o gentio,
Um apanhado histórico, como apresentado pelo visando pelo menos à sua conversão ao cristianismo.
professor Expedito Arnaud, do Museu Goeldi de Belém Também os aldeamentos leigos que foram instalados no
(3º Curso de Indigenismo - Belém – Pará , 1977, apostila século passado não deixaram de realizar algumas
mimeografada) sobre a ‘Política Indigenista oficial: tentativas para ‘educador’os silvícolas. Mais distante
Colônia, Império, Republica, SPI, Legislação, Estatuto do estão as experiências dos jesuítas junto aos Guarani, à
Índio e as propostas sobre a sua educação. O termo época colonial ( p.53).
catequese, em 1911, foi simplesmente substituído por
35
O autor captou com muita perspicácia que a escola exclusivamente teórica, confinada ao ambiente interno do
para o índio atinge mais a função de auto--justificação da prédio escolar e a um calendário e horário
sociedade envolvente, que de formação do índio. burocraticamente fixados. As férias escolares são
‘Invariavelmente, todo posto indígena possui pelo menos cumpridas rigidamente, embora a legislação permita sua
uma unidade escolar. Invariavelmente, também, os localização coincidente com os períodos em que os
resultados alcançados são nulos no que se refere ao alunos são absorvidos pelas atividades econômicas mais
atingimento dos objetivos elementares desse tipo de importantes, como plantio ou colheita.
escola, que são os de levar seus alunos ao domínio da A preocupação de toda sistemática escolar
leitura, da escrita, das operações fundamentais e colocada à disposição dos alunos – índios é a sua
compreensão de certos valores considerados essenciais alfabetização. Não há, assim, qualquer programação
pela sociedade dominante e promotora da escolarização. voltada para a inclusão de conteúdos práticos aos alunos.
Alguns alunos-índios, às vezes, logram alcançar certos As escolas são, assim, ambientes onde o aluno – índio
níveis de compreensão e podem ser arrolados para permanece durante certo período do dia, cumprindo
justificar a manutenção do aparato escolar. Mas se nos tarefas quase sempre totalmente desconectadas de seus
fosse dado acompanhar o cotidiano de tais indivíduos, em interesses e de sua vida’( p. 60 )’... o material utilizado
pouco se concluiria que a programação escolar, nas escolas indígenas é aquele padronizado para as
aparentemente apreendida, não passou de aprendizagem unidades escolares do interior brasileiro. Cartilhas,
decorada, obtida após a repetição contínua’(pp. 54 – 55). cadernos, lápis, borracha, giz, mapas livros de iniciação à
A função, que de fato é melhor cumprida, é a de matemática, às ciências e aos estudos sociais formam o
convencer os integrantes das camadas dominantes da carne dessa bateria de instrumentos de ensino. Não há,
sociedade envolvente de que os indígenas estão sendo assim, seleção e preparação especial de material escolar
adequadamente cuidados e que ‘se mais não aproveitam para as escolas indígenas’(p.61).
é porque não querem ou são incapazes’ ( p. 55). Nessas condições tem-se que constatar que ‘a
Quanto ao funcionamento prático dessa escola se escola funciona, assim desconectada do real’(p.62).
pode dizer que ‘todo as unidades escolares funcionam A conclusão desse autor é inteiramente negativa:
com vistas ao cumprimento de uma programação escolar ‘Os resultados concretos apresentados por tais escolas
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são nulos. Tais escolas em nada contribuem para que conduz uma educação para o índio, mas que nada
oferecimento de respostas aos problemas que os tem de indígena. O caso foi tratado por Baldus, pelos
indígenas enfrentam, ficando sua utilidade limitada aos padres Colbacchini e Albisetti e detidamente analizado
interesses de se ter uma função burocrática para por Florestan Fernandes. A historia é bastante simples.
preencher; ou ao oferecimento de justificações destinadas Um menino boróro, vivo e inteligente, é levado a estudar,
a conformar os componentes da sociedade envolvente com doze anos de idade, em Cuiabá e dado o seu
quanto ao futuro dos indígenas; ou mais concretamente, brilhante aproveitamento, continua os estudos em Romã
oferecendo esquemas que acabam por estimular a e Paris. A saudade o faz voltar para a aldeia bororo, para
submissão dos indígenas’(p. 82). aí casar com uma Patrícia. Desde esse momento, a vida
O mesmo juízo negativo aparece ainda mais de quem agora é conhecido como o professor Tiago
explicito numa publicação recente: ‘No Brasil as tentativas Marques Aipobureu não é senão o desenvolvimento de
de escolarização de índios, realizadas nos últimos 65 um drama vivido de marginalidade.
anos, pelas mais diversas instituições em moldes da Com a sua educação indígena interrompida desde
tradicional educação nacional, redundaram em completo menino, todos os seus esforços para tornar a ser um bom
fracasso. Tais tentativas têm contribuído, sobremaneira, Boróro, são frustrados. E ser branco, apesar da sua
para acentuar a marginalização dos povos tribais e enorme capacidade de ‘cristão- letrado’ não lhe é
agravar as acusações internacionais contra o Brasil, possível, e no fundo, nem desejado. Conflitos com os
quanto ao extermínio cultural dos povos acima brancos, conflito com os Boróro, e ambivalência de
referidos’( KINDELL, G. E. e JONES, J. W. 1978, P.7 ) atitudes iam problematizar toda a sua vida, pelo menos
até os quarenta anos, tempo ao qual se refere à análise
2.3. Um índio marginal de Florestan Fernandes. O importante desse caso não é
que duas culturas apresentem conflitos entre si, mas que
O caso de Tiago Marques Aipobureu, um Boróro o conflito é conseqüência da educação ‘civilizada’.
marginal, isto é, um homem que se situa na divisa de ‘Os conflitos entre Tiago Marques Aipobureu com
duas raças, na margem de duas culturas, sem pertencer os brancos, de um lado, e com os Boróro, de outro lado,
a nenhuma delas, é uma viva ilustração dos impasses a devem ser encarados como conseqüência direta do fato
37
de ser ele portador da cultura dos ‘civilizados’. Em todas As características da educação indígena, que vão
as tentativas de ajustamento, ele foi prejudicado por se elencar no quadro seguinte, estão tiradas, pela maior
causa desse fato. Para os brancos, manifestava atitudes parte, da análise de Florestan Fernandes sobre a
e praticava atos que não eram esperados, pois viam nele educação dos Tupinambá. Mas essas características se
apenas um Boróro, a mesma coisa, mas no sentido aplicam geralmente a muitas sociedades indígenas.
inverso, e mais as influências em face dos padrões da As características assinaladas na educação para o
tribo, em vista dos quais foi avaliado e provisoriamente índio se desprendem implicitamente do que foi dito ao
rejeitado. No fundo, pois, por ser um Boróro civilizado não falar da educação missionária e da educação nacional.
‘serve’ para ambos os grupos’( pp. 111-112). Tanto a educação indígena como a educação para
O trabalho de Florestan Fernandes focaliza a vida o indígena precisam atuar sobre a faixa etária da segunda
de Tiago antes de 1939 e não traz a síntese dos últimos infância, puberdade e adolescência, como condição
anos, que foram de superação, ao que parece, da privilegiada para assegurar o processo educativo. Daí a
marginalidade. Quando Tiago Marques morreu em 1958, disputa de missionários e educadores nacionais para
era considerado pelos Boróro de Merúri como o maior reterem as crianças indígenas nesse período de idade
conhecedor da cultura e uma autoridade em assuntos nas suas aulas. Do mesmo modo que a resistência dos
boróro. Todavia, o drama vivido durante largos anos é representantes mais lúcidos da sociedade indígena para
uma série advertência para as conseqüências no índio de permitirem a saída delas.
uma educação não-indígena. A marginalidade de índios Em toda sua história, a missão centrou uma parte
que passaram por uma educação ‘civilizada’ é um fato por importante das suas atividades sobre as escolas e
demais repetido, sem que todos esses índios tenham a internatos para indígenas. Até se usavam as crianças
ocasião e a possibilidade de superar a sua crise. como espiões da ‘superstição’ dos pais e como agentes
da nova ‘civilização’ e religião.
2.4. Contraste entre educação indígena e educação Uma diferença, porém, entre os dois sistemas:
para o índio enquanto a educação indígena se processa sempre em
termos de continuidade, a educação para o indígena

38
pretende estabelecer a descontinuidade e a ruptura com •Inserção na família • Deslocamento para a aula
o tempo anterior. A criança é tomada como ‘tabula rasa’. •Sem escola • Com escola
A modo de síntese, se pode dizer com Florestan •Comunidade • Especialistas da educação
Fernandes que a nossa é uma ‘educação para uma
educativa
sociedade em mudança’, enquanto a indígena é uma
‘educação para uma sociedade estável’. •Valor da ação • Valor da memorização
Os dois sistemas de educação têm, em si, os seus •Aprender fazendo • Aprender memorizando
próprios valores. O problema surge quando a educação •Valor do exemplo • Valor da coisa aprendida
para uma sociedade em mudanças é imposta a uma •Sacralização do • Secularização do
sociedade estável, sem apoiar e até debilitando as saber conhecimento
possibilidades de uma mudança coerente. •Persuasão • Imposição
•Formação da • Adestramento para fazer coisas
‘pessoa’
 Condições de transmissão
 Processo permanente  Instrução intensiva
durante toda a vida durante alguns anos
EDUCAÇAO EDUCAÇAO PARA O  Harmonia com o ciclo  Sucessão de
INDIGENA INDIGENA de vida matérias que têm que
• Processo e meios de transmissão ser estudadas e saltos
de uma para outra
•Educação informal e • Instrução forma e sistemática
 Gradação da  Passagem obrigada
sistemática
educação conforme o por um currículo
•Transmissão oral • Alfabetização e uso de livros
amadurecimento determinado de
•Rotina da vida diária • Provocação de situações de psicossocial do indivíduo antemão para todos
ensino artificiais  Natureza dos conhecimentos transmitidos
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 Habilidade para a  Manipulação de
produção total dos próprios tecnologia importada
artefatos e instrumentos de
trabalho
 Integração dos  Segmentação dos
conhecimentos dentro de uma conhecimentos
totalidade cultural adquiridos
 Integração correta na  Adaptação dentro
organização tribal de um estrato ou
classe da sociedade
nacional
 Aprofundamento nos  Conversão e
conhecimentos das tradições catequese para uma Jalapajtasi Arilene, Iráxe, 11 anos
religiosas nova religião
3. ALFABETIZAÇAO DO INDÍGENA
 Funções sociais da educação
‘ Coisa estranha a escrita!’ – exclama Lévi-
 Ajustamento das  Afastamento e Stratuss em páginas de uma rara lucidez quando constata
gerações mudança com a atração quase mágica que a escrita exerce sobre o
respeito à vida dos índio e por outra parte como ela foi e é instrumento nas
velhos mãos do dominante, para fortalecer a dominação
 Preservação e Adaptação contínua
valorização do saber às novidades, mesmo
tradicional, em vista a uma ainda não
inovação coerente compreendida
 Seleção e formação de Massificação no
personalidades livres genérico
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‘ Está claro que os Nhambikwara não sabem Ora, mal havia ele reunido todo o seu pessoal, tirou
escrever; mas tampouco desenham, com exceção de dum cesto um papel coberto de linhas tortas, que fingiu
alguns pontilhados ou ziguezagues em suas cabeças. ler, e onde procurava, com uma hesitação afetada, a
Como entre os Caduveo, distribuí, entretanto, folhas de listas dos objetos que eu devia dar em troca dos
papel e lápis, de que nada fizeram no início; depois, um presentes oferecidos; a este, contra um arco e flechas,
dia, eu os vi ocupados em traçar no papel linhas um facão de mato! A outro, contas! Para os seus
horizontais onduladas. Que queriam fazer? Tive de me colares... Essa comédia se prolongou durante 2 horas.
render à evidência: escreviam ou, mais exatamente, Que esperava ele? Enganar-se a si mesmo, talvez; mas,
procuravam dar ao seu lápis o mesmo emprego que eu, o antes, surpreender os companheiros, persuadi-los de que
único que então podiam conceber, pois ainda não tentara as mercadorias passavam por seu intermédio, que ele
distraí-los com meus desenhos. Os esforços da maioria obtivera a aliança do branco e participava dos seus
se resumiam nisso; mas o chefe do bando via mais longe. segredos...
Apenas ele, sem dúvida, compreendera a função da Coisa estranha a escrita! Parece que a sua aparição
escrita. Assim, reclamou-me um bloco e nos equipamos não podia ter deixado de determinar modificações
da mesma maneira quando trabalhamos juntos. Ele não profundas nas condições de existência da humanidade; e
me comunica verbalmente as informações que lhe peço, que essas transformações deviam ser sobretudo de
mas traça sobre o seu papel linhas sinuosas e me as natureza intelectual. A posse da escrita multiplica
apresenta, como se ali devesse ler a sua resposta. Ele prodigiosamente a aptidão dos homens para preservar os
próprio como que se ilude com a sua comédia; cada vez conhecimentos. Concebê-la-íamos de bom grado como
em que sua mão termina uma linha, examina-a uma memória artificial, cujo desenvolvimento devia
ansiosamente, como se a significação devesse brotar e a acompanhar-se de melhor consciência do passado, logo,
mesma desilusão se pinta no seu rosto. Mas não a de uma melhor capacidade para organizar o presente e o
admite; está tacitamente entendido entre nós que os seus futuro. Depois que se eliminaram todos os critérios
riscos possuem um sentido que eu finjo decifrar; o propostos para distinguir a barbárie da civilização,
comentário verbal segue-se quase imediatamente, e me gostaríamos de reter pelo menos esse: povos com ou
dispensa de pedir os esclarecimentos necessários. sem escrita, uns capazes de acumular as aquisições
41
antigas e progredindo cada vez mais depressa para a cerca de 5.000 anos durante os quais seus
finalidade que se propuseram, enquanto outros, conhecimentos flutuaram mais do que aumentaram.
impotentes para reter o passado além da franja que a Observa-se freqüentemente que entre o gênero de vida
memória individual consegui fixar, continuariam de um cidadão grego ou romano e o de um burguês
prisioneiros de uma história flutuante a que sempre europeu do século XVIII, não há grande diferença. No
faltariam uma origem e a consciência duradoura de um neolítico, a humanidade deu passos gigantescos sem o
projeto. auxilio da escrita; com ela, as civilizações históricas do
Todavia , nada do que sabemos a respeito da Ocidente estagnaram por muito tempo. Sem dúvida, mal
escrita e de seu papel na evolução justifica tal concepção. se poderia conceber o desenvolvimento científicos dos
Uma das frases mais criadoras da história da humanidade séculos XIX e XX sem a escrita. Mas essa condição
se situa no neolítico: responsável pela agricultura, a necessária não é certamente suficiente para explicá-lo.
domesticação dos animais e outras artes. Para chegar a Se quiser pôr em correlação o aparecimento da
isso, foi preciso que, durante milênios, pequenas escrita com certos traços característicos da civilização,
coletividades humanas observassem, experimentassem e devemos procurar em outra direção. O único fenômeno
transmitissem o fruto de suas reflexões. Esse imenso que fielmente a acompanhou foi a formação das cidades
empreendimento desonrolou-se com um rigor e uma e dos impérios , isto é, a integração num sistema político
continuidade atestados pelo êxito, enquanto a escrita de um numero considerável de indivíduos e sua
ainda era desconhecida. Se esta ultima apareceu entre o hierarquização em castas em classes. Tal é à China, no
quarto e o terceiro milênios antes de nossa era, deve-se momento em que a escrita faz a sua aparição: ela parece
ver nela um resultado já longínquo ( e sem dúvida indireto favorecer à exploração dos homens antes de iluminá-los.
) da revolução neolítica, mas de forma nenhuma a sua Essa exploração permitia reunir milhares de
condição. A grande inovação está ligada? No plano da trabalhadores para obrigá-los as tarefas extenuantes,
técnica, quase que só se pode citar a arquitetura. Mas a explica melhor o nascimento da arquitetura do que a
dos egípcios ou dos sumérianos não era superior às relação direta examinada há pouco. Se minha hipótese
obras de certos americanos que ignoravam a escrita até o for exata, é facilitar a servidão. O emprego da escrita para
nascimento da ciência moderna, o mundo ocidental viveu fins desinteressados, tendo em vista tirar satisfação
42
intelectuais e estéticas, é um resultado secundário, se é
que não se reduz, no mais das vezes, a um meio de
reforçar, de justificar ou de dissimular o outro.
Se a escrita não bastou para consolidar os
conhecimentos, ela era talvez indispensável para
fortalecer as dominações. Olhemos mais perto de nós; a
ação sistemàtica dos países europeus em favor da
instrução obrigatória, que se desenvolve durante o século
XIX, vai de par com a extensão do serviço militar e com a
proletarização. A luta contra o analfabetismo se confunde
assim com o aumento do mínimo dos cidadãos pelo
poder. Pois é preciso que todos saibam ler para que este
último possa dizer: ninguém se escusa de cumprir a lei,
alegando que não a conhece.
Do plano nacional, o empreendimento passou 3.1. O porquê da alfabetização do indígena
para o plano internacional, graças à cumplicidade que se
ligou entre jovens estados – postos diante de problemas A pretensão de dar uma educação para o indígena
que foram os nossos há um dos séculos- e uma se centra logo desde o inicio sobre a alfabetização. A
sociedade internacional de possuidores, inquieta com a educação para o indígena se abre com esse quase rito de
sua estabilidade as reações de povos mal capacitados ensinar a ler e escrever ao indígena. ‘’E a condição sine
pela palavra escrita a pensar em fórmulas modificáveis à qua non para poder dar uma educação ao índio. Aliás, o
vontade e a fornecer base para os esforços de edificação. fato de uma cultura não ter escrita, às vezes é
Acedendo ao saber acumulado nas bibliotecas, esses considerado como sinônimo de não ter educação, nem
povos se tornam vulneráveis às mentiras que os poder ter progresso. A vontade e o interesse por
documentos impressos propagam em proporção ainda alfabetizar o índio, tarefa que não está livre ou isenta de
maior’(LÉVI-STRAUSS C. 1957, pp. 314 – 319 ) penosas dificuldades, é tão forte e tão apressada em
43
muitos casos, que a gente se pergunta o porque de tal A alfabetização do índio na perspectiva da
exigência. De onde derivaria a suposta necessidades a sociedade nacional, traria, entre outras, essas vantagens:
alfabetização é uma resposta? a) Elevar o nível do índio. Com a alfabetização, o índio
Para responder a essas perguntas tem-se que vai se igualar ao ‘civilizado’ e até superar a muitos
observar duas perspectivas: daquele que traz a deles, que são analfabetos.
alfabetização e daquele que a recebe. A perspectiva da b) Possibilitar a leitura da bíblia e de outros livros
sociedade nacional e a perspectiva da sociedade religiosos.
indígena. c) Possibilitar a leitura de livros onde está contido o
caráter nacional e também os livros onde está contida
3.1.1. A perspectivas da sociedade nacional instrução técnica de varias ordens.
d) Fixar pela escrita, dentro do sistema nacional, as
Os intentos da sociedade nacional por alfabetizar o reclamações e direitos dos índios.
índio tem sido numerosos já desde os tempos coloniais. Como se vê, até nas suas intenções, a
Os resultados têm sido mínimos. Mas, os intentos voltam alfabetização não pode dissimular o seu caráter
repetidamente. A argumentação, que justifica a assimilacionista e tipicamente etnocêntrico, baseado
necessidade da alfabetização e até a sua imposição, numa série de pressupostos apriorísticos: que a cultura
segue geralmente essa gradação: o índio deve ter cultura, com escrita é superior às culturas ágrafas; que a
deve se intercomunicar, deve se integrar. Condição para transmissão religiosa se faz melhor através de textos
entrar nesse processo é não ser analfabeto. fixos; que o livro fixa o caráter nacional; enfim, que o
Às vezes a alfabetização é proposta direito só pode ser assegurado pelo documento escrito.
generosamente como instrumento dos civilizados contra e) Perpetuar no texto escrito a memória, até das
os outros civilizados. Indicado o comercio do índio com o tradições orais, e armazenar no arquivo um saber, que
branco, logo no contato, não é bom que o índio seja hoje se pensa estar em perigo de desaparecer.
explorado pelo branco, deve poder situar-se em pé de Até que ponto as razões apontadas pela
igualdade com o branco. Para isso, não pode ser sociedade nacional são, apesar da ideologia, em parte
analfabeto. aceitáveis, vai ser discutido mais adiante.
44
c) Defender a própria terra com os instrumentos jurídicos
documentados próprios da sociedade nacional.
d) Progredir, depois da alfabetização inicial, nos estudos
3.1.2. A perspectiva da sociedade indígena e na informação de técnicas ‘civilizadas’.
e) Transmitir para a própria comunidade a técnica da
A ideologia da alfabetização procedente da alfabetização e processos seguintes.
sociedade nacional envolvente encontrou ecos na f) Prestigiar-se frente ao mundo dos ‘civilizados’ e
sociedade indígena. Isso foi em muitos casos já um dos eventualmente conseguir melhores oportunidades de
resultados da alfabetização do indígena trabalho e um trato mais de igual para igual com os
Não somente índios já alfabetizados, mas também ‘civilizados’.
comunidades que não sofreram ainda a alfabetização, g) Poder escrever as próprias tradições e aproveitar da
desejam veementemente alfabetizarem-se. As razões leitura de textos, onde essas mesmas tradições foram
aduzidas para essa exigência são às vezes bastante já recolhidas pelos pesquisadores.
complexas, entrando nelas interesses que nada têm a ver Como se vê, implicitamente o índio interiorizou
com a alfabetização mesma: desejo de ter uma algumas idéias incutidas nele pela sociedade nacional.
professora de fora, uma construção escolar, Mas também mostra uma profunda captação das
aproveitamento das vantagens políticas regionais, dar inovações trazidas pela situação de contato, procurando
satisfação à sociedade envolvente. Os índios perceberam dominá-las.
que é permitindo a alfabetização, podem-se camuflar e Até que ponto a alfabetização será uma resposta
ficar mais tranqüilos no próprio modo de ser, real para suas expectativas, será analisado mais
As razões propriamente referidas à alfabetização detidamente.
mesma costumam ser desse teor:
a) Dominar uma técnica mais do ‘civilizado’, que parece
ter também um valor quase mágico.
b) Defender-se contra a exploração salarial e nos tratos
comerciais. 3.1.3. A alfabetização exigida pelo contato.
45
Conclui-se que é de importância capital que o
E claro que a alfabetização surge na situação de problema da alfabetização indígena não pode ser
contato ( e exclusivamente do contato). É o contato que resolvido com critérios de simples alfabetização, pois ela
está na origem de necessidade de alfabetização, mas ele tem que considerar detidamente as condições
se processa a partir de dois pólos bem diferentes. pedagógicas nas quais vai ser feita e a situação
Enquanto a sociedade nacional vê a alfabetização como a lingüística do índio, que vai ser alfabetizado e a política
condição essencial para dar educação ao índio – lingüística a ser seguida.
supostamente sem cultura, porque é ágrafo - , a
sociedade indígena, se não está demasiadamente 3.2. Condições da alfabetização
deturpada, quereria usar a alfabetização como simples
técnicas suplementar, tirada do branco, mas para não ser Sem pretender dar uma lista completa das
assimilado. Muitas das ambigüidades do processo de condições nas quais se processa a alfabetização – para
alfabetização, as condições nas quais se desenvolve, a isso deveriam-se considerar aspectos como a localização
língua que é usada, provêm desse jogo de tensões. das aldeias, a densidade demográfica, a relevância da
A alfabetização do indígena é uma interferência chefia, a persistência das tradições religiosas, a situação
na educação indígena. Ela atinge essencial e econômica do grupo, o grau de contato com a sociedade
necessariamente o processo da educação indígena. nacional etc.-, como mais imediatas podem-se considerar
Pensar que é simplesmente instrumento técnico neutro é as condições seguintes:
querer se enganar. Todavia, a interferência pode atuar de
dois modos diferentes: como complemento da educação
indígena, a modo de prática paralela (essa é a
perspectiva da alfabetização desejada pelo índio, quando
mais conscientemente assumida). No primeiro caso, a a) O alfabetizador
interferência se apresenta com objetivos de ruptura; no
segundo , ela vem de uma inovação coerente com a
educação indígena.
46
O alfabetizador pode ser um indígena, mas a das vezes uma escrita divisão sexual. Nas escolas
situação mais comum foi e é ainda que seja alguém de missionárias o problema era resolvido comumente em
fora. parte, colocando irmãs para as meninas e padres para os
O alfabetizador de fora junta às vezes, à função de meninos. Nos postos, onde o único alfabetizador é uma
ser simples alfabetizador, a de ser missionário, mulher, faz-se problemática a presença de meninos
enfermeiro, encarregado da cooperativa e até indígenas de mais idades.
representente e agente do Estado perante a comunidade O alfabetizador possuidor de uma técnica
indígena. Nessas circunstancias lhe será difícil se desligar prestigiosa talvez se sinta tentado a substituir os
das injunções que as distintas funções lhe impõem. educadores indígenas: família e comunidade, chefes
O alfabetizador irá abafar necessariamente a políticos e religiosos.
educação indígena, se desinteressar por essa cultura, se
for alheio à situação real de opressão, exploração e b) Local
discriminação dessa sociedade indígena. Se desconhecer
a língua indígena, sua única opção é limitar-se ao uso da A alfabetização não precisa necessariamente de
chamada língua nacional. um local especial. Poderia fazer-se dentro da própria casa
Se o alfabetizador for indígena , não por isso todos ou até no terreiro da aldeia. Mas de fato tende a dar-se na
os problemas, indicados para o alfabetizador de fora, escola. A escola costuma ser uma construção conforme
ficam resolvidos. Ás vezes pode ter introjetada a ideologia os padrões da civilização. Pelo material usado e pela
de fora com tanta ou mais força quanto um alfabetizador forma ela não tem nada de indígena. Aliás em muitos
não indígena. Fanatismo religioso, jogo político, casos fica fora da aldeia. Quando a escola passa de um
aproveitamento egoísta de uma situação de relativo alfabetizador indígena, este herda aquela estrutura.
prestigio, vão marcar o seu trabalho de alfabetizador. O local é o condicionamento de uma série de
Que o alfabetizador seja homem ou mulher tem necessidades e impõe um determinado tipo de conduta e
muita importância dentro de uma sociedade indígena ajustamento de valores. Ás vezes se constitui num novo
onde a transmissão de conhecimentos e a centro de vida social, um mundo paralelo.
responsabilidade do processo educativo seguem as mais
47
c) Tempo indígena, que tem as suas características fonológicas
próprias, de sofrer a transferência de uma ortografia
A marcação de tempo para a alfabetização é uma portuguesa, cheio de incoerênciaonológicas.
novidade com respeito ao processo educativo indígena. O
tempo assinalado para a alfabetização é um tempo que
se subtrai do ritmo da educação indígena. O complexo
‘local-tempo’, materializado na escola, desrespeitando os
tempos indígenas, é motivo de muitos fracassos na
continuidade da alfabetização.
Kamutsi Angelina, Iranxe, 10 anos
d) O que escrever e o que ler
Pode-se perguntar como questão paralela, se a
adoção da escrita não contribui para o desaparecimento
Antes de poder apresentar o conteúdo de
das outras expressões gráficas muito originais e criativas
alfabetização, uma opção fundamental precisa ser feita:
que o índio possui. Crianças alfabetizadas têm mostrado
em que língua alfabetizar. E aqui que entra de cheio a
manos criatividades e espontaneidade nos seus
política lingüística da alfabetização, problema ao qual vai
desenhos, que outras que não passaram ainda pelo
se dedicar uma parte importante dessa exposição.
processo de alfabetização. Mas essa dificudades aparece
no contexto da escola e pode não ser atribuível somente
e) Como escrever
à alfabetização e à escrita como tal.
Entra aqui o problema do alfabeto a ser usado. Sendo
f) Em que e com que escrever
o contato das sociedades indígenas brasileiras com uma
cultura ‘nacional’, que chegou com o alfabeto latino -
As condições impostas pelos matérias usados na
alfabeto aliás muito generalizado internacionalmente - , a
escrita e na leitura poderiam parecer acidentais, mas o
opção pelo alfabeto latino em termos práticos é a única.
uso de papel, quadro de giz , lápis e canetas, cartazes,
Fica contudo o problema na alfabetização em língua
48
livros de alfabetização, livros de leitura..., produtos todos
que escapam à produção indígena, dá a todo o processo QUESTIONAMENTO
de alfabetização um caráter bem estranho e muito
dependente da sociedade nacional, a única que pode  De onde deriva a necessidade da alfabetização?
fornecer os ditos materiais. Quando o material didático,  A que necessidades reais a alfabetização responde?
além disso, apresenta conteúdos específicos da  A alfabetização corresponde de fato às expectativas
sociedade nacional, como acontece nos livros de ideológicas levantadas pela sociedade nacional e às
alfabetização e de leitura não feitos expressamente para vezes assimiladas pelos índios?
os indígenas, a interferência é notória.  A alfabetização pode se integrar na educação
indígena?
g) O alfabetizando 3.3. A situação lingüística
A educação indígena, salvo os casos A alfabetização do indígena tem que basear-se
relativamente excepcionais da iniciação, não é o grupo. O necessariamente sobre uma análise da situação
fato de agrupar a criançada para ser alfabetizada lingüística da sociedade indígena. Em outros termos: ela
modificada consideravelmente a perspectiva indígena. A não pode prescindir da realidade sócio lingüística de cada
educação indígena, mais individual, podia respeitar o ciclo grupo indígena que vai ser alfabetizado.
de vida e o ritmo de amadurecimento psico- social do Algumas indicações por demais gerais sobre sócio
educando. AQ alfabetização toma o indígena de uma lingüístico podem facilitar a análise da situação real.
maneira genérica, não tendo em conta mais que a
capacitação para a alfabetização e os passos 3.3.1. Língua e comunicação
‘objetivos’que dá nela, prescindindo de idade e de
situação psicológica e social especifica. Língua é um sistema de signos, cuja função
essencial é ser instrumento de comunicação. Como
sistema, está composta de valores que se opõem uns aos

49
outros. A língua tem que ser funcional, ela tem que poder mas elas apresentam muitas vezes significativas
ser falada e entendida por um grupo social relativamente diferenças culturais. Por exemplo: a língua das mulheres
amplo. Mas a língua é não somente um sistema de difere da língua dos homens. Outro exemplo: a língua
oposições funcionais, mas também de realizações ritual é distinta da língua coloquial.
normais. Por isso, às vezes se distingue entre sistema e Na língua podem-se considerar três níveis
normas. Em termos simples, a língua, como sistema, são fundamentais:
todas as possibilidades, os caminhos teoricamente - Sistema de sons: fonologia
abertos para um falar compreensível dentro de uma - Sistema de categorias de expressão: gramática
comunidade. É tudo aquilo que pode se dizer. A norma é - Sistema de significados: léxico
o sistema de realizações obrigatórias, consagradas social Com respeito ao léxico, tenha-se em conta que o
e culturalmente. E aquilo que, de fato, se diz dentro da significado não pode ser atingido sem um conhecimento
comunidade. ( cfr. MELIA, B., 1975, p.32). As conceitual do mundo do falante. Daí a importância de
possibilidades são enormes; as normas mais restritas. aprender a língua no ambiente e nas situações em que
A língua é para entender e ser entendida. E o meio para ela é falada e não somente na aula e nos livros. Ligado
que uma mensagem seja transmitida e possa ser ao contexto, está o sistema de crenças, que faz com que
recebida. A língua de nenhum modo é uma soma de o léxico tenha um sentido, que não pode ser dado pela
palavras desconexas. Dizer palavras rikbáktsa ou munku palavra só, mas pela mentalidade e pela mística do povo.
não é falar a língua rikbáktsa ou a língua munku.
Uma língua tem história. Palavras e modos de dizer 3.3.1.1. Bilingüismo
envelhecem e morrem. A língua se realimenta
continuamente com novas experiências. A sua história Para analisar o fenômeno do bilingüismo, que se
não está desligadas dos fatos sociais que ela vive. A dá hoje no seio de muitas sociedades indígenas
língua, que é uma representação do espaço vital, é brasileiras, cumpre assentar algumas noções
também o modo de vivê-lo socialmente, com todas as fundamentais. Elas se baseiam principalmente nos
suas mudanças históricas. Nas línguas indígenas as trabalhos de Mackei, W. R, The description of
diferenças de classes sociais apenas se fazem sentir,
50
bilingualism, 1970; e de Melià, B, Hacia una ‘tercera esquema simplificado para a descrição do bilingüismo,
lengua’em el Paraguay, 1975. que retém somente os aspectos mais relevantes.
O bilingüismo é um conceito extremamente
relativo. O ‘bilinguismo não é um fenômeno de língua: é a) Grau de bilingüismo
uma característica do seu uso. Não é um aspecto do
código, mas da mensagem. Não pertence ao domínio da Para determinar o grau de bilingüismo, é
língua, mas da fala’( MACKEY, P. 554). Nenhuma língua necessário testar a habilidade e eficiência do falante nos
é bilíngüe. Isso é obvio. São os falantes de uma língua, distintos níveis próprios de cada língua.
que podem usar também outra língua. Entende-se por habilidade de audição a
Se duas línguas ou mais são faladas pelo mesmo capacidade de captar os sons de outra língua. E o grau
falante, é que ele se relacionou, de uma maneira ou de bilinguismo daquelas pessoas que dizem ter
outra, a duas comunidades com línguas diferentes. dificuldades em entender o outro, porque ‘fala muito
Alguém é bilíngüe enquanto tem razões para ser bilíngüe. depressa’porque a sua fala é ‘muito fechada’. No grau
O bilingüismo nasce do encontro e contato de indivíduos seguinte, o ouvinte entende palavras, mas não entende o
de uma língua com outros de outra língua. Sendo o fraseado. Captar a semântica e o sentido do que é falado
bilingüismo uma característica do uso de duas língua, uso em outra língua, supõe já um grau de bilingüismo auditivo
que tem uma história e se aplica em circunstâncias muito maior.
particulares, dificilmente é o domínio equânime, O grau de bilingüismo na leitura costuma progredir
equilibrado e completo de duas ou mais línguas nunca de níveis menos complexos a níveis mais complexos, na
tem a mesma extensão e profundidade no mesmo falante. gramática e no estilo.
O bilíngüe conhece ativamente uma língua e conhece A escrita supõe uma leitura relativa. Mas a
ativamente uma lin gua e conhece passivamente as habilidade para escrever pode se reduzir a domínios e
outras. estilos muito limitados. De todos modos, a habilidade na
Para determinar a relatividade do bilingüismo tem escrita supõe geralmente um grau de bilingüismo superior
que se considerar diversos fatos. Aqui se apresenta um ao representado pela habilidade de leitura.

51
É a expressão oral a que indica propriamente o Social
verdadeiro grau de bilingüismo. A habilidade expressiva,
mesmo notável, pode dar-se sem a leitura e sem escrita. A pressão refere-se, sobretudo àquelas normas
que, em determinadas situações, chegam a quase impor
Níveis o uso de uma outra língua: normas administrativas,
Habilidade Fonologi Gramática Léxico Semântica culturais, políticas, militares, históricas, religiosas,
s a democráficas etc. Essas normas vêm freqüentemente e
Audição culturalmente superiores ter-se que dar em uma
Leitura determinada língua, é um dos tipos de pressão.
Escrita
Expressão c) Alternação
oral
O uso das línguas é sempre alternativo. Os fatores
b) Função principais, que vão influir nessa alternação, serão os
tópicos da matéria falada, as pessoas com quem se fala e
O bilingüismo do falante depende do uso que faz o a tensão da situação.
bilíngüe das línguas e das condições sob as quais se faz. A história social, a relação de autoridade, de sexo,
de idade, as classes sociais, jogo político, condicionam a
Condições escolha de uma ou outra língua.
Ambiente de Duração Freqüência Pressão
contato d) Interferência
Lar
Comunidade O bilíngüe está exposto a sofrer interferências.
Escola Interferência é o uso de características pertencentes a
Comunicação uma língua, enquanto se fala ou se escreve outra
(MACKEI, P. 569)
52
As interferência no falante podem se manifestar em As principais características da situação de diglossia
todos os níveis da língua que pretende falar naquela foram descritas por FERGUSON, Ch. A., Diglossia, in
situação. Mas uma situação pessoal de maior ou menor Word, XI ( 1959 ), pp. 325-340, num trabalho que hoje é
tensão, o tópico sobre o que está falando, o estilo considerado clássico.
adotado, costumam modificar profundamente o índice, o A diglossia se refere àquele fenômeno sócio-
tipo de interferência. linguístico no qual uma língua é usada como variedade
e) Correlatos do bilingüismo alta, técnicos-acadêmica, de uso oficial, com abundante
literatura, ensinada na escola, enquanto uma outra é
De um modo simples e prático ao intentar uma considerada variedade baixa, simplesmente coloquial, de
descrição do bilingüismo, que possa salientar o seu uso confinado numa comunidade, sem literatura
caráter relativo, pode-se fazer. apreciável e que não é ensinada na escola formal. A
noção de diglossia serve para relativizar o chamado
 quem fala? bilingüismo – sobretudo quando este é apresentado
 a quem fala? dentro de uma ideologia de equilíbrio histórico – social ,
 Onde fala? assim como para analisar a relação das duas línguas
 Quando fala? conforme aos seus deferentes usos sociais, fazendo ver
 De que fala? que os seus campos de aplicação são diferentes e
ordinariamente dependentes, numa relação de
3.3.1.2. Diglossia dominantes-dominado, de superior-inferior. A Diglossia
outorga também lugar privilegado ao fato social- e
Para melhor entender o fenômeno de bilingüismo, portanto histórico – respeito ao quando, quem e por que
que de nenhum modo é o uso equânime e equilibrado de se fala uma língua ou outra... O bilingüismo faz referencia
duas ou mais línguas, mas que está sujeito a pressões de a duas línguas, enquanto a diglossia se refere à relação
carácter ideológicos e político, apareceu entre os histórico-social de como se falam as duas línguas e como
lingüistas a noção de diglossia. são aplicadas realmente nos usos sociais’ ( MELIA, 1975,
P 57 ).
53
Os falantes daquela língua, que a história e as 2.2 Sociedade de só bilíngües
ideologias discriminatórias consideram inferiores, se 2.3 Sociedades de bilíngües e monolíngues
vêem de fato, depois de um tempo, impedidos de poder na língua nacional
falar sobre tópicos considerados de cultura. 2.4 Sociedades de monolíngues indígenas,
Encarar a situação lingüística da sociedades de bilíngües e de monolíngues na língua
indígenas simplesmente como um bilingüismo, quando a nacional.
realidade é a de uma dramática diglossia, isso vai 2.5 Sociedades de monolíngues indígenas
desnaturalizar toda a política de planejamento lingüístico e monolingues na língua nacional.
nos programas da chamada educação indígena pelo 3. Sociedades indígenas de monolingues em
ensino bilíngüe. língua nacional.

3.3.2. A realidade lingüística indígena


Esse esquema simplesmente referencial não traduz
A representação da realidade indígena às mais das toda a complexidade das situações lingüísticas reais. Os
vezes reflete somente impressões e pontos de vistas bilíngües dos quais se fala estão presos numa realidade
ideologizados de antemão. As noções de sócio – diglóssica que apresenta gradações inumeráveis. A maior
lingüístico apresentadas acima deveriam ajudar a uma dificuldade é a de colocar uma determinada sociedade
analise da realidade lingüística de cada sociedade em dentro de um item do esquema de modo adequado. O
particular. Uma primeira tentativa de analise mostraria um esquema apresentado é chamada de atenção para a
esquema desse tipo. heterogeneidade das situações , que podem ser
reduzidas a soluções genéricas. Que significa, em
1. Sociedades indígenas de monolíngües realidade, dizer que uma sociedade indígena, que foi
indígenas contatada faz vinte ou trinta anos, é já inteiramente
2. Sociedades de só bilíngües bilíngüe? Que português é o português falado e entendido
2.1 sociedades de belíngues e em comunidades que se diz não falar mais a língua?
monolíngues indígenas Essas e outras perguntas têm que ser respondidas
54
detidamente e com seriedade, quando se programa a praticamente inquestionável. Iam ser precisamente as
alfabetização do índio. missões, apesar de serem as primeiras alfabetizadoras
na língua indígena nos primeiros séculos da colônia, os
3.4. A língua da alfabetização apóstolos da doutrina pombalina.

A escolha de uma língua para a alfabetização A alfabetização especificamente em português,


do índio é resolvida com um imediatismo alarmante ou se apresentaria algumas vantagens reais, em determinadas
torna campo de batalha para ideologias opostas e condições? Os alfabetizados de fora e também o indígena
irreconciliáveis. É a propósito da língua da alfabetização o afirmariam. Eis uma série de razões, se bem que não
que reaparece uma série de preconceitos como exaustiva, aduzida:
identificação entre educação e alfabetização e  Dado o contato, a língua indígena tenderia a
comunicação, entre alfabetização e progresso cultural. desaparecer e o útil para o índio é ser alfabetizado
Alfabetizadores e alfabetizandos conceituam cada um ao na língua do seu futuro;
seu modo as vantagens e desvantagens expectativas e  Dada a multiplicidade de línguas indígenas é mais
ilusões. rentável alfabetizar na língua nacional;
Não é o caso aqui de poder decidir de uma vez  Para a alfabetização em português conta-se com
por todas qual seja a língua da alfabetização, se não se materiais didáticos e uma prática pedagógica
quer correr o risco de cair no vicio do imediatismo e experimentada;
apriorismo  Satisfazem-se os desejos dos índios mesmos, que
manifestam querer ser alfabetizados em português;
3.4.1. Alfabetização na língua portuguesa  É difícil achar alfabetizadores que conheçam as
línguas indígenas, que produzam material nelas e o
Por muito tempo, durante décadas, alfabetizar o saibam aplicar, enquanto a alfabetização em
índio era sinônimos de alfabetizá-lo em português. O português permite começar a alfabetização logo
ensino obrigatório do português regulamentado por assim ganhar tempo;
Pombal já em 1757 tinha se convertido em principio
55
 Supõe-se que o português seja a língua falada na Lingüísticas, psicólogos e pedagogos consideram que a
comunidade indígena, ao menos pelas crianças, alfabetização não deve ser feita em outra língua que a
objeto principal da alfabetização; materna.
 O alfabetizador de fora arrisca o ridículo ao tentar a Problema mais delicado é quando o português se
alfabetização numa língua que conhece muito tornou língua materna do índio. Diagnósticos esse que
imperfeitamente. não pode ser feito com um simples exame superficial da
situação, que na verdade não passa de pura impressão.
Por parte do índio, a razão mais comumente Todavia, se essa for a realidade, a alfabetização deveria
aduzida para ser alafabetizado em português, é que ele já ser feita em português. Mas aqui é onde precisamente
conhece a língua indígena e o que necessita é saber vão surgir novos e difíceis questionamento, sobretudo
português. Somente o português lhe poderá dar algum relativos à pedagogia a seguir e aos conteúdos a serem
prestígio dentro da sociedade nacional. É também o propostos. A sociedade indígena, mesmo falando
português que lhe vai permitir um progresso nos estudos, português, não pode ser simplesmente equiparada com a
entendendo estudo como currículo da educação do que sociedade rural.
em português. Todavia, existem casos em que o índio, falante
A proposta de uma alfabetização em português monólingue em português, necessita, por causa do
confunde ainda o ponto de partida com o suposto ponto momento histórico em que está vivendo, identificar-se de
de chegada, isto é a suposta necessidade de o índio ter modo mais estreito e profundo com a sua tradição étnica
que falar português para se comunicar com a sociedade especifica. Aqui é que tem que pensar na grande
nacional, se defender de sua exploração etc., que é a conveniência de uma alfabetização em língua indígena
meta proposta, estabelece aprioristicamente que deverá com instrumento de reforço e valorização da própria
se alfabetizar em português. indentidade.
Entretanto, é bem sabido que tem sido a tentativa As desvantagens de alfabetizar em português são
de alfabetizar já inicialmente em português, o que faz consideráveis. E muita dessas desvantagens surgem
fracassar os programas da alfabetização e de precisamente naqueles pontos onde o alfabetizador
escolarização, pelo menos de um modo geral. apressado em português pensava achar as vantagens.
56
O material didático trazido de fora não se adapta à literatura própria – não há método mais adequado para
realidade indígena e suscita atitudes negativas dentro do alcançar resultados duráveis... Um relatório de um estudo
processo educativo do índio. Os métodos didáticos da UNESPA sobre o uso da língua vernácula na
usados, que foram pensados para a sociedade nacional , educação, cita fatores psicologicamente, é o sistema de
não produzem os resultados previstos, o que redunda em sinais significativos, que na sua mente funciona
frustração no alfabetizador e desanimo no alfabetizando. automaticamente na expressão e no entendimento,
O alfabetizador atribui o pouco progresso na sociologicamente, é um meio de identificação entre os
alfabetização à incapacidade e preguiça do alfabetizando, membros da comunidade a que pertence; e
quando o problema deriva do trabelho excessivo de ter educacionalmente, ela aprende mais rapidamente através
que aprender a alfabetização e a língua ao mesmo dela do que através de um meio lingüístico que não lhe
tempo. O alfabetizador de fora não conhece o seja familiar. A criança que assiste a aulas numa língua
português... realmente falado pelo índio, que está cheios estrangeira, enfrenta dificuldades quase insuportáveis.
de interferências derivadas da propria língua e da Conforme Goodman, um especialista em educação e
situação de contato que o índio vive em regiões de cultura psicolingüística, o enfoque na alfabetização tem que ser o
nacional periférica. aprender a ler. Nenhuma tentativa em substituir a língua
materna da criança pode ser permitida a entrar neste
3.4.2. Alfabetização na língua indígena processo ou interferir nele ( KINDELL JONES,1978,pp.8-9
).
As experiências de alfabetização em língua A alfabetização em língua indígena oferece
indígena são relativamente pouco numerosas. São muito também a grande vantagem de devolver à língua
numerosos os preconceitos ideológicos para negar aos indígena o prestigio eventualmente perdido no contato.
índios o que se concede como obvio a qualquer Os textos de alfabetização na língua indígena poderão ter
sociedade: o direito a ser alfabetizado na própria língua. uma carga semântica e um significado mais denso, difícil
‘Beltrán afirma que, não obstante o aparente desperdício de atingir, nas circunstâncias concretas do índio, pelo
de energias, tempo e dinheiro que entram na português.
alfabetização numa língua materna- que carece de
57
As desvantagens que se costumam projetar contra indígena é inevitável e a curto prazo, e todo o esforço por
a alfabetização na língua indígena traduzem sobre tudo a mantê-la é perda de tempo. São essas mentalidades
realidade diglóssica na qual ficou colocada a língua entreguistas, as que provocaram processos irreversíveis
indígena: a situação de falta de prestígio frente à de destruição. A vitalidade atual das sociedades
sociedade nacional e falta de literatura que se traduz em indígenas no Brasil está mostrando que os índios não
termos de falta de material didático. estão perto de assimilarem inteiramente e desaparecerem
O índio que vai ser alfabetizado e sobretudo os seus na comunidade nacional sem deixar vestígio. O tempo
pais sofrem uma espécie de desencanto frente à está trabalhando em seu favor.
alfabetização na língua deles, como se lhes fosse negado
o direito prestigioso de saber português. O alfabetizador 3.4.3. Alfabetização em duas línguas
na língua indígena, mesmo se ele é um indígena, carece
de um preparo pedagógicos adequado às mais das As pressões da sociedade nacional para que a
vezes, dada a falta de tradição nessa experiência. alfabetização seja feita em português e por outra parte as
Para comunidades realmente minoritárias, o vantagens pedagógicas e sociais da alfabetização na
material didático de cartilhas, livros, cartazes etc.; não língua indígena têm levado com freqüência a soluções de
oferece uma apresentação condigna, pois requereria compromisso, tentando fazer a alfabetização em duas
custo de produção elevado. As cartilhas para os índios, línguas.
comparadas com aquelas destinadas à sociedade Tecnicamente, a alfabetização em duas línguas é
nacional , são de uma pobreza tipográfica, papel, cores, impraticável. A alfabetização é um método para aprender
desenhos, encadernação, realmente deprimente. a ler e escrever em uma língua, que como tal, é um
A oposição a dar a alfabetização na língua sistema e uma norma distintos do sistema e norma de
indígena tem muito de ideologia e ideologização, tanto outra língua. A alfabetização se faz em uma língua só e
respeito à língua, quanto respeito à situação de contato. É quando se aprende uma segunda ou terceira língua, o
precisamente o alfabetizador quem se introduz na individuo não se alfabetiza por segunda ou terceira vez,
comunidade indígena com uma ideologia entreguista e mas somente adapta o método para o novo código.
negativa do contato. Conforme ele, a morte da cultura
58
Pedagogicamente, a alfabetização em duas língua discussão muito conscientizadora sobre toda a realidade
produziria e produz, quando se tenta aplicá-la, um indígena e os seus problemas derivados do contato.
continuo desajuste e confusão. Tem-se que avaliar realisticamente as capacidades
E essa alfabetização em duas línguas è, de fato, dos alfabetizadores disponíveis, assim como os materiais
uma perda de tempo e de energia. prévios dos que se dispõe. Isto é importante, sobretudo
A alfabetização em duas línguas às vezes é a para assegurar uma alfabetização séria, que também
dominação dado ao ensino bilíngüe, que é uso de duas possa ter uma boa continuidade. É melhor não começar,
línguas na educação. Este é um assunto que cai fora da do que oferecer uma alfabetização deficiente e
alfabetização propriamente dita. discontínua , que não vai senão desencorajar e frustar o
alfabetizando.
3.5. Início da alfabetização Em todo programa de alfabetização, o
alfabetizador devem tomar consciência da estreita relação
Para iniciar a alfabetização, deve-se levar em conta entre: língua-cultural-identidade-etnica. A perda de
vários fatores. É de suma importância a analise da identidade étnica geralmente vem precedida da perda da
realidade lingüística do alfabetizando. As opiniões que a cultura e da língua. E a perda da identidade étnica é
comunidade indígena tem sobre as línguas devem ser causa de perda de meios de subsistência como a terra.
estudadas e analisadas. Essas opiniões surgem tanto no Dado que alfabetização nasce do contato, a
seio da comunidade indígena, como são trazidas pela sociedade indígena tem que conhecer na sua
mesma comunidade desde fora. Não poucas vezes, a complexidade o que representa para ela a situação de
ideologia dominante tem penetrado profundamente na contato e quais são as vantagens reais e as expectativas
visão indígena. ilusórias que a alfabetização oferece. A alfabetização
Deve-se consultar seriamente o parecer autoridade pode ser instrumento de assimilação, mas também pode
da comunidade como tal e não só de alguns indivíduos ser de afirmação étnica.
eventualmente mais aculturados e mais próximos da A modo de conclusão, se pode dizer a alfabetização
mentalidade do alfabetizador. A consulta do parecer da deverá se iniciar na língua indígena . Em raras situações
comunidade pode se transformar num elemento de a alfabetização deverá ser em português. Cada caso
59
deverá ser estudados separadamente. O que parece  O índio alfabetizado se afirma na sua
evidente é que seja qual for, como for a opção definitiva, personalidade? Na sua identidade étnica?
o problema da alfabetização é um problema de contato. É  O índio alfabetizado tem mais capacidade para se
um problema relativo à situação do contato. É um defender do que o índio não alfabetizado?
problema sobre o qual não se pode tomar uma opção  Qual é a situação do índio alfabetizado dentro da
sem calcular as conseqüências. O que é básico é que a sua comunidade? Qual fora dela?
alfabetização, mesmo em português, terá por objetivo não
abafar a identidade e a educação étnica, mas sempre
revalorizá-la.
Os fatores que estão sobretudo em jogo são: o 4. TEXTOS DE ALFABETIZAÇÃO
alfabetizador, a língua e o material didático. Sobre o
alfabetizador já se indicaram algumas funções, sem falar, Os textos da alfabetização se apresentam
por;em, da programação do seu treinamento e da sua geralmente sob duas formas: as chamadas cartilhas e os
formação e da sua atuação pedagógica. Isto seria objeto livros de leitura.
de outro trabalho. Resta-nos tratar dos textos da Por extensão, são considerados textos também os
alfabetização, parte importante do material didático, nos cartazes, que se podem colocar nas paredes do local de
quais a língua é elemento primordial. alfabetização, que não seria necessariamente uma
escola, assim como as sentenças escritas no quadro-de-
giz ou na areia do terreiro.
QUESTIONAMENTO
4.1. A análise etno lingüística
 É possível se liberar da ideologização no exame e
análise da realidade lingüística? Conhecer a língua na qual a alfabetização será feita
 Quais seriam as vantagens e desvantagens para o é um suposto prévio, que visa não somente à língua
índio ser alfabetizado em português? Na língua
indígena?
60
indígena, mas também o português, quando ele tiver que se seguiu depois do primeiro contato, quais foram as
ser usado na alfabetização do indígena. principais crises. Se a cultura e identidade indígena,
Não é necessário repetir aqui o que foi dito a assim como o seu patrimônio educativo foram sendo
propósito da língua como instrumento de comunicação, relegados ao esquecimento, a língua tem que falar e
somente insistir no fato de que a língua é um lugar suscitar o discurso sobre esses aspectos tristes da
privilegiado onde viver a cultura e a história de um povo. história.
Um conhecimento, que não é apenas o conhecimento É a língua que faz penetrar no modo de pensar e
que tenho de fora, como lingüista, mas que me situa no modo de aprender. Sem a língua, é praticamente
dentro de uma visão do mundo grávida de historia. É um impossível saber-se o que pensa um índio. Daí também o
conhecimento de que a língua é rica, está cheia de perigo de se apropriar de uma arma tão poderosa como é
possibilidades, está dando força e vitalidade a um povo. a língua para usá-la contra aqueles que ensinaram.
Não é um conhecimento frio mas vivência ativa, simpática O que foi dito até aqui se aplica sobretudo à língua
e entusiasta. Acontece às vezes, mas quase por exceção, indígena , mas se aplica também ao português indígena
que um falante de fora possa chegar a essa vivência com daquela sociedade indígena que fala português pode-se
mais participação do que um de dentro, que despreza a ver e conhecer a historia de uma sociedade indígena,
própria língua. historia que de uma maneira ou outra terá que passar
Um tal conhecimento estabelece um tipo de para os textos da alfabetização.
comunhão com o povo e é capaz de lutar pela identidade Leituras da produção etnográfica referente ao povo
desse povo, sem se eximir de um estudo aprofundado e indígena, estudos da língua na convivência da aldeia, o
realmente cientifico da língua. diálogo com informantes qualificados, chefes religiosos e
Para o conhecimento da língua não basta políticos, participação nos rituais e nas assembléia
considerar o sistema e a norma nos seus aspectos indígenas seriam uma preparação relativamente ideal
sincrônicos e atuais, mas precisa-se entrar na historia do para o alfabetizador de fora. O alfabetizador indígena,
povo, que faz também a historia da língua. No caso das supõe-se, não se afastou da aprendizagem da língua em
línguas indígenas, essa história é uma história de contato: termos análogos e ainda mais intensivos.
de como se operou o contato, que tipo de relacionamento
61
4.2. Elaboração de uma ortografia com fins pedagógicos e entregues aos índios. Tanto é
assim que surge a pergunta de se é indígena a língua da
‘ A ortografia elaborada para cada língua, baseada alfabetização, com esse questionamento:
nos estudos lingüísticos e sócio-culturais, inclui: os Nas da sociedade Brasileira para o Progresso da
símbolos gráficos; a divisão de palavras; o uso da letra ciência (São Paulo, 15 de julho de 1978 ) foi apresentada
maiúscula e pontuação; decisões relativas à maneira de a colocação seguinte sobre esse problema de língua
escrever palavras emprestadas; e a solução de outros indígena e conteúdo dos textos de alfabetização, com
problemas ortográficos. A escolha de símbolos obedece a esse questionamento:
algumas normas principais: que o símbolo deve ser o
mais semelhante possível da grafia do português e que ‘É indígena a língua da alfabetização indígena?
seja um fonema para apresentar um único símbolo
( KINDEL-JONES, p. 13 ). Da leitura dos livros destinados à educação
Dois perigos se devem evitar: uma ortografia, que indígena, o leitor obtém apenas uma formação ridícula,
pretendendo se aproximar o Maximo possível das senão distorcida, acerca do povo indígena. Essa
peculiaridades fonéticas, se torne complicada demais no informação não é certamente obtida pelos antropólogos,
uso de signos diacríticos simbólicos não usuais no entre os quais estão os etno lingüistas; também não estão
português; o outro, de se assimilar tanto ao português destinados a eles-; mas, também não é obtida pelo índio.
que perca coerência interna. O índio, depois de ter lido todos os livros escritos na sua
própria língua, que foram preparados para eles, não
4.3. Os conteúdos dos textos aprendeu nada sobre sua sociedade e sua história.
Estes livros, a meu modo de ver, apesar de ter
O que tem que se dar nos textos é a língua do textos diferentes, oferecem as mesma características
índio. Qual seja a língua do índio. Qual seja a língua do formais e obedecem à mesma intenção que os chamados
índio e como fazê-la passar aos textos preparados por catecismos, usados na instrução dos indígenas nos
ele- apresenta os seus problemas, dadas as reduções e séculos XVII e XVIII, muitos deles de produção jesuítica.
manipulações que podem ser notadas nos textos escritos
62
Meu propósito seria mostrar quais são os De fato, a redução das línguas indígenas à escrita
processos supostamente científicos que levaram e levam tem feito progressos consideráveis; as gráficas adquiriam
a estes resultados e examinar e propor quais são as maior coerência; eliminaram a equivocidade facilitando o
alternativas possíveis no preparo e uso das cartilhas de progresso de leitura.
alfabetização para a educação indígena. De fato estas O recurso aplicado às línguas indígenas
cartilhas que não refletem nem a realidade histórica e possibilitaram duas operações importante: uma a
nem se quer a realidade cultural do povo indígena, pode apropriações importantes: uma, a apropriação etnográfica
ser que revelem categorias significativas da ciência de determinados discursos orais dos índios – mitos,
lingüística e da política educativa da sociedade cantos, inovações, falas políticas e conversas coloquiais;
civilizadora nas mãos da qual estava ontem e ainda hoje geralmente esses discursos que saíram do índio não
a técnica de fazer livros. voltam para ele. Outra, o aproveitamento das palavras da
língua do índio, para fazer uma língua indígena sem índio.
A redução pela escrita É neste contexto que se coloca o trabalho do índio.

O livro de alfabetização indígena é antes de mais A língua sem a língua


nada um livro e como tal se contrapõe, e se opõe, à
tradição oral. Que significa isso? Todo o discurso é uma realização concreta das
Mediante uma redução fonológica e gráfica possibilidades da língua. As sociedades de tradição oral
convencional um determinado discurso pode ser fixado e também elegem o seu próprio discurso segundo as
repetido indefinidamente. A língua, enquanto sistema de situações da vida diária selecionando palavras dentro de
signos permite essas operações. A redução à escrita de um estilo para formar um conteúdo. A alfabetização ao
um determinado discurso è geralmente considerada pelas propor seus textos também opera uma seleção entre os
sociedades que tem feito esse invento um avanço discursos possíveis. É aqui onde de produz uma
considerável para o seu próprio sistema de comunicação. operação muito características do trabalho do
Não somente isso; mas tem grande possibilidade de alfabetizador. Esse seleciona os textos – operação que
apropriar-se do discurso das sociedades sem escrita. sempre é necessária – retendo parte do discursos
63
ouvidos, eliminando discursos que considera não língua é possível e de fato se dá; a mesma sociedade
pertinentes e até nocivos, e criando mediante a sua indígena no curso da sua própria historia dessemantiza e
própria técnica lingüística, outros discursos que nunca ressemantiza o seu discurso, mas dentro de uma história
foram ouvidos, que escapam mesmo às possibilidades negando em parte a autonomia da história do povo
reais de produção do povo indígena, mas que ele indígena.
considera oportunos e necessários. Quais seriam os
critérios do alfabetizador para estas operações seletivas? Os livros da morte
Em primeiro lugar, é uma técnica fornecida pela
sociedade do alfabetizador que pode se aplicar e Que a tarefa do fazedor de livros represente uma
efetivamente se aplica. Nesse sentido o alfabetizador intromissão na educação indígena e, conseqüentemente,
combina as unidades léxicas que conseguiu selecionar, a na história daquele povo, tem sido claramente percebida,
fim de engendrar um novo discurso. Quando o por exemplo, pelos guarani do Paraguai, no século XVII e
alfabetizador cria textos novos nunca ouvidos entre os no século XX. Um missionário jesuíta traz a testemunha,
indígenas, põe em pratica o principio da tradução para ele ridículo, de um cacique que dizia que os padres
possível; o que ele tinha a dizer agora pode dizê-lo com nos livros traziam a morte. Um guarani MBYA. Me dizia
as palavras daquela língua indígena. que a civilização é muito ruim porque ela trazia escolas e
Em segundo lugar, pertencendo ele mesmo a uma policia, o que adoentava o modo de ser mbya. É bem
sociedade e a uma cultura diferente pode sentir-se muito conhecido o caso de povos indígenas que por isso
tímido e inseguro quando se trata de escrever e procuraram na ecologia do analfabetismo a preservação
comunicar um texto indígena que ele não domina da sua identidade.
semanticamente e assim prefere substituí-lo por um texto
indígena que ele não domina semanticamente e assim Alfabetização e educação
prefere substituí-lo por um texto que tem sentido para ele.
A partir destas operações e recursos é de fato que Será que o livro de alfabetização, pelas
se pode fazer e se fazem livros nos quais estão as características acima apontadas, deve ser excluído da
palavras da língua sem a língua. A dessemantização da educação indígena ou apresenta alternativas possíveis?
64
Enquanto algumas sociedades indígenas rechaçam facilmente ridículo. Os textos bilíngües, tendo que possuir
o livro há outras que exigem um programa de correspondência imediatas são procurados em terra de
alfabetização. A escrita por um lado exerce uma ninguém, ou na suposta terra sem história do colonizador
fascinação quase mágica e por outro, se apresenta como e do colonizado, atinge graus facilmente ridículos. Os
sinal de prestigio e quiçá de dominação. Diante disso o textos bilíngües, tendo que possuir correspondências
alfabetizador não pode concluir precipitadamente que a imediatas são procurados em terra de ninguém, ou na
comunidade indígena tenha abandonado a educação suposta terra sem historia das crianças. ( Se bem que a
tradicional, o que supõe que o alfabetizador tem uma educação indígena não comete geralmente esse tipo de
clara consciência de que a educação indígena sem livros erro, já que a criança no seu processo educativo é
e sem escola, existe e é historia do grupo. inserida às vezes de uma forma muito dramática e
Não seria mais correto propor a alfabetização marcante na história do povo que é seu.)
simplesmente como aquisição de uma técnica entre Na alfabetização indígena bilíngüe não é raro que
outras e uma habilidade? Mesmo assim esta torna o índio assim é negada a memória do povo indígena, também é
objeto de fácil manipulação, seja através da estrutura da negada a possibilidade da história lingüística, no sentido
escola da escola que ensina e dos conteúdo que lhe são de supor que o progresso nos conhecimentos e na
transmitido, projetando-os fora de si mesmo. estruturação da realidade, quando se faz na língua
indígena, chega logo a um teto a partir do qual a língua
Bilingüismo sem história indígena terá que ser substituída pela outra língua, única
portadora de história, segundo os preconceitos do
Tudo isso fica mais explícito quando a alfabetização alfabetizador’. (MELIÁ).
pretende ser instrumento de educação bilíngüe, não
sendo nem educação para uma educação para uma 4.4. Elaboração de cartilhas
sociedade estranha e mesmo educação para uma
sociedade estranha e mesmo antagônica. É aqui onde a Vão ser indicados somente alguns passos
neutralização semântica, que é o mesmo que a negação metológicos na elaboração de cartilhas necessariamente
da história do colonizador e do colonizado, atinge graus de alcance geral, que em cada caso deverão se aplicar
65
conforme as variáveis da língua e da situação sócio- se destinariam correm o grande perigo de adoecer de
linguística indígenas. infantilismo ou irrelevância nas suas tendência.

4.4.1 Trabalhos prévios


Estes incluem uma participação no modo próprio de
pensamento e aprendizagem indígenas, especialmente
através do aprofundamento na língua. Como já se tem
indicado, é conveniente aproveitar os estudos e materiais
já feitos. O alfabetizador normalmente deverá ter uma boa Algumas experiências mostram que a alfabetização
prática de transcrição de discursos realmente indígenas, é mais rápida quando o alfabetizando é adolescente. A
não somente de caráter coloquial e domestico, como vantagem de produzir textos para essa idade está no fato
tambem relatos, cantos e mitos de conteúdo político e que uma boa parte da formação lingüístico-cultural do
religioso, nos quais a densidade semântica é geralmente alfabetizando está já feita. As palavras e sentenças já
maior. possuem uma valorização no seio de um mundo
É importante suscitar a colaboração dos índios, que semântico já formado. Palavras e sentenças não oferecem
devem tomar a elaboração da cartilha como um projeto um conteúdo difícil e o processo de alfabetização pode
próprio, para o qual o elaborador de textos oferece assim estar orientado para a aquisição da técnica da
apenas uma ajuda técnica. leitura e escrita, e não à aprendizagem de coisas novas.
Estamos sempre naquela perspectiva de que a
4.4.2. Destinação da cartilha alfabetização vem apenas completar a educação indígena
e não substituí-la .
A alfabetização, se for pensada em termos de
escola, destina-se preferentemente às crianças da 4.4.3.- As ilustrações
mesma idade que os escolares de uma sociedade rural,
mais ou menos a partir de sete anos. Os textos que a eles As ilustrações contêm uma mensagem. Elas
veiculam conteúdos. Acontece com freqüência que as
66
ilustrações de cartilhas de alfabetização do índio refletem, artística, como a técnica, de gravura ou uso de lápis-cera
pelo estilo e linguagem implícita, um mundo que lhe é etc.
alheio .
Para uma ilustração mais indígena seria bom usar,
como já se tem feito, fotografias da vida real indígena e do
seu seio ambiente e desenhos dos próprios índios.
Á parte de uma boa qualidade técnica, a fotografia
tem que salientar nitidamente o tema que pretende
ilustrar. Fotografias se têm que ser da vida real, nem por
isso têm que ser puramente ‘etnografias’. Preste-se a
atenção na divulgação de fotografias cujo conteúdo
estaria tabuado para uma idade ou para um sexo: as
flautas sagradas da jejta , por exemplo, para as mulheres
munku.
Nas fotografias onde aparecem rostos humanos,
veja-se também que eles não suscitem hilariedade,
ridículo, contrariedade.
As fotografias ampliadas em tamanho de 20x 30 Mãtii Nestor Iranxe, 9 anos
pelo menos, podem cumprir uma função de decoração no
local da alfabetização e de ilustração no quadro de giz. A vantagem dos desenhos indígenas está
sobretudo no fato da sua grande abstração e valor
Os desenhos dos próprios índios, quando feitos com simbólico. Os Boróro, por exemplo, não representam a
espontaneidade mostram uma criatividade notável. onça em si, mas só pela pegada. Às vezes o desenho
Algumas sociedades indígenas seriam não somente representando uma mulher se distingui daquele do
espertas nas suas expressões gráficas tradicionais, mas homem não pela figuração do sexo fisiológico, mas pela
assimilariam rapidamente novas técnicas de expressão simples tatuagem correspondente a ela. Os etnógrafos
67
muito mais que os educadores souberam se aproveitar da primeiras cartilhas são feitas por escritores de fora, que
capacidade comunicativa do desenho indígena. têm dificuldades serias para entrar na lógica do mito.
Crianças munku de 7, 10 e 12 anos ilustram com Como por outra parte, não se pretende fazer a
uma força expressiva notáveis mitos como da Grande educação do índio nem estruturar o seu mundo mental,
Pedra e da Nambuzinha. quem prepara uma cartilha pode sentir-se com uma certa
liberdade para utilizar uma ordem de gradação nos textos
4.4.4. A ordem dos textos que comece pelos conteúdos mais coloquiais, sem excluir,
porém, à medida que avança, os conteúdos de caráter
A ordem de palavras e sentenças numa cartilha não religioso, ético, político e histórico.
pode ser arbitrária. O simbolismo gráfico para os fonemas Pode-se ler umas notas metodológicas bastante
da língua apresentam grau de dificuldade diferente. Tem- extensas sobre a elaboração de dois livros de leitura e
se umas letras e silabas mais difíceis que outras. A alfabetização em guarani na monografia de MELIA-
pedagogia da alfabetização tem que se adaptar a esses GRUNBERG, 1975,pp. 257- 285
problemas. Os elementos técnicos para uma lição de
alfabetização estão muito bem descritos na metodologia A ordem e seleção de conteúdos, por exemplo, que
seguida pelo SIL ( KINDELL- JONES, 1978,pp.19-20 ). foi estabelecida nos dois livros mencionados – e que
Siga-se esta ou outra, aplicação de uma teoria lingüística talvez poderia servir de indicação para elaboração de
coerente é sempre necessária outras cartilhas – é a seguinte:
É bem sabido que comumente a ordem lógica da 1. TERRA 1.1 Roça 1.2. Mato
educação indígena é a ordem mitológica. Os povos 2. CASA 2.1. fogo, 2.2 Utensílios, 2.3
procuram as explicações educativas a partir dos seus comidas, arte fatos. Família
mitos fundamentais. Mas começar por textos míticos, que atividades
comumente se apresentam com um estilo altamente domésticas.
simbólico e numa linguagem ritual, oferece problemas 3. COMUNIDADE 3.1. 3.2
técnicos e pedagógicos enormes, sobretudo quando as Assembléia e Organização
atividades social e
68
sóciopolítico econômica demais. Os conteúdos não passam do genérico; ocorrem
4. NOSSA 4.1. Justiça e 4.2. Normas numerosas induções de outra cultura em oposição à
CULTURA normas religiosas cultura e educação indígena. Desconhecimento da língua,
étnicas timidez e insegurança na apresentação de conteúdos
5.NOSSOS 5.1. Deuses, 5.2. Espíritos e específicos e seleção dos textos e cartilhas de
ANTEPASSADOS heróis crenças alfabetização.
(sentido mítico) culturais... religiosas.
6. LITURGIA 6.1. Lugares e
6.2 Cantos, 5. EDUCAÇAO BILINGÜE
objetos rezas e
sagrados. danças Na realidade sócio linguística atual, a alfabetização
religiosas. do índio na sua língua indígena parece se justificar
7. NÓS, OS PAI, 7.1. 7.2. 7.3. Situação somente como introdução para o ensino bilíngüe, que por
NO PARAGUAI Contatos Mudanças na realidade sua vez, seria uma ponte para a integração. A
econômico histórica e alfabetização praticamente careceria de valor em si. A sua
-sociais política da função seria a de permitir o passo para se integrar mais
sociedade rapidamente na sociedade e cultura nacionais. A
nacional. alfabetização romperia a barreira da resistência indígena
para a integração.
4.4. Observações críticas Quando a alfabetização é apresentada em função
do ensino bilíngüe desequilibrado, no qual a língua
Olhando para o material didático usado na indígena perde cada dia importância , ela vê reduzida a
alfabetização do indígena, pode-se observar, com uma ‘reserva’ de vida cada vez menor.
freqüência, uma série de defeitos que se repetem: a A doutrina da educação bilíngüe e bicultural baseia-
língua indígena apresenta-se reduzida só aos níveis de se geralmente no sofisma do biculturalismo e bilingüismo
cultura material e atividades econômicas, mas banais; perfeito.
muitas das expressões registradas são irreais e fictícias
69
O bilingüismo pode dar-se em um individuo,
condições culturais e sócio-econômicas se correspondam
perfeitamente nas duas sociedades e nas duas culturas, A divisão em diagonal indica o uso quase exclusivo
onde ele fala as duas línguas: um profissional da língua indígena no primeiro semestre; gradativamente
universitário, um lingüista, um executivo de negócios... é introduzida a aprendizagem na língua nacional, até
Pensar que o modelo é aplicável aos indivíduos de uma termino da segunda série. Observe que neste programa
comunidade indígena, não só tomados individualmente, em particular, somente no ultimo semestre o educando
mas também em grupo, é desconhecer a realidade socio- começa a se alfabetizar na língua nacional; até este ponto
linguistica na qual o índio se desenvolve e vai se ele vinha sendo alfabetizado em sua língua materna,
desenvolver. aprendendo oralmente o português.
Os programas de educação bilíngüe e bicultural nem O nível da integração do povo Kaingáng à
se quer na teoria logram superar esse equivoco. Até sociedade brasileira possibilita um programa de ensino
parecem se sustentar implicitamente na realidade da bilíngüe com duração de dois anos. No inicio do terceiro
diglossia como um fato insuperável. ano escolaridade, o aluno Kaingáng, já alfabetizado na
Veja-se como se representa um progra de ensino língua materna e orientado quanto à cultura nacional,
bilíngüe bicultural, proposto por B. A. NEWMAN, 1975, p. entra na segunda série do sistema educacional brasileiro
72 e retomado com algumas pequenas variantes em e encontrar o seu próprio lugar sem sofrer o peso de
KINDELL- JONES, 1978, pp. 44. tantas desvantagens sócio- econômica (KINDELL-
JONES, 1978, p. 44).
Ao fim de um programa elaborado nestes termos,
pode-se perguntar onde ficou o uso da língua indígena, e
qual a participação da educação propriamente indígena
1º Semestre 2º Semestre 3º Semestre 4º Semestre nesse processo?
Uma vez passada a ponte da integração, poderá o
indígena voltar para a sua língua e cultura de antes?

70
O ensino bilíngüe em diagonal não faz senão
acentuar o desequilíbrio diglóssico que a situação de
contato havia já estabelecido. Enquanto a língua nacional
se reserva todas as áreas de conhecimentos mais
técnicos e de prestígio, a língua indígena é reduzida à
área do coloquial.
Uma verdadeira educação e ensino bilíngüe
poderiam dar-se conforme um modelo que poderíamos
chamar de paralelismo, onde, mesmo admitindo uma
relativa separação de áreas, procura-se reduzir o
desequilíbrio diglossico . É precisamente a área dos
chamados estudos sociais, nos quais entrariam a história
do povo indígena, a que deveria entrar na alfabetização
social, a historia do povo indígena, a que deveria entrar REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS
na alfabetização inicial e continuar com pelos menos os
mesmos tempos e intensidade em todo o BEALS, Ralph – HOIJER, Harry
desenvolvimentos do ensino bilíngüe. As áreas dos 1972 – Introdicion a la antropologia. Madrid
ensino técnicos poderia se desenvolver preferentemente
na língua nacional. FERNANDES, Florestan
O ensino bilíngüe que se propõe, não é outro depois 1975 – Investigação etnológica no Brasil e outros
de tudo, que aquele que fornecem certas instituições, que ensaios. Petrópolis. FUNAI
pretendem ensinar uma nova língua, sem detrimento de 1975 – Legislação. Brasília.
outra. 1975 – Informativo Funai, Ano IV, n. 14, Brasília

KINDELL, Gloria Elaine – JONES, Joan Wickham


1957- Triste trópicos. São Paulo
71
1977- Educação Indígena: Metodologia e PEREIRA, Adalberto Holanda
programação. Brasília. LÉVI- STRAUSS, C. 1974- A morte e a outra vida do Nambikuára. In
Pesquisas, Antropologia, n.26, pp.1-14. São Leopoldo.
LOPES DA SILVA, Aracy
1978- Aprendizado sexual para o casamento. In SANTOS – Silvio Coelho dos
índios do Xingu. MACKEY, William F 1975- Educação e sociedades tribais. Porto Alegre.
1970- The description of bilingualism. In FISHMAN,
J. A. ( Ed.), Readings in the sociology of language. The SCHARDEN, Egon
Hague. 1976- Educação indígena. In Problemas brasileiros,
Ano XIV, n. 152,pp. 23-32. São Paulo.
MELIA, Bartolomeu
1975- Hacia una ‘tercera lengua’ en el Paraguay.
Estudios paraguayos. Vol. II, p. 2, pp. 31-71.Assunción. NDICE

MELIÀ B. – GRUNBERG, G. E F. INTRODUÇÃO ....................................................................


1976- Los Pai- Tavyterã. In Suplemento .....................................................7
antropológico, vol. XI, pp. 151- 295. Asuncion 1- Educação
Indígena .............................................................................
MELATTI, Julio César .............................9
1972- Índios do Brasil. Brasília (2. ed.). 1.1 O processo Reflexões educativo na sociedade
indígena..............................................9
NEWMAN, Barbara A. 1.1.1.Reflexões
1975– Ensino Bilíngüe: uma ponte para a prévias........................................................................
integração. In Informativo FUNAI, Ano IV, n. 14, pp. 67-75. .......................9
Brasília.

72
1.1.2.Definições de educação 1.2.8.Formação de personalidade
indígena....................................................................1 específica .........................................................23
1 1.3. Analise de alguns processos educativos
1.1.3.Categorias fundamentais para a análise dum específicos .....................................23
sistema de educação indígena12 1.3.1. A Educação na Sociedade Tupinambé
1.2 Aspectos relevantes da educação indígena no 1.3.2. A educação entre os Pai – Tavyterã
Brasil............................................17 (Kayoavá)....................................
1.2.1. Concepção e 1.3.3. A educação entre os xavantes e
nascimento............................................................... Nambikwára ...................................32
18 1.4 Focos de elaboração
1.2.2. O educativa .......................................................................
jogo............................................................................. ..35
.........................19 1.4.1 Munku-
1.2.3.Correção............................................................ Iranxe ........................................................................
..............................................19 .............36
1.2.4.Conhecimento da 1.4.2 Boróro ..............................................................
natureza...................................................................... ..................................40
.20 1.4.3 Rikbátsa-
1.2.5.Ritos de Canoeiro ....................................................................
iniciação ..................................................................... .........40
................21 2- EDUCAÇAO PARA O
1.2.6.Nominação ....................................................... INDIGENA ...........................................................................
..............................................22 .........43
1.2.7.Rituais e linguagem 2.1. Educação
mítica ......................................................................... missionária ........................................................................
.....22 ...........................44
73
2.1.1. 3.1.3. A alfabetização exigida pelo
Funcionamento .......................................................... contato .........................................................60
...................................44 3.2.Condições da
2.1.2. Justificações alfabetização ......................................................................
ideológicas ................................................................. ...............................61
.........46 3.3. A situação
2.1.3. Residência indígena e lingüística ..........................................................................
revisão ...................................................................... .....................................64
47 3.3.1.Língua de
2.2. Educação comunicação .............................................................
‘nacional’............................................................................. ............................................64
........48 3.3.2.A realidade lingüística
2.3. Um índio indígena .....................................................................
marginal ............................................................................. ........................69
.......................50 3.4. A língua da
2.4. Contraste entre a educação indígena e educação alfabetização.......................................................................
para o índio ................................51 .........................70
3- ALFABETIZAÇAO DO 3.4.1. Alfabetização na língua
ÍNDIGENA ........................................................................... portuguesa .................................................................
.......55 .....................70
3.1 O porquê da alfabetização do 3.4.2. Alfabetização na língua
indígena .......................................................................58 indígena .....................................................................
3.1.1. A perspectiva da sociedade .....................72
nacional ..........................................................58 3.4.3. Alfabetização em duas
3.1.2. A perspectiva da sociedade língua .........................................................................
indígena ............................................................59 ......................73
74
3.5 Início da 4.4.3.As
alfabetização ...................................................................... ilustrações .................................................................
.........................................74 .........................................................84
4- TEXTOS DE 4.4.4. A ordem dos
ALFABETIZAÇAO............................................................... textos .........................................................................
............................77 .......................................86
4.1 A análise etno 4.4.5. Observações
lingüística .......................................................................... criticas .......................................................................
................................77 ........................................87
4.2.Elaboração de uma
ortografia ............................................................................ 5- EDUCAÇAO
........................78 BILÍNGUE ...........................................................................
4.3. Os conteúdos dos ................................89
textos ..................................................................................
.........................79 REFERÊNCIAS
4.4. Elaboração de uma BIBLIOGRAFICAS .............................................................
ortografia ............................................................................ .............................93
......................82
4.4.1.Trabalhos
prévios .......................................................................
............................................83
4.4.2.Destinação de
cartilhas .....................................................................
......................................83

75