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Ética e Teologia das Religiões
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Prof. Ms. Antonio Salvador Coelho
1. INTRODUÇÃO
Você enveredou pela diversidade dos modos de fazer teologia no encontro das religiões. Muitas pontes estão sendo construídas. Agora, trata-se de olhar com mais atenção para a ponte ética, para a teologia das religiões enquanto põe seu potencial espiritual a serviço do cuidado com a criação e a plenitude de vida dos filhos e filhas de Deus. As vivências morais e os referenciais éticos dos povos foram sustentados, durante milha-res de anos, por tradições religiosas que, com seus símbolos, ritos, mitos e interditos, deram suporte para a necessária sobrevivência social e espiritual. No século 20, presenciamos diversos ultrajes à humanidade nas guerras, na calamidade da fome e na crescente injustiça mundial. No início deste milênio estamos diante de terríveis e perniciosas conturbações no coração do sistema de mercado neo-liberal que foi engendrado na velocidade precipitada da globalização.. Se o encontro dos capitais mundiais criou organismos e poderes imensos, agora em crise, a ameaça aos povos tem aumentado vertiginosamente. Enquanto poderes ameaçadores avançam, os povos vão enriquecendo suas tradições reli-giosas para dar respostas a questões novas.Há que perguntar se é possível que as diversas religiões vivam uma preguiçosa tolerância ou até um estado de beligerância entre si, enquanto a humanidade precisa superar os graves problemas da fome e das catástrofes ambientais que se avizinham.
DISCIPLINA: tica e Tradições ReligiosasTeologia das Religiões - Anexo 4
 
Centro Universitário Claretiano
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© Teologia das Religiões
Na contemporaneidade, todas as religiões são convocadas a converter-se, a atualizar-se, a assumir a diversidade das culturas e das expressões espirituais, a compreender as novas exigên-cias ético-teológicas num mundo interligado e multirreligioso.Outro mirante mais amplo vai substituindo visões antigas que fizeram cada religião pensar a si mesma como única, verdadeira, superior, com exclusividade salvífica.Assim, a teologia de cada tradição vai abandonando certo fundamentalismo, quase et-nocêntrico, para reconhecer em toda a humanidade a manifestação de Deus que fez a todos e todas irmãos e irmãs.A teologia aberta ao mundo plural das religiões é também chamada ao compromisso com os destinos da humanidade, com a proteção da comunidade de vida e das condições da Terra.E aqui temos que nos defrontar com uma questão crucial: o fundo religioso mercantil das práticas destruidoras da humanidade e da comunidade de vida no atual momento da história do planeta.Bom estudo!
2. ÉTICA TEOLÓGICA DAS RELIGIÕES
O sofrimento humano está presente em todas as tradições religiosas, e desafia o fazer teológico. A terra ameaçada, a vida ameaçada, o pobre ameaçado instigam o pensamento teo-lógico das diversas religiões. E aqui se pode identificar uma ponte importante para o encontro inter-religioso, um fundamento comum para novos caminhos teológicos. Com este olhar as religiões se alegram com o ensinamento de Jesus:
só amaremos de ver-dade a nós mesmos quando amarmos nosso semelhante
. As religiões se alegram também com Maomé que ensina o cuidado dos pobres e abandonados enquanto se promove uma sociedade melhor. As religiões se alegram diante da iluminação de Buda que se reflete em compaixão por todo o ser sensível. As religiões se alegram com a ética de Confúcio que propõe ajudar os outros a se afirmarem para nos afirmarmos, ajudar os outros a crescerem para crescermos também.O entusiasmo pela promoção da vida precede a empolgação pelo diálogo entre as religi-ões. O respeito à diversidade religiosa não pode ser a preocupação primordial, não pode ser um fim e si mesmo, não pode sobrepor-se à vida e ao sentido sagrado da vida. A referência última é Deus e a referência primeira é a materialidade da vida como a quis Deus.
Um diálogo ético compartilhado, por assim dizer, há de abrir portas e tomar a frente de um diálogo re-ligioso mais eficaz. Se pessoas religiosas primeiro despenderem seu tempo a agir conjuntamente para aliviar o sofrimento eco-humano, com mais sucesso conseguirão conversar acerca de suas experiências e crenças religiosas. Assim, falar depois de agir contribui para falar melhor (KNITTER, 2008, p. 223).
Esta prática está difundida especialmente na América Latina, na África e na Ásia. Confor-me avança a dedicação à situação dos párias, dos excluídos, dos refugiados, dos esfomeados, dos afrodescendentes, dos indígenas, das crianças e jovens marginalizados, cada tradição reli-giosa vai buscando os recursos espirituais e encontra inspiração ética em suas profundezas. Do coração de sua vivência religiosa brotam forças proféticas e possibilidades espirituais. Aqui se vê que a Ética não é um tema secundário para a Teologia. Nas raízes das tradições religiosas, como também nas manifestações oficiais contemporâneas, o compromisso com toda a criação e com a humanidade, em suas fragilidades, aparece de forma constante.
 
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© Ética e Teologia das Religiões
Ética teológica no cristianismo
O diálogo entre as religiões, centrado na prática da solidariedade, traz mudanças para a teologia.Em especial na América Latina, na África e na Ásia, a Teologia da Libertação tem privile-giado o caminho dos pobres e da solidariedade para avançar na construção de uma teologia das religiões. O compromisso com os empobrecidos traz consequências de ordem ético-teológica que exigem outra ótica, outro olhar para as realidades diante da realidade definitiva. Os textos fundantes da tradição cristã, bem como as manifestações dos sábios dos primei-ros séculos trazem esta teologia que repercutiu na história ocidental e inspira posicionamentos atuais do cristianismo marcando o caminho de encontro com as religiões.
Nos primórdios do cristianismo
Muitos dos primeiros padres da Igreja, como São João Crisóstomo, afirmam que não há amor que dispense a justiça e que é abominável ostentar a caridade com donativos que são fru-to da exploração. O verdadeiro amor faz ver no pobre o outro eu. Podemos ler um forte texto de Gregório de Nissa, dos primórdios do cristianismo, na ‘
Homilia sobre o amor aos pobres
’:
[...] porque o Senhor, por sua bondade, lhes emprestou sua própria pessoa a fim de que por ela como-vam os que são duros de coração e inimigos dos pobres [...] Os pobres são os despenseiros dos bens que esperamos, os porteiros do reino dos céus, os que o abrem aos bons e o fecham aos maus e desumanos. Eles são, por sua vez, duros acusadores e excelentes defensores. E ou defendem ou acusam, não pelo que dizem, mas pelo mero fato de ser visto pelo juiz. Tudo o que se fizer a eles grita diante daquele, que conhece os corações, com voz mais forte que dum arauto (in GONZÁLES FAUS, 1996, p. 23).
Desta perspectiva teológica brota a sensibilidade com as bases materiais da vida que são de ordem espiritual. Assim, reflete Gregório de Nissa:
[...] Daí que digamos a Deus: 'O pão nosso de cada dia dá-nos hoje', não os prazeres e riquezas, não as vestes de púrpura recamadas de flores, não os adorno de ouro, não as pedras preciosas, não os vasos de prata, não a abundância de terras, não o comando dos exércitos, não a direção das guerras e o governo de nações, não rebanhos de cavalos e bois, nem grandes quantidades de outros animais, não a abun-dância de escravos, não a ostentação ou pompa nos logradouros públicos, não estátuas, não roupas de seda, não concertos musicais nem coisa alguma desta natureza, que distrai a alma de pensar nas coisas divinas e mais excelsas. Não. Só pedimos o pão (LEURIDAN, 1983, p. 159).
Esta inspiração não foi esquecida e passou a fazer parte da espiritualidade cristã de tal modo que Francisco de Assis emergiu com toda a ternura e vigor deste projeto teológico e ainda mobiliza tantas pessoas para além das fronteiras da religião cristã.Francisco de Assis, testemunho da mais radical solidariedade, é também símbolo do en-contro entre as religiões. Na terceira de uma série de viagens em direção ao mundo muçulmano, teve um encontro histórico de vários dias com o sultão
Melek-el-Kamel 
 (1218-1228), em Dalmie-ta (Egito). Depois de muitas conversas, o sultão, impressionado, providencia escolta para que Francisco andasse pela região. Em Assis há um chifre que teria sido doado pelo sultão e utilizado por Francisco para enviar os irmãos em missão (CELANO, 1981, p. 219 e 309).
Na América Latina em fins do século 20
Coisas divinas estão na concretude da vida. A fome de cada um é uma questão material, mas a fome do outro torna-se uma questão espiritual.Isto ressoa em Inácio Ellacuría, teólogo assassinado em El Salvador no ano de 1989, que tratou os pobres como povos crucificados. Ressoa também em Oscar Romero, arcebispo assas-

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