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FUNDAÇÃO GETULIO VARGAS

CENTRO DE PESQUISA E DOCUMENTAÇÃO DE


HISTÓRIA CONTEMPORÂNEA DO BRASIL – CPDOC
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA, POLÍTICA E BENS
CULTURAIS
DOUTORADO EM HISTÓRIA, POLÍTICA E BENS CULTURAIS

LINGUAGENS DA CIDADANIA
OS BRASILEIROS ESCREVEM PARA A CONSTITUINTE DE 1987/1988

MARIA HELENA VERSIANI

ORIENTADORA: PROFª DRª ÂNGELA MARIA DE CASTRO GOMES

Rio de Janeiro, Março 2013


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Ficha catalográfica elaborada pela Biblioteca Mario Henrique Simonsen/FGV

Versiani, Maria Helena


Linguagens da cidadania : os brasileiros escrevem para a
Constituinte de 1987/1988 / Maria Helena Versiani. - 2013.
284 f.

Tese (doutorado) - Centro de Pesquisa e Documentação de História


Contemporânea do Brasil, Programa de Pós-Graduação em História,
Política e Bens Culturais.
Orientadora: Ângela Maria de Castro Gomes.
Inclui bibliografia.

1. Brasil – História – 1988. 2. Brasil – Política e governo – 1988. 3.

Brasil. [Constituição (1988)]. 4. Brasil. Assembleia Constituinte (1987-1988).

5. Documentos arquivísticos. I. Gomes, Ângela Maria de Castro, 1948- . II. Centro

de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil. Programa de

Pós-Graduação em História, Política e Bens Culturais. III. Título.

CDD – 981

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Agradecimentos

Em todas as etapas de realização desta tese, encontrei o apoio e a interlocução


essenciais ao exercício da pesquisa histórica. “Caminhar” neste trabalho foi antes de
tudo viver a prazerosa experiência da troca de ideias, o compartilhamento de projetos e
a confiança e solidariedade. Quando escrevemos, é sempre sobre algo aprendido (e
apreendido) no campo das experiências e, nesse campo, é preciso reconhecer que tive
muita sorte, pelo que sou muito grata.
Assim, agradeço, inicialmente, o indispensável apoio das instituições às quais
sou vinculada profissionalmente, o Instituto Brasileiro de Museus e o Museu da
República, na pessoa de sua diretora, Magaly Cabral. Agradeço igualmente a todos os
colegas de trabalho e amigos do Museu da República, com quem, há anos, venho
descobrindo e redescobrindo que é possível, com e sem maiores complicações, articular
curiosidade intelectual a projetos e pesquisas de interesse público.
À Ângela Maria de Castro Gomes, agradeço pela melhor orientação que se pode
desejar. Por sua leitura atenta, crítica e inestimável do trabalho e a orientação firme e
aberta ao diálogo, acompanhando comigo cada avanço e recuo e apontando, com muita
propriedade e segurança, possibilidades e direções para a pesquisa.
As professoras convidadas para compor a Banca de Qualificação desta tese,
Luciana Quillet Heymann e Maria Paula Araújo, trouxeram críticas e sugestões
precisas, todas incorporadas ao trabalho. Sabemos que os diálogos constituem o próprio
sentido do fazer histórico e, nesse aspecto, foi um grande privilégio a oportunidade de
contar, no momento da Qualificação, com duas profissionais que se destacam na
produção do conhecimento histórico e na generosidade intelectual, qualidades que nem
sempre andam juntas no mundo acadêmico.
Registro também o meu agradecimento aos titulares e suplentes da Banca
Examinadora desta tese, que aceitaram concluir comigo a etapa final, e fundamental, de
sua elaboração. Luciana Quillet Heymann, Lucília de Almeida Neves Delgado, Maria
Paula Araújo, Surama Conde Sá Pinto, Américo Freire e Ana Luce Girão. A
participação de cada um me alegra, honra e gratifica, para além de valorizar muito o
trabalho.
À Lucília Neves, Cecília Coimbra e Zelia Lima, agradeço pelas importantes
recomendações de leitura e ótimas observações. O entusiasmo que demonstraram por

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este trabalho, quando ele ainda estava começando, irrigou o terreno da pesquisa,
tornando-o não só mais fértil de ideias, mas também renovado de interesse.
Aos professores das disciplinas que cursei no Doutorado – Mário Grynszpan e,
novamente, Ângela Maria de Castro Gomes e Maria Paula Araújo –, como também a
todos os meus colegas de turma, não sei como adjetivar os importantíssimos
comentários, estudos, debates e aprendizado que me proporcionaram. É certo que
valeram para este e para todos os trabalhos que eu venha a desenvolver adiante.
Alguns amigos fizeram uma leitura cuidadosa de capítulos da tese: Alberto
Moby, Ana Luce, Márcia Guerra e Valdinha. Agradeço o carinho, tempo e interesse
dedicados e por terem me despertado para detalhes e lacunas importantes,
confirmando/problematizando premissas e ideias desenvolvidas no texto. Suas
observações influíram muito na reformulação de alguns pontos e na redação final do
trabalho, sem dúvida para melhor.
Fui agraciada também com a abertura intelectual e o prestimoso
companheirismo de Mauro Osorio, que acompanhou, apoiou, leu e discutiu comigo
alguns tópicos do trabalho, particularmente no tocante às análises do contexto
econômico brasileiro da segunda metade do século XX. Ao longo de toda a pesquisa,
Mauro ainda cumpriu eximiamente o papel de provocador de polêmicas, sobretudo
chamando atenção para o importante lugar da macroanálise no esforço de compreensão
das sociedades, o que não significa dizer que ela deva ser tomada como modelo único
de inteligibilidade ou que seu valor minore a riqueza e relevância das contribuições no
campo da microanálise.
Agradeço ainda, imensamente, a amizade desmedida, a disposição para a leitura
dos primeiros rascunhos da pesquisa e a competência de Mario Jorge, que muito
auxiliou na organização geral da tese, particularmente em todos os detalhes que
envolveram a lida com o mundo da informática. O seu ânimo incansável para o
trabalho ao lado do permanente senso de humor faz tudo parecer fácil, agradável e
possível. São dele as melhores soluções de layout e de apresentação dessas páginas.
Marcelo Brito esteve perto em todas as etapas da pesquisa, amorosa e
criticamente. É o exemplo vivo da paixão militante pela causa da democracia e dele
pude ouvir as mais densas, humanas e sensíveis análises da política e do social. A
experiência dos nossos encontros, afora o prazer do encontro, sempre estimula reflexões
e enriquecem-nas. Marcelo prova que é possível elaborar ideias e visões de mundo

5
muito sofisticadas sem perder a simplicidade e a humildade. Com certeza ele não
imagina como é enorme sua influência intelectual sobre mim.
Francisco Manhães (o Paco), Jailza Sousa, Márcia Chevrand, Paulo Knauss e
Samuel Oliveira, sempre receptivos e atenciosos na presteza de informações, dicas e
ajudas infinitas e também no incentivo e carinho. Devo dizer que concluo esta tese com
muita vontade de perseguir o tema aqui desenvolvido, em trabalhos futuros, e que isso
tem muito a ver com a parceria informal desses e de tantos amigos.
A habilidade profissional na composição, revisão e tradução de textos é uma arte
que faz a diferença, não só na qualidade, mas na graça dos escritos. Deixo então
registrada a minha gratidão às tradutoras Maria Padilha e Teresa Dias Carneiro, aos
queridíssimos amigos Alexandre Borges e Hortênsia Salek e ao revisor da tese Virgílio
Duarte. Agradeço também a extrema gentileza de Jimmi Medeiros, assistente de
pesquisa da FGV-Opinião, sugerindo formas de sistematização de informações
analisadas neste trabalho.
Aos meus familiares, grandes amores, parceiros de todos os sonhos. Nada, nada
mesmo, aconteceria sem a sua extraordinária e intraduzível presença cotidiana em
minha vida, nos melhores e nos mais difíceis momentos, e sem a sua participação, de
diferentes maneiras, nos meus projetos. O convívio com Eduardo, Fernando, Isadora,
Jorge, Junia, Luís Hermano (o Chap), Vera e a “grande família” (e, claro, com o
Zezinho) é um recolocar permanente de questões, reflexões, achados e promessas. Com
vocês, os momentos são invariavelmente bons, as gargalhadas são muitas e renova-se a
cada dia o respeito ao pluralismo e à livre expressão de ideias.
Agradeço, muito especialmente, cada gesto e silêncio que minha filha, Isadora,
emprestou às minhas horas de estudo, envolvendo ternamente o meu trabalho e o meu
mundo. É a ela que dedico esta tese.

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Resumo

Esta tese analisa uma amostra de cartas pessoais que integram o fundo
documental Coleção Memória da Constituinte, depositado no Arquivo Histórico do
Museu da República. Esse fundo reúne documentos produzidos no curso do processo
político que resultou na promulgação da atual Constituição Federal brasileira.
O Brasil vivenciava um momento de transição democrática, que tinha por
objetivo pôr fim ao regime autoritário instalado no país a partir do golpe civil-militar de
1964. A reconstitucionalização colocava-se como a via democrática de luta contra o
autoritarismo, recebendo forte e crescente apoio social e tornando-se inclusive um
ponto-chave na articulação da eleição indireta de Tancredo Neves e José Sarney à
Presidência e Vice-Presidência da República em 1985. Com a eleição e morte de
Tancredo, Sarney assume a Presidência e propõe oficialmente a convocação de uma
Assembleia Nacional Constituinte no país.
Tem início um intenso debate na sociedade e negociações em torno do tipo de
Constituinte que se desejava estabelecer, com destaque para a organização de um amplo
e bem estruturado movimento social em prol da participação popular na Constituinte,
então aclamada como uma condição para a construção de um Brasil verdadeiramente
democrático.
As cartas analisadas nesta tese inserem-se no quadro das iniciativas de
participação na Constituinte empreendidas no país. Elas foram escritas por populares,
em razão daquele momento de reconstitucionalização, e enviadas a autoridades do
mundo da política. Registram reivindicações, pedidos, comentários, críticas, denúncias
e sugestões da população para a futura Constituição.
O objetivo da tese é, por um lado, mostrar que essas cartas são formas de
participação política, singulares e especiais, que valorizam a dimensão democrática da
política. Por outro, identificar os sentidos atribuídos nas cartas às noções de “direitos do
cidadão” e “deveres dos representantes políticos”, naquele momento em que o país se
colocava a tarefa de elaborar uma nova Constituição – a “Constituição Cidadã”.

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Abstract

This thesis examines a set of personal letters that comprise the documental found
Collection Memory of Constituent, deposited in the Historical Archives of the Republic
Museum and gathering documents produced in the course of a political process that
resulted in the promulgation of the current Brazilian Constitution.
Brazil was experiencing a moment of democratic transition, which aimed to put
an end to the authoritarian regime installed in the country from the civil-military coup
of 1964. The settlement of a new Constitution was put up as a democratic path of
struggle against authoritarianism, getting stronger and increasing social support, and
even becoming a key point in the articulation of the indirect election of Tancredo Neves
and José Sarney to the Presidency and Vice-Presidency of the Republic, in 1985. With
the election and following death of Tancredo, Sarney took over the Presidency and
officially proposed the setting up of a National Constituent Assembly in the country.
Then, an intense debate and negotiations surrounding the type of constituent
which must be established had begun in society, with especial emphasis in the
organization of an extensive and well structured social movement in favor of popular
participation in the Constituent Assembly, which was acclaimed as a condition for
building a truly democratic Brazil.
The letters analyzed in this thesis were inserted into the context of initiatives to
participate in the Constituent Assembly that took place in Brazil. They were written by
ordinary people because of that constituent moment, and they were sent to political
authorities. These letters register claims, requests, comments, criticisms, complaints and
suggestions for the future Constitution.
The aim of this thesis is, first, to demonstrate that these letters are forms of
politic participation, unique and special, that value the democratic dimension of politics.
Second, to identify the meanings given by these letters to the notions of "citizen rights"
and "duties of political representatives" at that time the country was assigned the task of
elaborating a new Constitution – the "Citizen Constitution".

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Sumário
Agradecimentos ............................................................................................................ 4
Resumo ......................................................................................................................... 7
Abstract ........................................................................................................................ 8
Introdução................................................................................................................... 11
Parte I – O momento constituinte ................................................................................ 39
Capítulo 1 ................................................................................................................... 40
Por uma nova Constituinte no Brasil ! ......................................................................... 40
1.1. À sombra do autoritarismo, uma abertura para a Constituinte ....................... 42
1.2. A sociedade se organiza para exigir direitos: o movimento social pela anistia e
pela Constituinte ..................................................................................................... 51
1.3. Anistia, Diretas, Constituinte Já! .................................................................. 64
Capítulo 2 ................................................................................................................... 80
“Quero entender um pouco da Constituinte”: a participação política do povo brasileiro
................................................................................................................................... 80
2.1. A sociedade brasileira e a Constituinte .......................................................... 81
2.2. Constituinte congressual ou exclusiva? .......................................................... 92
2.3. Por uma cultura política participativa .......................................................... 100
2.4. A Comissão Afonso Arinos ......................................................................... 120
Parte II – Escrever para a Constituinte ....................................................................... 130
Capítulo 3 ................................................................................................................. 131
Coleção Memória da Constituinte em cartas .............................................................. 131
3.1. O acervo Memória da Constituinte .............................................................. 131
3.2. Escrever cartas ............................................................................................ 141
3.3. Cartas de uma coleção ................................................................................. 146
Capítulo 4 ................................................................................................................. 170
Páginas da participação política, escritas do cotidiano ............................................... 170
4.1. “Como não tenho recursos financeiros para ajudar a Nova República, tento
contribuir com minhas idéias” (Cacilda Diniz, 1985) ............................................. 170
4.2. “Não tive primário completo, mas entendo alguma coisa da situação do país”
(Raymundo Silva de Oliveira, 1987) ..................................................................... 178

9
4.3. “Ganho o salário mínimo para fazer tudo, pagar aluguel, comida, roupas e
remédios p/ crianças” (Maria Júlia de Jesus, 1987) ................................................ 187
4.4. “Vocês que foram eleitos por nós estão aí para defender nossos direitos” (Ben
Hur José Caldeira de Souza, 1987) ........................................................................ 193
4.5. “Um país deve ser governado com sabedoria e essa tem que vir de Deus”
(Vespertina Silva de Matos, 1986)......................................................................... 196
4.6. “Eu não amo meu marido” (Jaci Maria Ramos Silva, 1985) ......................... 197
4.7. “[...] se vocês quizer mandar uma ajuda em meu nome ate que eu não enjeiava
não. Já faz mais de ano que não trabalho” (Manoel Cosmo, 1987) ......................... 201
4.8. “Acho que é mais lógico me comunicar do que guardar para mim o que talvez
convinha que fosse dito” (Judith Gomes da Silva) ................................................. 204
Capítulo 5 ................................................................................................................. 213
Percepções de cidadania ............................................................................................ 213
5.1. “[...] que a justiça se estenda a todos, se não nunca vai haver a tal paz falada,
como se diz o povo em geral” (Luiz Antônio, 1987) .............................................. 217
5.2. “[...] sou uma pessoa sem pai não tenho nem siquer uma casa pra mora não
tenho imprego” (Azarias Martins de Aviz, 1987) ................................................... 224
5.3. “Vamos criar condições para que eles crie sua família” (José Afrânio Cruz,
1986) .................................................................................................................... 233
5.4. “Hoje estamos quase a passar fome, já não podemos sonhar sequer com a
casinha própria” (Maria do Carmo Rocha, 1986) ................................................... 237
Conclusão ................................................................................................................. 245
Referências bibliográficas ......................................................................................... 256

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Introdução

I.

A presente tese se debruça sobre uma questão de muito interesse e importância


para historiadores e cientistas sociais. Porém, uma questão de difícil enfrentamento, em
virtude da escassez de fontes para abordá-la. Ela pode ser formulada por meio de
algumas perguntas. O que a população de um país – seus eleitores e mesmo seus não
eleitores – pensa da política e dos políticos? Como ela percebe o funcionamento de
instituições complexas, tais como os poderes Legislativo e Executivo? Quais as relações
que estabelece entre seus problemas cotidianos e o funcionamento dessas instituições?
Como gostaria que tais instituições funcionassem? E como se sente mais ou menos
participante da atuação dessas instituições? Enfim, como, sob a ótica do cidadão
comum, são e devem ser as relações entre Estado e sociedade?
A possibilidade de desenvolvimento de tais reflexões se deve à existência de um
acervo de características ímpares. Trata-se do fundo documental denominado Coleção
Memória da Constituinte, depositado no Museu da República. 1 Ele reúne diversos
registros do processo de reconstitucionalização democrática vivenciado no Brasil, na
segunda metade dos anos 1980, que resultou na promulgação, em 5 de outubro de 1988,
da atual Constituição da República Federativa do Brasil. Nesse fundo documental, a
análise privilegia um conjunto de cartas. Elas foram selecionadas por terem sido escritas
por brasileiros (as) de diferentes localidades do país e enviadas a autoridades políticas,
entre 1985 e 1988. Logo, trabalhamos com cartas escritas por indivíduos (cartas
pessoais), produzidas durante e em razão do processo constituinte então vivenciado.
Naquele momento, estava em pauta o projeto de uma nova República, que desse fim ao
regime autoritário instituído no país com o golpe civil-militar de 1964. Portanto, um
momento de renovação política, que podia garantir, para todos os cidadãos do país, uma
nova agenda de direitos.
1
O Arquivo Histórico do Museu da República preserva e disponibiliza para consulta um rico patrimônio
arquivístico sobre o período republicano brasileiro. O acervo é formado predominantemente por fundos
privados e reúne em torno de 90 mil itens, entre documentos textuais, fotografias e mapas. A título de
breve apresentação, pode-se destacar do conjunto, além da Coleção Memória da Constituinte: a Coleção
Canudos (com fotografias que retratam o conflito), a Coleção Nilo Peçanha (com registros da trajetória
pública e pessoal do político fluminense) e a Coleção Família Passos (com registros da trajetória pública e
pessoal do ex-prefeito Pereira Passos e de sua família).

11
São dois os objetivos desta tese. Primeiro, monstrar que esse conjunto de cartas
evidencia uma forma de especial e intensa participação política da população brasileira
no processo constituinte. Segundo, identificar, nos argumentos e opiniões apresentados
nas cartas, a maneira como os missivistas qualificam “os bons e os maus”
representantes políticos, bem como o que entendem por direitos de cidadania. Sobre
esse segundo propósito da pesquisa, cabe sublinhar que nosso objetivo não é identificar
as percepções de representação política e de cidadania concernentes à sociedade
brasileira como um todo, no momento da reconstitucionalização dos anos 1980. Muito
menos minimizar ou encobrir a existência, no país, de várias e diferenciadas percepções
de direitos de cidadania, ao mesmo tempo concorrentes e complementares entre si. O
nosso objetivo é, especificamente, reconhecer o que as cartas escritas pelos chamados
homens/mulheres comuns, arquivadas na Coleção Memória da Constituinte, expressam
a respeito do tema dos direitos de cidadania. Ou, em outra formulação, do papel do
Estado ante as demandas da sociedade.

II.

O interesse de realizar esta tese surgiu ao longo do exercício de minha


experiência profissional no Museu da República, onde ingressei em 1997, inicialmente
integrando a equipe técnica do setor de Arquivo Histórico e, posteriormente, a
Assessoria em Pesquisa Histórica.
Não é por falsa modéstia que valorizo os projetos e trabalhos que tive – e tenho
– oportunidade de desenvolver no Museu da República. Eu os reconheço como
importantes experiências no aprimoramento de minha trajetória e qualificação
acadêmica. De modo geral, museus são lugares que estimulam interesses e ideias, como
diz Ulpiano Bezerra de Menezes (2002, p. 19): são oportunidades “de devaneio, de
sonho, de evasão, do imaginário, que são funções psíquicas extremamente importantes
para prover equilíbrios, [...] desenvolver capacidade crítica, reforçar e alimentar
energias, projetar o futuro, e assim por diante”. A função dos museus é representar o
mundo, para que se reflita sobre ele, sendo um espaço que se organiza para a produção
do conhecimento, com base em um tripé que integra as funções de preservação,
comunicação e pesquisa de acervos.

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A par de suas funções, o Museu da República conserva um patrimônio
riquíssimo, que oferece múltiplos caminhos aos estudos sobre o período republicano da
História do Brasil, incluindo suas inter-relações com o período imperial precedente.
Depositário de coleções privadas – arquivísticas, museológicas e bibliográficas –, é
também um museu-casa, construído entre os anos 1858 e 1867, para ser a residência do
barão de Nova Friburgo.2 No período entre 1897 e 1960, passou a abrigar a sede do
Poder Executivo brasileiro, quando serviu também de residência oficial a alguns
presidentes da República e seus familiares. Ou seja, o próprio edifício do Museu da
República, conhecido como Palácio do Catete, é um acervo que ativa memórias, a partir
dos fatos históricos ocorridos em seu interior e dos personagens que nele viveram.
Registros de sua construção e de posteriores reformas atestam o trabalho de uma
extensa lista de profissionais, incluindo artistas internacionais renomados, e,
originariamente, o labor pesado de centenas de escravos que a história guardou no
anonimato. Os salões do Palácio exibem aspectos decorativos que desde sua construção
não foram alterados e que possuem grande diversidade temática, esplendor e requinte.
Tudo isso representando as funções que a Casa assumiu, por muitos anos, como espaço
de moradia e de trabalho da elite política brasileira.
Hoje, o Museu da República é um “lugar de memória” e de representação da
República do Brasil, desde a sua alvorada na década de 1890 até os anos 1960. Também
é um espaço físico em que a força de eventos históricos passados se faz presente de
forma insuspeita. Sobre este último ponto, vale lembrar, que o ato extremo do suicídio
do presidente Getúlio Vargas, em seu quarto, no terceiro andar do Palácio do Catete, no
dia 24 de agosto de 1954, não é um evento isolado na história do Palácio, embora
desponte como o exemplo de maior projeção e dramaticidade. Tanto é assim que ele
mobiliza, até os dias atuais, levas de visitantes curiosos, que vão ao Museu em todas as
épocas do ano, particularmente no dia 24 de agosto. Não raro se emocionam e, com
lágrimas nos olhos, assumem atitude de profunda deferência ao ex-presidente Vargas.3
Assim, possibilidades de pesquisa a partir dos acervos que o Museu da
República preserva abrem-se para o investigador, envolvendo diferentes áreas do
conhecimento. Esta tese insere-se nessas múltiplas possibilidades, dando seguimento a

2
O título de barão de Nova Friburgo foi concedido por D. Pedro II, em 1854, ao português Antônio
Clemente Pinto, rico comerciante, proprietário de várias fazendas de café em território fluminense. Sobre
o barão de Nova Friburgo e a construção do Palácio do Catete, ver ALMEIDA, 1994.
3
Uma sucinta descrição de eventos que marcaram a História do Palácio do Catete pode ser encontrada em
ALMEIDA, 1994.

13
estudos que vêm sendo desenvolvidos na instituição. O seu plano final foi definido
quando, em 2007, assumi, no Museu, a coordenação de um projeto sobre os vinte anos
da Constituição Federal de 1988, denominado “Constituição de 1988: a voz e a letra do
cidadão/Cidadania em debate”. Entre as motivações do projeto, havia a proximidade do
marco de aniversário da Constituição, no ano de 2008, e também o fato de o Museu ser
depositário da Coleção Memória da Constituinte. Um acervo, como dito anteriormente,
com registros únicos e variados sobre o processo político que antecedeu a elaboração da
Constituição Federal de 1988.
Contando com o aporte financeiro da Fundação Ford, o projeto envolveu uma
vasta programação, abrangendo, entre outras iniciativas, a organização de dois
seminários e um ciclo de debates; o lançamento de quatro publicações; projeções de
filmes; shows e espetáculos teatrais; produção e exibição de obras em grafite; a
implantação de um serviço denominado Balcão de Direitos, de atendimento jurídico
gratuito ao público; além da montagem da exposição Constituição de 1988: a voz e a
letra do cidadão, aberta ao público entre 15 de novembro de 2008 e 5 de outubro de
2009. Essa exposição ocupou o primeiro andar do Palácio do Catete e teve uma versão
itinerante, exibida em escolas e instituições culturais de diferentes estados brasileiros.
Destacadamente, incorporou o acervo da Coleção Memória da Constituinte, além de
outros acervos pessoais e de instituições parceiras.
A temática central da mostra era o contexto da participação da sociedade
brasileira no processo de elaboração da nova carta constitucional, proposta que
encontrou, no acervo de cerca de dezenove mil documentos da Coleção Memória da
Constituinte, substanciais elementos de demonstração. Entre os documentos
encontravam-se: grandes painéis de arte, gravuras, desenhos e charges, produzidos por
artistas brasileiros; séries de cartazes e materiais de campanhas de rua, em favor da
participação da sociedade na Constituinte; e milhares de cartas, enviadas às autoridades
políticas, tanto por grupos sociais organizados como por populares, exprimindo críticas
e reivindicações. Além disso, entre outros itens, farta documentação, textual, fotográfica
e audiovisual, dos trabalhos diários da Assembleia Nacional Constituinte e das
discussões em torno de seu funcionamento e atuação dos parlamentares.
Parte essencial da organização dessa exposição, o trabalho de perscrutar a
Coleção Memória da Constituinte não deixou dúvidas de que se trata de um patrimônio
documental de grande valor para o estudo da História política do Brasil. São
documentos carregados de histórias do dia a dia da participação política da população e

14
de seu esforço para a construção de uma nova relação, mais democrática, entre os
cidadãos brasileiros e seus representantes políticos. No conjunto, a correspondência
enviada aos políticos logo nos chamou a atenção, muito especialmente as chamadas
cartas pessoais.

III.

Cartas pessoais são documentos produzidos por pessoas físicas, como parte das
tarefas ligadas a sua vida cotidiana. Situam-se dentro do espaço da experiência familiar,
das trocas entre amigos, das liberdades individuais, das opiniões, iniciativas e produções
particulares, enfim, do viver cotidiano. São documentos que não integram qualquer
conjunto diretivamente gestado para registrar o desempenho das atividades de algum
grupo, entidade ou instituição formalmente constituídos. Assim, são textos que atendem
às variadas motivações e intencionalidades de foro estritamente pessoal dos seus
autores. Pode-se dizer que cartas pessoais são “momentos biográficos”, em que os
missivistas apresentam (e ocultam) algo de si, conforme exprimiu Teresa Malatian
(2009, p. 195): “Trata-se de escrita de si, na primeira pessoa, na qual o indivíduo
assume uma posição reflexiva em relação à sua história e ao mundo onde se
movimenta.”
No caso específico das cartas pessoais que aqui serão analisadas, elas são textos
escritos por pessoas comuns e, em tese, podem ser situadas no grande conjunto das
chamadas correspondências ordinárias, que abrangem as práticas e os usos cotidianos da
escrita de cartas. Como sugere Daniel Fabre (1993), as práticas da escrita ordinária não
têm caráter científico ou literário, realizando-se entre as ocupações do dia a dia, como
um fazer cotidiano. Nessa mesma perspectiva, Roger Chartier e Jean Hébrard (1991, p.
451-453) assinalam que tais práticas evidenciam-se quando quem escreve as cartas “são
homens ou mulheres que a posteridade não distinguiu”. Nesse caso, as cartas devem ser
definidas “pelo que não são – nem profissionais, nem literárias, nem escolares – e que,
apesar da diversidade, têm por característica primeira introduzir a ordem da escrita no
cotidiano da existência”. Assim, a escrita ordinária teria lugar entre as ocupações do dia
a dia, das pessoas em geral, tendo a característica de revelar traços do cotidiano das
sociedades.

15
Contudo, a inserção das cartas aqui selecionadas na categoria das
correspondências ordinárias não é tão simples assim. No caso específico do acervo
Memória da Constituinte, em função de dois aspectos fundamentais. Primeiro, trata-se
de cartas elaboradas em um momento extraordinário: o da convocação de uma
Assembleia Nacional Constituinte. Dessa forma, são textos que convergem para o
reconhecimento de que os brasileiros vivenciavam, na segunda metade dos anos 1980,
um tempo bastante especial da história do país. Um “tempo da política”, na
terminologia sugerida por Moacir Palmeira (2002, p. 171), pois “não envolve apenas
candidatos e eleitores, mas toda a população, cujo cotidiano é subvertido”, no sentido
em que o extraordinário incorpora-se ao cotidiano. As cartas, de fato, deixam ver o
quanto, naquele momento, fez-se presente na sociedade brasileira, da ótica do cidadão
comum, o entendimento de que estava em pauta um rearranjo da governança no Brasil.
A ideia de uma Nova República em construção generalizava-se na sociedade,
estimulando a possibilidade da participação do cidadão comum no âmbito das mais altas
esferas do poder (sendo o extraordinário que atravessa o dia a dia). O entusiasmo
participativo transparece, por exemplo, na carta de José Gualberto Santa Rita Silva, que,
da cidade de Salvador/Bahia, escreve, em 24 de agosto de 1985, ao ministro da Justiça,
Fernando Lyra. Ele afirma: “Sinto-me intimado por este momento de convocação da
Assembléia Nacional Constituinte e, [...] por ser brasileiro, aproveito-me dessa
oportunidade para contribuir com o aperfeiçoamento constitucional da Nova República
Federativa do Brasil.”4
Se a contingência de um “novo tempo” abria possibilidades para uma
redefinição das prioridades políticas do país, tornava-se oportuna a explicitação de
ideias, interesses e insatisfações pela população, por meio de uma comunicação direta,
traduzida no envio de cartas às autoridades políticas. É desse modo que Orlando José da
Silva, um morador do interior do Piauí, manifesta sua vontade de “entender e participar”
da Constituinte, “fazendo um apelo” em prol da ampliação dos direitos trabalhistas para
a categoria dos portadores de deficiência, já que era “um deles”. 5 O sentimento de
oportunidade e possibilidade participativa move o missivista, que demonstra sua
percepção do momento da Constituinte como um momento-chave para a participação
política do cidadão e para a reivindicação de direitos.

4
Trecho da carta de José Gualberto Santa Rita Silva ao ministro da Justiça, Fernando Lyra. Salvador, BA,
24/8/1985. (Coleção Memória da Constituinte/MR - MC053_CECSUG 4-7)
5
Trechos da carta de Orlando José da Silva. Jaicos, PI, sem destinatário e sem data. (Coleção Memória da
Constituinte/MR - MC024_CPMCSOC 59)

16
Um segundo aspecto a ser assinalado sobre o caráter de correspondência
ordinária das cartas pessoais da Coleção Memória da Constituinte é a especificidade dos
destinatários aos quais elas são dirigidas. Todos, sem exceção, são autoridades políticas.
Por conseguinte, não se trata de correspondência familiar, entre amigos etc., mas de um
tipo de carta “especial”: pela ocasião em que é escrita, questões que trata e destinatário a
que se dirige.
Porém, é fato que o envio de cartas a autoridades constitui uma prática político-
cultural que, pode-se afirmar, tem tradição no Brasil. Várias pesquisas comprovam a sua
utilização em diversos contextos. Entre elas está a de Vantuil Pereira (2008), que analisa
textos de petições, enviados pela população ao Poder Legislativo, já no século XIX,
entre 1822 (ano em que ocorreu a Independência do Brasil) e 1831 (ano da abdicação do
imperador D. Pedro I). Ou seja, toda uma série de trabalhos acadêmicos já se dedicou ao
estudo desse objeto/fonte, deixando importantes contribuições. Jorge Ferreira (1997),
por exemplo, em seu livro Trabalhadores do Brasil: o imaginário popular, faz uma
análise das relações estabelecidas entre Getúlio Vargas, em seu primeiro governo, e a
população de trabalhadores brasileiros. Ele usa como fonte privilegiada de pesquisa um
conjunto de cartas enviadas ao presidente por trabalhadores e seus familiares. Na
pesquisa, o autor se opõe à ideia de que o “povo trabalhador” foi uma parte passiva,
submetida ou completamente controlada por estratégias políticas do governo Vargas.
Ao contrário, demonstra como o discurso político de Vargas foi apropriado por
diferentes atores sociais, entre os quais os trabalhadores, e como isso se realizava com
considerável autonomia. Jorge Ferreira (2007) ainda retorna ao estudo de cartas escritas
por homens comuns, no artigo Cartas a um exilado: Jango e sua correspondência,
analisando uma série de missivas recebidas pelo ex-presidente durante o seu exílio em
Montevidéu, no Uruguai. No conjunto, incluem-se cartas de populares, que deixam ver
o quanto o envio da correspondência constituiu estratégias que visavam solucionar
demandas dos missivistas, por meio do contato direto com um homem de prestígio
político, reconhecido como uma pessoa rica e boa para os pobres. 6
Outro estudo que merece menção é a dissertação de Mestrado de Luciana Quillet
Heymann (1997), intitulada As obrigações do poder: relações pessoais e vida pública
na correspondência de Filinto Müller. A pesquisa investiga as maneiras como as

6
Merece menção também o livro Jango: as múltiplas faces, de Ângela de Castro Gomes e Jorge Ferreira
(2007), que traz uma leitura renovada da trajetória e atuação do político brasileiro, a partir de uma
documentação rica e diversificada, que inclui cartas ao ex-presidente.

17
relações pessoais podem se articular às relações políticas, delineando todo um sistema
fundado na troca de favores. A autora desenvolve seu argumento a partir da análise de
cartas de pedidos, que compõem o arquivo pessoal de Filinto Müller. 7 Essas cartas
foram escritas por indivíduos que ocupavam diferentes posições na estrutura social
brasileira e recebidas por Filinto Müller, quando exercia a função de chefe de Polícia do
Distrito Federal (1933-1942). Exprimem formas de comunicação tanto hierarquizadas
quanto horizontais, estas últimas sugerindo a definição de uma rede de relações pessoais
construída em torno da figura de Filinto Müller. A autora mostra como essas cartas são
expressivas de padrões de funcionamento da estrutura social e de práticas políticas então
partilhadas socialmente, assumidas pelos missivistas na elaboração de suas cartas.
Elisa Pereira Reis (1990), por sua vez, no artigo Opressão burocrática: o ponto
de vista do cidadão, também analisa uma série de cartas enviadas pela população, em
1979, ao então ministro da Desburocratização, Hélio Beltrão. Ela procura refletir sobre
os sentidos atribuídos, no Brasil, à burocracia do Estado, quando da implantação do
Programa Nacional de Desburocratização. E ainda vale mencionar o livro A
correspondência de Nilo Peçanha e a dinâmica política na Primeira República, de
Surama Conde Sá Pinto (1998), que trabalha com as cartas do arquivo pessoal de Nilo
Peçanha, liderança política fluminense à época da Primeira República. 8 No caso,
procura-se observar, através das cartas, a rede de relações que se formou ao redor de
Nilo Peçanha e delinear alguns aspectos da cultura política brasileira, na Primeira
República. Entre as conclusões do trabalho, fica evidente que, na dinâmica política da
época, o voto funcionava como uma moeda de troca e que os acordos se davam mais
frequentemente fora do âmbito de ação dos partidos políticos. Ou seja, os acordos
políticos eram em larga medida selados de forma direta e pessoal, envolvendo
autoridades políticas e também os cidadãos.
Estes e outros trabalhos se debruçaram sobre a prática popular de escrever –
petições, cartas etc. – às autoridades, em diferentes momentos da História do Brasil,
demonstrando que se trata de uma tradição de comunicação política de grande
envergadura, a envolver diferentes questões e momentos históricos.
Contudo, ainda que a comunicação entre populares e autoridades tenha longa
tradição no país, ela certamente não é algo da ordem do usual e costumeiro no viver dos

7
O arquivo pessoal de Filinto Müller encontra-se depositado no Centro de Pesquisa e Documentação de
História Contemporânea do Brasil-CPDOC/FGV.
8
O arquivo pessoal de Nilo Peçanha está depositado no Arquivo Histórico do Museu da República.

18
brasileiros. Mesmo conhecida, incorporada e utilizada pelos cidadãos, é uma prática
adotada em momentos particulares, em que são identificadas certas condições
favoráveis a sua realização, não raro, sendo estimulada por algum tipo de campanha.
Portanto, se as cartas pessoais da Coleção Memória da Constituinte podem ser
consideradas correspondências ordinárias, deve-se ressalvar a importância de
compreendê-las e delimitá-las a partir da especificidade de serem cartas enviadas por
populares a autoridades políticas, no contexto extraordinário do processo constituinte,
vivenciado no Brasil na segunda metade dos anos 1980. São cartas que demarcam atos
de participação política em um contexto muito especial para a história da cidadania e
democracia no Brasil. Atos de participação política que avaliam e preenchem de
significados o exercício da política e da cidadania, a partir da vivência cotidiana dos
missivistas.

IV.

Parte significativa das cartas aqui analisadas foi escrita por pessoas que não
tinham qualquer prestígio na escala social – a quem Michel de Certeau (2008, p. 57)
chamou de “anônimos sociais”. O que significa, no caso do Brasil, que em grande parte,
para dizer o mínimo, esses missivistas não dominavam as regras do chamado bem
escrever.
Decerto, não é trivial a constituição de um acervo de cartas escritas por quem
não domina o fazer escriturário. Com maior frequência, os registros escritos, publicados
ou guardados em arquivos históricos, são de autoria de pessoas que possuem boa
instrução formal, socializadas em círculos intelectuais ou políticos. Isso porque a prática
escriturária não é um exercício presente ou marcante na vida pessoal/profissional de
grande parte dos populares, os quais apenas irregularmente deixam produções escritas
de suas experiências.9 É muito mais fácil encontrar fontes escritas em que as visões de
mundo dos indivíduos e grupos sociais menos privilegiados são produzidas pela “voz
dos outros”, e não diretamente pelos próprios indivíduos e grupos em questão.
Obviamente, isso acaba influenciando o estabelecimento de um determinado status quo

9
Cabe mencionar que o interesse por ampliar o conhecimento histórico sobre as experiências e opiniões
de pessoas das quais não se dispõe de registros escritos beneficiou-se em grande medida da metodologia
da História Oral. Sobre o assunto, ver, por exemplo, SALVATICI, 2005 e ALBERTI, 2004 e 2008.

19
na produção das fontes de pesquisa e também a supremacia de um determinado padrão
de pesquisa que privilegia certos temas e sujeitos históricos.
Nesse sentido, o interesse por documentos como as cartas aqui selecionadas é
também animado pela possibilidade de ampliar a análise dos processos históricos,
incorporando opiniões e versões sobre a sociedade que representam os pontos de vista
de setores populares. Abre-se a oportunidade de acesso a registros produzidos pelo
chamado cidadão comum, pouco ou não socializado nos círculos letrados. Registros que
permitem construir uma versão da história mais plural e representativa da diversidade
social que caracteriza a sociedade brasileira.
Em seu clássico O Grande Massacre dos Gatos, Robert Darnton (1986) procura
mostrar que as opiniões e interpretações dos indivíduos sobre o mundo estão informadas
pelos códigos culturais e experiências de vida desses mesmos indivíduos. Nessa direção,
Edward Palmer Thompson investiu na perspectiva do que chamou de “história vista de
baixo”, dedicando-se a estudar o processo de industrialização na Inglaterra do ponto de
vista dos trabalhadores e de suas experiências. 10 O autor explicou:

Estou tentando resgatar o pobre tecelão de malhas, o meeiro luddita, o tecelão


do “obsoleto” tear manual, o artesão utópico” [...]. Seus ofícios e tradições
podiam estar desaparecendo. Sua hostilidade frente ao novo industrialismo
podia ser retrógrada. Seus ideais comunitários podiam ser fantasiosos. Suas
conspirações insurrecionais podiam ser temerárias. Mas eles viveram nesses
tempos de aguda perturbação social, e nós não. Suas aspirações eram válidas
nos termos de sua própria experiência [...]. (THOMPSON, 1987, p. 13)

Corroborando essa perspectiva, entendemos que buscar contribuições em fontes


de pesquisa que resgatam vozes e olhares de brasileiros (as) menos favorecidos
socialmente e que tomaram parte no processo constituinte, deixando registros de como
se comportavam e do que pensavam a respeito, é uma forma de valorizar a pluralidade
de identidades e sentidos presentes naquele processo político.11 Acreditamos que as
contradições do processo de redemocratização do Brasil podem ser mais bem
apreendidas se levarmos em conta não somente as ações das elites políticas e
instituições brasileiras, mas também toda uma sociabilidade política que se fez presente
no país, inscrita no cotidiano de sua população e expressa nessas cartas.

10
Uma reflexão sobre a noção de “história vista de baixo”, abrangendo o pensamento de Thompson e
estudos de outros autores sobre ele, é apresentada em SHARPE, 1992. Ver também, THOMPSON, 2001.
11
Sobre a importância, nas análises históricas, de resgatar memórias de diferentes grupos sociais, ver
também LE GOFF, 1990 e LORIGA, 2009.

20
Assim, a opção de privilegiar tais documentos como objeto/fonte de estudo é
também aconselhada pelo entendimento de que, no exercício da análise histórica, o
domínio de viés monolítico da suposta autoridade de um “saber culto” serve menos ao
conhecimento científico do que para reforçar valores sociais dominantes.

V.

Por quase todo o século XX, especialmente a partir dos anos 1950 e 1960, sob
forte influência da chamada segunda geração da École des Annales,12 que teve como um
de seus expoentes o historiador Fernand Braudel, 13 predominou no debate
historiográfico internacional um padrão de análise e pesquisa histórica pautado no
interesse em captar verdades históricas universais/totalizantes, em detrimento das
singularidades próprias à vida política e social. 14 Estas últimas eram compreendidas
como meras decorrências de processos maiores, relacionados com a forma como as
sociedades são estruturadas do ponto de vista econômico-social. Os indivíduos seriam
determinados por sua inserção em uma estrutura de caráter econômico-social,
sucedendo que a análise dos comportamentos e das ações individuais não poderia servir
como instrumento para a compreensão das sociedades. O importante seria identificar as
relações que, independentemente das intenções individuais, estruturariam o mundo
econômico e social.
O profundo desinteresse pelas especificidades dos processos históricos, inscrito
nessa perspectiva investigativa, acaba por descartar da análise do social qualquer
esforço de entendimento dos sentidos políticos das ações pessoais e interpessoais, então
compreendidas como ações “atomizadas, particulares, não universais, nem
determinantes”. Além disso, por serem subjetivas, tais ações, por suposto, facilmente
distorceriam os fatos, não contribuindo para o conhecimento de uma época ou de um
grupo, antes expressando uma visão particular e, por isso, superficial da realidade.
Caberia ao historiador, portanto, ater-se ao objetivo primeiro e último de compreender a
lógica de funcionamento das grandes estruturas econômicas e sociais. Todo o seu
empenho analítico deveria convergir para o interesse de captar as verdades históricas

12
Sobre a École des Annales, ver BURKE, 1991.
13
Ver, por exemplo, BRAUDEL, 1966.
14
Para uma discussão do padrão de análise aqui referido, ver FURET, 1988, e FERREIRA, 1992.

21
totalizantes, os elementos homogeneizadores e as regularidades da ordem social
dominante.
Contudo, visando trazer para a reflexão histórica a diversidade de vivências e
ações políticas que fogem aos cânones dessa padronização analítica universalizante,
novas premissas teóricas no campo das Ciências Humanas vêm sendo propostas,
experimentadas e consolidadas, por um número crescente de pesquisadores.15 No Brasil,
sobretudo a partir das últimas duas décadas do século XX, a produção historiográfica
tem renovado esforços no sentido de apontar que o espaço da experiência política é
muito mais plural, heterogêneo e dinâmico do que pode supor qualquer exercício de
padronização analítica que teime em reduzir a importância das ações pessoais e
interpessoais como força política. Essa nova historiografia reivindica para os indivíduos
o status de atores históricos, revalorizando as suas ações e vivências. É nesse sentido
que Roger Chartier (1991c, p. 4), propõe que se reconheça que: “[...] nem as
inteligências nem as ideias são desencarnadas, e, contra os pensamentos do universal,
que as categorias dadas como invariantes, sejam elas filosóficas ou fenomenológicas,
devem ser construídas na descontinuidade das trajetórias históricas”.
Volta-se, assim, para o cotidiano das experiências individuais, compreendendo-
as não apenas como elemento de identidade dos indivíduos, mas também como
indicador de características do tempo e da sociedade em que eles vivem. Dentro dessa
nova abordagem, experiências individuais nos ajudariam a compreender experiências
coletivas vivenciadas em determinados momentos da História, porque apontariam para
algo que é possível em sociedade – embora, obviamente, sem esgotar todas as
possibilidades presentes nessa sociedade.
O lugar da experiência individual ganha imensa significação quando a
percebemos como uma espécie de ponta do iceberg para a compreensão de
comportamentos coletivos. Cada fragmento das experiências individuais encerra uma
possibilidade de visão mais ampla. E observar os fragmentos ajuda a perceber a
complexidade do social, na medida em que deixa evidente a pluralidade de lógicas
presentes na sociedade. Compartilhamos, pois, o entendimento de Jacques Ravel (1998,
p. 14), quando ele afirma que as análises sociais realizadas à luz das experiências

15
Sobre as transformações ocorridas no campo da História no sentido da contestação do primado
atribuído aos estudos das estruturas econômicas e sociais e da revalorização das ações e experiências dos
indivíduos, ver, por exemplo, RÉMOND, 2003a, BURKE, 1992, FERREIRA, 1992, e CHARTIER,
1991c.

22
individuais são de excepcional fecundidade, porque permitem levar em consideração a
“estrutura folheada do social”.
Essa nova perspectiva historiográfica, entre outras decorrências, privilegia fontes
de pesquisa até então encaradas com suspeição, por estarem vinculadas aos espaços da
vida privada e às chamadas práticas de produção do eu.16 O que se busca é captar as
singularidades, complexidades e multiplicidades das vivências cotidianas, que de tão
fragmentadas e diversas desautorizam qualquer modo homogeneizador e totalizante de
análise da vida social e política. Porém, um ponto importante é que essa nova proposta
teórica, não descarta os modelos macro-históricos, como elementos para a compreensão
dos processos sociais, mas sim combina a eles a dimensão da micro-história,
considerando que também as experiências dos indivíduos são elementos essenciais do
fazer histórico.
Não cabe aqui desenvolver em profundidade as questões relacionadas às
conjunturas históricas que animaram e conduziram à afirmação dessa nova vertente
historiográfica. Também não é o caso de discorrer sobre os múltiplos desdobramentos
que a sucedem e que envolveram um estreitamento dos diálogos interdisciplinares e
certa amalgamação das delimitações dos campos teóricos do político, do social, do
econômico e do cultural.17 Mas cabe ressaltar que as transformações sugeridas por essa
nova historiografia, na medida em que legitimam novos objetos de pesquisa,
reformulam suas práticas metodológicas. É o que Ângela de Castro Gomes (1998b, p.
122) exprimiu, lembrando que tais transformações não poderiam ocorrer “sem uma
profunda renovação teórica, marcada pelo abandono de ortodoxias e pela aceitação da
pluralidade de escolhas. Isto é, por uma situação de marcante e clara diversidade de
abordagens no ‘fazer história’”.
Partilhamos a ideia de que a realidade social está impregnada dos sentidos que
lhe são atribuídos pelos indivíduos e, portanto, que as determinações sociais não podem
ser pensadas como se ocorressem independentemente dos atores sociais nela
envolvidos. Uma determinada realidade existe tão somente na medida em que existem
determinadas maneiras de vivenciá-la. Se os indivíduos são produtos sociais – existem
em absoluta interação com a realidade social em que vivem –, isso não elimina que eles
desfrutem de significativo grau de autonomia em seu viver e agir diário, impactando e

16
A valorização social de uma série de práticas culturais relacionadas com a expressão de si e a
importância dessas práticas como elemento de interpretação histórica são questões desenvolvidas em
GOMES, 2004b.
17
Sobre o assunto, ver, por exemplo, FERREIRA, 1992; e RÉMOND, 2003b.

23
influenciando essa realidade. Vivendo em circunstâncias sociais específicas,
expressando condições e valores próprios à existência social nessas circunstâncias, eles
também as influenciam. E é nesse sentido que Giovanni Levi (2001, p. 182) argumenta:

Não se pode negar que há um estilo próprio a uma época, um habitus


resultante de experiências comuns e reiteradas, assim como há em cada época
um estilo próprio de um grupo. Mas para todo indivíduo existe também uma
considerável margem de liberdade que se origina precisamente das
18
incoerências dos confins sociais e que suscita a mudança social.

Os indivíduos não estão condenados a reeditar a mesma história, pois sempre


poderão transformar a realidade dada, a partir de suas ações e maneiras de vivenciá-la,
dentro de um campo de possibilidades. Isso quer dizer que as ações individuais
constituem tanto um produto do universo social como também seu elemento criador. As
relações entre o indivíduo e o seu contexto, estabelecem-se a partir de um diálogo
permanente em que as influências têm mão dupla: as ações dos indivíduos são frutos do
meio em que se inserem, estando impregnadas dele, condicionadas por ele, e, ao mesmo
tempo, interferem nesse meio, impactando-o, modificando suas características. Sendo
um produto do fazer humano, as sociedades necessariamente existem em estado de
permanente transformação. Novamente nas palavras de Giovanni Levi (apud
MARTINS, 2005, p. 375):

Em geral, nós olhamos aquela sociedade de longe: estamos, assim, atentos a


resultados finais que freqüentemente excedem a possibilidade de controle das
pessoas, a sua própria vida. Parece que as leis do Estado moderno impuseram-
se sobre resistências impotentes e historicamente, no longo período,
irrelevantes. Mas não aconteceu assim: nos interstícios dos sistemas
normativos estáveis ou em formação, grupos e pessoas jogam uma estratégia
significativa própria, capaz de marcar a realidade política de uma maneira
duradoura, não de impedir as formas de dominação, mas de condicioná-las e
modificá-las.

Hoje, o universo das ações individuais, e dentro dele a prática epistolar, parece
ter-se libertado dos constrangimentos impostos pela crítica estruturalista, sendo-lhe
reconhecido o status de fonte de pesquisa histórica de excelência. Apesar disso, como
lembra Brigitte Diaz (2002, p. 7), permanecem muitas desconfianças em relação a
“esses textos que cheiram à futilidade, escritos com frequência no prazer e para o

18
Essa perspectiva é desenvolvida por Clifford James Geertz (1978), para a análise de discursos,
percebidos pelo autor ao mesmo tempo como expressão e como criação de valores sociais.

24
prazer”,19 ainda lidos tantas vezes com suspeita, pelas ilusões e pelos equívocos que
podem suscitar, quando o pesquisador não está devidamente municiado teoricamente.
Porém, mesmo persistindo alguma desconfiança, não há dúvida de que toda uma
literatura epistolar tornou-se elemento de interesse para os historiadores. Por oferecer
acesso a experiências individuais, agora percebidas como experiências compartilhadas
socialmente, essas fontes permitem reconstituir aspectos da dinâmica de ambientes e
culturas, vivenciados ao longo do tempo/espaço da História. Assim, torna-se essencial à
tarefa dos historiadores o aprender a lidar com o espaço do privado e com a
subjetividade que lhe é própria. Como expôs Ângela de Castro Gomes (2008, p. 181):
“Desde então, eles [os historiadores] não só aceitaram que sua própria subjetividade é
constitutiva da construção do conhecimento histórico, como igualmente se curvaram à
presença da subjetividade como variável de orientação de condutas dos atores
históricos.”
Madeleine Foisil (1995, p. 331) fez o alerta: “Não é fácil penetrar na vida
privada nem na vida íntima situada no interior da vida cotidiana, ou porque se
confundem com a vida pública, ou porque, ao contrário, se escondem atrás do próprio
pudor em revelá-las.” Contudo, aos historiadores convencidos do interesse de
incorporar o espaço do privado e da subjetividade em seus estudos, alguns trabalhos
analíticos apresentam reflexões encorajadoras e orientações metodológicas
fundamentais. Entre os trabalhos, e particularmente útil para a pesquisa aqui proposta,
está o livro Escrita de si, escrita da História, organizado por Ângela de Castro Gomes
(2004a). Ele apresenta importantes considerações sobre o alcance dessa perspectiva
analítica e sobre novas fontes e metodologias que ela descortina para o historiador. Os
autores desenvolvem a ideia de que a produção de cartas pessoais, como afinal de todos
os documentos pessoais, é uma forma dos indivíduos constituírem identidades para si
próprios. Sendo assim, trata-se de uma fonte de pesquisa de enorme potencialidade para
a investigação de aspectos da história desses indivíduos e da história dos grupos sociais
aos quais eles pertencem. Tal entendimento orientou a análise das cartas selecionadas
nesta tese, que são observadas como documentos que dão a conhecer valores e
identidades tão singulares aos missivistas como constitutivos de seu meio social.
Ainda na linha da valorização da subjetividade como elemento da análise
histórica, o artigo de Maria Paula Araújo (2009), intitulado O lugar do sentimento na

19
No original: “[...] ces textes soupçonnés de futilité, écrits souvent dans le plaisir et pour le plaisir”.

25
História Oral, traz interessantes reflexões sobre as possibilidades de articulação entre
análise histórica e subjetividade. Como Madeleine Foisil, Araújo percebe que não é
simples trazer o privado e o íntimo para dentro da narrativa histórica, lembrando que
“os sentimentos [...] foram sempre um desafio para os historiadores, um território
desconfortável, incômodo, mais aberto para artistas, poetas, escritores, do que para
pesquisadores da história e das sociedades” (2009, p. 2-3). A autora, porém, reconhece
que o domínio da intimidade e da subjetividade dos indivíduos é determinante do fazer
histórico. Não só porque “fala” sobre os indivíduos e sobre o tempo e a sociedade em
que eles vivem, mas também porque descortina aspectos desse vivido que não poderiam
ser acessados fora do campo da subjetividade. É dentro dessa perspectiva, que Beatriz
Sarlo (2007) chamou de guinada subjetiva, que observamos as cartas pessoais da
Coleção Memória da Constituinte, como fontes de um trabalho possível de pesquisa,
que permitem explorar elementos do momento invulgar de reconstitucionalização do
Brasil, nos anos 1980. Nelas, estão inscritos aspectos únicos dessa experiência política,
difíceis de serem acessados e que a escrita autorreferencial nos oferece.
Assim, a presente pesquisa parte do pressuposto de que o conjunto de cartas ora
selecionado, enviadas por populares a autoridades brasileiras no curso do processo
constituinte, não simplesmente repercutiu/refletiu/exprimiu um processo de
redemocratização orquestrado “do alto”, mas integrou formas de pressão política
efetivas e expressivas em relação aos valores, percepções e ideais que norteavam os
missivistas. Atos de pressão realizados a partir de uma estratégia de luta que tinha em
vista determinados interesses dos sujeitos envolvidos, que não necessariamente agiam
para reforçar a lógica geral do sistema político, econômico e social dominante.
É, pois, ao lado dos historiadores que reconhecem os sentidos e os benefícios de
trazer a reflexão histórica para a esfera das ações individuais que se situa o interesse de
estudar as cartas pessoais da Coleção Memória da Constituinte. Tomar esse conjunto de
cartas como fonte privilegiada da pesquisa é uma maneira de valorizar a autonomia dos
pequenos atos – tantas vezes considerados impotentes ou reforçadores da lógica de
poder institucionalizada – e de reconhecermos, neles, também a expressão de estratégias
de luta, resistência, ou seja, de participação política.
Assim, adotamos uma abordagem analítica que, em lugar de predeterminar as
falas dos missivistas, a partir da posição que eles ocupam dentro do sistema político e
socioeconômico, busca compreender essas falas a partir do exame de suas cartas, das
singularidades que carregam, das experiências que traduzem, dos valores políticos e

26
culturais que expressam, de seus entendimentos sobre o que é ou não é justo: aspectos
que, acreditamos, não devem ser analisados de forma genérica, como se fossem
necessariamente e simplesmente os velhos conhecidos reflexos das contradições de uma
estrutura política, econômica e social dominante.

VI.

Esta tese trabalha com a hipótese de que a intensa e progressiva participação da


sociedade brasileira no processo constituinte de 1985/1988 influenciou e traduziu a
emergência de uma cultura política republicana mais democrática no Brasil, valorizada
nas dimensões da representação e da participação políticas.
Três autores ofereceram a indispensável base de sustentação teórica para essa
hipótese de trabalho. Daniel Cefaï (2001), o primeiro deles, compreende a noção de
cultura política como um domínio que se conforma a partir do vivido concreto pelos
cidadãos em sociedade; a partir dos modos como eles interpretam e lidam com os
fenômenos sociais e vivenciam os eventos políticos, compartilhando valores e
experiências. Ressalta que não se deve pensar que cada sociedade possui uma lógica de
convívio social única. Em uma mesma sociedade, conviveriam lógicas políticas
distintas, partilhadas por diferentes grupos, em permanente interação e competição. Os
indivíduos seriam impactados por influências diversas, e justamente a combinação
dessas influências lhes conformaria, em um determinado momento histórico, uma
determinada cultura política. Toda e qualquer cultura política seria delineada a partir do
campo fluido das práticas sociais, constituindo, portanto, um domínio sempre passível
de transformação. Uma cultura política seria, assim, algo que vai sendo construído e
reconstruído coletivamente pelos indivíduos, ao longo do tempo vivido e das práticas
culturais partilhadas, resultando em determinados comportamentos e premissas sociais
mais ou menos presentes ou mais ou menos aceitos no grupo social, não importando seu
tamanho.
Serge Berstein (1998, 1992), outro autor referencial, também compreende a
cultura política como um domínio que resulta do compartilhamento de experiências em
sociedade. Para ele, quando se fala em cultura política, fala-se em um conjunto de
elementos diversos, que abrangem determinados modos de compreender o passado, de
conceber a sociedade e de representar o mundo. A socialização desses elementos

27
ocorreria através dos diversos espaços de convivência dos cidadãos, que o autor
descreve como ambientes culturais, nos quais todo um sistema de crenças e regras é
compartilhado. Berstein, como Cefaï, sustenta que no interior de uma sociedade existe
uma pluralidade de culturas políticas, entendendo que há entre elas certas zonas de
abrangência, que corresponderiam à área dos valores partilhados. Se, num dado
momento da História, essa área dos valores partilhados se mostra bastante ampla,
apresentar-se-ia então uma cultura política dominante. No entanto, ao lado da cultura
política dominante existiriam sempre outras culturas políticas, coexistindo, interagindo
e competindo entre si, em permanente inter-relação com o modelo dominante. Desse
modo, Berstein incorpora a ideia de que o domínio de uma cultura política é sempre
vulnerável a transformações, que, para ele, não ocorrem de forma repentina ou
instantânea, mas sim em determinados momentos e lugares específicos.
Assumimos as colocações de Cefaï e Berstein nesta pesquisa, entendendo que
uma cultura política democrática encontrou lugar de excelência no Brasil, na segunda
metade dos 1980, fruto de respostas dadas pela sociedade brasileira em face das grandes
questões que o momento de reconstitucionalização apresentou. Essa cultura política
mais democrática foi se conformando e se evidenciando na realidade cotidiana dos
brasileiros: nas visões de mundo, experiências e práticas por eles estabelecidas
socialmente. Esse fato resultou, não de uma influência exclusiva, mas da combinação de
uma multiplicidade de influências, materiais e simbólicas. Assim, quando falamos na
emergência de uma cultura política mais democrática e participativa, no Brasil dos anos
1980, não nos referimos a um fenômeno estático, mas sim a um domínio que se
apresentou em contínuo devir, sempre aberto às múltiplas influências de outras culturas
políticas, quando essas apresentassem boas respostas aos problemas da ordem do dia a
dia dos brasileiros. Concordamos, então, com o postulado de que nenhuma cultura
política sobrevive no tempo se colocada em inadaptação ou em contradição com a
realidade social em que tem lugar.
Serge Berstein ressalta ainda a importância (e imprescindibilidade) do conceito
de cultura política para a compreensão dos comportamentos políticos, tendo em vista
inviabilizar explicações de viés simplificador, em favor do reconhecimento da
diversidade e complexidade dos comportamentos políticos. Nessa mesma direção,
analisando os impactos da incorporação do conceito de cultura política na pesquisa
histórica, Ângela de Castro Gomes (2007d) aponta que o seu uso trouxe o benefício de
permitir um entendimento do comportamento político dos atores sociais com base na

28
análise dos próprios códigos culturais e pontos de vista desses atores. Ou seja, a partir
de suas vivências, percepções e sensibilidades, o que ajuda a evitar anacronismos e
etnocentrismos.
A autora observa que a construção de determinada cultura política pode estar
associada a uma estratégia de governo, implementada, por exemplo, a partir da adoção
de determinadas políticas públicas, tendo em vista difundir nas sociedades certos
valores e crenças. Nesse caso, seria possível identificar um esforço orquestrado pelo
Estado para estimular a conformação de determinada cultura política. Porém, ainda
segundo Gomes, a construção de uma cultura política também pode se dar a partir das
ações e percepções dos próprios grupos sociais, interpretando sua história de vida.
Percepções relacionadas com o modo como eles compreendem o transcurso de suas
vivências no tempo e atribuem sentidos para as experiências sociais. Reconhecendo a
dificuldade de produzir uma definição precisa para um conceito tão amplo, Ângela de
Castro Gomes (2007d, p. 32) sintetiza:

De uma maneira muito esquemática, pode-se dizer que as culturas políticas


têm formas pelas quais se manifestam e se evidenciam mais frequentemente:
um projeto de sociedade, de Estado ou uma leitura compartilhada de um
passado comum, por exemplo. Têm igualmente algumas instituições-chave –
como a família, partidos, sindicatos, igrejas, escolas etc. –, fundamentais para
sua transmissão e recepção. Por outro lado, culturas políticas exercem papel
fundamental na legitimação de regimes, sendo seus usos extremamente
eficientes. Em todos os casos, as culturas políticas articulam, de maneira mais
ou menos tensa, ideias, valores, crenças, símbolos, ritos, mitos, ideologias,
vocabulário etc.

Veja-se, portanto, que a noção de cultura política demarca a dimensão da


política como algo que não existe apenas circunscrito às relações políticas formais e
institucionais, mas sim como uma dimensão inscrita no universo amplo das relações
sociais em geral. Tal pressuposto é incorporado na análise das cartas pessoais aqui
selecionadas, em que procuramos identificar os sentidos que os missivistas conferem à
sua realidade social, entendendo que tais sentidos instruem os seus comportamentos
políticos. Em outras palavras, seus comportamentos políticos constituem-se a partir do
conjunto de suas experiências sociais, e não exclusivamente de sua atuação no sistema
político formal instituído.
Dentro da perspectiva teórica sucintamente enunciada, a hipótese desta pesquisa
é a de que o processo constituinte aqui em estudo marca um momento de inflexão na

29
cultura política brasileira, em que o diferencial é a incorporação forte de valores
democráticos, quer na esfera da representação, quer na da participação política.
De fato, no correr da década de 1970 e primeira metade dos anos 1980, a
demanda pela convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte no Brasil recebeu
apoio crescente de diversos setores da sociedade brasileira, inserindo-se no quadro das
reivindicações que marcaram os movimentos de resistência ao regime autoritário
imposto com o golpe de 64. A proposta de uma nova Constituinte, naquele momento,
identificava-se com a luta democrática contra o arbítrio e o autoritarismo, em defesa dos
direitos humanos e pela refundação das instituições republicanas nacionais.
A divulgação dessa grande bandeira de luta, as disputas e os interesses políticos
nela intricados, bem como a efetiva convocação e instalação de uma nova Assembleia
Nacional Constituinte no país, são pilares da nossa história política. Todas essas
demandas compreendem elementos muito significativos, materializando os esforços de
construção de uma ordem democrática, informada pelos postulados da soberania
popular e da igualdade de direitos entre os cidadãos.
Vários grupos sociais e organizações sociais de vários tipos, com o apoio de
instituições civis e partidos políticos, ocuparam as ruas do país, empreendendo
campanhas por direitos e pela participação do “povo” na Constituinte. Em comum,
afirmavam que uma sociedade para ser justa, tinha que ser uma sociedade democrática,
em que a questão dos direitos – sociais, políticos e econômicos – definia-se com base na
vontade da população. Caberia aos cidadãos expressar os seus interesses e assumir a
responsabilidade do controle social de seu encaminhamento político. Caberia aos bons
representantes políticos agir em conformidade com tais interesses. A democracia
colocava-se como um projeto em aberto, a ser permanentemente redefinido a partir dos
interesses presentes na sociedade.
As cartas aqui selecionadas certificam, em alguma medida, o êxito das
campanhas pró-participação então empreendidas. Os missivistas apresentam-se para o
debate, chamando as autoridades ao diálogo, cobrando providências e melhor
representação política. Compartilham uma mesma compreensão: a de que o Brasil, na
segunda metade dos anos 1980, tinha chances de se transformar, via processo de
reconstitucionalização democrática. Para tanto, apontam as ações que deveriam ser
empreendidas pelos representantes políticos tendo em vista uma sociedade melhor: mais
justa e democrática.

30
As cartas registram interpretações sobre o que ocorria, cotidianamente, na vida
da população do país. Cada missivista situa seus pontos de vista dentro do compromisso
com a reconstitucionalização democrática, confirmando que a democracia, naquele
momento, representava um valor político-chave e bem compreendido pelos cidadãos.
A força da bandeira da redemocratização no Brasil dos anos 1980 é comentada
por Ângela de Castro Gomes (2007c), na Apresentação da obra Direitos e cidadania:
justiça, poder e mídia. A autora aponta que, naquele momento histórico, abriu-se o
debate no país sobre a inclusão social e a participação popular na gestão pública,
tornando-se “indispensável empreender ações que pudessem dotar os diferentes setores
sociais, principalmente os mais desfavorecidos, dos recursos necessários ao
reconhecimento e à apropriação dos direitos” (GOMES, 2007c, p. 9-10). Destaca que a
Constituição de 1988 significou de fato um capítulo essencial da história da democracia
brasileira, pelos avanços consolidados no sentido da extensão de direitos a setores até
então excluídos e pela criação de novos instrumentos para o exercício e fiscalização
desses direitos. Na mesma linha, vários ensaios reunidos no livro Constituinte e
democracia no Brasil hoje, organizado por Emir Sader (1985) procuram apontar o
quanto se fez presente, naquele processo de reconstitucionalização, a necessidade de a
sociedade buscar influenciar a Constituinte, para que representasse, de fato, uma etapa
da construção da nacionalidade como força democrática e popular.
Partilhamos de tais entendimentos, acreditando que as cartas aqui analisadas
apontam para um consenso em torno de dois elementos, que segundo Robert Darlton e
Olivier Duhamel (2001b), são essenciais para caracterizar um sistema como
democrático: “a livre seleção dos governantes pelo povo e o respeito dos direitos
humanos pelos governantes”. Ademais, essas cartas deixam ver a disposição
participativa de centenas de populares, que buscaram, por meio do envio de cartas às
autoridades políticas, um caminho e uma estratégia efetiva de participação no processo
Constituinte de 1985/1988.
Uma terceira obra que desenvolve a ideia de que, naquele momento Constituinte,
os valores da democracia social ganharam particular expressão, é o livro Cidadão
constituinte: a saga das emendas populares (MICHILES et al., 1989). Organizado logo
após a promulgação da Carta de 1988 por uma equipe de profissionais vinculados a três
entidades sociais – o Projeto Educação Popular Constituinte, o Centro de Estudos e
Acompanhamento da Constituinte da Universidade de Brasília e o Plenário Nacional

31
Pró-Participação Popular na Constituinte20 –, o livro apresenta um balanço da
participação da sociedade organizada na Constituinte. Ele traz avaliações sobre os
movimentos sociais do período e as perspectivas de luta em torno de temas que
mobilizaram a sociedade. Propõe que a característica mais marcante da Constituição de
1988 foi o alto grau de participação da sociedade na sua elaboração e o fato de as
camadas sociais populares terem emergido dessa mobilização como protagonistas na
luta pela democracia. Ou seja, o compromisso com a democracia extrapolava os grupos
sociais, políticos e intelectuais, de modo geral reconhecidos como “formadores de
opinião”, e disseminava-se na sociedade brasileira, deixando ver, em determinadas
práticas e experiências cotidianas da população, o seu alcance social.

VII.

Os procedimentos metodológicos adotados neste estudo envolveram,


inicialmente, o esforço para a compreensão da história desse acervo. Como esse
conjunto documental se tornou um arquivo histórico? Atendendo a quais objetivos?
Como foi organizado e onde está depositado? O nosso propósito, em um primeiro
momento do trabalho, foi conhecer alguns aspectos que situam a documentação no
contexto tanto de sua produção como de sua organização como acervo documental.
Processamos, também, uma identificação geral das cartas que compõem a
Coleção Memória da Constituinte, no que se refere ao seu volume, data dos
documentos, quem são os missivistas e destinatários, quais suportes documentais foram
utilizados e, também, se são cartas manuscritas, datilografadas ou digitadas. Tal
mapeamento nos permitiu uma visão panorâmica do conjunto, oferecendo bons

20
O Projeto Educação Popular Constituinte foi criado, em 1985, para realizar atividades educacionais
sobre o tema Constituinte, junto aos movimentos populares e pastorais. Aglutinou uma rede de
organizações sociais que envolveu o ISER (Instituto de Estudos da Religião); IBASE (Instituto Brasileiro
de Análises Sociais e Econômicas); CEDAC (Centro de Ação Comunitária); SEP (Serviço de Educação
Popular); CEDI (Centro Ecumênico de Documentação e Informação); CPO (Comissão Pastoral Operária);
CPT (Comissão Pastoral da Terra); e a FASE (Federação de Órgãos para a Assistência Social e
Educacional). Já o Centro de Estudos e Acompanhamento da Constituinte foi organizado, na
Universidade de Brasília, com a perspectiva de promover a interação sociedade-Constituinte, ainda antes
da instalação da Assembleia, e manteve diálogos permanentes com outras universidades e grupos sociais.
O Plenário Nacional Pró-Participação Popular na Constituinte foi uma instância de articulação nacional
de vários movimentos pró-participação popular na Constituinte, criados, no Brasil, entre 1985 e 1988.
Essa última iniciativa será retomada e melhor apresentada ao longo dos capítulos desta tese.

32
parâmetros para a definição da amostra específica de cartas que assumimos como o
objeto privilegiado de análise da pesquisa.
Realizamos, evidentemente, uma leitura cuidadosa de todas as cartas da amostra
selecionada e buscamos identificar os assuntos nelas abordados e as “finalidades” de
cada texto. Ou seja, se as cartas veiculam pedidos, sugestões, reivindicações,
comentários, críticas ou outra diligência qualquer, dirigida às autoridades políticas.
Observamos, também, os elementos acionados pelos missivistas para a construção de
suas estratégias discursivas, como as formas de saudação e despedida utilizadas, os
recursos gráficos e as ilustrações. Para organização dessas informações, de modo que
pudessem ser reconsultadas e cotejadas a qualquer momento da pesquisa, construímos
um banco de dados, sob a preciosa e competente orientação de Jimmy Medeiros,
assistente de pesquisa da FGV-Opinião, do CPDOC/FGV. Valendo-nos da expertise e
da presteza profissional de Jimmy Medeiros, esse banco de dados se tornou um
instrumento de pesquisa decisivo no uso e na comparação das informações coletadas,
potencializando a análise desenvolvida. Ressalte-se, porém, que “cartas” são um tipo
documental que não obedece facilmente a classificações, categorizações e comparações,
pela multiplicidade de formas, conteúdos, intenções, demandas etc. que cada uma de
suas páginas pode reunir. Tal realidade, inclusive, nos fez optar por trabalhar a análise
qualitativa das cartas não necessariamente a partir de uma sistematização exaustiva de
suas características quantitativas.
Buscamos identificar nos textos, igualmente, as formas de uso da linguagem,
bem como alguns indícios reveladores de como os missivistas vivenciavam a cidadania
cotidianamente. Procuramos observar os valores e as representações que aparecem nas
cartas, expressos nos argumentos e nas formulações dos missivistas e no modo como
qualificam as categorias representação política e direitos de cidadania. A esse respeito,
vale pontuar que as propostas e demandas apresentadas nas cartas nos interessaram
tanto por seus conteúdos reivindicatórios quanto como vetores de valores e
representações.
Outro ponto a notificar é que, a par de realizarmos uma leitura crítica de cada
unidade documental, estivemos permanentemente atentos às relações entre os
documentos, visando reter aqueles valores e representações que aparecem de forma
recorrente no acervo como um todo, principalmente no que se refere às noções de
representação política e direitos de cidadania. Assim, exatamente como proposto por

33
Luciana Quillet Heymann, em seu estudo das cartas de pedidos enviadas a Filinto
Müller, procuramos desenvolver a análise:

[...] segundo um movimento pendular, que vai do documento ao conjunto, da


peça única ao padrão recorrente, segundo uma dinâmica em que os extremos,
em constante comunicação, se informam mutuamente e nos permitem alcançar
o texto comum a todos eles, sem abdicar inteiramente da riqueza dos seus
discursos. (HEYMANN, 1997, p. 3)

Ressalte-se ainda que a leitura das cartas foi feita com a preocupação de situá-las
no ambiente cultural em que estavam inseridas e no qual os missivistas interagiam no
momento em que escreviam. Como sugerem Ciro Flamarion Cardoso e Ronaldo
Vainfas (1997b, p. 540), buscamos os nexos entre texto e contexto, ou seja, buscamos
relacionar as ideias presentes nos textos das cartas e a forma como são apresentadas
com as questões sociais que o Brasil atravessava no momento em que tais cartas foram
produzidas e circularam. A análise, assim, tomou em consideração o mundo social em
que tais documentos foram produzidos, circularam e se tornaram conhecidos. Este
procedimento visou não somente uma melhor compreensão das “questões da ordem do
dia” discutidas nas cartas, mas também evitar anacronismos e reduzir os riscos de
corromper a análise com pré-julgamentos de valor. Esse último objetivo, obviamente,
pretendido no limite do possível, uma vez que toda experiência intelectual é construída
pelo indivíduo que a realiza, no momento em que a realiza, sendo referenciada por
significados que são próprios a esse indivíduo e à sua realidade.
Muitos autores alertam para os riscos que correm os historiadores, ao trabalhar
com “escritas de si”, em função de possíveis projeções, aversões, empatias e fascínios
provocados pela leitura de documentos pessoais. Isto, tendo em consideração os apelos
frequentemente presentes nos relatos de vida. São relatos das lutas cotidianas e de
sentimentos, não raro apresentados com forte carga de emoção, sem os protocolos ou a
impessoalidade da escrita oficial. Como alerta Teresa Malatian (2009, p. 205), é comum
as cartas pessoais estarem carregadas de emotividade, o que “pode enfraquecer o
distanciamento crítico do historiador, que se vê em contato com o privado e por vezes o
íntimo, quase como um voyeur que viola a intimidade de vidas e é captado pelo ‘pacto
autobiográfico’ de que nos fala Lejeune”. 21 Essa questão é também desenvolvida por
Peter Gay (1999), que alerta para os cuidados que o historiador deve tomar em face do

21
A autora refere-se à obra Le pacte autobiographique, de Philippe Lejeune (1998), em que o autor
sugere que a escrita de cartas envolve um pacto autobiográfico, construído a partir do esforço do
missivista de sensibilizar/emocionar o destinatário, convencendo-o da autenticidade de sua carta e
buscando estabelecer com ele alguma forma de identidade.

34
que as cartas pessoais expressam como sendo a “verdade”, quando, antes, são
construções textuais elaboradas necessariamente com o alto grau de subjetividade. A
escrita de si envolve fantasias, evasivas e o desejo tanto de revelar como de ocultar o
privado de seus autores. Assim, uma preocupação metodológica constante, ao longo de
toda a pesquisa, foi estarmos atentos à necessidade de manter certo distanciamento das
cartas aqui estudadas, tendo em vista escapar, sempre na medida do possível, do
profundo encantamento ou forte empatia/identificação que elas podem provocar ao
revelar aspectos do vivido de seus autores.
Registre-se ainda que não é propósito deste trabalho realizar uma pesquisa de
reconhecimento dos diversos atores e assuntos citados nas cartas. Do mesmo modo, não
é nossa preocupação discutir se as cartas discorrem sobre fatos reais ou fictícios, ou se
versam sobre experiências realmente vivenciadas por seus autores. Importantes
reflexões sobre o uso da escrita de si como fonte de pesquisa advertem para os cuidados
a serem tomados pelo historiador no sentido de não assumir um olhar ingênuo e supor
que o documento pessoal reproduz a “verdade” sobre o seu autor. Essa questão é
abordada por Pierre Bourdieu (2001), a partir do conceito de “ilusão biográfica”. O
autor ressalta que a escrita de si pode atribuir múltiplas e diversificadas coerências a
uma mesma trajetória de vida, ao selecionar determinados aspectos dessa trajetória
(obscurecendo outros) e ordená-los de tal modo a lhes atribuir o caráter de elementos
essenciais para a constituição de uma determinada identidade. Tal identidade, sendo
apresentada como “natural”, não passaria de uma “identidade retórica”, que enfatiza
determinada coerência, mas, ao mesmo tempo, obscurece os fatores que poderiam
evidenciar suas distorções. Nesse sentido, a nossa leitura das cartas procurou avaliar a
singularidade dos seus textos, compreendendo os fatos neles apresentados dentro dos
limites do exercício da elaboração narrativa, e não como expressão exata da identidade
de seus atores. Tomando emprestadas as palavras de Ângela de Castro Gomes (2004b,
p. 16), não se esperou dos textos das cartas “uma unidade perfeita entre quem escreve e
quem é produzido pela escrita”, posto que toda escrita autorreferencial envolve tanto
exposições como encobrimentos e evasivas. 22 Na análise das cartas aqui estudadas, nos
importou, fundamentalmente, os pontos de vista assumidos no documento e a forma
como os missivistas expressam tais pontos de vista.

22
Sobre as cartas reproduzirem experiências sustentadas em “realidades” e “irrealidades”, ver, por
exemplo, GAY, 1999.

35
O leitor não encontrará nesta tese uma investigação das cartas enviadas às
autoridades, em termos de terem ou não influenciado, de fato e em pontos específicos, a
redação final da nova Constituição Federal. O nosso esforço consistiu exclusivamente
em procurar identificar as orientações valorativas expressas nas cartas em torno do
exercício da representação política e dos direitos de cidadania, que são orientações aqui
percebidas como vetores-chave da participação política dos missivistas. É nesse sentido
amplo que a participação política da população, escrevendo cartas, foi importante e teve
impactos no processo constituinte, a nosso ver.
Cabe ainda registrar que, no trabalho de transcrição de algumas cartas, foi
mantida a forma gráfica dos documentos originais e respeitados os usos de letras
maiúsculas ou minúsculas, sublinhados, negritos, ortografia e pontuação incorreta. É
claro que tal fidelidade tem razão de ser, como se verá. Além disso, houve casos em que
a identificação de certas palavras tornou-se tarefa impossível, por rasuras nos
documentos ou pela existência de grafia de difícil compreensão. Nesses casos, optamos
por substituir as palavras pela notificação [ilegível], confiando que tal procedimento não
atrapalharia o entendimento do conteúdo geral das cartas. As referências de cada carta
transcrita aparecerão em pé de página, acompanhadas do código de localização
atribuído ao documento original pelos técnicos do Arquivo Histórico do Museu da
República, onde o acervo pode ser consultado.
Por fim, foram reproduzidas e inseridas na tese três telas de arte criadas,
respectivamente, por Siron Franco, Aldemir Martins e por um artista não identificado.
Essas obras fazem parte de uma série de telas de grande dimensão que compõem a
Coleção Memória da Constituinte. Todas foram criadas por artistas brasileiros, dentro
da temática da reconstitucionalização. Do mesmo modo, foram reproduzidas imagens
do acervo particular de Henfil, que teve participação destacada na resistência ao regime
autoritário pós-64, endossando parte muito especial de sua obra nas lutas pela Anistia
Ampla, Geral e Irrestrita, pelas Diretas Já! e pela Constituinte Já!. Ademais, foram
reproduzidas algumas charges criadas por Claudius, Ziraldo, Gougon e Mariano, que,
como vários outros artistas, envolveram-se nas lutas democráticas dos anos 1970 e
1980, criando símbolos gráficos, traços e cores para a democracia que se desejava
construir no país. Nem sempre foi possível incluir, nas legendas dessa bela e
significativa produção artística, o ano de produção das obras ou, em casos específicos, o
veículo na mídia em que foram publicadas, em função da ausência dessas referências

36
precisas. As particularidades de cada caso são apresentadas e justificadas em notas de pé
de página, no correr do trabalho.

VIII.

Esta tese está dividida em duas partes. A primeira, denominada O momento


constituinte, é composta pelos capítulos 1 e 2, intitulados, respectivamente: Por uma
nova Constituinte no Brasil! e “Quero entender um pouco da Constituinte”: a
participação política do povo brasileiro.
No capítulo 1 abordamos alguns aspectos do surgimento e fortalecimento da
demanda social por uma Assembleia Nacional Constituinte no país, como parte das
estratégias de luta democrática contra o regime autoritário do pós-golpe de 64. Ganha
destaque, nesse início de reflexão, a organização de uma série de movimentos sociais,
entre os anos 1970 e 1980, em torno da reivindicação de direitos de cidadania e da
redemocratização. Movimentos que sucederam em uma escala surpreendente, nunca
antes vivenciada no Brasil, e que, pouco a pouco, convergiram para o reconhecimento
da urgência de uma nova Constituinte no país. A bandeira da Constituinte Já! acaba por
se tornar uma variável-chave na articulação da base social de apoio à eleição indireta de
Tancredo Neves à Presidência da República, em janeiro de 1985.
O capítulo 2 acompanha o modo como a proposta de convocação de uma nova
Constituinte no Brasil deu lugar, em seguida à eleição de Tancredo Neves, à
estruturação de uma série de propostas de participação popular na Constituinte,
traduzindo a ideia de ser fundamental que o povo brasileiro assumisse a soberania desse
processo, como condição para que se pudesse reconstruir o país em bases
verdadeiramente democráticas. O coroamento dessa mudança de direção política, na
luta dos movimentos sociais, foi a vitoriosa pressão social pela aprovação, em fevereiro
de 1987, do instrumento jurídico da Iniciativa Popular, garantindo uma via de
participação direta da sociedade nos trabalhos constituintes. Naquele momento,
generalizava-se no país uma cultura política democrática, sustentada no valor da
representação política com participação popular.
Escrever para a Constituinte é o título da segunda parte da tese, composta de
três capítulos. No capítulo 3, denominado Coleção Memória da Constituinte em cartas,
buscamos fazer uma apresentação quantitativa de todas as cartas da Coleção Memória

37
da Constituinte, situando-as dentro do vasto campo da escrita epistolar; distinguindo as
condições em que foram produzidas e transformadas em patrimônio documental; e
discorrendo sobre algumas de suas características físicas, de gênero, proveniência e
volume. A organização dessas informações, como dito, foi decisiva na definição dos
parâmetros e recorte da amostra de cartas analisadas nesta tese.
O capítulo 4 – “Ilustres Srs. de margens plácidas”: escritas do cotidiano,
escritos políticos – discute as especificidades das cartas pessoais da Coleção Memória
da Constituinte como atos comunicativos de participação política.
Finalmente, no capítulo 5, último capítulo desta tese, denominado A hora e a vez
do cidadão brasileiro, procuramos identificar os sentidos associados às noções de
representação democrática e de direitos de cidadania, expressos pelos missivistas no
conjunto de cartas analisado.

38
Parte I – O momento constituinte

Pintura sobre papel de Siron Franco, 1987 (representação do processo constituinte).


Coleção Memória da Constituinte/Acervo Museu da República.

39
Capítulo 1

Por uma nova Constituinte no Brasil !

Constituição. Palavra que de um


tempo para cá é tema em todas as
camadas sociaes. Candidatos à
Presidência da República, tanto
da situação como da oposição,
falaram muito essa palavra.
Todos nós brasileiros sabemos
que a atual Constituição é uma
verdadeira cortina de retalhos,
emendas de todas as espécies,
sempre visando enteresses
particulares de grupos ou
pessoas, esquecendo-se do Brasil
e seu povo.

Walter Canhone, 7/3/1985. 23

Acervo privado Henfil/Ivan Cosenza, s/d.24

O quadrinho do cartunista Henfil e o trecho da carta de Walter Canhone, em


epígrafe, oferecem bons indícios do alcance social que a questão da
reconstitucionalização do Brasil ganhou, nos anos que antecederam a promulgação da
atual Carta Magna brasileira. Como observa Canhone, a necessidade de uma nova
Constituição era “tema em todas as camadas sociaes” e, como sugere Henfil, mesmo
entre aqueles que não sabiam exatamente o significado da palavra “Constituinte”.
Neste capítulo, discorreremos sobre essa questão. Será examinado o processo de
fortalecimento, no âmbito da sociedade brasileira, da estratégia de resistência

23
Trecho da carta de Walter Canhone ao presidente eleito Tancredo Neves. Belo Horizonte/MG,
7/3/1985. (MC078_CECSUG 255). Como dito na Introdução desta tese, a grafia nas citações de cartas da
Coleção Memória da Constituinte foi mantida exatamente conforme consta nos originais.
24
Todos os desenhos do Henfil, apresentados neste trabalho, são parte do acervo privado de Ivan
Cosenza, filho do artista. Cosenza criou o Instituto Henfil e procura apoio para a catalogação de toda a
sua obra, mas, até o momento da conclusão desta tese, ainda não é possível identificar, no conjunto do
acervo original, as datas dos desenhos ou os periódicos em que foram publicados, razão pela qual não
constam da legenda.

40
democrática ao regime autoritário do pós-64. A via era a da Constituinte, em clara
contraposição às táticas políticas da luta armada. Para tanto, será esboçado um breve
quadro do contexto político e econômico brasileiro, nos anos seguintes ao golpe, e
observado como, entre as décadas de 1970 e 1980, organizou-se no Brasil uma série de
movimentos sociais de viés democrático, articulando a defesa e a ampliação dos direitos
de cidadania com o fim do autoritarismo. Entre os movimentos, destacaremos as
mobilizações pela Anistia Ampla, Geral e Irrestrita e as campanhas pelas Diretas Já!,
com seus desdobramentos imediatos. Ambos acabaram por convergir todas as bandeiras
de luta política para a reivindicação generalizada por uma nova Assembleia Nacional
Constituinte, síntese e símbolo do retorno ao Estado de direito.
O Brasil vivenciava o processo de transição de um regime de ditadura para um
regime democrático. Mais precisamente, o longo período que compreendeu os anos da
chamada abertura política lenta, gradual e restrita (1974-1985), iniciados pelo general
Ernesto Geisel e continuados pelo general João Figueiredo. Nesse período, os apelos
por uma nova Constituinte fizeram-se presentes entre os movimentos sociais de
resistência ao autoritarismo, engrossando uma ampla e heterogênea frente democrática,
que agregou demandas por direitos os mais variados. Tais movimentos lograram impor
uma nova dinâmica ao jogo político nacional, consolidando a abertura de novos canais
de diálogo entre o Estado autoritário e a sociedade.
O objetivo deste capítulo é acompanhar o crescimento das demandas por uma
nova Constituinte, observando o significado e a força que tal bandeira de luta foi
ganhando, na virada dos anos 1970 para os 1980, bem como os atores que se
envolveram mais diretamente com a sua construção, divulgação e popularização. Entre
estes, vários artistas, como Henfil, Ziraldo e Claudius, atuaram como mediadores
político-culturais fundamentais, explicitando o lugar decisivo da imprensa e da
linguagem artística nas estratégias de mobilização da população. Eles deram maior
beleza, humor e clareza a todo o processo, com a produção de charges, caricaturas e
ilustrações para cartazes e periódicos que circularam à época, ajudando a “desenhar” o
clima político do momento.
Uma multiplicidade de movimentos sociais democráticos, organizados no Brasil
nesse período, tendeu a assumir a proposta de uma nova Constituinte como um ideário
chave e comum, influenciando decisivamente para que a convocação de uma
Assembleia Nacional Constituinte constasse, com absoluta prioridade, da pauta de

41
compromissos da Aliança Democrática, que lançou a candidatura, vitoriosa, de
Tancredo Neves, nas eleições presidenciais indiretas de janeiro de 1985.

1.1. À sombra do autoritarismo, uma abertura para a Constituinte

Acervo privado Henfil/Ivan Cosenza, s/d.

Criar asas e voar. Essa pode ser uma boa metáfora para o apelo por uma nova
Assembleia Nacional Constituinte no Brasil, como alternativa política para a superação
do regime de força instaurado no país em 1964.
O apelo/demanda foi formalizado em documento, pela primeira vez, em 1971,
constando da Carta de Recife, elaborada durante o II Seminário de Estudos e Debates da
Realidade Brasileira, organizado pelo MDB, em Pernambuco. Naquele momento, o
único partido de oposição legalizado discutia a sua autodissolução, como forma de
protesto contra o regime autoritário, que endurecia após a decretação do AI-5 pelo
presidente Arthur da Costa e Silva, no dia 13 de dezembro de 1968. A chamada “linha
dura” aumentava a sua influência nos assuntos de governo e, com base no AI-5, entre
outras medidas, haviam sido suspensas as imunidades parlamentares e conferidos

42
poderes coercitivos extremos ao presidente da República, inclusive para fechar o
Congresso, legislar por decreto, realizar os julgamentos dos crimes políticos em
tribunais militares, intervir em estados e municípios, cassar mandatos e direitos políticos
e decretar o estado de sítio, independentemente do acordo do Congresso Nacional.
Ficou suspenso também o direito ao habeas corpus. Ao ministro da Justiça foi facultado
interferir em jornais e em programas de rádio e televisão, filtrando a divulgação de
notícias. A partir daí, a censura aos meios de comunicação passou a ser largamente
utilizada. O objetivo era tanto impedir a circulação de qualquer comentário contrário ao
regime, como também comprometer a veiculação de notícias, de opiniões e a expressão
artística em geral, com base em um suposto princípio de
boa moral e de bom costume. 25
Sucessivas listas de cassações foram publicadas,
atingindo drasticamente os parlamentares emedebistas. 26 A
atividade legislativa do Parlamento reduzira-se
praticamente à prerrogativa de confirmar as medidas
tomadas por um Poder Executivo autorizado a governar por
decreto. Após o AI-5, entre 1º de fevereiro e 14 de outubro
de 1969, o presidente Costa e Silva e, depois, a Junta
Militar que o sucedeu, ainda editaram outros 12 atos
institucionais e uma nova Lei de Segurança Nacional,
tornando mais severas as punições contra os crimes
políticos. Na mesma direção, em 17 de outubro de 1969, foi
outorgada a Emenda nº 1 à Constituição de 1967,
incorporando os termos do AI-5 ao texto constitucional. Na
verdade, a aprovação da Emenda nº 1 serviu como meio de
outorga de uma nova Carta, pois reformulou o texto
essencialmente, inclusive lhe conferindo novo título:
Acervo privado Ziraldo, 1968. Constituição da República Federativa do Brasil. 27

25
Sobre as razões e mudanças do exercício autoritário a partir da decretação do AI-5, ver FIGUEIREDO,
1978.
26
O impacto das cassações na bancada parlamentar emedebista é abordado em TRINDADE, 2000. De
acordo com Marcus Faria Figueiredo (1978, Conclusão), a grande novidade do AI-5, em relação às
cassações, era o fato de seu propósito último não ser mais eliminar da cena política brasileira indivíduos
comprometidos com o regime anterior ao golpe de 64 e, sim, eliminar as oposições surgidas no decorrer
dos governos militares e dos embates que o sucederam, oposições estas que teriam se tornado
incompatíveis com os objetivos do regime autoritário, ainda que dele tivessem inicialmente participado.
27
Sobre o assunto, ver, por exemplo, SILVA, 2006.

43
Notadamente, o Estado fazia uso trivial do
poder coercitivo e da legislação de exceção como
meios para o enfrentamento dos conflitos
políticos. Novas regras e novas leis surgiam para
legalizar um governo construído com base na
coerção e no autoritarismo.28 Aprofundava-se a
repressão e mudava o panorama político no qual
os parlamentares atuavam.
Nesse cenário sombrio de recrudescimento
do autoritarismo, era patente a dificuldade de ação
da oposição dentro da legalidade. Dificuldade que
se ampliava em função de certa euforia vivenciada
na sociedade, fruto do chamado “milagre
Acervo privado Henfil/Ivan Cosenza, s/d.
econômico brasileiro”, que, muito embora sem
enfrentar o grave problema da desigualdade social do país, promovera uma elevação das
taxas de crescimento econômico nacional e o aumento do poder de compra da classe
média, em função da facilitação de crédito, entre outras razões.
Orquestrado durante o governo Emílio Garrastazu Médici (1969-1974), a partir
de um programa econômico adotado pelos então ministros da Fazenda, Antônio Delfim
Netto, e do Planejamento, Hélio Beltrão, o “milagre econômico” teve o propósito de
promover uma aceleração do desenvolvimento econômico e conter qualquer risco de
descontrole inflacionário no país. O enfrentamento da dívida social brasileira não estava
em pauta. A máxima era, em primeiro lugar, obter o crescimento da riqueza nacional
para, somente depois, pensar em reparti-la entre todos os cidadãos. Médici, para a
execução de seu plano econômico, beneficiou-se das políticas implementadas no
período Castello Branco, por meio do Plano de Ação Econômica do Governo (PAEG),
que, além de trazer a inflação para níveis inferiores a 20% ao ano, logrou algum êxito.
As políticas adotadas no governo Castello Branco por meio do PAEG constaram,
resumidamente, de uma reforma e modernização no sistema financeiro com a criação do
Banco Central; criação do Sistema Financeiro de Habitação; ampliação do crédito ao
consumidor; criação do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS), como
contrapartida ao fim da estabilidade do emprego, no setor privado, após dez anos de

28
Anos depois, a revista Isto É noticiaria que, entre 1969 e 1973, teriam sido registradas no país 77
ocorrências de mortes por tortura de presos políticos (DOSSIÊ DA REPRESSÃO, 27set.1978).

44
trabalho (conforme reivindicação dos setores empresariais); e modernização do sistema
tributário e ampliação de sua carga, o que permitiu maior capacidade de gasto público
em um ambiente de forte urbanização, além de equilibrar as contas públicas. Ao lado
disso, uma política de apoio às exportações e de aproveitamento da significativa
liquidez internacional existente, naquele momento, permitiu ao setor empresarial obter
empréstimos externos para investimentos. Essas medidas, se, por um lado, abandonaram
a agenda existente no início dos anos 1960, de realização de reformas de base, de
melhorias na péssima distribuição de renda no país e de ampliação do poder de compra
no mercado interno, por outro lado, permitiram uma redinamização econômica que
gerou alguma legitimação para o regime autoritário e favoreceu o surgimento, entre
1968 e 1973, do que ficou conhecido como “milagre econômico brasileiro”.29
Além da recorrência à repressão, como meio de ação política governamental, e
da popularidade em alguma medida proporcionada ao regime pelos êxitos econômicos
produzidos a partir do “milagre”, o governo autoritário ainda desenvolveu uma intensa
propaganda, com o intento de construir e passar para a sociedade uma imagem
favorável, fundada nas realizações governamentais. Aqui, avulta em importância o
projeto de comemorações do Sesquicentenário da Independência, em 1972, e a vitória
do Brasil na Copa do Mundo de Futebol de 1970, realizada no México, que renderam
popularidade ao presidente Médici.30
As denúncias de que o Brasil se tornara um país opressor, sem liberdade e
direitos civis, eram depreciadas pela propaganda oficial, taxadas de campanhas
difamatórias, que visavam desmoralizar o governo, fazendo-se um apelo ao sentimento
patriótico da nação. Frases de efeito ufanista, como “Brasil: ame-o ou deixe-o”, “Este é
um país que vai pra frente”, “O Brasil é feito por nós” e “Ninguém segura esse Brasil”,
eram maciçamente divulgadas e correlacionadas a “projetos grandiosos” desenvolvidos
pelo “governo empreendedor”.31 Nas campanhas oficiais, o Brasil era identificado como
uma nação orientada por objetivos comuns e pelo amor à pátria. Excluía-se, dessa
imagem, obviamente, o regime de força, marcado pelas leis de exceção, pela censura e
pela tortura, o que não inviabilizou a produção de contranarrativas, especialmente pelo
uso do humor, tão sagazes como populares, que conseguiram driblar a censura.

29
Sobre o assunto, ver TAVARES, SERRA, 1972; CASTRO, SOUZA, 1985; GIAMBIAGI, VILLELA,
2005; e REGO, MARQUES, 2010.
30
Sobre o assunto, ver CORDEIRO, 2012.
31
Ver, por exemplo, FICO, 1997.

45
Acervo privado Ziraldo, s/d.32

Nesse contexto, cresceria entre os militantes de esquerda um sentimento de


descrédito em relação à luta democrática como via de enfrentamento do regime,
sentimento que se materializou com a radicalização dos movimentos de resistência
política e a organização tática de grupos de luta armada. 33 E é nesse quadro, de
endurecimento do regime e radicalização da luta política da esquerda, que a proposta de
autodissolução do MDB foi colocada em debate, sob alegação de que o partido de
oposição existia apenas na aparência, e não de fato, servindo mais para proporcionar
uma “fachada democrática” ao regime do que para promover um real e justo embate
político de ideias e projetos. A proposta, contudo, não logrou apoio suficiente dentro do
partido para sobrepujar a determinação de manter ativa a legenda de oposição e buscar
superar o regime autoritário a partir das regras definidas pelo próprio regime autoritário.
Dito de outro modo, a tese vitoriosa no seminário de 1971, em Recife, foi a de atuar
dentro da lógica do regime, mas tendo em vista refrear e impedir a sua reprodução
política, ampliando o espaço do MDB no jogo institucional-eleitoral e, assim, abrindo
caminhos para a redemocratização do país. Nessa proposta, era fundamental um esforço
contínuo de coalizão com as forças democráticas existentes.
No debate partidário, a corrente emedebista que, a partir daquele ano de 1971,
passaria a ser chamada de “grupo autêntico”, 34 representada por políticos como Marcos
Freyre, Fernando Lyra, Jarbas Vasconcelos, Francisco Pinto, Lisâneas Maciel e José
Alencar Furtado, defendeu que o MDB assumisse uma oposição mais agressiva. Nessa
direção, apresentou a proposta de convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte
já para o ano de 1974. Outro grupo, os chamados emedebistas “moderados”,

32
Quadrinho publicado no livro 1964-1984: 20 anos de prontidão (ZIRALDO, 1984).
33
Sobre a formação de organizações armadas de resistência ao governo autoritário do pós-64, que
contaram com a presença majoritária de jovens entre os seus militantes, ver ARAÚJO, 2007b, e ABREU,
1992.
34
Sobre a origem do chamado grupo autêntico do MDB, ver FERREIRA, 1998, p. 190-192.

46
representados por Tancredo Neves, Nélson Carneiro e Ernani do Amaral Peixoto, entre
outros, defendeu ações “mais cautelosas” por parte da oposição, para que não se
produzisse um fechamento ainda maior dos canais de diálogo com o governo. O
documento final, elaborado pelo partido, no II Seminário de Recife, acabou por ser
redigido em termos conciliadores, com a demanda de que fosse promulgada uma nova
Constituição para o Brasil, após serem suspensas e anuladas as leis de exceção em
vigor. Colocava-se, assim, a proposta de uma nova Constituinte como etapa de um
projeto político maior de resistência democrática à ditadura, projeto que tinha como
ponto fundamental a extinção definitiva da legislação autoritária. Desse modo, a
convocação de uma Constituinte tornou-se parte de um ideário do MDB, mas o tom que
marcaria os discursos da oposição, daquele momento até o último triênio da década de
1970, seria o da defesa da redemocratização do país. Uma demanda que não contrariava
o apelo pró-Constituinte, mas também que não o explicitava como sua principal
bandeira de luta.
Por consequência, a temática da Constituinte não teve uma presença
preponderante nas campanhas emedebistas que ganharam as ruas do país em 1973,
quando Ulysses Guimarães,
então presidente do partido, e
o jornalista Alexandre
Barbosa Lima Sobrinho
foram lançados como
“anticandidatos” à
Presidência e Vice-
Presidência da República nas
eleições indiretas previstas
para janeiro de 1974. Mas, as
Acervo privado Ziraldo, 1973.
campanhas emedebistas, em
aberta condenação ao regime de força vigente, traziam, mesmo que só indiretamente, a
proposta de convocação de uma nova Constituinte, como instrumento para a
reorientação dos rumos políticos do país.
Desde o início da campanha presidencial, os candidatos oposicionistas
manifestaram ter consciência de que aquela disputa eleitoral era enganosa, porque
realizada por um Congresso do qual havia sido expulsa boa parte das oposições, por
força das cassações e suspensões de mandato. Nenhuma surpresa, pois, que o resultado

47
eleitoral fosse favorável aos governistas. Por isso, Ulysses e Barbosa Lima Sobrinho se
autoproclamaram “anticandidatos” de uma “antieleição”, imposta por uma
“anticonstituição”, que submetia o Legislativo e o Judiciário ao Executivo. Na
Convenção do MDB, de 23 de setembro de 1973, quando foram lançadas as
candidaturas de oposição, Ulysses Guimarães, em discurso, destacou:

O paradoxo é o signo da presente sucessão presidencial brasileira. O


anunciado como candidato em verdade já é o presidente. Não aguarda a
eleição e sim a posse. Na oposição também não há candidato, pois não pode
haver candidato a lugar de antemão provido. A 15 de janeiro próximo, com o
apelido de eleição, o Congresso Nacional será palco de cerimônia de
diplomação, na qual senadores, deputados federais e estaduais da agremiação
majoritária certificarão investidura outorgada com anterioridade. [...] Não é o
candidato que vai percorrer o País. É o anticandidato, para denunciar a
antieleição, imposta pela anti-Constituição.35

Segundo Ulysses, a divulgação das “anticandidaturas” ocorreria como uma


“peregrinação da oposição”, já que, naquele momento, realizar uma verdadeira
campanha eleitoral “equivaleria à tola viagem rumo ao impossível”. Mas reconheceu,
apesar disso, que as anticandidaturas eram importantes, porque representavam o
compromisso do partido com um conjunto de objetivos, entre eles o de pressionar pela
“eliminação dos instrumentos e da legislação discricionários, com prioridade urgente e
absoluta para a revogação do AI-5 e a reforma da Carta Constitucional em vigor”. 36
Os anticandidatos percorreram várias cidades do Brasil, organizando eventos
públicos e criando um fato político, e, efetivamente, acabaram por conseguir ocupar
espaço na mídia. Nesse processo, o MDB se afirmou como o “estandarte da resistência”
e como um partido detentor de um projeto parlamentar para a superação do regime
autoritário. Vislumbrava-se, no horizonte de expectativas possíveis, a luta pela
reconstitucionalização do país pela via democrática.
Como previsto, em 15 de janeiro de 1974, o Congresso Nacional elegeu, para a
Presidência e Vice-Presidência da República, os candidatos oficiais, Ernesto Geisel e
Adalberto Pereira dos Santos, que assumiram as novas funções em 15 de março do
mesmo ano.
Mas os êxitos alcançados pelo “milagre econômico brasileiro” já davam lugar a
uma profunda crise econômica, que contribuía para abalar a legitimidade do regime. O

35
Trecho do discurso de Ulysses Guimarães, proferido na Convenção do MDB, em 23 de setembro de
1973. Citado no artigo “10 anos após o golpe, Ulysses muda estratégia do MDB e elege 16 senadores,
abalando o regime”, publicado no site Política para políticos (acesso em: 13/5/2011).
36
Ibidem.

48
quadro era particularmente agravado pelo chamado choque internacional de petróleo,
ocorrido em 1973. Tratava-se da primeira crise internacional do petróleo, que gerou
uma elevação da inflação no plano internacional e a adoção, pelos países capitalistas, de
políticas restritivas de combate à inflação. Esse momento da economia mundial seria
identificado como o marco de encerramento dos “anos de ouro” do capitalismo,
delimitados para o período entre o pós-guerra e 1973.
No Brasil, reduziam-se as boas oportunidades para as exportações, pela queda da
demanda internacional, e ampliavam-se, por outro lado, os custos das importações,
tendo em vista o peso do petróleo na balança comercial e a ainda pouco significativa
produção interna. Ocorria também um aumento da dívida externa, como consequência
da elevação dos juros na economia internacional, enquanto o país marchava em
contínua aceleração inflacionária.
Nesse cenário, alguns economistas propuseram um recuo na política de fomento
ao crescimento econômico, mas Geisel optou por lançar o II Plano Nacional de
Desenvolvimento (II PND). Com esse plano, o general – que havia sido anteriormente
presidente da Petrobras – pretendia enfrentar o cenário de crise econômica e de
restrições externas, por meio da ampliação de uma política de substituição de
importações, naturalmente em bases distintas daquelas dos anos 1930/1950. Era a sua
estratégia para consolidar a industrialização brasileira, segundo os altos padrões
tecnológicos então vigentes no mundo capitalista.
A política de substituição de importações, adotada por Geisel, teve foco em
áreas como a de máquinas e equipamentos, fertilizantes e petroquímica e visou,
fundamentalmente, reduzir, a partir da modernização da estrutura produtiva, a
necessidade de importações e aumentar a capacidade exportadora do país, enfrentando,
por meio do crescimento, as restrições externas.
Do ponto de vista político, Geisel se pronunciou a favor da reinstituição do
Estado de direito no Brasil, porém, não a partir da pronta convocação de uma nova
Constituinte, e sim pela condução de um programa de abertura política “lenta, gradual e
restrita”. A resistência armada ao regime havia praticamente sucumbido às ações de
repressão do Estado. Uma parcela significativa daqueles que haviam assumido uma
posição de enfrentamento armado contra o governo encontrava-se, em 1974, exilada,
presa ou morta. A esquerda estava fragilizada, vencendo-se a “ameaça comunista”, que
tanto justificara a política de segurança nacional dos governos anteriores.

49
Nesse contexto, Geisel posicionou-se entre os que admitiam a introdução
paulatina de mudanças na agenda política do governo, em direção ao abrandamento da
repressão, mas contanto que essas mudanças fossem operadas sob o controle e a tutela
do Executivo Federal. Tal proposta, ainda que sustentada em inequívoca predisposição
centralizadora, acabou por criar alguma expectativa entre os brasileiros, quanto à
possibilidade de ser instaurada uma nova lógica nas relações entre o Estado e a
sociedade e de serem estabelecidos novos canais de comunicação entre Estado e
oposição. A favor dessas expectativas, Geisel autorizou, para as eleições do Legislativo
de 15 de novembro de 1974, a veiculação de propaganda eleitoral na mídia – inclusive
na mídia televisiva –, fato inédito desde a edição do AI-5, em 1968.
A divulgação das candidaturas oposicionistas aconteceria em tom de convocação
da população para o esforço em prol da reconstrução democrática do Brasil e acabou
por resultar no aumento – inesperado para o governo – das bancadas de oposição no
Congresso Nacional. Os resultados eleitorais contabilizaram uma elevação do índice de
votos do MDB em relação às eleições precedentes, de 1970, conforme assinalado no
Quadro 1:

Quadro 1

Nº de votos para o MDB e a ARENA: eleições diretas de 1970 e 1974


Representação
Senado Câmara dos Deputados
Federal
Ano da eleição 1970 1974 1970 1974
13.440.875 14.486.252 4.777.927 10.954.359
MDB
39,57% 59% 30,54% 48%
Brasil
20.524.470 10.067.796 10.867.814 11.866.599
ARENA
60,43% 41% 69,46% 52%
Fonte: SANTOS, 1990.

Os bons resultados alcançados pelo MDB nas eleições de 1974 revelaram a


fragilidade eleitoral na base de sustentação política do regime. Reafirmaram também o
status do MDB como representante da oposição ao autoritarismo e das demandas
sociais democráticas. E principalmente reafirmaram a legitimidade do espaço político-
eleitoral, ainda que constrangido pelo regime, como espaço de luta e de mudança
possível. Assim, as eleições de 1974 ratificaram a ideia de que a luta pela
reconstitucionalização democrática do Brasil poderia se dar pela via das disputas
eleitorais e, a partir da conquista do apoio da sociedade, para uma reorganização política
maior do país. O caminho era a construção de uma via pacífica de superação do

50
autoritarismo, que privilegiasse a luta política institucional: voto, eleição, partido,
Parlamento.

1.2. A sociedade se organiza para exigir direitos: o movimento


social pela anistia e pela Constituinte

Acervo privado Henfil/Ivan Cosenza, s/d.

Ao longo da segunda metade da década de 1970, no curso do programa oficial


de abertura gradual, uma série de movimentos sociais passou a disputar com o governo
os espaços legais de atuação política, conferindo novas condições e ordenação ao jogo
político brasileiro. A participação da sociedade civil, no debate político, ganhou,
paulatinamente, mais e mais importância. 37 Havia muita sede. Por que não gritar
“água”?
Em 1975, foi criado o primeiro movimento organizado em prol da Anistia
Ampla, Geral e Irrestrita: o Movimento Feminino pela Anistia (MFPA). A demanda
pela anistia, que já encontrava defensores desde os primeiros atos de cassação e
37
Uma boa reflexão sobre os diferentes atores sociais que participaram da formação dos movimentos
democráticos, na segunda metade da década de 1970, é realizada em ARAÚJO, 2007a.

51
repressão do regime autoritário, estruturou-se, então, como um grupo específico de
pressão e contou, progressivamente, com toda uma rede de apoio, envolvendo diferentes
segmentos da sociedade civil e o próprio MDB. Em 1978, as campanhas pela anistia já
haviam se disseminado em escala nacional e mesmo fora do país. Outro importante
grupo também se formou: o Comitê Brasileiro pela Anistia (CBA). A anistia tornara-se,
efetivamente, uma bandeira para um movimento social de peso e respeito no país e no
exterior.
Guardando divergências importantes, inclusive divergências internas em relação
à abrangência de seus projetos, esses dois grupos foram referenciais na luta pelo
anistiamento dos presos e atingidos por atos de exceção do regime. Contaram, desde a
sua fundação, com a militância de parentes de presos e perseguidos políticos, banidos e
exilados, de pessoas ligadas a movimentos da resistência armada desarticulados pelo
regime e de pessoas da sociedade brasileira em geral, com destaque, formadores da
opinião pública, como jornalistas e artistas. Produziram um grande volume de
informativos, incluindo jornais da imprensa alternativa, e militaram continuadamente
pela ampliação do apoio de políticos, de instituições e da população em geral, à causa
da anistia. Estabeleceram diálogos diretos com autoridades, enviaram cartas, elaboraram
abaixo-assinados, organizaram visitas a presos políticos, passeatas e outras
manifestações públicas, e também mantiveram contatos com brasileiros no exílio. No
curso dos diálogos com a sociedade, as campanhas pela anistia, que cada vez mais se
davam a ver por meio de cartazes, como os reproduzidos abaixo, foram conquistando
adeptos, expandindo seus meios de ação e reafirmando seu discurso de persuasão.

Acervo APERJ, s/d.

52
Acervo privado Junia Versiani, s/d.

Cartaz do III Encontro


Nacional das
Entidades de Anistia,
criado por Mothia.
Acervo APERJ, s/d.

53
As bandeiras de luta dos movimentos pró-anistia tornaram-se, ao longo da
década de 1970, mais e mais abrangentes, incorporando uma série de reivindicações,
como liberdade de expressão, melhoria salarial para o trabalhador e, o que
particularmente nos interessa, a defesa de uma nova Constituinte:

O Movimento Feminino pela Anistia foi criado para solidarizar-se com todos
os que foram atingidos em seus direitos de cidadania, assegurados pela
Declaração Universal dos Direitos Humanos. Lutar pela anistia ampla e geral,
para a pacificação da família brasileira, é a sua finalidade. [...] Seus
propósitos vão de uma defesa dos valores fundamentais da mulher e do
homem contra qualquer violação dos direitos humanos, por uma sociedade
mais justa, à luta pela democratização do país, à defesa das riquezas
nacionais e à campanha pela Constituinte.38

Contudo, as controvérsias em torno do tema da anistia não foram poucas, mesmo


entre a oposição. Havia certa unanimidade no apoio à ideia geral da anistia – de
suspender os efeitos dos atos de exceção do governo, libertar presos políticos e decretar
o fim do exílio –, mas havia também visões divergentes quanto às formas de
manifestação do movimento e quanto à abrangência da lei. Aspectos polêmicos
incluíam, por exemplo, o reconhecimento do ato de anistia como uma espécie de
“perdão mútuo” ou “esquecimento do que se passou”. Nessa perspectiva, a anistia
constituir-se-ia em uma estratégia silenciadora, que teria por objetivo colocar um ponto
final nos conflitos políticos nacionais, por meio da “absolvição” e do “esquecimento”
dos “maus” atos cometidos pelas partes envolvidas nesses conflitos. Buscava-se, assim,
estabelecer um tipo de unidade nacional, pela conciliação de interesses do governo e da
oposição. Uma anistia bilateral, que beneficiasse as vítimas do regime, penalizadas por
resistir à ditadura, mas que beneficiasse também os torturadores.
Tal ideia era, naturalmente, muito criticada pelos que entendiam que a apuração
de responsabilidades e o julgamento dos crimes de tortura e assassinato praticados sob o
abrigo do regime autoritário eram parte essencial da reconstrução democrática do país.
Não se cogitava pensar em reconstruir a democracia por meio do “esquecimento” e do
“perdão” às violações dos direitos de cidadania, posto que isto significava restringir o
campo da justiça, não responsabilizando o Estado. A importância e a dificuldade dessa

38
Ver Anistia, publicação do Movimento Feminino Pela Anistia-Rio de Janeiro, citada em
CIAMBARELLA, 2011, p. 251. A vinculação da luta pela anistia a uma série de outras reivindicações
pode ser conferida também nas palavras do cardeal Evaristo Arns, quando ele parabeniza a organização
do “Dia Nacional da Luta”, pelos estudantes, em 19 de maio de 1977, afirmando que os estudantes
estavam “em luta por seus quatro pontos: anistia ampla, libertação dos estudantes e operários presos, fim
das torturas e prisões arbitrárias e liberdades democráticas” (apud BEIRÃO, 25 maio 1977, p. 9).

54
questão foi e continua sendo muito grande. Nesse sentido, em 2009, trinta anos após a
anistia, ela foi reafirmada em artigo divulgado no site oficial da Fundação Perseu
Abramo, vinculada ao Partido dos Trabalhadores, nos seguintes termos:

Anistia não é esquecimento! Em primeiro lugar porque é impossível esquecer


os episódios da grande luta em que, em plena ditadura, se engajaram centenas
de milhares de brasileiras e brasileiros, exigindo justiça para as vítimas do
autoritarismo e do terror do Estado. Em segundo lugar, porque a concepção
de anistia, que permeou a campanha e que continua a nortear a atuação dos
seus militantes, nunca foi a do perdão, menos ainda a do esquecimento. Ao
contrário, a tônica dos pronunciamentos e dos panfletos da campanha sempre
foi a denúncia dos crimes da ditadura, exigindo o esclarecimento das mortes
e dos ‘desaparecimentos’, com a devida responsabilização dos culpados. A
total reintegração na vida nacional dos que foram dela alijados por medidas
arbitrárias; e a reconquista dos valores democráticos – a liberdade, a justiça
social e o respeito aos direitos humanos – que haviam sido proscritos pelas
Leis de Exceção.39

Outro ponto polêmico era a ideia de uma anistia parcial, que não estendesse “o
perdão político” aos integrantes da resistência armada contra o regime, conforme
projeto que vinha sendo articulado em âmbito governamental. Contra tal entendimento,
argumentava-se que “não existiam” os crimes dos quais os participantes da resistência
armada eram acusados. A resistência armada fora, acima de tudo, uma alternativa de
resistência à ditadura, num quadro em que, via de regra, a luta pacífica era cruel e
desumanamente punida pelas forças militares do governo.
Inclusive, logo em seguida aos primeiros atos de perseguição política levados a
cabo pelo governo pós-64, anteriores à formação de organizações armadas de esquerda,
houve quem argumentasse a favor de uma anistia que não atribuísse qualquer tipo de
culpa aos que resistiam ao regime autoritário. Nas palavras do jornalista Carlos Heitor
Cony (1965, p. 23), registradas um ano após o golpe:

Ninguém está pedindo perdão a este governo. Tal pedido implicaria o


reconhecimento de culpa. O que se pede, o que se exige é que, pela ausência
de provas provadas, por não ter o Executivo capacidade de presidir a
processos regulares, nem ter moral para condenar ninguém, conceda o
Congresso a anistia total, sem restrições, sem barganha.

As campanhas pró-anistia intensificaram-se ao longo do governo Geisel e


confundiram-se com a luta pela redemocratização. O presidente, durante todo o seu
mandato, manteve o discurso do compromisso com a abertura política, mas a questão de
39
Trecho do artigo “20 anos : anistia não é esquecimento”, publicado no site oficial da Fundação Perseu
Abramo (Disponível em: http://www.fpabramo.org.br/o-que-fazemos/memoria-e-historia/exposicoes-
virtuais/leis, acesso em: 13/2/2010).

55
conceder a anistia ficaria para o seu sucessor, João Figueiredo. Sobre isso, Geisel
comentou, muitos anos depois, em entrevista concedida, em 1997, à Maria Celina
D’Araújo e a Celso Castro (D’ARAÚJO; CASTRO, 1997, p. 398):

Não dei [a anistia] porque achava que o processo devia ser gradual. Era
necessário, antes de prosseguir, inclusive com a anistia, sentir e acompanhar
a reação, o comportamento das duas forças antagônicas: a área militar,
sobretudo a mais radical, e a área política da esquerda e dos remanescentes
subversivos. Era um problema de solução progressiva [...].

A promessa de governar para a normalização do regime também não impediu


Geisel de, antes das eleições municipais de novembro de 1976, propor, por meio do
ministro da Justiça, Armando Falcão, uma redução drástica do espaço de propaganda
política nos meios de comunicação de massa. A chamada Lei Falcão seria aprovada pelo
Congresso Nacional, em junho de 1976, com a bancada do MDB retirando-se do
plenário e recusando-se a participar da votação em atitude de repúdio. Pela Lei, eram
obstados os debates na mídia, então considerados determinantes para a vitória da
oposição em 1974. Ficavam autorizadas apenas a exibição de uma foto de cada
candidato e a leitura, no ar, de seu currículo, por um locutor da emissora. Mais uma vez,
o espaço da disputa política era restringido pelo governo, em evidente prejuízo das
oposições e na contramão do projeto de reordenamento democrático do país.
A despeito das medidas restritivas introduzidas pela Lei Falcão, os resultados
das eleições municipais de 1976 registraram a vitória da ARENA somente nas cidades
pequenas e do interior do país. O MDB saiu vitorioso, via de regra, nos centros urbanos
mais densos.40 Os resultados eleitorais continuavam a sinalizar um caminho
institucional possível, reafirmando a força da oposição política, sustentada na bandeira
da redemocratização e da reconstitucionalização do país.
Em 1977, nova investida autoritária de Geisel deixaria ver que, para garantir o
controle do processo político, restava ao presidente recorrer a medidas de caráter
coercitivo. Naquele momento, notava-se o fortalecimento da resistência democrática,
evidenciando-se certa fragilidade na força política do governo. No dia 1º de abril de
1977, Geisel decretou o recesso do Legislativo, sob alegação de que a bancada
emedebista estava obstando a realização de necessárias reformas no Poder Judiciário. 41

40
Sobre o peso do MDB e da ARENA nas eleições municipais de 1976, ver COUTINHO; GUIDO, 2001.
41
De acordo com o depoimento concedido por Geisel (D’ARAÚJO; CASTRO, 1997), as reformas
propostas pelo Governo Federal visavam tornar o Judiciário mais ágil e garantir fórmulas para o
afastamento dos maus juízes, não havendo nada relacionado com matéria partidária. Contudo, tais

56
Com o Congresso em recesso, não só foram impostas as tais reformas no Judiciário,
como, ainda, em 13 de abril de 1977, foi decretado um conjunto de leis restritivas, que
recebeu o nome de Pacote de Abril, e que teve por objetivo assegurar a maioria
governista no Legislativo e no Executivo, face aos próximos processos eleitorais.
Com base no Pacote de Abril, entre outros pontos, foram determinados: a
realização de eleições presidenciais indiretas, em 15 de outubro de 1978, com duração
de seis anos para os mandatos presidenciais, a partir do governo seguinte ao de Geisel;
que 1/3 dos senadores passaria a ser eleito de forma indireta (os chamados senadores
biônicos); que seriam mantidas as eleições indiretas para o cargo de governador; e que a
aprovação de emendas constitucionais passaria a depender da maioria simples do
Congresso, e não mais da obtenção de 2/3 dos votos dos congressistas. Além disso, o
número de representantes por estado, na Câmara Federal, passava a ser calculado, não
mais com base no número de eleitores, mas na população de cada estado. 42
Essa mudança de critério, por um lado, reduziu o peso do voto do eleitor das
regiões Sudeste e Sul do Brasil, onde era maior a concentração do eleitorado brasileiro e
também maior a força eleitoral do MDB. Por outro lado, aumentou o peso do voto do
eleitor das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, onde a ARENA tradicionalmente
conseguia melhores resultados eleitorais. Os efeitos se fizeram sentir: de acordo com
pesquisa coordenada por Wanderley Guilherme dos Santos,43 a representação na
Câmara Federal foi percentualmente maior nas eleições de 1978, comparativamente às
eleições de 1974, nos estados das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste do Brasil, e,
percentualmente menor, nos estados das regiões Sul e Sudeste (Quadro 2).

reformas não lograram obter os 2/3 de votos, no Congresso, necessários a sua aprovação, e Geisel se
sentiu “desafiado” pela oposição, que, em sua opinião, teria agido em detrimento dos interesses da nação.
42
Desde a aprovação da Emenda Constitucional nº 1, de 1969, e até a decretação do Pacote de Abril, de
1977, o número de deputados federais, por estado brasileiro, era estabelecido na proporção dos eleitores
nele inscritos, conforme os seguintes critérios: a) até cem mil eleitores, três deputados; b) de cem mil e
um a três milhões de eleitores, mais um deputado para cada grupo de cem mil ou fração superior a
cinquenta mil; c) de três milhões e um a seis milhões de eleitores, mais um deputado para cada grupo de
trezentos mil ou fração superior a cento e cinquenta mil; e d) além de seis milhões de eleitores, mais um
deputado para cada grupo de quinhentos mil ou fração superior a duzentos e cinquenta mil. Além disso,
cada território brasileiro, excetuando-se Fernando de Noronha, deveria ser representado, na Câmara, por
um deputado. O Pacote de Abril alterou essas regras, determinando que o número de deputados federais,
por estado brasileiro, deveria ser proporcional à população, com o reajuste necessário para que nenhum
estado tivesse mais de cinquenta e cinco ou menos de seis deputados. E cada território, excetuando-se
Fernando de Noronha, deveria ser representado, na Câmara, por dois deputados.
43
SANTOS (Coord.), 1990, p. 242.

57
Quadro 2

Câmara Federal – Representação Estadual – 1974/1978


Região / Estado 1974 % 1978 %
NORTE 21 5,80% 28 6,70%
NORDESTE 107 29,30% 126 30,00%
SUDESTE 137 37,60% 156 37,10%
SUL 78 21,40% 82 19,50%
CENTRO-
28 6,60% 32 6,70%
OESTE
BRASIL 364 99,90% 420 99,90%
Fonte: SANTOS, 1990, p. 242 (dados organizados com base em Dados
Estatísticos, do TSE).

Quanto à propaganda eleitoral, o Pacote de Abril estendeu às eleições gerais de


1978 os termos da Lei Falcão, que restringiam o direito de propaganda política. Mais
uma vez, buscava-se inibir a atuação das oposições. O recesso do Legislativo só seria
suspenso, em 15 de abril de 1977, após já terem sido decretadas as reformas anunciadas
no Pacote de Abril.
O programa de abertura de Geisel também não o impediu de acionar o AI-5 para
levar a termo cassações de mandatos e suspensões de direitos políticos. 44 Em 1997,
Geisel (D’RAÚJO; CASTRO, 1997, p. 391) argumentaria, na entrevista anteriormente
citada, que:

[...] às vezes eu chegava à conclusão de que a melhor solução era cassar. A


cassação tinha suas vantagens, no sentido de arrefecer o ímpeto da oposição,
que passava a ter receio das conseqüências se continuasse no mesmo estilo, e
de arrefecer a pressão da área militar. Passei todo o meu governo nesse jogo.
Foi isso que levou à demora da solução final, de acabar com o AI-5.
Enquanto a oposição se mostrava agressiva, não era possível aliviar e

44
Entre os exemplos, o AI-5 foi acionado, naquele mesmo ano de 1977, para determinar a cassação do
mandato, em 30/6/1977, e suspensão, por dez anos, dos direitos políticos do deputado federal emedebista,
pelo Paraná, o cearense José Alencar Furtado, devido a pronunciamento que fez em programa de rádio e
televisão, rendendo homenagens às vitimas das perseguições e da repressão política no Brasil. Nos anos
1940, como estudante de Direito, Alencar fora militante da Esquerda Democrática e co-fundador do
Partido Socialista Brasileiro (PSB), no Ceará. Após a extinção do pluripartidarismo no Brasil, passou a
integrar o MDB, elegendo-se deputado estadual pelo Paraná em 1966. Durante essa legislatura, foi
presidente da comissão executiva regional do MDB (1969/1970). Deputado federal, ainda pelo Paraná,
entre os anos 1971 e 1977 e entre 1983 e 1987, foi um dos fundadores e líder na Câmara do chamado
grupo “autêntico” do MDB. Em fevereiro de 1977, assumiu a liderança da bancada federal do MDB, mas,
após sua cassação, retomou a carreira de advogado. Contudo, com a decretação da Lei de Anistia, em
1979, retornaria à vida política, filiando-se ao PMDB e elegendo-se deputado federal, pelo Paraná, para a
legislatura de 1983/1987. No pleito de 1986, rompeu com o PMDB e candidatou-se ao governo do
Paraná, por uma coligação do PDT, PFL, PMB e PJ, perdendo a disputa para o pemedebista Álvaro Dias.
Em 1994, ainda tentou nova eleição para a Câmara Federal, na legenda do PTB, sem êxito, não voltando a
disputar cargos eletivos. Sobre José Alencar Furtado, ver ABREU, 2001a.

58
satisfazê-la. Eu não podia me afastar dos militares, que, a despeito da
cooperação da Arena, eram os principais sustentáculos do governo
revolucionário.

Durante todo o governo Geisel, também os órgãos de repressão mantiveram-se


em aberta ofensiva contra as organizações clandestinas, sobretudo contra o Partido
Comunista Brasileiro (PCB), insistindo na tese da demonização do “perigo vermelho” e
levando a cabo prisões e “desaparecimentos” de militantes e intelectuais. E isso num
contexto em que o PCB defendia caminhos democráticos de luta e estava longe de ser
uma organização de esquerda “radical”. 45 O governo, com “uma mão”, prometia a
abertura política e, com outra, impunha claros e violentos limites ao exercício da
oposição, que chegavam ao assassinato de opositores.

Acervo privado Henfil/Ivan Cosenza,


s/d.

Foi nesse contexto específico, e em face das determinações autoritárias do


regime, que, no dia 14 de setembro de 1977, o MDB se reuniu em Convenção Nacional
Extraordinária, em Brasília, sendo discutida e deliberada, como absoluta prioridade
política, a participação do partido na luta pela convocação de uma Assembleia Nacional

45
Vários exemplos de perseguições, prisões e desaparecimentos políticos, frutos de investigações dos
órgãos de repressão sobre as atividades comunistas no país, poderiam ser aqui citados. Entre os exemplos,
a morte do jornalista Vladimir Herzog, em outubro de 1975, causaria grande impacto na opinião pública.
Professor da Universidade de São Paulo e diretor do Departamento de Jornalismo da TV Cultura do
estado, sua morte foi noticiada nos jornais quando estava preso em São Paulo. Em nota oficial foi
divulgado que o jornalista havia se suicidado, por enforcamento, na cela. Suspeitando da versão oficial,
milhares de estudantes, intelectuais e líderes religiosos organizaram atos públicos de protesto. Poucos
meses depois, em janeiro de 1976, outro preso político foi encontrado morto na prisão, novamente por
enforcamento, dessa vez o líder operário e militante do Partido Comunista Brasileiro, José Manuel Fiel
Filho. Os laudos periciais do Instituto Médico Legal, em ambos casos assinados pelo médico Harry
Shibata (tempos depois denunciado pelo Conselho Regional de Medicina de São Paulo), atestam suicídio.
Ver, entre outros, ARAÚJO, 2007a; HERZOG, 1978; e MOTTA, 2007.

59
Constituinte. É nesse momento que a instalação de uma Constituinte no Brasil se
consagrava como o principal objetivo do partido oposicionista, tendo em vista resolver
os graves problemas institucionais do país. O apelo pró-Constituinte se tornava então a
palavra-chave da luta política do MDB. A estratégia era fortalecer, entre os vários
setores da sociedade, a defesa de uma Constituinte, por intermédio da organização de
manifestações públicas e da abertura de canais de diálogo com a população.
Uma ampla campanha nacional pró-Constituinte foi então desencadeada, com
manifestações que contaram com o decidido engajamento do presidente do MDB,
Ulysses Guimarães. O partido passou a produzir diversas publicações sobre a temática
da Constituinte, buscando disseminar discussões e informar a população sobre os
significados do “evento” Constituinte. Entre as obras lançadas, merece destaque o
Manual da Constituinte, produzido ainda no ano de 1977 e cuja capa estampa uma
imagem simbolizando a oposição em campanha pela convocação de uma Assembleia
Nacional: o MDB em ação. Ou seja, partido político e movimento social se unificam
sob a bandeira da Constituinte.

Capa do Manual da Constituinte,


Diretório Nacional do MDB, 1977.
Acervo Museu da República.

O Jornal de Brasília, em 4 de novembro de 1977, divulgaria o lançamento do


Manual da Constituinte, nos seguintes termos:

60
Com características bastante didáticas, o manual do MDB define "por partes"
o que é uma Assembléia Nacional Constituinte. Ao final de cada um dos 25
tópicos, está escrito: "Se o que você leu é justo, é bom para você e para o
Brasil, você tem um dever a cumprir: LUTE PELA ASSEMBLÉIA
NACIONAL CONSTITUINTE." Em uma das partes, "Constituinte e você",
o MDB mostra ao povo a importância de uma Constituição democrática, os
benefícios dela decorrentes, tais como: "garante sua vida e liberdade; garante
seu direito de ter um emprego, com salário justo; garante a educação para
você e seus filhos; garante a saúde; etc." Apesar de ter sido distribuído
ontem, os conceitos emitidos no manual já estão sendo usados e difundidos
pelo presidente Ulysses Guimarães e pelos líderes Freitas Nobre e Franco
Montoro, nos encontros nacionais que estão sendo realizados pelo país.46

Chama atenção e é fundamental destacar, em primeiro lugar, o didatismo do


texto, pela linguagem acessível usada e pela interlocução constante com o leitor. Em
segundo lugar e igualmente muito importante, as pontes que vão sendo construídas entre
o que é a Constituinte e o que é o dia a dia da população. Ou seja, a mensagem que o
Manual quer passar é que esse não é um assunto “abstrato” e distante do mundo do
cidadão, do homem comum. Muito ao contrário. A Constituinte tem tudo a ver com os
problemas mais presentes e cotidianos da vida dos brasileiros: emprego, saúde,
educação etc.
Ao lado da campanha do MDB, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), à
época presidida por Raymundo Faoro,47 seria a primeira entidade civil brasileira a
registrar a reivindicação pela convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte.
Assim, ainda no ano de 1977, o Conselho Federal da OAB lançaria a seguinte
declaração:

Ao reafirmar a sua crença na necessidade de reimplantação do Estado de


Direito, os advogados brasileiros, conscientes de suas responsabilidades
perante a Nação, insistem na revogação imediata do Ato Institucional nº 5 e
numa reformulação constitucional, a ser empreendida por Assembléia
Constituinte, integrada de representantes especialmente eleitos pelo voto
popular, direto e secreto.48

46
MDB começa a distribuir o “Manual da Constituinte”. Jornal de Brasília, 4/11/1977 (disponível em:
http://www2.senado.gov.br/bdsf/bitstream/id/109058/1/1977_1979%20-%200162.pdf; acesso em:
agosto/2012).
47
Jurista e cientista social consagrado nacionalmente, Raymundo Faoro (1925-2003) foi presidente
nacional da Ordem dos Advogados do Brasil, entre 1977 e 1979. Sobre a sua gestão, o site oficial da
Academia Brasileira de Letras, da qual foi membro efetivo a partir do ano 2000, registrou o seguinte
pronunciamento: “Com ele a sede da OAB, no Rio, transformou-se num front de resistência pacífica
contra o regime militar.” (disponível em:
http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=245&sid=122; acesso em:
30/1/2013).
48
Revista da OAB, n. 21, p. 148, 1977.

61
Em fins de 1977, num esforço de evitar o isolamento do governo, Geisel
autorizou o presidente do Senado, o arenista Petrônio Portela, a buscar diálogo com
setores organizados da sociedade civil. Neste ponto, vale lembrar que, em 1977, em
âmbito internacional, Jimmy Carter assumia a Presidência dos EUA, defendendo o fim
dos regimes ditatoriais da América, como objetivo a ser alcançado inclusive “de cima
para baixo”.49
Junto ao processo de crescimento eleitoral da oposição e de fortalecimento da
perspectiva de luta democrática, as atividades sindicais retomaram lugar de destaque na
cena política brasileira e, especialmente a partir de 1978, as greves operárias, reprimidas
no período dos chamados “anos de chumbo”, ganharam impulso, com o “novo
sindicalismo” do ABC paulista.50 Os trabalhadores organizavam-se para reivindicar
melhores condições de trabalho e de vida em setores como o da indústria, da área de
serviços, do comércio, da construção civil, trabalho rural, magistério, bancos,
funcionalismo público, saúde, associações de bairros, e também artistas, intelectuais,
mulheres, negros, estudantes,51 índios, associações pela liberdade de opção sexual, entre
outros que denunciavam toda uma variedade de formas de preconceito presentes na
sociedade e, ao mesmo tempo, condenavam o autoritarismo do regime. A defesa dos
direitos de cidadania mobilizava entidades como a Confederação Nacional dos Bispos
do Brasil (CNBB),52 a Associação Brasileira de Imprensa (ABI), 53 o Instituto dos
Arquitetos do Brasil (IAB), a OAB e um grupo de advogados a ela vinculados, que se
colocaram a serviço da defesa dos presos políticos, entre outros tantos exemplos de
iniciativas apartidárias dos anos 1970. Inclusive entidades empresariais, como a

49
As motivações e estratégias norte-americanas, com Jimmy Carter, na direção de apoiar o fim dos
governos autoritários latino-americanos são abordadas em SILVA, 2007.
50
Sobre o novo sindicalismo, ver, por exemplo, COSTA, 2007.
51
Personagem central, no correr dos anos 1960, nas manifestações públicas e na denúncia do regime
autoritário, o movimento estudantil é reprimido e desarticulado em fins de 1968, no roldão dos anos de
chumbo. Somente no último triênio da década de 1970, as passeatas estudantis voltaram à cena política e
a União Nacional dos Estudantes foi reestruturada, com uma retomada ofensiva dos estudantes nas
manifestações pela redemocratização do país. Ver, sobre o assunto, ARAÚJO, 2007b.
52
Uma parte da Igreja Católica, no Brasil, assumiu, desde os anos 1960, franca oposição ao regime
autoritário, apoiando diretamente as lutas políticas e sociais contra o arbítrio e a injustiça social. Isto, ao
lado de outros setores da Igreja, favoráveis ou indiferentes ao golpe de 64. A partir de meados dos anos
1970, a atuação política de militantes da esquerda católica cresceu e foi decisiva, por exemplo, no
combate à violência no campo, por intermédio das Pastorais da Terra, e na denúncia dos crimes
praticados pelos governos militares.
53
Aqui vale destacar a atuação da imprensa alternativa, muito importante, naquele momento, para a
disseminação de uma opinião crítica à ditadura e em favor da ampliação dos direitos sociais.

62
Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), rediscutiam seus interesses e
alianças, passando a advogar pelo fim do regime autoritário. 54
A mobilização dos trabalhadores e de amplas parcelas da sociedade inaugurava
uma nova conjuntura da luta por direitos, formando, ao lado da oposição militante, uma
heterogênea frente democrática pelos direitos humanos e contra o arbítrio. O projeto de
abertura do governo, imposto “de cima para baixo”, tornava-se, assim, objeto de debate
e influência de atores sociais organizados e mesmo não organizados. No último ano de
seu governo, Geisel lançou um conjunto de medidas liberalizantes, ainda antes das
eleições gerais de outubro de 1978, que incluíram: a transferência do julgamento dos
movimentos grevistas, então feito com base na Lei de Segurança Nacional, para o
campo da legislação do trabalho; a transferência para o Supremo Tribunal Federal da
autoridade para cassar mandatos parlamentares; a reedição do direito ao habeas corpus
para os crimes políticos; a autorização àqueles que haviam sido cassados há mais de dez
anos para retornar às suas atividades políticas; e a suspensão das penas de morte e
banimento. Mas o coroamento da promessa de abertura política ocorreria com a
revogação do AI-5, determinada para 1º de janeiro de 1979. Tal revogação, contudo,
ocorreu simultaneamente à criação de “salvaguardas constitucionais”, consideradas
essenciais para a garantia da “segurança do Estado”. Por meio do instrumento das
“salvaguardas constitucionais”, não era reconhecido o direito de greve às categorias
profissionais ligadas à prestação de serviços públicos e também ficava estabelecido o
“estado de emergência”, regra de exceção que autorizava intervenções do Governo
Federal contra movimentos classificados por ele mesmo como subversivos, sem prévia
consulta ao Congresso Nacional. Em 1997, o próprio Geisel (D’ARAÚJO; CASTRO,
1997, p. 395) comentaria a “necessidade” das “salvaguardas constitucionais”:

[...] [Era necessário] assegurar condições melhores do que aquelas que eu


tinha para governar ao presidente que me sucedesse, que teria mais
dificuldades no governo. Eu afinal tinha o AI-5, tinha o poder de cassação,
mas quem viesse depois de mim não teria mais nada disso. Era preciso que se
desse a ele alguns instrumentos que lhe permitissem assegurar a sua
autoridade e continuar no caminho de acabar com os resquícios próprios da
revolução.

Quanto à demanda por uma nova Constituinte, demanda crescente na sociedade,


ela ainda não receberia qualquer encaminhamento governamental. Já em sentido

54
Sobre o posicionamento de setores do empresariado brasileiro contra o autoritarismo do regime, ver
VIANNA, 1986.

63
inverso, nas eleições presidenciais indiretas de 1978, quando o MDB lançou o general
Euler Bentes e o senador Paulo Brossard,55 respectivamente para a Presidência e Vice-
Presidência da República, os novos “anticandidatos” assumiram, de imediato, o
compromisso público de, caso eleitos, convocar uma Assembleia Nacional Constituinte.
Desse modo, o projeto de uma nova Constituinte, ainda que preterido pelo governo,
consolidava-se e ganhava grande visibilidade como bandeira de luta prioritária de
oposição ao autoritarismo, empunhada, sobretudo, por uma ampla rede de associações e
movimentos sociais.

1.3. Anistia, Diretas, Constituinte Já!

Em 15 de outubro de 1978, o Colégio Eleitoral elegeu para a Presidência e Vice-


Presidência da República os candidatos oficiais, João Baptista Figueiredo e Aureliano
Chaves, que tomaram posse, em março de 1979, como continuadores da política de
abertura lenta, gradual e segura do seu antecessor. Dias após, Euler Bentes e outros
representantes da oposição divulgariam um manifesto, exigindo a imediata convocação
de uma Assembleia Nacional Constituinte. 56
Na contramão do apelo pró-Constituinte, no entanto, Figueiredo procurou
manter a abertura política sob controle do Estado. Dessa forma, quaisquer mudanças na
legislação limitar-se-iam a medidas circunscritas e a reformas legislativas, como a
decretação da Lei da Anistia e o restabelecimento do pluripartidarismo no país, ambas
medidas aprovadas no mesmo ano de 1979.

55
O general Euler Bentes Monteiro e o senador Paulo Brossard, do MDB, foram lançados candidatos,
respectivamente, à Presidência e Vice-Presidência da República, pela Frente Nacional de
Redemocratização (FNR), criada, em 1977, por Magalhães Pinto, com o objetivo de formar uma frente
única reunindo emedebistas e dissidentes da ARENA, insatisfeitos com a candidatura oficial do general
João Figueiredo. Magalhães Pinto, a princípio, pleiteava ele próprio disputar a eleição presidencial pela
FNR, mas acaba aceitando abrir mão de sua candidatura para a formação da chapa de Bentes e Brossard.
O lançamento de um general como candidato da oposição era uma estratégia do MDB, que pretendia
enfatizar a quebra da unidade militar em torno da candidatura de João Figueiredo. O general Euler
Bentes, com extensa carreira militar, tendo ocupado, desde 1964, postos de comando e direção no
Exército e também, entre 1967 e 1969, a função de superintendente da SUDENE (Superintendência de
Desenvolvimento do Nordeste), foi um dos primeiros a aderir à FNR, em 1977, e, em agosto de 1978,
filiou-se ao MDB, para ser o candidato da oposição à Presidência. Sobre o assunto, ver: KORNIS,
SOUSA, 2001, p. 4.667-4.677 e ABREU, 2001b, p. 3840-3842.
56
Sobre o manifesto pró-Constituinte, ver, por exemplo, ABREU, 2001b, p. 3842.

64
Acervo privado Mariano, 1984.

No dia da votação da Lei da Anistia, embora sob forte pressão dos movimentos
sociais, que se fizeram presentes inclusive no interior do Congresso, a proposta do
governo de uma anistia bilateral e parcial foi aprovada, 57 por 206 votos da ARENA
contra 201 votos do MDB, deixando ver que a Lei traduzia principalmente um projeto
governista, que a oposição vivenciou como vitória parcial e possível. De acordo com o
então senador emedebista, Pedro Simon: “Sem os biônicos, o resultado seria outro; a
Lei 6.683/79 é resultado da imposição e controle do Executivo sobre o Legislativo, que
buscou, aprovando esta Lei, dar uma resposta parcial e restrita às ‘inquietações sociais’
da época”.58 Em outra direção, a imprensa havia divulgado, poucos meses antes, que
“um assessor do Palácio do Planalto” teria afirmado que aquele era “talvez o principal
momento da Revolução, ou seja, a formalização do esquecimento e da conciliação
nacional”. 59
A Lei aprovada facultou a anistia àqueles que, entre 2 de setembro de 1961 e 15
de agosto de 1979,60 houvessem incorrido em crimes eleitorais e em crimes políticos,
“ou a estes conexos”. Com base na Lei, foram enquadrados como “crimes conexos”
57
A Lei da Anistia foi publicada em Diário Oficial como Lei nº 6.683, de 28 de agosto de 1979.
58
Citado em ZELIC, Marcelo. A auto-anistia e a farsa de um acordo nacional. Artigo publicado em
2/2/2010 no site oficial do Grupo Tortura Nunca Mais (disponível em: http://www.torturanuncamais-
rj.org.br/artigos.asp?Codartigo=83&ecg=0; acesso em: maio 2011).
59
FIGUEIREDO recebe anteprojeto da anistia no dia 18. Jornal do Brasil, 4 de junho de 1979, p. 3.
60
Sobre o período de abrangência da anistia, o historiador Renato Lemos (2002, p. 294) lembra que:
“Segundo [Jarbas] Passarinho, [senador do Pará, pela ARENA], a própria agenda da abertura livrava o
governo de receios em relação ao retorno dos líderes populares derrotados em 1964. A anistia se
combinaria com o restabelecimento do pluralismo partidário, com o objetivo de fracionar o MDB, que, de
partido da oposição consentida, se tornara desaguadouro eleitoral do descontentamento com o regime”. A
suposição era que seria mais provável que opositores, como Prestes e Brizola, por exemplo, se dividissem
em diferentes correntes oposicionistas, ao invés de se unirem. “[...] Por isso, o general Golbery do Couto
e Silva, chefe do Gabinete Civil da Presidência da República, e Petrônio Portela, ministro da Justiça desde
janeiro de 1979, teriam incluído nos benefícios do projeto do governo os punidos por motivos políticos
desde setembro de 1961.” Renato Lemos aponta ainda, no mesmo artigo, a existência de suposições, à
época, de que alguns líderes emedebistas, entre eles Ulysses Guimarães, tentaram restringir a proposta de
anistia, tendo em vista evitar o retorno do exílio de antigos políticos que pudessem lhes fazer
concorrência na liderança dos movimentos oposicionistas, como Leonel Brizola e Miguel Arraes.

65
todos os desaparecimentos de militantes oposicionistas e as denúncias de atos de tortura
promovidos pelo Estado. Já as ações “de terrorismo, assalto, seqüestro e atentado
pessoal”, creditadas a militantes da oposição, foram classificadas como “crimes de
sangue” ou “crimes comuns”.61 Ou seja, no contexto da abertura “gradual”, a Lei da
Anistia teve alcance limitado, impedindo a investigação dos crimes de tortura e
assassinato praticados por agentes dos setores de segurança do governo a serviço da
repressão política. Evidenciava-se, assim, o sentido de autoanistia imputado à Lei pelo
governo. E nesse ponto, vale lembrar que, nos casos de tortura e assassinato praticados
por servidores do Estado, ultrapassou-se não apenas os limites democráticos, políticos,
éticos ou morais, mas também os limites da lei, posto que nenhuma lei de exceção
autorizava a prática de tortura ou a execução sumária de opositores.
A Lei da Anistia acabou por deixar impunes os crimes da repressão, garantindo
ao governo que o futuro não encontraria nela espaço para “revanchismos”. Por outro
lado, criminalizou a resistência armada ao regime, prevalecendo a ideia, então
hegemônica no interior das Forças Armadas, de que os praticantes de “atos terroristas”
não poderiam obter o “perdão político”. Uma anistia nem ampla nem irrestrita e que não
preceituava a apuração dos crimes do Estado contra os seus opositores. 62 Nas palavras
de Alessandra Ciambarella (2011, p. 260):

É bem verdade que ela [a anistia] permitiu o retorno de centenas de exilados,


bem como libertou um expressivo número de presos políticos. Mas não foi
ampla o suficiente, excluindo a grande maioria dos punidos politicamente,
em especial militares subalternos, pequenos funcionários e deixando
prevalecer as chamadas “cassações brancas”, que impediam a uma série de
anistiados o acesso ao mercado de trabalho. Todavia, ela foi muito eficiente,

61
Vale observar que o presidente João Figueiredo vetou um trecho do art.1 da Lei da Anistia, que havia
sido inicialmente aprovado, pelo Congresso Nacional. Originalmente, o artigo concedia o direito de
anistia aos servidores civis e militares “punidos com fundamento em Atos Institucionais e
Complementares e outros diplomas legais”. Figueiredo vetou, desse artigo, a expressão “e outros
diplomas legais”. Nas razões por ele próprio explicitadas para o veto, expostas no Diário do Congresso
Nacional de 4 de setembro de 1979, Figueiredo argumenta que, caso a expressão fosse mantida,
“admissível seria entender que o perdão para aquelas pessoas desprezaria o pressuposto político da
sanção, chegando ao extremo privilégio de alcançar todo e qualquer ilícito porventura cometido,
independentemente de sua natureza ou motivação”. Sobre esse ponto, Miro Teixeira, deputado federal
pelo MDB à época da elaboração da Lei de Anistia, fez a recente declaração, em artigo publicado pelo O
Globo, em 15 de maio de 2010: “Passados trinta anos, a Ordem dos Advogados do Brasil procura no
Supremo Tribunal Federal interpretação assemelhada à do general Figueiredo, no sentido de não se
estender à anistia os crimes comuns praticados por agentes da repressão contra opositores políticos. Não
conseguiu.”
62
Houve também restrições à reintegração ao trabalho de militares e outros segmentos de servidores
públicos punidos pelas leis de exceção. Estes, não raro, tiveram direito somente à aposentadoria. Além
disso, denúncias alertavam contra as chamadas “cassações brancas”, quando integrantes dos órgãos de
segurança do governo faziam contatos com empregadores para “desaconselhar” que determinadas pessoas
fossem aceitas no mercado de trabalho.

66
excluindo os “criminosos de sangue” ou “terroristas” e beneficiando aqueles
que “no cumprimento da lei”, torturaram e mataram – estes últimos,
beneficiados a partir do conceito de “crimes conexos”.

Pelas restrições do texto aprovado, a Lei da Anistia, mais do que consolidar a


conclusão de um debate social, inaugurou novos debates, sendo objeto de discussão e
propostas até os dias atuais.63 De toda forma, alguns analistas concordam com Daniel
Aarão Reis, que propõe que a Lei da Anistia, ao lado da revogação dos atos
institucionais, demarca, sem dúvida, o término do regime de exceção iniciado em 1964,
inaugurando um período de transição para o Estado de direito no Brasil.
Poucos meses após a votação da Lei da
Anistia, o sistema pluripartidário foi
restabelecido no Brasil. De forma limitada, é
verdade, posto que se mantinham as condições
de ilegalidade dos partidos comunistas.64 A
expectativa do governo era neutralizar a oposição
por força da dispersão partidária, sobretudo ante
o retorno das lideranças no exílio. Dessa medida
decorreu a transformação da ARENA no Partido
Democrático Social (PDS), presidido pelo
senador José Sarney, e a divisão do MDB em
Acervo privado Henfil/Ivan Cosenza, s/d.
diversos partidos. Foram criados o Partido do
Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), 65 presidido pelo deputado Ulysses
Guimarães; o Partido Popular (PP), que reuniu ex-emedebistas, como o senador
Tancredo Neves, e dissidentes da ARENA, como o senador Magalhães Pinto; o Partido
dos Trabalhadores (PT), que teve como principal liderança nacional o ex-presidente do
63
No esforço de conferir maior justiça aos termos aprovados pela Lei da Anistia, alguns grupos, como o
Tortura Nunca Mais, criado em 1985, tiveram e têm hoje papel fundamental. Como resultado do
permanente trabalho de pressão desses grupos, algumas importantes medidas podem ser contabilizadas,
como a posterior concessão da anistia aos opositores do regime que foram presos por “crime de sangue”.
Outro passo, recente, foi a criação da Comissão Nacional de Verdade, visando obter informações sobre as
violações de direitos humanos cometidas no Brasil, sob motivação política e por atos de exceção, entre 18
de setembro de 1946 e 5 de outubro de 1988 (Lei nº 2.528, de 18 de novembro de 2011).
64
Os comunistas acabaram por ficar majoritariamente vinculados ao PMDB, buscando, por meio desta
legenda, divulgar as suas propostas e apresentar suas lideranças à sociedade.
65
A lei que restabeleceu o pluripartidarismo definiu que todos os novos partidos políticos deveriam ter, na
sua denominação, a palavra “partido”. Muitos analistas interpretam a medida como um esforço no sentido
de impedir que o MDB mantivesse o mesmo nome e a mesma sigla – que haviam conquistado grande
força popular e midiática como símbolo da resistência democrática ao regime –, evitando, assim, em
alguma medida, a transferência de adesões para a sua agremiação política herdeira. Ver, por exemplo,
MOTTA, 1999, capítulo VI (“A reforma partidária de 1979-1980 e o quadro atual”).

67
Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema, Luís Inácio da
Silva, o Lula; o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), presidido pela deputada Ivete
Vargas, sobrinha do ex-presidente Getúlio Vargas; e o Partido Democrático Trabalhista
(PDT), organizado sob a liderança de Leonel Brizola, de volta do exílio.
A partir da instituição do pluripartidarismo no país, o debate sobre a Constituinte
prosseguiu basicamente em quatro direções. Do lado do governo e de sua base de apoio,
acenava-se para a possibilidade de reformas na Constituição, visando adaptá-la à
realidade instaurada a partir do processo de abertura política, porém, sem a formação de
uma Assembleia Nacional Constituinte. O argumento central era o de que a convocação
de uma Assembleia Constituinte era desnecessária, posto que o Congresso Nacional
podia, dentro da lei vigente, reformar e emendar a Constituição em vigor. Subjacente a
tal argumento estava o receio quanto aos rumos políticos que um processo constituinte
poderia tomar e também a negação/rejeição de que o poder Constituinte seria, como por
definição político-jurídica sempre é, um poder originário do povo, manifestando a sua
soberania.
Do lado da oposição, duas correntes se destacavam. Um grupo defendia a
convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte exclusiva, que tivesse a
atribuição específica de elaborar, livre e soberanamente, um novo texto constitucional
para o país e que se dissolvesse imediatamente após a conclusão dos seus trabalhos.
Entre estes, filiava-se Ulysses Guimarães. Essa corrente denunciava que as frequentes
alterações na Constituição em vigor tinham-na transformado em uma colcha de retalhos:
“Em conseqüência, sustentamos que somente o Povo, por meio de seus Representantes,
reunidos em Assembléia Nacional Constituinte, [...] tem competência para substituir a
Constituição vigente por outra, nos casos em que isto se faz necessário.” 66 Se cabia ao
povo determinar quem seriam os seus representantes na Constituinte, fazia-se
necessário, então, organizar uma eleição específica para eleger aqueles que teriam as
qualidades próprias para a tarefa de elaborar o novo texto constitucional. Outra
perspectiva, esta assumida pela chamada “oposição mais moderada”, propunha, dentro
do espírito de uma “transição negociada”, a atribuição de poderes constituintes aos
membros do Congresso Nacional, que seriam eleitos em 1982. Nessa vertente,
destacava-se Tancredo Neves.

66
Carta aos Brasileiros. Mensagem, com declaração de princípios, elaborada por juristas brasileiros, em
agosto de 1977, em evento de homenagem ao sesquicentenário dos cursos jurídicos no Brasil, na
Faculdade de Direito de São Paulo. Arquivo pessoal.

68
Além disso, dentro da oposição ao regime, havia ainda alguma resistência à ideia
de organização da luta pró-Constituinte. Se ao final da década de 1970 já não se via
mais o ímpeto, presente no período dos “anos de chumbo”, para a busca de saídas
revolucionárias de curto prazo, por outro lado, alguns consideravam não haver qualquer
possibilidade de sensibilizar o cidadão comum brasileiro – imerso em seu cotidiano –
para um movimento pró-Constituinte, pela complexidade dos assuntos constitucionais, o
que, por suposto, inviabilizaria a realização de uma ampla mobilização pela
Constituinte. Nessa perspectiva, sem dúvida, pode-se vislumbrar uma boa dose de
“realismo político”, pois questões constitucionais são realmente de difícil entendimento
para a maior parte da população de qualquer país. Mas nela pode-se sentir também o
forte eco de uma tradição do pensamento político brasileiro, que sempre afirmou que a
população do país seria “naturalmente” desinteressada da política e resistente a formas
organizadas de participação. Como se verá por este estudo, um ledo engano, mas um
engano persistente no imaginário político nacional.
De toda forma, a demanda por uma nova Constituinte foi incorporada,
progressivamente, às práticas dos novos partidos políticos criados. Entre os exemplos
pioneiros, anteriores às eleições de 1982, está o primeiro programa oficial do PDT,
partido formado em 17 de junho de 1979, na cidade de Lisboa, em Portugal, com a
presença de exilados políticos e sob a liderança de Leonel Brizola.67 Ele apontava, no
tópico “Plano Político”, a exigência de convocação de uma “Assembleia Nacional
Constituinte para instalar em toda a sua plenitude o Estado de direito, o regime
democrático representativo, os direitos fundamentais do povo e uma ordem econômica e
social que atenda aos seus legítimos interesses”. 68
Também o PT, criado formalmente em 1º de junho de 1980, data em que foram
aprovados os seus Estatutos e Programa, lançara, em 13 de outubro de 1979, a sua
Plataforma Política, como documento-base para o debate em torno da organização do
partido. Entre as propostas destacadas nesse documento, a convocação de uma

67
O PDT, quando criado, em 1979, recebeu o nome de Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). Porém, esta
sigla acabaria por se tornar objeto de disputa, no Brasil, e, em 12 de maio de 1980, a Justiça Eleitoral
brasileira determinou que o seu direito de uso caberia à sobrinha de Getúlio Vargas e ex-deputada
emedebista (cassada pelo AI-5), Ivete Vargas. Dias depois, em 18 de maio, o “PTB”, criado em Lisboa,
foi rebatizado como PDT.
68
Site oficial do PDT: http://www.pdt.org.br/index.php/pdt/programa/2-no-plano-politico (acesso em:
dezembro 2010).

69
Assembleia Nacional Constituinte livre e soberana aparece como bandeira de luta, no
item “Liberdades Democráticas”. 69
No âmbito das entidades civis, merece destaque a realização, em 1981, em Porto
Alegre, do Congresso Pontes de Miranda, 70 organizado pela OAB. Naquele encontro,
foi elaborado o documento “Proposta de Constituição Democrática para o Brasil”, que
teve a densidade de um anteprojeto constitucional, servindo “como colaboração e
estímulo à convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte, indispensável à
conquista da plenitude do Estado de Direito”.71
Porém, embora presente nos debates políticos e sociais, a questão de uma nova
Constituinte continuava a passar ao largo da política de abertura lenta, gradual e segura
encaminhada pelo presidente João Figueiredo. Sob pretexto de “garantir a segurança do
regime”, o governo insistia em submeter o projeto da abertura ao controle do Executivo,
o que, em diferentes momentos, justificou o enquadramento de manifestações da
oposição na Lei de Segurança Nacional. O governo também transigiu, a partir de 1980,
com uma onda de terrorismo de direita, ultimada com o propósito de radicalizar o
combate aos críticos do regime. Tornaram-se frequentes explosões de bombas em
bancas que vendiam jornais da chamada “imprensa alternativa” e o envio de cartas-

69
Ver PEDROSA, 1980, capítulo “Documentos e Resoluções políticas do Partido dos Trabalhadores”, p.
68-72. Vale pontuar, porém, que nem o Programa nem os Estatutos do PT explicitaram a demanda pela
convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte. Na redação final desses documentos está presente
o compromisso do partido de atuar em prol de uma nova legislação, mas, não é mencionada, diretamente,
a reivindicação pela instalação de uma Constituinte. No entanto, deve-se considerar que a ausência de
menção ao tema específico da Constituinte, no Programa e Estatutos do PT, pode estar relacionada com o
fato de tratar-se de um partido que nascia como uma agremiação “basista”, prometendo subordinar as
suas atividades parlamentares ao objetivo primeiro de apoiar as lutas das massas trabalhadoras
exploradas. Deve-se ainda considerar que a Plataforma Política do PT, que cita a proposta de convocação
da Constituinte, fez parte do conjunto de documentos preliminares de chamada pública de filiados para a
formação do partido.
70
O nome do Congresso Pontes de Miranda foi uma homenagem ao jurista Francisco Cavalcanti Pontes
de Miranda, que nasceu, em 23 de abril de 1892, em Maceió, Alagoas, e faleceu, em 22 de dezembro de
1979, no Rio de Janeiro. Pontes de Miranda bacharelou-se em Direito, pela Faculdade do Recife, em
1911, e fez longa carreira na área jurídica: como advogado, desempenhando vários cargos na
magistratura, em diferentes estados brasileiros, e como desembargador e chefe de missões diplomáticas.
Autor de obras referenciais da Ciência Jurídica, entre as quais o Tratado do Direito Privado, em 60
volumes, publicado entre 1955 e 1970. No site oficial do "Memorial Pontes de Miranda da Justiça do
Trabalho em Alagoas" (disponível em: http://www.cultura.al.gov.br/politicas-e-acoes/sistema-alagoano-
de-museus/cadastro-de-museus-de-alagoas/memorial-pontes-de-miranda-da-justica-do-trabalho-em-
alagoas-mpm-trt-al/; acesso em: 12/1/2011), que tem entre seus objetivos divulgar a vida e a obra de
Pontes de Miranda, vê-se o seguinte trecho de apresentação do jurista: “Era o sociólogo da liberdade, e
basta a sua luta pelo habeas corpus, travada desde 1916, para justificar tal assertiva. Tal luta está
corporificada em seu “História e Prática do Habeas-Corpus”. Foi a primeira obra no mundo a versar o
instituto sob o ângulo do direito comparado. Combateu o arbítrio e todo sistema político que restringe os
direitos do cidadão. Recusou o convite de Getúlio Vargas para ser embaixador do Brasil na Alemanha,
por não concordar com a Alemanha de Hitler.”
71
Proposta de Constituição democrática para o Brasil. OAB/IARGS: Rio Grande do Sul, 1981,
Apresentação. (Há um exemplar dessa proposta na Biblioteca Nacional).

70
bomba a representantes da oposição.72 O coroamento dessa prática se deu, em 1º de
maio de 1981, com o atentado ao Riocentro.73 O interesse do governo em minimizar o
ocorrido, mesmo diante de todas as evidências de que o atentado havia sido planejado
por militares da extrema-direita, que pretendiam levar a termo uma tragédia de grandes
proporções – lançando bombas em um evento musical organizado em homenagem ao
dia dos trabalhadores e que reunia milhares de pessoas –, acabou por resultar em uma
espécie de “negociação” entre o presidente Figueiredo e o Exército, garantindo a
impunidade dos oficiais envolvidos no caso e, em contrapartida, o fim dos atentados a
bomba no país.74
No âmbito econômico, com as fontes de financiamento fechadas pela recessão
mundial do início dos anos 1980, o período do governo Figueiredo foi marcado por um
quadro de crise crescente: a elevação da dívida externa brasileira; o aumento persistente
da inflação (desde os anos 1970 até 1994); e a diminuição da capacidade de geração de
empregos e de perspectivas para a juventude no país. Isso, ao lado do fim do longo
período de forte crescimento da economia nacional, que se desenvolvia desde os anos
1930.
Por outro lado, na direção da flexibilização política, o governo Figueiredo, em
novembro de 1980, apresentou, ao Congresso Nacional, o projeto que extinguiu a figura
do senador biônico e restaurou as eleições diretas para governadores de estado. Entre
avanços e recuos, no entanto, o governo também enviaria ao Congresso outra série de
medidas, visando alterar a legislação eleitoral. Tais medidas foram, em grande parte,
aprovadas por decurso de prazo, devido à obstrução do quorum regimental pela
oposição – que interpretou nas propostas uma estratégia do governo para fragmentar as
correntes oposicionistas e, assim, garantir a maioria pedessista no poder. As medidas
incluíram a proibição de coligações e a exigência de vinculação de votos a um único

72
O assunto é abordado em SILVA, 2007, com a descrição de vários episódios de cartas-bomba, que
tiveram finais trágicos e que mobilizaram a classe política e correntes de opinião, em manifestação de
repúdio ao terrorismo de direita.
73
Sobre o atentado à bomba no Riocentro, veja-se SILVA, 2007, p. 270-271.
74
Esse episódio criou grande instabilidade política no governo, resultando, inclusive, na auto-demissão
do chefe do gabinete Civil da Presidência, general Golberi do Couto e Silva, um dos expoentes do projeto
de abertura inaugurado por Geisel. De acordo com a entrevista já mencionada de Geisel (D’ARAÚJO;
CASTRO, 1997, p. 436-438), não teria havido real disposição de Figueiredo para apurar as
responsabilidades em relação ao caso das bombas do Riocentro. E o próprio Figueiredo, em 28 de abril de
1991, declarou, em entrevista ao jornal O Globo, que o veredicto de que os militares que ocupavam o
carro no qual uma bomba explodiu acidentalmente, no estacionamento do Riocentro, eram vitimas, não
havia “convencido ninguém”. Na entrevista, Figueiredo acrescentou que só não interferiu pessoalmente
na apuração das responsabilidades por respeitar a independência da Justiça Militar (citado em RAMOS,
COSTA, FIGUEIREDO, 2001, p. 2202).

71
partido – para governador, prefeito e vereador –, o que beneficiava o partido governista,
por este ser mais estruturado em nível municipal. Conhecido como “Emendão”, este
pacote de medidas eleitorais determinou, também, entre outros pontos, que o Colégio
Eleitoral que elegeria o próximo presidente da República, em 15 de janeiro de 1985,
seria formado por todos os parlamentares do Congresso Nacional e mais seis deputados
estaduais, de cada estado, indicados pelo partido majoritário.
O Emendão vigorou já nas eleições de 1982 para os governos estaduais e
municipais, eleições que praticamente monopolizaram a atenção dos partidos e da
sociedade em geral, arrefecendo o debate sobre a Constituinte. Nesse processo eleitoral,
o PP foi incorporado taticamente ao PMDB para enfrentar as dificuldades criadas com a
obrigatoriedade do voto vinculado. Os resultados finais do pleito acabariam por
contabilizar, para a oposição, um maior número de votos na Câmara dos Deputados.
Porém, o governo manteve a maioria no Senado e nos governos estaduais, garantindo,
assim, o controle para a formação do Colégio Eleitoral que elegeria o presidente da
República, em 1985.75
Em seguida às eleições de 1982, o debate sobre as Diretas Já!, percorrendo o
país de ponta a ponta, catalizou as atenções, secundarizando, mais uma vez, a demanda
pela Constituinte. Desde 1980, com o restabelecimento do voto direto para o governo
dos estados, a exigência de eleições diretas também para a Presidência da República
ganhava progressiva presença na sociedade e, em março de 1983, o deputado
pemedebista Dante de Oliveira apresentou, ao Congresso, a Emenda Constitucional que
ficou conhecida como Emenda das Diretas.
Campanhas e caravanas pelas Diretas Já! atravessaram o país, promovendo
verdadeiras festas cívicas e contando com a cobertura da imprensa e a mobilização da
sociedade. Reuniam centenas de pessoas em grandes manifestações, com a presença
assídua de representantes dos principais partidos da oposição (PMDB, PT, PDT e os
ilegais PCB e PC do B), de entidades da sociedade civil, como OAB, ABI, UNE,
CNBB, CUT, e também de artistas, escritores e intelectuais de grande popularidade. O
uso de símbolos cívicos foi uma marca nessas manifestações, com pessoas enroladas à
bandeira do Brasil, entoando coletivamente o Hino Nacional ou exibindo objetos os
mais variados, nas cores verde e amarelo. Mais do que expressar o apoio da população à
realização de eleições diretas para presidente da República, as manifestações

75
Os resultados eleitorais das eleições para a Câmara Federal, o Senado Federal e para governadores, em
1982, estão sistematizados em SANTOS, 1990.

72
constituíram-se em autênticos espetáculos de ocupação do espaço público pela
sociedade organizada, traduzindo a esperança e o propósito comum por liberdades civis
e democracia.
Em abril de 1984, contudo, sob decreto governamental de “estado de
emergência” no país e com todo o sistema repressivo acionado para dispersar as
passeatas civis, evitar o acesso de manifestantes à Capital Federal e isolar os
congressistas, a Câmara dos Deputados rejeitou a Emenda Dante de Oliveira por uma
diferença de 22 votos.76 Emissoras de TV e rádio foram proibidas pelo governo de
transmitir ao vivo o momento da votação, mas, sintomaticamente, milhares de pessoas
foram para as ruas acompanhar, juntas, o evento político, por meio de boletins avulsos
distribuídos pela imprensa.
Após o fracasso do movimento das Diretas Já!, o debate sobre a Constituinte
ocuparia a cena política. A derrota da Emenda das Diretas, por sua magnitude e
significados simbólicos, teve, de um lado, uma influência desmobilizadora sobre os
acontecimentos que a sucederam, expressa na decepção de ver um projeto encampado
por diferentes setores da sociedade perder para os interesses de cúpulas partidárias. Mas,
por outro lado, a solução paliativa de eleger indiretamente um presidente da República
civil, vinculado à legenda da oposição, que se comprometesse com a convocação
imediata de uma Assembleia Constituinte, reavivou as expectativas pela democratização
do país, mesmo que com base em um pacto entre setores da oposição e ex-aliados do
regime ditatorial. Assim, a derrota das Diretas Já! acabou por ser também, e
paradoxalmente, um exercício de aprendizagem e um evento decisivo para que se
deslanchasse o movimento pela Constituinte Já!. Pode-se, por isso, dizer que, naquele
momento, a ideia de uma Assembleia Nacional Constituinte tornou-se um ponto-chave
da repactuação social em torno da transição democrática, absorvendo aspirações por
mudanças a favor de ventos mais democráticos no país:

Para as oposições e, especialmente para o PMDB – maior partido da


oposição, o saldo positivo da campanha das Diretas Já abria também a
perspectiva de negociar com o Governo Federal a proposta de instalação de
uma Assembléia Nacional Constituinte, trazendo a possibilidade de se

76
Vários depoimentos sobre o "cerco" ao Congresso, no dia da votação da Emenda das Diretas, executado
com extrema dureza e inflexibilidade sob o comando do general Newton Cruz, podem ser vistos no filme
Memórias finais da República de Fardas, produzido em 2008 por Gabriel F. Marinho e Catta Preta, em
exibição na exposição de longa duração do Museu da República, no Rio de Janeiro, A Res Publica
Brasileira, de cuja organização participei como curadora.

73
conceber uma nova Constituição onde se apagassem os vestígios da ditadura
militar que dominara o país nos últimos 20 anos.77

Começaria, então, a ser delineada a ideia de uma composição entre oposição e


segmentos do partido oficial descontentes com os desdobramentos do governo
Figueiredo, visando encontrar um candidato de consenso às eleições indiretas para a
Presidência da República. Para os dissidentes governistas, este acordo representava a
possibilidade de estruturar uma nova ordem, assegurando a salvaguarda de
representantes da ordem anterior, que, em virtude de terem perdido espaço e força
dentro do partido governista e/ou dele terem se afastado por questões político-
ideológicas do momento, uniam-se à oposição para dar sustentação ao projeto de um
governo democrático.

Acervo privado Henfil/Ivan


Cosenza, s/d.

O lançamento da candidatura do deputado federal Paulo Maluf, pelo PDS,


aprofundaria a cisão interna no partido governista. Antes, quatro candidatos
apresentaram-se para a sucessão de Figueiredo, pela legenda pedessista: o próprio Paulo
Maluf, o vice-presidente Aureliano Chaves, o senador Marco Maciel e o ministro do
Interior, Mario Andreazza. O presidente do partido, José Sarney, propôs, na ocasião,
que fossem realizadas eleições prévias entre os filiados pedessistas, visando o
encaminhamento de um nome de consenso à convenção que definiria o candidato oficial
do partido. Mas Paulo Maluf refutou a proposta de Sarney, considerando-a uma
maquinação contra a sua candidatura, e Figueiredo endossou a contestação. Um dado a
observar é que o presidente não havia ainda manifestado qualquer apoio aos candidatos
pedessistas, ainda avaliando com bons olhos a ideia de extensão de seu próprio mandato

77
MOREIRA, 2001, p. 1882.

74
por mais dois anos e a realização de eleições diretas para a Presidência da República em
1987.78 A contenda em relação à realização ou não de prévias para definir o candidato
oficial chegaria ao apogeu com a renúncia de Sarney à Presidência do PDS, com as
correntes do partido fortemente divididas, rompendo-se qualquer possibilidade de
unidade partidária. Porém, mesmo existindo, dentro do partido governista, forte
resistência à candidatura de Paulo Maluf, ele seria escolhido o candidato do PDS à
Presidência da República, na convenção partidária de agosto de 1984.
Contrariados, dissidentes do PDS formariam a Frente Liberal e selariam, com o
PMDB e demais partidos da oposição, a chamada Aliança Democrática, em torno do
lançamento de uma chapa de oposição à Presidência e Vice-Presidência da República,
formada pelo então governador do estado de Minas Gerais, Tancredo Neves, do PMDB,
e pelo senador José Sarney, ex-PDS. Entre os partidos da oposição, apenas o PT se
posicionou contra a Aliança Democrática e contra a participação no Colégio Eleitoral,
em repúdio à realização de eleições indiretas. O pleito indireto era interpretado pelo PT
como uma conciliação articulada entre elites, num momento em que a população
demonstrava forte capacidade de mobilização. 79
O acordo em torno da Aliança Democrática foi registrado em um manifesto,
denominado Compromisso com a Nação brasileira, divulgado pela imprensa em agosto
de 1984. No documento, a convocação imediata de uma Assembleia Nacional
Constituinte aparece registrada como um compromisso categórico e impreterível dos
candidatos.80
O período de campanha que precedeu as eleições presidenciais transcorreu em
ambiente tenso e com apoio crescente da opinião pública aos candidatos da Aliança
Democrática. Alguns setores das Forças Armadas hesitavam em concordar com a
realização daquele pleito sucessório, que apontava para uma possível vitória dos
candidatos da Aliança. Alegavam que, para a garantia da ordem e segurança nacional,
era perigosa a eleição de um presidente civil, e julgavam as campanhas oposicionistas

78
A prorrogação do mandato de Figueiredo por dois anos foi ideia lançada por Leonel Brizola, em 1982,
quando tomou posse como governador do Estado do Rio de Janeiro. De acordo com a proposta, o
sucessor de Figueiredo deveria ser eleito pelo voto direto em 1987, ano em que terminariam os mandatos
dos governadores. A proposta suscitou acusações contra Brizola, de que ele estaria buscando legislar em
causa própria.
79
Três parlamentares foram punidos com a expulsão dos quadros do PT, por terem votado na chapa da
Aliança Democrática, contrariamente à orientação do partido de anulação dos votos: Airton Soares, Bete
Mendes e José Eudes.
80
O manifesto Compromisso com a Nação brasileira foi publicado, na íntegra, no jornal Folha de S.
Paulo, de 8 de agosto de 1984 e, também, transcrito em MENEGUELLO, 1998, Anexos.

75
ilegítimas, por contarem com a participação de organizações da esquerda radical, que
eram acusadas de fazer uso de meios difamatórios contra autoridades civis e militares.
Declaravam ainda que era uma responsabilidade das Forças Armadas garantir que o
processo sucessório ocorresse dentro dos princípios constitucionais.

Acervo Folha de S.Paulo, 1984.

Nesse contexto, surgiram rumores sobre a ameaça de intervenção das Forças


Armadas no processo eleitoral, rumores estimulados também pela ocorrência concreta
de atos de intimidação política, como a explosão de um comitê da Aliança Democrática,
em Porto Alegre, em 21 de outubro de 1984, e o incêndio, intencional, provocado no
escritório da Aliança Democrática, em Brasília, no dia 26 de novembro do mesmo ano.
Além disso, o próprio governo deixava margem para a população especular sobre
possíveis intervenções dos militares, por exemplo, quando deu ordens para que fosse
mantida em prontidão uma unidade de fuzileiros navais, em Brasília, a partir do início
de janeiro de 1985.81

81
Sobre os atos de intimidação e as medidas oficiais que foram tomadas, visando criar obstáculos à
vitória dos candidatos da Aliança Democrática, ver, por exemplo, FERREIRA; SARMENTO, 2002

76
Alguns militares e o próprio presidente Figueiredo afirmavam que as Forças
Armadas não interviriam no processo sucessório e que as notícias de golpe eram apenas
especulações que tinham por objetivo intranquilizar a sociedade brasileira. Tornava-se
evidente o quadro de crise, dentro do corpo das Forças Armadas e dentro do PDS.
Tancredo Neves traduzia os atos de intimidação como fatores acidentais, sem
importância política, e posicionava-se desencorajando represálias da oposição em nome
de um pacto nacional em torno da democracia e de um desfecho tranquilo do processo
eleitoral. Em 28 de novembro de 1984, notícia divulgada na revista Veja noticiaria um
encontro entre o general Walter Pires, ministro do Exército, e Tancredo Neves, em que
este teria dado ao general garantias de que, caso eleito, em seu governo não haveria
“lugar para revanchismos nem para atitudes vingativas e demagógicas contra as Forças
Armadas”.82
Para enfraquecer a candidatura de Tancredo Neves, o Diretório Nacional do PDS
tentaria, ainda, em novembro de 1984, junto ao Tribunal Superior Eleitoral, obrigar
todos os pedessistas à fidelidade partidária no Colégio Eleitoral, sob pena de perderem
seus mandatos parlamentares e serem expulsos do partido. O TSE, contudo, atendendo a
um pedido endossado pelo PMDB e pela Frente Liberal, rejeitou a solicitação do partido
governista.
Finalmente, em 15 de janeiro de 1985, em sessão solene, o Colégio Eleitoral
elegeu Tancredo Neves e José Sarney, com 480 votos, contra 180 votos dados a Paulo
Maluf. Foram também computadas 17 abstenções e nove ausências. 83 Tancredo, porém,
antes de tomar posse, foi acometido por uma crise de diverticulite, que evoluiu até o seu
falecimento em 21 de abril de 1985. O vice-presidente eleito, José Sarney, presidente
interino desde 15 de março, assumiria, então, a titularidade da pasta presidencial.
O avanço da doença de Tancredo Neves foi acompanhado, por toda a sociedade
brasileira, com grande comoção. Ao longo da campanha presidencial, construíra-se,
entorno de sua figura, todo um canteiro de expectativas que lhe creditava o papel de
baluarte maior da transição democrática. Certamente contribuía para esse simbolismo
político o fato de Tancredo ter sido, no pré-64, ministro da Justiça e Negócios Interiores
de Getúlio Vargas (1953-1954) e primeiro-ministro de João Goulart (1961-1962), sendo
identificado com o tempo democrático do pré-64. A sua morte imprevista causou não só

(particularmente o tópico “O regime militar do pós-64”), e RAMOS, CAMPOS, FIGUEIREDO, 2001


(particularmente o tópico “A campanha presidencial e a vitória no Colégio Eleitoral”).
82
A VOZ das estrelas. Veja, p. 21, 28/11/1984.
83
Os resultados eleitorais da disputa presidencial de 1985 estão sistematizados em SANTOS, 1990.

77
surpresa, mas também receios quanto à condução democrática do Brasil, ainda mais
pelo fato de o primeiro presidente civil a assumir o governo do país, após longo ciclo de
presidentes militares, ser José Sarney, ex-liderança da ARENA e ex-presidente do PDS.
Ou seja, a posse de Sarney fazia com que a transição se confundisse com a ideia de
conservação, sugerindo uma continuidade do regime que se desejava ultrapassar.
Contudo, embora a vitória da Aliança Democrática tenha sido alcançada pela via
indireta e a partir da adesão de segmentos do partido governista, ela foi e ainda é, por
muitos, reconhecida como um importante marco de superação do autoritarismo.
Resultado direto da crescente participação da sociedade na política e da organização dos
movimentos sociais de oposição, que culminou com a mobilização em torno da Anistia
Ampla, Geral e Irrestrita e das Diretas Já! e com a tecedura de uma ampla coligação
democrática de forças heterogêneas. O processo de abertura se expandiu para além dos
limites do controle governamental e o projeto de uma nova Constituinte emergiu como
medida política determinante para a afirmação de uma institucionalidade democrática
no país.

Acervo Folha de S.Paulo, 1985.

O governo de conciliação foi eleito, dentro do projeto de transição democrática,


não por algum tipo de acordo entre elites que se tenha feito com total independência em
relação aos interesses da sociedade. Pois que foi justamente a luta política exercida pela
sociedade, contra o arbítrio e em prol da ampliação de direitos, que sedimentou a

78
alternativa de eleger uma chapa de consenso sustentada por ampla aliança social e
comprometida com a reconstitucionalização democrática do país.

79
Capítulo 2

“Quero entender um pouco da Constituinte”: a


participação política do povo brasileiro

Pintura sobre papel de Aldemir


Martins alude à presença e força do
voto do povo na Constituinte, s/d.

Coleção Memória da Constituinte.


Acervo Museu da República.

Orlando José da Silva, da cidade de Jaicos, Piauí, escreveu: “Quero entender um


pouco da Constituinte, e participar fazendo um apelo pelos deficientes, que sou um
deles.”84 Orlando não deixa dúvidas de seu interesse de ser um ator político
participativo, naquele momento de reconstitucionalização. Como não deixa dúvidas de
que nutre expectativas de poder influenciar para que os direitos das pessoas portadoras
de deficiência entrem com prioridade na agenda política do país.
Neste capítulo, veremos que a vontade de participar dos debates e discussões da
Constituinte não era um sentimento isolado desse missivista. Observaremos como a
proposta de convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte no Brasil, que, nos
anos 1970 e 1980, se fez presente no país como estratégia democrática, evoluiu para a
defesa da participação popular na Constituinte. A partir da eleição indireta de Tancredo
Neves e de seu compromisso com a convocação de uma Assembleia Nacional

84
Trecho da carta de Orlando José da Silva. Sem destinatário e sem data. Jaicos/Piauí.
(MC024_CPMCSOC 59)

80
Constituinte, teve início, na sociedade brasileira, a criação de uma série de organizações
sociais com o propósito específico de estimular e reivindicar, por todo território
nacional, a participação popular nos trabalhos constituintes. Tal esforço traduzia não
somente o reconhecimento da importância de convocação de uma Constituinte, mas,
também, a ideia de ser fundamental que o povo brasileiro assumisse a soberania desse
processo, como condição para a construção de um país democrático. A nova
Constituição, para ser efetivamente democrática, deveria vocalizar os anseios e
interesses populares, o que somente a presença da população na elaboração do texto
constitucional poderia garantir. Ou seja, para ser verdadeiramente democrática, era
preciso que a nova Constituição legitimasse as aspirações, ideias e opiniões do povo
brasileiro em geral, e não apenas das elites políticas e dos setores tradicionalmente
organizados e com maior poder na política do país.
Em meados dos anos 1980, o entendimento de que a participação do cidadão é a
essência dos sistemas políticos democráticos foi uma determinante no debate político
brasileiro. Com base nesse pressuposto, foi explicitada, pela primeira vez, a proposta de
incorporar ao processo de elaboração da Constituição – e posteriormente, também, ao
texto constitucional – o instrumento jurídico da Iniciativa Popular, de modo que
qualquer cidadão brasileiro pudesse propor a criação de uma lei, pela via político-
institucional. O avanço das práticas políticas participativas tornava-se, assim, expressão
maior da construção de um Brasil democrático. Ganhava força uma cultura política de
ênfase participativa, centrada na democracia como valor.

2.1. A sociedade brasileira e a Constituinte

A instalação da Assembleia Nacional Constituinte de 1987/1988 certamente não


foi uma medida política “ofertada” à sociedade brasileira por alguns parlamentares
comprometidos com a redemocratização, como o discurso governamental do período
sustentava. Ela foi uma resposta a um amplo movimento social que congregou
experiências e iniciativas por todo o Brasil, mobilizando entidades civis, grupos sociais
e pessoas as mais diversas. Um movimento exemplar e raro do que, em História e
Ciência Política, entende-se por participação política ampliada, no caso, da própria
sociedade brasileira, em vários de seus segmentos, embora, como sempre acontece, com
formas e graus diferenciados.

81
Não é novo, nas Ciências Sociais e na História, o debate em torno da
importância de serem ampliados os espaços de participação política nas sociedades
democráticas, tendo em vista os limites dos sistemas representativos eleitorais como
alternativas suficientes para a consolidação de um governo democrático. 85 Entre as
linhas de pensamento, não faltam defensores da superioridade do sistema representativo
eleitoral em relação à democracia participativa direta, por, supostamente, ser impossível
promover a mobilização de um grande número de pessoas em torno de cada tomada de
decisão necessária ao processo de gestão das sociedades – não obstante os avanços
tecnológicos no campo da informática, que emergem e podem servir como alicerces
para uma nova reconfiguração da representação política, a partir da perspectiva analítica
da participação direta. Alguns analistas acreditam, inclusive, que a representação
eleitoral é um modelo político mais adequado que a participação direta, por permitir ao
governo realizar as suas funções sem o risco de se perder entre os vários e conflitantes
interesses dos cidadãos.86
Outra linha de pensamento, no entanto, sugere que a organização dos sistemas
representativos de governo, centralmente baseada na valorização dos processos
eleitorais, acaba por restringir a participação do povo ao ato de escolha dos seus
representantes, os quais, mesmo quando comprometidos com programas partidários e
promessas eleitorais, também assumem compromissos com os seus partidos, aliados
políticos e financiadores de campanhas, agindo muitas vezes a partir de suas próprias
conveniências – individuais, eleitorais e partidárias – que nada têm a ver com a
promoção dos interesses sociais. Posto assim, os representantes eleitos muitas vezes
acabariam por fazer uso de suas prerrogativas legislativas, não em benefício da
sociedade, mas para a consolidação de situações de privilégio social e de sua própria
perpetuação no poder.87
Dentro dessa perspectiva, uma questão fundamental é compreender que todo
sistema político, para ser democrático, não pode prescindir da participação efetiva da
sociedade nas decisões de governo, impondo limites ao poder estabelecido,
principalmente considerando-se que uma sociedade democrática entrelaça diferentes

85
Excelentes reflexões sobre a prática da representação política, em regimes democráticos, e de suas
limitações face à participação direta, podem ser encontradas em: PITKIN, 2006; URBINATI, 2006; e
LAVALLE; HOUTZAGER; CASTELLO, 2006.
86
Ver, por exemplo, MADISON; HAMILTON; JAY, 1993.
87
Um autor referencial nas primeiras formulações de mecanismos institucionais visando garantir o poder
dos cidadãos para além dos momentos eleitorais é CONDORCET, 2003 (disponível em:
http://ppkn.fkip.uns.ac.id/wp-content/uploads/2011/02/Robert-A.-Dahl.pdf ; acesso em: 19/9/2012).

82
interesses dos cidadãos, sempre sujeitos a mudanças. Assim, o exercício da autoridade
política deve poder ser contestado e recriado, a partir de tais interesses organizados e
vocalizados.
O entendimento, também, é que garantir um processo contínuo e dinâmico de
interação entre as instituições governamentais e a sociedade só é possível a partir da
construção de mecanismos de controle e de supervisão dos processos políticos pelos
cidadãos. A participação política da sociedade deveria, assim, ocorrer não apenas em
momentos eleitorais, evitando-se a mera delegação de poderes por meio da instituição
de leis específicas para este fim (referendo, plebiscito, ação popular etc.). É o que
sugere Nadia Urbinati (2006), ao observar que o sistema representativo eleitoral situa a
soberania popular restritamente nos processos eleitorais, entendidos como atos de
delegação da soberania a certos políticos, podendo-se, portanto, dizer que se trata de
uma “política do sim e não”, fundada em um dualismo “estático” entre Estado e
sociedade, em que a representação está dentro dos domínios do Estado e a participação
da sociedade restrita apenas aos procedimentos eleitorais. Assim, após cada eleição, a
“nação soberana” só se expressaria por intermédio dos seus representantes eleitos. Estes
se tornam senhores das decisões políticas, às quais resta aos seus eleitores se
“submeter”. O evento eleitoral, nessa perspectiva, serve para conferir a um grupo de
políticos o poder de assumir para si a responsabilidade da atuação política e, com
enorme liberdade, deliberar pelos cidadãos. Urbinati ressalta que, em representações
democráticas, as eleições deveriam ser apenas uma parte da relação política entre
Estado e sociedade, sendo permanente o processo de articulação entre a sociedade
participativa e os seus representantes políticos, de modo que as opiniões e decisões
pudessem ser debatidas em diversos outros momentos. Assim, o representante político
não substitui o “soberano político”, pois que os seus atos de decisão política podem
estar conectados com a sociedade, sendo por ela mais sistematicamente ratificados. A
noção de soberania popular é compreendida como um continuum orientador da ação
política e da democratização da representação.
Aos cidadãos, caberia não apenas eleger representantes, mas também criticar e
condicionar, de forma constante, a atuação desses representantes, pela ativação de um
processo comunicativo sistemático, que envolveria formas extra-eleitorais de ação
política. Ao cidadão soberano caberia reprovar ou aprovar os seus representantes, para
além dos momentos da renovação de mandatos parlamentares. Caberia aos cidadãos,
portanto, o direito de alterar o curso de determinadas decisões tomadas pelos

83
representantes eleitos, por intermédio de meios legais de atuação política que possam
ser acionados em momentos que se considere necessário. Nas palavras de Hannah Pitkin
(apud URBUNATI, 2006, p. 4): “A representação aqui significa agir no interesse dos
representados, de uma maneira responsiva a eles”. Se a interação e a harmonia entre os
representantes e os cidadãos são rompidas, o direito à cidadania autorizaria o cidadão a
acionar formas de autorrepresentação independentes do corpo representativo eleito, bem
como apontar qualquer ruptura que se tivesse instalado entre a sociedade e o governo.
Assim, alguns pensadores, como Hannah Arendt (1988), argumentam que o
tema da representação de um povo está diretamente relacionado com a garantia da
“dignidade” desse povo, ou seja, com as suas possibilidades de participação política. Já
Pitkin (2006, p. 8) alertará para o fato de a participação direta da sociedade no poder
público “ter um valor intrínseco e não apenas instrumental”, sugerindo que “apenas um
povo ativo e com envolvimento político é livre e que as instituições representativas,
inicialmente projetadas para abrir o domínio público para o povo comum anteriormente
excluído, têm, de fato, servido para desencorajar a cidadania ativa”.
Os debates que antecederam à promulgação da Carta de 1988, em torno da
formação de uma Assembleia Constituinte e da elaboração de um novo texto
constitucional, em grande parte expressaram essa questão de fundo. Eles igualmente
traduziram uma pluralidade de interesses e entendimentos sobre a importância da ampla
participação política da sociedade nesse processo, que ora se complementavam ora se
confrontavam. Como é de se supor, considerando-se o tamanho do país, suas
desigualdades sociais e as variações de acesso à instrução e informação, são muitas as
evidências de que ampla parcela dos brasileiros desconhecia que se vivenciava um
processo constituinte e mesmo não sabia o que era uma Constituição ou o que era uma
Assembleia Constituinte. Exemplos nesse sentido podem ser encontrados no material
audiovisual da Coleção Memória da Constituinte, que inclui, entre outros registros, uma
série de entrevistas da TV Viva 88 feita com transeuntes em localidades da Região

88
A TV Viva foi uma das primeiras televisões alternativas do Brasil. Criada em 1984, pela ONG Centro
de Cultura Luiz Freire (CCLF), de Olinda, em Recife, produzia e exibia programas relacionados com
ações educativas em bairros populares da Região Metropolitana de Recife. “Uma vez por mês, uma
kombi azul, com um grande telão, circulava por esses bairros, exibindo documentários, ficções, desenhos
animados, entre outros programas, que retratavam a realidade das comunidades visitadas” (BRITTO,
Ricardo Peixoto de. TV Roc: um estudo sobre televisão comunitária e seu papel na valorização das
Comunidades e Cultura. Trabalho elaborado para a disciplina Mídia, Tecnologia da Informação e Novas
Práticas Educacionais: Análise e Uso de Ferramentas Educativas, ministrada, na PUC/RJ, pelo Prof. Dr.
Ernani Ferraz. s/d). Sobre a TV Viva, ver também o site do CCLF
(http://www.concepto.com.br/cclf/tv.php).

84
Metropolitana de Recife. Nessas entrevistas, vários adultos, homens e mulheres, são
abordados, na rua, com a pergunta: “Você sabe o que é uma Constituição?” E as
respostas expressam tanto conhecimento quanto ignorância sobre a questão: “É a lei
básica de um povo” ou “É a Carta Magna que orienta, que ordena o povo”, ou, ainda,
“Eu não sei falar a respeito disso não, não sei nem por onde vai”, entre várias outras
assertivas. Em uma das entrevistas, perguntada se as pessoas percebiam que podiam
participar da Constituinte, uma cidadã afirmou, com pessimismo: “Acho que o povo não
tá comprometido com essa ideia de Constituinte, com esses representantes que vão ser
eleitos, porque sabem que muito pouca coisa das lutas populares vai ter expressão nessa
Constituinte”.89
Porém, mesmo reconhecendo-se o fato de não ter havido homogeneidade de
participação entre os brasileiros no processo constituinte, tal fato, aliás previsível e
compreensível, não elimina que ocorreu uma enorme e inédita mobilização política,
envolvendo diversas instituições e também grupos sociais organizados. Entre eles, por
exemplo, estiveram movimentos pelos direitos das mulheres, dos negros, das pessoas
portadoras de deficiência física, dos idosos, indígenas, crianças e adolescentes,
presidiários e vários outros, abarcando uma multiplicidade de reivindicações sociais, o
que bem demonstram os cartazes abaixo, produzidos por alguns desses movimentos e
que tiveram grande circulação à época.

Cartazes da Coleção Memória da Constituinte. Acervo Museu da República.

89
O material audiovisual da Colação Memória da Constituinte foi originalmente produzido em fitas de
vídeo e, além de gravações da TV Viva, inclui enquetes de rua e entrevistas com políticos, intelectuais e
artistas realizadas por profissionais do CPMC; vários programas de debate político transmitidos na TV à
época do processo constituinte; reportagens sobre as Constituições brasileiras; programas da Fundação
Pró-Memória sobre a história e cultura de diversas regiões do país; e também filmes de ficção sobre a
Constituinte. Esse acervo foi copiado em 99 DVDs e está disponível para consulta no Arquivo Histórico
do Museu da República.

85
Vimos que a ideia de convocar uma Constituinte não era algo novo nos anos
1980. Mas, após a derrota da Emenda das Diretas Já!, a demanda por uma Assembleia
Nacional Constituinte ganhou absoluta prioridade como estratégia democrática e
converteu-se em reivindicação comum a todos os movimentos sociais que haviam
participado das campanhas pelas Diretas Já! e apoiado a eleição de um governo
comprometido com a Constituinte Já!
Assim, a plataforma política da Aliança Democrática, priorizando a convocação
imediata de uma Assembleia Nacional Constituinte, foi um ponto-chave na articulação
da base de apoio que rendeu a eleição indireta de Tancredo Neves para a Presidência da
República. Não por acaso, inclusive, Tancredo, logo em seu primeiro discurso como
presidente eleito, reafirmou a necessidade de uma Assembleia Constituinte, livre e
soberana:
Convoco-vos ao grande debate constitucional. Deveis, nos próximos meses,
discutir, em todos os auditórios, na imprensa e nas ruas, nos partidos e nos
parlamentos, nas universidades e nos sindicatos, os grandes problemas
nacionais e os legítimos interesses de cada grupo social. É nessa discussão
ampla que ireis identificar os vossos delegados ao poder constituinte e lhes
atribuir o mandato de redigir a lei fundamental do País. A Constituição não é
assunto restrito aos juristas, aos sábios ou aos políticos. Não pode ser ato de
algumas elites. É responsabilidade de todo o povo.90

A partir do compromisso do presidente Tancredo Neves com a convocação de


uma Assembleia Nacional Constituinte e do tom que ele imprimiu em seu discurso de
posse a favor de uma ampla mobilização nacional, intensificaram-se, entre as entidades
e organizações sociais brasileiras, as iniciativas de elaboração de sugestões para a futura
Constituição. O Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (IBASE), uma
organização não governamental, por exemplo, em setembro de 1985, sistematizou uma
série de proposições, sob o título “As grandes questões políticas nacionais e a
Constituição”.91 A Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura
(CONTAG) divulgou, em outubro de 1985, o documento “Os trabalhadores rurais e a
Constituinte”. A 8ª Conferência Nacional de Saúde, em março de 1986, tornou público
o seu Relatório Consolidador dos Trabalhos de Grupo, com propostas para a
Constituição. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em abril de 1986,
investiu na elaboração de um anteprojeto, intitulado “Por uma nova Ordem

90
Site “Discursos” (disponível em: http://www.jlch2.com.br/discurso-ler.asp?id=13; acesso em: out.
2009).
91
Há uma cópia deste documento do IBASE e dos demais anteprojetos e propostas para a nova
Constituição que serão citados neste Capítulo, na Coleção Memória da Constituinte.

86
Constitucional”. Em agosto de 1986, a Federação de Moradores do Estado do Rio de
Janeiro, ao final do Congresso Constituinte de Bairros, realizado na Universidade do
Estado do Rio de Janeiro, lançou também o seu anteprojeto constitucional, apresentado
como uma “prova de capacidade política do nosso povo”:

Cidadãs e cidadãos comuns do Rio de Janeiro debateram idéias e conteúdos


para a nova Constituição brasileira. [...] Surgiram dezenas de formulações
importantíssimas, aqui relacionadas. São as nossas propostas para a lei maior
e/ou para as constituições estaduais.

Entre os partidos políticos, o Partido da Frente Liberal (PFL), de centro-direita


no espectro do sistema partidário, lançou, em abril de 1986, uma Carta Compromisso,
apresentando propostas a serem defendidas por sua bancada na Assembleia
Constituinte. O Partido dos Trabalhadores (PT), a novidade da esquerda brasileira,
publicou, em maio de 1986, no Jornal PT Constituinte, uma plataforma de propostas e
de métodos para discussão sobre os temas constitucionais, com o título “O PT e a
Constituinte”. Os exemplos multiplicam-se, valendo observar a amplitude de filiações
político-ideológicas que o tema estava reunindo.
A defesa de uma nova Carta apresentava-se, antes de tudo, como uma forma de
luta contra a ilegitimidade da Constituição de 1967. Era preciso reestruturar o país para
um novo tipo de democracia, construindo uma cidadania mais inclusiva, mais
participativa. Com um novo texto constitucional, pretendia-se a superação daquela
Constituição, que representava os ideais e valores do autoritarismo instituído em 1964.
Os dois exemplos abaixo ilustram bem o clima então vigente:

O país precisa de uma Constituição: se há um ponto pacífico de acordo, na


atual conjuntura brasileira, este é sem dúvida, um deles. [...] A eleição
presidencial indireta de 15 de janeiro de 1985, que pôs fim ao ciclo de
governos castrenses contra-revolucionários, constitui um ponto alto no
processo de redemocratização, iniciado com a revogação do AI-5; mas só
poderá conduzi-lo a seu termo na medida em que liquidar a anarquia imposta
pelas Forças Armadas no plano institucional, dotando o país de uma carta
constitucional legítima, por seus procedimentos de elaboração e de
aprovação. Até então, os governos militares terão terminado, mas o regime
ditatorial instaurado em 1964 continuará vivo. (MARINI, 1985, p. 17).

No Brasil de hoje, após anos de arbítrio imposto pelo regime militar que
tomou o poder em 64, a afirmação de uma nova realidade política, social e
econômica do país está-se concretizando, e é necessário que ela se
institucionalize em lei através de uma nova Constituição (FEDERAÇÃO
NACIONAL DOS ENGENHEIROS, 1985, p. 11).

87
Ao lado das sugestões de conteúdo para uma nova Constituição, irromperam
também iniciativas para a criação de associações com a função específica de incentivar
a participação popular no processo constituinte. Ou seja, importava não só a instalação
de uma Assembleia Constituinte no país, como, fundamentalmente, assegurar que o
povo exercesse, da forma mais abrangente possível, naquele novo contexto, seu poder
soberano. A participação da população brasileira, na organização da Constituinte e
durante o seu funcionamento, era então postulada como condição decisiva para a
construção de uma sociedade democrática. É isso que Fernando Gabeira (1985, p. 193),
um ex-militante da esquerda armada expressa bem:

De todas as mudanças anunciadas, a Constituição está mais precisada da


mudança que consiga fazê-la baixar à terra, ao domínio dos homens comuns,
preocupados com sua existência, com as suas condições de trabalho, com o
bem-estar e felicidade de seus filhos. Literatura? No momento sim, pois entre
os brasileiros, na hora em que um governo civil vai tomando conta do país,
substituindo uma ditadura militar de duas décadas, pouca gente está
discutindo Constituinte e, para dizer a verdade, pouca gente sabe do que se
trata.

Uma crescente mobilização social em prol da participação da população no


processo constituinte teve então lugar no país. No Rio de Janeiro, um ponto alto para os
preparativos dessa mobilização – sendo ele mesmo uma mobilização – foi o
lançamento, em 26 de janeiro de 1985, do Movimento Nacional pela Participação
Popular na Constituinte (MNPPC). Esse evento reuniu cerca de sete mil pessoas em
Duque de Caxias e contou com a presença de lideranças conhecidas e reconhecidas.
Entre elas estavam o bispo da diocese de Duque de Caxias, Dom Mauro Morelli, que já
à época tinha destacada e importantíssima atuação na luta pela dignidade humana e no
combate à miséria e à fome; o então presidente da Ordem dos Advogados do Brasil
(OAB), Hermann Assis Baeta, representando a instituição que, em 1980, fora alvo de
um atentado à bomba, organizado por grupos da extrema direita e que matou uma
funcionária: a secretária Lyda Monteiro; e Herbert de Souza, o Betinho, à época
secretário executivo do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (IBASE) e
verdadeiro símbolo da campanha pela anistia. O objetivo era fomentar a criação de
núcleos pró-participação na Constituinte em vários estados e municípios do país. Para
tanto, era preciso que as pessoas propusessem questões de seu interesse, fundadas em
seu cotidiano de vida. As formas de organização da sociedade e uma ampliada

88
participação do povo no processo constituinte seriam decisivas para a nova
Constituição, como capítulo de um processo de democratização.
Assim, os membros do MNPPC iniciaram viagens e contatos, visando
interiorizar a mobilização, estimulando iniciativas de criação de “movimentos
constituintes” pelo Brasil afora. Tais movimentos deveriam produzir “constituições”
localmente e, depois, encaminhá-las aos movimentos de âmbito estadual e, finalmente,
nacional, em fluxo inverso ao original. Contudo, o que era decisivo, todos os
movimentos independentes do futuro Congresso Constituinte, mas buscando influenciá-
lo.
No dia de seu lançamento, o MNPPC recebeu de Henfil – irmão de Betinho – o
que viria a se tornar uma imagem símbolo do movimento pela participação popular na
Constituinte, frequentemente vista nos grandes eventos da campanha que então se
iniciava: uma imensa bandeira, que é uma inspiração livre da bandeira do Brasil sendo
planejada e construída pela própria população brasileira. Em sua faixa, o lema e
objetivo da bem organizada ação política.

Desenho da bandeira do Henfil.


Acervo privado Henfil/Ivan Cosenza, s/d.

Além do Henfil, vários outros artistas brasileiros envolveram-se na campanha


pró-participação popular na Constituinte. Entre eles, merece menção o cartunista
Claudius, que elaborou diversos cartazes e também projetos gráficos para os materiais
de divulgação, que traduzem com humor e precisão o sentimento que movia aquele
movimento social.
Na cidade de São Paulo, foi criada, em 6 de fevereiro de 1985, uma outra
importante iniciativa pela participação da sociedade na Constituinte: o Plenário Pró-
Participação Popular. Quando idealizado, o seu propósito era consolidar a formulação
de instrumentos jurídicos de participação popular a serem introduzidos no novo texto

89
constitucional. Porém, o Plenário acabou se afirmando a partir da bandeira mais
abrangente da luta pela participação de amplos setores da sociedade no processo
constituinte.
Desde sua criação, o Plenário Pró-
Participação Popular produziu um boletim sobre
os debates relacionados com a Constituinte, que
era enviado a qualquer ponto do país a quem se
interessasse em recebê-lo. Estimulou também a
formação de “plenarinhos”, que funcionassem
como estruturas paralelas à Assembleia
Constituinte, vigilantes dos anseios
Desenho de Claudius, alusivo à participação da
populares no Congresso. Nessa fase, a ideia sociedade na Constituinte. Coleção Memória da
era, principalmente, organizar o que se Constituinte. Acervo Museu da República, s/d.

chamava uma “Constituição popular”, a partir das propostas dos grupos que integravam
os diversos “plenarinhos”. Desejava-se que essa “Constituição popular” fosse depois
cotejada com as propostas que viessem a ser elaboradas pelo Congresso Constituinte,
ampliando-se os debates sobre o novo texto constitucional, para muito além do círculo
das elites políticas. Como fica claro, quer no caso do Movimento Nacional quer no caso
do Plenário, a estratégia de mobilização e organização era a mesma: multiplicar e
interiorizar os grupos, ganhando capilaridade social. Em seguida, fazer o percurso de
volta e pressionar a Constituinte.
Simultaneamente à criação do Movimento Nacional pela Participação Popular na
Constituinte, foi ainda implantado o Projeto Educação Popular Constituinte, que
agregou uma rede de entidades civis, visando estruturar uma assessoria regular aos
diversos tipos de grupos que se mostrassem mobilizados com o propósito de fomentar a
participação da sociedade na Constituinte. Para dar início a tal projeto, reuniram-se o
Instituto de Estudos da Religião (ISER), o Instituto Brasileiro de Análises Sociais e
Econômicas (IBASE), o Centro de Ação Comunitária (CEDAC), o Serviço de Educação
Popular (SEP), o Centro Ecumênico de Documentação e Informação (CEDI), a
Comissão Pastoral Operária (CPO), a Comissão Pastoral da Terra (CPT) e a Federação
de Órgãos para a Assistência Social e Educacional (FASE). A assessoria materializou-
se, efetivamente, por meio de ações educativas desenvolvidas junto aos vários grupos
interessados, em diversas regiões do país, com foco na discussão dos direitos de

90
cidadania. 92 Ao interesse de auxiliar na viabilização de ações participativas, somava-se
o interesse de provocar reflexões sobre o significado da aprendizagem política na luta
pela construção da cidadania brasileira. Uma farta produção de cartilhas, artigos e
materiais audiovisuais, além da realização de seminários, palestras e debates, resultaram
desse Projeto.93
Na sequência dessas iniciativas, multiplicaram-se os comitês e plenários no país.
Ainda em 1985, foram criados o Movimento Gaúcho Pró-Constituinte; o Movimento
Paranaense Pró-Participação Popular na Constituinte; o Comitê Pró-Participação
Popular na Constituinte de Minas Gerais; a Assembleia Municipal Pró-Constituinte do
Espírito Santo. Em 1986, foram criados o Plenário Popular Pró-Constituinte de Macapá
e teve destaque, em Juiz de Fora, o Movimento Conversando sobre a Constituinte e, em
Pernambuco, o Movimento Povo na Constituinte. Todos esses exemplos de ações
levadas a termo em diferentes regiões do Brasil, algumas envolvendo mais de um
município, produziam resultados que funcionavam criando mais mobilização. É o que
se depreende do texto abaixo, escrito por Carlos Michiles et al. (1989, p. 42-43):

As articulações que se criaram a partir do Rio e São Paulo reforçaram outras


iniciativas existentes. Por toda a parte surgiam cartilhas, audiovisuais,
conferencistas se deslocavam de um Estado para outro, organizavam-se
debates, formavam-se monitores e animadores. E da sensibilização geral
começavam a nascer grupos mais voltados para a mobilização.

Algumas universidades brasileiras igualmente se fizeram presentes no esforço de


articular sociedade e Constituinte, promovendo debates e seminários. Entre outros
exemplos, a Universidade de Brasília (UNB) criou, ainda antes da instalação da ANC, o
Centro de Estudos e Acompanhamento da Constituinte (CEAC), pelo qual manteve
diálogos permanentes com outras universidades e entidades da sociedade civil. Produziu
vários textos com o objetivo de, fora do âmbito partidário, subsidiar o acompanhamento

92
De acordo com Emmanuel Gonçalves Vieira Filho (1989, p. 9), integrante do Projeto Educação Popular
Constituinte: “O objetivo desse projeto é desencadear uma campanha educativa da consciência da
cidadania com a utilização de materiais didáticos diversos e apropriados. Nesse sentido, o Projeto
Educação Popular Constituinte produziu, ou co-produziu, cartilhas, textos, vídeos e audiovisuais. O
projeto também apoia articulações de movimentos locais em torno da participação popular na
Constituinte. Com esse propósito, desenvolveu-se um trabalho educativo em torno do tema ‘Constituição’
com comunidades rurais e urbanas por todo o país.”
93
Vale destacar que, em 1987, o Projeto Educação Popular apoiou a iniciativa do Centro de Estudos e
Acompanhamento da Constituinte, da Universidade de Brasília (CEAC/UNB) e do Plenário Nacional
Pró-Participação Popular na Constituinte de produzir um livro que oferecesse um balanço dos
movimentos sociais, antes e durante os trabalhos constituintes, registrando o seu vigor, os sucessos e
também as contradições e desencantos ao longo do processo. O livro foi publicado em 1989, com o título
Cidadão Constituinte – a saga das emendas populares (MICHILES et al., 1989).

91
dos trabalhos constituintes por amplos setores sociais. A Universidade Federal de Santa
Catarina, desde 1985, coordenou várias entidades, reunidas em torno da Ação
Catarinense Pró-Constituinte. Como fruto desse trabalho, foram publicadas e divulgadas
várias cartilhas, recolhidas propostas e organizados eventos, como a realização do Dia
Estadual de Reflexão, em 25 de abril de 1986. As propostas recolhidas foram
transformadas em um único documento que, em outubro de 1986, foi enviado a todos os
candidatos ao Congresso Constituinte. A Faculdade de Direito da USP prestou, também,
decisivo apoio ao Plenário de São Paulo, que instalou a sua sede em uma sala cedida por
um Centro Acadêmico dessa Faculdade, batizada posteriormente de Sala da
Constituinte.
Não seria possível registrar aqui todas as experiências e iniciativas relacionadas
com o movimento pró-participação popular na Constituinte, que se espalharam pelo
território nacional. Mas é acertado supor, pelo exposto, que havia um discurso
partilhado sobre a necessidade de criar “estruturas constituintes” paralelas, para
mobilizar e vocalizar os anseios populares. Havia um forte desejo e a compreensão de
que a nova Constituição deveria refletir as necessidades e aspirações do povo, e que, só
com a sociedade mobilizada, a democracia participativa poderia se estabelecer. Caberia
aos cidadãos tomar parte, exigir, auxiliar e controlar o poder público.
As muitas instituições, entidades civis, organizações não governamentais e
universidades envolvidas nesse processo tinham trajetórias, motivações e pautas de
reivindicações diversas, mas, em comum, afirmavam a importância, possibilidades e
necessidade da participação popular como um elemento-chave do reconhecimento da
vontade política dos brasileiros. Sustentavam que uma nação democrática seria aquela
em que o “povo” fizesse sentir a sua vontade; em que fossem amplos e abertos os
diálogos entre a sociedade civil e os governantes. Esperava-se, portanto, uma presença
ativa e vigilante da sociedade na pretendida repactuação política.

2.2. Constituinte congressual ou exclusiva?

Em 13 de março de 1985, antes da posse de Tancredo Neves e José Sarney, o


Congresso Nacional instalou uma comissão pluripartidária para realizar reformulações
no sistema eleitoral e administrativo brasileiro. Pretendia-se empreender a “remoção do
entulho autoritário” ainda existente, visando a organização das eleições constituintes.

92
Nomeada como Comissão Interpartidária sobre Legislação Eleitoral e Partidária, o seu
trabalho resultou na aprovação, em 15 de maio de 1985, da Emenda nº 25 à
Constituição de 1967, que, entre outras determinações, estendeu o direito de voto aos
analfabetos, liberou os partidos que estavam na ilegalidade e determinou que os
prefeitos de capitais e dos “municípios áreas de segurança nacional”, que eram então
nomeados pelos governadores, passassem a ser eleitos em pleitos diretos.
Com o trágico acontecimento que foi a doença e lenta agonia, seguida de morte,
do presidente Tancredo Neves, o seu vice, José Sarney, tomou posse na Presidência da
República, em 15 de março de 1985, em circunstâncias delicadas do ponto de vista
político-jurídico. Contudo, dando seguimento ao compromisso de Tancredo e da
Aliança Democrática, em 28 de junho enviou ao Congresso uma proposta de emenda
constitucional para convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte no Brasil:

Da inelutável necessidade de manter e operar as instituições governamentais


vigentes, harmonizando-as à imperiosa aspiração de instaurar outras mais
livres e justas, resulta o texto que ora submeto à deliberação dos Senhores
Membros do Poder Legislativo da União. Por isso, nele se prevê a investidura
de poder constituinte pleno nos Deputados Federais e Senadores escolhidos
pelo sufrágio do povo brasileiro.
Evitando tutelar o órgão de tão alta atribuição, a Proposta de Emenda limita-
se a prover quanto à direção das sessões de instalação e eleição do Presidente
da Assembléia Nacional Constituinte e a indicar que ela funcione na sede do
Congresso Nacional, como corpo único, sem a divisão própria do sistema
bicameral. Este, contudo, subsistirá nos trabalhos da Legislatura, enquanto
Poder constituído e segundo as normas constitucionais em vigor [...].94

A proposta apresentada por Sarney visava a organização de uma Constituinte


congressual, formada pelos deputados federais e senadores a serem eleitos no pleito
direto previsto para 1986 e, também, pelos senadores que já haviam sido eleitos em
1982, para um mandato de oito anos – e que, portanto, ainda se encontrariam no curso
de seus mandatos no momento da instalação da Assembleia Nacional Constituinte, em
1987.
Esses parlamentares deveriam, assim, acumular as funções legislativa e
constituinte, o que contrariava a ideia defendida por vários segmentos políticos e da
sociedade de uma Assembleia Constituinte exclusiva, convocada para o fim próprio e
único de elaborar a Constituição e formada de acordo com critérios representativos
específicos. No caso da Constituinte exclusiva, os constituintes não teriam que estar

94
Trecho da Mensagem Presidencial nº 330, de 28/6/1985.

93
necessariamente vinculados a um partido político, nem seriam diferenciados como
deputados ou senadores, sendo todos “simplesmente” constituintes.
De acordo com Aspásia Camargo e Eli Diniz (CAMARGO; DINIZ, 1989, p.
12), a proposta de uma Constituinte congressual foi uma estratégia encetada por forças
conservadoras da coalizão de poder, construída em torno da ideia de uma “transição
democrática”, para garantir “não só fortes linhas de continuidade com o regime anterior
como o controle sobre a Constituinte.” Um documento referencial à época, de oposição
à proposta de uma Constituinte congressual, foi a Carta dos Brasileiros ao Presidente da
República e ao Congresso Nacional, redigida pelo jurista Goffredo Telles Júnior, em
julho de 1985. O Plenário Pró-Participação Popular na Constituinte coletou assinaturas
para essa carta em todo o país e a fez circular amplamente:

Partimos da afirmação de que o Poder Constituinte não é Poder Legislativo.


[...] Em outras palavras: não pode o Congresso Nacional ser convertido em
Assembléia Nacional Constituinte. O ato que o fizer é arbitrário e ilegítimo.
[...] Ninguém nega que o Congresso Nacional tem alguns poderes
constituintes. Mas os poderes constituintes do Congresso são somente
aqueles que a Assembléia Constituinte lhe delega por meio da Constituição
[...] Além do mais, devemos observar que, na Constituinte, a atuação dos
deputados da Câmara e dos senadores não se poderia livrar de poderosas
incitações para favorecer, com normas constitucionais adequadas, a situação
desses mesmos parlamentares, dentro da organização estatal. (Apud
MICHILES et al., 1989, p. 26).

Foram muitos os argumentos contra a Constituinte congressual e é importante


recuperar esse debate para que fique claro como ele trouxe polêmica para o clima
político em torno da Constituinte, antes mesmo de ela se instalar. Alguns argumentavam
que as atribuições-fins de uma Assembleia Constituinte e de um Congresso ordinário
não poderiam de modo algum se confundir. Ao Congresso competia a elaboração de
leis, mas em observância com a Constituição. Já à Assembleia Constituinte deveria ser
garantida total liberdade para deliberar sobre a multiplicidade de matérias atinentes à
organização da vida em sociedade, inclusive deliberar sobre questões relacionadas com
a existência ou a composição do Congresso Nacional. Portanto, o Congresso não teria a
isenção necessária para legislar sobre ele próprio, podendo inclinar-se a legislar em
causa própria. Dessa forma, era ilegítima uma Constituinte formada por deputados e
senadores, uma vez que a própria existência e composição da Câmara e do Senado
deveriam resultar de decisões da Assembleia, como traduz o jurista Dalmo de Abreu
Dallari (1985, p. 114):

94
Os futuros constituintes é que deverão decidir se haverá deputados e
senadores e, se existirem, que requisitos deverão ser exigidos para sua
eleição. Obrigar os constituintes a resguardar os mandatos já concedidos
implica uma limitação considerável ao poder constituinte, que só é autêntico
se for livre. Além disso, ao fazer a Constituição, os deputados e senadores
estarão fixando regras para o exercício do mandato já recebido, havendo sério
risco de que a proteção de seus interesses imediatos sacrifique o interesse
público.

Assim, a formação de uma Constituinte congressual – Constituinte “embutida”


no Congresso – acabaria por restringir as possibilidades de mudança política de uma
situação já constituída de poder. Seria, pois, um golpe na soberania popular, uma
usurpação de poder. Dalmo Dallari ainda alertaria para o fato de que a eleição de
constituintes que, ao mesmo tempo, fossem deputados ou senadores, tornaria inviável o
bom desempenho de ambas as funções: legislativa e constituinte. O acúmulo de
atribuições, tão complexas e diferenciadas, concorreria como elemento dispersivo e
desconcertador de seu bom desempenho. Outros argumentaram que existiam pessoas
sem qualquer vocação para o poder legislativo, mas que possuíam, por outro lado, as
aptidões específicas à incumbência de elaborar uma Constituição, conforme registrado
na Carta dos Brasileiros ao Presidente da República e ao Congresso Nacional:

Bons representantes do povo para a feitura das leis ordinárias podem não ser
os convenientes representantes do povo para elaborar a Carta Constitucional.
E sempre haverá bons representantes do povo na Constituinte que não
possam ou não queiram ser membros do Congresso Nacional. (Apud
MICHILES et al., 1989, p. 28).

Ora, nessa perspectiva, a eleição de um Congresso ordinário para elaborar a


Constituição restringiria o arco de representatividade do corpo de constituintes eleitos,
pois não admitiria a existência de candidatos avulsos, que, sendo bons especialistas em
temas da pauta de discussões constitucionais, concordassem em participar de uma
Assembleia Nacional Constituinte, sem que tivessem interesse em prosseguir, depois, na
trajetória parlamentar.
Argumentava-se, também, que uma campanha eleitoral constituinte deveria
acontecer estritamente em torno de propostas para a Constituição, sem a participação de
candidatos que não possuíssem projetos ou daqueles que disputam eleições
parlamentares em função das vantagens eleitorais que vislumbram nos mandatos.
Alguns analistas lembrariam, ainda, que as eleições parlamentares, não raro,
mobilizavam montantes financeiros elevados, pelas expectativas dos candidatos de obter
compensações futuras. Já um mandato curto e específico para constituinte não permitiria
95
a recuperação de gastos elevados de campanha, reduzindo a força do poder econômico
em sua eleição, o que era altamente positivo.95
Mas havia também quem insistisse que a legitimidade de um Congresso
Constituinte estaria garantida, porque seus integrantes seriam eleitos pelo voto direto,
em 1986, em pleito em que os eleitores estariam cientes de que votavam em candidatos
ao quadro de membros da Assembleia Nacional Constituinte.96 Contra esse
entendimento, porém, retrucava-se que, na verdade, uma Constituinte congressual seria
composta não só pelos eleitos em 1986, mas, também, por 1/3 dos senadores que
haviam sido eleitos em 1982 para um mandato de oito anos, sem que houvesse qualquer
perspectiva à época, por absoluta e óbvia impossibilidade política, dos eleitores saberem
que estavam elegendo parte de um Congresso Constituinte. A saída conciliatória, de
permitir que esses senadores integrassem a Assembleia Constituinte, contradizia,
portanto, a própria defesa da ideia de uma Constituinte congressual, formada por
membros especificamente eleitos para esse fim.
Em pleno curso desse debate, no dia 4 de agosto de 1985, foi designada uma
Comissão Mista no Congresso, formada por parlamentares do PMDB, PDS, PFL e
PDT,97 para apreciar a proposta do Governo de formação de uma Constituinte
congressual e definir o caráter da Constituinte, desde a forma de sua eleição até os
vários aspectos de seu funcionamento (Quadro 1).

95
Ver, por exemplo, DALLARI, 1985, p. 118-119.
96
Ver, por exemplo, GARCIA, 1985, p. 78-80.
97
“Os demais partidos (PTB e PT) não possuíam bancadas para, percentualmente, terem direito a
representante na Comissão” (MICHILES et al., 1989, p. 29).

96
Quadro 1

Composição da Comissão Mista instalada no Congresso Nacional em 4/ 8/1985


Partido Senadores Deputados
Hélio Gueiros João Agripino
João Gilberto
José Ignácio Ferreira
(substituído por Valmor Giavarina)
PMDB
Alfredo Campos Flávio Bierrenbach (Relator)
Alcides Saldanha Milton Reis
Luiz Henrique
Aloysio Chaves Siqueira Campos
Helvídio Nunes
Bonifácio de Andrada
PDS (presidente da Mesa)
Lenoir Vargas Gorgônia Neto
Octavio Cardoso
Carlos Chiarelli
Israel Pinheiro Filho
(substituído por Marcondes Gadelha)
PFL
Oscar Correa Júnior
Aderbal Jurema
(Vice-presidente da Mesa)
Nivaldo Machado
Nadyr Rossetti
PDT
(substituído por Nilton Alves)

Fonte: MICHILES et al., 1989, p. 29.

Desde logo, a Comissão, com clara dominância de representantes do PMDB e


do PDS, deliberou pelo acolhimento, ao longo dos trabalhos, de sugestões e opiniões
trazidas por representantes da sociedade – juristas, empresários, líderes sindicais,
membros da Igreja Católica, acadêmicos e jornalistas –, envolvidos no debate sobre a
Constituinte. Nesse sentido, foram ouvidos os juristas Afonso Arinos de Mello Franco,
Paulo Brossard de Souza Pinto, Dalmo de Abreu Dallari, Fábio Comparato, Nelson
Saldanha, Goffredo da Silva Telles, Geraldo Ataliba, Raymundo Faoro e Hermann de
Assis Baeta; Dom Luciano Mendes de Almeida (CNBB); os jornalistas Mino Carta e
Flávio Rangel; Carlos Eduardo Moreira Ferreira (FIESP); Jair Meneghelli (CUT); a
socióloga Maria Vitória Benevides e o empresário Henry Maksoud.
No dia de instalação da Comissão Mista, o Plenário Pró-Participação Popular
na Constituinte organizou uma caravana a Brasília para entregar a seus membros o
documento, redigido por Goffredo Telles, de repúdio à formação da Constituinte
congressual: a Carta dos Brasileiros ao Presidente da República e ao Congresso
Nacional, subscrita por milhares de brasileiros. A viagem pretendeu exercer pressão
direta sobre o Congresso, realizando um tipo de “lobby popular”. Naquele momento,
foram especialmente elaborados, pelo Clube de Criação de São Paulo, o slogan

97
“Constituinte sem povo não cria nada de novo” e um símbolo gráfico, representando
pessoas em fila, avançando juntas com um grande lápis nas mãos, como se estivessem
empunhando um aríete. O slogan e o símbolo seriam largamente difundidos no país,
inclusive em outdoors, evidenciando o cuidadoso investimento na elaboração de uma
linguagem acessível e mobilizadora, na qual a população se visse em ação.

Símbolo gráfico da participação na Constituinte. s/d.


Coleção Memória da Constituinte. Acervo Museu da República.

Essa foi a primeira caravana nacional a Brasília – entre outras tantas que
seriam posteriormente realizadas, cada vez com maior número de participantes – e
reuniu, no dia 20 de agosto de 1985, cerca de cinquenta pessoas, provenientes do
Distrito Federal e dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Espírito Santo,
Rio Grande do Sul e Goiás. Simultaneamente à viagem, atos públicos foram
organizados em outras cidades do país, ampliando o efeito da marcha à Capital
Federal.
Durante essa primeira caravana foi concebida a criação do Plenário Nacional
Pró-Participação Popular na Constituinte, visando uma melhor integração entre os
diversos plenários já existentes no país. Entre as ações programadas em escala
nacional, foi lançada uma ampla campanha pedindo aos cidadãos brasileiros que
enviassem aerogramas e cartas ao relator da Comissão Mista, o deputado federal
Flávio Bierrenbach (PMDB), com a reivindicação de que ele concedesse parecer
desfavorável à proposta de uma Constituinte congressual. Ou seja, vale notar que, já
nesse momento, a estratégia comunicativa para exercer pressão sobre os encarregados
de decidir a respeito da Constituinte/Constituição apelava para que os cidadãos
enviassem, diretamente, mensagens escritas aos responsáveis pelas decisões.
Em 15 de outubro de 1985, o relator, em parecer dirigido aos demais membros
da Comissão Mista, propôs a realização de um plebiscito para decidir se a Assembleia
Constituinte deveria ser congressual ou exclusiva. A leitura do parecer, realizada por
Bierrenbach, foi acompanhada da apresentação, aos integrantes da Comissão e aos
meios de comunicação que faziam a cobertura daquela sessão de trabalho, de uma

98
mala contendo em torno de setenta mil mensagens recebidas de várias regiões do país,
com manifestações a favor de uma Constituinte exclusiva. 98 Ou seja, pode-se dizer,
com alguma certeza, que a estratégia do Plenário Nacional Pró-Participação Popular
na Constituinte, solicitando que os brasileiros escrevessem suas demandas e as
enviassem à instância competente, foi muito bem-sucedida. Mesmo considerando que
parte das mensagens enviadas fosse resultado de atendimentos a pedidos de
participação, e não um movimento espontâneo que traduzisse interesses voluntários de
participar, é preciso reconhecer que setenta mil mensagens é um volume muito grande
e significativo. Por outro lado, e com certeza bem maior, também se pode afirmar que
essa forma de participação política estava sendo utilizada pelo relator para legitimar
sua proposta de realização de um plebiscito, caso contrário, ele não traria a “mala” que
representava – tornando presente o ausente – o povo brasileiro, que fazia suas
demandas por meio das mensagens a ele remetidas.
Em reação e com o propósito de anular a proposta do plebiscito, lideranças do
governo e também do PMDB prepararam um substitutivo, que foi assinado pelo
deputado do PMDB, Valmor Giavarina. No dia da votação dessa proposta, outra
caravana à Brasília seria organizada para entregar um novo documento à Comissão
Mista (apud MICHILES et al., 1989, p. 45):

Viemos pela segunda vez à Brasília, agora para conclamar o Congresso a não
votar às pressas e sob pressão do Executivo uma matéria que orientará toda a
vida política, econômica e social do país. Aprovar o substitutivo Giavarina
significa aprofundar o divórcio entre a Nação e o Congresso Nacional.

Após negociações e impasses, em 27 de novembro de 1985, foi aprovada na


Câmara e no Senado a Emenda Constitucional nº 26, ato convocatório de uma
Constituinte congressual. A proposta do plebiscito foi derrotada, ficando estabelecido
que os membros da Câmara Federal e do Senado Federal se reuniriam no Congresso
Nacional, unicameralmente, para formar uma Assembleia Nacional Constituinte, dita
livre e soberana, no dia 1º de fevereiro de 1987. Caberia ao presidente do Supremo
Tribunal Federal instalar a Assembleia e conduzir a eleição do seu presidente.
Determinava-se ainda, entre outros pontos, que a Constituição, após debate e votação
de seu texto em dois turnos, seria promulgada por maioria dos membros da
Assembleia.

98
O volume de setenta mil mensagens é informado em MICHILES et al., 1989, p. 31.

99
2.3. Por uma cultura política participativa

Dez dias após a derrota da proposta de Constituinte exclusiva, o Plenário


Nacional Pró-Participação Popular na Constituinte organizou um Encontro Nacional
de Plenários, no Rio de Janeiro, em 7 e 8 de dezembro de 1985. Seu objetivo era
redefinir o calendário de ações dos plenários populares, em nível nacional, estadual e
local, e repensar formas de dar encaminhamento às propostas que surgiam da
sociedade para a Constituinte. Mesmo frente ao fracasso da luta por uma Constituinte
exclusiva, o movimento persistia na determinação de fazer valer a participação popular
na definição dos rumos políticos do país.
Os plenários reconheciam-se como canais legítimos de participação. “Arenas”
nas quais os cidadãos brasileiros travavam discussões e reinventavam formas de
participação política. O sentido de fundo da proposta de organização dos plenários
populares era romper com a tradição autoritária brasileira e construir a democracia por
meio da universalização progressiva da participação política dos cidadãos. Os
plenários procuravam reunir um número expressivo de pessoas para que discutissem e
deliberassem sugestões sobre os temas da vida social e política brasileira. A própria
denominação “Plenário Pró-Participação Popular na Constituinte” engendrava
significados sugestivos, traduzindo a ideia da incorporação das forças populares no
debate político. Tratava-se de ampliar a presença da população nos processos de
organização da vida coletiva. Assim, os diversos plenários populares, articulados até o
nível nacional, eram como “assembleias populares” – plenários da democracia
participativa – em que se discutiam todos os assuntos relativos à ordenação da vida em
sociedade. O esforço de organização e articulação dos plenários populares traduzia o
reconhecimento da legitimidade dos interesses, ideias e opiniões de setores
tradicionalmente com menos força no jogo político brasileiro, apostando na
politização das ações cotidianas dos indivíduos. Os plenários traduziam um projeto
democrático, no qual o povo era reconhecido como “força dirigente”. Postulavam uma
nova relação entre Estado e sociedade civil e, nesse sentido, recriavam a própria forma
de pensar o povo brasileiro, deslocando-o de uma matriz em que era reconhecido
como apático, desinteressado e/ou ignorante, para outra em que se tornava desejoso de
informação, participação e representação.

100
Entre as redefinições de estratégias, deliberadas no encontro de Plenários, de 7
e 8 de dezembro, foi aprovada a criação de uma Secretaria Nacional de
Intercomunicação e Serviços, para apoio logístico aos esforços de articulação
interplenários. Poucos meses depois, em maio de 1986, seria também fundada a
Associação Brasileira de Apoio à Participação Popular na Constituinte, visando
oferecer suporte jurídico às atividades e campanhas pró-participação.
Nova caravana à Brasília, organizada pelo Plenário Nacional, em março de
1986, levaria aos congressistas um abaixo-assinado com 19.214 assinaturas, recolhidas
por todo Brasil, para um conjunto de reivindicações, que incluía: o impedimento da
incorporação dos senadores eleitos em 1982 ao quadro de membros da Assembleia
Nacional Constituinte e a previsão de um referendo popular para homologar o texto
constitucional que viesse a ser promulgado. Porém, nenhuma das reivindicações seria
atendida pelo governo.
A coleta de assinaturas para esse abaixo-assinado – que se insere no conjunto
variado de eventos mobilizadores – foi realizada concomitantemente a uma ampla
distribuição de folhetos, preparados pelo Plenário de São Paulo, com sugestões e
explicações para a criação de “plenarinhos”:

Os membros da caravana levaram para todo Brasil cópias dos três folhetos
preparados pelo Plenário de São Paulo, intitulados “Como participar”,
“Como organizar a participação” e “Roteiro de discussão”. Esses folhetos
continham sugestões concretas para iniciar uma discussão popular sobre o
conteúdo da nova Constituição, com a formação de “plenarinhos”.
(MICHILES et al., 1989, p. 47).99

Dois meses após a organização da caravana à Brasília, em maio de 1986, o


Plenário Nacional, em reunião realizada no Rio de Janeiro, deliberou pela
comemoração, no dia 7 de setembro de 1986, do 1º Dia Nacional Constituinte, como
parte de um projeto batizado, muito significativamente, de “O povo discute o Brasil”.
O evento foi descrito em MICHILES et al. (1989, p. 48-49) nos seguintes termos:

A celebração do 1º Dia Nacional Constituinte pôde ser concretizada em


várias cidades brasileiras. Em comício reunindo em torno de três mil pessoas,
na Praça da Sé, em São Paulo, inverteram-se os papéis: os representantes de
grupos e movimentos populares que haviam trazido suas propostas subiram
no palanque, para apresentá-las, e os políticos e candidatos se mantiveram na
rua, para ouvi-los.

99
Procuramos, sem sucesso, localizar alguns desses folhetos. Nossa intenção era inclusive verificar e
informar nesta tese o seu formato, número de páginas e outras características físicas ou textuais que
pudessem ser relevantes.

101
A imagem não poderia ser mais emblemática: na política, assim como no
Carnaval, invertiam-se as posições e eram os representantes que, na “rua”, ouviam
(finalmente!) os representados. O projeto “O povo discute o Brasil” tinha como
objetivo central sistematizar um documento para ser entregue aos candidatos ao
Congresso Constituinte, contendo uma síntese das discussões realizadas nos diversos
plenários constituintes. Denominado “Propostas do povo para o Brasil”, o documento
tinha o objetivo de identificar o posicionamento e obter o comprometimento dos
candidatos em relação a uma plataforma composta por 53 propostas para a nova
Constituição.100 Uma lista, explicitamente suprapartidária, dos candidatos de todo país
que se comprometeram a apoiar essa Plataforma Mínima, foi largamente divulgada,
com o intuito de orientar os eleitores. 101
A título de exemplo bem sucedido e com abrangência de temáticas, entre
outras iniciativas similares, vale também citar, a experiência do Comitê Pró-
Participação Popular na Constituinte de Minas Gerais. O Comitê contou com a adesão
de uma série de entidades vinculadas aos movimentos populares 102 e, em agosto de
1986, durante um encontro dos movimentos pró-Constituinte de Minas Gerais,
aprovou uma Plataforma Mínima que sintetizava as propostas de cada uma das
entidades envolvidas. Em setembro de 1986, o Comitê enviou uma carta a todos os
candidatos mineiros ao Congresso Constituinte, anexada à Plataforma Mínima e a um
Termo de Compromisso e Adesão (apud MICHILES et al., 1989, p. 53):

100
Em 20 de setembro, realizou-se em São Paulo um Ato Solene de adesão dos candidatos à “plataforma
popular”. Contudo, além dos candidatos paulistas, só dois candidatos de outros estados deslocaram-se
para o evento: Oswaldo Lima Filho (PMDB/PE) e Fernando Santana (PCB/BA).
101
A matéria “Plenário vai divulgar lista de candidatos”, publicada no jornal Folha de S. Paulo, de
19/10/1986, detalha a iniciativa. Vale lembrar que esta prática eleitoral não era inédita no Brasil. Já em
1932, por exemplo, fora criada, por Dom Sebastião Leme e Alceu Amoroso Lima, a Liga Eleitoral
Católica (LEC), associação civil, de âmbito nacional, que nasceu com o objetivo de, nas eleições de 1933
para a Assembleia Nacional Constituinte, apoiar candidatos comprometidos com a doutrina social da
Igreja. A LEC, na ocasião, apresentou aos vários partidos políticos um programa católico mínimo, com o
qual, para beneficiar-se do apoio da LEC nas eleições, cada candidato deveria comprometer-se por
escrito. A LEC atuou, do mesmo modo, em processos eleitorais brasileiros posteriores, durante as décadas
de 1930, 1940 e 1950. Em 1962, passou a denominar-se Aliança Eleitoral pela Família (ALEF). Sobre a
LEC, ver KORNIS, 2001.
102
Entre as entidades que se juntaram ao Comitê Pró-Participação Popular na Constituinte, de Minas
Gerais, estavam: “CGT; CUT; Comissão Arquidiocesana dos Direitos Humanos de Belo Horizonte;
Federação de Trabalhadores na Agricultura de Minas Gerais; Conselho Indigenista Missionário;
Comissão Pastoral da Terra; Pastoral da Juventude; União dos Trabalhadores no Ensino; Ação Católica
Operária; Comitê Evangélico Pró-Constituinte; Movimento de Mulheres Pró-Constituinte; SENALBA;
AS-SIMPAS; Pastoral Operária” (MICHILES et al., 1989, p. 53).

102
Caro Companheiro e candidato,

O Comitê Pró-Participação Popular na Constituinte de Minas Gerais, em


encontro realizado no dia 30 de agosto de 1986, com a presença de 302
participantes e 38 cidades mineiras representadas pelas suas associações,
sindicatos, igrejas, grupos e movimentos interessados na participação do
povo na Constituinte que se aproxima, comunica ao caro companheiro que
seu nome foi incluído na lista prévia suprapartidária de candidatos à
Constituinte. A inclusão definitiva de seu nome nessa lista está condicionada
à sua aceitação e ao compromisso de lutar e votar a favor das leis
constitucionais que expressam os interesses populares contidos em nosso
Programa Mínimo – que segue em anexo para sua análise e resposta no prazo
de 10 dias contados a partir de 17 de setembro de 1986.

A lista de candidatos definitiva – ao Senado e à Câmara – será amplamente


divulgada, juntamente com o Programa Mínimo, em todos os cantos de
Minas, pelos movimentos populares, comitês, sindicatos, grupos, igrejas,
associações e meios de comunicação disponíveis ao Comitê.

Dessa forma, ao apresentar o nome de candidatos de vários partidos, entre os


quais o seu, proporcionaremos ao eleitor uma escolha mais pessoal e
vinculada a um compromisso com esse programa.

Agradeceríamos também o cronograma de suas atividades nos próximos


meses para poder levar-lhe nosso eventual apoio.

Atenciosamente,
Comissão Executiva

Concomitantemente à sistematização das propostas de todos os plenários


regionais, o Plenário Nacional buscou divulgar a trajetória política de cada candidato
ao Congresso Constituinte e o desempenho parlamentar anterior daqueles que se
recandidatavam. Uma publicação referencial a esse respeito é o boletim “Quem é
quem”, produzido pelo Movimento Popular Pró-Constituinte de Curitiba, a partir de
informações colhidas junto ao Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar
(DIAP) e da imprensa.
Também em maio de 1986, o Plenário Nacional deliberou criar um grupo de
trabalho com o propósito específico de formular estratégias e mecanismos de
participação direta da sociedade nos debates e decisões do Congresso Constituinte, de
modo que qualquer cidadão pudesse ter acesso a instrumentos formais para
apresentação e defesa de propostas. Ou seja, o propósito era ampliar os mecanismos
participativos visando também incluir, embora não da mesma forma e com a mesma
intensidade, o chamado cidadão comum.
No texto da Plataforma Mínima, organizado pelo Plenário Nacional, seria
explicitada, pela primeira vez, a proposta de incorporar, formalmente, o mecanismo da
Iniciativa Popular ao processo de elaboração da Constituição. Tratava-se de permitir a

103
qualquer cidadão brasileiro propor a criação de uma lei para o país, contanto que sua
proposta tivesse o apoio de um número mínimo, a ser definido, de eleitores.103
A ideia de adoção do instrumento jurídico da Iniciativa Popular já vinha sendo
discutida anteriormente e, inclusive, já constava em propostas para a nova Constituição
formuladas por juristas como Goffredo Telles Júnior, Fábio Comparato, Pinto Ferreira e
José Afonso da Silva. 104 O ineditismo, no caso da Plataforma Mínima do Plenário
Nacional, estava no fato de estar sendo proposta a adoção da Iniciativa Popular já para o
processo de elaboração da Carta Magna, e não apenas para após a promulgação do novo
texto constitucional.
A proposta do Plenário Nacional de regulamentar a Iniciativa Popular, já no
período de instalação e funcionamento da Assembleia Nacional Constituinte, seria
largamente divulgada na imprensa e por meio de cartas dirigidas aos parlamentares.
Sobre a questão, o deputado federal do PT, Plínio Arruda Sampaio (apud BACKES,
AZEVEDO, ARAÚJO, 2009, p. 30), faria o seguinte comentário na Folha de S. Paulo,
em 31 de dezembro de1986:

Tenho defendido muito isso. Acho que inclusive deveríamos montar


mecanismos para que o povo possa saber o que está acontecendo. Estamos
advogando, por exemplo, que haja um noticiário diário na televisão sobre o
que estará acontecendo na Constituinte, para que o povo possa se somar.
Estamos advogando também formas de participação das organizações
populares no debate. As Comissões que se formarem para examinar pontos
específicos convidariam as organizações populares. As que trabalham com o
menor abandonado seriam ouvidas oficialmente. Estamos examinando uma
fórmula, que surgiu no Plenário Pró-Participação Popular na Constituinte,
segundo a qual grupos que apresentarem abaixo-assinados com um mínimo
de cinquenta mil assinaturas teriam direito a falar em plenário. Achamos
tudo isso vital para que a Constituição responda aos anseios do país.

Vários artistas, intelectuais e profissionais brasileiros de grande popularidade


engajaram-se, também, na formulação de propostas para a Constituinte. Reuniões
regulares, por exemplo, no Teatro Casa Grande, no Rio de Janeiro, ocorriam com esse
objetivo. Entre os resultados concretos, elaborou-se um documento propositivo

103
Hoje, com base na Constituição Federal de 1988, o instrumento jurídico da Iniciativa Popular permite
a qualquer indivíduo apresentar uma proposta de lei à Câmara dos Deputados, contanto que a proposta
esteja subscrita pelo menos por 1% de todos os eleitores do país, abrangendo, no mínimo, cinco estados
brasileiros.
104
José Afonso da Silva chegou a propor, sem sucesso, a adoção do instrumento da iniciativa popular
quando da elaboração do projeto de Constituição da Comissão Provisória de Estudos Constitucionais, da
qual foi membro.

104
“suprapartidário a ser apresentado aos candidatos”, bem como foi deliberado o “bloco
parlamentar” que deveria receber manifestações de apoio do grupo.105
Contudo, já em meados de 1986, todos os movimentos pró-participação
popular na Constituinte ressentiam-se da intensificação das campanhas eleitorais para
o governo dos estados, que absorviam, cada vez mais, a atenção de candidatos,
militantes e eleitores, em prejuízo das discussões sobre os temas constitucionais. Nas
campanhas de rua, nos horários de propaganda eleitoral gratuita e também nos
noticiários da grande imprensa, a disputa para o governo dos estados acabou por
“roubar a cena política”, pouco se conseguindo destacar do debate sobre a
Constituinte, que caiu para o segundo plano. A poucos meses de formação de uma
Assembleia Nacional Constituinte, paradoxalmente, considerando-se a mobilização
alcançada anteriormente, as discussões sobre a nova Carta Magna se esvaziavam.
Pesquisa de opinião, publicada no jornal Folha de S. Paulo, de 7 de outubro de 1986,
apontaria que, mesmo com o pleito marcado para novembro, cerca de metade dos
eleitores dos estados de São Paulo e do Rio de Janeiro desconheciam o que fosse um
“Congresso Constituinte”.106 Uma percentagem – meio a meio – que, na verdade, pode
impressionar em duas direções. Certamente na que o jornal quer apontar: a de que
muitos brasileiros ignoravam o que ia acontecer no país. Mas, por outro lado,
considerando-se a força da tradição que afirma o desinteresse e má informação da
população, que 50% dela sabiam que o Brasil iria fazer uma nova Constituição.
As eleições de 1986 ocorreram em clima de certa euforia, em função do
primeiro plano de estabilização econômica lançado pelo presidente José Sarney, em 28
de fevereiro de 1986, o Plano Cruzado. Tratou-se de uma tentativa de controle da
inflação por meio do congelamento de preços, que logrou sucesso aparente e recebeu,
de início, grande apoio da população, sobretudo de donas de casa, que passaram a
atuar como “fiscais do Sarney”.
O entusiasmo em relação ao Plano Cruzado repercutiria, nas eleições, a favor
de uma grande vitória do principal partido de base do Governo, o PMDB. 107 O Plano,
porém, logo malogrou. Quando os preços foram liberados, a inflação retornou mais
forte, dando início a um novo período de incerteza econômica.

105
Veja-se CONSTITUINTE é tema de artistas no Rio. Folha de S. Paulo, 17/9/1986.
106
Ver METADE dos eleitores desconhece a Constituinte. Folha de S. Paulo, 7/10/1986. Ver, também,
REITORES denunciam esvaziamento: Constituinte. Correio do Brasil, 29/10/1986.
107
Sobre a eleição dos membros da Constituinte ter ocorrido “no embalo” do sucesso, passageiro, do
Plano Cruzado, ver BARROSO, 2008.

105
Não obstante, antes que ficasse evidente o fracasso do Plano, o PMDB
alcançaria o maior número de cadeiras constituintes, nas eleições de 1986 (Quadro 2).

Quadro 2
Nº de eleitos, por partido e por região, para a Assembleia Nacional
Constituinte de 1987
Centro-
Partido Norte Nordeste Sudeste Sul Total
Oeste
PMDB 35 84 91 55 33 298
PFL 16 69 26 12 10 133
PDS 5 14 8 9 2 38
PDT 2 1 16 6 1 26
PTB 2 2 14 - 1 19
PT - - 14 2 - 16
PL - - 7 - - 7
PDC - - 2 - 4 6
PSB 1 - 1 - - 2
PCB - 4 - 2 1 7
PCdoB - 4 2 - 1 7
Fonte: FLEISCHER, 1988, p. 30.

Críticas foram feitas à cédula eleitoral usada nas eleições de 1986, porque o
modelo adotado pelo TSE demandava que o eleitor escrevesse de próprio punho os
nomes ou números dos seus candidatos, o que dificultava a participação, no pleito, dos
analfabetos, que pela primeira vez votavam, e semianalfabetos, que eram muitos.
Críticas também ocorreram em relação ao tempo estipulado de propaganda eleitoral
gratuita no rádio e TV, por favorecer os partidos maiores. 108
Às vésperas das eleições, Dom Helder Câmara aconselharia os candidatos:
“Escutem o povo, sejam fiéis ao compromisso que assumiram, porque o povo vai
acompanhar. O povo não vai ficar só botando o votinho não. O povo está se preparando
para acompanhar antes, durante e depois da Constituinte.”109 No entanto, contra as
expectativas de Helder Câmara, alguns autores analisam que o resultado eleitoral de
1986 acabou por eleger um Congresso de perfil majoritariamente desfavorável às
reivindicações constantes na Plataforma Mínima organizada pelo Plenário Nacional

108
“A distribuição de tempo foi a seguinte: 50 minutos em proporção às bancadas federais de cada
partido; 40 minutos em igualdade entre os partidos com representantes no Congresso Nacional e sendo o
máximo de cinco minutos para cada um; e 30 minutos atribuídos conforme as bancadas na respectiva
Assembléia Legislativa” (MICHILES et al., 1989, p. 36).
109
DOM HELDER continua a luta por uma boa Constituinte. Correio do Brasil, 8/11/1986.

106
Pró-Participação Popular, representando uma derrota das forças progressistas e de
esquerda.110
Sem pretender, nesta tese, propor uma demarcação estrita dos campos dos
“progressistas” e dos “regressistas” eleitos para a Assembleia Nacional Constituinte,
vale, contudo, mencionar algumas pesquisas que foram elaboradas com o propósito de
traçar o perfil da bancada parlamentar eleita em 1986,111 que trazem dados que, em
alguma medida, relativizam a ideia de uma patente derrota das forças progressistas e de
esquerda.
O cientista político David Fleischer (1988), por exemplo, realizou uma análise
socioeconômica e política das bancadas partidárias eleitas para a Constituinte e, entre
outros achados, surpreendeu-se com o fato de 217 dos 559 constituintes terem
apresentado passagem pela antiga ARENA, partido que apoiou o governo autoritário
pós-64. Observou, também, que a maior bancada partidária eleita para a ANC – a do
PMDB, com 298 parlamentares – contava com 40 ex-integrantes do PDS, partido que
sucedeu a ARENA e de extração marcadamente conservadora. Tais verificações foram
apresentadas por Fleischer como evidências de ter sido grande o peso das forças
conservadoras na ANC. No entanto, é plausível realizar outra leitura dos dados de
filiação partidária por ele sistematizados. Por exemplo, com base nesses mesmos dados,
temos que, excluindo-se o PMDB, as legendas de tendência mais conservadora teriam
elegido, em 1986, um total de 203 constituintes,112 enquanto legendas reconhecidas
como “de oposição” teriam elegido 58 constituintes. 113 Com base nesse quadro, se
somarmos aos 203 constituintes eleitos por legendas mais conservadoras, aqueles 40 do
PMDB que anteriormente tinham vínculo com o PDS, encontramos um total de 243
parlamentares eleitos para a ANC que, do ponto de vista de suas vinculações partidárias,
apresentariam tendência e/ou trajetória mais conservadora. Por outro lado, se
deduzirmos da bancada do PMDB àqueles 40 componentes com passagem pelo PDS,
ainda restariam 258 pemedebistas a representar um contingente parlamentar superior ao

110
Ver DINIZ, 1989, e MICHILES et al., 1989.
111
Ver, por exemplo, pesquisas do sociólogo Leôncio Martins Rodrigues (1987); do cientista político
David Fleischer (1988), que foi membro do Conselho Diretor do Centro de Estudos e Acompanhamento
da Constituinte/UNB; e do jornalista Said Farhat (1987), que em 1985 fundou a SEMPREL S.A. –
Empresa de Assessoria Política e Relações Governamentais; além de perfis de constituintes publicados
em jornais, como o Correio Braziliense (Perfil da Constituinte, 18 a 21/1/1987); Folha de S. Paulo (Os
eleitos: quem é quem na Constituinte, 19/1/1987); e Jornal do Brasil (Perfil do Congresso Constituinte,
18/11/1986).
112
Foram eleitos 133 constituintes pelo PFL; 38 pelo PDS; 19 pelo PTB, 7 pelo PL e 6 pelo PDC.
113
Foram eleitos 26 constituintes pelo PDT; 16 pelo PT; 7 pelo PCB; 7 pelo PC do B; 2 pelo PSB.

107
de 243 constituintes eleitos ou com passagem por legendas mais conservadoras. Assim,
poder-se-ia afirmar que, se o peso das forças conservadoras foi significativo na ANC,
também o foi o peso das forças não conservadoras. Além disso, se somarmos aos 258
pemedebistas acima referidos aqueles 58 constituintes dispersos em outras legendas da
esquerda política, teremos 316 constituintes da oposição contra 243 com uma trajetória
de maior identificação com o conservadorismo político.
Em outra pesquisa, o sociólogo Leôncio Martins Rodrigues (1987) analisou o
posicionamento da bancada de deputados federais eleita em 1986, tendo em vista três
questões específicas: 1) o papel do Estado na economia; 2) o capital estrangeiro na
economia; e 3) a reforma agrária. De acordo com Rodrigues, os posicionamentos dos
deputados face tais questões poderiam ser classificados da seguinte forma:

Posicionamento dos deputados constituintes com relação ao papel do Estado na Economia:

1. Direita (liberalismo econômico): 40%

2. Centro (economia mista): 39%

3. Esquerda (controle do Estado sobre a Economia): 21%

Posicionamento dos deputados constituintes com relação ao capital estrangeiro:

1. Direita (aceitação do capital estrangeiro): 15%

2. Centro (aceitação com limitações): 62%

3. Esquerda (rejeição do capital estrangeiro): 23%

Posicionamento dos deputados constituintes com relação à reforma agrária:

1. Direita (oposição à reforma agrária): 4%

2. Centro (somente distribuição de terras improdutivas): 66%

3. Esquerda (mudança radical da estrutura fundiária): 30%

Ou seja, a tendência de centro aparece com destaque entre os deputados federais,


embora sendo suplantada, em pequeníssima medida, pela direita, no quesito “o papel do
Estado na Economia”. Parece-nos, contudo, igualmente importante ressaltar que os
resultados dessa pesquisa indicam também que a tendência de centro-esquerda supera a
de centro-direita. Ou seja, não se poderia traduzir o êxito eleitoral da tendência de
centro como uma vitória da direita sobre a esquerda ou como um fracasso da esquerda

108
política. Se houve fracasso eleitoral, para as forças de esquerda, tratou-se de um
fracasso relativo, que pode ser também entendido como um sucesso relativo.
Porém, mesmo considerando-se que as eleições de 1986 significaram mais uma
derrota, um novo baque, para o movimento social, sem dúvida tratou-se também de
outra “volta por cima”, posto que imediatamente após as eleições foi levado a termo um
reajustamento das estratégias dos movimentos pró-participação popular às novas
circunstâncias, sem que qualquer querela política chegasse a representar maior
enfraquecimento dos esforços por essa luta. Ao contrário, os movimentos sociais pela
participação popular demonstravam ter adquirido resistência, consciência da
dificuldade, enfim, maturidade, traduzida em persistência, com suas demandas por uma
democracia mais participativa.
A partir dos resultados eleitorais de 1986, os movimentos sociais pró-
participação da sociedade na Constituinte passaram a ter um foco mais direcionado para
o trabalho de estruturação da Assembleia Nacional e definição de seu regimento interno,
conforme enunciado em documento produzido pelo Plenário Pró-Participação de São
Paulo: “Num esforço consistente para conjugar o risco que o Congresso tem corrido,
desde os tempos do arbítrio, de se isolar e deixar de exprimir os anseios nacionais”. 114

Intensificar-se-iam, então, as campanhas a favor da aprovação do instrumento


jurídico da Iniciativa Popular no Regimento Interno da Constituinte, tendo em vista
permitir a qualquer cidadão o direito de formular e propor, diretamente, emendas
constitucionais. Tratava-se de tentar introduzir um mecanismo de democracia direta no
processo de elaboração da Carta Magna. Tratava-se, portanto, de redefinir as condições
de poder do Estado, promovendo uma nova relação entre representados e seus
representantes no governo, introduzindo regras que permitissem ao povo participar da
feitura da nova Constituição.
Com tal propósito, foi então organizada uma delegação, composta por
representantes de vários plenários pró-participação popular na Constituinte, para ida a
Brasília no dia da instalação da ANC e entrega, a cada um dos congressistas, de uma
compilação de propostas populares recolhidas pelos diversos plenários. As propostas
incluíam tanto sugestões gerais para o texto constitucional, e entre elas a de inclusão do
instrumento da Iniciativa Popular na nova Constituição, como, também, a proposta de
que fosse também aprovada a Iniciativa Popular já no Regimento Interno da ANC. Em
114
Trecho de carta enviada aos constituintes pelo Plenário de São Paulo, no momento de instalação do
Congresso Constituinte (apud MICHILES et al., 1989, p. 54).

109
relação a esta última proposta, vimos que ela já vinha sendo divulgada em debates na
TV e na imprensa. Além disso, foram enviadas cartas a todos os constituintes eleitos,
informando-os previamente sobre a ida de uma delegação de plenários à Brasília para
propor diretamente que o instrumento da Iniciativa Popular fosse incorporado ao
Regimento Interno da ANC.115 Em Brasília, foram obtidas assinaturas de apoio entre os
constituintes e autoridades políticas presentes no evento de instalação da Assembleia e,
no dia 3 de fevereiro de 1987, a proposta, com as assinaturas de apoio, foi apresentada
ao presidente da ANC, Ulysses Guimarães, em audiência que contou com a presença
das lideranças de todas as bancadas partidárias com assento na Constituinte. Os
deputados Plínio de Arruda Sampaio e Brandão Monteiro, representando,
respectivamente, as bancadas do PT e do PDT, e também Mario Covas, este a título
pessoal, subscreveriam a proposta para seu encaminhamento e análise pelos
constituintes.116 Após fortes e prolongados embates em torno da elaboração do
Regimento Interno – e muita pressão dos movimentos pró-participação, que
organizaram uma campanha nacional que resultou no envio de “mais de mil
telegramas”117 ao relator do Regimento Interno, o senador Fernando Henrique Cardoso,
em defesa da emenda –, finalmente foi aprovada a inclusão da Iniciativa Popular no
Regimento, em seu artigo 24, assegurando a apresentação pela população de proposta de
emenda ao Projeto de Constituição, “desde que subscrita por 30.000 (trinta mil) ou mais
eleitores brasileiros, em lista organizada por, no mínimo, 3 (três) entidades associativas,
legalmente constituídas, que se responsabilizarão pela idoneidade das assinaturas”.
Desse desfecho, pode-se dizer, conforme expresso por Dalmo de Abreu Dallari
(1989, p. 387), que “a participação popular conquistou a participação popular”. Na
sequência, os plenários pró-participação elaboraram e divulgaram pelo país diversos
informativos com orientações sobre como fazer uso, dentro das exigências regimentais,
do instrumento da Iniciativa Popular, que passou a ser generalizadamente chamado de
emendas populares. Ao mesmo tempo, várias entidades sociais deram início à
elaboração efetiva das emendas populares e à coleta de assinaturas.
A campanha de assinaturas para as emendas, a partir de 1987, mobilizaria
iniciativas tanto dos movimentos pró-participação popular na Constituinte como,

115
Sobre o assunto, ver MICHILES et al., 1989, p. 54-59 (tópico “A batalha regimental”).
116
“Na revisão da proposta e redação de uma emenda ao projeto de regimento interno foi fundamental a
colaboração do ex-deputado do PMDB do Rio Grande do Sul João Gilberto Lucas Coelho, diretor do
Centro de Estudos e Acompanhamento da Constituinte (CEAC), Universidade de Brasília” (MICHILES
et al., 1989, p. 58).
117
Sobre o assunto, ver MICHILES et al., 1989, p. 58.

110
também, de muitas outras instituições. A tomada de posição oficial da CNBB a favor da
participação popular na elaboração constitucional certamente influenciou o engajamento
das bases da Igreja na coleta de assinaturas. E vários sindicatos, associações,
movimentos sociais, entre outros grupos organizados, articularam-se nacionalmente,
somando forças para a obtenção das 30 mil assinaturas necessárias por emenda popular
e promovendo atos públicos, debates, shows e noites de autógrafos, em diversos estados
e municípios, com farta produção de materiais de divulgação, como bottons, cartazes e
cartilhas, em que se ressaltava a importância da mobilização de todos em torno dos
interesses populares, por meio da subscrição de emendas. Eram publicados também
anúncios em jornais de grande circulação e realizadas entrevistas e matérias relativas
aos objetivos e razões das emendas populares. Vários espaços serviram de base para a
distribuição de folhas de coleta de assinaturas, entre locais de trabalho, sedes de
sindicatos, associações e instituições diversas, igrejas e mesmo residências particulares,
não faltando relatos de dificuldades e distâncias enfrentadas pelos que assumiam a
tarefa de colher assinaturas.

Nem falemos nas dificuldades financeiras de correio, de impressão de


formulários e textos explicativos, das distâncias e dificuldades de acesso.
Vêm-nos à lembrança os relatos que mostram a vitalidade desse processo:
freiras caminharam dias a cavalo levando os abaixo-assinados a comunidades
mais isoladas; no Amapá, agentes pastorais da CPT atravessaram igarapés;
sem falar nas populações ribeirinhas que, no meio da mata, sem carimbo,
lançaram mão do açaí para tingir os polegares na impressão digital.
(MICHILES et al., 1989, p. 105).

Entre as emendas populares, três delas abordaram a questão da inclusão da


Iniciativa Popular no texto constitucional para aperfeiçoamento do sistema democrático.
Uma foi formulada pelo Movimento Gaúcho da Constituinte, cuja primeira versão
serviu inclusive de modelo para as demais; outra, pelo Plenário de São Paulo, e a
terceira pelo Comitê Mineiro Pró-Participação Popular.118 Essas três emendas, que não
expressavam interesses de setores sociais específicos, voltando-se para a questão dos
princípios de funcionamento dos sistemas democráticos e dos mecanismos de

118
São pontuais as diferenças entre as três emendas populares que versaram sobre a inclusão de
instrumentos de participação popular no texto constitucional. O grupo gaúcho optou por ressaltar, no
texto da emenda, os direitos à participação popular dos movimentos organizados, divergindo dos
enunciados da redação feita pelo grupo de trabalho de São Paulo em que constava que “todo cidadão tem
o direito...”, assumindo o enunciado: “todo cidadão ou entidade da sociedade civil...”. Já o grupo mineiro
optou por tornar o texto mais palatável e de fácil compreensão para as camadas populares, além de
enfatizar a importância dos mecanismos de participação direta em âmbito municipal (MICHILES et al.,
1989, p. 95).

111
participação popular, obtiveram um total de 769.492 assinaturas, representando 6,3%
das subscrições obtidas em todas as emendas populares (12.265.854 subscrições
computadas oficialmente).119 Porém, se considerarmos que cada assinante de emendas
populares tenha subscrito três emendas, conforme permitido regimentalmente, as
assinaturas destinadas às emendas da iniciativa popular representariam 18,8% do total
das subscrições. Seja qual for o percentual estabelecido, entre esses dois extremos
possíveis, a base de sustentação dessas emendas não é nada desprezível, sobretudo
tendo em vista a existência de tantas questões prementes, de ordem profissional, prática
e material, específicas às experiências de vida dos brasileiros, que também constituíram
matéria de emendas populares.
No dia 12 de agosto de 1987, realizou-se um ato público para entrega unificada
de todas as emendas populares no Congresso Nacional, que somaram 122 propostas. 120
Para o ato, muitas pessoas, integrando caravanas de diferentes estados brasileiros,
dirigiram-se a Brasília. Tais caravanas, que, como vimos, já constituíam uma prática de
mobilização realizada com alguma regularidade desde 1985, ocorreriam, como atos de
pressão, em diferentes momentos de votação e para acompanhar de perto os trabalhos
constituintes das galerias do Congresso Nacional. Atos que buscavam lembrar aos
parlamentares quem era o legítimo titular do poder constituinte. Em diferentes ocasiões,
a circulação de populares em caravanas no Congresso, com faixas, bandeiras e
cantorias, atraiu a atenção de jornalistas e ganhou ampla divulgação na mídia impressa e
televisiva.
O Regimento Interno da Constituinte, em seu artigo 13, também facultou às
entidades sociais apresentar sugestões à Constituinte, que deveriam ser discutidas e
incorporadas aos trabalhos finais das subcomissões temáticas da Assembleia. 121 Ou seja,

119
Indicadores apresentados em publicação da Comissão de Sistematização da Assembleia Nacional
Constituinte (1987).
120
COMISSÃO DE SISTEMATIZAÇÃO DA ASSEMBLEIA NACIONAL CONSTITUINTE, 1987.
Das 122 emendas populares, 83 foram avaliadas como tendo atendido às exigências regimentais
prescritas, sendo encaminhadas para discussão e aprovação do Congresso.
121
A ANC foi organizada a partir de oito Comissões temáticas, cada uma delas, por sua vez, dividida
internamente em três Subcomissões temáticas, conforme a seguinte disposição: I - Comissão da Soberania
e dos direitos e garantias do homem e da mulher: a) Subcomissão da nacionalidade, da soberania e das
relações internacionais; b) Subcomissão dos direitos políticos, dos direitos coletivos e garantias; c)
Subcomissão dos direitos e garantias individuais; II - Comissão da organização do Estado: a)
Subcomissão da União, Distrito Federal e territórios; b) Subcomissão dos Estados; c) Subcomissão dos
municípios e regiões; III - Comissão da organização dos poderes e sistema de governo: a) Subcomissão
do Poder Legislativo; b) Subcomissão do Poder Executivo; c) Subcomissão do Poder Judiciário e
Ministério Público; IV - Comissão da organização eleitoral, partidária e garantia das instituições: a)
Subcomissão do sistema eleitoral e partidos políticos; b) Subcomissão de defesa do Estado, da sociedade
e de sua segurança; c) Subcomissão de garantia da Constituição, reformas e emendas; V - Comissão do

112
para concluir o seu trabalho, o relator de cada subcomissão temática deveria consultar
tanto as propostas das entidades sociais quanto as propostas dos constituintes membros
da Subcomissão. Além disso, de acordo com o artigo 14 do Regimento da ANC, as
subcomissões temáticas deveriam destinar de cinco a oito reuniões para audiências
públicas com representantes de entidades sociais, discutindo com a sociedade
organizada as suas sugestões e problemas. Nesse momento, a sociedade encontrava
lugar nos trabalhos da ANC para discutir propostas setoriais. Nas palavras de Florestan
Fernandes (1989, p. 87):

Nesta fase, na qual se realiza uma espécie de auditoria do Brasil real, a


pressão política desenrola-se no nível das Subcomissões, com lances por
vezes emocionantes, pungentes e memoráveis. Por várias vias, gente de
diversas categorias sociais, profissionais, étnicas e raciais surge no centro do
palco e assume o papel de agente, de senhor da fala. Um indígena, um negro,
um portador de defeito físico, um professor modesto, saem da obscuridade e
se ombreiam com os notáveis, que são convidados por seu saber ou lá
comparecem para advogar as causas de entidades mais ou menos empenhadas
na autêntica revolução democrática.

Simultaneamente, os diversos plenários constituintes davam continuidade aos


esforços para firmar acordos com os parlamentares, antes candidatos e agora eleitos,
independentemente de quaisquer articulações partidárias, perseverando em buscar
assegurar um engajamento suprapartidário na defesa das propostas encaminhadas pelo
Plenário. Nesse esforço, buscou-se pressionar os constituintes dando publicidade aos
seus atos e desempenho parlamentar, por meio da divulgação de listas que destacavam
aqueles posicionamentos ditos contrários aos interesses populares. Tais listas foram
objeto de polêmica e críticas, por conterem episodicamente informações incorretas, mas
encontraram também defensores de peso, que entendiam que a divulgação do
comportamento parlamentar dos constituintes era um importante instrumento de pressão
popular.122

sistema tributário, orçamento e finanças: a) Subcomissão de tributos, participação e distribuição das


receitas; b) Subcomissão de orçamento e fiscalização financeira; c) Subcomissão do sistema financeiro;
VI - Comissão da ordem econômica: a) Subcomissão de princípios gerais, intervenção do Estado, regime
de propriedade do subsolo e da atividade econômica; b) Subcomissão da questão urbana e transportes; c)
Subcomissão da política agrícola e fundiária e da reforma agrária; VII - Comissão da ordem social: a)
Subcomissão dos direitos dos trabalhadores e servidores públicos; b) Subcomissão da saúde, seguridade e
do meio ambiente; c) Subcomissão dos negros, populações indígenas, pessoas deficientes e minorias; VIII
- Comissão da família, da educação, cultura e esportes, da ciência e tecnologia e da comunicação: a)
Subcomissão da educação, cultura e esportes; b) Subcomissão da ciência e tecnologia e da comunicação;
c) Subcomissão da família, do menor e do idoso.
122
Ver, por exemplo, FERNANDES, Florestan. A PERCEPÇÃO popular da Assembleia Nacional
Constituinte. Folha de S. Paulo, 11/4/1988.

113
Ao lado das três formas de participação da sociedade nos trabalhos constituintes
admitidas regimentalmente – envio de sugestões por representantes da sociedade
organizada, audiências públicas e emendas populares –, também ocorreria uma série de
iniciativas individualizadas de participação na Constituinte, levada a efeito por pessoas
aparentemente sem qualquer vínculo institucional ou ligação com grupos sociais
organizados. Tais pessoas, por diferentes meios, enviavam mensagens pessoais às
autoridades políticas, com sugestões para a Constituinte, críticas e/ou pedidos. Entre
outros exemplos, antes da instalação da Assembleia Nacional Constituinte, entre março
de 1986 e julho de 1987, a Comissão de Constituição e Justiça do Senado Federal, por
meio de um projeto denominado “Diga Gente – Projeto Constituição”, lançaria uma
campanha para os cidadãos expressarem suas sugestões para a nova Constituição,
disponibilizando para a população o formulário, abaixo reproduzido, intitulado “Você
também é Constituinte, participe!”.

114
115
116
117
Coleção Memória da Constituinte.
Acervo Museu da República.

118
Elaborado em papel de carta aérea, franqueado no Correio e também em
algumas Prefeituras e Câmaras Municipais, 123 com dobraduras que lhe conferiam a
forma final de um envelope, o formulário continha dizeres de incentivo ao envio de
sugestões à Constituição, além de espaço para a mensagem e a identificação do
destinatário e do remetente. Havia ainda campos específicos de preenchimento não
obrigatório, em formato de múltipla escolha, relativos a dados pessoais do remetente,
como: sexo, faixa etária, faixa de renda, grau de instrução, atividade profissional e
estado civil. Os formulários preenchidos eram recolhidos e suas informações
processadas por meio de um programa do PRODASEN, órgão de processamento de
dados do Senado Federal.
De acordo com informações obtidas junto à bibliotecária do Senado Federal,
Walderez Maria Duarte Dias: 124

Cinco milhões de formulários foram distribuídos e disponibilizados nas


agências dos Correios do Brasil. Para deixar a sugestão, o cidadão deveria se
deslocar para a agência mais próxima e preencher o formulário e encaminhar,
sem custos, a carta resposta para o Senado Federal.
Foram coletadas 72.719 sugestões em todo o país e o resultado da
compilação das sugestões foi a criação da base de dados SAIC - Sistema de
Apoio Informático à Constituinte. A SAIC reúne a íntegra das sugestões
enviadas pelos cidadãos, além da identificação dos proponentes, tornando-se
uma fonte importante para entender a realidade brasileira à época da
Constituinte de 1987.125

Em 4 de outubro de 1986, o jornal Correio do Brasil126 noticiaria que mais de


setenta mil sugestões haviam sido encaminhadas por brasileiros de todo o país para a
futura Assembleia Nacional Constituinte, por intermédio do PRODASEN, sendo mais
de 50% vindas de pessoas de condições sociais desfavoráveis:

As sugestões vêm em maior número dos pobres, porque a eles não são dadas
outras formas de participação como às classes média e alta, que falam com

123
“De toda parte do Brasil, os formulários, distribuídos através das agências dos correios, das prefeituras
e das câmaras municipais, chegam diariamente e as correspondências são armazenadas nos computadores
do serviço de processamento do Senado – Prodasen”. In: 40 MIL pedem pela constituinte. Correio do
Brasil, 2/10/1986.
124
Informações obtidas por e-mail, em 1º de março de 2012. Cabe registrar a presteza da bibliotecária do
Senado Federal, Walderez Maria Duarte Dias, quem não conheço pessoalmente, mas que foi
extremamente atenciosa em esclarecer algumas dúvidas sobre a distribuição de formulários à população,
pelo Senado Federal, incentivando sua participação na Constituinte.
125
A base de dados da SAIC está disponível à livre consulta no portal do Senado Federal e contém o texto
integral das sugestões apresentadas pela população. No livro A Constituição desejada (MONCLAIRE,
1991) é feita uma análise dessa base, em que são apontados os seus limites para o processamento e
composição de um perfil sociológico da população que enviou sugestões ao Senado Federal.
126
SENADO recebeu mais de 70 mil sugestões para a Constituinte. Correio do Brasil, 4/10/1986.

119
mais facilidade com os seus representantes legislativos e as entidades de
classe que os representam.

Outro exemplo do ânimo participativo que atingia a população ocorreu durante a


3ª Feira da Informática Nacional (FINAC) e a 3ª Jornada da Informática Nacional (JIN),
realizadas, conjuntamente, no Centro de Convenções da Bahia, em Salvador, no dia 23
de novembro de 1986. Ali foi instalado, pela Embratel, um microcomputador,
programado para permitir aos seus usuários a transmissão de sugestões para a nova
Constituição. Essas sugestões seriam enviadas para um banco de dados da Fundação
Pró-Memória, para lá ficar à disposição do futuro Congresso Constituinte. Sobre a
iniciativa, o jornal O Globo, de 24 de novembro de 1986, publicaria a matéria intitulada
“Micro recebe sugestões para a Constituinte”, com o seguinte destaque: “O
microcomputador atraiu a atenção dos expositores e congressistas, todos querendo
deixar a sua mensagem para a nova Constituinte.”127

2.4. A Comissão Afonso Arinos

Em 18 de julho de 1985, foi instituída, com base no Decreto Presidencial nº.


91.450, a Comissão Provisória de Estudos Constitucionais (CEC), instalada
formalmente em 3 de setembro de 1985, em Brasília. A ideia de organizar essa
Comissão já estava presente no discurso de posse de Tancredo Neves, quando eleito
presidente da República. O discurso não foi proferido, em razão de sua doença e morte,
mas foi não só preservado, como citado como peça fundante do momento político que
se inaugurava. Quando da instalação da Comissão Provisória de Estudos
Constitucionais, o senador Afonso Arinos lembraria que a ideia e legitimidade daquele
projeto tinha a assinatura do presidente falecido, destacando os seguintes objetivos da
Comissão:

Se não podemos e não devemos votar às pressas uma nova Carta Política,
temos que discuti-la a partir de amanhã. A fim de contribuir, com seus
recursos, para o debate, o Executivo constituirá, como um dos primeiros atos
do Governo, comissão de alto nível, integrada não só de juristas conhecidos,

127
A matéria não traz informações sobre o número de pessoas que fizeram uso daquele microcomputador
ou sobre o que escreveram como sugestão para a Constituinte. Especificamente, informa que o
microcomputador “que colhe informações do público para a ANC e as envia ao Banco de Dados da Pró-
Memória [...] transformou-se em uma das atrações”, nas referidas feira e jornada da informática. O Globo,
24/11/1986.

120
mas, igualmente de representantes autênticos dos diversos setores sociais,
com o objetivo de elaborar um esboço de anteprojeto constitucional. Este
documento não nascerá apenas do saber jurídico dos seus membros e das
reivindicações, justas, dos setores sociais que ali se representam. Meu
propósito é o de que a Comissão possa ouvir o povo, recolhendo suas idéias
criadoras.
Redigido, o esboço voltará ao debate público, enquanto se processa a
campanha eleitoral para a escolha do Congresso Constituinte. E caberá aos
delegados da nação, eleitos com o mandato expresso de constituintes, o ato
soberano de aceitar, emendar ou rejeitar a proposta de lei fundamental que
lhe encaminharemos.128

Ao instituir a CEC, portanto, o presidente José Sarney dava prosseguimento a


um projeto idealizado por Tancredo Neves. À Comissão, caberia fornecer subsídios ao
Poder Constituinte, por meio da preparação de um “esboço de anteprojeto
constitucional”, a ser “remetido à Assembléia Constituinte, para que esta,
soberanamente, o aceite, o emende ou o rejeite”. 129
Também chamada de Comissão dos Notáveis ou Comissão Afonso Arinos, a
CEC foi presidida pelo senador Afonso Arinos e integrada por outros 49 conselheiros
designados diretamente pelo presidente José Sarney. 130 Afonso Arinos, ao assumir a
Presidência da CEC, já contava com grande prestígio social, não só como jurista, mas,
também, por sua trajetória no magistério e no campo da literatura. Acumulava larga
experiência política, tendo ocupado cargos no Executivo e no Legislativo, como
deputado federal (1947-1959), ministro das Relações Exteriores (1961) e senador da
República (1959-1961; 1961-1962; 1962-1967).131 Além disso, seu pai, Afrânio de
Melo Franco, já exercera a Presidência de uma Comissão criada, em 1932, pelo então

128
Trecho do discurso do senador Afonso Arinos, na ocasião da instalação da Comissão Provisória de
Estudos Constitucionais, em 3/09/1985. O documento integra a Coleção Memória da Constituinte.
129
Ibidem.
130
De acordo com decretos publicados no Diário Oficial da União de 3/9/1985 e de 20/8/1986, os
seguintes conselheiros integraram a Comissão: Afonso Arinos de Melo Franco (presidente); Alberto
Venâncio Filho; Antônio Ermírio de Morais; Barbosa Lima Sobrinho; Bolivar Lamounier; Cândido
Antônio Mendes de Almeida; Célio de Oliveira Borja; Celso Furtado; Cláudio Lacombe; Cláudio
Pacheco; Clóvis Ferro Costa; Cristóvam Ricardo Cavalcanti Buarque; Edgar de Godoi da Mata-Machado;
Eduardo Mattos Portella; Evaristo de Moraes Filho; Fajardo José Pereira Faria; Padre Fernando Bastos de
Ávila; Florisa Verucci; Gilberto de Ulhôa Canto; Reverendo Guilhermino Cunha; Gilberto Freyre; Hélio
Jaguaribe; Hélio Santos; Hilton Ribeiro da Rocha; João Pedro Gouvea Vieira; Joaquim Arruda Falcão
Neto; Jorge Amado; Josaphat Ramos Marinho; José Afonso da Silva; José Alberto de Assumpção; José
Francisco da Silva; José Meira; José Paulo Sepúlveda Pertence; José Saulo Ramos; Laerte Ramos Vieira;
Luís Eulálio de Bueno Vidigal Filho; Luiz Pinto Ferreira; Mário de Souza Martins; Mauro Santayanna
(secretário executivo); Miguel Reale; Miguel Reale Júnior; Ney Prado (secretário geral); Odilon Ribeiro
Coutinho; Orlando M. de Carvalho; Paulo Brossard de Souza Pinto; Rafael de Almeida Magalhães; Raul
Machado Horta; Rosah Russomano; Sérgio Franklin Quintella; e Walter Barelli.
131
Afonso Arinos foi, posteriormente, senador, entre 1987 e 1990, e, portanto membro da Assembleia
Nacional Constituinte de 1987/1988. Faleceu em agosto de 1990, no Rio de Janeiro, no exercício do
mandato de senador. Sobre Afonso Arinos, ver ARINOS FILHO, 1994 e LEMOS, 2001.

121
presidente Getúlio Vargas, com a função de redigir um anteprojeto a ser apresentado
pelo Governo Provisório à Assembleia Nacional Constituinte encarregada da elaboração
da Constituição de 1934. Em 1980, e, portanto, em pleno processo de abertura política,
Afonso Arinos, no cargo de diretor do Instituto de Direito Público e Ciência Política da
Fundação Getúlio Vargas, daria início a uma pesquisa de opinião, colhendo
depoimentos de políticos, empresários, lideranças sindicais, acadêmicos, juristas e
outros profissionais, sobre os diversos temas da vida nacional, inclusive o da
convocação de uma Assembleia Constituinte. Pessoalmente, entre outros
posicionamentos políticos, advogou pela concessão de poderes constituintes ao
Congresso Nacional que seria eleito em 1982 e, depois, apoiou a candidatura de
Tancredo Neves para a Presidência da República.
Na condição de presidente da CEC, designou o jornalista Mauro Santayana para
exercer a função de secretário executivo da Comissão e o jurista Ney Prado para a
função de secretário geral.132 A primeira sessão plenária da CEC, marcando a data do
efetivo início dos trabalhos, realizou-se no dia 16 de setembro de 1985, no Palácio do
Itamaraty. Quase um mês após, em 4 de outubro de 1985, foi instalada a Secretaria
Geral da Comissão, em dependências do Banco Central (BC), no Rio de Janeiro. Desse
modo, o BC participou da organização da CEC, oferecendo apoio logístico e mesmo
funcionários para a execução de serviços administrativos diversos (fotocópias,
comunicações por telex, telefone ou correio, entre outras tarefas de expediente). A
Comissão foi estruturada, por região, em cinco Comitês Seccionais, que funcionaram,
respectivamente, em Brasília, sob a coordenação de Paulo Brossard; no Rio de Janeiro,
sob a coordenação de Evaristo de Moraes Filho; em São Paulo, sob a coordenação de
Miguel Reale; em Belo Horizonte, sob a coordenação de Raul Machado Horta; e no
Recife, sob a coordenação de Gilberto Freyre. Como se vê, a coordenação dos Comitês
da CEC reunia um conjunto de nomes que desfrutavam de grande reconhecimento
político e intelectual, o que certamente não era casual e, em muito, justificou o nome
pelo qual a Comissão ficou conhecida. Mas a iniciativa de instalação de uma Comissão
de “alto nível” receberia duras críticas pelo elitismo implícito, contra o que Afonso
Arinos argumentou:

132
Afonso Arinos designou, também, os seus assessores pessoais: Ana Lúcia de Lyra Tavares; Carlos
Roberto de Siqueira Castro; Francisco de Melo Franco; Luiz de Alencar Araripe; Luiz Eduardo Conde;
Maria Bonfim D’Escragnolle Taunay; e Moema de Oliveira Fernandes. (Os referentes documentos de
designação encontram-se, na Coleção Memória da Constituinte, classificados com o código
MC008_CECEF).

122
A Comissão será de “alto nível”. O sentido desta expressão resulta
claramente do pensamento que a contém. Devendo ser integrada por “juristas
conhecidos” e por “representantes autênticos” dos diversos setores sociais, a
expressão “alto nível” significa conhecimento, por parte dos juristas, e
autenticidade quanto à representação dos setores sociais. Portanto, alto nível
nada tem a ver com elitismo social, como pretendeu fazer crer a crítica de má
fé. 133

Também objeto de críticas era o fato de os membros da CEC receberem o


mandato diretamente do Poder Executivo. Para alguns analistas, tratava-se, por isso, de
uma medida “de cima para baixo”, comprometida com o governo instituído e, portanto,
uma intromissão do Executivo nos trabalhos constituintes. Por tal razão, essa Comissão
foi malvista por muitas correntes e por razões sólidas e variadas. Entre os exemplos, o
jurista Fábio Konder Comparato foi indicado para integrar a Comissão, mas se recusou,
alegando ser contrário a um projeto prévio de Constituição elaborado sob encomenda do
Executivo. Por outro lado, sem recusar o debate, acabou por elaborar, ele próprio, um
anteprojeto constitucional, 134 que foi amplamente divulgado à época e publicado com o
título Muda Brasil – Uma Constituição para o Desenvolvimento Democrático
(COMPARATO, 1986).
Muitas outras vozes se levantariam contra a formação da CEC, alegando que não
poderia haver qualquer interesse social no fato de o governo solicitar a especialistas a
produção de um anteprojeto constitucional, que serviria antes para reafirmar a velha
tradição de privilegiar pontos de vista de uma elite intelectual e política, quando os
verdadeiros e mais importantes projetos a orientar as discussões na Constituinte
deveriam, isso sim, surgir da vitalidade da participação popular. 135
Reagindo sempre às acusações de elitismo, Afonso Arinos argumentaria, durante
a sessão de instalação da CEC, que a elaboração de anteprojetos constitucionais era uma
tradição no Brasil. Lembraria que o Governo Provisório do marechal Deodoro da
Fonseca decretara a criação, em 3 de dezembro de 1889, de uma Comissão denominada
Comissão dos Cinco, então composta por cinco juristas e presidida por Joaquim
Saldanha Marinho, signatário do Manifesto Republicano. Essa Comissão preparou um
anteprojeto que foi revisado pelo governo sob a orientação de Rui Barbosa, e, em
seguida, remetido à Assembleia Constituinte, incumbida de promulgar a primeira

133
Trecho do discurso de Afonso Arinos, na ocasião da instalação da Comissão Provisória de Estudos
Constitucionais, em 3/9/1985.
134
O anteprojeto elaborado pelo jurista Fábio Comparato foi, inicialmente, encomendado pelo Partido dos
Trabalhadores, porém só muito tempo depois o PT apresentou oficialmente o seu próprio anteprojeto.
135
Ver, por exemplo, GARCIA, 1985, capítulo Constituinte Já.

123
Constituição do Brasil República.136 Anos depois, o Governo Provisório de Getúlio
Vargas, em maio de 1932, criaria a Comissão Constitucional, presidida pelo ministro do
Exterior à época, Afrânio de Melo Franco, que elaborou um anteprojeto para a
Constituinte encarregada de votar a Carta de 1934. 137 Finalmente, a Assembleia
Constituinte instalada em 2 de fevereiro de 1946, embora não dispondo de um
anteprojeto propriamente dito – tendo em vista a impossibilidade de prepará-lo em meio
às agitações do cenário político logo após a deposição de Getúlio Vargas, em outubro de
1945 –, assumira como texto-base a própria Constituição de 1934 e sobre ela fez nascer
a Constituição de 1946, que sacramentou a volta do Brasil à democracia. 138
Porém, para aqueles que se opunham à formação da CEC, as experiências
históricas de anteprojetos constitucionais serviriam antes para reforçar, e não para
atenuar, as desconfianças em relação à pertinência da medida, por significarem formas
de pressão do Poder Executivo sobre o Poder Constituinte. Nas palavras de Severo
Gomes (1985, p. 82), ilustrativas dessa posição crítica: “Tivemos no passado
constituições outorgadas, ou votadas, por Assembléias que na verdade representam
sempre as mesmas oligarquias intermediárias da dominação externa e usufrutuárias das
desigualdades.”
Portanto, foi em meio a defesas, desconfianças e críticas, que a CEC foi criada.
Por decisão plenária, ficou determinado que a Comissão adotaria o princípio de
incentivar a ampla participação da população brasileira nos seus trabalhos, incorporando
a tese de que o êxito de uma Constituição está relacionado com a realização de uma
formulação jurídica capaz de abranger o conjunto diferenciado de aspirações presentes
na sociedade. 139 Nesse sentido, seja diante das pressões, seja por motivos próprios, ou
seja por ambas as razões, a CEC promoveu uma série de audiências, com debates
públicos, e procurou estimular – tanto por campanhas divulgadas na mídia impressa e
televisiva como enviando correspondências a várias entidades sociais – que a população
remetesse aos conselheiros sugestões e críticas. Regularmente, também, integrantes da
Comissão eram convidados a participar do Programa de debates 1986, na TV Educativa,
na maioria das vezes apresentado pelo jornalista Milton Temer. O Programa procurou

136
Sobre a Assembleia Constituinte de 1890/1891, ver LESSA, 2001.
137
Sobre a Assembleia Nacional Constituinte de 1933/1934, ver GOMES, 1981 e 2001.
138
Sobre a Assembleia Nacional Constituinte de 1946, ver TRIGUEIRO, 2001.
139
A afirmação consta de relatório da Secretaria Geral da CEC assinado por Ney Prado, em 4/9/1986
Coleção Memória da Constituinte/MR.

124
acompanhar os trabalhos realizados na Comissão.140 Ao incentivo à participação nos
trabalhos da CEC, feito pelos próprios “notáveis”, somavam-se as amplas campanhas
pró-participação conduzidas pelos movimentos sociais, sendo possível concluir que a
população, de fato, sentiu-se motivada a participar.
Muitas cartas foram endereçadas diretamente à CEC por entidades e também
cidadãos brasileiros. Somente no acervo da Coleção Memória da Constituinte existe um
volume de 1.173 cartas enviadas à Comissão ou especificamente a algum de seus
membros. Tais cartas, que não podem ser tomadas como a totalidade do que foi
produzido, mas apenas do que foi arquivado na Coleção Memória da Constituinte, são
significativas em número. Entre outras características, elas se apresentam, claramente,
como respostas aos apelos pró-participação feitos à população, como mostram os
trechos de cartas selecionados abaixo, que deixam claro que os missivistas encontraram
diferentes estímulos em seu ambiente social, a partir das campanhas realizadas, para
participar da Constituinte, enviando cartas às autoridades políticas:

[...] Aproveitando o incentivo que nós, o sofrido povo brasileiro, estamos


tendo pela Nova República, através da Imprensa, venho através desta, expor
minhas ideias objetivas e simples.141

[...] Fiquei contentíssima quando encontrei o endereço p/ participar da nossa


mãe Constituinte. Bem, tenho várias ideias que talvez gostem.142

[...] Atendendo ao apelo feito através de jornal desta capital venho dar a
minha sugestão para a elaboração de algum artigo da nova Constituição.143

[...] Encorajado por VS., através da carta fotocopiada em anexo, a mim


dirigida por VS. a 30/10/85 e que muito me honrou, volto à sua presença, na
qualidade de advogado militante, desde 1942, vale dizer, com experiência
forense de quarenta e cinco anos. Para apresentar sugestões à futura
Constituinte, para que seja incluída na nova CARTA MAGNA o seguinte
dispositivo.144

Vale pontuar que muitas dessas cartas recebiam respostas, o que também pode
ser interpretado como um reconhecimento e estímulo à participação. Matéria do jornal
Folha de S. Paulo, de 17 de setembro de 1986, por exemplo, intitulada “Comissão

140
Gravações desses debates constam do acervo audiovisual da Coleção Memória da Constituinte e estão
disponíveis à consulta no Arquivo Histórico do Museu da República.
141
Trecho da carta de Darcy Xavier Gonçalves à CEC. Rio de Janeiro, RJ. 23/1/1986. (MC061_CECSUG
108-110)
142
Trecho da carta de Maria Aurenita Vasconcelos à CEC. Carpuia, PE. 25/3/1986. (MC063_CECSUG
160 a 162)
143
Trecho da carta de Regina Machado à CEC. Goiânia, Goiás. 22/09/1985. (MC077_CECSUG 110-111)
144
Trecho da carta de Fortunato Benchimol a Mauro Santayana. Rio de Janeiro, RJ, 11/12/1985.
(MC002_CECSUG 174-175)

125
aprova hoje texto final”, notifica: “A Comissão recebeu quase dez mil propostas. Outras
951 cartas foram respondidas.”
Em 18 de setembro de 1986, a CEC encerrou os seus trabalhos, concluindo a
elaboração do anteprojeto pretendido. Na contramão das desconfianças presentes nos
debates sobre a criação da CEC, o anteprojeto apresentado pela Comissão, longe de se
constituir em um documento representativo dos posicionamentos políticos governistas,
acabou por suscitar objeções do próprio Executivo. Sarney decidiu, inclusive, não
enviar o anteprojeto à Assembleia Constituinte, segundo alguns analistas porque o texto
caminhava para a adoção do parlamentarismo, frustrando suas ambições pessoais. Para
o filho de Afonso Arinos, o diplomata Afonso Arinos Filho (1994, p. 347), por
exemplo, Sarney teria engavetado o anteprojeto por entender que ele não “atendia à sua
ambição de poder presidencialista”. Também a socióloga Aspásia Camargo
(CAMARGO; DINIZ, 1989, p. 13) comentou: “Desde logo manifestou-se a reserva do
governo em assumir esse projeto como seu, seja porque a sugestão caminhou em defesa
do parlamentarismo, seja porque incorporou propostas consideradas muito avançadas na
ordem econômica e social.”
Por outro lado, opinião distinta foi manifestada pelo senador Bernardo Cabral
(apud LOPES, 2008, p. 12), que atuou como relator geral da Assembleia Nacional
Constituinte e que construiu outra explicação para o fato: “Preferiu-se, à sólida estaca de
um anteprojeto – formulado por um jurista ou uma comissão deles –, a abertura da
senda constituinte a partir do próprio povo, seus anseios, suas idéias, suas necessidades,
suas convicções.” Na mesma perspectiva, o secretário executivo da CEC, Mauro
Santayana, minimizou a decisão de Sarney: “Ao receber o projeto e divulgá-lo, o
presidente, indiretamente, o levou ao Congresso. Se o documento fosse oficialmente
enviado ao Congresso, o trânsito de suas idéias seria dificultado.” 145 E, ainda, o porta-
voz da Presidência, à época, Fernando César Mesquita declarou que encaminhar o
anteprojeto à Assembleia “representaria uma interferência nos trabalhos da Constituinte,
que será livre e soberana. [...] Se a Constituinte pedir, aí então José Sarney encaminhará
formalmente o anteprojeto elaborado pelos 50 ‘notáveis’”. 146 Do próprio José Sarney,
temos a seguinte declaração, registrada em entrevista divulgada no site oficial do
Senado Federal, em 8 de outubro de 2008: “Não mandei [o anteprojeto] ao Congresso

145
MEMBROS da Comissão minimizam ato de Sarney. Folha de S. Paulo, 20/9/1986.
146
COM SARNEY o anteprojeto dos Notáveis. Jornal da Tarde, 19/9/1986.

126
porque Ulysses [presidente da ANC] me disse que, se o fizesse, o devolveria, abrindo
assim uma crise que era tudo que eu precisava evitar.”147

Contudo, embora não tenha sido encaminhado oficialmente aos constituintes, o


anteprojeto da Comissão Afonso Arinos foi um documento referencial para os debates
gerais ocorridos durante o funcionamento da Assembleia – o que mostra que ele chegou
lá por outras mãos –, com alguns de seus capítulos sendo mencionados em tom elogioso
por vários autores de propostas e emendas constitucionais. 148 O louvor ao anteprojeto,
bem como seu uso como texto-referência, conviveu, contudo, com as críticas, presentes
inclusive em imagens divulgadas pela imprensa da época.
Decerto, na mídia impressa, uma série de matérias atacava o texto da Comissão.
A revista Isto É, por exemplo, noticiou que o conselheiro Ney Prado fora ameaçado de
afastamento da Comissão, por criticá-la em artigo redigido para a revista Manchete. De
acordo com o artigo de Ney Prado, a CEC, com o anteprojeto produzido, revelou a sua
face “casuísta, preconceituosa, utópica, socializante, xenófoba e, em muitos casos,
perigosamente demagógica”.149 Ainda entre outros exemplos, o jornal Folha de S.
Paulo noticiou a data de entrega do anteprojeto da CEC ao presidente da República,

147
Disponível em:
http://www.senado.gov.br/agencia/verNoticia.aspx?codNoticia=78355&codAplicativo=2&parametros=sa
rney; acesso em: 8/10/2008.
148
O assunto é abordado em MICHILES et al., 1989, p. 34-35.
149
A OMISSÃO da Comissão. Isto É, 10/9/1986.

127
informando que “802 juízes de São Paulo subscreveram documento, apresentado ao
Congresso dos Magistrados Brasileiros, contra o anteprojeto da Constituição”. 150
Por outro lado, muitos reconheceram qualidades no texto do anteprojeto da CEC.
Mauro Santayana, por exemplo, afirmaria: “É um manual do cidadão, onde o brasileiro
toma conhecimento dos seus direitos, ou seja, subverte-se o conceito de que o cidadão é
submisso ao Estado. Nesse esboço, o Estado é que serve o cidadão.” 151 E o jurista
Cândido Mendes, no mesmo dia da entrega do documento ao presidente da República,
faria um apelo a favor da realização de uma “‘sadia conspiração’ destinada a garantir a
mais ampla divulgação do anteprojeto, sobretudo junto à população, e pediu uma edição
popular do texto, ‘em papel que tenha o cheiro do povo’”.152 Essa versão popular do
anteprojeto, contudo, de acordo com informações obtidas em conversa com a
coordenadora do CPMC, Elizabeth Sussekind, nunca foi feita

Pelo exposto neste capítulo, portanto, é possível afirmar, que, durante os dois
anos que precederam a instalação da Assembleia Nacional Constituinte, em 1º de
fevereiro de 1987, ganhou força extraordinária, no debate político brasileiro, a ideia da
participação do “povo”, organizado em movimentos sociais ou mesmo individualmente
para elaboração de uma Constituição mais democrática. Diferentes projetos de
reconstitucionalização do país engendraram o propósito da redemocratização e a certeza
de que o aprofundamento da construção da democracia dependia de um avanço nas
práticas políticas participativas. Assim, a perspectiva de instauração, no Brasil, de um
novo e legítimo texto constitucional, ou de um novo e legítimo Estado, abriu-se para a
criação de “espaços de democracia”, no Estado e na sociedade, visando à coação dos
cidadãos brasileiros nas reflexões e decisões sobre os rumos do país.
Se, por um lado, o processo constituinte teve como cenário um Brasil que
amargara décadas de autoritarismo, por outro, os esforços empreendidos pela sociedade
civil para a recuperação das liberdades públicas fizeram emergir e espalhar-se, no país,
a experiência de um exercício consciente e ativo de participação popular, produzindo
alterações profundas na prática política brasileira. Antes mesmo da promulgação da
Constituição de 1988, já se via consolidar, com êxito, a transição de um Estado

150
COMISSÃO CONSTITUCIONAL entrega hoje seu anteprojeto. Folha de S. Paulo, 18/9/1986. Ver
também, do mesmo jornal: PROPOSTA enseja críticas, diz Brossard, 19/9/1986; QUATROCENTOS
artigos, de 20/09/1986; INOVAÇÕES constitucionais, de 23/9/1986; e COMISSÃO de Xenófobos,
3/11/1986.
151
COMISSÃO aprova hoje o texto final. Folha de S. Paulo, 17/9/1986.
152
COMISSÃO CONSTITUCIONAL entrega hoje seu anteprojeto. Folha de S. Paulo, 18/9/1986.

128
autoritário e repressivo para um Estado democrático de direito. Transição paulatina e
complexa, que naquele momento engendrou a certeza de que somente a gestação de
instrumentos e instâncias populares de participação e de controle do exercício do poder,
que assumissem progressivamente responsabilidades na condução dos rumos do país,
poderia garantir a democratização das relações de poder na sociedade brasileira.
Assim, é plausível afirmar que, em meados dos anos 1980, começa a se
desenvolver, na sociedade brasileira, um tipo de cultura política que tem na participação
política do cidadão um eixo fundamental. Conforme analisado por Daniel Cefaï (2001),
todas as experiências sociais devem ser compreendidas como formas culturais
compartilhadas no seio das sociedades. Dentro dessa perspectiva, é de se notar que, nos
dois anos que antecederam a instalação da Assembleia Nacional Constituinte de
1987/1988, um novo tipo de experiência de participação política ganhou amplitude
social no Brasil, revelando-se um fenômeno coletivo, partilhado por grupos sociais e
indivíduos que conjugavam princípios e vivências comuns, orientadas pelo valor de um
Estado de direito que fosse democrático. Ou seja, parcelas significativas e diferenciadas
da população brasileira mobilizaram-se em torno da temática da definição dos rumos
políticos do país, como condição para uma reorientação democrática do processo de
construção do Estado que iria ser vivenciado. Nesse processo, foram partilhados
determinados modos de crer, de interpretar e lidar com os fenômenos políticos, que
passaram a se integrar de forma nova ao cotidiano dos cidadãos. Grupos organizados,
mas também indivíduos propuseram e exerceram formas “diretas” de se relacionar com
seus representantes, identificando-se pelo sentimento e pelo pensamento com uma
determinada lógica participativa de convívio político, entendida e definida como
democrática. É nesse sentido que se pode aferir que as diversas estratégias de
socialização política presentes na sociedade brasileira, naquele momento, compunham e
sedimentavam uma nova cultura política, democrática e com ênfase participativa.
Crescia no Brasil um tipo de sociabilidade política, percebida e representada de
diferentes maneiras e por meio de recursos diversos, que se sustentava e convencia,
pelas respostas que obtinha, mesmo considerando-se seus limites. Ou seja, havia um
campo de possibilidades para que a participação popular na política se tornasse uma
variável-chave da vida democrática.

129
Parte II – Escrever para a Constituinte

Pintura sobre papel, autoria ilegível, 1987 (representação do processo constituinte).


Coleção Memória da Constituinte/Acervo Museu da República.

130
Capítulo 3

Coleção Memória da Constituinte em cartas

Neste capítulo, faremos, em primeiro lugar, uma apresentação da Coleção


Memória da Constituinte. Em segundo, uma apresentação das cartas da Coleção
Memória da Constituinte, buscando distinguir as suas particularidades dentro do vasto
campo da escrita epistolar, observando que se trata de um conjunto extremamente rico,
no que diz respeito às formas de expressão empregadas e às temáticas que aborda. Do
mesmo modo, mostraremos como são diferenciados os grupos sociais, as motivações e
os interesses dos que escrevem as cartas, bem como as condições que influenciaram o
percurso que trouxe essas cartas para o acervo documental denominado Coleção
Memória da Constituinte. Compondo esse fundo documental, tais cartas foram
preservadas em uma instituição pública, o Museu da República, constituindo uma rica e
rara “pista” da palavra e ação dos cidadãos brasileiros dos anos 1980.
Para situar as cartas dentro da Coleção Memória da Constituinte, faremos uma
apreciação geral dos demais documentos que constituem essa Coleção e, em seguida,
destacaremos o status das cartas dentro do conjunto. O objetivo é identificar e analisar
algumas de suas características básicas, passíveis de serem observadas já numa primeira
leitura exploratória desse conjunto, como: volume; datas; alcance territorial (de que
regiões do país as cartas provêm); categorias de missivistas e destinatários (se são
sujeitos coletivos, individuais, autoridades); variáveis de gênero; e aspectos relativos à
materialidade dos papéis utilizados e aos tipos de escrita.
Finalmente, apresentaremos os parâmetros de que nos servimos para definir a
amostra de cartas que será o objeto de análise privilegiado desta pesquisa.

3.1. O acervo Memória da Constituinte

A decisão de constituir um acervo documental, investindo e cuidando para que


ele esteja acessível às gerações futuras, supõe algum entendimento quanto ao que deva
ser preservado, ou seja, uma compreensão quanto ao que seja um “legado” do passado

131
para o presente e o futuro. Supõe a intenção de construir um patrimônio histórico
documental, constituindo um conjunto de fontes de pesquisa e conhecimento.
Nas últimas décadas, estudos sobre a temática da memória e de suas relações
com a História têm sido objeto de crescente investimento entre pesquisadores das áreas
de Ciências Humanas e Sociais. 153 Dentro dessa temática mais ampla, tem ganhado
força o entendimento de que todo acervo arquivístico deve ser compreendido como um
trabalho de construção de memória de grupos ou indivíduos, entre tantas outras
passíveis de serem construídas. Assim, a importância crescente atribuída à
documentação produzida por “homens comuns” e não apenas pelos “grandes homens”
justificaria procedimentos de tratamento e conservação de “novos” documentos, tendo
em vista preservá-los contra os efeitos corrosivos do tempo, evitando-se sua destruição
e valorando seus produtores. Documentação a ser conhecida, lembrada e estudada,
buscando-se maneiras de lhe dar visibilidade por meio de instrumentos de consulta e
pesquisa para acessá-la. “Documentos-monumentos” que registram o cotidiano do
indivíduo anônimo e que, ao se constituir como acervo histórico, conforme sugere
Jacques Le Goff (1990),154 permanece no tempo, apontando a clara intenção de
perpetuar uma memória de “homens comuns” sobre o passado, que assim entram, com
seus documentos, para a História.
Perceber a formação de arquivos históricos como uma ação estratégica de
memória, que opera sobre o que deve ser preservado e lembrado, no presente e no
futuro (embora o êxito de tais estratégias nunca esteja garantido), é uma forma de
reconhecer os domínios da história e da memória como construções que se realizam no
campo dinâmico das interações sociais, envolvendo interesses e disputas. 155 Importantes
historiadores, sociólogos e filósofos, entre eles Maurice Halbwachs (2006), Pierre Nora
(1984), Paul Ricoeur (2007), Henri Rousso (2001), Michel Pollak (1989) e Alessandro
Portelli (2001), para citar alguns que produziram obras referenciais, vêm renovando o
alcance dessas reflexões no âmbito das Ciências Humanas e da produção do
conhecimento.

153
Veja-se, por exemplo: LE GOFF, 1990; NORA, 1984; POLLAK, 1989; ROUSSO, 2001; JELIN,
2001; CHAGAS, ABREU, 2003; BOSI, 2004; HUYSSEN, 2005; HABWACHS, 2006; SARLO, 2007; e
RICOEUR, 2007.
154
Le Goff também chama atenção para o fato de que todo documento-monumento é fruto do embate
entre forças e interesses sociais.
155
Maria Paula Nascimento Araújo e Myrian Sepúlveda dos Santos (2007c), no texto História, memória e
esquecimento: implicações políticas, fazem boas reflexões e um cuidadoso balanço historiográfico de
diversas interpretações sobre história e memória presentes no debate acadêmico.

132
Nessa perspectiva, os responsáveis pela organização dos acervos são
reconhecidos como sujeitos que atuam sobre eles e interferem em sua função social,
tanto quanto os autores dos documentos e os pesquisadores que deles retiram a sua
matéria intelectual. 156 O entendimento é que a organização arquivística resulta da
adoção de uma série de procedimentos de crítica documental, procedimentos esses que
criam como que “portas e janelas” para entradas no acervo e que acabam por sugerir
determinadas formas de aproximação da documentação. A definição de tais
procedimentos, que qualificam os processos de formação, tratamento e preservação dos
acervos, é parte determinante da ação documental, que se realiza por meio de uma
dinâmica de trabalho marcada, em boa medida, pelo “inesperado”, impossível de ser
previamente controlado. Decerto, nenhuma etapa da organização de acervos ocorre de
modo absolutamente “planejado”, de todo definido antecipadamente. A prática
arquivística envolve, sempre, uma boa dose de imprevisibilidade.
Via de regra, face à decisão de preservar determinados documentos, seguem-se
outras decisões a respeito de como fazê-lo, não havendo um padrão único que sirva a
toda e qualquer organização arquivística. Únicos são os acervos, e reconhecer as suas
especificidades, por meio de um exame cuidadoso dos documentos, é parte essencial e
primeira de sua organização. Isso significa dizer que a definição de um plano de
classificação para um determinado acervo deve ser informada por um exame e
diagnóstico da documentação, tendo em vista desvendar os seus traços distintivos e
características próprias. Porém, por mais atenta e proveitosa que seja a primeira
aproximação de um conjunto documental, como “mirada” esclarecedora dos caminhos a
perseguir para a classificação dos documentos, sempre se faz necessária uma série de
reconsiderações e soluções posteriores. Acrescente-se a isso que a organização
documental não ocorre exclusivamente com base em decisões relativas à técnica
arquivística. Igualmente importantes são as circunstâncias sociais que circunscrevem
esse trabalho e que influenciam os sujeitos envolvidos, orientando a sua percepção de
como os documentos devem ser guardados e apresentados. Diferentes critérios
empreendidos na organização de um acervo representam diferentes maneiras de

156
Luciana Quillet Heyman (1997) também discute, em detalhe e com muita propriedade, os complexos
processos de ingerência que podem envolver a delimitação e organização de um arquivo como patrimônio
documental. A autora entende que, em diferentes momentos da trajetória de um documento, pessoas
decidem se ele deve ser preservado ou destruído, realçado ou secundarizado dentro do acervo, sempre a
partir de preocupações e atenções que não são necessariamente partilhadas por todos os envolvidos em
cada etapa de constituição e tratamento desse acervo. Ver também, sobre os arquivos como elementos da
construção de discursos e de memórias, HEYMAN, 2012.

133
descrever o seu conteúdo e de dar ênfase e grau de importância aos documentos que o
compõem. Voluntária ou involuntariamente, é sempre proposto ao consulente que tenha
atenção neste ou naquele ponto, já que as descrições do acervo são formas de atribuição
de sentido e valor, que, por exemplo, incluem referências a determinados personagens,
datas ou eventos citados nos documentos, ou ressaltam a relevância da documentação
para o estudo de determinados temas (enquanto outros não são mencionados). Cada
critério adotado propõe uma determinada lógica de ordenação documental, que opera
atribuições de valor e sugere caminhos de pesquisa. Assim,

[...] não há recenseamento, inventário, trabalho arquivístico, por mais


objetivo e repetitivo que ele seja, que não tenha uma parte de subjetivo, de
pessoal [...]. A escolha, mesmo aquela de um termo de indexação, ou de um
fundo entre outros a recolher e organizar, parte evidentemente do arquivista.
(KRAKOVITCH, 1994, p. 13 apud HEYMMAN, 1997, p. 37).

Embora não esteja no escopo desta pesquisa discutir em detalhe o processo de


acumulação e organização do acervo da Coleção Memória da Constituinte,
destacaremos, a seguir, alguns pontos da constituição desse conjunto, por reconhecer
que, em grande medida, sua configuração final traduz as escolhas dos agentes
responsáveis por sua acumulação e organização, escolhas essas que, como vimos, são
elas mesmas um trabalho de memória sobre o tema/personagem etc.
A Coleção Memória da Constituinte reúne documentos produzidos entre 1985 e
1988, relativos ao processo que conduziu à elaboração da atual Constituição da
República Federativa do Brasil, promulgada em 5 de outubro de 1988. Tais documentos
foram acumulados por duas diferentes instâncias da administração pública, ambas
criadas durante e em razão do processo constituinte: a Comissão Provisória de Estudos
Constitucionais (CEC) – ou Comissão dos Notáveis ou Comissão Afonso Arinos – e o
Centro Pró-Memória da Constituinte (CPMC), vinculado à Fundação Nacional Pró-
Memória. 157
A forma e o funcionamento da CEC já foram objeto de reflexões apresentadas
neste trabalho.158 Quanto ao CPMC – de acordo com a sua coordenadora, a advogada
Elizabeth Süssekind –, ele foi organizado pela Fundação Nacional Pró-Memória com o
nome de Centro de Memória da Constituinte, para executar o projeto denominado

157
A Fundação Nacional Pró-Memória funcionou entre 1979 e 1990, como órgão executivo do Instituto
do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, organismo federal, vinculado ao Ministério da Cultura,
criado em 1937 e responsável pela proteção ao patrimônio cultural brasileiro.
158
Capítulo 2, tópico 2.4, intitulado A Comissão Afonso Arinos.

134
Projeto Memória da Constituinte.159 Esse projeto foi instituído em 16 de outubro de
1985, pelo então ministro da Cultura, Aluísio Pimenta, por meio da Portaria nº
170/1985,160 para ser desenvolvido pela Fundação Nacional Pró-Memória, com “o
objetivo de apoiar os movimentos locais, estaduais, regionais e nacionais da sociedade
civil, bem como iniciativas públicas, em todos os níveis”, a partir das seguintes
atribuições:
a) Implantação do Centro de Memória da Constituinte que deverá
desenvolver estratégias de captação de intercâmbio e difusão de
materiais informativos produzidos no país sobre o debate da
Constituinte;
b) Produção e veiculação de uma série de programas em vídeo-tape sobre a
Constituinte;
c) Registro permanente dos debates e movimentos significativos sobre o
processo de discussão da Constituinte, em âmbito nacional.

Por estar vinculado à Fundação Nacional Pró-Memória, o Centro de Memória da


Constituinte passou, logo no início de sua organização, a ser referido como Centro Pró-
Memória da Constituinte, e essa nova denominação se consolidou, sendo assumida,
inclusive, em documentos oficiais.
O CPMC tinha sede na cidade do Rio de Janeiro e núcleos em Brasília e nas
cidades de São Paulo, Recife, Porto Alegre, Belo Horizonte e Ouro Preto. Entre as suas
atividades, realizou entrevistas, gravadas em fitas de vídeo, com todos os membros da
CEC, e também enquetes de rua com populares, sobre temas discutidos na ANC. O
objetivo desta iniciativa, nas palavras de Elizabeth Süssekind, “era recolher opiniões e
expressões de muitos, pessoas e entidades, de diferentes regiões, classes sociais,
profissões etc.”, além de “incentivar a participação popular na Constituinte”.
Existia também, segundo Süssekind, a preocupação de reunir informações
provenientes de diferentes origens, com linguagens e formas de expressão
diversificadas. Tal preocupação acabaria por influenciar a formação de um conjunto que
hoje inclui documentos produzidos durante as reuniões de trabalho da Comissão dos
Notáveis e da ANC; cartilhas, livros, cartazes e publicações elaboradas por
organizações do Estado e da sociedade civil; charges publicadas na mídia impressa;
materiais de divulgação de eventos; telas de artistas; além das cartas enviadas às
autoridades políticas por populares, movimentos sociais e instituições diversas; registros

159
As informações sobre o CPMC, que, neste texto, não estão referenciadas em documentos, foram
obtidas por meio de conversas e trocas de e-mails realizadas diretamente com Elizabeth Süssekind, entre
novembro de 2010 e julho de 2012.
160
Há na Coleção Memória da Constituinte uma cópia da Portaria nº 170/1985, de criação do Projeto
Memória da Constituinte. (MC008_CECEF 19-20)

135
fotográficos e vasto material audiovisual com depoimentos de parlamentares
constituintes, de personagens com amplo reconhecimento público e de pessoas comuns.
Ou seja, a criação do CPMC, seus objetivos e sua disseminação pelo país atesta,
claramente, uma articulação entre iniciativas do Estado e proposições dos variados
movimentos sociais que, então, já vinham se organizando e atuando. Tal articulação
legitimava e fortalecia os movimentos sociais, conectando, em mais uma frente, Estado
e sociedade civil.
Além disso, o propósito do CPMC de concentrar informações sobre a
Constituinte motivou a iniciativa do ministro da Cultura Celso Furtado, 161 de escrever
ao presidente da Comissão dos Notáveis, Afonso Arinos de Mello Franco, em 28 de
maio de 1986, informando-o sobre a criação do Projeto Memória da Constituinte e
solicitando que, após o término dos trabalhos daquela Comissão, os documentos por ela
acumulados fossem transferidos para a Fundação Nacional Pró-Memória (FNPM). De
acordo com Furtado, a FNPM disporia “de recursos técnicos e administrativos
adequados para a guarda e preservação de documentos”, de modo que o Ministério da
Cultura se sentiria “honrado em, após o término dos trabalhos da Comissão, vir a ser
responsável pelo seu acervo, observando-se os padrões e critérios dessa Presidência [de
Afonso Arinos]”.162
A resposta de Afonso Arinos ocorreu também em carta, datada de 9 de julho de
1986, na qual transmitia sua plena concordância com a proposta. 163 Em 31 de julho de
1986, seria, afinal, assinado o Termo de Convênio entre a FNPM e a CEC, 164 contendo
a seguinte disposição:

CLÁUSULA PRIMEIRA – Do Objeto


Constitui objeto deste Convênio a cessão à PRÓ-MEMÓRIA, pela
COMISSÃO, de seu acervo documental, após o término dos trabalhos desta
última, cabendo à primeira a guarda, a preservação e a difusão do mesmo.

161
Bacharel em Direito e doutor em Economia, Celso Furtado é autor de publicações referenciais sobre
economia brasileira. Teve importantes passagens na administração pública, entre elas como o primeiro
superintendente da SUDENE (Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste), órgão por ele
idealizado e que teve a sua criação aprovada pela Câmara dos Deputados, em maio de 1959. Em 1985,
integrou a Comissão Afonso Arinos e, em 1986, foi convidado pelo presidente José Sarney a assumir o
Ministério da Cultura. Sobre Celso Furtado, ver GUIDO, 2001.
162
Trecho da carta do ministro da Cultura Celso Furtado a Afonso Arinos. Brasília, 28/5/1986.
(MC014_CECEF 5-6)
163
“Senhor Ministro, Fico muito honrado e agradecido com o oferecimento de Vossa Excelência para que
o Centro de Memória da Constituinte, que integra a Fundação Nacional Pró-Memória, receba, ao final dos
trabalhos da Comissão de Estudos Constitucionais, o seu acervo documental, responsabilizando-se por
ele.” Carta de Afonso Arinos a Celso Furtado. Rio de Janeiro, 9/7/1986. (MC014_CECEF 7)
164
Termo de Convênio entre a FNPM e a CPEC, de 31 de julho de 1986. (MC014_CECEF 9-12)

136
Parágrafo único – A PRÓ-MEMÓRIA, através do PROJETO MEMÓRIA
DA CONSTITUINTE, criado pela Portaria 170, de 16 de outubro de 1985,
organizará tecnicamente, informatizará e colocará à disposição dos órgãos e
instituições públicas e privadas, bem como do público em geral, o material
recebido, que passará a fazer parte do Museu da República.

Vê-se, portanto, que, ao ser firmado o Termo de Convênio entre a CEC e a


FNPM, já existia o propósito de transferir o acervo acumulado pelo Projeto Memória da
Constituinte para o Museu da República, o que mostra que o projeto nascia em caráter
provisório, mas com intenção permanente: constituir fundo documental de instituição
museológica. Sua função precípua era reunir, guardar, preservar, informatizar e difundir
informações sobre a Constituinte. Uma vez constituído o conjunto final do acervo
resultante desse trabalho, o seu depositário último seria uma instituição pública, no
caso, o Museu da República.
A efetivação da transferência do acervo da Comissão dos Notáveis para a FNPM
– onde ficaria sob a responsabilidade do CPMC – está igualmente registrada em carta
do presidente da Fundação, Joaquim Falcão, a Afonso Arinos, datada de 2 de dezembro
de 1986, que diz: “Venho agradecer apoio dispensado por toda a equipe da Comissão de
Estudos Provisórios, presidida por V. Excia, quando da passagem do acervo da
Comissão à Fundação Nacional Pró-Memória, em razão do convênio de 31 de julho de
1986”.165
Outra frente de atuação do CPMC foi a organização de um serviço de acesso
público e gratuito às informações que o próprio Centro reunia, e às discussões que
ocorriam na Assembleia Nacional Constituinte. A ideia era estabelecer uma ponte entre
a sociedade e a Assembleia e, com tal objetivo, foi criado um banco de dados. Para o
livre acesso a esse banco, foi estabelecida uma conexão entre o computador instalado no
núcleo do CPMC de Brasília – que funcionava em uma sala dentro da própria Câmara
Federal – com outros computadores instalados em cada um dos demais núcleos do
Centro. O serviço, que foi realizado por meio de uma rede pública de transmissão de
dados desenvolvida pela Empresa Brasileira de Telecomunicações (EMBRATEL),
operava vinte e quatro horas por dia, e todos os interessados podiam utilizá-lo,
realizando consultas ou enviando mensagens aos constituintes, pessoalmente, por
correio ou por telefone. A iniciativa teve o patrocínio do Conselho Nacional de Pesquisa
(CNPq) e da Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP), e envolveu a formação de
uma equipe de trabalho, coordenada por Elizabeth Süssekind, composta por

165
Trecho da carta de Joaquim Falcão a Afonso Arinos. Rio de Janeiro, 2/12/1986. (MC014_CECEF 16)

137
historiadores, documentalistas, advogados e jornalistas. Por conseguinte, a mobilização
de setores do Estado não foi pequena, tendo envolvido recursos humanos e financeiros
consideráveis, o que ratifica que o desejo de promover uma ampla participação popular
estava sendo compartilhado e estimulado naquele momento.
A esse respeito, é interessante lembrar que, nos anos 1980, a rede eletrônica
Internet não era um fato consolidado no Brasil, sendo antes uma novidade no campo da
comunicação, de uso bastante restrito na sociedade brasileira. 166 No entanto, entre todos
os serviços de teleinformática à época desenvolvidos pela EMBRATEL, o serviço
implantado em parceria com a Fundação Nacional Pró-Memória, viabilizando a
manifestação das pessoas e as consultas gratuitas a trabalhos da Assembleia Nacional
Constituinte, a partir de diferentes pontos do país, logo se tornou conhecido e muito
utilizado.167
Toda a documentação guardada no CPMC – relativa às suas atividades e às
atividades do CEC – permaneceria na Fundação Nacional Pró-Memória até 1990, ano
em que o órgão foi extinto e a documentação recolhida ao Museu da República. 168 A
incorporação desse conjunto ao acervo histórico de uma instituição museológica pública
lhe confere o reconhecimento oficial de patrimônio cultural. Porém nos parece claro
que, antes mesmo dessa “oficialização”, a formação desse conjunto documental era uma
ideia e um projeto que conduziam à sua monumentalização, para que fosse reconhecido
como patrimônio cultural da nação. Ou seja, o CPMC abrigou a intenção de construir
um “monumento/documento”, conforme sugere Jaques Le Goff (1990), e
“monumentalizar” uma narrativa daquele processo de reconstitucionalização
democrática, investindo para a perpetuação de uma determinada memória e identidade
política do país. 169

166
A criação da primeira rede pública de transmissão de dados brasileira data de 1985. Sobre o assunto,
ver BENAKOUCHE, 1997.
167
Ver, sobre o assunto, BENAKOUCHE, 1997.
168
A descrição dos documentos da Coleção Memória da Constituinte, constante dos instrumentos de
consulta do Arquivo Histórico do Museu da República, traz a seguinte informação sobre a origem
imediata da aquisição do acervo: “Segundo informações obtidas através de pesquisas na documentação do
Museu da República e de entrevistas com Francisca Helena Barbosa Lima, profissional da área de
documentação que trabalhou no CPMC, o acervo foi recolhido ao Museu da República em 1990.” Cabe
notificar que Francisca Helena Barbosa Lima é historiadora e trabalhou no CPMC como responsável pela
coleta, organização e difusão de todas as fontes e dados. Atualmente, ela é a coordenadora da
Coordenação de Acervos e Memória, subordinada à Coordenação Geral de Sistemas de Informação
Museal do Instituto Brasileiro de Museus.
169
Luciana Quillett Heymann (2009), no artigo “O indivíduo fora do lugar”, problematiza certas
designações arquivísticas clássicas aplicadas aos conjuntos documentais de natureza pessoal, que sugerem
que esses documentos são preservados pelo fato de expressarem ou comprovarem atividades
desenvolvidas regularmente pelos seus titulares, colocando em evidência um passado vivido. A autora

138
Tal perspectiva permite “desnaturalizar” a Coleção Memória da Constituinte,
percebendo-a como um esforço por estabelecer os traços singulares da memória política
do país. A formação dessa coleção, assim, operaria com um tipo de “enquadramento da
memória”, na acepção proposta por Michel Pollack (1989), conferindo determinados
sentidos à identidade nacional brasileira, a partir da exaltação da democracia e negação
de um Brasil autoritário. Para esse objetivo, o acervo é primoroso em documentar, não
só os trabalhos Constituintes realizados no âmbito formal das esferas de poder e dos
partidos políticos, mas também o engajamento da sociedade organizada na luta por
direitos e os anseios, expectativas e projetos políticos da população em geral face à
reconstitucionalização do país.
A Coleção Memória da Constituinte emerge como um instrumento para a
construção de um Brasil melhor, porque mais democrático (e como um dispositivo de
resistência ao autoritarismo), mostrando, como diz Heymann (2009, p. 56), que: “Nem
sempre a acumulação documental é reflexo de uma atividade passada; ela pode ser
função de uma ação projetada para o futuro.”

No Museu da República, foi dada à documentação o nome de Coleção Memória


da Constituinte,170 tratando-se, de acordo com a “Planilha de Informações Gerais” da
Coleção, de mais de vinte mil itens documentais. O plano de classificação desse
conjunto está baseado em três grandes séries e subséries temáticas, 171 conforme
indicado abaixo:

1- Série Comissão Provisória de Estudos Constitucionais


1.a- Plenário, comitês e seccionais
1.b- Sugestões da sociedade
1.c- Estrutura e funcionamento

pondera que a categoria “documentos pessoais” abrange itens que nem sempre refletem a trajetória ou
atividades de seus produtores, uma vez que existem também outras razões e usos para a acumulação de
documentos pessoais, que não dizem respeito ao seu valor como prova de uma atividade passada.
Referimo-nos aqui a esse estudo de Heymann – embora a Coleção Memória da Constituinte insira-se no
conjunto de arquivos institucionais, e não de arquivos pessoais – porque as análises nele desenvolvidas
nos foram bastante úteis na reflexão sobre o caráter de “arquivo-memória” da Coleção Memória da
Constituinte. Sobre o assunto, ver também FARGE, 2009, e HEYMANN, 2012.
170
A Coleção Memória da Constituinte encontra-se hoje aberta à consulta pública. Ela foi plenamente
organizada, entre os anos 2000 e 2002, pela competente arquivista e historiadora, além de colega de
trabalho excepcional, Jailza Sousa Queiroz. Entre 2007 e 2008, toda a Coleção foi digitalizada.
171
Uma compilação de definições das terminologias do fazer arquivístico, como “plano de classificação”,
“série” e “subsérie”, pode se encontrada no Dicionário Brasileiro de Terminologia Arquivística
(ARQUIVO NACIONAL, 2005).

139
2- Série Centro Pró-Memória da Constituinte
2.a- Assembleia Nacional Constituinte
2.b- Participação da sociedade
2.c- Enquetes, pesquisas e outras atividades
2.d- Inauguração
2.e- Gestão da informação
3- Série Recortes

A Coleção Memória da Constituinte, portanto, está integrada por registros dos


trabalhos da CEC, do CPMC e da ANC e também por registros da experiência de
participação política de populares, instituições e movimentos sociais brasileiros, no
período entre 1985 e 1988. A reunião desse material foi instruída, sem dúvida, com base
no reconhecimento de seu valor como acervo histórico e visando evitar a sua perda,
extravio e fracionamento. Deve-se lembrar, neste ponto, que a sociedade brasileira
vivenciava a superação de um período de ditadura que vigorara por mais de vinte anos
no país. Era, portanto, um momento de recriação de um Brasil democrático, em que as
pessoas pretendiam não mais se sentir coagidas por uma lógica autoritária e repressiva
de governo. Um momento de ampla mobilização política e de abertura para o exercício
da cidadania. Um “tempo político”, muito específico, que foi fixado e perpetuado pelo
trabalho de construção da Coleção Memória da Constituinte, que registra e valoriza esse
processo de participação ampliada da população brasileira. Joaquim Falcão, inclusive,
parece referir-se a esse ponto quando, na carta que escreveu a Afonso Arinos, citada
anteriormente, agradece o empenho da CEC para a cessão de seu acervo à FNPM: “A
Fundação Nacional Pró-Memória sente-se honrada em compartilhar com V. Excia deste
fundamental momento político em que cada um procura dar o melhor de si pela
democratização do país”. 172
Contudo, é importante não perder de vista que nem todos os documentos
produzidos e cartas enviadas a autoridades pela população, no período do processo
constituinte, compõem a Coleção Memória da Constituinte. Uma boa parte desse
material certamente não foi recolhida pelo CPMC. 173 Porém, tal realidade de forma

172
Trecho da carta de Joaquim Falcão a Afonso Arinos. Rio de Janeiro, 2/12/1986. (MC014_CECEF 16)
173
Uma evidência, por exemplo, é a documentação sobre o processo constituinte que compõe o arquivo
da Câmara Federal, que também inclui uma série de cartas enviadas pela sociedade às autoridades
políticas.

140
alguma minimiza a importância dos registros acumulados e reunidos no acervo ora em
estudo, em especial o conjunto referente às cartas remetidas pelos cidadãos comuns.

3.2. Escrever cartas

Reconstruir a longa trajetória histórica percorrida pela escrita epistolar extrapola


os limites desta pesquisa. Porém, apresentaremos aqui alguns comentários sobre esse
percurso, para melhor situar o conjunto de cartas que será analisado. Dentro desse
propósito, começaremos por destacar que o século XVII emerge, para o mundo
moderno ocidental, como um período decisivo de transformações na prática cultural de
escrever cartas.174 Se até então, escrever cartas era uma prática restrita e principalmente
envolvendo negócios públicos e privados, a partir de então, o campo epistolar começa a
ser explorado de muitas outras formas. Entre elas e com destaque para a comunicação
entre familiares e, principalmente, entre amigos ausentes, consortes dos “salões sociais”
etc. Os novos missivistas concebem suas correspondências como uma “conversa
social”, que se realiza por meio de uma escrita destituída de maior cuidado ou
compromisso com a eloquência mais formal, até então dominante. Assim, no século
XVII, a escrita epistolar passa a distinguir-se da prática cultural predominante desde o
início da Idade Moderna, quando a escrita de cartas conformava um domínio explorado
com os requintes da erudição, fundamentalmente por intelectuais e políticos. Nas
palavras de Tiago dos Reis Miranda (2000, p. 44):

Começara, o gênero [epistolar], a expandir-se logo no início da Idade


Moderna, como veículo de um projeto humanista. A ideia era assegurar o
convívio social através de comportamentos que todos pudessem aceitar e
decodificar. Rapidamente, esse princípio espalhou-se às mais diversas
atividades do cotidiano.

Escritas em um estilo mais leve, buscando refletir as ideias, projetos e humor de


seu autor, as cartas, a partir do século XVII, já não podem ser situadas no domínio da
erudição e das formulações teóricas humanistas. Elas se tornam uma prática do prazer e
do lazer; uma manifestação espontânea, ou seja, pretensamente sem artifícios, de
alguém que deseja se comunicar com outro alguém. Os novos missivistas escrevem sem

174
A apresentação deste tópico da tese beneficiou-se especialmente de DIAZ, 2002.

141
preocupações maiores com artifícios e ornamentos literários175 e sobre toda sorte de
assuntos por eles vivenciados. Como expõe Glória Carneiro do Amaral (2000, p. 26):

Relações familiares à parte, o que encontramos nessas cartas? A diversidade


e o fervilhar da vida, tal e qual, todos os seus aspectos despudoradamente
misturados [...]. Notícias, retratos, fatos: a vida e as intrigas da corte, indo do
grave acontecimento político ou diplomático às fofocas de bastidores (como
por exemplo, quem estendeu a luva à rainha); meditações religiosas; o ritmo
do correio [...]. Conversas domésticas da mãe que gaba o cozinheiro; que fica
constrangida por causa do jantar improvisado e pouco farto oferecido às
visitas de última hora; que conta o cardápio dos jantares a que vai [...]; que dá
receitas e palpites médicos; que comenta a moda [...]. E, claro e sobretudo, as
inevitáveis declarações de amor [...].

Por outro lado, essas cartas ordinárias comuns não poderiam se manter à
margem de um sistema epistolar. Como alerta Brigitte Diaz (2002, p. 14-15): “A carta
nunca é, literalmente falando, uma forma virgem, já que guarda na memória a
lembrança de seus estados anteriores”, 176 sendo preciso considerar que a tão exaltada
naturalidade epistolar, que começa a se consolidar no século XVII, estendendo-se à
alvorada do XVIII, desenvolve-se entre indivíduos experientes no hábito da leitura de
livros e na prática da escrita, de modo que a autonomia e improvisação de seus textos –
supostamente escritos “à sua maneira” e sem muitos cuidados – nasce dentro de uma
“memória textual”, que funda e abastece essa nova sociabilidade epistolar. Por estar
vinculada a um determinado domínio social, a carta conjuga valores estéticos próprios a
tal domínio, tornando-se uma arte de comunicação cuja “leveza e liberdade”
reproduzem expressões e lógicas comuns a seu meio social, desenvolvendo-se dentro
dos princípios de “boas maneiras” ali partilhados e consolidados. Deve-se ainda lembrar
que os correspondentes desse período integravam os círculos privilegiados da sociedade
e que a preservação de seus lugares sociais requeria que agissem em conformidade com
as normas de civilidade da época. As cartas constituíam, nesse sentido, uma espécie de
laboratório para o exercício estético em torno desse ideal de civilidade, ao mesmo
tempo afirmando-o e flexibilizando-o.
Porém, já nos séculos XVIII e XIX, cresceria o exercício de uma sociabilidade
epistolar reconhecida não somente como um espaço próprio à conversação social, mas
sendo também percebida e utilizada como o lócus privilegiado da “voz individual”: de

175
Paul Jacob (1946 apud DIAZ, 2002, p. 10) afirmaria, na obra Parfait Secrétaire, que as cartas
deveriam ser redigidas “sem outro ornamento nem outro artifício a não ser o dos discursos ordinários” (no
original: “sans autre ornement ni autre artífice que celui dês discours ordinaires”).
176
No original : “La lettre, elle, n’est jamais, littérairement parlant, une forme vierge, tant elle garde em
mémoire le souvenir de sés états antérieurs.”

142
sua “intimidade” e sensibilidade. Em distinção face à carta que servira, sobretudo, ao
convívio do indivíduo em sociedade, demarca outra possibilidade comunicativa. Ela
agora é suporte capaz de abrigar sentimentos mais profundos, sendo um lugar para
“burlar” imposições sociais mais rigorosas.
A partir do século XIX, o hábito da escrita epistolar amplia-se entre diversas
camadas sociais, beneficiadas tanto pelas novas oportunidades de alfabetização, que
acompanham a afirmação da ordem burguesa no mundo ocidental, como pela
modernização dos meios de transporte, o que Teresa Malatian (2009, p. 196-197)
descreve da seguinte forma:

O XIX foi também o século das correspondências, que se tornaram objeto de


coleção e mesmo uma moda, com a formação dos tesouros de autógrafos, que
atendiam o gosto antiquário. [...] Paralela à mais ampla alfabetização, ao
aumento do hábito de leitura e das práticas arquivísticas, a escrita de cartas
difundiu-se [...]. A melhoria dos serviços postais, decorrentes das inovações
dos meios de transporte como o trem e o navio a vapor, teve também sua
influência sobre a prática epistolar ao encurtar distâncias e agilizar contatos.

Segundo Ângela de Castro Gomes (2004b), a valorização de uma prática da


escrita marcadamente autorreferencial ocorreria em conformidade e ao longo do
processo de afirmação do indivíduo moderno, que é concebido como um cidadão dotado
de direitos/deveres, digno de reconhecimento político e social, independentemente de
lhe serem reputadas ou não qualidades excepcionais. Um processo que lança luz sobre a
dimensão “ordinária” da existência individual – e não mais exclusivamente sobre os
“grandes homens”, ditos representantes ilustres e notáveis das sociedades –, conduzindo
à valorização de todo o universo das ações relacionadas com a vida privada e cotidiana
dos indivíduos. A modernidade representaria, assim, um momento de redefinição do
lugar social dos indivíduos como seres únicos e singulares.
Nesse processo de afirmação do indivíduo como um valor que se distingue do
todo social, embora sendo dele constitutivo, ganha importância uma série de práticas
culturais relacionadas com a expressão de si e o registro de sentimentos e experiências
pessoais. Nas palavras da autora acima citada:

É o caso das fotografias, dos cartões-postais e de uma série de objetos do


cotidiano, que passam a transformar e povoar o espaço privado da casa, do
escritório etc. em um ‘teatro da memória’. Um espaço que dá crescente
destaque à guarda de registros que materializem a história do indivíduo e dos
grupos a que pertence. [...] os indivíduos e os grupos evidenciam a relevância
de dotar o mundo que os rodeia de significados especiais, relacionados com

143
suas próprias vidas, que de forma alguma precisam ter qualquer característica
excepcional para serem dignas de ser lembradas. (GOMES, 2004b, p. 11).

A carta será valorizada, sobretudo ao longo do século XIX, pela sua função de
“porta-voz da alma e da intimidade” do indivíduo. Se, no século XVII, ela era elaborada
com o propósito de estabelecer “conversas” sociais, tal sentido é deslocado para um tipo
de carta agora capaz de refletir o âmago das relações de um indivíduo consigo mesmo e
com os outros. As cartas se tornam momentos de acesso à intimidade, e de rejeição a
outras formas de discurso formais. Essas passam a ser reconhecidas como uma
“maquiagem”, a ocultar a “verdadeira” identidade do “eu”, que não existiria na
superficialidade e “dissimulação” dos discursos formais. O que se busca então nessas
cartas são as expressões e as impressões individuais mais íntimas, quer dizer, mais
“verdadeiras”, mais “profundas”.
A carta torna-se o lugar do exercício da reflexão sobre o próprio “eu” e, nesse
movimento, muitos escritores acabarão por reencontrar maneiras de fazer da carta um
lugar privilegiado para o exercício da reflexão pessoal sobre o mundo. Ou seja, passa-se
a postular, nas cartas, os princípios do viver em sociedade – exercício tão comum à
prática intelectual humanista –, porém sem retomar o uso da eloquência característica
daquela antiga forma de escrita e sem expressar qualquer preocupação maior com
códigos sociais mais constrangedores.
Sabemos que o século XIX marca o esforço de afirmação do estatuto de
cientificidade da História, sendo fixados determinados critérios e procedimentos
próprios à análise crítica das fontes de pesquisa histórica. Nesse momento, dentro da
nova sociabilidade que se estabelece com a difusão das práticas de “expressão de si”, as
cartas ganharão status de um “documento humano incontestável”, instrutivo na busca da
“verdade histórica”. 177 Obviamente isso não significa uma total independência das
práticas de expressão do “eu” em relação às formas de enquadramento social. Por certo,
o movimento que torna a dimensão privada da vida o eixo central da sociabilidade, é
também acompanhado da construção de novos códigos sociais a respeito do que seria a
“boa conduta” social no espaço privado, resultando que a prática epistolar também
seguirá modelos que controlam o que alguém deseja “revelar” sobre a sua intimidade. 178

177
Gustave Lanson (1895, apud PEYRE, 1965, p. 283) dirá que as cartas são documentos “incontestáveis,
os únicos documentos humanos” (no original: “Voilá les incontestables, les seuls documents humains”).
178
Sobre as cartas expressarem a intimidade do indivíduo, em conformidade com determinados códigos
da boa apresentação de si, ver PERROT, 2009b.

144
As cartas tornam-se textos híbridos, heterogêneos, multitemáticos e que, por
tudo isso, descortinam a natureza complexa e multifacetada do indivíduo singular. Não
haverá limites temáticos ou enunciativos que submetam esse novo escritor epistolar.
Adaptando-se a uma pluralidade de usos, as cartas fluirão, caracterizando o que Diaz
(2002, p. 40 e 65), chama de “pensamento nômade”: “Reflexão sobre si, sobre a cidade
ou sobre a literatura, que não poderia se satisfazer com os limites genéricos a ela
reservados habitualmente: memórias, romance, poesias, panfletos...”179 Ou seja, as
cartas percorrerão territórios que articulam diferentes temas, abordagens e formatos,
com uma desenvoltura capaz de driblar qualquer imperativo protocolar: “Tirando
proveito da feliz disposição da carta em ‘voar’, o escritor epistolar se autoriza a todas as
digressões, todos os registros, todas as posturas enunciativas. Sem temer a confusão dos
gêneros, mas, ao contrário, provocando-a”.180
Dentro da perspectiva histórica esboçada, temos que a noção de “pensamento
nômade” traduz muito bem o modelo epistolar que atravessa os séculos XIX e XX, e
convém que ela seja aqui referida, pelo que pode contribuir para uma boa compreensão
dos protocolos de comunicação presentes nas cartas da Coleção Memória da
Constituinte. Tais cartas são emblemáticas da “oficina de escrita” – fragmentos de
escrita, mosaicos de escrita – em que se pode transformar o campo epistolar. Com
poucas linhas ou muitas páginas (e todas as variantes entre esses dois polos), podem ser
lidas como documentos que trazem depoimentos sobre a realidade social do Brasil
daquele momento e sobre a escrita de cartas como forma de participação política. São
assim discursos que propõem sentidos e representações para o âmbito da vida social.
São igualmente relatos de vida; cartas de apresentação pessoal; sermões moralizadores;
esforços pedagógicos; manifestações de afeto e muito mais. Dessa forma, são registros
da mais ampla variedade de temas (alguns presentes em muitas cartas), que expressam
motivações e intenções igualmente diversas, incluindo pedidos, críticas, sugestões,
alertas, desabafos, além de múltiplas possibilidades de conexão entre essas formas de
ação. Constituem também um lugar de proposição de ações políticas e de busca de
diálogo com autoridades governamentais. Contudo, quando se valem de narrativas de
experiências pessoais, as cartas, invariavelmente, emprestam um forte sentido

179
No original : “[...] pensée de soi, de la cité ou de la littérature, qui ne saurait se satisfaire des enclos
génériques qu’on lui réserve habituellement : mémoires, roman, poésie, pamphlets...”.
180
No original : “Tirant profit de l’heureuse disposition de la lettre à ‘papillonner’, l’épistolier s’autorise
toutes les digressions, tous les registres, toutes les postures énonciatives. Sans craindre la confusion des
genres, mais au contraire en la provoquant”.

145
existencial aos “depoimentos” de seus autores. Do mesmo modo, estão repletas de
passagens poéticas e demonstram a imprecisão dos limites entre discurso político,
relatos de vida, formas artísticas etc., produzidos por homens “comuns”.
Pode-se afirmar que as cartas da Coleção Memória da Constituinte traduzem a
multiplicidade e inventividade do que se compreende aqui como “pensamento nômade”,
compondo um conjunto bastante diversificado de temas, formas e intencionalidades
comunicativas, que articulam uma estratégia forte de participação política do cidadão
“comum”, no Brasil dos anos 1980.

3.3. Cartas de uma coleção

As cartas da Coleção Memória da Constituinte são uma parte muito especial do


acervo. Elas constituem não só o registro de ações levadas a termo por instituições da
sociedade civil e movimentos sociais diversos, que enviaram cartas às autoridades
políticas no momento do processo constituinte como parte de uma estratégia política
maior, coletiva e organizada, que certamente envolvia outras ações além do envio das
cartas às autoridades. Essas cartas trazem também o registro de ações empreendidas
individualmente, por “pessoas comuns”, que, naquele momento de efervescência
política no país, tomaram a decisão de escrever diretamente às autoridades,
independentemente de quaisquer vínculos profissionais, pessoais ou de militância
política. Nesse sentido, o conjunto das cartas abre novas possibilidades para a análise
histórica, expressando pontos de vista particulares sobre a política brasileira e sobre
concepções de cidadania fundadas no valor da democracia. Igualmente importante, são
“indícios” da participação política do homem comum no processo constituinte
vivenciado no Brasil dos anos 1980, que nos dá acesso às motivações e circunstâncias
de tal participação. Tomar para análise esse conjunto de cartas é como ver, por meio de
um “olho mágico”, uma série de estratégias e opiniões individuais, dispersas e
desordenadas na sociedade. Oferece-se, assim, toda uma nova dimensão ao trabalho de
pesquisa, a dimensão da individualidade e sua imbricação no contexto social e político.
Apresentaremos, a seguir, algumas informações sobre o conjunto de cartas que
compõe a Coleção Memória da Constituinte, referentes ao volume e data dos
documentos, aos seus autores e destinatários, locais de onde as cartas foram enviadas e
tipos de suporte físico e de escrita. Foi com base nessas informações que delimitamos o

146
conjunto de cartas a ser objeto desta pesquisa para uma análise de conteúdo mais
aprofundada.

3.3.1. Volume e data

As cartas da Coleção Memória da Constituinte compõem um acervo de 5.245


documentos, escritos no período entre 1985 e 1988. Esse conjunto documental, se
examinado ano a ano, revela ritmos de produção desiguais, dependendo do ano em
pauta, conforme exposto no Quadro 1.

Quadro 1
Número de cartas da Coleção Memória da Constituinte,
por ano (1985 - 1988)
1985 976 18,7%
1986 1.905 36,3%
1987 1.936 36,8%
1988 14 0,3%
Não identificado 414 7,9%
Total 5.245 100%
Fonte: Coleção Memória da Constituinte/MR.

Como se vê, a produção dessas cartas tem início, com fôlego, em 1985, com
quase mil documentos, mas já atinge, em 1986/1987, 3.841 cartas. Em 1988, ano final
da Constituinte, o envio de cartas é praticamente irrelevante. Ou seja, a correspondência
entre os cidadãos e os políticos envolvidos com a Constituinte, perfazendo em torno de
92% do universo, situa-se entre 1985 e 1987.
As notações de data inserem as cartas em tempos históricos específicos,
partilhados tanto pelos missivistas quanto pelos destinatários, e, no caso do acervo aqui
em estudo, podem oferecer indícios sobre a importância de certas experiências sociais
para o estímulo à prática de escrever cartas aos políticos. Nesse sentido, é
compreensível a clara concentração de cartas em 1986 e 1987, por se tratar dos anos,
respectivamente, da eleição e da instalação da Assembleia Nacional Constituinte, ambos
eventos de grande apelo midiático e propulsores da intensificação das campanhas pró-
participação por todo o país. Algumas dessas cartas tratam, inclusive especificamente,
do tema da eleição dos membros da Assembleia Constituinte ou de seu status de
funcionamento, evidenciando o desejo dos populares de participar/influenciar nesses
processos. É o caso, por exemplo, da carta de Argemyro Pereira que, em 23 de setembro

147
de 1986, propõe ao presidente da República proibir a candidatura de religiosos à
Constituinte, “tais como: pastor, padre, sacerdote, presbítero e outros”, argumentando
que, de acordo com Jesus, “ninguém pode servir a dois senhores”. 181
Um exame mais apurado no tocante às datas das cartas, agora realizado mês a
mês, indica que ocorreram picos de produção nos meses de maio de 1986 e setembro de
1987. Além disso, o ano de 1985 começa com poucas missivas, mas a partir de julho
elas alcançam e se mantêm acima ou um pouco abaixo de 100 cartas por mês, o que
permanecerá em quase todos os meses de 1986. Já em 1987, entre abril e junho também
há muitas cartas, mas nada igual ao pico de 730 cartas ocorrido em setembro, com 288
cartas em outubro, praticamente fechando o ciclo. É esse movimento que se vê no
Quadro 2 e no Gráfico abaixo.

Quadro 2

Número de cartas da Coleção Memória da Constituinte, por mês (1985 - 1988)


Ano/Mês 1985 1986 1987 1988 Não Identificado
Janeiro 1 115 2 — —
Fevereiro — 72 8 — —
Março 17 77 52 1 —
Abril 38 141 171 — —
Maio 59 458 167 — —
Junho 78 297 246 1 —
Julho 180 170 61 5 2
Agosto 107 155 49 4 1
Setembro 142 73 730 — —
Outubro 154 35 288 — —
Novembro 89 119 1 — —
Dezembro 79 125 — — —
Não identificado 32 68 161 3 411
Totais 976 1.905 1.936 14 414
Fonte: Coleção Memória da Constituinte/MR.

181
Trechos da carta, manuscrita, de Argemyro Pereira ao presidente da República. Rio de Janeiro, RJ,
23/9/1986. (MC081_CECSUG 62-65)

148
Para uma compreensão do boom de missivas ocorrido em maio de 1986 e
setembro de 1987, chamam atenção dois eventos políticos relacionados com o processo
constituinte. Eles, com certeza, representaram momentos estimulantes para a prática de
envio de cartas às autoridades, evidenciando que a mobilização da sociedade civil,
empreendida e articulada a um momento específico do processo constituinte, foi uma
variável importante para esse tipo de participação política.
Em primeiro lugar, em 1986 teve início, como vimos, uma reorganização
político-administrativa dos plenários populares pró-participação, envolvendo a
redefinição de suas estratégias de ação em âmbito local, regional e nacional, bem como
a adoção de formas coordenadas de incentivo à participação política da população. Tal
esforço começa a se estruturar como fruto do grande descontentamento, no interior dos
movimentos sociais, causado pela aprovação da Emenda Constitucional nº 26, de 27 de
novembro de 1985, que determinou a convocação de uma Constituinte congressual no
país. Ou seja, frente à derrota da proposta de se instituir uma Constituinte exclusiva, os
movimentos sociais investiram em um maior diálogo com a população, preocupados
com a possibilidade de os candidatos ao Congresso não exprimirem os anseios
populares nos trabalhos constituintes.
Para dar novo fôlego às suas ações e ao objetivo de incentivar a participação
política do cidadão, foram empreendidas medidas de âmbito institucional, com a criação
da Secretaria Nacional de Intercomunicação e Serviços do Plenário Nacional e, logo
depois, em maio de 1986, a criação da Associação Brasileira de Apoio à Participação
Popular na Constituinte. Também em maio de 1986, o Plenário Nacional lançou o
projeto “O povo discute o Brasil”. Todas essas ações, como se viu, mas é bom lembrar,

149
envolveram larga distribuição de folhetos informativos e o comprometimento de artistas
e de figuras públicas de grande apelo. O envio de propostas populares aos governantes
era muito valorizado, a partir de novas estratégias que certamente influenciaram, não só
a favor do entendimento de ser importante estreitar o diálogo entre a sociedade e os
governantes, mas também para generalização de certo otimismo quanto a haver, no
Brasil, ambiência política e espaço social para tanto. São bons exemplos os trechos das
cartas abaixo, dirigidas ao presidente da República, sendo a primeira do interior de São
Paulo e a segunda de Brasília, ilustrando bem as diferenciadas formas pelas quais os
cidadãos queriam contribuir.

Este é o momento de se mobilizarem os órgãos de imprensa para captar as


opiniões e sugestões do povo para a nova Constituição. Sugestões que devem
ser discutidas na Assembléia Constituinte. Eu tenho algumas sugestões a
fazer: I- Eleições diretas para Presidente da República. II- Mandato
presidencial de quatro anos. III- Maior autonomia para os estados e
municípios, com a descentralização do poder [...].182

Gostaria de dar minha contribuição para a ‘CONSTITUINTE, primeiramente


oferecendo um esboço do mapa do “Brasil Constitucional”. [...] Sentir-me-ia
feliz se ele fosse aproveitado como capa da “Carta Magna”. Tenho também,
algumas leis e artigos que gostaria que se fizessem presentes na
CONSTITUIÇÃO. 1ª lei: saúde e educação é obrigatoriamente meta
prioritária do Governo Brasileiro.183

Já com relação ao expressivo número de cartas do acervo produzidas no mês de


setembro de 1987, deve-se ter em conta a data de entrega formal das emendas populares
à Assembleia Nacional Constituinte, em 12 de agosto de 1987. O evento, na verdade,
marcou o fim de um canal para o envio de sugestões da sociedade aos constituintes. Até
aquele momento, e desde a aprovação do instrumento das emendas populares,
sacramentada no Regimento Interno da Constituinte, muitas pessoas, em vez de enviar
cartas diretamente aos parlamentares, optavam por registrar sua assinatura em uma ou
mais emendas populares (no máximo três, conforme o Regimento). 184 Essa alternativa
deixa de existir após a entrega oficial das emendas em Brasília. Soma-se a isso que o
próprio ato público de entrega conjunta das emendas populares, largamente noticiado na
182
Trechos da carta, manuscrita, de Josué dos Santos ao presidente da República. Jacareí, SP, 14/5/1986.
(MC065_CECSUG167-170)
183
Trechos da carta manuscrita de Dirce Vasconcelos Nunes ao presidente da República. Brasília, DF,
21/5/1986. (MC065_CECSUG248-251)
184
A aprovação do instrumento das Emendas Populares, como visto, garantiu a possibilidade de qualquer
indivíduo apresentar emendas ao projeto de Constituição, contanto que subscritas por 30 mil cidadãos
brasileiros e referendadas por três entidades da sociedade civil. Cada indivíduo podia assinar três emendas
populares, no máximo. A entrega formal das emendas à Assembleia Nacional Constituinte, em 12 de
agosto de 1987, contabilizou em torno de 12 milhões de assinaturas, que subscreveram 122 emendas
populares. Sobre o assunto, ver MICHILES et al., 1989.

150
mídia, constituiu, em si, um momento emblemático de participação popular, que pode
ter funcionado como elemento estimulador para o envio de mais cartas às autoridades.
Após a entrega oficial das emendas populares, os jornais passaram a publicar
regularmente detalhes sobre o conteúdo das emendas, onde consultá-las, quais as
entidades que as patrocinaram e quem seriam os responsáveis por defendê-las na
Comissão de Sistematização da ANC. 185 O acompanhamento, pela população, do
noticiário diário sobre a entrega das emendas populares – potencialmente inspirador
para a decisão de envio de cartas aos governantes –, estimularia a elaboração e o
encaminhamento efetivo de cartas, explicando por que o mês de setembro de 1987
aparece, no acervo, como um momento particularmente propício para esse exercício
epistolar. Nesse sentido, inclusive, é interessante observar que a carta de Joaquim
Marinho de Araújo, do Rio de Janeiro, escrita ao CPMC, em 16 de setembro de 1987,
apresenta, ela própria, o formato de um projeto detalhado, com sete páginas, para ser
avaliado pelos constituintes. Vale a reprodução da página inicial e de um exemplo de
página ilustrada. A primeira tem o formato de uma “capa” de projeto, que o autor
intitula de “Jardinagem urbana como produção cultural”, e que teria por objetivo a
proposta de: “Isentar do Imposto de Renda os jardineiros que possuam acima de 50
vasos de plantas ou árvores frutíferas em área urbana.” A outra página destacada,
apresenta um modelo de “carteira de jardinagem cultural”, que o autor sugere seja
emitida pelo Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (IBDF), com validade de
um ano, para certificação daqueles que se inserissem na categoria de proprietários de
plantas ou árvores, a merecer isenção no imposto de renda. 186

185
Entre outros exemplos, ver: EMENDAS populares já têm seus defensores. Correio Braziliense,
19/8/1987; 559 CONSTITUINTES e 4 milhões de brasileiros emendam nosso país. Jornal da
Constituinte, 10-16/8/1987, capa; e DOSSIÊ. Jornal do Brasil, 9/9/1987, p. 3.
186
Primeira e sexta páginas da carta de Joaquim Marinho de Araújo ao CPMC. Rio de Janeiro, RJ,
16/9/1987. (MC024_CPMCSOC 416-422)

151
152
Porém, independentemente dos momentos de pico de produção de cartas, o
próprio conjunto, por inteiro, de 5.245 missivas escritas aos governantes pelos mais
diversos atores sociais brasileiros, durante os anos do processo constituinte, sem dúvida
guarda um valor incontestável de registro da participação política popular, com força
para despertar não somente o prazer da leitura, mas também o interesse pela história
política do Brasil.

3.3.2. Missivista e destinatário

Missivistas são os que “falam” nas cartas, os que tomam a iniciativa de escrevê-
las. Mesmo quando partilham com terceiros a elaboração da carta, são os que a assinam,
na primeira pessoa. São igualmente os que escolhem os temas que compõem as
mensagens e surpreendem pelas confissões, reclamações e desabafos etc. Autores dos
relatos de suas experiências, e não raro os seus protagonistas, costumam realçar
acontecimentos vividos, deixando ver que o domínio da representação de si é intrínseco
à prática epistolar, ocupando o status de “prova” quando se trata de participar
politicamente com sugestões e críticas.
Nas cartas aqui em estudo, há missivistas que podem ser considerados como
“institucionais” e também indivíduos – homens e mulheres – de todas as classes sociais.
Sobre este ponto, deve-se assinalar que não é possível identificar com precisão a
situação econômica de cada missivista. Porém, há alguns indícios – como a grafia e o
domínio da escrita, as apresentações de si mesmo e os relatos de vida presentes nos
textos –, que permitem supor que boa parte dessas cartas foi escrita por pessoas que
compunham os extratos menos privilegiados da sociedade. O seguinte trecho da carta
manuscrita de Deraldo P. da Cruz, que escreve à ANC em 4 de junho de 1987, é um
bom exemplo:
Ilmo. Srs. Autoridades. É uma grande honra poder comunica-los contigo.
Espero que esta ão de encontrar todos em plena felicidade. Sou um pai de
família, sou de idade, sou trabalhador e muito onesto. Estou lhe escrevendo
esta carta para faze-los um apelo, e espero que vocês estejam em disposição
para mim ajudar. Aqui onde moro eu trabalhei vários anos em uma fazenda, e
os meus patrões implicaram comigo, e mim mandou embora injustamente.
Nunca fiz nada de errado. E eles recusam a pagar os meus Direitos. Já faz
mais de um ano que eu venho tentando resolver no sindicato daqui, mais aqui
não tem jeito, o sindicato está mim enrolando. Pois aqui quem manda é quem
tem dinheiro. Aqui a lei é do mais forte. Faço um apelo a vocês, que mim
ajude, pois sou pobre, e preciso trabalhar pra sustentar meus filhos [...]. A
minha única esperança é vocês. Pois aqui ainda existe o coronelismo. Se

153
vocês não agirem os pobres vão morrer de fome e os ricos cada vez mais
rico.187

No exemplo, diferentemente de outras cartas, não há nenhum tipo de sugestão,


mas um doloroso pedido de ajuda, na tradição de cartas de pedido a autoridades
políticas. 188 Mas ele revela o alcance da mobilização realizada e o desejo/necessidade
do cidadão se comunicar politicamente. O esforço desses missivistas, como é claro e
emocionante no exemplo, é aproximar de si e de seu texto alguém que está distante (o
político, a política mesmo) física e socialmente, buscando romper uma condição
indesejada de afastamento do espaço público, vivido até então como restrição. 189 Como
reconhece Maria Helena Pereira, em carta enviada a Afonso Arinos, em 6 de junho de
1986, em seu preâmbulo: “Inicialmente, quero agradecer-lhe esta oportunidade de
qualquer um de nós brasileiros podermos escrever-lhe a respeito de uma ou mais
possíveis sugestões a nossa futura Constituição”.190
Os missivistas escrevem cartas, cujo horizonte – no tempo e no espaço – é o
destinatário. As cartas se dirigem a alguém; são para alguém receber. Para que chegue
às suas mãos alguma ideia, informação, pedido ou crítica, enfim, alguma mensagem vai
orientá-las. Devem ser lidas pelos destinatários e, em princípio, por mais ninguém,
podendo, portanto, ser interpretadas como um ato de comunicação a distância, em que o
missivista vai a um encontro imaginado, como um viajante, vencendo a separação ou
ausência que impede o contato face a face, que se materializa no texto escrito. O
destinatário é o leitor que o missivista deseja mobilizar sobre si ou sobre a parte de si
mesmo que lhe entrega através da carta.191 No entanto, há também quem pondere que o
destinatário é tão somente o álibi do missivista, que, embora convocando um receptor
para sua carta, de fato escreveria para si mesmo, para encontrar-se consigo mesmo.192
Naturalmente, tais alternativas não são excludentes, podendo-se pensar que o missivista
se encontra na carta, consigo mesmo e com seu destinatário, pela prática da escrita.

187
Trecho da carta manuscrita de Deraldo P. da Cruz à ANC. Salinas, MG, 4/6/1987.
(MC024_CPMCSOC 134-136)
188
As cartas de pedidos às autoridades serão objeto mais detalhado de análise no capítulo 4.
189
Ângela de Castro Gomes (2004b, p. 20) chama atenção para a existência, na prática epistolar, não só
da distância espacial e temporal entre autor e destinatário da carta, mas, também, da distância entre o
momento de narração dos fatos nas cartas e o momento da ocorrência concreta desses mesmos fatos
narrados, e ainda a distância entre a produção da carta e o reconhecimento do seu valor.
190
Trecho da carta manuscrita de Maria Helena Pereira enviada a Afonso Arinos. Rio de Janeiro, RJ,
6/6/1986. (MC066_CECSUG 57-60)
191
“Ir! – Ir! – Ir eu próprio, deslocar-me em pessoa, viajar, ser meu próprio mensageiro, partir, em poucas
horas chegar, tudo numa vertigem de transferência comunicativa!” (CASTRO, 2000, p. 16).
192
Ver, por exemplo, ROUSSET, 1986, e DIAZ, 2002.

154
No caso específico do acervo aqui em exame, os missivistas endereçam suas
cartas a uma autoridade política, esperando influenciá-la com seus enunciados,
persuadindo-a a atuar politicamente na direção que consideram a mais conveniente.
Podem também esperar um retorno ou um benefício, relacionado com o que pensam e
com o que propõem. Assim, em 27 de agosto de 1986, o mineiro Raymundo Silva de
Oliveira escreve ao presidente da República, recorrendo a um tom suplicante e
assumindo o lugar de uma pessoa que atravessa profundas carências em relação às
condições básicas de vida: “Senhor presidente, o senhor que se interessa pelos pobres,
eu peço [...] que se interesse por mim e outros que estejam na mesma situação porque
do jeito que está não está dando para comer.”193 E Murilo Gentil Porto escreve, de
Fortaleza, para Afonso Arinos, no dia 5 de junho de 1986, comentando que “apesar de
haver feito diversas cartas à alguns políticos sem obter resposta, com a V. Excia. não
aconteceu isso. V. Excia. respondeu-me agradecendo a sugestão para a nova
constituinte”.194 Ou seja, o missivista dá continuidade à correspondência, confiando que
o diálogo por carta é um meio de buscar influenciar na Constituinte, e evidenciando que
também havia respostas dos parlamentares, o que alimentava a cadeia da prática
epistolar. Missivista e destinatário são dois polos do território epistolar, ligados e se
retroalimentando. Contudo, nenhum dos dois controla completamente os possíveis
destinos e desdobramentos das cartas: elas podem ser ignoradas, atendidas em seus
propósitos ou, simplesmente, respondidas, o que – como se vê – já representa em certos
casos retorno suficiente para um remetente se sentir valorizado e participante.
Na Coleção Memória da Constituinte, definimos inicialmente dois grupos de
cartas com base em tipos de missivistas. De um lado, o grupo de cartas escritas em
nome de uma instituição, movimento social, órgão de governo, associação, entidade
civil, ou mesmo um coletivo de pessoas que partilham, informalmente, de uma
identidade como grupo social. Esse conjunto de cartas foi denominado cartas de
coletivo. De outro, reunimos as cartas escritas por uma pessoa singular que expressa
“suas” ideias, apresentando-as como parte de reflexões e valores de suas vivências. Esse
grupo de cartas foi denominado cartas pessoais. Conforme indicado no Quadro 3, a
distribuição foi a seguinte:

193
Trecho da carta de Raymundo Silva de Oliveira ao presidente da República. Belo Horizonte, MG,
27/8/1986. (MC077_CECSUG 327-328)
194
Trecho da carta manuscrita de Murilo Gentil Porto a Afonso Arinos. Fortaleza, CE, em 5/6/1986.
(MC077_CECSUG 296-297)

155
Quadro 3

Cartas da Coleção Memória da Constituinte


Grupos de missivistas
Cartas de coletivo 1.577
Cartas pessoais 3.668
Total 5.245
Fonte: Coleção Memória da Constituinte/MR.

O expressivo volume de cartas pessoais, sendo – do ponto de vista do número de


cartas (e não de missivistas) – o dobro das cartas de coletivo, indica, a nosso ver, que,
embora o momento constituinte tenha sido um período em que as iniciativas de
organização para a participação política ganharam muita força, tais iniciativas acabaram
por “transbordar” na sociedade, sendo assimiladas pelos indivíduos de modo geral. A
ideia de participar da política passa a ambientar a vida cotidiana das pessoas, indo além
de seus grupos de inserção, e contribuindo para a tomada de decisão de fazê-lo “por
conta própria”. Como os números atestam, muitas pessoas decidem escrever cartas às
autoridades, considerando, consciente ou inconscientemente, que sua ação individual
tem valor social.
Além disso, observando-se apenas as cartas pessoais, verifica-se uma
desproporcionalidade entre os seus missivistas, se considerados por gênero,195 conforme
resume o Quadro 4.

Quadro 4

Cartas pessoais – missivistas por gênero


Coleção Memória da Constituinte
Homens 2.278 62,1%

Mulheres 945 25,8%


Ambos 158 4,3%
Sem Identificação 287 7,8%

Total 3.668 100%

Fonte: Coleção Memória da Constituinte/MR.

195
Neste ponto, circunscrevemos o objeto de análise ao grupo de cartas pessoais porque as cartas de
coletivo são assinadas por pessoas jurídicas. Evidentemente o número de indivíduos abarcado pelas cartas
de coletivo pode ser maior do que o representado pelas cartas pessoais: o que está sendo considerado aqui
é o número de cartas.

156
O fato de a participação feminina, entre as cartas pessoais da Coleção Memória
da Constituinte, ser menor do que a participação masculina remete a algumas
considerações sobre a prática social da escrita epistolar, que enfatizam a existência de
diferenças históricas entre os papéis sociais vivenciados, no dia a dia, por homens e
mulheres. É somente no século XVII que a presença de mulheres missivistas se faz
sentir em maior extensão no mundo da escrita de cartas,196 quando o campo epistolar
deixa de pautar-se, privilegiadamente, pela praxe da eloquência e da erudição,
consagrada à época do humanismo, tornando-se uma forma escrita de “conversação”,
mais palatável e acessível a todos aqueles educados na arte de escrever. A partir de
então, as mulheres missivistas terão lugar privilegiado no domínio da prática privada da
correspondência, do mesmo modo que serão numerosas na escrita de diários. 197 Isso
acaba por inspirar algumas formulações estereotipadas sobre uma suposta excelência e
predisposição das mulheres para um tipo de escrita moldada por uma forma de
expressão dita mais delicada, sensível e repleta de encantos, porém despida de qualidade
literária, e que se afirmaria como um contraponto à escrita masculina, mais
intelectualizada.198 Ou seja, as mulheres seriam “naturalmente sensíveis” em suas cartas
e, supostamente, também mais inconsistentes e refratárias ao mundo culto das ideias. 199
No entanto, Brigitte Diaz (2002) lembra, com muita propriedade, que mais pertinente do
que considerar que o padrão de escrita de cartas desenvolvido a partir do século XVII,
no mundo ocidental, reflete a natureza – ou a alma – feminina, seria perceber que a
afirmação da prática social privada da correspondência representou uma abertura para a
sua “feminilização”, e que as mulheres que desejavam escrever recorreriam, com
frequência, ao gênero epistolar, nos dois séculos seguintes, acompanhando as novas
oportunidades de acesso à alfabetização. Ainda a esse respeito, Fritz Nies (1978 apud
DIAZ, 2002, p. 19) demonstrou que, no século XVII, somente 2% dos autores que
assinam uma obra em que figura a palavra “carta” eram mulheres.

196
Sobre o assunto, ver DIAZ, 2002.
197
Sobre a consolidação dos diários pessoais como prática social adotada com entusiasmo por mulheres,
ver CUNHA, 2009.
198
Apontando as permanências na História, vale lembrar as palavras de Plínio Salgado, em conferência
intitulada “A mulher no século XX”, em 1946: “A faculdade perceptiva feminina é mais aperfeiçoada que
a do homem. Daí seu papel na educação do próprio homem” (apud POSSAS, 2004, p. 275-276).
199
Louis Philipon-de-la-Madeleine (1823 apud DIAZ, 2002, p. 13) explicaria o dom feminino para a
escrita de cartas pela “suavidade na qual [as mulheres] são criadas, que as torna mais próprias a sentir do
que a pensar” (no original: “cette mollesse ou elles sont élevées, qui les rend plus propres à sentir qu’à
penser”). Diaz oferece, na mesma obra, vários outros exemplos de escritores e escritoras de cartas,
contemporâneos aos séculos XVIII e XIX, que assumem a representação de que as mulheres escrevem a
partir do sentimento e da imaginação, nunca a partir da reflexão e do conhecimento.

157
A incursão no campo epistolar teria sido, portanto, uma etapa inicial para as
mulheres adentrarem ao mundo da escrita; um primeiro elo entre o espaço restrito da
família e a cena pública, à qual, por muito tempo, até o recente século XX, foi ocupada
por homens. Tal perspectiva é também expressa por Ângela de Castro Gomes (2004b, p.
9), quando aponta que “por questões de constrangimento social [as mulheres] tiveram
seus espaços de expressão pública vetados, restando-lhes exatamente os espaços
privados, entre os quais os de uma escrita de si”.
O acervo aqui em exame é sem dúvida um exemplo de que as mulheres
“comuns”, contra todos os clichês e constrangimentos, procuravam, no Brasil dos
últimos anos do século XX, alcançar um papel de agentes históricos ativos, endereçando
cartas a autoridades políticas. Porém, ainda é o homem que aparece, maciçamente,
como o missivista mais presente, como o sujeito político privilegiado na interação com
o âmbito público da política.200
No que diz respeito aos destinatários das cartas, todas foram enviadas a
autoridades ou órgãos políticos que, no conjunto, compõem um painel amplo e variado
de autoridades-destinatários. Para uma sistematização, identificamos dez categorias de
destinatários, conforme indicado no Quadro 5, distribuídas em dois grandes grupos: 1) o
grupo de destinatários nomeados coletivamente: Assembleia Nacional Constituinte –
ANC; Comissão Provisória de Estudos Constitucionais – CEC; Centro Pró-Memória da
Constituinte – CPMC; governos estaduais; e entidades civis; 2) o grupo de destinatários
indicados individualmente: o presidente da República; o presidente ou o membro tal da
ANC; o presidente ou o membro da CEC; o ministro X; o profissional da área jurídica.
Além desses, há cartas que combinam mais de um entre os destinatários citados e, por
fim, há algumas cartas nas quais não é possível a identificação do destinatário.

200
Para uma visão sobre as diferenças de participação entre homens e mulheres na esfera pública
brasileira, ver SALEM, 1981.

158
Quadro 5

Destinatários das cartas da Coleção Memória da Constituinte


Destinatário Qtde.
ANC (inclui também: Congresso Nacional; Senado
Federal; Câmara Federal; deputados constituintes; 849
bancada do PL)
CEC 243
CPMC (inclui também uma carta à coordenadora do
Coletivo 209
CPMC)
Governos estaduais 1
Entidades civis 6
Total – destinatário coletivo 1.308
Presidente da República (inclui também cartas à 1.018
Presidência da República e ao Governo Federal)
Presidente da ANC; deputado constituinte; deputado
1.271
federal; senador constituinte ou senador federal
Presidente da CEC e membros específicos da CEC 930
Individual
Ministros (inclui cartas aos respectivos Ministérios) 556
Profissionais específicos da área jurídica 3

Total – destinatário pessoal 3.778

Vários
Vários Destinatários 19
Destinatários
Sem
Sem Identificação 140
Identificação
Total 5.245
Fonte: Coleção Memória da Constituinte/MR.

Obs.: No grupo “coletivo”, além das cartas endereçadas diretamente à Assembleia Constituinte,
foram incluídas na classificação “ANC” as cartas endereçadas ao Congresso Nacional (3), Senado
Federal (3), Câmara Federal (1), aos deputados constituintes (23) e à bancada do PL (2). Por outro
lado, uma única carta endereçada à coordenadora do CPMC foi incluída junto às cartas ao CPMC.
No grupo “individual”, uma única carta endereçada ao Governo Federal, foi incluída junto às cartas
enviadas ao “presidente ou Presidência da República”.

Como se vê no Quadro 5, o número de cartas enviadas a uma autoridade


específica (3.778 cartas) é quase três vezes maior do que o número de cartas enviadas a
um coletivo (1.308 cartas).201 Além disso, o fato de só o presidente da República,
individualmente, ter recebido 1.018 cartas remete ao peso da mística presidencial em
nossa cultura política. De fato, a História do Brasil coleciona passagens de culto a
presidentes da República, deixando ver que a figura do chefe de Estado tem lugar de

201
Não foram contabilizadas neste caso as 140 cartas com destinatário não identificado e as 19 cartas
enviadas a mais de uma autoridade.

159
destaque no imaginário político nacional, como representação de poder.202 Em nossa
República, o presidente encarna pessoalmente a nação, diferentemente do Congresso.
Não surpreende, portanto, que José Sarney, a quem não se pode atribuir um tipo de
liderança carismática, apareça, no acervo, como o destinatário isolado, com maior
número de cartas recebidas.

3.3.3. Local de origem

No acervo em estudo, há cartas provenientes de todas as regiões e estados


brasileiros, com a única exceção do estado do Acre. 203 Tal alcance territorial da
iniciativa de envio de cartas aos governantes sinaliza que, naquele momento do
processo constituinte, fez-se disseminar por todo o país – e, portanto, entre pessoas que
experimentavam tipos de inserções espaciais muito diferenciados – certa forma de viver
a política, de tal maneira que o “diálogo por carta” com as autoridades afirmou-se como
recurso comunicativo comum e recorrente em escala nacional.
De fato, uma sistematização dessas cartas informa, conforme exposto no Quadro
6, que elas partiram de todas as regiões do país.

202
Entre outros exemplos, ver GOMES, 2005; GOMES; FERREIRA, 2007; e MARCELINO, 2010.
203
Vale lembrar que a ausência, na Coleção Memória da Constituinte, de cartas provenientes do Acre não
significa que inexistiram cartas do Acre para a Constituinte, mas sim que elas não constam na Coleção
aqui analisada. O estado do Tocantins não foi considerado nesta análise, pois sua criação foi aprovada
somente em 1988, pela Assembleia Nacional Constituinte, e seu primeiro governador, José Wilson
Siqueira Campos, só tomou posse em 1º de janeiro de l989.

160
Quadro 6

Coleção Memória da Constituinte – Local de produção das cartas


NORTE CENTRO-OESTE
Amapá 5 Goiás 69
Amazonas 20 Mato Grosso 17
Rondônia 12 Mato Grosso do Sul 35
Roraima 5 Distrito Federal 107
Pará 46 Total - Centro-Oeste 228
Total - Norte 88
SUDESTE
NORDESTE Espírito Santo 113
Maranhão 10 Rio de Janeiro 742
Piauí 6 Minas Gerais 287
Ceará 42 São Paulo 918

Rio Grande do Norte 22 Total - Sudeste 2.060

Paraíba 28 SUL
Pernambuco 116 Paraná 228
Alagoas 39 Santa Catarina 217
Sergipe 6 Rio Grande do Sul 1.578
Bahia 293 Total - Sul 2.023
Total - Nordeste 562 Não identificados 284
PAÍS = 5.245
Fonte: Coleção Memória da Constituinte/MR.

Observa-se, contudo, que, embora abarcando todas as regiões e estados do


Brasil, as cartas provenientes do Sudeste e do Sul representam 78% do número total de
cartas (ou 4.083 cartas), enquanto a soma das cartas provenientes do Norte, Nordeste e
Centro-Oeste representam 17% do total (ou 878 cartas). O volume maior de cartas,
portanto, provém das regiões economicamente mais ricas e culturalmente mais
desenvolvidas do país.
A análise quantitativa das cartas, do ponto de vista territorial, deixa ver ainda
que a motivação de enviar cartas aos governantes ecoou em cidades grandes e de médio

161
porte, mas também em sítios pequeninos e longínquos do país, 204 conforme resumido no
Quadro 7.

Quadro 7

Coleção Memória da Constituinte


Capitais/Outras cidades
Capitais 2.958 56,4%
Outras cidades 1.956 37,3%
Sem identificação 331 6,3%
Total 5.245 100%

Fonte: Coleção Memória da Constituinte/MR.

O envio de cartas a partir de cidades pequenas, distantes das capitais dos estados,
mesmo que com um peso muito menor, é um indicador contundente da abrangência e
força de mobilização das campanhas desenvolvidas e de como a população
experimentava aquele momento como algo especial na vida política do Brasil. Como
mostra o Quadro 7, se as cartas procedentes de capitais de estados brasileiros somam
um total de 2.958 missivas, por outro lado não é inexpressivo o montante de 1.956
missivas que provêm de outras cidades do país. 205

3.3.4. Materialidade das cartas

Os suportes materiais que servem à escrita de cartas são, sem dúvida,


indicadores das possibilidades oferecidas pelo mercado, em um dado momento histórico
e localidade. Mas eles também demonstram as estratégias criadas pelos missivistas; em
especial, pode-se aventar, aqueles com baixo poder aquisitivo.
Tal como os textos que abrigam, os suportes das cartas nos dão vários indícios
sobre a sociedade em que são produzidos e utilizados. Eles se articulam com os textos,
sendo parte da mensagem, indicando igualmente que as cartas são um objeto material de
investimento do missivista, que se articula, mas também se diferencia do conteúdo que
anuncia. No acervo em estudo, foi possível caracterizar sete tipos distintos de suportes
físicos, aqui nomeados, respectivamente, de: 1) papel de carta; 2) papel timbrado; 3)

204
A título de exemplo, citamos, entre várias outras cidades: Nova Olinda do Norte, no Amazonas;
Coroatá, Açailândia e Anapurus, no Maranhão; Silvânia e Aragarças, em Goiás; e Bossoroca e Campina
das Missões, no Rio Grande do Sul.
205
Para um grupo de 331 cartas, contudo, não foi possível identificar a cidade de origem.

162
telegrama; 4) telex; 5) formulário impresso; 6) suporte digital; e 7) diversos. No Quadro
8 é apresentado um resumo indicativo das proporções de cada suporte no conjunto do
acervo.

Quadro 8

Coleção Memória da Constituinte – Suportes das cartas


Papel de carta 1.563 29,8%
Papel timbrado 1.038 19,8%
Telegrama 432 8,2%
Telex 145 2,8%

Formulário impresso 341 6,5%

Suporte digital 1.723 32,9%

Diversos 3 0,1%

Total 5.245 100%

Fonte: Coleção Memória da Constituinte/MR.

A maior quantidade de cartas apresenta-se em suporte digital, representando


praticamente 33% do conjunto, com 1.723 documentos. São mensagens processadas por
meio digital, com formatos equivalentes e estrutura resumida, editadas a partir de
tratamento informatizado próprio para serem enviadas à Assembleia Nacional
Constituinte, mediante o uso de computadores. Como vimos, esses computadores eram
operados por profissionais do CPMC, pelo serviço de transmissão de dados que o
Centro implementou em suas sete filiais, possibilitando à população obter informações
sobre os debates e o andamento dos trabalhos constituintes, bem como se manifestar
sobre a Constituinte, enviando mensagens. O maior volume desse suporte, no acervo, é
um forte indício da boa aceitação, pela população, do serviço oferecido pelo CPMC e de
seu papel estratégico na campanha pela participação política dos cidadãos.
Também em número expressivo, há 1.563 missivas escritas em papel de carta,
que consideramos aqui ser aquele de uso convencional para a escrita à mão. Ele tanto
pode ser o papel de carta padrão, de vários tipos, quanto papéis adaptados para tal uso,
como folhas de caderno, folhas ofício e folhas de blocos diversos, que consideramos
compatível com a classificação.
Há ainda 1.038 cartas escritas em papel timbrado – apresentando o timbre
identificador de seu emitente –, além de 432 telegramas e 145 telexes. Em formulário
impresso, constam 341 cartas. Como já vimos, tais formulários, de diferentes tipos,

163
foram disponibilizados à população pelo Senado Federal, pelo CPMC e também por
alguns movimentos sociais. Além de serem distribuídos em campanhas de rua, podiam
ser obtidos nas sedes do Senado Federal e do CPMC, em agências dos Correios de todo
o país e em algumas igrejas, escolas e instituições diversas. Em comum, todos os
formulários oferecem espaço para preenchimento de dados como nome, profissão, data,
e mensagem principal. Via de regra, foram produzidos tendo em vista a realização de
pesquisas de opinião ou facilitar/intermediar o diálogo entre os cidadãos e a Assembleia
Nacional Constituinte. Após serem preenchidos, os formulários eram devolvidos aos
pontos de distribuição e recolhidos pelo órgão de governo ou movimento social que
faria a mediação de seu envio à ANC.
Finalmente, há no acervo três cartas escritas em suportes que, à primeira vista,
podem parecer improváveis para o exercício epistolar, mas que foram aproveitados para
tal uso. Essas cartas foram escritas, respectivamente, em um “santinho”; em um
formulário para pedido de materiais administrativos; e em um marcador de livro. Tais
suportes não constituem papéis de carta, mas também não poderiam ser classificados em
quaisquer das outras modalidades aqui identificadas. Optamos, então, por reuni-los em
um grupo que denominamos “diversos”. Vale registrar que esse “desvio de função”,
verificado nesses suportes da coleção, nos permite supor que a falta de folhas de carta
padrão não chegou a representar um limite intransponível para missivistas que, valendo-
se de alguma inventividade, ou simplesmente de suas possibilidades efetivas, não
deixaram de participar, enviando às autoridades suas cartas.

3.3.5. Meios de escrita

As cartas da Coleção Memória da Constituinte apresentam três modalidades


distintas de escrita, conforme indicado no Quadro 9.

Quadro 9
Coleção Memória da Constituinte
Modalidades de escrita das cartas
Manuscrita 747 14,2
Datilografada 2.198 41,9
Digitada 2.300 43,9

Total 5.245 100%

Fonte: Coleção Memória da Constituinte/MR.

164
O maior volume é o das cartas digitadas (2.300 cartas), o que confirma a
avaliação de que a disponibilização de computadores à população foi uma medida bem-
sucedida. O segundo maior volume é o das cartas datilografadas (2.198 cartas), o que
talvez esteja relacionado, de um lado, com a tradição de se recorrer a certa formalidade
nos atos de comunicação com as autoridades políticas; de outro, ao fato de existirem
muitas cartas enviadas por associações etc., que tinham máquinas de escrever a sua
disposição. Já as cartas manuscritas, que certamente asseguram uma marca mais pessoal
ao ato epistolar, representam o menor volume de cartas (747 cartas). Menor, mas
expressivo, pois se trata de quase 15% do conjunto.
Assim, examinado por inteiro, o acervo abarca desde cartas manuscritas,
passando por cartas elaboradas em máquinas de datilografia até cartas digitadas,
também a partir de um teclado, mas tendo em vista inserir dados em um processador
mecânico ou eletrônico – computadores e telégrafos –, e transmitir mensagens à
distância. Um leque variado de opções, mostrando que a produção dessas cartas
mobilizou pessoas com diferentes recursos e estilos, inserindo-se de modos
diferenciados no mundo da escrita de cartas.

3.3.6. Amostra de cartas da análise

Com base na identificação preliminar do volume, data, tipo de missivista e


destinatário, suporte e meio de escrita das cartas da Coleção Memória da Constituinte,
estabelecemos alguns parâmetros para o recorte do conjunto que será analisado em
maior detalhe, delineando direções e contornos mais precisos para a pesquisa.
Do ponto de vista do recorte temporal, valerá, como perspectiva de estudo, todo
o período de abrangência das cartas do acervo, compreendido entre os anos de 1985 e
1988. Utilizaremos também exemplos da totalidade do universo no que se refere aos
seus locais de procedência e aos seus destinatários. Contudo, optamos por focalizar
exclusivamente as cartas pessoais, isto é, escritas por indivíduos que tomaram a
iniciativa de participar do processo constituinte, enviando suas cartas às autoridades.
São cartas, portanto, que não contaram com a estrutura de apoio material e logístico
que, de modo geral, os movimentos sociais, organizados coletivamente para a
participação política, possuem.
Também selecionamos, neste recorte, as cartas escritas nos suportes que aqui
chamamos de “papel de carta” e “diversos”, não enfrentando as cartas enviadas por

165
meio de computadores ou a partir de formulários colocados por terceiros à disposição
do público. Descartamos também, para efeito da análise, as cartas enviadas em papel
timbrado, que explicitam ou deixam ver, no próprio suporte documental, algum tipo de
vínculo ou representação profissional do missivista. Por fim, não serão analisadas as
mensagens enviadas por meio de telegrama e telex, por constituírem um tipo de
correspondência que envolve suportes que, por um lado, não demandam que o próprio
autor da carta efetue diretamente a escrita de seu texto, e, por outro, são limitadores, do
ponto de vista do espaço disponível para a expressão de ideias, exigindo que o
missivista organize sua mensagem com um número limitado de palavras. Nossa opção,
portanto, é privilegiar a análise das cartas que, em princípio, foram escritas com base
em iniciativas de ordem estritamente individual e que possuem o número de páginas que
pareceu, aos missivistas, ser o mais conveniente para expressar seus interesses e ideias.
Optamos, por último, por concentrar nossa análise nas cartas manuscritas,
acreditando que os sujeitos da escrita se dão mais a ver por intermédio de sua caligrafia.
Tais cartas são muitas vezes desafiadoras para a compreensão, mas ao dispensar as
tecnologias desenvolvidas para tornar a escrita mais rápida ou mais impessoal, podem
permitir um trabalho mais rico do ponto de vista da observação dos “modos de
expressão individual” do missivista. A carta manuscrita de Ana Maria Camargo, de 18
de junho de 1987, ilustra muito bem esse entendimento, do compromisso pessoal de
participar do momento constituinte, quando diz: “Como sou brasileira, não posso deixar
de mandar minhas ideias para a constituinte tão importante que está para chegar e
escrevo esta de próprio punho para que seja bem verdadeira.”206 A “verdade” pela mão
da missivista – a verdade de sua caligrafia – é posta como uma certificação do valor e
da autenticidade de sua intenção de colaborar pessoalmente na Constituinte. 207
Escrevendo com a própria mão, o missivista deixa, em sua carta, vestígios fiéis de si
mesmo, dando provas materiais e verossímeis de que tomou seriamente a iniciativa de
participar da Constituinte.
Sem dúvida, a caligrafia é uma forma própria e singular de escrita, envolvendo
múltiplos estilos, que se articulam aos contextos sócio-históricos em que são
produzidos. Desse modo, a maneira como as pessoas escrevem designa um tipo de
“cultura gráfica”. Não raro, diversidades nas formas pessoais de escrita refletem outra

206
Trecho da carta de Ana Maria Camargo. Destinatário não identificado. São Paulo, SP, 18/6/1987.
(MC024_CPMCSOC 81-82)
207
Sobre a construção de discursos como depoimentos “verdadeiros”, ver LACERDA, 2000.

166
diversidade, tocante às condições concretas de vida dos indivíduos. Sabemos que,
infelizmente, a competência escriturária, nas sociedades humanas, não se constituiu de
forma abrangente como um domínio de palavras, códigos e signos que todos possam
compreender. Ao contrário, ela se estabeleceu a partir de um determinado padrão de
instrução culta com limitados canais de acesso, sendo, na verdade, ainda inalcançável
para um grande número de indivíduos no Brasil. Assim, a habilidade de escrever não é
comum à maioria dos brasileiros. O não domínio da escrita ou seu pouco domínio é
mais comum entre os indivíduos que não cursaram boas escolas e que, no dia a dia de
sua vida e de seu meio profissional, não se utilizam desse meio de comunicação. O texto
manuscrito, portanto, expõe não apenas o maior ou menor conhecimento linguístico de
quem escreve, como evidencia aspectos de sua identidade social. O campo de
possibilidades que se abre para cada indivíduo em relação à escrita manuscrita tem a ver
com sua formação educacional, sua experiência de vida, seu ambiente cotidiano etc. A
mão do missivista quando escreve, “fala” sobre quem ele é.
A constituição da escrita culta, desse modo, acaba por fixar uma forma de
desigualdade social, fundada nas diferenciadas oportunidades de acesso ao aprendizado
da escrita. Ela reforça o prestígio no interior das sociedades, ressaltando os indivíduos
bem situados, que não encontraram restrições econômicas, políticas ou sociais maiores.
Ao mesmo tempo, tal modelo de escrita desvaloriza e desprestigia o universo da
experiência de muitas pessoas que não puderam ter maior acesso à instrução formal. 208
Ao se apropriar do lápis ou da caneta e produzir uma carta manuscrita, deixando
ver que a sua caligrafia não é nem firme, nem fluente, e nem reproduz o modelo culto
de excelência de escrever, o missivista informa que ele muito provavelmente é um
cidadão de poucos recursos, sem treino na escrita. É importante, no entanto, não perder
de vista que isso não o impede de, em seu fazer cotidiano, utilizar a escrita, por meio de
formas manuscritas singulares, que fogem às chamadas normas cultas, permitindo-se
maneiras de escrever que se ajustam às suas necessidades e circunstâncias (fazendo usos
não “previstos” da escrita).209
Assim, os textos manuscritos permitem boa identificação do missivista “culto” e
daquele com pouca instrução. O traçado das letras e a disposição na folha de papel mais
facilmente nos permitem alcançar um tipo de missivista. A escolha das cartas

208
Sobre o domínio desigual da escrita, ver CHARTIER, 1991b, e VILLALTA, 1997.
209
Sobre a existência de diferenciadas práticas de escrita, que constituem expressões culturais e sociais,
ver, por exemplo: HÉBRARD, 2000.

167
manuscritas considerou, assim, uma possibilidade de aproximação com missivistas
menos favorecidos. Ou seja, as cartas aqui analisadas mostram que menor habilidade no
escrever, longe de constranger a participação daqueles missivistas sem bom domínio da
escrita, colocou-se como um vetor dessa participação.
De modo geral, deve-se lembrar também que os indivíduos que se situam em
posições mais favorecidas na escala social são aqueles que costumam deixar registros
escritos de suas práticas. Assim, a oportunidade de estudar as cartas manuscritas da
Coleção Memória da Constituinte, e de acessar registros relacionados com as
experiências de indivíduos socialmente menos favorecidos, mostra-se muito instigante,
abrindo à pesquisa todo um repertório de expressões, sentidos e escolhas, que apontam e
dão a conhecer quão múltiplas foram as manifestações e práticas envolvidas no processo
constituinte brasileiro de 1987/1988. Para muito além das personalidades e homens
públicos, que reconhecidamente participaram desse processo, também outras pessoas,
de diferentes camadas sociais, o preencheram de sentidos. As cartas manuscritas da
Coleção Memória da Constituinte nos permitem, assim, questionar quaisquer
interpretações generalizantes, e simplificadoras, sobre a ausência de participação de
setores populares em processos políticos complexos, como o da elaboração de uma
Constituição. Atestando os diferentes graus de familiaridade dos missivistas com a
escrita, as cartas materializam e introduzem outra perspectiva para se pensar a
participação do “povo” – essa categoria abstrata – na Constituinte, mostrando que ela
mobilizou uma pluralidade de interesses e indivíduos de todas as camadas sociais.
Certamente, tal perspectiva amplia e enriquece as possibilidades de análise e
conhecimento daquele momento histórico, como decisivo para a conformação de uma
cultura política mais democrática no país. 210

A partir do recorte apresentado, uma síntese das variáveis do objeto privilegiado


desta pesquisa poderia ser descrita nos seguintes termos: colocaremos em foco um

210
Não estamos aqui, absolutamente, defendendo que o estudo das elites sociais não se justifica ou não
enriquece a análise histórica. Ao contrário, reconhecemos a grande importância desses estudos. O nosso
ponto, aqui salientado, é observar a maior dificuldade de se encontrar registros escritos de autoria de
pessoas que se inserem em grupos socialmente menos favorecidos, talvez porque a maior parte dos
registros escritos à disposição dos pesquisadores tenha sido produzida dentro de um padrão de “escrita
culta”, que atesta a vivência de um determinado progresso na alfabetização e na prática da escritura,
pouco representativo das sociabilidades desenvolvidas nesses grupos. Mas entendemos que o estudo dos
registros escritos dos indivíduos socialmente desfavorecidos é igualmente importante e que eles podem
ampliar a percepção histórica.

168
conjunto de 424 cartas, manuscritas, enviadas por 389 missivistas,211 em suporte de
papel de carta e do papel que aqui denominamos “diversos”. Elas foram enviadas a
autoridades políticas por brasileiros e brasileiras que, individualmente e com
considerável autonomia e liberdade de expressão, abraçaram a prática da escrita
epistolar como forma de participação política relevante naqueles anos de abertura
democrática e reconstitucionalização do país.

211
Isto porque 34 missivistas escreveram, cada um, mais de uma carta, na seguinte proporção: 22 entre os
missivistas escreveram, cada um, 2 cartas; 7 missivistas escreveram, cada um, 3 cartas; 3 missivistas
escreveram, cada um, 4 cartas; 1 missivista escreveu 10 cartas; e 1 missivista escreveu 11 cartas (total: 98
cartas). Quer dizer, 34 pessoas escreveram mais de uma carta, enquanto os demais 355 missivistas
escrevam, cada um, apenas uma carta.

169
Capítulo 4

Páginas da participação política, escritas do cotidiano

O povo deve participar, na minha


opinião, da Constituinte, coisa tão
sonhada por todos os brasileiros.

Ocimar José Garcia de Oliveira, 1985.212

Todos os brasileiros sonhavam com a Constituinte, escreveu Ocimar José Garcia


de Oliveira ao ministro da Justiça, Fernando Lyra, em 26 de junho de 1985, sugerindo
que a renovação da ordem legal do país era algo que importava a todo o povo brasileiro,
sendo elemento de seus sonhos e, pode-se deduzir, de sua vontade política. Por isso, não
era certo o povo ficar apartado: o povo devia participar da Constituinte.
É exatamente sobre esse entusiasmo participativo, que combina vontade política
e sentimento de dever e que mobiliza muitos brasileiros e brasileiras “comuns”, que este
capítulo discorre. Sobre o desejo de centenas de populares de participar na Constituinte
e a sua decisão de o fazer por meio do envio de cartas às autoridades políticas.

4.1. “Como não tenho recursos financeiros para ajudar a Nova


República, tento contribuir com minhas idéias” (Cacilda
Diniz, 1985)

À medida que escrevem as suas cartas, os missivistas reelaboram sua própria


experiência de vida e demonstram reconhecer seu papel como atores políticos. Eles
constroem discursos políticos, na perspectiva de Eric Landowski (1982 apud REIS,
1990, p. 2), de que “o que define o caráter político de um discurso não é o fato de ‘falar
sobre política’”, mas o fato de que o discurso coloca “em ação atores ‘autorizados’
(aqueles que têm o direito a falar), estabelece obrigações, cria ‘expectativas’, reforça a
confiança etc.”. Os missivistas fazem de suas cartas um canal para expressar opiniões

212
Trecho da carta de Ocimar José Garcia de Oliveira a Fernando Lyra. Ribeirão Preto, SP, 26/6/1985.
Coleção Memória da Constituinte. (MC079_CECSUG 55)

170
políticas e, em diversas passagens, afirmam ter consciência da importância da
participação de todos na Constituinte, dizendo-se mobilizados e pedindo, de diferentes
maneiras, que a “constituinte vigente estude com bons ares as [suas] solicitações e
ideias”.213 Dessa forma, decidido a colaborar, Antônio F. Reis Neto apresenta-se ao
CPMC: “Envio algumas sugestões no sentido de participar da nova carta magna da
nação, procurando dar minha contribuição, como brasileiro e em pleno gozo de meus
direitos políticos, como cidadão e eleitor”.214 A ação de escrever é percebida pelos
missivistas como algo que pode influenciar, de fato, mudanças nas regras da vida
coletiva, o que significa dizer que o envio de cartas institui uma forma de valorização da
identidade política do cidadão brasileiro. É nesse sentido que Cacilda Diniz, em 20 de
outubro de 1985, explica o motivo de ter enviado uma carta ao ministro da Justiça,
Fernando Lyra: “Como não tenho recursos financeiros para ajudar a Nova República,
tento contribuir com as minhas ideias”;215 e Dirce Vasconcelos Nunes expõe a
importância de todos darem “sua contribuição” à Constituinte:

Querido Presidente Sarney: é tempo de CONSTITUINTE; e nada melhor do


que o povo brasileiro participar realmente. Todos dando sua parcela de
contribuição teremos oportunidade de selecionar as melhores leis, os
melhores artigos e os melhores parágrafos para reger o destino do Brasil e do
povo brasileiro.
Sugiro que fizessem uma campanha de distribuição de FORMULÁRIOS,
criando para tal, postos em todas as Instituições Públicas, para que todos
tivessem oportunidade de dar sua contribuição.216

Na mesma direção, vale voltar à carta de Ocimar José Garcia de Oliveira, que
expressa suas esperanças de que, dessa vez, o “povo” participe das decisões
constituintes, no país, ao mesmo tempo em que nutre desconfianças em relação ao
processo legislativo:
Apoio a política do governo em fazer na Nova República, a Constituinte
Nacional. Mas o que me leva a lhe perguntar, é que se o povo terá livre
direito para sugerir o necessário para a Constituinte, ou será sugestões
discutidas somente entre os políticos?
Gostaria de saber isto, pois o povo deve participar, na minha opinião, da
Constituinte, coisa tão sonhada por todos os brasileiros.217

213
Trecho da carta de José João Batista. Sem destinatário, local e data. (MC080_CECSUG 7)
214
Trecho da carta de Antonio F. Reis Neto ao CPMC. Barra de São João, RJ, 22/6/1987.
(MC024_CPMCSOC 235-236)
215
Trecho da carta de Cacilda Diniz ao ministro da Justiça, Fernando Lyra. Recife, PE, 20/10/1985.
(MC057_CECSUG 34-35)
216
Trecho da carta de Dirce Vasconcelos Nunes ao Presidente da República. Niterói, RJ, 21/5/1986.
(MC065_CECSUG 248-251)
Vale lembrar que a missivista solicita em sua carta algo que o governo já praticava desde março de 1986,
conforme apresentado no capítulo 2: o governo disponibilizava formulários para a população, nas
agências dos Correios do Brasil, visando coletar sugestões para a nova Constituição.

171
Esse aspecto é reforçado na carta conjunta de Hamilton Costa e João Belmonte,
de Santa Catarina:
Já tivemos várias constituições que foram feitas aos atropelos, para defender
interesses alienígenas. [...] É preciso acima de tudo a participação de todo o
povo, inclusive nós reeducandos. Pois somos brasileiros e devemos também
participar.218

Como se vê, temendo políticos, chamados de alienígenas, as cartas expressam o


desejo de que o povo, até então ignorado, ocupe finalmente um lugar de importância na
sociedade brasileira, expressando o reconhecimento e o interesse dos missivistas de
serem atores políticos participantes.
Isso fica patente também em cartas que tratam de temas que estavam na hora do
dia dos debates nacionais. Discussões em torno do tipo de Assembleia Constituinte a ser
instalada; do pagamento da dívida externa; da eficácia do Plano Cruzado, entre outras,
são objeto de comentários, críticas e sugestões de vários missivistas. Francisco
Guilherme de Oliveira, por exemplo, escreve a Afonso Arinos, em 12 de setembro de
1985, e declara: “[...] como proposto na ‘Carta dos Brasileiros’ entregue ao Presidente
Sarney e ao Congresso Nacional [...] damos nosso apoio à convocação de uma
Assembléia Nacional Constituinte independente do Legislativo”.219 E Eliézer Melo,
igualmente contrário à proposta de uma Constituinte congressual, em 11 de novembro
de 1985, escreve ao presidente da República, condenando fortemente as ações
governamentais de viés antipopular que marcaram os governos militares no Brasil,
alertando contra a reedição desse comportamento político:

Esta sua atitude de impor e pressionar o Congresso Nacional a aprovar sua


infeliz proposta de uma constituinte vinculada ao Congresso, é mais uma
reprise da atitude dos infelizes ditadores que desgovernaram o Brasil por 20
anos, é uma atitude anti-popular, porque a maioria do povo brasileiro repudia
a sua infeliz proposta, pois somente os poderosos do Brasil apóiam criminosa
proposta.220

E ainda, entre outros exemplos, Darci Farbero Faria, em carta escrita a Afonso
Arinos, em 12 de agosto de 1985, aborda uma preocupação, também presente em outras

217
Trecho da carta de Ocimar José Garcia de Oliveira a Fernando Lyra. Ribeirão Preto, SP, 26/6/1985.
(MC079_CECSUG 55)
218
Trecho da carta de Hamilton Costa e João Belmonte. Sem destinatário. Florianópolis, SC, 6/6/1986.
(MC080_CECSUG 36-38)
219
Trecho da carta de Francisco Guilherme de Oliveira a Afonso Arinos. Campinas, SP, 12/9/1985.
(MC054_CECSUG 4-8)
220
Trecho da carta de Eliézer Melo ao presidente da República. Manaus, AM, 11/11/1985.
(MC058_CECSUG 168-171)

172
cartas do acervo, com a questão da “regulação” dos preços, prometida pelo governo, a
partir do lançamento do Plano Cruzado. O missivista pergunta: “Há real interêsse na
pretensão em regular prêços? Pelo televisionado, não [...], o que se viu foi burla, um
verdadeiro escárnio. [...] [O governo] não dispõe de meios nem recursos para fazer
frente, economicamente, ao poder econômico”. E conclui: “Não é adquirindo estoque
que [o governo] conseguirá regular preços”, mas produzindo “ele próprio o necessário,
valendo-se da ENORME FORÇA A SEU DISPOR: TERRAS, BRAÇOS E BRAÇOS.
ÊSTES, DE DESEMPREGADOS, PRESOS OCIOSOS E BATALHÕES DAS
FORÇAS ARMADAS.”221
Estas e outras cartas demonstram que os missivistas estão a par dos debates
políticos do momento, defendendo posições e buscando construir um diálogo com os
decisores. São exemplos de como o cidadão comum afirmava-se sabedor dos interesses
do povo brasileiro, tendo, portanto, não só o direito, mas o dever de se fazer ouvir pelas
autoridades políticas. Não faltam, inclusive, missivistas para alertar tais autoridades
sobre o risco de os interesses privados permanecerem acima dos interesses do povo,
caso as decisões ficassem circunscritas ao domínio dos políticos, capazes de “defender
interesses alienígenas”, como se viu na carta de Hamilton Costa e João Belmonte. Nesse
sentido, para assegurar a participação do povo, alguns missivistas se aplicam em
construir sugestões que ilustram bem como certos setores da população viam o
funcionamento do sistema de representação política e as formas de saneá-lo. Um bom
exemplo é a carta de Walter Lopez, enviada a Afonso Arinos em 21 de maio de 1986,
que sugere maneiras de melhorar a representação política do povo, a partir da
organização e participação direta de um “conselho de anciãos”, formado por todos os
brasileiros, de todas as cidades do país, que tivessem mais de 60 anos de idade. Se a
sugestão é completamente ingênua, politicamente, o diagnóstico em que se baseia é
preciso e bem formulado: o povo não se sente representado.

Aqui vão algumas idéias para a Constituinte. [...] Sobre política. – Nosso
povo não se sente representado, nem no Executivo, nem no Legislativo, em
poder algum. Deveria haver, então, um conselho de anciãos, ao estilo grego,
em que todos de mais de 60 anos, independente de suas classes sociais,
opinariam nos problemas da sua cidade. Com isso, os mais jovens, de
qualquer classe social, credo, política ou meio financeiro, se sentiriam
representados, na figura dos seus avós [...].222

221
Trecho da carta de Darci Farbero Faria a Afonso Arinos. Juiz de Fora, MG, 12/8/1985.
(MC078_CECSUG 326-327)
222
Trecho da carta de Walter Lopes a Afonso Arinos. Brasília, DF, 21/5/1986. (MC062_CECSUG 172-
175)

173
Vale lembrar que o interesse participativo revelado nas cartas encontrava
sustentação ideológica e organizacional nas campanhas pró-participação popular na
Constituinte, que, naquele momento, irrompiam na cena pública, defendendo,
sobretudo, o direito da população de reivindicar direitos. A movimentação pública das
campanhas fixava o processo constituinte como uma experiência que dizia respeito a
todos, ressaltando os vínculos entre cada cidadão e a coletividade, além da importância
de uma atitude política “consciente”. Os eventos, anúncios e materiais das campanhas
estavam disponíveis nas ruas, em diferentes pontos do país (como as sedes dos
“plenarinhos” e de instituições que apoiavam as campanhas) e nos meios de
comunicação, representando uma importante referência para que qualquer pessoa se
reconhecesse como um cidadão responsável pelo processo de reconstrução política do
Brasil. A disposição participativa, traduzida como um sentimento coletivo, pode ser
observada na carta que Myrtis Pinheiro Fernandes escreve ao CEC, em 27 de janeiro de
1986, afirmando: “Aproveitando o ensejo do qual todos os brasileiros conscientes
devem também colaborar com sugestões para a Nova Constituinte, quase um privilégio
concedido pela Nova República, espero nesta cartinha dar algumas ideias sobre o
assunto em pauta.”223 Na mesma tecla, e entre muitos outros exemplos, Raimundo de
Souza escreve ao presidente da República, em 7 de abril de 1986, destacando que os
debates constituintes eram do interesse de todos os brasileiros: “Quase todos os
brasileiros ainda não sabem exatamente o que quer dizer constituinte, e eu gostaria que
fosse feito atravez de cadeia de televisão um debate sobre este assunto, que no momento
interessa a todos.”224
Contudo, embora o papel político dos indivíduos tenha sido de fato projetado
com força simbólica nas campanhas pró-participação na Constituinte, obviamente o
envio de cartas às autoridades políticas não pode ser interpretado como simples e direta
consequência de tais campanhas. Muitos outros aspectos do vivido pelos missivistas
certamente convergiram para influenciar o seu entendimento de que aquele momento
era adequado para uma participação política direta por meio do envio de cartas. Estas
não foram apenas uma reação às campanhas pró-participação. Tais campanhas
encontraram uma “comunidade de sentidos” entre a população, reforçando uma cultura
política de direitos que já acolhia a comunicação direta povo/autoridades políticas.

223
Trecho da carta de Myrtis Pinheiro Fernandes ao CEC. Rio de Janeiro, RJ, 27/1/1986.
(MC061_CECSUG 115-116)
224
Trecho da carta de Raimundo de Souza ao Presidente da República. Nova Lima, MG, 7/4/1986.
(MC078_CECSUG 282)

174
Assim, os populares avaliaram, reconheceram e escolheram, naquele momento, escrever
às autoridades, como uma boa alternativa para lutar por seus interesses e demandas. As
campanhas pró-participação popular na Constituinte, sem dúvida, foram ao encontro de
ideias, expectativas e valores já presentes nos padrões culturais e políticos dos
brasileiros.
Não se pode esquecer também que a participação política por meio do envio de
cartas às autoridades encontrou ainda particular legitimidade e incentivo no fato de que
muitas dessas cartas receberam respostas.225 Objeto de surpresa e comentários positivos
entre os missivistas, as respostas parecem confirmar, para eles, a pertinência e a eficácia
do diálogo por carta. É o que registrou Carlos A. B. Silveira, em 12 de agosto de 1985:
“Prezados senhores. Soube por intermédio de outras pessoas que endereçando-lhes
cartas pedindo explicações, dando sugestões, os senhores responderiam.” 226
Quando enviadas, as cartas propõem o estabelecimento de algum diálogo, de um
tipo de vínculo, mas uma resposta nunca está garantida de antemão. Como afirma
Ângela de Castro Gomes (2004b), cabe a quem lê, e não a quem escreve, a decisão de
ler, responder ou preservar a carta.227 Nessa perspectiva, há missivistas que demonstram
grande surpresa e satisfação ao serem prestigiados pelas autoridades, recebendo
respostas. A carta de João Leite de Matos, enviada a Afonso Arinos, em 15 de janeiro
de 1986, é exemplar dessa dinâmica. Tão ou até mais importante do que ter sua sugestão
acolhida, é receber a atenção e o respeito da autoridade, respondendo sua mensagem:

Exmº Sr. Dr. Afonso Arinos, mui digno jurista e professor acadêmico, da
Faculdade do Rio de Janeiro, e diretor da Comissão de Estudos da Nova
Constituinte. Acuso-lhe que recebi sua amável e delicada carta em que atende
a minha pequena e humilde contribuição na referida Carta da Nova
Constituição, da nossa pátria brasileira. Presado Dr. Afonso Arinos, é com
grande satisfação que aqui aceito o magnífico convite a oferecer as minhas
sugestões: agradeço-lhe de coração a sua generosa atenção para comigo.

225
Não constam na Coleção Memória da Constituinte as cartas em resposta às que foram enviadas pelos
populares às autoridades políticas. Porém, algumas cartas possuem notações que notificam que as
autoridades as receberam e encaminharam para algum setor da administração pública, com a orientação
de que fossem respondidas. Um exemplo é a carta enviada ao CEC, em 17 de setembro de 1985, com a
seguinte notação, feita à caneta: “Responder para o endereço, dizendo que a carta será entregue à reflexão
dos membros da Comissão”. Carta ao CEC, de autoria não identificada. Porto Alegre, RS, 17/9/1985.
(MC054_CECSUG 10-11)
226
Trecho da carta de Carlos A. B. Silveira. Destinatário não identificado. Alvorada, estado não
identificado, 12/8/1985. (MC078_CECSUG 331)
227
“A escrita epistolar é, portanto, uma prática eminentemente relacional e, no caso das cartas pessoais,
um espaço de sociabilidade privilegiado para o estreitamento (ou o rompimento) de vínculos entre
indivíduos e grupos. Isso ocorre em sentido duplo, tanto porque se confia ao ‘outro’ uma série de
informações e sentimentos íntimos, quanto porque cabe a quem lê, e não a quem escreve (o autor/editor),
a decisão de preservar o registro. A ideia de pacto epistolar segue essa lógica, pois envolve receber, ler,
responder e guardar cartas” (GOMES, 2004b, p. 19).

175
Achei que um homem como V. Senhoria, de tão alto nível intelectual não
fizesse caso de gente tão simples e humilde como eu, agradeço-lhe muito.228

As respostas às cartas deixam uma boa imagem do político, mesmo que se


tratando de respostas padrão, automáticas, como se vê na carta de Maurício Leal de
Moura à Presidência da República, em 22 de abril de 1986, que diz: “Comunico-vos que
foi com grande prazer que recebi a cartinha de Vª Excia. avisando-me que a mesma foi
encaminhada através do ofício SEAP nº 26091-6 para exame, dia 26/03/86.”229 Em
vários casos, como se pode imaginar, a resposta recebida funciona como elemento
estimulador para que o missivista escreva mais cartas. É o que ocorre com Max
Pugatsch, que, em 10 de janeiro de 1986, escreveu: “Aos constituintes, ao Sr. Prezidente
da Republica, ao Srs da Academia de Letras do Brazil e a quem interessa”, sugerindo
que fosse feita uma reforma na gramática, substituindo-se a “língua portuguesa” pela
“língua brazileira”. Segundo o remetente, sua proposta visava simplificar a língua,
modificando a maneira de escrever e pronunciar algumas letras. Por exemplo, “[...] a
letra “k” deve substituir “c” em todas ocasiões (okazioes), a letra “s” nunca deve ser lida
no lugar “z”, em Brazil e em todas acazioes: Brasil – Brazil etc.”230 E há claros indícios
de que Max Pugatsch recebeu resposta do secretário executivo da CEC, Mauro
Santayanna, à sua carta, pois, em 31 de maio de 1986, ele escreve novamente, sobre o
mesmo assunto, agora dirigindo sua carta exclusivamente a Mauro Santayanna:
“Prezado Señor. Já eskrevo na língua brazileira em resposta de sua karta sobre asunto
do dia 17 de abril de 86.” Pugatsch conclui sua missiva com a seguinte observação:
“obs: Gostaria ter enderesos de Akademia de Letras, do Sr. Jorge Amado, ou kualker
instituison ke trata do asunto!”.231 Ou seja, a resposta recebida à sua primeira carta, não
só serviu de estímulo para que o remetente escrevesse uma segunda carta, buscando dar
continuidade ao diálogo estabelecido, como fomentou-lhe o desejo de escrever outras
cartas, a outras instâncias sociais e, sugestivamente, ao Sr. Jorge Amado: autoridade
brasileira no mundo das letras e ex-deputado federal, membro da Assembleia Nacional
Constituinte de 1946. Nessa linha, entre outros exemplos, Raymundo Silva de Oliveira

228
Trecho da carta de João Leite de Matos a Afonso Arinos. Anápolis, GO, 15/1/1986.
(MC060_CECSUG 7-10)
229
Trecho de carta de Maurício Leal de Moura à Presidência da República. Corinto, MG, 22/4/1986.
(MC064_CECSUG 221-223)
230
Trecho da carta de Max Pugatsch aos “constituintes, presidente da República, Srs. da Academia de
Letras do Brasil e a quem interessa”. Pelotas, RS, 10/1/1986. (MC060_CECSUG 94-95)
231
Trecho da carta de Max Pugatsch a Mauro Santayanna. Pelotas, RS, 31/5/1986. (MC083_CECSUG
85-86)

176
demonstra ter se sentido encorajado a redigir nova carta, após receber resposta a uma
primeira que havia remetido ao presidente da República. Ele escreve ao ministro da
Justiça Paulo Brossard, em 1º de dezembro de 1986, e afirma: “[...] se o senhor me
permitir e como tive a honra de ser atendido pelo presidente José Sarney e ter recebido
resposta da minha carta [...], me enchi de coragem de escrever para o senhor, e dar meus
palpites para a constituição.”232
Por outro lado, mesmo quando não recebem respostas, alguns missivistas optam
por escrever uma segunda carta, porém para outro destinatário e, não raro, queixando-se
da falta de resposta. Foi o que fez José Ferreira Sobrinho em carta ao presidente Sarney,
de 16 de maio de 1986:

Carissimo Dr José Sarney (quando digo caríssimo, essa palavra não sai só de
minha boca, mas sim de 90% do povo brasileiro).
O que vai escrito adiante, já foi mandado para o Congresso, endereçado ao
Dr Ronaldo Canêdo, deputado federal, meu conterrâneo e conhecido a muitos
anos. No formulário do Congresso há uma parte que, havendo interesse em
resposta, preencher o local. Como desejo resposta, preenchi, e até o
momento, Dr Ronaldo não respondeu. Mas para mim não é surpresa, porque
conheço muito bem a peça.233

Há também missivistas que duvidam que suas cartas sejam lidas, como Antonio
Pontes Feitosa em carta aos deputados constituintes, em 23 de junho de 1987: “Não
acredito que a minha carta seja lida, talvez fique arquivada num canto qualquer, mais
caso alguém abrir, está aí algumas sugestões.”234 E há aqueles que solicitam
explicitamente, ao destinatário, a resposta desejada, como fez Laercio Gomes de Toledo
em carta aos deputados constituintes, também em 23 de junho de 1987: “Peço-lhe que
mande a resposta, que eu tenho outras ideias que possa ser aproveitada”; 235 e Virginia
de Moraes Machado, que escreve ao presidente da República, em junho de 1986,
solicitando ao final: “Se não for pedir demais gostaria que acusassem o recebimento
desta, para ter certeza que chegou às mãos de V. Excia. e que não escrevi em vão.” 236

232
Trecho da carta de Raymundo Silva de Oliveira ao ministro da Justiça (Paulo Brossard). Belo
Horizonte, MG, 1/12/1986. (MC073_CECSUG 154-159)
233
Trecho da carta de José Ferreira Sobrinho ao presidente da República. Muriaé, MG, 16/5/1986.
(MC065_CECSUG 213)
234
Trecho da carta de Antonio Pontes Feitosa aos deputados constituintes. Santos, SP, 23/6/1987.
(MC024_CPMCSOC 247- 248)
235
Trecho da carta de Laercio Gomes de Toledo aos deputados constituintes. Poá, SP, 23/6/1987.
(MC024_CPMCSOC 245-246)
236
Trecho da carta de Virgínia de Moraes Machado ao presidente da República. Belém, PA, 00/6/1986.
(MC067_CECSUG 4-10)

177
Malgrado as variações de estilo e de expectativas quanto às possíveis respostas
às suas cartas, em todos os casos, invariavelmente, os missivistas afirmam o seu
interesse e sentimento de participar das discussões e decisões constituintes,
reconhecendo-se no papel de atores políticos.

4.2. “Não tive primário completo, mas entendo alguma coisa da


situação do país” (Raymundo Silva de Oliveira, 1987)

Há um determinado sistema de linguagem intermediando os atos de


participação/comunicação política dos missivistas com as autoridades. Um determinado
padrão de comunicação epistolar que está ligado à forma como a sociedade brasileira
representa esteticamente o discurso epistolar e no qual missivistas e destinatários estão
socializados, reconhecendo todo um sistema de significações próprio à prática de
escrever cartas. Um padrão de comunicação por cartas que, tomando emprestadas as
palavras de Ângela de Castro Gomes (2004b, p. 20), “tem fórmulas muito conhecidas,
porque aprendidas inclusive nas escolas”. É, em princípio, dentro desse padrão que os
missivistas se movem quando escrevem às autoridades.
O uso de um idioma comum, por exemplo, é parte desse padrão comunicativo,
bem como certa uniformidade na disposição (layout) das informações contidas nas
cartas, que têm como elementos básicos mais recorrentes: a explicitação do local de
origem e da data da carta, no alto da primeira página; a forma de tratamento preliminar
dispensada ao destinatário; a mensagem principal; a despedida e a assinatura – cada um
desses itens apresentando variações, carta a carta, e sendo elaborados de maneira mais
formal ou informal, de acordo com o estilo, as circunstâncias, a intenção do missivista e
o nível do seu envolvimento com o destinatário. A título de exemplo da variabilidade de
estilos na elaboração das cartas, destacamos algumas formas de tratamento utilizadas.
Ora cerimoniosas (“Ilustre e mui digno Dr. José Sarney. Privilegiado Presidente da
Nova República”);237 ora respeitosas (“Senhores da Comissão Pró-Constituinte”);238 ora
informais (“Bom dia!”);239 ora excêntricas (“Ilustres Srs. de margens plácidas”), 240 e

237
Forma de tratamento da carta de Cesar Apolinante ao presidente da República. Rafard, SP, sem data.
(MC085_CECSUG 220-223)
238
Forma de tratamento da carta de Francisco Carlos Coelho ao CEC. Florianópolis, SC, 6/6/1986.
(MC080_CECSUG 48-51)
239
Forma de tratamento da carta de Gerson B. Rhein ao presidente da República. Maracanaú, CE,
2/9/1986. (MC072_CECSUG 21-24)

178
também cartas que dispensam o tratamento inicial, eliminando quaisquer preliminares
ao assunto principal da mensagem (“A sugestão que eu faço nessa constituinte...”).241
Afora as diferenças de estilo na escrita das cartas, que ocorrem dentro de um
determinado sistema de comunicação, tendo exigências de sociabilidade próprias e
certos códigos compartilhados por quem escreve e por quem lê, deve-se também ter em
vista que a prática cotidiana e popular da escrita de cartas guarda, em meio às
regularidades da epistolografia, um amplo espaço para o livre-arbítrio dos missivistas.
Estes, muitas vezes, a partir do uso dos mais diferenciados recursos comunicativos,
acabam por introduzir “ranhuras” e elementos mais e menos ordenadores nesse sistema,
levando-o, voluntariamente ou não, a funcionar em outro constructo. Ou seja, a escrita
de cartas pode combinar elementos heterogêneos ao sistema de comunicação
dominante, que fogem à sua estrutura pura ou formal e que fazem uso de outros
pressupostos, modificando-o, embora sem deixar de assimilá-lo como parte integrante e
de estar integrada a ele. Entre os exemplos no acervo em estudo, vimos que alguns
missivistas lançam mão de suportes incomuns para textos de cartas (que classificamos
como “papéis diversos”), estabelecendo como que uma quebra de protocolo na relação
com a autoridade política. É o que ocorre na carta de Adroaldo A. Souza, reproduzida
abaixo, que encaminha uma reivindicação à Assembleia Nacional Constituinte, redigida
em um marcador de livro.242 Transcrevemos a carta, para
facilitar ao leitor:

A Constituinte:
Peço por favor, para
que seja eliminado o
imposto de
transmissão para o
proprietário que
venha a ter um único
imóvel, ou seja a sua
moradia.
Porque eu comprei
uma casa de madeira
a onde moro a 11
anos e até hoje não
consegui dinheiro
para a escritura.
Grato

240
Forma de tratamento da carta de Jussara Maria Lopes de Alvarenga a destinatários não explicitados.
São Paulo, SP, 4/11/1985. (MC078_CECSUG 92)
241
Trecho inicial da carta de Arnaldo Guimarães Soares à ANC. Rio de Janeiro, RJ, 00/00/1987.
(MC027_CPMCSOC 261-264)
242
Carta de Adroaldo A. Souza enviada à ANC. Porto Alegre, RS, sem data. (MC024_CPMCSOC 274-
276)

179
No exemplo, é interessante observar que, enquanto o texto impresso no
marcador de livro sugere que a benção de Deus honra o sentimento de aceitação
(aceitação das pessoas e coisas, como elas são), o texto manuscrito procura mostrar o
quão inaceitável é uma determinada lei em vigor, especificamente a que estabelece o
imposto de transmissão de imóvel “para o proprietário que venha a ter um único imóvel,
ou seja a sua moradia”. Essa aparente incoerência da carta de Adroaldo A. Souza – que,
em uma “página”, sacraliza o consentimento e a aceitação e, em outra, critica e se opõe
a uma lei vigente – pode ser percebida, à primeira vista, como uma contradição de
valores. Mas ela pode também ser vista como uma tentativa de caracterizar a referida lei
como um tipo de “desvio”, em relação àquilo que constituiria a “ordem” da vida
(abençoada por Deus). Sendo um “desvio”, a lei não poderia ser aceita. Enfim, seja o
que for, pede-se que “Deus os abençoe”.
Outros missivistas inserem desenhos, recortes de jornais, poemas ou comentários
paralelos em seus textos, por vezes demonstrando um trabalho cuidadoso de
composição de estilos e estratégias que buscam tornar implícito o não-dito. Adotam
também tipos de diagramação que contrariam a norma epistolar consagrada, exibindo as
mensagens ora em linha horizontal ora na diagonal ora na vertical. Mas em todos os
casos, deixam ver, conforme alertou Maria Rosa Rodrigues Martins de Camargo (2000,
p. 210), que “infinitas são as combinações, as invenções, nos limites da folha em
branco. A carta, enquanto objeto material, é um suporte privilegiado do material
verbal”. As três páginas reproduzidas abaixo exemplificam o comentário:243

243
A primeira página é parte da carta de Verônica de Jesus Cabral [ilegível] ao CEC. São Paulo, SP,
27/12/1985. (MC078_CECSUG 125). A segunda e terceira páginas são parte da carta de Joaquim
Marinho de Araujo ao CPMC. Rio de Janeiro, RJ, 16/9/1987. (MC024_CPMCSOC416-422)

180
181
182
A primeira página destacada é a carta de Verônica de Jesus Cabral Araújo,
enviada ao CEC, em 27 de dezembro de 1985. Nela, a missivista pede que sejam
estabelecidas políticas educacionais que facilitem aos jovens ter acesso à formação
superior e que também lhes sejam oferecidas boas oportunidades de trabalho. A carta
tem uma única página, porém ela é aproveitada ao máximo, contendo, inclusive, uma
observação em linha vertical, na margem esquerda do papel, com os dizeres: “OBS:
Para que todos cheguem até a faculdade é preciso que houvesse mais assistência
escolar.” A escolha de um papel de carta bastante infantil denota a pouca idade da

183
remetente no uso de seu reforço de comunicação. O desenho de uma menina sorridente,
no canto inferior da página, pode induzir a ideia de como seriam os jovens que realizam
o sonho de concluir os seus estudos e obtêm uma colocação de trabalho, na área de sua
preferência. A página exibe também os dizeres impressos: “um olhar, um sorriso, teriam
resolvido tudo...”, que complementam a argumentação da missivista de que basta que se
tenha atenção e carinho para com os jovens, incentivando os seus estudos e lhes
assegurando boa colocação profissional, que importantes problemas do país
encontrariam um bom termo.
A segunda e terceira páginas destacadas compõem a carta, já citada no capítulo 3
desta tese, de Joaquim Marinho de Araujo ao CPMC, datada de 16 de setembro de
1987. A carta apresenta uma proposta de valorização e estímulo à jardinagem, tendo em
vista “enfrentar os problemas de degradação do meio-ambiente”. O que aqui chama
atenção em tal projeto – e na carta – é o fato de ela ser repleta de desenhos que ilustram
a formulação do missivista: a de que era necessário planejar e controlar o crescimento
urbano desordenado, por meio de medidas políticas de preservação da natureza, via
“jardinagem cultural”. Entre os desenhos, há pássaros sobrevoando o Congresso
Nacional, situando-o no cenário de um mundo onde há vida natural a ser observada
(admirada, cuidada); um conjunto de edifícios altos que o autor parece dispor
criticamente, como um “muro” a encobrir toda panorâmica natural; uma representação
das paisagens de mar e montanha da cidade do Rio de Janeiro, que não deixa dúvidas
sobre sua exuberância e beleza; e ainda dois jovens acenando, pacificamente, ao lado de
um bem organizado canteiro de mudas e plantas, sugerindo a importância dos jardins
para as cidades, donde a dimensão cultural explícita agregada à proposta do missivista.
Todos esses desenhos reforçam o objetivo da carta, de defender a tese de que uma boa
organização social e urbana impõe o combate à poluição e à urbanização irresponsável,
o que se poderia fazer pelo fomento do que o missivista chama de “jardinagem
cultural”.
Esses são alguns exemplos de cartas, entre outros, que mostram que o fato de os
missivistas estarem socializados com práticas culturais que possuem normas, no caso,
da escrita epistolar, não os impede de, ao escrever suas cartas às autoridades políticas,
criar novos elementos e significados para seus textos.
Sobre este ponto, vale lembrar que um aspecto do processo comunicativo para o
qual alguns estudiosos chamam atenção, é o fato de que a linguagem não deve ser
pensada como um recurso independente daquilo que constitui a história e a situação

184
social e política de quem a usa. É o que afirma, por exemplo, o historiador inglês John
Pocock (2003), quando analisa a construção dos discursos políticos e observa que estes
sempre estarão condicionados pelo universo de referenciais e significações dos
contextos linguísticos e da realidade histórica em que foram produzidos. Para o autor,
todo discurso político é tributário dos recursos de enunciação que os atores históricos
que dele participam dispõem, devendo ser analisado como a verbalização das
experiências de uma sociedade em uma determinada época.
Nesse sentido, é interessante observar também que o acervo apresenta um
significativo volume de cartas que exibem muitos e rudimentares erros gramaticais e
ortográficos. Alguns missivistas, sem um bom domínio da escrita formal, inclusive,
mostram-se plenamente conscientes da existência de uma linguagem específica e de um
saber instituído para usá-la na elaboração de cartas, assumindo posturas de extrema
humildade em relação aos destinatários. Ou seja, eles sabem que uma formação
educacional insuficiente interfere em seu contato com uma autoridade política, mas
também sabem que podem se comunicar, inclusive assumindo tal diferenciação. O
aprendizado da escrita é reconhecido pelos missivistas como norma para a interação
política, mas de forma alguma os intimida a escrever ou a afirmar sua competência
política como cidadãos. É dessa forma que Raymundo Silva de Oliveira, em 27 de
agosto de 1986, escreve ao presidente da República: “Venho por meio destas palavras
mal escritas porque não tive o primário completo, mas entendo alguma coisa da situação
do paiz.”244 Ou ainda Jaci Maria Ramos Silva, que escreve também ao presidente da
República, em 10 de dezembro de 1985, afirmando “não ser uma pessoa inteligente e
culta [...] [e por isso ser] uma boba que dorme no ponto, não encherga muito longe,
mais que também derepente entende, comprende e quer que tudo de bom aconteça para
mim e todos os brasileiros e povos do mundo”.245 Quer dizer, de repente, a ambiguidade
do “saber” fica muito bem explicitada.
Alguns desses missivistas advertem sobre suas limitações de escrita, já nas
primeiras linhas de suas cartas, preparando o destinatário e sensibilizando-o, o que sem
dúvida é uma boa estratégia de aproximação e afirmação. Rosemere Vieira e Maria
Aparecida Duarte, por exemplo, a quatro mãos, iniciam uma carta enviada aos
governadores e ao presidente da República, nos seguintes termos: “Desde já vou lhe

244
Trecho da carta de Raymundo Silva de Oliveira ao presidente da República. Belo Horizonte, MG,
27/8/1987. (MC077_CECSUG 327-328)
245
Trecho da carta de Jaci Maria Ramos Silva ao presidente da República. Rio de Janeiro, RJ,
10/12/1985. (MC059_CECSUG79-80)

185
pedindo desculpas pelos erros portugueses...” E, após exporem queixas, opiniões e
ideias em torno das temáticas da pena de morte, do sistema eleitoral, do funcionamento
de creches públicas e da merenda escolar, concluem: “Não sei escrever bonito. Escrevi
o que eu pensava, fui sincera.”246 Ou seja, as autoras reconhecem que não dominam a
escrita culta, que sabem ser a mais apropriada para o contato com a autoridade política;
mas a experiência e a sinceridade com que expõem os seus pensamentos/opiniões sobre
a vida em sociedade confere legitimidade à sua participação política, por meio do envio
de uma carta aos governantes.
Por outro lado, também há cartas no acervo em que não se vê qualquer pedido de
desculpa do missivista à autoridade, por não saber escrever corretamente. É o que
mostra a carta de Teófilo Skowronski à ANC, de 17 de junho de 1987. Com texto
repleto de erros ortográficos e caligrafia desalinhada, a carta tem uma mensagem
bastante clara e contundente, com o alerta de que “do jeito que esta a lei do Presidente
Sarney os pobres estão se fritando sem banha, é uma grande vergonha [...]. Porque
conforme esta a caresa do alimento, o preço dos jurros, preço dos remédios etc., não a
mais como viver”.247
Porém, é importante enfatizar que mesmo quando algum constrangimento é
manifestado pelo missivista, em função de não dominar a norma da escrita, isso não o
impede de escrever e interagir, com sua carta, no espaço público, apresentando
alternativas e críticas à ordem política vigente, transformando, na prática, o seu déficit
numa possibilidade de reconhecimento maior.
Evidentemente, não é nossa intenção fazer uma análise dos textos das cartas do
ponto de vista linguístico. O importante, neste caso, é perceber a existência de estruturas
epistolares formalizadas e que elas foram incorporadas de diferentes maneiras pelos
autores das cartas. Tais modelos, digamos assim, não se definiram unicamente pelas
normas da escrita, mas também pelas percepções de seus autores sobre como
estabelecer um diálogo com as autoridades e como atingir os objetivos políticos que
perseguiam ao escrever cartas.
Igualmente importante é o fato de que, se muitas das cartas aqui em exame
foram enviadas aos destinatários com o uso de variantes populares de escrita (que
adicionaram novos padrões à chamada “norma culta”), isso ocorreu sem qualquer

246
Trecho da carta de Rosemere Vieira e Maria Aparecida Duarte aos governadores e ao presidente da
República. Florianópolis, SC, sem data. (MC080_CECSUG 12-13)
247
Trecho da carta de Teófilo Skowronski ao CPMC. Lajeado, RS, 17/6/1987. (MC024_CPMCSOC116)

186
prejuízo para a intercomunicação dos textos. Padrões populares de escrita existem e
apresentam compreensibilidade, 248 o que significa dizer que a linguagem escrita,
enquanto produção coletiva e social, é muito mais dinâmica e complexa do que a sua
versão culta.
Assim, o acervo em estudo mostra que a prática de envio de cartas aos políticos
brasileiros está situada em um campo linguístico cujas variadas e criativas formas de
produção sociocultural sugerem que os atos comunicativos não podem ser reduzidos à
chamada “linguagem culta”. Admitimos que existem regras reconhecidas socialmente
como corretas para a comunicação epistolar, segundo as quais as diferentes formas de
escrever cartas são classificadas como “certas” ou “erradas”. Contudo, um número
expressivo de cidadãos brasileiros, mesmo sabendo que tais regras existiam e que a sua
escrita não atendia absolutamente aos padrões cultos consagrados, escreveu cartas, com
base em seus próprios interesses e mandando suas críticas, pedidos e sugestões para a
Constituinte de 1987/1988.

4.3. “Ganho o salário mínimo para fazer tudo, pagar aluguel,


comida, roupas e remédios p/ crianças” (Maria Júlia de
Jesus, 1987)

As cartas aqui analisadas representam certamente um espaço de participação


política, que materializou e se legitimou em práticas cotidianas pelo uso da linguagem.
Dessa forma, conformaram um novo espaço de expressão, de reivindicação e
negociação de demandas para além do sistema de representação político-partidário. Um
novo espaço que se construiu, estrategicamente, a partir da politização do cotidiano dos
indivíduos.249
Nesse sentido, uma das características mais importantes dessa correspondência é
a interposição e complementaridade entre as dimensões privada e pública, a partir de
narrativas que politizam o cotidiano e o catapultam para o âmbito das políticas públicas.
A vida pessoal dos missivistas engendra seus discursos políticos, produzindo uma

248
A única exceção no acervo é a carta de Divalda Ferreira de Souza, do Rio de Janeiro, sem data e sem
destinatário explicitados, com muitas páginas de difícil leitura e compreensão, sem começo e sem fim.
Essa carta parece orientar-se por um sentido de todo obscuro e indecifrável, o que não significa que esteja
sustentada numa completa “incoerência”, mas, antes, que o seu sentido, para nós, no momento, é
inalcançável. (MC024_CPMCSOC 434-444)
249
A noção de “politização do cotidiano” é desenvolvida, entre outros, nos trabalhos de CERTEAU,
2008, e KUSCHNIR, 2000.

187
espécie de “efeito humanizador” da política. As cartas são fragmentos repletos de
alusões aos problemas do mundo cotidiano, aos sentimentos, à família, às práticas de
saúde, educação, entre outros tantos temas que integram a vivência dos indivíduos. Com
o objetivo de ilustrar a operação discursiva apontada, reproduzimos abaixo, um longo
trecho da carta de Maria Júlia de Jesus, enviada à ANC, em 2 de junho de 1987. Longo,
mas também minucioso e exemplar do testemunho que a missivista desejava dar sobre o
seu duro cotidiano de vida.

São Paulo, 02/06/87.


Prezados constituintes.
Por acaso peguei um volante da esportiva onde diz para a gente mandar
nossas ideias e reivindicação. O que eu tenho para lhes dizer é muito triste e
doloroso. Bom vocês já sabem que não só eu como milhares de pessoas boas
estão ao relento, sem casa. Eu sou solteira c/ 37 anos, (2) filhos. Ganho o
salário mínimo para fazer tudo, pagar aluguel, comida, roupas e remédios p/
crianças. No ano em que se deu o cruzado e o conjelamento, eu fui a pessoa
mais feliz pois podia alimentar melhor meus filhos e pelo menos morar um
pouco decente. Eu ganhava 800,00 cruzados e pagava 600,00 cruzados de
casa (3) cômodos. Isso durou até setembro de 86, pois logo fui enformada
que meu aluguel a partir de fevereiro subiria para 1.900,00 cruzados. Daí já
comecei a não dormir, e como já é de rotina não me alimentava mais, um nó
na garganta que nem água passava, pra eu poder dar de comer p/ crianças eu
saia do hospital que eu trabalhava 12 hs, das 18hs as 6 da manhã e ia fazer
faxina p/ poder pelo menos dar comida p/ crianças e com isso fui me
enfraquecendo até que não consegui arranjar outra casa ou mesmo 1 comodo.
Fui obrigada a deixar o pouco que tenho guardado em uma casa pagando 1
comodo p/ guardar minhas coisas e vindo pra São Paulo vê se pelo menos
ganhar um pouco mais, pois meus filhos necessitam comer. P/ mim foi uma
tragédia, ter que deixar as crianças c/ minha irmã e vir para cá. De cada 15
dias vou a Taubaté ver as crianças. Minha filha que tem 5 anos, me implora
pra eu voltar, como não posso morar c/ minha irmã, não posso pagar aluguel,
e como posso eu voltar, se 1 comodo estão pedindo 2.000,00 mil cruzados e o
salário 1.600,00, agora vai p/ 1.900,00 cruzados, que nem dar p/ comer que
dirá pagar 1 comodo. Esses progetos de casas populares não são p/ quem
ganha 1 salário mínimo não, é p/ quem ganha 4, 6, 8 salários. Nós que
ganhamos mínimo ninguém dá a mínima, não existimos, vejetamos. [...]
Por isso eu lhes mando 1 lista de compra p/ 3 pessoas, o que eu gasto por mês
c/ 2) crianças e veja não se come carne todo dia, nem pode frango, nada
disso, só no pagamento, e, o gás-água-luz, o salário mínimo, para [não]
continuar passando fome teria que ser nada mais que 8.000,00 mil cruzados.
Isso p/ 3 pessoas que pelo menos daria p/ pagar um aluguel de uns 3.000,00
cruzados e fazer uma pequena compra, pagar água-luz-gas, sem contar c/
condução e roupas, que por mais que não queira nós salariados viramos
mendigos, porque roupas e sapatos só quando ganhamos. [...] desculpem,
mais eu presisava desse desabafo. E espero uma palavra amiga de vocês pois
meu desespero já ultrapassa minha razão e sem direção eu não sei que rumo
tomar. Por favor espero respostas de vocês e peço que mandem p/ Taubaté
Rua Almirante Barroso nº 150. Cep 12.100
Cidade de Deus
Taubaté.
Maria Júlia de Jesus.250

250
Trechos da carta de Maria Julia de Jesus à ANC. São Paulo, SP, 22/6/87. (MC024_CPMCSOC227-
232)

188
Ao registrar o valor de aluguéis, criticar medidas da política habitacional e
reclamar do custo de vida, expondo seu esforço como trabalhadora e o seu sofrimento
como mãe, Maria Julia cuidadosamente demonstra a possibilidade e força de
experiências de politização do cotidiano. Observe-se que ela não pede diretamente nada;
tampouco faz uma “sugestão de lei”. Mas acusa a violência da política salarial e
habitacional, por exemplo, evidenciando seus efeitos diretos na desagregação de
famílias brasileiras. Quer fazer um desabafo, mas espera/exige resposta e, para tanto,
envia seu endereço.
Nesta e também em muitas outras cartas do conjunto aqui analisado, discorre-se
sobre problemas recorrentes no dia a dia dos missivistas. Tais problemas são
relacionados com a realidade política do país, buscando-se influenciar o poder
estabelecido com ideias, pedidos e reclamações (ou, ao menos, desabafar). O cotidiano
é, assim, revalorizado e desponta como o lócus de onde nasce inspiração, orientação,
crítica e sugestão de projetos políticos. É o que se vê na carta de Hélio Gonçalves,
enviada à Assembleia Nacional Constituinte, em 1987. Usando uma estratégia
discursiva que sugere muita proximidade com o destinatário, embora com recurso ao
formal – “Venho por meio desta” –, o missivista, cuja ortografia nos permite imaginá-lo
como um morador das “favelas feias” que menciona em sua carta, elabora uma sugestão
de política habitacional, que se fundamenta, inclusive, em cálculos matemáticos:

Venho por meio desta dar minha sugestão na Constituinte. Pode ser uma
simples bobeira ou talvez uma grande sugestão para ajudar nossa grande
pobresa, que em massa a maioria passão fome e dorme em baixo de viadutos
e vivem em favelas [...]. Já pensou ali em Santo Amaro tem quarterão que é
so de casas bonitas e manssões, mais na Baixada do outro lado tem uma
grande favela que deixa feio tudo aquelas casas bonitas. Vamos a sugestão. A
minha primeira sugestão seria esta, em cada estádio de futebol do Brasil todo,
o governo pegaria nos fins de semana pegaria de cada engresso 1,00 CZS um
cruzado. Numa torcida de 80.000 ou 120.000 torcedores, já daria para
comprar materiais de construção para a construção de favelas bonitas no
lugar das quelas favelas feia. Num lote de 10x25= 250m2, agente fazia de 2
predio de 2 ou 3 andares [...].251

Mais uma vez o protagonismo da questão habitacional, agora articulada à força


do futebol na cultura brasileira, marca o dia a dia do missivista, que avalia o mundo
político e social à sua volta. É esse dia a dia que fornece aos missivistas a consciência
de seus problemas e interesses, e que fundamenta os argumentos por eles apresentados.

251
Trecho da carta de Hélio Gonçalves à ANC. Itaquaquecetuba, SP, 00/00/1987.
(MC027_CPMCSOC125)

189
Em torno do seu vivido são identificadas as suas necessidades básicas e feitas
indagações e queixas, seguidas de sugestões bem concretas às autoridades.
Evidentemente, o imenso valor da sugestão na está em sua operacionalização, mas na
firmeza em detectar questões vistas como possíveis de solução por vontade política. A
política é, assim, básica e fortemente percebida como uma dimensão comprometida com
esse espaço do cotidiano, de tal modo que cada experiência se torna um parâmetro para
avaliar o seu bom ou mau funcionamento. Torna-se evidente que, para o cidadão
comum, política não é algo distante, difícil e complexo, mas, ao contrário, é algo que
está bem próximo de sua vida, e que é perceptível aos seus julgamentos e aos seus
planos de “boa sociedade”.
É desse modo que Maria das Graças Soares Cardoso (provavelmente mãe de
família) escreve aos constituintes, em 24 de junho de 1986, expondo que, em Barra do
Garças, município vizinho e fronteiriço a Aragarças, em Goiás, precisa-se muito “de um
dentista da previdência social, [pois] as crianças [...] estão todas com os dentes
estragados e com os salário que estão não da nem para comer, que dirá tratar dos dentes
com dentista particular”. E a par da vigência no país da política de congelamento dos
preços (Plano Cruzado), a missivista acrescenta: “Aqui não existe congelamento, no dia
em que foi anunciar o congelamento os comerciante remarcaram os preços [...], o leite
que o governo tinha que vender tabelado com o preço mais baixo [...] antes do
congelamento era 50. Agora e 81”.252 Maria das Graças percebe com clareza e
sofrimento que os moradores de Barra do Garças vivem em condições de muita
dificuldade, com “salários de fome” e sem acesso sequer a serviços básicos de saúde.
Demonstra também estar a par da vigência no país de uma lei de congelamento dos
preços e faz a denúncia de que tal lei não é respeitada naquele município, evidenciando
a urgência de que se estabeleçam medidas políticas que impeçam a continuidade de tal
problema. Nada em sua carta sinaliza um pedido pessoal, mas ao contrário, seu relato
volta-se para os problemas sociais e políticos que vivencia cotidianamente, como os
demais habitantes de sua cidade.
Dizer que as experiências do dia a dia fornecem aos missivistas as prerrogativas
da sua participação política significa admitir que processos de aprendizado político
ocorrem diária e sistematicamente, não podendo ter seus sentidos controlados. Daí se
pode aferir que são tais processos que oferecem contrapontos poderosos à enunciação de

252
Trecho da carta de Maria das Graças Soares Cardoso à ANC. Aragaraças, GO, 24/6/1987.
(MC024_CPMCSOC251)

190
discursos de diversos setores da elite (política, econômica, cultural) que, via de regra,
tendem a reproduzir a lógica de seus valores. Dessa forma, as cartas aqui em estudo são
documentos que “certificam” que a politização do cotidiano constitui um espaço de
resistência e atuação fundamental para as camadas populares. 253
A possibilidade de os indivíduos, em seu viver cotidiano, produzirem
contrapontos e deslocamentos à lógica política dominante, é abordada por Michel de
Certeau (2008), na perspectiva do funcionamento prático da ordem social do consumo.
O autor desenvolve uma teoria das práticas cotidianas e sustenta que é impossível
prever ou enquadrar todos os sentidos que são atribuídos pelos indivíduos aos seus
produtos de consumo diário (às suas vivências), por mais que se tente predeterminar um
lugar e uma função universal para esses produtos. Segundo Certeau, em vez de o “ato de
consumo” ocorrer supostamente de maneira passiva, com a assimilação automática,
pelos consumidores, daquilo que tenha sido previamente definido como a forma
adequada de fazer uso do que é oferecido no mercado, o que se daria, de fato, seria toda
uma “disseminação anônima” de novos e diversos sentidos sociais atribuídos a esses
produtos.254 Tal entendimento tem como pressuposto a ideia de que as práticas
cotidianas, à medida que são vivenciadas, inspiram “estilos de ação” e produzem efeitos
sobre as “maneiras de fazer”, não sendo plausível supor a existência de um lugar
“próprio”, exclusivo e controlado, para se pensar o cotidiano e, por meio dele, o mundo
social. Ou seja, há uma política do e no cotidiano sempre em tensão e diálogo com o
campo da política formal.
Em perspectiva distinta, porém consonante a de Certeau, a antropóloga Karina
Kuschnir (2000), analisando os processos políticos vivenciados em um subúrbio carioca
na década de 1990, observa que a prática cotidiana da política envolve toda uma
experimentação do sistema político formal, que, no decorrer das vivências concretas da
população, muitas vezes é ressignificado de várias formas. No dia a dia, as pessoas
estabelecem relações com a ordem política e, a partir dessas relações e também de seus
próprios interesses, reinventam caminhos de ação, tendo em vista transformar e
melhorar suas condições de vida, não raro tirando partido de dispositivos e regras da
própria ordem política (o que Certeau também destaca por meio da noção de “brecha”).

253
A ideia de que a participação política pautada na percepção das privações do cotidiano é uma forma de
resistência ao poder dominante foi bastante trabalhada pelo cientista social Eder Sader, quando examinou
a organização de movimentos populares em São Paulo, entre 1970 e 1980 (SADER, 1988).
254
Michel de Certeau (2008, p. 91) cita, por exemplo, o trabalho com sucata como sendo uma entre outras
práticas que introduziriam maneiras não previstas de “fazer” e “usar” os produtos de consumo.

191
Estratégias de ação política são definidas a partir de problemas vivenciados no dia a dia
e, mesmo quando se articulam com as estruturas formais de poder, nem sempre as
traduzem, muito ao contrário. Sua lógica muitas vezes é “abrir brechas” no sistema,
visando influenciá-lo a favor de seus próprios interesses. É exatamente nesse sentido
que o presidiário José João Batista, invocando o tema da participação política dos
presos, objeto de discussão e polêmica à época da Constituinte (presente em outras
cartas aqui analisadas),255 procura reduzir a distância social em que está ao escrever:

O preso encarcerado ele se julga desclassificado pela sociedade, isso eu tiro


por mim mesmo. Então devido a esse fato, ele não sente aquela necessidade
de votar. Veja bem: sentindo-se despresado pela sociedade, você não vai
sentir obrigação de participar de coisas que não lhes dizem respeito. Então
ele se pergunta. Esses políticos!, será que eles vão me soltar se eu votar
neles? Será que eles vão me adiantar alguma coisa? E claro que não. Ai ele
continua pensando: “é tudo um monte de ladainha, o papo deles”. [...] Mesmo
depois de estar livre das grades, digo em liberdade, 80% desses presos não
enchergam interesse para essas coisas. Procuram, talvez por extinto, seguir
aquela rotina que levavam, ou melhor, que foram obrigado a serem
submetidos. Mas eu, particularmente sou a favor, aliás, só não. Sou a favor,
como fasso questão de que o detento vote. Pois se ao menos ele tivesse este
direito, talves, quem sabe, ele não continuaria a seguir esse costume? E mais,
uma grande vantagem se tornaria evidente. Certamente alas carcerárias, em
época de eleições, sobrecarregariam-se de políticos. Talves, não é de se
duvidar, que com isso, surgiriam novas e maiores esperanças de liberdade.256

Em sua carta, José João Batista explica que é a favor da participação dos presos
nos processos eleitorais, ainda que, via de regra, os políticos eleitos “desprezem” os
presos. Ele não só é a favor como faz questão de votar, pelas “vantagens” que essa
participação política pode trazer, para além dos candidatos eleitos, abrindo brechas para
uma mudança na forma de inserção dos interesses e necessidades dos detentos no jogo
político do país, em benefício dos detentos.
Um ponto a ressalvar, contudo, é que o envio de cartas populares aos
governantes de forma alguma aparece como uma substituição da participação política
por meio do sistema de representação pelo voto. As cartas ressignificam essa
participação, com base nos fundamentos do vivido. Por meio delas, ações políticas
sedimentadas nas experiências do cotidiano tiveram o seu lugar ativo na construção da

255
Contra a argumentação de que todos os presidiários deveriam ter direito ao voto – percebida por
alguns analistas como fundamental para o exercício da cidadania no cárcere (DALLARI, 1984) –, o texto
constitucional de 1988 definiu pela suspensão dos direitos políticos dos presos no caso de “condenação
transitada em julgado, enquanto durarem seus efeitos” (Constituição da República Federativa do Brasil,
de 1988. Dos Direitos Políticos. Capítulo IV, artigo 15, inciso III). Ou seja, é facultado o direito ao voto
apenas aos “presos provisórios”, que nas datas de eleição não estejam em situação de condenação
definitiva, cabendo ainda algum tipo de recurso a Tribunais.
256
Trecho da carta de José João Batista. Sem destinatário, local e data. (MC080_CECSUG7)

192
democracia brasileira. Tais cartas são expressões do cotidiano como força
transformadora e revelam que as práticas sociais do dia a dia constituíram um efetivo
vetor da luta política popular.
Vale observar também que o mundo cotidiano dos missivistas é revelado nas
cartas não apenas porque é lembrado e apresentado como “prova” da pertinência de suas
sugestões políticas/críticas/pedidos. Ele também é revelado em função das maneiras
como os missivistas articulam e enunciam as suas experiências, bem como dos
procedimentos que adotam para estabelecer seu contato, por carta, com as autoridades
políticas. Afora oferecer registros concretos de experiências vividas, os textos deixam
ver também certos costumes, constitutivos do ambiente social em que os missivistas
estão inseridos: maneiras de vivenciar o cotidiano que estão inscritas nos seus atos de
ordenar o pensamento e de se relacionar em sociedade.
Nesse sentido, é interessante destacar certas especificidades dos missivistas
relativas às maneiras como eles expõem seus pensamentos e como se comunicam por
carta com a autoridade política, expressando a vivência cotidiana de determinados
padrões de relacionamento.

4.4. “Vocês que foram eleitos por nós estão aí para defender
nossos direitos” (Ben Hur José Caldeira de Souza, 1987)

Alguns missivistas assumem uma atitude de subalternidade, no tratamento com


os governantes, deixando a impressão de que não reconhecem o próprio direito à
interlocução com uma autoridade. Lúcia Reis Rosati, por exemplo, escreve a Alfonso
Arinos, em 8 de maio de 1986, afirmando: “Receio que esta carta não lhe chegue às
mãos e acho mesmo que é muita audácia de minha parte imaginar que vai lê-la.
Entretanto é grande minha vontade de contribuir com algumas idéias à nossa futura
assembléia constituinte.”257 Tal representação do poder, certamente remete a um
imaginário político em torno de lógicas verticais e autoritárias de governo. Porém, na
mesma carta, a missivista expõe problemas concretos a exigir soluções dos governantes
e cobra providências: “Precisamos acreditar nos políticos, mas está difícil. Quis

257
Trecho da carta de Lúcia Reis Rosati a Afonso Arinos. Niterói, RJ, 8/5/1986. (MC065_CECSUG 52)

193
escrever-lhe porque o considero uma figura patriótica e acima dos interesses
rasteiros.”258
Assim, ao exigir soluções dos governantes para os problemas do dia a dia, os
missivistas reservam-se alguma função de controle do jogo político e não raro
apresentam-se como eleitores. Se, por um lado, o respeito para com os políticos é
expresso na forma de respeito para com superiores, por outro, também a autoridade do
cidadão é afirmada e mesmo “empunhada” como ameaça. As autoridades políticas são
lembradas de seu dever em atender aos anseios populares, inclusive como condição para
serem reeleitas. Alguns trechos de cartas são exemplares dessa dinâmica.

Um lembrete aus constituinti, o pouvo estão com os olhos aberto inclosivis os


trabalhador já estão falando ou si organizando, arsociação de bairro e favelas
no sentido de si nada melhora com urgência nigen ir mais as urnas quando
ouver eleição mesmo qui sejam olbrigado votar, não é amearça é uma
comcientização que ta tomando conta de toudos. 259

Senhores Deputados daqui eu torço para que esta constituinte seja duradoura,
justa e eficaz. Pois vocês que foram eleitos por nós estão aí para defender
nossos direitos, e eu conto com vocês. Tomara que daqui para frente não de
certo um certo pensamento de Karl Marx que diz... “A História de toda a
Sociedade, até hoje tem sido a história das lutas de classes.”260

Outra característica das cartas é reproduzir a maneira como em geral os


indivíduos, em seus diálogos cotidianos, ordenam o tempo para expressar seus
pensamentos. A dimensão do tempo é ordenada pelos missivistas a partir de construções
textuais que articulam experiências do passado com o momento presente por eles
vivenciado e ainda com projetos de vida para o futuro. Tal exercício, pode-se dizer,
traduz perfeitamente a maneira como os indivíduos percebem o tempo no correr de seu
próprio viver cotidiano. De fato, trabalhar com o tempo com base em uma determinada
lógica temporal é algo que está relacionado com o modo como os indivíduos,
cotidianamente, “pensam” e “falam” de si mesmos, conferindo uma determinada
coerência e linearidade própria as suas vidas, que ganham unidade lógica e sentidos
sequenciais. A jovem Manuela, por exemplo, escreve longa carta ao presidente José
Sarney, em 2 de outubro de 1985, apresentando fatos e experiências pessoais, como
uma “exposição de motivos” introdutória, para fazer uma reivindicação. Ela começa sua

258
Ibidem.
259
Trecho da carta de Francisco Pereira Onório à ANC. Fortaleza, CE, 19/6/1987. (MC024_CPMCSOC
181)
260
Trecho da carta de Ben Hur José Caldeira de Souza aos deputados constituintes. São Paulo, SP,
25/6/1987. (MC024_CPMCSOC 72-75)

194
carta explicando que, desde 1979, era líder do movimento “As crianças em defesa da
natureza”, trabalho que a levou a percorrer “cidades, bairros, escolas, numa constante
troca de informações e experiências”. Relata também que, em 1981, foi escolhida “pela
Rede Globo de Televisão para representar o Brasil na ‘Operação Plus Ultra
Internacional’, uma promoção da Rádio-Difusão Espanhola, que premia crianças do
mundo inteiro (uma de cada país) que tenham realizado algum ato cívico ou heróico”.
Acrescenta que, na ocasião, visitou alguns países, “levando do Brasil um documento
dirigido ao Senhor Secretário Geral da ONU”, pedindo “aos países desenvolvidos que
não mandassem para os países sub-desenvolvidos ou em desenvolvimento as
tecnologias (remédios, agrotóxicos, detergentes) que lá não deram certo”. Desde então,
Manuela passou a se dedicar à luta pela “salvação da natureza”, segundo a missivista, só
possível “através de uma reformulação de valores, de uma nova ordem social,
econômica e política, que recolocará o Homem como sujeito da História”. Dessa forma,
ela conclui sua carta com a seguinte afirmação: “Por tudo que já fiz, pelo que ainda
posso fazer, é que venho lhe pedir uma participação na Constituinte, como representante
da minha faixa etária.”261
A carta de Manuela é exemplar de uma característica muito comum em cartas
pessoais: trabalhar com a passagem do tempo, periodizando e dando sentido às suas
“etapas”. Como dito, esta é uma característica dos indivíduos de modo geral, cujo
pensamento precisa dar coesão às suas vidas, estabelecendo continuidades e
descontinuidades ao longo de um tempo vivido. Ângela de Castro Gomes (2004b, p.
11), a esse respeito, sugere inclusive que os indivíduos expressam não somente
descontinuidades ao longo do tempo – por operarem, em seu íntimo, com o cruzamento
de tempos passados, presentes e futuros – mas que expressam, também,
descontinuidades “ao mesmo tempo”, traduzidas na coexistência de diferentes
temporalidades a imprimir o ritmo das relações que cada indivíduo constrói, dia após
dia, nos vários âmbitos de sua vida (a família, o trabalho, o lazer, a política etc.). Desse
modo, o indivíduo percorreria, durante todo o seu vivido, não uma linha de tempo, mas,
sim, várias linhas de tempo, conviventes, sobrepostas e interarticuladas no fluxo de uma
mesma trajetória individual.
Decerto, as cartas aqui em exame, como seria de esperar, vão ao passado para
desenhar o futuro. Seus textos são um terreno de expectativas, em que a vida social é

261
Trecho da carta de Manuela ao presidente da República. Rio de Janeiro, RJ, 2/10/1985.
(MC056_CECSUG 60-64)

195
projetada, estabelecendo-se pontes, nada retilíneas, que ligam menções ao passado
recente e longínquo (muitas vezes mitificado) ao presente (de modo geral trágico), mas
sempre se lançando para o futuro. Nesse ritmo irregular, tão irregular quanto os
percursos de uma vida, intercalam-se memórias e representações do mundo. As cartas
desenrolam enredos num ritmo comandado pelas experiências da vida e pelos projetos
de futuro que orientam os missivistas: a Constituinte “fará” o futuro e quem escreve, no
presente, quer participar dessa ação. O processo de reconstitucionalização do Brasil
situa a experiência do tempo cotidiano como algo inacabado, que se abre para o futuro,
um futuro que pode ser melhor, mas que não está garantido. A coerência da “voz” do
missivista afirma-se na descontinuidade de um tempo que lhe é próprio e se relaciona
com os exemplos e memórias que ele acessa para dizer o que deseja em sua carta.
Assim, cada carta encontra o seu ritmo, a partir de um entrelaçamento de elementos
relacionados tanto com o que o missivista detém de conhecimento/vivência no momento
em que escreve, quanto com o que ele percebe como possibilidade concreta para seguir
em frente.262

4.5. “Um país deve ser governado com sabedoria e essa tem que
vir de Deus” (Vespertina Silva de Matos, 1986)

Um aspecto também interessante a ser observado nas cartas é que, reiteradas


vezes, os missivistas lançam mão de referências religiosas para criticar ou denunciar a
rotina de injustiças vivenciadas pelo povo brasileiro que, de acordo com eles, deveria
ser controlada pela “boa lei”. Tais injustiças são reconhecidas como próprias ao mundo
laico/terreno, mas são muitas vezes tratadas a partir de construções discursivas que
remetem ao sagrado e invocam a proteção e o juízo de Deus. Estabelece-se, assim, um
padrão de comunicação, digamos, sacropolítico, com frases que mesclam expressões
como: “Um país deve ser governado com sabedoria e essa tem que vir de Deus.” 263; ou:
“As minhas preces elevo ao trono de Deus, suplicando-Lhe às suas bençãos e graças

262
François Hartog (2003) traz boas reflexões sobre os diferentes sentidos que podem provir das
articulações entre passado, presente e futuro, quando discute que a História constitui uma atividade ligada
à forma como as sociedades elaboram a sua experiência temporal.
263
Trecho da carta de Vespertina Silva de Matos ao presidente da República. Campo Grande, MS,
08/02/1986. (MC062_CECSUG 91-93)

196
para V. Excia. e dignos colaboradores.”264; ou ainda: “Pois até mesmo sendo o
Excelentíssimo Senhor Presidente José Sarney o comandante supremo das Forças
Armadas e o primeiro mandatário da nação brasileira, não resolveu o meu problema,
portanto digo que somente o pai celestial.” 265 Note-se, nos exemplos destacados, que o
uso de expressões religiosas não chega a transmitir um sentido preciso em relação à
religião dos missivistas, sendo mais uma mescla de palavras que envolvem elementos
do sagrado e de respeito a Deus, porém sem remeter a uma religião específica. Assim,
em boa parte das cartas, o uso de frases e termos religiosos mostra-se presente, mas não
confessional, indicando uma predisposição cultural entre os missivistas, em seus atos
comunicativos cotidianos.266 Nada realmente parece impedir que os missivistas
procurem recursos no mundo popular religioso para a construção de argumentos
racionais, e, a esse respeito, é interessante citar uma passagem da pesquisa do cientista
social Afrânio Garcia Jr (apud PALMEIRA, 2002, p. 175), sobre a concepção de poder
político entre camponeses do agreste meridional de Pernambuco: “[...] o mundo em que
se vive, a terra, não é o mundo onde vive Deus, o Céu. As regras segundo as quais se
vive na Terra devem conformar-se aos desígnios de Deus, mas são criadas e aplicadas
por homens”.
Expressar-se a partir de termos religiosos é algo recorrente entre os missivistas,
porém evidenciando mais uma característica do povo brasileiro, no seu modo de fazer
uso cotidiano da língua, do que da existência de sentimentos relacionados com uma
crença religiosa específica.

4.6. “Eu não amo meu marido” (Jaci Maria Ramos Silva, 1985)

É muito característico dos textos das cartas os missivistas fazerem uma


apresentação de si aos destinatários, ou fazerem um relato de aspectos pessoais de sua
vida, antes de exporem o assunto principal que pretendem tratar. A impressão que
deixam é que, desse modo, desejam qualificar as suas demandas e também a si próprios.

264
Trecho da carta de Nympha de Almeida ao presidente da República. Barbacena, MG, 14/5/1986.
(MC065_CECSUG 163-165)
265
Trecho da carta de João Batista Marques à ANC. Teresina, PI, 23/6/1987. (MC024_CPMCSOC 237-
240)
266
A presença, em nossas raízes culturais, de representações de uma racionalidade ao mesmo tempo
política e religiosa, é abordada, entre outros, em CHAUÍ, 1994, e, mais recentemente, em MARCELINO,
2010.

197
Pequena ou longa, a apresentação ou relato de si é recorrente como estratégia
discursiva, conferindo valor a determinadas “condições de ser” e a certos protocolos ou
cuidados no diálogo direto com a autoridade, que exigiria que os seus interlocutores
fossem pessoas “boas” e “respeitáveis”. Nessa linha, Jaci Maria Ramos Silva escreve ao
presidente da República, em 10 de dezembro de 1985, para pedir que a Assembleia
Constituinte crie leis que protejam as mulheres dos maus-tratos em família, comentando
em tom confessional o seu próprio sofrimento ao lado do marido “violento,
irresponsável e mentiroso”:

Sabe Senhor meu casamento vai de mal a pior, talvez por acontecer uma
coisa muito comum, eu não amo meu marido. Isto não é uma coisa
impensada de minha parte [...] estou vendo que não há alternativa para nós
pois metira figimeto maus tratos inresposabilidade de uma serta forma não
leva a nada [...] mais eu tenho muitas provas destes comportamentos desta
parte dele. [...] Peço-lhe que realmente a Acembleia Constituite venha
elabora leis que realmente posa mexer de serta forma firme e eficais com os
casamentos do Brasil [...] que as mulheres sejam tratadas com todo
respeito.267

E Possidônio Ramos Machado, que também envia carta ao presidente da


República, em 24 de abril de 1986, explica: “A Constituinte está aí e muita coisa tem
que ser mudada. Sou estudante do último ano do 2º grau, sou Policial Militar, o que
tanto me orgulha em ser.” E, adiante, completa: “Senhor presidente, uma coisa que eu
não entendo é por que analfabeto pode votar e um soldado da PM e do Corpo de
Bombeiro não pode votar.”268 Os dois exemplos mostram como, antes de expor suas
demandas, os missivistas recorrem à apresentação de aspectos da sua própria
experiência, que possam legitimar ou sensibilizar as autoridades políticas para as
questões demandadas nas cartas. Nos dois casos específicos, eles antecipam, desde
informações relacionadas com seus sentimentos mais íntimos até esclarecimentos sobre
a sua formação educacional e experiência profissional.
As estratégias de apresentação de si são acionadas de modo praticamente
generalizado, no acervo. Os missivistas oferecem-se à apreciação da autoridade política,
tratando de inserir conteúdos pessoais na relação direta que propõem por meio das
cartas, selecionando informações sobre suas condições de moradia, saúde, educação,
situação ocupacional, grau de instrução, entre outras. Antônio de Almeida Costa, por

267
Trecho da carta de Jaci Maria Ramos Silva ao presidente da República. Rio de Janeiro, RJ,
10/12/1985. (MC059_CECSUG 79-81)
268
Trechos da carta de Possidônio Ramos Machado ao presidente da República. Belo Horizonte, MG,
24/4/1986. (MC078_CECSUG 295)

198
exemplo, escreve ao presidente da República, em 31 de julho de 1986, explicando: “Sou
pobre, sou doente, vivo pequeno salário, de agora foi 603 cruzado, mais quero lutar com
a minha onestidade em todos ponto de vista, senhor prezidente, só tenho 4º primário, eu
queria ter direito de fazer parte na constituinte pela minha onestidade.” 269 Quer dizer, é
comovente e instigante pensar no que move à ação política um homem pobre e
semianalfabeto: a condição de trabalhador mal remunerado, mas que mantém sua
honestidade em todos os pontos, como ele bem explicita e valora, no contexto da
Constituinte.
Em outra carta, e de outro lugar social, Nelson Guimarães Barros escreve ao
senador Afonso Arinos, solicitando informações sobre os trabalhos da CEC: “Tenho
acompanhado pela imprensa e pelas publicações de vários autores, trabalhos sobre a
Constituinte e as reformas a serem proposta. Contudo, não consegui nenhum relatório
ou qualquer outra publicação da “‘Comissão Constitucional Afonso Arinos’”. E, para
legitimar sua demanda de participação, o remetente dá a conhecer: “Estudo na
Faculdade de Direito da PUC de Campinas e pretendo pós-graduar-me em Direito
Público, em especial Direito Constitucional.” 270 Ainda outro exemplo, José Martins
Silveira escreve ao presidente da República: “Já que os leigos podem dar sugestões para
a Constituinte que vem aí, me incoragei de dar algumas” e em seguida diz: “Primeiro
vou me identificar”:
Tenho 61 anos, casado, 08 filhos, todos de maiores, sou comerciante, fui
lavrador, ou melhor trabalhador rural, fui veriador pela minha cidade durante
6 anos, 3 dos quais como presidente da Camara, fui membro do diretório da
antiga ARENA e também do PDS. Fui candidato a Prefeito pelo PDS,
atualmente sou membro do diretório do PMDB. Saí do PDS antes uns mezes
do Senhor.271

No exemplo, José Martins Silveira traz o esforço do trabalhador bem-sucedido –


mobilidade do campo para a cidade – e principalmente o fato de ser também um
político, além de pai de família. É tal esforço que sustenta a apresentação do remetente,
possibilitando que ele faça sugestões à Constituinte. Os exemplos fartam, emblemáticos
da característica do conjunto de cartas de investir na apresentação de aspectos pessoais
da trajetória dos missivistas.

269
Trecho da carta de Antônio de Almeida Costa ao presidente da República. Ibitirama, ES, 31/7/1986.
(MC069_CECSUG 188)
270
Trecho da carta de Nelson Guimarães Barros a Afonso Arinos. Campinas, SP, sem data.
(MC081_CECSUG 95)
271
Trecho da carta de José Martins Silveira ao presidente da República. São Geraldo, MG, 2/3/1986.
(MC063_CECSUG 4-18)

199
Aqui, como seria esperado, na grande maioria das vezes, tais apresentações de si
confirmam que as condições pessoais de vida relatadas pelos missivistas que
demonstram dominar as regras da escrita culta e que têm uma boa caligrafia tendem a
ser mais confortáveis do que as condições de vida assumidas pelos missivistas que
apresentam um precário conhecimento da língua portuguesa e pouca desenvoltura na
caligrafia. Azarias Martins de Aviz, por exemplo, em texto com muitos erros
ortográficos e caligrafia irregular, mas peremptório na descrição de sua pobreza, escreve
aos deputados constituintes: “Pela primeira vez queli escrevo pedindo uma ajuda para
eu. Porque sou uma peçona pobri nãu tenho condição financeira para vever.” 272 Pobreza
e pouco conhecimento da escrita são domínios que aparecem juntos, nesta e em várias
outras cartas do acervo, confirmando o padrão cultural de desigualdade historicamente
vivenciado pelos brasileiros. Tal realidade social pode ser observada, também, na carta
da pedagoga Helda Zago, que escreve ao Ministro da Educação, Marco Maciel, em 28
de março de 1986, um texto em perfeito português e bela caligrafia, notificando ter tido
oportunidade de investir fortemente em sua formação profissional e sugerindo a
implantação de um curso público denominado “Treinamento de Relações Humanas”,
visando estimular a educação de forma permanente. Na carta, ela se apresenta: “Resolvi
fazer a Faculdade de Pedagogia. Depois disso, decidi fazer Pós-Graduação em
Administração Escolar, para fundamentar um estudo sobre Treinamento de Relações
Humanas, com o objetivo de obter embasamento científico, a fim de poder beneficiar as
pessoas com esse poderoso recurso.”273
Ou seja, os exemplos de apresentações de si evidenciam a desigualdade social
brasileira no tocante às condições de trabalho e de vida, e que tal desigualdade articula-
se à outra: a desigualdade no tocante ao domínio da escrita culta. De modo geral os
missivistas que assumem pertencer aos extratos menos favorecidos da sociedade, em
grande maioria, e como é de se esperar, são os que incorrem com maior frequência em
erros ortográficos, apresentando também, pior caligrafia. Porém, vale reafirmar, tal
limitação não os impediu de escrever cartas às autoridades políticas, no momento do
debate constituinte, apresentando suas experiências, opiniões e demandas.

272
Trecho da carta de Azarias Martins de Aviz aos deputados constituintes. Capitão Poço, PA, 16/7/1987.
(MC016_CPMCSOC 181)
273
Trecho da carta de Helda Zago ao ministro da Educação Marco Maciel. Júlio de Castilhos, RS,
28/3/1986. (MC081_CECSUG 26-56)

200
4.7. “[...] se vocês quizer mandar uma ajuda em meu nome ate que
eu não enjeiava não. Já faz mais de ano que não trabalho”
(Manoel Cosmo, 1987)

Quando os missivistas assumem, nas suas cartas, que enfrentam condições de


vida inegavelmente adversas, é recorrente que elas sirvam ao encaminhamento de
pedidos de socorro pessoal às autoridades políticas, traduzindo uma prática social que
tem raízes históricas fundadas na desigualdade e na concentração de poder político.274
Dessa forma, por exemplo, exprimindo a penúria de uma vida de muitas dificuldades,
Manoel Cosmo escreve ao CPMC, em 25 de julho de 1987, nos seguintes termos: “[...]
sou pobre, não posso nem compra sique um jornal. Agora se vocês quizer mandar uma
ajuda em meu nome ate que eu não enjeiava não. Já faz mais de ano que não trabalho. E
já passei dos 40 anos.”275 Em casos como este, as cartas são pedidos e dão a conhecer a
injustiça do estatuto de vida dos missivistas e a urgência e esperança de serem atendidos
de alguma forma: “uma ajuda”, “um interesse da parte de quem tem poder”, um
trabalho, qualquer ocupação. A ênfase nos aspectos trágicos de uma existência, assim,
em certos momentos, coloca-se como uma eficiente estratégia discursiva dos
missivistas, que expõem cuidadosamente suas dores para comover os destinatários das
cartas, tornando-os seus aliados nas suas reivindicações. Afinal, toda realidade trágica
constitui, indubitavelmente, motivo de sobra para que sejam mobilizados esforços
políticos visando a sua superação.
De fato, há no acervo um volume expressivo de cartas de pedidos pessoais.
Cartas que não demandam políticas públicas de maior alcance e mais duradouras. Mas é
importante observar que, mesmo quando os missivistas expõem problemas por eles
vivenciados e, em razão desses problemas, limitam-se a fazer pedidos pessoais às
autoridades políticas, esses missivistas evidenciam, para os destinatários, que dispõem
de capacidade de análise de sua situação social. Ou seja, as cartas de pedidos são uma
dimensão importante que se combina com as práticas políticas e formas de cidadania
vivenciadas pelos brasileiros: os missivistas pedem e, ao mesmo tempo, cobram
providências das autoridades.

274
A percepção da prática de fazer pedidos às autoridades políticas brasileiras, como algo “natural”, foi
analisada em profundidade na Dissertação de Mestrado de Luciana Quillet Heymann (HEYMANN,
1997).
275
Trecho da carta de Manoel Cosmo ao CPMC. Guarabira, PB, 25/6/1987. (MC024_CPMCSOC 296-
301)

201
De modo geral, nas cartas em que são encaminhados pedidos de ajuda pessoal,
os missivistas escrevem com o propósito de obter alguma colocação no mercado de
trabalho ou de serem beneficiados pessoalmente por alguma ação direta da autoridade
política. Tais cartas, numa primeira mirada, podem parecer confirmar as interpretações
que tendem a identificar certa dependência dos populares e certo conformismo em
relação ao lugar subalterno que lhes caberia num sistema de forças políticas, em que o
poder de decisão estaria fundamentalmente com a autoridade instituída. Nessa
perspectiva, os missivistas, ao buscarem se beneficiar de favores políticos que possam
advir da comunicação por carta com as autoridades, estariam, passivamente,
consentindo com um sistema desequilibrado de forças. Tal perspectiva poderia, por
exemplo, orientar uma leitura da carta reproduzida abaixo, de José dos Santos, escrita ao
presidente da República, em 8 de julho de 1987:

Senhor José Sarnei, e senhores constituintes, quando os senhores tomarem


conhecimentos das leituras das cartas que eu – José dos Santos mandei,
espero que os senhores levem a sério em todos os meus assuntos de salvar o
pobre brasileiro de morrer de fome e aprovem leis verdadeiras no Brasil para
servir realmente aos pobres que até agora estamos sendo condenados pelos
grandes milionários e os ricos de todo Brasil. Os pobres estão precisando
tanto do apoio do governo federal como os senhores precisam dos nosso
votos para serem autoridades.
Peço também que os senhores me arrumem um imprego aí em Brasília nem
que seja na Telefonica ou em qualquer outra impresa do governo federal pois
estou desempregado e ariscado perde o meu INPS [...].
Se der para me arrumar um serviço aqui em Alagoas ficará melhor porque eu
fico perto da minha mãe que já está com 75 anos de idade [...].
Olha eu estou mandando esta carta pedindo imprego aos senhores porque eu
estou realmente precisando ter um trabalho com direito o INPS e também
ganhar um salário justo igual a minha profissão de trabalho, se deus me ajuda
que os senhores arrumar um imprego para mim que eu ganhe 8.000,00
cruzados por mês com INPS está muito bom.
José dos Santos276

No entanto, é possível adotar outra orientação teórica para a leitura dessa mesma
carta, observando-se que, se José dos Santos faz pedidos pessoais às autoridades
políticas – e o faz nesta e também em mais outras nove cartas do acervo, insistindo no
objetivo de encaminhar pedidos às autoridades 277 –, os seus pedidos são apresentados
por meio de argumentação que reporta às dificuldades encontradas pelo missivista nos

276
Carta de José dos Santos ao presidente da República e aos constituintes. Penedo, AL, 8/7/1987.
(MC016_CPMCSOC 172-175)
277
As demais cartas do acervo assinadas por José dos Santos têm os seguintes códigos:
MC016_CPMCSOC 183-187; MC024_CPMCSOC 68-69; MC024_CPMCSOC 193-194;
MC024_CPMCSOC 204-207; MC024_CPMCSOC 258-263; MC024_CPMCSOC 314-316;
MC024_CPMCSOC 334-341; MC024_CPMCSOC 345-346; e MC026_CPMCSOC 309-312.

202
caminhos formais do mercado de trabalho e da administração pública para conseguir
emprego. José dos Santos expõe problemas, sem parecer resignado, por meio de um
relato convincente, que toma como base o domínio de suas experiências e de seus
interesses. Ele faz a opção estratégica de escrever ao presidente da República para pedir
a intervenção da autoridade no que julga merecido e urgente: o direito de trabalhar para
o próprio sustento.278
Ou seja, o pedido pessoal aparece nas cartas do acervo seguido por toda uma
explicitação de motivos que lhe confere o status de um direito (não contemplado pela
ordem vigente). Essencialmente, as cartas de pedidos constituem discursos
argumentativos que colocam uma demanda justa, devida, como se vê nos exemplos
abaixo:

Gostaria de saber, estas mulheres que é abandonada do marido, êle some não
dá pensão as crianças, deixa os filhos e vai viver numa boa. Foi criada uma
lei como eles são obrigado a manter a pensão e o juiz fala que não pode fazer
nada, não temos condição, como eu tenho uma filha que o marido dela
deixou com ela 4 filhos, sumiu, ninguém da notícias dele, ela tem que
trabalhar, pagar aluguel e dá comida os filhos e é difícil arrumar emprego
para ganha o salário. Como vocês vive lutando pelas crianças abandonada,
279
qual é a lei que vocês pode criar na ajuda da pensão das crianças?

O que está acontecendo em nosso Brasil não é justo. Um pobre que vivi
trabalhando compra tudo por alto preço. Em Itaquara mesmo, os tubarões
estão fazendo o que bem quer, vende tudo por alto preço.
O presidente Sarney podia resolver isto de uma vez por outra.
[...] Eu acho que o congelamento podia ser um direito de ter no Brasil e não
podia terminar de forma alguma.
[...] Eu queria que os constituintes me desse uma ajuda grátis de cem mil
cruzados. O dinheiro pode ser mandado pelo o correio.280

Se algumas cartas lançam mão de elementos ditos reforçadores da ordem


desigual, o fazem apontando falhas nessa ordem. O cidadão dirige-se à autoridade
política buscando soluções para problemas e humilhações relacionados ao que
reconhece como uma necessidade básica da vida (que não é respeitada) e para reclamar
que as instituições governamentais, ou as autoridades destinatárias das cartas, devem
estar a serviço dessa necessidade. Trata-se, portanto, de estratégias de pressão política a

278
Além de Michel de Certeau, já citado, outros autores referenciais poderiam ser aqui lembrados, por
trabalharem a partir do entendimento de que as pessoas que compõem os extratos populares das
sociedades, longe de reeditarem, de forma acrítica, a lógica e os valores sociais dominantes, orientam-se
pelo universo das suas próprias tradições culturais e pelos modos como absorvem e projetam as várias
influências que recebem ao longo de suas vidas. Ver, por exemplo, BURKE, 1989; CHARTIER, 1990;
DARNTON, 1986; e GINZBURG, 1987.
279
Trecho da carta de D. Carmelita. Destinatário não identificado. Belo Horizonte, MG, 00/7/1987.
(MC024_CPMCSOC 383)
280
Carta de Roberto Silva de Moraes à ANC. Itaquara, BA, 12/8/1987. (MC024_CPMCSOC 393-394)

203
favor, não de objetivos meramente interesseiros ou oportunistas, mas daquilo que é
percebido como socialmente justo e necessário e que não é observado pelas autoridades.
Trata-se também de compreender os pedidos às autoridades como uma prática social
sustentada historicamente na desigualdade e no controle do poder político por uma elite
social.

4.8. “Acho que é mais lógico me comunicar do que guardar para


mim o que talvez convinha que fosse dito” (Judith Gomes da
Silva)

Alguns textos de cartas são prolixos, e dão voltas e voltas, parecendo estudar a
melhor e mais polida maneira de dizer o desejado. É o que se vê, por exemplo, na carta
de Judith Gomes da Silva, escrita ao presidente da República, em 1º de agosto de 1985:

Excelentíssimo Senhor Doutor Presidente da República.


Excelentíssimo Senhor :
Uma nova Constituição se faz necessária no país. Como pessoa do povo, que
sou, e das mais humildes, das mais pobres, tomando interesse no que diz
mister a todos os brasileiros sem exceção, peço licença a Vossa Excelência,
não obstante a minha intromissão, para, depois de o parabenizar e o elogiar
pelo abnegado entusiasmo como governa seu povo, dar o meu parecer quer
seja à Vossa Excelência coerente e aceito ou não. Acho que é mais lógico me
comunicar do que guardar para mim o que talvez convinha que fosse dito. 281

A carta prossegue por nove páginas, repleta de rodeios e esmero na maneira de


construir as frases. Judith Gomes da Silva reconhece a necessidade de uma nova
Constituição e apresenta uma série de sugestões/ponderações, como a de que, frente ao
elevado custo de vida, “nunca a pena a ser submetido alguém seja a da perda do
emprego salvo se o empregado abusar da lei, menosprezar o empregador, der desfalque
ou for ileal causando prejuízo, podendo ser perdoado no caso de reconciliação se o
infrator tornar-se regenerado”. Sugere ainda que, em relação ao homicida, “a maior
pena seja a do seu trabalho dar uma pensão compensável para a família do assassinado.
Se é o pobre que mata o rico e a família deste fica bem de vida, seja a pensão remetida
ao Estado para atendimento à saúde da infância”. A missivista identifica procedimentos
específicos para a penalização de outros crimes e defende a necessidade da reforma
agrária e de “dar completa civilização ao homem do campo”.

281
Trecho da carta de Judith Gomes da Silva ao presidente da República. Recife, PE, 1º/8/1985.
(MC053_CECSUG 61)

204
Segundo ela, todas as suas sugestões teriam em vista “a solução de muitos
problemas como fome, desemprego e migração em massa para as favelas nas grandes
cidades”. A carta, além de prolongar argumentos que se percebe que foram cuidadosa e
cerimoniosamente elaborados, é escrita em folhas que trazem vários dizeres impressos,
de autoria do padre Héber S. Lima, entre os quais: “Se espinhos há pela frente, nos
trilhos por onde fores, pisa-os calmo e sorridente que atrás nascerão as flores.”; “Como
é longa a caminhada que espera os pés da criança e, nesta tão longa estrada, quanto
espinho se retranca.”; e “Para haver jardins em flor, hóstias em elevação, foi mister que
um lavrador fizesse calos na mão.” Trata-se, como se vê, de dizeres de esperança, de
perseverança, que remetem à longa caminhada de uma vida, entre flores e espinhos, a
ser trilhada com calma (sem pressa), porque a vida, para encontrar o seu rumo, “dá
voltas” – característica, aliás, do próprio texto da carta de Judith.
O uso de uma abordagem repleta de rodeios por alguns missivistas parece ter
relação não somente com os seus recursos enunciativos, mas também com o
reconhecimento, por eles, da existência de uma determinada hierarquia na relação entre
sociedade e Estado/autoridade, que exige dos indivíduos certa cerimônia e cuidado na
comunicação. Uma maneira rebuscada e indireta de escrita seria, nesse caso, percebida
como um dos recursos possíveis de diálogo “de baixo para cima”, entre cidadãos e
autoridades.
Alguns exemplos do uso de uma linguagem cerimoniosa podem ser observados
em formas de tratamento e despedida, utilizadas nas cartas. Jair Campos, por exemplo,
inicia sua carta (enviada a destinatário não identificado) nos seguintes termos: “Caro
senhor meretisimo, o seja eselensia”, 282 e José de Souza Lins, em carta enviada ao
presidente José Sarney, em 15 de agosto de 1986, despede-se expressando a sua
“elevada consideração e alto apreço, mui cordialmente”. 283
Não devemos desconsiderar também o fato de que o emprego de termos que
observam uma etiqueta cerimoniosa e comedida pode constituir também em um recurso
de retórica utilizado pelo missivista como artifício para impressionar e/ou persuadir o
destinatário de sua carta. Nesse caso, é atribuído ao decoro um sentido utilitário e tático
no jogo das relações de poder, aspecto que é bastante explorado em estudos sobre as
maneiras de falar e de praticar a linguagem. Nesse caso, o poder da arte da eloquência e

282
Trecho da carta de Jair Campos. Sem destinatário. Florianópolis, SC, sem data. (MC080_CECSUG 32-
33)
283
Trecho da carta de José de Souza Lins ao presidente da República. João Pessoa, PB, 15/8/1986.
(MC070_CECSUG 109-111)

205
do jogo de palavras é enfatizado, com o objetivo de fazer prevalecer os próprios
interesses. 284
Por outro lado, há vários exemplos de cartas no acervo em que os missivistas
buscam estabelecer algum tipo de aproximação, de intimidade, com os governantes,
mencionando (construindo ou inventando) a existência, entre eles, de laços de
identidade, de amizade, conterraneidade ou parentesco. É nesse sentido que vários
missivistas adotam formas de tratamento como “Prezado amigo”, “Amigos!” ou
“Querido Presidente” e formas de despedida como “Abraço amigo”; “Seu amigo” ou até
mesmo “Beijos!”. 285 Glória Jurema Guimarães escreve ao presidente da República, em
23 de junho de 1986, argumentando a favor de uma série de medidas políticas, entre
elas a desburocratização da lei de adoção de filhos para “o bem estar dos menores” e, ao
despedir-se, declara: “Com um abraço, e uma forte vontade de conhecê-lo de perto.”286
Maria dos Anjos Esteves de Pinho também escreve ao presidente da República, em 22
de maio de 1986, demandando que os “velhos” ganhassem aposentadorias iguais aos
trabalhadores da ativa, porque, segundo ela, “dá muita pena vê uma classe média morrer
poperrima triste e trabalharam tanto como eu”. Ao final da carta, servindo-se de certa
espontaneidade, a remetente revela ao presidente ter “uma vontade imensa de lhe vêr e
abraçar e conversar.”287 E, ainda, de modo igualmente descontraído e desprovido de
protocolos, uma aposentada escreve aos deputados Sandra Cavalcanti e Ademar de
Barros Filho, em 28 de junho de 1987, para dizer que somente eles sabem o que falam,
e despede-se: “Xau, Abraços.”288
Desse modo, produz-se todo um campo de “afinidades” nas cartas, atenuante dos
efeitos da distância hierárquica e da impessoalidade que poderiam caracterizar as
relações políticas formais entre cidadãos e autoridades. É vasta a produção acadêmica
sobre o uso – e abuso – de relações de amizade e clientelistas tendo em vista solucionar
problemas e obter favores.289 Estas sempre abriram e fecharam portas à sociabilidade

284
Sobre esse assunto, ver, por exemplo, GUTHRIE, 1971.
285
Entre outros vários exemplos, estão as cartas do acervo classificadas com os seguintes códigos:
MC016_CPMCSOC 177-179; MC024_CPMCSOC 292; MC065_CECSUG 248-251; MC060_CECSUG
18-19; MC016_CPMCSOC 177-179; e MC056_CECSUG 60-64.
286
Trecho da carta de Glória Jurema Guimarães ao presidente da República. Curitiba, PR, 23/6/1986.
(MC067_CECSUG 231-237)
287
Trecho da carta de Maria dos Anjos Esteves ao presidente da República. Curitiba, PR, 22/5/1986.
(MC077_CECSUG250)
288
Trecho da carta, sem o nome da remetente, aos deputados Sandra Cavalcanti e Ademar de Barros
Filho. Sem local, 28/6/1987. (MC024_CPMCSOC 278)
289
Veja-se, por exemplo, CARVALHO, 1997.

206
política do cidadão brasileiro.290 No acervo aqui analisado, a “aposta” dos missivistas é,
em vários momentos, a de aproximar de si o governante, pelo sentimento e afetividade,
explorando as identidades pessoais e extrapolando a relação estritamente política. Para
além das formas de tratamento ou de despedida escolhidas, o investimento de alguns
missivistas em buscar o tipo de aproximação sugerida evidencia-se em diferentes
passagens das cartas, estabelecendo-se uma relação ambígua em que as esferas do
público e do privado imiscuem-se, como no exemplo abaixo:

Inicialmente, quero desejar-lhe muita paz e êxito, bem como aos seus
familiares. Sou nordestina da “Terra dos Marechais”, da cidade de Viçosa e
resido, desde muito jovem na “capital do fumo”, na cidade de Arapiraca.
[...]
Agora, quero pedir-lhe desculpas por não ter empregado o tratamento Vós,
por achar que o Vós, distancia muito as pessoas e o Senhor está muito
próximo, no coração mesmo, dos brasileiros de “boa vontade”.
[...]
Um abraço para a Dona Marly.
Para o Senhor, Dr Sarney, a admiração e o respeito de sua irmã nordestina:
Izabel Torres de Oliveira.291

A missivista enfatiza, logo no início de sua carta, que é nascida no Nordeste,


explorando assim o compatriotismo entre ela e o presidente Sarney, e volta novamente a
este ponto, conferindo-lhe centralidade como elemento identitário, quando assina: “sua
irmã nordestina”. Além disso, ela não se esquece de mandar: “Um abraço para a Dona
Marly”, introduzindo a dimensão do familiar no diálogo político, o que não é
meramente casual, sendo antes uma tentativa de tornar o diálogo não apenas político,
mas pessoal, familiar, de modo que se possa estabelecer, para ela, um lugar de
interlocutora política diferenciada.
Outro elemento, nas cartas, passível de ser interpretado como um “gesto de
aproximação”, são os segredos e as confissões escritos às autoridades por alguns
missivistas. Maria do Carmo Rocha envia carta ao presidente Sarney, em 6 de abril de
1986, denunciando as injustiças que o seu marido sofre como trabalhador, e afirmando
que destemidamente decidiu “falar” pelo marido, porque ele, como todos os demais
empregados da empresa onde trabalha, têm medo de reclamar e perder o emprego:

[...] depois de tantos anos numa firma e ser bom empregado, pois sua ficha é
limpa e honesta, ficar tão humilhado, tão desamparado, se eles souberem que
escrevi, meu marido é despedido, novamente, estou escrevendo sozinha,

290
Veja-se, por exemplo, GOMES, 2004c; CARVALHO, 1988; e MARTINS, 2005.
291
Trecho da carta de Izabel Torres de Oliveira ao Presidente da República. Arapiraca, AL, 28/5/1986.
(MC065_CECSUG 310-312)

207
porque os outros empregados tem medo de perder o emprego, assim como o
meu marido também o tem.292

E José Bastos Bezerra também escreve ao presidente José Sarney, em 19 de abril


de 1986, afirmando a sua decisão de fazer confidências ao presidente, o que, sendo
confidências que dariam a ver graves falcatruas políticas, era preciso muita coragem
para fazer. O missivista então denuncia a extrema desigualdade nos salários pagos a
funcionários da Assembleia Legislativa de Alagoas, envolvendo valores altíssimos, que,
diz ele, “nem o Sr Presidente da Republica ganha”.

Talvez o Senhor não tenha conhecimento do que está acontecendo em


Alagoas... Peço confidência, pois sou pequeno, mas vou ter a coragem de
contar a realidade do que acontece em Alagoas. [...] tem funcionários da
Assembléia Legislativa recebendo de ordenados e vantagens mais de
CZ$233.000,00 mil cruzados. [...] o mesmo acontece no executivo Estadual e
Municipal [...]. Estes salários, segundo me disseram cresce muito por causa
de varias leis criadas por eles mesmos, para se beneficiarem [...]. Tenho
certeza que nem o Sr Presidente da Republica ganha este ordenado que são
pagos em Alagoas. [...] Sr. Presidente, como já disse, é só para o Senhor
tomar conhecimento do que acontece em Alagoas.293

Tal como José Bastos Bezerra, muitos outros missivistas denunciam e criticam a
realidade política brasileira, em alguns momentos chegando mesmo a transformar suas
cartas em um lugar de extravasamento de raivas acumuladas contra o governo. Nesse
sentido, Sérgio Vaz Maestre, reivindicando uma verba para socorrer os pobres do país,
ameaça: “Se isso não acontecer eu vou reclamar com a nossa ?! rainha Margarete
Tacher para mandar o Sr presidente José Sarnei pegar o ministro pela nuca em cima da
mesa e [...] mandar bater na cabeça do ministro [...]. Ai! O Brasil aprendera a viver.” 294
Outro missivista, assinando como “José de Ribamar Sarney Hitler”, em carta datada de
21 de junho de 1987, avisa: “Escrevo esta linhas em nome dos pobres brasileiros, é
apenas um desabafo, olhe Srs., meu Brasil nunca teve um presidente tão safado e
escroto como o tal (Zé Sarna). Olhem quero que isto chegue ao conhecimento dele e da
corja de ladrões dele.”295 José Antônio da Cruz, em carta à ANC, reclama: “Um
trabalhador quando bebe umas pinga, num fim di semana: a poliça pega ele e dana o

292
Trecho da carta de Maria do Carmo Rocha ao presidente da República (com anexo para o Congresso).
Volta Redonda, RJ, 6/4/1986. (MC064_CECSUG 100)
293
Trecho da carta de José Bastos Bezerra ao presidente da República. Maceió, AL, 19/4/1986.
(MC080_CECSUG 209-216)
294
Trecho da carta de Sérgio Vaz Maestre. Sem destinatário. Ribeirão Preto, SP, sem data.
(MC019_CPMCSOC 4)
295
Trecho da carta de “José de Ribamar Sarney Hitler”. Sem destinatário. Salvador, BA, 21/6/1987.
(MC024_CPMCSOC 202-203)

208
porrete”, enquanto o “Delfi [Delfim Netto] que levou a nação inteira [...] a escravidão
do FMI!, ele esta ai falando alto, os senhores vendo e ouvindo e aplaudindo. Não acho
certo. Esta Constituinte tem que cer livre e suberana.” 296 Neste caso, vale enfatizar,
novamente delineia-se a lógica insofismável do cotidiano popular com a denúncia das
agruras enfrentadas pelo cidadão trabalhador, que trabalha, apanha da polícia e não pode
nem beber “umas pinga” no fim de semana. Cotidiano de dificuldades, evidenciado em
tantas outras cartas, como a de um provável mato-grossense (não identificado), datada
de 26 de junho de 1987, que declara, recorrendo a muita ironia: “Segurança pública
nunca foi problema desde que todo cidadão civilisado do Mato Grosso anda prevenido
com seu trabuco. Vamos viver sem violência. Tudo em Paz e que o Papa nos
abençoe.”297 Com certeza, pelo contraditório, essas cartas – de raiva, de ironia – podem
também constituir gestos de aproximação, ao despertar particular atenção e cuidados de
quem as lê, o que certamente estava no horizonte desses cidadãos indignados.
Na contramão das críticas, alguns missivistas tecem conjecturas otimistas sobre
o quadro político nacional e dirigem palavras calorosas, de confiança e de afeto aos
governantes. Walter Lopes, em carta a Afonso Arinos, de 21 de fevereiro de 1986,
declara: “Ao Sr. Ministro (permita-me este epíteto) Afonso Arinos de Mello e Franco. O
senhor é um gênio e um homem público do quilate de um José Bonifácio. Admiro-o
bastante. Aqui vão algumas idéias para a Constituinte.” 298 O missivista então
desenvolve uma longa carta, discorrendo, entre vários outros temas, sobre o mau
funcionamento do sistema carcerário no Brasil e apontando, com otimismo, maneiras de
melhorá-lo, porque se “um cara erra; vai pra cadeia; piora lá dentro”. E na mesma linha
de otimismo e confiança na melhora do sistema político brasileiro, Neusa Aparecida
Ferdinando Sintoni, em 26 de junho de 1986, escreve ao presidente da República,
“como cidadã brasileira, operante e trabalhadora”, e propõe mudanças na forma de
contagem de tempo para a aposentadoria. Ao final, conclui:

Na oportunidade, cumprimento V. Exa. por ter implantado em nossa Pátria o


corajoso e providencial Pacote Econômico, tirando-nos do caos iminente e
desejo-lhe que Deus o ilumine na continuidade desta árdua tarefa de Chefe de
Estado que o destino lhe reservou.

296
Trecho da carta de José Antônio da Cruz à ANC. Barra do Garça, MT, sem data. (MC019_CPMCSOC
8)
297
Trecho da carta de autor e destinatário não identificados. Sem local, 26/6/1987. (MC024_CPMCSOC
264-268)
298
Trecho da carta de Walter Lopes a Afonso Arinos. Nilópolis, RJ, 21/2/1986. (MC062_CECSUG 172-
175)

209
Estou ajudando na fiscalização total (listas de preços nas mãos) e também
sendo “presidente” a cada dia, como pediu em seu último pronunciamento e
não estou achando fácil, por isso, cuide-se bem, precisamos muito de V. Exa.
Creia, Excelência, o Brasil está orgulhoso de ter um Presidente da República
culto, inteligente, poeta e membro da Academia Brasileira de Letras.
Mais uma vez, os meus agradecimentos, recomendações a Sra. Marli, a quem
admiro imensamente. Deus os abençoe.
Sua admiradora e sempre grata,
Neusa Aparecida Ferdinando Sintoni.299

A missivista, como se vê, revela-se muito confiante e orgulhosa do presidente da


República, estendendo os seus elogios a D. Marli e deixando claro que compreende o
território da política como um lugar propício às declarações de afeto e ao estreitamento
de vínculos familiares. Ela também retoma o tema do lançamento do Plano Cruzado.
Neste caso, vale observar que a sua carta foi enviada ao presidente em julho de 1986,
momento em que o plano econômico ainda desfrutava o apoio de boa parte da
população, conforme apresentado no capítulo 2.
Os elogios nas cartas, de modo geral, parecem sinceros. Via de regra, estão
associados a determinados comportamentos políticos das autoridades ou a
características nelas reconhecidas. No caso de José Sarney, os elogios aparecem
relacionados com o bem que o Plano Cruzado teria feito e com o fato de o presidente ser
“culto”: poeta da ABL. Isso dá orgulho ao cidadão. Mas os missivistas deixam claro que
estão acompanhando, com expectativa, o trabalho das autoridades, atentos ao que elas
realizam, ao que deve resultar dessas realizações e ao que ainda falta ser feito em
benefício do povo.

Excelentíssimo senhor Presidente José Sarney


[...] O senhor tem sido um homem maravilhoso e tem feito tanto para os mais
humildes e quem sabe o senhor não terá um jeito de fazer com que seja dado
um apoio as pessoas que como meu marido sofreram injustiça.
[...]
Obrigado e que Deus o ajude a ser sempre este homem trabalhador e bom que
o senhor tem sido. [...] O que eu queria é que viesse algo na Constituição, ou
antes, que proteja pessoas como meu marido, que trabalha em firma que o
empregado é como animal, objeto descartável, eles cansam de dizer que se
tem 1 pra sair, tem 10 pra entrar e isto é duro, os empregados não tem valor
nenhum. [...].300

Ilmo Sr. Jurista Afonso Arinos de Melo Franco


[...] Sabendo eu que o Sr. Afonso Arinos é uma pessoa muito inteligente, não
será preciso eu afirmar que minha preocupação maior é com o menor

299
Trecho da carta de Neusa Aparecida Ferdinando Sintoni ao presidente da República. Santa Rita do
Passo Quatro, SP, 16/7/1986. (MC069_CECSUG 100-102)
300
Trecho da carta de Maria do Carmo O. Rocha ao presidente da República (com anexo para o
Congresso). Volta Redonda, RJ, 6/4/1986. (MC064_CECSUG 95-96)

210
abandonado ou menor de rua. Espero que o Sr. estude com muito carinho
minhas sugestões, e transforme-as em lei.
Ao Ilustríssimo Sr. Jurista, peço a Deus, que lhe dê, saúde, paciência e muita
sabedoria para poder então satisfazer os anseios da população brasileira na
composição da Constituição.301

Como se pode observar nos exemplos, ao tecer elogios, os missivistas apontam


as direções políticas que consideram corretas e também cobram compromissos que
devem ser assumidos pelos políticos. Sinceros, mas não gratuitos, os elogios são
concessões feitas pelos missivistas, na proporção em que aprovam determinadas linhas
de ação adotadas pelas autoridades. Se as autoridades merecem especial deferência, isto
ocorre em virtude de seu comportamento político. Nesse sentido, a mesma carta que
notifica um elogio do missivista engendra maneiras dele dizer e se fazer ouvir sobre os
seus projetos, interesses e demandas. O elogio converte-se em intervenção/aproximação
do missivista no campo de forças políticas. Como afirmou Jorge Ferreira (1997, p. 56),
a respeito das cartas escritas por trabalhadores ao presidente Getúlio Vargas, nos anos
1930 e 1940: “[...] o objetivo não era apenas exaltar gratuitamente Vargas, e sim dar um
passo à frente, avançar, conseguir um emprego, um aumento salarial ou melhorar de
vida. A aceitação do regime, enfim, não implicava necessariamente resignação ou
conformismo.”
Ainda com respeito à construção de campos de afinidade com as autoridades,
como uma tradição da sociabilidade política brasileira, alguns missivistas escrevem
explicitando que estão atendendo a apelos dos governantes: “Caros Senhores do Centro
Pró-Memória da Constituinte. Movido pelo gentil convite para participar impresso em
volantes da loteria esportiva, eis que, eu surjo.”302 Ou: “Como fui convidado a enviar
ideias e reivindicações para chegarem aos Senhores Constituintes, então eu as farei.”303
Ou ainda: “Desde que vocês da Constituinte ache que o povo deve participar dela então
eu estou participando.”304 Vale lembrar que a oportunidade de enviar cartas aos
governantes pode ser a oportunidade de ter acesso a uma autoridade mediadora, ainda
mais quando o envio da carta é solicitado (legitimado) pela própria autoridade. A
mediação política representa, a princípio, um canal “facilitador” para o encaminhamento

301
Trecho da carta de José Carlos de Oliveira a Afonso Arinos. Rio de Janeiro, RJ, 6/1/1986.
(MC062_CECSUG 4-5)
302
Trecho da carta de Carlos Alberto de Matos ao CPMC. Mongaguá, SP, 16/6/1987.
(MC024_CPMCSOC 108-113)
303
Trecho de carta de Ronald dos Santos à ANC. São Paulo, SP, 00/6/1987. (MC024_CPMCSOC 304-
311)
304
Trecho da carta de autor não identificado à ANC. Local não identificado, 28/6/1987.
(MC024_CPMCSOC 279-281)

211
de demandas ao poder público, abrindo uma janela de oportunidades para o cidadão
comum compartilhar as suas necessidades e valores em um âmbito da estrutura
governamental distante de sua realidade imediata.305 Assim, tal e qual os demais
esforços de aproximação referidos, a mediação de uma autoridade política coloca-se,
nas cartas aqui analisadas, também como uma estratégia de luta, no âmbito da política,
condizente com as práticas culturais vivenciadas pelos brasileiros no seu fazer
cotidiano.

305
Sobre o papel do mediador, na vida social e política, ver VELHO; KUSCHNIR, 1996.

212
Capítulo 5

Percepções de cidadania

Urge, V. Exa., olhe pelo povo brasileiro


sofrido, massacrado.”

306
[nome ilegível], 1986.

O autor do trecho, em epígrafe, da carta enviada ao presidente da República em


12 de julho de 1986, sintetiza: é direito do povo que não lhe seja imputada uma posição
marginal na sociedade, de dor e sofrimento, e é dever da autoridade política “olhar” pelo
povo e combater com urgência a sua realidade de sofrimento.
Os sentidos atribuídos às noções de cidadania e de representação política,
presentes nessa e nas demais cartas aqui selecionadas, serão o objeto privilegiado de
análise neste capítulo. Observaremos como tais sentidos são assumidos pelos
missivistas, tanto para fundamentar as razões que os influenciaram na decisão de
escrever, como para legitimar os argumentos e raciocínios esboçados nas cartas, o que
permite uma compreensão de como essas noções – cidadania e representação política –
estavam, naquele momento, sendo apreciadas e definidas.
Como vimos, o conjunto de cartas mostra que seus autores compartilham uma
mesma compreensão do momento que vivem: a de que o Brasil, na segunda metade dos
anos 1980, tinha a chance de se transformar politicamente, para melhor, via processo de
reconstitucionalização. Ante essa possibilidade, solicitam ou propõem medidas que
consideram necessárias para a organização do país como um todo ou para a solução de
questões específicas. Suas cartas constroem sentidos políticos para a vida em sociedade,
exprimindo ideias e ideais sobre os direitos e as obrigações das autoridades políticas, os
direitos e obrigações dos cidadãos e as políticas públicas que, em sua opinião, deveriam
ser priorizadas.
São várias e diferenciadas as iniciativas e medidas apontadas como
fundamentais pelos missivistas e também várias e diferenciadas as ações por eles

306
Trecho da carta de autor não identificado, ao presidente da República. Goiânia, GO, 12/7/1986.
(MC081_CECSUG 178-179)

213
reconhecidas como necessárias e que deveriam ser adotadas pelos governantes.
Contudo, dentro desse amplo universo de percepções políticas, vê-se que determinados
temas e preocupações são recorrentemente valorizados e que há expectativas, crenças,
comportamentos e sentimentos comuns a muitos missivistas.
Examinando os textos das cartas, fica claro que cada missivista vive o seu dia a
dia dentro de uma rede de relações que partilha de um mesmo padrão cultural. Decerto,
eles escrevem com base em suas “pertenças culturais”, no sentido proposto por Teresa
Malatian (2009, p. 200): “Família, vizinhança, cidade, local de trabalho são algumas das
pertenças culturais interiorizadas ao longo da história de uma vida.” Portanto, se, por
um lado, as cartas revelam as singularidades de cada missivista, elas revelam também
cognições partilhadas na sociedade. Algumas cartas, inclusive, expressam claramente
que o missivista tem consciência de que as suas necessidades, demandas e realidade
pessoal são, em outra escala, também compartidas por muitos outros, como sugere o
preso Francisco Carlos Coelho, que envia carta à CEC, em 6 de junho de 1986,
reivindicando o direito do presidiário ao voto e afirmando que querer participar da
escolha das autoridades políticas do país não era um desejo apenas pessoal, isolado, que
dissesse respeito exclusivamente a ele mesmo: “[...] pois as suas decisões [das
autoridades] irão influir em minha vida também, minha família, o meio ambiente onde
vivo no momento e, mais tarde, lá fora também. [...] e não falo só por mim mas por
muitos que pensam o mesmo.”307
Sabemos que a prática da escrita não é neutra em nenhuma situação.
Especificamente no acervo aqui em estudo, ela registra preferências, posicionamentos
políticos e interpretações dos missivistas sobre o mundo. São expressões pessoais e,
como tal, inserem-se em um campo de valores próprios a uma determinada época e a
determinados grupos sociais, conformando padrões de comportamento socialmente
reconhecidos. Nesse sentido, as percepções da política construídas nas cartas expressam
uma cultura política compartilhada e em processo de transformação naquele momento
histórico de reconstitucionalização do país. Percepções que são expressas até mesmo
para justificar que participar era um “dever” de todos.
Já foi dito, mas vale destacar novamente, por se tratar de um questão-chave para
as reflexões deste capítulo: trabalhamos aqui com a noção de cultura política, tomando
por base formulações desenvolvidas para esse conceito por Daniel Cefaï (2001), Serge

307
Trecho da carta de Francisco Carlos Coelho, enviada ao CEC. Florianópolis, SC, 6/6/1986.
(MC080_CECSUG 48-51)

214
Berstein (1998, 1992) e Ângela de Castro Gomes (2007d), em que ganham relevo as
experiências individuais, o vivido pelos cidadãos, os seus modos de crer, interpretar e
lidar com os fenômenos sociais. Porém – e isso é fundamental para a compreensão do
conceito –, as experiências individuais são tomadas como formas culturais
compartilhadas socialmente. São conceituadas como experiências coletivas, expressas
por indivíduos que as conectam a grupos sociais que se unem em torno de postulados
comuns e que, por eles, constroem suas visões de mundo. Ressalte-se ainda que são
múltiplos os universos políticos que, coabitando as sociedades, configuram os espaços
partilhados pelos diferentes grupos sociais. Desse modo, em cada sociedade
desenvolvem-se modos distintos de pensar e de agir, e também diferenciadas lógicas de
convívio político. Essas formas variadas de sociabilidade política são observadas, não
de maneira hierarquizada, como se fossem exemplos de maior ou menor capacidade
política, mas como formas conviventes e interagentes. As várias possibilidades de
socialização política mostrariam que os indivíduos são impactados de formas
diferenciadas e por múltiplos eventos políticos. Esses impactos por vezes são
contraditórios, e é a composição de diversas influências que acaba por integrar o
indivíduo em uma cultura política. Portanto, fazer parte de e exprimir uma cultura
política é algo que vai sendo adquirido pelos indivíduos ao longo do tempo, por meio de
um processo de aprendizagem, de construção e reconstrução de valores, instruído pela
experiência em sociedade.
Dentro dessa perspectiva, entendemos que toda uma gama de valores associados
a uma determinada noção de cidadania inscreve-se nas maneiras como os missivistas
dão sentido às suas palavras, naquilo que eles afirmam aprovar ou desaprovar; naquilo
que exibem ou ocultam; reclamam ou negligenciam. Enfim, é possível observar que
certos valores são associados à noção de uma cidadania mais democrática, no modo
como os missivistas demonstram compreender a si mesmos e o mundo ao seu redor.
Tal entendimento tem como pressuposto que o significado da palavra cidadania
não está dado, não é único e nem estático, antes resultando do universo das experiências
efetivamente vividas pelos sujeitos sociais. Como Ângela de Castro Gomes observa:

Os sentidos de cidadania são múltiplos, dependendo da perspectiva cognitiva


do grupo social contemplado, que é variável no tempo e no espaço. [...] A
abordagem que aqui se adota afirma, portanto, a existência de concepções de
cidadania que se articulam a ‘identidades sociais’ e a ‘culturas de direitos’,
quer dizer, que se articulam aos modos como os grupos sociais se percebem
e, dessa forma, vivenciam a efetivação de direitos e o acesso à justiça
(GOMES, 2007c, p. 8).

215
Acessar os sentidos de cidadania presentes nas cartas ora analisadas, portanto,
impõe o cuidado de evitar qualquer predisposição para prejulgar ou prever as
ações/demandas dos missivistas.
Conjugando com esse postulado, para a análise dos sentidos atribuídos nas cartas
à noção de cidadania, partimos das seguintes questões: que princípios valorativos são
reportados pelos missivistas para demonstrar que há pertinência nos pedidos ou
sugestões ou críticas ou apelos que fazem através das cartas? Ao falar de suas
experiências cotidianas, quais elementos eles invocam como sendo próprios à ideia de
uma vida digna? Como qualificam as situações, os assuntos e as pessoas mencionadas
nas cartas? Que sentimentos e expectativas são acionados? O que entendem ser uma lei
“justa” ou uma ação de governo “justa”? Como é demarcado, justificado, o espaço da
participação política? Como a construção de uma noção de cidadania está se articulando
ao valor do que se chama de democracia?
Acreditamos que, se expectativas, necessidades e interesses estão “postos no
papel de carta”, o modo como são nomeados e priorizados tem a ver com o que estamos
considerando como uma cultura política democrática, que então estava sendo valorada e
que qualifica os direitos do cidadão, em torno dos quais os missivistas empreendem sua
comunicação com os políticos. As cartas descortinam padrões culturais da vida política
no Brasil e nos ajudam a ter acesso a determinados sentidos de cidadania e democracia
presentes na sociedade brasileira na segunda metade dos anos 1980, momento histórico
de reconstitucionalização do país.
Nos tópicos seguintes deste capítulo, dentro dos objetivos apresentados,
procuraremos reter, do conjunto de cartas analisado, algumas
orientações/argumentações que entendemos ser recorrentemente lembradas pelos
missivistas para exprimir as suas percepções sobre quais são as condições de existência
indissociáveis ao exercício do direito dos indivíduos à cidadania em uma sociedade
democrática.

216
5.1. “[...] que a justiça se estenda a todos, se não nunca vai haver a
tal paz falada, como se diz o povo em geral” (Luiz Antônio,
1987)

Incontestavelmente, no conjunto selecionado de cartas, o respeito aos direitos


“do povo” é seguidamente referido como uma premissa da boa condução política do
país. Desse modo, fica evidente que o processo constituinte é percebido não só como
“a” possibilidade de reconstrução do país, com base na participação política de todos os
brasileiros, como também torna-se um projeto político cujo sentido maior é o de
beneficiar o povo brasileiro, historicamente sempre injustiçado.
O “povo brasileiro” é o grande referente de fundo da correspondência, sendo de
maneira geral identificado como a parcela pobre e desventurada da população.
Responsável por todo o progresso do país, honesto e trabalhador, como surge na escrita
dos missivistas, esse povo se vê excluído das riquezas que ele mesmo criou. O “povo
brasileiro” das cartas é esquecido pelos governantes; negligenciado por uma ordem
política que favorece invariavelmente os extratos sociais mais abastados. Homens
humildes, “que trabalham nos diversos serviços pesados, porque esses homens sim são
de valor porque eles derramam seus suores na terra e calejam suas proprias mãos, e
talvez, ganham tão pouco que mal e mal da pra comer e pagar o tal ‘disgraçado’
aluguel”, reclama Luiz Antônio, em carta ao CPMC, de 18 de junho de 1987. 308
São muitas as cartas que descrevem as dificuldades enfrentadas diariamente pelo
povo, “que está sendo massacrado pelo governo”,309 seja pela ausência de serviços
públicos eficientes e satisfatórios do ponto de vista da abrangência do atendimento a
toda população; seja pela escassez das oportunidades de empregos para o cidadão
trabalhador.
As cartas denunciam a distância entre as medidas efetivadas pela administração
pública e a realidade vivida pela parcela mais pobre da população brasileira, sendo os
trechos abaixo bastante ilustrativos do teor geral de indignação popular que se manifesta
por essa via:
[...] Para começar, diria o seguinte: nossa assembléia legislativa, quando fez
entrar em vigor novas leis criminais, esqueceu de acrescentar, em primeiro
lugar, que as leis em si seriam iguais, sem distinsão de sexo, cor, fracos,
fortes, pobres e ricos. Se o fez, pelo que tenho constatado, isso não tem sido

308
Trecho da carta de Luiz Antônio ao CPMC. São José dos Campos, SP, 18/6/1987.
(MC024_CPMCSOC 145-150)
309
Trecho da carta de Roberto Gonçalves aos deputados constituintes. Curitiba, PR, 25/6/1987.
(MC024_CPMCSOC 256)

217
levado muito a sério. [...] Como aconteceu comigo anteriormente, sendo eu
carente de recursos financeiros, e sendo exposto a enfrentar varas criminais
com inquéritos quaze que praticamente desnecessários, não obtive benefícios,
que me seriam, de certo modo, imprescindíveis. No entanto, doutra forma,
pude perceber que outros indivíduos que encontravam-se em boas condições
financeiras, sentiram e viram seus direitos virem a tona.310

Os centros de saúde de Salvador vivem no maior descaso das nossas


autoridades competentes. [...] Quero saber de quem é a culpa, o governo
Federal? Ou Estadual? As mudanças que dia chega? Façam alguma coisa
para os pobres Snrs. Deputados [...].311

Parece-nos interessante observar que uma leitura crítica dos exemplos


destacados e das denúncias existentes nas cartas pode em muito se beneficiar da ideia de
“quebra de contrato social” desenvolvida por Barrington Moore (1987). O autor sugere
que, em face do descumprimento de certos deveres e obrigações que são esperados das
autoridades políticas na gestão da vida coletiva, sobrevém uma situação em que a
população se sente oprimida e insatisfeita, evidenciando-se, por um lado, a ilegitimidade
da ordem política dominante – o que Barrington Moore chama de falha no “contrato
social” – e, por outro, uma circunstância favorável à revolta. No acervo de cartas
analisado, de fato, os missivistas reiteradamente protestam contra a falta de atenção das
autoridades políticas com os segmentos mais pobres da população, expondo a
ilegitimidade de uma realidade social em que não são reconhecidos os direitos de
cidadania à maioria dos brasileiros. Do mesmo modo, a análise dessas cartas pode
também se beneficiar da proposição de Axel Honneth (2003), de que o sentimento de
não pertencimento é decisivo e diretivo na luta dos desfavorecidos sociais por inclusão e
respeito. Em comum, ambas as abordagens sugerem que as ações de resistência à ordem
política são muitas vezes acionadas não somente por razões de fundo material –
relacionadas com a privação econômica –, mas principalmente por razões subjetivas e
de base moral, relacionadas com a consciência de injustiças sofridas. Esse poderoso
sentimento de falta de reconhecimento social e político, com frequência, aparece
fortemente imbricado à vivência de dificuldades de vários tipos e pode funcionar como
um elemento mobilizador para a ação coletiva.
As cartas expressam também que as necessidades vividas pelo povo brasileiro
colocavam em evidência uma crise que diria respeito, não exclusivamente aos que se
viam diretamente por ela atingidos, mas ao país como um todo. Os problemas que

310
Trecho da carta de José João Batista. Destinatário, local e data não identificados. (MC080_CECSUG
4)
311
Trecho da carta de Terezinha C. Costa aos deputados constituinte. Salvador, BA, 29/6/1987.
(MC024_CPMCSOC 283-284)

218
penalizavam os extratos mais pobres da sociedade precisavam ser entendidos como
problemas do país de modo geral, que, no conjunto, vivenciava o drama da
desigualdade e da injustiça. É o que afirma, Luiz Antônio, em sua carta ao CPMC, de
18 de junho de 1987: “Eu acho que a Constituinte talvez seja uma boa ideia para
melhorar este paíz. Tem que mexer em muitas coisas de modo geral, que a justiça se
estenda a todos, se não nunca vai haver a tal paz falada, como se diz o povo em geral. 312
Neste ponto, cabe novamente nos reportarmos às campanhas pró-participação
popular na Constituinte, que muito difundiram a ideia de ser necessário fixar os direitos
do povo como uma das questões prioritárias da reconstitucionalização do país. As
campanhas denunciavam as ações – ou inércias – governamentais que lesavam o povo
em seu cotidiano, invocando a responsabilidade do poder instituído no atendimento às
demandas mais básicas da população. E é nesse ambiente, em que se intensificavam os
apelos por um governo comprometido com a garantia dos direitos do povo, que são
tomadas as decisões de escrever cartas aos governantes, para defender, cobrar e indicar
quais eram esses direitos. O novo Brasil, que se construía, deveria garantir a
participação de todos, não só nas decisões políticas constitucionais, mas também nos
resultados das políticas econômicas e sociais. Assim, Dirce Vasconcelos envia carta ao
presidente José Sarney, em 8 de maio de 1986, afirmando que o governo “falhava” no
contrato que tinha com o povo, pois este se via injustamente submetido a um “arroxo
salarial”:
As riquezas brasileiras devem ser preservadas; o governo não pode dispor
delas, sem antes provar ao povo brasileiro da necessidade de o fazer. [...] O
governo brasileiro não pode contrair uma dívida para o Brasil, sem antes
provar ao povo brasileiro da necessidade de o fazer. [...] O povo brasileiro
não pode sofrer “ARROXO SALARIAL” para pagar dívidas contraídas pelo
governo, a qual ele não foi comunicado, nem provado por este mesmo
governo da necessidade de o fazer.”313

Decerto, o momento constituinte, em si, criava expectativas em relação às


possibilidades de conquistas de direitos pela população. De diferentes maneiras, os
missivistas expressam a esperança e o desejo de que a nova Constituição viesse a
“atender os anseios do Povo, não apenas no aspecto jurídico, mas também sob o ponto

312
Trecho da carta de Luiz Antônio ao CPMC. São José dos Campos, SP, 18/6/1987.
(MC024_CPMCSOC 145-150)
313
Trecho da carta de Dirce Vasconcelos Nunes ao presidente da República. Niterói, RJ, 8/5/1986.
(MC065_CECSUG 248-251)

219
de vista sócio-econômico”.314 A reconstitucionalização do país, portanto, era percebida
como um momento estratégico para que os populares lutassem por seus interesses. Um
tempo de abertura para novas finalidades, a envolver todo o tecido social e a
possibilidade de refundação das prioridades e lógicas políticas. Entre os missivistas,
muitos afirmam desejar contribuir para a transformação da sociedade, por entender que
vivenciam um momento de efervescência democrática, propício à reordenação do
campo de forças sociais. O pressuposto era o de que a Nova República representava o
estabelecimento de novas possibilidades de reconhecimento do povo e de seus
interesses e de uma efetiva ampliação de seus direitos, conforme apontam os exemplos
destacados nas cartas abaixo:

É com toda alegria que eu escrevo estas sugestões para a Câmara dos
Deputados, pois se não fosse esta carta magna eu jamais poderia escrever,
pois é um momento único na vida do povo brasileiro em geral. [...] E é por
isto que eu escrevo esta carta de sugestões pois uma feitura de uma carta
magna tem que ser feita pelo povo e para o povo [...].315

Como uma cidadã brasileira, que sofre e se revolta com a situação social,
econômica e política a que chegou o nosso país, mas que, ainda assim, como
toda a sociedade aliás, está se agarrando à idéia da Nova República como a
uma tábua de salvação (mesmo porque não há outra alternativa), eu lhe peço:
não deixe que este momento político se desperdice, privilegiado que é pelas
circunstâncias. O povo quer participar, precisa aprender (ou reaprender?) a
fazê-lo. Que todos os meios de divulgação e esclarecimentos sejam utilizados
para alertar e convocar as pessoas a participarem, discutirem, se
conscientizarem do que representa realmente uma Assembléia Constituinte e,
principalmente do que elas representam para a convocação da Assembléia.
[...] E que daí, então, nasçam os porta-vozes da sociedade brasileira (em toda
a sua totalidade e diversidade), capazes de fazer voltar a ela uma Constituição
digna, legítima e, principalmente, nacional, isto é, que represente o
pensamento e as aspirações do povo brasileiro, neste momento [...].316

Michel de Certeau (2008, p. 45-53) sustenta que determinadas conjunturas


históricas são percebidas como “ocasiões felizes” para a ação popular, como momentos
ideais para o esforço tático de superação de uma condição de fragilidade social.
Corroborando a assertiva de Certeau, são de fato inúmeras, nas cartas, as referências ao
esforço de constitucionalização democrática do país como uma grande oportunidade de
mobilização do povo para a participação política, tendo em vista promover uma
reconfiguração do campo de forças sociais, em favor das parcelas da população

314
Trecho da carta de autoria ilegível ao ministro da Justiça Fernando Lyra. Recife, PE, 2/6/1985.
(MC052_CECSUG 50-52)
315
Trecho da carta de Ben Hur José Caldeira de Souza aos deputados constituintes. São Paulo, SP,
25/6/1987. (MC024_CPMCSOC 72-75)
316
Carta de Olivia da Vieira a Fernando Lyra. São Paulo, SP, 18/5/1985. (MC050_CECSUG 5-6)

220
historicamente desfavorecidas. A conjuntura da nova Constituinte, com as campanhas
desenvolvidas, conseguiu fomentar o ânimo popular para a adoção de práticas políticas
que visassem reconstituir a forma de pertencimento social dos menos favorecidos,
abrindo-se todo um horizonte de expectativas em torno dessa possibilidade de
mudanças. É nesse sentido que J. Q. Santos envia carta ao presidente da República, em
15 de julho de 1987, e afirma: “É hora da NOVA CONSTITUIÇÃO – DAS
MUDANÇAS. Eu como leigo parece-me que há muito a mudar e agora é a hora, se é
que querem mudar mesmo.” 317
Também não são poucos os missivistas que, ao chamarem atenção para a
necessidade de serem reforçados os direitos do povo brasileiro, enfatizam que o povo
sempre foi preterido pelos ricos e poderosos. O domínio continuado “dos ricos” é
percebido como um tipo de “doença social” cujo sintoma evidente é a “injustiça” para
com os mais pobres. “Lidar com rico e viver na miséria é duro demais”, escreve Maria
do Carmo O. Rocha, de Volta Redonda, no Rio de Janeiro, ao presidente da Repúbica,
em 6 de abril de 1986.318 “Devia ser crime ser marajá neste país. Com o capital
‘roubado’ dos marajás pode-se melhorar o salário mínimo”, escreve outro remetente,
Marcelo Martinho, de Guarulhos, São Paulo, ao CPMC, em 22 de junho de 1987. 319
Nos exemplos destacados e em muitos outros, pode-se ver que os missivistas
reivindicam, por meio de suas cartas, forte e sistematicamente, maior igualdade política,
econômica e social no país, demandando melhorias na vida dos desafortunados.
Os direitos de cidadania do povo brasileiro também são evocados nas cartas
fazendo-se referências a supostas qualidades morais e políticas que certas figuras de
trajetória pública teriam demonstrado possuir. Assim, algumas personalidades políticas
são citadas nas cartas e valorizadas, segundo os missivistas, por possuírem “alma
nacional”, sempre se colocando ao lado das causas do povo ou colocando o seu poder a
serviço dos interesses do povo. Ou seja, representações positivas do poder aparecem nas
cartas, associadas a governantes que, no entendimento dos missivistas, teriam espírito
público, por demonstrarem preocupação com o bem da nação/do povo.
O presidente José Sarney, nesse sentido, em função de estar exercendo a
Presidência da República e ser o “responsável” pelo lançamento do Plano Cruzado,

317
Trecho da carta de J. Q. Santos ao presidente da República. São Paulo, SP, 15/7/1986.
(MC068_CECSUG 129-130)
318
Trecho da carta de Maria do Carmo O. Rocha ao presidente da República. Volta Redonda, RJ,
6/4/1986. (MC064_CECSUG 95-102)
319
Trecho da carta de Marcelo Martinho ao CPMC. Guarulhos, SP, 22/6/1987. (MC024_CPMCSOC 225)

221
vivenciado inicialmente como uma medida econômica em prol dos pobres, aparece nas
cartas, algumas vezes, ocupando a posição de bom governante. Um exemplo é a carta de
Hélcio Antonio Barreto Mendes, de Olinda, Pernambuco, ao presidente da República,
em 20 de junho de 1986: “Nosso amado e heroico BRASIL fez jus ao seu digníssimo
representante direto na pessoa a quem falo, detendo os fortes e os infiéis brasileiros e
enaltecendo os fracos e os menos favorecidos numa nação que marcha para o
progresso.” 320
As boas lideranças ou os verdadeiros representantes da nação seriam aqueles
cuja atuação política se inseriria no padrão ético de governar para o bem dos mais
pobres e socialmente desventurados. Quando tal ideal de político não é identificado no
governante, tem-se, então, a evidência da desqualificação dessa autoridade para o
desempenho de suas funções. Trata-se de um mau político, que se apropria do poder
para usos mesquinhos, sobrepondo outros interesses aos interesses do povo, reforçando
a lógica da desigualdade. Os bons políticos estariam ao lado do povo, como expôs Luiz
Antônio ao CPMC, na carta já citada de 18 de junho de 1987, mas que destacamos outro
trecho agora, em que o missivista recorre a um exemplo de liderança política
estrangeira, de um país socialista. Nos termos do remetente: um “Fidel Castro
brasileiro”.
[Queremos no poder] um homem que seja do porte do Sr: Excelenticimo
Fidel Castro, só que ele é da Russia, nós queremos sim, um homem desse no
poder, mas que seja um Fidel Castro que seja Brazileiro, filho desta terra, que
seja natural, e que olhe tanto pro povão simples [...].321

Chama a atenção, nas cartas, o fato de muitos missivistas, embora críticos em


relação à tradição política brasileira de não reconhecer os direitos de cidadania do povo,
demonstrarem confiança e esperança na transformação do país, dizendo-se desejosos de
expor os seus pontos de vista e sugestões com esse propósito. Como resumiu Hélcio
Antonio Barreto Mendes, referido acima, o Brasil “marcha para um futuro promissor
numa nova era na história da Democracia em todos os tempos”. 322
Objeto de estudo de Robert Putnam (1993), a função da confiança nas relações
sociais é observada a partir do reconhecimento de que se trata de um sentimento
essencial à constituição de um tipo de capital social capaz de impulsionar o
320
Trecho da carta de Hélcio Antonio Barreto Mendes ao presidente da República. Olinda, PE, 20/6/1986.
(MC067_CECSUG 205-209)
321
Trecho da carta de Luiz Antônio ao CPMC. São José dos Campos, SP, 18/6/1987.
(MC024_CPMCSOC 145-150)
322
Trecho da carta de Hélcio Antonio Barreto Mendes ao presidente da República. Olinda, PE, 20/6/1986.
(MC067_CECSUG 205-209)

222
desenvolvimento democrático de uma sociedade. Nas cartas aqui selecionadas, a
expressão de confiança no Brasil é articulada à ideia de um governo comprometido com
o povo. A “boa sociedade” seria aquela em que os direitos do povo “falariam alto”,
conforme demonstra, entre outros exemplos, a carta de Vespertina Silva de Matos, de
Campo Grande, Mato Grosso, ao presidente da República, em 8 de fevereiro de 1986:

Exmo Sr. Presidente José Sarney


[...]
Nós confiamos no seu governo, porque fazem vinte e poucos anos de
sofrimento com ditadura que só beneficiava a poucos. O Brasil é um país rico
em tudo, é só querer, mas isto depende de vocês que estão com o poder nas
mãos. E incentivar e apoiar o povo, que o Brasil sai dessa.
[...]
Sua admiradora e amiga
Vespertina323

Em outra perspectiva, também a condição de ser brasileiro e patriota é um


aspecto muitas vezes destacado na cartas, como atributo daqueles que reconhecem os
direitos do povo e o dever das autoridades de governar para a garantia de tais direitos. A
carta de Francisco Carlos Coelho, ao CEC, de 6 de junho de 1986, não poderia ser mais
paradigmática a esse respeito, recorrendo à verdade da sinceridade com a qual declara o
seu amor ao Brasil e o seu desejo de ver os governantes do país ao lado do povo:
“Senhores, com sinceridade no meu coração vos digo que amo muito esta nação verde e
amarelo e por isso me sinto no dever em lhes dizer o que esta certo ou errado ou o que
precisa ser feito para que o povo e o governo vivam em confraternização.” 324
Pode-se afirmar, assim, que as cartas ora analisadas constroem uma
representação do que é “ser brasileiro”, que associa o sentimento patriótico à
constituição de uma nação comprometida com a melhoria das condições de vida de seu
povo, conferindo-lhe o merecido reconhecimento. Se o povo brasileiro é a “razão de
ser” do país e o maior responsável pelo seu desenvolvimento, não é justo que lhe seja
imposto viver o drama de ser invisível às autoridades políticas. Assim, a utopia do
brasileiro estaria na possibilidade de o povo ser incorporado a uma agenda de direitos
efetivos, com a reversão definitiva de sua longa trajetória de desamparo. Como resumiu
Ocimar José Garcia de Oliveira, em carta ao ministro da Justiça Fernando Lyra, em 21

323
Trecho da carta de Vespertina Silva de Matos ao presidente da República. Campo Grande, MS,
8/2/1986. (MC062_CECSUG 91-93)
324
Trecho da carta de Francisco Carlos Coelho ao CEC. Florianópolis, SC, 6/6/1986. (MC080_CECSUG
48-51)

223
de outubro de 1985: “A Constituinte é sem dúvida nenhuma a esperança de um futuro
melhor para o povo e a nação.”325

5.2. “[...] sou uma pessoa sem pai não tenho nem siquer uma casa
pra mora não tenho imprego” (Azarias Martins de Aviz,
1987)

A inclusão do povo brasileiro em uma agenda de direitos (sociais, políticos,


econômicos) é, no conjunto de cartas aqui analisado, a demanda central, tomada como
condição básica para a construção de um “Brasil cidadão” – ou de uma “Constituição
Cidadã”, como foi posteriormente batizada a Constituição Federal de 1988, por Ulysses
Guimarães. Complementando tal postulado, pode-se ainda observar que, nessas cartas,
os argumentos, exemplos e razões que são lembrados para a contestação de uma ordem
social injusta, omissa e excludente, em que o povo brasileiro não tem vez, acabam por
dar especial destaque a certos aspectos da vida cotidiana dos indivíduos, que seriam, no
entendimento dos missivistas, emblemáticos do descaso das autoridades políticas com o
povo.
Nesse sentido, as categorias trabalho, família e moradia despontam, nas cartas,
como três dimensões da vida pessoal e social bastante lembradas como valores
indissociáveis ao cidadão pleno de direitos, de modo que os problemas vivenciados pelo
povo nessas áreas são, não exclusivamente mas reiteradamente, referidos como
problemas exemplares da sua posição marginal na sociedade. Trabalho, família e
moradia são como uma espécie de cesta básica, essencial não só à sobrevivência do
cidadão, mas à sua condição de pessoa honrada. Os três temas aparecem, inclusive, com
frequência, inter-relacionados, como lugares privilegiados da construção da cidadania,
conforme sintetiza José Antônio da Cruz, em carta enviada à Assembleia Nacional
Constituinte, afirmando que a obrigação elementar do governo é proporcionar terra e
trabalho para os pais terem condições de criar os seus filhos: “O que o governo tem que
fazer é dar condições para os paes criar ceus filhos [...], distribuir as terras aos paes e dá
condições para eles trabalhar: que assim vão produzir [...]. Tudo isso são problemas
para a Constituinte ver com afinco, com bons-olhos.”326

325
Trecho da carta de Ocimar José Garcia de Oliveira ao ministro da Justiça Fernando Lyra. Ribeirão
Preto, SP, 21/10/1985. (MC057_CECSUG 38-45)
326
Trecho da carta de José Antônio da Cruz à ANC. Barra do Garça, MT, sem data. (MC019_CPMCSOC
10)

224
Historicamente, a categoria trabalho constitui, no imaginário político brasileiro,
uma importante chave de pertencimento social, percebida como uma maneira
indispensável de inserção do indivíduo na sociedade. Para a constituição de tal
imaginário político, há hoje praticamente um consenso entre os analistas, em que se
reconhece a influência da ideologia do trabalhismo, consolidada no país a partir do
governo de Getúlio Vargas, com o Estado assumindo papel preponderante na
investidura de uma determinada forma de valorização do trabalho e do trabalhador
brasileiro, disso decorrendo os benefícios advindos da instituição das leis sociais
trabalhistas.327 Decerto, a enorme força do trabalhismo atravessou o tempo e até hoje
encontra lugar na cultura política brasileira. No acervo de cartas aqui analisadas, não
faltam exemplos da longevidade do que poderíamos denominar mito Vargas, 328
creditando ao político a responsabilidade exclusiva pelas conquistas e oportunidades
para o trabalhador, a partir da legislação do trabalho, como mostram os trechos de cartas
abaixo:
Graças a “Deus” se um dia entrar no poder um homem que seja, e que tenha
um pouco de sangue nas veias, como o nosso estimado e tão querido e falado
pelas bocas do povão em geral do Brazil, que foi o Sr: Excelenticimo Getulio
Vargas, que tanto lutou e criou tantas leis trabalhistas, esse sim foi talvez um
grande herói brazileiro.329

Espero que V.Sa. venha apreciar minhas sugestões, porque tudo que escrevi é
o que penso que deve ser feito, apesar de ser baseado em palavras de
políticos como Getúlio Vargas. Honestidade, Inteligência, Amor e Trabalho é
o corpo de uma Constituinte com alma totalmente Nacional e Humana.330

Ângela de Castro Gomes (2005) mostra como, historicamente, a construção de


uma ética de valorização do trabalho, que elevou o trabalhador à condição de

327
Veja-se, sobre o assunto, GOMES, 2005.
328
A única carta do acervo que cita Getúlio Vargas de forma não elogiosa – mas que cita a importância da
Constituinte de 1933, para a qual votou – é a de Arminda, enviada ao presidente da República, em
13/11/1985, com o seguinte trecho: “Eu sou uma remanecênte da constituição de 34, eu completava em
julho deste mesmo ano, 18 anos e fui votante em uma eleição em novembro deste mesmo ano em ‘Três
Corações’, cidade em que nasci: até hoje não tenho serteza se a dita eleição foi só na minha cidade ou se
foi no Brasil inteiro; só sei que segundo me parece foi a constituinte mais importante, porque colocava o
país oficialmente em plano de desenvolvimento econômico e social. Eu apesar da pouca idade e total
desconhecimento de política, tive um papel preponderante nesta eleição: ‘talvez a minha origem’. Só que
não tenho como prova-lo, pois o senhor presidente Getulio Vargas quando entrou pela segunda vez para
presidência, mandou queimar todos os documentos daquela eleição inclusive meu título de eleitor. O
favor que eu venho lhe solicitar é para que o senhor dê uma atenção toda especial ao tratado da
constituição de 34: quem sabe o senhor obtem uma luz, que ajude a tirar o país desse impasse”. Ribeirão
Preto, SP. (MC058_CECSUG 184-185)
329
Trecho da carta de Luiz Antônio ao CPMC. São José dos Campos, SP, 18/6/1987.
(MC024_CPMCSOC 145-150)
330
Trecho da carta de Ocimar José Garcia de Oliveira ao ministro da Justiça, Fernando Lyra. Ribeirão
Preto, SP, 21/10/1985. (MC057_CECSUG 38-45)

225
protagonista na cena política brasileira, tem raízes na ação de lideranças da classe
trabalhadora, que, desde os primeiros anos da República, defenderam enfaticamente o
valor e a dignidade do trabalhador, proclamando o papel indispensável do trabalho no
desenvolvimento econômico e social do país. Desse modo, já desde os primórdios da
República, os próprios trabalhadores buscavam construir uma identidade positiva para a
sua classe.331 Nas palavras de Gomes (2005, p. 17):

Se o trabalhador é o esteio da sociedade, mas não é reconhecido como tal


pelas outras “classes sociais”, cumpre lutar para que esta situação se
transforme. Esta luta é uma luta política, pois se traduz na conquista do status
de “bom cidadão”, organizado e representado politicamente, já que
cumpridor dos deveres e merecedor dos direitos “das classes a que pertence”.

Propostas de dignificação do trabalho definiram a agenda e os caminhos de luta


dos trabalhadores brasileiros (no embate direto com os seus patrões e no campo político,
partidário e sindical), durante toda a Primeira República. O legado deixado por essas
lutas, embora não alcançando tanta significação do ponto de vista das conquistas
materiais auferidas, representou, sem dúvida, a afirmação de uma nova identidade para
o trabalhador brasileiro, que, ao final da Primeira República, já ocupava um lugar de
importância no imaginário político nacional. Tal realidade não passaria despercebida ao
governo de Getúlio Vargas que, após alçar-se no poder com a Revolução de 1930, com
destaque durante o Estado Novo, inviabilizou todos os canais legais de luta política
direta dos trabalhadores. O governo Vargas assumiu o encaminhamento político das
propostas de regulamentação do mercado de trabalho e a materialização mais
contundente desse projeto foi a instituição das leis trabalhistas e sociais, abrangendo
dimensões da vida cotidiana do trabalhador, relacionadas não só com o trabalho, mas
também com a educação, saúde, moradia, entre outras. A chamada Era Vargas
constituiu, portanto, o momento de estabelecimento da cidadania da classe trabalhadora
brasileira, a partir de um projeto estatal e do reconhecimento de um conjunto de direitos
sociais aos trabalhadores – mas não de seus direitos políticos e civis. Ângela de Castro
Gomes chama atenção para um aspecto importante da constituição dessa nova ética
valorativa do trabalho, que se dá a partir do projeto trabalhista de Vargas. O ponto é que
o papel do Estado, no pacto estabelecido com os trabalhadores, não se restringiu à
331
Esses trabalhadores, no contexto brasileiro da pós-abolição, em que se estruturava um mercado de
trabalho livre no país, rejeitavam a tendência, dominante no correr da longa história de escravidão do
Brasil, de encarar o ato de trabalhar por um prisma depreciativo, bem como rejeitavam o sentido atribuído
ao trabalho pela elite política da época, como atividade “regeneradora” e preventiva em relação à
vadiagem e à desordem social.

226
concessão de direitos sociais em troca de apoio político. O Estado investiu, também,
fortemente, e com todos os recursos de difusão e censura que a sua posição dominante
no jogo do poder autoritário permitia, na construção de um discurso oficial que, no
plano simbólico, incorporava os valores e as demandas trabalhistas reivindicadas pelos
próprios trabalhadores desde a alvorada da República. Embora Vargas, em nenhum
momento, tenha feito menção à preexistência dessa demanda valorativa do trabalho,
articulada pelos trabalhadores – ao contrário, optando por se apresentar como o “pai
fundador” da consciência trabalhista –, objetivamente o seu governo não promoveu
apenas uma ampliação dos direitos sociais trabalhistas, embora esta tenha constituído,
de fato, uma importante conquista e vantagem para os trabalhadores. O Estado atuou,
também, no plano simbólico, adotando um discurso que reproduzia a ideia de cidadania
do trabalho anteriormente elaborada. Resgatou-se, assim, o sentido de identidade do
trabalhador autoatribuído pelos próprios trabalhadores. No discurso oficial, os ganhos
materiais dos trabalhadores eram assumidos como atos de compromisso político do
governo, e atos de reconhecimento do Estado em relação ao “valor” do trabalho. Longe
de perderem sua identidade, os trabalhadores se reconheceram no projeto varguista e na
ideologia política do trabalhismo. 332
Repercutindo a força dessa cidadania fundada no trabalho, uma série de cartas
do acervo expõe a crença de que o desemprego marginaliza, desmoraliza, envergonha a
pessoa diante da sociedade. O drama do desempregado é descrito como uma dor sentida
por quem perdeu a sua condição de dignidade; como um tipo de destituição social, que
retira da pessoa uma referência-chave, condenando-a a lidar com padrões de vida
penosos e desmoralizantes. À margem do mercado de trabalho, o desempregado está
impossibilitado de cumprir seu papel social e de usufruir do convívio dos “bons
cidadãos”, como apontam os trechos de cartas abaixo, vindas de missivistas com
recursos de expressão e estratégias de argumentação diferenciadas:

[...] porque um homem tem o direito de ganhar por duzentos homens e as


vezes ate mais, isto é uma grande injustiça por parte do governo federal,
todos estes grandes salarios deveriam ser dividido com pequena

332
Ângela de Castro Gomes estabelece um debate com uma série de interpretações históricas que, a partir
da consolidação do projeto trabalhista de Vargas, enfatizam, por um lado, o caráter interventivo e
manipulador do Estado varguista, visando controlar as ações dos trabalhadores e cooptá-los
politicamente, e, por outro lado, o caráter subordinado dos trabalhadores, que supostamente “cederiam” às
manobras populistas do Estado, tendo em vista os benefícios materiais envolvidos. Na contramão dessas
interpretações da História, que reduzem as relações firmadas entre o Estado varguista e os trabalhadores a
um “pacto” fundado sobre uma lógica de ganhos meramente utilitários, a autora introduz a questão e
importância dos ganhos simbólicos também envolvidos.

227
desigualdade, então iria sobra muitos bilhões de cruzados para impregar
milhões de brasileiros que estão desempregados, e passando fome, muito são
obrigado robar para não morrer de fome. 333

Quero salientar a emenda do Deputado Federal, Pimenta da Veiga, no sentido


de ser aprovada pelo Congresso, a preocupação acerca das “DEMISSÕES
IMOTIVADAS” que assolam o país com o crescimento assustador do
desemprego, no qual sou vítima. Acredito que se a mesma for aprovada,
diminuirá consideravelmente uma das grandes chagas da nação que se chama
O DESEMPRÊGO, salientando deste modo a afirmação de ser a classe
trabalhadora dominada e não dominante em todos os sentidos. 334

Os dois exemplos destacados, como se pode ver, embora inteiramente distintos,


são carregados de sentidos valorativos, que reconhecem o trabalho como um elemento-
chave da dignidade do cidadão. O primeiro exemplo deixa ver a enorme
ingenuidade/simplicidade do missivista, própria de quem “não acompanha” os debates
em torno das decisões estabelecidas pelos poderes formais. Justamente o que o outro
missivista procura demonstrar fazer com atenção, ao citar uma emenda parlamentar e
referir-se à oposição entre “dominantes e dominados”, recorrente nos debates em torno
da representação política e do exercício do poder.
Mas os problemas mencionados nas cartas, associados ao mundo do trabalho,
não se restringem ao desemprego. Há também denúncias relativas à falta de
compromisso dos patrões na relação com os seus empregados; práticas de exploração;
dificuldades enfrentadas pelo trabalhador para obtenção de emprego sem
“apadrinhamento”; além de reivindicações salariais e pela definição de regras justas de
proteção ao trabalhador, nas relações profissionais cotidianas, dentro dos locais de
trabalho e no contato direto com os superiores. Nesse sentido, Maria do Carmo Rocha,
em carta (que já teve outro trecho destacado) enviada ao presidente da República, em 6
de abril de 1986, relata uma série de injustiças impostas pelos empregadores de seu
marido, que ele se via obrigado a tolerar, já que “não conseguiu outro emprego por ser
considerado velho, e aqui em Volta Redonda emprego bom só se consegue com
padrinho”.335 Também Francisco Pereira Onorio escreve à ANC, de Fortaleza, Ceará,

333
Trecho da carta de José dos Santos. Sem destinatário. Penedo, AL, 22/6/1987. (MC024_CPMCSOC
204-207)
334
Trecho da carta de Hélcio Antonio Barreto Mendes ao presidente da República. Olinda, PE, 20/6/1986.
(MC067_CECSUG 205-209). A proposta de emenda referida na carta (PL-5967/1985) foi apresentada
pelo deputado Pimenta da Veiga, do PMDB/MG, em 4 de julho de 1985, nos seguintes termos: “Proíbe a
demissão imotivada do trabalhador e dá outras providencias, restringindo a possibilidade de dispensa a
duas causas, a falta grave e relevante motivo econômico” (disponível em: http://www.camara.gov.br,
acesso em: 5/5/2012).
335
Trecho da carta de Maria do Carmo Rocha ao presidente da República (com anexo para o Congresso).
Volta Redonda, RJ, 6/4/1986. (MC064_CECSUG 95-102)

228
em 19 de junho de 1987, condenando energicamente as condições precárias de vida
enfrentadas pelo trabalhador brasileiro, condenado a receber parcos salários, e
desafiando o ministro da Fazenda Bresser Pereira a viver com um salário mínimo:

[...] sugiro que os senhores e o governo [...] [criem] um salário família para a
esposa do trabalhador que ganha um salário, porque se os senhores ministros
continuar dizendo que tem poder de compra, sugiro ao ministro Bresse e
todos da area econômica que eles passe um ano vivendo com um salário
minimo, [...] e depois eles venham a televisão dizer para os trabalhadores o
poder de compra que tem um salário, [...] quero ver é receber um salário e
viver dele, o trabalhador não é economista e nem precisa, para entender que o
trabalhador sempre foi e é para todos políticos um prizioneiro num campo de
concentração que só tem direitos a migalhas e a ser esterminado com fome e
a miséria absoluta, é o que nós trabalhador intendemos da politica a ter
hoje.336

Inconformados e injuriados, vários outros missivistas reclamam por melhores


salários e oportunidades para o trabalhador. Entre os exemplos, há protestos
relacionados com as dificuldades enfrentadas particularmente pela mulher trabalhadora,
que, após certa idade, mesmo estando ainda “com todo o seu potencial”, encontraria
muita dificuldade para conseguir emprego, conforme mostram os trechos de cartas
abaixo:
Como o Senhor sabe, a mulher, infelizmente é muito discriminada; é
discriminada pela cor, pela altura, pelo seu aspecto físico, pelo rosto, pelo
estado civil e principalmente pela idade. Uma mulher com mais de trinta e
cinco anos, apesar de estar com todo o seu potencial, já é considerada “velha”
e não consegue mais trabalhar. Pelos anúncios dos jornais, já podemos
observar, pedem até 35 anos. Os concursos nas Prefeituras, também exigem
35 incompletos. Por que isso? Então depois dos 35 anos, os brasileiros não
têm mais direito a nada? Sim, pois não conseguindo trabalhar, é bem
difícil.337

Como há vários meses estou desempregada e uma das coisas que tem me
dificultado à arrumar um emprego é que algumas empresas tem um limite de
idade para admissão de funcionários. Sempre trabalhei em Escritórios e
atendimento ao público. Está acontecendo que, passou dos 25 anos, já não se
consegue mais um emprego tão facilmente. Eu acho que isso têm que acabar.
Pois com 25 anos até se chegar a se aposentar, falta muito tempo. E se não se
trabalha: não têm o que comer, vestir, calçar etc.... e nem futuramente a tal
aposentadoria.338

Refletindo outro campo de insatisfação social, repetidas vezes são mencionadas


nas cartas questões relativas à desvalorização dos rendimentos da aposentadoria ou a

336
Trecho da carta de Francisco Pereira Onorio à ANC. Fortaleza, CE, 19/6/1987. (MC024_CPMCSOC
180)
337
Trecho da carta de Teresinha Marli Gil da Silveira ao presidente da República. Porto Alegre, RS,
25/4/1986. (MC064_CECSUG 291-292)
338
Trecho de carta de Sandra Carvalho ao CEC. São Paulo, SP, 10/6/1986. (MC066_CECSUG 90-92)

229
outros direitos decorrentes “de toda uma vida de trabalho”. As dificuldades legais ou
burocráticas enfrentadas, por quem, acreditando que deveria fazer jus a tais direitos, vê-
se preterido, são descritas com tintas de humilhação, injustiça e rotinas burocráticas.

Exmo. Sr. José Sarnei, peço encaminhar a área competente, a fim de constar
na Nova Constituição, mudança das leis do atual INPS Previdência Social. A
lei atual do INPS prejudica muito os trabalhadores aposentados com baixos
benefícios insuficientes para o pobre viver. Por outro lado, o INPS só
aposenta as pessoas que contribuíram para o próprio INPS. Acontece que os
pobres não podem contribuir por ter salário mínimo baixo que não dá para
sustentar a família. [...] Por isto, o INPS atual, não aposenta estes
trabalhadores quando ficam doentes e não podem trabalhar. [...] Peço que
seja encaminhada mensagem ao Congresso Nacional a este respeito.339

Entre muitos outros exemplos, Geraldo Fernandes Cotrim, de Silvânia, em


Goiás, ressalta a precariedade de suas condições de trabalho em carta ao presidente da
República, de 21 de agosto de 1987, afirmando trabalhar “numa firma a 5 anos como
Diarista Braçal sem ser de carteira a cinada”. Em seguida explica que sua esposa teve
duas filhas, gêmeas, que seriam as caçulas de uma família com oito filhos, e pergunta:

Se tivece de carteira a cinada eu tinha o Direito a 2 salario de familha?


[...] não tenho salário di familha nem feriais nem décimo 3º salário, não tenho
ajuda de custo e os dia que eu falhei para tirar a mulher do hospital e registrar
as menina descontario tudo. Quando trabalho só paga os dias trabalhado, não
paga domingo nem feriado.340

E também José Silvestre da Silva escreve à ANC e faz um apelo desesperado


pelo trabalhador aposentado por invalidez:

Eu me achando ludibriado, enganado e até mesmo ser preciso desistir da


vida. É que para mim e para muitos como eu que estávamos esperando
ganhar [de aposentadoria] um salário mínimo com desconto de 5% que já não
era nada pela carestia que estar havendo fomos completamente arrazados,
desiludido sem condições de viver.
[...]
Que [nós aposentados] possamos ganhar no mínimo um salário mínimo para
não perecermos de fome. Uma grande parte desta gente é pessoas inválidas,
sem condições para o trabalho e com muita idade.
Por favor peço lhes a todos constituintes que formulem uma lei que a pessoa
inválida possa ganhar que dê para o seu pão de cada dia.341

339
Trecho da carta de Maurício Leal de Moura ao presidente da República. Corinto, MG, 25/6/1985.
(MC051_CECSUG 4-5)
340
Trecho da carta de Geraldo Fernandes Cotrim à Presidência da ANC. Silvânia, GO, 21/8/1987.
(MC024_CPMCSOC 397)
341
Trecho da carta de José Silvestre da Silva à ANC. Guarulhos, SP, 18/6/1987. (MC024_CPMCSOC
158-159)

230
São inumeráveis as reclamações, apontando o desrespeito à legislação trabalhista
e que nada é feito pelo governo “para ajudar a classe pobre, os assalariados”. Mas
também inumeráveis as cobranças às autoridades, sempre a partir de exemplos
concretos que apontam o descaso da ordem política com o trabalhador. Nesse sentido,
Luzia Gonçalves, por exemplo, escreve de Birigui, São Paulo, à ANC, em 18 de junho
de 1987, e avisa:
Vamos cobrar dos senhores deputados federais e estaduais, senadores e
governo que tanto falou em suas campanhas. Porque o aposentado não tem o
direito de receber o salário completo, pois ele já trabalhou, ele já contribui, é
um direito que eles tem, este mês por exemplo só receberam 800 cruzados. O
que fazer com isso e o aluguel que está demais, leite pão gaz de cozinha,
roupa, como vamos fazer senhores, com o custo de vida. Dizem os Senhores
em casa própria. Como é que uma pessoa que ganha um salário mínimo pode
fazer um empréstimo para comprar sua casa própria, quando a própria Caixa
Econômica esige uma renda acima de 5 mil cruzados por mês. 342

A gama de problemas, mazelas e injustiças enfrentadas pelo cidadão comum,


tanto no exercício de seu trabalho como também após obter o direito à aposentadoria, é
bastante variada, mas ainda assim a condição de ser trabalhador constitui um valor
amplamente reconhecido e reverenciado nas cartas. O fato de estar empregado credita
doses respeitáveis de honra ao indivíduo, independentemente das circunstâncias, dos
sofrimentos ou desenganos que o seu dia a dia profissional possa lhe causar. Não por
acaso, relatos de vida feitos pelos missivistas lançam mão com frequência de
informações sobre as suas ocupações profissionais, como modo de autorreferenciar o
próprio valor e honestidade. Tais relatos, por vezes, são verdadeiras prestações de conta
de suas qualidades morais, como mostra a carta de Osmar Antonio Hoffman à juíza
Maria Luiza Maia, que diz: “Eu tenho a minha profissão, sou pedreiro, sou bem visto,
tenho boas referências, acho que todos tem ese direito de ser alguma coisa de bom na
vida de cada um de nós.”343
Alguns missivistas constroem uma autoimagem de trabalhador forte, que realiza
tarefas pesadas e difíceis, “passando fome, frio, trabalhando em baixo de sol e chuva”.
Nesse caso, como indicam os exemplos abaixo, ganha destaque a representação do
indivíduo “pelejador”, que trabalha com afinco, sacrifica-se, contra todas as
adversidades, e que, em vez de merecer especial reconhecimento dos “homens do
poder”, não tem “direitos, seguros, assistências de trabalho, médica ...”:

342
Trecho da carta de Luzia Gonçalves à ANC. Birigui, SP, 18/6/1987. (MC024_CPMCSOC 165-166)
343
Trecho da carta de Osmar Antonio Hoffman à juíza Maria Luiza Maia. Florianópolis, SC, sem data.
(MC080_CECSUG 34)

231
Sou um funcionário assalariado, que fui aposentado por motivo de saúde, e é
como trabalhador que fui, que mim sinto no dever de falar em favor de nossa
classe, são milhares de homens que se desgastam 35 anos de suas vidas,
passando fome, frio, trabalhando em baixo de sol e chuva, para construir o
Brasil que vivemos hoje, onde os homens do poder, não reconhecem o
verdadeiro valor desses homens, e é por esses homens Excelência, que eu
peço que vossa senhoria junto ao seu ministério, tomem as devidas medidas
para melhorar a situação desses homens, reduzindo ao menos o tempo de
serviço para 30 anos.344

Nós os paraplégicos trabalhamos duro todos os dias, vendendo balas nas


portas dos outros (povão), não nos é dado: direitos, seguros, assistências de
trabalho, médica, social, escolar, e sem falar na carteira de trabalho assinada,
INPS, direitos etc, pela qual tudo isso nos é negado.345

Como filha de um lavrador que sou, que já aos dez anos de idade aprendeu a
sobreviver com o suor do rosto e a contribuir para sustento da família,
aprendi muito cedo com realismo a conhecer os anseios e as necessidades
primordiais do povo, e as estratégias para atendê-las.346

Nos exemplos, a construção dos discursos sugere que as experiências relatadas,


por quem trabalha e sobrevive “com suor no rosto” são depoimentos irrefutáveis,
testemunhais, daqueles que conhecem profundamente a penosa realidade de trabalhar
“duro todos os dias” “para construir o Brasil” e não ser reconhecido.
O entendimento de que o trabalho é parâmetro de dignidade para o cidadão,
também aparece nas cartas a partir de propostas para a área de segurança pública. A
incorporação de serviços regulares, dentro dos presídios e centros de reabilitação, é
sugerida como medida que visa permitir que os infratores sintam-se “vivos” e
produtivos. Nesse sentido, Walter Lopes escreve a Afonso Arinos, em 21 de fevereiro
de 1986, e argumenta: “Os ladrões, assassinos, e afins, devem trabalhar, sair da
ociosidade, continuarem a ser homens apesar de estarem atrás das grades.”347 E Gilsom
Valter Rodrigues escreve ao CEC, em 7 de dezembro de 1986, dizendo haver “um
exeço de ociosidade” entre os presos, “quando muitos poderiam estar na liberdade

344
Trecho da carta de Manoel Mendes Sobral ao presidente da República. Garanhuns, PE, 1/7/1986.
(MC068_CECSUG 41-45)
345
Trecho da carta de um grupo de paraplégicos. Destinatário não identificado. Nilópolis, RJ, 22/6/1987.
(MC024_CPMCSOC 430-431)
346
Trecho da carta de Maria Madalena Campos de Oliveira a Afonso Arinos. Belo Horizonte, MG,
25/7/1986. (MC069_CECSUG 67-83)
347
Trecho da carta de Walter Lopes a Afonso Arinos. Nilópolis, RJ, 21/2/1986. (MC062_CECSUG 172-
175)

232
vigiada, trabalhando, produzindo para o seu sustento e de seus familiares, em vez de
estarem vegetando e se revoltando”.348

5.3. “Vamos criar condições para que eles crie sua família” (José
Afrânio Cruz, 1986)

O direito ao trabalho muitas vezes é destacado nas cartas operando-se um


cruzamento com outro domínio da vida, percebido também como essencial à dignidade
do cidadão: o direito à família. A função do trabalho como instrumento de manutenção
do sustento da família está presente nos textos das cartas. O desemprego, nesse caso, é
percebido como uma condição perversa por colocar o cidadão diante da impossibilidade
de assegurar a subsistência de seus familiares, impedindo-o, portanto, de construir para
si mesmo uma identidade de pai, mãe, irmão, enfim, pessoa responsável no âmbito de
sua família. José Antônio da Cruz ilumina tal preocupação, quando escreve à ANC e
reclama: “Vamos garantir aos nossos trabalhador um bom salário compençador [...].
Vamos criar condições para que eles crie sua familha.” 349 E também Antônio Paulo da
Silva, envia carta a Paulo Brossard, com as seguintes ponderações: “Sobre o
desemprego: o assalariado devem quando despedido de firma ter direito ajuda
desemprego durante o período que o mesmo se ache ocioso, ficando amparado pela
previdência social, para mantimento de sua família.”350
Dentro da mesma perspectiva, são projetadas expectativas nos filhos, que
traduzem o desejo de vê-los preparados e bem encaminhados profissionalmente,
evidenciando-se o quanto a instituição familiar opera com referências valorativas do
trabalho. Nesse sentido, a professora Ester Cunha Navarro escreve ao presidente da
República, em 12 de junho de 1986, para reclamar do valor do salário pago aos
professores em sua cidade, e conclui:

Então, gostaria que me ajudasse da seguinte forma: já tenho um filho que


completou 18 anos, este ano, o qual já poderia me ajudar a criar os irmãos,
porém aqui é difícil emprego, então com sua ajuda fosse fácil. Se possível
gostaria que V. Excia arranjasse em qualquer órgão federal aqui em

348
Trecho da carta de Gilsom Valter Rodrigues ao CEC. Florianópolis, SC, 7/12/1986.
(MC080_CECSUG 28-29)
349
Trecho da carta de José Antônio da Cruz à ANC. Barra do Garça, MT, sem data. (MC019_CPMCSOC
11)
350
Trecho da carta de Antônio Paulo da Silva ao Paulo Brossard. Natal, RN, 12/8/1986.
(MC070_CECSUG 80)

233
Santarém, pois êle cursa a 2ª série de Contabilidade do 2º grau e chama-se
Edmilson Cunha Navarro. Se V. Excia fizesse isso, ficar-lhe-ia eternamente
grata.351

Como se pode observar, na carta de Ester Cunha Navarro, a família é


compreendida como um espaço de agregação e coesão, em que os seus membros devem
encontrar apoio e solidariedade. A missivista sugere uma forma de comportamento para
a vida cotidiana em família, construindo a possibilidade de a família agir como um
“corpo comum”, para o enfrentamento de realidades difíceis de serem enfrentadas
individualmente. A família surge, assim, como um espaço de realização tanto pessoal
quanto coletiva, onde são construídos projetos de vida e partilhados sonhos e
experiências.
Neste ponto, é interessante trazer algumas contribuições da antropóloga Eunice
Durhan (1984), acerca da organização familiar. De acordo com a autora, o espaço da
família conserva a sua importância no Brasil contemporâneo, mesmo no quadro das
tendências individualizantes, impessoais, burocráticas ou de formação de grupos
societários que marcam o desenvolvimento urbano no país. Durhan afirma que os
núcleos familiares sempre tiveram um papel referencial na manutenção do bem-estar e
da base econômica dos indivíduos, constituindo um lugar da experiência coletiva, com
códigos próprios, em que cada pessoa é valorizada. Ela sugere, inclusive, que em
alguma medida os núcleos familiares, como espaços de cooperação, representam um
ponto de resistência às pressões do competitivo desenvolvimento capitalista. Com base
numa argumentação cuidadosa, que aponta a necessidade de evitar quaisquer espécies
de idealizações, que glorifiquem a instituição familiar como uma dimensão estritamente
solidária e não opressiva, desconsiderando os seus possíveis e muitos vieses tirânicos,
seus conflitos e dissensos, Durhan observa que os indivíduos, e especificamente os
trabalhadores, reelaboram, em família, padrões de comportamento e estratégias de
identificação. O núcleo familiar despontaria, assim, como um lugar essencial de
construção da identidade. A favor desse entendimento, encontramos no acervo, de fato,
muitos relatos de problemas vivenciados em família, lembrados para legitimar queixas,
sugestões e pedidos feitos aos governantes. “Sou uma pessoa sem pai.” 352 ou “Há meses
atrás fui procurar um advogado para saber quais os meus direitos em processar meu ex-

351
Trecho da carta de Ester Cunha Navarro ao presidente da República. Santarém, PA, 12/12/1986.
(MC066_CECSUG 130-134)
352
Trecho da carta de Azarias Martins de Aviz aos deputados constituintes. Natal, RN, 16/7/1987.
(MC016_CPMCSOC 181)

234
tutor, que me colocou fora de casa aos dezessete (17) anos e a meu irmão com apenas
quatorze (14).”353 No primeiro exemplo, o missivista atesta, em tom pessoal e muito
suscetível, ser “uma pessoa sem pai”, deixando subentendido o vazio, o desânimo e o
desamparo que tal condição lhe impõe. O segundo exemplo é uma denúncia construída
sob a premissa de que houve falta de responsabilidade, de cumplicidade familiar, na
atitude do ex-tutor da missivista, quando ele a expulsou de casa, e ao seu irmão, ainda
adolescentes, impedindo-os, portanto, do direito à sua família. Nesse caso, ficam
pressupostos, na carta, os benefícios materiais e simbólicos que a vida em família
poderia ter proporcionado à remetente e ao seu irmão.
A boa conduta familiar é evocada, pelos missivistas, como um dever, conforme
sugere Newton Gaspar Penteado em carta enviada ao CPMC, de 19 de junho de 1987,
propondo a criação de uma disciplina escolar específica tendo em vista educar o aluno
para o convívio em sociedade, preparando-o para “ser um cidadão brasileiro, a serviço
da família e da pátria”.354 Nesse caso, a boa conduta em família aparece associada ao
sentimento de patriotismo, ambos valores percebidos na perspectiva de um “dever” de
transmissibilidade, devendo inclusive ser matéria de projetos de educação nacional e
cívica.
Não raro, o bom governo é avaliado levando-se em consideração o seu
compromisso com a educação das crianças “pobres e sem pais”, como se vê na carta de
Milton Weingartner ao CPMC, de 11 de junho de 1987, escrita com muitos erros de
concordância, porém muito explícita e convincente quanto à responsabilidade do
governo na educação de crianças “sem pais” ou que pertencem a famílias pobres: “Fazer
desde já que cada criança pobre e sem pais, que moram com as famílias pobres, e o
governo pague vários salários-mínimos pra criar cada criança.”355 Os governantes são,
inclusive, analisados por alguns missivistas a partir de representações familiares, como
na carta de José dos Santos ao presidente da República, em que ele afirma ser
recomendável o governo “dirigir o Brasil como se fosse um bom pai de família, para os
filhos crescer com educação e respeito”. Segundo o missivista, “o chefe do povo
brasileiro tem por obrigação ser a favor do pobre que não tem voz para falar, como se

353
Trecho da carta de Elma ao presidente da República. Belo Horizonte, MG, 2/3/1986.
(MC063_CECSUG 20-21)
354
Trecho da carta de Newton Gaspar Penteado ao CPMC. Ponta Grossa, PR, 19/6/1987.
(MC024_CPMCSOC 191-192)
355
Trecho da carta de Milton Weingartner ao CPMC. Marau, RS, 11/6/1987. (MC024_CPMCSOC 88-90)

235
todos fossem criança e o senhor fosse o pai”. 356 Nessa mesma linha argumentativa,
Mecenas Augusto Attayde escreve ao CEC, em 24 de outubro de 1985, sugerindo que,
“como um bom pai”, o governo desse o exemplo do sacrifício que pede ao povo,
“diminuindo os gastos excessivos com as suas despesas [e salários]”, e conclui: “Mas
sacrifício eles [os governantes] não fazem, pois na mesa dos mesmos existe abundância
de um tudo, enquanto na mesa da classe média e do pobre falta de um tudo, até o leite
para seus filhos.”357 Izidora de Albuquerque Vasconcelos, por sua vez, escreve ao
presidente da República, em 21 de abril de 1986, manifestando seu apoio e felicidade
pelo lançamento do Plano Cruzado (também ela, manifestando tal apoio antes que a
medida econômica começasse a deixar evidências dos primeiros sinais de fracasso), nos
seguintes termos: “Agradeço a Deus pela fórmula que o Presidente encontrou para
eliminar a inflação que estava corroendo a nação e aos seus filhos.” 358
Em estudo sobre os usos sociais dos termos “pátria” e “nação”, Fernando
Cartroga (2007) chama atenção para o fato de que a genealogia da palavra “pátria”
alude à noção de “terra dos pais”, sugerindo uma ancestralidade comum aos “filhos da
pátria”, que seriam integrantes de um determinado tipo de “família”, plasmada a partir
de certos compartilhamentos culturais, que envolveriam memórias comuns, a língua
natal e, entre outras identidades, um território específico, percebido como "paisagem",
que não a paisagem traçada “pelo determinismo físico, ou pelo império das fronteiras
gizadas pelo poder político, mas a cartografada pela interiorização dos sentimentos de
pertença” (CARTROGA, 2007, p. 14). Os filhos da pátria, assim, teriam vínculos
interpessoais, compondo uma população abrangente, de vivos e mortos compatriotas.
No dizer de Cartroga, embora se reconhecessem como herdeiros de afetos “pátrios”, os
filhos da pátria evocariam sentidos que a metaforizaria como “mátria”, a “mãe comum a
todos”. O autor observa, porém, que esse sentido de pátria sofreria ressignificações ao
longo do tempo, ganhando contornos jurídico-políticos a partir da emergência, na
Antiguidade clássica, de valores associados à ideia de res publica. Naquele momento,
far-se-ia uma distinção entre as esferas do público e do privado, atribuindo-se à primeira
o status de lugar da virtude cívica, tendo em vista o respeito à ordem legal e a realização
do bem comum. Em consequência, um novo tipo de sentimento pátrio seria

356
Trecho da carta de José dos Santos ao presidente da República. Penedo, AL, 26/6/1987 e 6/7/1987.
(MC024_CPMCSOC 258-263 e 314-316)
357
Trecho da carta de Mecenas Augusto Attayde ao CEC. Belo Horizonte, MG, 24/10/1985.
(MC057_CECSUG 4-5)
358
Trecho da carta de Izidora de Albuquerque Vasconcelos ao presidente da República. Rio de Janeiro,
RJ, 21/4/1986. (MC064_CECSUG 201-204)

236
desenvolvido, em que a noção de cidadania passa a ser definida com base no
comportamento social de cada “filho da pátria”, dito virtuoso na medida em que se
estabelece em conformidade com os ditames da lei e do direito. É o momento do
“patriotismo cívico”, a serviço da pátria comum. Permanece o reconhecimento dos
vínculos interpessoais entre compatriotas, porém ganha relevância também os valores
impessoais do “patriotismo cívico”, do zelo em relação à “coisa pública”, cabendo aos
cidadãos antepor o bem comum aos interesses particulares, como condição para
desfrutar de seus direitos.
Essa perspectiva, ainda segundo Cartroga, seria novamente atualizada quando da
experiência histórica de formação dos Estados-nação. O conceito de “nação cívica”
então ganha primazia, conferindo-se particular importância ao vetor jurídico-político do
sentimento pátrio, agora associado não só à ideia de responsabilidade cívica, mas,
também, à identidade étnico-linguística e a um território delimitado pelas fronteiras do
poder institucionalizado de cada Estado-nação. A ideia de nação, portanto, enquadra os
sentimentos pátrios em um único tipo de afinidade: a de natureza política, circunscrita
ao patriotismo nacional. Nas cartas aqui em estudo, de fato, as representações da nação
brasileira como uma família, e do bom governo, como aquele que assume o
compromisso de buscar o bem comum de todos os integrantes da nação/família,
reforçam o “sentimento pátrio” que, segundo Cartroga, ganha força a partir da
existência de nações política e territorialmente organizadas.

5.4. “Hoje estamos quase a passar fome, já não podemos sonhar


sequer com a casinha própria” (Maria do Carmo Rocha,
1986)

Ao lado do direito ao trabalho e à família, o direito à moradia é também


valorizado e reclamado nas cartas. O espaço da moradia é idealizado não só como um
lugar onde o trabalhador descansa e recompõe energias para seguir em frente na sua
labuta diária. Ele é também o espaço da estabilidade familiar, onde a família desfruta do
mínimo equilíbrio necessário para o enfrentamento das incertezas da vida. O
entendimento é que todo assalariado brasileiro deveria ter direito a receber um salário
que lhe permitisse “comprar sua casa e se sustentar com a sua família”. Porque “casa
tem que ficar só com o valor de um trabalhador asalariado poder compra sua casa, esta é

237
uma obrigação do governo federal aprovar no Brasil”. 359 O valor trabalho, neste caso, é
percebido como a possibilidade concreta de construir uma base material para a
aquisição de algo essencial à segurança familiar: a casa própria – projeto que envolveria
o trabalho e a poupança do indivíduo e de toda sua família.

Em breve conheceremos a nova constituição que vigorará nesse país.


Contamos com a colaboração dos diversos constituintes para as batalhas que
viram. Varias mudanças são esperadas pelo tão sofrido povo brasileiro, entre
uma das tarefas que mais exigiremos é que o seu pedido de moradia passe e
seja aprovado pelos diversos constituintes eleitos, exigimos os direitos à uma
renda familiar justa, para que as classes médias e pobres tenham condições de
obterem um canto seu, acabando com isso com certas previlegiedades e
vantagens para algumas pessoas.360

Estou sofrendo por chegar no fim do mês não ter dinheiro pra pagar as
contas, meus filhos precisando de sapato e não poder comprar, precisando de
livros o dinheiro não dá, pra quem já trabalhou tantos anos, nem uma casa
decente nós temos [...]. Depois de 20 anos de trabalho era pelo menos pra se
ter conseguido uma casinha. [...] Hoje estamos quase a passar fome, já não
podemos sonhar sequer com a casinha própria.361

Todo trabalhador tem direito a uma remuneração condigna ao trabalho


realizado, e um “salário família” RESPEITÁVEL. (Ex. tenho vinte (20) anos
que trabalho para o governo e não tenho paga uma casa própria).362

Não poder “sonhar sequer com a casinha própria” – não “ter um canto seu”, não
“ter paga uma casa própria” – traduziria, indefectivelmente, o sofrimento do povo
brasileiro privado de seus direitos. Nas cartas, adquirir uma casa própria ou uma porção
de terra para plantar, construir e viver, é percebido como algo emergencial que deve ser
facilitado por medidas governamentais. É o que escreve Ana Maria Camargo, em 18 de
junho de 1987: “[...] deveriam ser mais vendidos os terrenos para a classe pobre e eles
construiriam como pudessem, o importante é que não pagariam aluguel já que não
podem e no Brasil tem muita terra desocupada, a reforma agrária precisa ser realmente
decretada.”363 E novamente Francisco Carlos Coelho, escreve ao CEC em 6 de junho de
1986, reclamando: “É tanta gente que ama a terra e gosta de trabalhar com ela que está

359
Trecho da cartas de José dos Santos ao Senado Federal e ao presidente da República. Penedo, AL,
22/6/1987 e 8/7/1987. (MC024_CPMCSOC 204-207 e 334-341)
360
Trecho da carta de Marcos Aurélio Gomes da Rocha. Destinatário não identificado. Brasília, DF,
30/6/1987. (MC024_CPMCSOC 285)
361
Trecho da carta de Maria do Carmo Rocha ao presidente da República (com anexo para o Congresso).
Volta Redonda, RJ, 6/4/1986. (MC064_CECSUG 95-102)
362
Trecho da carta de Dirce Vasconcelos Nunes ao presidente da República. Niterói, RJ, 8/5/1986.
(MC065_CECSUG 248-251)
363
Trecho da carta Ana Maria Camargo. Destinatário não identificado. São Paulo, SP, 18/6/1987.
(MC024_CPMCSOC 81-82)

238
passando fome e necessidade, sem ter chance para construir e progredir.” 364 Assim,
caberia aos constituintes estarem atentos a tais infortúnios e à urgência de garantir ao
povo os meios de construir a sua casa, realizando as mudanças na lei que se fizessem
necessárias.
Ter casa própria desponta, nas cartas, como um símbolo de realização pessoal e
social, sendo mesmo um “valor-limite” para o cidadão, que, em sã consciência ou em
condições sociais favoráveis, jamais abriria mão da oportunidade de possuir uma casa
para morar com sua família. Assim, José Antônio da Cruz escreve à ANC e afirma:
“Outra coisa que a Constituinte tem que ver também com afinco é com os juros e esta
poupança. Porque com juros alto todo mundo quer pôr dinheiro na poupança, vende até
a casa de morada.”365 Ou novamente a carta de Antonio Oliveira de Andrade à ANC,
em 24 de junho de 1987: “Queremos que vocês inclua o nosso direito de propriedade no
terreno em que estamos morando, porque se formos despejados daqui não temos para
onde ir.”366
Muitos missivistas privilegiam em suas cartas a temática da reforma agrária ou
da ocupação pelos pobres de áreas livres, não cultivadas, nesse caso articulando
preocupações com a garantia de um espaço de trabalho e preocupações com a garantia
de um espaço de moradia. Assim, Maria Dolores Machado, de Londrina, no Paraná,
argumenta com o ministro da Fazenda Dilson Funaro, em carta de 28 de outubro de
1986, nos seguintes termos: “Aluguéis não dá mais para pagar [...], as vezes fico
pensando e se o governo abrisse uma fazenda grande, e colocasse todos os sem terra, até
que pudesse organizar a reforma agrária.” 367 Silvestre S. Denin, igualmente preocupado
com o assunto, escreve ao CEC, de Volta Redonda, no Rio de Janeiro, em 25 de agosto
de 1986, e sugere:
Esta reforma [agrária] deveria ser feita da seguinte maneira: grandes
latifúndios deveria ser desapropriados na proporção de suas terras cultiváveis,
sendo que o proprietário receberia uma parte do cultivo. De cada colono ou
família estabelecida nas suas terras, suponhamos um terço, uma quarta...
etc.368

364
Trecho da carta de Francisco Carlos Coelho ao CEC. Florianópolis, SC, 6/6/1986. (MC080_CECSUG
48-51)
365
Trecho da carta de José Antônio da Cruz à ANC. Barra do Garça, MT, sem data. (MC019_CPMCSOC
8)
366
Trecho da carta de Antonio Oliveira de Andrade à ANC. Santa Luzia, MG, 24/6/1987.
(MC024_CPMCSOC 253)
367
Trecho da carta de Maria Dolores Machado ao ministro da Fazenda Dilson Funaro. Londrina, PR,
28/10/1986. (MC081_CECSUG 118-121)
368
Trecho da carta de Silvestre S. Denin ao CEC. Volta Redonda, RJ, 25/8/1986. (MC077_CECSUG
324-325)

239
Na mesma direção, Barreto Neto, de Ipatinga, Minas Gerais, envia carta a
Guilhermino Cunha, membro da CEC, em 1985, defendendo que o governo deveria
“permitir ao trabalhador desempregado, o pai de família pobre e o menor abandonado o
uso e utilização temporário de todas as áreas de terrenos baldios de domínio público dos
[ilegível] ou privado, inclusive lotes vagos sem construção.”369 E, entre outros
exemplos, Francisco Pereira Onorio escreve à ANC, de Fortaleza, Ceará, em 19 de
junho de 1987, enviando a seguinte sugestão:

Prezados amigos constituintes a minha idéias reivindicações é uma reforma


agrária ampla que atinja os subúrbios das capitais, só assim os favelados
poderam ter um canto para morar, abitação ou a terra para morar e a base
para resolver a maior polemica do menor abandonado sem um canto para o
pobre morar.370

Os exemplos, como se vê, mostram que a distribuição de terras pelo governo é


percebida, nas cartas, como medida pública articulada aos direitos do cidadão ao
trabalho e também à habitação.
Especificamente, a importância da habitação na vida dos indivíduos, em muitas
cartas, é expressa com inconformismo em relação aos contextos de desigualdade
existentes no Brasil, no tocante às condições de moradia da população. A má gestão
pública, marcada por “discriminações elitistas”, é apontada como fator fomentador e
postergador dessa desigualdade. Nesse sentido, por exemplo, Osmar de Oliveira Silva
escreve à ANC, em 18 de junho de 1987, e reclama: “O prefeito de Magé não olha por
estes lugares. Tem um condomínio na Caneca Fina só de maguinatas, por isto o prefeito
falecido Renato Cosolino mandou caussar a frente deste condomínio, cerca de mil
metros só, e o resto estar largado.”371
Condições de habitação precárias são denunciadas como problemas recorrentes
nas áreas mais pobres das cidades brasileiras, onde reinaria a escassez de infraestrutura
e de serviços básicos. O espaço de moradia, nesse caso, é compreendido não apenas a
partir das condições de habitabilidade da casa, propriamente dita, mas, também, do seu
entorno, incluindo toda a infraestrutura social de transporte, escola, saúde etc.

369
Trecho da carta de Barreto Neto ao membro da CEC, Guilhermino Cunha. Ipatinga, MG, 00/00/1985.
(MC077_CECSUG 131)
370
Trecho da carta de Francisco Pereira Onorio à ANC. Fortaleza, CE, 19/6/1987. (MC024_CPMCSOC
180)
371
Trecho da carta de Osmar de Oliveira Silva à ANC. Magé, RJ, 18/6/1987. (MC024_CPMCSOC 142-
143)

240
disponível aos moradores em seus locais de residência, como bem ilustram os exemplos
abaixo:
[...] pois aqui em nosso Município de Miguel Pereira-RJ, com 31 (trinta e
um) anos de emancipação política do Município de Vassouras-RJ, fala-se em
falta de um “pronto socorro-médico” [...], nem existe uma Secretaria de
Saúde, nem farmácias após às 20 horas.372

A gente percebe a todo momento que a situação não anda boa para o povão
da Zona Rural, apesar de já existir alguma coisa boa, e muitas propostas para
melhora. Ex. a gente não tem escola suficiente para os filhos, nem sempre
tem trabalho para todos por falta de terra, enfrenta alto custo dos materiais
necessário como roupa, calçado, medicamentos, etc. etc. etc.373

Ou seja, as condições de habitação dos indivíduos estariam diretamente


relacionadas com as condições sociais do seu viver cotidiano, envolvendo, de forma
integrada, todos os serviços públicos necessários para que se garanta, a ele e a sua
família, a possibilidade de ter uma casa para morar e “existir” de forma digna.
A ideia de que o direito à moradia tenha relação não somente com o fato de que
todo cidadão trabalhador deve possuir condições financeiras para adquirir uma casa
própria, onde possa viver honradamente com a sua família, mas também com as
condições de infraestrutura em geral do espaço em que a sua casa ocupa na cidade,
sugere uma articulação entre as noções de “cidade” e “cidadania”, ou seja, entre morar
na cidade e exercer a cidadania política. 374
Sabemos que, no Brasil, as cidades se construíram sem que o conjunto de sua
população desfrutasse dos mesmos benefícios e acesso aos serviços da urbanização, de
modo que os direitos de cidadania foram tradicionalmente “negligenciados”. Segundo
Maria Alice Rezende de Carvalho (2009, p. 226), em tais condições “o ‘valor-cidade’ é
escasso, não se estende a todos. Trata-se, afinal, de uma cidade escassa – expressão que
sintetiza diferentes processos de subtração da possibilidade de vida livre e de ação
autônoma para as grandes massas”. A partir da década de 1980, ocorre uma importante
mudança no debate sobre o ordenamento do espaço urbano brasileiro. Até então
predominava a crença de que a desorganização das cidades no Brasil era fruto
essencialmente da crescente urbanização do país, ocorrida com base em um grande
fluxo migratório do campo para a cidade, o qual atropelava qualquer possibilidade

372
Trecho da carta de Milton Gonçalves Rodrigues a Afonso Arinos. Miguel Pereira, RJ, 11/6/1986.
(MC066_CECSUG 118-120)
373
Trecho da carta de Neoracy Alves Freitas ao presidente da República. Durandê, MG, 20/6/1986.
(MC067_CECSUG 38-43)
374
Sobre as formas de pensar o planejamento urbano no Brasil, ver, por exemplo, CARVALHO, 2009; e
RIBEIRO, 2009.

241
satisfatória de planejamento econômico e de infraestrutura. Nessa perspectiva, por
exemplo, inscreve-se a carta de Arnaldo Guimarães Soares à ANC, em 1987: “A
sugestão que eu faço nessa constituinte é simples controlação de emigrantes de outros
Estados. Sem que possa se manter numa outra cidade, e exemplificando o Rio, [...]
[fazem crescer] as favelas, certas prostituições, menor abandonado.”375
De fato, a “desruralização” da sociedade brasileira, na segunda metade do século
XX, foi uma realidade. De acordo com Luiz César de Queiroz Ribeiro (2009, p. 240):
“Entre os anos 1940 e os anos 1970 deu-se uma aceleração enorme e o país saiu de uma
distribuição da população em que 60% a 70% moravam no campo e chegou à década de
70 em situação exatamente inversa – 70% da população moravam na cidade”. Contudo,
na década de 1980, o diagnóstico de que a precariedade da vida nas cidades brasileiras
teria decorrido de uma migração intensa foi contestado e a questão da “má distribuição”
passou a ser apontada como a nova raiz do problema. Introduzia-se a ideia de que a
origem da desordem urbana estava primordialmente em um conflito distributivo e não
no crescimento populacional das cidades. E mais, sobreveio a compreensão de que, ao
custo de enorme prejuízo para o conjunto maior da população, para alguns segmentos
sociais seria vantajosa, do ponto de vista econômico, a existência de problemas
relacionados com infraestrutura de transporte público, habitação, saneamento, entre
outros: vantajosa, por exemplo, para aqueles setores da sociedade brasileira que se
serviam da cidade como uma mercadoria, nela identificando uma fonte de lucros
privados. Incluem-se nesse grupo os investidores imobiliários, os donos de empresas de
transporte privado e todos os que obtêm altas vantagens financeiras por meio da
prestação de serviços ou de outras formas “individualizadas” de apropriação da terra,
sem qualquer preocupação com o bem-estar coletivo em um cenário de desordem
urbana. Também integrariam esse grupo de beneficiários os proprietários de imóveis
ultravalorizados, posto que tal “ultravalorização” só ocorre, em escala tão elevada, em
contextos de desigualdade. A essa lógica mercadológica de cidade foi contraposta a
ideia de um planejamento urbano em que os ganhos privados devem estar associados a
princípios de justiça e democracia social, ou, em outras palavras, à ideia de que a cidade
deve ser construída para todos e não para alguns, tendo em vista patamares mínimos de

375
Trecho da carta de Arnaldo Guimarães Soares à ANC. Rio de Janeiro, RJ, 00/00/1987.
(MC027_CPMCSOC 261-264)

242
desenvolvimento com equidade e maior integração entre os diferentes atores políticos e
sociais. 376

A partir do exposto, pode-se afirmar que as variáveis trabalho/família/moradia


são muitas vezes reconhecidas e correlacionadas, nas cartas, como dimensões essenciais
à vida do povo/cidadão. Os resultados da realização pessoal e social são esperados,
simultaneamente, ao lado da família, na tranquilidade da casa própria e na segurança de
um bom emprego, como fica evidente na carta de Azarias Martins de Aviz, aos
deputados constituintes, em 16 de julho de 1987:

[...] quero progridir não tenho comdição não tenho quem mi ajude sou uma
pessoa sem pai não tenho nem siquer uma casa pra mora não tenho imprego
não tenho de que ganhar dinheiro para eu triunfar na vida ... Ajuda que eu
peço e para comprar uma casa pra eu morar mas a minha mãe na cidade e
uma camara fotografica que custa hoje 30.000,00 para ganhar o pão.377

Assim, pode-se aferir das cartas que os direitos essenciais à vida do cidadão
seriam historicamente subtraídos do povo brasileiro. Este, inclusive, privado do que se
poderia chamar de “cesta básica” da cidadania – direito ao trabalho, direito à família,
direito à moradia –, deveria então, com a Constituinte, passar a ocupar o lugar de honra
na sociedade que seria seu por direito. O grande desafio e razão de ser da Constituinte,
portanto, era a inclusão do povo brasileiro em uma nova agenda de direitos, garantindo
a sua participação nas decisões políticas e econômicas do país, em condições de plena
igualdade social, e assegurando-lhe o respeito da autoridade política e o amplo
reconhecimento de seu valor. Esse novo patamar social garantiria, por certo,
oportunidades de emprego e moradia, para todos os brasileiros e seus familiares. Nas

376
A título de registro, pois o assunto extrapola os objetivos desta tese, a Constituição Federal de 1988
definiu como princípio básico da política urbana brasileira o propósito de “ordenar o pleno
desenvolvimento das funções sociais da cidade e garantir o bem-estar de seus habitantes” (art. 182).
Nesse sentido, a lógica do mercado deve agora se submeter ao interesse coletivo. A riqueza privada deve
ser balizada pela riqueza social, o que implica uma repartição igualitária dos custos e dos benefícios da
urbanização para a população como um todo. Isto impõe, por um lado, a necessidade de se estabelecer
metas compensatórias materiais, essenciais em situação de desigualdade, mas, por outro, a
universalização dos bens de cidadania. Para tal planejamento social redistributivo, é necessário que sejam
organizados instrumentos de acompanhamento e execução. Nessa direção, foram criados, por exemplo, o
Estatuto da Cidade e o Ministério das Cidades. Entretanto, permanecem muitos os desafios para a
organização das cidades brasileiras em bases igualitárias e, também, incertas as perspectivas de
efetividade em relação a vários outros direitos consagrados na Constituição de 1988, muitos deles ainda
aguardando dispositivos para sua aplicação.
377
Trecho da carta de Azarias Martins de Aviz aos deputados constituintes. Capitão Poço, PA, 16/7/1987.
(MC016_CPMCSOC 181)

243
cartas aqui analisadas, são essas as transformações desejadas e esperadas de uma
Constituição democrática e cidadã.

244
Conclusão

A década de 1980 ficou conhecida, no Brasil, como “década perdida”, por ter
sido um período de disparada inflacionária e forte estagnação econômica no país.
Porém, contrariando a alcunha, ela também foi uma década de mobilização e luta da
sociedade brasileira por direitos, marcada por momentos decisivos do esforço de
superação, pela via democrática, do longo tempo de ditadura instituído com o golpe
civil-militar de 1964.
Ao longo da primeira metade dos anos 1980, a demanda por uma nova
Constituinte recebeu apoio social crescente. Ainda mais, após o veto do Congresso
Nacional à Emenda das Diretas Já!, em 1984, que frustrou uma enorme mobilização da
sociedade brasileira. Naquele momento, a bandeira da Constituinte Já! entrou na pauta
de prioridades de todos os movimentos sociais que, desde os anos 1970, organizavam-se
no país, conformando uma frente democrática de resistência ao autoritarismo. Dessa
forma, forçaram uma transformação do projeto de “abertura política lenta, gradual e
restrita” proposto pelos generais Ernesto Geisel e João Figueiredo, não mais conduzido
apenas “de cima para baixo”.
Na sequência dos acontecimentos políticos, a questão da convocação imediata de
uma Assembleia Nacional Constituinte no Brasil torna-se um ponto-chave na
articulação da base social de apoio à candidatura de Tancredo Neves à Presidência da
República em 1985. Certamente por isso, já em seu primeiro discurso como presidente
eleito, Tancredo confirmou o compromisso, que foi mantido, depois de sua morte, pelo
vice-presidente José Sarney, que assumiu a Presidência.
Ex-liderança da ARENA e ex-presidente do PDS, a trajetória política de José
Sarney, como dirigente civil que, desde o início, apoia o regime autoritário, levantava
suspeitas e receios na sociedade de que a transição democrática pudesse estar ameaçada,
ainda que Sarney reafirmasse o compromisso do seu governo com a convocação de uma
nova Constituinte.
Visando impedir que o projeto de redemocratização do Brasil fosse sobrepujado
pela ideia de conservação e assumisse linhas indesejadas de continuidade com o
autoritarismo, novos movimentos sociais são organizados por todo o país, agora com o
objetivo específico, não de reivindicar a convocação de uma nova Constituinte – o que

245
já se colocava como medida certa e inexorável –, mas de incentivar a mobilização social
nesse processo, assegurando meios para a participação efetiva dos cidadãos brasileiros.
Importava, agora, não apenas o objetivo de construir uma sociedade democrática, mas
também o “como” construir essa sociedade. Os meios eram percebidos como um
elemento constitutivo da própria democracia almejada.
A importância da participação popular na Constituinte passa a ser aclamada e
amplamente divulgada em campanhas nacionais, como a condição primeira para que se
pudesse elaborar uma Constituição verdadeiramente democrática e representativa dos
interesses do povo brasileiro. Generalizava-se o entendimento de ser preciso que a
população vocalizasse as suas demandas e estabelecesse canais de diálogo permanentes
com as autoridades políticas, acompanhando criticamente as suas ações. A participação
dos cidadãos não poderia restringir-se ao momento de eleger representantes pelo voto.
Deveria existir durante todo o debate anterior às eleições, de forma sistemática e
influente. O voto seria sua natural culminância.
Um profundo sentimento de oportunidade e interesse participativo fortaleceu-se
no país. A percepção de que se vivia um momento político único – o momento de
convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte – redimensionava o horizonte de
expectativas dos brasileiros, fomentando a mobilização e a luta política. À época,
Dalmo de Abreu Dallari (1989, p. 379) expressou esse entendimento, nos seguintes
termos: “Quando o povo está ausente de uma decisão ou é manifestamente contrariado
por ela, não se pode dizer que o sistema seja democrático. Não há democracia sem
povo.”

A amostra de cartas pessoais analisadas neste trabalho insere-se no quadro das


lutas democráticas por direitos que tiveram lugar no Brasil durante o processo
constituinte de 1985/1988. Foram escritas individualmente por brasileiros (as) de
diferentes localidades do país e que, independentemente de quaisquer vínculos
partidários, institucionais ou de militância em entidades ou grupos sociais organizados,
tomaram parte naquele processo. Enviadas às autoridades públicas, essas cartas contêm
sugestões, críticas, pedidos, reivindicações e comentários relativos à reorganização da
vida social e política brasileira.
Todas as cartas foram escritas “à mão” e mostram que predomina no conjunto
um fraco conhecimento da linguagem culta por parte dos missivistas, que incorrem em
muitos erros gramaticais e ortográficos, além de apresentarem uma caligrafia

246
desalinhada e pouco firme. Contudo, o fraco conhecimento do saber escriturário não
impediu esses missivistas de escrever às autoridades políticas para expor suas vivências
e reclamar seus direitos. Conscientes de suas limitações na escrita, eles por vezes se
desculpam pelas “mal traçadas linhas”, mas, efetivamente, usam tais limitações para
sensibilizar as autoridades e buscar influir nos debates políticos. Nesse sentido, essas
cartas confirmam a premissa de Michel de Certeau (2008) sobre as “artes de fazer” tão
próprias ao viver cotidiano dos indivíduos, que agem dentro das regras dominantes
instituídas, mas nem sempre para reforçá-las e sim visando superá-las, adaptando-as aos
seus próprios objetivos e experiências.
Essas cartas são “artes de fazer” política, vale dizer, estratégias pessoais de
participação no campo da política formal. Decerto, a sua elaboração e o envio às
autoridades públicas foram encorajados pelas campanhas pró-participação na
Constituinte que atravessavam e movimentavam todo o país. Mas certamente também
foram alimentados pelas próprias expectativas individuais dos que escreveram e
enviaram as cartas. Nos textos, os missivistas demonstram interesse em participar como
atores políticos nos debates da nova Constituinte e também a expectativa de influenciar
as autoridades públicas. Eles assumem o envio de suas cartas como um ato de
participação e de pressão política direta; de comunicação entre governantes e
governados, sem intermediários.
No contexto da intensa mobilização social em torno da consolidação de um
regime democrático no Brasil, essas cartas mostram que a participação dos brasileiros
não se deu apenas por intermédio do sistema político-partidário formal ou por meio de
entidades trabalhistas e grupos e organizações sociais. Tais instâncias, sem dúvida,
tiveram enorme importância naquele momento, como canais efetivos da participação
política, mas não se pode negar também que muitos brasileiros, sabedores de que o país
vivenciava um momento especial de reconstitucionalização democrática, mobilizaram-
se para fazer valer os seus interesses e direitos a partir de iniciativas pessoais:
escreveram às autoridades políticas.

Produzidas por cidadãos comuns, essas cartas são estratégias construídas com
base no cotidiano da vida, que proporciona aos missivistas um conhecimento
“verdadeiro” dos problemas e necessidades recorrentes no dia a dia. São textos que
articulam a realidade política do país e fundamentam, na experiência vivida, os

247
argumentos, queixas, indagações, propostas e pedidos encaminhados. Assim, os
missivistas e o seu cotidiano emergem das cartas com grande força política.
O que se vê é o estabelecimento de um novo canal de participação, em que as
práticas sociais cotidianas são politizadas, ou seja, são reconhecidas como uma variável
do fazer político. Um canal de participação que tem a sua dinâmica ditada pelo vivido e
que ocupa um espaço social que não é nem instituído nem controlado pelo poder
político formal, mas que é percebido pelos indivíduos como um espaço de luta,
portanto, que se torna também um espaço de poder.

Se os missivistas assumem a experiência do dia a dia como um parâmetro para


pensar a política, então a política é percebida como algo que está próximo da vida
cotidiana dos cidadãos, ao alcance de sua compreensão e julgamento.
Nesse sentido, as cartas aqui analisadas são contundentes em desmistificar a
ideia, de longa tradição no pensamento político brasileiro, de que o povo é
politicamente desinteressado, passivo. Uma gente que não tem vontade nem condições
para se ocupar de assuntos relacionados com a organização da vida em sociedade,
estando mais propensa a estabelecer relações de patronagem com os governantes do que
a assumir um papel político ativo e participativo.378 Tal entendimento sugere que o
“povão”, via de regra, desenvolve um tipo de apatia política, deixando para as
autoridades toda a responsabilidade e o poder de decisão tocantes à organização da vida
coletiva. Ou seja, ao “povão” estaria reservado o estatuto do conformismo político. No
limite, ele é excluído da política, como se esta estivesse fadada a ser o privilégio de uma
elite. As pessoas comuns, supostamente, não teriam o preparo necessário para cumprir o
papel de atores políticos conscientes. Tornar-se-iam “marionetes” de um jogo
controlado por uma minoria educada para realizar as complexas formulações de
políticas públicas, exigidas para o exercício dos governos. A proposição, portanto, é
que, para o próprio bem público, a política deveria ser um âmbito de decisão reservado
aos mais conscientes de suas responsabilidades e mais preparados politicamente, que
seriam os próprios defensores dessa ideia.

378
Ângela de Castro Gomes (1998a), no artigo “A política brasileira em busca da modernidade: na
fronteira entre o público e o privado”, discorre sobre certas orientações que marcaram o pensamento
social e político brasileiro, no correr do século XX, apontando para a força e tradição de uma
interpretação do social que supõe que a grande maioria da população brasileira, por razões relacionadas
com as características de formação e desenvolvimento do Brasil como nação, supostamente seria incapaz
para a participação política consciente, sendo facilmente “manipulada” pela elite política.

248
Contra tal suposto, as cartas aqui analisadas reivindicam para o povo brasileiro a
identidade de pessoas que conhecem profundamente os problemas sociais e que estão
decididas a participar da reorganização política do país com ideias e sugestões. Mostram
a incontestável determinação de centenas de populares que buscam influenciar os
diálogos políticos de seu tempo e encontram, no envio de cartas às autoridades, uma
alternativa de participação política.
Em perspectiva absolutamente contundente, essas cartas dão voz a pessoas que
não demonstram possuir uma boa instrução formal e não desfrutam de distinção social
ou política, mas que adotam estratégias de vida concebidas com base em suas próprias
experiências cotidianas e expressam visões de mundo e valores políticos próprios às
suas maneiras de sentir e pensar. O fato de não ocuparem posições sociais de prestígio
político e intelectual, e de não haverem desfrutado de boa formação educacional, não
elimina a importância de suas experiências e de suas percepções para a conformação da
sociedade brasileira. Essas cartas, nesse sentido, são emblemáticas em mostrar a
dimensão autônoma da vontade política dos missivistas (indivíduos). Seus textos
expressam estratégias políticas de resistência e de luta por direitos, que nem de longe
reiteram a ideia de impotência e passividade frente à ordem estabelecida.

Determinados padrões culturais vivenciados pelos missivistas ficam


evidenciados nas cartas. Maneiras de “falar”, de dirigir-se a uma autoridade e de se
apresentar a ela, são aspectos presentes nos textos e que remetem não apenas aos
recursos enunciativos dos missivistas, mas também a certas predisposições culturais e
maneiras de vivenciar cotidianamente a cidadania. Entre as evidências, os missivistas
seguidamente dirigem-se à autoridade política como a um “superior”, demonstrando
reconhecer a conveniência de fazer uso de certa formalidade e cerimônia nesse diálogo.
Porém, se eles expressam o respeito para com superiores, também afirmam a autoridade
do cidadão, inclusive destacando o seu papel de eleitor e cobrando das autoridades o
dever de representar os interesses populares.
Ademais, nota-se também certa intimidade e informalidade por parte dos
missivistas na composição de suas mensagens. Algumas cartas fogem a qualquer ideia
de formalidade e, por exemplo, exibem desenhos e poemas em seus textos, além de
frases desordenadas, em linha horizontal, vertical e diagonal. Além disso, há cartas
escritas em suportes de papel incomuns ou impróprios à prática epistolar.

249
A incorporação da informalidade nos textos, afinal, mostra que a escrita das
cartas guarda espaço para o livre arbítrio dos missivistas que, algumas vezes, subvertem
regras protocolares, embora sem abandoná-las por completo e sem prejuízo para a
compreensão de suas mensagens. Novamente confirma-se a premissa de Michel de
Certeau (2008) de que as práticas cotidianas não são realizadas de forma passiva e
automática pelos indivíduos, como se eles, irremediavelmente, agissem sempre para
reiterar as regras e os valores sociais dominantes. Ao contrário, as práticas cotidianas
inspiram maneiras de agir não previstas e isso tem a ver com os espaços de liberdade
existentes em toda regra social, que são apropriados pelos indivíduos à medida que o
cotidiano é vivenciado.
Concordamos que os indivíduos de modo geral estão predispostos a defender os
seus interesses e que, para isso, se necessário, buscam “brechas” na ordem estabelecida.
E entendemos que todos os recursos utilizados como estratégia retórica, nas cartas aqui
analisadas, objetivaram fazer valer a vontade dos missivistas e atingir as autoridades
destinatárias, persuadindo-as em relação às demandas e propostas políticas que eles
consideravam acertadas.

Cada carta aqui analisada expressa o ponto de vista de uma pessoa. Revela
pensamentos, opiniões e interesses. Traduz sentimentos, desejos e projetos políticos. A
subjetividade do missivista emerge nos textos como marca registrada. Porém, o que ele
exprime em sua carta, singular e subjetivamente, é expressão também de perspectivas e
valores consolidados socialmente, que encontravam lugar no universo das relações
sociais vivenciadas pela população brasileira nos anos 1980.
Assim, os textos aqui analisados foram compreendidos como parte de um
determinado ambiente cultural. Textos portadores de significações mais ou menos
valorizadas culturalmente e que auxiliam na compreensão da sociedade em que foram
produzidos. Temos por certo que os pontos de vista dos missivistas traduzem
perspectivas mais amplas e consolidadas socialmente.
É com essa abordagem – que reconhece o valor das práticas individuais e
subjetivas para o entendimento das sociedades – que procuramos observar, neste estudo,
o que esses missivistas expressam e compreendem por “direitos do cidadão” e “deveres
do representante político”, naquele momento em que estavam sendo rediscutidos os
valores e princípios coletivos que deveriam orientar a renovação democrática brasileira.
Nossa hipótese inicial, que a pesquisa confirmou, era a de que a opinião dos missivistas

250
sobre o lugar do cidadão e dos representantes políticos na sociedade brasileira tinha
relação intrínseca com a sua motivação política para escrever as cartas, sendo nelas
expressa.
De fato, nesse sentido, o estudo dessas cartas mostrou que uma questão
recorrentemente referida e enfatizada nos textos é a ideia de ser necessária e urgente a
incorporação do povo brasileiro a uma nova agenda de direitos, que lhe assegurasse a
devida e merecida “dignidade”. Os missivistas reconhecem as pessoas do povo como
vitimas de uma sociedade injusta. O cotidiano popular é descrito como uma experiência
de muita dificuldade material e até humilhação moral, fruto da desigualdade social do
país e da negligência dos representantes políticos. A reivindicação comum é a de que as
autoridades atuem para libertar o povo do seu cotidiano de sofrimento, combatendo as
desigualdades de direitos e a sua contraface: a prevalência dos privilégios de uma elite
social.
Assim, o respeito aos direitos do povo é tomado como uma prerrogativa da boa
condução política do país, de modo que o papel do poder público é associado ao esforço
de dotar os setores socialmente desfavorecidos dos recursos (políticos, sociais e
econômicos) necessários à plena apropriação dos seus direitos de cidadania.
Note-se ainda que o significado profundo da universalização de direitos
demandada pelos missivistas não remete apenas a questões de ordem material, mas
também à ideia de que se deve viver de forma digna e honrada. O direito do cidadão não
seria apenas o necessário para que ele sobrevivesse, mas sim o necessário para que
vivesse com dignidade. Se, por um lado, as cartas descrevem o povo como “povo
sofredor”, que carece de bens materiais essenciais à sobrevivência, vivendo em
condições de vulnerabilidade e desamparo, elas também denunciam que o povo é
marginalizado, desrespeitado e esquecido pelas autoridades – injustiça que concorre
para a sua carência material, mas que não se restringe a ela. Fundamentalmente, a dor
(moral e material) do povo é descrita como a face mais triste de uma sociedade na qual
predomina a desigualdade de direitos e a negligência dos governantes.

Dificuldades enfrentadas nos domínios do trabalho, da moradia e da família são


lembradas com frequência nas cartas, para explicitar a desigualdade de direitos que
penaliza o povo brasileiro. Descritos como importantes chaves da inserção social dos
indivíduos, esses três domínios da existência são apresentados como alicerces
fundamentais, embora não exclusivos, da identidade cidadã. Assim, muitas cartas

251
denunciam que problemas cotidianos da vida popular, no mundo do trabalho e para
garantir uma moradia decente e a segurança familiar, são emblemáticos da posição
marginal que o povo ocupa na sociedade brasileira. Caberia aos representantes políticos
combater tal injustiça, em lugar de assumir a condição de representantes formais para
perpetuar a manutenção de uma situação social de privilégios. Um Brasil
verdadeiramente democrático seria o lugar em que todo o povo brasileiro constituiria
uma população de iguais, em dignidade e direitos.
As cartas assumem a ideia da construção de um novo Brasil como um projeto de
emancipação do povo, a partir do reconhecimento de seus direitos. Na perspectiva dos
direitos sociais, os missivistas reclamam por condições de vida mais justas (para eles
próprios e para o povo em geral), reivindicando salários dignos, boas oportunidades de
trabalho e acesso a serviços públicos de qualidade, nas áreas de habitação, saneamento,
educação, saúde, transporte e segurança pública, entre outras. Fundamentalmente,
argumentam pela necessidade e justiça de se definir uma mesma agenda de direitos para
todos os brasileiros. Na perspectiva dos direitos políticos, as cartas são particularmente
enfáticas em defender a participação do povo no governo, como protagonista ativo e
diretivo da experiência de reordenação democrática do país, e que os representantes
políticos assumam o papel de avalistas dos direitos do povo. Por fim, as cartas
expressam o desejo dos missivistas de ter seus direitos civis garantidos, a começar
demandando respeito de todas as autoridades públicas.
Assim, os missivistas demonstram ter expectativas de que a
reconstitucionalização do Brasil lhes garanta uma nova agenda de direitos sociais e
fazem considerações e exigências em relação ao papel dos representantes políticos nesse
processo. Por meio das cartas, eles participam do momento constituinte, denunciando
injustiças, reivindicando medidas de inclusão social e também reclamando melhor
representação política.
Embora existam exemplos, em seu conjunto as cartas pessoais da Coleção
Memória da Constituinte não poderiam ser classificadas como “cartas de pedidos”, no
sentido atribuído por Luciana Quillett Heymann (1997) à correspondência do arquivo
pessoal de Filinto Müller – como a autora afirmou, “um tipo de correspondência
absolutamente recorrente em arquivos privados de homens públicos” (HEYMANN,
1997, p. 1). Essas cartas de pedidos, enviadas, entre 1933 e 1942, ao então chefe da
polícia do Distrito Federal, buscam mobilizar aquela autoridade, tendo em vista pedir
um favor pessoal ou contar com sua proteção política, e justificam-se com base no

252
reconhecimento de uma lógica social fundada na troca de favores. Como mostrou
Heymann, não ocorre àqueles missivistas contestar o prestígio político ou a conduta de
Filinto Müller como chefe de polícia. Isso não poderia acontecer. A possibilidade de
“reverter” a seu favor a lógica do poder residia exatamente em afirmá-la, para então
tirar algum proveito. Algo que já foi referido na interpretação construída por Certeau
(2008) e traduzida na categoria de “artes de fazer”.
Assim, as estratégias de legitimação das demandas desses missivistas
circunscrevem-se ao esforço de estabelecer um tipo de relação com a autoridade
destinatária em que a hierarquia política e a lógica de troca de favores não só são
reconhecidas como um padrão cultural, mas aceitas, mesmo quando “lamentadas”:

A situação de desigualdade que motiva esses pedidos não é negada pelas


estratégias e formas discursivas, que antes a absorvem com o propósito de
alterá-la pontualmente. Apesar de inúmeras vezes lamentada, pode ser
suportada e até mesmo sentida como benéfica se o indivíduo empírico
consegue vencer os limites que ela impõe, sem negá-la portanto, através de
recursos de natureza sempre pessoal. (HEYMANN, 1997, p. 72)

Em outra direção, as cartas pessoais aqui estudadas foram produzidas em um


contexto muito diverso e constituem uma forma de luta democrática. Exigem a
construção de um Brasil novo, em que os representantes políticos assumam a defesa dos
interesses populares. Muitos entre os missivistas deixam claro que o status quo da
ordem política não os beneficia nem representa, reconhecendo-se não só no direito mas
no dever de cobrar das autoridades ações que visem pôr fim às injustiças e descalabros
da vida social brasileira. Eles assumem o lugar de sujeitos dispostos a contestar a ordem
dominante instituída, naquele momento de transição democrática.
Se de fato algumas cartas aqui analisadas encaminham pedidos pessoais às
autoridades políticas, tais pedidos são justificados por demandarem o que se considera
socialmente justo, ou seja, por tratar-se de algo que deveria, por direito, ser garantido ao
povo em um país democrático. Assim, esses pedidos constituem estratégias e barganhas,
mas, também, denúncias políticas, que afirmam a autoridade e os direitos do
cidadão/povo brasileiro. A motivação de escrever as cartas não se restringe a fazer um
pedido, mas envolve a adoção de um comportamento político identificado como
comportamento democrático.

253
Notadamente, as cartas aqui analisadas traduzem valores e práticas mobilizados
na sociedade brasileira que são expressivos da afirmação de uma cultura política
democrática no país. E esse aspecto as singulariza como instrumentos da democracia.

Na conjuntura de uma nova Constituinte, idealizada para dar termo ao longo


regime autoritário instituído no Brasil com o golpe civil-militar de 1964, colocava-se a
possibilidade de afirmação de um novo tipo de cidadania para os brasileiros e o ideário
democrático se estabelecia como padrão cultural, na vida social e política do país. Pode-
se dizer que a democracia que se desejava construir com a nova Constituição já se
afirmava, como padrão cultural, no processo de reconstitucionalização. Em outras
palavras, antes mesmo da promulgação da nova Constituição Federal e dos seus
resultados concretos, já se via uma inflexão na cultura política brasileira, em que o
diferencial era a incorporação do valor da democracia, representativa e participativa.
Assim, se, por um lado, a vitória de Tancredo Neves, nas eleições presidenciais
indiretas de 1985, representou um marco político importante na transição democrática
brasileira, por outro, a especificidade da democracia que se almejava construir naquele
momento só pode ser bem compreendida a partir das significativas movimentações
ocorridas no âmbito da sociedade civil, que lograram instituir novas práticas políticas
participativas e difundir o valor da democratização de direitos.

Em discurso proferido no ato de promulgação da Constituição da República


Federativa do Brasil, em 5 de outubro de 1988, o então presidente da Assembleia
Nacional Constituinte, Ulysses Guimarães, batizou a nova Carta Magna de
“Constituição Cidadã”, argumentando que se tratava de uma Constituição “de” e “para”
todos os brasileiros: “A Constituição pretende ser a voz, a letra, a vontade política da
sociedade rumo à mudança.”379
Nessa pesquisa, procuramos destacar as maneiras como, naquele momento de
reconstitucionalização, centenas de indivíduos perceberam a si mesmos como atores
políticos e significaram o exercício da cidadania e da representação democrática.
Indivíduos que, escrevendo cartas às autoridades públicas, pretenderam ser “a voz e a
letra” da Constituição. Suas cartas se situam dentro do quadro da crescente participação

379
Trecho extraído do site oficial da Câmara dos Deputados (disponível em:
http://apache.camara.gov.br/portal/arquivos/Camara/internet/plenario/discursos/escrevendohistoria/constit
uinte-1987-1988/pdf/Ulysses%20Guimaraes%20-%20DISCURSO%20%20REVISADO.pdf; acesso em:
12/11/2012).

254
da sociedade brasileira no processo constituinte de 1985/1988, embora tenham sido
iniciativas muito específicas, levadas a efeito com base em estratégias políticas
pessoais, bastante distintas do que se realizou a partir dos movimentos sociais
organizados.
Tais cartas são boas referências para uma compreensão do processo brasileiro de
transição democrática, porque iluminam indícios do cotidiano vivido em diferentes
regiões do país, explicitando formas de sociabilidade partilhadas e maneiras pelas quais
a política era percebida pelos cidadãos. São cartas que mostram que, dentro das
possibilidades que se apresentavam naquele momento, muitos brasileiros “comuns”
fizeram escolhas, adotaram estratégias políticas e expressaram as suas visões do mundo
social. São cartas, afinal, que ajudam a “ver” o que era a democracia tão esperada.
Ajudam a evitar a miopia de uma visão única desse processo – a visão da elite política e
intelectual – e retiram dos “silêncios da História”, de que nos fala Le Goff (1990), uma
história vista por pessoas comuns. Ao selecionar essas cartas como fonte privilegiada de
pesquisa, portanto, procuramos seguir a premissa de Edward Palmer Thompson (2000),
quando o autor ressalta que os historiadores devem evitar “verdades absolutas” e
procurar compreender as ações e motivações humanas a partir do conjunto de suas
próprias experiências (políticas, econômicas e culturais).
Ademais, essas cartas certamente merecem outros investimentos da pesquisa
histórica, além deste. Não só por serem textos que podem subsidiar novos
entendimentos do processo constituinte, mas também porque podem auxiliar no
enfrentamento das questões que se colocam hoje para a consolidação de um Brasil
democrático. Porque são cartas que desafiam o sentimento de descrença na ação
humana transformadora. Cartas que problematizam o sistema representativo, quando ele
não “representa” os interesses populares, e que mostram que a democracia não é um
sistema político estático ou único: ela se desenvolve dentro de fronteiras geográficas e
de tempos históricos, o que significa dizer que o seu sentido varia no tempo e no espaço
vivido pelos indivíduos. E, mais importante, são cartas que ajudam a descortinar “a voz
e a letra” do povo brasileiro.

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