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Eudoro de Sousa e a Poética de Aristóteles

Article · January 2012


DOI: 10.14195/1984-249X_8_10

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Jacyntho Brandao
Federal University of Minas Gerais
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Eudoro de Sousa e a Poética de Aristóteles
Autor(es): Brandão, Jacyntho Lins
Publicado por: Annablume Clássica; Imprensa da Universidade de Coimbra
URL URI:http://hdl.handle.net/10316.2/24346
persistente:
DOI: DOI:http://dx.doi.org/10.14195/1984-249X_8_10

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digitalis.uc.pt
8
jan.2012
issn 2179-4960

R E V I S T A

ARCHAI JOURNAL: ON THE ORIGINS OF WESTERN THOUGHT


desígnio 8 jan.2012

eudoro de sousa e a
poética de aristóteles
Jacyntho Lins Brandão*

BRANDÃO, J. L. (2012). “Eudoro de Sousa e a Poética de Aris-


tóteles”. Archai n. 8, jan-jun 2012, pp. 95-99.

Resumo: Este artigo analisa a tradução para o português da


* Universidade Federal de
Minas Gerais, Belo Horizonte,
Esta é a segunda vez que me dedico a
Poética de Aristóteles, acompanhada de extensos comentários, Brasil. comentar uma das obras de Eudoro de Sousa – o

publicada por Eudoro de Sousa em 1966.


primeiro dos comentários tendo integrado o número

Palavras-chave: Aristóteles, Poética, Tragédia Grega,


de Humanidades a ele dedicado em setembro de

Dionisismo, Eudoro de Sousa


2003, sob a coordenação de Sonia Lacerda e José
Otávio Nogueira Guimarães (cf. BRANDÃO, 2003).

Abstract: This paper analyses the translation into Por-


Algo que me chamou especialmente a atenção nesse

tuguese of Aristotle’s Poetics published by Eudoro de Sousa in


dossiê, sobretudo da parte dos que tiveram o privi-

1966 and accompanied by extensive comentary.


légio de ser alunos do homenageado, como Ordep

Keywords: Aristotle, Poetics, Greek Tragedy, Dionysism,


Trindade Serra, foi a insistência no esquecimento

Eudoro de Sousa
em que obra e autor caíram já no final da vida
deste (SERRA, 2003). Portanto, iniciativas como
aquela e a presente visam a cumprir uma função
de memória importante, a qual, no meu caso, não
será memorialística, pois não tive o privilégio de
outros, não tendo contato com aquele de quem
trato mais que como leitor de seus escritos. Passar
do memorialístico para a memória – ou da memória
individual e privada dos que conheceram o autor
para uma espécie de memória compartilhada por um
público que conhece apenas a obra – implica fazer o
Professor Eudoro passar da categoria de pessoa física
para a de assunto, movimento para o qual espero
dar mais uma vez minha contribuição.
O testemunho dos discípulos dos tempos
do Centro de Estudos Clássicos na Universidade de
Brasília é unânime em ressaltar alguns aspectos: a

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erudição do mestre; sua exigência e rigor acadêmico; mais se manifesta o filólogo, seja na tradução cui- 1. As várias edições dessa obra de
Eudoro de Sousa são as seguintes:
o interesse por um conjunto amplo de disciplinas, dadosa, seja nos comentários eruditos e nos apên- 1) a tradução, precedida de uma
não só dos estudos clássicos, mas, nesse domínio dices que contêm uma quantidade de informações introdução, apareceu em Lisboa,
Ed. Guimarães, 1951; 2) tradução,
específico, a concepção dos mesmos como uma au- complementares sobre a tragédia capaz de fazer do com prefácio, introdução,
têntica Classische Altertumswissenschaft (o que hoje volume, ainda nos nossos dias, uma obra de referên- comentário e apêndices, Porto
Alegre, Ed. Globo, 1966; 3)
se chamaria de uma abordagem transdisciplinar); cia (mesmo que a edição de 1966, da Editora Globo tradução, sem a introdução e
os apêndices, São Paulo, Ed.
finalmente, a concentração de seu interesse em de Porto Alegre, peque na preparação do texto).
Abril Cultural, 1973, série “Os
determinadas questões, exploradas em diferentes Nunca será demais ressaltar o quanto esse Pensadores” (reeditada várias
vezes, pelas editoras Abril e Nova
corpora. Esse último aspecto é que principalmente trabalho teve difusão e influência a partir de sua
Cultural, a 4ª. edição desta última
1
conforma o perfil intelectual de Eudoro de Sousa, publicação. Na época de seu aparecimento, era raro sendo de 1991); 4) tradução, com
prefácio, introdução, comentário
desde a primeira publicação da Poética de Aristóte- encontrar traduções de textos gregos no Brasil e de e apêndices, Lisboa, Imprensa
les, ainda em Lisboa (1951), até os últimos trabalhos fato a obra fugia da regra, com tudo o que oferecia Nacional/Casa da Moeda, 1986
(1ª. edição), 1990 (2ª. edição),
aparecidos no Brasil, vinculados às atividades do de informações sobre a Poética (nos comentários) 1992 (3ª. edição), 1994 (4ª.
Centro de Estudos Clássicos, criado em 1965, e à e sobre a tragédia (nos apêndices). Como declara edição); 5) tradução, em edição
bilíngue, com o texto grego
Universidade de Brasília, que ele ajudou a fundar Filomena Yoshie Hirata, trata-se de “uma obra úni- de Les Belles Lettres, mas sem
a introdução, comentários e
em 1962 – o percurso brasileiro indo da retomada ca”, acrescentando: “Há cinquenta anos não havia
apêndices, São Paulo, Ed. Ars
da tradução da Poética, refundida e acrescida de aqui condições para a pesquisa bibliográfica que a Poetica, 1993. Como se vê, há um
número importante de edições,
comentários e apêndices (ARISTÓTELES, 1966), até sustenta. Cinquenta anos depois, não temos outra
no Brasil e em Portugal, o que faz
o volume intitulado Mitologia (SOUSA, 1980). edição da Poética, ou mesmo qualquer tradução de deste trabalho o mais difundido de
quantos produziu Eudoro de Sousa.
Minha intenção é situar a sua Poética no obra clássica, que venha acompanhada de tanta É de lamentar que, das aparecidas
contexto – talvez na origem – dos interesses que erudição” (HIRATA, 2003, p. 105). Considerando- no Brasil, apenas a primeira tenha
sido completa, pois, como afirma
marcam toda sua obra, os quais se tornam mais -se essas peculiaridades, pode-se dizer que Eudoro Hirata, trata-se de “um grande
explícitos a partir de Dioniso em Creta (SOUSA, de Sousa conformou a recepção da Poética, se não livro, marcado pela pesquisa
2 bibliográfica e vasta erudição, o
1973), continuam com a tradução das Bacantes em língua portuguesa, pelo menos no Brasil, com que significa que sua publicação
não deveria nunca ser feita com
de Eurípides (SOUSA, 1974), Horizonte e comple- consequências para os estudos clássicos e, princi-
sacrifício de qualquer uma das
mentaridade (SOUSA, 1975), concluindo com o já palmente, a teoria da literatura, uma disciplina que, partes” (HIRATA, 2003, p. 105).

citado Mitologia. Em termos disciplinares, pode-se também no final dos anos 60 e na década seguinte,
2. Registre-se que, anteriormente
dizer que o fio condutor de sua investigação seriam começava a introduzir-se nos currículos de Letras. à de Eudoro de Sousa, só tenho
notícia de uma outra tradução
as relações ou tensões entre história, mito e filo- Assim, um dos méritos da Poética segundo Eudoro da Poética para o português (de
sofia, um fio, contudo, alimentado pela formação de Sousa foi o de prover um conhecimento sólido que a Biblioteca Nacional do Rio
de Janeiro tem um exemplar):
filológica, que lhe proporcionava sólida erudição da obra de Aristóteles, que, então, na qualidade de ela foi publicada em Lisboa, pela
e se poderia definir melhor como o conhecimento texto fundador das poéticas do Ocidente, despertava Oficina Tipográfica, em 1779, sem
indicação do nome do tradutor (há
e cuidado com as fontes. Em termos do objeto de novo interesse e motivava novas leituras. divergência quanto a isso: alguns
consideram que se deve a António
estudo e reflexão, declaradamente ou não, pode- Minha expressão acima foi intencional: a Po-
Ribeiro dos Santos, outros, a
-se dizer que ele perseguiu toda a vida a figura de ética segundo Eudoro de Sousa. Não apenas porque Ricardo Raimundo Nogueira,
ambos professores de Direito
Dioniso – ou o dionisismo como expressão de uma qualquer tradução guarda muito do tradutor e não
na Universidade de Coimbra).
diacosmese, para usar um termo pelo qual ele teve há tradução que leve de modo diáfano ao original, Posteriormente à de Eudoro,
registrem-se mais duas traduções
especial predileção. mas principalmente porque, no que cerca o texto de em língua portuguesa: a primeira,
3
Se esse esboço geral do que motiva e conduz Aristóteles, Eudoro quis pôr muito de seu. É esse de Jaime Bruna, publicada em São
Paulo, em 1981, pela Ed. Cultrix,
sua obra estiver correto, uma questão impõe-se: de seu que passo a explorar. e constantemente reeditada (em
como a Poética de Aristóteles, em que há, como no Em primeiro lugar, desde a introdução, ele 2005 já se encontrava na 12ª.
edição); a segunda, mais recente,
ditado antigo, quase “nada para Dioniso” (além da insiste que a Poética trata da tragédia: há alguns foi publicada em 2004, pela
Fundação Calouste Gulbenkian, da
citação do próprio ditado), se insere no conjunto capítulos iniciais de ordem mais geral, escreve ele,
autoria de Ana Maria Valente, que
maior acima descrito e mesmo em seu princípio? sobre a poesia e suas espécies, a definição de que se encarrega também das notas,
com prefácio de Maria Helena
Acredito que se trata de uma indagação de crucial toda poesia é imitação e a divisão desta de acordo
da Rocha Pereira. Há ainda uma
pertinência, pois é no trabalho com a Poética que com os meios, os objetos e os modos – e, em segui- tradução por Antônio Pinto de

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desígnio 8 jan.2012
Carvalho, publicada no Rio de da, toda uma “segunda parte” (ou seja, o restante do das peças de Ésquilo (sobretudo nas Suplicantes), se
Janeiro, pela Tecnoprint, com
inúmeras reedições, feita a partir
texto) “inteiramente dedicada ao estudo da tragédia pode surpreender o gênero em formação, ou seja, sua
do francês. Finalmente, a mesma e à comparação dos gêneros trágico e épico”. Não passagem da forma do ditirambo para a do drama:
Tecnoprint, em 1989, lançou
um volume intitulado Crítica e diria que há, nessa afirmativa, alguma inexatidão, “a uma estrofe lírica, cantada pelo coro, sucede
teoria literária na Antiguidade, mas também não consideraria que essa seja a única uma fala (‘epirrema’) do rei, em versos jâmbicos”
compreendendo Aristóteles,
Horácio e Longino, em tradução de forma de entender e descrever aquilo de que trata a (ARISTÓTELES, 1966, p. 34). Assim se associam o
David Jardim Júnior.
Poética. Se é bem verdade que os comentários sobre fundo coral com o diálogo e dessa associação surge a
3.  Não farei comentários a tragédia ocupam boa parte da obra, seu objeto é tragédia. Às hipóteses formuladas sobre o nascimen-
especificamente sobre as opções
propriamente a poesia, não só uma de suas espécies, to do gênero, aventadas na introdução, somam-se,
de tradução, recordando apenas
um caso: como já observara Hirata, sendo por isso que ela se tornou o texto fundador nos apêndices, os inúmeros testemunhos, tomados
Eudoro traduz “mythos por ‘fábula’
e por ‘mito’, quando ‘enredo’ seria
de nossas poéticas, pela abertura que o modelo de um número valioso de fontes antigas relativas ao
preferível a ‘fábula’” (HIRATA, exposto no início forneceu para a teorização, o que ditirambo, a Árion, a Pratinas, Téspis etc. Ou seja:
2003, p. 105). A opção por
“mito”, com todas as conotações eu resumiria assim: tudo que é poético é mimético, para a leitura proposta, propõe-se, coerentemente,
que tem para o leitor moderno, sendo a mimese que define o que é poesia (não o toda uma documentação que a justifica. A esse nível
parece-me sintomática da ênfase
que se procura pôr nas vinculações verso); as espécies poéticas classificam-se conforme Eudoro chama de “morfológico”, estabelecendo o
da tragédia com o culto
usem meios diferentes, tratem de objetos diferen- postulado de que as formas da tragédia podem nos
dionisíaco e os mitos heroicos,
como comento na sequência. tes e o façam de modos diferentes. Esses são os dizer de sua história.
Valente, por exemplo, opta
pressupostos teóricos, que pretendem uma validade O mais pessoal dessa leitura apresenta-se
preferencialmente por “enredo”,
com exceção de em algumas universal – e com base nos quais a poesia volta a num terceiro momento, no qual também a história
poucas passagens, em que traduz
o termo por “história” e “história
ser considerada em seu conjunto em outras partes é ultrapassada. Eudoro parte do pressuposto de que
tradicional” (ARISTÓTELES, da Poética, como quando é contraposta à história há “duas espécies de soluções” para o problema
2004, especialmente p. 37, nota
1). Apenas para que se sinta a (no jogo entre dizer, esta, “o que aconteceu”, ao da “origem e desenvolvimento da tragédia grega”:
diferença, tomemos o famoso contrário daquela, que se ocupa de “o que poderia “a primeira, que se traduz em morfologia histórica
passo de 1450a 37: na tradução
de Valente, “o enredo é, pois, o acontecer”), o que nos garante que as prescrições do poema trágico, e a segunda, que se traduz em
princípio e como que a alma da
sobre as regras de necessidade e verossimilhança que fenomenologia religiosa da representação dramática”
tragédia”; na de Eudoro, “o mito
é o princípio e como que a alma se aplicam aos entrechos (mythoi) não se reduzem (ARISTÓTELES, 1966, p. 42). Sem negar valor à pri-
da tragédia”.
ao “mito” da tragédia. Assim, a Poética segundo meira alternativa, ele admite que “o drama antigo,
4.  Contraponha-se essa definição Eudoro implica numa ênfase no que diz respeito à como qualquer forma de arte, ‘põe problemas que
à de Aristóteles, na famosa
passagem 1449b, que cito na
tragédia, o que define sua leitura de Aristóteles. Um só a religião pode resolver’” (ARISTÓTELES, 1966,
tradução do próprio Eudoro: Aristóteles trágico, eu diria, parafraseando o título p. 43), ou seja, as relações do drama com a religião
“É pois a tragédia imitação de
uma ação de caráter elevado, do livro de Cláudio Veloso – Aristóteles mimético, devem ser trazidas ao primeiro plano, o que implica
completa e de certa extensão, em que põe a ênfase na mimese (VELOSO, 2004) – e explorar sua relação com Dioniso. Trata-se, pois,
linguagem ornamentada e com
as várias espécies de ornamentos confessando que eu próprio venho há algum tempo de todo um excurso para além de Aristóteles, que
distribuídas pelas diversas
praticando um Aristóteles poético. não se ocupou desses aspectos. É curioso, nesse
partes [do drama], [imitação
que se efetua] não por narrativa, Um segundo aspecto da leitura de Eudoro é sentido, que Eudoro declare as vantagens da defi-
mas mediante atores, e que,
seu interesse pelo que Aristóteles (não) fornece nição de tragédia por Wilamowitz-Moellendorff com
suscitando o terror e a piedade,
tem por efeito a purificação sobre a história da tragédia. Como se sabe, as infor- relação à de Aristóteles, porque nela a vinculação
dessas emoções.” As diferenças
podem ser assim resumidas: a)
mações da Poética a esse respeito são brevíssimas, com Dioniso se expressa: a tragédia grega “é um
Aristóteles não restringe os temas ocupando os parágrafos de 11 a 25, que, além do trecho de lenda heroica, completo em si mesmo,
da tragédia à lenda heroica, ainda
que reconheça, em outros pontos, mais, não são inteiramente dedicados à tragédia. poeticamente elaborado em estilo elevado, com
que são os predominantes (mas Ora, todo estudo introdutório de Eudoro tem como o fim de ser representado, como parte integrante
pode haver entrechos inteiramente
inventados pelo poeta, cf. 1451b); objetivo, de um certo modo, completar Aristóteles, do culto público, no santuário de Dioniso, por um
b) não se fala, na definição, que
valendo-se de todo conhecimento acumulado pela coro de cidadãos atenienses e dois ou três atores”
a tragédia é parte integrante 4
do culto público no santuário filologia clássica desde o século XIX. Ele toma como (ARISTÓTELES, 1966, p. 50). Tratando-a de “nota-
de Dioniso; c) também não se
ponto de partida principalmente a tese de Walter bilíssima”, Eudoro analisa detidamente cada um dos
fala explicitamente do coro de
cidadãos; d) a referência à catarse Kranz, segundo a qual, nos exemplares mais antigos componentes dessa definição, para concluir: “em

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primeiro lugar e essencialmente, a tragédia é, pois, sub-liminar ao drama é uma “diacosmese”, ou seja, foi eliminada. Não quer dizer que
informações acrescentadas não
um drama – ato do culto prestado a certa divindade: “o ordenador de certo kósmos, cuja natureza íntima possam ser colhidas em outras
partes da Poética. O que desejo
Dioniso” (ARISTÓTELES, 1966, p. 51). se revela como contradição”. Então se chega enfim à
salientar é apenas o que Eudoro
Concentrando-se nessa vertente “fenomeno- conclusão que conduziu do problema da origem da de Sousa, ao preferir a versão
de Wilamowitz, entende como
lógica” da origem da tragédia, Eudoro traça uma tragédia para a questão do trágico, em consonância
essencial para definir a tragédia.
metodologia para sua exploração (que na verdade com as ideias, sobretudo, de Walter Otto sobre o
se mostra uma exploração de Dioniso): as origens dionisismo: “como dionisíaco, o Universo se nos
da tragédia são “trans-históricas”, já que não “há revela sob o aspecto da contradição; (...) o kósmos
inícios historiáveis”. Não se trata, nesse caso, de nos aparece como em si mesmo contraditório: con-
migrar da história para a pré-história, como ele traditório na Natureza, contraditório no Homem;
afirma: “em vez de ‘pré-história’, melhor diríamos contraditório na própria Divindade” (ARISTÓTELES,
‘sub-história’”, esclarecendo mais à frente: “as ori- 1966, p. 56).
gens não são ‘pré-liminares’, mas ‘sub-liminares’; Esse é um ponto de chegada importante, que
não são ‘pré-históricas’, mas ‘sub-históricas’; não fornece chaves para leituras da questão do mito
são ‘pré-conscientes’, mas ‘sub-conscientes’”. Então e do herói trágicos (partindo de Aristóteles, mas
conclui: “pois bem, o culto de Dioniso constitui a ultrapassando-o). São movimentos que se mostram
pré-história ou a sub-história da tragédia grega; o cada vez mais abrangentes, em que se busca abarcar
que quer dizer: em todo e qualquer momento do o sentido do trágico em todas as esferas da vida dos
processo histórico-literário do gênero trágico, sob antigos, até sua codificação na pólis: “A ‘contradição
outras ‘letras’ terá sempre de revelar-se o mesmo implícita na lenda heroica’ – ele conclui – explica-se,
‘espírito’” (ARISTÓTELES, 1966, p. 44). por conseguinte, no trânsito da religiosidade tradicio-
Assim, ele parte para o capítulo mais pessoal nal para a eticidade política; e quando aparentemente
de seu comentário, dedicado a investigar “a essência irremediável, do ponto-de-vista da pólis, vem a ser
da tragédia”. Sigamos alguns de seus postulados. Em sanada, do ponto-de-vista da phýsis, nasce a tragé-
primeiro lugar, uma constatação hegeliana: “a Histó- dia” (ARISTÓTELES, 1966, p. 64). Assim se reuniriam
ria dá-nos (...) uma tese e uma antítese: o deus e o princípio e fim, mais exatamente, o ditirambo, donde
herói; mas a síntese – o herói trágico – transcende a Aristóteles afirma que procede a tragédia, com “a
História” (ARISTÓTELES, 1966, p. 54). Para deslindar derradeira tragédia do último dos grandes trágicos”:
essa aporia, é preciso admitir que “o problema da as Bacantes de Eurípides. Peça a que Eudoro dedicou
tragédia é o segundo, e o da religião, o primeiro”. um curso recordado por seus discípulos como dos
Cumpre então indagar o que é um deus grego, para mais significativos (melhor: entusiasmados) e de que
encontrar a resposta no campo da filosofia: “um deus publicou uma tradução comentada.
grego é o agente de uma ‘diacosmese’” (ARISTÓTELES, A pergunta, portanto, sobre a posição e o
1966, p. 55). Ele esclarece: papel que teve a Poética de Aristóteles no percurso
intelectual de Eudoro de Sousa parece que pode en-
para os gregos, tantos ‘Universos’ havia, quantos contrar uma resposta satisfatória: tudo para Dioniso.
deuses em que acreditavam, como agentes e represen- Num movimento curioso, pois se se deve censurar,
tantes de uma ou outra ordem universal, física, humana conforme suas próprias palavras, o “desdenhoso
e divina. Eis o que significa, segundo Crisipo, a palavra silêncio ou descuidoso olvido da Poética no que
[diacosmese] no contexto de um fragmento preservado respeita à origem da tragédia no culto de Dioniso
por Estobeu (...): ‘o kósmos é a divindade, por virtude ou dos Heróis, na Religião, em suma” (ARISTÓTE-
da qual a diskósmesis tem princípio e fim (ARISTÓTELES, LES, 1966, p. 63) – a “história literária” entrando
1966, p. 56). em falência diante de tal empreitada –, parece que
a missão que Eudoro se impôs, trabalhando com a
Passo seguinte: Dioniso, que constitui a sub- Poética, foi restituir a Dioniso o que cria de Dioniso,
-história da tragédia, a sub-consciência trágica e é produzir, digamos, um Aristóteles dionisíaco.

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desígnio 8 jan.2012
Uma empreitada consciente e consistente, EURÍPIDES (1974). As bacantes. Introdução, tradução e
comentários de Eudoro de Sousa. São Paulo, Duas Cidades.
concorde-se ou não com ela, baseada em vasto co-
nhecimento das fontes e da erudição, sobretudo a de HIRATA, Filomena Yoshie (2003). As lições da Poética.
origem germânica, que permitiu a Eudoro de Sousa Humanidades, v. 50, n. 1, p. 104-105.
uma reflexão desdobrada por toda sua frutífera vida
SERRA, Ordep José Trindade (2003). Traços à margem do
intelectual. O que permite, com justiça, proceder a horizonte. Humanidades, v. 50, n. 1, p. 88-95.
sua passagem de autor para assunto, passagem para
SOUSA, Eudoro de (1973). Dioniso em Creta e outros en-
a qual espero ter contribuído.
saios: estudos de mitologia e filosofia da Grécia antiga.
São Paulo, Duas Cidades.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS _______ (1975). Horizonte e complementariedade: ensaio


sobre a relação entre o mito e metafísica nos primeiros
filósofos gregos. São Paulo, Duas Cidades.
ARISTÓTELES (1966). Poética. Introdução, tradução e
comentários de Eudoro de Sousa. Porto Alegre, Globo. _______ (1980). Mitologia. Brasília, Universidade de
Brasília.
_______ (2004). Poética. Tradução e notas de Ana Maria
Valente. Introdução de Maria Helena da Rocha Pereira. VELOSO, Cláudio William (2004). Aristóteles mimético. São
Lisboa, Calouste Gulbenkian. Paulo, Discurso Editorial.

BRANDÃO, Jacyntho Lins (2003). Dioniso e a diacosmese


na cultura helênica. Humanidades, v. 50, n. 1, p. 84-87.

Recebido em novembro de 2011.


Aprovado em dezembro de 2011.

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