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INTRODUÇÃO

EXTENSÃO DA OBRA

Jung é uma imensidade. Sua obra é vasta. Logo em 1902 se doutorava com uma tese
sobre uma espiritista que era tomada por diversos espíritos, os quais considerou como per-
sonalidades segundas da paciente, conteúdos de seu inconsciente aparecendo daquela forma.
Pouco depois, em 1906, fazia seu trabalho sobre associação de idéias. Em 1907, escrevia sobre
a parte psicológica da demência precoce, ou seja, o que chamamos hoje de esquizofrenia; em
1908, sobre o conteúdo das grandes psicoses. Escreveu durante grande parte da vida; já quase
às vésperas de sua morte, em 1961, ainda ditava suas memórias.

PROFUNDIDADE

Sua obra não só é vasta, como lambem é profunda. Indício clássico para nós, da
profundidade de Jung, é a interpretação por ele feita de um sonho seu, em que *vê seu
psiquismo num corte longitudinal, da parte superficial, da cultura individual que tinha à
profundeza da herança nele deixada por toda a humanidade que o precedeu na história. E
Jung estudou o psiquismo sob quantos pontos de vista lhe pareceram possíveis. Tudo o que a
este se referia, tudo quanto fosse fenômeno psíquico lhe interessava, tanto assim que a sua
psicologia mereceu o nome de psicologia complexa, por ele empregado e ainda adotado por
alguns de seus discípulos, em vez do mais corrente, depsicologia analítica. Ocupou-se, pois,
com o psiquismo nas suas várias formas de manifestação: associação de idéias, sonhos,
desenhos, imaginação, etc. Preocupou-se com tais manifestações não só quando aparecendo
nos indivíduos, em particular, mas também enquanto produtos coletivos dos povos,
dedicando-se muito ao estudo dos mitos e dos símbolos. Trabalhou com a dinâmica do
psiquismo. A energia que seria a essência deste estaria quase sempre em movimento. Aliás,
estudando-se Jung, sente-se que para ele tudo no psiquismo se move; não encontramos coisas
estáticas, mas sim, de um lado, o consciente e, de outro, o inconsciente, havendo intercâmbio
praticamente constante entre um e outro.

PONTO DE PARTIDA

O ponto do qual Jung partiu para as suas concepções, consistiu em admitir a


realidade absoluta de tudo o que é psíquico. Isto, que hoje pode parecer obsoleto, era mais ou
menos uma novidade em torno de 1900. Fazia pouco tempo que se tinha dado aos sonhos
uma valorização adequada e a ciência começava a sair de uma época extremamente
materialista.

MATERIAL

O trabalho de Jung foi sumamente empírico; foi de seus casos, isto é, dos casos de
seus clientes psicóticos, ou neuróticos, ou normais e da observação de coisas que aconteceram
consigo próprio, da análise de seus sonhos e vivências que tirou as concepções presentes em
sua obra.

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JUNG, O HOMEM CONCRETO.

Não se trata, quanto a Jung, de um filósofo que, dentro de uma sala, tenha
imaginado, concebido coisas e depois feito sistemas a respeito dessas concepções. Tudo o que
apresentou partiu da vida prática, dos seus achados dentro dessa vida. Observou, descreveu,
ordenou todos esses dados que, repetimos, eram ou de clientes ou seus mesmos, pois Jung, o
estabelecedor da idéia da análise didática, foi um psicoterapeuta que fez sua própria análise e,
ainda mais, que descobriu o próprio caminho para essa análise; não encontrou nenhuma
Ariadne que lhe desse um fio, como diz na sua autobiografia, na qual trata dessa análise sob o
titulo de "Confronto com o inconsciente". Para Jung esse confronto se deu mais ou menos aos
40 anos; depois o Autor levou muitos anos para aproveitar todo o material dessa ocasião.
Assim, trabalhando com dados colhidos de clientes e de si próprio, teve a sua obra toda
extraída exclusivamente da prática e, como parte desta foi produto do próprio "caso Jung",
gostamos de dizer, com Charles Boudoin, que Jung é o tipo do "homem concreto",
"concreto"aí querendo dizer que tudo o que fez e nos deixou cresceu junto com o autor, com o
homemque ele foi.

BASES BIOLÓGICAS

Ao mesmo tempo em que fazia esse trabalho concreto, todo saído de sua prática,
Jung tinha grande tendência a procurar fundamentos biológicos que explicassem as
concepções que ia tirando das observações que se lhe ofereciam na prática. A partir dos casos
que observava e analisava, chegou à conclusão de que hipóteses suas eram válidas também
para muita gente. Assim, a sua generalização quanto ao inconsciente coletivo, por exemplo,
não foi feita a partir de seu único sonho acima levemente lembrado. Este ficou, para Jung,
paciente e consciencioso, como uma idéia, a qual, com o tempo foram sendo confirmada pelos
seus achados no trabalho diário de psicoterapeuta; confirmada, entretanto, para Jung, como
uma hipótese de trabalho apenas. Jung não só era bastante consciencioso, mas também
bastante cientista para tornar suas idéias, como a de inconsciente coletivo, só como hipóteses,
o que demonstrava, dizendo-o explicitamente, até o fim da vida. Hoje é que nós, pessoalmente
apoiando-nos em estudos modernos, chegamos a julgar que a ciência, atual confirma
hipóteses suas. Pena não ter Jung vivido o bastante para ter conhecimento de tais trabalhos,
assaz recentes!

BASES HISTÓRICAS

Jung não só procurava uma base biológica, mas também uma base histórica que
explicasse noções a que houvesse chegado. Exemplificando: Uma cliente lhe contara um,
sonho em que aparecia uma águia, a qual comia a própria asa. Durante longos anos Jung
refletiu sobre tal sonho sem chegar a uma conclusão, até que, passando a estudar alquimia,
encontrou, num livro muito antigo, a gravura de uma águia comendo a própria asa. Ali se lhe
deparava, de repente e por acaso, o elemento histórico de que necessitava: a paciente tinha
tido uma representação onírica que não derivava de suas vivências pessoais, mas que provinha
de uma experiência, de uma vivência que, muito anteriormente, tivera alto valor para

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determinada parte da humanidade. Havia um "background", um antecedente histórico
explicando a imagem tão estranha do sonho.

TIPOLOGIA

Antes de completar os 40 anos, Jung, baseado nas quatro funções (pensamento,


sentimento, percepção, intuição) que admitiu como básicas no psiquismo publicou a obra
monumental "Tipos psicológicos" que nos mostra, a uma luz nova e clara, as diferenças
psicológicas individuais, na esfera das pessoas normais, embora as idéias inerentes a essa
tipologia possam ser aplicáveis no campo da patologia.

INDIVIDUAÇÃO

Estreitamente ligado a essa tipologia encontramos o conceito junguiano de


individuação. Este processo, ao qual nos poderia referir sob o título de "O homem em busca de
si mesmo", mostra-nos como e até que ponto a psicologia pode admitir o dito popular de que
todos têm sempre algum lado negativo, indicando ao mesmo tempo o valor psicológico do
ideal de perfeição. Ensina-nos como podemos chegar a nos conhecer bem, a nós mesmos,
mais a fundo, e como é possível, em conseqüência e simultaneamente, adquirir-se um
equilíbrio interior que se alie a um modo simples de relacionamento com o próximo, com a
vida exterior.

Começamos dizendo que Jung é uma imensidade. Apenas ensaiamos indicar como
sua obra é vasta e buscamos dar um esboço do quanto é também profunda.

Jung não deixou sua obra esquematizada. Faleceu aos 86 anos, ainda a recompondo,
reconsiderando concepções, escrevendo ou elaborando idéias. Pessoa assim tão dinâmica, tão
produtora e, sobretudo, tão criadora como foi, não poderia ter disposto de tempo para
escrever coisas do tipo didático. A carência destas, discípulos e seguidores seus têm-se
esforçado por supri-la.

Ao lado disto, é necessário dizer que a sua obra dificilmente comporta uma
sistematização. Falar sobre ela é sempre oferecer generalidades e, ainda quanto a estas, é
falar parcialmente e mesmo superficialmenteJung, pensamos, deve realmente ser lido na
fonte. As circunstâncias, entretanto, nos levam a apresentá-lo e a procurar "conta-lo". Se o
presente trabalho puder despertar um pouco de interesse pela matéria e conseguir torná-la
mais acessível em nosso meio, dar-nos-emos por satisfeitos.

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I
O PROCESSO DE INDIVIDUAÇÃO
À PSICOTERAPIA

''... para certos indivíduos a individuação é indispensável,


apresemando-se não apenas como uma necessidade psi-
coterápica, mas como um alto ideal, uma idéia daquilo de
melhor que podemos realizar:"

JUNG

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CONSCIENTE E INCONSCIENTE. A PERSONA. CONCEITO JUNGUIANO DE NEUROSE.

Podemos dividir o psiquismo em duas porções: a do consciente e a do inconsciente.

O CONSCIENTE está estreitamente ligado ao ego. Podemos considerá-lo como uma


superfície cujos limites são dados por uma circunferência. Tal superfície seria o campo da
consciência. Ela teria, por centro, o ego.

O EGO é o ponto de referência de tudo que faz parte do campo da consciência. É um


fator complexo. Apresenta-se como o sujeito a que é apresentado tudo o que integra a
consciência; cada um dos elementos desse "tudo" se apresenta ao ego, como um objeto.

O ego não é igual à consciência, Esta é maior do que ele. No momento em que estou
concentrado numa conversa, meu ego está voltado inteiramente para o assunto desta. Minha
consciência, entretanto, estará captando ruídos, movimentos e outros fenômenos que se
estejam desenvolvendo ao meu redor. Desse modo se, de repente, me interromperem e
indagarem o que sucedeu enquanto conversava, serei capaz de dar o assunto da conversa e
também muito do que ocorreu à minha volta, embora a isso eu não estivesse praticamente
ligado; eu estava ligado era à conversação. Assim, pois, nos limites do seu campo,
minhaconsciência capta fenômenos que meu ego não está preocupado em enfocar.

LIMITES DO CAMPO DA CONSCIÊNCIA

De um lado, nossa consciência acaba onde terminam nossos conhecimentos das


coisas exteriores a nós. Desse modo, para uma pessoa de interior remoto de qualquer país, ela
poderá findar no ponto em que chegam conhecimentos rudimentares relativos ao trabalho no
campo, à mudança das estações, à manufatura de tecidos e objetos caseiros, ao trato primitivo
com animais. Já para os habitantes de metrópoles, ela alcança muito mais, abarcando quanto
as indústrias modernas oferecem, do rádio à televisão, do último tipo de automóvel aos aviões
supersônicos, dos elevadores aos "metrôs", das máquinas de escrever aos computadores, do
ferro elétrico às diferentes máquinas de lavar e secar, e assim por diante.

Esses conhecimentos, todavia, quer num quer noutro caso, são passíveis sempre de
um aumento: sempre é possível que novas coisas exteriores passem a se apresentar a nosso
ego. Retomando os exemplos citados, temos que o interiorano pode mudar-se para uma
cidade; o que o levará a tomar contato com mil coisas que até então desconhecia; ao cidadão
de uma metrópole a cada dia mil novidades podem ser comunicadas pela leitura, pelos jornais,
cinema ou pela televisão. A consciência, desse lado (do mundo exterior), portanto é sempre
capaz de aumentar. De outro lado, a consciência está limitada pelo nosso desconhecimento de
coisas que existem em nosso psiquismo, sendo; porém, estranhas a ela: nossa consciência pára
onde começa nosso inconsciente, do qual muito nos ocuparemos neste trabalho.

BASES DO EGO

São, em parte, somáticas e, em parte, psíquicas. Como base somática, temos tudo o
que entra nocampodenossaconsciência,tendo-seoriginadoemnossoprópriocorpo,istoé,os
estímulos que partem deste e que nós percebemos; o percebermos esses estímulos de nosso
físico é já um tomar consciência deles, pois o perceber é já psíquico.

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Ainda como base somática do ego, temos fenômenos que ocorrem em nosso corpo e
ficam subliminares em relação à nossa consciência, mas dos quais ocasionalmente nos
podemos tornar conscientes. Podemos considerá-los como psíquicos também e não como
apenas fisiológicos, embora pareçam não chegar a ter, geralmente, influência significativa em
nossa vida psíquica.

Como bases psíquicas do ego, temos tudo o que faz parte do campo de nossa
consciência e todo o conjunto de elementos que constituem o inconsciente.

FORMAÇÃO E ESTABILIDADE DO EGO

O ego vai-se formando à medida que o indivíduo cresce. "Parece resultar, em


primeira instância, da colisão entre o fator somático e o meio ambiento", diz Jung. Vai-se
estabelecendo aos poucos. Mais tarde, continuará a se desenvolver, a partir de relações que
irá fazendo tanto com o mundo exterior como com o mundo interior. Através de sua formação
e de seu desenvolvimento, o ego, em cada um de nós, adquire características particulares,
fazendo-se único, altamente individual. Além disso, tende a se conservar sempre igual a si
mesmo, estável. Sua identidade, contudo, pode desaparecer por causas patológicas. O ego
pode também sofrer mudanças normais, durante o desenvolvimento psicológico do indivíduo.

IMPORTÂNCIA DO EGO

É enorme. Tudo o que está ligado à vontade, todo o esforço de adaptação do


indivíduo à vida diz respeito a esse fator. E se acompanhamos o desenvolvimento psicológico
de um indivíduo, quer ele se faça naturalmente, quer em situação psicoterápica, em momento
algum podemos deixar de estar muito atentos ao ego.

Só que o ego e a vontade, a ele estreitamente ligada, não são tudo o que conta na
vida do nosso psiquismo. E, por problemas do indivíduo, muitas vezes estão indesejavelmente
longe de o ser.

O INCONSCIENTE

De cerca de meio século para cá, vem sendo cada vez mais amplamente admitido. Há
ainda, porém, muito preconceito em relação a ele, a tendência maior sendo sempre a de se
achar que o ego e a vontade são tudo.

Ora, nossa vontade própria freqüentemente se choca, no meio ambiente, com mil e
uma dificuldades: na realização de minha vontade de ir fácil e rapidamente daqui a um ponto
dado, posso ver-me prejudicado por acidentes do terreno, por horários de condução, etc. E
essas dificuldades exteriores, as reconhecemos prontamente; são o que dizemos "uma
realidade". Não atinamos, contudo, o mais das vezes, com nossas dificuldades internas, por
nós desconhecidas (inconscientes), que nos podem embaraçar a vida. Elas, entretanto,
existem, pois se fazem sentir. No exemplo dado, se tivermos de ir por terra e for noite, e não
tivermos luz, nossa rapidez será dificultada; a falta de luz, a escuridão, estamos usando como
lembrança de fenômenos que, embora desconhecidos por nós, existem em nós, ou seja, a ela
recorremos para representação do inconsciente.

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Alguns exemplos simples da atuação do inconsciente: — Pessoas desejosas de
conhecer determinado lugar, mas que simplesmente "não podem" ir a eles porque "não
podem” enfrentar a viagem. Algumas não poderão viajar por ar, mas suportarão um navio;
outras, nem isso.

Lembramo-nos do caso de uma senhora professora. Sua dedicação a levava a pensar


repetidamente em conhecer a Europa, de cuja visita poderia trazer muito mais recursos para
suas aulas. Nada lhe faltava, de exterior, para isso — nem dinheiro, nem tempo, nem saúde,
nem mesmo companhia. Todavia, um receio enorme de entrar num navio ou num avião lhe
impedia sempre a viagem; um receio, algo de interno e inconsciente, que se mostrava superior
à sua vontade (consciente).

— No inicio de sua carreira, nas suas experiências de associação de idéias, Jung


começou a notar lapsos maiores de tempo precedendo certas respostas. Pensou em
perturbações psíquicas influenciando o tempo de reação e causadas pelo estímulo. Daí tirou a
noção dos complexos que, de inicio, chamou de "complexos de carga afetiva". Seriam
elementos do inconsciente que influenciariam a vida consciente do indivíduo.

— O inconsciente, não raro, conduz o indivíduo, como se este quisesse destruir-se, a


um casamento que todos os seus conhecidos vêem como inadequado, e só ele não.

- Jung conta, várias vezes, o caso de um alpinista que gostava de ir sozinho escalar
montanhas e lhe relatara um sonho em que, estando nelas, entrava num êxtase, elevava-se no
ar e, de repente, despencava no abismo. Segundo a história do indivíduo, o esporte, como o
praticava, demonstrava-se uma tentativa de suicídio. Como, acordado, não se dava conta
disso, necessitara ter o sonho, que fazia claro o significado de seus passeios. E Jung lho
interpretou, mas em vão: o indivíduo foi incapaz de perceber onde o inconsciente o
levava;estava convencido de que se dava ao esporte simplesmente em busca de manter e
melhorar a própria saúde. As neuroses em geral são resultado de problemas inconscientes
agindo sobre o indivíduo, malgrado seu.

A PERSONALIDADE TOTAL

Pelo fato de fenômenos por nós desconhecidos, mas existentes em nós, poderem
atuar assim "apesar do indivíduo", de sua vontade, de seu consciente,Jung chama o
inconsciente de psique objetiva.

O inconsciente, não palpável embora, não concreto no sentido das coisas concretas
exteriores a nós, é uma realidade tão objetiva quanto o mundo que nos cerca.

E as poucas considerações acima já revelam que a personalidade de cada um de nós


é constituída não apenas pelo ego e pela consciência, mas também pelo inconsciente. Ao
conjunto “consciente mais inconsciente", isto é, à personalidade total, chamamos self.

No esquema do quadro 1 representamos o campo da consciência com seu centro, o


ego.

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No seguinte, a personalidade total, da qual o ego já não é o centro, é dada como uma
esfera que se cortou ao meio. Na superfície, uma pequena mancha seria a consciência com seu
centro, o ego.

A esfera estaria cheia de... nada? Vazia?

Assim seria se o inconsciete fosse igual a nada, a um desconhecido que não


importasse.

A PERSONALIDADE CONSCIENTE QUANTO À SUA IMPORTÂNCIA

O ego é, permanentemente, o centro do campo de consciência. E consciência e ego,


que constituem a personalidade consciente, são de importância capital na economia do
psiquismo. Em se tratando de psicologia junguiana, geralmente o pensamento logo vai para
coisas muito profundas; com freqüência para o sentido das coisas religiosas. Tal se explica
dado o modo original de Jung ver o psiquismo, em grande profundidade, admitindo, como
integrantes da energia psíquica, os instintos todos: o sexual, o religioso, o de progresso
psíquico, o do desejo de conhecimento, o relativo à arte, etc.

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A propósito, algumas palavras sobre o que vem a ser a energia psíquica, sob o ponto
de vista junguiano.

Jung julga que, teoricamente, podemos, como hipótese de trabalho, considerar o


seguinte: No psiquismo existem múltiplos fenômenos ou, se quisermos, o psiquismo é, em si,
um conjunto de fenômenos. Esses se relacionam entre si, sofrendo variações. Tal
relacionamento está intimamente ligado à presença de algo semelhante à energia conhecida
na física e só pode ser compreendido na base da suposição da existência desse algo. A este
convencionou dar o nome de energia psíquica.

Junguianamente considera-se o psiquismo, com seus fenômenos a se relacionarem,


como funcionando tal um sistema quase fechado de energia. Com esse "quase fechado" se
quer dizer que os fenômenos psíquicos variam, mas a quantidade de energia do psiquismo
permanece sempre a mesma.

Mas, quanto à quantidade de energia, como poderíamos ter uma idéia dela? Em
casos que diríamos parciais, isso é possível através, por exemplo, do valor relativo que damos a
nossos próprios conteúdos psíquicos. Esse valor, atribuído como maior a esse e menor àquele
conteúdo, está relacionado a uma energia psíquica para nós relativamente mais intensa em
ligação a um do que a outro; a intensidade psicológica que pomos em nosso contato com o
primeiro é maior do que aquela com que "contactamos" com o segundo. É patente, senão para
nós mesmos, para circunstantes, a desusada quantidade de energia psíquica que se pode
demonstrar, pela nossa reação afetiva, quando nos tocam num ponto fraco da personalidade.

E qual seria a finalidade dessa energia?

A energia psíquica, propiciando as variações dos fenômenos psíquicos, visa a levar o


psiquismo a um estado de equilíbrio. A energia psíquica, assim considerada, é, pois, uma
abstração. Pode ser deduzida a partir de manifestações como intensidade de afeto, segundo
comentamos pouco antes, de intensidade de impulsos, de intensidade maior ou menor por
nós colocada em nossas atividades, dentre as quais desejamos destacar as artísticas.

A energia psíquica se apresenta como que grandemente concentrada nos símbolos


que se nos podem deparar nos sonhos e nas fantasias, nos desenhos, nas obras de arte;
nosverdadeiros símbolos, não nos sinais. Cabe aqui diferenciar símbolos de sinais. Os sinais,
embora também recebam o nome de símbolos por sinônimo, são sempre figuras de
significadoconvencional,“palpável", "concreto": um p maiúsculo em preto inscrito num círculo
vermelho é sinal de trânsito indicativo de estacionamento regulamentado. Ora, o símbolo é de
significação completamente diversa. É algo "visível", sensível, mas se constitui numa
representação que conseguenos fazer lembrar alguma coisa para nós impossível de
tornarconcreta. Através dele chegamos a ter uma idéia apenas dessa alguma coisa. Está
sempre no lugar de algo que, embora possamos sentir e valorizar enormemente, é abstrato
demais para que cheguemos a conseguir defini-lo de maneira cabal.

Exemplo prático mais corrente e importante seria o da bandeira de um país que


representa, por exemplo, "La Douce France” ou o nosso Brasil, cada um dos quais significa,
além de certa porção geográfica e de determinado idioma, muito mais do que, em seu senso

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patriótico, seus filhos poderiam exprimir em palavras. Sob o ponto de vista cristão, o peixe foi
dos símbolos mais antigos de Cristo.

Quadro 3.

Ocupando-nos de energia psíquica e de símbolos, lembraremos René Huyghe, em"Os


poderes da imagem”, a falar do surrealismo, quando diz que "os poderes ocultos" (a energia
psíquica) "efetuam, por meio de símbolos, a sua ascensão”(das profundezas do inconsciente)
"até o mundo visível" (o mundo da vida consciente) e assim é que, na obra de artistas de
nossotempo, se nos podem deparar elementos resultantes da eclosão ao inconsciente.

Não os sinais, diríamos, mas o verdadeiro símbolo, ou simplesmente "o símbolo" é


“omecanismo psicológico que transforma a energia"; assim ele permiteo relacionamento
entreos elementos psíquicos e as variações destes, o funcionamento do psiquismo. Repetindo
a tradução argentina deste trecho de Jung, diremos que “o símbolo é uma máquina psicológica
que transforma a energia", como uma central hidrelétrica transforma a forca da queda d'água
em eletricidade.

A reprodução do quadro 3, retirada de "Le musée imaginaire de la sculpture


mondiale", de André, Malraux, Ed. Gallimard, 1952, reprodução 623, é de uma estátua feita
segundo desenho de Da Vinci. Faz-nos lembrar que, em sonhos, essa energia de que vimos
falando, agora já no seu todo e não mais num caso parcial, se pode manifestar sob a forma de
um cavalo.

Três sonhos a respeito:

— Por duas vezes, na fase final de desenvolvimento psíquico, encontramos o sonho


com um meninote que montava admiravelmente bem a cavalo, a ponto de a harmonia entre
animal e cavaleiro deixar as sonhantes longo tempo absortas. E, ao contarem o sonho,
percebia-se quão fundo essa harmonia as tocava: pareciam quase extasiadas diante da
imagem que rememoravam. Embora não a soubessem traduzir a contendo próprio, esta era a
de um entrosamento enorme entre elas mesmas (sua nova personalidade alcançada pelo
desenvolvimento) com suas raizes mais profundas, com a própria energia psíquica.

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— Uma senhora ainda jovem, aparentemente em pleno gozo de saúde, sonhou que via
um cavalo atirar-se por uma janela. Era como que a auto-aniquilação da energia psíquica.
Poucas semanas depois se lhe diagnosticava um tumor maligno que rapidamente a levou à
morte. Nas suas profundezas, seu inconsciente pressentira o fim de sua vida, intuíra-o.

- Uma moça viu-se montando um cavalo como a Lady Godiva, cujo filme vira não fazia
muito. Sua fragilidade psíquica, de que nos aperceberamos, fez-nos surpresa diante do sonho
assim relatado. Logo, porém, a sonhante acrescentou que havia algo desagradável na imagem
de sua pessoa — ela parecia meio aleijada, relacionando-se pessimamente com o animal que
cavalgava: o ego da sonhante mal se ajustava às fontes de sua vida psíquica.

O último sonho nos traz de volta à importância do ego e do consciente. Os


elementosprofundos do psiquismo, que são chamados arquétipos, têm seu interesse
fundamental justamente enquanto relacionados à consciência, e assim, ao ego. Um de seus
livros básicos (se assim podemos dizer, pois quase tudo nele é fundamental), Jung o chamou
justamente "As relações entre o eu e o inconsciente", referindo-se ao diálogo entre a
consciência e os arquétipos mais encontradiços no processo de desenvolvimento, em
psicoterapia.

O bom relacionamento do ego com o inconsciente profundo é o que importa para o


equilíbrio psíquico, o que se busca através do amadurecimento psicológico. E para bem
suportar o trabalho que a psicoterapia implica, é necessário que o indivíduo tenha um ego
bem estruturado, tenha uma consciência capaz de assimilar coisas do inconsciente, de tolerar
essa assimilação. Não era o caso quanto a ultima sonhante; seu sonho o indicava.

Em seu "Aion", em que trata do centro da personalidadetotal, Jung dedica todo o


primeiro capítulo ao estudo do ego. E na monumental obra dos "Tipos psicológicos", cada tipo
é caracterizado exatamente pelo seu modo de se conduzir na vida, segundo o seu consciente.

Na psicoterapia sempre se começa pela análise do consciente; e, em todo o trabalho,


este, com seu ego, jamais se devem perder de vista. Não é, aliás, raro que, receosos pelo
destino de seu ego, os clientes nos peçam lidemos com eles com atenção, com cuidado.

E todo o processo de desenvolvimento psíquico se faz à custa de certa tomada de


consciência de coisas profundas.

Assim, consciência e ego importam enormemente. Só que há coisas além deles, quer
dizer, só que o psiquismo total não é igual à personalidade consciente. E mais: chegando o
indivíduo a totalizar-se, o centro de sua personalidade completa se verifica como diferente do
ego e como supra-ordenado a ele; quem dirige a personalidade total é outro elemento, que
também se chama self.

ESTRUTURA DO PSIQUISMO

Em primeiro lugar, na superfície, digamos, temos a personalidade consciente do


indivíduo; está muito ligada à persona, de que logo falaremos. Mais embaixo, temos seu
inconsciente. Sob o ponto de vista da personalidade do indivíduo, o inconsciente se divide
eminconsciente pessoal e inconsciente coletivo. No esquema do quadro 4 mostramos a

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estruturação do psiquismo todo, da personalidade total, que nele é dada como uma esfera,
segundo já mostramos, cortada ao meio. Na superfície desta, sempre a mancha mínima —
aconsciência, sempre com o ego como centro; vista por cima, nos daria o primeiro dos
esquemas, o do quadro 1.

A maior parte de nosso psiquismo (que aparecia cheia de nada, no esquema do


quadro 2) ou seja, o inconsciente, agora revela as suas camadas, da superfície à profundeza,
onde está o centro do psiquismo todo.

A PERSONA

Forma-se, em cada indivíduo, junto com a consciência, à medida que o ego se


estrutura e, assim, permanece estreitamente relacionada com aquela e com o ego. Podemos
mesmo dizer que a consciência, em grande parte, no início, se vai formando à custa da
formação da persona, do amoldamento a que se vai submetendo o indivíduono aprendizadode
como viver no seu meio, deque maneiras e atitudes adequadas deve adquirir.

A persona corresponde à maneira de a pessoa se apresentar em sociedade.


Podemos observá-la em cada um na vida prática, fora mesmo da análise. Faz parte dela o
colarinho e a gravata, ainda em nossos dias, nos funcionários de muitas repartições, assim
como o avental branco do médico, o ar de catedrático de alguém.

A persona constitui-se num compromisso entre cada qual e a sociedade. Conta-se, de


Jane Austen, que, de início, era obrigada a publicar sem seu nome, um de seus livros tendo
aparecido como escrito "por uma senhora". Não só jamais escrevia sob seu próprio nome
como, à aproximação de empregados e estranhos, escondia as páginas que estivesse
redigindo. Do poeta de "As Pombas", contaram-nos que alguém, numa festa, chamou-o à
parte para indagar se era verdade que ele escrevia poesias. No caso de uma e de outro, as
condições respectivas de moça pertencente à boa família e de magistrado não se coadunavam
bem com a literatura que praticavam; esta não lhes convinha à persona, não estava prevista
como integrante dela.

A persona é uma espécie de máscara que cada um usa em sociedade. Persona era
exatamente a máscara que os antigos usavam para representar no teatro; cada máscara
retratava as características do papel de quem a trazia. É normal que cada um de nós tenha a
sua persona. Sem persona, só podemos imaginar um deficiente mental profundo ou um

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demenciado. E mesmo através da persona, já o indivíduo deixa que se lhe perceba a
individualidade. É o que nos mostra o quadro 4 A, a "Mulher transparente", de Francis Picabia
(Patrick Waberg, The initiators of surrealism, Fontana Unesco Art Books, Collins Unesco, 1970,
prancha 6). Sugestivo o nome. Através de um esboço de máscara vemos a pessoa tal qual é.

Pessoas há, no entanto, que não só tem a sua persona, como ainda se deixam
identificar com ela: são iguais à sua persona, são a própria persona, são persona e só; nelas, a
consciência do próprio eu é igual à persona. Seria o caso da moça que tem sempre, em toda a
parte, na escola e fora dela; a própria atitude da professora (já não bem de nossos dias), meio
autoritária, o índice talvez acompanhando-lhe o enunciar das suas verdades.

Bem no começo da análise, trabalha-se com a persona e o indivíduo chega a


perceber quanto do que julgava genuinamente seu, no seu comportamento social, nele se
formou a partir da sociedade, através de sua função nela. Ele teria sabido, em parte, disso, em
parte não.

A reprodução do quadro 5 é de uma máscara que ainda atualmente, o chefe religioso


dos esquimós, quando do exercício de sua função, usa para caracterizá-la e, sem dúvida, para
fundamentá-la (Malraux, op. Cit., reprod. 375).

Quadro 5

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No quadro 6 temos uma das máscaras gravadas por Paul Klee (Will Grohmann – Paul
Klee, Ed Wikohlhammer, Stuttgart, 1954, p.107). Dá-nos bem a ideia do eu (ego) e da persona;
como que vai ajustar-se a fisionomia do indíviduo.

Quadro 6

Alguns sonhos de persona:

— Uma pessoa sonhou que estava diante de suntuoso prédio, uma embaixada, e
achava estranho que esta fosse a sua residência. Ora, num sonho todos os elementos (não só
as pessoas, mas também as coisas) podem ser vistos como dados do psiquismo do sonhante. A
casa, pois, seria algo da própria pessoa, que estava bem no início da análise; era a sua própria
personalidade apresentando-se sob o aspecto de persona — e todos os conceitos ligados a
"embaixada" já falam de um compromisso com a sociedade. A associação de idéias, tipo
junguiano, centrada na imagem onírica da casa, levou à idéia clara de como uma aparência de
grandeza importava à pessoa em questão; por seu exterior, sua atitude física e seu jeito em
geral, aliás, poder-se-ia talvez deduzir isso na vida prática, fora da análise,

- Outra sonhou que era uma raposa, vivendo a procurar um esconderijo; a sua
atitude geral, de fato, era essa diante da vida.

Um exemplo de persona, na literatura, encontra-se em "II Conde", conto de Joseph


Conrad. O personagem se identificara a tal ponto com o seu título que, tendo sido abordado,
numa estacão de repouso, por uns malandros e tratado, por eles, como poderia esperar
tratassem qualquer um, mas não um conde, sentiu que o fato humilhava sobremaneira a sua
pessoa. Sentiu-o de tal sorte que se viu obrigado a abandonar, para sempre, a estação que
freqüentava periodicamente por imposição real e absoluta de seu estado físico. O não voltar a
ela lhe era igual a caminhar conscientemente para a morte, mas ele teve de preferir isso, após
a desconsideração por que passara.

Outro exemplo é o de um livro cuja história foi filmada sob titulo de "O retrato de
uma desconhecida". Uma moça, estando só na ópera, é admirada por um pintor que dela faz
um quadro, de memória. Este é exibido e todos nele a reconhecem. Murmura-se na sociedade
— ela era esposa de um diplomata. A história toda se deslinda para conhecimento perfeito do
casal. O rapaz, entretanto, propõe divórcio: sua condição social, sua persona de diplomata não
se combinava com o continuar marido de uma moça sobre quem pudesse pairar alguma
suspeita (não no seu espírito, mas no da sociedade) de que tivesse posado para aquele retrato.

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Talvez um dia, no futuro, quando tudo estivesse completamente esquecido, pudesse voltar a
procurá-la!

A NEUROSE — SUA FINALIDADE

Muitas vezes, talvez na maioria das vezes, a pessoa vai até o fim da vida feliz com a
sua persona, como ela se formou, sem mesmo muita consciência dela. Era o caso do indivíduo
de 40 anos, do desenho do quadro 7, "Uma alma humana entrando no paraíso'', em que a
"alma humana" (a personalidade) vem representada por uma ave.

Nada de mais acontece ao indivíduo ou, se acontece, é só para evidenciar sua


identificação com a persona, caso essa identificação exista, como no caso do diplomata e do
conde acima. Esses mesmos exemplos da literatura, entretanto, o do conde principalmente,
mostram como uma identificação com a persona pode resultar num desastre. Lembra-nos o
caso de uma senhora muito sensível e que tivera educação esmerada. Se uma empregada lhe
fazia uma malcriação, isso a ofendia tanto, como senhora dona de casa, que era capaz de pô-la
na cama. Foi, aliás, num episódio desses que travamos conhecimento com seus problemas
psíquicos, ao visitá-la como profissional.

A formação da persona leva a uma unilateralidade do consciente, o qual tende a se


ater apenas ao que vai bem com o compromisso social do indivíduo.

Essa unilateralidade do consciente provoca uma reação do inconsciente. Por outro


lado, as repressões resultantes da formação da persona também provocam reação do
inconsciente. O inconsciente, partindo desses dois fatos, pode apresentar um impulso para
que o indivíduo se conheça, desenvolva-se, amadureça.

No quadro 8, volta a ave, do indivíduo que já conhecemos.

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Ela, porém, não continua boazinha e feliz. Seu traje (a persona) já não é considerado
como muito adequado. Vê-se afligida por defeitos — os da veste, a miopia, etc, conforme o
autor os descreveu abaixo do desenho: "Galinha, pássaro empolado e esganiçado, gravemente
míope, vestida de fraque... que ao mesmo tempo a protege e sufoca".

O primeiro desenho da ave (Quadro 7) precedia, de cerca de 1 ano, o inicio da análise. Este
segundo foi executado lá pelo sexto mês da mesma, à qual o cliente fora trazido por
problemas agudos.

Os problemas que trouxeram à análise este indivíduo seriam tomados, em geral, como
os de um neurótico. Ora, a neurose, vemo-la como uma coisa positiva. É como que um S.O.S.
da personalidade, a tradução de um pedido de socorro para que se atente a esta e se
providencie para que seja posta no caminho de se autorealizar; para que se coloque a pessoa
na via do autoconhecimento e da individuação, no caminho que a levará a chegar a ser
aquiloque de fato nasceu para ser.

Dissemos que os problemas do indivíduo que vimos considerando seriam tomados, de


modo geral, como neuróticos. Na realidade, porém, não se tratava de pessoa com uma
neurose estruturada. Seus problemas, podemos exprimi-los como os de uma crise, de
umacomoção interna que o tomou de repente, em conseqüência de sua unilaterização de
consciência, unilaterização a que se forçara para a adaptação à vida, na primeirametade desta.
Com essa atitude, de unilateralização, até o momento se saíra bem; agora lhe era necessário
atentar a coisas suas esquecidas ou a coisas suas genuínas, mas nunca ainda desenvolvidas. Ele
tinha vivido só do consciente; urgia-lhe voltar-se, agora, para seu inconsciente. Era o que a sua
crise lhe vinha propor.

Noutros casos será realmente uma neurose que proporá tal coisa (o atender ao
inconsciente do indivíduo). Gerhard Adler nos dá um exemplo no seu livro "The living symbol",
no qual descreve a análise de uma fóbica.

PRECONCEITO CONTRA O INCONSCIENTE

Muito do preconceito contra o inconsciente (ou do receio de torná-lo conhecido, o


queé a proposta da neurose) vem da idéia de que ele deva encerrar simplesmente coisas
desagradáveis, feias, indesejáveis. Goya já falava que "o sono da razão gera monstros". Mas

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nem sempre é assim, ou é só isso: o inconsciente também pode encerrar coisas indiferentes
ou, mais ainda, coisas realmente positivas.

O inconsciente encerrando coisas negativas é altamente exemplificado pelo nosso


lado sombrio, por nossas deficiências, nossas qualidades menos boas, nossos defeitos, etc.

Quanto ao inconsciente encerrando coisas, em si, indiferentes:

Lembramos casos de crianças (ou adultos) que a educação levara a considerarem


como um mal o mais leve sentimento de raiva; não uma manifestação agressiva decorrente de
raiva, mas o próprio sentir raiva em qualquer situação. Algumas das crianças tinham-no como
pecado e se julgavam condenadas por estar sujeitas a ter alguma raiva às vezes.

Nesses indivíduos, o sentir raiva, tendo sido reprimido o quanto possível, fazia falta
na vida consciente, falta para suas atitudes.

Uma pessoa adulta, cuja vida se caracterizava por passividade imensa, entrara em
sério quadro reacional depressivo. Contou-nos um sonho: Via-se na posição horizontal e sendo
puxada, por cada perna e por cada braço, numa direção, por várias pessoas. Sua falta de
reação, decorrente de falta de raiva, punha-a como joguete, completamente inerte, frente aos
outros, fazendo-a sentir-se puxada violentamente para todos os lados, como uma coisa. A
partir da compreensão do sonho, passou a ter uma atitude, a saber, passou a ter raiva contra
isso ou aquilo e a conseguir-se conduzir, em vez de se deixar puxar servilmente. O desenho
que fez, reproduzindo a imagem do sonho, ajudou-a a "sentir" o signilicado do mesmo, a
apreender-lhe a mensagem.

O inconsciente encerrando coisas positivas:

— Uma criança apreendera, do ambiente seu, que era feio e mau sobressair-se.

Ora, tratava-se de criança bem dotada. Sem grande esforço, aprendia depressa na
escola, fazendo trabalhos merecedores de ótimas notas que a colocavam entre as primeiras da
classe. Não conseguia, entretanto, sentir que sua classificação se igualava ao reconhecimento
que se fazia de sua capacidade; ela mesma se negava esse reconhecimento, que poderia fazer
de modo simples. Assim, via-se em situação difícil, porque conflitiva: era talentosa e furtava-se
a aceitar o fato com franqueza, ao mesmo tempo tinha, naturalmente, necessidade do
reconhecimento desse fato. Passou a ter enorme problema com uma colega bem dotada
também, mas não problemática e que se alegrava abertamente com suas boas notas. A
energia gasta em toda essa questão a levou a uma reação depressiva acentuada e foram
necessários alguns meses de análise de seu inconsciente para que se saísse de sua falsa
modéstia, admitisse francamente sua capacidade e se integrasse bem na classe.

— Uma moça sonhou que ia por uma subida. Em cada patamar via um elefante
engradado, conforme desenhou.

Ora, todas as figuras de um sonho podendo ser vistas como elementos da


personalidade daquele que teve o sonho, no caso, o elefante o que representaria, da moça?
Por sua grande força, como outros animais a ele semelhantes nesse ponto, o elefante pode

17
ser, a psicologia junguiana o sabe empiricamente, símbolo do centro da personalidade total do
sonhante, centro do qual como que provém toda a energia do indivíduo. Esse centro, o
indivíduo o atinge quando se completa, se totaliza. Tal centro, porem, sempre se faz sentir,
desde o início, O sonho, assim, queria dizer que a personalidade toda da cliente estava
bastante reprimida. A moça reprimia o seu próprio progresso, o seu próprio desenvolvimento.

— Muita reação depressiva, em pessoas maduras, deve-se a que o indivíduo, até


então, cuidou apenas de uma parte de si, unilateralizando-se para vencer na vida. Agora, já
nela estabelecido, falta-lhe todo o interesse. E que o que lho poderia suscitar está fundo, no
inconsciente; é preciso que seja descoberto.

Nesse caso estão muitas das neuroses que assaltam as pessoas ao se aposentarem,
justamente quando, tendo tudo para gozar a vida, não vêem em nada indicio de motivação;
esta só lhes pode provir do inconsciente.

— Nos indivíduos limítrofes principalmente (aqueles que, embora não psicóticos,


escapam muito à norma, parecendo estarem a um passo de uma doença mental), a
necessidade de conhecimento dos elementos inconscientes se impõe: é nestes que está quase
tudo o de bom que lhes poderá encher a vida.

— E não só esses, mas os normais "não tão normais", superdotados psiquicamente,


tendo nascido para cumprir a finalidade de se conhecer o quanto possível, não escapam, por
isso mesmo, à necessidade de um diálogo com o próprio inconsciente, diálogo através do qual
vão tomando conhecimento, progressivamente, de elementos cada vez mais profundos de si
próprios.

Desde já diremos que o indivíduo que desenhou as aves acima, e do qual ainda nos
ocuparemos posteriormente, pertencia a este último grupo. Não era um neurótico;
simplesmente entrara numa crise psíquica violenta que o obrigou a voltar-se para os seus
conteúdos interiores. Noutros casos, entretanto, o indivíduo entra realmente em neurose, a
qual tem a mesma finalidade, como dissemos.

A NEUROSE COMO SINAL DE ALARME E A NEUROSE VIVIDA (MANTIDA)

Dizendo que a neurose em si é uma coisa positiva, não queremos dizer que é bom
ficar-se neurótico.

O positivo na neurose é essa chamada do indivíduo para o autoconhecimento, para a


via de seu desenvolvimento psíquico; só. E neste sentido ele é privilegiado: não está
destinadoa chegar ao fim da vida bonzinho, educadinho, bonitinho, com a persona que mais
ou menos "criou" para si a revestir-lhe a personalidade, a qual lhe irá ficando sempre um tanto
desconhecida, de modo a permanecer sempre não plenamente atuante.

Mas o viver em Neurose (a neurose vivida, mantida) é um transtorno. Com seus


componentes de complexos, conflitos, certa dissociação entre consciente e inconsciente,
regressão, nível de consciência rebaixado (no sentido de que esta não rende quanto poderia),a
neurose é altamente negativa e indesejável. Os valores não estão guardados nela, não é ela

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que, mantendo-se, os dará ao indivíduo, como muitos pensam, chegando até a recear que,
dela saindo, percam espontaneidade, criatividade.

A neurose simplesmente tem por fim colocar o indivíduo na pista de seus elementos
inconscientes, muitos dos quais poderão ser grandes valores; essa é a pista do
autoconhecimento, da individuação.

A neurose (ou a crise) é unicamente o fator que leva o indivíduo à porta


dodesconhecido nele. Seria como a febre ou a dor que alertam para a busca de um
tratamento. Assim como a febre traduz uma defesa e reação do organismo a algo nocivo,
assim a neurosetraduz uma defesa do psiquismo ante o perigo da atitude unilateral do
consciente; é uma tentativa de compensação dessa atitude de unilateralização, uma tentativa
inconsciente de readaptação. Só que essa tentativa de compensação, essa tentativa de
readaptação é malograda — os sintomas da neurose o manifestam.

E para o adulto, que já é um indivíduo de certo modo completo, bem definido,


maduro, a neurose é um aviso de "é hora de se educar", no mais alto sentido da palavra, de
trabalhar a sua personalidade a fim de torná-la algo, o mais possível, acabado,

O PROJETO DA INDIVIDUALIDADE COMPLETA E A NEUROSE

A personalidade total sempre existiu, esteve sempre ai no indivíduo, como projeto


que talvez um dia ele realizasse. Assim, podemos encontrar sonhos de self (centro da
personalidade total) já na infância. Jung, em "Um mito moderno", conta um: A criança se via
num edifício e caminhava para o interior dele, atavés de um corredor. Chegando ao fim deste,
notava que muitos outros corredores ali terminavam também. Estava no ponto central do
edifício e, bem no meio da área de confluência dos corredores, viu uma fada que se
transformou em chama. Ora, a chama é o símbolo da própria energia psíquica; e o sonho
lembra uma mandala — vários corredores saindo de um centro.

Mandala quer dizer círculo. É o nome dado a figuras religiosas com círculos, que os
hindus costumavam desenhar. Também as encontramos entre outros povos de cultura antiga,
como a obra acima citada, de Christensen, atesta.

As mandalas são, ou tendem a ser, figuras muito equilibradas. No quadro 9, a


reprodução de uma tibetana, apresentada por Jung (C. G. _lung — The archetypes and the
collective unconscious, 2ª. ed., London, Routledge & Kegan Paul, 1959, fig. I após pág. 356).

A mandala do quadro 10 foi desenhada por um "lama morto há algumas dezenas de


anos", segundo Blanche C. Olschak, que a fotografou em Paro Dzong e a apresentou, com
outras, num artigo publicado em Imagem "Roche” 24.

19
As pessoas, entre nós, costumam desenhar mandalas, ou ter sonhos em que
aparecem mandalas, quando estão chegando à fase final de sua individuação, ao seu equilíbrio
psíquico, à sua personalidade total.

No quadro 11, uma mandala desenhada, a partir de um sonho, por paciente de Jung
(Ibid. fig. 6 após pág. 356).

Já na infância, entretanto, podemos encontrar sonhos ou desenhos de mandalas.


Estas então não significam que a criança esteja atingindo sua personalidade total; apenas
querem dizer que ela traz, em si, a possibilidade de se vir a totalizar um dia.

Muitas vezes, as mandalas são desenhadas (Ou "sonhadas"), quer por crianças, quer
por adultos em situação conflitiva, como uma compensaçãoinconsciente do caos (ou de um
distúrbio menor) em que se encontrem, como uma busca inconsciente de equilíbrio. No
quadro 12, a reprodução de umamandala que Jung conta ter sido desenhada por um menino
de 7 anos, passando por problemas familiares (Ibid., fig. 33 após pág. 356).

20
Embora seu projeto tenha existido sempre, a personalidade total só vai ser alcançada
em plena maturidade do indivíduo. E uma ponte que comumente leva para a sua realização é
justamente a neurose. Esta funciona como um grito de uma personalidade (que
tempossibilidade de se totalizar) para que se providencie essa totalização.

No quadro 13, temos uma mandala de criança de nosso meio, de 8 anos justos.
Tratava-se de sua primeira pintura a dedo, feita espontaneamente, sem orientacão ou
conhecimento do significado de uma figura assim.

21
INCONSCIENTE PESSOAL. INCONSCIENTE COLETIVO. O ARQUÉTIPO DA SOMBRA.

Recapitulando, lembramos o gráfico mostrando a consciência (Quadro 1). Vista de


cima, ela seria o campo delimitado pela circunferência. O centro dessa circunferência seria o
ego.

A consciência se mostra, pois, como uma coisa chata, sem profundidade. Tem a
capacidade de se aumentar progressivamente. O ego é estável e, quer a consciência aumente
ou não, continua sempre como centro dela.

Considerada a personalidade do indivíduo como igual ao consciente deste, mais o seu


inconsciente, essa personalidade total poderia ser representada por uma esfera. O campo da
consciência não seria mais do que pequena mancha arredondada na superfície dessa esfera da
personalidade total, como o seu ego, naturalmente. A esfera, cortada ao meio, daria o quadro
2.

A personalidade total tem, como centro, já não mais o ego, mas sim o self (Quadro
4). Tentamos demostrar, contudo, o quanto é importante à consciência, essa superfície de
nossa personalidade total, e o quanto são importantes oego e o relacionamento que deve
existir continuadamente entre ele, de um lado, e inconsciente, do outro. O ego está muito
relacionado com a persona; apresentamos, a propósito, uma das máscaras deuso atual entre
os esquimós (Quadro 5).

Do ponto de vista da personalidade, o inconsciente se divide em inconsciente pessoal


e inconsciente coletivo.

O INCONSCIENTE PESSOAL

É inteiramente individual. Vai-se formando com o indivíduo. Constitui-se de coisas


simplesmente esquecidas; de coisas que, por exemplo, passou-se a nosso redor, mas a que
não demos atenção para nos podermos concentrar bem em outras que, no momento, nos

22
estavam interessando mais (coisas suprimidas); de coisas reprimidas (de que fizemos até força
para não lembrarmos mais). Está ligado, em parte, ainda à persona, mas está, principalmente,
ligado à sombra e vem incluído nesta no esquema do quadro 4.

A SOMBRA, ENQUANTO PARTE DO NOSSO INCONSCIENTE PESSOAL.

A sombra inclui tudo o que há de sombrio, de escuro, de tenebroso em nós. Forma-


se à medida que se formam ego e persona. Todas as repressões ocorridas durante a formação
da persona vão ficando parte dela. Na análise, o tratamento da persona abre, como que por si,
o caminho para o conhecimento desta parte da personalidade.

Vamos pondo de lado, durante a formação de nossa persona, por exigência dessa
mesma formação, uma porção de coisas que vão constituir o nosso inconsciente pessoal. Por
isso, neste estão todas as nossas frustrações, todas as nossas repressões. Reprimimos, em
geral, as qualidades consideradas menos boas, menos desejáveis ou francamente más. Assim,
todos os nossos defeitos, todas as nossas falhas, todas as nossas inclinações indesejáveis
mesmo, fazem parte da sombra, integram esse elemento de nosso inconsciente.

Alguns exemplos de sombra:

Em crianças, vimos como podiam estar reprimidos quaisquer sentimentos de raiva.


Nesse caso, tais sentimentos constituíam-se elementos da sombra. Tratava-se de crianças
educadas para considerarem a raiva como uma coisa má, inclusive como pecado, muitas vezes:
para elas, não só era proibitivo demonstrar-se raiva, como também senti-la e o saberem que
de vez em quando a haviam sentido implicava-lhes num tormento.

Quanto a essa repressão, aliás, forte, a psicoterapia consistia numa tarefa de trazer
ao consciente essa raiva reprimida, levando o ego a dela tomar conhecimento. Naturalmente
havia um trabalho no sentido de mostrar o quanto a raiva é parte integrante de nosso
psiquismo e que o ruim não é a capacidade de tê-la ou mesmo o senti-la, mas tãosomente o
deixar-se levar a certas manifestações em função dela.

Mas tudo isso não só com crianças. Lembramos a pessoa adulta cujo sonho
relatamos. Seu problema principal, naquele momento, era a repressão de raiva, que a levava à
passividade dramática mostrada no sonho. Na sua consciência esta não figurava; essa pessoa
não sabia o que era raiva, raiva era uma coisa estranha para ela como se praticamente nunca a
houvesse sentido. A partir da compreensão do sonho começou o seu progresso psíquico, o
desenvolvimento numa direção diferente de vida, e adequada à sua profissão.

Mas não é agradável a ninguém reconhecer falta de qualidades, falhas, defeitos


verdadeiros em si, e é destes que se costuma constituir, principalmente, a sombra. A própria
formação da persona e, mesmo após, a sociedade, continuadamente exigem que não
tenhamos nada disso, que cada um seja perfeito na sua função, no seu cargo, na sua vida.
Assim, fica difícil de descobrirmos o nosso lado menos bom, o nosso lado negativo. E que
fazemos, então, com ele? Fica-nos, geralmente, desconhecido e o mais comum é que o
projetemos em nossos semelhantes.

23
A sombra costuma ser projetada numa figura do mesmo sexo do indivíduo.
Mefistéfeles pode quiçá ser visto comportando-se como a sombra de Fausto.

Alguns exemplos de sombra aparecendo em sonho, uma vez que, no desenho


espontâneo, já a mostramos naquela ave de fraque, de óculos, miope (Quadro 8), citando os
dizeres negativos que o autor havia posto embaixo; este, ao desenhar, estaria meditando
justamente no seu lado sombrio.

— Uma nossa cliente sonhou que estava no meio de bastante gente e havia um
alvoroço porque uma senhora atirava umas agulhas ou setas nas costas dos outros, os quais
não sentiam nada no momento, mas depois iam definhando, definhando e morriam. A
sonhante fugia dessa senhora, mas, em dado momento, também era atingida. Começava a
sentir-se progressivamente mal e percebia que, se não fosse socorrida, também morreria. O
sonho continua, ela é socorrida tudo acaba bem.

A que atirava setas mortíferas nas costas dos outros é uma figura da sombra. É do
mesmo sexo da pessoa sonhante. Indica como a sombra pode envenenar a vida da pessoa que
a desconhece. E não só da própria pessoa (no caso, da sonhante), mas também dos outros que
fazem parte do meio dessa pessoa que sonhou.

— Um rapaz de quase 30 anos sonhou que andava por uma estrada, acompanhado
por um moleque hiperativo, muito importuno. Em tudo o que ia fazer era atrapalhado pela
atividade deste e pelas perguntas sem muita motivação, não muito adequadas ao momento,
que o moleque fazia. Este era a sombra do nosso sonhante que, mais tarde, quando
compreendeu o sonho, nos revelou ter mesmo certa atitude assaz infantil e que lhe
prejudicava o relacionamento com os outros.

Ambas as pessoas, tanto a moça que sonhou que lançava setas quanto o rapaz
desconheciam que tivessem os defeitos apontados nos respectivos sonhos. A moça
desconhecia em si qualquer espécie de maldade; no entanto, era de uma ironia que feria
profundamente as pessoas com quem entrava em contacto, segundo mais tarde nos relatou.

O inconsciente se apresenta muitas vezes em sonhos (ou fantasias) como um lago.


Quando dele nos aproximamos, assim como quando nos aproximamos duma superfície de
água, a primeira coisa que ali vemos é, naturalmente, a nossa imagem, como uma sombra — a
nossa sombra psicológica pessoal, segundo figura de Jung. Assim, a sombra é o primeiro
elemento inconsciente que se nos depara à análise.

Nos sonhos e fantasias, segundo nossa experiência, não é raro que a nossa sombra se
nos depare a um espelho. Uma nossa cliente sonhou que olhava num espelho e nele se via,
inteiramente vestida de negro, cor que nunca usava.

Há um risco de as pessoas se poderem identificar com sua sombra. Muitos casos de


delinqüência poderiam ser explicados desse modo. Conforme seu temperamento, é como se a
criança corresse o risco de dizer "Já que não consigo vencer pelo lado bom, nunca consigo
agradar, então vencerei pelo lado mau". Isto também mostra como a educação moderna é
melhor: em vez de tanto se repreender as crianças, de lhes mostrar o que nelas não está bom,

24
a gente as mima um pouco, reconhece abertamente o que nelas há de bom. Assim, progridem
mais facilmente.

A sombra sempre nos acompanha; só não existe sombra, diz ainda Jung, onde há
noite. E entendemos isso como "onde há noite cerrada", onde há completa inconsciência.

A ausência de sombra num indivíduo nem pode ser concebida. Há um conto alemão
que mostra a vida de um homem que vendeu a sua alma ao diabo. Teve tudo o que quis, em
matéria de riqueza, e toda a projeção social que esta lhe pôde acarretar, mas foi relegado ao
ostracismo por quantos de cujo círculo tentou aproximar-se. Quando o viam, logo o
apontavam como "o sem sombra." Por isso foi isolado completamente, porque tido como um
monstro.

Vemos freqüentemente pessoas que ignoram que a elas também a própria sombra
acompanha, que têm também elas os seus defeitos, também elas as suas falhas. Ou estas
pessoas não pecaram nunca, ou terão tido pecados muito mínimos que nem mereceriam este
nome (talvez possa acontecer!), diz Jung, ou o que há nelas é mesmo ignorância do seu lado
menos bom.

O que lhes acontece?

As pessoas que ignoram completamente a sua sombra, quer dizer, em cuja


consciência não passa um só raiozinho iluminando a respeito de que têm um lado menos bom,
fazem uma projeção total, projetam em cheio a sua sombra. Esta sombra costuma-se voltar
contra elas porque, assim como no exemplo citado, é intolerável para os outros viver com um
homem "completamente sem sombra". No caso do conto, quando todo o mundo saía ao sol e
via a sua sombra, Peter Schlelemihl, o herói da estória, notava que só ele não tinha a sua, o
que era muito extravagante para que os outros o suportassem, uma diferença inaguentavel
em relação a todos os demais. Essa diferença foi a causa de seu completo isolamento final.
Com as pessoas de que estamos falando, que não têm sombra psicológica, quer dizer, que
acham que não a têm, pode acontecer o mesmo, pois ficam difíceis de relacionamento. Pela
sua atitude estão sempre tornando patente o sentimento de que são perfeitas; nunca são
culpadas de nada, tudo que lhes acontece, quando não da certo, é por causa dos outros,
porque fulano ou beltrano agiu deste ou daquele modo. Chega a se tornar insuportável estar-
lhes ao lado e são levadas, na vida prática, pela reação que o ambiente tem a essa projeção
brutal da sombra delas, a ficar isoladas. É talvez uma das coisas mais difíceis conviver com uma
pessoa que se julga perfeita, que se julga sem sombra.

Conhecer a própria sombra é o mínimo que uma pessoa pode fazer, por si mesma e
pelos outros, diz Jung; de maneira que quem chegar a esse conhecimento já terá feito uma
coisa de alto valor no sentido humano.

Grande parte das fofocas, ou todas as fofocas, ou a parte pior das fofocas, se
quisermos, está relacionada com alguma projeção de sombra, é um problema dessa projeção.

Quem não se conhece nem a este nível, de sua sombra pessoal, projeta-a nos outros.
Como em geral cada um projeta a sua sombra em muitos, explica-se grande parte, também, de
todo o malentendimento entre os seres humanos. E quando alguém, convivendo com outro,

25
nele só vê defeitos, o focaliza como a ruindade em pessoa, psicologicamente podemos ter
grande suspeita de que esse primeiro indivíduo está projetando sua sombra no segundo.

Bruegel (Quadro 14) fez a pintura "O misantropo" (Artur° Bovi — Brucget, Sansoni
Ed., Florença, 1970).

Sob ela se lê: "Já que o mundo é tão malvado, eu me visto de luto".

Temos aí um homem que é incapaz de reconhecer coisas negativas em si. Estas estão
todas nos outros, estão no mundo. Projeta sua sombra, completamente (nos outros). Em si
acha que só tem luz, só tem pureza, só tem bondade; as coisas negativas estão fora dele.
Assim, não pode suportar o mundo; vai para o seu próprio isolamento. Paradoxal a estória
porque, aparecendo vestido de luto, o misantropo se apresenta a nossos olhos como a própria
figura da sombra.

Isto nos faz lembrar a historieta do monge que achava que tudo lhe corria mal no
mosteiro por causa dos outros. Sempre eram eles os culpados, nunca era alguma coisa dele
que provocava situações desagradáveis. Pediu ao superior para ir viver sozinho. Concedida a
licença, partiu para levar a sua vida santa, sem se acompanhar de ninguém. Poucos dias
depois, no seu retiro, de repente se via quebrando o pote de água. Então nele nasceu a
consciência de que acabava de agir, com o objeto, como agia freqüentemente com seus
companheiros. Uma iluminação se fez no seu intimo, a de que alguma coisa havia nele que era
causa das confusões que sempre se haviam criado ao seu redor. De vez em quando
encontramos pessoas para quem a historieta é válida.

Assim, acabamos de expor um pouco do que é a sombra, enquanto parte de nosso


inconsciente pessoal. Mas a sombra, ou seja, o lado negativo de nós mesmos, faz parte
também do inconsciente mais profundo, tratando-se então, mais estritamente, de um outro
elemento de nosso psiquismo que recebe esse mesmo nome, mas com um qualificativo — é a
"sombra arquetípica" (ou o arquétipo da sombra). Entretanto, para que vejamos a sombra sob
esse aspecto de sombra arquetípica, é necessário que tenhamos um pouco de noção do que

26
seja inconsciente coletivo (ou inconsciente profundo, como dizemos muitas vezes) ao que
passamos.

NOÇÃO DE INCONSCIENTE COLETIVO

De onde partiu esta noção?

Partiu de um sonho de Jung. Jung sonhou com uma casa de vários andares.

No superior tudo estava mobiliado no estilo do século XVIII, início do XIX.

No que vinha mais abaixo, tudo era da época medieval. Mais abaixo ainda,
encontrava-se um andar em que as coisas apareciam como no tempo dos romanos, nele se
vendo uma gruta de pedra, típica daquela época. Mais abaixoainda, descendo-se por uma
escadinha, chegava-se a um ambiente pré-histórico. Aí, sobre o chão, havia muita poeira e,
sobre essa poeira, dois crânios que, de tão antigos, já se estavam desfazendo.

O sonho preocupou Jung durante muito tempo. Meditando sobre ele, chegou à
conclusão de que não lhe oferecia outra coisa senão a representação de seu psiquismo, em
profundidade. Tratava-se, como dissemos na introdução, de um corte longitudinal de seu
psiquismo. Assim, o pavimento que se mostrava no estilo rococó dizia respeito a um período
cuja filosofia Jung conhecia tão bem; o andar medieval representaria um estrato psíquico que
viria de tempos mais antigos e, assim, a cada descida corresponderia um estrato de coisas
vindas de ancestrais cada vez mais distantes.

Jung concluiu, então, que trazia em si, no seu psiquismo, a herança das diferentes
fases da história da humanidade. Através dos anos, graças à sua experiência de
psicoterapeuta, teve oportunidade de ampliar essa idéia sua, de modo a chegar ao conceito de
inconsciente coletivo.

O inconsciente coletivo é constituído por elementos que não foram esquecidos,


suprimidos ou reprimidos, pois não estiveram nunca no campo da consciência. É formado de
coisas herdadas e, assim, preexistentes em relação à consciência. E é universal — o mesmo em
mim e nos outros.

Os arquétipos são elementos constituintes do inconsciente coletivo. São


possibilidades de o indivíduo reagir de certa maneira diante de certas situações da vida.
Traduzem-se, em sonhos e fantasias, por imagens arquetípicas, das quais uma das mais
comuns é a do mar.

Exemplificando: Certa moça, cliente nossa, achava-se num momento crítico de


mudança de atitude, quer dizer: até então havia vivido segundo determinados padrões,
altamente conscientes, seu inconsciente tendo sido relegado ao esquecimento; tinha vivido
dentro das normas que a educação lhe havia dado e, como que, ao mesmo tempo, só dessas
normas. Ora, nesse momento critico fora levada à conclusão de que aquele tipo de vida,
aquela atitude já não lhe servia mais. Nesse instante tem um sonho no qual aparece o mar.É
um mar perigoso e receia altamente ser tragada por ele, teme que inunde o lugar onde está,
junto a ele, e que a "engula".

27
O mar é um símbolo do próprio inconsciente profundo. Dentro dessa circunstância
de ter de mudar de atitude, o que lhe era necessário, pois a vida lho impunha, a imagem do
mar, uma imagem arquetípica significando esse inconsciente, aparece ameaçadora, temível.

A cliente havia vivido puramente do consciente, havia-se descuidado inteiramente do


inconsciente, como que o havia negado completamente. Era como se fosse senhora de si,
sabendo tudo o que ocorria consigo. Esse inconsciente, o que nela há de mais íntimo e fundo,
eliminado de suas cogitações, agora aparecia daquela maneira ameaçadora — fazia-se sentir
como um mar medonho.

A partir do sonho seguinte, na próxima consulta, pudemos compreender qual a


ameaça que o inconsciente lhe estava apresentando, que situação psicológica, até então
ignorada, quase a avassalava no momento.

Muitas pessoas em situações psiquicamente perigosas podem ter um sonho, uma


imaginação em que apareça o mesmo que no sonho de nossa cliente — o mar, com risco de
tragar a pessoa em questão, traduzindo o perigo, acompanhado naturalmente de medo, da
"inundação" pelo inconsciente, de que este tome as rédeas do governo da pessoa. Isso em
diferentes partes do mundo, e há muito tempo. Essa imagem do mar, então, como a de uma
energia muito grande, capaz de tragar a pessoa, é uma imagem arquetípica, o que quer dizer:
dentro de si as pessoas trazem a possibilidade de, diante de um perigo, de uma ameaça do
inconsciente (profundo), sonharem ou terem uma fantasia em que apareça o mar
demonstrando que está quase a ponto de envolvê-las, de "inundá-las". Essa possibilidade de
reagir diante de uma situação psíquica perigosa "fazendo" a imagem do mar dessa maneira, ou
sonhando com o mar dessa maneira, tendo essa imagem onírica, essa possibilidade é, em si, o
arquétipo. A imagem já apresentada — a do mar — é a imagem arquetípica.

Esta noção de arquétipo permite que entendamos por que lendas dos mais
diferentes países, às vezes de épocas bem diferentes, encerram uma noção, um significado
que é comum a todas elas, tendo, assim, no fundo, o mesmo sentido, ou seja, sendo
substancialmente a mesma coisa.

Não somente as lendas, mas também os mitos, apresentando personagens em


situação análoga, apontam um fundo psíquico análogo nos diferentes povos e em diferentes
épocas.

Compreendendo o que é um arquétipo entendemos também por que pessoas


diferentes, em países também diferentes, podem fazer desenhos superponíveis, isso mesmo
em se tratando de indivíduos de grau de cultura muito diferente.

Admitimos facilmente os instintos; pois os arquétipos são, de algum modo,


semelhantes a eles. Seriam, diz Jung, imagens inconscientes e vazias dos próprios instintos; são
padrões de comportamento instintivo.

De um lado, nossa vida é influenciada pelos instintos. De outro, nossa percepção,


nossa imaginação e nosso pensamento são influenciados por esses elementos inatos,
herdados, que são os arquétipos.

28
Quanto ao termo arquétipo, em si:

Tem bem longa existência, segundo nos mostra Jung: Irineu, nascido em meados do II
século, já o empregava — "O criador do mundo não modelou estas coisas a partir diretamente
de si, mas as copiou de arquétipos exteriores a ele".

"Arquétipo" é, diz Jung, "uma paráfrase explanatória do "eidos" platônico" (Eidos =


forma). Tecnicamente, em relação às "formas" platônicas, usava-se o termo "idéia".

Comecemos com a noção de "universal": Universal é aquilo que cada um dos


elementos de uma classe possui e que pode ser atribuído a esses mesmos elementos com um
termo geral. Exemplos são a "vermelhidade" dos objetos de cor vermelha, a beleza que
observamos nos objetos bonitos, a bondade que as pessoas podem demonstrar — a cada uma
dessas coisas gerais corresponderia, segundo Platão, uma forma situada num espaço
supraceleste. Essa forma seria como que a própria idéia da essência da coisa em questão, ou
seja, a própria idéia daquilo que constituiria a natureza mesma dessa coisa. Em outras
palavras, a cada generalidade corresponderia uma forma ou idéia — a de "vermeIhidade", a de
beleza, a de bondade propriamente ditas, essa forma ou idéia consistindo no essencial de cada
uma dessas generalidades e situando-se acima de nossos sentidos e independentemente dos
mesmos. Nossa mente poderia apreender essa forma, essa idéia e estabelecer um termo de
comparação entre ela e o que os sentidos enganadores nos fornecem.

"Archétipo (L. archetvpum. < GR. archetypon < archein, começo e typos, forma) ",
quer dizer exatamente "modelo Ou forma primeira; padrão original segundo o qual
determinada coisa é feita, ou padrão ao qual ela corresponde" (The Brasilian Living Webster
Encyclopedie Dictionary of the English Language, The English — Language Institute of America,
fne. Chicago, 1973).

Os arquétipos, correspondentes às formas platônicas, são modelos, padrões de


comportamento de nosso psiquismo, idéias, no sentido platônico. Assim, por exemplo, se um
indivíduo capta a "idéia' de toda a maldade humana, temos que ele se está avindo com
determinado padrão de comportamento que existe em todos nós, universal portanto; está-se
relacionando com o arquétipo, com o modelo da própria tenebrosidade de nossa raça
humana. Só que os arquétipos, entendemo-los não como algo acima dos céus, mas como
elementos integrantes de nosso psiquismo profundo.

O ARQUÉTIPO DA SOMBRA

No fundo de todos nós existe a idéia da maldade, do tenebroso, do negativo. Esta


constitui a sombra arquetípica, a sombra enquanto elemento do inconsciente coletivo.

Exemplos:

— Uma moça sonhou que abria a porta de sua casa. Era noite e da escuridão de lá de
fora viu encaminhar-se, na sua direção, uma grande mulher escura, desconhecida.

29
— Tivemos vários analisandos que nos transmitiram sua captação da sombra
coletiva. Lembramos bem docaso de um senhor de uns 40 anos, e do de uma menina de 11,
que tiveram uma crise cujo elemento principal era o de terror ao cemitério.

Tinham ido ao cemitério por algum motivo e desde então se viam em estado de
depressão. Por quê? O cemitério significou muito para eles, algo de muito profundo, algo de
mau, de ruim, traduzindo um conteúdo que ultrapassava o do inconsciente pessoal.

Uma das discípulas de Jung, Frances G. Wickes, que trabalhou muito com crianças e
ampliou as idéias de Jung para o plano da infância, apresenta também um caso semelhante ao
da nossa cliente.

No primeiro caso nosso tratava-se de uma pessoa com grande gosto e talento para
artes plásticas. Dizia-nos que foi o aspecto mau, do ponto de vista estético, das estátuas dos
túmulos, que o levara ao malestar enorme em que nos procurou.

Mas o fato é que poderia ter achado aquilo tudo muito feio e piegas, como o definia
e... ter parado aí.

Contudo, a visão dessas coisas piegas lhe desencadeara toda uma comoção
psicológica. Algo mais, portanto, havia.

Algo que ele não podia definir, não podia descrever, o apanhara a partir de toda
aquela pieguice.

Este algo era a idéia da própria feiúra, da própria ruindade a sombra universal, não
passível de redução ao inconsciente pessoal.

No quadro 15 temos a sombra arquetípica tal como a intuiu Paul Klee em “O príncipe
africano" (Will Grohmann — Paul Klee, N. York, Narry N. Abrams, Inc., p. 107), pintura na qual
parece ter sido captado todo o tenebroso possível.

30
No quadro 16, ainda Klee, em "A cabeça ameaçadora", figura altamente negativa e
fria, de uma cabeça de demônio (W. Grohmann, op. cit., Ed. Kohlham-p. 105).

Essa sombra arquetípica, ainda a podemos observar, embora de um modo “mais


transparente”, quase alegórico, na figura diabólica a oprimir o tórax da moça, no seu sono
agitado,em "O pesadelo", de Johann FüssIi, precursor do surrealismo, que reproduzimos no
quadro 16 A (a partir de S. Alexandrian, L'art surrealiste, p. 15).

Nesse quadro, a figura do cavalo a afastar as cortinas entrando impetuoso, os olhos


ardentes e dilatados como bem descreve R. Huyghe (op. cit.), é, como acima comentado a
propósito do quadro 3, imagem da própria energia psíquica. Teria sido sobretudo a figura
deste a responsável pelo fato de Goethe, tão cheio de sentimento, gostar tanto dessa obra?

31
OS ARQUETIPOS EM GERAL

Nesta parte seguiremos de perto a Jung, segundo conferência que fez sabre o
inconscientecoletivo (C. G. Jung — The concept of the collective unconscious, in op. cit., The
Archetypes and the collective Unconscious).

DIAGNOSTICO DO INCONSCIENTE COLETETIVO

32
Nem sempre é facil. Para se dizer que algo pertence ao inconsciente coletivo é
necessario diferencia-lo, separa-lo de elementos do inconsciente pessoal (adquirido), isto é,
observar bem para ver se o que, a uma primeira vista, se nos apresenta como elemento do
inconsciente coletivo não é na verdade, um elemento de que já tornamos conhecimento, em
nossa vida pessoal, e que depois, em consequencia de um esquecimento, nos "caiu” no
inconsciente (inconsciente, então, pessoal). Em outras palavras, no intuito de fazer a
diferenciaçãoo de um elemento como pertencente ao inconsciente coletivo, é necessario ver
se não se trata de alguma coisa que o individuo tenha adquirido através da educacão ou da
linguagem e que um problema de memoria (uma criptomnésia) o leve a pensar que nunca a
tenha tido na sua consciencia.

Jung, mui modestamente, diz que, se teve algum mérito nesta questão de
inconsciente coletivo, foi unicamente o de ter demonstrado que os elementos de que estamos
cuidando podem ter um aparecimento autóctone — podem surgir, espontaneos, num
individuo, independentemente de sua educação e das coisasque possa ter recebido pela
linguagem. É esse aparecimento completamente espontaneo o que caracteriza um elemento
do psiquisrno como pertencente ao inconsciente universal, como um arquétipo. Os arquétipos
sãorevivescência de materiais mitológicos que semanifestam no indivíduo porque eleos
herdou.

UM “EXEMPLO CONCRETO” DE ARQUÉTIPO

A reprodução do quadro 17, bem conhecida,é de um quadro de Da Vinci (A extraímos


de "Leonardo da Vinci", de Antonina Vallentin, Ed. Gustavo Gill; S.A., Barcelona, 1971).
Independentemente de quaisquer fatores que, nele, possam dever-se a elementos da vida
pessoal do Pintor, podemos considera-lo sob o soguinte aspecto:

O quadro se refere a duas mães, a Virgem e Sant'Ana, à mãe e à avó de Jesus. Ora,
quanto a esse tema das duas mães, está longe de ser único;outros pintores também a ele se
dedicaram. Assim, refere-se a elementos que não eram puramente pessoais,de Leonardo, mas
sim universais, tendo sido demonstrados também por outros indivíduos.

O motivo das duas mães aparece na mitologia e nos estudos de religiões


comparadas. No caso de um indivíduo em particular — de Da Vinci — trata-se da projeção do
arquétipo das duas mães.

Ao motivo das duas mães está relacionada à idéia da dupla ascendência — por linha
divina e por linha humana. Hércules (provavelmente = glorioso dom de Hera) foi adotado
(passou a ser considerado filho) por essa deusa que, aplacando-se da cólera contra a mãe da
criança, amamentou a última para torna-la imortal, sendo que então seu leite, espalhando-se
pelo céu, deu origem à Via Láctea; o faraó era tido como de natureza ao mesmo tempo
humana e divina, como tendo nascido duas vezes: Cristo nasceu de Maria e, outra vez, das
águas do Jordão; as crianças têm pais e também padrinhos, que recebem ao nascer do útero
da Igreja (a fonte batismal) e, nos contos, as fadas adotavam-nas quando do nascimento.

33
A idéia de um segundo nascimento é encontrada em todos os tempos e lugares, e o
batismo (segundo nascimento, espiritual) é de importância capital em muitas religiões.

Na atualidade verificamos que a idéia de duas mães (ou de duplo nascimento) ocupa
lugar na mente de muitas crianças ou mesmo de adultos que imaginam seus pais como pais
não verdadeiros, mas pessoas que os adotaram. Nósconhecemos pessoas que se imaginavam
em semelhante situação sem que nada lhes pudesse fundamentar a idéia de terem sido
trazidas para a casa de seus pais, dos quais, imaginavam, não teriam nascido.

Assim, o motivo das duas mães (ou do duplo nascimento) traduz uma necessidade
geral.

No caso de uma neurose esse motivo pode aparecer, num quadro, sem que o
indivíduo seja um filho adotado e tenha, assim, a própria mãe e a que o adotou: o transtorno
psíquico mesmo pode ativar, no indivíduo, o arquétipo de que estamos tratando, o das duas
mães.

Lembramos de alguns casos. No primeiro, tratava-se de uma moça de uns vinte e


tantos anos que até então vivera normalmente. Contaram-lhe que era adotada, a partir do que
entrou em desequilíbrio emocional seríssimo. Outra, de 15 anos, sempre soubera não ser
realmente filha do casal que a adotara: a idade deles era tão avançada que tornava evidente
que não a poderiam ter gerado. Ouvindo, porém, de uma criança da família que ela tinha sido
adotada, entrou em neurose e nos dizia não saber por que, pois que o fato da adoção não era
uma novidade para ela, desde sempre soubera dele. No terceiro caso, uma pré-adolescente,
ao ouvir de alguém, numa discussão com ela, que não era filha de quem se dizia sua mãe,
mudou de conduta, tendo-lhe sido necessário tratamento.

Em todos esses casos, apenas uma ativação do arquétipo (com que nasceram) explica
a explosão da sintomatologia que os indivíduos apresentaram.

34
COMO SE PODE CHEGAR A AFIRMAR QUE DADO ELEMENTO É UM ARQUÉTIPO?

É o mesmo que se perguntar como funcionam os arquétipos, historicamente.

Os arquétipos se manifestam principalmente nos sonhos, sendo estes de grande


utilidade para diagnosticá-los porque involuntários, espontâneos.

Para se verificar se dado elemento de um sonho é ou não uma imagem arquetípica,


um sintoma de funcionamento do inconsciente coletivo, devemos diferenciá-lo de motivos já
conhecidos do indivíduo (ou que se deve presumir sejam conhecidos por ele).

No mesmo nível dos sonhos, a respeito, fica a imaginação ativa, um método criado
por Jung para exploração do inconsciente.

Fonte de arquétipos são ainda os delírios (dos doentes mentais) e os sonhos do início
da infância, dos 3 aos 5 anos.

Para isolar-se um arquétipo, para se chegar a concluir que determinado elemento de


um sonho é uma imagem arquetípica, é necessário encontrá-lo em centenas de sonhos em
que apareça dentro de um mesmo tema, um tema que, por sua vez, a mitologia, a etnologia e
o estudo das religiões comparadas também nos apresentem. Em "Psicologia e alquimia" Jung,
estudando uma série de sonhos, nos deixa perceber esta questão.

EXEMPLO DE MÉTODO DE TRABALHO PARA ISOLAMENTO DE ARQUÉTIPOS

Em 1906 Jung observou um paciente que tinha sido internado em 1903. Este
balançava a cabeça de um lado para outro, olhando o sol. Contou a Jung que, ao fazer assim,
via o pênis do sol, o qual se movia de umpara outro lado, segundo os movimentos da cabeça
dele, paciente. Queria que Jung fizesse o mesmo que ele para também ver. Era de lá, dizia, que
vinha o vento.

Jung simplesmente anotou o caso. Mais tarde pôde ler numa publicação de 1910,
sobre um ritual da religião de Mitra. O ritual prescrevia certos recitativos que deviam ser feitos
olhando-se para o sol. Se observados, permitiriam à pessoa ver aparecerem os deuses através
do disco do sol e ver, também, o tubo do sol. Este, origemdo vento, poderia ser percebido
movendo-se para leste ou oeste.

Ao paciente nunca poderia ter sido possível o conhecimento do rito mitraico e,


entretanto, no seu delirio se desenvolvia todo o tema desse mito. Assim, historicamente, Jung
encontrava uma base para tomar como arquetípica a imagem do penis do sol, descrita pelo
paciente.

Ao citar o caso, o que preocupava Jung era mostrar o seu método de trabalho no
isolamento dos arquétipos.

O mesmo tema do pênis do sol, também o encontramos na Idade Média,


documentado como na reprodução que vemos no quadro 18, tirada de um livro do próprio
Jung (C. G. Jung — Unmythe moderne; des "signes du ciel", Paris, Ed. Gallimard, 1961).

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A alma da criança, que está sendo concebida, vem do céu, através de um tubo, que
desce até o ventre materno. Em outras figuras, diz Jung, vemos o Espírito Santo, sob a forma
de uma pomba, descendo pelo tubo, para o ventre de Maria.

NÚMERO DE ARQUÉTIPOS

Há tantos arquétipos quantas situações típicas na vida. A repetição destas se gravou


no psiquismo, através dos tempos, e delas nos foi transmitida uma memória, possibilitando-
nos certo modo de reagir diante delas, quando se nos deparam (pela percepção, pela
imaginação, pelo pensamento). E os arquétipos, "formas sem conteúdo'", no dizer de Jung, são
essa possibilidade de certo tipo de percepção, de ação.

Um arquétipo, o do próprio inconsciente coletivo, é de manifestação quase corrente.


Costuma-se apresentar com grande freqüência sob a imagem arquetípica da água, do mar em
particular, comojá referimos.

O inconsciente coletivo se costuma apresentar comumente sob a imagem simbólica


do mar porque este, diz JUNG, "abaixo de sua luzente superfície oculta profundidades não
suspeitadas". O fato captou-o bem Fagundes Varela no seu poema "O oceano", de que são os
versos:

“Tu és a idéia mais soberba e vasta

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Que o gênio de Deus há rebentado,
Ó mar nunca vencido! A Eternidade
Revela-se em teus brados furibundos.”
“Oceano sem fundo! Antros sem nome!
Moradas da poesia e da tristeza
Emblema do infinito... ai! Desde a infância
Preso na teia de atração divina,
Eu vos busquei sedento!..

Jung conta de alguém que sonhava demais com água. Tivemos duas analisandas
assim. Diziam-nos: "Não sei o que é isso, mas sonho sempre com água, em todo sonho meu há
água." De fato: às vezes era água escapando pelas torneiras, alagando-lhes a casa; às vezes era
água pela rua; outras era um tanque de água.

Às vezes nos deparamos com sonhos em que o mar parece que vai tragar o sonhante,
demonstrando uma situação de perigo frente ao inconsciente, como era o caso acima
relatado.

EVOLUÇÃO DE UMA IMAGEM ARQUETIPICA

Kerényi comparou os arquétipos, ou melhor, as imagens arquetípicas, com a música.


Achamos nós que podemos, a partir daí, dizer que, para um mesmo sentimento, a expressão
musical varia com o tempo. No século XVIII a música era uma: agora, será outra, exprimindo
embora um sentimento análogo. Romeu e Julieta sempre se amaram nas telas e nos teatros
com o mesmo amor; mas, para expressão deste, como fundo desse relacionamento amoroso,
numa época teria havido um tipo de música; hoje, entre nós, amam-se ao som de "A time for
us", a música ainda não esquecida em nosso meio, da versão cinematográfica da obra de
Shakespeare feita por Zefirelli na década passada.

Ora, assim como a expressão musical de um mesmo sentimento evolui com os anos,
também a imagem arquetipica representante de determinado modo de agir herdado pode
evoluir com as épocas. Quanto ao inconsciente coletivo, o mar continua em nossos dias a ser
uma imagem arquetípica de encontro freqüente. Já em relação ao self, as imagens
arquetípicas têm variado, sendo que talvez a mais nova delas seja a dos discos voadores,
estudados por Jung em "Un mythe moderne", já citado.

MODO DE AÇÃO DOS ARQUÉTIPOS

A reprodução do quadro '19 (Malraux, op. cit., reprod. 53), é de uma escultura de
entre o XII e o X séculos A.C., provavelmente. Provém de Tell Halaz e parece representar o
casal divino.

A seguinte, do quadro 20 (Ibid., reprod. 48) e de arte capadociana, do II século A.C. e


representa a tríade divina.

Ambas essas reproduções nos levam a pensar em S. Nicolau de Flue, da Suíça. Na


consciência do Santo, pessoa simples, inculta, o arquétipo do deus e da deusa fez uma violenta
erupção.

37
S. Nicolau teve a visão de Deus como homem majestoso e, depois, a de Deus como
mulher também majestosa. Erupção semelhante fez ainda nele o arquétipo da trindade,
através da visão da trindade divina, representada por um elemento masculino, um feminino e
pelo filho — o deus pai, o deus filho e a mãe de deus, uma visão pagã.

O impacto dessas visões foi enorme para o homem católico que ele era. Sua
fisionomia, conta-se, mudou, tornando-se terrível. Nicolau abandonou o modo clássico de
vida, deixou a família e, isolado, foi trabalhar com suas visões de cunho altamente herético. O
trabalho durou anos e resultou na elaboração de uma mandala, que ele fez numa parede
(Relembrando o que dissemos brevemente no primeiro capítulo, mandalas são figuras muito
equilibradas e que ou traduzem o equilíbrio psíquico finalmente atingido, ou se desenham ou
"sonham" em fases em que esse equilíbrio se mostra ameaçado, à guisa, no caso, de procura
de proteção do psiquismo contra essa ameaça). Através dessa elaboração de sua mandala,
pôde o Santo proteger-se do caos, que seria uma psicose; ao contrário, conseguiu; assim,
assimilar suas visões aos dogmas da religião e readquirir seu equilíbrio psíquico, de início
muito abalado.

A história serve de exemplo de como o inconsciente coletivo pode emergir, inclusive


com força tremenda; através de seus arquétipos completamente ignorados, como tal, pelo
indivíduo, ilustra, ao mesmo tempo, o modo de agir dos arquétipos quando se ativam.

O arquétipo se ativa compulsivamente, contra qualquer razão e vontade, como


acontece com uma tendência instintiva. Atua como o fator que levou o herói de "O fio da
navalha", obra em que W. Somerset Maugham analisa a vida de diversas personagens, a sentir,
partindo do fundo de si mesmo, a urgência inapelável de completar-se, de progredir
psiquicamente, a vocação para se individuar abandonando, para isso, tudo o mais; atua como
vimos suceder com S. Nicolau de Flue; atua como o fez a anima em Jung, segundo veremos no
próximo capítulo. Ou então, faz desencadear-se um conflito psicológico.

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Vimos a segunda questão ao considerarmos o arquétipo das duas mães. Falamos,
naquela ocasião, de neuroses nas quais os sintomas surgem por se ter tornado vivo o
arquétipo. Mas não podemos esquecer-nos dos casos em que, a neurose deve sua existência
justamente à falta de colaboração de arquétipos com a consciência do indivíduo.

Na última circunstância acima entram os casos todos de indivíduos cujos valores


estão no inconsciente. Podemos, talvez, compreendê-los a partir do caso da paciente
depressiva a quem era necessário admitir, na consciência, o fato de ser bem dotada e capaz de
aprender com grande facilidade, muito embora nesse caso não se tratasse de trazer à
consciência um elemento do inconsciente coletivo.

Além disso, todos os indivíduos que dissemos "limítrofes" e todos aqueles destinados
a chegar à sua totalização psíquica; como referimos no primeiro capítulo, em geral necessitam
enormemente dessa cooperação entre o inconsciente profundo (os arquétipos) e consciente, e
as descrições de casos de individuação no-lo exemplificam. Quanto aos primeiros, Baynes nos
oferece dois deles, em "Mitologia da alma." O próprio "caso Jung" é o melhor exemplo quanto
aos segundos, conforme sua autobiografia atesta.

Mas como a ativação do arquétipo pode chegar a agir assim, tal exemplificamos no
início deste tópico?

Seu poder de ação é paralelo à força inerente aos motivos mitológicos — e Jung foi o
primeiro a explicar a mitologia como uma projeção de um inconsciente universal.

Graças a esse modo de ação, podemos ver ainda a repercussão ocasionai da


influência dos arquétipos da vida das sociedades. Considerado sob o ponto de vista
psicológico, o problema da Segunda Grande Guerra foi o da ativação de um arquétipo — o da
suástica. E sob o símbolo deste, levantou-se o povo hitlerista, revivendo o lado negativo de
uma humanidade de tempos muito remotos.

BASES FISIOLOGICAS PARA A NOÇÃO DE ARQUÉTIPOS

Jung sempre desejou fundamentar, em dados fisiológicos, as noções que trouxe para
o campo da psicologia. Ora, o psiquismo funciona a partir, podemos dizer, da estrutura e do
funcionamento do cérebro. Jung pensava que a alta diferenciação do cérebro humano,
semelhante nas diferentes partes do mundo, explicava, por si, a semelhança do
funcionamento cerebral; ou seja, a semelhança do psiquismo e das funções psíquicas, no
homem que habita esta ou qualquer das outras regiões do globo. Ora, dessa diferenciação, ou
melhor, o padrão dessa diferenciação, é herdado. Assim, com a herança dessa diferenciação, o
homem de qualquer parte da terra herdaria a possibilidade de ter certos tipos de
representação. Dito de outra forma, juntamente com o padrão de diferenciação cerebral cada
indivíduo herdaria os padrões de reação que poderia vir a ter, via representação, diante de
determinadas situações de vida; e estes padrões são justamente os arquétipos.

Quanto à herança do arquétipo, fato estabelecido por Jung tal uma hipótese de
trabalho, pensamos nós pessoalmente que, na atualidade, os trabalhos bioquímicos sobre
transmissão hereditária da memória, segundo os podemos estudar da apresentação de
Magoun, podem ser tomados, como confirmadores da idéia de Jung.

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Um dado a mais: Sabemos no presente, por relatos de Jouvet, do grande número de
horas de sono que, na criança de pouca idade, são cheios de sonhos. Perguntamo-nos com que
há de sonhar a criança que mal começa a viver, quer o recem-nascido prematuro de 7 a 8
meses, quer o recém-nascido de termo. Só podemos julgar, pensamos, de novo pessoalmente,
é que os arquétipos é que estejam em jogo no caso, motivando as representações oníricas do
homes já assim bem no início de sua vida.

A ANIMA E O ANIMUS

No primeiro capítulo vimos como habitualmente se pensa que nossa personalidade


está toda formada pela consciência, com seu ponto de referência, que é o ego. Comentamos
como a persona está relacionada com esses dois elementos. Acrescentamos que, já através
desta, faz-se sentir a individualidade. E alguma tendência a se chegar ao self, cujo projeto se
demonstra desde a infância, podemos percebê-la desde inicio. Assim, no quadro 21, na
máscara novamente esquimó e da atualidade (Malraux, op. cit., reprod. 376 bis), encontramos
pintada em forma circular, uma mandala, indicativa do self; nela temos, pois, persona e self.

Falamos como se passa, como que automaticamente, da persona para a sombra


pessoal. No primeiro desenho da ave mostrado (quadro 7) temos só a persona; no segundo
(quadro 8), a miopia da ave indica já a sombra pessoal do indivíduo, que se estava submetendo
à análise.

40
A sombra (enquanto arquetípica) é, dentre os elementos do inconsciente coletivo, o
arquétipo mais fácil de apreendermos. Isso porque o inconsciente "particular” de cada um de
nós (inconsciente pessoal) já dá, à custa da sombra pessoal, uma indicação da existéncia do
arquétipo da sombra, lembra Jung. Fala-mos de como foi apreendida por Klee no seu Príncipe
africano (Quadro 15) e procuramos dar a impressão desse arquétipo e da impossibilidade de o
reduzirmos à estreiteza do inconsciente pessoal, através de casos de nossos analisandos.

NOÇÃO DE ANIMA

Na análise, umavez conhecida a sombra, o indivíduo costuma deparar-se com o


arquétipo da anima. Na reprodução do quadro 22 podemos observar a passagem da sombra
para uma figura feminina, que é a anima. A sombra é representada pelos mendigos. É, ao
mesmo tempo, um tanto pessoal e já um tanto arquetípica: os mendigos, para quem fez o
desenho, representam a extensão e a profundidade da miséria humana.

Veiamos como Jung pôde conceber o arquétipo da anima.

Jung teve uma fantasia. Nela ouvia uma voz de mulher a lhe falar insistentemente.
Essa voz, a reconhecia como sendo de uma paciente que havia tido no hospital. Ouvia aquela
voz de mulher como um poeta ouve a voz de seus versos, ou, se quisermos, Jung fantasiava
essa mulher, falando dentro dele, como uma criança fantasia personagens. E essa mulher era
renitente, levava a sua vida própria, funcionava de modo autônomo, dentro de Jung, como um
complexo (Complexo = conjunto de fatores inconscientes; cheios de uma carga afetiva que os
faz funcionar por conta própria, à revelia do consciente do indivíduo). Jung fala dela como
de''a mulher em mim, a outra parte de mim mesmo". Ela correspondia ao lado feminino da
personalidade de Jung, e a esse lado Jung chamou anima. Quanto a si próprio, entendeu-se
com a anima através de cartas que dirigia a ela; por meio de uma conversação que ficava
escrita, conversação feita com ela, ia podendo diferenciar o que era de seu próprio consciente
e o que pertencia a essa parte feminina do seu inconsciente.

41
O que quer dizer parte feminina de Jung no caso?

O que se segue, vale quer para Jung, quer para qualquer indivíduo do sexo
masculino.

O homem, enquanto consciente, na sua vida prática, exerce uma atividade


predominantemente ligada ao conhecimento das coisas, à separação, discriminação delas. No
seu inconsciente, então, é que reside o que se liga à emoção, a afetos. É esta parte que
dizemos ser feminina; é ela que constitui a anima.

A anima, portanto, equilibra a consciência. Ora, o consciente está ligado à persona; a


anima, pois, equilibra a persona. Segundo a sua persona, o modo de se apresentar em seu
meio, o homem tem todas as características que, em nossa sociedade, dissemos serem
altamente masculinas — as de cognição ediscriminação. Lá no seu inconsciente, todavia, fica
encerrada uma parte relativa a afetos e emoções, a parte feminina de seu psiquismo, que é a
anima.

A anima, entretanto, não encerra o melhor das qualidades ditas femininas, ou seja,
das qualidades de que a mulher em geral se vale na sua vida, na sua atividade consciente. Ela
encerra, de preferência, as qualidades que seriam fracas em qualquer mulher, o menos bom
das qualidades reconhecidamente femininas.

A anima equilibra a persona, dissemos. Esta está ligada à consciência do homem e se


relaciona às qualidades que o levam a desempenhar bem seu papel na vida, relaciona-se ao
seu forte. A anima contrabalança esse lado forte e, em geral, encerra a fraqueza do homem. É
por isso que Jung dizia que, se um homem vir a sua anima, que dobre a esquina e não vá
encontrar-se com ela para com ela se casar.

Anima quer dizer alma. Não "alma" na acepção dogmática corrente, mas na de algo
vivo, que existe como fundamento dos estados de humor e da espontaneidade psíquica do
homem, algo de que esses estados e essa espontaneidade brotam; mostra-se, assim, como um
fator que dá vida ao psiquismo: pela sua vivacidade, não permite ao homem entregar-se à
inércia, diz Jung.

A anima encerra a sensibilidade, a suscetibilidade e se traduz por mau humor,


ciúmes, vaidade, descontentamento. O homem tomado por sua anima, o homem que está
sofrendo muito a influência de sua anima, pode espalhar esse mau humor, esse
descontentamento à sua volta.

No quadro 23 temos uma figuração de anima.

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É reprodução de uma gravura de Paul Klee (W. Grohmann, op_ cit., Ed. Kohlhammer,
p. 106). Mostra esse lado negativo da anima. Intitula-se “A virgem na árvore”.

O Autor, raramente explícito quanto à sua obra, a respeito dessa virgem disse,
conforme conta Will Grohmann, querer que ela representasse o pensamento seu de que a
virgindade forçada, tão altamente prezada, não serve para nada. Deitada numa árvore seca e
nodosa, que se lhe faz um leito incômodo e pequeno, a mulher está numa posição
desconfortável, sua anatomia toda forçada, seus membros parecendo hastes; e toda a
composição dá unia idéia invernal, de esterilidade, de morte, diz Will Grohmann.

Não sabemos se, para os leitores, a fisionomia da mulher diz, como para nós parece
dizer da sua má disposição psíquica, de certo ressentimento, de um descontentamento muito
profundo.

Temos, pois, que a anima de Klee, naquele momento, apresentava-se, como


dissemos que costuma acontecer, não na melhor das formas; toda a emoção, todo o afeto a
ela ligado era negativo e esse lado negativo da anima do Pintor é que está visível, projetado
nesta gravura sua.

Mas a anima, relacionada com toda a emoção e os afetos dos indivíduos do sexo
masculino, não é necessariamente assim negativa.

A anima encerra toda a idéia do feminino. O homem, através das diferentes idades
pelas quais foi passando a humanidade, sempre teve o seu relacionamento com o outro sexo.
A anima encerra o resultado desta experiência dos indivíduos do sexo masculino. E o melhor
da anima pode-se ver representado na reprodução do quadro 24 (Ludiwig Goldscheider, em
colaboração con el Artista – Kokoschka, Barcelona, Ed. Noguer, 1964):

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Trata-se do primeiro retrato feito por Kokoschka. Diz ele de Lotte Franzos, a
retratada, mais ou menos o seguinte: Foi a primeira mulher que me amou.

Como me enamorei dela, soube imediatamente como pintá-la. E a pintei como a luz
de uma vela — por dentro, um azul clarinho, transparente, e amarelo; por fora, uma cercadura
de um azul muito intenso. No original, os olhos aparecem também um pouco azulados e, por
fora da figura feminina, tudo é luz, tudo é amarelo.

Aí vemos como o Pintor deixou o melhor do seu conceito, da sua idéia do feminino,
posto na sua obra. Lotte, diz ele, sempre conforme L. Goldscheider me escolheu não por causa
de minhas pinturas; a ela minha arte não interessava. Ela amava era a mim mesmo. Escolheu-
me por causa de sua feminilidade.

E esta feminilidade, no mais alto grau, é que a pintura de Kokoschka procura


exprimir.

Então, o que vem a ser a anima? É o resumo do eterno feminino, do feminino


vivenciado, através das idades, pelos indivíduos do sexo masculino. Ela, em si, não se liga a
uma mulher em especial. Quando, porém, se exterioriza, quando o arquétipo toma forma,
quando se exprime através de uma imagem arquetípica, esta imagem do eterno feminino
sempre se apresenta sob forma de mulher (ou sob uma forma feminina). Assim, de Tolstoi
jovem, conta André Cresson como o próprio Autor se descreveu, na pessoa de um de seus
personagens: sonhador e sensível, sempre amando, não, porém tanto ou exatamente as
mulheres que se lhe deparavam na vida, mas uma figura não bem definida nascida de dentro
dele mesmo — "Ela" — e de como, ao mesmo tempo, enchia-se de "cólera, lágrimas, paixões
ardentes e bizarras". Nessa descrição vemos o homem de humor alterado pela sua anima. Por
sua vez, esta nos é apresentada como desligada do mundo das mulheres que o cercam, uma
"criação romântica de sua imaginação", ou melhor, diríamos, um produto do seu inconsciente

44
profundo, coletivo. Por outro lado, sabemos de Kokoschka, o quanto se ligou a Lotte Franzos.
Nessa ligação viveu uma projeção, a que fez, de sua anima, na companheira. Sabemos
também, de Goethe, como se ligou a Charlotte voo Stein. Essa ligação deu, na literatura, as
figuras de Margarida e de Mignon, tendo merecido um dos mais belos poemas líricos, o "Você
conhece o pais dos limoeiros em flor?”.

A propósito, ainda na literatura, temos a obra de Haggard, "She" (Novamente o


nome de Ela dado à anima). She, a personagem principal, é um exemplo clássico de anima,
muito citado por Jung. Era uma mulher altamente fascinante, misteriosa. Tinha certa tintura
religiosa e era intemporal — estava vivendo há muitos e muitos séculos. O livro mostra o
encontro do herói com She.

A anima aparece projetada, por via de regra, em toda mulher que tem algofora do
comum para aquele homem que a está projetando. E o desenrolar da vida deste, na sua parte
amorosa (praticamente, àsvezes, mesmo sua vida inteira), de modo geral, pode ser explicado
através de seu relacionamento com a anima, tanto as pessoas em quem o indivíduo a projeta
passam a significar para ele.

Lembrando sumariamente uma passagem de Joseph Conrad, cada uma delas,


diríamos, comporta-se como "uma delicada mulher do delgado fio de cuja existência pende",
para o homem em questão, "toda a significação e alegria do mundo" (de The Nigger of the
Narcissus', pág. 50).

Na infância do indivíduo (do sexo masculino), a anima está entremeada com a figura
da mãe dele, sendo muito difícil separá-las. Mais tarde, projetar-se-á na figura da primeira
namorada, depois na da esposa.

Temos, no quadro 25, "Cabeça de uma moça" (mais parece uma adolescente!), como
exemplo de projeção de anima (Malraux, op. cit., reprod. 590).

Trata-se de foto de uma escultura do fim do século XV. A boca se mostra "um pouco
desdenhosa". Vemos, assim, que não só a literatura e a pintura, mas ainda a escultura é
atingida pela projeção da anima.

A seguir, no quadro 26, a reprodução de uma obra de Di Cavalcanti, “Mulher com


flor" (Bloch Ed. S.A.. Guanabara — Obras-primas da moderna pintura brasileira).

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A anima está projetada na figura de uma mulher já moça e, comentando-a, dizem os
editores que, na tela, os verdes, o emaranhado das grades, a sinuosidade das dobras da
vestimenta, tudo são razões para que o Artista borde, demonstrando seu desejo de decorar a
beleza feminina e exaltar o encanto da mulher.

No quadro 27, uma escultura muito antiga, do IV-II século, produto da arte ibero-
púnica, encontrada em Ibiza e denominada "Mulher adornada" (Malraux, op. cit., reprod. 187),
também uma figuração de anima.

No quadro 28, novamente, Di Cavalcanti, na apresentação de uma anima projetada


em moça do nosso meio, do nosso povo. É a "Mulher deitada" (Bloch Ed. S.A., op. cit.).

Pode ser tida como imagem mais primitiva; menos civilizada menos requintada do
feminino.

Em pessoas de idade é comum a projeção se fazer em mulheres bem mais jovens, até
numa menina. Entre nós, no livro "O lírio e a antípoda", de Rubens Teixeira Scavoni, podemos
acompanhar todo um processo de projeção da animae o resultado dessa, projeção. O
protagonista, já maduro, "põe" a sua anima numa jovem nissei, à qual fica tremendamente
preso. Sabe que não pode mais se desligar daquela moça. Descuida, em grande parte, da
família e da vida profissional — e aí já vamos caminhando para a "possessão pela anima"
(Estamos muito acostumados a ouvir falar em repressão. Aqui, já não é o caso. Não se trata de
se ter "posto" a anima lá dentro do inconsciente e se ter deixado que ficasse lá. Trata-se de
inconsciência, de não se fazer o devido reconhecimento dos elementos do próprio psiquismo;
a anima, porém, não ficou reprimida lá: ela se projeta integralmente, por assim dizer, numa
figura do sexo feminino, que passa como que a dirigir o homem).

Essa projeção "total" da anima pode ser exemplificado pelo conto de Oscar Wilde, "O
pescador e a sereia". Nele, o homem chegou a vender a sua alma para se ligar amorosamente
à sereia. Mais tarde, quando esta morreu, ele se deixou afogar, pois a vida não lhe interessava
mais sem o relacionamento com ela.

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Vemos, assim, como o indivíduo do sexo masculino pode "pôr" a sua anima em
alguém, que passa a controlá-lo. Melhor: ele passa a ser controlado, a partir de fora, pela
mulher na qual colocou sua anima.

Mas se o homem coloca; assim, a sua anima nas mulheres, interessa saber também
como as mulheres reagem a esta colocação.

Pode a mulher reagir bem a isso, apagar-se, querendo preencher toda a projeção do
homem que: assim; pode-se tornar um herói aos olhos dela, o que a contenta. Quer dizer, ela
não se desenvolve psiquicamente, se satisfaz com realizar a imagem que o homem vê nela.

Mas pode ser que a mulher não reaja assim, que tenha dentro de si a tendência a se
realizar e não aceite isto de o homem querer colocá-la dentro de uma imagem que partiu do
íntimo dele. Um exemplo desta espécie, podemos vê-lo no livro de W. Somerset Maugahm,
"The narrow corner", na noiva de Eric.

Eric, indivíduo fechado que era, estava tão apaixonado por Luiza, que já não se
continha mais e procurava com quem conversar a respeito; não podia guardar só para si o seu
sentimento, suas emoções e afetos, que eram transbordantes. As vezes ia namorá-la, de uma
cadeira no jardim da casa dela, cadeira que fazia face à janela do quarto da moça. Gostava de
imaginar como estaria ela enquanto dormia; algumas vezes a via aproximar-se da janela.
Ficava absorto num enamoramento intenso. Certa vez, porém, em tal situação, foi sur-
preendido: Luiza vem à janela, mas depois se afasta; Eric vê, saindo do quarto da noiva, um
homem. Vai ao encalço deste e reconhece nele um indivíduo mais ou menos amigo. Fica tão
fora de si com essa descoberta que não agüenta e se mata.

Mais tarde, alguém pergunta a Luiza como sentia todo esse caso. Diz ela pouco mais
ou menos: "Não,Éric não me amava. Éric amava, em mim, uma imagem que ele queria que eu
preenchesse. Tinha dentro dele a imagem de uma mulher que era bonita, boa, inteligente,
excepcional em tudo. E essa mulher não sou eu. Quando me olhava, não era a mim que via, e
sim a essa imagem que supunha que eu estivesse preenchendo. Gostava dele, sua morte me
pesa bastante no coração, mas sinto também que me dá liberdade".

A passagem nos mostra, ainda, como a anima intensifica, exagera, falsifica as


relações emocionais do indivíduo que esteja tomado por ela. Este faz uma mitologia disso
tudo, e essa mitologia vai funcionando na sua vida, quer no seu relacionamento com o sexo
oposto, quer no relacionamento com indivíduos do seu próprio sexo, como diz Jung.

Na primeira parte do Fausto, Margarida é uma figura de anima; na segunda, Helena


é outra, e é já bem clássica.

Em nossa literatura, figuram a anima dos que as amam, Iracema, Inocência e Capitu,
entre outras.

Dizemos, entretanto, de Helena, como dissemos de She, que é figuração clássica,


isto é, típica, de anima. Isso porque ambas não representam a anima de um Martim, de um
Bentinho, de um Dr. Cirilo apenas, mas, sim, figuram a anima de qualquer indivíduo (do sexo
masculino), da generalidade dos homens, por elas desenvolverem o comportamento típico do

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arquétipo, inclusive com uma historicidade, que as duas têm como atributo, procedendo de
tempos muito remotos. São representações que dão o mais cabalmente que podemos
imaginar, a idéia do feminino, da essência da feminilidade, a partir de como o indivíduo do
sexo masculino a tem experimentado através dos tempos.

A anima, no aspecto negativo, pode aparecer como uma mulher má, demoníaca ou
como uma feiticeira, de que é exemplo clássico Circe, com quem Ulisses teve de se avir.

Mas, qual é a junção da anima, para que existe ela?

A anima, quando deixa de ser projetada (quando o consciente se relaciona com este
arquétipo), vai exercer a sua função normal dentro do psiquismo. Isto não acontece no
indivíduo jovem, é mais uma coisa para a maturidade.

E qual é essa função da anima?

A anima vaise comportar como certa intuição, certa percepção profunda que indica
ao homem o que está acontecendo nos seus relacionamentos, nos seus convívios. Esta é a
função da anima.

NOÇÃO DE ANIMUS

Vejamos agora o que se passa com a mulher.

A mulher tem anima (alma)? Não. A mulher tem é o que foi chamado de animus
(=mente, espírito).

A literatura psicológica é mais escassa sobre o animus do que sobre a anima.

Mas, o que vem a ser "animus”?

Vejamos, primeiramente, o que é a consciencia da mulher, a que se atêm a sua vida


consciente, seu ego, sua persona.

A mulher se guia pelas faculdades de relacionamento com os outros, cujo


fundamento são os afetos, as emoções. Equilibrando isto, no seu inconsciente, vamos
encontrar as qualidades masculinas, relacionadas ao espírito, ao conhecimento e
discriminação das coisas. Só que, aqui também, esse lado inconsciente (omasculino) não se
apresenta no melhor dos seus aspectos. Então não são coisas bem pensadas, não são
pensamentos bem elaborados os que vão constituir o animus (da mulher).

O animus se apresenta, predominantemente, sob forma de opiniões e notamos que a


mulher, sob sua influência, não dá opiniões que sejam resultado de uma elaboração de seu
pensamento; ela toma emprestadas, ao meio onde vive opiniões que estão por aí, no ar. O que
acontece, porém, é que as cita, as dá, pensando que são dela, que constituem produtos seus
altamente individuais. Além disso, muitas vezes as dá fora de hora e sempre sem admitir
discussões, como se fossem verdades acabadas.

Por esse seu modo de ser, o animus pode voltar-se contra a própria mulher porque
pode fazê-la irritar muito os homens que a ouvem, tanto mais que, muitas vezes, faz que a

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mulher, na vida prática, em vez de ver o que o homem é na realidade, passe a simplesmente
emitir opiniões sobre ele. Ainda mais: o animus também faz, por outro lado, que a mulher
perca seu encanto, sua ferninilidade que está diretamente ligada a emoções e afetos, como
Kokoschka percebeu quanto a Lotte Franzos. A mulher, no caso, aparece como mais seca,
menos amável. Quando isso vai chegando ao auge, leva invariavelmente a uma neurose.

O animus se pode apresentar projetado, em sonhos, O exemplo mais feliz que nos
ocorre vem de uma discípula de Jung. Em entretimentos analíticos com uma amiga sua, ouviu
que esta vira, em sonho, a porta do seu quarto entreaberta. Pela fresta, alguém passava livros
e jornais, enquanto uma voz repetia bem alto e com ênfase uma coisa só: "opiniões, opiniões''.

Mas, na vida prática, em que a mulher "põe" o seu animus? Em quem o projeta?

Primeiramente no pai; depois, pode ser num professor, num namorado, num artista,
no esposo. Gosta, diz Jung, de pôr o seu animus nos homens que falam bem. Aprecia os
homens que falam difícil, com palavras que não dizem tudo, mas deixam mil coisas no ar.
Goethe parece ter apreendido bem isso. Contando sua história e suas estórias diz, a respeito
de sua primeira experiência amorosa, que nada há de melhor para ligar uma moça a um rapaz
(e Vice-versa) do que o fato de esta encontrar no moço alguém que goste de ensinar, ao
mesmo tempo que ela mesma adore escutar, ouvir, ser ensinada.

Dissemos que o animus se põe antes no pai, depois se pode pôr no namorado, no
esposo. Lembra-nos um sonho, relatado como antigo, por uma mulhe: de uns 50 anos que
havia sido presa excessivamente ao pai, e, mais tarde, excessivamente também, ao esposo.
Sua vida inteira dependia deste, da vida dele da produção dele, da obra desse esposo.

O sonho fora o seguinte: A sonhante estava junto do pai moribundo. Mas o pai não
podia morrer: aguardava alguma coisa, algum acontecimento, não podia deixá-la sozinha,
esperava alguém. Nisso entra o esposo da sonhante e, com sua entrada e em conseqüência
desta, o pai já pode morrer. A sonhante então fica entregue ao esposo.

O sonho nos mostra a passagem da projeção do animus da figura do pai para a do


marido.

Acabamos de falar do animus enquanto possui a pessoa, ou seja, falávamos da


pessoa tomada pelo animus, o que se verifica em casos de neurose.

O animus, entretanto, não se precisa apresentar sempre assim, possuindo a pessoa.


Muitas vezes vemos como, em sonhos, está projetado em figuras masculinas que auxiliam
enormemente a sonhante, que fazem por ela aquilo que ela precisaria estar fazendo por si.

- Uma nossa cliente sonhava que se via numa situação muito difícil, presa; aparecia
então a figura de um jovem, conhecido seu e, para ela, altamente significativo por sua
iniciativa, por seu gosto pela vida, pela sua capacidade de trabalho, pela sua inteligência. Este
moço a libertava. Tratava-se de uma figura positiva do animus. Era indicativa, ao mesmo
tempo, de que a moça poderia chegar à capacidade de resolver os seus próprios problemas
íntimos como aquele jovem resolvia por ela, os problemas externos, no sonho.

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Mas já estamos quase falando da Junção do animus.

Qual e a função do animus? Quando ele deixa de ser projetado, quando a consciência
se relaciona com esse arquétipo, o que é que ele vai fazer no psiquismo da mulher?

Ele vai-se voltar para as coisas internas. Ao animus está afeta a iniciativa,
característica da vida consciente masculina do homem. Mas não se trata aqui de uma iniciativa
relativa a negócios, às coisas de fora, mas de uma iniciativa relativa ao cuidado das coisas mais
profundas do psiquismo.

Neste sentido lembramos o sonho de uma discípula de Jung. Ela mesma no-lo
contou: Via uma figura de homem. Ele segurava uma lâmpada e com esta descia, caminhando
para um lugar escuro e muito profundo. Era a visão do animus que ia iluminando as
profundezas do inconsciente.

Já na infância pode notar-se a função do animus, demonstrando-se em sonhos. Não


quer dizer que a criança já tenha o animus como capaz de ajudá-la a enxergar tudo "lá no
fundo", mas indica que ela tem esta possibilidade, que um dia poderá chegar a realizá-la.
Assim, tivemos uma cliente de 8 anos que sonhara com um animus (um rapaz) fazendo
conexão entre seu consciente e seu inconsciente, indo e vindo entre os componentes que
figuravam um e outro.

Ainda em relação à função do animus, lembramos o sonho de uma mocinha de uns


18 anos: Via-se com uma turma de rapazes, todos jovens como ela. Saíam de onde estavam e
iam para uma cidade pequena, onde reinava a ignorância, cidade atrasada, "bitolada". Tinham
energia e recursos mentais para fazer desenvolver aquela cidadezinha. Depois a cidade cresceu
com o suor e a perseverança deles.

Verificamos neste sonho uma projeção do animus — e do animas no melhor dos seus
aspectos, de "animus-função" (expressão nossa).

O animus muitas vezes se apresenta projetado numa porção de homens ao mesmo


tempo. Foi o caso, no sonho acima, no qual o grupo, a pluralidade de rapazes representa o
animus da sonhante. Pedimos à sonhante que desenhasse o sonho, e nos trouxe o desenho
abstrato do quadro 29, dizendo que tinha sido a única maneira de representar o que sonhara.

À esquerda temos o lugar onde ela estivera e, à direita, a cidade inicialmente


"bitolada". Desenhou-se a passagem de uma à outra.

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Querendo representar o progresso da cidadezinha, a sonhante fez, a partir dela, e em
volta dela, uma espiral.

Notamos, nesse desenho, algo de uma mandala - a espiral a lembra. E nele


reconhecemos completamente a função do animus, que dissemos ser a de ir ao mais profundo
da personalidade, para ajudar a pessoa a se desenvolver.

Algumas reproduções de representações plásticas do animus:

Temos, no quadro 30, a reprodução de uma obra de Gauguin (Georges Boudaille —


Gauguin. London, Thames and Hudson, 1964, p. 214):

A moça deitada e, por trás dela, um indivíduo que parece meio demoníaco, mas que
não demonstra ter nada de mau. Pode ser o espirito ensinando alguma coisa à moça.

A propósito, o demônio às vezes aparece como positivo. Frances G. Wickes, já citada,


descreve como uma das meninas suas clientes apresentava a fantasia de um demonio que a
ajudava muito.

51
No quadro 31, uma reprodução tirada do livro de Jung, já citado The archetypes and
the collective unconscious (fig. 51 após pág. 356). Trata-se de desenho feito por uma sua
paciente, de uns 60 anos. Mostra o demônio subindo, através da noite, até uma estrela.

O demônio aí significa o animus que vai fazer a consciência se relacionar, através da


noite (através das camadas mais profundas do inconsciente), com a estrela, que seria o self,
centro da personalidade total. Além de se repetir o aspecto positivo do demônio, como
animus, tem-se novamente a representação do relacionamento consciente-inconsciente, feito
por ele, como vimos no sonho da menina de 8 anos e que a discípula de Jung nos relatou.
Trata-se, pois, de uma representação do animus-função.

52
O ARQUÉTIPO MÃE

Mostra-se freqüentemente deparavel na análise dos indivíduos.

O arquétipo mãe encerra todas as experiências da humanidade com a mãe ou com a


mulher que a substituiu junto do indivíduo, quer se trate do indivíduo do sexo masculino, quer
do feminino.

A primeira pessoa a receber a projeção desse arquétipo é a própria mãe do


indivíduo; depois o arquétipo se torna mais inconsciente, passa para a avó. Também a
madrasta, a sogra; a babá, a governanta ou um parente distante podem receber a projeção,
diz Jung.

Esse arquétipo está muito relacionado, no indivíduo do sexo masculino, com o


arquétipo da anima.

O arquétipo mãe encerra em si tudo o que há de maternal, tudo o que existe de


solicitude e simpatia; encerra, ainda, certa autoridade mágica e uma sabedoria que não vem
da razão, da instrução, do estudo. Toda a exaltação espiritual, tudo o que é benigno, que
acaricia tudo que é apoio e que tende a fazer crescerem as coisas, diz Jung, tudo isso está
relacionado com o aspecto positivo desse arquetipo. E, como os demais arquétipos, ele não
pode ser confinado no lugar estreito que é o inconsciente pessoal.

Um cliente nosso, de uns 30 anos, sonhou que descendo por uma escada em caracol
encontrava-se com uma senhora. Esta era "muito antiga”, não se parecendo com ninguém que
ele conhecesse ou tivesse conhecido. Era uma senhora da Idade Vitoriana, o que se via pelo
traje, pelo porte, pelo penteado, pelo jeito; e parecia cheia de bondade.

Junguianamente, tomamos as figuras dos sonhos exatamente como se nos


apresentam. Ora, o desse moço nos mostra uma mulher desconhecida: assim, não nos
podemos permitir pensar que essa figure a mãe do sonhante.

Falamos, da anima, de como é ultrapessoal, à semelhança de Ela (She), “A Que Deve


Ser Obedecida", da estória de Haggard; e de como é intemporal, de como She vivia há séculos
e séculos. O mesmo acontece com qualquer arquétipo.

Então: se o sonho de nosso cliente lhe mostra não uma senhora de nosso tempo,
fantasiada, vestida à moda vitoriana, mas sim uma senhora autenticamente vitoriana, é que
tem por finalidade po-lo em contato com alguma coisa que não é do presente (nem do seu
nem do de ninguém, no momento) e que, por isso está acima do tempo, o que acontece com
os arquétipos. Essa coisa, esse elemento, vem apresentada sob a figura de uma mulher da Era
Vitoriana.

Assim, o sonho mostra uma mulher "muito antiga", reportando-se, portanto, a um


arquétipo, o da mãe — não tão antigo como as mães das mitologicas, mas antigo de cerca de
século e meio, que é o que nos separa da era de que ele saiu. Mostra a necessidade, do
cliente, de se relacionar com o arquétipo mãe. Nada tem a ver com sua mãe pessoal,pois que
nada, na figura da mulher, a indica.

53
A mãe, ou melhor, o arquétipo da mãe, também se pode apresentar sob aspecto
positivo ou sob um aspecto negativo. No último caso teríamos como exemplo mais comum, o
da bruxa.

- Em "Pomba e chacal” (título já sugestivo), que assim começa:

"Ó natureza! ó mãe piedosa e pura! Ó cruel, implacável assassina!”

Bilac reúne em a natureza os dois aspectos do arquétipo que nos ocupa.

Tal crueldade e tal piedade, a face negativa e a positiva do arquétipo, correspondem


a um aspecto do amplo conflito entre os opostos. Estes sempre causam tensão no psiquismo
do indivíduo, tensão que o leva a progredir, a caminhar para sua individuação.

— Vemos o arquétipo, ainda em nossa literatura, admiravelmente bem caracterizado


sob esses dois aspectos opostos no delírio de Brás Cubas, em que Machado de Assis
(Memórias póstumas de Brás Cubas) o faz apresentar-se ainda como Natureza, ao mesmo
tempo mãe e inimiga, ou Pandora, trazendo na bolsa todos os bens e males, sendo não apenas
a vida, mas, também a morte. A Natureza ai se mostra num aspecto extremamente primitivo,
imensa, selvática, no enorme rosto apenas a impassibilidade do egoísmo conservador, "a
eterna surdez", a "vontade imóvel”.

Além da natureza, também a Igreja é uma mãe, uma figuração do arquétipo. O


quadro 32 é fotografia de uma escultura simbolizando a Igreja (Malraux, op. cit. reprodução
575).

54
Também são formas representativas do arquétipo as igrejas, as catedrais, sobretudo,
ligadas que estão à Mãe-Igreja. Assim, a poesia "A catedral", de Alphonsus de Guimarães, soa
como um anelo grande em relação ao arquétipo, repetindo em cada estrofe o verso
nostalgicamente expressivo "A catedral ebúrnea do meu sonho".

Quanto ao aspecto tão encontradiço, o da bruxa: A figura da mesma, geraImente,


nos sonhos de crianças, refere-se ao arquétipo no seu aspecto negativo e não a uma
fisionomia psicologicamente péssima da mãe.

Antes de conhecer sua mãe como indivíduo, tal qual é, a criança a conhece como
imagem arquetípica, nela projetando o padrão de mãe, a "imagem" de mãe que herdou, com
um e outro aspecto. Sua primeira consciência de mãe é conhecimento, na mãe real, da mãe
arquetípica. Só mais tarde, às vezes incrivelmente mais tarde é que o indivíduo fará a
discriminação entre a mãe real e a mãe-arquétipo.

Mais algumas reproduções de representações plásticas do arquétipo mãe:

O quadro 33 reproduz a obra de Lasar Segall (Bloch Ed. S.A., op. cit.),intitulada "Os avós".
Como mãe da mãe, a avó é mais importante do que essa, mas, para o indivíduo de sexo
masculino, sempre uma mãe; para o de sexo feminino, conservando-se embora sempre uma
mãe, poderá estar já numa outra categoria, que diríamos de "uma mãe definidamente maior",
com atributos muito especiais.

Temos no quadro 34 a "Madona de Acuto", escultura de mais ou menos 1220: a


Virgem, a mãe por excelência; do catolicismo, em majestade, com Menino (Malraux, Op. cit.
reprod. 574 bis).

No quadro 35, novamente Maria, na "Pietà", de Michelangelo.

55
A seguir, no quadro 36, o desenho de uma ave amarrada, tentano soltar-se. Trata-se
do esforço do Autor para se desprender do arquétipo mãe:

No quadro 36ª, figura primitiva demais, quase mitológica, de uma mãe, feita por Klee
(W.Grohmann. op. Cit., Ed. Kohlhammer, p.111). Tem o nome de “Uma mulher cheia de
sentimentos”. Acompanham-na o gato e a cobra, que a psicologia junguiana tem como
símbolos ao mesmo tempo da anima e da mãe; já dissemos o quanto esses dois arquétipos
estão misturados em se tratando da psicologia masculina.

56
A PERSONALIDADE MANA

A GRANDE MÃE E O VELHO SÁBIO

Consideramos a componente psicológica feminina do homem (a anima) e a parte


psicológica masculina da mulher (o animus).

E o que acontecerá no caso de o indivíduo "se ter entendido", haver dialogado com a
anima (ou com o animus)? O que se dá quando, de um lado, o homem deixa de ser, por assim
dizer, possuído, dominado pela anima, deixando, portanto, de se conduzir como um
temperamental, um susceptível, um vaidoso e, por outro lado, a mulher deixa de ser
conduzida cronicamente pelo seu animus, deixando de ser aquela que sempre emite opiniões?
Tanto a anima quanto o animus, dissemos; passam a exercer uma função normal de
relacionamento entre consciente e inconsciente. Mas algo mais acontecerá ainda?

Analisada a anima (no homem) ou o animus (na mulher), surge um elemento do


mesmo sexo do indivíduo, e com o qual este costuma identificar-se por pouco tempo, ou, às
vezes, por longo, longo tempo. No sexo masculino esse elemento é o do grande sábio, e, no
feminino, o da Grande Mãe, conforme designações de Jung.

Quanto à identificação com a personalidade mana:

A identificação, no caso, ocorre porque o ego do indivíduo pensa que venceu a anima
ou o animus e, assim; podemos dizer, tenta apossar-se da energia que tinha sido utilizada por
um ou por outro, da energia de que viviam o animus ou a anima, da energia à custa de que
funcionavam. A valência, diz Jung, usando uma linguagem da química, que pertencia ou ao
animus ou à anima, passa agora para este novo elemento. Identificando-se com ele, o homem
sente-se como o mágico ou como um grande sábio, o portador da grande verdade; a mulher
sente-se como a própria compreensão e bondade, como o grande amor. Curioso, no entanto, é
que isto que um e outro sentem nesta fase não funciona no ambiente em que vivem, ou seja,
esse ambiente não os vê tais como se sentem. Por quê? Na verdade, há um engano de um e de
outro, pois que, se o sentimento que têm de si fosse tradução de algo verdadeiro, esse algo
funcionaria, teria influência nos outros também, diz Jung.

Dizemos que o indivíduo, neste caso, dentro dessa identificação, sente-se como uma
personalidade mana, isto é, como uma personalidade altamente influente, cheia de algo
oculto e fascinante; como seria a personalidade do mágico, como seria a da Grande Mãe, a
Cheia de Graça.

Entretanto, dissemos que isto que um e outro sentem não funciona, que um e outro
se enganam. Esse fascínio de que se sentem possuídos, na verdade não é coisa própria do ego.
O ego não pôde apoderar-se da valência que pertencia a anima ou ao animus. Esse fascínio é
algo que pertence, sim, ao inconsciente coletivo.

São atributos da personalidademana um grande poder e uma grande sabedoria,


sendo que "mana" se diz sempre de alguém que apresenta uma força excepcionaI .

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Nos povos primitivos encontramos, ao natural, figura da personalidade mana sob
aspecto de feiticeiros ou de sacerdotesmédicos.

Na nossa sociedade é fácil explicar-se a tendência à identificação do ego com a


personalidade mana. Primeiro, a pessoa cuja anima foi analisada, sente que conhece um
pouco mais do que os outros; que olhou mais fundo que eles dentro de si mesmo. Depois, é
grande o número dos outros que sentem necessidade de ter no seu meio alguém mais
influente, mais importante do que eles mesmos, alguém a quem possam hipotecar toda a sua
confiança, de quem possam orgulhar-se, a quem possam ter como ídolo, como herói, como o
maior.

À personalidade mana corresponde a representação do que há de mais fundamental


no homem, de um lado, e na mulher, de outro. O homem, dissemos, reage na prática,
conscientemente, pela cognição e pela discriminação. Seu princípio é o próprio espírito. A
mulher se rege pelas qualidades de conexão, do Eros, tomado este num sentido bem amplo e
não só no da sexualidade. E o princípio feminino é material, é a natureza, é ctônico (da terra).
A Nossa Senhora mesma, padrão feminino cristão, psicologicamente a Grande Mãe por ex-
celência, é tida como a terra da qual nasceu seu Filho; e, na antiguidade, teve significado
profundo a Mãe Terra.

Ambos estes princípios — o princípio fundamental masculino e o princípio


fundamental feminino - enquanto elementos, que são, do inconsciente coletivo, podem-se
demonstrar configurados, aparecendo em sonhos ou fantasias do analisando; podem ainda ser
projetados em outros indivíduos ou apresentar-se como criações artísticas.

Resolução da identificação

Considerando a identificação com a personalidade mana, temos o seguinte: de um


lado, o ego que usurpou o fascínio antigamente pertencente à anima ou ao animus, os quais,
em vez de funcionar normalmente, haviam possuído a pessoa; de outro lado, o inconsciente
coletivo que se rebela contra essa usurpação.

Como se revela essa revolta do inconsciente coletivo?

O indivíduo se endeusa. O homem, identificado com o próprio sábio, sente-se "o


nunca bem compreendido"; a mulher, identificada como a Grande Mãe, com o grande amor;
sente-se ao mesmo tempo, nunca suficientemente apreciada. E se duas pessoas de sexo
oposto, tomadas pela personalidade mana, se encontram; compreende-se que o desajuste
entre uma e outra possa mostrar-se total, como diz Jung.

Mas se o indivíduo cai em si, verificando que não é o velho sábio, ou que não é a
Grande Mãe e que esse fascínio, esse poder, essa influência enorme de um sábio máximo ou
de uma mãe máxima não pertencem a ele, indivíduo, pessoalmente; se, em suma,
experimenta essa sabedoria ou essa capacidade de compreensão como um arquétipo, como
elemento do inconsciente coletivo, o que se passará?

Cai por terra a identificação. O indivíduo deixa de se fazer de personalidade mana, de


ser a personalidade mana caricata que era. Isto ao mesmo tempo em que ele atenta a duas

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realidades: uma, a do inconsciente coletivo, de onde provém aquele fascínio de que vimos
falando; outra, a realidade da vida, do mundo, no qual vive e no qual não desempenhava
aquela influência que julgava desempenhar quando estava identificado com a personalidade
mana, a realidade do mundo com todas as suas exigências corriqueiras, mas iniludíveis.
Encontra então o centro de seu psiquismo, como um ponto de união entre estes dois mundos
— o de fora, de um lado, e do inconsciente, de outro; encontra esse centro como um ponto de
equilíbrio entre esses mundos opostos. E já estamos, nesta altura, falando do self que é o
centro da personalidade total do indivíduo e se apresenta como a resolução de toda a tensão
entre os diferentes pares de opostos (persona-anima, consciente-inconsciente, lados positivos
do indivíduo-sombra, por exemplo).

Mas estendamo-nos um pouco sobre o que se entende por equilíbrio entre mundo
de fora emundo do inconsciente.

Mundo de fora é tudo aquilo que, em primeira instância, os sentidos nos oferecem. À
força mesmo de nos adaptarmos a ele, para com o qual temos mil obrigações, desenvolveu-se
nossa consciência e criou-se a nossa persona. O mundo do inconsciente, entendido aqui,
sobretudo como inconsciente coletivo, é o mundo de dentro de nós de nosso psiquismo
profundo, tão real como o outro e impondo-nos também as suas exigências. O nosso
consciente, o seu campo (sempre com o ego) ou, se quisermos, a nossa personalidade
consciente pode ser vista, diz Jung, como se situando entre um e outro desses mundos.
Podería-mos imaginá-la como uma membrana entre eles, como pretendemos mostrar no
quadro 37. Neste, deixamos o inconsciente não definidamente, limitado, procurando assim dar
a impressão de que, quanto a ele, trata-se de uma grande porção de psiquismo, da qual não
nos é possível conhecer as fronteiras, não nos sendo dado ver-lhe o fundo.

Resolvendo-se a identificação com a personalidade mana, chega-se ao self.

No chegar-se ao self está implicado um equilíbrio entre a atenção que damos a um


dos mundos acima e a atenção que damos a outro, ou, melhor, um equilíbrio entre a influencia
que um e a que o outro desses mundos exerce sobre nossa personalidade consciente.
Também, no grafico do quadro 37 A, procuramos dar uma idéia da situação desta em face
desses dois mundos.

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Goethe, segundo Jung, procurou resolver o problema de relacionamento com a
personalidade mana atraves do Fausto, “homem mágico e cruel” que pactua com o diabo, e
Nietzsche, no seu Zaratustra, atraves do herói que não reconhece nem Deus nem o demônio,
mostrando-se como o super-homem e sábio mágico.

O arquétipo da Grande Mãe é um derivativo do arquétipo mãe.

Quanto ao termo de“arquétipo da Grande Mãe":

A designação de "arquétipo da Grande Mãe” é tirada da história das religiões.

Grande Mãe era o nome oficial de Cibele. Deusa antiquissima, os gregos lhe
receberam o culto vindo da Ásia Menor e, depois o passaram aos romanos.

Cibele era tida como mãe dos deuses, dos homens e de categorias inferiores da
criação, mãe da natureza, a própria Terra. Muitas vezes era identificada, entre outras, com
Demeter, deusa da agricultura.

De qualquer modo, os frutos e outros produtos da natureza estavam todos


relacionados com a maternidade de Cibele. Ênfase grande era dada, sobretudo à sua
maternidade relativa à natureza selvagem e costumava-se representar a deusa com dois leões
ao lado, indicando-se, assim, que nada resistiria à sua domesticação graças à sua suavidade.
Outro animal que às vezes lhe aparecia ao lado era o porco, dada a sua grande fecundidade.

Quanto á figura de Cibele, era sempre matronal, era majestosa e demonstrando


suavidade no semblante. .

As imagens arquetípicas da personalidade mana podem se mostrar com aspecto


muito primitivo como, também, sob um aspecto positivo ou sob um aspecto negativo, ou seja,
a personalidade mana tem um lado bom e um lado menos bom, como os outros arquétipos,
exceção feita, obviamente, do da sombra.

A personalidade mana masculina, representante do próprio espirito, costuma


demonstrar-se através de um velho sábio, de um mágico, de um feiticeiro, de um sacerdote,
de um médico — e aí ternos aspectos seus positivos e negativos.

O arquétipo da Grande Mãe, no seu aspecto positivo, é o padrão da própria


compreensão, do próprio amor universal, superior a qualquer compreensão e a qualquer amor
que uma mulher, ser humano, possa demonstrar.

Como exemplos da Grande Mãe, no seu aspecto positivo, aparecendo agora em


sonhos, temos os seguintes:

- Uma jovem se via numa grande multidão. Aparecia Nossa Senhora, que recebia a
ela, entre outras pessoas. A condição de seu recebimento foi que retirasse da testa uma marca
que nela trazia.

O sonho parece indicar a passagem da possessão pelo aninius para o encontro com a
Grande Mãe.

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É que a personalidade mana feminina, representante da Grande Mãe, do grande
amor, pode mostrar-se, assim, sob a forma de uma mulher cheia de mistério, de encanto, de
influência, como é o caso da Nossa Senhora. Para o individuo de sexo feminino esta não é
simplesmente uma mãe mais importante, mas é realmente, figuração do arquétipo da Grande
Mãe. O animus, no sonho, vem indicado pela marca na testa, significativa da atitude demais
intelectualizada, que de fato a sonhante apresentava.

— Noutro sonho, já de uma senhora, a sonhante rechaçava a figura de um homem


que era representação do seu animus num aspecto negativo, para dar atenção a uma mulher
bem primitiva, meio imponente pela sua estatura, e que trazia nos braços uma criancinha,
representação do self.

Outras vezes a personalidade mana feminina se mostra como uma natureza objetiva
e ao mesmo tempo fria.

Jolande Jacobi, em "La psicologia de C. G. lung", apresenta (quadro 38), uma


reprodução de Grande Mãe, "a fria e objetiva verdade da natureza" feminina, como diz a
Autora: a Grande Mãe contempla uma figura de mulher que ela mesma aperta até que sangre;
mas do sangue nasce a criança, simbolo do self.

Quadro 38

Mais dois sonhos de personalidade mana:

— Um indivíduo maduro se via numa igreja antiga, diante de uma pedra secular e
com uma gravação importante. Junto de si via um padre, em traje civil, com aspecto agradável.
Este lhe resolveria tudo, o que queria dizer — todo o seu problema religioso, o qual se
mostrava fundamentalmente ligado à oposição, à antinomia entre o bem e o mal.

O padre é aqui uma representação do velho sábio. Este é “o arquétipo do sentido das
coisas", ou, talvez melhor, o "arquétipo do significado” (meaning), como Jung também o
chamou. O sentido da religião estava longe da percepção do sonhante, cliente nosso. Ele o
vinha buscando desde a adolescência, presumindo que existisse, mas não sabendo onde. A
aparição do velho sábio lhe trouxe consigo uma noção de seu possível encontro, com a de
possível estabelecimento de um equilíbrio para ele, sonhante, entre os opostos bem e mal.

— Uma moça de 30 e tantos anos se vê também numa igreja. Essa se acha muito
iluminada e com muita gente. Espera-se um personagem importante. Este entra e tem uma

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atitude que influencia grandemente a todos os presentes. Tudo gira em torno da recepção
deste personagem. Trata-se de uma senhora imponente; de uma grande personalidade.
Parece ser uma freira; dirige-se para o altar. A pessoa que sonhou percebe-se na figura desta
freira e ao acordar espanta-se com o fato, não compreende como possa representar a si
própria assim tão imponente, tão influente, em sonho, pois não suspeitava da identificação,
em que se achava, com o elemento universalmente fundamental da mulher.

62
A INDIVIDUAÇÃO, O SELF.
AS MANDALAS. A QUATERNIDADE.
A TOTALIDADE PSÍQUICA.

Estamos, há tres capítulos, acompanhando o desenvolvimento psicológico dos


indivíduos, assim como o vemos sob o ponto de vista junguiano, à psicoterapia. A esse
desenvolvimento chamamos de processo de individuação.

Partimos do indivíduo que pensa que toda a sua personalidade é igual ao seu
consciente; se assim fosse, o ego seria o centro da personalidade e esta poderia ser
representada por nosso esquema de campo da consciência (Quadro 1).

Vimos, depois, que a personalidade não é um plano, como o do esquema referido,


mas pode ser considerada como uma esfera (Quadro 2).

Essa esfera aparentemente é vazia; entretanto, está cheia do que é desconhecido


para o indivíduo, cheia do seu inconsciente. E, considerada já a personalidade como consciente

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mais inconsciente, o ego perde a sua primazia, deixa de ser o centro dessa personalidade
(Quadro 4).

Observamos como o indivíduo começa por perceber que, entre ele e a sociedade, há
um compromisso, que esta o ensinou a se apresentar diante dela com uma máscara, que é a
persona(Quadro 6). Aprende a ver o quanto da persona não é propriamente dele, mas o deve
a essa sociedade, na qual cresceu.

Mais tarde, nota que dentro dele existem qualidades menos boas, aspectos negativos
de sua personalidade, de seu caráter, os quais estava projetando em vez de reconhecer em si,
quer dizer, toma contacto com a sua sombra pessoal e deixa de jogá-la sobre o mundo todo,
procurando se eximir de qualquer lado negativo, como era o caso do misantropo, de Brugel
(Quadro.14).

Mais tarde ainda, o indivíduo dialoga com uma sombra que é maior do que ele e, por
isso, já não faz mais parte do seu inconsciente pessoal; entra em contacto com a sombra
arquetípica existente nele (Quadros 15 e 16).

Numa fase ulterior, naturalmente numa etapa já de maturidade, o indivíduo deixa de


ter necessidade de projetar as suas emoções, os seus afetos, a sua sensibilidade (em pessoas
do outro sexo): estamos falando do homem que deixa de necessitar fazer projeção da sua
anima nas mulheres que conhece. Não se tratará de um jovem. Na idade, por exemplo, em que
Kokoschka pintou Lotte Franzos (Quadro 24), era mais do que natural e normal que projetasse,
que visse fora o seu sentimento e a sua emoção; essa sua projeção desses elementos na
companheira, aliás, conforme sua pintura, é altamente positiva. Não mais projetada, contudo,
mas assimilada, a anima passa a ser pura função psíquica, dando ao homem certa intuição a
propósito das situações em que se encontra. Por seu lado, a mulher deixa de necessitar viver
governada por opiniões que não são resultado de elaboração dela mesma, mas que apreendeu
do ambiente em que foi educada. Deixa de necessitar ser tomada por seu animus, ou de
projeta-lo em homens do seu conhecimento, O animus então passa a ser pura função de
relacionamento entre o consciente e o inconsciente (da mulher).

O indivíduo, homem ou mulher, deixa de viver sonhando com o paraíso, como era o
caso daquele senhor que pintou a ave de fraque entrando no céu (Quadro 7). Deixa de querer-

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se entregar inteiramente ao maternal, ao arquétipo da mãe separa-se, de alguma maneira,
desse arquétipo, dialoga com ele e faz uma distinção entre o que é ele mesmo, pessoa
consciente, e o que é o arquétipo (Quadro 36). Assume, então, as responsabilidades próprias
da sua vida e da sua idade, deixando de querer viver na irresponsabilidade, que é ca-
racterística da infância e também da vida dos primitivos, os quais são indiferenciados uns dos
outros e vivem na participação mística, isto é, amplamente identificados com o próximo e com
a natureza.

Mais tarde ainda, o homem deixa de se identificar com o arquétipo do velho sábio; a
mulher deixa de se identificar com o da Grande Mãe.

O que acontece no decorrer de tudo o que já consideramos de importante?

O ego vai perdendo a sua liderança. O indivíduo quer o homem, quer a mulher, vai
percebendo que o ego não tem aquela importância que lhe era atribuída. É por isso que cada
etapa desse processo de desenvolvimento psíquico, ou seja, do processo de individuação é
muito delicada; por isso é que a individuação inteira é muito delicada.

Falamos, no primeiro capítulo, da importáncia do ego e da importância da


consciência. O fato de o ego perder a sua primazia, de o indivíduo sentir que o posto desse
elemento está mudando, que a sua posição na economia psíquica está sendo outra é bastante
sério e, assim, todo processo de individuação exige muita atenção quanto à integridade do
consciente do analisando, muita atenção em relação ao seu ego, para que ele continue sempre
firme.

Mas, então, se o ego vai perdendo a sua prioridade e o indivíduo vai deixando cada
cada vez mais de senti-lo como centro de sua personalidade, aonde é que vai parar esse
centro?

Durante todo esse processo de desenvolvimento, o centro está sendo procurado. O


centro da personalidade do indivíduo é o self e o indivíduo se estará encaminhando para seu
encontro com ele.

O SELF

Vemos, no gráfico do quadro 38 A todas as camadas, por assim dizer, do inconsciente


coletivo. Correspondera aos grandes arquétipos, que são tratados no processo de
desenvolvimento psiquico. No centro do que é a figuração do psiquismo inteiro, o centro da
personalidade total que é o self, também chamado “si mesmo”, irradiando sua influência para
toda a personalidade e como que a envolvê-la toda, ao mesmo tempo.

Quando dizemos que o individuo atinge o seu self?

Tal se dá quando nele, indivíduo, os opostos se equilibram.

Mas de que opostos estamos falando?

Em relação à sombra, temos os opostos do bem e do mal. A sombra é um grande


problema moral, sentido como maior ou menor de acordo com a personalidade do

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indivíduoem consideração, mas sempre um problema moral envolvendo essa questão do bem
e do mal. Quando essa questão, esses dois polos (bem e mal) se equilibram, o indivíduo está
atingindo seu self. Também quando os grandes opostos, que são o masculino e o feminino,
atingem certo equilíbrio. No homem o masculino é a própria consciência, ou melhor, a sua
própria atitude conscinete;o feminino é a anima. Quando nele se estabelece um equilibrio
entre a vida consciente, entre a sua persona (ligada que é ao consciente), de um lado, e o seu
inconsciente, de outro, então o self está sendo atingido.

O self é atingido quando o indivíduo integrou a sua sombra pessoal no seu


consciente; conversou com sua sombra arquetípica; retirou as suas projeções de anima (ou
animus); fez um diálogo com o velho sábio (ou com a Grande Mãe), sem se ter permanecido
identificado com esses arquétipos (no caso do homem, sem ter feito confusão permanente
entre o que é a sabedoria dele, pessoal, e o que é a, sabedoria maior do que ele, o arquétipo
do velho sábio; no da mulher, quando fez distinção entre o que é sua capacidade de amor e de
compreensão e o que é o arquétipo da Grande Mãe, igual à própria compreensão, ao próprio
amor).

Com toda essa evolução, o que acontece é que deixa de haver, na personalide do
indivíduo, a cisão a que aludimos no primeiro capitulo ao lembrarmos que na neurose sempre
há certa dissociação entre consciente e inconsciente, que ela sempre traz consigo conflitos —
o indivíduo quer e não quer ao mesmo tempo, porque não se conhece o suficiente; a mulher,
por exemplo, é ela mesma, mas, também, é aquele opinar desarrazoado que a toma a
qualquer momento. Quando o indivíduo passa a se relacionar com seu inconsciente, os
conflitos cessam.

Também dissemos que havia, na neurose, um rebaixamento do nível de consciencia,


o que quer dizer mais ou menos que esta não integrara tudo o que podia e não estava
rendendo o quanto lhe seria possível render. Isto, com processo de individuação, deixa de se
verificar, sendo permitida ao indivíduo uma melhor adaptação à vida. Quando a consciência se
separa dos arquétipos, reconhecendo-os como "não parte” dela mesma, tem-se a separação
entre o que é ego e o que é "não ego", e a consciência passa a render muito mais, o que é
altamente desejável. Então ela, que tanto prezamos, definida como é, por Jung, como “a
função ou a atividade que mantêm o relacionamento dos conteúdos Psíquicos com o Ego",
atinge o grau mais alto de realidade, de efetividade.

Lembramo-nos de um indivíduo que, numa fase de desenvolvimento psíquico ainda


relativamente precoce, dizia-nos: "Mas é inacreditável como, depois de ter mexido com estas
coisas de dentro, o meu trabalho (tratava-se de um artista) se beneficiou. Minha mão (é um
artista plástico) é conduzida não sei por que, mas com uma facilidade tremenda". Nunca tinha
sofrido prejuízos de técnica, mas nunca se sentira tão livre para exercer a sua arte como
depois de ter atingido certa fase na análise.

Mas, vejamos o que vem a ser o self.

Por definição, é o centro da personalidade total do indivíduo. Não é o centro do


inconsciente profundo, em correspondência com o ego, que é o centro do campo

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daconsciência, da personalidade consciente, mas sim o centro do psiquismo global. Sempre é
atingido quando os opostos como acabamos de dizer, chegam a se equilibrar.

O self é estranho e, ao mesmo tempo, parece estar muito próximo. E igual ao


indivíduo mesmo e, ao mesmo tempo, nunca chega a acabar de ser conhecido, diz Jung.

Por quê?

Porque o self, ao mesmo tempo, integra a personalidade toda, como dizíamos.


Quando o self, como centro, é atingido, como que deixa de haver separações no indivíduo, a
sua personalidade se unifica, se integra, se totaliza; o elemento central dessa personalidade se
irradia para toda ela e, em toda sua extensão, esta fica sob sua influência. Dessa personalidade
total, entretanto, só podemos conhecer bem um elemento, que é o ego. Quanto aos
arquétipos todos, nunca vamos chegar a esgotar nosso conhecimento deles. E vão continuar
sempre, de algum modo, a exercer uma influência sobre nós; só que esta, agora, se
desenvolverá como que simplesmente, num relacionamento, num diálogo sem entraves, entre
consciente e inconsciente,

O self é uma hipótese de trabalho que Jung criou por senti-la necessária à sua
psicologia. Criou-a assim corno criou a hipótese do inconsciente coletivo.

O self é transcendente. Transcendente peto fato apontado, de que podemos


conhecer bem, de nossa personalidade total, apenas o nosso ego, pelo fato de nossa
consciência não poder comportar tudo o que é relativo aos arquétipos. Conseqüentemente
oself, como igual à personalidade total, apresenta-se como maior do que nossa consciência.
Ele é, hierarquicamente, superior ao ego.

O que apreendemos com a nossa consciência, à custa de nossa força de vontade,


exercida pelo ego, está sempre relacionado com este. Ora, o self, ultrapassando nossa
consciência, ultrapassa o nosso ego e nunca vamos poder chegar a conhecê-lo bem. É por isso
que dizemos que o self é supra-ordenado ao ego e transcendente.

Como é que o self se apresenta em sonhos e em fantasias?

Tanto em sonhos como em fantasias, o self se apresenta como as coisas mais


variadas e paradoxais. Já o apresentamos sob a forma de elefante, a propósito de um sonho
citado no primeiro capítulo. Assim, o self pode aparecer simbolizado por animais. Pode
mostrar-se simbolizado por deuses (ou deusas, na mulher); por cristais, por estrelas, pela
criança, por flor. A árvore pode apresentar-se como um símbolo do self.

Já nos referimos à imagem arquetípica, talvez a mais nova, do self, que é a dos discos
voadores, exaustivamente estudados sob esse ponto de vista por Jung, em "O mito moderno".

A seguir dois sonhos de self:

- O primeiro é de uma adolescente, cliente nossa. Sonha que está trabalhando e a


todo instante deixa o serviço para ir até o lugar onde reside; ali está unia criança que dela
depende e da qual deve cuidar; esta criança é, ao mesmo tempo, toda a finalidade de sua vida.

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- O segundo é de uma moça de uns trinta e tantos anos: vê um casal de ursos
(animais cheios de força), um branco e outro preto, que lhe atravessam o caminho numa
estrada. Parecem estar próximos dela e logo se lhe perdem de vista.

O PROCESSO DE INDIVIDUAÇÃO

O que vem a ser esse processo de desenvolvimento psíquico?

É o processo pelo qual o indivíduo chega ao seu autoeonhecimento, aquele pelo qual
é levado a estabelecer contacto com o seu inconsciente; nãosó com o inconsciente pessoal,
mas também com o seu inconsciente coletivo, como vimos considerando. A etapa final desse
processo ou, podemos dizer, o objetivo desse processo é a chegada ao self, ao centro da
personalidade. Quando o indivíduo chega a esse centro, realiza-se como individualidade, como
personalidade.

O self, herdado que é, tal os demais arquétipos, como dissemos logo no primeiro
capítulo, já se apresenta, como projeto, desde o início da vida do indivíduo: é o modelo do
indivíduo completo, a matriz de todo o progresso de cada indivíduo, o padrão segundo o qual
se desenvolvem as características de individualidade de cada um. E que ele se apresenta já
desde o início da vida do indivíduo,podemos saber através de sonhos de crianças, sonhos em
que já aparecem, como citamos imagens arquetipicas desse centro, ou seja, símbolos do seif. A
propósito, vimos também a máscara dos esquimós em que já aparecia uma mandala (Quadro
21) e, ainda, mandalas de crianças (Quadro 12 e 13).

Vimos, depois, como se passa automaticamente, como dissemos da persona para a


sombra, da sombra para a anima, e da personalidade mana para o self. A partir de quadros já
apresentados podem-se recordar estas passagens: da persona para a sombra — desenho da
ave míope (Quadro 8), da sombra para a anima — figura feminina emergindo de entre os
mendigos (Quadro 22); da personalidade mana para o self - a mulher sangrando nas mãos da
Grande Mãe, mulher de cujo sangue nasce a criança (Quadro 38).

Dissemos que, em nossa consciência, nunca integramos tudo o que pertence a cada
arquétipo. Insistimos em que, nessa integração, o que se faz é sempre a separação do que é
consciente daquilo que é "não consciente". Um exemplo, encontramos no trabalho que Jung
fez consigo mesmo arespeito de sua anima, aquela voz de mulher que falava dentro dele,
como referimos ao procurar dar a noção de anima.

Para integração dos arquétipos, tem-se de fazer essa distinção; quando não se a faz,
continuam ou se intensificam os conflitos.

Ao mesmo tempo em que se procede a essa distinção, estabelece-se, para o


indivíduo, um equilíbrio entre a realidade da vida, de um lado, da vida tal qual ela é, com os
deveres que nela se implicam, e, de outro, a realidade do inconsciente, vivo, rico e atuante
(Quadros37 e 37 A).

A chegada ao self é muitas vezes, em regra geral talvez, precedida por angústia, ou
melhor, por muita ansiedade; uma ansiedade à qual o terapeuta tem de estar atento. O
terapeuta tem de saber disso para não se desviar da verdade do que está acontecendo com

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oindivíduo, naquele instante. Essa ansiedade está filiada simplesmente à aquisição de uma
maior consciência de si próprio, que o indivíduo está atingindo. Mais adequado seria, quem
sabe, falar em grande tensão em vez de ansiedade.

Mas, fundamentalmente, à custa de que a individuação se processa? E qual é o


móvel desse processo?

Aqui voltamos a nos referir à energia psíquica, que mencionamos já noprimeiro


capitulo, lembrando seu símbolo dado por um grande animal, o cavalo.

No decorrer do processo de individuação, à resolução de cada complexo, ao diálogo


com cada arquétipo, a carga de energia até então a eles ligada se libera. Era uma energia como
que não pertencente ao indivíduo, uma vez que aqueles elementos agiam autonomamente.
Agora, a cada passo do processo, de um lado temos que a consciência se alarga - aumenta
porque mais coisas, mais conhecimentos lhe entram no campo; e o indivíduo, separando-se do
"não ego", vê mais clara a situação de sua personalidade consciente, existindo entre o mundo
exterior e o do inconsciente (Quadros 37 e 37 A).

Mas quanto à energia liberada, o que acontece a ela?

Vimos, ao tratar da identificação com a personalidade mana, que o ego não pode
impunemente se apoderar dessa energia, da energia à custa de que estivera funcionando um
arquétipo, pois ela pertence sempre ao inconsciente coletivo.

Aonde, então, irá tal energia?

A energia que se libera no decorrer da psicoterapia se vai sempre dirigindo para algo
de mais fundo do inconsciente, e é assim que ela constitui o móvel do processo todo, levando-
o continuadamente a se aprofundar. Isso até que o indivíduo se depare com o self, a partir do
qual ela então se irradiarápara toda a personalidade do indivíduo agora unificado, totalizada
(Quadro 38 A).

Figura da energia, agindo desse modo, encontramos na de outro grande animal (já
citamos, de início, além da figura do cavalo, a do elefante); encontramo-la no hipopótamo,
ainda no delírio de Brás Cubas (Machado de Assis, op. cit.). O quadrúpede, à revelia do herói,
carrega-o rumo ao início dos tempos - simbolicamente, em direção ao self. Na caminhada, o
herói se depara com o arquétipo da mãe a Natureza. E vê depois passarem diante de seus
olhos todos os séculos, toda a história da humanidade, quer dizer, todo o acervo do
inconsciente coletivo, cada elemento com seus dois aspectos opostos, "a sua porção da

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sombra e de luz". Assiste ao desfilar dos séculos do primeiro ao seu, atual, e até os futuros,
num desejo de "decifração da eternidade"; a qual é um atributo do próprio self. Depois, tudo
se apaga, só restando a figura mesma do animal.

AS MANDALAS

Na fase final de individuação encontramos a representação do self, centro da


personalidade total, feita através de diversos símbolos, como descrevemos e exemplificamos.
Além disso, o momento em que é atingido tal centro e frequentemente marcado pelas
produções gráficas que constituem as mandalas. Estas estão em correspondência com a
completação da totalidade psíquica: é esta totalidade, relacionada com o self, que é, mais
propriamente, representada, muitas vezes, graficamente por elas.

O termo mandala vem do sanscrito e significa círculo, ou círculo mágico, Segundo


Jung.

Como exemplo típico de mandala, temos a primeira que apresentamos que é uma
mandala tibetana (Quadro 9). A seu respeito, lembramos os comentários seguintes de Jung:

— Tem três círculos, o mais interno formado por pétalas de flor de lótus,e que faz
que a mandala seja vista como se fosse, toda ela, uma flor. Por causa desses círculos, que

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fazem separação entre uma parte interior eoutra exterior, as mandalas são tidas como círculos
de proteção.

— Na parte de cima vemos coisas relativas ao superior, ao espiritual; na parte


inferior, tudo o que é terreno.

— O quadro está dividido por quatro raios e cada uma das partes por eles delimitada
está pintada de uma cor — vermelho, verde, branco e amarelo, cores que representam as
quatro direções e também as quatro funções psíquicas, segundo os tibetanos.

— Dentro existe mais um circulo, um círculo mágico. O que está dentro desse círculo
constitui o objeto propriamente da contemplação que o indivíduo visa utilizando-se da
mandala.

Abaixo, vários dos característicos gerais das mandalas, ainda segundo Jung:

— forma circular, esférica ou ovóide; às vezes uma estrela.

- círculo elaborado como uma flor (rosa, lótus), ou roda, ou cobra, sendo que esta, às
vezes, se mostra enrolada em espiral.

— centro ocupado por um sol ou estrela (geralmente com 4. 8 ou 12 raios), ou cruz.

— círculo, esfera e cruz muitas vezes em rotação.

— olho, com pupila e íris.

Mais adiante apresentaremos algumas mandalas, nas quais, em parte, as


características acima poderão ir sendo observadas. Algumas dessas características podem ser
procuradas também nas mandalas apresentadas nos quadros 9, 11 e 12; várias do quadro 9
mal acabam de ser relatadas.

A finalidade da mandala do quadro 9 (ou de outra mandala como essa) seria a de


conduzir o indivíduo a certa contemplação que o levasse à noção do que há de mais íntimo
nele, isto é, a seu self, explica Jung. No Ocidente, procuramos chegar ao self não através de
uma contemplação, assim como parece que fazem os hindus, mas através de um processo de
individuação, que nos vai permitindo trabalhar, em fases sucessivas, com os arquétipos, deles
integrando o possível.

De passagem diremos que também os doentes mentais podem esboçar ou desenhar


mandalas. Neles, porém, o aparecimento destas só quer dizer que o self como projeto, pode
ser observado mesmo dentro do psiquismo do individuo não sadio mentalmente; não implica
porem, a possibilidade de esse indivíduo chegar a "realizar" esse seu self.

O PROCESSO DE INDIVIDUAÇÃO NA PRÁTICA

A individuação pode ser natural. O self é algo que sempre esteve ali, como já
dissemos. Não é impossível que o indivíduo chegue a "realizá-lo" sozinho, sem uma análise.
Citamos, aliás, o caso de São Nicolau, da Idade Média, que teve as visões do deus e da deusa e
que elaborou uma mandala e, sem auxilio, trabalhou com o inconsciente coletivo. Lendo a vida

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de homens altamente significativos para seu tempo, podemos ver como chegaram a uma
personalidade que nos parece completa; e sem terapia, ou seja, sozinhos, para o que é
necessário, vivência intensa e ampla, e vivência, naturalmente, com aproveitamento. Jung
também chegou a se individuar sozinho, mas através da psicoterapia junguiana, que ele
mesmo descobriu, do método que foi experimentando consigo mesmo sem que ninguém lho
tivesse ensinado.

O mais comum, entretanto, é que o indivíduo procure um terapeuta que possa ajudá-
lo a fazer o caminho da sua individuação, pela psicoterapia. Às vezes são indivíduos neuróticos:
uma mulher tomada pelo animus, um homem tomado pela anima. Outros, indivíduos não
necessariamente neuróticos, mas que sentem a necessidade de se autoconhecerem,
percebem que os seus valores estão lá no fundo, no seu inconsciente. Outros casos, ainda,
serão dos indivíduos a que já nos referimos, os "limítrofes".

E qual o papel do terapeuta dentro dessa psicoterapia?

A técnica, embora importante, dá só uma indicação de como fazer, de como


proceder. O que importa na psicoterapia junguiana é, sobretudo, a personalidade do
terapeuta. Este deve já estar treinado porque, nessa terapia, o terapeuta está inteiro, com
seus conhecimentos e seus sentimentos; inteiro, com sua personalidade toda no jogo que o
relacionamento terapeuta-cliente implica.

Quanto à profundidade da análise do inconsciente e à época da individuação:

Nem todos os indivíduos necessitam de uma analise profunda de chegar ao self.

E o problema de atingir o self não é um problema de jovens. Para estes, em geral


basta libertarem-se da anima, que está projetada na mãe, libertarem-se de dificuldades
práticas.

A época da individuação se situa dos trinta e cinco anos, mais ou menos, em diante.
Então o indivíduo, maduro, tem necessidade de se voltar para o seu inconsciente, para se
separar dos arquétipos, fazendo distinção entre consciente e inconsciente. E a energia vai
ficando livre a cada passo de integração do inconsciente, vai-se acumulando, se assim nos
podemos exprimir, no self que passa como procuramos mostrar no gráfico do quadro 38 A, a
mostrar-se como centro da personalidade e, ao mesmo tempo, a irradiar a sua influência para
a personalidade inteira do indivíduo, envolvendo-a.

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No quadro 39, uma mandala de uma pessoa de meia idade, tratada por Jung, para
mostrar que a análise junguiana também se dedica a indivíduos que, no comum, pensamos já
não poderem aproveitar nada mais de psicoterapia (Jung — The archetypes and the collectivc
inconscious, fig. '12 após pág. 356).

A TOTALIDADE PSIQUICA

Ter atingido o self, chegar à totalidade psíquica, representada pelas mandalas não
quer dizer ter-se chegado à perfeição.

Já vimos como os arquétipos têm sempre um lado positivo e um lado negativo.


Também o self tem seu lado negativo. Quando chega à totalidade, "realiizando” o seu self, o
indivíduo carrega consigo também um lado menos bom, defeitos que reconhece, mas dos
quais não tem jeito de se desligar, às vezes certos traços desagradáveis de personalidade.
Tudo isto, diz Jung, é "o espinho na carne”, justamente aquilo que faz o indivíduo continuar a
progredir, sempre na vida.

Assim, a meta final, que é essa totalidade psíquica, implicando a conservação de um


lado negativo do indivíduo, difere da meta final a que vise uma educação rígida, desejando
indivíduos perfeitos.

Totalidade psíquica quer dizer simplesmente certo equíbrio atingido, entre


consciente e inconsciente, em última análise, produzindo-se uma situação de certa paz e de
plenitude. Quando o indivíduo atinge a sua totalidade, as funções do seu psiquismo, mesmo as
mais inferiores (as mais inconscientizáveis) ganham em consciênica. O indivíduo adquire um
conhecimento de si mesmo, quanto aos seus lados menos positivos (mais fracos), que às vezes
estiveram completamente inconscientes durante o seu desenvolvimento. Estes não ficam mais
completamente separados do consciente. E o indivíduo poderá dialogar, então, mesmo com
estas suas partes sem enormes empecilhos.

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No quadro 40 temos unia mandala, também de pessoa de meia idade e também
analisada por Jung, em fase quase final de individuação (Jung, ibid.,fig 9 após pág. 292).

A partir dela podemos comentar o seguinte: A totalidade psíquica significa que o


indivíduo chegou a se tornar igual a ele mesmo. Fica, então, em paz com o seu inconsciente e
com os instintos que jazem nesse inconsciente. Assim, na parte inferior da mandala do quadro
40 se vê um animal, correspondendo justamente à parte instintiva da pessoa que a desenhou.

Na pintura do quadro 41, de Portinari (Bloch Ed. S. A. Op. Cit.) cremos ver expressa a
paz de que falávamos. Há grande harmonia em meninote, sílbolo do self, e a parte instintiva,
representada pelo carneirinho.

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A QUATERNIDADE

Além das mandalas, outro símbolo comum de totalidade psíquica é dado pela
quaternidade, aparecendo em desenhos ou em sonhos.

Em geral a quaternidade está composta por 3 mais 1.

- Jung cita o sonho de uma paciente, em que apareciam três cadeiras, mas faltava
uma; havia 3 cores, mas faltava uma. (Eram três das quatro cores das funções psíquicas
básicas, funções a que nos referiremos no próximo capítulo, mas que, adiantamos, relacionam-
se às quatro maneiras pelas quais o indivíduo pode reagir na vida, em face das coisas).

— Lembramos uma cliente nossa que viu em sonho uma tartaruga, símbolo não
muito encontradiço do self, comendo. Seu alimento se apresentava em forma de um bastão no
qual havia três cores (cores habitualmente atribuíveis às funções psiquicas), faltando uma.

A cor que falta pode ser a correspondente à função psíquica inferior da pessoa em
questão, ou seja, à sua função mais inconsciente, conforme trataremos um pouco adiante.

Passamos a apresentar algumas reproduções de mandalas, relembrando que as


mesmas não são desenhadas só em fase final de individuação, mas também em casos em que
o indivíduo se sente meio num caos, com a finalidade, então, de proteção.

A reprodução do quadro 42 é a de um tapete, feito por uma cliente de Jung (Jung,


ibid., fig. 13 após pág. 356). Era uma senhora de alto nível cultural, com grandes problemas de
vida prática, conta ele. Enquanto passava por tais problemas, elaborou esse tapete, que se
apresenta como uma mandala.

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Neste tapete observamos como estão fora da mandala propriamente dita, a qual tem
por centro uma flor com oito pétalas uma região celestial (o sol ou coisa parecida), ao alto e,
em baixo, a vida instintiva, representada por um inseto. Quando a questão do problema moral
entre o bem e o mal é tão grande que a pessoa custa a perceber que eles podem, de alguma
maneira, se equilibrar quando essa questão é demais enorme para que o indivíduo a tolere, as
respectivas regiões da representação deles ficam fora da estrutura da mandala mesma, do
círculo protetor que ela é.

Exemplificando ainda o problema da questão entre o bem e o mal, apresentamos,


no quadro 43, um desenho de cliente nosso.

Já não é uma mandala, mas representa o psiquismo humano, apresentando como


ave, entre os dois opostos – o bem e o mal, este dado pelo jacaré, símbolo de tudo o que é
feio, para o cliente.

No quadro 44 temos, dentro da mesma questão, uma mandala, também tirada de


Jung (Jung, ibid., fig, 34 após pág. 356), de uma menina de uns onze anos, cuja família passava
por grandes dificuldades psicológicas.

Essa mandala tende a ser uma proteção contra as dificuldades que estavam
querendo atingir o psiquismo da criança. E o mal, representado pelos cornos laterais,
indicativos do diabo, é mantido fora do círculo.

Quadro 44

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A seguinte (Quadro 45), representada por uma estrela emergindo do caos e
lembrando, assim,que o self é “um princípio de ordem” no dizer de Jung, é de paciente deste
(Jung, Ibid., fig, 29 após pág. 356).

Quadro 45

No quadro 46 temos um quadrado com um circulo dentro. No interior deste, uma


flor se eleva. Esse desenho, feito por um paciente de meia idade, de Jung, ainda pode ser visto
como uma mandala (Ibid. Fig. 11 após pág. 356).

No seguinte (Quadro 47), mandala que uma criança de nosso meio pintou, em época
de dificuldades de adaptação, aliás pequenas e nada raras no desenvolvimento psicológico
infantil. O que faz da flor uma mandala, aqui, é o cículo que a envolve.

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Sete meses após, passadas as dificuldades, a mesma criança desenha simplesmente
flores. Notemos, no quadro 48, sobretudo a da esquerda. Fez-se na mesma cor que a anterior
e o estilo também é o mesmo, mas já não há mais necessidade de proteção: desaparece o
círculo protetor que correspondia a um elemento que, anteriormente, procurava isolar, do
exterior, o íntimo da criança.

Segue-se (Quadro 49) uma mandala singela, a da catedral de São Pedro, de Genebra.
Apresenta-se como uma flor de 12 pétalas e tendo por centro, uma cruz.

A rosácea, muito elaborada, dos grandes órgãos da catedral de Strasbourg, também


uma manda (Quadro 50).

Uma granda mandada lo pavimento da Praça da Catalunha, em Barcelopna é


mostrada no quadro 51.

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II
OS TIPOS PSICOLÓGICOS
E O PROCESSO DE INDIVIDUAÇÃO

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AS QUATRO FUNÇÕES PSÍQUICAS

E OS TIPOS PSICOLÓGICOS

AS QUATRO FUNÇÕES PSÍQUICAS

Dissemos que a consciência tem por campo tudo o que se apresenta ao ego. Vejamos
agora como ela se comporta frente a um objeto. Esse poderá ser um objeto concreto, uma
idéia, uma situação. O Quadro 52 poderá ajudar a seguir quanto diremos neste capítulo.

Seja o objeto uma flor.

a) O indivíduo pode, ao se lhe deparar a flor, relacionar-se com ela diretamente,


e se pôr a considera-la em si: sua forma, número de pétalas, todo seu aspecto. Pode ir mais
longe, procurar a planta de que provém examinar-lhe cada parte. Como conclusão, fará uma
descrição de ambas, descrição que, sua vez, possibilitar-lhe-á encaixar a flor e/ou a planta
numa dada classificação.

Diremos que ele usou pra tudo isso, para esse seu relacionamento, o seu
pensamento e, através dele, chegou a uma conclusão intelectual quanto ao objeto
classificando-o.

Não deixaremos de notar que partiu do objeto - flor ou planta - e voltou para o
mundo dos objetos, colocando a flor ou planta numa classificação deles (de flores ou plantas).

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b) Outro indivíduo, em face da flor, poderá também se ligar a ela de imediato,
mas, em vez de a considerar em si, como o primeiro, dar-se a percebé-la como bonita ou feia,
coisa agradável ou não, que merece ou não ser posta num vaso, que vale a pena ou não se
comprar para a casa.

Deste diremos que se relacionou com o objeto por meio de seusentimento, chegando
a elaborar, sobre a flor (objeto), um julgamento de valor.

c) Novo indivíduo, também se relacionando prontamente com o objeto, pode ver


a flor sob o ponto de vista artístico — se ficaria ou não bem num arranjo, deste ou daquele
tipo, se colocada num vaso iria ou não bem em determinado embiente.

Esta pessoa se estaria relacionando com o objeto através da percepção ou sensação:


nem o classifica nem o julga, mas o vê esteticamente.

d) Um quarto indivíduo, também se dando francamente ao objeto, nãoo veria em


si para classificá-lo, não se preocuparia com se ele o agrada ou desagrada, não o perceberia
sob o ponto de vista estético, mas cogitaria de o lhe poderá render na prática — se fabricasse
flores como esta, de plástico, como se venderiam? Bem? Na reunião tal, oferecida uma dessas
flores para cada senhora, isso criaria uma situação favorável para uma eleição!

Esse indivíduo se relaciona com o objeto mediante sua intuição, demonstrando


conhecimento das possibilidades práticas que dele podem advir.

Pensamento, sentimento, percepção (ou sensação) e intuição são as quatrofunções


psíquicas, as quatro maneiras básicas segundo as quais nos podemos relacionar com o mundo.
O pensamento leva sempre a conclusões intelectuais. O sentimento diz respeito a uma
questão de agrado ou de desagrado, de achar bom ou mau, a um julgamento de valor. A
percepção se atém ao que entra pelos órgãos dos sentidos e conduz a uma apreciação
puramente estética, ou, de um modo mais gerai, a uma apreciação relativa ao bom gosto. A
intuição é uma percepção que se faz como que diretamente, independendo de qualquer
caminho explicativo, via inconsciente; determina, no indivíduo acima considerado, que se
ligou diretamente ao objeto, o "faro" para as possibilidades práticas.

AS DUAS ATITUDES GERAIS

Todos os individuos que acabamos de considerar têm uma característica que lhes é
comuns, a de se relacionarem imediatamente, diretamente com o objeto, na se interpõe entre
este e eles. Esse relacionar-se diretamente com o objeto os caracteriza como extrovertidos. A
extroversão é a atitude que os marca segundo o modo de entrarem em contacto com o objeto,
que é, para eles, o modo descrito.

Mas nem todos os indivíduos se relacionam assim deretamente com o objeto. Há os


que, frente a ele, para os outros que estão de fora, mostram-se como que hesitantes. Estes são
os de atitude de introversão, os introvertidos. Quanto a eles, quando se lhes apresenta
qualquer objeto, alguma coisa se intromete entre eles e esse objeto: é o subjetivo, que lhes
permeia qualquer relacionamento com o objeto.

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O subjetivo existe, é claro, também nos indivíduos extrovertidos, mas neles não tenta
embargar o relacionamento, que se faz, praticamente, como se ele (subjetivo) nem existisse,
ao passo que, nos introvertidos, sua influência é marcante, emprestando ao relacionamento o
caráter de hesitação de que falamos.

No grupo dos introvertidos encontramos também os que funcionam segundo o


pensamento, os que segundo o sentimento, bem como aqueles que se relacionam com o
objeto pela percepão (ou sensação) e os que pela intuição. Neles estas funções têm as mesmas
características já descritas para os extrovertidos: pensamento – ligado ao intelecto;
sentimento, a juízo de valor; percepção, ao que nos vem pelos sentidos; intuição, ao que
percebemos pelo inconsciente.

Como se comportarão os indivíduos introvertidos segundo as quatro funções


psíquicas?

Sempre atendendo grandemente ao subjetivo.

a) O introvertido que funciona segundo o pensamento, vendo a flor se preocupará,


por exemplo, perguntando-se: “O que, em mim, permite que eu a perceba, que a
veja?” A flor, em si, não é o que importa, ela parte do subjetivo, isto é, o principal
para ele. Embora tenha começado com a flor, com o objeto, este, enquanto
objeto, não é o que lhe interessa. E Ele não se dirigirá com uma conclusão
intelectual, para o mundo dos objetos; sua pergunta o conduzirá a uma
conclusão em que o subjetivo só é que vai pesar.

O pensamento introvertido parte do subjetivo e volta para o subjetivo. “Existe em


mim uma faculdade que me torna possível à visão da flor”, diria, por exemplo, o
introvertido de pensamento.

b) Se o introvertido age segundo o sentimento, parecer-nos-á, a nós que o


observamos que perceber a flor, mas que esta nem chegou a tocá-lo, que ele
está de tal maneira acima dos demais, que não pode ser tocado pelo objeto.
Todo o seu sentimento se desenvolverá completamente dentro dele, e o
indivíduo nos parecerá frio e com um ar superior.
c) Quando é pela percepção que o introvertido se relaciona com o objeto, vêmo-lo
como que passivo, indiferente, como se o objeto nada tivesse a ver com ele.
d) Sendo pela intuição, ele nos dará a impressão de estar pairando numa região
distante da nossa, de estar sonhando. Neste caso, mal o indivíduo percebe o
objeto, uma fantasia, um sonho se começa a processar nele.

ATITUDES GERAIS E TIPOS PSICOLÓGICOS.

Extro e introversão são as atitudes gerais dos indivíduos diante dos objetos. Quer o
indivíduo tenha a atitude de extroversão, quer tenha a de introversão, ele se relacionará com
o mundo ou pelo pensamento, ou pelo sentimento, ou pela perceção, ou pela intuição. Daí os
oito tipos psicológicos, conforme o quadro 53.

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DESCRIÇÃO DOS TIPOS PSICOLÓGICOS

1. OS EXTROVERTIDOS

TIPO EXTROVERTIDO DE PENSAMENTO

Vem esquematizado no quadro 54.

A) Relacionando-se diretamente com as coisas, chega, a partir delas, dos


objetivos que lhe fornecem, a conclusões intelectuais. Estas dizem respeito às próprias coisas
que forneceram os dados, ao próprio objeto, portanto.

O tipo pensamento extrovertido sempre busca fazer um programa. As conclusõesa


que chega consistem em classificações, rearranjo de idéias, sínteses.

Nestes indivíduos, o pensamento, pelo qual se guiam, é claro, as idéias seguem uma
ordem lógica, são coerentes. Um grande exemplo para o caso é Darwin.

Os indivíduos deste tipo comumente se preocupam com a justiça e com a verdade.


Consideram seus ideais a "expressão mais pura da realidade objetiva, na expressão de Jung e
acham que o quanto pensam tem de se tornar na prática.Assim, julgam que todos os devem
seguir, a bem da verdade e da justiça: não toleram que alguém se faça exceção a respeito.
Quando os fatos parecem contradizer seus ideais, o indivíduo procura enquadrá-los de algum
modo. Disso resulta o se dedicarem a organizações de hospitais, prisões, colônias correcionais,
etc, através do que procuram controlar as doenças, os crimes, as delinquencias. Fazem-no
movidos por seus "sentimentos humanitários" — eesta expressão, que nos faz sorrir, logo
procurará explicá-la.

Através de suas realizações, entretanto, segundo acabamos de citar, este tipo


demonstra que seu pensamento é construtivo. Este se mostra, ao mesmo como uma função
predicativa: busca sempre algo de positivo nas coisas, de elogioso.

B) Consciência alguma está mais longe do sentimento que a de um tipo pensamento,


ou seja, não há lugar para julgamento de valor, para o "é bom ou mau e agradável ou não" na
consciência que se rege pelo pensamento. Se o indivíduo classifica algo como bom ou mau,
agradável ou não, o faz puramente a partir de uma razão intelectual, não de um sentimento. E
quando os indivíduos destetipo se dedicam a suas organizações, sem dúvida não é o
sentimento que os move,mas o pensamento, só o intelecto; e foi por isso que colocamos seus
“sentimentos humanitários" entre aspas.

O indivíduo, entretanto, digamos já, costuma não ser assim tão extremado na sua
consciência, não a levando exclusivamente para o lado do pensamento; de vez em quando
permite que um sentimento (real) a ocupe um pouco, e isto lhe equilibra o psiquismo.

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Por nossa parte, temos notado esse “sentimento humanitário” de que falávamos em
filósofos do tipo penamento extrovertido. Manifesta-se, então, como o que pessoalmente
chamamos “sentimento por obrigação”. Na realidade não se trata, aqui também, quanto ao
determinante da ação do indivíduo, de um sentimento, mas sim de um pensamento; aos

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circunstantes, em geral, porém, custa perceber isso porquanto, aparentemente, aqueles
indivíduos estão agindo à custa de sentimento de amizade, por exemplo.

- Esteja esse indivíduo pensamento extrovertido num táxi, em grande prosa com um
amigo. Seja que o chofer, sem cultura alguma, dê um aparte completamente fora do
propósito. O indivídudo é capaz de desviar sua atenção da conversa com o companheiro e
dirigi-la ao chofer, a quem procurará explicar o assunto e por quem se deixará dirigir numa
conversação absolutamente desinteressante. Fará assim não porque tenha simpatizado com o
chofer ou com seu aparte, mas porque pensa que a gente deve ajudar no cultivo da
inteligência de qualquer um.

-Outro exemplo: O indivíduo poderá deixar, regularmente, uma fruta no caminho de


um mendigo com o qual se recuse a ter qualquer contacto por classificá-lo mais ou menos
como um pária. Há de até, mais tarde, vir observar se a apanhou ou não; há de ter curiosidade
em vê-lo no ato de apanhá-la. Contudo, a dá movido tão só pela idéia de que o mendigo
também a deve ter uma vez por dia, pois que a fruta deve fazer parte da alimentação diária de
qualquer ume, portanto, também da do mendigo. O que importa é que a idéia de uma
alimentação sadia seja seguida; a pessoa mesma do mendigo não é o que interessa.

Esse modo de agir, segundo um “sentimento por obrigação”, vai na linha de o


pensamento, no tipo de que estamos tratando ser construtivo. E neste sentido é bom, como
nos exemplos acima.

Se, entretanto, o indivíduo se unilateraliza demais, quanto à sua consciencia, não


dando chance, nem de vez em quando, de suas afeições e afetos nela aparecem, então essa
espécie de “sentimento humanitário”, em que achamos graça por causa de parte das coisas a
que se refere, vai-se mostrar exagerada, criando-se, em geral, uma situação desagradável para
o próprio indivíduo.

Esse “sentimento”, quando exagerado não raro é explorado na literatura, desde a


policial até a mais elevada. Assim, num dos contos da primeira, lemos recentemente a história
de uma senhora cujo ideal era fazer levantar-se, na sua pacata cidade, uma cadeia. Trabalhou
tanto, que conseguiu sua realização. Eis senão quando seu neto, de quem cuidava, teve um
comportamento tal que a polícia o apanhou; e foi ele, a menina dos olhos da heroína, que
estreou a prisão. A senhora agora acaba seus dias mais depressa graças à tristeza que passou a
consumi-la. O sentimento, o verdadeiro sentimento de que sempreesquecera que nela
estivera demais reprimido ou pouco desenvolvido, avassalava-a dessa forma. Por seu lado, o
pai, em “Os Tibault”, religioso e moralista, também quis fazer um grande bem social – e
fundou um instituto de correção para adolescentes; ora, aconteceu que seu próprio caçula foi
o primeiro alhe experimentar o regime, com o que, entretanto, o Sr Tibault não se abalou
demais. Ambos, aquela senhora e este pai, haviam considerado só o objeto em si (a obra), e
não as pessoas que a poderiam vir a ocupar. Sentimento (real) algum os ligava a estas.

b’) Se se extrema no seu tipo, o extrovertido de pensamento se descuida do próprio


físico, da própria saúde, da sua situação social (sua persona). Também faz sofrer a sua família,
não ligando para a saúde dos seus, para as finanças domésticas, para a moral do lar. Poderá

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desleixar da aparência dos dependentes, de suas necessidades e condições de moradia. Deixa-
se viver, sob todos esses pontos de vista, muito abaixo de seus iguais, de seu nível.

Na medida em que a pessoa se dedica mais intensamente a seu pensamento, a


atitude desse tipo vai ficando cada vez mais impessoal. Seus ideais, seus "sentimentos" de
verdade e justiça (e suas preocupações com eles) podem tomá-lo o tempo todo, também em
casa, sempre, como se fossem a única coisa merecedora de atenção na vida. Pode-se deixar
levar à completa ausência de sentimentos e tornar-se perfeito tirano como foi, mais ou menos,
o caso com o pai Tibault.

Este tipo é mais encontradiço entre os homens. Quando uma pessoa do sexo
masculino chega aos limites máximos da unilateralização, neste tipo de pensamento
extrovertido, mostra-se carente completamente de sentimentos nas suas atitudes, na sua vida
consciente. Esta não comporta mais sentimento de amizade, de estética, de arte. Temos aí os
indivíduos que sofreram uma "perda da alma"; sua parte de afetividade, sua anima como que
desapereceu, já não se relaciona com seu consciente, não lhe presta auxílio algum.

Se o pensamento extrovertido não é levado assim a seus limites extremos, o


indivíduo demonstra seus sentimentos, como dissemos. Estes, que sempre existem nele, mas
que estão mais ou menos reprimidos ou pouco desenvolvidos apresentam-se de vez em
quando. Intrometem-se na vida consciente, em atitudes que observamos nestes indivíduos,
irrompendo do inconsciente em explosões: a pessoa, por exemplo, chora ou demonstra raiva
ou alegria de modo pouco conveniente, pouco civilizado.

C) Quando o extrovertido pensamento se unilateraliza demais na sua atitude


consciente, o que nós, de fora, nele observamos? Quando chega à ausência de sentimento (as
explosões deste não mais se verificam), o que lhe sucede?

Entramos já a falar do tipo extrovertido de pensamento que se fez neurótico.

O sentimento, que nele (como em qualquer pessoa) sempre continua a existir,


relegado embora ao esquecimento completo do inconsciente, do qual a repressão lhe impede
a saída, não se deixa aniquilar. Cabe dizer que o inconsciente não fica bem quietinho, como se
não existisse. Existe e se manifesta; demonstra-se na vida do indivíduo, nós o percebemos na
atitude deste. Só que, agora, o sentimento apresenta um caráter negativo.

Sob que aspecto o sentimento reprimido, pertencente ao inconsciente do


extrovertido de pensamento, vai-se manifestar no modo de agir do indivíduo?

O extrovertido tipo pensamento cuja atitude na vida ficou altamente impessoal,


atitude de tirano que não dedica um níquel de sentimento aos outros, vai padecer o seu
sentimento reprimido.

Torna-se presa de extraordinária sensibilidade pessoal e fica secretamente


prevenido. Não pode suportar a mínima exceção ao que seu pensamento delineou como regra.
Se alguém se, lhe opõe aos ditames do pensamento, qualifica-o como pessoa de má vontade e
não lhe pode agüentar qualidades que tenha; quaisquer manifestações delas as vê, como
coisas negativas, preparadas para contrariar-lhe os planos.

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Essa maneira de sentir lhe dá uma linguagem cortante, ferina, agressiva. E mais: o
leva a ressentimentos, desconfiança. Passa a agir como lunático. Também se torna
enormemente conservador: quaisquer mudanças na ordem das coisas têm de ser prevenidas,
pois podem constituir oposição às suas idéias.

D) Isso, por sua vez, o vai fazendo fanático em tudo o que organiza. Já se trata de
pensar que todos o devemos seguir, porque está com a verdade. Isto, até certo ponto, era útil,
construtivo porque lhe trazia bastante energia advogar a favor de seus ideais, de suas
realizações, mas aqui já estamos a algo mais forte ou, melhor, mais radical: o fanatismo, que
faz o indivíduo esquecer qualquer moral e utilizar-se de qualquer meio para chegar ao fim que
se propõe. Na esfera científica, esse proceder explica a escotomização, em trabalhos de dados
que atrapalhariam uma tese que se deseje demonstrar.

E) Se a atitude consciente se inclina exclusivamente, e ao máximo, para o


pensamento, o próprio pensamento, que neste tipo normalmente é tão claro, coerente e
construtivo (predicativo), sofre. O indivíduo se vê levado a atitudes irracionais, arcaicas (como
a dos primitivos) e supersticiosas.

TIPO EXTROVERTIDO DE SENTIMENTO

A ele se refere o quadro 55.

A) Relaciona-se, como extrovertido, diretamente com o objeto. Esse relacionamento


se faz atendendo a uma questão de agrado ou desagrado, ao que denominamos “um juízo de
valor”.

Os indivíduos deste tipo, tendo embora sempre algo de seu, de subjetivo, como
indivíduo, quase que não o demonstram. O indivíduo extrovertido de sentimento costuma
seguir o consenso geral no tocante ao julgamento de valor, segundo o qual se liga ao objeto.

Os indivíduos tipo sentimento extrovertido seguem a moda em todos os campos:


vestem-se de acordo com ela; moram quanto a local e tipo de residência como ela esteja
ditando; decoram a casa com o que esteja na moda; os comportamentos que o seu meio tem
como desejáveis: casam-se ao que a sociedade acha conveniente, bom, certo. De outro lado, e
como consequenciadisso, desaprovam tudo o que seu ambiente não admite, acha obsoleto
deselegante, sem gosto, etc.

O relacionamento com o meio, segundo esse julgamento de valor, é intenso.


Dessarte, a pessoa vive como se auscultasse a cada instante o seu meio e respondesse
conforme a ele, dando valor positivo àquilo a que o meio dá, e negativo ao que o meio
despreza ou condena.

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Os indivíduos desse tipo se fazem "a própria sociabilidade". São acolhedores, afáveis.
Sempre buscam a palavra boa, que satisfaça aos interlocutores, que os agrade, que os deixe à
vontade. E isso não é fingido: de fato são assim, sentem assim em grande sintonia com o
ambiente. Mais: o que sentem, demonstram-no, fazem-no patente. Têm capacidade de ser
bons amigos e costumam mostrarem-se exuberantes nos afetos. Se voltados para a ciência,
optam pelas humanas.

a') Se, porém, o relacionamento sentimental intenso com o meio se exagera,


acontece que o indivíduo perde, nesse relacionamento, aquela parcela de subjetivo que
sempre existia nele. Como que se entrega demais, então, sempre através do sentimento, a
todos os objetos com que se depara. Dessa forma, dissolvem-se nos mais diferentes
sentimentos. Não mais enxergamos, nele, nada dele mesmo, nada de subjetivo. Perdemos a
idéia de quem ele realmente é, no lugar só vemos uma pessoa a se dar a todos os sentimentos
que o ambiente lhe suscita, perdida em meio a esses sentimentos, afogando-se neles.

Perdendo o seu subjetivo, o indivíduo passa a uma exteriorização sentimental não só


exagerada, como também importuna.

Tudo isso agora nos dá uma impressão de falsidade na conduta do indivíduo. De fato,
ele chega já a variar o seu julgamento de valor de momento a momento, para um mesmo
objeto dado.

B) Sentimento e pensamento não se casam, são contrários. Se me ligo ao objeto,


achando-o agradável (ou desagradável), não posso absolutamente, ao mesmo tempo, estar-
me ligando a ele de modo a dele tirar uma conclusão intelectual. Pelo fato mesmo, de
sentimento e pensamento não se casarem, no tipo extrovertido de sentimento, pensar não é
algo que o indivíduo adore; está longíssirno de o ser.

O pensamento, no indivíduo deste tipo, não é original e poderá ser expresso mais ou
menos como verdades óbvias.

Ademais, o pensamento ou é suprimido (posto simplesmente de lado para que o


sentimento continue a ter lugar), ou é reprimido (o indivíduo o procura afundar no
inconsciente, faz força para esquecê-lo, para viver como se ele não existisse). Para o indivíduo,
só existe o que é tido objetivamente como bom, o que é reconhecido como tal pelo seu meio.

b') Se o indivíduo passou a se dar todo aos sentimentos, que exterioriza exagerada e
inoportunamente, como dissemos, seu pensamento se revela infantil, arcaico e negativo.
Como infantil, levará a todos os preconceitos e considerações infantis sobre os objetos. Como
negativo, paradoxalmente, conduzirá o indivíduo, cujo relacionamento com o mundo sempre
esteve baseado em valores, à destruição desses mesmos valores.

C) Nessas condições de exagero de ligação sentimental aos objetos, de uni-


lateralização intensa da consciência nesse sentido, surgem, pois, no tipo sentimento
extrovertido, na dependência do aspecto negativo do pensamento, idéias inconscientes
negativas que destroem os valores. As melhores coisas passam então a "não ser senão" isto ou
aquilo; o "senão" aí é perfeita destruição do valor atribuído ao objeto e deparamos então com
um pensamento todo contrário ao pensamento predicativo que encontramos no

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tipoanteriormente analisado. Diante de um objeto de estudo, de uma idéia apresentada como
nova, tal seja a junguiana de arquétipos, por exemplo, limitar-se-á a considerar que ela não é
mais do que, não é senão o que já Platão dizia; em face da bondade de alguém, dirá que seus
atos não são, no fundo, senão resultado de uma necessidade, de um egoísmo seu. O indivíduo
toma desse modo, uma atitude contrária aos próprios sentimentos que antes o estavam
ligando ao objeto. A par disso, pode ver-se tomado de idéias absurdas (em relação aos
objetos). Idéias negativas, às vezes grandemente negativas, podem passar a ser o que o liga
então aos objetos que lhe eram mais queridos.

D) Chegando o tipo extrovertido de sentimento a dissolver-se sentimentalmente,


como referimos, a perder-se nos mais diversos sentimentos suscitados pelos objetos, pode
acabar em quadro franco de histeria. O pensamento praticamente se anula e só o sentimento
existe, levando a pessoa daqui para ali, continuadamente.

Este tipo psicológico se encontra mais entre as mulheres, Quando o sentimento é


equilibrado, faz pessoas altamente necessárias e uteis a sociedade, criadoras da sociedade,
poderíamos dizer.

Um exemplo deste tipo, na literatura, é Isabel, de "O fio da navalha". Por muito que
amasse o noivo, não se poderia nunca decidir a acompanhá-lo numa vida diferente da da
sociedade de que provinham. Mais tarde, fazendo já anos que não a via, o contador da estória
se julga capaz de imaginar com certeza o tipo de vida atual que ela estaria levando, sua
residência, seu ambiente social e o que teria criado para as filhas — tudo de acordo com o seu
tipo, o de seguir sempre a moda de seu meio,

TIPO PENSAMENTO EXTROVERTIDO VERSUS

TIPO SENTIMENTO EXTROVERTIDO

Geralmente não aparece como simples a distinção junguiana entre função de


pensamento e função de sentimento. Estranha-se, sobretudo a definição de sentimento como
juízo de valor, expressão a que não estamos habituados e a não referência direta a emoções e
afetos.

Embora a definição seja a que demos, apontamos, no tipo sentimento extrovertido, o


intenso relacionamento com o meio, o fato de os indivíduos desse tipo ser acolhedores, etc.
São eles, de fato, os cheios de sentimento no sentido de afeto, de emoção. Dentre eles é que
saem os líricos, grande parte dos poetas, os românticos das diferentes artes; o quinhão das
emoções, da intensidade de vida afetiva, de amor, a eles pertence, de fato. Assim, não
poderíamos classificar noutro tipo Mariana, personagem de "Sense and sensibility", de Jane
Austen, que agia sob impulsos de seu sentimento, de sua afetividade intensa e profunda.

A questão, porém, é de conceito. O conceito junguiano da função de sentimento a


faz igual a juizo de valor. Por definição, o tipo sentimento extrovertido, no seu relacionamento,
que é sempre afetivo, com o objeto, sempre o aceita ou repele, como dissemos, segundo o
meio o tenha como agradável ou não, demonstrando estar sua afetividade, na acepção geral
do termo, em grande sintonia com ambiente, a ponto de, aparentemente, mostrar-se como
decorrente do julgamento de agrado ou desagrado vigente nesse ambiente.

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A propósito, o povo da Alemanha, visto em conjunto, parece conduzir-se como sendo
de tipo sentimento extrovertido. E recordamos a história passada na casa de um intelectual
alemão que se preparava para receber uns amigos. Os primeiros a chegar supreenderam-no no
ato de pregar um quadro que dias antes lhe fora presenteado por um dos convidados. Não era
o gosto artístico que o guiava, mas o consenso geral do lugar, segundo o qual era bom agir
assim, a sociabilidade o obrigava. Ao entrar na sala, o presenteador de ontem deveria logo
ver, em boa posição, a obra ofertada.

Já o tipo pensamento extrovertido é sempre aquele em que o predomínio é do


intelecto altamente "classificante", que ordena, põe em classes, em categorias objetivas, sem
levar em conta o sentimento, em qualquer sentido. Lembra-nos, a propósito, num exagero, um
relato sobre um namorado desse tipo que, junto à moça, em vez de se deixar levar por
sentimentos amorosos, punha-se, de preferência, a observar e classificar-lhe determinada
pequena lesão cutânea.

TIPOS RACIONAIS E TIPOS IRRACIONAIS

Procuramos esquematizá-los no quadro 56.

O pensamento leva, dissemos, a uma conclusão intelectual sobre o objeto, conclusão


relacionada com a inteligência, o entendimento. Esta se faz mediante a razão, o raciocínio.

O sentimento também envolve sempre uma razão, de agrado ou desagrado (Razão


faculdade de conhecer e julgar, segundo os dicionários).

Assim, ambas essas funções estão relacionadas com o intelecto, isto é, o todo das
faculdades intelectuais. Jung as chama de funções racionais, denominação que em

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váriasocasiões se viu obrigado a explicar porque não se demonstra facilmente aceitável;
mantem-se, entretanto, a convencional na linguagem junguiana.

Decorrendo do fato de ambas as funções acima serem ditas racionais, os tipos de


pensamento e de sentimento (quer extro quer introvertidos) são chamados tipos racionais.
Assim, vimos os tipos racionais extrovertidos.

Passaremos agora aos tipos extrovertidos de percepção (ou sensação) e de intuição.

Sensação e intuição são funções que não decorrem de raciocínio, de razão. Atêm-se a
percepções conscientes, que vêm pelos sentidos (visão, olfato, etc.) no primeiro caso; a
percepções que vêm pelo inconsciente, aparecendo sem que saibamos exatamente como, no
segundo. São chamadas, por isso, de funções irracionais.

Os tipos de percepção e de intuição quer sejam extro quer sejam introvertidos, são
tidos como tipos irracionais. Vejamos como se mostram nos ex-trovertidos.

TIPO EXTROVERTIDO DE PERCEPÇÃO

Vem esquematizado no quadro 57.

A) Como qualquer tipo extrovertido, o extrovertido de percepção se relaciona


diretamente com o objeto. O que o liga a esse é a sensação, o que lhe chega ao psiquismo via
órgãos dos sentidos.

É lógico que todosnos ligamos ao objeto a partir da percepção deste, e, assim, a


partir dos nossos sentidos. Mas o tipo pensamento extrovertido utiliza-se do que percebe
(através dos sentidos), no objeto, para raciocinar e elaborar uma conclusão intelectual. O tipo
sentimento extrovertido, mal percebe (pelos sentidos) o objeto, já se põe a julgá-lo como tal
ou qual, a estabelecer o valor dele, e é graças a esse julgamento que nele se interessa. Ora, o
tipo extrovertido de percepção (ou sensação) percebe o objeto e...pára nessa percepção,
importando-se tãosomente com a sensação que o objeto lhe causa. Não tira conclusões
intelectuais; não o julga como agradável ou não, no estilo do tipo sentimento. Percebe o
objeto em si: quanto a seu gosto, no caso de alimentos; quanto a seu odor; quanto ao que
oferece ao tacto; quanto à sua sonoridade; quanto à estética a que se possa prestar. Mesmo
frente a objetos que noutros suscitariam sensações muitíssimo abstratas, mantem-se fiel à
objetividade das suas. Vale para ele, como guia, sempre, aquilo que lhe "cai sob os sentidos".
Assim, por exemplo, na música se interessará menos por ela em si do que pela qualidade do
som de cada instrumento e pela sonoridade do aparelho que a reproduz.

O indivíduo deste tipo como que degusta tudo o que se lhe depara — com os olhos,
com os ouvidos, com o paladar, com o olfato, com o tacto. Sabe descrever minuciosamente os
objetos, segundo o que os sentidos deste podem apreender. Para ele só tem sentido o
concreto, o material; e, ama os prazeres desta ordem.

O tipo extrovertido de percepção tem sentido seguro da realidade objetiva e sabe


gozar a vida sem ver nela complicações, de um modo prático. Adapta-se facilmente às
circunstâncias por perceber claramente o lado concreto, objetivo das mesmas. Põe-se em face

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da vida, diríamos, como um bom xadrezista diante do tabuleiro; vê tudo "branco no preto",
tudo lhe é como que palpável. Por essa facilidade em percebê-los pelos sentidos, adora
experimentar os objetos despreocupadamente e, nessas experiências, vai deixando a vida
correr.

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Pertecem a esse tipo, na maioria: os artistas, os estetas; os que sabem comer,
apreciando comidas e bebidas, comendo e bebendo tendo em mente o prazer nessa
apreciação, como um “gourmet”.

a’) Exagerando-se nas experiências com os objetos, este tipo passa a desrespeitá-los
e violentá-los como se menosprezasse a existência deles em si, embora continua a eles ligado.
Só as sensações interessasm, nem ele mesmo, indivíduo, já importa.

B) Para o indivíduo deste tipo, tudo o que vem do interior, da profundeza do


psiquismo, tudo o que possa ser intuído, parece doentio e condenável. (A intuição é a antípoda
da percepção e praticamente não tem lugar na consciência do indivíduo).
b’) Se o indivíduo se unilateraliza demais, se se dá exageradamente à experiência
sensorial dos objetos, deixando como que nula a intuição, pode-se tornar vítima de uma
credulidade que surpreende. Então, para qualquer malestar psiquico, por exemplo, pode achar
que a causa venha sempre dos objetos, das circunstâncias externas – do clima, digamos.
C) Se a unilateralização chega a ser extrema, o indivíduo pode passar a desvalorizar
os próprios objetos.

E o que acontece à intuição, nesse caso de extrema unilateralização da consciência,


neste tipo?

Ela se irá projetar sobre os ojbetos. E o indivíduo, que deixava a vida correr, agora
passa a se mostrar cheio de medos, ciúmes e obsessões; tudo isso com caráter de grande
irrealidade.

D) Dissemos que o tipo extrovertido de percepção acha que tudo o que vem de
dentro é doentio. Pois bem, se exagera na sua vida consciente, fundamentada na percepção
sensorial dos objetos, pode passar a apresentar uma moralidade escrupulosa e ridícula. Pode
também se dar a auma religiosidade primitiva, supersticiosa e mágica.

E) Levando a extremos sua experiência com os objetos, deixando de respeitá-los,


passa a um gozador grosseiro da vida, ele que a gozava sempre com refinamento. Se esteta,
por exemplo, passa a sê-lo sem escrúpulos.

Como indivíduo deste tipo encontramos, na literatura, o tio Elliot, em “O fio da


navalha”. Tinha um gosto estético apurado, gosto apurado para se trajar, sempre sabia qual a
melhor bebida para determinada ocasião sempre estava alerta para a convivência destas ou
daquelas pessoas em dada reunião. Encontramo-lo ainda na moça tipo sensação em “Sense
and sensibility”, de Jane Austen. Aparentemente muito racional, como às vezes o tipo de que
estamos tratando pode parecer, porque atenta sempre para a realidade das coisas, Elinor
tinha muito a visão exata da sociedade em que vivia e o sentido prático de como uma
senhorita se devia conduzir dentro dela e em relação ao sexo oposto.

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TIPO EXTROVERTIDO DE INTUIÇÃO

Pode ser analisado no quadro 58.

A) Liga-se diretamente ao objeto, dele tendo, via inconsciente, uma percepção


quanto às suas possibilidades, por exemplo, comercial ou politicamente falando. Tem “faro”
para essas possibilidades; partindo do objeto conquista, graças a isso, o mundo exterior.

Os indivíduos deste tipo costumam ir de possibilidade em possibilidade,


experimenta-as todas, provando-as. É-lhes difícil ficar labutando em algo que tenham
começado ou permanecer numa situação já conhecida, explorada. Estão sempre em busca de
coisas novas – novas possibilidades e, assim deixam o que previram e começam, para que
outros o deselvolvam, acabem de estabelecer e façam progredir; não têm a paciência de
esperar que sua intuição dê frutos e, muitas vezes, chegam ao fim da vida sem uma coisa
terminada por eles mesmos, após terem principiado inúmeras.

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Um indivíduo deste tipo nos disse uma vez, referindo-se a trabalhos intelectuais em
que estava muito empenhado: “Vou fazendo estes experimentos, estou inteiramente neles,
mas.... mas o meu juiz interior nem me diz o que ele está querendo com isso tudo; só quando
eu chegar ao fim da coisa é que vou saber direito o que ela está sendo agora”. Com “meu juiz
interior” ele se referia a sua capacidade de pensamento. Felizmente no caso esta era muito
boa e, de tempos em tempos, a pessoa era capaz de parar e formular seus achados e suas
ideias, obtendo, assim, um resultado útil de sua intuição tão viva.

Entre os indivíduos deste tipo encontramos muitos que lançam ideias nos diferentes
campos do conhecimento humano, bem como os que descobrem os discípulos capazes e os
auxiliam no início de suas carreiras. Fazem parte deles, em geral, políticos, comerciantes,
financistas. Lembramos, com a ele pertencente, Gauguin. Primeiramente grande financista,
abandonando esse ramo se dedica à pintura de maneira “sui generis”, prevendo nela
possibilidades inteiramente novas, a cuja realização de fato chegou.

Talvez este tipo seja mais comum entre as mulheres.

a’) No seu afã de buscar possibilidades novas, o intuitivo extrovertido não tolera
nada que o embargue e segue, na sua vida, uma moral que lhe é inteiramente própria, fiel ao
seu consciente intuitivo.

B) O intuitivo extrovertido como que não enxerga o objeto em si: a percepção


sensorial deste é pouco desenvolvida nele, e não é absolutamente o que importa no seu
relacionamento com o mesmo. Para com o objeto e as sensações que este provoca demonstra
“uma soberana superioridade”.
b’) Se, porém, o consciente se extrema na continuada busca de possibilidades novas,
o inconsciente se rebela e vinga.

C) Temos então que o indivíduo se passa a ligar indevidamente ao objeto, a partir


das sensações que este suscita, caindo geralmente vítima de sintomas obsidentes de
hipocondria, de fobias e de sensações físicas absurdas. Não raro se verifica a ligação com uma
pessoa do sexo oposto, pessoa inconveniente para o indivíduo, mas que o prende porque lhe
suscita sensações de um tipo arcaico.

TIPO EXTROVERTIDO DE PERCEPÇÃO VERSUS

TIPO EXTROVERTIDO DE INTUIÇÃO

Como entre os tipos extrovertidos racionais, aqui também, entre os irracionais, não
parecem fáceisà diferenciação. Entende-se, por se tratar, quanto a ambas as funções —
percepção e intuição, de uma sensação.

O tipo sensação extrovertido é guiado pela percepção sensível, e seu gosto, digamos,
se satisfaz com a consecução desta. O tipo extrovertido de intuição, ainda quando parta de
uma percepção sensível, como que não a percebe — ela o toca, mas via inconsciente, e ele
não tem em mira consecução alguma de prazer sensorial, mas só vê e busca possibilidades que
lhe sejam novas.

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Procuraremos esclarecer melhor a questão considerando dois extrovertidos, um de
sensação e outro de intuição, ambos diante de um copo de “whisky”. O primeiro estará
preocupado simplesmente em degustá-lo, altamente contente por ser um “whisky ’ dos
melhores, do mais fino sabor. Já o segundo, apenas o estarátomando para experimentar se, à
custa dessa bebida, algo se lhe operará no cérebro, que lhe possibilite uma maior facilidade
de ter ideiaspara resolver os problemas científicos que tem sobre a mesa; busca tãosomente
as possibilidades de elaborações mentais que o álcool, a ele particularmente, talvez irá
fornecer.

2. EXTROVERSÃO E INTROVERSÃO

Estão esquematizados no quadro 59.

Analisamos os diversos tipos extrovertidos, cuja característica comum, a que marca


a extroversão, é a de se ligarem diretamente ao objeto. Em contraposição a eles temos os
introvertidos, que não se dão ao objeto, mas dele simplesmente se abstraem para deixar que
o subjetivo neles funcione.
Numa extroversão extrema, o indivíduo se entrega de todo ao objeto. Numa
introversão extrema, o indivíduo chega a fugir do objeto.
O quadro referido dá uma ideia das diferenças entre os indivíduos de uma e de outra
atitude.

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3. OS TIPOS INTROVERTIDOS

Têm todas as características colocadas no quadro 60.

Para nós, de um mundo (o ocidental) em que impera a extroversão, os diversos tipos


introvertidos talvez geralmente pareçam constituir, mais do que os diversos tipos
extrovertidos, uma família, pelas semelhanças que a nossos olhos apresentam uns com os
outros, semelhança que não é outro elemento senão o subjetivo, neles tão operante, que lhes
confere. E, ao passo que para cada um destes alargamos o esquema, eis que pudemos juntar
todos os introvertidos num só, inspirados num esboço a nós apresentado pelo Dr. Alfredo
Habib.

TIPO INTROVERTIDO DE PENSAMENTO

A) Como todo introvertido, demonstra reserva diante do objeto. Partindo deste,


não volta a ele. Faz observações de cunho fortemente subjetivo.

Este tipo se dedica ao conhecimento do objeto em profundidade. Descreve não as


características objetivas que este ofereça à apreciação, mas as ideias que faz ocorrem nele,
indivíduo, e o desenvolvimento das mesmas.

Cria idéias gerais. Partindo do objeto, não se importa em catalogá-lo, mas faz teorias
e hipóteses de ordem geral, apresenta opiniões novas a respeito dos fenômenos. Os fatos são
para ele apenas provas; não se incomoda absolutamente em reconstruir os dados concretos,
mas busca as razões deles, o fundamental das coisas. Jung, enquanto tratava da questão de
sua própria anima, conforme descreve na sua autobiografia, usava seu pensamento
introvertido. Não que ele fosse indivíduo deste tipo; mas, na ocasião, utilizava-se de seu
pensamento e funcionava como um tipo introvertido de pensamento.

Neste tipo, que gostamos de chamar o dos “abstratos”, encaixam-se muitos


matemáticos, físicos, filósofos. Quanto aos últimos, nosso conceito comum de filósofo é
exatamente o do filósofo introvertido de pensamento, cujo melhor exemplo é o de Kant. Não
obstante, lembramos que pode existir também uma filosofia extrovertida, baseada no
pensamento extrovertido. Assim, uma menina de oito anos, comentando um conhecido, dela
dizia: “Éum vagabundo”. “Por quê?”,lhe perguntaramao querespondeu: “Todo dia de tarde,
quando todos estão no trabalho, ele está aí na casa em que o hospedam, não vai a serviço
nenhum”. Essacriança, observando o indivíduo, notara-lhe a atitude e o encaixara numa
classificação que apreendera do seu meio, a de trabalhadores e vadios. Desenvolvera um
pensamento de tipo extrovertido. Ora, fundamentada nesse tipo de pensamento, toda uma
filosofia (extrovertida) pode existir.

B) No tipo de que estamos cuidando, o sentimento é a função menos


desenvolvida, ou mais reprimida.
Quando não reprimido, o sentimento, neste tipo, é forte, genuíno, mas selvagem,
podendo levá-lo a atritos com os que o cercam.

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b') Se o consciente se unilateraliza demais (sempre na linha do pensamento
introvertido), as relações afetivas se podem tornar fantásticas, de caráter contraditório,
sem que as possamos compreender. O indivíduo então passa a se mostrar muito emotivo,
sensível, intolerante a críticas, amargo. Começa a ficar desconfiado e a adotar medidas de
autoproteção. Comumente apresenta medo de se relacionar com o sexo oposto.

C) No caso de extrema unilateralização da atitude consciente, desaparece a


criação de ideias: as ideias passam a ser criadas em atenção simplesmente a elas mesmas,
mostrando-se estéreis, não exprimindo mais nada. Nesse caso ainda, a linguagem se vai
tornando cada vez mais pessoal e os produtos do indivíduo são marcados pela rigidez que o
passa a dominar; sua capacidade de expressão se reduz demais.

TIPO INTROVERTIDO DE SENTIMENTO


A) Aqui nos deparamos com indivíduos silenciosos, pouco abordáveis. Pes-
soalmente os chamamos “os distantes”. O sentimento neles é fino, mas fica dentro deles, que
se mostram como muito secretos. O sentimento que têm, mas que não exteriorizam, dá-lhes
um ar de superioridade; ao redor cria-se uma atmosfera de domínio e sufocação.

São predominantemente afetivos, mas de um afeto e de emoções que ficam dentro


deles, que não se demonstram como tal, que não se patenteiam aos olhos dos outros. São
tidos como “secos”.

O tipo é mais comum entre as mulheres. E um homem extrovertido pode ter o seu
inconsciente tocado por esse modo de ser da mulher introvertida de sentimento, via
inconsciente (inconsciente dele), tornando-se fascinado por ela.

Embora encontradiço no sexo feminino, o exemplo desse tipo que nos ocorre é o de
um homem, o médico em “The painted veil”, de W. Somerset Maugham. Tratava-se de
indivíduo calado, reservadíssimo, cujos sentimentos a esposa nunca pôde captar.

B) O pensamento ou é pouco desenvolvido, ou é a função mais reprimida neste


tipo.

b’) Se o consciente se unilateraliza muito, cuidando só do sentimento, a função de


pensamento faz-se sentir de modo negativo, não útil, prejudicial. O indivíduo se passa a
preocupar então com o que os outros pensam a seu respeito. Pensa vulgaridades. Seu
pensamento começa a arquitetar maldades, a pessoa fica à mercê de imaginação de intrigas
secretas. Na obra citada, de Somerset Maugham, Walter, que em face de traição da esposa
parecera superior ao fato, arquitetou toda uma situação de suicídio e possível morte desta,
solicitando um trabalho em zona de cólera. Realmente ali encontra a sua morte, e seu último
sentimento, introvertido, delicado, difícil de demonstrar, está implicado no saborear o final de
um poema de Goldsmith.

C) Se a unilateralização consciente é extrema, o indivíduo, de preocupado com o


que os outros possam estar pensando, passa a uma atitude defensiva, sempre levado pelo
pensamento. Nessa atitude, abusa de tudo, até da virtude faz elemento utilizável de qualquer

101
maneira para sua defesa. Então fica presa de suspeitas. Já espia, espreita, trama, tudo para se
defender. No íntimo é vítima de uma ameaça, que sente, de inferioridade. E isso tudo o leva a
rivalidades enormes, incompreensíveis. Tal estado de coisas o pode esgotar.

TIPO INTROVERTIDO DE PERCEPÇÃO (OU SENSAÇÃO)


A) O indivíduo deste tipo se mostra calmo e passivo. Não conseguimos prever
que impressão o objeto provocará nele.

Sempre procura baixar um pouco o entusiasmo grande que note, nos outros, a
propósito de qualquer coisa. Ao contrário, se o objeto é menos valorizado, busca achar algo
que o mostre a melhor luz. Age sempre neutralizando os efeitos do objeto; é um indivíduo
“tampão”, costumamos pessoalmente dizer.

Nunca se sabe o que, ao certo, julga a respeito de um objeto. E o seu julgamento,


que nos fica, assim, sempre ignorado, em geral nem o indivíduo mesmo o conhece.

O objeto tem algo que ver com o indivíduo, no caso? É como se não tivesse e o
mundo, para ele, fosse uma comédia.

Guia-se pela percepção sensível subjetiva que o objeto lhe provoca. Sua atitude
tende a ser deprimente.

— Em “O fio da navalha”, o narrador se comporta como acabamos de descrever.


Simplesmente observa como Isabel age. Não a critica nem quando, maldosamente, ela
prepara o ambiente para que a noiva de seu ex-noivo, regenerada, recaia no vício. O próprio
Autor, em “Summingup” altamente biográfico, diz que, em grande parte, passou a própria
vida como um espectador que a visse desenrolar-se num palco.

— Um cliente nos descreveu cuidadosamente esse modo de ser, dando-nos um


“flash” de sua vida: Plenamente consciente, estava em determinado lugar, em contato com
outros. Mas era como se, ao mesmo tempo, estivesse de fora, observando aos outros e a si
mesmo, no desenrolar da conversação e das atitudes, num teatro. De modo geral, relata-nos,
sente tudo como um drama.

Nestes indivíduos geralmente encontramos dificuldade de expressão.


B) Nada mais contrário à percepção do que a intuição. Esta é pouco desenvolvida
ou reprimida nesse tipo.

b’) Se o consciente (que vive da percepção) se unilateraliza muito, o inconsciente se


mostra como negativo, à custa dessa intuição. O indivíduo vê então só o lado menos bom da
realidade. E o vê mesmo como negro, como o pior que possa existir. É como se procurasse
enxergar tudo preto.

Nesse caso também a já precária capacidade de expressão do indivíduo vai


diminuindo, cada vez mais. Neste tipo, aliás, não é raro que, excetuando-se a percepção, as
funções todas se mostrem bastante inconscientes.

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C) Se a unilateralização consciente é extrema, o indivíduo é levado a uma
neurose obsessiva em que se notam essas idéias do pior, em tudo. Escuta-se falarem de
qualquer reforma, seja urbana, seja administrativa, logo é tomado de receio e da ideia
obsidente de que ela o vai atingir, prejudicando-o. Tenha ele grande riqueza nos bancos, se
ouve que uma geada prejudicou a região onde tem uma fazendinha, já se imagina
completamente arruinado.

Ouando neurótico, o indivíduo costuma também apresentar sintomas histéricos, mas


estes dificilmente se deixam observar porque a impressão geral que ele dá é de grande
astenia.

TIPO INTROVERTIDO DE INTUIÇÃO

A) É como se o objeto não o tocasse. O toca, sim, mas fazendo "deslanchar lhe”
imediatamente o subjetivo numa percepção, via inconsciente, desse próprio objeto. É como
se este não fosse percebido como tal. O resultado da percepção são fantasias, sonhos. É como
se o mundo concreto não existisse para ele. Costumamos, pessoalmente, chamá-lo
“estratosférico”.

— Lembramos um relato de um cliente deste tipo. O rapaz estava sentado. Lá pelas


tantas se surpreendeu “vendo” um homem a se afogar; e ficou a acompanhar o
acontecimento. Até que percebeu que estava, ele próprio, em grande angústia, tenso demais,
rígido e quase sem respirar.

O caminho explicativo é inverso, e o fazemos baseados em estudo de José Angelo


Gaiarsa: O moço entrara em estado de tensão muscular e angústia, passando a respirar
pouco. Sua pouca respiração deu-lhe o “clic” para a fantasia do afogado (Um afogado sofre na
sua respiração). Em vez de perceber simplesmente a diminuição da amplitude de seus
movimentos respiratórios, ou a sua angústia, teve a imagem da pessoa se afogando.

— Outro exemplo desse modo de perceber as coisas pode-se ter em Walt Disney,
a propósito de seu filme Fantasia. As músicas ali tocadas o fizeram sonhar todo o mundo que
vimos passar na tela; à custa delas Disney viu e sonhou todas as cenas extraordinárias que só
nele elas suscitaram.

— Exemplo de indivíduo agindo como intuitivo introvertido é ainda Klee ao intuir


a anima em “A virgem na árvore” (quadro 23) e a sombra arquétipa em “O príncipe africano”
(Quadro 15). Outro, o personagem principal de "O fio da navalha”, Larry, que intuiu toda a sua
possibilidade de progresso psíquico, que pressentia o seu self; foi numa homenagem a seu
tipo que o livro foi escrito.

Vem ao caso também o fato de uma moça, que tendo tido uma primeira tontura em
sua vida, para explicar ao médico o sintoma iniciava o relato meio poético de uma imagem
que lhe vinha à mente, quando o facultativo a interrompeu dizendo: “O que a senhora teve foi
uma tontura” — e ela sorriu percebendo a disparidade entre a objetividade, a maneira
concreta e direta de descrever dele e a sua própria, tão subjetiva, tão da imaginação, tão de
marcante intuição introvertida.

103
— E não podemos deixar de citar Jung, que se tinha, ele mesmo, com intuitivo de
introversão. Foi sua intuição introvertida que o fez perceber, como vimos, a existência do
inconsciente coletivo e da anima.

O intuitivo introvertido vive as suas fantasias, os seus sonhos; é, em geral um


sonhador, e pode simplesmente sonhar, sem nada fazer dos seus sonhos; ou é um visionário.
Acabamos de ver, entretanto, como pode mostrar-se um artista ou um psicólogo nato, a
intuição pondo-o facilmente em relacionamento com os arquétipos. Quanto aos visionários,
entre eles podemos encontrar os com grande capacidade de previsão de fatos futuros, como
foram os profetas; são geralmente cheios de misticismo.

Este tipo não costuma ser dado a problemas morais. Quando estes nele se
manifestam, mostram-se muito particulares, inteiramente relacionados com as imagens que o
indivíduo tem, e aptos a se resolverem só de acordo com elas.

B) Diametralmente oposta à intuição, temos a percepção.

Esta, neste tipo, apresenta-se no aspecto extrovertido, ou seja, como a tem o tipo
extrovertido de percepção. Vem traduzida, assim, por uma ligação direta ao objeto. Só que
não se tem aqui aquela ligação evoluída, fina, que nos deu, no extrovertido de sensação, o
degustador excelente de tudo o que vem pelos sentidos.

Aqui, no introvertido de intuição, a percepção é extrovertida, mas não a do artista


ou esteta. O indivíduo pode ser artista, como em exemplos que citamos, mas o é à custa da
intuição, que é o que lhe rege a vida consciente e o dirige na vida.

A percepção deste tipo, extrovertida (ligada diretamente ao objeto), é de caráter


inferior, primitiva. O indivíduo se liga ao objeto de modo meio impulsivo, sem medida. Às
vezes estranhamos mesmo, nesse tipo habitualmente tão sonhador, tal caráter no seu
relacionamento com pessoas ou coisas. O indivíduo, entretanto, necessita disso; não fora
assim, se tornaria por demais aéreo, vivendo demais nas nuvens. Esse relacionamento lhe
equilibra a consciência cheia de fantasias e sonhos.

b’) Se a consciência se unilateraliza em extremo, o indivíduo, de aéreo e sonhador


que era, vivendo nas alturas, passa a ter obsessões em ligação com os objetos, preocupações
doentias em relação a seu físico, a seus órgãos. Entra em neurose obsessiva, apresenta
sintomas hipocondríacos. Neurótico, costuma apresentar hipersensibilidade dos órgãos
sensoriais. No raro, se vê presa de ligação excessiva a certas pessoas e objetos.

104
DEFINIÇÃO DO TIPO PSICOLÓGICO. CONHECIMENTO DOS TIPOS
PSICOLÓGICOS. UTILIDADE PRÁTICA. TIPOS E SUBTIPOS.

DEFINIÇÃO DO TIPO

Descrevemos cada tipo sumariamente. Essa descrição corresponde mais ou menos a


uma caricatura: aos dados positivos foi dado ênfase; aos negativos, também. Dificilmente um
indivíduo qualquer se encaixará bem, completamente, numa das descrições feitas. O “tipo” é
sempre uma espécie de paradigma que pode orientar numa classificação dos indivíduos.

A descrição de Jung para cada tipo se baseia na atitude do consciente: o indivíduo é


chamado, por exemplo, de extrovertido de pensamento quando, tendo a característica
comum aos extrovertidos, de ligação direta aos objetos, demonstra que essa ligação se faz,
nele, à custa da função de pensamento. No caso, pois, a sua vida consciente se orienta
segundo o pensamento.

Mas cada indivíduo tem, além do seu consciente, o seu inconsciente. E, no caso do
tipo pensamento, quer extro quer introvertido, é no inconsciente que fica o sentimento (a
função oposta). Fica lá ou porque pouco desenvolvida, não sendo utilizada (conscientemente,
para a adaptação do indivíduo à vida) ou porque reprimida.

Acontece, porém, que temos visto que o inconsciente não é morto, mas age e se
manifesta. Assim, vimos como é que, ainda no exemplo dado (no tipo de pensamento),
funciona o sentimento, a função não utilizada conscientemente.

Ora, então o indivíduo tipo pensamento também age segundo o sentimento?

Sim. Aqui e ali, este emerge e aparece na conduta do indivíduo, e o apreciamos


então, da maneira que descrevemos tratando desse tipo.

Mas justamente esse fato pode dificultar-nos a classificação do indivíduo como tipo:
se observamos a sua vida consciente, nela veremos o pensamento; se o captarmos pela vida
comandada pelo inconsciente, veremos o sentimento.

Repetimos que a classificação dos tipos se faz segundo a vida consciente do


indivíduo; mas não é sempre fácil fazer-se a separação entre que atitudes de um indivíduo lhe
são ditadas pelo consciente e que atitudes o são pelo seu inconsciente.

Uma dificuldade a mais e, ao mesmo tempo, anterior, diz respeito a se catalogar um


indivíduo segundo a atitude, isto é, como extro ou como introvertido.

Em todo indivíduo existem os dois elementos, extroversão e introversão. Tomemos


um introvertido. Ele pode, num meio restrito e íntimo, numa roda em que se fale de algo que
o interesse, comportar-se extrovertidamente dando, a quem o observe, a idéia não verdadeira
de que habitualmente ele se relacione diretamente com o objeto.

Nem sempre é simples, portanto, definir-se a que atitude e a que tipo o indivíduo
pertence.

105
CONHECIMENTO DOS TIPOS PSICOLÓGICOS — UTILIDADE PRÁTICA

Falamos de quanto é útil conhecermos nossa própria sombra, em vez de a


ignorarmos ou negarmos, vivendo a projetá-la à nossa volta. De grande utilidade é, também,
ter-se a noção dos tipos psicológicos.

Antes de tudo, se chegarmos a conhecer nosso próprio tipo, já nos teremos


conhecido um bocado e nos poderemos compreender bem melhor. Depois, se conhecermos o
tipo psicológico daqueles com quem convivemos, poderemos procurar tornar mais fácil nosso
inter-relacionamento.

O conhecimento do tipo psicológico nosso mesmo e dos outros pode ser difícil de
adquirirmos. A só idéia, porém, de que cada qual de nós se dirige na vida segundo uma
função, pode fazer-nos duplamente mais compreensivos, em relação aos outros:

— Primeiro, porque nos poderá levar a ponderar que o que nos conduz a encarar
isto ou aquilo (o objeto) de dada maneira, pode não ser o mesmo motivo que liga A ou B ao
mesmo objeto. Considero que A ou B poderão reagir ao objeto de modo diferente do meu. Já
não cabe que eu ache que a minha maneira de me pôr em contato com o objeto, isto é, o meu
pensar, sentir, perceber ou intuir deva ser a regra de conduta de qualquer outro indivíduo
frente ao objeto dado. Pelo contrário, sei que se reajo a ele com meu pensamento ou pelo
meu sentimento, outra pessoa, não racional (que não aja pelo pensamento nem pelo
sentimento, que não busque conclusões intelectuais nem seja judicativa) só poderá reagir
mediante a sensação, digamos estética, que o objeto lhe cause ou mediante as possibilidades
que perceba que, à custa dele, poderá conseguir.

— Segundo, o conhecimento de que nem todos se regem pela mesma função


pode, ainda, levar-nos a considerar que o que é bom para mim pode não ser o bom e o
desejável para alguém de tipo psicológico diferente; ou pode não lhe ser bom e agradável da
mesma forma. Ora, se queremos ser bons e úteis para o próximo, devemos atentar ao que lhe
convém segundo a sua psicologia peculiar do consciente, e não segundo a nossa.

TIPOS E SUBTIPOS

A FUNÇÃO PRINCIPAL E A FUNÇÃO INFERIOR

Cada tipo, dissemos, define-se pela função segundo a qual se dirige a vida
consciente do indivíduo. E em cada esquema dos tipos extrovertidos colocamos, à direita e no
alto, uma representação gráfica do tipo, com essa função na zona superior de um retângulo
que representaria um corte longitudinal do psiquismo do indivíduo. Essa representação
corresponde ao fato de que o consciente, simbolicamente, está na superfície.

Mas, para cada tipo, apontamos também qual a função menos desenvolvida ou
reprimida, de preferência; e a colocamos, no gráfico, no quarto inferior do retângulo, por esse

106
caráter mesmo que tem, de ser menos desenvolvida (ou reprimida) e, assim, mais
inconsciente (estando mais “no fundo”).

Assim, no caso do tipo de pensamento extrovertido tivemos, na porção mais


superior do retângulo, a representação da função do pensar e, na mais inferior, a do sentir. E
esta representação vale também para o tipo de pensamento introvertido. Só que, nesse caso,
teríamos colocado o gráfico à esquerda, sendo esse lado, o esquerdo, símbolo da introversão,
ao passo que o direito o é da extroversão.

À primeira função — a que domina a vida consciente do indivíduo — chamamos de


função principal, superior ou dominante. À última, a menos consciente (a menos desenvolvida
ou a que se reprime, de preferência), de função inferior ou quarta função. Elas sempre são
contrárias, como foram consideradas, embora sem os qualificativos de principal e inferior, na
descrição dos tipos psicológicos.

A FUNÇÃO AUXILIAR

Pois bem. Consideramos para cada tipo, a função principal e a inferior. Mas, no
meiodo retângulo, entre essas duas, onde deixamos vazio, o que haverá?

Cada um de nós tem em si as quatro funções, desenvolvidas embora em graus


diferentes.

Em cada indivíduo, a função dominante é ajudada por uma outra. Na parte superior
do quadro 61representamos da esquerda para a direita, os tipos pensamento, sentimento,
percepção e intuição, destacando-lhes a função principal e a inferior. Deles isolamos, na parte
média do quadro, o tipo pensamento. Quer ele seja extrovertido, quer introvertido, o seu
consciente se dirige pelo pensar. A função que lhe ajuda o pensamento não poderá nunca ser
o sentimento: já dissemos que este é o antípoda em relação àquele, e o pensamento é
justamente, no caso, a função inferior. O pensamento deverá, portanto, ser ajudado ou pela
percepção ou pela intuição, como de fato se dá. Teremos, pois, dois subtipos para o tipo
pensamento, como se vê ainda no quadro 61.

À função que ajuda a principal damos o nome de função auxiliar ou secundária. É


sempre de caráter oposto ao da função dominante: se esta é racional (pensamento ou
sentimento), a auxiliar será irracional (percepção ou intuição).

Ao tipo de pensamento que tem, como auxiliar, a percepção, chamamos “tipo


pensamento-percepção” quer ele seja extro quer introvertido. Ao tipo de pensamento que
tem como função auxiliar a intuição damos, nas mesmas condições, o nome de “tipo
pensamento-intuição”.

E assim, nós que tínhamos os quatro tipos, que descrevemos, chegamos a oito
subtipos, conforme se vê no quadro 62, quer para os extrovertidos, quer para os
introvertidos, somando dezesseis ao todo.

107
108
A TERCEIRA FUNÇÃO

A terceira função, que se segue, em grau de consciência que dela temos à função
auxiliar, é sempre a única das quatro que ficou faltando nas cogitações acima; a ela podemos
chegar por exclusão. Aparece representada nos subtipos pensamento, no quadro 61.

Na sua genialidade, Jung, pertencente ele próprio, como qualquer indivíduo, a


determinado tipo psicológico, viu tudo o que temos considerado sobre os diferentes tipos e as
quatro funções. Abarcou com olhar que antes ninguém tivera, carregado de compreensão, a
generalidade dos tipos e subtipos psicológicos, tanto nos introvertidos como ele, quanto nos
extrovertidos. E, com os seus Tipos, trouxe uma nova dimensão à psicologia.

Jung era um introvertido de intuição. Se o seu consciente se guiasse exclusivamente


por essa função, podemos imaginar que ele não teria sido senão o campo de ação, de
demonstração da atuação dos arquétipos que experimentou funda e vivamente, como foi o
caso com a sua anima, com a qual se confrontou segundo mal referimos. Sua função auxiliar,
entretanto, a de pensamento, de um pensamento de grande força, permitiu-lhe trabalhar
racionalmente sua intuição enorme. Assim, como introvertido de intuição-pensamento, pôde
individuar- se sozinho e deixar-nos, a par de suas cogitações psicológicas que constituem sua
vasta obra e a par dos seus Tipos psicológicos, que são um monumento, a sua preciosa
autobiografia.

109
A INDIVIDUAÇÃO SOB O PONTO DE VISTA DO TIPO PSICOLÓGICO (E DAS QUATRO
FUNÇÕES PSÍQUICAS)

A psicologia junguiana nos mostra o psiquismo sempre como existindo na base de


uma situação polar. De um lado está o consciente, com a persona; de outro, o inconsciente,
com a anima a equilibrar a vida da consciência, a atitude desta. De um lado atua a função
principal, altamente consciente; de outro, a função inferior, pouco desenvolvida, primitiva,
pouco conscientizável, mas tendo de aparecer nas atitudes do indivíduo aqui e ali, não
tolerando ser reprimida e como que se vingando da repressão, se esta ocorre, e levando o
indivíduo, então, à neurose.

Ora, também extroversão e introversão existem em todo indivíduo, já dissemos. E


são também como dois polos, uma compensando a outra.

Dizemos que o indivíduo é extrovertido quando a sua vida consciente se rege pela
extroversão — e esta estará relacionada intimamente à função dominante do indivíduo, que
será, por exemplo, a do sentimento (extrovertido). Mas então, no mais fundo do indivíduo,
estará funcionando a introversão.

Lembramos, a propósito, repetindo-nos embora, pois já o citamos alhures, o fato da


visita de duas amigas a uma exposição de artesanato, uma marcantemente extrovertida e
outra, introvertida de pura água. Esta se deixou convencer a custo, e só entrou após grande
hesitação enquanto a primeira, mal vira o cartaz, já quisera ir conhecer aquele novo lugar.
Uma vez lá dentro, em dois minutos a extrovertida já se satisfizera e queria sair. Diante da
resistência da introvertida, que agora se extrovertera dando-se aos objetos que via num
nunca acabar de observá-los e apreciá-los, a primeira passou a cuidar apenas do seu subjetivo,
atendendo só a seu íntimo que não lhe ditava nenhuma necessidade de continuar ali; não
tinha mais alegria na situação e, egocentricamente, não podia perceber quanto prazer a
exposição estava dando à companheira.

Vimos bem a compensação entre as duas atitudes gerais (de extro e introversão)
possíveis diante do objeto, no tipo introvertido de intuição, a quem chamamos de
estratosférico. Nele rege no inconsciente, dissemos uma percepção de tipo extrovertido. Sua
extroversão inconsciente, que compensa a introversão da atitude consciente, a qual o faz
sonhador, está, pois, intimamente ligada à função inferior — a percepção. E é sempre o caso,
isto é, a atitude inconsciente se relaciona intimamente com a função inferior.

Mas o que terá de ver essa compensação extroversão-introversão com a in-


dividuação?

A individuação se dá, dissemos, quando os opostos se equilibram. Os opostos são os


pólos de que estamos falando. Assim, quando no indivíduo se equilibram extro e introversão,
o indivíduo está atingindo a individuação (E, ao mesmo tempo, nele se estarão equilibrando
função dominante e função inferior, consciente e inconsciente).

Podemos considerar o equilíbrio psíquico que caracteriza a individuação, sob o


ponto de vista de equilíbrio entre consciente e inconsciente, graficamente, nas mandalas.

110
Dissemos destas, que são figuras altamente equilibradas. Por isso mesmo correspondem à
fase de individuação, em que no indivíduo se estabelece o equilíbrio entre os opostos.

Na mandala atípica do quadro 63 (Jung, op. cit. — The archetypes and the collective
unconscious, fig. 31 após pág. 356).

Quadro 63

temos, no interior, uma metade superior em equilíbrio com a inferior. Aquela corresponde ao
consciente, e, no original, é clara como o consciente simbolicamente é. A inferior, que
corresponde ao inconsciente, é escura como este é, simbolicamente.

Quando da individuação, dissemos, ao mesmo tempo em que consciente e in-


consciente, extro e introversão se equilibram, equilibram-se também a função dominante e a
inferior, sendo que o self está muito relacionado com esta.

Ora, a função dominante é a que rege o consciente e a função inferior é a última que
se atinge, a última de que o indivíduo toma consciência. Para atingi-la, ele tem de tomar
conhecimento de sua segunda função, a auxiliar, e da terceira função. Assim, na consciência
do indivíduo, ficariam as quatro funções psíquicas.

Quanto à integração da quarta função (a inferior), no entanto, sabe-se que ela nunca
se dá realmente: nunca o indivíduo extrovertido de pensamento, por exemplo, chegará a se
conscientizar tanto do sentimento que possa ser conduzido, na sua vida, por ele. Mas o que
pode e é preciso, é que se conheça quanto a esse seu sentimento, primitivo como ele é, e que
lhe admita as manifestações ocasionais em vez de ignorá-lo, esquecê-lo ou reprimi-lo. De Jung
sabemos que, introvertido intuitivo que era, dava-se de quando em quando a uma vida de
contato com as coisas externas, exercitando-se nelas. Vê-se, através de sua descrição, que se
comportava um tanto, então, como um exercitante da percepção extrovertida.

Essa integração das quatro funções na consciência, também as constatamos nas


mandalas, cujo centro (às vezes não o centro, mas o conjunto) se pode apresentar em quatro
cores — azul, vermelho, verde e amarelo. No original da mandala do quadro 45, a parte
central da estrela se apresenta em quatro cores, sendo o vermelho, o azul e o amarelo bem
nítidos.

111
Não seria à toa que, na representação dos tipos (quadro 61), se a pudéssemos
apresentar em cores, assim mostraríamos a parte correspondente à consciência: em azul no
tipo pensamento, em vermelho no tipo sentimento, em verde no de percepção e em amarelo
no de intuição. Essas cores são representantes, simbolicamente, das funções a que as
estaríamos fazendo corresponder. Essas respectivas funções psíquicas básicas aparecem
simbolizadas por elas em sonhos e nas mandalas de pessoas que ignoram esse simbolismo.

E é a integração das quatro funções que dá, em algumas mandalas, o dinamismo do


centro das mesmas, dinamismo que podemos apreciar no caso do quadro 64 (Jung, ibid., fig.
30 após pág. 356).

Quadro 64

A aparição das quatro cores, representantes das quatro funções, lembra aqui a
quaternidade, ela mesma também um símbolo que coincide com a fase final da individuação.

Não é raro aparecer, em sonhos, a quaternidade representada por três objetos de uma
cor, mais um de cor distinta, cor correspondente, às vezes, à da quarta função do sonhante,
em vias de integração. Jung descreveu o sonho de uma analisanda sua, ao qual já nos
referimos brevemente, em que aparecem três das cores, a vermelha, a amarela e a azul. A
sonhante caminha e encontra uma árvore dessas que são permanentemente verdes. A cor
desta, quarta cor, que faltava, corresponderia à função interior da sonhante — a percepção.

112
A INDIVIDUAÇÃO SOB O PONTO DE VISTA DOS ARQUÉTIPOS. A SOMBRA DO SELF.
A INDIVIDUAÇÃO COMO PROBLEMA MORAL.

A INDIVIDUAÇÃO SOB O PONTO DE VISTA DOS ARQUÉTIPOS

Quanto à sombra arquetípica referimos que, travado conhecimento com ela, pode-
se chegar a um equilíbrio entre o que diz respeito à questão do bem e do mal.

Quanto à anima (ou ao animus), procuramos mostrar como funcionam quando,


integrados no consciente o quanto possível, deixam de ser projetados e passam a pura
função. Esta é justamente uma função de relacionamento consciente-inconsciente, do
consciente com o que está mais profundo. Assim, de algum modo, corresponde a uma
aproximação entre consciente e função inferior, a uma comunicação entre ambos.

Quanto à personalidade mana, consideramos o que implica o desfazer-se a


identificação com ela, a saber, a consecução de um equilíbrio entre as realidades exterior e
interior. Mostramos o resultado disso, que é o chegar-se ao self.

E quanto ao se lf?

Consideremos este ponto à parte.

A SOMBRA DO SELF

Nada tem a ver com o arquétipo da sombra, ou seja, com a sombra arquetípica, mas
sim com o próprio arquétipo do self e com a sombra individual.

O chegar-se ao self está intimamente ligado à integração da quarta função. Ora, a


função inferior tem sempre um caráter negativo, como coisa não civilizada que é, não
refinada, nunca bem conscientizável, primitiva sempre. Por isso mesmo, não é fácil ao
indivíduo admiti-la. Para o introvertido de pensamento não será simples constatar que tem
em si sentimentos que de vez em quando se manifestam em explosões não muito adequadas,
tão fora de sua conduta habitual. Ao introvertido de intuição não será fácil defrontar-se com o
fato de que tem um lado um bocado estranho, dado por uma percepção extrovertida de
caráter inferior.

Assim, a quarta função é uma verdadeira sombra, no sentido de que diz respeito a
um conjunto de elementos negativos, não desejáveis. E será sempre assim.

A função inferior, se diz, fica na sombra. Constitui uma parte da sombra pessoal,
encerra parte dos defeitos do indivíduo, um modo seu de agir nãomuito adequado do ponto
de vista de sua adaptação à vida. Mesmo ao fim do trabalho de autoconhecimento, o
indivíduo a verifica, como conjunto de dados que poderíamos dizer não bem domesticáveis,
que ele tem e que terá de levar para sempre consigo, devendo, obrigatoriamente, ajeitar-se

113
com ele.

Ora, os arquétipos, como o da anima e o da mãe, segundo vimos têm um lado


positivo e um negativo. O self também. O lado negativo do self é representado pela função
inferior; dizemos então que esta é a sua sombra, a sombra do self.

E é exatamente a função inferior que, apresentando-se como sombra do self,


constitui o “espinho na carne” lembrado quando falávamos da totalidade psíquica.

A INDIVIDUAÇÃO COMO PROBLEMA MORAL.

E não basta ao indivíduo apenas tomar consciência de que tem uma função inferior.
É necessário que a reconheça, e aceite. Só esta aceitação é que poderá resultar numa
efetividade que, por sua vez, poderá determinar uma mudança na atitude do indivíduo.

Assim, o problema de individuação se nos apresenta como uma questão moral.

E isto não só quanto ao final do processo, a chegada do self. Em cada passo, a cada
integração de um elemento inconsciente na consciência, a questão é a mesma. E ela nos traz,
desse modo, à noção da relatividade da tomada de consciência. Esta (a tomada de
consciência) é essencial, mas não é tudo: acima dela reside a questão moral de que falamos. O
aumento de consciência nos faz mais responsáveis por nós mesmos, por nossos atos. Cabe à
nossa moral aceitar ou não esta responsabilidade.

Exemplificando a questão, daremos dois exemplos, um tomado de empréstimo a


Jung e, o outro, de cliente nossa.

— Jung conta que o procurou um homem que tinha já muito conhecimento (muita
consciência) de seus problemas. Não obstante, continuava neurótico. Fazendo-lhe o histórico,
verificava-se que vivia como gigolô de uma professora que, inclusive, pagava-lhe agradáveis
férias fora de sua cidade. Ele conhecia a inadequação do fato, mas não o desejava mudar.

— Quanto a nossa cliente, trouxe-nos, em certa etapa da análise, um sonho típico de


pessoa tomada pelo animus. Foi simples transportá-lo para a sua situação de vida conjugal, na
qual se comprazia em ver as suas, e apenas as suas opiniões acatadas — e sempre as tinha
sobre tudo. Comprazia-se em mandar, literalmente, no marido, em impor-se a ele, pela sua
vontade, geralmente assaz caprichosa, o tempo todo, ao mesmo tempo que o fazia ouvir
continuadamente as opiniões, aliás negativas, que tinha sobre a pessoa dele. Analisados
sonho e situação real, o rosto se lhe iluminou com o conhecimento, com a compreensão, mas
logo se enrijeceu e ouvimos: “De fato é assim, bem o vejo, mas não tenho o menor desejo ou
a menor intenção de alterar quer o meu modo de agir, quer o contexto de minha vida de
casada”.

Nos dois casos a tomada de consciência existiu, mas não bastou; a questão moral

114
ficou inabalada.

Jung não submeteu a análise o consultante; nossa cliente, pouco depois, interrompia a sua.

Acabamos, supomos de dar uma idéia da psicologia junguiana tal como pode ser apreciada a
propósito do processo de individuação psicoterápica, quando este corre de um modo ideal.

115
OS TIPOS EXTRO E INTROVERTIDOS E O FINAL

DO PROCESSO DE INDIVIDUAÇÃO OBSERVADOS

A PARTIR DE PRODUÇÕES ARTÍSTICAS

Passaremos a ilustrar, rapidamente, a partir de obras de arte, primeiro as diferenças


entre o tipo extrovertido e introvertido; depois, alguma coisa sobre o final do processo de
individuação.

I. GAUGUIN E KLEE

Escolhemos contrastar Gauguin e Paul Klee.

Comecemos com paisagens de Gauguin, “Moinho na Bretanha” (ou David’s Mill) (G.
Baudaille, op. cit. pág. 185), no quadro 65, ou “Rua Carcel sob a neve” (Ibid., pág. 21), no
quadro 66.

Quadro 65

Em ambas o tema vem de fora, o objeto é exterior. Também em ambas o trabalho


do artista o reconduz ao próprio objeto que o suscitou e reconhecemos, sem dificuldade
alguma, o ambiente que ele se propôs figurar.
Numa ou noutra ocasião, raramente, Paul Klee se comporta de modo semelhante,
como na “Cena de Jardim” (W. Grohmann, op. cit., Ed. Kolhammer, pág. 117), do quadro 67.

116
Quadro 67

Que diferenças, entretanto, entre o resultado do trabalho de um e de outro


observamos à custa, agora, dos “Jardins da Tunísia” (W. Grohmann, op. cit., Harry N.
Abrams, Inc., pág. 85), de Klee! (Quadro 68).

Quadro 67 Quadro 68

Aí, que recordem uma paisagem real, objetiva, que nossa vista possa perceber apenas
umas poucas formações como plantas; a preocupação de Klee estava longe da reprodução de
algo concreto, toda a idéia relativa ao título vindo simplesmente do arranjo das cores.

117
Perguntou-se Will Grohmann se o Pintor, ao executar o quadro, se estaria
lembrando-se dos jardins que vira. Concluiu que só relativamente: os amigos de Klee
consideravam-no absolutamente “sem olhos”, o que podemos traduzir como "sem sensação
para as coisas externas’". É claro que foi o objeto — os jardins que conhecera — que, numa
primeira instância, deu origem ao quadro. Essa instância, entretanto, como que foi curta
demais, a ponto de, no final, na obra, mostrar-se apenas levemente lembrada. O dado
objetivo só serviu para pôr em funcionamento alguma coisa no íntimo de Klee, a nosso ver a
sua intuição introvertida, e o resultado, pleno do subjetivo em Klee, de sua intuição genial, foi
um quadro que nunca poderia sair do pincel de um extrovertido.

Vejamos um “Cristo” de Gauguin (G. Boudaille, op. cit., pág. 104), no quadro 69.

Novamente, no quadro reconhecemos facilmente o objeto.

Já no “Homolarm” de Klee, (W. Grohmann, op. cit., Ed. Kolhammer, pág. 203),
quadro 70, a aparência do objeto se transforma, é estranha como é,em geral, a arte do
introvertido intuitivo, que faz também coisas belas ao lado de outras grotescas, coisas
sublimes e, não obstante, outras banais ou até ridículas.

Quadro 69 Quadro 70

No quadro 71, uma reprodução de Gauguin, simultaneamente uma paisagem e um


relacionamento e entre pessoas, o “Bom dia senhor Gauguin” (G. 5 udaille, op. cit., pág. 89).

E, seguindo-se, no quadro 72, o último elemento acima, o de um relacionamento


humano, em diferença flagrante com Gauguin, “O abraço”, tão abstrato, só a idéia muito
subjetiva dele, de Klee (W. Grohmann, Harry N. Abrams Inc.. pág. 157).

118
Quadro 71 Quadro 72

Mais uma reprodução de Klee (W. Grohmann, op. cit., Ed. Kolhammer, p. 290), no
quadro 73, mostrando talvez melhor o seu temperamento introvertido.

Quadro 73

Difícil, quem sabe, adivinhar-se lhe o nome, “O fruto”. Em que fruto estaria Klee
pensando ao executá-la, ou melhor, que fruto teria dado o motivo para esta sua obra? A
parte interna da figura está inteira na dependência de um único fio que se enrola, diz W.
Grohmann, lembrando um cordão umbilical.

II. CHEGANDO-SE AO SELF

No quadro 74, crianças, numa alegoria de Portinari, "O futebol” (Bloch Ed. S.A., op.
cit.).

119
Quadro 74

No quadro 75, já passamos à figuração mesma, embora remota — as crianças são


várias — do arquétipo do self, por elas representado no quadro de Josefina Maynadé,
reproduzido em agenda UNICEF de ano recente.

No quadro 76, a “Paulinà"’ Manship (Amold Gesell & Col. — The first five years of
life. New York and London, Harper & Brothers Publ., 1940). Novinha, seu pai “ousadamente” a
esculpiu, em toda a beleza e realismo.

Quadro 75 Quadro 76

Sua exposição no Museu Metropolitano de Arte, diz Arnold Gesell, deu origem a
muitos comentários, pois, pensava-se, “uma criancinha tão jovem não era tema apropriado
para um trabalho de arte”.

120
Assim, “Paulina” se constituiu, parece, a primeira figuração artística do self sob
forma de criança bem nova. E, diz Gesell, citando alguém, seu mármore “mostra respeito pela
personalidade nascente”, lembra “esse ar de infinita sabedoria que se esvai quando a
inteligência se desenvolve. Espera-se que abra muitos olhos “para o interesse e significado das
coisas naturais que antes eles nunca realmente viram”.

Praticamente toda a citação pode ser transposta para o símbolo que “Paulina”
figura, o centro de nossa personalidade total. A referência à sabedoria que desaparece no
adulto lembra a “nostalgia da união”, como diz Ania Teillard, como que uma saudade, “ela
mesma arquetípica”, do self, cujo projeto sempre esteve presente em nós.

No quadro 77, uma das muitas mandalas que encontramos em quadros de Klee (W.
Grohmann, op. cit., Ed. Kolhammer, pág. 73):

O corpo celeste que a representa está em rotação para a esquerda, indicando um


movimento de introversão.

Uma vez mais, no quadro 78, Paul Klee, em “Lugar de eleição” (W. Grohmann, op.
cit., Harry N. Abrams, Inc., pág. 109).

Quadro 77 Quadro 78

Ninguém sabe exatamente qual o lugar de onde partiu o estímulo para essa criação
de Klee. Para ele que, como se expressa Grohmann, “cria uma natureza dele mesmo, este não
é nem um lugar da Tunísia nem outro lugar geográfico qualquer”; é um lugar dele próprio, de
Klee.

No original, vê-se que a pintura se fez com as quatro cores das funções psíquicas. Em
baixo, numa linha espessa, um azul de mar. Subindo, a Grande Mãe, a terra, em vermelho
claro e amarelo. O céu, bem no alto, é de vermelho intenso. Mais abaixo, de um verde
também intenso, cor da própria função que seria a inferior, em Klee, a de percepção, como
que nasce a forma ovóide, uma mandala, símbolo do self.

121
I II

APÊNDICES

122
UM INCONSCIENTE PRÓPRIO DE DETERMINADO GRUPO HUMANO.
PSIQUISMO DOS PRIMITIVOS.
A PSICOLOGIA JUNGUIANA COMO PSICOLOGIA DO HOMEM OCIDENTAL
NORMAL.

UM INCONSCIENTE PRÓPRIO DE DETERMINADO GRUPO HUMANO

Tratando das possíveis bases neurofisiológicas para o conceito de inconsciente


coletivo, ou seja, dos arquétipos, falamos da diferenciação cerebral, universalmente
semelhante no homem.

Jung pondera ademais que, assim como podemos considerar a existência de uma
diferenciação correspondente a cada raça, a cada tribo, a cada família, podemos verificar
também a existência de uma camada de inconsciente que corresponde a cada um desses
grupos humanos. Por isso, exemplifica, a psicologia de um israelita não pode ser
inteiramente idêntica à de um não israelita.

Trata-se, também aqui, de uma camada de inconsciente não pessoal, mas, ao


mesmo tempo, de uma camada de inconsciente diferente do vasto mundo do inconsciente
coletivo que estudamos.

O estrato desse inconsciente, coletivo num sentido mais estreito, chamá-lo-


íamos simplesmente, para evitar confusões terminológicas, de inconsciente próprio de
determinado grupo.

A existência deste inconsciente nos alerta para levar em consideração, quando


necessário, ao estudarmos o psiquismo de determinada pessoa, fatores particulares a ela
atinentes.

Num esquema da estruturação psíquica, este estrato viria abaixo do inconsciente


pessoal e imediatamente acima do inconsciente coletivo como mostra o quadro 79.

123
No quadro 80 teríamos, em A, B e C, indivíduos de grupos humanos distintos, cada
qual com a camada de inconsciente própria ao grupo humano seu. D e E teriam o mesmo
inconsciente próprio para determinado grupo humano, como pertencentes ao mesmo grupo
humano. Para todos os indivíduos, as outras camadas — as do inconsciente coletivo — e o
self figuram como comuns. Isso fizemos num desejo de ilustrar como os arquétipos são os
mesmos para todos os indivíduos, como são universais.

No quadro 81 tentamos representar o mesmo, mas para um indivíduo único


qualquer, como feito acima, no quadro 79, mas de outra maneira e utilizando- nos da mesma
figuração, para cada elemento do psiquismo, que a utilizada no quadro precedente.

PSIQUISMO DOS PRIMITIVOS

Quanto aos povos que ainda vivem como primitivos, têm eles a consciência
relativamente muito pouco desenvolvida. Seu psiquismo é quase só inconsciente profundo, e
um inconsciente profundo amplamente projetado no mundo que os cerca. De certo modo sua
estruturação psíquica é, por assim dizer, relativamente muito rudimentar ainda.

A PSICOLOGIA JUNGUIANA COMO PSICOLOGIA DO HOMEM OCIDENTAL


NORMAL

Jung se refere largamente a dados da filosofia oriental. A psicologia junguiana,


porém, que brotou do “caso Jung” e dos casos de seus clientes, mostra-se como uma
psicologia do homem ocidental. Vejamos um pouco:

A concepção junguiana de anima, diz Jung, bem como a de persona, nós não as
encontramos nos orientais.

Além disso, a consciência universal dos hindus é, para nós, um estado de


inconsciência, mostra Jung. Neles, o inconsciente universal, em especial o self, inundou o

124
campo da consciência e a fez nele submergir. O que, para eles, é o estado ideal, o estado de
êxtase dos iogos, não podemos deixar de vê-lo senão como um estado de ampla inconsciência,
que não se coaduna com o psiquismo do homem ocidental, que acredita no ego e valoriza a
consciência.

Por outro lado, a psicologia junguiana, embora amplamente aplicável a casos de


neuroses e à busca de explicação de dados da psicologia do doente mental é, essencialmente,
uma psicologia do homem (ou da mulher) normal, observado principalmente no
desenvolvimento que visa a um equilíbrio psíquico.

125
RISCOS NO PROCESSO DE INDIVIDUAÇÃO

Mostramos o processo de individuação como, talvez, muito simples, muito fácil


de fazer e, ao mesmo tempo, como um processo muito normal, muito “liso”, sem
dificuldades, embora nos tivéssemos referido às possíveis identificações com os
arquétipos e à inevitável identificação com o da personalidade mana. Apenas, ao lembrar
o problema moral do processo, dissemos que a pessoa pode não julgar vantajoso e não
querer livrar-se de uma identificação. Reiteramos, entretanto, a noção da delicadeza
desse processo de desenvolvimento psíquico, delicadeza decorrente do fato de o ego
perder a sua primazia e o centro da personalidade ficar, por assim dizer, em suspenso.
Também nos referimos à ansiedade que costuma preceder o encontro com o self.

Trataremos, a seguir, do que resulta mais comumente, como falha, num


processo de individuação, terapêutica ou natural, tentando por nós mesmos, catalogar as
questões, com finalidade didática. Começaremos por considerar a noção de inflação.

O FENÔMENO DA INFLAÇÃO

Noção de inflação. Compreenderemos melhor o que seja a inflação a partir da


questão, já considerada, da identificação com a persona.

Consideremos um indivíduo que se identifique com um cargo qualquer, que seja


o seu na sociedade. Julgar-se-á superior maior do que realmente é, ficará demais cheio
de si só porque ocupa esse cargo. Por isso poderá suscitar comentários alusivos a tal
situação, por parte dos outros, que perceberão que ele está “crescendo” à custa de algo
que não lhe é próprio: a posição, se a tem, tem-na porque a sociedade lhe outorgou e ele
está esquecido de tal, agindo como se a devesse exclusivamente a si próprio. É como se
estivesse engrandecendo a sua personalidade com algo de que foi a coletividade em que
vive que o investiu. Está demais cheio de si, “inchado” demais porque tomou, como seu,
algo do grupo humano a que pertence. Dizemos então que ele está inflado, que padece
do fenômeno de inflação.

A inflação é, acabamos de ver, uma usurpação e consiste justamente no fato de


o indivíduo tomar como sua alguma coisa que não pertence apenas a ele, mas que é de
muitos, que lhe é ultra pessoal.

TENTATIVAS FALHADAS DE INDIVIDUAÇAO


Passaremos agora a quadros a que se podem chegar comumente nos casos em que a
individuação não corre bem.

1.°) CONSEQÜÊNCIAS INDESEJÁVEIS DA ANÁLISE DO INCONSCIENTE PESSOAL.

Podemos encontrar aqui um fenômeno de inflação ou o de uma regressão quanto à


estruturação da persona.

a) A INFLAÇÃO COMO DECORRÊNCIA DA ANÁLISE DO INCONSCIENTE PESSOAL.

126
A inflação relativa à persona, quando existe, o indivíduo já a traz consigo para a
análise, tendo-se ela desenvolvido com ele, à medida que se foi fazendo consciente e
tentando adaptar-se a seu meio; não é, pois, um fruto da análise do seu inconsciente.

Durante a análise, entretanto, já à medida que o indivíduo vai assimilando elementos


do seu inconsciente pessoal e, assim, conhecendo-se melhor, pode ele passar a se julgar
superior aos demais por esse fato mesmo de se estar enxergando mais do que os outros
costumam enxergar-se, de verificar que realmente tem defeitos, tem falhas e que as projetava
nos outros, ao passo que grande parte dos demais continua a projetar as suas, sem o saber.

Como consequência, poder-se-á observar no analisando um estado de certo bem-


estar, de certa euforia que lhe poderá ser benéfica, por um período de tempo maior ou
menor, dando ânimo para empreendimentos práticos. Isto, sobretudo nos jovens, que não
estão mesmo ainda maduros para uma análise profunda. Por outro lado, porém, pode
acontecer que, a partir dos novos conhecimentos adquirido quanto a si próprio e do
conhecimento do fenômeno tão generalizado de projeção da sombra, o indivíduo caminhe
para um quase endeusamento de si, passando a se ter como conhecedor acabado de si e dos
outros, os quais se põe a analisar em tudo e a cada instante e sempre acertadamente,
segundo pensa. Quer num quer noutro caso, à observação mais cuidadosa, notar-se-á sempre
que o indivíduo está longe de ter adquirido seu equilíbrio psíquico e que sua análise ainda
está, por muito, para se completar.

No que acabamos de considerar, isto é, na euforia do julgar-se possuidor de um


conhecimento muito grande, quiçá completo, de si ou de si e dos outros, vai à usurpação de
uma sabedoria que não é própria de indivíduo algum. E é um fenômeno que tende a ser
corrente, aparecendo com maior ou menor intensidade em todo indivíduo cuja análise apenas
começou; é um fenômeno de inflação — de moderada inflação, talvez possamos dizer.

Essa "inflação aparece como decorrente da análise da sombra pessoal”. De fato. Mas
o que ela é realmente é o produto de certa identificação do indivíduo, de seu ego, com
elementos mais profundos, elementos do inconsciente coletivo, o qual vai aparecendo, mal
definido embora, à medida que se realiza a análise do inconsciente individual; é lá no
inconsciente coletivo que reside, como arquétipo, uma sabedoria enorme, sob aspecto da
personalidade mana e é essa sabedoria, pertencente a esse arquétipo, que faz o indivíduo que
travou conhecimento com sua sombra imaginar que tudo conhece quanto a si e quanto aos
outros, como que se endeusando.

A identificação, nas circunstâncias acima consideradas, não é bem definida e, por


isso mesmo, o quadro resultante, melhor do que moderado, como pessoalmente o
qualificamos, poderia, quem sabe, ser chamado de não bem estruturado, como, de fato, se
apresenta.

b) REESTRUTURAÇÃO REGRESSIVA DA PERSONA


A análise da sombra pessoal, se, por um lado, pode levar o indivíduo a um estado de
certa euforia, pode também, por outro, ao contrário, levá-lo a certo estado de desânimo.
Neste caso, a visão de seu lado negativo, encerrado na sua sombra pessoal, o acabrunha.

127
Julga-se pior e menos capaz do que é, passa a ver só defeitos em si e entra desse modo, numa
situação pior do que aquela que apresentava ao início da análise. Dizemos então que a sua
persona sofreu uma regressão ou que se estrutura, agora, de maneira regressiva.

Talvez o indivíduo, no caso que consideramos, pense que voltou exatamente àquela
sua atitude antiga e que isso é justamente o que lhe convém, que retomou a sua máscara
habitual; o que realmente se passa, porém, é que se mostra desencorajado diante da vida.
Antes tinha sua persona para determinadas coisas, reconhecia-se nela, sentia-se seguro por
detrás dela. Atualmente perdeu essa segurança. É como se tivesse perdido seu próprio traje
oficial de aparição na sociedade e estivesse fazendo uso de um uniforme menor, dentro do
qual se encolhe. Assim, não retomou simplesmente sua persona, tal como esta era no início,
mas a reestruturou de uma maneira pior, como se tivesse agora posto, em lugar daquele seu
uniforme, um outro, mais apertado, mais desajeitado, menos adequado.

A reestruturação regressiva da persona pode acontecer também fora da análise. Na


vida de uma pessoa pode ocorrer, por exemplo, um grande trauma, uma grande perda
financeira, um acidente qualquer, ocasionando-a, ou, melhor, provocando-a. Dito de outro
modo: após alguma decepção séria na vida, o indivíduo pode sofrer um processo parecido ao
acima descrito: antes ele ainda “ousava” alguma coisa, diz Jung, agora ele mesmo se
apequena, se encurrala de algum modo.

Exemplo de reestruturação regressiva da persona, vemo-lo no caso de Lawrence da


Arábia, segundo relata Henrique M. Farinas.

O que teria feito que esse grande personagem, com uma enorme carreira de
admiráveis e reconhecidos feitos, aos 34 anos decididamente se auto eliminasse
simbolicamente, trocando de nome, e chegasse a ponto de passar a viver como um simples
soldado? O que teria, imediatamente antes que conquistasse e governasse Damasco, exaurido
nele, no seu próprio dizer, os “principais estímulos de atividade” e matado o “ímpeto secreto”
que o conduzira a ações cujos sofrimentos e alegrias se lhe elevaram alto “como torres” na
vida?

Desilusões, desgostos, sim, talvez tivessem contribuído. Seguramente, entretanto,


humilhações de que se ressentiu profundamente, não conseguindo sobrepujá-las. Isso é
também um modo de sentir lados seus, que via como negativos. Seu sentimento, seu juízo de
valor a respeito destes o acabrunhava sobremaneira, levando-o a desejar “a degradação mais
profunda”. Julgava ter-se “conspurcado” tanto que já nada o poderia fazer “de novo sentir-se
limpo”.

E, entre as humilhações que sofrerá, destacava-se a tortura moral e física por que
passara alguns dias antes da vitoriosa ofensiva geral contra os turcos, quando do preparo da
mesma. Estando em missão de espionagem, fora apanhado pelo inimigo e conduzido a um
governador que o desejava para seu prazer sexual. Lawrence a isso se recusou.
Consequentemente foi barbaramente torturado e ultrajado. Escreveu a respeito: “. . . naquela
noite, a cidadela da minha integridade pessoal fora irrevogavelmente arrasada” e, a partir
desse dia, nunca mais voltou a ser o mesmo homem de antes.

128
2°) CONSEQÜÊNCIAS INDESEJÁVEIS DA ANÁLISE DO INCONSCIENTE COLETIVO

Aqui nos podemos deparar com os seguintes fenômenos:

a) QUASE INFLAÇÃO POR INGENUIDADE EM FACE DO ARQUÉTIPO DA PERSONA


MANA.

O termo é nosso. Referimo-nos à circunstância de o indivíduo estar tomado por esse


arquétipo de maneira muito ingênua. Isso podemos verificar mesmo fora da análise e foi o
que se deu com Tolstoi, segundo dados biográficos e comentários de W. SonnersetMaugham
e de André Cresson. Quase se acreditou um messias: não soube fazer a distinção entre a sua
realidade consciente e a realidade inconsciente, que era a do arquétipo em questão; ficou sem
distinguir o seu ego do arquétipo. À sua volta, os discípulos falavam, exigindo que se portasse
às alturas de um messias. Por seu turno, sua mulher lutava pelo interesse dos muitos filhos
que tinham, procurando fazê-lo ver a realidade da vida e o absurdo de abandonar tudo em
prol da humanidade ou das suas ideias, esquecendo a própria família.- O conflito era grande,
resultando numa vida de certo modo torturada.
A propósito, lembramos que, ao lado da inflação (no caso acima falamos em quase
inflação) do mestre, do messias, do profeta, existe aquela, relativamente cômoda, dos
discípulos que o cercam, engrandecendo-se indevidamente com sua situação (de discípulos).

b) INFLAÇÃO POR IDENTIFICAÇÃO COM A PERSONALIDADE MANA.

A identificação com a personalidade mana é um caso especial de inflação, no qual se


verifica um acréscimo de coisas à personalidade, de coisas tão grandes que, a propósito, Jung
fala de um “endeusamento”, que o indivíduo, inconscientemente, então faz de si.
Demos noção do fenômeno da inflação, como sendo ela o estado em que o indivíduo
acresce, à sua personalidade, elementos que a esta não pertencem. Facilmente, parece-nos,
entende-se tal fato com relação à persona e ao conhecimento adquirido através da análise da
sombra, quando traz, consigo certo estado de euforia de que então falamos. Veremos logo
como a inflação se pode fazer, não só no sentido “para cima”, de certa euforia, de patente
engrandecimento de si, mas também no sentido contrário, de menos valia que o indivíduo
pode passar a apresentar, no sentir-se a si próprio.

Consideraremos, em primeiro lugar, baseados em Jung, o caso de Nietzsche, que


Jung cita em conexão com o assunto. O engrandecimento a que esse homem genial se deixou
levar, quanto à sua personalidade, o fez nada menos do que se colocar no lugar de Deus, que
ele quis apagar completamente. Assim, Nietzsche se endeusou a si mesmo, atribuindo-se
elementos grandiosos, elementos muito superiores de sabedoria e de poder, que não
pertencem a ninguém, mas somente a um arquétipo, a um elemento do inconsciente coletivo,
inconsciente universal, maior do que a consciência, do que o ego que se quis identificar com
ele. Esses elementos, de direito, pertencem à personalidade mana.

Ao falar sobre a individuação, dissemos de como o que nela se faz é a separação


entre e o que é ego, consciente, e o que é “não ego”, pertencendo ao inconsciente. O que se
deu com Nietzsche foi justamente que não conseguiu fazê-la; daí a identificação, a inflação.
Passou a se sentir uma personalidade mana, a própria grande sabedoria do velho sábio.

129
Não tendo feito essa distinção, ao mesmo tempo Nietzsche, cujo Zaratustra, diz Jung,
é uma confissão, não procedeu à diferenciação entre o que é do inconsciente e o que era
pertencente à vida real. Colocando-se como o homem que tudo domina e que é possuidor de
uma enorme sabedoria, mostrava, ao mesmo tempo, não reconhecer a realidade da vida, com
suas exigências, acabando, como homem, como membro da sociedade, por vivê-la muito
abaixo dos padrões que lhe seriam adequados, sem recursos financeiros, isolado, neurótico.

Mas, dizíamos, o endeusamento pode ocorrer de outra maneira, através da


depreciação, que diremos extrema, a que o indivíduo pode ser levado em relação a si próprio.
É também uma inflação porque então o indivíduo assume toda a pequenez humana, à visão
da imensidão do inconsciente coletivo, fazendo-se, assim, através desse assumir, semelhante
a um ser de forças, de poder superior.

No fundo, no inconsciente, o indivíduo que se endeusa de um modo patente, como


um Zaratustra, mostra-se um inseguro. Nos casos desse tipo de inflação, por isso, encontra-se
a necessidade mais ou menos aberta de o indivíduo cercar-se de discípulos, de fazer
proselitismo, de rodear-se de pessoas que o confirmem na posição que assumiu que lhe
demonstrem que toda a sabedoria usurpada lhe pertence.

No inconsciente do indivíduo que se apequena demais se encontra, via de regra, um


orgulho demasiado, um desejo de que lhe reconheçam virtudes e méritos, e com a
consequente suscetibilidade nos casos em que julga que lhe estão negando esse
reconhecimento.

c) INFLAÇÃO POR IDENTIFICAÇÃO COM O SELF.

Diz Jung que os primitivos confiam nos deuses, desconfiando, e estão sempre alerta
quanto a possíveis “perigos da alma”.

Não nos podemos nunca entregar totalmente aos deuses que habitam nossas
profundezas psíquicas, aos arquétipos. Também não podemos nunca integrar totalmente, em
nosso consciente, o inconsciente profundo.

Se o indivíduo iguala o seu ego, a sua personalidade consciente, com o self,


engrandecendo-se sumamente à custa deste, sua consciência tende a se desintegrar, isto é,
ele tende à doença mental. O Zaratustra e o Fausto se mostram neste caminho, fazendo-nos
entrever um estado de loucura.

130
ALGUMAS QUESTÕES JUNGUIANAS

Pergunta: Por que não se igualar o ego à consciência?

Podemos acrescentar que a consciência ultrapassa tanto o ego que, na lite-


ratura junguiana, estuda-se mesmo a existência de um arquétipo da consciência.

Pergunta: Para cada indivíduo existe sempre apenas uma persona?

Resposta: A persona representa a atitude do indivíduo diante da sociedade. A


regra é que esta seja sempre a mesma — o indivíduo se comportar como o senhor do
mundo ou como o coitadinho, a vítima; como o que resolve todas as situações, ou como
o próprio dependente em tudo; como o mestre, como aquele cujo papel é o de sempre
divertir os demais e assim por diante, a ponto de, conhecendo-o um bocado, quase
podermos prever seu comportamento num momento dado.

Pergunta: As figuras do folclore que vemos na Bahia são arquetípicas?

Resposta: Um arquétipo, quando se manifesta, num sonho, por exemplo, o faz


de maneira ingênua, alheia à consciência, de modo imediato. As figuras do folclore
provavelmente foram arquetípicas na sua origem; hoje em dia, correspondem a
conteúdos altamente trabalhados conscientemente e que assim se vêm transmitindo de
uma à outra geração, há já longo tempo.

Pergunta: Se todos herdamos os diferentes arquétipos, como se explica a


diferença psicológica de um indivíduo para outro?

Resposta: De modo geral, todos herdamos, sob o ponto de vista físico, o mesmo padrão que
nos garantiu o aspecto geral dos seres humanos, homens ou mulheres. Esse padrão nos
garantiu ainda o número e a conformação semelhante de nossos diversos órgãos e
segmentos. No entanto, cada qual de nós, ainda fisicamente, é um indivíduo diferente de
todos os demais, no todo e em mil e uma particularidades. Quanto ao sistema nervoso, não há
dois cérebros que tenham a mesmíssima diferenciação, que sejam idênticos, e sabemos que a
atividade cerebral captada ao eletroencefalograma é tão individual que poderia ser tomada
para identificação de cada pessoa.

Ora, o mesmo acontece com o psiquismo, fundamentado que está na diferenciação


cerebral. Embora todos herdemos os mesmos arquétipos, a atividade, ou o resultado da
atividade de cada um deles varia de um para outro indivíduo porque somos diferentes uns dos
outros em muitos pontos: grau e tipo de inteligência; tipo geral de atitude diante dos objetos;
experiências de grupo em que vivemos; vivências pessoais, etc.

Isso quanto aos arquétipos, mas demos alguns dados mais, explicativos do fato de
cada psiquismo ser um, embora os arquétipos sejam sempre os mesmos.

a) Já vimoscomo, em conjunto, a psicologia dos indivíduos de um grupo humano

131
difere da psicologia dos de outro grupo (Quadro 80).

b) Consideramos a sombra pessoal. Ela é uma componente muito particular,


privativa de cada indivíduo.

c) Já no início falamos da consciência e do ego. São elementos altamente


individuais desde a sua formação.

No quadro 80 procuramos mostrar, sobretudo, como o inconsciente coletivo é o


mesmo para todos os indivíduos. Nele mostramos o inconsciente coletivo em si, nas
diferentes camadas dos grandes arquétipos. Fazemos que diversos indivíduos — A, B, C, D, E
— tenham, no seu psiquismo, uma e a mesma camada para cada arquétipo, assim querendo
acentuar como o inconsciente coletivo é universal: a camada que é, por exemplo, a
representante da anima (ou o animus) para A, é a mesma que é a anima (ou o animus) para os
outros indivíduos representados. Isso equivale a dizermos que a mesma She, protótipo da
anima para A, é protótipo de anima para cada um dos demais indivíduos, fato que, já vimos ao
falar deste arquétipo, é exato.

Também, entretanto, no gráfico:

1. Mostramos a diferença psicológica entre grupos humanos: Os indivíduos D e E


têm o mesmo “inconsciente próprio de determinado grupo humano”, ao passo que A, B e C
diferem entre si neste aspecto porque cada um deles tem um “inconsciente próprio de
determinado grupo humano”, sendo que A, B e C são pertencentes a grupos humanos
distintos.

2. Representamos ainda cada indivíduo com seu inconsciente pessoal e também


com seu campo de consciência e seu ego.

Ora, se considerarmos apenas, que seja, este último dado, de que cada indivíduo tem
a sua consciência e o seu ego altamente diferenciados, poderemos já argumentar que não é
possível imaginar que o inconsciente coletivo, igual embora para todos os indivíduos, agindo
sobre a personalidade consciente de cada um — de A, de B ... de E — acabe levando, em todos
os casos, à conclusão de personalidades totais idênticas.

Pergunta: Não poderíamos explicar os arquétipos através da concepção das


reencarnações?

Resposta: Cada um dos arquétipos que consideramos apresenta uma história que se
perde nos tempos mais remotos da humanidade. Jung se estende, a respeito, sobre dados
relativos ao arquétipo do self em seu “Aion”.

Mas consideremos o arquétipo da anima. Lembraremos que ela gosta de se


apresentar sob aspectos gregos; é o caso em She. Desta forma, ela nos faz ver que se reporta
a épocas bem distantes. Jung diz que ela também gosta de aparecer em trajes egípcios; então
se mostra mais antiga ainda.

132
Quanto à Grande Mãe, a sua ideia se perde mesmo no início da história das religiões,
a tendo os gregos recebido da Ásia. Passado a Roma, dissemos, o culto da Grande Mãe se
expandiu por todos os domínios romanos. Mais tarde, na era cristã, esse culto teve sua
revivescência em certas regiões.

Ora, essa historicidade de cada arquétipo, tão antiga como a humanidade, passando
hereditariamente de geração em geração, sempre aí e ocasionalmente com uma revivência,
uma ativação que atinge todo um grupo humano, ela é a causa de que se possa pensar,
considerando o inconsciente coletivo, que seus componentes se apresentam, em cada
geração, como produto de uma reencarnação. Jung é explícito a respeito.

Pergunta: Mas a psicologia de Jung é só o que vem sendo exposto aqui? E, por
exemplo, a mitologia, que papel tem nela?

Resposta: Partamos deste quadro:

A psicologia de Jung pode ser considerada sob dois pontos de vista: enquanto
clínica e enquanto de pesquisa. Enquanto clínica seria a “psicologia analítica”; enquanto
estudo, pesquisa teria de preferência o nome de “psicologia complexa".

A psicologia, enquanto clínica é a que vimos abordando à medida que


acompanhamos o processo de individuação. A psicologia complexa seria relativa aos
estudos mitológicos, de etnologia, de religiões, de alquimia, etc., que Jung fez e a que os
junguianos se dedicam.

Devemos explicar que Jung não foi estudar, digamos, gratuitamente, essas
matérias. Foi a partir de sua prática na clínica que sentiu a necessidade de ir estudar tudo
isso. Buscou tais estudos depois de ter descoberto, nos seus clientes ou em si próprio,
dados que o fizeram pensar que nessas matérias encontraria elementos históricos que lhe
permitiriam fundamentar melhor as suas concepções. Sentia uma necessidade profunda de
algo que fundamentasse suas descobertas, e esses fundamentos, os foi procurar, em parte,
na história. Havia em Jung a necessidade de uma historicidade que apresentasse bases para
os seus achados empíricos. Assim, foi aos mitos, foi às religiões comparadas, foi à alquimia e

133
assim por diante.

E o que Jung verificou foi que o que se passava no psiquismo do homem de hoje era
o que se tinha passado, não podemos dizer nem, talvez, no “psiquismo” simplesmente, mas
sim no “psiquismo nascente” ou mesmo, na vida prática do homem primitivo, do homem que
viveu há muitos e muitos séculos. Isso foi uma coisa muito viva para os homens de então.
Hoje, continua sendo uma coisa viva, mas agora apenas simbolicamente viva; não mais viva na
vida prática, no exterior, mas viva na vida interior, na vida psíquica.

Os mitos foram vividos como tal; depois é que passaram por uma depuração
intelectual. Tornaram-se então algo sedimentado, de significado não mais tão vivo. Mas eles
se repetem ou se podem repetir, a cada passo, em nossos sonhos, em nossas fantasias, com
uma vida e um significado muito grandes.

Existe, portanto, todo um paralelo entre o que acontece dentro do nosso psiquismo
durante o processo de individuação e o que acontece nos mitos antigos. Isso explica o porquê
da difusão de mitos semelhantes por todas as regiões, em diferentes épocas e, ao mesmo
tempo, o interesse dos junguianos pelos mitos.

Neste curso, o que nos propusemos é dar uma introdução à psicologia junguiana.
Tínhamos de escolher como fazê-lo e optamos por abordá-la pelo lado dos arquétipos mais
encontradiços no decorrer do processo de individuação psicoterápica.

Quando, entretanto, tratamos do arquétipo das duas mães, abordamos de leve a


questão mitológica.

A mitologia é de grande interesse para o junguiano enquanto terapeuta e não só


para o estudo da psicologia junguiana. O terapeuta frequentemente se tem de fazer estudioso
do assunto para bem compreender e acompanhar a evolução de seus clientes.

Por outro lado, toda a questão da Grande Mãe, por exemplo, está inteiramente
ligada a dados das religiões comparadas.

Quanto à alquimia, podemos dizer que há analogia entre o que ocorria no “opus”
(trabalho) alquímico e o que ocorre no processo de individuação.

Sob que pontos de vista considerar a psicologia junguiana neste curso era uma
questão de opção, e, tendo ponderado sobre as possíveis, fizemos a nossa, que vimos
seguindo.

Pergunta: Junguianamente, como tomar, na “Divina Comédia”, a figura de Virgílio a


conduzir Dante na sua longa viagem pelo inferno e pelo purgatório?

Resposta: Virgílio nessa obra se nos apresenta como a figuração do arquétipo do pai.

Pergunta: Como considerar o superego sob o ponto de vista junguiano?

Resposta: Poderíamos começar por formular assim a pergunta: Como explicarmos o

134
caso de indivíduos que estão sempre e em tudo dependentes das normas vindas de fora, da
sociedade, de suas sanções e permissões?

A ideia do homem completo, individuado, totalizado, está contida no self, que o


indivíduo herda, como elemento do inconsciente coletivo. O self é o padrão do indivíduo
completo e sua ação, de algum modo, sempre, desde o início se faz sentir. Em nossa
formação, entretanto, atendemos sobretudo ao mundo de fora e à sociedade. Mas quando
nos pomos no processo de individuação, sem deixar de atentar a esse mundo, caminhamos no
sentido do conhecimento de nosso mundo interior. Chegando a individuação a termo, tem-se
um equilíbrio entre mundo de fora e mundo de dentro, inconsciente (Quadros 37 e 37 A), e, a
ideia mesma desse equilíbrio está posta nas mandalas que estão intimamente associadas à
ideia de self. Assim, podemos dizer que o ideal do homem completo, levando embora em
grande consideração o mundo exterior, está encerrado dentro do homem, no self.

Por outro lado, vimos como podemos fazer projeção de tudo o que está no nosso
inconsciente — da sombra, da anima (ou do animus), da personalidade mana. Pois podemos
também fazer projeção, “colocar” fora de nós, no campo do mundo exterior, o arquétipo do
self. Se o fazemos, em vez de nos voltarmos, para dentro de nós mesmos, para o mais
profundo de nosso inconsciente coletivo a fim de verificar quais nossos ideais, aonde
devemos chegar, como personalidade, cada vez que a questão surge olhamos para fora,
indagando-o do mundo exterior, da sociedade. Assim, as pessoas em tudo dependentes do de
fora, cujo ideal da completação psíquica está fora, são pessoas cujo self está todo projetado
fora.

Pergunta: Qual a importância dos sonhos para o indivíduo?

Resposta: A primeira função do sonho, a mais importante, é fisiológica, a de


regulação do psiquismo do indivíduo. Para Jung, o psiquismo é um sistema quase fechado de
energia; assim, deve autoregular-se e um dos meios de fazê-lo é através dos sonhos.

A idéia tornou-se agora, parece-nos, bem atual. Hoje em dia se tem cientificamente
o sono como essencial para a sobrevida do indivíduo e se admite que um sono sem sonhos é
um sono que não repousa. Se deixarmos o indivíduo por muito tempo privado de sonhos, o
que é possível, quando deixarmos de agir, ele sonhará mais do que habitualmente, isto é,
terá, durante o seu sono, tempo mais longo de sonhos, até que se recupere da falta destes.

Não nos estenderemos sobre as diferentes funções do sonho, mais psicológicas.


Diremos apenas que, de modo geral, ele mostra à pessoa coisas que, na sua vida vigil, ela não
está tendo a possibilidade de ver. Infelizmente a linguagem do sonho nem sempre é
entendida pelo sonhante, de forma que muito do que este poderia aprender com ele, muitas
vezes fica perdido.

Pergunta: A curiosidade nos leva a insistir. Queremos saber mais sobre os sonhos.
Seria possível alongar um pouco a explicação, falar sobre os sonhos intuitivos e um pouco do
modo de se trabalhar com eles na psicoterapia?

Resposta: Teremos de nos estender a respeito.

135
Análise de sonhos. No decorrer da análise, se o paciente traz sonhos — e está longe
de ser essencial que os traga, embora, quando sim, possam ser de grande utilidade — quando
os traz, é preciso lembrar que, junguianamente, um sonho geralmente só se analisa mediante
conhecimento da vida do indivíduo. O sonho é visto como uma figura no fundo que é o
contexto dessa vida única, a do analisando em questão. Via de regra não se analisa um sonho
sem se conhecer o indivíduo, sem dados da sua biografia. (Excetuam-se sonhos de conteúdo
muito simbólico de fenômenos profundos do psiquismo, sonhos bem “arquetípicos”. Embora
muitas vezes possam ser interpretados superficialmente com algum proveito para o sonhante,
seu significado principal e máximo reside sempre nos fatores arquetípicos, e o terapeuta não
o deve ignorar).

Para Jung é muito importante a série de sonhos. Muitas vezes um sonho não nos leva
a uma conclusão eficiente para o paciente, mas uma série de sonhos pode ser bastante
elucidativa.

Diante de um sonho, procura-se levar o paciente a trabalhar com ele, através de uma
associação de ideias. Junguianamente, a associação parte sempre de um elemento do sonho.
Pode ir mais ou menos longe, isto é, a partir daquele dado, o indivíduo pode ir fazendo
associações mais ou menos numerosas, mais ou menos remotas, mas não se deixa que ele vá
indefinidamente longe, que se afaste do dado apresentado pelo sonho, esquecendo-o.
Quando isto tende a acontecer, o terapeuta traz o indivíduo de volta ao dado, ao próprio
sonho. O sonho é o centro da análise, os dados do sonho são o centro da associação.

O sonho, com toda a sua peripécia, é tido por Jung como uma representação teatral
do indivíduo, devendo ser visto como um retrato real da situação deste, como uma radiografia
do seu psiquismo, diríamos nós.

Funções dos sonhos. Segundo Jung, os sonhos não são sempre de realização de
desejo, bem como nem sempre são alusivos a repressões sexuais.

Na concepção junguiana, já dissemos, todos os elementos do psiquismo se


encontram sempre se relacionando uns com os outros, consciente e inconsciente sempre em
intercâmbio; ao mesmo tempo, também já dissemos, o psiquismo, tido como um sistema
fechado de energia deve, como todo sistema semelhante, autoregular-se, e, um meio de fazê-
lo, vem a serem os sonhos.

Os sonhos, que são uma forma de manifestação do psiquismo, têm, como primeira
função, para Jung, a de reguladores do psiquismo, ideia que nos parece bastante atual,
dissemos a pouco, lembrando que se pensa hoje que um sono sem sonhos é um sono que não
repousa. O sonho para os modernos tem, pois, de fato, uma função reguladora do psiquismo,
ou melhor, dito, uma função autorreguladora.

Além da função autorreguladora, o sonho tem uma função de compensação; através


dele o inconsciente tenta compensar as atitudes conscientes do indivíduo, ou seja, as atitudes
que o indivíduo tem enquanto acordado, como costumamos dizer, as do indivíduo vigil.

— Algumas analisandas nossas referiram sonhos em que se viam presas e um jovem

136
as ia salvar. Nesses sonhos, de moças presas, a atitude do herói é uma atitude que
compensava a que elas apresentavam na vida prática ou, se quisermos dizer melhor, a falta de
atitude, a passividade que vinham demonstrando na vida prática. O herói fazia, por elas,
aquilo que elas mesmas deveriam fazer.

- Outro exemplo temos num sonho do próprio Jung, que viu uma sua cliente, à qual
não considerava muito certo ponto de vista, em situação muito elevada, de tal maneira, que,
para olhá-la, devia erguer muito a cabeça, como se ela lhe fosse muito superior. O sonho
compensava a atitude de certo menosprezo que, na vida prática, Jung votava à paciente, fato
que o sonhador diz logo ter percebido, e, mais ainda, comunicado à cliente a seguir. Um
sonho assim se poderia prestar bem para encenação psicodramática no caso de um sonhante
que não lhe captasse o sentido!

Os sonhos prospectivos. Quanto aos sonhos, podemos ter ainda, além daqueles
nitidamente compensadores, os chamados prospectivos, indicativos de bom prognóstico, de
boa evolução.

De maneira geral, muitos sonhos podem ser analisados como sendo prospectivos.
São os que indicam qualidades, possibilidades que o indivíduo tem de realizar coisas boas, de
se sair de situações más em que se encontre, de melhorar, de progredir psiquicamente.

Nos sonhos, por exemplo, ainda há pouco lembrados, das pacientes presas, figura do
herói indica tratar-se de sonhos desse tipo. As pacientes, no momento em situação de grande
desânimo, tinham dentro de si a possibilidade de defender e si próprias, de sair desse estado
de precariedade de iniciativa, partindo para a sua própria defesa na vida.

Análise tipo construtivo, dos sonhos. Analisar os sonhos procurando o seu lado
prospectivo, o que, repetimos, é muitas vezes possível, constitui, o que Jung chama de
método construtivo de análise dos sonhos. Em vez de apenas reduzir o sonho a dados causais,
relativos a sintomas e a sinais, de ter a vista voltada apenas para a parte negativa que, é claro,
se existe deve ser levada em conta,procuramos no sonho também (ou, sobretudo) esse lado
de bom prognóstico, indicativo de possibilidades de progresso, para apresentá-lo ao cliente.
Procura-se, a partir do sonho, levá-lo a construir algo, uma nova atitude, uma nova
personalidade. Consegue-se isso se atentando aos elementos simbólicos do sonho,
procurando-se captar, a partir destes, os conteúdos inconscientes que eles estejam
representando. Esta maneira de trabalhar os sonhos é muito importante em se tratando de
um processo de individuação que vá mais longe.

Sonhos de intuição do futuro. O que constitui uma grande curiosidade para pessoas
que não lidam muito com Jung, mas que o conhecem um pouco é a questão dos sonhos de
predição do futuro. Jung mesmo teve um assim. Napré-1.a Grande Guerra, viu o mapa da
Europa todo manchado de riscos de sangue. O sonho o impressionou grandemente, mas dele
não pôde tirar uma conclusão. Quando a guerra estourou, percebeu que o sonho tinha sido
para ele, uma predição da grande conflagração.

Citamos, a respeito, um sonho simples de um jovem: via-se ele diante de duas


pessoas conhecidas, as quais se punham a criticar-lhe algum trabalho que fizera; reagia mal,

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não tolerando a situação. Estranhava o sonho, não podendo relacioná-lo absolutamente a
nada ocorrido antes do mesmo e achando-o sem significado. Dois dias após, entretanto, a
situação bonífica se verificou na prática: uma das duas pessoas, a cuja apreciação então
submeteu a redação de um trabalho, procurou mostrar-lhe como a poderia melhorar e,
irritado com isso, o jovem explodiu.

Tarde nos contou o sonho: este o prevenia dessa situação na vida prática: de sua
provável reação emface de críticas quanto ao trabalho intelectual de escrever, que vinha
preocupadamente desenvolvendo.

Dir-se-ia: mas ele devia saber disso, não havendo necessidade de que o sonho lho
dissesse: o caso, porém, é que, mal se conhecendo, não o sabia. Muita coisa há que
deveríamos saber, ou melhor, que poderíamos saber se tivéssemos a capacidade para tal, se
pensássemos direito sobre elas. E a propósito nos lembramos de como Atila Ferreira Vaz,
psiquiatra e filósofo, insiste na origem da palavra inconsciente, tomando-a em alemão e
dizendo que não quer dizer "desconhecido", mas sim "não sabido": seria tudo aquilo, em nós,
que não queremos saber que existe que não queremos reconhecer. Entretanto, por uma
razão ou por Outra, não sabemos essas muitas coisas. E necessário, então, que os sonhos as
ponham à nossa frente, numa computação de dados que nos fogem à mente enquanto
acordados, que nos escapam ordinariamente à consciência.

A possibilidade de previsão da dificuldade referida, nosso sonhante a poderia ter


"realizado". Poderia, dizemos, mas algo nele não permitiu que assim Fosse. Foi então
necessário que tivesse o sonho, o qual infelizmente lhe foi inútil, pois não logrou entendê-lo.
Tivesse-o entendido, tivesse tomado consciência de seu possível modo de reagir frente à
crítica no campo intelectual, teria sabido evitar a desagradável explosão a que se deixou levar.

Se quiséssemos poderíamos, atentando ao fato de que o sonhante do caso teria


possibilidade, na vida prática, de prever o acontecimento indicado no sonho, poderíamos,
forçando, buscar reduzir este último, de intuitivo, à qualidade de sonho compensador,
dizendo mais ou menos assim: a intuição que nele aparece compensa uma falta de percepção
da situação na vida prática, com a consequente falta de previsão da dificuldade que adviria ao
se confrontar o sonhante com alguém a lhe julgar uma redação. Na prática, porém, a todo
sonho que gire em torno de uma previsão, chamamos de sonho intuitivo — a intuição é sua
característica principal.

Pergunta: Ouvimos sobre a presença de persona, anima e animus na literatura; e o


próprio processo da individuação, podemos encontrá-lo também nela?

Resposta: Sim se, naturalmente, nela o soubermos apreciar, o que, aliás, se dá, é
claro, também no caso dos elementos citados na pergunta.

Biografias e autobiografias, inesgotáveis fontes para estudo dos tipos psicológicos,


também nos podem revelar o processo de individuação realizado naturalmente, ou seja, fora
da psicoterapia. O exemplo mais clássico a respeito é a autobiografia muito especial de Jung
mesmo, as "Memórias, sonhos e reflexões" ou, na tradução francesa, Ma vie.

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Na ficção recordamos unia vez mais o caso do personagem principal de "O fio da
navalha", que citamos. Lembraremos ainda o de Polly, na "História do Sr. Polly". Na curta e
excelente introdução desta, Frank Wells, obviamente sem emprego do termo técnico de
individuação, diz muito bem que, se esse livro escrito lá pelos 44 anos de H. O. Wells, perdura,
é por se tratar, na pessoa de Polly, que o Autor classificava como unia "individualidade-tipo",
de alguém real a se avir com os problemas peculiares aos 40 anos, à época do meio da vida.

Em outras palavras, em Polly se tem, clara, a questão de se atingir um equilíbrio


correspondente a uma adaptação ao mesmo tempo ao mundo interior e ao mundo de fora.
Assim, continuando a citar Frank Wells, "Alfred Polly vive ainda e é compreendido por ser,
antes de tudo, uma personalidade que existirá em qualquer lugar e em qualquer fase social."
Há também muito de Polly em todos os homens porque eles também devem, em uma época
ou noutra, ter quarenta anos, sendo que "A idade dos 40 anos parece ser um pico..." (o ponto
mais alto que se atingiu subindo uma montanha).

Na sua obra, "Ressurreição". Tolstoi trabalha com o mesmo tema: a criança a cuja
criação a heroína se vai, dedicar no seu exílio encarna em si o self da mesma.

Na literatura da atualidade, "A viagem para o oriente", de Herman Hesse, a nosso ver
lida, numa linguagem poética, com um processo de individuação que fracassou. Mais
presentemente, num estilo mais à moda dos contos de fadas, Homero Homem apresenta, em
"Menino de Asas", o mesmo processo, com um final feliz.

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