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Análise do conto de Sagarana:

A hora e a vez de Augusto Matraga

“A hora e a vez de augusto Matraga” faz parte de um ciclo temático de Sagarana.


Sagarana é o nome da obra em que está inserido o conto “A hora e a vez
de augusto Matraga”. Em Sagarana Rosa faz um jogo linguístico em mistura
estruturas de duas línguas muito diferentes: saga tem origem germânica e
significa “canto heroico”, enquanto rana vem do tupi e quer dizer “à maneira de”.
Não só o jogo linguístico é muito interessante, mas a questão do misticismo
e religiosidade aparece em meio às palavras. Augusto Matraga traz em si alguns
significados interessantes. O nome Matraga pode ser relacionado a uma serie de
palavras de cunho místico e que estão ligadas à sua trajetória no conto.
A palavra mataz significa vaso alquímico, ou seja, recipiente em que
acontecem transformações de substâncias. O termo matraca designa um
instrumento sonoro utilizado em procissões religiosas e penitências.
A palavra grega tragos significa bode imolado como sacrifício nas tragédias
gregas. Assim, podemos perceber o nome da personagem é uma mistura (uma
massa) desses dignificados, que traz em si marcas de transformação de seu ser,
da penitência de sua morte e sacrifício como mártir ao fim da narrativa.
“A hora e vez de Augusto Matraga” é uma história de redenção e
espiritualidade, uma história de conversão. Ao longo do seu enredo o protagonista,
Augusto Matraga, passa do mal ao bem, da perdição à salvação.
Narrado em terceira pessoa, a história marcada pelo belo  trabalho com a linguagem  é protagonizada por Nhô Augusto. O
personagem principal é um homem cruel que acaba por conseguir dar uma reviravolta na própria vida, mas afinal se vê em luta
contra o seu instinto. Marcado pela violência, pela vingança e pela realidade dura do sertão de Minas Gerais, a criação de Guimarães
Rosa é um clássico da literatura brasileira que merece ser lido e relido.
Augusto Matraga é um homem de poder, mas perde os bens materiais e todos os familiares, companheiros e serviçais em
virtude da ignorância e da vingança. A despeito disso, o protagonista tem a oportunidade de “renascer” e tomar atitudes mais
mansas, além de ajudar ao próximo como forma de redenção dos pecados.
A narrativa estrutura-se de modo circular, pois as ações finais do protagonista apontam para as mesmas proferidas na primeira
parte do texto. No início, Nhô Augusto procura vingar-se do Major Consilva e os capangas, enquanto no final “se mete” com o bando
de seu Joãozinho Bem-Bem, impedindo uma injustiça. O ciclo se fecha aqui em virtude da morte do protagonista.
“A hora e vez de Augusto Matraga”, nono e último conto de Sagarana (primeiro livro publicado de Rosa), está entre as obras-
primas da narrativa brasileira, recria uma verdadeira saga do homem na travessia por este mundo. Matraga é, de um modo mais
amplo, o homem no sentido universal. Sua trajetória recria a passagem evolutiva em busca do aprendizado do viver e da ascensão
espiritual em plenitude. Seu objetivo será ter sua hora e vez de entrar no céu, “mesmo que seja a porrete”.

As fases da vida de Augusto Matraga

A vida de Augusto Matraga é dividida em três fases do conto. Na primeira, mostra um Matraga de vida desregrada e visto como
uma má pessoa, um valentão da localidade, que arruma briga com todos. Ele toma para si as mulheres alheias e não dá atenção a
sua esposa e filha, Dona Dionóra e Mimita, nem mesmo cuida de sua fazenda, que entra em declínio. Ele é tão desleixado com a
família que acaba abandonado por dona Dionóra, que foge com Ovídio, seu amante, levanto junto a filha. Matraga é abandonado
até mesmo pelos capangas que o acompanhavam e que passaram a servir o seu inimigo, Major Consilva. Matraga vai então tirar
satisfação sobre tal traição, e o bando do inimigo tenta matá-lo, achando que haviam tido sucesso na empreitada, mas Matraga
sobrevive. Começa então a segunda fase de seu percurso de vida na história.
— Segura!
Mas já ele alcançara a borda do barranco, e pulara no espaço. Era uma altura, O corpo rolou, lá em baixo, nas moitas, se sumindo.
— Por onde é que a gente passa, p’ra poder ir ver se ele morreu?
Mas um dos capangas mais velhos disse melhor: — Arma uma cruz aqui mesmo, Orósio, para de noite ele não vir puxar teus pés...
E deram as costas, regressando, sob um sol mais próximo e maior.
Mas o preto que morava na boca do brejo, quando calculou que os outros já teriam ido embora, saiu do seu esconso, entre as
taboas, e subiu aos degraus de mato do pé do barranco. Chegou-se. Encontrou vida funda no corpo tão maltratado do homem branco;

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chamou a preta, mulher do preto que morava na boca do brejo, e juntos carregaram Nhô Augusto para o casebre dos dois, que era um
cofo de barro seco, sob um tufo de capim podre, mal erguido e malavistado, no meio das árvores, como um ninho de maranhões.

Segunda fase

Essa segunda fase caracteriza-se pela mudança de Matraga após a experiência de quase ter morrido. Depois de ter escapado
com vida do atentado, ele é acolhido por um casal de negros e passa a levar a vida em busca de um único propósito: “Pra o céu eu
vou, nem que seja a porrete”! Entre diversas tentações, passa por um período intenso de reflexão e penitência, em busca de ver seus
pecados redimidos, sempre com a certeza de que sua vez e sua hora iriam chegar.
— Mas, será que Deus vai ter pena de mim, com tanta ruindade que fiz, e tendo nas costas tanto pecado mortal?!
— Tem, meu filho. Deus mede a espora pela rédea, e não tira o estribo do pé de arrependido nenhum...
E por aí a fora foi, com um sermão comprido, que acabou depondo o doente num desvencido torpor.
— Eu acho boa essa ideia de se mudar para longe, meu filho. Você não deve pensar mais na mulher, nem em vinganças.
Entregue para Deus, e faça penitência. Sua vida foi entortada no verde, mas não fique triste, de modo nenhum, porque a tristeza é
aboio de chamar o demônio, e o Reino do Céu, que é o que vale, ninguém tira de sua algibeira, desde que você esteja com a graça
de Deus, que ele não regateia a nenhum coração contrito!
— Fé eu tenho, fé eu peço, Padre...
— Você nunca trabalhou, não é? Pois, agora, por diante, cada dia de Deus você deve trabalhar por três, e ajudar os outros,
sempre que puder. Modere esse mau gênio: faça de conta que ele é um poldro bravo, e que você é mais mandante do que ele... Peça
a Deus assim, com esta jaculatória: “Jesus, manso e humilde de coração, fazei meu coração semelhante ao vosso.
E, páginas adiante, o padre se portou ainda mais excelente mente, porque era mesmo uma brava criatura. Tanto assim, que, na
despedida, insistiu: — Reze e trabalhe, fazendo de conta que esta vida é um dia de capina com sol quente, que às vezes custa muito a
passar, mas sempre passa. E você ainda pode ter muito pedaço bom de alegria... Cada um tem a sua hora e a sua vez: você há de ter a sua.

Terceira fase

Nesta última fase de sua vida, Matraga parte sem destino, ou dizendo melhor, para encontrar seu destino, mas sem saber ao
certo onde. Nesse trajeto, chega a tão esperada hora e vez de Augusto Matraga. Ele reencontra um bando de jagunços já conhecido
por ele, chefiado por Joãozinho Bem-Bem. O grupo estava em ação de vingança. Nesse momento, Matraga intervém, intercedendo
pelo homem que clamava pela vida de seu filho e tentando evitar a vingança dos jagunços. Em um ato heroico, Matraga é morto. A
redenção que tanto desejava havia chegado pelas mãos de Joãozinho Bem-Bem.
— Não faz isso, meu amigo seu Joãozinho Bem-Bem, que o desgraçado do velho está pedindo em nome de Nosso Senhor e da
Virgem Maria! E o que vocês estão querendo fazer em casa dele é coisa que nem Deus não manda e nem o diabo não faz!
Nhô Augusto tinha falado; e a sua mão esquerda acariciava a lâmina da lapiana, enquanto a direita pousava, despreocupada,
no pescoço da carabina. Dera tom calmo às palavras, mas puxava forte respiração soprosa, que quase o levantava do selim e o
punha no assento outra vez. Os olhos cresciam, todo ele crescia, como um touro que acha os vaqueiros excessivamente abundantes
e cisma de ficar sozinho no meio do curral.
— Você está caçoando com a gente, mano velho?
— Estou não. Estou pedindo como amigo, mas a conversa é no sério, meu amigo, meu parente, seu Joãozinho Bem-Bem.
— Pois pedido nenhum desse atrevimento eu até hoje nunca que ouvi nem atendi!...
O velho engatinhou, ligeiro, para se encostar na parede. No calor da sala, uma mosca esvoaçou.
— Pois então... — e Nhô Augusto riu, como quem vai contar uma grande anedota —...Pois então, meu amigo seu Joãozinho
Bem-Bem, é fácil... Mas tem que passar primeiro por riba de eu defunto...

Narrador

O foco narrativo do conto é em terceira pessoa, com narrador onisciente, penetrando na cabeça de Matraga como se fosse
sua consciência, mas apenas quando ele se refere ao protagonista, como se tivesse o poder de sondar os pensamentos de Augustos
Matraga. Não é onisciente, porém, ou pelo menos não demonstra ser, em relação ao que é externo ao protagonista. Um exemplo disso
é o fato de ele só ficar sabendo do destino de dona Dionóra e sua filha pelo relato de Tião da Thereza, assim como soube Matraga.
O narrador também incorpora o modo poético e regionalista de falar das personagens, fazendo com que essa inventividade
verbal perpasse toda a história. Assim, a grande especificidade do narrador do conto e de grande parte da obra rosiana em geral tem
a presença de muitas marcas de oralidade.

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Outra característica do narrador no conto é a distância que ele estabelece entre o leitor e a história, pois sua presença é
tão forte e marcante que traz subjetividade à narrativa. Dessa maneira, ele faz com que sejamos expectadores, não das ações da
narrativa, mas da narração que ele faz dessas ações:
E, páginas adiante, o padre se portou ainda mais excelente mente, porque era mesmo uma brava criatura.
O narrador é tão senhor da história que discursa sem nem ao menos se preocupar com a verossimilhança ou qualquer lei que
torne sua narrativa outra coisa, senão livre:
E assim se passaram pelo menos seis ou seis anos e meio, direitinho deste jeito, sem tirar e nem pôr, sem mentira nenhuma,
porque esta aqui é uma estória inventada, e não é um caso acontecido, não senhor.

Tempo

O tempo da narrativa não é marcado cronologicamente, ou seja, está embasado no campo psicológico, sendo indeterminado.
Fato interessante é que ela possui um caráter mítico, conforme estudos de analistas e estudiosos da obra rosiana e, sobretudo do
conto em questão. Conforme afirma Walnice Nogueira Galvão “o tempo também adquire indeterminação mítica, sendo pouca
ou nula a importância da cronologia, predominando os ritmos amplos da natureza e da vida interior” Isso faz com que as marcas
temporais no conto sejam internas, imprecisas em relação ao cronológico:
De manhã, com o sol nascendo, retomaram a andadura. E, quando o sol esteve mais dono de tudo, e a poeira era mais seca,
Mimita começou a gemer, com uma dor de pontada, e pedia água. E, depois, com um sorriso tristinho, perguntava:
— Por que é que o pai não gosta de nós, mãe?
As passagens de tempo são ditadas constantemente pelo ritmo da natureza, como o voo das maritacas, que indicava ao
protagonista que era chegada a hora de partir em busca do seu destino.

Espaço

O espaço é bastante delimitado: a narrativa se passa no sertão do norte de Minas Gerais, onde as ações se encontram em
cenário cercado por rios, serras e vegetações. Matraga passa por vilarejos, como Murici, Tombador e Rala-Coco, espaços bem
demarcados no conto.
É interessante notar o quanto a passagem de Augusto Matraga por esses locais tem relação com as fases de sua vida e sua
trajetória do pecado à redenção.
No início, Augusto é pecador, violento desrespeitoso e está no Murici, vivendo um momento infernal para si e os que o rodeiam.
A partir do momento em que é tido como morto e tem a chance de se redimir, passa a ser um homem filantropo e ter uma vida
abnegada, no Tombador, onde tem momentos de reflexão e penitência. Nesse espaço, Matraga passa por um despertar para si e
deseja mudanças de seu ser a fim alcançar o livramento de seus antigos pecados e a salvação.
Finalmente, no Rola-Coco, chega a hora e a vez de Augusto Matraga: abrindo mão de sua própria vida para salvar outra, ele
mostrou que havia atingido a transformação de seu ser que tanto desejava.
Assim, podemos perceber que o espaço do conto simboliza a travessia de existência de Matraga em uma analogia, como se ele saísse
do inferno e tivesse a chance de passar pelo purgatório para purificar-se e atingir, o céu, ao provar sua transformação para a benevolência.

Linguagem e estilo

Para ler Guimaraes Rosa é necessário estar preparado(a) para um grande desafio. A leitura deve ser contemplativa, lançando um
olhar sem pressa, como a ruminação paciente de um boi. E é por esse motivo que podemos afirmar que o conto é escrito em prosa poética.
A linguagem é parte viva da narrativa. Em Guimaraes Rosa, a linguagem é a maior protagonista em qualquer de suas histórias.
Linguagem e estilo caminham juntos delineando um caráter popular sertanejo e complexo. A exploração da linguagem ao lado do
estilo textual já aparece no início do conto, quando o autor apresenta uma cantiga popular e um provérbio capiau, com destaque
também para o efeito oral e poético que já ali se apresenta. Rosa brinca com as palavras, porém utilizando uma brincadeira madura,
que envolve muito estudo e cuidado em torno da linguagem.
O protagonista, recebe três nomes, de acordo com a fase de sua trajetória na história: em sua primeira fase, em que é um
fazendeiro temido, é chamado de Augusto Estêves, seu nome social, indicando sua posição de coronel. Na segunda fase, quando
está em um momento reflexão sobre si mesmo, passa a ter o nome de indivíduo, Nhô Augusto. E finalmente na terceira fase, em que
ocorre a transformação de seu ser, aparece com um nome mítico, Augusto Matraga, o herói que ficou na memória popular.
No nome do antagonista do duelo do conto, a linguagem também parece viva em parte da narrativa: o nome Joãozinho, no
diminutivo, contrasta com o perfil de jagunço do personagem e, vindo acompanhado ainda de Bem-Bem, repetição de adverbio
que indica bondade, traz nas palavras a temática do conto que relativiza o bem e o mal. Repetido, o temo bem-bem cria uma
onomatopeia dos badalos de sino, que se relaciona com a temática religiosa, o momento final em que Joãozinho tem o papel de

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possibilitar a redenção de Matraga ao mata-lo, e também a sonoridade da fala popular.
Outra característica marcante da linguagem no conto é o uso de metáforas. Um exemplo é a metáfora da cobra, que associa
a ideia do mal dentro da condição cristã, como vemos neste trecho em que Quim dá o recado sobre a fuga da família de Augusto:
Estão espalhando... — o senhor dê o perdão p’r’a minha boca que eu só falo o que é perciso — estão dizendo que o senhor nunca
respeitou filha dos outros nem mulher casada, e mais que é que nem cobra má, que quem vê tem de matar por obrigação... Estou
lhe contando p’ra mo do de o senhor não querer facilitar. Carece de achar outros companheiros bons, p’ra o senhor não ir sozinho...
Eu, não, porque sou medroso.
Eu cá pouco presto...
Guimaraes Rosa recria a linguagem regional de forma extremamente elaborada, aliando ao mais puro poético para criar efeitos
inusitados e da mas sublime perfeição. Há um fraseado poético, na fala dos sertanejos de seu conto, que consegue ir ao cerne
da mensagem que quer transmitir. É como se o pensamento viesse encorpado nas palavras de maneira direta, sem obstáculo.
A linguagem regional aparece aliada à pureza da poesia: regional e erudito. Esse casamento entre o regional e o erudito parece
surpreender o leitor, maravilhado e chocado diante da fascinação verbal que, ora prende, ora espanta, criando até mesmo
dificuldades na leitura, porém colocando o leitor frente a um grande desafio. Ler Guimarães Rosa é fazer uma emocionante viagem.

Personagens

Augusto Esteves/ Nhô augusto/ Augusto Matraga: é o protagonista da obra. Seus nomes são usados conforme as passagens
significativas de sua vida, o permite enxergar nele uma projeção dos heróis míticos. Órfão de mãe, é filho do fazendeiro e coronel
Afonso Estêves. Era conhecido por todos da região como valentão. Seu comportamento desregrado levou-o a perder a fortuna,
tendo quase perdido a vida. Vivia como um mulherengo beberrão, não valorizava esposa e filha, que fugiram com um outro homem.
Após uma surra encomendada pelos capangas do Major Consilva, a quem se aliaram seus ex-capangas, ele quase morreu.
Matraga sentiu-se renascer como outro homem. Foi obrigado a esconder-se dos inimigos num sítio com um casal de pretos velhos
que o salvou. Matraga transforma-se num homem bom e abnegado, trabalhador e rezador. Convertido, buscou constantemente sua
redenção até morrer preocupado com a salvação de sua alma. Morreu matando o famoso chefe de jagunços, Joãozinho Bem-Bem,
defendendo uma família inocente.
Joãozinho Bem-Bem: Famoso chefe de um bando de jagunços. Homem temido e destemido no sertão. Faz justiça com as próprias
mãos ou armas, defendendo seus aliados e eliminando seus inimigos. Pressente em Nhô Augusto uma força oculta que os aproxima.
Dona Dionóra: Era mulher de Nhô Augusto que, por não receber o respeito e a atenção do marido, e não aguentando mais as
judiações do marido e seu descaso, foge com outro homem, Ovídio Moura.
Mitinha: é filha de Nhô Augusto e dona Dionára. Mais tarde, Matraga fica sabendo que a filha se perdeu na vida por causa de
um homem e acaba se tomando prostituta.
Ovídio Moura: Amante de Dona Dionóra, com quem ela fugiu.
Quim Recadeiro: Era amigo e empregado de Nhô Augusto, tendo a função, como o próprio nome indica, de levar recados.
Depois da surra e do desaparecimento de Matraga, que acaba tido como morto, Quim vai em busca de justiça e vingar sua morte,
mas é assassinado pelos capangas do Major Consilva.
Major Consilva: Fazendo, mau, rico e inimigo de Nhô Augusto, que encomendou a surra que o mataria, porém Matraga escapou
com vida sem que ninguém soubesse
Tião da Thereza:  Conterrâneo de Nhô Augusto, que em andanças acaba descobrindo que ele não estava morto. Dá a ele
noticias sobre Dona Dionára, a perdição de Mimita e o assassinato de Quim Recadeiro.
Casal de negros: Mãe Quitéria e pai Serapião , que acolhem Matraga após a surra e cuidam dele durante sua recuperação.
Possuem papel importante na conversão de Augusto, pois conviveram com ele durante todo o seu período de sacrifício e mostraram-
lhe a moral cristã.
Outros personagens: Angélica. Sariema, Juruminho, Teófilo Sussuarana, Padre , Bando do Joãzinho Bem-Bem etc.
A visão de Matraga como herói está diretamente ligada ao momento de sua redenção no final do conto, no momento em
que protegeu inocentes da vingança de Joãozinho Bem-Bem. Ao dar sua vida para salvar outras, virou herói aos olhos de quem
testemunhou se ato:
E o povo, enquanto isso, dizia: “Foi Deus quem mandou esse homem no jumento, por mór de salvar as famílias da gente!...“ E
a turba começou a querer desfeitear o cadáver de seu Joãozinho Bem-Bem, todos cantando uma cantiga que qualquer-um estava
inventando na horinha:
— Não me mata, não me mata seu Joãozinho Bem-Bem!
Você não presta mais pra nada, seu Joãozinho Bem-Bem!...

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Essa fala traz ainda a questão religiosa do mártir. A trajetória heroica de Augusto Matraga se mostra ainda mais valorosa quando
pensamos que ele inicia o conto em uma posição de poder e desce o campo dos oprimidos. Passa por diversas provações, como
realmente haveria de ser em consonância com os heróis míticos que têm sua coragem testada antes de atingir o auge da redenção.
O mais interessante da trajetória de heroísmo de Matraga é o fato de que ele pensava estar no rumo de atingir a redenção sendo
herói asceta, em uma luta contra si mesmo e seus desejos. Mas no fim, terminou como um herói guerreiro, que lutou contra outro.

Herói asceta: pessoa que se entrega a práticas espirituais, levando vida


contemplativa com mortificação dos sentidos. Que leva uma vida irreparável.

Nhô Augusto falou, enérgico:


— Para com essa matinada, cambada de gente herege!... E depois enterrem bem direitinho o corpo, com muito respeito e em
chão sagrado, que esse aí é o meu parente seu Joãozinho Bem-Bem!
E o velho choroso exclamava:
— Traz meus filhos, para agradecerem a ele, para beijarem os pés dele!... Não deixem este santo morrer assim... P’ra que foi que
foram inventar arma de fogo, meu Deus?!
Mas Nhô Augusto tinha o rosto radiante, e falou: — Perguntem quem é aí que algum dia já ouviu falar no nome de Nhô Augusto
Estêves, das Pindaíbas!
— Virgem Santa! Eu logo vi que sé podia ser você, meu primo Nhô Augusto...
Era o João Lomba, conhecido velho e meio parente. Nhô Augusto riu: — E hein, hein João?!
— P’ra ver...
Então, Augusto Matraga fechou um pouco os olhos, com sorriso intenso nos lábios lambuzados de sangue, e de seu rosto subia
um sério contentamento.
Daí, mais, olhou, procurando João Lomba, e disse, agora sussurrado, sumido:
— Põe a benção na minha filha.., seja lá onde for que ela esteja... E, Dionóra... Fala com a Dionóra que está tudo em ordem!
Depois, morreu.

O místico e o religioso

Guimarães Rosa alcança um universalismo épico, no qual insere nuanças de modernidade, regionalismo e reflexão sobre o
herói que pode haver no homem comum. O autor traz o caráter da epopeia, mas a desconstrói de sua versão clássica, em que há
glamour nos heróis míticos. Ele reconstrói a epopeia clássica com um herói real, um homem da modernidade, que traz em si o
heroísmo e o bem, mas também sua natureza humana, que possui também covardia e inclinações para o mal.
A religiosidade permeia toda a narrativa de “A hora e a vez de Augusto Matraga” e frequentemente aparece um sinal místico,
de maneira que o cristianismo e o misticismo se entrelaçam em um clima que espiritualiza o conto. São frequentes as analogias,
implícitas e explícitas, com elementos bíblicos e religiosos. O protagonista age, em certo ponto da narrativa, sob a mesma condição de
Jesus Cristo, sugerindo a passagem em que Jesus entra em Jerusalém montado em um jumento, Nessa situação, Jesus estaria indo ao
encontro de seu destino, sua hora e sua vez, momento em que deu a própria vida como mártir supremo para salvar a humanidade.
Nhô Augusto, deixa o sítio e vai em busca e ao encontro de seu destino, e também chega montado em um jumento:
Rodolpho Merêncio quis emprestar-lhe um jegue.
— Que nada! Lhe agradeço o bom desejo, mas não preciso de montada, porque eu vou é mesmo a pé...
Mas, depois, aceitou, porque mãe Quitéria lhe recordou ser o jumento um animalzinho assim meio sagrado, muito misturado
às passagens da vida de Jesus.
Assim, a religiosidade também está presente na conversão do protagonista, que muda totalmente sua conduta ao longo do
conto. Essa conversão adquire até mesmo um tom de parábola, como as que encontramos na Bíblia. Depois de quase ter passado
tão perto da morte, Matraga foi acolhido pelo casal de negros, que, percebendo a angustia naquele homem, levaram até ele um
padre para que se confessasse. O sacerdote deu a Matraga as trilhas do caminho para o perdão de seus pecados. O próprio Matraga
questiona se Deus teria pena dele mesmo depois de ter cometido tantos pecados mortais:
— Mas, será que Deus vai ter pena de mim, com tanta ruindade que fiz, e tendo nas costas tanto pecado mortal?!
— Tem, meu filho. Deus mede a espora pela rédea, e não tira o estribo do pé de arrependido nenhum...
E por aí a fora foi, com um sermão comprido, que acabou depondo o doente num desvencido torpor.
— Eu acho boa essa ideia de se mudar para longe, meu filho. Você não deve pensar mais na mulher, nem em vinganças.
Entregue para Deus, e faça penitência. Sua vida foi entortada no verde, mas não fique triste, de modo nenhum, porque a tristeza é

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aboio de chamar o demônio, e o Reino do Céu, que é o que vale, ninguém tira de sua algibeira, desde que você esteja com a graça de
Deus, que ele não regateia a nenhum coração contrito!
— Fé eu tenho, fé eu peço, Padre...
— Você nunca trabalhou, não é? Pois, agora, por diante, cada dia de Deus você deve trabalhar por três, e ajudar os outros,
sempre que puder. Modere esse mau gênio: faça de conta que ele é um poldro bravo, e que você é mais mandante do que ele... Peça
a Deus assim, com esta jaculatória: “Jesus, manso e humilde de coração, fazei meu coração semelhante ao vosso.
E, páginas adiante, o padre se portou ainda mais excelente mente, porque era mesmo uma brava criatura. Tanto assim, que, na
despedida, insistiu: — Reze e trabalhe, fazendo de conta que esta vida é um dia de capina com sol quente, que às vezes custa muito
a passar, mas sempre passa. E você ainda pode ter muito pedaço bom de alegria... Cada um tem a sua hora e a sua vez: você há de
ter a sua.
Ainda tratando da religiosidade, podemos notar a semelhança da personagem com outras personagens religiosas: São Francisco,
São Domingos, como já dissemos, Jesus Cristo.
A saga de Augusto Matraga é como uma história de salvação, uma transfiguração do destino, cujo homem passa da devassidão
à santidade por três passos: pecado, penitência e redenção.
Outro tema interessante presente no conto é a violência e o embate entre o bem e o mal. A violência perpassa o interior do
protagonista em sua luta interna entre o bem e o mal e culmina no confronto exterior do duelo final entre Matraga e Joãozinho Bem-
Bem. Interessante notar que a violência é, de fato, um aspecto que aparece nas três fases da vida de Matraga: Na fase do pecado,
ela está na violência dos atos de Matraga; na fase da penitencia, ela está na dor a que Nhô augusto se submete em sacrifício contra
seus impulsos humanos; e na fase da salvação, a violência está presente na forma de destruição, pois por meio da violência de matar
Joãozinho Bem-Bem é que vem a redenção de Matraga.
Guimaraes Rosa relativiza o bem e mal, de maneira que ambos oscilam suas posições, brincando com as vontades e o destino
do ser humano.
Curiosamente parece haver um tripé que compõe o conto em todos os aspectos. Sua estrutura parece sempre tripla. A
convivência de Matraga sempre ocorre na composição de trio: na primeira cena do conto, o trio compõe-se por ele e mais duas
prostitutas. Sua família é constituída por três: ele, esposa e filha. Ao ser resgatado depois da surra, passa a viver com um casal
ne negros. Em seu duelo final, quando atinge a redenção, compões o trio com Joãozinho Bem-Bem e o velho a quem protege. A
trajetória de vida do protagonista também está dividida em três fases: o período Augusto ME finalmente, por três vezes aparece a
metáfora da cobra, tida na visão cristã como símbolo do mal. Primeiro no recado de Quim à Matraga comunicando a fuga da família:
“estão dizendo que o senhor nunca respeitou filha dos outros nem mulher casada, e mais que é que nem cobra má, que quem
vê tem de matar por obrigação..”
Segundo quando Quitéria compara Matraga ao animal:
— Deus que me perdoe, — resmungou a preta, — mas este homem deve de ser ruim feito cascavel barreada em buraco, porque
está variando que faz e acontece, e é só braveza de matar e sangrar...
E finalmente quando Matraga fere Joãozinho Bem-Bem:
— Úi, estou morto...
A lâmina de Nhô Augusto talhara de baixo para cima, do púbis à boca-do-estômago, e um mundo de cobras sangrentas saltou
para o ar livre, enquanto seu Joãozinho Bem-Bem caía ajoelhado, recolhendo os seus recheios nas mãos.
Enfim, ao participar dessa travessia tripla que compõe o conto podemos compreender a passagem do protagonista pelo
inferno, purgatório e céu.

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Análise da Obra:
O Alienista – Machado de Assis

O Alienista, cento e trinta anos depois de sua publicação original, continua


sendo uma das mais devastadoras observações sobre a insanidade a que pode
chegar a ciência.
Publicado entre outubro de 1881 e março 1882, do volume Papéis Avulsos.
É um dos mais bem realizados dos contos pela justeza com que funde tema e
linguagem, fazendo com que a própria linguagem retrate com clareza o mundo
perturbado de Itaguaí. O problema da loucura, centro temático do conto, foi
preocupação constante de Machado de Assis. Basta lembrar Quincas Borba (1891)
e Memórias Póstumas de Brás Cubas(1881), cujas personagens se desviam de
um padrão de conduta tido como índice de normalidade da criatura humana.
Em o Alienista é exatamente a procura dessa norma que constitui o objetivo da
personagem central, devorada pelas discutíveis verdades de sua ciência, palavra
mágica que causa temor e admiração.
O Alienista é considerada uma joias da ficção da literatura mundial. É uma
história surpreendente e atual em seu debate sobre desvios e normalidade, loucura
e razão. O Alienista conta a história de Simão Bacamarte, médico interessado em
reconhecer as fronteiras entre a razão e a loucura. Simão Bacamarte passa a se
interessar pela psiquiatria, iniciando um estudo sobre a loucura.Com este fim,
instala em Itaguaí, cidadezinha fluminense, um hospital para doentes mentais, a
Casa Verde -um típico hospício oitocentista -, onde recolhe todos os que ele acredita loucos, arregimentando cobaias humanas para
seus experimentos.
O conto é um ensaio sobre a loucura e a lucidez, sátira política e comédia de costumes, que conta com uma esclarecedora nota
introdutória do crítico britânico John Gledson, um dos grandes intérpretes do autor brasileiro.
Após conquistar respeito em sua carreira de médico na Europa e no Brasil, o Dr. Simão Bacamarte retorna à sua terra-natal,
Itaguaí, para se dedicar ainda mais a sua profissão.
As crônicas da vila de Itaguaí dizem que em tempos remotos vivera ali um certo médico, o Dr. Simão Bacamarte, filho da nobreza
da terra e o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas. Estudara em Coimbra e Pádua. Aos trinta e quatro anos
regressou ao Brasil, não podendo el-rei alcançar dele que ficasse em Coimbra, regendo a universidade, ou em Lisboa, expedindo os
negócios da monarquia.
—A ciência, disse ele a Sua Majestade, é o meu emprego único; Itaguaí é o meu universo.
Após um tempo na cidade, casa-se com a já viúva D. Evarista, uma mulher por volta dos vinte e cinco anos e que não era nem
bonita e nem simpática. Ele evita as expansões sentimentais que inexistem na personagem. O que determina a escolha de sua
mulher, Dona Evarista, é puramente por questões biológicas, por julgá-la capaz de lhe gerar bons filhos.
...meteu-se em Itaguaí, e entregou-se de corpo e alma ao estudo da ciência, alternando as curas com as leituras, e demonstrando
os teoremas com cataplasmas. Aos quarenta anos casou com D. Evarista da Costa e Mascarenhas, senhora de vinte e cinco anos, viúva
de um juiz de fora, e não bonita nem simpática. Um dos tios dele, caçador de pacas perante o Eterno, e não menos franco, admirou-
se de semelhante escolha e disse-lho. Simão Bacamarte explicou-lhe que D. Evarista reunia condições fisiológicas e anatômicas
de primeira ordem, digeria com facilidade, dormia regularmente, tinha bom pulso, e excelente vista; estava assim apta para dar-
lhe filhos robustos, sãos e inteligentes. Se além dessas prendas,—únicas dignas da preocupação de um sábio, D. Evarista era mal
composta de feições, longe de lastimá-lo, agradecia-o a Deus, porquanto não corria o risco de preterir os interesses da ciência na
contemplação exclusiva, miúda e vulgar da consorte.
D. Evarista mentiu às esperanças do Dr. Bacamarte, não lhe deu filhos robustos nem mofinos. A índole natural da ciência é a
longanimidade; o nosso médico esperou três anos, depois quatro, depois cinco. Ao cabo desse tempo fez um estudo profundo da
matéria, releu todos os escritores árabes e outros, que trouxera para Itaguaí, enviou consultas às universidades italianas e alemãs, e
acabou por aconselhar à mulher um regímen alimentício especial. A ilustre dama, nutrida exclusivamente com a bela carne de porco
de Itaguaí, não atendeu às admoestações do esposo; e à sua resistência,—explicável, mas inqualificável,— devemos a total extinção
da dinastia dos Bacamartes.
Inicialmente, seu projeto é bem recebido pela população local, mas a aprovação interrompe quando Simão recolhe na Casa
Verde pessoas em cuja loucura a população não acredita. O barbeiro Porfírio lidera uma revolta popular contra a Casa Verde, mas,
como a rebelião é sufocada, Simão Bacamarte continua multiplicando as internações.
O fragmento que vamos ler, “A rebelião”, mostra a revolta contra o alienista, liderado por Porfírio, em sua marcha da Câmara
à Casa Verde.

Estudo de Obras Literárias ITA - O Alienista


Cerca de trinta pessoas ligaram-se ao barbeiro, redigiram e `_ levaram uma representação à Câmara.
A Câmara recusou aceitá-la, declarando que a Casa Verde era uma instituição pública, e que a ciência não podia ser emendada
por votação administrativa, menos ainda por movimentos de rua.
—Voltai ao trabalho, concluiu o presidente, é o conselho que vos damos.
A irritação dos agitadores foi enorme. O barbeiro declarou que iam dali levantar a bandeira da rebelião e destruir a Casa Verde;
que Itaguaí não podia continuar a servir de cadáver aos estudos e experiências de um déspota; que muitas pessoas estimáveis e
algumas distintas, outras humildes mas dignas de apreço, jaziam nos cubículos da Casa Verde; que o despotismo científico do
alienista complicava-se do espírito de ganância, visto que os loucos ou supostos tais não eram tratados de graça: as famílias e em
falta delas a Câmara pagavam ao alienista...
—É falso! interrompeu o presidente.
—Falso?
—Há cerca de duas semanas recebemos um ofício do ilustre médico em que nos declara que, tratando de fazer experiências de
alto valor psicológico, desiste do estipêndio votado pela Câmara, bem como nada receberá das famílias dos enfermos.
A notícia deste ato tão nobre, tão puro, suspendeu um pouco a alma dos rebeldes. Seguramente o alienista podia estar em
erro, mas nenhum interesse alheio à ciência o instigava; e para demonstrar o erro, era preciso alguma coisa mais do que arruaças e
clamores. Isto disse o presidente, com aplauso de toda a Câmara. O barbeiro, depois de alguns instantes de concentração, declarou que
estava investido de um mandato público e não restituiria a paz a Itaguaí antes de ver por terra a Casa Verde—”essa Bastilha da razão
humana”—expressão que ouvira a um poeta local e que ele repetiu com muita ênfase. Disse, e, a um sinal, todos saíram com ele.
O segundo trecho, “A Restauração”, narra o esmagamento da revolta popular contra Simão Bacamarte e a primeira tentativa
sistemática do médico para caracterizar a loucura.
Em sua tentativa de estabelecer os limites entre a razão e a loucura, o médico interna, em uma primeira etapa, todos os que
manifestam hábitos ou atitudes que, embora discutíveis, são relatados pela sociedade: os politicamente volúveis, os sem opinião
própria, os mentirosos, os que vivem fazendo discursos ou versos embolados, os vaidosos etc.

CAPÍTULO X - RESTAURAÇÃO
Dentro de cinco dias, o alienista meteu na Casa Verde cerca de cinquenta aclamadores do novo governo. O povo indignou-se.
O governo, atarantado, não sabia reagir. João Pina, outro barbeiro, dizia abertamente nas ruas, que o Porfírio estava “vendido ao
ouro de Simão Bacamarte”, frase que congregou em torno de João Pina a gente mais resoluta da vila. Porfírio vendo o antigo rival da
navalha à testa da insurreição, compreendeu que a sua perda era irremediável, se não desse um grande golpe; expediu dois decretos,
um abolindo a Casa Verde, outro desterrando o alienista. João Pina mostrou claramente com grandes frases que o ato de Porfírio!
era um simples aparato, um engodo, em que o povo não devia crer. Duas horas depois caía Porfírio! ignominiosamente e João Pina
assumia a difícil tarefa do governo. Como achasse nas gavetas as minutas da proclamação, da exposição ao vicerei e de outros atos
inaugurais do governo anterior, deu-se pressa em os fazer copiar e expedir; acrescentam os cronistas, e aliás subentendese, que ele
lhes mudou os nomes, e onde o outro barbeiro falara de uma Câmara corrupta, falou este de “um intruso eivado das más doutrinas
francesas e contrário aos sacrossantos interesses de Sua Majestade”, etc.
Nisto entrou na vila uma força mandada pelo vice-rei e restabeleceu a ordem. O alienista exigiu desde logo a entrega do barbeiro
Porfírio e bem assim a de uns cinquenta e tantos indivíduos que declarou mentecaptos; e não só lhe deram esses como afiançaram
entregar-lhe mais dezenove sequazes do barbeiro, que convalesciam das feridas apanhadas na primeira rebelião.
Este ponto da crise de Itaguaí marca também o grau máximo da influência de Simão Bacamarte. Tudo quanto quis, deu-se-lhe;
e uma das mais vivas provas do poder do ilustre médico achamo-la na prontidão com que os vereadores, restituídos a seus lugares,
consentiram em que Sebastião Freitas também fosse recolhido ao hospício. O alienista, sabendo da extraordinária inconsistência das
opiniões desse vereador, entendeu que era um caso patológico, e pediu-o. A mesma coisa aconteceu ao boticário. O alienista, desde
que lhe falaram da momentânea adesão de Crispim Soares à rebelião dos Canjicas, comparou-a à aprovação que sempre recebera
dele ainda na véspera, e mandou capturá-lo. Crispim Soares não negou o fato, mas explicou-o dizendo que cedera a um movimento
de terror ao ver a rebelião triunfante, e deu como prova a ausência de nenhum outro aro seu, acrescentando que voltara logo à
cama, doente. Simão Bacamarte não o contrariou; disse, porém, aos circunstantes que o terror também é pai da loucura, e que o
caso de Crispim Soares lhe parecia dos mais caracterizados.
Para espanto geral dos habitantes de Itaguaí, Simão Bacamarte, um dia, solta todos os recolhidos no asilo e adota critérios
inversos para a caracterização da loucura: os loucos, agora são os leais, os justos, os honestos, os imparciais etc.
A terapêutica de Simão para esse tipo de loucura consiste em tentar fazer desaparecer as “virtudes” de seus pacientes, o que
consegue com uma certa facilidade. Declara-os curados, solta-os e, reconhecendo-se como o único louco irremediável, tranca-se na
Casa Verde, onde morre alguns meses depois.
E agora prepare-se o leitor para o mesmo assombro em que ficou a vila ao saber um dia que os loucos da Casa Verde iam todos
ser postos na rua.

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—Todos?
—Todos.
—É impossível; alguns sim, mas todos...
—Todos. Assim o disse ele no ofício que mandou hoje de manhã à Câmara.
De fato o alienista oficiara à Câmara expondo: — 1’: que verificara das estatísticas da vila e da Casa Verde que quatro quintos da
população estavam aposentados naquele estabelecimento; 2° que esta deslocação de população levara-o a examinar os fundamentos
da sua teoria das moléstias cerebrais, teoria que excluía da razão todos os casos em que o equilíbrio das faculdades não fosse perfeito
e absoluto; 3° que, desse exame e do fato estatístico, resultara para ele a convicção de que a verdadeira doutrina não era aquela,
mas a oposta, e portanto, que se devia admitir como normal e exemplar o desequilíbrio das faculdades; e prontamente lhe deu alta.
Agora, se imaginais que o alienista ficou radiante ao ver sair o último hóspede da Casa Verde, mostrais com isso que ainda
não conheceis o nosso homem. Plus ultra! era a sua divisa. Não lhe bastava ter descoberto a teoria verdadeira da loucura; não o
contentava ter estabelecido em Itaguaí. o reinado da razão. Plus ultra! Não ficou alegre, ficou preocupado, cogitativo; alguma coisa
lhe dizia que a teoria nova tinha, em si mesma, outra e novíssima teoria.
—Vejamos, pensava ele; vejamos se chego enfim à última verdade.
Por meio de um processo que interferem ironia e sátira, Simão Bacamarte assume as funções que estão na ideia de Ciência, o
que permite ao autor pôr a descoberto os dois lados do problema:

1. A visão popular e seus preconceitos em face da Ciência, misto de respeito e medo do homem recolhido aos estudos e
fechado em si;
2. A deformação desse homem que toma como verdade os pressupostos da Ciência e comete em seu nome equívocos
sucessivos, sem dar pelo absurdo de suas tentações.

Mais importante que o problema da loucura, que existe em doses diferentes em todos nós, é a visão do autor sobre a feição
assumida pela Ciência e o modo como constitui essa visão.
Transformando Itaguaí em campo de experimentação, a partir de um flexível conceito de loucura, Simão Bacamarte leva pânico
à pequena população que vê atônita as internações em sua Casa de Orates, transformada em laboratório de provas.
Confundindo-se com a Ciência, o alienistas recebe ataques ou elogios sempre indiretos e por meio de instrumento destituído
de eficiência: chavões de uma oratória oca.
Enquanto procura caracterizar os tipos comuns do povo, Machado de Assis usa lugares-comuns, inchados pela retórica banal,
em que se manifesta a fala de espírito críticos. As pessoas se satisfazem com a frase de efeito epidérmico, na qual fica clara a ruptura
significado-significante, uma vez que as frases aparecem como elementos independentes, sem relação com o contexto. Tem sua vida
na carga sonoro-sensorial que é antes perda de valor que acréscimo expressivo, porque frases desgastadas pelo uso inconsequente.
Três horas depois cerca de cinquenta convivas sentavam-se em volta da mesa de Simão Bacamarte; era o jantar das boas-vindas.
D. Evarista foi o assunto obrigado dos brindes, discursos, versos de toda a casta, metáforas, amplificações, apólogos. Ela era a esposa
do novo Hipócrates, a musa da ciência, anjo, divina, aurora, caridade, vida, consolação; trazia nos olhos duas estrelas segundo a
versão modesta de Crispim Soares e dois sóis no conceito de um vereador. O alienista ouvia essas coisas um tanto enfastiado, mas
sem visível impaciência. Quando muito, dizia ao ouvido da mulher que a retórica permitia tais arrojos sem significação. D. Evarista
fazia esforços para aderir a esta opinião do marido; mas, ainda descontando três quartas partes das louvaminhas, ficava muito com
que enfunar-lhe a alma. Um dos oradores, por exemplo, Martim Brito, rapaz de vinte e cinco anos, pintalegrete acabado, curtido
de namoros e aventuras, declamou um discurso em que o nascimento de D. Evarista era explicado pelo mais singular dos reptos.
Deus, disse ele, depois de dar o universo ao homem e à mulher, esse diamante e essa pérola da coroa divina (e o orador arrastava
triunfalmente esta frase de uma ponta a outra da mesa), Deus quis vencer a Deus, e criou D. Evarista.”
D. Evarista baixou os olhos com exemplar modéstia. Duas senhoras, achando a cortesanice excessiva e audaciosa, interrogaram
os olhos do dono da casa; e, na verdade, 0 gesto do alienista pareceu-lhes nublado de suspeitas, de ameaças e provavelmente
de sangue. O atrevimento foi grande, pensaram as duas damas. E uma e outra pediam a Deus que removesse qualquer episódio
trágico—ou que o adiasse ao menos para o dia seguinte. Sim, que o adiasse. Uma delas, a mais piedosa, chegou a admitir consigo
mesma que D. Evarista não merecia nenhuma desconfiança, tão longe estava de ser atraente ou bonita. Uma simples água-morna.
Verdade é que, se todos os gostos fossem iguais, o que seria do amarelo? Esta ideia fê-la tremer outra vez, embora menos; menos,
porque o alienista sorria agora para o Martim Brito e, levantados todos, foi ter com ele e falou-lhe do discurso. Não lhe negou que
era um improviso brilhante, cheio de rasgos magníficos. Seria dele mesmo a ideia relativa ao nascimento de D. Evarista ou tê-la-ia
encontrado em algum autor que?... Não senhor; era dele mesmo; achou-a naquela ocasião e pareceu-lhe adequada a um arroubo
oratório. De resto, suas ideias eram antes arrojadas do que ternas ou jocosas. Dava para o épico. Uma vez, por exemplo, compôs uma
ode à queda do Marquês de Pombal, em que dizia que esse ministro era o «dragão aspérrimo do Nada» esmagado pelas «garras
vingadoras do Todo»; e assim outras mais ou menos fora do comum; gostava das ideias sublimes e raras, das imagens grandes e
nobres...

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— Pobre moço! pensou o alienista. E continuou consigo: —Trata-se de um caso de lesão cerebral: fenômeno sem gravidade,
mas digno de estudo...
D. Evarista ficou estupefata quando soube, três dias depois, que o Martim Brito fora alojado na Casa Verde. Um moço que tinha
ideias tão bonitas! As duas senhoras atribuíram o ato a ciúmes do alienista. Não podia ser outra coisa; realmente, a declaração do
moço fora audaciosa demais.
Fenômeno semelhante ocorre quando se procura criar uma oposição à atividade de Simão Bacamarte. O estímulo que
desencadeia a ação procede de expressões igualmente esvaziadas de significação, “cárcere privado”, “Bastilha da razão humana”,
“turbilhão de átomos” dispersos”, que mostram um gosto retórico maior que qualquer coisa. Importa-lhes antes o efeito do
momento. Assim, a expressão surge como prolongamento da qualidade e comportamento das pessoas que as proferem.
[...]
O alienista guiou para os lados da casa do albardeiro, viu-o à janela, passou cinco, seis vezes por diante, devagar, parando,
examinando as atitudes, a expressão do rosto. O pobre Mateus, apenas notou que era objeto da curiosidade ou admiração do
primeiro volto de Itaguaí redobrou de expressão, deu outro relevo às atitudes... Triste! triste, não fez mais do que condenar-se; no dia
seguinte, foi recolhido à Casa Verde.
—A Casa Verde é um cárcere privado, disse um médico sem clínica.
[...]
“Imagine-se a situação dos vereadores; urgia obstar ao ajuntamento, à rebelião, à luta, ao sangue. Para acrescentar ao mal
um dos vereadores que apoiara o presidente ouvindo agora a denominação dada pelo barbeiro à Casa Verde—”Bastilha da razão
humana”—achou-a tão elegante que mudou de parecer. Disse que entendia de bom aviso decretar alguma medida que reduzisse a
Casa Verde; e porque o presidente, indignado, manifestasse em termos enérgicos o seu pasmo, o vereador fez esta reflexão:
—Nada tenho que ver com a ciência; mas, se tantos homens em quem supomos são reclusos por dementes, quem nos afirma
que o alienado não é o alienista?
Sebastião Freitas, o vereador dissidente, tinha o dom da palavra e falou ainda por algum tempo, com prudência mas com
firmeza. Os colegas estavam atônitos; o presidente pediu-lhe que, ao menos, desse o exemplo da ordem e do respeito à lei, não
aventasse as suas ideias na rua para não dar corpo e alma à rebelião, que era por ora um turbilhão de átomos dispersos. Esta figura
corrigiu um pouco o efeito da outra: Sebastião Freitas prometeu suspender qualquer ação, reservando-se o direito de pedir pelos
meios legais a redução da Casa Verde. E repetia consigo namorado:—Bastilha da razão humana!”
Então, se as pessoas são superficiais, agem superficialmente, incapazes que são de perceber a falta de conteúdo nas palavras e nos atos.
É evidente que por outro lado, que a atitude de ironia que reveste a frase, volta-se contra o comportamento dos tipos humanos
que as esposam, definindo-os como se definem as falas: vazios e superficiais. Mas é possível ir além. Se a frase feita tem certo poder
mágico que logra contaminar momentaneamente as pessoas é também o instrumento de ataque, utilizado por Machado de Assis,
contra os costumes da época e do brasileiro, amante da retórica balofa, vazia e inchada, ainda hoje praticada por muitos.
Essa capacidade de perceber certas peculiaridades do homem, aliada à consciência de que a palavra que as expressa é veículo
de várias faces, mostra em Machado de Assis uma clara atitude crítica diante da linguagem. Por isso soube, como ninguém, no Brasil
do século passado, valorizar a palavra, despojando-a de acessórios, para adaptá-la às necessidade de sua expressão de arte, capaz
de resistir ao tempo e de se impor como modelo.
Em Machado de Assis não há excessos, pois cada elemento linguístico tem uma função importante a desempenhar.
O universo de O Alienista está dividido em duas porções distintas: de um lado está o povo que apresenta as características já
descritas anteriormente. São representantes típicos dessa feição o Crispim, o Freitas, o Brito, o presidente da Câmara, o albardeiro e
principalmente o barbeiro Porfírio, cujo apelido dá nome à revolta contra o alienista: Canjica. Na verdade, os rebelados chamam-se
canjicas porque são fáceis de conduzir e de dominar, de impulsionar a reter.
Perceba que há uma estreita relação entre a palavra e seus designados, entre o que está nela e o que ela produz. Mais ainda
pelo caráter vulgar da rebelião, chefiada por um barbeiro, instigado por momentânea ambição de poder, sem qualquer qualificativo
que lhe desse condição de mando.
Por outro lado, contrapondo-se a essa camada, está o alienista “impassível como um deus de pedra”, querendo encontrar
e demarcar a zonado limite da razão humana. Encarnando a Ciência, Simão Bacamarte se converte em entidade distante, fria e
intocável e se coloca acima do bem e do mal. Trazendo consigo os segredos apenas revelados aos iniciados, Bacamarte assume
feição mágica e se torna elemento sagrado, como repositário ou “templo” do saber científico. Existe uma enorme dose de ironia e
sátira em tudo isso, com relação a uns e outros, mas o importante a se considerar aqui, está na mudança de linguagem com o que o
autor trata e movimenta suas personagens.
Na caracterização de Simão Bacamarte, a linguagem perde o inchaço, as bolhas, para reduzir-se ao mínimo. Predominam agora
signos extraídos dos componentes da natureza – pedra, metal, ferro -, geradores do comportamento de frieza do alienista-cientista.
[...]

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Quanto ao gesto, era o mesmo que empregara no dia em que Simão Bacamarte a pediu em casamento. Não dizem as crônicas
se D. Evarista brandiu aquela arma com o perverso intuito de degolar de uma vez a ciência, ou, pelo menos, decepar-lhe as mãos;
mas a conjetura é verossímil. Em todo caso, o alienista não lhe atribuiu intenção. E não se irritou o grande homem, não ficou
sequer consternado. O metal de seus olhos não deixou de ser o mesmo metal, duro, liso, eterno, nem a menor prega veio quebrar a
superfície da fronte quieta como a água de Botafogo. [...]
“Não era um repto, um ato intencional; mas todos o interpretaram dessa maneira; e a vila respirou com a esperança de que o
alienista dentro de vinte e quatro horas estaria a ferros e destruído o terrível cárcere”. [...]
[...]
“O governo, concluiu o barbeiro, folgaria se pudesse contar não já com a simpatia senão com a benevolência do mais alto
espírito de Itaguaí e seguramente do reino. Mas nada disso alterava a nobre e austera fisionomia daquele grande homem que
ouvia alado, sem desvanecimento nem modéstia, mas impassível como um deus de pedra.
—Onze mortos e vinte e cinco feridos, repetiu o alienista depois de acompanhar o barbeiro até a porta. Eis aí dois lindos
casos de doença cerebral. Os sintomas de duplicidade e descaramento deste barbeiro são positivos. Quanto à toleima dos que o
aclamaram, não é preciso outra prova além dos onze mortos e vinte e cinco feridos.
—Dois lindos casos!
—Viva o ilustre Porfírio! bradaram umas trinta pessoas que aguardavam o barbeiro à porta.”[...]
O personagem é isolado pela linguagem em um universo que se dobra sobre si mesmo, fechando o círculo onde se guardam os
segredo do saber, de Ciência, cujo acesso só se permite aos iniciados. Como Simão Bacamarte é o único iniciado, apenas ele mantém
os segredos da Ciência, não os revelando nunca. Quer dizer, não se transformam jamais em palavra, graças ao que consegue
guardar seu “fetichismo”. Isso significa que o próprio Simão Bacamarte aparece como símbolo de um “saber” duvidoso, pois não
se revela, senão no estado de pânico em que põe o universo, quando ele procura determinar uma norma geral de conduta para o
comportamento humano, igualando, rasteiramente, todos os indivíduos.
Simão Bacamarte e ciência se identificam no conto, de maneira tal que seu comportamento, guiado pelos pressupostos de
uma ciência que se apodera do arbítrio de classificar a razão humana, é a própria cegueira da Ciência em face do homem. O que
se condena, então, é o comportamento dessa cegueira quando se edifica em verdade absoluta e passa a cometer, em seu nome,
distorções inaceitáveis. Assim sendo, a ironia com que Machado de Assis trata Simão Bacamarte é a ironia com que o autor vê uma
ciência que, mal assentada, transforma seus adeptos em cegos aplicadores dos princípios que a enformam.
Trazendo o problema para os dias atuais, basta ver que ocorre com certos defensores e aplicadores, mal informados, da
Psicanálise, transformada em “mágica” todos os problemas humanos.
A grandeza do conto está na enorme capacidade de Machado de Assis em adaptar ao seu estilo as duas parcelas humanas que
o compõem. De um lado uma linguagem que se fecha em si para traduzir o mundo fechado do alienista, do outro o aproveitamento
dos chavões populares semicultos para expressar o mundo de relações superficiais dessa gente. Foi a intuição desse problema que
levou Machado de Assis à valorização da linguagem, transformando-o em um extraordinário escritor capaz de resistir às modas e ao
tempo e de se impor mesmo fora dos quadros da Literatura Brasileira.

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Análise da Obra:
São Bernardo – Graciliano Ramos

AnSão Bernardo é o segundo volume do escritor, sua segunda experiência


na narrativa em primeira pessoa. Utilizando uma linguagem direta, seca a obra
traz perfeita sincronia entre o meio bruto e o personagem que dele vive.

A obra conta as peripécias que giram em torno de Paulo |Honório, homem


psicologicamente dominador em cujas mãos os outros personagens tornam-se
joguetes.
O fator “posse” surge desde as primeira linhas, quando o narrador se
propõe a escrever um livro de memórias e colocar seu nome na capa, embora,
inicialmente, pretendesse escrever a narrativa pela divisão de trabalho.
Antes de iniciar este livro, imaginei construí-lo pela divisão do trabalho.
Dirigi-me a alguns amigos, e quase todos consentiram de boa vontade em
contribuir para o desenvolvimento das letras nacionais. Padre Silvestre ficaria
com a parte moral e as citações latinas; João Nogueira aceitou a pontuação, a
ortografia e a sintaxe; prometi ao Arquimedes a composição tipográfica; para
a composição literária convidei Lúcio Gomes de Azevedo Gondim, redator e
diretor do Cruzeiro. Eu traçaria o plano, introduziria na história rudimentos de
agricultura e pecuária, faria as despesas e poria o meu nome na capa.
Estive uma semana bastante animado, em conferências com os principais colaboradores, e já via os volumes expostos, um
milheiro vendido graças aos elogios que, agora com a morte do Costa Brito, eu meteria na esfomeada Gazeta, mediante lambujem.
Mas o otimismo levou água na fervura, compreendi que não nos entendíamos.
João Nogueira queria o romance em língua de Camões, com períodos formados de trás para diante. Calculem.
Padre Silvestre recebeu-me friamente. Depois da Revolução de Outubro, tornou-se uma fera, exige devassas rigorosas e castigos
para os que não usaram lenços vermelhos. Torceu-me a cara. E éramos amigos. Patriota.
Está direito: cada qual tem as suas manias.
Afastei-o da combinação e concentrei as minhas esperanças em Lúcio Gomes de Azevedo Gondim, periodista de boa índole e
que escreve o que lhe mandam.
Trabalhamos alguns dias. (...)
A princípio tudo correu bem, não houve entre nós nenhuma divergência. A conversa era longa, mas cada um prestava atenção
às próprias palavras, sem ligar importância ao que o outro dizia. Eu por mim, entusiasmado com o assunto, esquecia constantemente
a natureza do Gondim e chegava a considerá-lo uma espécie de folha de papel destinada a receber as ideias confusas que me
fervilhavam na cabeça.
O resultado foi um desastre. (...)
Abandonei a empresa, mas um dia destes ouvi novo pio de coruja e iniciei a composição de repente, valendo-me dos meus
próprios recursos e sem indagar se isto me traz qualquer vantagem, direta ou indireta.
Quase patogenicamente, o personagem persegue o dinheiro, relatando os infortúnios por que passou e traçando o quadro de
sua ascensão social.
Paulo Honório nasceu pobre, filho de pais que não conheceu e, desde cedo, tomou contato com a aspereza da vida. Criado pela
negra Margarida, lembra-se de ter sido guia de cego, mas o contato com o amargo do trabalho surge quando trabalhou no eito da
fazenda são Bernardo. Por ter esfaqueado um homem, foi preso. Na prisão aprende a ler. Ao sair, pede dinheiro emprestado e estuda
aritmética para “não ser roubado além da conveniência”. Fez de tudo na vida, tudo em função do dinheiro.
De posse de bom capital, volta par Viçosa (AL), entra em contato com Luís Padilha, herdeiro da fazendo são Bernardo. Padilha
era jogador e bêbado, pessoa sem grandes ambições, presa fácil para Paulo Honório. O narrador começou a rodeá-lo, travando
amizade, emprestando-lhe dinheiro. Incentiva-o a cultivar a fazenda e empresta-lhe mais dinheiro. Agora, Luís Padilha endividado,
tinha-o nas mãos, pois a fazenda estava hipotecada. Propor-se a arrematar a fazenda que acaba sendo sua por uma quantia irrisória.
Agora, dono de São Bernardo, Paulo Honório luta muito, trabalha de sol a sol, até se tornar o mais próspero fazendeiro da
região. É o sentido patriarcal do personagem que clama por um herdeiro para suas terras, fazendo-o pensar em casamento.
Casa-se com Madalena, professora primária recém-chegada a Viçosa. A pesar de a moça ter tido um curso brilhante, como
professora não havia conseguido classe na capital por faltar-lhe a influência, as mãos protetoras de políticos. Bem instruída, chega
a assinar alguns artigos para o jornal. Era socialista, achava que a vida não era concebida como um equilíbrio entre o possuidor e a

Estudo de Obras Literárias ITA - São Bernardo


coisa possuída. Não afinava com a ordem política estabelecida, participava, com maturidade, de conversas políticas e, por interesse
não totalmente definido, une-se a Paulo Honório. O narrador embora tenha se casado sem amor, acaba por se apaixonar pela mulher,
mas o amor não lhe traz tranquilidade, pelo contrário, mostra-se desde o início incompatível com o seu sentido de propriedade. Para se
adaptar, Paulo Honório necessitaria de uma reeducação afetiva, que é impossível, pois sua mentalidade já está formada (ou deformada).

Vem a decadência

Depois do casamento, viveram bem durante um mês, depois disso, vieram as brigas e atritos constantes. Madalena trabalhava
na contabilidade da fazenda pela manhã e, à tarde, passeava. Um dia foi à escola, encontrou muitas falhas, requisitou muitos
materiais que custaram a Paulo|Honório seis contos. Se, por um lado, o gasto refletia o desprendimento da mulher, por outro não
correspondia com o espírito do marido que aprendera o ABC na cadeia. Assinou a promissória, mas quando passou pelo estábulo e
viu os animais sem ração, gritou pelo empregado (Marciano) e encontrou-o de conversa com o professor:
- Já para as suas obrigações, safado.
- Acabei o serviço, Seu Paulo, gaguejou Marciano perfilando-se.
- Acabou nada!
- Acabei, senhor sim. Juro por esta luz que nos alumia.
- Mentiroso. Os animais estão morrendo de fome, roendo a madeira.
Marciano teve um rompante:
- Ainda agorinha os cochos estavam cheios. Nunca vi gado comer tanto. E ninguém aguenta mais viver nesta terra. Não se descansa.
Era verdade, mas nenhum morador me havia ainda falado de semelhante modo.
- Você está se fazendo besta, seu corno? Mandei-lhe o braço ao pé do ouvido e derrubei-o. Levantou-se zonzo, bambeando,
recebeu mais uns cinco trompaços e levou outras tantas quedas. A última deixou-o esperneando na poeira. Enfim ergueu-se e saiu
de cabeça baixa, trocando os passos e limpando com a manga o nariz, que escorria sangue.
Posteriormente, quando avistou Madalena conversando com o professor sobre Marciano, a mulher censura sua brutalidade.
Logo ele associou: Madalena deu um vestido de seda à mulher de Marciano; à negra Margarida, que o havia criado, a mulher
entregou lençóis e sapatos e mais material escolar... tudo transparece para o personagem-narrador como desperdício, todos estão
gastando seu dinheiro tão duramente conquistado. E assim, das pequenas rusgas e de algumas poucas constatações surge a grande
crise, que aumenta ainda mais com a incompatibilidade de gênio entre o casa, culminando com o desmoronamento do casamento.
A ternura com que Madalena o tratava não era só para ele, ela a distribuía, como distribuía sua bondade aos menos privilegiados.
O protagonista começa gradualmente a notar que a mulher abala sua soberania, interfere um sua propriedade – ela mesma
sentida como propriedade. Paulo Honório não consegue dominá-la, não consegue fazê-la um ser subordinado como tantos que o
rodeiam. Explica-se assim o surgimento de um ciúme doentio que pressiona a personagem, sufoca-a. Acuada pelo ciúme do marido,
não resta à Madalena outro recurso senão o suicídio. Paulo Honório é vitorioso, mas de uma vitória que ele não esperava e nem
queria, a ele somente coube constatar que a violência de sua vida a brutalidade do meio em que foi criado fez dele um vencedor,
mas ao vencer Madalena, acabou ele próprio vencido. Depois do suicídio confessa:
Sou um homem arrasado. Doença? Não. Gozo perfeita saúde. Quando o Costa Brito, por causa de duzentos mil-réis que me
queria abafar, vomitou os dois artigos, chamou-me doente, aludindo a crimes que me imputam. O Brito da Gazeta era uma besta.
Até hoje, graças a Deus, nunca um médico me entrou em casa. Não tenho doença nenhuma.
O que estou é velho. Cinquenta anos pelo São Pedro. Cinquenta anos perdidos, cinquenta anos gastos sem objetivo, a maltratar-
me e a maltratar os outros. O resultado é que endureci, calejei, e não é um arranhão que penetra esta casca espessa e vem ferir cá
dentro a sensibilidade embotada.
Cinquenta anos! Quantas horas inúteis! Consumir-se uma pessoa a vida inteira sem saber para quê! Comer e dormir como um
porco! Como um porco! Levantar-se cedo todas as manhãs e sair correndo, procurando comida! E depois guardar comida para os
filhos, para os netos, para muitas gerações. Que estupidez! Que porcaria! Não é bom vir o Diabo e levar tudo?
Sol, chuva, noites de insônia, cálculos, combinações, violências, perigos e nem sequer me resta a ilusão de ter realizado obra
proveitosa. O jardim, a horta, o pomar abandonados; os marrecos de Pequim mortos; o algodão, a mamona secando. E as cercas dos
vizinhos, inimigos ferozes, avançam.
Está visto que, cessando esta crise, a propriedade se poderia reconstituir e voltar a ser o que era. A gente do eito se esfalfaria de
sol a sol, alimentada com farinha de mandioca e barbatanas de bacalhau; caminhões rodariam novamente, conduzindo mercadorias
para a estrada de ferro; a fazenda se encheria outra vez de movimento e rumor.
Mas para quê? Para quê? não me dirão? Nesse movimento e nesse humor haveria muito choro e haveria muita praga. As
criancinhas, nos casebres úmidos e frios, inchariam roídas pela verminose. E Madalena não estaria aqui para mandar-lhes remédio
e leite. Os homens e as mulheres seriam animais tristes.

Estudo de Obras Literárias ITA - São Bernardo


No final, como homem derrotado, expande seus sentimentos poupando a mulher, culpando-se pelo desfecho infeliz. Em síntese
classifica-se como egoísta e bruto, mas, ao assumir a culpa, exime-se de sua totalidade, alegando que a vida e o meio no qual formou
seu caráter foram os verdadeiros culpados.
Madalena entrou aqui cheia de bons sentimentos e bons propósitos. Os sentimentos e os propósitos esbarraram com a minha
brutalidade e o meu egoísmo.
Creio que nem sempre fui egoísta e brutal. A profissão é que me deu qualidades tão ruins.
E a desconfiança terrível que me aponta inimigos em toda a parte!
A desconfiança é também consequência da profissão.
Foi este modo de vida que me inutilizou. Sou um aleijado. Devo ter um coração miúdo, lacunas no cérebro, nervos diferentes dos
nervos dos outros homens. E um nariz enorme, uma boca enorme, dedos enormes.
Se Madalena me via assim, com certeza me achava extraordinariamente feio.
Fecho os olhos, agito a cabeça para repelir a visão que me exibe essas deformidades monstruosas.
Retomando ao tema ciúmes, o sentimento é absurdo, despropositado. No entanto, em conversa com o marido, Madalena deixa
claro que recorreria ao suicídio por causa dos tormentos a que era submetida. Para justificar-se deixou uma longa carta, que foi
levada pelo vento. Paulo Honório a recolhe, julgando-a destinada a outro. Por pura ignorância não soube compreendê-la, não pôde,
por isso, evitar a tragédia. Confinado no seu individualismo, criou um mundo isolado, acreditando que as pessoas fossem como ele,
bichos:
Bichos. As criaturas que me serviram durante anos eram bichos. Havia bichos domésticos, como o Padilha, bichos do mato,
como Casimiro Lopes, e muitos bichos para o serviço do campo, bois mansos. Os currais que se escoram uns aos outros, lá embaixo,
tinham lâmpadas elétricas. E os bezerrinhos mais taludos soletravam a cartilha e aprendiam de cor os mandamentos da lei de Deus.
Bichos. Alguns mudaram de espécie e estão no Exército, volvendo à esquerda, volvendo à direita, fazendo sentinela. Outros
buscaram pastos diferentes.
Dois anos após o suicídio de Madalena, Paulo Honório refere-se, melancolicamente, a seu presente: fica atestada a ameaça
de sua ruína financeira, pois a crise econômica está produzindo falências e concordatas. As laranjas, o algodão, a avicultura já
não são facilmente comerciáveis. Insistir em fazer investimentos na fazenda seria loucura, pois os bancos lhe fecharam as portas,
provavelmente pressionados pela situação. Resta-lhe cruzar os braços e dedicar-se a seu livro de memórias. Por fim concluiu:
Coloquei-me acima da minha classe, creio que me elevei bastante. Como lhes disse, fui guia de cego, vendedor de doce e
trabalhador alugado. Estou convencido de que nenhum desses ofícios me daria os recursos intelectuais necessários para engendrar
esta narrativa. Magra, de acordo, mas em momentos de otimismo suponho que há nela pedaços melhores que a literatura do
Gondim. Sou, pois, superior a Mestre Caetano e a outros semelhantes. Considerando, porém, que os enfeites do meu espírito se
reduzem a farrapos de conhecimentos apanhados sem escolha e mal cosidos, devo confessar que a superioridade que me envaidece
é bem mesquinha.

O narrador

O romance São Bernardo é escrito em primeira pessoa e Paulo Honório é o protagonista da história por ele narrada. Dessa
forma, tem-se um foco narrativo cuja personagem principal conta sua própria história. Esse narrador pretendeu contar sua história
pela divisão do trabalho, mas vendo o fracasso desse empreendimento, tomou sob seu comando tudo sozinho. Sua personalidade
autoritária não lhe permitiu compartilhar nada. Ele viu as pessoas como coisas e como tal deveriam ser tratadas.
Essa dificuldade em dividir o trabalho revela sua rispidez, seu autoritarismo, sua incapacidade de delegar autoridade. Tudo se
centra nele. E dessa forma Paulo Honório de transfora em um escritor, em autor de um romance, no qual revela aquilo que, em outra
circunstância, jamais poderia revelar. Seu relato é sumário, breve, seco, prático, como de resto sua personalidade.
Não há excessos, nada há de desnecessário. Homem rude, Paulo Honório não sabe enfeitar, não tem papas na língua. Diz o que
pensa com realismo e convicção, sem se importar com a repercussão nos seus interlocutores.
Utilizando métodos do capitalismo selvagem, adquiriu a antiga fazenda onde trabalhou e tornou-se um homem rico e influente.
E, ao mesmo tempo em que revela como isso ocorreu, revela também os caminhos sinuosos de sua personalidade, condenada e
enxuta, como sua linguagem. E é isso, a economia verbal e, ao mesmo tempo, a riqueza psicológica que emana do relato que torna
São Bernardo um romance ímpar no contexto do segundo momento modernista.

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Tempo

A ação de São Bernardo se passa no século XX, entre os anos 1920 e 1930, embora não haja data precisa. Estudiosos afirma que
o tempo da narração coincide com a eclosão da Revolução de Outubro de 1930. A história envolve toda a vida de Paulo Honório,
porém foca muito pouco a infância e a adolescência, tratadas suscintamente. A maior parte do tempo é dedicada à ascensão, ao
enriquecimento, ao casamento e à decadência, após o suicídio de Madalena. Predomina no romance o tempo psicológico, revelado
pela perda do narrador em lembranças vagas, recortadas por reflexões soltas. Importante lembrar que o romance apresenta dois
tempos: o tempo da enunciação (quando os fatos estão sendo revelados, no caso o presente) e o tempo do enunciado (quando os
fatos acontecem, o passado). Em uma leitura atenta, pode-se observar que o narrador articula esses dois tempos manejando os
verbos no modo indicativo, valendo-se do tempo presente e do tempo pretérito perfeito.

Espaço

O espaço é predominantemente rural, centrado na Fazenda São Bernardo, no sertão de Alagoas. O narrador descreve a fazenda
com plantação de mamona e algodão, com açudes e curral, além da capela, cenário do doloroso diálogo entre Paulo Honório e
Madalena, que precipita da esposa.

Linguagem e macropensamento

Usando uma linguagem seca direta e objetiva, Graciliano Ramos aborda uma série de temas que mostram a pobreza e a miséria
do nordeste brasileiro.
A economia de meios aliada à simplicidade dos períodos curtos apresenta a força da expressão de Graciliano Ramos prevalece a
substantivação em detrimento do adjetivo- escasso, mas necessário para expressar a rudeza do ambientes. À lucidez e ao equilíbrio
da narrativa compõe-se o caos interior do personagem.
A coisificação do homem produzida pelo capitalismo selvagem sobressai-se. Além da coisificação, estão presentes temas como
a dificuldade do relacionamento conjugal, a marginalização dos oprimidos pelos poderosos, o ciúme doentio produzindo tragédias,
a impotência do pobre para combater sua própria miséria e opressão, a solidão do homem egoísta e o progresso como mecanismo
de mudanças sociais, fazendo migrar o homem do campo para as cidades.
A despeito da crueza com que retrata o Brasil em São Bernardo, destacando os aspectos mais miseráveis da condição humana,
Graciliano Ramos era um homem “terno e solidário, que acreditava no homem e no futuro”, assim dizia Jorge Amado.

Personagens

Paulo Honório: é o próprio narrador. Enjeitado, quando criança, foi criado por D. Margarida. Homem bruto, trata a todos com
desprezo e arrogância. Sua grosseria se revela nos seus atos e na sua linguagem. É um capitalista tacanho, egoísta, possessivo e
autoritário. Suas pretensões materiais englobam coisas e pessoas. Para realizar esta travessia, foi necessária a sua desumanização por
meio da qual pode exercer o domínio sobre os outros: matando, roubando, mentindo, trapaceando.
Ao se casar com Madalena tem seu poder colocado em xeque e isso ele não suporta. A cultura de sua esposa, que não se
deixa dominar, o revolta. Ademais, o casamento mostrou sua fraqueza, uma vez que aos olhos de Madalena, seu sucesso se traduzia
em mesquinharia e baixeza, sem nenhum valor, porque não considerava o ser humano. Ao perder a esposa, Paulo Honório que
até então não compreendia a mulher, tem uma luz momentânea e reconhece o bruto em que se transformou, em contraste com a
bondade e humanidade de Madalena. Mesmo que essa consciência não mude de todo suas ações, tem o poder de transformá-lo
de proprietário em homem. Então ele abandona a vertigem do desejo de se apropriar de tudo e passar a procurar o homem que
perdeu dentro de si, tentando resgatá-lo, ainda que inutilmente.
Madalena: a professora loura e de olhos azuis, de quase trinta anos, é o avesso de Paulo Honório com quem veio se casar.
Madalena de grande sensibilidade, preocupada com as condições de vida dos trabalhadores da Fazenda São Bernardo, era incapaz
de assumir a passividade da condição de esposa, sente necessidade de trabalhar e de andar pela fazenda, o que a leva a rejeitar o
mundo de Paulo Honório e, sendo sujeito, se recusa a ser objeto de posse do marido.
Apesar de casada, não assumia a passiva condição de esposa de fazendeiro que lhe era dedicada, rejeitando o universo criado
por Paulo Honório. Apesar dessa consciência – uma mulher solidária com a classe trabalhadora e com o sofrimento dos humildes,
não a impediu de se destruir, dando fim à própria vida. Mas exatamente o suicídio, aparentemente um ato de fraqueza, foi a foça
maior da esposa de Paulo Honório. Ao se matar, ao mesmo tempo que revela a fragilidade e a impotência de mulher diante de um
mundo rural arcaico e machista, que restringia o seu espaço à cozinha e da casa grande, também mostra a grandeza, a força interior
de Madalena como elemento de transformação do caráter de Paulo Honório, que começa a recuperar sua humanidade.
Margarida: velha doceira que adotou o criou Paulo Honório. É outro referencial afetivo do narrador: ele a redescobre, manda
buscá-la e a alimenta em São Bernardo.

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D. Glória:  Tia de Madalena, que foi como uma mãe, que a criou com muita luta. Acompanha a sobrinha para a fazenda de
São Bernardo quando essa se casa com Paulo Honório. Era avessa à vida no campo e cuja urbanidade o irritava. Após a morte de
Madalena, foi embora da fazenda.
Luís Padilha:  herdeiro da fazenda São Bernardo, era um homem de personalidade fraca, submisso, covarde e de alma baixa.
Vivia como um boêmio e, por isso, perdeu a fazenda. Tona-se mestre-escola na sua antiga propriedade, trabalhando para Paulo
Honório. Possui ideias revolucionárias que irritam Paulo Honório por ensinar “comunismo” aos trabalhadores. No final do romance
ele desaparece e se engaja nas forças da revolução de trinta.
Seu Ribeiro: velho alto, magro curvo, trabalhava na Gazeta do Brito em Maceió. Foi levado para São Bernardo para trabalhar
como guarda-livros da fazenda. Paulo Honório demonstra simpatia por ele, uma vaga solidariedade que destoa do seu habitual
desrespeito pelas pessoas e que se acentua em outros personagens.
Casimiro Lopes: mulato, caboclo manco, inculto, simples, fiel, era serviçal de Paulo Honório - o capanga que tem “faro de cão e
fidelidade de cão”, crédulo como um selvagem.
Outros personagens: Padre Silvestre, Marciano, João Nogueira, Mendonça, Azevedo Gondim, Dr. Magalhães, Salustiano Padilha etc.

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