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Anais do

I CoLÓquio do NEHMur

Alex Antônio Vanin | Áxsel Batistella de Oliveira | Diego José Baccin (Orgs.)

Mundo rural, regiões e fronteiras no processo


de (re)apropriação territorial e agrária:
a pesquisa e os desafios contemporâneos

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Ficha técnica
ISBN: 978-65-81266-05-9

Título: Anais do I Colóquio do NEHMuR: Mundo Rural, Regiões


e Fronteiras no processo de (re)apropriação territorial e agrária -
a pesquisa e os desafios contemporâneos

Tipo de suporte: E-book no formato PDF

Organização: Alex Antônio Vanin, Áxsel Batistella de Oliveira e


Diego José Baccin

Editoração: Alex Antônio Vanin

Fechamento da edição: 17 de dezembro de 2019


Alex Antônio Vanin
Áxsel Batistella de Oliveira
Diego José Baccin
(Orgs.)

Anais do
I CoLÓquio do NEHMur
Mundo rural, regiões e fronteiras no processo
de (re)apropriação territorial e agrária:

a pesquisa e os desafios contemporâneos

Passo Fundo
2019
Núcleo de Estudos Históricos do
Mundo Rural (NEHMuR)

O Núcleo, registrado como um Grupo de Pesquisa no CNPq des-


de 2015, filia-se à linha de pesquisa “Espaço, economia e sociedade”
do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade de Passo
Fundo (UPF) e congrega, ainda, professores pesquisadores e estudan-
tes da Universidade Federal de Santa Catarina e da UNOCHAPECÓ.
Investiga nos campos da história agrária, história da agricultura e his-
tória ambiental e tem, como principais temas de pesquisa: (re)ocupação
e apropriação da terra, conflitos fundiários, movimentos sociais, fron-
teiras agrárias, políticas e ambientais, relações socioculturais e socioam-
bientais de grupos rurais, imigração e migrações. Atua na interface en-
tre História, Antropologia, Geografia, Sociologia Rural e Direito. O que
aproxima e aglutina esses temas de estudo é a história do mundo rural
no sul do Brasil, em interação com os demais territórios platinos.

Professores pesquisadores que integram o NEHMuR:

Ironita A. Policarpo Machado (UPF) - Coordenadora


Arlene Anelia Renk (UNOCHAPECÓ)
Eunice Sueli Nodari (UFSC)
João Carlos Tedesco (UPF)
João Klug (UFSC)
Luiz Carlos Tau Golin (UPF)
Marcos Gerhardt (UPF)
Paulo Afonso Zarth (pesquisador independente)
Silvana Terezinha Winckler (UNOCHAPECÓ)
SUMÁRIO

Introdução.......................................................................................... 7

Um projeto e múltiplas questões: práticas


político-jurídicas e econômicas no processo
de ocupação do espaço e da constituição da
sociedade sul brasileira – XX e XXI............................................... 9
Ironita A. Policarpo Machado

Perspectivas acerca do mundo rural na


Era Vargas (1930-1945).................................................................... 19
Vitória Comiran

Intervencionismo sobre a terra e a propriedade:


a política do Serviço de Proteção aos Índios
sobre o Toldo de Cacique Doble/RS (década de 1940)............ 27
Alex Antônio Vanin

Paco: atos heroicos ou marginais?................................................ 37


Marinilse Marina

As desapropriações por interesse social para


comunidades remanescentes de quilombo
no Rio Grande do Sul..................................................................... 49
Áxsel Batistella de Oliveira
Discussões acerca dos elementos motivadores da
desapropriação da Annoni: tensão social no
imóvel e uma análise do contexto regional
no início da década de 1970........................................................... 59
Simone Lopes Dickel

Imigrante, intelectual, agricultor: o caso de Martin


Robert Richard Fischer................................................................... 69
Dirceu Adolfo Dirk

Uma análise sobre a ideia de ocupação do


solo na obra do “pai da história” de Passo Fundo.................... 81
Diego José Baccin

Políticas Públicas para a agricultura familiar: a trajetória do


Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) em Passo
Fundo/RS.......................................................................................... 93
Indaia Dias Lopes
David Basso
INTRODUÇÃO

O
Colóquio Mundo rural, regiões e fronteiras no processo de
(re)apropriação territorial e agrária: a pesquisa e os desafios
contemporâneos, objetivou oportunizar um espaço de de-
bate interdisciplinar e interinstitucional acerca da problemática
que envolve o acesso e a permanência na terra, sob perspectivas
compreensivas de ações variáveis de enfoques político-jurídicas,
econômicas e sociais, em análise do processo de (re) ocupação do
espaço.
As discussões permearam as noções e relações entre a his-
tória agrária, da agricultura e propriedade, desenvolvimento
regional e meio ambiente. Considerando a interface entre histó-
ria, antropologia, geografia, economia, sociologia rural e direito,
possibilitando discutir as diversas realidades rurais, na perspec-
tiva de fronteiras e do regional em seus múltiplos desdobramen-
tos pretéritos e contemporâneos.
O encontro realizou-se no dia 23 de maio de 2019, nas de-
pendências da Universidade de Passo Fundo (UPF), no Instituto
de Filosofia e Ciências Humanas. Entre seus participantes, pes-
quisadores docentes e discentes de diversas instituições, entre
elas: Núcleos de Estudos Históricos do Mundo Rural (NEH-
MuR/PPGH-UPF); Grupo de Trabalho História Rural (ANPUH
RS); Laboratório de Imigração, Migração e História Ambiental

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(Labimha/PPGH-UFSC), Fronteiras: Laboratório de História
Ambiental (PPGH-UFFS/Chapecó) e Programa de Pós-Gradua-
ção em Ciências Ambientais (PPGCA-UnoChapecó).
Dentre as atividades desenvolvidas se destaca a mesa de
abertura e os simpósios temáticos. A mesa apresentou um pano-
rama sobre as diversas realidades rurais em relação aos desafios
contemporâneos da pesquisa. Os simpósios temáticos foram es-
paços de apresentação e discussão de pesquisas concluídas ou
em realização, as quais possuíram enfoques temáticos vincula-
dos a questões do: mundo rural e os desafios contemporâneos;
o mundo rural, desenvolvimento regional e meio ambiente; e,
o mundo rural em relação a ocupação do território e fronteiras
agrárias.
O diferencial do evento foi a metodologia adotada que
orientou as comunicações apresentadas e o encerramento do en-
contro. O Colóquio possuía uma questão comum motivadora.
Cada pesquisa apresentada, devia a partir de seu enfoque temá-
tico, propor compreensões acerca da problemática que envolve o
contexto atual brasileiro e os desafios da pesquisa que adotam a
perspectiva temática do mundo rural.
Como resultado, cada Coordenador de simpósio temático
apresentou uma síntese preliminar das ideias apresentadas nos
simpósios, que foi sendo complementada e discutida, através do
desenvolvimento do debate. Disto resultou na deliberação cole-
tiva da necessidade de uma rede ampliada, interinstitucional e
interdisciplinar de pesquisadores, com estratégias de ação que
visem, principalmente, o fortalecimento das pesquisas sobre as
temáticas que envolvem o mundo rural.

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Um projeto e múltiplas questões:
práticas político-jurídicas e econômicas no processo de
ocupação do espaço e da constituição da sociedade sul
brasileira – XX e XXI

Palavras-chave: (re)Ocupação do espaço. Conflitos agrários. Relações


de poder.

Ironita A. Policarpo Machado1

Introdução
A comunicação propõe apresentar o projeto de pesquisa Prá-
ticas político-jurídicas e econômicas no processo de ocupação do espaço
e da constituição da sociedade sul brasileira – séculos XX e XXI, objeti-
vando a discussão da significação social e acadêmica da propos-
ta, bem como dos referenciais teórico-metodológicos. O referido
projeto têm por objeto de estudos os processos de (re)ocupação
do espaço, os conflitos agrários acerca da terra e as relações de
poder, objetivando compreender e identificar as permanências
e/ou mudanças, e/ou rupturas com o processo histórico ins-
taurado na metade do século XIX e início do XX, ou seja, a (re)

1  Pós-doutor em História, na área de Economia e Sociedade na passagem à


modernidade, pela Universidade Federal Fluminense/RJ; Professora do Curso de
Graduação e do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade de Passo
Fundo/RS. E-mail: iropm@upf.br

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ocupação do espaço, privatização e mercantilização da terra e
modernização da produção.
Os estudos consideram noções e relações entre à história
agrária, agricultura e propriedade, contemplando as seguintes
temáticas: (re)ocupação e (re)apropriação do território, (des)
territorialização do espaço e modernização produtiva, conflitos
fundiários, fronteiras agrárias e políticas, relações socioculturais
e socioambientais, legislação agrária e a questão agrária e agríco-
la, mundos do trabalho e grupos sociais rurais.
O que justifica o estudo deste tema está no fato de ter po-
tencial de pesquisa, portanto, do desenvolvimento de subproje-
tos; o caráter interdisciplinar de campo de estudo, entre a área
da História, do Direito, da Geografia e da Antropologia. Com as
análises, baseadas no tratamento metodológico dado tanto aos
processos jurídicos quanto, demais fontes, à evolução da insti-
tuição jurídica, da legislação, da processualística e codificação
da doutrina do direito nesta perspectiva do tema em tela, como
também da produção historiográfica sobre o objeto de estudo, a
pretensão é de que possamos contribuir no alargamento da pes-
quisa histórico-jurídica e socioeconômica sobre o mundo rural
(história agrária e da propriedade) sul-rio-grandense. Ainda,
pretende-se propor a avaliação e indicação de variáveis possí-
veis a constituição de uma rede de pesquisa, com instituições/
pesquisadores do sul do Brasil, referente a uma investigação cir-
cunscrita a identificação e compreensão do processo histórico de
ocupação do espaço sul brasileiro, bem como das relações inter-
-regional (Santa Catarina e Paraná), intrarregional e internacio-
nal (América Latina, iniciando com Argentina e Uruguai), entre
os séculos XX e XXI.
Atualmente, por exemplo, com recortes da temática central,
estão em andamento as seguintes pesquisas: Processos de acesso

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à terra, sua manutenção e capitalização, RS -1930-1945; Relações
de poder acerca da propriedade no processo de construção da
Usina Hidrelétrica de Machadinho/RS (1980-2004); Sou homem
do mato, do galpão e do salão”: Cultura da violência nas rela-
ções sociocotidianas no Norte do Rio Grande do Sul (1900-1945);
Propriedade da terra e políticas de Reforma Agrária no processo
de construção da Usina Hidrelétrica do Passo Real, RS; O proces-
so de reconcentração fundiária: da desapropriação à apropria-
ção privada na Fazenda Annoni; Propriedade e estrutura patri-
monial em Vacaria na República Velha: as grandes estâncias e
seus rebanhos; “Terras de Negro”: o caminho entre um direito
costumeiro e o direito constitucional sobre a propriedade; A ge-
nealogia da propriedade: a racionalidade econômica capitalista
no desenvolvimento citadino de Passo Fundo entre 1898-1953;
História em debate: análise da produção historiográfica sobre o
Contestado (2008-2018); Os discursos de Getúlio Vargas acerca
do mundo rural: perspectivas e práticas políticas e socioeconô-
micas de 1930 a 1945; e A formação do Sindicato dos Trabalha-
dores Rurais de Passo Fundo (1950-1960).
Neste campo de investigação, também, o projeto Bases
históricas dos conflitos agrários contemporâneos no norte do Rio
Grande do Sul e Oeste de Santa Catarina: indígenas, quilombolas
e pequenos agricultores, fruto do EDITAL N° 12/2015, MEMÓ-
RIAS BRASILEIRAS: CONFLITOS SOCIAIS, objetiva analisar
as bases históricas que configuram os conflitos pela terra, envol-
vendo três sujeitos sociais: indígenas, quilombolas e pequenos
agricultores, nas regiões Norte do Rio Grande do Sul e Oeste de
Santa Catarina, tendo o município de Passo Fundo (RS) e Chape-
có (SC) como epicentros, no período contemporâneo. Entende-se
que esses conflitos agrários são passíveis de compressão se inter-
pretados como resultado de um processo histórico, marcado por

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mudanças implementadas entre meados do século XIX até mea-
dos do século XX, nos dois estados do Brasil Meridional, atingin-
do a propriedade privada da terra, a prática do extrativismo e as
políticas indigenistas. Trata-se de uma região que se aproxima
em termos de semelhanças no que tange à ocupação, apossamen-
to da terra, processos de colonização, presença indígena e políti-
cas de aldeamentos, práticas extrativistas (erva-mate e madeira),
a produção agrícola com intensa presença de pequenas unidades
familiares de produção com características policultoras, em ge-
ral, vinculadas aos processos agroindustriais. Resultado dessa
conjuntura que, agentes sociais estabelecidos historicamente –
indígenas e quilombolas – foram excluídos do acesso à proprie-
dade da terra e das políticas de colonização, que favoreceram os
pequenos agricultores, o que deu origem a conflitos localizados,
socialmente invisibilizados, mas latentes.
Recentemente, esses conflitos agrários assumiram novas
proporções, colocando sob suspense a propriedade privada da
terra, envolvendo pequenos agricultores, de um lado, e indíge-
nas e quilombolas, de outro, apontando para um cenário de con-
frontos e questionamentos, que ultrapassam esses grupos e têm
ressonâncias sociais, políticas, jurídicas, econômicas. Portanto,
trata-se de uma temática histórica pretérita e do tempo presente,
que atende a demandas sociais e que se inscreve teórica-meto-
dologicamente na perspectiva da História Social e da História
Regional.
Estão a frente destas investigações, referente ao projeto Ba-
ses históricas dos conflitos agrários contemporâneos no norte do
Rio Grande do Sul e Oeste de Santa Catarina: indígenas, quilom-
bolas e pequenos agricultores, pesquisadores dos Programas de
Pós-Graduação em História da Universidade de Passo Fundo
(RS), Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais da

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Unochapecó (SC), Programa de Pós-Graduação em História Uni-
versidade Federal de Santa Catarina (SC), já com publicações e
perspectivas de novas investigações.
Perante os dados e questões colocadas até o momento e
os debates do I Colóquio Mundo rural, regiões e fronteiras no
processo de (re)apropriação territorial e agrária: a pesquisa e os
desafios contemporâneos (27/05/2019), permitimo-nos trazer à
tona essa primeira proposição, que, de certo modo, possibilita o
estabelecimento de um “elo de ligação”, mesmo que tênue, entre
diversas regiões do sul brasileiros, levando-se em conta para isso
suas diferenças, acerca de temas articuladores: o Agro, políticas
públicas e desigualdades regionais e como variáveis: a relação
com os modelos econômicos e suas transformações existente,
para analisar a construção social do território associado com o
poder, as políticas públicas e os efeitos que eles produzem nestas
economias altamente dependentes do mercado externo. Os eixos
que têm abordagens comuns apresentados são: regiões agríco-
las/agro-industrial - o poder e as políticas públicas que abordam
especificamente as áreas rurais de diferentes regiões do sul do
Brasil, na perspectiva da História Comparada (método compara-
tivo em análises internacionais). Em outras palavras, trata-se de
discutir como espinha dorsal a dinâmicas do capitalismo agrário e
suas contradições.
Assim, mesmo que provisoriamente, Objetiva-se contextua-
lizar os modelos econômicos e suas transformações existentes,
fruto de mudanças implementadas entre meados do século XIX
até meados do século XX nos diferentes mundos rurais sul-bra-
sileiro, para analisar a construção social do território associado
com o poder, as políticas públicas e os efeitos que eles produ-
zem nestas economias altamente dependentes do mercado exter-
no; estudar as regiões agrícolas / agro-industrial, - o poder e as

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políticas públicas que abordam especificamente as áreas rurais
do sul do Brasil e identificando as suas implicações nos confli-
tos sociais contemporâneos; combinar as continuidades e singu-
laridades do agro sul brasileiro, heterogêneo para elaborar um
compêndio de estudos em comparação com o perfil político-e-
conômico, na perspectiva da História Comparada; produzir co-
nhecimento histórico revisitando temas clássicos como a questão
agrária, conflitos sociais e a propriedade da terra inter-relaciona-
da ao desenvolvimento econômico, rediscutindo conceitos, tais
como territorialização, propriedade da terra e conflitos agrários,
camponês, intrusos, etc.
Os movimentos/conflitos sociais, as mazelas migratórias, o
êxodo rural para os grandes centros urbanos, a (re)territorializa-
ção do espaço, as contradições da modernização, da agroindús-
tria e o aprofundamento da desigualdade social e da pobreza
que marcam as sociedades sul americanas atualmente são fruto
da histórica expansão da racionalidade capitalista sobre o mun-
do rural (e urbano), do final do século XIX e o decorrer do XX,
tendo por pilar principal a propriedade da terra e os modelos
econômicos, propomos a elaboração de um projeto de coopera-
ção para discutir estas questões que considerará a metodologia
da história comparada, no campo da História Social, para tal
propósito, a discussão permeia referenciais teóricos, metodoló-
gicos e historiográficos em duas dimensões: 1º) na primeira di-
mensão/fase, os pesquisadores de cada núcleo e ou centro de
pesquisa do sul do país, que já desenvolvem estes estudos, darão
continuidade a pesquisa do tema e a problemática referentes as
bases históricas dos conflitos agrários contemporâneos desdo-
brados sob diversas perspectivas, no que se refere as fontes e as
perguntas de trabalho através de metodologias e competências
próprias à análise específicas dos modelos econômicos e suas

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transformações existentes à construção social do território, os
protagonistas, associado com o poder, as políticas públicas e os
efeitos que eles produzem nestas economias altamente depen-
dentes do mercado externo; 2ª) na segunda dimensão/fase (após
ou simultaneamente a realização da primeira dimensão), a ser
discutida pelos pesquisadores envolvidos na elaboração do pro-
jeto de cooperação, considerando o objetivo de combinar as con-
tinuidades e singularidades do agro sul-brasileiro, heterogêneo
para elaborar um compêndio de estudos em comparação com o
perfil político-econômico, a metodologia será na perspectiva da
História Comparada;
Em linhas gerais, o debate acerca da História Comparada,
do método comparativo da história, é vasto e complexo, mas
neste primeiro momento, a explicitação deter-se-á na proposição
metodológica que assumimos. Partimos do entendimento que
História Comparada, Comparativismo Histórico, método com-
parado na História, entre outras denominações, são entendidos
como sinônimos. Tais expressões podem ser definidas como a
possibilidade de desenvolvimento de uma pesquisa em que duas
ou mais realidades histórico-sociais diferentes e separadas no es-
paço e/ou no tempo (ou no mesmo espaço em tempos diferentes)
são comparadas sistematicamente, buscando-se estabelecer se-
melhanças e diferenças, generalizações e individualizações. (C.f.
BARROS, 20017, p. 1-30). Já Neyde Theml e Regina Bustamen-
te, em “História comparada: olhares plurais”, compartilham da
posição de que o exercício comparativo precisa do trabalho em
conjunto, em igualdade de condições de pesquisa (2004, p. 14).
As autoras tratam do desenvolvimento do método comparativo
em equipe, afirmando que ele possibilita ampliar a visão sobre
um objeto estudado; afirmam que a comparação se desenvolve-
ria em três etapas complementares: a) a construção de objetos de

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pesquisa pelos projetos individuais de cada membro da equipe,
que possibilitaria as várias visões sobre os fenômenos sociais; b)
a construção de um conjunto de problemas, que seriam questões
comuns que perpassariam as pesquisas individuais da equipe; c)
a criação de um campo de exercício e experimentação compara-
do. Assim, ter-se-ia a “comparação construtiva” (p. 14-16).
Aqui, propomos o método comparativo na história para
análises subnacionais e, quando pertinente, internacionais. É a
possibilidade de análise comparada de sociedades sob unida-
des próximas, dentro de uma mesma nação ou dentro de um
mesma região (sul-brasileira) Estado ou dentro de um mesmo
esboço de Estado, desde que as unidades sejam bem definidas
em uma escala de análise construída sobre critérios complexos.
Podemos, assim, pensar em estudo comparado de unidades de
análise definidos dentro de um mesmo espaço em temporali-
dades subsequentes ou unidade de análises definidas de espa-
ços diversos numa mesma temporalidade. Enfim, a unidade de
análise de comparação estará sempre vinculada ao problema da
pesquisa a ser investigado, formulado e desenvolvido pela equi-
pe de trabalho. A respeito dessa perspectiva, uma experiência
referência será a proposta de projeto de pesquisa a dinâmicas do
capitalismo agrário e suas contradições no sul do Brasil – XX e XXI,
representando o esforço metodológico de pesquisadores acerca
do método comparativo da história. Sendo necessário, na elabo-
ração do projeto, definir as unidades com base na problemática
Agro, políticas públicas e desigualdades regionais na América
do Sul; o estudo da relação com os modelos econômicos e suas
transformações existentes e o estudo das análises da construção
social do território associado com o poder, as políticas públicas e
os efeitos que eles produzem nestes economias dependentes do
mercado externo.

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Enfim, a temática proposta à investigação traz ideias que
suscitam um debate multifacetado, mas a reflexão central recai
sobre a história da apropriação capitalista do espaço e do ho-
mem, principalmente acerca da luta pela terra e das condições de
trabalho, parte integrante dos movimentos sociais contemporâ-
neos. Os movimentos sociais se recriam constantemente; talvez
sejam uma das realidades sociais mais dinâmicas e reveladoras
da performance da modernidade, encontram sempre formas de
expressão, algumas mais públicas, outras mais veladas, mais or-
ganizadas ou não. Os movimentos sociais se revelam numa di-
nâmica estruturante do tecido social; ao mesmo tempo em que
contribuem na sua composição, reprodução e ruptura, revelam
os dilemas, os conflitos, as contradições e as tensões da vida e
das relações sociais sejam em que tempo e conjuntura forem.
Assim, esperamos compreender a realidade sul-brasileira, de-
lineando uma identidade socioeconômica e política relativa ao
tema capaz de ampliar o debate acadêmico e político constituin-
do um referencial para as políticas públicas em nível nacional e
internacional.

Referências
BARROS, José D`Assunção. História Comparada – um novo modo de ver
e fazer história. Revista de História Comparada, V. 1, nº 1, p. 1-30, 2007
____________. Origens da História Comparada: as experiências com o
comparativismo histórico entre o século XVIII e a primeira metade do
século XX. Anos 90 – Revista do Programa de Pós-Graduação em História da
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, v. 14, n.25, 2007.
THEMY, Neyde; BUSTAMANTE, Regina. História Comparada: olhares
plurais. Revista de História Comparada, v. 1. N. 1, p. 1-23, 2007.
MACHADO, A. Policarpo Machado [et. al.]. Indígenas, quilombolas e
agricultores: história e conflitos agrários no sul do Brasil. Passo Fundo: Ed.
Universidade de Passo Fundo, 2018.

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_________________. Colonização e capitalização: relações jurídicas e
político-econômicas no norte do Rio Grande do Sul In: Colonos, colônias
e colonizadoras: aspectos da territorialização agrária no sul do Brasil.1 ed.
Passo Fundo : Ed. Universidade de Passo Fundo, 2019, v.5, p. 171-200.
MOTTA, Márcia Maria Menendes. (1998). Nas fronteiras do poder. Conflito
e direito à terra no Brasil do século XIX. Rio de Janeiro: Vício de Leitura/
Arquivo público do Estado do Rio de Janeiro, 1998.

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Perspectivas acerca do mundo rural
na Era Vargas (1930-1945)

Palavras-chave: Era Vargas. Mundo Rural. Desenvolvimento.

Vitória Comiran1

Introdução
Com o enfoque de analisar o mundo rural dentro de um
aspecto específico, a partir dos projetos desenvolvimentistas do
governo Vargas, e dentro da temporalidade que engloba os três
estágios do mesmo, Governo Provisório (1930-1934), Constitu-
cional (1934-1937) e Estado Novo (1937-1945) esta pesquisa bus-
ca compreender quais foram estes projetos através da análise de
fontes diversas, mas que se correlacionam entre si.
Deste modo, com esta pesquisa observamos sobre quais ba-
ses se estabeleceram as propostas desenvolvimentistas do gover-
no Vargas acerca do mundo rural e como estas foram efetivadas,
ou não, ao longo do seu governo. Também nos demonstra as per-
manências de alguns fatores acerca da propriedade de terra no
norte sul-rio-grandense.

1  Mestranda do Programa de Pós-Graduação em História pela Universidade de Passo


Fundo (PPGH/UPF). Bolsista Prosuc-CAPES. E-mail: vicomiran@gmail.com

19
As políticas socioeconômicas do período foram analisadas a
partir de três tipologias de fontes: dezessete discursos de Getúlio
Vargas que correspondem ao Governo Provisório (1930-1934),
Governo Constitucional (1934-1937) e Estado Novo (1937- 1945);
as Constituições de 1934 e 1937 e as Legislações Agrárias; três
processos civis que tramitaram no norte do Rio Grande do Sul
entre o período de 1930-1945.
A primeira análise que se dispõe ao estudo dos discursos
de Getúlio Vargas busca entender quais eram os anseios e de-
sejos do seu governo para com o mundo rural, este que envolve
produtores, produção, métodos etc. Os discursos foram analisa-
dos conforme a temporalidade de seu governo e, assim, para a
compreensão dos mesmos foi utilizada na pesquisa, como forma
metodológica, a análise do discurso.
A análise do discurso foi empregada para compreender
como o enunciador, neste caso Getúlio Vargas, se posiciona acer-
ca do mundo rural, ou seja, procura entender na sua fala a quem
este discurso era direcionado, como este diz e o que diz, além
de verificar em uma análise externa que contexto histórico-social
dialoga com os pronunciamentos. A análise do discurso, através
da concepção de Bakhtin, nos auxilia para desenvolver o estudo
observando a interferência ideológica e a utilização de símbolos
ao longo dos discursos analisados.
Para compreendermos, assim, o mundo rural no norte sul-
-rio-grandense, necessitamos, antes de partir para o estudo das
fontes, elucidar alguns conceitos que são fundamentais para
estudar tanto este objeto de pesquisa, o mundo rural, quanto o
tempo analisado, a Era Vargas. Pois se torna evidente, ao passo
que analisamos os discursos, a utilização de conceitos e termos
característicos que servem como norte para compreender as poli-
ticas desenvolvimentistas do governo varguista ao mundo rural.

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Sobre a Era Vargas, algumas conceituações são importan-
tes, como elementos estruturantes de uma sociedade que a partir
de 1930 se moldou de um modo diverso, com novos objetivos e
anseios. Para Welch, “De fato, até 1945, o regime Vargas gerou
uma série de estudos, leis e instituições para reajustar a vida ru-
ral, um conjunto de intervenções que criou um legado importan-
te e duradouro.” (WELCH, 2016, p. 81).
Estes conceitos: capitalismo, desenvolvimento, moderni-
zação, são questões que são necessárias de análise, pois estão
fortemente presentes nos discursos de Vargas acerca do mundo
rural durante seu primeiro governo (1930-1945), pois, como ob-
serva Welch “De fato, existe bastante evidência para mostrar
como o regime Vargas procurou “organizar a vida rural” desde
os primeiros meses de seu governo provisório, nos anos 1930,
até seus últimos meses de governo, em 1945.” (WELCH, 2016, p.
83-84).
Estes termos passam a fazer parte, como dito anteriormente,
de uma nova estrutura social, econômica e política que se for-
mou a partir de 1930, pois podemos perceber a relação entre o
desenvolvimento econômico projetado durante a Era Vargas e
seus discursos ao mundo rural, como relação de complemento à
indústria e ao progresso nacional.
Acerca do mundo rural, no entanto, se observa noções fun-
damentais, como propriedade e a questão agrária. Mesmo sen-
do termos que, diferente dos citados anteriormente, se encaixam
em outros períodos da História do Brasil, é nesta conjuntura, e
vinculando com conceitos como capitalismo, por exemplo, que
muitos significados são expressos e podemos, então, compreen-
der como o mundo rural se estruturava durante a Era Vargas. O
mundo rural deixou de ser, a partir de 1930, uma opção de de-
senvolvimento do país, com suas atividades agrícolas vinculadas

21
à exportação. Após as políticas de Getúlio Vargas o campo passa
a estar incluso em um projeto de desenvolvimento nacional.
A partir da análise dos discursos dos três períodos da Era
Vargas, compreendendo e analisando as particularidades histó-
ricas de cada um, e como cada qual se voltou ao mundo rural,
com seus anseios e objetivos claramente particulares, observa-
mos nos discursos não a atuação, o que foi realizado pelo gover-
no Vargas ao mundo rural, mas sim suas intenções, aquilo que
se projetava, mas não necessariamente o que foi realizado. A le-
gitimação das propostas de Vargas mencionadas nos discursos é
verificada se são ou não oficialmente pautas do governo a partir
da análise das Constituições de 1934 e 1937.
Com base nas propostas desde 1930 apresentadas por Var-
gas em seus discursos dispomo-nos na análise das Constituições
a partir deste olhar, se aquilo objetivado foi, de fato, legitimado
pelo governo. Observamos, no entanto, que vários pontos, como
a exclusão do latifúndio, muito mencionado durante o Governo
Provisório, principalmente, não entraram na pauta do governo
nas duas Constituições que sucederam. Entretanto, outros pon-
tos importantes, como a inserção de uma educação rural, auxílio
do governo em uma modernização do campo, tanto no que tange
a produção e os métodos utilizados pelo produtor puderam ser
observados nas Constituições.
Pudemos observar, também, que muitos dos discursos rela-
cionavam o mundo rural à produção no sentido desenvolvimen-
tista, ligada ao capital industrial, ou seja, uma produção agrícola
visando o crescimento não somente da agricultura, mas conse-
quentemente das indústrias, como é o caso do açúcar e algodão.
Estas questões foram fortemente incluídas nas Constituições.
Analisamos aqui um ideal modernizador, ligado ao capital in-
dustrial e que se fez muito presente neste período histórico bra-

22
sileiro.
Apesar deste ideal modernizador do mundo rural, em di-
versos aspectos tanto nos discursos quanto posteriormente nas
Constituições, os processos civis não nos demonstraram esta efe-
tivação clara destas propostas desenvolvimentistas do governo
Vargas ao mundo rural. A análise dos litígios evidenciou um
processo de continuação, não de ruptura, tanto das estruturas
que envolvem a terra e a propriedade.
Uma das propostas presente nos discursos, de exclusão
do latifúndio, não pode ser percebida no norte do Rio Grande
do Sul, onde se concentrou a análise dos três processos civis. A
propriedade continuou concentrada e capitalizada nas mãos da-
queles que possuíam condições de manter, pagar e conduzir a
produção.
Deste modo, possuindo uma contextualização teórica ba-
seada na História Econômica, Social e Agrária a pesquisa se fun-
damentou em uma linha específica de estudo do espaço, produ-
ção e políticas do governo durante a Era Vargas ao mundo rural.
Para a compreensão desta vertente alguns conceitos se tornaram
fundamentais e que sem eles, o estudo não se sustentaria.
A partir de uma base teórica e com auxílio metodológico
de uma estrutura de análise que parte dos discursos de Vargas,
segue pelas Constituições e finaliza seu caminho nos processos
civis, introduzimos três bases de compreensão sobre o mesmo
objeto: os projetos desenvolvimentistas do governo Vargas ao
mundo rural.
Em suma, analisamos os discursos, seus significados e an-
seios projetados ao mundo rural pelo governo varguista. Ao
passo que correlacionamos estes discursos com as Constituições
refletimos sobre quais pontos foram, de fato, legitimados pelo
governo. Ou seja, compreendemos os discursos como projeções,

23
aquilo idealizado pelo governo Vargas ao mundo rural, entre-
tanto, não foram todas as propostas que entraram em pauta nas
Constituições do período.
Nos processos observamos um índice menor de efetivação,
deste modo, das propostas, e por seguinte, do que elucidava a
Constituição. Não podemos, entretanto, deixar de compreender
que todas estas questões refletem um tempo histórico marcado
por conflitos, seja no âmbito externo quanto no interno. Estas
questões influenciavam tanto os ideais presentes nos discursos
quanto na efetivação destes.
Com isso, compreendemos ao longo da pesquisa que o pro-
jeto desenvolvimentista de Vargas ligado ao capital industrial e
ao nacionalismo foi estabelecido sobre certos moldes, que visa-
vam, primeiramente, ao amparo ao pequeno produtor, ao incen-
tivo à policultura, à produção agrária para a industrialização.
Entretanto, observamos que a concretização das propostas
discursivas não obtiveram modificações nas estruturas acerca da
terra, que possuem um extenso processo de formação e caracte-
rísticas próprias, que antecedem o período republicano, como é
o caso da Lei de Terras de 1850, compreendida como “O marco
relevante que assinala a transformação da condição jurídica da
propriedade no Brasil [...]” (SMITH, 1990, p. 237).
A partir da efetivação desta, a atuação e visão sobre a pro-
priedade de terra torna-se a ser condicionada por um novo olhar
de domínio e passa a ser marcada por diferentes formas de con-
flitos, principalmente quando olhamos para os litígios do nor-
te do Rio Grande do Sul. Deste modo, sem ocorrer mudanças
quanto ao mundo rural – especificamente à questão fundiária
–, o processo que se estabeleceu durante a Era Vargas foi o de
continuidade das práticas demonstradas acerca da propriedade
durante os períodos históricos que a sucederam.

24
Referências
BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e filosofia da linguagem: problemas
fundamentais do método sociológico da linguagem. São Paulo: Hucitec,
2010.
FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Ed. da USP, 1995.
FONSECA, Pedro Cezar Dutra. Desenvolvimentismo: a construção do
conceito. Rio de Janeiro: Ipea, 2015
FONSECA, Pedro Cezar Dutra. Vargas: o capitalismo em construção
1906-1954. São Paulo: Hucitec, 2014.
SMITH, Roberto. A propriedade da e transição: estudo da formação da
propriedade privada da terra e transição para o capitalismo no Brasil. São
Paulo: Brasiliense. 1990.
VARGAS, Getúlio. DISCURSOS, MENSAGENS E MANIFESTO:
(primeira parte) 1930 - 1934. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1935.
VARGAS, Getúlio. DISCURSOS, MENSAGENS E MANIFESTO:
(segunda parte) 1930 - 1934. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1935.
WELCH, Clifford Andrew. Vargas e a reorganização da vida rural no
Brasil (1930 - 1945). Revista Brasileira de História, São Paulo, v. 36, n. 71,
p.81-105, 2016.
WIRTH, John D. A política do desenvolvimento na era de Vargas. Tradução
Jefferson Barata. Rio de Janeiro: Ed. da FGV, 1973.

25
Intervencionismo sobre a terra e a
propriedade:
a política do Serviço de Proteção aos Índios sobre o
Toldo de Cacique Doble/RS (década de 1940)

Palavras-chave: Intervencionismo. Integracionismo. Kaingang.

Alex Antônio Vanin 1

Introdução
Durante a década de 1930, a questão indígena brasileira pas-
sou por uma série de alterações de âmbito institucional e opera-
cional. A problemática envolvendo os povos indígenas do país,
à época era regida pelo SPI, órgão já existente dentro do aparato
administrativo brasileiro desde sua fundação em 1910, que foi
readequado às novas diretrizes do governo no pós-1930. O Es-
tado brasileiro avançava, desde 1930, no sentido da constituição
de um estado nacional e capitalista, passando a imprimir uma
nova estrutura organizativa. O governo Vargas progressivamen-
te consolida o poder do governo central, nacional, intervindo em
vários setores da sociedade, sobretudo no âmbito da economia.
No âmbito das alterações provocadas pelo intervencionis-

1  Mestrando pelo Programa de Pós-Graduação em História da Universidade de Passo


Fundo (UPF). Bolsista Prosuc/Capes. Membro no Núcleo de Estudos Históricos do
Mundo Rural (NEHMuR). E-mail: alexvanin@hotmail.com.

27
mo federal, sobretudo após o início do período do Estado Novo,
várias reformas foram realizadas dentro do Ministério da Agri-
cultura orquestradas em prol da racionalização da agricultura,
aperfeiçoamento da produção, expansão e pesquisas e reconhe-
cimento de recursos minerais e energéticos (FONSECA, 1989, p.
215). A produção nacional deveria tornar-se fruto de uma espe-
cialização, organização e racionalização do setor agrícola, atra-
vés da introdução de novas técnicas e incentivo à produção di-
versificada de gêneros variados.
Nesse sentido, reintegrado ao referido ministério em 1939,
o SPI passava a simbolizar um novo direcionamento da ques-
tão indígena nacional, tanto no que tange à estrutura do órgão
quanto em sua ação prática2. A questão fundiária relacionada à
posse e à propriedade indígena sobre a terra torna-se problemá-
tica a ser gerida de maneira articulada em função da proximida-
de da questão indígena a políticas envolvendo a exploração do
território nacional. De forma semelhante, o SPI também deveria
“orientar e interessar os indígenas no cultivo do solo, para que se
tornem úteis ao país e possam colaborar com as populações civi-
lizadas que se dedicam às atividades agrícolas”3, pois a proteção
dos indígenas propostas pelo órgão não era encarada como apar-
tada das questões envolvendo a colonização, motivo pelo qual a
assistência indígena, no período, perpassava à necessidade de
garantir a propriedade indígena sobre a terra.
O discurso em âmbito nacional estruturava a necessidade
de promoção do indígena nacional à categoria de produtor rural,
dotado de práticas e técnicas apreendidas por meio do “auxílio
federal”, para lhe subsidiar a emancipação econômica e a fixação

2  BRASIL. Decreto-lei nº 1.736, de 03 de novembro de 1939. Subordina ao


Ministério da Agricultura o Serviço de Proteção aos Índios. Disponível em: https://
bit.ly/2S6C1zt. Acesso em: 21 out. 2018.
3  Idem.

28
sobre a terra. Porém, a garantia da posse da terra viria atrelada
à necessidade de se cultivar o solo, de engendrar uma produ-
ção em larga escala voltada ao mercado interno e, para tanto, a
mão de obra indígena seria peça-chave para alavancar esse novo
modelo produtivo que se instalava sobre as áreas indígenas bra-
sileiras.
Dessa forma, neste trabalho, analisar-se-á a documentação
do Posto Indígena de Cacique Doble gerada durante a década
de 1940, primeira década de ação do órgão federal sobre a po-
pulação indígena Kaingang. A Análise das fontes pesquisadas
dar-se-á de maneira qualitativa, atentando-se para os discursos,
para as informações, para o dito e o interdito nas narrativas ela-
boradas pelos agentes do SPI e como estes últimos, baseados nos
regramentos e ordenamentos do órgão federal, conduziram a
política de desenvolvimento agropecuário proposta junto à po-
pulação indígena.

A proteção federal no Posto Indígena de Cacique Doble


Efetivamente, correspondências trocadas em 1941 entre o
então diretor do SPI e o secretário da agricultura do Rio Grande
do Sul assinalavam que as mudanças quanto à gestão da questão
indígena no estado, se davam em razão de conflitos que ocor-
riam entre indígenas e a sociedade nacional em diversas áreas
(BRINGMANN, 2015, p. 165). A decisão de se instalar apenas
PINs no estado se deveu ao fato da direção do SPI reconhecer
que os indígenas sul-rio-grandenses estavam em condição “mais
avançada” no que tangia aos relacionamentos com as popula-
ções vizinhas. Os toldos supracitados, passaram à supervisão da
Inspetoria Regional nº 7, a “Inspetoria do Sul”, que abrangia os

29
estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. A es-
colha por instalar os PINs nesses toldos muito provavelmente
tenha se dado em função de os quatro congregarem as maiores
populações indígenas entre os restantes do estado tornando mais
efetiva a ação do SPI.
Os postos indígenas eram constituídos por um conjunto de
edificações estruturadas a partir da chegada do encarregado do
SPI à área indígena. Localizados, geralmente, em vias de acesso
ou no centro da comunidade indígena, os postos contavam com
a uma sede, as residências do encarregado, do auxiliar de ensino
e dos trabalhadores contratados, bem como com edificações de
tratamento de animais, como curral, chiqueiro, estábulo, e ou-
tras destinadas ao beneficiamento da produção agrícola, como
moinhos e serrarias, para extração e beneficiamento da madeira.
A proteção proposta pelo SPI, à época, como afirmam Bring-
mann e Notzold (2013, p. 148), não necessariamente assumia
uma posição de luta por direitos indígenas ou em prol da preser-
vação das características culturais daqueles povos. Dessa forma,
“proteger” perpassava à noção da necessidade da integração in-
dígena, a partir da qual seriam organizados e acostumados aos
costumes ocidentais, de maneira a não serem prejudicados e que
se tornassem emancipados economicamente. Todavia, a instau-
ração desse poder tutelar sobre a população indígena teria seus
efeitos, resultando em uma série de arbitrariedades que descon-
sideravam as próprias demandas indígenas.
A intervenção e retomada das ações de caráter indigenista
do SPI sob sua nova roupagem ideológica teve início em janeiro
do ano de 1941, em Cacique Doble e no estado como um todo.
Destacado de Porto Alegre, Mario Arnaud Sampaio foi designa-
do como encarregado do Posto Indígena a ser fundado por ele
junto ao Toldo de Cacique Doble, no distrito de nome homôni-

30
mo do município de Lagoa Vermelha/RS. Em correspondência
privada enviada por Sampaio à IR7, contatava ao então Inspetor
Geral, Paulino de Almeida, comunicando acerca da situação de
abandono e precariedade a qual estavam submetidos os indíge-
nas do toldo.
A exploração dos recursos das áreas indígenas, como ver-
-se-á a seguir, deixaria de se configurar enquanto um problema,
pois, passando à tutela do SPI e do governo federal, deixava-se
de seguir o regulamento florestal estadual, substituído pelo re-
gulamento exploratório do órgão federal, que embasava a capta-
ção de recursos para o desenvolvimento da economia dentro do
Posto Indígena.
A instalação do Posto Indígena de Cacique Doble e, por con-
seguinte, da política indigenista não se deu de maneira imediata
e também tampouco se processou – a não ser simbolicamente
– com a chegada do encarregado do SPI. Era tarefa de Sampaio
tornar-se figura de “confiança” entre os indígenas, afim de le-
gitimar a si e ao órgão federal enquanto responsáveis legítimos
pelos auxílios a serem providos àquela população. Em função
disso, Sampaio enfrentou problemas e entrou em conflitos com
autoridades estaduais e locais, indígenas e não-indígenas.
A falta de informações acerca da área indígena foi um dos
primeiros desafios enfrentados pelo encarregado do Posto. A
área destinada aos indígenas na medição organizada pela Dire-
toria de Terras e Colonização (DTC) em 1910, não era conhecida
pelo encarregado, não lhe sendo de conhecimento quaisquer re-
gistros da área demarcada, tampouco plantas e mapas referen-
tes. Conhecer o território e suas dimensões era extremamente
necessário à implantação da política indigenista do SPI, na qual
a terra e as múltiplas possibilidades de plantio e produção eram
centrais para o seu desenvolvimento. Em função desse desco-

31
nhecimento, instalar-se-ia um conflito de interesses entre o SPI e
a DTC na área do Toldo de Cacique Doble.
Possivelmente em consulta aos indígenas e moradores dos
arredores da área do toldo, Sampaio declarou à IR7 que a área
ocupada pelos indígenas se estendia por aproximadamente 7.200
ha, dividida em duas porções territoriais. A primeira era situada
onde o Posto Indígena seria instalado, na área demarcada origi-
nalmente pela DTC e a segunda estava localizada fora do Toldo
e do distrito de Cacique Doble, às margens do rio Forquilha, no
distrito de Sananduva, em um local denominado de Passo Gran-
de do Forquilha.4
Sobre o toldo existente no Passo Grande do Forquilha, esse
passou a ser desconsiderado enquanto local próprio para a ha-
bitação indígena em função da dificuldade de a administração
do Posto estender-se até àquela localidade e por “ás terras do
“Passo Grande” já não se prestam á cultura, e será sempre um
problema a solver, pelas próprias dificuldades locais”5. O Pos-
to deveria ser central enquanto instituição junto aos indígenas,
tanto de maneira estrutural, quanto simbólica; deveria fazer-se
presente diariamente, como claramente se estruturava a propos-
ta interventora do SPI.
Dessa forma, a área do Passo Grande, reconhecida como
de ocupação indígena, em terras consideradas “desocupadas”
do estado, teve os indígenas deslocados para o Posto de Caci-
que Doble, tendo as terras do Passo Grande sido arrendadas em
contrato para Teodoro Sousa de Moraes e Joaquim Ghiotto pelo
4  BRASIL. Ministério da Agricultura. SPI. Ofício e relatório anexo apresentados pelo
encarregado do PIN Cacique Doble, Mario Arnaud Sampaio, à Inspetoria Regional
nº7. Cacique Doble, 21 jan. 1941, fl. 2. SEDOC/Museu do Índio-RJ.
5  BRASIL. Ministério da Agricultura. SPI. Ofício e relatório anexo apresentados pelo
encarregado do PIN Cacique Doble, Mario Arnaud Sampaio, ao Inspetor Regional
da IR7, Paulino de Almeida. Cacique Doble, 27 fev. 1941, fl. 1. SEDOC/Museu do
Índio-RJ.

32
prazo de cinco anos6. Sobre a área, em registros posteriores rea-
lizados pelos encarregados do SPI, reafirma-se o arrendamento
da área, mas não há a indicação se a área foi efetivamente deso-
cupada da presença indígena.
O desconhecimento de Sampaio em relação à questão fun-
diária que envolvia o toldo de Cacique Doble foi aproveitado
pelos sujeitos envolvidos. Por parte dos indígenas, foi intentado
o reconhecimento legítimo de uma terra de ocupação indígena
que, a princípio, era ocupada há décadas por indígenas da des-
cendência do cacique Doble, além do fato de ser localizada em
terras consideradas “devolutas”, isto é, no Passo do Forquilha
A falta de informações do encarregado serviu aos interesses
da DTC que, em vez de apresentar a informação cartográfica e
fundiária real, omitiu-a e não permitiu uma nova medição da
área em 1941 requisitada por Sampaio7. Valendo-se da oficialida-
de de órgão público responsável pela questão fundiária estadual,
a DTC informou um número reduzido para a área, de 5.676 ha
demarcados em 1910, para 4.426 ha, dimensão informada sob a
qual foi elabora uma planta no ano seguinte8.
Para a DTC, manter certas áreas distantes do controle do SPI,
dessa forma afastando o órgão federal das reais dimensões sobre
as quais exercia influência, foi uma estratégia do órgão estadual
para preservar áreas de mata, detentoras de extensos pinheirais,
sob o manto da “proteção florestal”. Essas terras tornar-se-iam,
de maneira definitiva, reserva florestal, por despacho do gover-
nador Valter Sá Jobim, em 1949, deixando de serem consideradas
6  Idem, fl. 02.
7  BRASIL. Ministério da Agricultura. SPI. Ofício e relatório anexo apresentados pelo
encarregado do PIN Cacique Doble, Mario Arnaud Sampaio, ao Inspetor Regional da
IR7, Paulino de Almeida. Cacique Doble, 30 jun. 1941. SEDOC/Museu do Índio-RJ.
8  BRASIL. Ministério da Agricultura. SPI. Ofício e relatório anexo apresentados pelo
encarregado do PIN Cacique Doble, João Lucio de Paula, ao Inspetor Regional da
IR7, Paulino de Almeida. Cacique Doble, 1º maio 1942. SEDOC/Museu do Índio-RJ.

33
área indígena (KUJAWA, 2014, p. 25). Dessa forma, revelar-se-ia
também a necessidade de se resguardarem terras para a coloni-
zação, já que, áreas florestadas defendidas pela DTC na década
de 1940, seriam loteadas e vendidas para colonos em busca de
terra na década posterior, em função do esgotamento fundiário
experimentado pela região e pelo estado como um todo (TEDES-
CO; VANIN; SILVA, 2017).
A retirada dessa parcela da área indígena gerou desconten-
tamento entre os Kaingang do Posto, em razão de não poderem
mais acessá-la, parte que compunha cerca de 1/5 do toldo ga-
rantido três décadas antes. Sampaio não foi capaz de impedir a
insatisfação indígena, sendo que um grupo de trinta indígenas
liderados pelo ancião Gabriel Darfais se deslocaram até a capital
do estado, para protestar acerca da demarcação9, ação que não
surtiu efeito, já que a área estava, agora, subordinada ao SPI e
não mais ao governo estado do Rio Grande do Sul.

Considerações finais
A administração do SPI sobre os indígenas também revelou
suas facetas de intervenção sobre os territórios indígenas. O Pos-
to Indígena de Cacique Doble foi, certamente, um dos locais ao
qual foi aplicada a política integracionista do SPI, para a qual a
regulação e definição do território indígena deveria ser premente
para a administração do órgão.
Entre os Kaingang de Cacique Doble, a política disseminou-
-se por entre o cotidiano da área indígena, redefinindo os espa-
ços de transitoriedade e deslocamento, havendo a alteração das

9  BRASIL. Ministério da Agricultura. SPI. Ofício e relatório anexo apresentados pelo


encarregado do PIN Cacique Doble, João Lucio de Paula, ao Inspetor Regional da
IR7, Paulino de Almeida. Cacique Doble, 1º maio 1942. SEDOC/Museu do Índio-RJ.

34
concepções de trabalho, de produtividade, das relações com a
terra e com os demais integrantes da comunidade, deslocando
o centro do poder decisório da figura das lideranças cacicais e
transpondo a do encarregado, representante do SPI e de sua in-
tervenção.

Referências
BRINGMANN, Sandor Fernando. Entre os índios do Sul: uma análise
da atuação indigenista do SPI e de suas propostas de desenvolvimento
educacional e agropecuário nos Postos Indígenas Nonoai/RS e Xapecó/
SC (1941-1967). Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina
(UFSC), 2015. Tese (Doutorado em História).
BRINGMANN, Sandor Fernando; NOTZOLD, Ana Lúcia Vulfe. O
Serviço de Proteção aos Índios e os projetos de desenvolvimento dos
Postos Indígenas: o Programa Pecuário e a Campanha do Trigo entre os
Kaingang da IR7. In: Revista Brasileira de História & Ciências Sociais, vol. 5,
n. 10, p. 147-166, dez. 2013.
FONSECA, Pedro Cesar Dutra. Vargas: o capitalismo em construção. São
Paulo: Brasiliense, 1987.
KUJAWA, Henrique Aniceto. A política territorial indígena no Rio Grande
do Sul durante o século XX. In: TEDESCO, João Carlos. (Org.) Conflitos
agrários no norte do Rio Grande do Sul: indígenas e agricultores. Porto Alegre/
Passo Fundo: Le­tra & Vida/IMED, 2014, vol. VII, p. 17-37.
SIMONIAN, Lígia Teresinha Lopes. Terra de Posseiros: um estudo sobre as
políticas de terras indígenas. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio
de Janeiro, 1981. Dissertação (Mestrado em Antropologia Social).
TEDESCO, João Carlos; VANIN, Alex Antônio; SILVA, Gean
Zimmermann. A pressão pela terra: a política de redução de áreas
indígenas e as demandas atuais no Centro-norte do Rio Grande do Sul.
In: TEDESCO, João Carlos. (Org.). Conflitos agrários no norte do Rio Grande
do Sul: indígenas e agricultores – dimensões históricas. Porto Alegre: EST Edições,
ed. 1, vol. VIII, 2017, p. 223-288.

35
Paco:
atos heroicos ou marginais?

Palavras-chave: Paco, Política, Imigração italiana.

Marinilse Marina1

Introdução
O governo brasileiro tinha interesse na continuação da co-
lonização do estado do Rio Grande do Sul, principalmente em
prol do povoamento das terras devolutas do Nordeste do estado;
além do intuito de branqueamento da população, a agricultura
em pequenas propriedades, o trabalho livre e ainda a defesa das
fronteiras. Além disso, é pertinente destacar que a imigração ita-
liana para o estado sulista foi distinta da imigração para o estado
de São Paulo, que buscava, principalmente, substituir a mão-de
obra escrava, preocupação que ocorreu de forma gradual, assim
como a abolição de escravatura, com destaque para o ano de
1850 através da Lei Eusébio de Queirós, que proibia a entrada de
escravos africanos no Brasil. Sendo que no mesmo ano (1850), é

1 Doutoranda em História pela Universidade de Passo Fundo – UPF. Bolsista Fapergs.


Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do RS. E-mail: mcbbusato@gmail.com.

37
instaurada a Lei de Terras n° 601 que estabeleceu os parâmetros
da imigração italiana.
Portanto, o Brasil buscava preencher lacunas referentes às
novas leis ligadas a questões da terra. Enquanto, que para Itália,
a saída de pessoas em massa, significava uma solução imediata
para a grave crise econômica que a Europa enfrentava. Esse fator
associado às necessidades do Brasil, fez com que se divulgasse
na Europa uma propaganda enganosa e muitas vezes sem escrú-
pulos, permitida pela Itália. Sendo assim, é evidente que existem
muitas lacunas a serem trabalhadas neste contexto imigratório e
emigratório, por muitos anos este tema foi tratado de forma ge-
neralizada, colocando os colonos e os caboclos2 em um contexto
simplista.
Além da questão espacial, compete mostrar um caso especí-
fico, relacionado não somente a colônia de Alfredo Chaves, mas
outras na serra gaúcha, que é a figura de Francisco Sanchez Fi-
lho, mais conhecido na região como Paco. Para tanto, é primor-
dial a compreensão de uma série de fatores que impulsionaram
e moldaram a vida desse homem, visto por alguns como herói e
por outros como bandido.
Portanto, através do método indiciário, além do entrecru-
zamento de fontes, em específico dos jornais da época, apresen-
ta-se um determinado perfil de Paco, que entra em controvérsia
quando comparado aos relatos dos colonos, que mostram outra
versão sobre esta curiosa figura. Aqui não cabe defender ou con-
denar a imagem de Francisco Sanchez Filho, mas simplesmente
expor o outro lado sobre a história de vida deste sujeito, também
enquadrado como “bandido social”. Delimita-se a atuação de
Paco como bandoleiro do período de 1912, onde surge o primei-

2  Não somente os caboclos e os colonos, mas também os indígenas e outros. Neste


artigo o objetivo é focar dois grupos em específico: caboclos e colonos.

38
ro processo criminal, até 1930, já que seu assassinato acontece no
início de 1931 (LONDERO, 2011).
Francisco Sanchez Filho provinha de família espanhola, um
grupo minoritário inserido em colônias italianas. A família San-
chez3, ao que tudo indica, pode ter sido desapropriada de sua
terra, pobres e com filhos, transfere-se da colônia Dona Isabel
(atual município de Bento Gonçalves, RS) para Alfredo Chaves,
onde Paco passa a trabalhar em casa de comércio. Posteriormen-
te, com transporte da madeira e seu escoamento, conheceu de-
talhadamente a região nordeste do estado. Com isso foi usado
pelas elites comerciais e políticas da época em diversas funções,
entre elas: como uma espécie de segurança das casas comerciais
e dos políticos, além de cabo eleitoral, garantindo na região a
maioria de votos do Partido Republicano Rio-Grandense, muitas
vezes através da violência permitida pela própria polícia. Porém
houve o momento em que os interesses se alteraram, principal-
mente em função da união dos partidos Republicano, e da Alian-
ça Libertadora (FUG), que até então eram inimigos políticos. A
unificação aconteceu com o objetivo de levar Getúlio Vargas ao
poder como principal líder do Brasil.
Desta forma, Paco, que anteriormente era visto como um
aliado dessa elite política, comercial e policial, cometendo diver-
sos delitos em prol do grupo, passa a ser perseguido e silencia-
do. “Foram “atribuídas” a Paco mais de 150 mortes, centenas de
furtos e milhares de atos que demonstravam a sua preocupação
com o bem-estar dos camponeses” (PARIS, 1999, p. 175).
Além disso, não é intenção defender as atitudes de Francis-
co Sanchez Filho perante a comunidade regional, mas sim, de-

3  Optou-se por utilizar o sobrenome com a grafia em z “Sanchez”, mas também


encontramos com o final escrito em s “Sanches” em diversas obras, por isso ao longo
do texto, nas citações utilizadas a palavra altera a grafia.

39
monstrar alguns aspectos sobre a vida da maioria dos imigrantes
durante muitos anos após o início da colonização, que também
era agravada em função da dependência daqueles que serviam
como polo dinamizador da economia e das relações nas comuni-
dades agrícolas, que eram os comerciantes e políticos.

Paco: do comércio à política


Por ser conhecedor do meio rural onde vivia, além do tra-
balho no transporte e derrubada da madeira, Paco, aprendeu
a conhecer a região e seus diversos caminhos, seja por terra ou
pela água. Era uma figura pertinente aos interesses políticos, e ao
mesmo tempo conhecia os colonos, além disso, apesar de não ter
tido a oportunidade de estudar, falava com fluência o espanhol,
herdado da família, o dialeto italiano que aprendeu na comuni-
dade e, inevitavelmente, o português. Paco também conhecia o
universo comercial, trabalhou com o cunhado e aprendeu todos
os trâmites, além dos jogos que encantavam as comunidades ita-
lianas. Conforme Márcia Londero.

O período de atuação de Paco corresponde à mesma fase


de desenvolvimento capitalista no Brasil, apontada por
Hobsbawn na Europa Ocidental. Paco atua como bando-
leiro principalmente de 1912 a 1930, espaço de tempo em
que, no Brasil, consolidava-se uma nova fase com o adven-
to da República. Esta era a fase em que o Rio Grande do
Sul, dentro do quadro conjuntural brasileiro, iniciava um
investimento, principalmente por parte do estado, na mo-
dernização e capitalização do mesmo (LONDERO, 2011,
p. 151).

Paco passa a exercer funções variadas, tanto na região de


Alfredo Chaves, quanto na serra gaúcha, entre elas: proteger

40
comboios, controlar a travessia de mercadorias, e a segurança
do comércio, fazendo amizade com muitos bandidos que eram
chamados pelos próprios políticos para perseguir os colonos que
eram contrários ao governo de Borges de Medeiros, do Partido
Republicano, sendo Paco um dos cabos eleitorais, mesmo parti-
do que a maioria dos comerciantes. Conforme Guertler (2006),
“Francisco Sanches Filho tinha crédito com muitos comerciantes.
Não porque era uma pessoa amiga, mas porque impunha respei-
to” (GUERTLER, 2006, p. 58).
Paco passou a participar ativamente em defesa e garantia
de sucesso dos candidatos ao Partido Republicano e, segundo os
jornais da época, através de ameaças, e agressões físicas mostra-
va o que acontecia com aqueles que se posicionavam contra os
republicanos. Fazia uso da violência conforme os interesses da
política que o contratava. Portanto, até o período de 1927 conti-
nuava com relações de trabalho tanto com comerciantes quanto
com políticos, sem precisar se preocupar com a intromissão da
polícia. “Desta forma, um por um, o bandido Paco quebrou a ca-
beça a três eleitores dos mais entusiastas da oposição. Tudo isso
na presença da polícia, que primou pela sua impassibilidade. (...)
Com a estreia do novel cabo eleitoral, Paco foi eleito Intendente”
(ESTADO DO RIO GRANDE, 07-03-1930. Este acontecimento,
na época, em 1927, não foi denunciado, apud PFEIL, 1995, p. 19).
As histórias de violência do famoso bandido chegavam a
Porto Alegre, onde as notícias eram relatadas nos jornais: Cor-
reio do Povo, Diário de Notícias, Jornal da Manhã, Estado do Rio
Grande, e outros. Enquanto o jornal “A Federação”, pertencente
ao então Partido Republicano, mantinha-se discreto quanto aos
fatos que envolviam o bandido. Em contrapartida aos jornais
que colocavam Paco como talvez o principal opressor da comu-
nidade, encontramos o relato de vizinhos da família.

41
O professor Antônio Franceschini, que foi vizinho da famí-
lia de Paco, na Quinta Seção, por mais de 30 anos, ficou
feliz quando soube que há gente que fala hoje que os polí-
ticos desconheciam a fama de Paco quando o procuravam
para que convencesse os colonos a votar neles. Lembrou
que foi então o promotor de Bento, Dr. Olinto Fagundes de
Oliveira Freitas, e Intendente Municipal de 1929 a 1932,
quem procurou Paco por diversas vezes para que ele “tra-
balhasse nas eleições” (...). Contam que Paco caminhava
pelas empoeiradas ruas de Bento vestindo roupa preta,
com os revólveres na cintura e um chicote na mão. Nun-
ca deixava de cumprimentar ninguém. Era um homem de
grande influência na comunidade (PARIS, 1999, p. 181).

Apesar do início da carreira de Francisco Sanchez ter sido


marcada pelo apoio dos comerciantes, com o passar dos tempos
e o aumento da audácia do famoso bandido, seu prestígio caí
em descredito, pois “a posição de Paco diante das autoridades a
quem prestou seus serviços políticos se consolida a ponto de, em
combinação com o Subintendente de Alfredo Chaves, Octacílio
Vaz, organizar uma quadrilha de assaltantes” (PFEIL, 1995, p.
30). Esta quadrilha tinha como principal meta assaltar as maiores
casas de comércio da região, sendo, a partir de então, os próprios
comerciantes que passam a denunciar os delitos do bandido.
Desta forma, pressionado pela elite, o delegado Vaz passa
a estranheza com Paco, o ponto auge foi um desentendimento
entre ambos após assalto na casa comercial de Feres Miguel e
Irmão (loja Independência) em Bento Gonçalves, o atrito entre
Paco e Vaz, teria se dado em função da não partilha correta entre
o bando que realizou o assalto. Para completar o desfecho da
história, os donos da Loja Independência recorreram a polícia

42
da capital. Portanto, para o delegado e subintendente Octacílio
Vaz, tornava-se interessante assassinar, e não somente prender
Paco, já que seu nome estava diretamente ligado ao bandoleiro
(GURTLER, 2006).
Além disso, mesmo após tantos anos prestando serviços
para os políticos do Partido Republicano, a figura de Francisco
Sanchez Filho não era mais interessante, já que os borgistas e assi-
sistas uniram forças para levar Vargas à presidência da Repúbli-
ca, na então intitulada Frente Única Gaúcha (FUG). O Governo
Vargas, de 1930 a 1945, é dividido em 03 fases: Governo Provisó-
rio (1930-34); Governo Constitucional (1934-37); Governo Ditato-
rial – Estado Novo (1937-45). A partir da década de 1930, com a
dita união da FUG não era mais pertinente manter todas as equi-
pes políticas que garantiram a supremacia por longo período dos
borgistas. Em função disso, era necessário eliminar aqueles que
poderiam vir a prejudicar a imagem de determinadas elites da
época, entre estas pessoas estava Francisco Sanchez Filho, que
foge de uma emboscada preparada pelo até então amigo Octací-
lio Vaz (PFEIL, 1995).
A emboscada contraria ao esperado, e marca a morte de Oc-
tacílio Vaz. Portanto, a proteção da população a Paco fez com
que escapasse de diversas tentativas de homicídio. É interessan-
te como a morte do delegado, que por tempos foi comparsa de
Paco, foi noticiada pelo jornal Estado do Rio Grande.

“Tiveram lugar ontem, às 17 horas, as cerimônias de en-


comendação e sepultamento do senhor Octacílio Vaz, de-
legado de polícia, morto em conflito quando ia prender o
famigerado bandido Paco. Estas cerimônias foram assisti-
das por grande massa popular. Tão grande concorrência
assim ainda não se viu na vila. A Intendência Municipal
conserva, em sinal de pesar a bandeira a meio pau, home-
nagem extensiva ao comandante da polícia local, também

43
vítima de Paco” (ESTADO DO RIO GRANDE, 1931, apud
PFEIL, 1995, p. 34).

As principais controvérsias em relação ao que era noticiada


em diversos jornais se comprova com os relatos dos conhecidos
de Paco, onde os depoentes deixam claro a ajuda que o sujeito
recebia dos colonos.

Os colonos que protegiam o Paco também foram pressio-


nados pelas autoridades a revelar o seu paradeiro. Olímpia
Bertalanda, descendente da família que deu abrigo a Paco
na Quinta Seção, depois do episódio do delegado Vaz, con-
tou que “muitos vizinhos nossos perderam tudo porque as
autoridades chegavam e queriam saber onde Paco andava.
Eles diziam que não sabiam e os policiais jogavam fogo nas
coisas” (PARIS, 1999, p. 187).

Sendo evidente as boas relações que Paco mantinha com a


comunidade em geral, pois no momento que estava jurado de
morte, muitos colonos e até mesmo parte da polícia o protegia.
Protegido por alguns e odiado por outros, o famoso bandolei-
ro, ficou esquecido por um determinado período da mídia, es-
condendo-se nas furnas do rio das Antas, principalmente após
saber que outro bandido havia sido contratado para ajudar em
sua caçada, era o famoso assassino Antônio Torres. Portanto era
evidente que se não tentasse agir acabaria morto, por isso, re-
solveu escrever uma carta endereçada para as autoridades, com
a esperança de após tantos serviços prestados poder ser salvo
(JORNAL DA MANHÃ, 1931, apud PFEIL, 1995). A carta não
chegou ao seu destino e Paco foi assassinado em uma emboscada
no interior de Veranópolis, com 280 tiros em 1931.

44
Considerações finais
Francisco Sanchez Filho era de família espanhola, um grupo
minoritário inserido em um território composto majoritariamen-
te por italianos, sendo caracterizados pelo grande grupo como
caboclos. A família Sanchez, ao que tudo indica, pode ter sido
desapropriada de sua terra, pobres e com filhos se transferem
da colônia Dona Isabel para Alfredo Chaves, onde Paco passa
a trabalhar em casa de comércio, após com o transporte da ma-
deira e seu escoamento, aprendendo a conhecer detalhadamente
a região nordeste do estado, e, portanto, foi usado pelas elites
comerciais e políticas da época em diversas funções, entre elas:
como uma espécie de segurança das casas comerciais e dos po-
líticos, além de cabo eleitoral, garantindo na região a maioria de
votos do Partido Republicano Rio-Grandense, muitas vezes atra-
vés da violência permitida pela própria polícia. Até o momento
em que os interesses políticos se alteram, em função da união dos
partidos Republicano e da Aliança Libertadora (FUG), a ligação
aconteceu com o objetivo de levar Getúlio Vargas ao poder. Des-
ta forma, Paco, que anteriormente era visto como um aliado des-
tas elites, cometendo diversos delitos em prol do grupo, passa a
ser perseguido e silenciado.
Existem muitas controvérsias nas fontes analisadas, em al-
guns casos ele é descrito como um bandido temido pela popu-
lação local, em outros ele surge como um sujeito que protegia
e lutava pelos direitos dos colonos que apoiavam seu partido,
ainda, foi descrito como estuprador e violento. Talvez teria se re-
voltado pela dura realidade que cresceu ou até mesmo estigma-
tizado pela mídia, mas faltam inúmeras pesquisas sobre a per-
sonalidade de Francisco Sanchez Filho. Em relação a sua família
também muito pouco foi escrito. Sabe-se que “oficialmente” teve

45
três esposas e diversos filhos, as fontes relataram que a família
de Paco não quer se manifestar quanto a história desta chamada
lenda da região Nordeste do Rio Grande do Sul, inclusive, um
projeto cinematográfico sobre a sua vida não foi autorizada. Tal-
vez a família ainda viva uma dor silenciada.
A intenção foi mostrar que quando tratamos de histórias de
vidas, ao analisar estudos de casos, abrem-se infinitas possibili-
dades de pesquisa. Paco, se tornou um bandido, pois em muitas
ocasiões foi pago para isso, além de assassino e cabo eleitoral.
Não se quer defender suas atitudes, mas apenas demonstrar que
em determinadas situações os marginalizados pelo sistema so-
cial, e em análise, também marginalizados pelo sistema de co-
lonização do estado, que em pouco são estudados, podem op-
tar por uma vida à mercê do crime. Tentou-se demonstrar que
Francisco Sanchez Filho também foi usado pelos homens que
ditavam as regras da sociedade, e após, descartado. Sendo visto
por alguns como um herói que ascendeu socialmente e ajudou os
necessitados, e por outros como um bandido e assassino cruel.

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46
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PFEIL, Antônio Jesus. O trágico fim do bandido Paco. Porto Alegre: EST
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47
As desapropriações por interesse social
para comunidades remanescentes de
quilombo no Rio Grande do Sul

Palavras-Chave: Propriedade. Quilombo. Território.

Áxsel Batistella de Oliveira1

Introdução
Após a abolição da escravatura em 1888, os problemas so-
cioeconômicos começam a surgir, pois, se não haviam mais es-
cravos, então não haveriam mais quilombos. Mas essas pessoas
continuaram habitando essas comunidades praticamente esque-
cidos e ali vivendo suas vidas, se relacionando com os demais
habitantes das regiões, se inserindo nas dinâmicas econômicas.

Até o século XIX, o Estado brasileiro e as famílias escravo-


cratas que dominavam o meio rural promoveram incursões
militares que levaram à repressão e dizimação de quilom-
bos e à morte ou à reescravização dos seus integrantes.
Ao longo do século XX, essas comunidades quilombolas
seguiram tendo de enfrentar ação de latifundiários, que

1  Mestrando do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade de Passo


Fundo (PPGH/UPF), na linha de pesquisa: Espaço, Economia e Sociedade. Graduado
no Curso de História Licenciatura da Universidade de Passo Fundo. Membro do
Núcleo de Estudos Históricos do Mundo Rural (NEHMuR).

49
foram tomando as suas terras, obrigando-os a migrarem
para outras localidades ou a sofrerem perdas territoriais2.

Houve a abolição, mas não um plano vindo do Império e,


posteriormente, da República para inseri-los na sociedade e mer-
cado de trabalho, além do fato de haver um forte preconceito na-
quela época, que ainda perdura. A Lei Áurea se encontrava um
passo atrás na discussão sobre a abolição da escravidão no Brasil,
pois os grupos abolicionistas alimentavam discussões e projetos
mais avançados liderados por Rodolfo Dantas e Ruy Barbosa.
Nas palavras de Linhares e Silva:

a mobilização e tributação da propriedade fundiária, um


vigoroso programa de incorporação dos negros à nação,
através do sistema de ensino e da distribuição de lotes
de terras, bem como o desenvolvimento industrial, eram
abandonados pelas elites vitoriosas [...] Os 723.419 es-
cravos existentes em 1888 não foram objeto de qualquer
ação (aí sim, cabível) de indenização, seja direta (como em
dinheiro), seja indireta (como a doação de um lote de ter-
ras)3.

Os remanescentes quilombolas passam a compor um cam-


pesinato livre, o qual era composto em sua maioria por negros
e mulatos (caboclos), assim sendo impedidos principalmente
pelos instrumentos do Estado e pelos latifundiários sob manter
suas posses, como ao longo da história estes camponeses tiverem
dificuldade quanto ao acesso à terra (Sesmarias, Lei de Terras,
legislação pós-império). O fim da escravidão não significou em
uma melhora na vida do povo negro, além disso não configurou

2  QUILOMBO RS. Disponível em: <http://quilombosrs.com.br/>. Acesso em: 15


jan. 2019.
3  LINHARES, Maria Y; SILVA, F. C. T. S. Terra Prometida: uma história da questão
agrária no Brasil. Rio de Janeiro: Campus, 1999. P. 74.

50
em uma mudança na estrutura fundiária e social do campesinato
negro e/ou mestiço4.
É na primeira metade do século XX que o quilombo ressur-
ge como efígie da luta negra no Brasil, contra o preconceito que
havia, pois até o início do século, acreditava-se que a presença
do negro seria um dos motivos para a decadência do país5. Ape-
nas com o Estado Novo de Getúlio Vargas inicia um processo de
mudança na imagem dos negros, indígenas e mestiços no país. O
intuito de Vargas era constituir uma unidade nacional e, no seu
imaginário, utilizar da cultura e imagem destes povos seria uma
forma de nacionalizar as regiões do Brasil, porém a realidade do
povo negro pouco mudaria.

A partir de 1930 são feitas campanhas oficiais nos meios


de comunicação apresentando o mestiço (tanto com o ne-
gro como com o índio) como símbolo da identidade nacio-
nal. Elementos da cultura negra como o samba, a capoei-
ra, o candomblé e o futebol foram incluídos, valorizados e
difundidos como símbolos da nação brasileira. Apesar da
exaltação desses elementos culturais mestiços, o racismo
continuou a existir, de modo que não ocorreram mudan-
ças efetivas nas condições de vida dessas populações6.

Nas décadas de 1950 e 1960, as comunidades de


remanescentes quilombolas viviam com a constante espreita dos
agricultores vizinhos, que acumulavam interesses econômicos e
políticos nessas terras. Um exemplo é uma comunidade quilom-
bola chamada José Borges de Vieira, localizada no município de
Uruaçu, em Goiás, onde em meados da década de 1950 surgiam

4  DALOSTO, Cássius D. Políticas Públicas e os Direitos Quilombolas no Brasil: O exemplo


kalunga. 1ª Ed. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2016. P. 47
5  LINHARES, Maria Y; SILVA, F. C. T. S. Terra Prometida: uma história da questão
agrária no Brasil. Rio de Janeiro: Campus, 1999. P. 90
6  DALOSTO, Cássius D. Políticas Públicas e os Direitos Quilombolas no Brasil: O
exemplo kalunga. 1ª Ed. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2016. P.71.

51
várias pessoas interessadas em realizar contratos de meação com
os agricultores da região, incluindo membros da comunidade,
quando na verdade estes contratos eram de doação de suas pos-
ses e propriedades7.
É preciso pensar como esses povos quilombolas/
campesinato negro reaparecem na pauta da política brasileira e
por que hoje temos mais de 3.271 comunidades remanescentes
de quilombolas certificadas pela Fundação Cultural Palmares
(FCP). Para compreendermos este movimento, se faz necessário
nos debruçarmos sobre o processo constituinte iniciado em 1986,
que culminou com a constituição de 1988.
Devido aos crescentes casos de conflitos fundiários, ocor-
ridos principalmente pelos levantes dos grileiros nas décadas
de 1970 e 1980 (mas que vinham desde décadas anteriores), as
comunidades remanescentes de quilombo se unem às organiza-
ções do movimento negro urbano, a movimentos ligados a refor-
ma agrária, a políticos defensores da luta quilombola, além de
setores da academia. Estas mobilizações de múltiplos setores da
sociedade brasileira colocaram na pauta a questão sobre o direito
à terra, vindo a compor a constituinte resultando no art. 68 da
ADCT.
Durante o processo constituinte, as discussões sobre os ne-
gros começam a ganhar destaque entre os políticos, devido a
alguns motivos como a proximidade com o centenário da Lei
Áurea (1888-1988) e a luta de movimentos pró-negros, sendo
um deles o Movimento Quilombista8. Tais ponderações sobre o
negro estavam ligadas à Comissão de Ordem Social que era divi-
dida em três subcomissões: Negros, Populações Indígenas e Pes-
soas Deficientes e Minorias. Ainda em 1986, foi realizada a Con-

7  Ibid. 2016, p. 80.


8  Ver “O Quilombismo”, de Abdias Nascimento publicado pela editora Vozes, 1980.

52
venção Nacional do Negro, onde foi debatido o tema “O Negro
e a Constituinte”. A partir desta convenção foram elaboradas as
principais demandas que seriam levadas para a Assembleia Na-
cional Constituinte, e nela participaram cerca de 63 entidades da
sociedade ligados à luta negra, surgindo um total de dez propos-
tas, destacando-se a proposta de número nove: “ Acesso à terra:
garantia do direito de propriedade do solo urbano às populações
pobres; garantia do título de propriedade da terra às Comuni-
dades Negras remanescentes de quilombos, quer no meio urba-
no ou rural; desapropriação de imóveis improdutivos”; (GAY;
QUINTANS, 2014, p. 14).
Nota-se o esboço do que viria a ser na promulgação da cons-
tituição de 1988 o Art. 68 da ADCT, que seria o primeiro passo
para a luta pelo reconhecimento constitucional ao direto à terra
dos povos negros no Brasil. Este artigo, além de representar uma
conquista para estas comunidades, pode-se afirmar que também
foi um passo para todos que defendem a reforma agrária, através
de suas militâncias que reivindicavam algo além de estruturas
gerais para a reforma, e que requeriam que fosse também, reco-
nhecidas formas específicas de direito à ocupação da terra (Ex.
Quilombolas e Indígenas).
Portanto, o Art. 68 da ADCT foi o resultado da luta de dois
movimentos sociais: de um lado a luta pela reforma agrária, que
reconhecesse os diversos povos aqui existentes e suas territoria-
lidades específicas, e do outro lado um movimento negro que
via na imagem do quilombo um símbolo de resistência negra no
Brasil (DALOSTO, 2016, p. 96). “Art. 68. Aos remanescentes das
comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas terras
é reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado emitir
- os títulos respectivos (CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FE-

53
DERATIVA DO BRASIL DE 1988)9”.
A partir de 1988, a primeira comunidade a ter sua proprie-
dade titulada foi no ano de 1995 (7 anos após a promulgação do
Art. 68 da ADCT) e em 2001 regulamentou-se sobre ser a Fun-
dação Cultural Palmares – FCP (também criada em 1988) a res-
ponsável pelos Processos Administrativos de reconhecimento
através do decreto federal n° 3.912. Foi durante o governo de
Luís Inácio Lula da Silva que foi estabelecido um novo preceito
para os processos de reconhecimento de terras para remanescen-
tes de quilombo, em 20 de novembro de 2003 houve o Decreto
Federal n° 4.887, legislação que atua sobre a questão quilombola
no Brasil atualmente, no qual definiu o Instituto Nacional de Co-
lonização e Reforma Agrária – INCRA como o responsável por
tramitar os processos administrativos:

Art. 2o Consideram-se remanescentes das comunidades


dos quilombos, para os fins deste Decreto, os grupos
étnico-raciais, segundo critérios de auto-atribuição,
com trajetória histórica própria, dotados de relações
territoriais específicas, com presunção de ancestralidade
negra relacionada com a resistência à opressão histórica
sofrida10.

Neste decreto, notamos uma definição aprimorada e condi-


zente com o que os estudiosos sobre a temática abordam, pois,
além do conceito de auto definição na qual as comunidades po-
dem requerer através da FCP sua certificação, também se alterou
o órgão responsável por tramitar os Processos Administrativos

9 Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.


htm>. Acesso em: 25 out. 2018.
10  DECRETO Nº 4.887, DE 20 DE NOVEMBRO DE 2003. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/2003/D4887.htm> Acesso em 22
de out. 2018.

54
de reconhecimento, ficando agora o Ministério de Desenvolvi-
mento Agrário, por meio do INCRA, designado de dar sequên-
cia nesta tarefa. O decreto traz a definição de relações territo-
riais específicas, tornando-o mais flexível juridicamente, já que
não especifica uma única forma de apossamento do território,
deixando claro de que existem outras formas de apossamento e
utilização da terra, que não seja através da propriedade privada.
Com estas leis, iniciou-se um processo lento de reconheci-
mento e visibilidade para as comunidades negras no país, atra-
vés das políticas públicas instauradas, da luta pelos movimentos
sociais, FCP e INCRA. Com as desapropriações de terras por in-
teresse social baseados nestes artigos e futuramente no Decreto
Lei 4.887/2003, os territórios começaram a ser reconhecidos juri-
dicamente perante o estado, mesmo que a primeira titulação te-
nha vindo sete anos após a promulgação do art. 68 e que hoje, no
estado do Rio Grande do Sul, tenhamos apenas 21 comunidades
com suas posses reconhecidas. Mas cabe ressaltar que, mesmo
com as áreas reconhecidas e tituladas, os problemas não finda-
ram.
As formações das comunidades quilombolas variam entre
heranças, apossamentos, doações, contratos de compra e venda
entre outros, e essas informações são necessárias para que haja a
titulação da terra através do processo de reconhecimento. Mas,
após a tramitação destes processos, pode-se observar que na
maioria das comunidades, quando houve esta legitimação jurídi-
ca de um direito, elas apenas tinham a terra e nada mais, pois as
terras em algumas áreas eram improdutivas ou não produziam
o suficiente para a subsistência dos moradores, além da falta de
saneamento básico como esgoto, água potável, moradias de qua-
lidade e um acesso à educação próximo às comunidades. Outra
questão é a pressão de construtoras, como no caso dos quilom-

55
bos urbanos e do avanço das plantações nas áreas dos quilombos
rurais, tendo que lidar com a disseminação de agrotóxicos e da-
nos ambientais.
As desapropriações por interesse social para quilombolas se
diferenciam para com as de reforma agrária, principalmente por
não necessitar haver o descumprimento da função social (art. 184
e 185) da propriedade para que ocorra o processo de desapro-
priação do território, baseado no art. 216 da Constituição Federal
de 1988. Este artigo tornou as comunidades remanescentes qui-
lombolas patrimônio cultural brasileiro, devido a sua trajetória
de lutas e escravidão de seus povos. Partindo desta premissa,
as desapropriações ocorrem após a aprovação do RTID através
de decreto presidencial, reconhecendo que aquelas terras deli-
mitadas pelos laudos históricos, antropológicos e agronômicos
devem ser tituladas coletivamente em nome da comunidade qui-
lombola.

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________. Do Arcaico ao Moderno: o Rio Grande do Sul agrário do século
XIX. Ijuí: editora da Unijuí, 2002.

58
Discussões acerca dos elementos
motivadores da desapropriação da Annoni:
tensão social no imóvel e uma análise do contexto regional
no início da década de 1970

Palavras chave: Fazenda Annoni; tensão social; desapropriação.

Simone Lopes Dickel1

Introdução
Objeto dos mais diversos olhares, a partir de diferentes
abordagens, a antiga Fazenda Annoni que é um paradigma em
termos de reforma agrária no país, já foi palco de diversos confli-
tos, alguns mais conhecidos, outros nem tanto. Parte da discus-
são proposta neste texto, a constituição histórica da fazenda An-
noni como espaço de conflitos pela terra na década de 1970, tem
raízes bastante nítidas na estrutura fundiária brasileira, que em
diferentes nuances foi sendo projetada fundada na desigualdade
no acesso à terra como fonte de trabalho e dignidade humana.
Ao longo da história do país, a formação do latifúndio en-
quanto um dos pilares da ocupação portuguesa, amparou-se na
violência a expulsão dos povos originários de suas terras. Não

1  Mestre e doutoranda em história pelo PPGH da Universidade de Passo Fundo,


bolsista Capes/PROSUP. E-mail: simone.lopes.dickel@gmail.com

59
tardou muito, as contradições emergentes deste processo de con-
centração/exclusão, elementos fundantes da apropriação terri-
torial brasileira, foram sendo evidenciadas na forma de conflitos
envolvendo os mais variados sujeitos. (FERNANDES, 2000)
O histórico de conflitos pela terra na Annoni, elemento cris-
talizado na história, memória e identidade da região, ganha um
novo capítulo. Não se trata de um conflito novo, mas talvez do
mais antigo de todos, pois antecede a desapropriação no início
da década de 1970. Trata-se de um conflito que manteve-se por
muito tempo oculto, mas que também precisa ser analisado devi-
do ao importante papel que assumiu na desapropriação do imó-
vel, reivindicado anos mais tarde pelos sem-terra organizados
em torno do MST.

Principais elementos que contribuíram para a desa-


propriação da fazenda Annoni
O presente texto tem por objetivo explicar o processo de
constituição da fazenda Annoni enquanto espaço por excelên-
cia de diferentes conflitos envolvendo sujeitos que reivindicam
a terra, sua posse ou propriedade, no fim da década de 1960 e
início da década de 1970. Para tal intento, esse texto propõe re-
cuar ao período anterior à desapropriação, para conhecer os con-
flitos que teriam contribuído para a indicação do imóvel como
alternativa do Estado para o problema dos chamados “afogados
do Passo Real”.
Tal recuo temporal, para um período ligeiramente anterior
à desapropriação, é possível em função de novas fontes trabalha-
das. Parte integrante do longo processo judicial de desapropria-
ção, um laudo pericial datado de 1976, cujo objetivo era analisar

60
a função social da propriedade à época da desapropriação, noti-
cia a existência de um estado de “tensão social” no imóvel, três
anos antes do decreto de desapropriação. Ao que tudo indica,
essa tensão social que refere-se aos conflitos no interior da fa-
zenda, teve um papel fundamental na desapropriação. Eis o que
passa a ser compreendido.
Ao longo da parte já trabalhada do complexo processo ju-
dicial de desapropriação da Annoni, reiteradas vezes a União
afirma sobre a necessidade de dar às terras da Annoni uma
destinação social (DICKEL, 2017). A alegação de que havia um
problema social urgente para ser resolvido, foi usada pelo Incra
para justificar a desapropriação do imóvel. Tal problema decorre
da construção de uma grande barragem na região de Cruz Alta,
Ibirubá e Espumoso, impactou na vida de centenas de famílias,
demandando uma solução por parte do poder público (IOKOI,
1991).
Obrigados a deixar, não apenas suas terras, mas a sua pró-
pria história para trás (MEDEIROS, 1989. SEMINOTTI, 2008),
muitos daqueles que ficaram conhecidos como “afogados do Pas-
so Real”, ficaram por anos à mercê de promessas não cumpridas.
Enquanto aguardavam uma solução definitiva a ser apresentada
pelo governo, vivenciavam um tempo de esperas e incertezas,
buscando alternativas de sobrevivência. No tal de “se vira como
pode”, muitos acabaram se dispersando pela região. Cinquenta
e quatro, de um total de centenas de famílias que foram desaloja-
das, foram alocadas pelo Incra na fazenda Annoni em meados da
década de 1970, embora os rumos da propriedade ainda fossem
incertos em virtude da disputa judicial protagonizada pela famí-
lia desapropriada e o Incra (DICKEL, 2017).
Assim, um processo histórico que impactou a vida de cen-
tenas de famílias no estado, fez com que surgisse uma demanda

61
por terras, obrigando o Incra a pensar uma alternativa à falta de
terras. Depois de alguns estudos técnicos realizados na região, a
propriedade de Ernesto J. Annoni passou a ser apontada como
solução ao problema dos “afogados”. Umas das dúvidas que
surgem é, porque a Annoni sendo que mais de cem quilômetros
separam a região alagada do imóvel declarado de interesse so-
cial?
Além da demanda externa já referenciada, motivos mais
incisivos contribuíram para que o imóvel fosse desapropriado.
Dentre esses fatores que influenciaram a escolha do latifúndio,
a partir de relatórios e documentos contidos no laudo pericial,
é possível asseverar que além da extensão do imóvel em si, e o
que ele passa a representar em termos de contradições no con-
texto regional, conflitos entre o proprietário e os arrendatários
que plantavam uma parte das terras, precisam ser ponderados
para que se compreenda melhor o que motivou o decreto que
desapropriou o imóvel.
Mas antes de adentrar nas discussões acerca da “tensão
social” no interior do imóvel, é elementar situá-lo no contexto
regional. Marcada pela presença de muitos minifúndios, cuja in-
capacidade de reprodução impulsiona a pobreza e o êxodo rural,
a terra torna-se um problema na região da Fazenda Sarandi. O
grande latifúndio, ao qual a Annoni pertencia antes de ter sido
adquirida pela família cujo sobrenome batiza o imóvel, foi obje-
to de desapropriação durante o governo Brizola, na década de
1960. No entanto, o problema de mais de duzentas mil famílias
de sem terras no estado não foi resolvido (MARCON, 1997). E
pior, continuou se agravando em razão do processo de moder-
nização conservadora do campo, que gerou ainda mais miséria
e exclusão.
A partir de documentos utilizados em um relatório feito

62
pelo Instituto Gaúcho de Reforma Agrária (IGRA), e usados pelo
Incra como argumento na intensão de legitimar o ato desapro-
priatório, foi possível constatar um posicionamento favorável à
desapropriação por parte de lideranças da região, que passaram
a contestar a forma como o direito à propriedade era exercido.
A ideia de que a terra deve cumprir uma função social, que sur-
ge com o Estatuto da Terra (1964), pressupõe mesmo que im-
plicitamente, que seu uso não contrarie os interesses coletivos a
fim de beneficiar apenas seus proprietários2. Assim, posicionan-
do-se em relação à forma como o direito à propriedade estava
sendo exercido na Annoni, algumas entidades enviaram cartas
ao próprio Presidente da República, que na época era o Emílio
G. Médici, sugerindo a desapropriação do imóvel por não estar
contribuindo para o desenvolvimento regional e o bem estar da
coletividade.
Tais demandas por parte de alguns setores da sociedade
estão intimamente relacionadas ao contexto de mudanças pe-
las quais o campo estava passando, e também com as relações
sociais estabelecidas entre os sujeitos protagonistas nesse novo
cenário que estava se desenhando. O início da década de 1970 é
muito significativo em termos de modernização da agricultura,
especialmente nesta região do Rio Grande do Sul. O processo
ficou conhecido como “revolução verde”, e possibilitou através
da incorporação de novas áreas e do uso de agroquímicos, o au-
mento da produção e da produtividade (ALVES, 2013), tendo
a valorização expressiva do preço das terras como um de seus

2  Embora a função social da propriedade enquanto princípio norteador do exercício


do direito à propriedade tenha sido normatizado com o Estatuto da Terra (1964), a
primeira restrição ao direito à propriedade surgiu já na Constituição de 1934, quando
o caráter absoluto desse direito começa a ruir. No artigo 114, inciso 1º, está disposto
que “a propriedade tem, antes de tudo, uma função social, e não poderá ser exercida
contra o interesse coletivo”.

63
desdobramentos.
A emergência das chamadas “empresas rurais”, categoria
definida pelo Estatuto da Terra, é representativa desse processo
de modernização da agricultura. Além de aumentar a produção
e a produtividade, contribuiu para a valorização das terras, e
também para o processo de expropriação de camponeses, impos-
sibilitados de se modernizar e encontrar espaço no novo modelo
de agricultura que estava sendo preconizado e incentivado pelo
estado. O aumento da exclusão e do êxodo rural são consequên-
cias dessa modernização conservadora, que teve por objetivo
não a mudança na estrutura fundiária, mas a modernização do
latifúndio (TEDESCO, PAGLIOCHI, 2010).
Expressão desse novo modelo econômico liderado pela agri-
cultura empresarial, as cooperativas também se proliferam na re-
gião, congregando principalmente médios e grandes produtores,
que passam a entregar nela toda sua produção, e a adquirir in-
sumos e maquinários modernos. Geralmente, o empresário rural
possui terras, mas em alguns casos as áreas são insuficientes, e
por este motivo, muitos acabavam procurando terras para arren-
dar. Geralmente são terras que antes eram improdutivas, e que
passam a gerar riqueza, mediante pagamento de arrendamentos
ao proprietário. Este foi o caso de alguns agricultores, sócios bas-
tante atuantes e que movimentavam somas expressivas de ca-
pital em cooperativas da região. Eles pagavam o arrendamento
de áreas de terra na Annoni, para nela desenvolver a agricultura
mecanizada.
A tensão social a que o texto se refere, é o conflito entre a
família proprietária do imóvel e os agricultores que plantavam
as terras. O conflito entre eles acaba evidenciando o desencontro
entre dois modelos de agricultura diferentes. Assim, os arren-
datários representavam o novo, a agricultura moderna e capita-

64
lizada, em consonância com um projeto de estado e também os
interesses sociais, enquanto que o proprietário é representante
de uma antiga tradição de um direito à propriedade absoluto,
em que a terra visa atender apenas a interesses pessoais.
Tais conflitos se deram em função de desentendimentos em
relação ás cláusulas do contrato de parceria, o qual estabelecia
direitos e deveres de ambas as partes. Foram três arrendatários
que plantavam uma pequena parte das terras, mas que eram res-
ponsáveis pela maior parte da produção agrícola do imóvel, ou
seja, mesmo com uma área menor, os resultados obtidos através
de grandes somas em investimentos eram superiores aqueles al-
cançados pelo proprietário, já que o dono destinava maior parte
do imóvel a atividade pecuária. Contra eles o proprietário moveu
ações de despejo, na clara intensão de retomar a área arrendada.
Diferente do modelo agrícola ancorado na mecanização e
produção de grãos, que demanda investimentos, contribuin-
do para uma circulação maior de capitais, e também geração
de empregos diretos e indiretos, tendo um impacto maior na
região, o modelo agrícola assentado na pecuária não demanda
tantos avanços tecnológicos, dispensando grandes quantidades
de mão-de-obra e tendo pouco impacto na região. Desse modo,
enquanto a agricultura mecanizada era uma atividade mais in-
tensiva, permitindo uma acumulação e também uma circulação
maior de capitais, movimentando a economia da região, a pe-
cuária era uma atividade mais extensiva, cuja lucratividade era
garantida em função da grande disponibilidade de terras.
É compreensível portanto, o posicionamento de duas coo-
perativas da região, que manifestaram-se através de cartas en-
viadas ao presidente da república, Emilio G. Médici. Nas duas
cartas enviadas por cooperativas de Sarandi e Carazinho, era so-
licitada a intervenção das autoridades na questão judicial entre

65
os arrendatários e o proprietário, em favor de seus associados.
Assim, o espaço social ocupado por esses sujeitos que conflitam
pelo direito à terra ajuda a evidenciar as mudanças que estavam
ocorrendo no campo naquela época, da qual eles são protago-
nistas. Enquanto a família proprietária representa um direito à
propriedade no seu sentido mais absoluto, inquestionável, os
arrendatários apoiam-se na produtividade e no caráter empre-
sarial dado à exploração da terra para reivindicar o direito de
continuar usando a terra, buscando assim legitimar sua posse.
Esse processo penetração do capital do campo através da
sua modernização, já estava previsto no Estatuto da Terra. Trata-
-se de uma via conservadora de tentar, embora sem sucesso, re-
solver os problemas do campo sem precisar mexer no latifúndio,
mediante sua transformação em “empresa rural” (NATIVIDA-
DE, 2013). O caráter empresarial da exploração agrícola dos ar-
rendatários pode ser constatado a partir de listas de maquinários
utilizados por esses sujeitos, além de benfeitorias construídas.
Além disso, a movimentação de grandes somas em investimen-
tos na lavoura é ratificada pelas cooperativas das quais eles eram
associados e para as quais confiavam toda a produção agrícola.
Desse modo, a tensão social mencionada no relatório, usada
também como justificativa à escolha do imóvel para esta inter-
venção por parte do poder público, nada mais é do que um con-
flito por direitos pela terra, resultante das transformações pelas
quais o campo estava passando. À medida em que o latifúndio
não se adequa ao novo modelo econômico preconizado, passa a
ser visto como uma espécie de entrave ao desenvolvimento re-
gional, além de uma contradição diante da falta de terras dispo-
níveis. Trata-se de uma forma de ser proprietário, que em pouco
contribui para o bem estar da coletividade, gerando tensões so-
ciais as mais diversas, sendo que em razão da natureza sucin-

66
ta deste texto, foi possível elencar apenas uma, considerada de
grande importância para o ato desapropriatório.

Considerações Finais
Embora seja um assunto que merece uma discussão mais
aprofundada, uma vez que os conflitos referidos no texto são
apenas um aspecto marcante do período, espera-se ter alcançado
o objetivo de desnudar pelo menos um pouco da complexida-
de do contexto que antecede a desapropriação da Annoni. Uma
análise mais acurada desses conflitos se faz necessária, eles de-
vem ser melhor evidenciados, não apenas no contexto regional,
no que se refere às transformações que atingiam o campo entre
final da década de 1960 e início da década de 1970, mas também
precisa ser inserido em um contexto maior de transformações,
especialmente no que se refere à penetração do capitalismo no
campo, e também a legislação agrária e a própria concepção de
propriedade. Vale lembrar acerca desse contexto de transforma-
ções, que trata-se de um processo histórico, e assim como outros,
é permeado de rupturas, mas também continuidades.

Referências
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Dissertação (Mestrado em História) Universidade de Passo Fundo, 2013.
DICKEL, Simone Lopes. Terras da Annoni: entre a propriedade e a função
social. Curitiba: Ed. Prismas, 2017.
FERNANDES, Bernardo Mançano. A Formação do MST no Brasil.
Petrópolis: Editora Vozes, 2000.
IOKOI, Zilda Márcia Grícoli. As Lutas Camponesas no Rio Grande do
Sul e a Formação do M.S.T. Título do Periódico: Revista Brasileira de História
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67
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MARCON, Telmo. Acampamento Natalino: história da luta pela reforma
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MEDEIROS, L. S. de História dos movimentos sociais no campo. Rio de Janeiro:
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1964): uma arena de luta de classe e intraclasse. Niterói, 2013.
RAMOS, Carolina. A Confederação Nacional da Agricultura e o Estatuto
da Terra: embates e recuos. Revista História e Luta de Classes. Ano 5, edição
nº 8, novembro de 2009.
SEMINOTTI, J. J. O Movimento dos Atingidos por Barragens no Norte
do Rio Grande do Sul -1979-2007. In: João Carlos Tedesco; Joel João
Carini. (Org.). Conflitos Agrários no Norte Gaúcho. 1980-2008. 1ªed. Porto
Alegre: EST Edições, 2008, v. 1, p. 128-153.
TEDESCO, João Carlos. PAGLIOCHI, Cleber. O conflito na Fazenda
Coqueiros: criminalização, judicialização e a luta social no norte do RS.
Passo Fundo: Berthier, 2010.

68
Imigrante, intelectual, agricultor:
o caso de Martin Robert Richard Fischer

Palavras-chave: Imigrante. Fronteira. Produção agroindustrial.

Dirceu Adolfo Dirk1

Introdução
De acordo com sua autobiografia, Martin Robert Richard
Fischer, natural da Prússia Oriental, graduou-se e doutorou-se
em Direito. Participou da Primeira Guerra Mundial como oficial
de reserva, sendo duas vezes gravemente ferido. Mesmo ten-
do formação em Direito e jurisprudência, fez do jornalismo sua
profissão. Esteve no Brasil por duas vezes até fixar-se definiti-
vamente aqui, em 1937, após uma rápida passagem por Buenos
Aires. Na capital argentina foi diretor da agência noticiosa Deu-
tsches Nachrichten Buero, de Berlim. Não querendo prolongar seu
contrato devido a intrigas pessoais com o Partido Nacional-So-
cialista dos Trabalhadores Alemães (Partido Nazista), decidiu

1  Doutorando em História no Programa de Pós-Graduação em História da


Universidade de Passo Fundo (UPF). E-mail: dirceudirk@yahoo.com.br. Agradeço
ao apoio na forma de bolsa de estudos à Fundação Universidade de Passo Fundo
(FUPF) e à CAPES.

69
“refugiar-se” no interior do recém-criado município de Iraí, no
norte do Rio Grande do Sul, onde instalou-se em uma pequena
propriedade rural. Na década de 1940, possuía posição de des-
taque na comunidade, pois as autoridades locais lhe confiaram
tarefas de inspeção e fiscalização na área educacional e de desen-
volvimento urbano. Em 1951 transferiu residência para Ijuí, onde
colaborou em um jornal impresso e em uma emissora de rádio
(FISCHER, 1961; 1964). Foi também um dos fundadores e pri-
meiro diretor do Museu Antropológico Diretor Pestana (MADP).
Faleceu em 1979.
Nesse texto aborda-se a formação do município de Iraí, a
migração e a instalação de Martin Fischer como pequeno agri-
cultor. Também, descreve-se como se efetivou a inserção pessoal
e profissional deste imigrante alemão, a partir de pesquisa docu-
mental, tendo como fontes as correspondências enviadas e rece-
bidas e capítulos de livros por ele redigidos.

Iraí: primeiros tempos


Antes de fazer parte das Rotas Turísticas das “Águas e Pe-
dras” e das “Gemas e Joias”, a área que compreende o municí-
pio de Iraí, foi também conhecida como Colônia Guarita, Fontes
do Barreiro do Mel, Águas do Mel, Cruzeiro do Sul e Irahy. Em
meados do século XIX, a região era habitada por indígenas Kain-
gang2, mas a expressão Irahy, de onde deriva o nome do muni-
cípio, vem de dois vocábulos da língua tupi-guarani: ira (mel) e
2  Etimologicamente, Kaingang significa “povo do mato” e segundo a classificação
linguística esse grupo pertence à Família Jê do Tronco Macro-Jê. Conforme a análise
de Santos (1970), a interação dos Kaingang com os “colonizadores brancos” ocorreu
através de sucessivas frentes de expansão: primeiramente a pastoril, posteriormente à
extrativa e por fim a agrícola. E, a partir da década de 1930 passaram a fazer artesanato
para venda (BALDUS, 1979).

70
hy (água). No livro Iraí: Cidade Saúde, Martin Fischer apresentou
a seguinte descrição:

Pois neste recanto às margens do majestoso Rio Uruguai, é


um dos poucos lugares em todo o Rio Grande do Sul, onde
ainda se pode achar a natureza em virgindade incólume,
e onde ainda há o porco do mato e bugio, e onde também
podemos encontrar-nos, em desertos atalhos, com índios
caçadores, usando suas armas primitivas (1954, p. 9).

Descreve os nativos não mais como os ancestrais, mas como


homens e mulheres que “vestem camisas, calças e até usam cha-
péu, da maneira de homens civilizados” (1954, p. 9). Ainda sobre
os Kaingangues, na década de 1940, Martin Fischer relatou:

Na região de Iraí seguidamente aparecem tais grupos;


os homens armados de arco e flechas, as mulheres car-
regando crianças e utensílios, geralmente em cestos que
são trazidos às costas, presos à testa por uma cinta, de
maneira que todo esforço recai sobre esta. Locomovem-se
com rapidez espantosa e, mesmo nos dias mais quentes de
verão, percorrem longas distâncias em tempo muito curto
(1954, p. 13).

A ocupação da região de Iraí por outras populações, que


deu origem à história recente do município, teve início durante
a Revolução Federalista (1893-1895), quando um grupo de apro-
ximadamente 200 pessoas, provenientes de Cruz Alta, buscou
refúgio nas encostas das matas às margens do rio Uruguai. O
grupo era partidário da revolução e estava sendo ameaçado pe-
las ações do governo. Em uma de suas incursões de caça e pesca,
encontraram, às margens do rio do Mel, um afluente do rio Uru-
guai chamado assim em função das numerosas colmeias de abe-
lhas, um pântano com várias fontes de águas quentes que emer-
giam do solo com grande força. Estavam descobertas as Fontes do

71
Barreiro do Mel (FISCHER, 1954).
Encerrada a revolução, algumas famílias permaneceram na
região, mas a maioria retornou a Cruz Alta. Estas difundiram a
existência das águas termais e teve início, então, uma sistemática
ocupação da região por colonizadores, sendo que os primeiros
teriam vindo de Caxias do Sul e Guaporé RS. Após a fundação
oficial da Villa das Águas do Mel, em 1916, diversas levas popu-
lacionais chegaram a região, com o predomínio das de origem
italiana, seguidas de alemães, poloneses, russos e luso-brasilei-
ros. O nome Irahy3 passou a ser usado em 1920, para designar
o 2º Distrito de Palmeiras das Missões. Desmembrado em 1933,
tornou-se município. Três anos após a emancipação político-ad-
ministrativa, Martin Fischer chegou em Iraí, um município com
cerca de dois mil habitantes (FISCHER, 1954).

A fronteira
As fontes estudadas na pesquisa, até o presente momento,
não são suficientes para determinar com clareza os motivos da
escolha de Martin Fischer por Iraí, mais precisamente pela zona
rural. Mas, a própria evolução do município justificava as me-
lhores expetativas. O número de pessoas que afluiu a Iraí à pro-
cura de terras pode ser relacionada com a informação sobre suas
fontes termais. Sobre esse assunto, Fischer esclareceu que:

O desenvolvimento progressivo da estação balneária trou-


xe como consequência natural que se tivesse que dar
maior atenção aos banhistas e, por isso, desde cedo surgiu
uma quantidade de hotéis. No decorrer do decênio 1923-
1933 estes hotéis foram consideravelmente aumentados

3 A partir de 1937, seguindo as determinações do Acordo Ortográfico Luso-Brasileiro,


definitivamente implantado em 1941, passou a ser usada a grafia “Iraí”.

72
e melhorados, modernizados conforme as exigências dos
tempos.[...] Também as casas comerciais cresceram, fican-
do os negócios mais sólidos e começaram a adaptar-se à
estação anual.[...] A indústria não passava de diminutas
tentativas. Em melhores condições estavam os ofícios;
chegaram à vila ferreiros, carpinteiros, marceneiros, al-
faiates, sapateiros e seleiros (1954, p. 30)

Iraí, uma fronteira naquela época, foi o local escolhido por


Martin Fischer para reorganizar sua vida. Segundo o geógrafo
Friedrich Ratzel, “A fronteira é constituída pelos inúmeros pon-
tos sobre os quais um movimento orgânico é obrigado a parar”
(RATZEL apud ZIENTARA, 1989, v. 14, p. 306), ou seja, “a fron-
teira é um lugar até onde se pode avançar, pois adiante não há
mais condições para prosseguir, pelo menos naquele momento”
(GERHARDT, 2009, p. 50). Para Ratzel, fronteira “é um concei-
to muito mais amplo que o de divisa entre países ou de uma
linha demarcatória fixa” (GERHARDT, 2009, p. 50). Iraí ainda é
um município de fronteira, distante apenas dois quilômetros do
Estado de Santa Catarina, cuja divisa é o rio Uruguai. Na segun-
da metade da década de 1930, quando Martin Fischer mudou-se
para Iraí, ficou evidente uma dupla fronteira, representada pelo
rio e pela floresta.
A colonização da extensa zona de floresta da margem es-
querda do Rio Uruguai havia iniciado. O desmatamenteo da
imensa região florestal catarinense, entre os rios Peperi-Guaçu
e Chapecó, foi empreendida por sociedades religiosas e compa-
nhias particulares de colonização (FISCHER, 1954). No entanto,
as estradas de acesso às novas zonas de colonização de Itapiran-
ga, Mondaí e Palmitos não estavam interligadas à Iraí, justamen-
te pelo impedimento provocado pelo rio Uruguai.
Sobre a floresta como fronteira, Gerhardt aponta que “viver
junto ao mato, fronteira entre o civilizado e o selvagem, signifi-

73
cou para os colonos a modificação de um ambiente associado a
possibilidades, ameaças e fascínios” (2009, p. 33). Martin Fischer,
ao escrever sobre a história dos primórdios de Iraí, fez o seguin-
te relato:

Com a colonização em lento progresso, a paisagem pau-


latinamente mudava de aspecto. A selva majestosa tinha
que ceder ao machado, roças e sempre mais roças devora-
ram a mata verde. Assim, o caráter da paisagem tornou-
-se mais alegre, mais lindo, mais romântico. Onde antes
o cedro, o angico e a guajuvira balanceavam seus cimos
sombrosos, cresciam agora o feijão e o milho, trigo e ba-
tatas. Ainda hoje constituem a essência da produção da
população campestre da região. Mas também a cana de
açúcar, o fumo, laranjas, limas e limões, bananas, abacaxi
e mamão apareceram em lugar dos gigantes caídos das
selvas; e onde, outrora, viviam a anta, a onça e o javali,
agora cacarejavam pacíficas galinhas, grunhiam gordos
leitões nos seus chiqueiros e mugiam vacas com seus ter-
neiros (1954, p. 23).

Dentro de uma história da fronteira sulina, Luiz Carlos Tau


Golin, baseado em Martins (1997), aborda as duas concepções de
referência: a frente de expansão e a frente pioneira. A primeira,
expressa a concepção de ocupação de um espaço de quem tem
como referência as populações indígenas; a segunda transfere a
situação espacial e social, através de novas formas de produzir,
em alterações no mercado e nas relações sociais (2002, p. 31). A
frente pioneira esteve, portanto, voltada para o mercado interno
e foi marcada pela presença de colonizadores brancos, particu-
larmente europeus.
No sul do Brasil, segundo Tau Golin, a frente pioneira pode
ser observável no noroeste do Rio Grande do Sul e no oeste de
Santa Catarina, quando ocorre a “intervenção direta do Estado
para acelerar o deslocamento dos típicos agentes da frente pio-

74
neira sobre territórios novos, em geral já ocupados por aqueles
que haviam se deslocado com a frente de expansão” (2002, p. 33).
Em 1912, o governo do estado criou a Comissão de Terras e
Colonização da Palmeira, com o objetivo de organizar a ocupa-
ção efetiva da região de Iraí. Em 1918, iniciaram-se as vendas dos
lotes rurais – que continuaram até 1929 – cada um com 25 hecta-
res, vendidos a preços acessíveis e a prazo. Muitos dos que ad-
quiriram terras quitaram suas dívidas através da venda das ma-
deiras de árvores nobres que eram levadas à Argentina através
do rio Uruguai (PREFEITURA MUNICIPAL DE IRAÍ, c. 2017).

O agricultor e a produção agroindustrial


Martin Fischer chegou em Iraí juntamente com a esposa
Charlotte Wollermann no início de 1937. Mesmo que as nego-
ciações tenham se arrastado por algum tempo, eles conseguiram
comprar um lote de terra distante três quilômetros ao norte da
sede e a 600 metros do rio Uruguai.4 Em sua Kolonie, iniciaram
derrubando parte da floresta a fim de abrir espaço para a cons-
trução da residência. Em carta de fevereiro de 1937, enviada à
Christian Grotewolt, residente na Argentina, ele explicou que:

Não sei se conseguiremos construir a casa principal este


ano, porque primeiro os galpões e os estábulos para o
gado, para os cavalos, para os porcos e para as aves pre-
cisam ser construídos. Afinal, isso é mais importante. Já
existe um grande potreiro na colônia, o que facilita muito o
trabalho. Já temos alguns bois muito bons e fortes que es-
tão sendo utilizados no arrastamento das árvores derruba-

4  Provisoriamente, ele e a esposa Charlotte Wollermann moraram em uma casa


alugada, na pequena vila de Passarinhos (atual Palmitos), em Santa Catarina. Portanto,
no lado norte do rio Uruguai.

75
das. Além disso, ainda temos alguns novilhos jovens, mas
que precisam ser engordados antes de serem levados ao
matadouro. Além disso, há uma vaca que vai parir em dois
ou quatro meses, para que possamos tomar leite quando
a casa provisória com cozinha estiver pronta. Queremos
mudar para a colônia o quanto antes, porque, mesmo que
a casa provisória seja pequena, o gerenciamento será mais
fácil daqui do que em Passarinhos (FISCHER, 7 fev. 1937).

Na mesma correspondência ele informou outros detalhes


sobre as primeiras ações e o que possui na colônia: que negociou
um terceiro cavalo; que comprou vários porcos em uma liquida-
ção; que o número total de reses, entre touros, vacas e bezerros,
é oito; que “perambulam” cerca de cinquenta galinhas; que exis-
tem várias frutas, especialmente bananas e laranjas, mas também
figos, abacaxis, nozes, etc. (FISCHER, 7 fev. 1937).
Mas, desde o princípio, seu objetivo maior era cultivar cana-
-de-açúcar e produzir aguardente. Para isso, teve que formalizar
uma sociedade e acabou encontrando em dois amigos a disponi-
bilidade de capital para investimento. O capital inicial foi estabe-
lecido em 42 contos de réis, no entanto, estava estabelecido um
aumento através de um “acordo de cavalheiros”, para 100 contos
de réis. Martin Fischer e a esposa entraram com 50 contos; o mé-
dico Heinz von Ortenberg, de Santa Cruz do Sul, com 25 contos
e o ex-funcionário da Embaixada Alemã em Buenos Aires, Antô-
nio Pauly, com 25 contos (FISCHER, 24 out. 1939).
As máquinas para a produção de açúcar e de aguardente de
cana foram compradas em São Paulo. A produção de aguarden-
te, propriamente dita, iniciou em 1938, quando foi registrada a
marca Tatu. Antônio de Pauly assumiu a destilaria e a execução
dos assuntos técnicos, enquanto que Martin Fischer assumiu a
administração, os assuntos agrícolas e a comercialização da be-

76
bida. Charlotte Wollermann assumiu a equipe responsável pela
horta, pelo jardim e pela criação de galinhas. Ortenberg foi ape-
nas acionista (FISCHER, 24 out. 1939). A Fábrica de Aguardente
Tatu, portanto, desempenhou o papel de uma pequena empresa
agrícola capitalista, através da produção para o mercado, da ge-
ração de emprego e da divisão dos lucros entre os acionistas.
Retomando a concepção de frente pioneira, o escritor e so-
ciólogo brasileiro José de Souza Martins afirma que:

Atrás da linha da fronteira econômica está a frente pio-


neira, dominada não só pelos agentes da civilização, mas
nela pelos agentes da modernização, sobretudo econômi-
ca, agentes da economia capitalista (mais do que simples-
mente agentes da economia de mercado), da mentalidade
inovadora, urbana e empreendedora (1997, p. 158).

Mesmo com uma mentalidade empreendedora, inovadora e


capitalista, Martin Fischer passou por situações inerentes a todo
administrador de uma pequena empresa. As dificuldades para
sua sobrevivência não tardaram a aparecer. Em março de 1939,
constatou-se falta de capital de giro, pois as despesas aumen-
taram consideravelmente, como resultado de várias medidas
legislativas e conseguir empréstimos se tornou difícil, pois os
primeiros sinais de uma crise se fizeram sentir. A empresa tinha
aguardente em estoque, mas que ainda não estava em condições
de ser comercializada. Em julho, as vendas de aguardente inicia-
ram, o que gerou receita. No entanto, o que salvou a empresa,
ao menos naquele momento, foi um empréstimo familiar (FIS-
CHER, 1939).

77
Considerações finais
As ações de Martin Fischer como administrador de uma pe-
quena empresa agrícola e industrial poderiam ter alcançado su-
cesso, na visão deste, caso a escolha de seus sócios tivesse dado
certo. No entanto, não foi nem um pouco promissora a entra-
da de Antônio Pauly na sociedade. Responsável pela destilaria,
Pauly demonstrou ser uma pessoa descuidada e causadora de
muitos danos à produção. Além disso, sérios atritos pessoais e
familiares entre Martin Fischer e Antônio Pauly levaram à disso-
lução da sociedade, ao menos entre os dois. Ficou acertado que
Martin Fischer pagaria os 25 contos de réis, do capital inicial,
mais 4 contos que foram emprestados pela esposa de Pauly em
outro momento, totalizando 29 contos. Esse valor seria pago em
parcelas iguais, acrescido de uma taxa de 6%.
Começava a ruir o sonho de Martin Fischer de ser um pe-
queno e independente homem de negócios. Além da diminuição
da composição de capital, ficou a dívida com seu ex-sócio. Mes-
mo alcançando uma escala mínima de produção, Martin Fischer
não conseguiu mais se capitalizar, o que também refletiu nas di-
ficuldades de acesso ao crédito. Com o passar do tempo, não
conseguiu mais pensar a empresa em termos estratégicos.
Em 1941 ele enviou um requerimento à Coletoria Federal de
Palmeira das Missões solicitando sua exclusão como fabricante
e comerciante de aguardente estabelecido no município de Iraí
(FISCHER, 1941). Desta data, até sua transferência definitiva
para Ijuí, dez anos mais tarde, nunca deixou de ser agricultor ou,
como ele próprio se apresenta no Curriculum Vitae, um “pequeno
colono” (FISCHER, 1961).
A inclinação intelectual de Martin Fischer se tornou eviden-
te a partir do momento em que assumiu e desempenhou funções

78
públicas à serviço do Poder Executivo de Iraí, quando paciente-
mente coletou peças indígenas da cultura Kaingang, que consti-
tuiriam o acervo inicial do Museu Antropológico Diretor Pestana
(MADP), de Ijuí. Também quando se debruçou em uma pesquisa
histórica, etnográfica, política e estatística, que resultou na publi-
cação do livro Iraí: Cidade Saúde, um dos primeiros livros sobre o
município.

Referências e fontes
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In: BALDUS, Herbert. Ensaios de Etnologia Brasileira. 2 ed. São Paulo:
Companhia Editora Nacional, 1979, p. 160-187.
CORREA, Sílvio Marcus Souza. Germanidade e banhos medicinais nos
primórdios dos balneários no Rio Grande do Sul. História, Ciências, Saúde
Manguinhos, Rio de Janeiro. v. 17, n. 1, p. 165-184, jan-mar. 2010.
FISCHER, Martin. Correspondência enviada a Onkel Christian. Iraí: 7 fev.
1937. MADP, AI 0.6.4, pasta 4, doc. 88 (Coleção Martin Fischer).
FISCHER, Martin. Correspondência enviada a Heinz Hell. Iraí: 25 fev. 1937.
MADP, AI 0.6.4, pasta 4, doc. 92 (Coleção Martin Fischer).
FISCHER, Martin. Correspondência enviada a Onkel Christian. Iraí: 24 out.
1939. MADP, AI 0.6.4, pasta 5, doc. 46 (Coleção Martin Fischer).
FISCHER, Martin. Correspondência enviada ao Exmo. Sr. Coletor Federal. Iraí:
01 fev. 1941. MADP, AI 0.6.4, pasta 5, doc. 93 (Coleção Martin Fischer).
FISCHER, Martin. Curriculum Vitae / Autobiografia. Ijuí: 1961. MADP,
AI 0.6.4, pasta 3, doc. 19 (Coleção Martin Fischer).
FISCHER, Martin. Curriculum Vitae / Autobiografia. Ijuí: 1964. MADP,
AI 0.6.4, pasta 3, doc. 20 (Coleção Martin Fischer).
FISCHER, Martin. Iraí: Cidade Saúde. Ijuí: Progresso, 1954.
GERHARDT, Marcos. História ambiental da colônia Ijuhy. Ijuí: Ed. Unijuí,
2009.
GOLIN, Luiz Carlos Tau. A Fronteira. Porto Alegre: L&PM, 2002.
PREFEITURA MUNICIPAL DE IRAÍ. Conheça Iraí: História.

79
Administração 2017-2020. Disponível em: http://www.irai.rs.gov.br/
historia/. Acesso em: 21 ago. 2019.
SANTOS, Sílvio Coelho dos. A integração do índio na sociedade regional: a
função dos postos indígenas em Santa Catarina. Florianópolis: Ed. UFSC,
1970.
MARTINS, José de Souza. Fronteira: A degradação do outro nos confins
do humano. São Paulo: Hucitec, 1997.
ZIENTARA, Benedikt. Fronteira. Enciclopédia Einauldi: Estado e
Guerra. Lisboa: Imprensa Nacional; Casa da Moeda, 1989, v. 14.

80
Uma análise sobre a ideia de ocupação
do solo na obra do “pai da história” de
Passo Fundo

Palavras-chave: Passo Fundo. Ocupação. Historiografia.

Diego José Baccin1

Introdução
Esta comunicação foca sua argumentação em uma exposi-
ção temática que busca demonstrar o que a historiografia local
construiu enquanto ideia que se fossilizou na memória histórica
regional acerca do processo de ocupação do espaço e formação
do território de Passo Fundo.
Reconheço que em cada área do conhecimento existem al-
guns cânones de importância, singularidade e deferência ines-
timável, por suas contribuições. Para a história de Passo Fundo,
Francisco Antonino Xavier e Oliveira é um desses, consagrou-se
como sendo o “Pai da história” local. Foi madrinheiro de tro-
pas (indivíduo que segue montado na madrinha “égua”, para
conduzir a marcha da tropa) que eram vendidos na Feira de So-

1  Doutorando no Programa de Pós-Graduação em História na Universidade de


Passo Fundo (UPF), membro do Núcleo de Estudos Históricos do Mundo Rural
(NEHMuR), Bolsista CAPES I. E-mail: 51222@upf.br

81
rocaba, atuou em Passo Fundo na atividade comercial, advoca-
cia, docência, foi jornalista e exerceu algumas funções públicas,
como membro do Conselho Municipal, Promotor Público da Co-
marca, Escrivão de Órfãos, Recenseador, Secretário da Intendên-
cia, Intendente.
Foi responsável pela elaboração do primeiro Código de
Postura Municipal de Passo Fundo, foi responsável pela revisão
da Lei Orgânica do Município. Desempenhou a presidência de
diversas instituições ou entidades, participou da campanha em
prol da construção do Hospital de Caridade, até pouco tempo
Hospital da Cidade, hoje Hospital das Clínicas e foi membro da
maçonaria. Reconheço que estes parágrafos não fazem jus a de-
ferência de suas realizações públicas, e estes não informam como
este passou a ser o “Pai da História” de Passo Fundo.
Do conjunto de sua obra, o que comecei a observar e o que
particularmente me despertava interesse era uma certa racionali-
dade discursiva que envolvia a ocupação do espaço que se trans-
formaria em território passofundense associado a seu processo
de povoamento e decorrente urbanização. Comecei a acreditar
que aquela racionalidade discursiva, aquela narrativa havia se
cristalizado, fossilizado com tamanho vigor, tendo como refe-
rência discursiva essencial, o entendimento produzido por An-
tonino nas primeiras décadas do século XX.
A partir de lembranças de artigos de jornais comemorativos
ao aniversário do município de Passo Fundo, passei a acreditar
que a semelhança na argumentação sobre estes eventos eram co-
nexas. Com uma investigação mais adequada e ampliando o ní-
vel serial da documentação consultada, foi possível observar que
esta referência discursiva se misturava a sua deferência pública,
que retroalimentava a pujança de sua obra historiográfica.
O que examinei nesta comunicação, foi justamente esta ade-

82
são a obra de Antonino e a sua racionalidade discursiva acerca
dos eventos que demarcam a ocupação e povoação do espaço e
do território passofundense a partir de alguns níveis compreen-
sivos. O primeiro, a exposição compreensiva deste processo a
partir da obra historiográfica de Antonino Xavier, o segundo é a
percepção de seu discurso na obra de outros autores e como isso
reverbera em fontes documentais, percebendo como a autorida-
de de seu discurso perfaz o substancial argumentativo dos tra-
balhos acadêmicos realizados em programas de pós-graduação.
Antonino alude que o povoamento do território pela raça
branca acontece em princípios de 1827 depois de atenuado o pe-
rigo com a chegada do primeiro morador civilizado na região
que foi o alferes (antigo posto militar equivalente a um 2º tenen-
te) Rodrigo Felix Martins, que se estabeleceu junto ao rio Jacui-
zinho, não muito longo da estação de Pinheiro Marcado (hoje
distrito do Município de Carazinho). Depois chegariam outros,
Alexandre da Motta, Bernardo Paes e Manoel José das Neves,
domiciliando-se na Estância Nova, no Pessegueiro e no local que
seria a cidade de Passo Fundo (OLIVEIRA, 1990. p. 74-75).
Afirma o autor que 1827 é o ano trágico do Combate do Pas-
so do Rosário ou de Ituzaingo, como amigos platinos denomi-
naram o evento. É também o ano em que o alferes Rodrigo Felix
Martins ergue uma vasta estancia de seu estabelecimento, obtida
em 1824 por concessão do Comando da Fronteira de São Borja,
que era naquele tempo a autoridade a quem pertencia a distri-
buição dos campos devolutos desta região das Missões (OLIVEI-
RA, 1990. p. 197).
Para Antonino Xavier, Joaquim Fagundes dos Reis foi o ver-
dadeiro fundador da Vila, porque partir desde, em 1832, com
o apoio de outros moradores, houve a solicitação da licença da
autoridade eclesiástica para a criação da capela da povoação. Diz

83
que este já estava domiciliado em 1828, homem austero de for-
ça moral e dispondo de um cultivo muito lisonjeiro para época,
logo lhe atribuíram prestigio e transformaram em patriarca das
nascentes população passofundense. (OLIVEIRA, 1990. p. 89).
A autor reitera este prestígio ao recuperar a memória de
um acontecimento ocorrido durante a Revolução Farroupilha,
à expressão que o republicano, Fagundes dos Reis, apensar de
não se envolver na luta, foi preso, por ordem do Capitão Manoel
José das Neves, e remetido a fortaleza de Villegaignon, no Rio
de Janeiro. Regressou ainda no período revolucionário, dando
extraordinário exemplo de magnanimidade, intercedendo em
favor do Capitão e o salvando na ocasião em que era prisioneiro
e foi levando a presentão de Fagundes para que o julgasse. (OLI-
VEIRA, 1990. p. 90).
Sobre o Cabo Neves, Antonino Xavier, afirma este ser assim
conhecido, devido sua graduação, na Campanha de 1827 pele-
jada com platinos. Considera que sua posse foi autorizada, sem
dúvida, pelo Comando da Fronteira de São Borja, e os campos
circunjacentes de seu domínio abrangiam os Campos do Valinho
e parte do Pinheiro Torto, estendendo-se até o Vale dos Antu-
nes e o Arroio do Moinho. (OLIVEIRA, 1990. p. 202) (OLIVEIRA,
1990. p. 255).
Relata que em 1830, o posseiro Neves e a sua esposa doaram
para ereção de uma capela sob a invocação de Nossa Senhora da
Conceição Aparecida, que assim ficou sendo a padroeira da lo-
calidade, certa extensão de terreno, doação esse, conforme Anto-
nino, ter sido verbal, pois não existia escritura que comprovasse.
(OLIVEIRA, 1990. p. 255).
A partir de uma narrativa oral, que Antonino atribui ao
Velho Chico Preto, há o relato que Neves intencionado esten-
der suas possessões, se dirige até a Estância Nova, onde havia

84
um encarregado de informar as petições relativas a concessões
de campos. Chegando lá é interpelado sobre a necessidade de
mais terras, relata-se que em um gesto eloquente Neves retirará
o chapéu e aponta para uma cicatriz na cabeça dissera: foi ganho
no Passo do Rosário, em defesa de Sua Majestade, o Imperador.
Afirmando que diante da eloquência do argumento o primiti-
vo possuidor do campo, que se desenvolvera a cidade de Passo
Fundo, expandiu suas posses (OLIVEIRA, 1990. p. 203).
Com notoriedade, outros pesquisadores da história passo-
fundense endossaram o discurso historiográfico de Antonino.
Entre eles, Delma Rosendo Gehm, ela foi membra da Academia
Passofundense de Letras, do Instituto Histórico de Passo Fun-
do, Secretaria de Educação do município, possuiu atuação desde
entidades a partidos políticos. Sua atuação como historiadora a
consagrou principalmente em relação a sua trilogia Passo Fundo
Através do Tempo, obra considerada indispensável para os estu-
dos e pesquisas que enfocam a história da região passofundense.
Acredito que diante da narrativa que descreveu o proces-
so de ocupação do território passofundense se fossilizou uma
racionalidade discursiva que produziu uma territorialidade da
ocupação. O que pretendo afirmar é que houve uma construção
historiográfica sobre o processo de ocupação do território con-
sagrou-se em consciência histórica na forma de memória, que
demarcou uma territorialidade, entendido como relações que
perpassam a formação social, o espaço e o tempo.
Esta racionalidade narrativa compreendeu o processo de
ocupação do território passofundense e transformou-se em refe-
rência de boa parte dos estudos que de alguma forma abordam
esta temática. O que temos são as mais variadas paráfrase que
descreve narrativamente de forma diversa o mesmo processo
histórico, que em síntese, retornam as narrativas de Antonino

85
Xavier.
É possível admitir que a data de 1827/1828 é marcadamente
recorrente nos estudos sobre a ocupação do espaço territorial da
região que se transformaria de núcleo de povoamento a cidade
de Passo Fundo. Fidélis Dalcin Barbosa em Prisioneiros do cam-
po: a epopéia dos trigais de Passo Fundo, considera que os primei-
ros povoadores, entre eles Manoel José das Neves, que obterá
do Comando da Fronteira de São Borja quatro léguas quadradas
de terras, e que em 1830, realizou doação de meio légua para a
fundação de uma povoado, com respectiva capela. (BARBOSA,
1977. p. 10)
Welci Nascimento em Vultos da história de Passo Fundo traba-
lha com a data de 1827, em que considera que o ocupante inicial
do Planalto Médio que formaria o núcleo populacional que daria
origem a Passo Fundo é Manoel José das Neves. Em sua narrati-
va relata que este chegou com sua família e pertences, trazendo
uma carta passada pelo Comando Militar de São Borja, em que
recebia uma concessão de terras pelos serviços prestados ao Im-
pério, uma gleba de terra localizada na região norte da província
de São Pedro do Rio Grande do Sul, esta se estendia das bar-
rancas do rio Passo Fundo, até as imediações do Pinheiro Torto
(NASCIMENTO, 1995. p. 12).
Para Aldomar Rückert analisa a formação da sociedade se-
nhorial e da grande propriedade fundiária entre a conjuntura
que vai de 1827 até o fim da Primeira República na década de
1930 em sua obra A trajetória da terra: ocupação e colonização do cen-
tro-norte do Rio Grande do Sul. Manoel José das Neves é descrito
como o Capitão de Milícias que entre 1827 ou 1828 obtém quatro
léguas quadradas de campo, local que corresponde hoje a cidade
de Passo Fundo e arredores, processo de apossamento em que
trouxe sua família, escravos e gado fundando uma fazenda pas-

86
toril e agrícola (RÜCKERT, 1997. p. 59-60)
Na obra A contribuição e a importância das corretes imigratórias
no desenvolvimento de Passo Fundo de Santo Claudino Verzeletti a
data de 1827 é também representativa. Ela demarca o início do
povoamento do território pela raça branca, os moradores civi-
lizados, que formariam um núcleo que daria origem a cidade a
partir de Manoel José das Neves e outros paulistas que se estabe-
lecem na região (VERZELETTI, 1999. p. 17).
Em 29 de janeiro, de 1927, o jornal A Federação publicava
uma reportagem sobre a comemoração do centenário de Passo
Fundo. A reportagem cita que a historicidade do municipal pode
ser conhecida a partir da análise do trabalho de Francisco Anto-
nino Xavier e Oliveira. Afirmando que em princípios de 1827,
chegou ao território o primeiro morador civilizado, que foi o al-
feres Rodrigues Felix Martins, estabelecendo junto ao rio Jacuhy-
sinho, perto da atual estação de Pinheiro Marcado.
Depois, chegaram Alexandre da Motta e Bernardo Paz, do-
miciliando-se na Estância Nova e no Pessegueiro, sendo que em
fins do mesmo ano, ou princípios do seguinte, Manoel José das
Neves e outros formaram no local da futura cidade um pequeno
núcleo que foi a origem da mesma. Seis anos depois da chega-
da do primeiro morador civilizado, em 1833, o território consti-
tuía o 4º quarteirão do município de São Borja e seu inspetor era
Joaquim Fagundes dos Reis, e seus moradores eram na maioria,
paulistas da Comarca de Curitiba, mais tarde província e hoje
Estado do Paraná.
Na década de 1950 o Instituto Brasileiro de Geografia e Es-
tatística publica a Enciclopédia dos Municípios Brasileiros, os
volumes 33 e 34 são respectivos aos municípios do Rio Grande
do Sul. Sobre Passo Fundo se exprimia que a partir de 1827, da
província de São Paulo, luso-brasileiros vieram a se estabelecer

87
nestas paragens, atraídos pelos campos devolutas existentes na
época. Discorre que o primeiro morador efetivo do município
foi o alferes Rodrigo Felix Martins, que se radicou, em 1827, nas
proximidades da atual estação de Pinheiro Marcado. Logo de-
pois chegaram outros, como Alexandre da Motta, Bernardo Paz
e Manoel José das Neves, sendo este o primeiro morador efetivo
da atual cidade de Passo Fundo.
No jornal Diário de Notícias, em 25 de dezembro de 1966, se
afirmava que a ida sempre constante de tropas a região que se si-
tua atualmente Passo Fundo, despertou o interesse de militares.
Considera que o primeiro a obter terras neste local, foi o capitão
de milícias Manoel José das Neves, e em 1833 faziam ele, com
sua mulher doação de meia légua quadrada para a construção de
uma capela e fundação do povoado.
A mesma reportagem alude que desde 1827 residia na re-
gião o alferes Rodrigo Felix Martins, paulistas, que se tornou o
maior proprietário de terras, que abrangiam desde Passo Fundo,
junto a cidade, até Carazinho e Não-Me-Toque. Finaliza sua re-
trospectiva destacando o personagem que nomeou como sendo
o “Patriarca de Passo Fundo, Joaquim Fagundes dos Reis, atri-
buindo a este o início do povoado de Passo Fundo sob a invo-
cação de Nossa da Conceição Aparecida do Passo Fundo, com a
construção da capela.
O Histórico Informativo Comercial de Passo Fundo em 07
de agosto de 1965 e o Jornal Correio Riograndense de 19 de de-
zembro de 1970, reproduzem semelhante argumentação ao tra-
tarem do assunto da ocupação do espaço e território passofun-
dense. No primeiro, se considera que foi em 1827 que começou
efetivamente o povoamento, com a vinda do Capitão de milícias
Manoel José das Neves que obterá quatro léguas quadradas de
terras para seu uso, no local onde hoje é a cidade de Passo Fun-

88
do, se estabelecendo com a família, escravos e gado. O segundo,
afirma que o primeiro morador civilizado a fixar residência foi
Manoel da Silva Pereira do Lago, em 1826, mas considera que
residência definitiva foi mesmo Manoel José das Neves, seguido
de Joaquim Fagundes dos Reis, o qual edificou a capela, o “Pa-
triarca de Passo Fundo”.
Da década de 1990 o Grupo Pró-memória de Passo Fundo,
com a apoio do jornal O Nacional e da Secretaria Municipal de
Turismo Cultura e Desporto (SETUR) editavam o anuário Passo
Fundo conta sua História. Na edição de 1994 em relação a algu-
mas datas históricas, 1828 era referenciada como sendo o início
do povoamento de Passo Fundo, a partir da vinda do Cabo de
milícias Manoel José das Neves, que servira na Campanha da
Cisplatina e adquire por concessão do Comando da Fronteira de
São Borja, o terreno que hoje é a Praça Tamandaré e adjacentes,
e ali se estabelece com alguns coprovincianos, formando um pe-
queno núcleo de moradores do qual dá origem a cidade de Passo
Fundo.

Considerações Finais
A questão essencial que esta comunicação buscou discutir,
não é propriamente, um deslegitimar, negando a importância
que Antonino Xavier possui como referência historiográfica in-
questionável sobre a historicidade do município de Passo Fundo
e região. Ela intenciona, demonstrar que diante da obra desde
autor, ocorre um processo de racionalidade discursiva da his-
toricidade regional que se fossiliza e reverbera em outras fontes
discursivas que produzem conhecimento histórico.
Sejam eles trabalhos, acadêmicos, de historiadores não pro-

89
fissionais, de memorialistas, de cunho jornalístico. Ou seja, com-
preendo que independentemente na natureza do trabalho histó-
rico desenvolvido, há uma relativa, homogeneidade do discurso
historiográfico local, principalmente, no que se refere a questão
da ocupação do espaço na formação do território regional, diante
da apropriação do solo ocorrida no início do século XIX.
O que pretendia registar é que a obra de Antonino Xavier,
deve ser pensada como um estudo histórico desenvolvido no
início do século XX, sob a influencia de um olhar historiográfi-
co deveras positivista, focado na figura de grandes personagens
históricos. Ainda, é preciso pensar a obra de Antonino, como
sendo, um olhar, de uma perspectiva, como membro de um gru-
po social, que faz uma analise sobre o passado, sobre a influên-
cias desses aspectos contingências.

Referências
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Riograndense. Caxias do Sul, Ano 61, nº 49, p. 18, 12 a 19 de dez 1970.
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Porto Alegre, Ano XLII, nº 247, 3º caderno, p. 7. 25 de dez 1966.

90
GRUPO PRÓ-MEMÓRIA. Passo Fundo Conta a sua história: Passo Fundo
1857-1994 138 anos. Prefeitura de Passo Fundo, Secretaria Municipal de
Turismo Cultura e Desporto, nº 2, 11. 02 de ago 1994.
HISTÓRICO INFORMATIVO COMERCIAL. Passo Fundo 108 anos:
álbum comemorativo ao aniversário do Município. Ano 1, nº 1, p. 7. 07
agosto 1965.
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91
Políticas Públicas para a
agricultura familiar:
a trajetória do Programa Nacional de Alimentação Escolar
(PNAE) em Passo Fundo/RS

Palavras-chave: Agricultura familiar. Alimentação escolar. Políticas


públicas.

Indaia Dias Lopes1


David Basso2

Introdução
No tocante a políticas de alimentação voltadas para o públi-
co escolar, o Brasil possui o Programa Nacional de Alimentação
Escolar – PNAE. O governo brasileiro, ao implementar a Lei nº
11.947/2009, a qual em seu artigo 14 dispõe que, no mínimo 30%
dos recursos advindos do Fundo Nacional de Desenvolvimen-
to da Educação (FNDE), no âmbito do PNAE, sejam investidos
em produtos da agricultura familiar e do empreendedor familiar

1  Doutoranda do Programa de Pós-graduação em História da Universidade de Passo


Fundo (PPGH/UPF); Bolsista PROSUC/Capes. Email: indaia_lopes@yahoo.
com.br.
2  Doutor em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade pela Universidade Federal
Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Professor do Programa de Pós-Graduação em
Desenvolvimento Regional na Universidade Regional do Noroeste do Estado do
Rio Grande do Sul (PPGDR/UNIJUI). Email: davidbasso@unijui.edu.br.

93
rural, priorizou a alimentação escolar por meio de uma política
pública voltada para o desenvolvimento de agricultores familia-
res, oportunizando um percentual mínimo de compra de seus
produtos em relação ao total adquirido para a alimentação esco-
lar (FNDE, 2016).
Neste contexto, o objetivo deste trabalho é compreender, a
partir da Lei nº 11.947/2009, como ocorreu o processo de inser-
ção dos agricultores familiares enquanto fornecedores para as
escolas estaduais e municipais de Passo Fundo, município locali-
zado no norte do estado do Rio Grande do Sul (RS).
Este trabalho está organizado em quatro seções, a contar por
esta introdução. A seção dois apresenta os aspectos metodológi-
cos empregados neste estudo. Na terceira seção discute-se a par-
ticipação dos agricultores familiares no PNAE nas escolas pú-
blicas de Passo Fundo. Por fim, segue-se as considerações finais.

Metodologia
O estudo é resultado de uma pesquisa explicativa, em ra-
zão de que busca identificar quais os elementos auxiliam para
os fenômenos acontecerem (GIL, 2016), envolvendo pesquisa de
campo, considerado principal meio para compreender o objeto
de estudo e encontrar explicações para responder aos objetivos
propostos. Quanto à abordagem dos dados, trata-se de uma pes-
quisa qualitativa.
O recorte temporal deste estudo é de 2009 a 2017 e insere-se
na perspectiva da História do Tempo Presente, visto que trata de
um fenômeno contemporâneo (DELGADO; FERREIRA, 2013).
Foram utilizadas fontes orais, com entrevistas realizadas junto
a 68 indivíduos envolvidos direta e indiretamente com o PNAE

94
em Passo Fundo. Também foram utilizadas fontes documentais,
legislações, Chamadas Públicas3 realizadas pelas escolas esta-
duais e municipais, além de livros e artigos.

Resultados e discussão
O setor educacional público de Passo Fundo é composto
por 39 escolas estaduais e 70 escolas municipais. As escolas esta-
duais estão sob responsabilidade da 7ª Coordenadoria Regional
de Educação (CRE) do RS e as escolas municipais estão subordi-
nadas à Secretaria Municipal de Educação de Passo Fundo. Esti-
ma-se que sejam atendidos diariamente em Passo Fundo aproxi-
madamente 33 mil alunos pelo PNAE (FNDE, 2017). Esta seção
divide-se em duas partes, as quais têm como objetivo discorrer
sobre o processo de inserção dos agricultores familiares enquan-
to fornecedores para escolas das redes estadual e municipal no
âmbito do PNAE em Passo Fundo.

O PNAE nas escolas estaduais de Passo Fundo


O setor educacional estadual de Passo Fundo é composto
por 39 escolas, com aproximadamente 16 mil alunos (FNDE,
2017). Com relação à forma de operacionalização do PNAE exe-
cutada em todas as escolas estaduais de Passo Fundo, as mesmas
realizam a modalidade escolarizada, ou seja, cada escola é res-

3  Nas compras da agricultura familiar para o PNAE é permitida a dispensa


do processo licitatório tradicional (Lei nº 8666/1993) e as compras podem ser
realizadas por meio do instrumento de compra denominado Chamada Pública,
desde que atendidos os preceitos constitucionais de legalidade, impessoalidade,
moralidade, publicidade e eficiência e os preços estejam em conformidade com
os preços médios praticados no mercado local (AMARAL, 2016).

95
ponsável pela execução deste Programa.
Os recursos para a compra da alimentação escolar são re-
passados pelo FNDE, em dez parcelas mensais (fevereiro a no-
vembro), para a Secretaria de Educação, a qual os repassa inte-
gralmente, também em dez parcelas, para as direções das escolas
(SEDUC-RS, 2017). Em Passo Fundo cada escola estadual possui
um Caixa Escolar ou Associações de Pais e Mestres (APM), res-
ponsáveis pelo recebimento dos recursos financeiros transferi-
dos pela Secretaria de Educação, bem como pela prestação de
contas à mesma.
A articulação entre os atores locais da alimentação escolar
com os fornecedores da agricultura familiar em Passo Fundo teve
início em 2013, tendo o envolvimento da 7ª CRE, da Emater/RS e
das cooperativas da agricultura familiar, dentre outros. Até o se-
gundo semestre de 2014 a gestão das aquisições de alimentos da
agricultura familiar para as escolas estaduais de Passo Fundo era
descentralizada, onde cada escola fazia as suas compras indivi-
dualmente. Este processo realizado a partir de cada escola gera-
va dificuldades para os diferentes atores envolvidos na gestão do
Programa. Por parte das cooperativas que forneciam produtos
para as escolas inexistia conhecimento da demanda total; pelo
lado das escolas existiam dificuldades em mapear os fornecedo-
res e os produtos, resultando no não atendimento do percentual
mínimo disposto na Lei nº 11.947/2009.
No tocante ao mercado institucional da alimentação escolar
não existia no município de Passo Fundo uma aproximação en-
tre a Assistência Técnica e Extensão Rural e Social (ATERS), coo-
perativas e escolas até o ano de 2013. As escolas reclamavam de
irregularidade e falta de pontualidade na entrega dos alimentos
pelos fornecedores da agricultura familiar, não existiam fornece-
dores locais, somente de municípios próximos e também havia

96
problema nas embalagens e acondicionamento dos alimentos
adquiridos.
Os problemas existentes apontavam para a necessidade de
construção de estratégias de enfrentamento das barreiras na ope-
racionalização do PNAE. De acordo com Pauli, Schulz e Zajonz
(2016), as entidades articuladoras devem desempenhar o papel
de intermediar a negociação entre os agricultores e a escolas.
Para Belik (2016), inúmeros problemas ocorrem no atendi-
mento das demandas da alimentação escolar no Brasil, dentre
os quais: ausência de agricultores familiares próximos das áreas
metropolitanas, logística, documentação e certificação exigida,
dificuldades que os produtores isolados e também as coopera-
tivas possuem em operar sistemas de distribuição para atender
os municípios grandes. Para o referido autor, deve-se levar em
consideração que a maioria dos agricultores trabalha com ali-
mentos frescos e fazer entrega ponto a ponto, conforme é exigido
na maioria das Chamadas Públicas, é uma das dificuldades en-
frentadas por estes fornecedores.
A Emater/RS, representada pela Unidade de Cooperati-
vismo4 (UCP) de Erechim-RS, teve sua inserção no processo de
compras da agricultura familiar para o PNAE em Passo Fundo,
através de recursos do Ministério do Desenvolvimento Agrário
(MDA) por meio de duas Chamadas Públicas de Ater em Coope-
rativismo. Esta iniciativa possibilitou a construção de estratégias

4  Desde o ano de 2011, a Emater/RS possui sete Unidades de Cooperativismo (UCP)


no RS, as quais foram implementadas pelo Programa de Apoio ao Desenvolvimento
do Cooperativismo Gaúcho. A UCP da Emater de Erechim atua em 72 municípios
nas regiões administrativas de Erechim e Passo Fundo, no RS, buscando melhorias
técnico-gerenciais para cooperativas, contemplando agricultores familiares associados
(ALBRECHT et al., 2015). Evidencia-se as atividades desenvolvidas pela UCP junto
aos empreendimentos da agricultura familiar no mercado institucional do Programa
de Aquisição de Alimentos (PAA) e no PNAE, que é objeto de investigação deste
estudo

97
para enfrentar as dificuldades existentes no âmbito local. O obje-
tivo deste projeto de cooperativismo empreendido pela Emater
era qualificar a gestão e possibilitar o acesso das cooperativas da
agricultura familiar no mercado da alimentação escolar (ALBRE-
CHT et al., 2015).
Conforme o relato do extensionista da UCP da Emater, no
primeiro semestre de 2014 foi realizado um evento no município
de Ijuí/RS, no qual foi divulgado para todas as CREs a possibi-
lidade da realização de Chamadas Públicas Unificadas, utilizan-
do-se da Secretaria de Estado da Educação do Rio Grande do Sul
(SEDUC-RS) como Entidade Executora5 (EEx), tendo em vista
que alguns municípios possuem um elevado número de escolas
estaduais e o processo de compras de produtos da agricultura
familiar envolve uma complexidade operacional.
Tendo em vista esta possibilidade, a UCP da Emater de Ere-
chim realizou esforços no intuito de construir estratégias para
aproximar os diferentes atores sociais envolvidos com o PNAE
na rede escolar estadual de Passo Fundo para implementar a
Chamada Pública Unificada a partir do segundo semestre de
2014.
A partir das entrevistas realizadas com os diferentes atores
envolvidos nesta experiência: UCP da Emater, 7ª CRE, escolas
e cooperativas de agricultores familiares, identificou-se que a
UCP desempenhou o papel de articulador desta metodologia,
buscando organizar a comercialização da alimentação escolar
nas escolas estaduais, de modo a atender o disposto na Lei nº
11.947/2009. A atuação da Emater foi primordial em todo o pro-
cesso de Chamada Pública Unificada, possibilitando aos atores

5  As EExs incluem os estados e o Distrito Federal, os municípios e as escolas federais


de educação básica. As EExs por meio do recebimento dos recursos executam o
PNAE em suas respectivas redes escolares, utilizando-se das formas operacionais
previstas na legislação em vigor.

98
sociais envolvidos o entendimento da legislação a respeito da
alimentação escolar e oportunizando a construção de uma me-
todologia capaz de alcançar melhores resultados. Sobre a im-
portância da atuação da ATER para os mercados institucionais
no Brasil, Niederle (2017) destaca que, em geral, a constituição
destes novos mercados é resultado do esforço de uma rede de
atores, com especial destaque para o papel desempenhado pelos
extensionistas rurais.
As escolas estaduais de Passo Fundo participaram das Cha-
madas Públicas Unificadas para compras da alimentação escolar
via 7ª CRE até o primeiro semestre de 2016. A partir do segundo
semestre de 2016, o Governo do Estado do RS voltou a adotar
a escolarização como forma de operacionalização do PNAE em
sua rede estadual, modalidade em que a responsabilidade pelas
compras e a administração da alimentação escolar passa a ser
das escolas, por meio da Unidade Executora (UEx6).
Nas escolas estaduais de Passo Fundo, a fragmentação das
compras a partir de cada escola, com o retorno para a modalida-
de de Chamada Pública individualizada por UEx, faz com que
as compras de produtos da agricultura familiar envolvam direta-
mente apenas dois atores: os compradores e os fornecedores. As
39 escolas negociam a aquisição de alimentos, de forma desarti-
culada, com os fornecedores (agricultores familiares) organiza-
dos em torno de algumas poucas cooperativas. Isso torna mais
difícil consolidar um processo de interação social, fragilizando
a possibilidade de se alcançar melhores resultados na execução
do PNAE.

6  Entidade privada formalmente constituída e sem fins lucrativos, representativa


da comunidade escolar (Caixa Escolar, Associação de Pais e Mestres ou similar),
responsável pelo recebimento dos recursos financeiros transferidos pela Entidade
Executora, bem como pela prestação de contas à mesma (FNDE, 2013).

99
O PNAE nas escolas municipais de Passo Fundo
A gestão do PNAE nas escolas municipais de Passo Fundo
é centralizada na Prefeitura Municipal (EEx), por meio da Secre-
taria Municipal de Educação (SMEd), representada pela Coorde-
nadoria de Nutrição Escolar (CNE). Esta modalidade de gestão
do PNAE é conhecida como centralizada ou municipalizada,
onde as compras são centralizadas no município, neste caso na
CNE, que elabora os cardápios, de acordo com a capacidade de
oferta de produtos regionais, faz as chamadas públicas e executa
as compras para todas as escolas da rede municipal.
A rede escolar municipal de Passo Fundo possui 78 esco-
las, sendo 35 Escolas Municipais de Educação Infantil (EMEI), 35
Escolas Municipais de Ensino Fundamental (EMEF), e oito esco-
las filantrópicas, com aproximadamente 17 mil alunos (FNDE,
2017).
As compras para a alimentação escolar são realizadas
pela CNE em duas modalidades: a) Pregão eletrônico (Lei nº
8666/1993) para itens de supermercados locais, e b) Chamada
Pública para itens de agricultores familiares. Destaca-se que os
mecanismos de regulação dos mercados institucionais se dão por
contratos públicos e regidos por legislação específica, no caso do
PNAE a Lei nº 11.947/2009, o que limita a sua agilidade, porém,
possibilita um maior controle para o gestor público (SCHNEI-
DER, 2016).
Quando a Lei nº 11.947/2009 passou a vigorar não existia
ainda fornecedores da agricultura familiar organizados no mu-
nicípio de Passo Fundo para abastecer a alimentação escolar.
Dessa forma, a CNE precisou identificar se no município havia
agricultores familiares individuais ou organizados em coopera-
tivas que pudessem suprir este mercado.

100
Para que fosse possível construir um diálogo com fornece-
dores da agricultura familiar, visando qualificar a alimentação
escolar e cumprir o disposto no artigo 14 da Lei nº 11.947/2009,
foi necessário criar relações e parcerias com duas importantes
instituições. Primeira, a UCP da Emater de Erechim, que atua
com as Cooperativas de agricultores familiares auxiliando na
documentação, legislação, alvará sanitário, na organização de
produção, dentre outras atividades. Segunda, o Escritório muni-
cipal da Emater de Passo Fundo, que atua junto aos agricultores
familiares, realizando oficinas, tais como: para formação de pre-
ços para os produtos, preparação de bolachas, instruções sobre a
elaboração de embalagens, dentre outras necessidades.
Com a participação da UCP da Emater de Erechim, a partir
de 2013, da mesma maneira em que esta instituição começou a
atuar na comercialização do PNAE na rede estadual, foi desen-
volvido um trabalho de sensibilização e motivação entre os atores
sociais envolvidos com a alimentação escolar na rede municipal
para adquirir produtos de agricultores familiares. Os principais
atores sociais envolvidos foram: o secretário de educação muni-
cipal, as nutricionistas da SMEd, merendeiras das escolas que
atuam no programa, a Emater, o Conselho de Alimentação Esco-
lar (CAE), o Conselho Municipal de Segurança Alimentar (Com-
sea) e cooperativas de agricultores familiares, dentre outros.
Realizou-se reuniões de articulação entre os representantes
dos referidos órgãos com vistas a buscar mútuos entendimentos
acerca da legislação, a fim de construir um diálogo entre esses
diferentes atores envolvidos direta ou indiretamente com a ali-
mentação escolar, identificando as dificuldades existentes tanto
do lado da oferta quanto da demanda e criando estratégias para
superar os problemas e aprimorar o processo de comercialização
neste mercado institucional. Nesse sentido, Abramovay (2004, p.

101
47-48) destaca que:

O desenvolvimento dos mercados supõe formas localiza-


das, concretas de cooperação para as quais as ciências
sociais contemporâneas voltam de maneira crescente seus
estudos. Sob essa ótica, são muito mais que a soma cega
e inconsciente de interesses privados, cujos protagonistas
reúnem produzindo uma ordem que ninguém previu e so-
bre a qual ninguém tem controle. Eles envolvem algumas
formas voluntárias de cooperação sem as quais nunca po-
deriam funcionar.

Quando iniciado este trabalho de aproximação entre a Ema-


ter e a CNE, no ano de 2013, havia quatro organizações da agri-
cultura familiar, fornecendo alimentos para a rede municipal.
Ao final de 2015, contava com 11 organizações, resultando na
inclusão de novas cooperativas da agricultura familiar, oportu-
nizando o acesso ao mercado por atores sociais até então excluí-
dos e também, possibilitando ofertar uma maior diversidade de
produtos.
Destaca-se que, de forma geral, os fornecedores da agricul-
tura familiar para a rede municipal são os mesmos que na rede
estadual, com a exceção de algumas escolas estaduais que com-
pram direto de agricultores familiares que não estão ligados a
cooperativas e que possuem propriedades próximas as escolas.

Considerações finais
Este trabalho teve como objetivo compreender como ocor-
reu a inserção dos agricultores familiares enquanto fornecedores
no mercado institucional de alimentação escolar em Passo Fun-
do.
A inserção e organização do agricultor familiar como for-
necedor do PNAE neste município aconteceu a partir de 2013,

102
proveniente de uma provocação de um ente externo, a UCP da
Emater de Erechim. Deste período em diante a dinâmica da ope-
racionalização do PNAE nas escolas públicas foi alterada com a
participação de diferentes atores sociais, tendo a Emater como
principal articulador.
Os resultados deste estudo indicam que existe espaço para
ampliar a participação da agricultura familiar enquanto forne-
cedor para o mercado institucional da alimentação escolar nesse
município. No caso das escolas estaduais, as compras deveriam
continuar centralizadas na 7ª CRE. Isso facilitaria e potencializa-
ria uma maior organização dos agricultores familiares e de suas
organizações cooperativas. A gestão centralizada na Prefeitura
Municipal permite que sejam construídas relações de confian-
ça entre os atores sociais envolvidos na operacionalização do
PNAE.
Conclui-se que a realização das Chamadas Públicas centra-
lizadas na 7ª CRE qualificaram o processo de inclusão de agri-
cultores familiares como fornecedores do PNAE nas escolas
estaduais de Passo Fundo, facilitando a execução do programa
para as escolas, ampliando a participação da agricultura familiar
regional. No comparativo das duas modalidades de gestão do
PNAE executadas nas escolas públicas de Passo Fundo perce-
be-se a gestão centralizada na Prefeitura Municipal como mais
preparada para operacionalizar o PNAE, permitindo o alcance
de melhores resultados.

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