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COMANDO DA AERONÁUTICA
ESCOLA DE ENSINO FUNDAMENTAL E MÉDIO TENENTE RÊGO BARROS
PROFESSORA HELOISA MARIA PAES DE SOUZA
DISCIPLINA: HISTÓRIA DO BRASIL
ALUNO (A): ______________________________________________________ Nº__
3º ANO/ENSINO MÉDIO TURMA: A______ BELÉM, ____/____/ 2020

Crônica publicada no jornal Gazeta de Notícias, em 19 de maio de 1888


Por Machado de Assis

Bons dias!
Eu pertenço a uma família de profetas après coup, post factum, depois do gato morto, ou
como melhor nome tenha em holandês. Por isso digo, e juro se necessário for, que toda a história
desta lei de 13 de maio estava por mim prevista, tanto que na segunda-feira, antes mesmo dos
debates, tratei de alforriar um molecote que tinha, pessoa de seus dezoito anos, mais ou menos.
Alforriá-lo era nada; entendi que, perdido por mil, perdido por mil e quinhentos, e dei um jantar.
Neste jantar, a que meus amigos deram o nome de banquete, em falta de outro melhor,
reuni umas cinco pessoas, conquanto as notícias dissessem trinta e três (anos de Cristo), no intuito
de lhe dar um aspecto simbólico.
No golpe do meio (coup du milieu, mas eu prefiro falar a minha língua), levantei-me eu
com a taça de champanha e declarei que acompanhando as idéias pregadas por Cristo, há dezoito
séculos, restituía a liberdade ao meu escravo Pancrácio; que entendia que a nação inteira devia
acompanhar as mesmas idéias e imitar o meu exemplo; finalmente, que a liberdade era um dom
de Deus, que os homens não podiam roubar sem pecado.
Pancrácio, que estava à espreita, entrou na sala, como um furacão, e veio abraçar-me os
pés. Um dos meus amigos (creio que é ainda meu sobrinho) pegou de outra taça, e pediu à ilustre
assembléia que correspondesse ao ato que acabava de publicar, brindando ao primeiro dos
cariocas. Ouvi cabisbaixo; fiz outro discurso agradecendo, e entreguei a carta ao molecote. Todos
os lenços comovidos apanharam as lágrimas de admiração. Caí na cadeira e não vi mais nada. De
noite, recebi muitos cartões. Creio que estão pintando o meu retrato, e suponho que a óleo.
No dia seguinte, chamei o Pancrácio e disse-lhe com rara franqueza:
– Tu és livre, podes ir para onde quiseres. Aqui tens casa amiga, já conhecida e tens mais
um ordenado, um ordenado que…
– Oh! meu senhô! fico.
– …Um ordenado pequeno, mas que há de crescer. Tudo cresce neste mundo; tu cresceste
imensamente. Quando nasceste, eras um pirralho dêste tamanho; hoje estás mais alto que eu.
Deixa ver; olha, és mais alto quatro dedos…
– Artura não qué dizê nada, não, senhô…
– Pequeno ordenado, repito, uns seis mil-réis; mas é de grão em grão que a galinha enche
o seu papo. Tu vales muito mais que uma galinha.
– Justamente. Pois seis mil-réis. No fim de um ano, se andares bem, conta com oito. Oito
ou sete.
Pancrácio aceitou tudo; aceitou até um peteleco que lhe dei no dia seguinte, por me não
escovar bem as botas; efeitos da liberdade. Mas eu expliquei-lhe que o peteleco, sendo um
impulso natural, não podia anular o direito civil adquirido por um título que lhe dei. Êle
continuava livre, eu de mau humor; eram dois estados naturais, quase divinos.
Tudo compreendeu o meu bom Pancrácio; daí pra cá, tenho-lhe despedido alguns
pontapés, um ou outro puxão de orelhas, e chamo-lhe bêsta quando lhe não chamo filho do diabo;
cousas tôdas que êle recebe humildemente, e (Deus me perdoe!) creio que até alegre.
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O meu plano está feito; quero ser deputado, e, na circular que mandarei aos meus
eleitores, direi que, antes, muito antes da abolição legal, já eu, em casa, na modéstia da família,
libertava um escravo, ato que comoveu a tôda a gente que dêle teve notícia; que êsse escravo
tendo aprendido a ler, escrever e contar, (simples suposições) é então professor de filosofia no
Rio das Cobras; que os homens puros, grandes e verdadeiramente políticos, não são os que
obedecem à lei, mas os que se antecipam a ela, dizendo ao escravo: és livre, antes que o digam os
poderes públicos, sempre retardatários, trôpegos e incapazes de restaurar a justiça na terra, para
satisfação do céu.

Boas noites.

Responda às seguintes perguntas:

a) Qual é a atitude do narrador em relação a Pancrácio?


b) O narrador pode ser considerado um defensor do abolicionismo? Por quais motivos decidiu
alforriar Pancrário?
c) Como Pancrácio reage à alforria que recebe?
d) A relação entre narrador e Pancrácio mudou após a alforria?
e) Como você caracteriza a atitude do narrador perante Pancrácio e sua disposição de entrar na
política?

O caso da tabuleta

Ao acordar de manhã não soube logo do que houvera na cidade, mas pouco a pouco
vieram vindo as notícias, viu passar um batalhão, e creu que lhe diziam a verdade os que
afirmavam a revolução e vagamente a república. À princípio, no meio do espanto, esqueceu a
tabuleta. Quando se lembrou dela, viu que era preciso sustar a pintura. Escreveu às pressas um
bilhete e mandou um caixeiro ao pintor. O bilhete dizia só isto: “Pare no D”.
Quando o portador voltou trouxe a notícia de que a tabuleta estava pronta.
- Você viu-a pronta?
- Vi, patrão.
- Tinha escrito o nome antigo?
- Tinha, sim, senhor. “Confeitaria do Império”.
Custódio enfiou um casaco de alpaca e voou `rua da Assembleia. Lá estava a tabuleta,
por sinal que coberta com um pedaço de chita; alguns rapazes que a tinham visto, ao passar na
rua, quiseram rasga-la; o pintor, depois de a defender com boas palavras, achou mais eficaz cobri-
la. Levantada a cortina, Custódio leu: “Confeitaria do Império”. Era o nome antigo, o próprio, o
célebre, mas era a destruição agora; não podia conservar um dia a tabuleta, ainda que fosse em
beco escuro, quanto mais na rua do Catete...
- O senhor vai despintar tudo isso, disse ele.
- Não entendo. Quer dizer que o senhor paga primeiro a despesa. Depois, pinto outra
coisa.
- Mas que perde o senhor em substituir a última palavra por outra? À primeira pode ficar,
e mesmo o d... Não leu o bilhete?
- Chegou tarde.
- E por que pintou, depois de tão graves acontecimentos?
- O senhor tinha pressa, e eu acordei às cinco e meia para servi-lo. Quando me deram as
notícias, a tabuleta estava pronta. Não me disse que queria pendurá-la domingo? Tive de pôr
muito secante na tinta, e, além da tinta, gastei tempo e trabalho.
Custódio quis repudiar a obra, mas o pintor ameaçou de pôr o número da confeitaria e o
nome do dono na tabuleta, e expô-la assim, para que os revolucionários lhe fossem quebrar as
vidraças do Catete. Não teve remédio senão capitular. Que esperasse; ia pensar na substituição;
em todo caso, pedia algum abate no preço. Alcançou a promessa do abate e voltou a casa. Em
caminho, pensou no que perdia mudando de título, - uma casa tão conhecida, desde anos e anos!
Diabos levassem a revolução! Que nome lhe daria agora?
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ASSIS, Machado de. Esaú e Jacó. São Paulo: Ática, 1975, p. 90-91.

a) Após a leitura do texto, faça um pequeno resumo das dificuldades enfrentadas por Custódio
e de suas principais preocupações.
b) Responda às perguntas:
 Custódio é monarquista ou republicano? O texto traz elementos para que conheçamos suas
posições políticas?
 Qual é a representação da proclamação da República presente no texto?