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As Bases Bíblicas para o Batismo Infantil — Dwight Hervey Small

Copyright © 2014, Os Puritanos


Traduzido do título em espanhol: Las bases bíblicas para el bautismo de los infantes
1. a Edição digital: Outubro de 2014
É proibida a reprodução total ou parcial desta publicação sem autorização por escrito
do editor, exceto citações em resenhas.
Tradutor: Valter Graciano Martins
Revisor: Waldemir Magalhães
Editor: Manoel Canuto
Designer: Heraldo Almeida
www.os-puritanos.com
SUMÁRIO
Capa

Créditos

PARTE I — As Crianças no Pacto Divino


I - OS DECRETOS DIVINOS E OS PACTOS DIVINOS
1. O pacto da redenção no seio da Trindade
2. O pacto das obras imposto ao homem na criação
3. O pacto da graça é imposto ao homem em sua queda
4. O desenvolvimento do pacto no Antigo Testamento
5. Desenvolvimento do pacto no Novo Testamento
II - PROVISÃO PARA OS FILHOS DOS CRENTES NO PACTO DA GRAÇA
1. O pacto edênico
2. O pacto estabelecido com Abraão
3. A dispensação mosaica
4. Provisão neotestamentária
III - A PATERNIDADE COMO VEÍCULO DO PECADO E DA GRAÇA
1. A família criada por Deus e maculada pelo pecado
2. A família restaurada pela graça
3. A lição extraída da figura da Páscoa
4. O poder da paternidade piedosa
IV - A IGREJA COMO A COMUNIDADE PACTUAL DE DEUS
1. Uma só igreja ao longo de todas as dispensações
2. Uma igreja oriunda de um pacto de graça
3. Resposta do homem às promessas pactuais de Deus
4. O pacto proclamado aos convertidos e a seus herdeiros
V - A NATUREZA E O LUGAR DOS SACRAMENTOS
1. Um sacramento como um sinal
2. Um sacramento como selo
3. Um sacramento como um meio de graça
4. Os sacramentos de ambos os Testamentos comparados
VI - OS SACRAMENTOS DA CIRCUNCISÃO E DO BATISMO COMPARADOS
1. Natureza e lugar da Circuncisão
2. Analogia entre a Circuncisão e o Batismo
3. Significados correspondentes da Circuncisão e do Batismo
4. Requerimentos do pacto para os adultos conversos
VII - FÉ E PRÁTICA DO PACTO NEOTESTAMENTÁRIO
1. O lugar que Jesus destinou às crianças
2. Silêncio do Novo Testamento sobre o Batismo das crianças
3. Casos registrados de Batismo de famílias inteiras
4. A referência singular de Paulo às crianças no pacto
5. O testemunho dos pais da igreja primitiva
VIII - CAPACIDADE DAS CRIANÇAS DE RECEBER A GRAÇA SALVÍFICA
1. Sua participação na graça salvífica.
2. Acrescentam-se responsabilidades às crianças no seio do pacto
IX - ASPECTOS PRÁTICOS PARA A IGREJA E O PASTOR
1. A celebração do Batismo
• SUMÁRIO

PARTE II — Significado e Forma do Batismo


X - O BATISMO SOB A LEI E OS PROFETAS
1. O Batismo sob a lei levítica
2. Necessidade de água viva
XI - JOÃO BATISTA E JESUS
1. João como arauto e batizador
2. O método do Batismo de João
3. Os rolos do Mar Morto
4. O Batismo de Jesus realizado por João
5. O Batismo ministrado por Jesus
XII - DETERMINAÇÃO DA FORMA CRISTÃ DO BATISMO
1. Determinando o significado do verbo grego baptizo.
2. Declaração geral da grande comissão
3. Um princípio de linguagem
4. Uso figurado da palavra nos clássicos
5. Luzes advindas da versão Septuaginta
XIII - A EXTENSÃO DA TEOLOGIA NEOTESTAMENTÁRIA
1. Exposição de Romanos 6.1-11
2. O Batismo espiritual e o Espírito Santo
3. A obra de Batismo do Espírito Santo nos Atos dos Apóstolos
4. O evangelho destinado aos gentios
5. A obra de Batismo do Espírito em 1 Coríntios 12.13
6. O ministério selador do Espírito Santo
XIV - PURIFICAÇÃO ESPIRITUAL
O ESPÍRITO E O SANGUE DE CRISTO
1. A água como um símbolo do Espírito Santo
2. O Batismo espiritual e o sangue de Cristo
XV - CASOS DE BATISMO CRISTÃO NO NOVO TESTAMENTO
1. Indícios de aspersão nos casos registrados
2. A relação das preposições com a interpretação
3. Uma concessão que não é concessão
XVI - DIVERSIDADE DE FORMAS ENTRE AS IGREJAS
• TESTEMUNHO CONTRADITÓRIO DA ARTE CRISTÃ PRIMITIVA
• PRECOCE NECESSIDADE DE REFORMA
• ASPERGIR A CABEÇA OU IMERGIR O CORPO?
• SUMÁRIO

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PARTE I

As Crianças no Pacto Divino


Capítulo 1
OS DECRETOS DIVINOS
E OS PACTOS DIVINOS

O Batismo é um sacramento da igreja de nosso Senhor Jesus Cristo. Nesse


aspecto, ele é um sacramento do pacto da graça, e com frequência se faz
alusão a ele como um sinal e um selo desse pacto. A redenção do ser humano
é planejada e executada por Deus sob a forma de um pacto eterno de sua
graça com o homem. Teologicamente, o pacto é em si o fundamento sobre o
qual a doutrina da salvação está fundada. Não existe, independentemente do
pacto que Deus fez na eternidade e impôs ao homem, um plano de redenção.
O pacto é o plano de Deus e a garantia do cumprimento da redenção do
pecador. O Batismo, propriamente dito, é o rito público que serve para
assinalar e selar a redenção, já que esta é o cumprimento do pacto divino. O
que segue poderá servir como definição preliminar: “O Batismo é um
sacramento do pacto da graça e é ministrado aos que estão na comunidade do
pacto, chamada ‘a igreja’.” Veremos que alguns pertencem à comunidade do
pacto como crentes adultos, que já foram redimidos pela graça mediante a fé,
e que alguns pertencem a essa mesma comunidade ainda na idade infantil,
filhos dos crentes, mas que já são herdeiros, por direito, das promessas
pactuais.
A igreja é uma comunidade de pessoas redimidas e de seus filhos. Os
crentes são mais que meros indivíduos; são também membros desta
comunidade: a igreja. Esta é uma comunidade pactual. Nessa qualidade, ela é
responsável pelo culto; pela instrução da Palavra de Deus; pela ministração
dos sacramentos; e pela evangelização da sociedade na qual está inserida.
Portanto, a igreja é mais que um conglomerado de seres humanos; ela é uma
comunidade. Ela é uma unidade chamada “o Corpo de Cristo”. Os crentes são
membros uns dos outros e, juntamente, membros de Cristo. Ela é, portanto,
um organismo vivo. Há nela solidariedade como uma unidade, do mesmo
modo como há na família como uma unidade. Se existe uma compreensão
correta do pacto promulgado por Deus, então é indispensável que a natureza
desta unidade bem como o lugar que os sacramentos ocupam não sejam
ignorados.
O pacto teve seu início na eternidade, no seio da Deidade eterna. A
comunidade pactual, a igreja, teve início com a vocação de Abraão. A partir do
tempo de Abraão, Deus sempre manteve uma comunidade pactual sobre a
terra. A seguinte declaração pode ser uma definição correta de igreja: Uma
comunidade pactual, composta de indivíduos crentes em Deus, portando
todos eles o sinal e o selo do pacto. Veremos ainda que a unidade do pacto, a
partir de Abraão, representa a unidade da igreja neotestamentária desde
Abraão. Naturalmente, a igreja neotestamentária é diferente, em muitos
aspectos, da comunidade pactual dos crentes da antiga dispensação. Não
obstante, ela é uma igreja. É por este mesmo pacto, estabelecido com Abraão,
que os crentes são salvos hoje. Abraão é o pai de todos os que creem.
Este pacto foi estabelecido na eternidade entre as Pessoas da Trindade.
Durante a criação, ele foi imposto ao homem no Éden, na forma de um pacto
de obras. O homem tinha que obedecer às condições pactuais, justamente
como lhe foram impostas, e então Deus cumpriu fielmente seu compromisso
pactual de conceder bênção. O homem transgrediu o mandamento divino,
violando assim os termos pactuais e perdendo legalmente o direito às
promessas divinas. Ele poderia ter sido julgado imediatamente, perdendo sua
própria vida como castigo por haver violado os termos pactuais. Deus, porém,
o perdoou e lhe deu uma promessa de redenção gratuita. O que encontramos
em Gênesis 3.15 constitui a primeira declaração desta promessa de redenção.
Mas somente nos dias de Abraão é que Deus estabeleceu formalmente a
relação pactual, chamando-o e dando-lhe o pacto da promessa, igualmente,
para ele e para sua posteridade, em caráter definitivo, estabelecendo uma
forma pela qual o pacto pudesse ser ratificado pelo homem. O sinal e selo da
ratificação do pacto foi a Circuncisão. E este sinal e selo tinha de ser recebido
não só por Abraão, o crente, mas também por seus filhos recém-nascidos,
como herdeiros legítimos das promessas do pacto.
Daí, a Circuncisão não foi um preceito da Lei de Moisés. Ela foi dada a
Abraão quatrocentos anos antes de Moisés. Jesus mesmo afirmou isto.
Abraão foi constituído a cabeça federal de uma comunidade pactual. E quando
a família de Abraão cresceu até formar as doze tribos, as promessas pactuais
foram renovadas. Quando essas tribos formaram a nação de Israel, Deus a
separou dos demais povos da terra e a constituiu o povo de sua aliança sobre a
terra. Junto com os sacrifícios, o sacerdócio e as oferendas, a ministração das
ordenanças sacramentais ocupava um lugar central no culto de Israel. Estas
ordenanças sacramentais representam o fato fundamental de que eles eram
um povo comprometido, separado de todos os demais povos. O sinal e o selo
da Circuncisão, impostos aos filhos recém-nascidos, os constituiu em
herdeiros legítimos das promessas pactuais e membros legítimos da
congregação de Israel, gozando de todos os privilégios da congregação.
Possuíam o privilégio pessoal dos meios de graça.
As ordenanças sacramentais são ritos cerimoniais decretados por Deus
para representar relações espirituais. Por ora podemos definir um sacramento
de forma simples nos seguintes termos: “Um sacramento é uma ordenança
santa instituída por Deus para sua comunidade pactual, a igreja, mediante
sinais visíveis que representam e certificam os benefícios do pacto da graça
que Deus fez com o homem, cumprido pela morte expiatória de Cristo e
efetivado para todos os que creem.” Esta definição será ampliada e explicada à
medida que seguirmos em frente.
No período veterotestamentário havia duas ordenanças sacramentais
particularmente importantes: a Circuncisão e a Páscoa.
Correspondentemente, no período neotestamentário há duas ordenanças
sacramentais: Batismo e Ceia do Senhor. Estas ordenanças sacramentais do
período neotestamentário correspondem às duas ordenanças sacramentais do
período veterotestamentário, sucedendo-as e substituindo-as.
Uma ordenança sacramental de cada período indica o ingresso de um
indivíduo na relação do pacto, e assim se fala desse ato como uma “iniciação”.
A outra ordenança sacramental de cada período é celebrada por pessoas do
pacto para comemorar continuamente atos redentores de Deus, e lemos a
respeito dela como sendo um ato “comemorativo”. A ordenança sacramental
celebrada uma vez por cada pessoa para assinalar seu ingresso na relação
pactual foi a Circuncisão, no período veterotestamentário, e o Batismo, no
período neotestamentário. Percebe-se com toda clareza que a redenção, o
pacto da graça, a igreja e as ordenanças sacramentais estão todos
estreitamente unidos e devem ser estudados em suas relações essenciais.
Nestas primeiras páginas, usamos de uma forma muito extensa o termo
“pacto” e continuaremos usando-o sempre. O pacto de relação entre Deus e o
homem é central para qualquer teologia precisa da igreja e dos sacramentos.
O termo “pacto” é a tradução comum do termo hebraico berith, e o
encontramos cerca de trezentas vezes no Antigo Testamento. No Novo
Testamento, encontramos o termo grego diatheke umas trinta vezes. Algumas
versões o traduzem por “testamento”, enquanto outras o traduzem por
“pacto”.
A derivação de berith é incerta, mas provavelmente vem do sentido radical
que significa “atar”. Certamente é nesse sentido que é usado. Um pacto, pois,
é uma ligadura que cria novas relações, antes inexistentes, entre duas partes.
Muitos estudiosos consideram berith como sendo um pacto bilateral com
obrigações recíprocas. No entanto, uma promessa unilateral pode ser um
berith em função da sanção divina. A característica preponderante de um
berith, em qualquer caso, é sua imutabilidade; é algo que não está sujeito a
anulação. Consistentemente, por todo o Antigo Testamento, Jeová é o nome
de Deus para o pacto, e consequentemente o nome associado com seus atos
redentivos.
Em seu uso no Antigo Testamento, um berith entre Deus e o homem é
sempre um pacto em que Deus toma a iniciativa para seu estabelecimento.
Um berith, portanto, é uma ordenança divina imposta ao homem, com sinais
e compromisso da parte de Deus, e com promessas de obediência a seus
termos da parte do homem, e castigo pela desobediência.
O pacto da graça é o ato fundamental de todos os tratos de Deus com o
homem depois da queda. Ele descreve a esfera da atividade de revelação e
redenção divinas na história. A ideia geral era que Deus se aproximava de seu
povo eleito pela graça não só revelando plenamente o que ele resolvera fazer,
mas também se obrigando, ele mesmo, por meio de uma promessa pactual.
No pacto, Deus concretiza sua boa vontade em unir seu povo eleito a si e em
dar-se a eles como seu Deus.
Para compreender o pacto como a boa vontade de Deus para com seu povo
eleito, é preciso buscar sua origem na eternidade passada. Então veremos em
que formas e sob que condições ele se perpetuou na história humana. O pacto
de redenção está associado com os decretos de Deus muito antes de criar o
mundo e seu principal habitante, o homem.
1. O pacto da redenção no seio da Trindade
Através de seu conhecimento de todas as coisas, Deus, por meio de um ato de
sua sabedoria perfeita e de sua vontade, decidiu o que ele queria que viesse à
existência. Assim, ele formulou seus decretos eternos. Equivale simplesmente
a dizer (a) que Deus é Deus; (b) que ele é soberano e livre; (c) que ele tem um
plano; (d) que seu plano é eterno; (e) e que ele tem pleno poder para
concretizar seu plano. Este plano escolhido por ele redundará em sua própria
glória. Ele determinou, desde a eternidade, tudo o que há de acontecer, e ele
não pode ser impedido nem frustrado. Deus nunca teve um pensamento
atrasado, como se dá com os homens; ele nunca precisou alterar seus planos
ou propósitos. Efésios 1.11 nos informa que Deus “faz todas as coisas
conforme o conselho de sua vontade”. E essa vontade de Deus se concretiza,
antes de tudo, em seus decretos. Isto indica a base eterna de tudo quanto
Deus realiza no tempo.
No pacto divino, acordado pela Trindade na eternidade passada [em nossa
perspectiva], Deus decretou que ele teria um povo para desfrutar de sua
comunhão e glória. Este seria mais que um mero povo: seria um povo livre e
moralmente responsável; um povo passível de rebelar-se contra Deus; um
povo redimido da rebelião e do pecado, e exaltado pela graça soberana e livre
de Deus. Foi neste decreto que Deus estipulou a redenção do homem. Deus o
Pai estabeleceu o pacto com Deus o Filho e com Deus o Espírito Santo. Deus
o Filho aceitou ser o Mediador e Fiador do pacto, expiando os pecados do
povo eleito por seu próprio sacrifício. Deus o Espírito Santo, por sua vez,
aceitou ser o regenerador de todos os crentes, dando-lhes fé para que possam
receber o dom da graça de Deus. E assim cada um dos membros da Trindade
contraiu para si obrigações definidas dentro do pacto para cumprir o decreto
da redenção. O que pactuaram na eternidade passada [em nossa perspectiva]
se destinava a ser executado no tempo. O que anteriormente esteve na mente
do Deus Triúno, eternamente acordado entre os membros da Trindade, viria a
ser um processo efetivo na história do homem.
O fato de Deus ter um plano eterno pressupõe várias coisas. Em primeiro
lugar, pressupõe a seleção de um fim definido ou um propósito que há de se
cumprir infalivelmente. Em segundo lugar, pressupõe a eleição dos meios
apropriados para tal cumprimento. Em terceiro lugar, pressupõe a aplicação
efetiva e o controle desses meios para assegurar tal cumprimento.
A meta primordial dos propósitos de Deus é a manifestação de sua própria
sabedoria e glória. Para esse fim, ele criou o mundo e, especialmente, o
homem a sua própria imagem. Para esse fim, ele permitiu que o homem se
rebelasse e se tornasse culpado de pecado contra o Criador. Para esse fim, ele
elegeu, dentre todos os homens caídos, alguns para a vida eterna, deixando os
demais sujeitos à justa recompensa do pecado. Em Romanos 8, lemos que ele
predestinou, e a quem ele predestinou também chamou, justificou e
glorificou (Rm 8.29, 30). Que Deus decretou possuir um povo redimido,
lemos em passagens tais como Efésios 1.4-14; 2.7; 3.11; 2 Tessalonicenses
2.13; 2 Timóteo 1.9; 1 Pedro 1.2.
É verdade que a palavra pacto não se encontra em referência direta a este
princípio eterno do plano divino de redenção, mas todos os elementos de um
pacto estão presentes na Escritura: (a) partes contratantes, (b) uma promessa
e (c) uma condição. No Salmo 2.7-9, mencionam-se as partes. A certeza de que
este Salmo é messiânico está em Atos 13.33; Hebreus 1.5 e 5.5. Em outro
salmo profético, lemos do Messias expressando sua prontidão em fazer a
vontade do Pai, fazendo de si mesmo um sacrifício pelo pecado (Sl 40.7-9,
considerado messiânico em Hb 10.5-7).
Na disposição do pacto de redenção, as Pessoas da Trindade estipularam,
logicamente, uma divisão de tarefas. Deus o Pai foi o Idealizador; Deus o
Filho, o Executor; e Deus o Espírito Santo, o Aplicador. Presumivelmente,
isto só pode ser a consequência de um acordo voluntário ou concerto entre as
Pessoas da Trindade.
Com respeito à parte de Deus o Filho, notamos o seguinte: Cristo fala de
promessas feitas a ele antes de seu primeiro advento. Reiteradamente, ele faz
referência à comissão do Pai (Jo 5.30, 43; 6.38-40; 17.4-12). Ele fala da tarefa
que o Pai lhe confiara (Jo 10.18; 17.4; Lc 22.29). Nesta passagem supracitada
(Lc 22.29), Cristo declara: “Assim como o Pai me confiou um reino, eu vo-lo
confio.” A mera palavra confiou contém o sentido de “conforme os termos de
meu pacto”.
Lemos que Cristo é o Fiador do pacto – termo que só se encontra em
Hebreus 7.22. Ele é também chamado o Mediador do pacto. Um fiador é
responsável pelo cumprimento das obrigações legais. No pacto da redenção,
Cristo se comprometeu a oferecer a si próprio para satisfazer as demandas da
lei de Deus como Representante de seu povo. Desse modo ele se
comprometeu em expiar os pecados de seu povo, suportando em si mesmo o
castigo necessário. Ao assumir o lugar do homem pecador, ele se tornou o
segundo Adão, a cabeça federal do povo pactual sob o novo pacto. Então ele
veio a ser o Representante de todos aqueles que o Pai lhe dera para que
fossem redimidos por ele. Como o segundo Adão, Cristo obteve a vida eterna
para os pecadores em recompensa por sua própria obediência fiel. Então se
colocou a si próprio sob o pacto das obras, a fim de preencher seus requisitos
mediante uma vida de obediência perfeita. Assim ele se pôs na posição de
oferecer-se como Grande Sacrifício.
O Pai exigiu do Filho o que Adão não pôde cumprir. Isto envolve a
necessidade de o Filho de Deus assumir nossa humanidade. Ele fez isto
nascendo de mulher, assumindo as condições de nossa natureza humana,
exceto a pecaminosidade desta. Este fato pode ser notado claramente em
Gálatas 4.4, 5; Hebreus 2.10-15; 4.15. Era absolutamente essencial que ele
viesse a ser parte integrante da raça humana. Era necessário também que ele
entrasse em relação penal com a lei de Deus; que, em pagamento, sofresse o
castigo que o pecado merece, e assim merecesse a vida eterna para todos os
que o Pai lhe dera (Jo 6.37, 39, 40, 44).
As promessas do Pai ao Filho, neste pacto eterno de redenção, estabelecido
na eternidade passada [em nossa perspectiva], estavam em perfeita harmonia
com suas demandas. O Pai prometeu ao Filho tudo o que fosse necessário
para a execução de sua grande tarefa de redimir o homem, excluindo toda
incerteza no cumprimento do pacto eterno. Essas promessas do Pai ao Filho
incluíam o seguinte:
1.1. Que ele prepararia para o Filho um corpo isento de toda e qualquer
pecaminosidade (Hb 10.5).
1.2. Que dotaria o Filho com dons necessários para a realização de sua
tarefa, dando-lhe o Espírito sem medida (Is 42.1, 2; 61.1; Jo 3.34).
1.3. Que o sustentaria no cumprimento de sua santa tarefa, livrando-o do
poder da morte e assim o capacitando para destruir o domínio de Satanás e
para estabelecer o reino de Deus (Is 42.1-7; 49.8; Sl 16.8-11; Hb 2.25-28).
1.4. Que, como recompensa por sua obra concretizada, ele enviaria o
Espírito Santo para formar seu corpo espiritual sobre a terra, a igreja. Tenha-
se em mente quão importante é que Deus o Espírito Santo se comprometesse
de que tornaria eficaz a redenção em todos os eleitos de Deus! Não significa
que a redenção em geral fosse consumada pelo Filho só para deixar na
incerteza que alguns determinados pecadores realmente se beneficiassem por
crerem. Antes, Deus o Espírito Santo foi dado para assegurar que fará com
que sejam beneficiados. Ele guia os eleitos para que possam crer mediante a
fé. As Escrituras estabelecem claramente que Cristo verá as fadigas de sua
alma e ficará satisfeito (Is 53.11). É possível ver o ministério eficiente do
Espírito, no cumprimento deste propósito assinalado em João 14.26; 15.26;
16.13, 14; Atos 2.33. Note-se também a promessa de que o Filho seria dado a
uma multidão formada dentre todas as nações (Sl 22.27; 72.17; 2.8).
1.5. Que ele daria ao Filho todo poder, nos céus e na terra, para governar a
igreja no mundo inteiro, e que o Filho finalmente seria premiado como o
Mediador, e que se lhe daria a glória que outrora possuía junto do Pai, antes
que o mundo viesse à existência (Jo 17.5; Mt 28.18).
2. O pacto das obras imposto ao homem na criação
Em sua retidão original, antes que o pecado se introduzisse, Adão esteve em
relações de aliança com Deus. Na relação natural entre o Criador e a criatura,
Deus era o soberano absoluto. Ele estabeleceu os termos na relação, e esses
termos compreendiam o acordo entre ele mesmo e o homem. Este pacto
original de obras era um passo intermediário necessário no cumprimento do
propósito divino maior, o pacto de redenção por sua graça. O pacto de obras
foi feito sob a condição de obediência pessoal à vontade de Deus, e não
requeria nenhum mediador. O homem, em sua retidão original, estava isento
de toda pretensão de mérito pessoal. Como criatura, ele tinha a obrigação de
satisfazer a vontade de seu Criador. Foi para esse fim que o homem foi criado.
Ver isto equivale a compreender, de uma vez, que cada bênção concedida ao
homem fora, desde o princípio, um ato da graça de Deus. Este não pode ser
obrigado por nenhuma de suas criaturas. O homem, por guardar os
mandamentos divinos, de maneira alguma pode impor a Deus alguma
obrigação. Nem a observância à lei de Deus concederia ao homem algum
direito a recompensa. Cada uma e todas as bênçãos concedidas ao homem
seriam o dom da graça livre e soberana de Deus.
Os fatos bíblicos indicam que Deus, de maneira benévola, entrou em pacto
com o homem, a despeito de a palavra pacto não se achar nos três capítulos
do Gênesis. Estes três capítulos contêm todos os dados necessários para se
estabelecer uma doutrina das relações de entendimento entre Deus e o
homem com sua retidão original. Mencionam-se as seguintes partes: (a) uma
condição imposta ao homem de obediência responsável; (b) uma promessa
implícita de recompensa por sua obediência; (c) uma ameaça de castigo caso
houvesse transgressão.
À transgressão seguiria a morte, dando a entender que a vida contínua, a
comunhão perfeita com Deus e a perfeição de santidade teriam que seguir à
obediência. Adão era imortal no sentido de não estar sujeito à lei da morte.
Ele foi criado em seu estado de santidade e retidão, porém impedido no início
de seu desenvolvimento e ainda não posto fora da possibilidade de transgredir
as condições do pacto, e, portanto, atraindo sobre si a morte. Ainda não estava
na posse do mais elevado grau de santidade, nem desfrutava da vida em toda a
sua plenitude de bênção divina. A imagem de Deus se limitava pela
possibilidade de que o homem assumisse a soberania num ato de vontade
independente, tentando assim governar sua própria vida. A promessa de vida,
como se encontrava no pacto, incluía a remoção de todas as limitações a que
Adão ainda estava sujeito, e a elevação de sua vida ao mais alto grau de
perfeição em santidade e bênção.
Adão foi constituído representante da raça para que pudesse agir no lugar
de todos os seus descendentes. Foi-lhe imposta uma condição sob a qual
deveria viver, e assim foi submetido a uma prova. Isto determinaria se ele
sujeitaria ou não, de bom grado, sua vontade à vontade divina. Neste mesmo
pacto misericordioso, Adão adquiriria certos direitos em favor de toda a sua
posteridade. Esses direitos estavam condicionados à sua obediência perfeita.
Em outros termos, as bênçãos do pacto de Deus com toda a raça estavam
condicionadas à obediência da cabeça representativa da raça, o pai de todos.
Adão estava numa relação especial com Deus e, consequentemente, numa
relação especial com a sua posteridade.
Adão fracassou como cabeça representativa de cuja responsabilidade
dependia o destino da raça. Ele não cumpriu sua parte dos termos acordados.
Violou e anulou o pacto de obras ao preferir exercer uma vontade
independente. Adão se converteu numa criatura totalmente indigna, sujeita
tão somente ao juízo. Essa obstinação da parte do homem, a criatura, atingia a
Deus, o Criador. O pecado é essencialmente, por definição, separado do
Criador; algo muito pior que a indiferença para com os direitos soberanos de
Deus sobre o homem. O pecado é gerado quando a criatura age fora dos
termos de obediência, estabelecidos no pacto divino.
A maior consequência do pecado de Adão consistiu no fato que, tendo sido
posto na posição de cabeça representativa da raça, a culpa pelo seu pecado foi
posta sobre sua posteridade. Com absoluta certeza, Paulo, em Romanos 5.18,
19, ensina que a culpa de Adão foi transferida para sua raça. Todos os homens
se encontram na mesma relação em que esteve Adão com respeito a Deus, em
virtude do princípio da imputação. As Escrituras expõem claramente que este
princípio foi estabelecido por Deus. O pecado de Adão é imputado a sua
posteridade. Aqui vem à tona o outro lado da condição do pacto, que prometia
bênção à posteridade de Adão como resultado da obediência. Em virtude da
culpa de Adão, todo o gênero humano é culpado diante de Deus, condenado
pela transgressão de Adão. Reflitamos: o homem é condenado pelo pacto! Foi
por meio de um pacto divino que o homem encontrou uma ocasião para pecar
contra Deus e incorrer na condenação divina. Contra tal possibilidade se
estabelece a gloriosa alternativa de que por meio de outro pacto o homem
encontrará oportunidade para sua restauração e bênção. O fim último pode
ser, pois, a mais elevada bênção possível: a bênção de uma relação redentiva
com Deus.
3. O pacto da graça é imposto ao homem em sua queda
Deus, em sua onisciência e onipotência, fez provisão contra a queda do
homem. Esta provisão, por si só, deve ser considerada como um decreto
divino. Deus sabia perfeitamente que somente o fato de estabelecer seus
decretos eternos ocasionaria, necessariamente, a possibilidade de o homem
fazer uso de sua liberdade, com que fora dotado, a fim de violar os termos do
pacto, e por esse meio anulá-lo. Incluso em seus decretos eternos estava o
decreto de redimir o homem. Compreendemos este decreto, já funcionando
no tempo, ao seguir a queda do homem, sob a designação de “o pacto da
graça”. Este pacto de graça expressa a condescendência voluntária de Deus
para com o homem. É o pacto de redenção feito com Cristo e com todos os
eleitos. Como este pacto de redenção é eficaz no tempo, nos referiremos a ele
simplesmente com a designação de “o pacto da graça”. Pode-se assinalar
seguramente que este pacto é também um testamento, uma vez que em Cristo
se lega herança eterna aos eleitos.
É importante considerar o plano de Deus da perspectiva de seu propósito
de manifestar-se a si mesmo no universo criado. Em última instância, a glória
de Deus tinha de manifestar-se através da exposição de todos os seus
atributos divinos. Deus será apresentado a todos na plenitude de cada
atributo da natureza divina. Um atributo de Deus, provavelmente o mais
elevado dos já revelados ao homem, é o amor. O amor divino se manifestará
em sua mais ampla extensão. A revelação desse amor, em sua dimensão
divina, se nos apresenta nas Escrituras nos termos misericórdia e graça. O
amor é misericórdia quando se dá aos que não têm amor e que são indignos.
O amor é graça quando se dá livremente, sem outra causa além de Deus
mesmo. Só se pode encontrar plenamente a razão do amor de Deus para com
os pecadores no próprio Deus.
Aqui está o amor que sofre; o amor que se consome por si mesmo; o amor
que leva a mais profunda ferida por causa do ente amado, ainda quando essa
ferida seja produzida pelo ente amado. Aqui está o amor que a si mesmo se
sacrifica e que assumirá todo o castigo acumulado sobre o homem, a fim de
remover o obstáculo que o priva da bênção divina, pois de outra forma ele
continuaria sob a maldição divina. O amor, em sua dimensão divina, se
expressa como misericórdia e graça infinitas, apresentadas em total
autossacrifício e estendidas sobre seu objeto como uma bênção infindável.
De algum modo, diante desse mistério, Deus permitiu o pecado na raça
humana para que houvesse ocasião para manifestar seu amor, como
misericórdia e graça. A ocasião decretada para mostrar ao homem sua
necessidade dessa misericórdia e graça encontrava-se no pacto das obras. Este
foi um pacto imposto ao homem no Éden, que retrospectivamente se vê como
uma fase intermediária na preparação do eterno pacto de redenção divina.
Somente aqueles que transgrediram o pacto de obras e se tornaram pecadores
culpados necessitam do ato misericordioso do amor redentivo de Deus.
Somente os pecadores são objetos de redenção pelo amor que a si mesmo se
sacrifica. Somente aqueles, sem nenhum possível mérito pessoal, que de fato
são indignos, podem ser objetos da misericórdia e graça divinas.
Não importa como o vejamos, de alguma forma Deus permitiu o pecado
(nos atreveríamos a dizer “pecado desejado”?!) na raça humana para que se
propiciasse a ocasião para mostrar seu amor infinito como misericórdia e
graça redentivas. A real maravilha é que Deus se propôs agir com graça em
prol do pecador, antes mesmo que o homem resolvesse pecar contra ele!
O pacto de obras, como se dá também com a dispensação da lei, seguia um
propósito necessário, que era dar um passo rumo à completude do propósito
da redenção divina. Ele dava oportunidade ao homem para que o mesmo
descobrisse sua necessidade de redenção divina, da mesma forma que a lei
servia para revelar a extrema iniquidade do pecado e para provar a toda a
posteridade de Adão, a todos os homens, sua culpabilidade diante de Deus e
por um direito pessoal. A culpa a ele imputada, procedente de Adão, o homem
adiciona seus próprios e deleitosos atos de transgressão.
O aspecto das obras, sob o qual o pacto divino foi imposto, antes de tudo, à
criatura humana responsável, deve dar um passo rumo ao aspecto da
atividade benévola de Deus na redenção. O pacto de obras manifestou a
magnitude da necessidade que o homem tem da misericórdia e da graça de
Deus. Além disso, ele revelou que o amor de Deus deve alcançar o homem,
não pelo que o homem é, mas a despeito disso! Podemos compreender que o
pacto de obras imposto ao homem no Éden não foi o pacto definitivo de Deus
para o homem. A mais elevada comunhão possível está entre uma pessoa
redimida e o grande Redentor. Todos os redimidos serão demonstrações,
através de toda a eternidade, da graça transformadora de Deus, para o eterno
assombro de todas as inteligências criadas. A pecaminosidade humana se
converterá em glória do homem em sua redenção, e virá a ser para a glória de
Deus na manifestação de seu atributo de amor, em sua maior amplitude. O
pacto de graça eleva o homem a um ponto que ele jamais poderia chegar pelas
suas próprias forças mediante o pacto de obras; mas pelo pacto de graça o
homem para sempre engrandecerá a poderosa e infinita graça de Deus.
Parece evidente, neste ponto, que o pacto de obras foi o primeiro passo
necessário no propósito de Deus para, finalmente, lidar com o homem sob o
pacto de graça. Todos os requisitos necessários que devem ser satisfeitos por
parte do homem, a fim de beneficiá-lo por meio de um pacto de graça, serão
satisfeitos pelo próprio Deus na Pessoa do Deus-Homem, Jesus Cristo.
O pacto de graça foi declarado a Adão, pela primeira vez, nas palavras de
promessa indicadas em Gênesis 3.15, chamadas de protoevangelho: “Porei
inimizade entre ti e a mulher, entre tua descendência e seu descendente. Este
te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar.” Às portas do Éden, Deus
prometeu a Adão um Redentor. O justo juízo de Deus ficou suspenso, e novas
condições foram impostas, por meio das quais o homem pudesse viver e
chegar a receber a graça redentiva.
Quando Deus o Filho veio à terra para cumprir sua parte do pacto eterno
de redenção, o primeiro requisito que ele teve de preencher foi o pacto de
obras. Tornando-se o Homem representativo, Cristo deveria fazer o que Adão
não foi capaz de fazer. Era necessário que ele cumprisse o pacto de obras por
meio de uma perfeita obediência à vontade de seu Pai celestial. Provado em
todas as formas durante os trinta anos que lhe deram maturidade; vivendo a
vida comum como Homem entre os homens, ele cumpriu a vontade de seu
Pai e assim conquistou o direito de ser o Fiador e o Mediador do pacto de
graça com o homem. Ele, que tinha o pleno direito como Deus o Filho, agora
também adquiriu o direito de Filho obediente para receber o castigo da raça
apóstata de Adão, e o suportou no sofrimento e na morte. Quão
apropriadamente ele é chamado, em 1 Coríntios 15.45, o “Segundo Adão”.
Não se deve presumir que o definitivo fracasso do homem, nem o
cumprimento do pacto de obras da parte de Cristo, anularam o requisito da
obediência do homem a Deus. O homem deve perene e perfeita obediência a
Deus. Mas, desde o momento em que Cristo, como Representante do
Homem, cumpriu o pacto de obras, este ficou invalidado pelo pacto de graça, e
é tão somente o pacto de graça que rege a boa acolhida do homem por Deus.
Já que o próprio Cristo satisfez as condições impostas ao homem, Deus é livre
para conceder ao homem toda bênção. A única condição imposta agora ao
homem é que ele reconheça sua extrema necessidade em razão do pecado, e
deposite toda a sua confiança no sacrifício expiatório do Salvador. Desta
maneira, Deus distingue entre os que se beneficiarão com o sacrifício de
Cristo e os que não receberão esse benefício. Com certeza, este é um pacto de
graça, pois Deus, com benevolência, permite que um Fiador cumpra nossas
obrigações, e Deus mesmo provê esse Fiador na Pessoa de seu próprio Filho!
Neste ponto devemos fazer uma distinção que servirá posteriormente para
esclarecer a diferença entre o eterno pacto de redenção, feito na eternidade
passada no seio da Deidade, e o pacto de graça, feito no tempo com o homem
pecador. Tenhamos em mente que o pacto de redenção foi trilateral. Ele se
estabeleceu no seio da Deidade quando as três Pessoas Divinas chegaram a
um acordo trilateral, assumindo cada uma um papel específico que
concordava juntamente no grande plano.
O pacto de graça segue e desenvolve o pacto eterno de redenção. Ele é
unilateral; sua instituição de forma alguma depende do homem. O que Deus
decretou fazer, ele mesmo se encarrega de fazê-lo. Ele se compromete para
com o homem numa garantia pactual. Ele é unilateral porque se origina
somente em Deus; suas condições e benefícios estão estabelecidos
unicamente em Deus, e impostos ao homem por Deus. A eleição divina
assegura o fato de que haverá certos beneficiários deste pacto de graça, e que
a redenção será efetuada pelo Espírito Santo nos eleitos. O que Deus quer
está assegurado pela eleição divina!
Afirmar, porém, que este pacto de graça é unilateral não significa que ele
seja incondicional. Deus impõe também ao indivíduo uma condição: esta deve
ser a resposta de um coração arrependido em face do pecado e a fé no
Salvador.
É provável que a ideia de um pacto unilateral, com uma condição imposta
de uma parte sobre a outra, seja mais bem compreendida vista por analogia,
ou, seja, os pais podem prover financeiramente para seu filho o
estabelecimento de uma disposição testamentária. No entanto, podem
estipular que o montante do depósito lhe seja outorgado unicamente sob a
condição de que a primeira quantia seja usada pela criança para assegurar sua
educação universitária. A criança pode perder seu direito ao depósito ante a
recusa de concorrer à universidade; está em seu direito fazer isso. Tal fato
pode inviabilizar o propósito da disposição testamentária; mas de modo
algum o cancelamento altera o propósito dos pais que assumiram a disposição
testamentária, nem lesa a boa fé do oferecimento inerente aos termos do
contrato. Note-se também que, até que o filho se recuse a satisfazer as
condições da disposição testamentária, presume-se que ele será o beneficiário
do contrato, e é tratado como se efetivamente assim o fosse.
Do mesmo modo, um herdeiro do pacto de graça pode renunciar seus
direitos pactuais, recusando arrepender-se do pecado e receber o Salvador. Ele
faz isso com toda a responsabilidade quando atinge a idade adulta. Agindo
dessa forma, ele anula o pacto no tocante a qualquer benefício que lhe era
destinado; mas com isso não altera a instituição do pacto de graça feita por
Deus. Como veremos, pode-se ver o aspecto prático disso na pretensão de que
as crianças, que são herdeiras dos pais crentes, têm que receber, como se pode
presumir, a graça oferecida e serão consideradas à luz desse fato.
4. O desenvolvimento do pacto no Antigo Testamento
Já notamos que a primeira promessa de redenção foi dada a Adão logo após a
queda (Gn 3.15). Esta promessa original foi de caráter geral. Foi ampliada e
confirmada reiteradamente aos patriarcas. De importância especial é a
confirmação do pacto com Noé. Esta forma primitiva de pacto não foi a base
para a formação, no mundo, de uma comunidade distintiva de pessoas que
criam, adoravam e testificavam. Antes do dilúvio, ocorrera uma separação
entre os filhos religiosos de Sete e os cananitas incrédulos. Não obstante, os
filhos de Sete não foram separados como uma comunidade distintiva do
pacto. A promessa pactual não se confinou a uma família ou a uma raça, e sim
conservou seu caráter geral e universal. Nesta circunstância, porém, a
promessa pactual corria o risco de desaparecer. À medida que a maldade se
fazia universal, Deus foi separando o Noé piedoso e sua família através do
juízo do dilúvio. Assim que o dilúvio passou, Deus prometeu nunca mais
voltar a julgar a terra daquela maneira. Ao contrário, mediante igual recusa
cada vez mais acirrada da crescente multidão do povo, Deus passou a separar
uma família e a chamou para manter a promessa pactual. Estava em vista a
formação de uma comunidade que aceitaria os termos do pacto. Essa mesma
comunidade pactual viria a ser uma nação que aceitaria os termos pactuais. É
interessante observar que, na forma neotestamentária da comunidade
pactual, o povo de Deus é chamado “raça eleita, sacerdócio real, nação santa e
povo de propriedade peculiar de Deus” (1Pe 2.9). É ainda interessante
observar também que, como no princípio a promessa pactual foi de caráter
universal, assim também em Cristo a promessa pactual volta a ser promessa
de caráter universal, visando a todo o gênero humano.
Deu-se um passo fundamental quando Deus chamou Abraão. Com ele se
estabeleceu na terra a comunidade pactual. Dele surgiria um povo eleito. Este
fato entra em cena pela primeira vez em Gênesis 15.1-18. Deus deu a Abraão
as condições para estabelecer essa comunidade pactual: uma igreja terrena
formada de um povo separado do mundo incrédulo que os rodeava, pela
redenção divina gratuita. Esta comunidade pactual, a família de Abraão, viria
a ser uma igreja que um dia abarcaria uma nação distinta.
As palavras tão importantes de Gênesis 17 declaram:
“Apareceu-lhe o Senhor e lhe disse: Eu sou o Deus Todo-Poderoso, anda em minha presença e sê
perfeito. Farei uma aliança entre mim e ti e te multiplicarei extraordinariamente. Prostrou-se Abrão,
rosto em terra, e Deus lhe falou: Quanto a mim será contigo minha aliança; serás pai de numerosas
nações. Teu nome já não será Abrão; porque te constituí por pai de numerosas nações. Far-te-ei
fecundo extraordinariamente, de ti farei nações, e reis procederão de ti. Estabelecerei minha aliança
entre mim e ti e tua descendência no decurso de suas gerações, aliança perpétua, para ser teu Deus e
de tua descendência. Dar-te-ei e a tua descendência a terra de tuas peregrinações, toda a terra de
Canaã, em possessão perpétua, e serei seu Deus. Disse mais Deus a Abraão: Guardarás minha
aliança, tu e tua descendência no decurso de suas gerações. Esta é minha aliança, que guardareis
entre mim e vós e tua descendência: todo macho entre vós será circuncidado. Circundareis a carne
de vosso prepúcio; será isso por sinal de aliança entre mim e vós. O que tem oito dias será
circuncidado entre vós, todo macho em vossas gerações, tanto o escravo nascido em casa como o
comprado a qualquer estrangeiro, que não for de tua estirpe. Com efeito será circuncidado o nascido
em tua casa e o comprado por teu dinheiro; minha aliança estará em vossa carne e será aliança
perpétua. O incircunciso, que não for circuncidado na carne do prepúcio, essa vida será eliminada de
seu povo; quebrou minha aliança” (Gn 17.1-14; cf. Gn 22.15-18).
Fizemos uma citação completa desta passagem com o intuito de mostrar
que mesmo os que entravam em pacto familiar, sendo de outra raça, tinham
de ser marcados pelo mesmo sinal pactual. Não se deve presumir que esta era
uma Circuncisão sem discriminação, concedida aos que não estavam dentro
dos privilégios pactuais. Pois mesmo os que eram comprados como escravos
tinham de ser introduzidos nos meios de graça, a fim de também poderem
crer e receber a graça redentiva de Deus. Esquadrinhar o registro bíblico
equivale a descobrir, desde o primeiro chamamento de Abraão e o
estabelecimento das relações pactuais, que as promessas pactuais se repetem
como pertinentes a ele e a sua posteridade. A última revelação registrada,
feita a Abraão, reitera as garantias que lhe foram dadas na primeira.
O estabelecimento da comunidade pactual com Abraão marcou o princípio
de uma igreja institucional, seja qual for a definição verdadeira de uma igreja.
Neste ponto da história da redenção, Deus deu vida à comunidade pactual e
fez de Abraão a cabeça federal dela. Deus prometeu que seria o Deus de
Abraão e de sua posteridade, nesta relação pactual, estabelecendo-a sobre
suas promessas invariáveis. Desde o tempo em que formou, pela primeira vez,
a comunidade pactual terrena com Abraão, Deus sempre teve uma igreja
sobre a terra, perpetuando assim as promessas pactuais por meio dessa igreja.
Nos tempos anteriores a Abraão havia o que se poderia chamar “a igreja
doméstica”, pois havia famílias nas quais a religião da fé pactual genuína
encontrou expressão. Como se poderia esperar, porém, as bênçãos espirituais
se fizeram muito mais patentes pelo estabelecimento da comunidade pactual
com Abraão. Progressivamente, ao longo da história do desenvolvimento do
povo pactual de Deus, há uma compreensão e aplicação mais completa. Mas,
devido ao fato de Abraão ser a primeira pessoa com quem Deus estabeleceu o
pacto em termos de uma comunidade pactual distinta, por direito ele foi
chamado “o pai de todos os crentes” (Rm 4.11).
Nos últimos livros do Antigo Testamento, e no Novo Testamento, há cerca
de cem referências ao pacto feito com Abraão. De todos os nomes do Antigo
Testamento, talvez com a única exceção de Moisés, o mais frequentemente
citado nos Evangelhos, em Atos e nas Epístolas é o de Abraão. Isso se explica
por seus feitos pessoais, pois Abraão não fundou nenhum reino; não escreveu
nenhuma porção das Escrituras; não existe dele nenhum pronunciamento
profético escrito. Não podemos explicar isso por seu caráter pessoal, nem
mesmo por sua fé. Mas foi com Abraão que Deus fez de seu pacto uma bênção
perpétua e abrangente, que seria exibida por uma comunidade terrena, uma
igreja difundida por toda a terra. Por exemplo, Pedro, em seu segundo sermão
após o Pentecostes, disse: “Vós sois os filhos dos profetas e da aliança que
Deus estabeleceu com vossos pais, dizendo a Abraão: Em tua descendência
serão abençoadas todas as nações da terra” (At 3.25). A igreja terrena de Deus
na terra se estabeleceu de forma visível quando a pequena sociedade de
crentes se reuniu, tendo por base a bondosa palavra de Deus e seu pacto, para
o culto e o testemunho. E em cada grande passo dado posteriormente no
desenvolvimento dos propósitos da graça de Deus para com os homens, há
alguma referência à revelação feita a Abraão. Em cada ponto importante da
história de Israel, há um novo ponto de apoio no pacto feito com Abraão.
À medida que a família de Abraão se desenvolvia nas doze tribos, o pacto
ia se confirmando. E quando as tribos formaram a nação de Israel, Deus as
separou de todas as nações da terra. Foi pela providência pactual de Deus que
a nação de Israel foi formada. Israel, como nação, veio a ser então o povo
eleito de Deus, constituindo assim seu reino terreno e sua igreja. Israel foi
uma teocracia, uma nação diretamente governada por Deus. Eles, de forma
recíproca, (a) haveriam de governar em nome de Deus; (b) guardariam seus
mandamentos; (c) manteriam seu culto; (d) e se constituiriam em suas
testemunhas no mundo. Como parte central de seu culto, Deus lhes designou
ordenanças, tanto sacramentais como não sacramentais. As ordenanças
sacramentais eram sinais e selos da relação pactual. A natureza dessas
ordenanças será estabelecida em termos mais plenos numa seção posterior.
Na dispensação mosaica, a igreja e o estado se identificavam. Ninguém
podia ser membro da igreja sem ser membro do estado. A nação outra coisa
não era senão a comunidade pactual. A marca que certificava a cada membro
masculino como integrante da nação era a mesma que o identificava como
membro da congregação pactual: a Circuncisão. Durante o governo de
Moisés, nomeavam-se anciãos que recebiam autoridade oficial em assuntos
de estado. Os sacrifícios, as festas e inclusive a Páscoa eram simultaneamente
promessas nacionais e religiosas. A igreja na nação foi especialmente criada
para manter vivo, de geração em geração, o conhecimento das promessas
redentivas de Deus. E o princípio relacional para a perpetuação do pacto se
transmitia através dos herdeiros das promessas pactuais: os filhos dos crentes
que levavam sobre si o sinal e selo do pacto.
Precisamente antes da entrega da lei e do princípio da dispensação
mosaica, Deus falou a Moisés como se acha registrado em Êxodo, capítulo 19.
Deus disse a Moisés no Sinai: “Agora, pois, se diligentemente ouvirdes minha
voz e guardardes minha aliança, então sereis minha propriedade peculiar
dentre todos os povos; porque toda a terra é minha; vós me sereis reino de
sacerdotes e nação santa” (Ex 19.5, 6). Arão era o sumo sacerdote, e Moisés, o
guia do povo. Em Números 11.17, lemos as diretrizes divinas, dadas a Moisés,
para a nomeação de anciãos que servissem oficialmente com ele. Então,
depois do fracasso do sistema mosaico, Israel se viu sob o governo de juízes
sucessivos. Todos fracassaram. Quando os filhos de Samuel falharam em seu
ofício, os anciãos recorreram ao velho Samuel para que lhes desse um rei,
como faziam as demais nações. Assim se recusou a teocracia, estabelecendo-
se uma monarquia em Israel. Por meio de todas as alterações externas, Israel
continuava sendo o povo pactual de Deus, a igreja terrena.
O pacto estabelecido com Moisés era essencialmente o mesmo que se
estabeleceu com Abraão. A forma era diferente, bem como sua administração;
mas a unidade dos dois pactos se expressa em passagens tais como Salmo
105.8-10: “Lembra-se perpetuamente de sua aliança, da palavra que
empenhou para mil gerações; da aliança que fez com Abraão e do juramento
que fez a Isaque; o qual confirmou a Jacó por decreto e a Israel por aliança
perpétua.” Devemos ter em mente o seguinte: Israel não existia ainda na
época de Abraão, mas teve início com Moisés no êxodo.
Se o pacto feito com Moisés tinha as obras como sua base, como alguns o
entendem, então não era um pacto com base na graça. É fácil confundir a lei
que foi imposta a Israel com o pacto de salvação. O povo de Israel era salvo
pela graça, não pelas obras da lei. A lei e suas consequências lhe foram
impostas como um elemento condicional anexado ao pacto, mas não para a
salvação. As bênçãos externas vieram a ser incidentais para o cumprimento da
lei (Dt 28.1-14), mas a lei foi dada com um propósito duplo, em conexão com
o pacto da graça: (1) para aumentar a consciência do pecado e a consequente
necessidade da graça (Rm 3.20; 4.15; Gl 3.19-21); e (2) para ser um pedagogo
a conduzir-nos a Cristo (Gl 3.24).
Isso é questionado pelos que não conseguem ver a unidade do pacto de
graça como o único meio pelo qual Deus está executando, no tempo, o pacto
de redenção feito na eternidade. Há quem oponha a dispensação de Moisés à
de Cristo com o fito de separá-las totalmente, ignorando praticamente a
verdade de que todos foram salvos tão somente pela graça, desde Adão até a
última pessoa na presente dispensação. Há um só caminho de salvação, um só
pacto e um só Mediador e Salvador.
A etapa da revelação veterotestamentária, que é normativa para a
compreensão dos propósitos redentivos de Deus, não é a mosaica, e sim a
abraâmica. É a promessa feita a Abraão que avança através da dispensação da
lei mosaica e até os tempos atuais. Mais adiante consideraremos com mais
detalhes as passagens neotestamentárias, especialmente Gálatas 3, que
ensinam que o pacto abraâmico é o mesmo pacto sob o qual os crentes são
salvos. Essas passagens ensinam explicitamente que o pacto mosaico de
forma alguma é separado do pacto abraâmico.
A instituição da lei foi, acima de tudo, secundariamente essencial para a
revelação pactual feita com Abraão. Isto deveria ser claro à luz de algumas
referências neotestamentárias. Em Romanos 5.20, por exemplo, lemos:
“Sobreveio a lei para que avultasse a ofensa; mas onde abundou o pecado,
superabundou a graça.” O período da lei em Israel foi, por assim dizer, um
longo período parentético na história da redenção, intercalado pela promessa
a Abraão e seu cumprimento em Cristo. “Porque, se a herança provém de lei,
já não decorre de promessa; mas foi pela promessa que Deus a concedeu
gratuitamente a Abraão. Qual, pois, a razão de ser da lei? Foi adicionada por
causa das transgressões, até que viesse o descendente a quem se fez a
promessa, e foi promulgada por meio de anjos, pela mão de um mediador” (Gl
3.18, 19).
Só precisamos lembrar a primeira palavra de Deus a Moisés, quando o
chamou do meio da sarça para fazer dele o grande libertador de Israel: “Eu
sou o Deus de teu pai, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó”
(Ex 3.6). Isto é muito claro em conexão com os novos princípios de vida
nacional e religiosa depois do último regresso de Israel do exílio babilônico
sob a diretriz de Esdras e Neemias. “Levantai-vos, bendizei ao Senhor, vosso
Deus, de eternidade em eternidade. Então se disse: Bendito seja o nome de
tua glória, que ultrapassa todo bendizer e louvor. Tu és o Senhor, o Deus que
elegeste Abrão, e o tiraste de Ur dos caldeus, e lhe puseste por nome Abraão.
Achaste seu coração fiel perante ti e com ele fizeste aliança, para dares a sua
descendência a terra dos cananeus... e cumpriste tuas promessas, porquanto
és justo” (Ne 9.5, 7, 8).
Aquele pacto subsidiário, feito posteriormente com Moisés, não podia
anular nem alterar o pacto anterior feito com Abraão. “E digo isto: uma
aliança já anteriormente confirmada por Deus, a lei, que veio quatrocentos e
trinta anos depois, não a pode invalidar, de forma que venha a desfazer a
promessa” (Gl 3.17). A administração mosaica acrescentou certas ordenanças
locais e temporais ao pacto feito com Abraão. Mas de modo algum ampliava,
diminuía ou mudava o caráter original da existência e direitos da igreja. Esta,
sob o regime anterior e sob o regime do evangelho, está constituída no que se
refere a seu caráter e membresia pelo mesmo pacto de graça. Ela constitui a
mesma sociedade em sua natureza, seus privilégios essenciais e seus
membros genuínos.
Vejamos como Deus lembra ao povo a promessa feita a Abraão e a sua
posteridade (Ex 6.8; Dt 1.8): (a) que é em decorrência da aliança que ele
libertará o povo (Ex 2.24); (b) que será misericordioso para com eles (Lv
26.42); (c) e que permanecerá fiel em meio a infidelidade deles (Dt 4.31; 7.9,
12; 29.12-29). A intercessão de Moisés tem por base sua fé no pacto (Ex 32.13-
24). O pacto de graça continua sendo o fundamento da redenção, persistindo a
despeito da nova administração na dispensação da lei.
Quando nas gerações posteriores parecia que a infidelidade dos homens
cancelaria a aliança, Deus volta a chamá-los, mostrando-lhes a imutabilidade
das promessas de seu pacto. Aqui se pode incluir uma lista parcial de
referências: 2 Reis 17.38; 1 Crônicas 16.14-18; Neemias 9.7, 8; Salmos 25.10;
89.31-38; 105.8-10; 132.11-18; Isaías 54.10; 55.3; 59.21; 61.8; Jeremias 31.32-
34.
A proeminência do pacto é tão grande, que (a) as palavras de Deus são
denominadas “as palavras do pacto”; (b) as oferendas, o sábado, etc., são
instituídos como sinais da aliança perpétua (Nm 18.19; Ex 31.16; 2Rs 23.3;
2Cr 34.31); (c) as Escrituras são denominadas “o livro do pacto”; (d) o sangue
dos sacrifícios é denominado “o sangue do pacto” (Ex 24.8; Hb 9.18-21). São
muitos os textos não citados.
Em cada etapa importante da revelação de Deus, referente a seu plano
redentivo, se faz ênfase ao pacto. Na época dos juízes, o tema do pacto é
sobressalente (Jz 2.1-20; etc.): (a) Deus renovou seu pacto com Davi (2Cr
13.5); (b) em seu último cântico, Davi louvou o pacto (1Cr 16.14; 2Sm 23.3-5);
(c) Salomão celebra a fidelidade de Deus a seu pacto (1Rs 8.23); (d) no
reinado de Joacás, Deus é misericordioso para com os israelitas em virtude de
sua promessa pactual (2Rs 13.22, 23); (e) as orações intercessórias, tanto de
Jeremias quanto de Daniel, estão baseadas no pacto (Jr 14.20-22; Dn 9.4-19).
Poderíamos citar muitos outros casos, mas estes são suficientes para
estabelecer o ponto em questão.
5. Desenvolvimento do pacto no Novo Testamento
Em sua essência, o pacto da graça, como se acha revelado no Novo
Testamento, é o mesmo. É totalmente impróprio representar os dois
Testamentos como se formassem um contraste essencial, como algumas
vezes ocorre em ensinos extremados das dispensações. Isso se torna evidente
à luz de uma cuidadosa consideração de Romanos 4 e Gálatas 3. A expressão
“nova aliança” se acha devidamente explicada no fato que sua administração
difere numa série de formas, tornando-se “nova” em virtude de ser
apresentada numa nova administração. Por exemplo, sob a dispensação do
Novo Testamento, a promessa pactual é universal, estendendo-se não só a
Israel, mas a todas as nações. Quando a igreja se identificou com Israel, a
nação, e Deus estava provando a igreja como uma teocracia, a bênção
universal prometida por intermédio de Abraão era por um tempo
determinado, ainda quando, posteriormente, e por algum tempo, se adicionou
a lei. Mas esta particularidade desapareceu assim que se cumpriu seu
propósito. A dispensação neotestamentária traz bênçãos muito mais ricas com
a vinda do Salvador e a descida do Espírito Santo com o fim de habitar no
crente e formar a igreja como o corpo de Cristo. Sua dispensação difere de
forma apropriada numa igreja que reflete a expiação consumada por Cristo.
Hoje a igreja tem em Cristo um Sumo Sacerdote celestial e a revelação
completa do evangelho. A igreja já não é nacional. A lei que foi adicionada no
tempo de Moisés já não está em vigor. Assim, em muitos aspectos, a
ampliação das bênçãos pactuais, na nova dispensação, constitui um “novo”
pacto. No entanto, é essencialmente o mesmo pacto de graça, que é o
fundamento da redenção para os crentes de todos os tempos.
Mas, para alguns, ainda persiste o problema: como é possível que ele seja
ao mesmo tempo um e muitos pactos? Como o pacto de graça poderia ser o
pacto “antigo” antes da vinda de nosso Senhor, e o pacto “novo” depois que ele
veio?
No fundo há um pacto de graça básico; este é o pacto relacional entre o
Deus misericordioso e uma raça pecadora. Este fato dá continuidade a todos
os acordos redentivos de Deus com o homem; mas a forma da relação pactual
passa por mudança suficiente em sua administração, a ponto de justificar as
distinções bíblicas. Podemos falar do pacto em sua forma edênica, ou
abraâmica, ou mosaica, ou neotestamentária.
Maria viu, no nascimento de seu filho, a fidelidade de Deus em conexão
com sua promessa pactual. Ela se regozijou no pacto feito com Abraão (Lc
1.50-55). Simeão, igualmente, expressou sua fé no cumprimento do pacto.
Zacarias, o sacerdote e pai de João Batista, louva o cumprimento do pacto:
“Bendito seja o Senhor, Deus de Israel, porque visitou e redimiu seu povo, e
nos suscitou plena e poderosa salvação na casa de Davi, seu servo, como
prometera, desde a antiguidade, por boca de seus santos profetas, para nos
libertar de nossos inimigos e das mãos de todos os que nos odeiam; para usar
de misericórdia com nossos pais e lembrar-se de sua santa aliança e do
juramento que fez a Abraão, nosso pai...” (Lc 1.68-79).
Malaquias dissera que Cristo cumpriria o pacto (Ml 3.1), e o Novo
Testamento confirma esse fato sobejamente (Hb 7.22; 8.6; 9.15; 12.24). Em
Atos 13, lemos que sua ressurreição ocorreu em virtude da promessa pactual.
Cristo afirma que Abraão se alegrou por ver seu dia (Jo 8.56-59; cf. Lc
24.27). Paulo, igualmente, assegura que o evangelho foi pregado
antecipadamente a Abraão. Consequentemente, os hebreus são descritos
como sendo aqueles que esperaram em Cristo antes mesmo de sua vinda,
porquanto receberam o evangelho (Gl 3.8; Ef 1.12). Portanto, quando no dia
de Pentecostes o Espírito Santo veio com poder sobre os apóstolos, notamos a
frequência com que citam, em suas primeiras pregações públicas, Abraão e a
igreja de sua casa. Como os principais construtores da igreja sob a
dispensação neotestamentária, os apóstolos parecem restituir todas as
peculiaridades temporais da legislação mosaica, para construir novamente
sobre as linhas do pacto de graça como estabelecido com Abraão e sua
posteridade para sempre. (a) Esse foi o ponto de partida do discurso de
Estêvão (At 7.2-8). (b) O pacto foi o centro no primeiro sermão de Pedro
depois do Pentecostes (At 3.12-26). (c) Paulo, perante Agripa, fala da conexão
existente entre a promessa feita a Abraão e a esperança de Israel durante o
período mosaico: “E, agora, estou sendo julgado por causa da esperança da
promessa que por Deus foi feita a nossos pais, a qual nossas doze tribos,
servindo a Deus fervorosamente de noite e de dia, almejam alcançar; é no
tocante a esta esperança, ó rei, que eu sou acusado pelos judeus” (At 26.6, 7).
E assim o pacto é o ponto de partida para a defesa de Paulo perante Agripa.
Paulo afirma a permanência do pacto (Gl 3.17) e ensina que: (a) os cristãos
são os filhos de Abraão (Gl 3.7, 26, 29; 4.21, 23, 28); (b) o crente é justificado
pela mesma fé de Abraão e recebe as mesmas promessas (Rm 4); (c) os
gentios são estranhos ao pacto e por isso devem ser trazidos para ele
mediante a conversão (Ef 2.12); (d) as condições da salvação reveladas no
pacto permanecem iguais (Gn 15.6; Rm 4.11; Hb 2.4; At 15.11; Gl 3.6-14; Hb
11.9); (e) o escritor da carta aos Hebreus fala do pacto imutável (Hb 6.3-20);
(f) Paulo se refere aos apóstolos como “ministros do pacto” (2Co 3.6); (g) e o
último eco do pacto se ouve em Apocalipse 21.3, onde as mesmas palavras
repetidas com tanta frequência, no coração do pacto, são mencionadas pela
última vez: uma consumação apropriada da revelação bíblica.
Apesar das grandes diferenças na administração do pacto, sob a nova
dispensação, é evidente que está em vigor o mesmo pacto de graça. Isto será
ampliado na discussão da igreja e dos sacramentos. Por ora a questão crucial
é: Qual é a posição dos filhos dos crentes no seio da comunidade pactual? Sua
posição é essencialmente a mesma nas dispensações antiga e nova? É válido
deduzir que, uma vez que os herdeiros menores tinham um lugar nas
promessas pactuais, sob a antiga dispensação, eles devem ter um lugar
semelhante sob a nova? Que evidências extraídas das ordenanças
sacramentais sustentam esse ponto de vista?
Capítulo 2
PROVISÃO PARA
OS FILHOS DOS CRENTES
NO PACTO DA GRAÇA

1. O pacto edênico
Desde o primeiro pacto entre Deus e o homem, o pacto das obras com Adão,
as criancinhas estavam sempre incluídas. Isto é demonstrado pelo fato que as
consequências da desobediência de Adão foram transmitidas
automaticamente a seus filhinhos. Isto está perfeitamente exposto em
Romanos 5.12-19. O mesmo juízo de morte que recaiu sobre Adão passou para
sua semente. Não foi por decisão dos filhos de Adão que viessem a ser
membros da raça de Adão. Não escolheram herdar as consequências das ações
de Adão. Essas relações foram estabelecidas por Deus, não pelo homem. A
unidade de Adão com seus filhos foi designada por Deus. O homem se
destinava a ser representado pela cabeça federal da raça, quisesse ou não.
Assim o pacto das obras incluía as criancinhas. Todos os homens são por
natureza filhos da condenação em virtude de sua relação natural com Adão.
Todos herdaram a natureza pecaminosa de Adão, ainda que não tenham
escolhido ser assim. A participação das crianças, como semente de Adão, no
pacto das obras, trouxe a participação das criancinhas na condenação de Adão
à morte. Isso é assim pela lei divina inexorável. A culpa de Adão foi imputada
a toda sua posteridade. Se alguém contesta, dizendo que é arbitrário imputar a
culpa de Adão a sua descendência, diga-se simplesmente que este grande
princípio de imputação e representação é também o fundamento de nossa
redenção. A culpa da raça foi imputada a Cristo e ele, como nosso
representante, morreu em nosso lugar. Em virtude de sua morte expiatória
em nosso favor, sua justiça foi imputada a todo aquele que crê em seu nome.
O princípio que amaldiçoa a cada criança nascida da raça de Adão é o mesmo
princípio que forma o fundamento de toda sua esperança!
Como os pais e os filhos formaram uma unidade dentro do pacto de obras,
no próximo capítulo veremos que igualmente, por desígnio divino, eles
formam uma unidade dentro do pacto de graça. Um segue o outro. É uma lei
fundamental na Escritura que os filhos participam da mesma aliança com
seus pais.
2. O pacto estabelecido com Abraão
Deus estava disposto a estabelecer com Abraão uma comunidade pactual. E já
que esse povo tinha que ser distinto de todos os demais povos e nações, Deus
adicionou um sinal para distingui-lo. Ele requereu de Abraão que este pusesse
em execução o pacto por meio de uma cerimônia que deixaria um sinal
permanente. O sinal que Deus determinou para marcar a ratificação do pacto
foi a Circuncisão. Desde o tempo de Abraão até o estabelecimento da forma da
igreja neotestamentária, que seguia a morte e a ressurreição de Cristo, a
Circuncisão ficou sendo o sinal e o selo do pacto relacional. E, desde o
princípio, este selo e sinal foram dados não só aos crentes adultos, mas
também a todos os que estes representavam, isto é, a seus filhos. A família
estava representada pelo representante masculino maior, que era o pai. Os
filhos pequenos estavam qualificados a receber os privilégios e a promessa da
igreja, sem nenhuma outra cerimônia de iniciação ou de admissão. O único
aspecto do pacto, como foi estabelecido com Abraão e sua posteridade, está
precisamente especificado neste ponto: os descendentes de todas as gerações
serão considerados herdeiros do pacto assim que entram em existência. Isto
é, cada filho de pais, membros do pacto, ao nascer, passa a ser herdeiro das
promessas pactuais. Não era a Circuncisão que constituía o recém-nascido
membro do povo de Deus e herdeiro do pacto. Este era um direito de
nascimento no seio de uma família crente membro do pacto. A Circuncisão,
ao oitavo dia, era meramente o sinal e o selo de uma relação já existente. A
Circuncisão certificava essa relação. Os recém-nascidos eram investidos, tão
explícita e completamente, com participação e título neste pacto e em tudo
quanto ele implicava, como ocorrera com seus pais. Tinham de ser
considerados e tratados como sendo do número dos eleitos. Esta era a
pretensão natural desde seu nascimento. Quando mais tarde o filho viesse a
declarar-se incrédulo, ele estava renunciando [conscientemente] os
privilégios pactuais e cancelando essa pretensão.
A Circuncisão de um menino não só indicava sua relação própria com a
família de seus pais em referência ao pacto, mas também implicava que toda
sua posteridade própria continuava inclusa no pacto. Esta é a razão pela qual
o sinal devia ser uma cirurgia física no órgão masculino associado com a
procriação. Caso o pai recusasse ou descuidasse da Circuncisão de seu filho,
dizia-se: “ele anulou meu pacto.”
3. A dispensação mosaica
O pacto feito com Moisés no Sinai, e em vigor durante o resto do período
veterotestamentário, até a ressurreição de nosso Senhor e a formação da
igreja neotestamentária no dia de Pentecostes, incluía também as criancinhas.
A administração do pacto diferia muitíssimo, mas, já que era uma forma
essencial do mesmo pacto estabelecido com Abraão, se conservaram o mesmo
sinal e o mesmo selo. É muito importante compreender que a Circuncisão
não foi dada primariamente à dispensação mosaica, comumente chamada a
dispensação da lei. Antes, ela continuou nessa dispensação porque significava
e selava o mesmo pacto dado a Abraão 430 anos antes. Quando Moisés estava
para deixar seu povo, dirigiu-se a eles como se estivessem diante do Senhor
seu Deus, com suas esposas e seus filhos pequenos, para entrar no pacto com
o Senhor seu Deus (Dt 29.9-15).
4. Provisão neotestamentária
Em vista do princípio sólido da ratificação e confirmação do pacto por todo o
Antigo Testamento, é de se esperar que se enunciasse alguma palavra definida
da parte de Deus, no nascedouro da igreja cristã no dia de Pentecostes. Essa
palavra poderia afirmar a continuação do princípio do pacto, ou alterá-la em
algum aspecto específico, ou cancelá-la completamente. Com toda certeza, os
judeus que se fizeram cristãos levantariam sérias objeções à fé cristã neste
ponto. Um princípio tão básico não poderia deixar as pessoas num estado de
incerteza. Uma das primeiras preocupações seria se as provisões do pacto
continuariam ou não com respeito a seus filhos. Ou os filhos perderiam os
privilégios pactuais de que já desfrutavam? A transformação de judeus
crentes à forma cristã da igreja acarretaria a perda dos privilégios espirituais
de seus filhos? Seria difícil exagerar a importância deste assunto para cada
crente judeu que se convertia à fé cristã.
A resposta veio justamente no primeiro sermão da nova dispensação. Em
Atos 2.39, Pedro disse: “Pois para vós outros é a promessa, para vossos filhos
e para todos os que ainda estão longe, isto é, para quantos o Senhor, nosso
Deus, chamar.”
Em primeiro lugar, Pedro assegura aos judeus crentes que a promessa está
ainda em vigor; não houve nenhuma mudança no princípio do pacto. Em
seguida Pedro lhes assegura que a promessa pactual continua vigente para
seus filhos; nessa provisão não há mudança nem exclusão. Por fim ele
acrescenta o novo conceito pactual para a presente dispensação; um conceito
que chegou como um princípio inteiramente novo para os judeus: a promessa
será também para todos os que estão longe (i.e., longe da comunidade pactual
e das promessas divinas pactuais). O evangelho é para todos, sem exceção
[racial] nem distinção [social], desse momento em diante. É para todos os
que reconhecem como seu o nome do Senhor. E, posteriormente, Pedro
sustenta esta declaração em Atos 3.25. “Vós sois os filhos dos profetas e da
aliança que Deus estabeleceu com vossos pais, dizendo a Abraão: Em tua
descendência serão abençoadas todas as nações da terra.” Em seguida
acrescenta: “Tendo Deus ressuscitado seu Servo, enviou-o primeiramente a
vós outros para vos abençoar, no sentido de que cada um se aparte de suas
perversidades” (v. 26).
Na nova dispensação, depois da formação da igreja no dia de Pentecostes,
a pregação das boas-novas se restringiu ao princípio judaico. Deus continuou
manifestando sua graça ao povo de sua aliança. Não obstante terem
crucificado o Senhor Jesus Cristo, recusando oficialmente o cumprimento do
pacto nele, uma vez mais Deus se voltou para eles a fim de dar-lhes uma nova
oportunidade. Quão profunda é sua graça! O Espírito Santo foi dado, a igreja,
formada, e o evangelho foi anunciado primeiramente a Israel, o povo pactual.
Mas logo se fez evidente que Israel não se voltaria como povo, e então o
evangelho foi anunciado aos gentios. A partir desse tempo, todos os crentes
adultos vieram a formar a família pactual.
Isso se vê claramente na parábola dos lavradores maus (Mt 21.33-46). O
clímax se manifesta no versículo 43, onde Jesus declara aos fariseus e aos
principais dos sacerdotes, representantes da nação judaica: “Portanto, vos
digo que o reino de Deus vos será tirado e será entregue a um povo que lhe
produza os respectivos frutos.” Note bem que é o mesmo reino de Deus. Não
há possibilidade de haver dúvida sobre este fato. Esse mesmo reino foi
simplesmente transferido de Israel, que então quebrava o pacto, para outros,
a saber, os gentios. Efésios 2.12 ensina que o muro que fazia separação entre
judeus e gentios foi derrubado, de modo que estes estão agora incorporados
no pacto da promessa, por meio do sangue de Cristo.
O princípio de que os filhos dos crentes são herdeiros do pacto foi
expresso tão imediatamente quanto a palavra dita a Abraão: “Esta é minha
aliança, que guardareis entre mim e vós e tua descendência: todo macho entre
vós será circuncidado. Circuncidareis a carne de vosso prepúcio; será isso por
sinal de aliança entre mim e vós. O que tem oito dias será circuncidado entre
vós...” (Gn 17.10-12). Os filhos nascidos nas famílias pactuais eram herdeiros
do pacto. No Novo Testamento, este conceito de herdeiros está estreitamente
associado com o conceito de descendência (Rm 4.13-17; 8.17; Gl 3.18-29; 4.7;
Ef 1.11, 14, 18; Cl 1.12; 3.24; Tt 3.7; Hb 6.17-20; Tg 2.5).
É propósito expresso de Deus, que a promessa de salvação pactual siga
normalmente adiante através das famílias: de pai para filho. Ela se perpetua
através das gerações sucessivas de pais crentes. “Quanto a mim, esta é minha
aliança com eles, diz o Senhor: meu Espírito, que está sobre ti, e minhas
palavras, que pus em tua boca, não se apartarão dela, nem da de teus filhos,
nem da dos filhos de teus filhos, não se apartarão desde agora e para todo o
sempre, diz o Senhor” (Is 59.21). Deus não ordena só o que pode suceder por
casualidade nem por uma remota possibilidade! Os mandatos de Deus, como
suas promessas, são fornecidos por seu Poder Altíssimo. Deus se mantém
preparado para cumprir seus próprios mandamentos. Suas promessas são
suas ações. Ele não só deu a promessa aos filhinhos dos crentes, mas também
produziu as condições necessárias para que essas promessas viessem a ser
efetivas na vida posterior desses filhos.
Há duas passagens neotestamentárias que devemos levar em consideração
e acrescentar, com seu material, à presente linha de raciocínio. Tito 1.6 ensina
que um homem está habilitado para ser presbítero da igreja quando, entre
outras condições, tenha “filhos crentes”. Deus quer que os filhos dos crentes
sejam igualmente crentes! De todos os homens piedosos aptos para serem
presbíteros não era eleito nenhum cujos filhos acabavam de se tornarem
crentes. Deus está operando sobre o sólido princípio de que, quando os pais
cristãos cumprem suas obrigações pactuais em favor de seus filhos, esses
filhos não só conhecerão e entenderão o evangelho, mas também terão a
graça de Deus para crer. O selo de uma verdadeira família cristã, de uma
paternidade realmente cristã, é a de que os filhos, mediante o ensino
apropriado das coisas de Deus, virão a ser igualmente cristãos. Uma coisa é
crer que os filhos de alguém provavelmente serão salvos; outra coisa é nutrir
a confiança de que os filhos de alguém crescerão como crentes genuínos,
mediante a fiel observância do pacto pelos pais cristãos. Deduzimos que este
versículo ensina o que muitas outras passagens ensinam, a saber: quando os
pais instruem ardorosa e continuamente a seus filhos de acordo com a
Palavra de Deus, este os honrará, dando a esses mesmos filhos a graça para
que creiam.
A segunda passagem se refere a Pedro e a sua comissão. Este exercia a
profissão de pescador. Depois de sua primeira pesca miraculosa, o Senhor
disse: “Vinde após mim, e eu vos farei pescadores de homens” (Mt 4.19). A
ocupação terrena de Pedro veio a ser o símbolo de seu discipulado. Dias antes
da ascensão, depois da segunda pesca miraculosa, nosso Senhor chama Pedro
não de “pescador”, e sim de “pastor” (Jo 21.15-17). Há uma profunda
significação nesta mudança de simbolismo. Há uma grande diferença entre o
pescador que pesca o que nem cuidou nem alimentou, e só busca o que se
encontra plenamente desenvolvido, e o pastor que presta especial atenção e
cuidado nas crias de seu rebanho. De fato, ao cuidar dos cordeiros, toda a sua
esperança está posta no futuro. Isto nos traz profunda lembrança da
passagem relativa a Jesus em forma profética: “Como pastor, você
apascentará o rebanho; em seus braços recolherá os cordeiros; em seu seio os
levará.”
A figura do pescador não fornecia ao Senhor elemento para dirigir-se a
Pedro com uma recomendação especial com respeito às criancinhas de sua
igreja. A profunda importância de dar o primeiro lugar a esses pequeninos é
pressuposta ainda na disposição do mandato final do Senhor a Pedro:
“Apascenta minhas ovelhas”, mas na primeira dessas três vezes de fato ele
disse: “Apascenta meus cordeiros.”
O que o Senhor disse a Pedro tem a ver particularmente com os pais que
guardam e criam seus cordeirinhos para ele. A ordem de Cristo a sua igreja,
através de Pedro, mostra o lugar que os pequeninos têm em seu coração. Os
filhinhos dos crentes são os cordeiros de Jesus. Lembre-se de que ele os
chama “meus cordeiros”. São seus por direito, por serem os herdeiros do
pacto dos pais que, por sua vez, estão dentro do pacto de graça. Muitos
pastores há para cuidarem do rebanho de Deus, porém nenhum que possa
cuidar dos cordeiros, com tanta eficácia, como os pais! Eles podem
“apascentar” seus cordeiros e nutrir seu crescimento espiritual desde a mais
tenra idade. Os pequeninos não podem encontrar pastagem para si mesmos;
sua vida espiritual depende da possibilidade de que suas mentes e corações
sejam instruídos por pastores fiéis. Note bem que a forma em que Pedro
poderia provar seu amor para com Jesus não era apenas dizendo: “Tu sabes
que eu te amo”, senão obedecendo também ao mandato de Jesus: “Apascenta
meus cordeiros.” Porventura isto não ensina claramente o que o verdadeiro
amor paterno e a fé podem realizar na vida dos pequeninos? Seguramente! “A
intimidade do Senhor é para os que o temem, aos quais ele dará a conhecer
sua aliança” (Sl 25.14).
Deus prometeu aos pais crentes que, quando instruírem fielmente a seus
filhos no Senhor, então podem estar certos de que a graça de Deus agirá. As
crianças têm a possibilidade de confirmar suas relações pactuais nos anos
seguintes, e podem estar certos de que a graça está ao alcance delas, como
herdeiras do pacto, a fim de confirmar as promessas e torná-las suas.
Qual é a herança que é prometida a esses filhos que receberão? É sua
salvação? Eles não herdam a salvação, pois esta não é hereditária. As
considerações defeituosas a este respeito conduzem à doutrina errônea da
regeneração batismal. As crianças (a) herdam as promessas divinas; (b)
herdam a segurança de que o favor divino se dirige a elas porque são filhas de
pais crentes; (c) herdam os privilégios da igreja e (d) os meios de graça são
delas por direito pleno. São filhos privilegiados e seguramente se encontram
entre os que Deus quer salvar. Independentemente de qualquer ação própria,
são contados no número dos que Deus deseja conferir a graça salvífica. Este
simples fato é uma fonte de grande estímulo; também lhes impõe uma grande
obrigação: a de irem a Deus em ato de fé pessoal.
Ainda que, ao nascerem, os filhos dos crentes entrem no pacto e estejam
sob suas promessas; e ainda que tenham a possibilidade de confirmar, pela fé,
esse pacto após alguns anos; e ainda que a graça de Deus esteja ao seu alcance
para este propósito e os meios de graça estejam operando em seu favor, nem
todos exercerão realmente a fé salvífica. Nem todos herdarão a bênção
prometida. Mas, se algum desses herdeiros por direito eventualmente não são
salvos, não será porque a graça divina não lhes foi oferecida, mas
simplesmente porque seus pais falharam em suas obrigações pactuais, ou
porque eles, conscientemente, rejeitaram a Cristo. Ser um transgressor do
pacto é se colocar sob uma responsabilidade muito maior diante de Deus!
Este dará graça aos filhos do pacto para que respondam à sua instrução
piedosa, mas ai dos filhos do pacto que, consciente e deliberadamente,
desprezam sua herança pactual!
Mediante o Batismo, o filhinho de pais crentes se torna membro da igreja
visível, com direito às ordenanças externas e meios de graça aplicáveis a sua
capacidade de percepção. Para ele, o benefício, ainda que carente do benefício
da salvação, indubitavelmente é de grande valor. A criança é posta em contato,
fisicamente, com as bênçãos divinas para sua igreja. Com isso ela não se torna
membro do reino dos céus, da igreja que é seu corpo, mas se encontra no seio
da igreja com seus privilégios e meios de graça. É como se a criança batizada,
filha de pais crentes, assegurasse um direito de propriedade no pacto de graça,
que anos mais tarde poderá chegar a ser um direito de posse por meio de sua
fé pessoal, adquirindo assim um título completo para a salvação pessoal. O
Batismo se converte em selo das bênçãos que, com pleno direito, podem ser
esperadas quando anos depois a criança alinhe seu Batismo com um ato de fé
pessoal. No caso de um adulto, o Batismo é um selo presente da salvação
como bênção pactual, que é sua pela fé; no caso de uma criança, ele é um selo
antecipado da salvação, como bênção pactual que pode ser sua pela fé, que
pode vir a ter depois.
Estas verdades devem ser ensinadas aos filhos dos crentes, ou,
presumivelmente, de nada lhes aproveitará pô-los sob o sinal e selo do pacto.
E por isso vem a ser espantoso que incontáveis milhares que participaram do
Batismo em sua infância, em nossas igrejas, jamais foram instruídos nas
promessas ou nas obrigações pactuais! É possível que algo seja de mais
importância na vida da igreja e de suas famílias? Não é difícil compreender a
reação negativa dos imersionistas que presenciam o rito, aparentemente sem
significado, como se pratica em vasto número de igrejas. Eis uma causa de
profunda contrição da parte de ministros das igrejas reformadas. E é bem
provável que a preciosa verdade que eles sustentam não tenha as bênçãos
divinas sobre si até que haja justamente tal arrependimento. A prática da
igreja nunca pode ser posta acima da pregação do púlpito e da instrução
ministrada aos indivíduos que solicitam a administração da ordenança
sacramental.
Capítulo 3
A PATERNIDADE
COMO VEÍCULO DO
PECADO E DA GRAÇA

1. A família criada por Deus e maculada pelo pecado


Voltemos à criação, desta vez para ver a criação da família. É essencial saber
algo das mais importantes razões pelas quais Deus criou as famílias. O
propósito lança luz no processo.
A primeira razão é que Deus não trata com a raça humana meramente
como um conjunto de indivíduos, cada um responsável apenas por si só.
Antes, todos os homens estão relacionados com Deus e entre si através dele.
Todos os homens são aparentados com Adão e entre si por meio dele. Assim
se estabeleceu fisicamente a unidade da raça pela união com Adão, e
especialmente pela união com Deus. É importante lembrar que Deus criou
não só o indivíduo, mas também a família composta de indivíduos.
A principal relação que Deus designou para os indivíduos é a que está
dentro da unidade familiar. E, dentro da unidade familiar, a relação suprema
está entre pais e filhos. É desta maneira que se formaram e se estabeleceram
as linhagens de perpetuação. Pois acima do pecado humano se manifestou a
graça divina como amor que perdoa e abençoa, e esta graça se projetou para
alcançar as gerações subsequentes dos homens. O pecado se perpetrou de
geração em geração; e a graça, de modo semelhante, se perpetrou de geração
em geração. Ambos seguem o mesmo princípio. O pecado pode perpetrar-se
através da família; e de igual modo a graça. O pecado se perpetua por meio
das relações dos pais, e assim também a graça. Este é o propósito primordial
de Deus na administração de seu plano redentivo. Os filhos estão envolvidos
no pecado e na culpa de seus pais; e os filhos estão compreendidos no pacto
de salvação oferecido a seus pais. É o princípio do pacto que temos de ver em
ação, quando considerarmos a família como Deus a criou; quando o pecado a
manchou e a estragou, e quando a graça a pode restaurar.
O propósito de Deus na criação do homem foi mostrar visivelmente no
universo sua glória e sua perfeição jamais vistas. Para este fim, o homem, em
tudo o que fosse e fizesse na terra, haveria de demonstrar que fora criado à
própria semelhança do Criador.
Em seu domínio sobre a terra e sobre suas criaturas, o homem tinha que
exibir o poder de Deus como Rei e Governador de todo o universo. Nas
maravilhosas faculdades mentais com que foi dotado, ele tinha que exibir
Deus como o Criador sapientíssimo. Em suas faculdades morais, o homem
tinha que refletir a justiça e a santidade de Deus. Este concentra toda sua
santidade ao comunicar a outros seres sua própria vida de perfeição e glória.
No poder do homem para produzir filhos a sua própria imagem, o homem
tinha que exibir a poderosa força criativa de Deus, pois este criou suas
criaturas humanas a sua própria semelhança.
Em seu poder para produzir filhos a sua própria imagem, o homem estava
capacitado a criar uma família, cujos membros estariam unidos entre si pelos
laços do amor, refletindo assim a santidade do lar paterno no céu. Na família
sobre a terra, teriam de conhecer os mais profundos segredos da vida e do
amor que existem na Deidade. Na paternidade veriam a mais elevada glória da
relação de Deus com suas criaturas. Assim, nas relações familiares estavam os
meios pelos quais o homem haveria de compreender e de exibir o pacto de
união entre ele e Deus. Ali teriam de revelar as influências do amor filial que
unem, o sentido único de solidariedade dentro da unidade familiar e do
companheirismo mútuo, através dos quais a família encontra sua mais
elevada beatitude.
Visava também a uma relação recíproca. Cada percepção profunda de amor
do Pai celestial elevaria a mesma relação no lar terreno. Cada experiência do
que o amor pode criar na família terrena se adaptaria mais completamente à
comunhão da família celestial.
Comunicar vida a outros seres e estabelecer um lar de amor como o
celestial é o elevado privilégio do homem quando procria filhos a sua própria
semelhança. Mas, o que o amor divino criou, o pecado arruinou e maculou.
Como Deus criou o homem a sua própria semelhança, assim Adão deu vida a
seus filhos a sua própria semelhança. Quando Adão pecou, ele reteve o poder
de procriar a sua própria semelhança! Desde então, ele terá de dar vida a seus
filhos à semelhança de sua natureza pecaminosa! O pecado, ao vencer Adão,
venceu sua raça. O parentesco com os pais veio a ser o instrumento da
perpetuação universal do pecado.
A Escritura ilustra este princípio em seus primórdios. O pecado de Adão
reapareceu em seu filho. Os mandamentos de Deus foram sintetizados por
nosso Senhor Jesus Cristo nas palavras: “Amarás o Senhor teu Deus de todo
teu coração, e o próximo como a ti mesmo.” Adão transgrediu a primeira
parte; o filho primogênito de Adão quebrou a primeira e a segunda parte.
Caim veio a ser o juiz de seu pai e o assassino de seu irmão!
2. A família restaurada pela graça
O que a natureza não pôde restaurar, a graça de Deus o fez! Quando Deus
restaura a relação paterna, então esta se torna o próprio instrumento de sua
graça. A relação que perpetuou a natureza pecaminosa veio a ser agora o
instrumento para perpetuar a redenção divina. Aos pais redimidos é
outorgada a promessa de que seus filhos podem ser sua semelhança. A
redenção dos filhos está prevista dentro da redenção dos pais. O pacto de
graça para os pais inclui uma provisão para os filhos. Naturalmente, não é
uma provisão automática, mas a provisão segura dos meios de graça nos quais
se pode depositar confiança.
Uma ilustração, no início da Bíblia, que demonstra claramente a função de
resgate da família é a de Deus fazendo um pacto com Noé. A salvação de Noé,
saindo ileso do dilúvio, foi o primeiro grande ato de graça redentiva de Deus
em benefício de um mundo pecador. Nesse ato, Deus revelou o que seriam os
grandes princípios da administração da graça para o homem:
misericórdia no mais grave juízo;
vida através da morte;
o pacto como fundamento da relação misericordiosa de Deus;
a fé como meio de salvação;
a família como o meio instrumental da graça para os filhos.

O comentário neotestamentário se encontra em Hebreus 11.7: “Pela fé,


Noé, divinamente instruído acerca de acontecimentos que ainda não se viam,
e sendo temente a Deus, aparelhou uma arca para a salvação de sua casa...”
O que se estabelece em Gênesis 7.1: “Disse o Senhor a Noé: Entra na arca, tu e
toda tua casa, porque reconheço que tens sido justo diante de mim no meio
desta geração.” Note bem que foi pela fé de Noé que sua família foi salva. Noé
veio a ser um testemunho para os séculos futuros, de que mediante a fé um
pai justo e crente granjeia bênção não só para si, mas também para seus
filhos. Inclusive seu filho Cam, cujo caráter pessoal foi tal que merecia a
morte com o mundo incrédulo, se salvou do dilúvio em virtude de seu pai e a
fé deste. Deus não precisava de uma família completa para dar outra vez
origem à raça humana. Ele precisava apenas de um casal. Assim vemos uma
ênfase clara na relação de Deus com a família como a unidade básica. Deus
considera a família como uma unidade orgânica, com o pai como cabeça e
representante.
Não é justamente deste fato que se devia esperar? A relação com os pais
fora o mais poderoso aliado do pecado, o valioso instrumento pelo qual o
pecado adquiriu domínio universal. Este princípio (a) foi resgatado do poder
do pecado; (b) foi adotado no pacto da graça; (c) e agora veio a ser útil para a
fundação das famílias redimidas. “Onde o pecado abundou [a família],
superabundou a graça.” A graça divina transformou a relação com os pais, de
veículo transmissor do pecado, em veículo transmissor da redenção.
Em Noé, Deus começou a reconhecer a unidade de pais e filhos nos tratos
de seu pacto com o homem, na graça. Também foi para que se demonstrasse
que os filhos poderiam desdenhar o pacto da graça e rejeitar a redenção
divina. Logo depois do livramento do dilúvio, a maldade de Cam veio à tona, e
não tardou muito para que o mundo todo se volvesse outra vez para a
idolatria e para a maldade inerente a sua natureza.
A próxima grande revelação da Escritura com referência aos princípios
redentivos se relaciona com Abraão. Já dissemos que, quando Deus
estabeleceu formalmente seu pacto com Abraão, os filhos foram incluídos
com ele no pacto. O poder da fé e a promessa divina são os portentosos
vínculos pelos quais sua semente natural chegou a ser a herdeira legítima das
bênçãos espirituais.
A fé dos pais deve compreender que Deus deseja tomar posse dos filhos
como seus próprios filhos. A fé dos pais deve alcançar e envolver seus filhos.
Quando os pais se convencem de que seus filhos são indubitavelmente filhos
da promessa, terão a esperança e a coragem para a tarefa de instruí-los na
terra com a perspectiva de sua herança celestial.
O traço mais notável do princípio pactual é que ele toma posse do mesmo
poder da procriação humana para o serviço da redenção, transmitindo as
bênçãos dos pais aos filhos. O princípio está ilustrado no caso de Isaque, filho
de Abraão. Por causa de Abraão, a bênção alcançou Isaque. Em Gênesis 26.3 e
5, Deus afirma a Isaque: “habita nela, e serei contigo... porque Abraão
obedeceu a minha palavra e guardou meus mandados, meus preceitos, meus
estatutos e minhas leis.” O versículo 24 afirma: “Eu sou o Deus de Abraão, teu
pai. Não temas, porque eu sou contigo; abençoar-te-ei e multiplicarei tua
descendência por amor de Abraão, meu servo.”
Isaque foi circuncidado, e o sinal e selo da promessa pactual de Deus
foram ao mesmo tempo o sinal da fé do pai nessa promessa. À medida que
Isaque crescia, seria para ele um sinal e selo da fé de seu pai, e também da
promessa divina e da fidelidade pactual.
Deus estabelece seu pacto com os pais não só para sua segurança quanto
ao que ele fará, mas também para fortalecê-los quanto ao que eles devem
fazer. Deus revestiu os pais com santa autoridade e responsabilidade. São os
anos em que a vontade da criança está, em grande parte, nas mãos do pai,
quando o exercício amoroso da autoridade paterna terá uma influência
poderosa. A vontade de Deus é que esta influência sirva aos propósitos
pactuais, e ele abençoe o pai que a exerce para os interesses da concretização
do pacto.
Isto está ilustrado no caso de Abraão e seus filhos. Gênesis 18.19 declara:
“Porque eu o escolhi para que ordene a seus filhos e a sua casa depois dele, a
fim de que guardem o caminho do Senhor e pratiquem a justiça e o juízo; para
que o Senhor faça vir sobre Abraão o que tem falado a seu respeito.” Tão
claramente como a Palavra de Deus fala da fé de Abraão, também o faz de sua
fidelidade em sua casa, na qualidade de pai. Esta passagem revela o
maravilhoso fato de que a fidelidade de Abraão, em sua casa, lhe deu acesso
ao conselho secreto de Deus. A fé dos pais para com a promessa de Deus
sempre se conhecerá através de sua fidelidade à vontade de Deus. Quanto
mais a fé dos pais se eleva, tanto mais a família estará sob sua diretriz e mais
Deus abençoará essa fé em todos os membros da família. Os filhos realmente
possuirão e estarão debaixo das bênçãos destinadas a eles e que foram objeto
da fé de seus pais.
3. A lição extraída da figura da Páscoa
De todos os sacrifícios veterotestamentários, não há outro que proporcione
uma representação mais clara de nosso Senhor do que o da Páscoa. É fácil de
perceber isto quando notamos ser ela uma das duas ordenanças sacramentais
precisas na dispensação veterotestamentária. Toda a instituição do cordeiro
pascal visava à salvação, não dos indivíduos, mas das famílias como um todo.
É só estudar cuidadosamente Êxodo 12.3 e 23. Entre os egípcios, o que
morreu foi o primogênito da casa, como representante da família, embora em
Israel o que se salvou foi o primogênito de cada lar, mediante o sinal do
sangue nos umbrais das portas. No primogênito é que se perpetua a bênção
familiar, a cabeça sucessora da família.
Paulo afirma que Cristo, nossa Páscoa, foi morto por nós. Os simbolismos
da festa pascal se cumpriram minuciosamente nele. Isso será abordado em
outra parte de nosso presente estudo; por ora basta afirmar que não podemos
deixar de observar o detalhe que fala do sangue como meio para a salvação de
toda a casa. Pois, seguramente, a figura não conserva tanta verossimilhança,
em todos seus detalhes, como este do sangue!
No entanto, é direito e obrigação do pai requerer o sangue redentivo para
toda sua família. “Crê no Senhor Jesus Cristo, e serás salvo, tu e toda tua
casa” (At 16.31). Esta é a ordem em todo o Novo Testamento. Não equivale
dizer que as crianças se salvam de maneira automática, independentemente
de sua fé pessoal. No entanto se pressupõe o princípio constante de que a fé
do pai pode assegurar as bênçãos de seu filho, sendo o meio de graça pelo
qual a criança chegará a conhecer seu Senhor e a confiar nele. E nossa figura
da Páscoa ensina que os pais e seus filhos se mantêm unidos sob a proteção
do sangue que é aspergido, espiritualmente, nos umbrais do lar. Em Israel, a
cada ano os pais tinham que renovar a aspersão do sangue do cordeiro pascal.
Agora, o sangue do Cordeiro de Deus já foi derramado uma vez para todo o
sempre, e os pais já não precisam renovar a consagração de suas famílias por
algum ato. No entanto, eles podem consagrar continuamente suas famílias na
confirmação de sua fé no fato que o Cordeiro Pascal, Jesus Cristo, já foi dado
pelos pais e por seus filhos.
Não era o sacerdote, e sim o pai, quem ministrava a fé pactual aos filhos
(Ex 12.26, 27). O pai tratava com Deus em favor de seus filhos, e ainda tinha
que tratar com os filhos em favor de Deus, instruindo-os e procurando
conduzi-los ao conhecimento pessoal e aceitação daquele Deus que faz
aliança com os seus como seu Deus e seu Redentor. A tarefa do pai, como
sacerdote da família, o capacitava a fazer seu trabalho como guia da mesma. É
característica peculiar da Páscoa que, enquanto em todos os demais sacrifícios
em Israel o sacerdote aspergia o sangue no lugar santo do templo, nela cada
pai o aspergia em sua própria casa. E a festa da Páscoa era considerada como
uma ordenança sacramental. Em associação com a Circuncisão, ela era
considerada uma das duas ordenanças sacramentais mais típicas do Antigo
Testamento. Ambas se relacionavam com a redenção prometida, e ambas têm
a ver com a relação pactual de Deus com as famílias, como unidades
completas. Não há coincidência alguma nisso; é por desígnio de Deus e em
completa harmonia com seu princípio pactual de tratar com o homem que se
encontra em graça. Mais adiante teremos a oportunidade de voltar a ocupar-
nos deste aspecto.
4. O poder da paternidade piedosa
O pai já foi constituído por Deus como o ministro na redenção do filho. O que
o filho não podia fazer por si mesmo, o pai o fazia por ele, e o fato era aceito
por Deus. O filho, à medida que crescia, aceitava pessoalmente o que lhe era
obtido pela fé e obediência de seu pai. Que admirável adaptação da relação
paterna à efetividade dos propósitos de Deus! Este (a) emprega uma relação
natural; (b) santifica seus afetos; (c) e os adota no serviço da redenção.
O amor paterno busca a felicidade do filho e às vezes pode fazer grandes
sacrifícios para atingir esse objetivo. É esse amor paterno que Deus toma no
pacto, santificando-o para ser o veículo de sua graça. Juntamente com o amor
paterno está sua influência empregada no tempo próprio em que o filho
depender deles. As impressões incessantes comunicadas pelos pais crentes
podem tornar-se permanentes na vida da criança. Isso é ensinado de forma
definida num versículo que amiúde não é visto como uma promessa clara, a
saber, Provérbios 22.6: “Ensina a criança no caminho em que deve andar, e,
ainda quando for velho, não se desviará dele.” Aqui se ensina o princípio de
que a educação da criança pode decidir o que será sua vida futura, e que o
dever dos pais não será sem efeito diante do Senhor.
Presumivelmente, a educação é mais que o mero ensino. Ensinar é fazer
com que uma criança saiba e aprenda; educar é influenciá-la para que faça o
que bem sabe ser seu dever. O ensino tem a ver apenas com a mente; a
educação tem a ver com a mente e a vontade. Nas crianças, os hábitos
precedem os princípios; os sentimentos precedem o raciocínio. A vida, em
seus primórdios, se distingue por sua suscetibilidade às impressões. Os pais
buscam criar um sentimento e um hábito favoráveis ao bem e à retidão. O
poder da educação se estriba não tanto no que os pais dizem, mas no que
estes fazem. A vontade e o exemplo dos pais, mostrando que ele escolhe,
deseja e ama o que é reto, constituem a dinâmica da educação. O amor que
atrai é mais do que a lei que manda. O amor inspira, e inspirar amor é o
segredo da educação. De todos os instrumentos empregados pelo Espírito
Santo para o cumprimento da redenção, nenhum é mais maravilhoso, ou está
mais maravilhosamente adaptado, do que o da piedade paterna.
Deuteronômio 6.6-9 fixa a norma para a instrução que Deus abençoa
visando à salvação da vida da criança. O texto ensina que é o coração que
ganha o coração; que o afeto desperta emoções recíprocas na criança. Deus
aproveita toda a influência do amor paterno para conseguir acesso à sua
Palavra e Vontade no coração suscetível da criança. A passagem ensina ainda
que a instrução deve ser diligente, perseverante e contínua. É aconselhável
que uma passagem como esta seja bem estudada.
A resposta da fé às promessas divinas com respeito à família está
sublimemente ilustrada nas palavras de Josué: “Eu e minha casa serviremos
ao Senhor” (Js 24.15). Essa é a linguagem perene dos pais que conhecem e
confiam na fidelidade pactual de Deus.
Frequentemente, alguns pais pensam que seria muita pretensão esperar
que as crianças andem nos caminhos do Senhor desde os primeiros dias, e por
isso não tratam de educá-las para que ajam assim. Que erro imperdoável!
Outros pais erram por não se dispor a caminhar pela vereda do Senhor, e
naturalmente não conseguem fazer com que a criança tenha vontade de agir
assim também.
Começando com o princípio da obediência, os pais podem conduzir a
criança ao princípio da liberdade. A criança deve encontrar sua felicidade na
escolha que seus pais fazem, não simplesmente porque seja uma ordem, mas
por causa do desenvolvimento de sua aprovação pessoal e deleite naquilo que
é ordenado. Quando os pais se esforçam por guiar e fortalecer a vontade do
filho no caminho do Senhor, os pais podem contar com o Espírito Santo a fim
de influenciar a vontade da criança, ora sob o poder do pecado e de si mesma.
Os pais que são fiéis a Deus em guardar o pacto descobrirão que Deus provê
suas promessas com seu poder e sua graça.
Aos pais é dado educar os filhos para que usem sua vontade corretamente.
À criança se ensina a obediência como a primeira virtude. A vontade da
criança é exercida pela obediência às ordens dos pais. A criança obedecerá não
porque entenda ou aprove, mas simplesmente porque os pais lhe ordenam. E
assim a criança chega a ser a dona de sua própria vontade, submetendo-a
espontaneamente a uma autoridade mais elevada. A obediência garante um
duplo bem: guia corretamente a vontade da criança e fortalece o domínio que
a criança tem sobre si. Este é o fundamento para o desenvolvimento posterior
de alternativas que parecerão preferíveis à criança em maturação. Mas antes
que a criança saiba “recusar o mal e escolher o bem” (Is 7.15), a obediência
simples é a lei do desenvolvimento infantil. O mais elevado hábito que a
criança pode ter, por virtude de sua educação, é o de dar seu consentimento
espontâneo à Palavra de Deus, como o modelo de toda escolha. Assim vemos
que Deus não só pode e quer salvar os filhos das famílias pactuais, mas
também fixou certos princípios de educação que assegurarão o propósito
desejado. Os princípios diretos de educação têm não só uma significação
divina, como também o poder da oração de fé é um meio para assegurar mais
adiante o interesse que Deus tem na salvação do filho da promessa pactual. A
fé e a obediência vão de mãos dadas na garantia da bênção.
Capítulo 4
A IGREJA COMO
A COMUNIDADE PACTUAL DE DEUS

1. Uma só igreja ao longo de todas as dispensações


Consideramos de antemão, de modo sucinto, o fato que a igreja, em sua
essência, é uma e a mesma, tanto na dispensação veterotestamentária como
na neotestamentária. Consideramos ainda como a continuidade do pacto da
graça, ao longo dos dois Testamentos, é o princípio que estabelece esta
continuidade da igreja. Pois esta é, em princípio, a continuidade do pacto
divino, o povo crente, separado do mundo dos incrédulos. Posto que é sobre o
fundamento da premissa bíblica que o Batismo infantil repousa, este tema
deve seguir em frente até o fim.
Romanos 11 é a pedra principal da coluna. É a exposição mais completa do
tema de uma igreja, em todos os tempos, com suas várias dispensações.
Romanos 11 ensina que há uma oliveira em cuja história se operam mudanças
radicais. No entanto, o que sucede à oliveira não sucede à sua raiz, tronco ou
vida contínua. A oliveira permanece sempre a mesma, mas o que lhe sucede
afeta seus ramos. A despeito da poda de seus ramos naturais, a oliveira
continua vivendo. Novos ramos foram enxertados para que possam participar
da raiz e da seiva. E não é só isso, pois lemos que os ramos enxertados podem
ser também removidos, de modo que os ramos naturais sejam enxertados
novamente. Temos aqui a pressuposição de um milagre divino. Lemos então
que os ramos naturais representam Israel, e que os ramos enxertados
representam os gentios.
A oliveira é a comunidade terrena que faz aliança com Deus: redimidos de
todas as idades; a igreja do Deus vivo. Embora Deus tivesse seus fiéis desde
os primórdios, a comunidade pactual se estabeleceu com Abraão. Portanto,
podemos afirmar que a raiz da oliveira é Abraão, o primeiro a receber a
promessa pactual para si e para sua posteridade. Esta igreja, antes de tudo, se
perpetuou ao longo da linhagem de Abraão, formando assim,
temporariamente, cada família uma tribo. Essas tribos, eventualmente,
constituíram a nação de Israel, que se formou no Egito, e se estabeleceu como
nação ao ser resgatada do Egito por intervenção divina. Foi assim que
Jeremias fez menção de Israel: “oliveira verde, formosa por seus deliciosos
frutos” (Jr 11.16). Em seguida, falando de Israel, que se esquece do Senhor,
Jeremias afirma: “à voz de grande tumulto, acendeu fogo ao redor dela e
consumiu seus ramos.”
Começando com o versículo 15 de Romanos 11, Paulo afirma:
“Porque, se o fato de terem sido eles rejeitados trouxe reconciliação ao mundo, que será seu
restabelecimento, senão vida dentre os mortos?... Se, porém, alguns dos ramos foram quebrados, e
tu, sendo oliveira brava, foste enxertado em meio deles e te tornaste participante da raiz e da seiva
da oliveira, não te glories contra os ramos; porém, se te gloriares, sabe que não és tu que sustentas a
raiz, mas a raiz a ti. Dirás, pois: Alguns ramos foram quebrados, para que eu fosse enxertado. Bem!
Por sua incredulidade, foram quebrados; tu, porém, mediante a fé, estás firme. Não te ensoberbeças,
mas teme… Considerai, pois, a bondade e a severidade de Deus: para com os que caíram, severidade;
mas, para contigo, a bondade de Deus, se nela permaneceres; doutra sorte, também tu serás cortado.
Eles também, se não permanecerem na incredulidade, serão enxertados; pois Deus é poderoso para
os enxertar de novo” (vv. 17-23).

Dificilmente se pode alimentar dúvida de que a oliveira represente o povo


redimido de Deus em todas as épocas, o corpo ou comunidade do povo crente,
que adora e que testifica: a igreja. Israel não é a raiz ou a oliveira, e sim os
ramos naturais da oliveira. Na redenção, todos os redimidos constituem uma
só árvore, unidos entre si pela união comum com a árvore. Israel abarca os
ramos naturais, já que Deus o elegeu primeiro, como nação, para se tornar a
igreja naquela dispensação, uma igreja identificada, por algum tempo, com a
nação, a fim de poder existir uma teocracia sobre a terra. Foi através de Israel,
como bênção prometida a Abraão, que a igreja abarcaria o mundo inteiro. Por
meio de Israel, Deus propôs revelar-se e revelar o Salvador a todos os
homens. Quando isso ocorresse, a igreja entraria em cena, em todas as idades,
mais claramente como una. Mas, quando Israel fracassou em suas funções,
em virtude de seus pecados, Deus cortou Israel como os ramos naturais, e se
fez necessário um governo totalmente novo. A oliveira não morreria, nem
Deus ficaria sem uma igreja sobre a terra. Ele se volveu dos judeus para os
gentios a fim de constituir a igreja sob sua forma neotestamentária.
É importante notar que, quando os ramos naturais, Israel, foram cortados
da árvore, esta não foi destruída. Ao contrário disso, a raiz, o tronco e as
extremidades ficaram, e os gentios simplesmente foram enxertados na
mesma árvore. Esta é idêntica em si mesma! É possível falar mais claramente
da continuidade da comunidade no seio das igrejas em ambos os
Testamentos? Este é o povo redimido de Deus, visivelmente na forma de
corpo sobre a terra, como sua comunidade pactual, sua única testemunha no
mundo.
O assunto é confirmado quando Paulo diz que os judeus serão trazidos
outra vez para a oliveira: “enxertados em sua própria oliveira.” De modo que
realmente deixa de ser importante para nosso estudo se alguns insistem ou
não em diferenciar a igreja neotestamentária do Israel veterotestamentário. O
ponto importante está no fato que o pacto, com base na graça, foi estabelecido
numa comunidade pactual com Abraão, e é o mesmo pacto em que se baseia a
salvação para todos os tempos. Portanto, como Paulo explica tão claramente
em Gálatas 3, há a mesma referência ao pacto tanto no Israel
veterotestamentário como na igreja neotestamentária. Isso, por sua vez, afeta
as ordenanças sacramentais que, embora diferentes na forma, se relacionam
entre si porque estão relacionadas com o mesmo pacto. O advento do Espírito
Santo, seguindo o ato redentivo de Deus em Cristo, originou uma ampla
diferença no tocante a que sinal e que selo eram apropriados.
O que se segue neste estudo não se revelará em sua força lógica se não
conseguirmos compreender, neste ponto, a identidade da igreja em todos os
tempos. A igreja neotestamentária deve ser vista como a reprodução da igreja
veterotestamentária. Esta identidade é vista posteriormente na relação que
Cristo, como Mediador, mantém com a igreja em todas suas dispensações.
Desde o princípio, ele foi o Profeta, o Sacerdote e o Rei da igreja. Ele é o único
Redentor. Só pode haver salvação na graça de Deus que purifica todo pecado
no sangue de Cristo. A igreja de Deus não existiu em nenhum período senão
pela presença e poder de Cristo. Em épocas diferentes, Cristo se manifestou
de diferentes formas, e a participação de dons e bênçãos tem variado desde
sua morte e ressurreição. Mas o povo beneficiário da graça redentiva de Deus
sempre foi a igreja terrena de Cristo, o Mediador e Redentor.
2. Uma igreja oriunda de um pacto de graça
Antes de seguir em frente, deixando esta fase fundamental, é preciso levar em
conta a única e mais importante passagem neotestamentária que nos informa
da continuidade do pacto desde Abraão até a conclusão do programa terreno
de Deus. Gálatas 3 é uma passagem-chave, e precisa ser lida como um todo.
Lemos em Gálatas 3.7: “Sabei, pois, que os da fé é que são filhos de
Abraão.” Isto estabelece a relação espiritual entre os crentes
neotestamentários e Abraão. O versículo 9 declara: “De modo que os da fé são
abençoados com o crente Abraão.” Isto dá aos crentes, na presente
dispensação, o direito de reivindicar as bênçãos pactuais de Abraão. A partir
do versículo 14, aprendemos que as bênçãos de Abraão (i.e., a bênção e
promessa pactuais) alcançaram os gentios em Jesus Cristo, “para que, pela fé,
recebamos a promessa do Espírito”. A promessa do Espírito, através da fé,
veio, como lemos em Atos, antes de tudo aos judeus e aos prosélitos, no dia
de Pentecostes. Nesse tempo, Pedro lhes declarou: “Pois para vós outros é a
promessa, para vossos filhos e para todos os que ainda estão longe, isto é,
para quantos o Senhor, nosso Deus, chamar” (At 2.39). Fora de toda e
qualquer dúvida, os que ouviram Pedro compreenderam que ele afirmava que
a promessa de Abraão, com todos seus benefícios para os pais e seus filhos,
era também para eles como cristãos.
Gálatas 3.17 refuta sobejamente os argumentos dos partidários
extremistas da dispensação. A continuidade do pacto do povo de Deus não foi
interrompida pela dispensação da lei, porque “uma aliança já anteriormente
confirmada por Deus, a lei, que veio quatrocentos e trinta anos depois, não a
pode ab-rogar, de forma que venha a desfazer a promessa.”
O versículo final e conclusivo de Gálatas 3 (29) diz: “E, se sois de Cristo,
também sois descendentes de Abraão e herdeiros segundo a promessa.” É a
promessa a que constantemente nos referimos como sendo a do pacto da
graça.
Para muitos, as promessas nacionais feitas a Israel, tanto as temporais
como as espirituais, haverão de cumprir-se quando os ramos nacionais forem
outra vez enxertados na oliveira. Seja como for, nosso debate não é alterado;
as promessas espirituais permanecem como o fundamento da comunidade
pactual contínua de Deus, sobre a terra: a igreja.
A epístola aos Hebreus dedica não pouco espaço às relações dos crentes
pactuais sob a nova dispensação. A oposição se coloca, em todas as suas
partes, contra os requisitos mosaicos. De um lado, os únicos requisitos são os
peculiares à dispensação mosaica. Não há uma só palavra que pressuponha
cancelamento de alguma das provisões feitas no pacto feito com Abraão.
3. Resposta do homem às promessas pactuais de Deus
O soberano propósito de Deus foi, desde o princípio, ter um povo redimido,
separado para ele. Adão não escolheu o pacto da graça; a Adão foi dada a
promessa da graça. A Adão, Deus impôs seu pacto gracioso. Abraão não
escolheu o pacto e seu sinal; simplesmente o recebeu de Deus. Tampouco
Israel foi consultado acerca do pacto. Ambos, o pacto e suas condições, foram
impostos por um Deus soberano. Este escolheu os que, por direito, seriam os
herdeiros da promessa e decretou que os filhos dos crentes seriam esses
herdeiros pactuais. Não importa o que o homem faça ou queira fazer para
destruir este princípio, ele não pode alterar a vontade imutável de Deus, como
se acha expressa em sua Palavra. Não importa o que o homem prefira pensar
acerca deste plano, esse é o caminho predeterminado por Deus. E sem levar
em conta o fato que o homem prefira ignorar ou subestimar este programa
pactual de Deus, ele permanece firme e será a base sobre a qual uma multidão
de pais será julgada um dia.
Os membros da comunidade pactual e terrena de Deus hão de pertencer-
lhe e viver uma vida divinamente regulada, no seio da comunidade ainda
maior que aquela da qual eles são parte. Continuarão no mundo, porém não
pertencerão ao mundo. Esta genuína comunidade pactual, onde quer que se
encontre e sob qualquer nome, é a igreja de Deus no mundo. Ainda quando
haja sinais externos para evidenciar os que estão realmente redimidos, o
corpo genuíno de pessoas redimidas, não obstante, só é conhecido por Deus.
Necessariamente, sempre haverá crentes declarados que de fato não
pertencem a Deus. Como Jesus advertiu, o trigo e o joio crescem juntos.
Igualmente óbvia foi sua palavra de que o homem não pode arrancar o joio. O
corpo genuíno de crentes se encontrará dentro de uma organização humana
chamada “a igreja”; mas que esta é sempre composta de pessoas redimidas e
não-redimidas. Esta “igreja” organizada assume as funções da igreja genuína,
a saber: o culto, o ensino, a administração das ordenanças sacramentais e a
evangelização do mundo — ainda que estas funções sejam especialmente
visíveis só aos crentes genuínos. Ficaremos especialmente alheios ao fato de
que nos privilégios pactuais, representados particularmente pela
administração das ordenanças sacramentais, participam todos os que estão na
“igreja” organizada. Presumivelmente, só entre os crentes genuínos e seus
filhos herdeiros desses meios de graça são espiritualmente efetivos. É preciso
se entender plenamente esta natureza dual do povo declarado como de Deus,
caso se queira sustentar o ponto de vista correto acerta das ordenanças
sacramentais. Sigamos em frente com este ponto.
A igreja de Cristo, como se acha presente no mundo, tem um caráter
visível e físico, e possui certos privilégios externos e ordenanças, pelos quais
ela se faz conhecida aos olhos humanos. Isto é completamente distinto de seu
caráter interno e espiritual, pelo qual ela só é conhecida aos olhos de Deus.
Toda ordenança externa, como consequência desta situação, é administrada a
inúmeras pessoas que são crentes apenas nominalmente. É preciso notar que
esta não é razão suficiente para se ter em pouca estima as ordenanças divinas.
Como Deus não deu ao homem o poder de esquadrinhar o coração e
conhecer a mente, tampouco impôs ao homem algum dever que implique a
posse de tal poder. Em outras palavras, nosso Senhor não confiou aos homens
a tarefa impossível de formar uma igreja terrena que consista exclusivamente
de pessoas regeneradas. As condições de admissão à igreja organizada não
podem ser prova infalível de regeneração. É preciso saber, como os
reformadores o reconheceram claramente, que é absolutamente impossível
estabelecer um princípio de tratamento para os homens, conforme seu estado
aos olhos de Deus. Não só não se nos exige, mas sequer se nos permite
requerer evidências de regeneração satisfatórias para nós, como uma
condição para se aceitarem membros da igreja. De modo que, enquanto aos
olhos de Deus ninguém realmente é membro da igreja, exceto os regenerados,
no entanto muitos que não foram regenerados em seu coração devem ser
validamente considerados membros da igreja. Na prática esta distinção não é
apenas necessária e inevitável, mas também sustém a administração das
ordenanças sacramentais.
Indagar: “Quem constitui a igreja aos olhos de Deus” é responder “O
verdadeiro povo crente de Deus.” Mas, indagar: “Quem constitui a igreja aos
olhos dos homens” requer a resposta: “Os que professam crer em Cristo,
juntamente com seus filhos.”
O sacramento do Batismo é ministrado aos adultos por meio de sua
profissão de fé em Cristo, e ante a pressuposição de que são crentes genuínos,
membros genuínos do corpo de Cristo. São batizados sobre a base de uma
pressuposição humana. Sobre o mesmo princípio, o sacramento do Batismo é
administrado aos filhos dos crentes. Como herdeiros legítimos das promessas
pactuais, presume-se que são aqueles a quem Deus dotará com sua graça
salvífica. São tratados simplesmente como pertencentes à classe de pessoas a
quem estamos obrigados a considerar como que vivendo no seio do pacto das
promessas e privilégios.
É absolutamente básico compreender que toda admissão aos privilégios da
igreja visível, toda administração das ordenanças sacramentais dentro da
estrutura da igreja visível, é sobre o princípio de pressuposição; não sobre um
conhecimento infalível. Como B. B. Warfield tão claramente deduziu: assim
que se compreende claramente que batizamos com base numa pressuposição,
e não com base em conhecimento, é inevitável que batizemos a todos aqueles
de quem, por alguma razão, tenhamos uma pressuposição fundada de que
pertencem ao povo de Deus, e isso seguramente inclui os filhos dos crentes.
Eles estão compreendidos nesta classe geral de pessoas que desfrutam os
privilégios da igreja visível, seu culto e sua comunhão, sua instrução e os
meios de graça. Eles estão, com toda certeza, entre os que Deus encarrega sua
igreja de cuidar e tratar como pertencentes a seus limites e sob sua vigilância
e cuidado.
4. O pacto proclamado aos convertidos e a seus herdeiros
Para os adultos que não são herdeiros das famílias pactuais, a pregação da
Palavra visa a enfrentá-los com o fato de que são estranhos às promessas de
Deus, condenados com o mundo dos incrédulos, e estão se defrontando, sem
esperança, com o juízo divino. Deus vem a eles com sua maravilhosa graça, a
oferecer-lhes, igualmente a seus herdeiros pactuais, a salvação eterna. Eles
podem receber a salvação, caso se arrependam e creiam no Senhor Jesus
Cristo como seu Salvador pessoal. A fé em Cristo os incluirá no pacto divino, e
podem receber o sinal e o selo dessa relação pactual: o Batismo. Passarão a
compreender que é como se Deus já houvesse cumprido sua parte do pacto e
que agora eles estão cumprindo a sua. Mas, antes, é preciso ensinar-lhes que
o pacto já foi cumprido por Cristo, em seu favor. Pela fé já receberam, nele, o
cumprimento do pacto. Por meio de Cristo, os que estavam completamente
fora do pacto e seus privilégios agora são considerados dentro dele, pela fé em
Cristo. Esta é uma das grandes verdades fundamentais atestadas no Batismo
dos adultos convertidos. A fé é sempre a resposta do homem ao pacto divino
da graça. Assim o evangelho se direciona àqueles que não são herdeiros de
pais que já estão inseridos no pacto, e que recebem a Cristo até chegarem à
idade adulta.
Consideremos então os pequeninos que são herdeiros de pais que já estão
inseridos no pacto. O evangelho está indicado de uma forma bem distinta. Os
herdeiros do pacto se defrontam com o fato de que nasceram dentro dos
privilégios pactuais e são herdeiros das promessas. Essas promessas divinas
lhes foram seladas no Batismo, em sua infância. Agora se acham na obrigação
de confirmar a relação pactual mediante um ato de fé pessoal no Mediador do
pacto, o Salvador Jesus Cristo. Devem reconhecer que, embora nasçam dentro
dos privilégios do povo pactual de Deus, e com os meios de graça, lhes é
necessário confirmar a relação pactual por si mesmos. Tais herdeiros
confessam que somente Deus pode dar-lhes o poder de se apropriarem, pela
fé, das bênçãos pactuais. Aceitam o Fiador do pacto, o Senhor Jesus Cristo. A
fé, que não era um requisito prévio para a criança por ser herdeira legítima do
pacto da promessa, agora é necessária para confirmar e apropriar-se da
bênção prometida. O compromisso com o pacto é visto pelo herdeiro como o
mais elevado privilégio, o mais forte incentivo para excitar sua vontade e fazê-
lo agir de conformidade com a fé. Toma conhecimento de que a graça de Deus
já se lhe manifestou antes que pudesse fazer ou querer algo por si próprio. Foi
a graça de Deus que fez com que nascesse no seio de uma família pactual.
Esta graça lhe confirma que Deus não designa seus eleitos mediante uma
eleição arbitrária, mas principal e normalmente no seio dos herdeiros do
pacto. Presumivelmente, isso não significa que Deus se limite a chamar
somente os que se encontram no seio de uma família pactual. Tampouco
significa que todos os que se encontram no seio de uma família pactual
certamente são salvos. Significa simplesmente que a continuidade do pacto se
desdobra organicamente, procedendo de forma natural de pais para filhos.
Este é apenas um aspecto da aliança cheia da graça de Deus com o homem
para a salvação; mas é um aspecto extremamente maravilhoso e que deve ser
tido na mais elevada estima.
Tendo tratado extensamente o tema do pacto da graça e do pacto da
continuidade, que é a igreja, prossigamos logicamente com o assunto das
ordenanças sacramentais na igreja. Todos estes aspectos doutrinais se acham
tão estreitamente ligados, que só é possível conceber um deles em correlação
com os demais. Portanto agora, a fim de estudar a natureza e o lugar das
ordenanças sacramentais na igreja visível, estejamos, antes, em condição de
entender que, assim como a Circuncisão foi o rito que marcou o ingresso no
pacto na dispensação veterotestamentária, o Batismo é o rito que marca o
ingresso no pacto na dispensação neotestamentária.
Capítulo 5
A NATUREZA E O
LUGAR DOS SACRAMENTOS

Em cada dispensação há ordenanças especiais que acompanham o pacto.


Estas se chamam ordenanças sacramentais, ou simplesmente sacramentos.
Como já vimos, estes são de dois tipos: iniciatório e comemorativo. Ora, quer
nas dispensações antes a Cristo, ou nas seguintes, as ordenanças
sacramentais são habilidosamente designadas por Deus, de uma maneira
convincente, para significar a relação pactual. Assim como a nova dispensação
seguiu a antiga, também o sinal do pacto, ou sacramento, da antiga foi
sucedido pelo da nova. Já vimos também que o sacramento iniciatório afetava
não só os crentes, mas também seus filhos. Já falamos sobre o princípio de
que o lugar das ordenanças sacramentais, na antiga dispensação, continua na
nova, a menos que se declare uma alteração ou renovação expressa.
A Bíblia não contém o que se poderia chamar, corretamente, uma doutrina
sistematizada das ordenanças sacramentais. É provável que isso se deva ao
fato de que muitas teologias não têm ensinos consistentes sobre os
sacramentos. Mas isso não pressupõe que os sacramentos não exerçam um
papel essencial na Bíblia! Nem significa que seja impossível deduzir da Bíblia
um ponto de vista sistemático sobre os sacramentos. A igreja, desde os dias da
Reforma, adotou um ponto de vista sistemático. Só foi em anos recentes,
marcados pelo descuido teológico, na formulação bíblica sistemática, em
geral, que se fez necessária uma doutrina vital dos sacramentos.
De uma maneira interessante, o ensino dos sacramentos se encontra
incidentalmente misturado com as discussões de outros assuntos
importantes. Há carência de textos que mencionem um determinado
sacramento em particular, digamos o Batismo, e que o explique plenamente
em sua amplitude e significado. Temos que reunir fragmentos de várias
partes da Bíblia. Um dos problemas do que a Bíblia expõe é distinguir
claramente qual o principal assunto a discutir; em seguida valorizar os
enunciados incidentais relativos às ordenanças sacramentais. A principal
ilustração desse fato são as referências incidentais ao Batismo que se
encontram em Romanos 6. Com muita frequência os expositores dão como
fato conclusivo que em princípio a passagem se relaciona com o Batismo,
quando é uma resposta à pergunta: “Permaneceremos no pecado, para que a
graça seja mais abundante?” (v. 1). Nesta resposta, Paulo assinala
incidentalmente um significado primordial do Batismo. O erro comum está
em se tirar a seguinte conclusão: o que Paulo aludia em seus comentários
incidentais é tudo o que há para se dizer do Batismo e seu significado
espiritual. No entanto, veremos que isso só é possível se ignorarmos outras
passagens.
A palavra sacramento não se encontra na Bíblia, de modo que, para usá-la,
temos que definir seu significado. Isso não é simples, pois há várias coisas
que devemos dizer acerca de um sacramento. Este é um tipo especial de
ordenança na igreja visível. Serve como um testemunho visível, um sinal e
um selo; uma marca ou um ato que autentica ou certifica. É um rito externo,
e assim representa um ato espiritual ou de comunhão. É uma ordenança
especialmente associada com o pacto da graça. Ela varia para que possa ser
apropriada à dispensação na qual se encontra. É administrada a mais de uma
classe de pessoas: às regeneradas e às que pretendem ser regeneradas; aos
adultos convertidos e a seus filhos menores que são seus herdeiros.
Talvez a melhor definição para o propósito deste estudo – definição que
pode muito bem ser deficitária ante sua vasta implicação – seja a seguinte:
“Sacramento é uma santa ordenança instituída por Deus para sua
comunidade pactual, a igreja, na qual, por meio de sinais visíveis da graça de
Deus em Cristo, e os benefícios do pacto da graça, estão representados,
selados e certificados para o recipiente, seja ele adulto convertido, ou seu
herdeiro pactual.”
Os sacramentos assinalam o fato que Deus criou o homem de tal modo
que este se relaciona com o meio através dos sentidos, particularmente os da
visão e audição. A Palavra de Deus se acha aparelhada para a audição; os
sacramentos, para a visão. A verdade dirigida à audição, na Palavra de Deus,
está simbolicamente representada na visão dos sacramentos. Visto que o que
de fato se experimenta por meio de mais de um dos sentidos é mais
significativo, o sacramento é adicionado à Palavra como um meio de graça
com o fim de confirmar e tornar essa Palavra a mais segura de todas. É um
auxílio para a debilidade dos sentidos humanos e para sua segurança.
Portanto, os sacramentos são uma representação visível que ampliam a nossa
atenção em direção às bênçãos espirituais que nos são declaradas na Palavra.
Ampliam a fé do crente para que este responda à Palavra decretada nos
sacramentos. Por meio da Palavra e dos sacramentos, Cristo é realmente
representado e é revelado a todos os que respondem pela fé. A Palavra é
audível; os sacramentos são visíveis. A apresentação de Cristo é central, tanto
na Palavra como nos sacramentos. E quer pela Palavra ou pelo sacramento
que confirma, a fé é necessária para que alguém participe da graça oferecida.
Isto está claramente estabelecido no parágrafo 34 da Confissão das Igrejas
Reformadas da França: “Cremos que os sacramentos são adicionados à
Palavra para sua mais ampla confirmação, de maneira que nos sejam
garantias e selos da graça de Deus, e por esses meios auxiliar e sustentar
nossa fé em virtude de nossa insegurança e carência de maturidade; e que são
sinais externos pelos quais Deus opera em virtude de seu Espírito, a fim de
que não nos sejam sinais fúteis; além disso, sustentamos que toda sua
substância e veracidade estão em Jesus Cristo, e que, se forem separados dele,
se reduzirão a mera sombra e vapor.”
Uma ordenança sacramental deve proceder de designação positiva de
Deus, deve constituir tanto um sinal quanto uma garantia de bênçãos
espirituais, e deve ser consequência das promessas e mandatos divinos. Um
sacramento é um sinal perceptível de uma verdade espiritual, e permanece
em virtude do fato de que está instituído por Deus e assim declarado em sua
Palavra. Uma ordenança sacramental é estabelecida para se relacionar com o
pacto da graça de Deus com o homem, e de fato é um sinal e um selo dessa
transação pactual, atestando sua validade. O próprio Deus, pela Palavra e pelo
sinal, a si mesmo se compromete duplamente a cumprir sua promessa feita
no pacto e a facilitar suas condições. O recipiente está igualmente obrigado
pelo sinal visível, tanto quanto pela palavra empenhada na profissão de fé,
acrescentando-se o selo externo para confirmar as obrigações que pesam
sobre ele.
Encontramos no Antigo Testamento duas linhas de promessa em seus
próprios primórdios, desvinculando-se uma da outra de forma paralela e
iluminando-se mutuamente. Havia a linha da promessa incorporada na
Palavra e a linha da promessa incorporada numa representação externa. Esta
representação externa às vezes era um símbolo, e outras vezes era uma
ordenança.
Com a primeira promessa edênica de redenção, em conexão com a
enunciação verbal, ministrou-se a ordenança do sacrifício. Cristo foi
prometido, desde o princípio, tanto na Palavra como na ordenança assinalada
do sacrifício.
Quando se reafirmou a Noé, o segundo pai da família humana, a promessa
pactual, esta foi verbal e por meio de sinal perceptível, sendo o arco-íris a
representação externa do pacto da promessa. Mais tarde, quando Abraão foi
escolhido para ser o depositário do novo desenvolvimento do pacto da
promessa, uma vez mais houve palavra e sinal externo. Desta vez o pacto da
promessa foi ratificado e assinalado pela Circuncisão. E visto que Deus
estabeleceu com Abraão o modelo da comunidade pactual, a qual tinha que
permanecer até que Cristo viesse, o sinal da Circuncisão permaneceu ao longo
da dispensação da lei.
Toda a tipologia veterotestamentária revela Deus incorporando suas
promessas e sinais. Não só no regime veterotestamentário, mas também
neotestamentário, fazendo uso de nossos sentidos para nosso
desenvolvimento espiritual, ou seja, as ordenanças externas confirmam a
graça interior. Cristo, na Palavra, se acha impresso no entendimento; nos
sacramentos, se acha impresso tanto nos sentidos como no entendimento. As
ordenanças sacramentais se convertem em sinais de instrução, designada e
adaptada para comunicar precisamente as mesmas verdades comunicadas
pela Palavra. E, como a Palavra é um meio de graça sob o ministério do
Espírito Santo, assim o são os sacramentos.
As ordenanças sacramentais são testemunhos visíveis dos compromissos
pactuais de Deus com seu povo. Servem para ligar mais solidamente a
obrigação de ambas as partes: Deus e seu povo. Ratificam e confirmam, de
modo formal, a validade do pacto. Neste sentido, as ordenanças sacramentais
instruem sobre a condescendência divina para com a debilidade humana, com
Deus ratificando seu compromisso da mesma forma e com o mesmo
propósito como se dá, em nossos dias, com uma escritura firmada e selada,
com o fim de atestar um compromisso que não pode ser anulado,
proporcionando assim segurança adicional de seu cumprimento a ambas as
partes.
Para os propósitos deste estudo, devemos entender especialmente três
coisas acerca da natureza dos sacramentos. As primeiras duas declarações que
seguem usam palavras bíblicas. O que queremos significar por sacramento é
simplesmente o que a Bíblia quer dizer quando usa as palavras sinal e selo.
Estas se encontram associadas, por exemplo, em Romanos 4.11: “E recebeu o
sinal da Circuncisão como selo da justiça da fé.” A terceira das declarações
seguintes emprega uma designação comum à teologia reformada: (1) Os
sacramentos são sinais; (2) Os sacramentos são selos; (3) Os sacramentos são
meios de graça.
1. Um sacramento como um sinal
Começamos com uma palavra bíblica e buscamos seu significado exato.
Presumivelmente, os sinais pressupõem algo que pode ser representado. Os
sinais indicam algo. Os sinais representam alguma coisa à parte deles. Aquilo
que se representa na Bíblia por meio de sinais indica, de várias formas, ser o
pacto da graça, a justiça da fé, a conversão, a comunhão com Cristo, etc. Em
resumo, o que o sacramento representa é a Cristo e a todos os seus benefícios
espirituais.
Logicamente, esse sinal se relaciona com o estabelecimento formal da
comunidade pactual com Abraão. Quando Deus confirmou seu pacto com
Abraão e com sua posteridade, ele ordenou a Circuncisão como a marca
visível. Isso é expresso em Gênesis 17.11: “Circuncidareis a carne de vosso
prepúcio; será isso por sinal de aliança entre mim e vós.”
Os sacramentos, em toda a sua extensão, como provas ou sinais, são
escolhidos por Deus de acordo com uma analogia predeterminada, a fim de
exibir e representar, num simbolismo claro, os benefícios que são invisíveis e
espirituais. Os sacramentos, por meio de uma analogia e compreensão
imediata, assinalam realidades e relações espirituais internas.
Ora, é evidente que nenhum sinal externo pode representar cabalmente a
realidade espiritual que lhe é dado significar. As analogias humanas nunca
são completas ou perfeitas. Há distintivos em qualquer analogia que podem
ser reconhecidos, e até nesse ponto a analogia é um mero auxílio. No entanto,
a intenção de Deus nunca visou somente à analogia para que o sinal viesse a
ser útil. Antes, o sinal serve pela simples e suficiente razão de que é um sinal
que Deus designou. O sinal transmite exatamente tanto o significado como o
que Deus lhe designa. Compreender este princípio fundamental evita o erro
de limitar o sentido de uma coisa representada à analogia que alguém é capaz
de delinear. Este importante princípio será lembrado quando chegarmos à
consideração da riqueza de significado inerente ao simples rito batismal da
aspersão. Sua analogia é restringida, mas sua capacidade para transmitir o
sentido espiritual de sua amplíssima compreensão não é limitada. Então se
verá que é capaz de transmitir todo o sentido que a Bíblia anexa ao Batismo.
2. Um sacramento como selo
Quanto à palavra selo, com frequência a encontramos na Bíblia. A dificuldade
está em quê se usa a palavra pelo menos em duas formas separadas. Por
exemplo, selar um documento não é o mesmo que selar o túmulo de Cristo.
Os sentidos literais das palavras gregas e hebraicas são bastante claros, mas
os sentidos metafóricos às vezes são duvidosos. Uma coisa está clara quanto
ao uso da palavra em conexão com as ordenanças sacramentais: selar é
atestar, certificar, marcar que uma pessoa possui o direito de propriedade.
Em relação a isso, é também importante lembrar que um sinal e um selo de
um sacramento visam principalmente a significar e certificar a ação de Deus
em nosso favor; e, secundariamente, são apenas testemunhos de nossa
resposta.
Um selo imprime autenticidade e certifica algo. Mais adiante veremos a
maravilhosa verdade de que o Espírito Santo sela o crente. Três passagens
ensinam esse fato, indicando que o próprio Espírito Santo é o selo sobre o
coração do crente. Ele marca os verdadeiros crentes e testifica com o espírito
dos crentes que eles pertencem ao Senhor. O selo fala de propriedade
soberana. O Espírito santo dá autenticidade à fé que é genuína, e, por sua
própria presença na vida, certifica a relação do crente com Cristo.
Por meio de numerosos sinais, Deus certificou ao homem seu próprio
Filho. As Escrituras nos afirmam que Cristo mesmo foi selado pelo Pai (Jo
6.27). Os sinais que fazem ressaltar e certificam a Deidade do Senhor Jesus
Cristo, ao mesmo tempo são também selos.
Os selos se distinguem dos sinais em que os selos não são apenas para
fazer lembrar de coisas invisíveis, mas realmente são para certificá-las ao
nosso conhecimento. Neste sentido, é como quando usamos selos como
marcas de fábrica, rótulos, firmas, etc. Esses selos humanos garantem a
autenticidade dos produtos, certificam a propriedade, dá validade aos
documentos, etc. Em primeiro plano, pois, a função dos sacramentos, como se
expressa pelas palavras sinal e selo, é declarar e certificar uma relação.
As ordenanças sacramentais da igreja neotestamentária são sinais e selos,
como é asseverado explicitamente no tocante à Ceia do Senhor: “Este é o
cálice da nova aliança em meu sangue derramado em favor de vós” (Lc 22.20).
Evidentemente, o elemento usado na Ceia foi para declarar e significar a nova
aliança. Indubitavelmente, a aliança em si mesma é suficientemente segura,
mesmo sem a revalidação externa, já que repousa sobre a Palavra de Deus.
Mas, em vista da debilidade de nossa fé, e adaptando-se ele mesmo aos
métodos humanos, Deus vai além da promessa verbal. Ele exibe sua garantia
mediante uma confirmação externa, na forma de um sinal e um selo visíveis.
Uma passagem que assinala o princípio envolvido se acha em Hebreus
6.17, 18: “Por isso, Deus, quando quis mostrar mais firmemente aos herdeiros
da promessa a imutabilidade de seu propósito, se interpõe com juramento,
para que, mediante duas coisas imutáveis, nas quais é impossível que Deus
minta, forte alento tenhamos nós que já corremos para o refúgio, a fim de
lançar mão da esperança proposta.” Ora, a palavra da promessa em si mesma
era suficiente para garantir a fé do povo de Deus; no entanto foi concedida
mais abundantemente: Deus não só afirmou, mas ainda jurou. Por meio de
duas coisas imutáveis, sua Palavra e seu juramento, se confirma e se
estabelece a fé dos crentes. O juramento é a garantia da Palavra.
Do juramento que confirma vamos para a ordenança sacramental que é
um selo. Nessas ordenanças sacramentais, Deus se compromete, mediante
um ato visível, a cumprir sua parte no pacto, o qual ele mesmo declarou estar
em vigor.
A Circuncisão era um sinal e um selo na dispensação veterotestamentária;
o Batismo é tanto um sinal como um selo na dispensação neotestamentária.
Contudo, uma ordenança sacramental é mais que isso: é um meio de graça. É
para este aspecto que devemos volver agora nossa atenção.
3. Um sacramento como um meio de graça
A graça de Deus acompanha o sacramento quando este é recebido pela fé. O
sinal externo se converte num meio empregado pelo Espírito Santo para a
comunicação da graça divina. Estes sacramentos, como meios de graça, não
são necessários para a salvação; porém são obrigatórios, visto que são
estabelecidos por mandado de Deus. É necessário que se entenda que, embora
os sacramentos sejam meios genuínos de graça, somente a fé é que faz com
que o sinal visível e a graça eficaz coincidam. O sacramento é garantia do que
o recebe diante Deus no pacto da graça, mas isso deve ser confirmado por um
ato de fé pessoal. O sacramento separa o que o recebe, como propriedade de
Deus, e este fato testifica diante dos homens. Às vezes isso precisa ser
reconhecido devidamente por aquele que o recebe no ato de fé e certeza
pessoal.
Na conversão do adulto, é evidente que o sacramento vem a ser um sinal
externo e selo de uma operação interior da graça. Essa graça certifica, por
meio de um ato público, a experiência interior de fé e de recepção. É um meio
de graça, já que fortalece a fé e a concretiza. Não há dúvida alguma neste
ponto; porém resta ainda ver como um sacramento, como meio de graça, pode
preceder a fé. Para muitos, isso constitui o problema do Batismo infantil.
A questão pode ser formulada assim: “O sacramento é eficaz no exato
momento em que é ministrado?” Ora, ninguém diria que a fé vem sempre
imediatamente após ouvir-se a Palavra, ainda que esta seja um meio de graça
– aliás, o principal meio de graça! O Espírito Santo, porém, nem sempre dá
uma resposta imediata à Palavra que ora se ouve. Muitos testificam do fato
que sua resposta a Deus, crendo, foi resultado de haver ouvido a Palavra em
alguma ocasião anterior. Houve um intervalo entre ouvir a Palavra e o
aparecimento de seus efeitos salvíficos. No entanto, a Palavra foi, com toda
certeza, um meio de graça usado pelo Espírito Santo para a obtenção da
resposta da fé.
Precisamente da mesma forma, com frequência há um intervalo entre a
ministração dos sacramentos e o surgimento de seus efeitos. Tome-se, por
exemplo, o sacramento da Circuncisão na antiga dispensação, como se
ministrava a um recém-nascido em Israel. Este era o sinal e o selo da relação
da criança com o pacto, muito antes que sua fé se concretizasse. Representava
o pacto que era genuíno, no que diz respeito a Deus, e que mais tarde deveria
ser notificado à criança, para que esta o recebesse pela fé. Era um meio de
graça legítimo, uma vez que, quando a criança o aprendesse posteriormente,
saberia que estava selada como herdeira do pacto, como um filho que
pertence a Deus de forma peculiar, porque nasceu numa família de pais
crentes. O sacramento a obrigava a dar resposta a este privilégio santo. E,
mais tarde, quando a fé era possível através do entendimento, o filho era
obrigado a estabelecer, consigo mesmo, a relação desse pacto e de seu sinal
sacramental, mediante a fé. Certamente havia um intervalo de tempo; mas o
sacramento permaneceu sendo um genuíno meio de graça. A fé seguia a
ministração do sacramento.
Seria cada vez mais compreensível que o pacto e seu sinal e selo
sacramentais são uma coisa para os adultos convertidos de famílias estranhas
ao pacto, e outra coisa para os filhos de famílias pactuais. Quanta confusão se
cria quando se crê que somente uma classe de pessoas tem o direito de
receber o sacramento de admissão ao pacto! A Bíblia ensina o “Batismo dos
que creem”; mas isso não significa que ela ensine unicamente o “Batismo dos
que creem”!
4. Os sacramentos de ambos os Testamentos comparados
É necessário dizer, neste ponto, que ainda estamos no processo de focalizar o
tema do Batismo, e que não nos atrevemos a omitir nenhum passo neste
enfoque. Um desses passos importantes se refere à continuidade entre os
sacramentos do Antigo e do Novo Testamento.
As ordenanças sacramentais das duas dispensações diferem em propósito
e forma, mas têm a mesma significação essencial, pois se relacionam, como
seus sinais e selos, com o único pacto da graça. As duas ordenanças
sacramentais distintivas do Antigo Testamento, que se apartavam das
ordenanças sacramentais, eram a Circuncisão e a Páscoa. Estas duas
ocupavam um lugar essencial como os dois grandes sinais pactuais. É
significativo que elas encontrem sua continuidade nos dois sinais análogos,
porém incruentos, do Novo Testamento: o Batismo e a Ceia do Senhor.
Impõe-se uma distinção explicativa posterior: o Batismo, da mesma forma
que a Circuncisão, é efetuado uma vez por todas no tocante a um indivíduo.
Não havia nada comemorativo em nenhum dos dois. Ambos tinham a ver com
a iniciação no pacto e com a comunidade pactual, estritamente; não podiam
repetir-se. Neste sentido, eram iniciatórios.
A Páscoa, como já disse, era estritamente comemorativa; e por isso se
repetia a cada ano. Esta corresponde à Ceia do Senhor, que é também
comemorativa e é observada com frequência.
Os dois eventos de maior importância na vocação eletiva de Deus a Israel
foram: (a) a vocação do indivíduo que tinha de ser pai de Israel: Abraão; (b) o
resgate da nação sob o comando de Moisés, quando essa nação se converteu
em um povo distintivo, formado como a comunidade pactual de Deus no
mundo. Estes dois grandes eventos do pacto foram marcados por dois grandes
sinais pactuais: a Circuncisão e a Páscoa. De todas as ordenanças em Israel,
estas duas se sobressaem como as duas diretamente relacionadas com o pacto
promulgado, e com razão são consideradas como duas ordenanças
sacramentais da antiga dispensação.
É muitíssimo significativo observar que ambas, a Circuncisão e a Páscoa,
têm a ver não só com a relação dos indivíduos no pacto divino, mas também
com a sua relação com outros crentes na comunidade pactual. Isto é verdade
tanto no que diz respeito ao Batismo quanto no que diz respeito à Ceia do
Senhor. Vejamos, porém, em primeiro lugar, os sacramentos da antiga
dispensação.
A Circuncisão assinala o ingresso no pacto e, subsequentemente, na
comunidade pactual. A Circuncisão pertencia, como já vimos, não à
dispensação mosaica, mas ao pacto feito com Abraão 430 anos antes de
Moisés. Foi sinal e selo do pacto que Deus fez com ele e com sua posteridade,
e também da justiça obtida pela fé. E assim era um sacramento espiritual, não
uma ordenança carnal. Representava a promessa de Deus de circuncidar os
corações do povo (Dt 30.6). Representava a obrigação a que se submetia,
quem o recebesse, de circuncidar seu coração e de viver de acordo com os
termos do pacto da graça de Deus. A natureza espiritual da Circuncisão é
ensinada por Paulo, quando declara que somente os crentes genuínos
participam da verdadeira Circuncisão (Fp 3.2, 3; Rm 2.28, 29). A Circuncisão
não podia ter sido uma instituição carnal, pois então Cristo mesmo teria sido
ministro de uma instituição carnal! Romanos 15.8 declara: “Digo, pois, que
Cristo foi constituído ministro da Circuncisão, em prol da verdade de Deus,
para confirmar as promessas feitas a nossos pais.” Isto assevera ainda que a
Circuncisão era um sacramento que confirmava e representava o pacto da
graça. Era uma operação sacramental cruenta, antecipando o sangue do
sacrifício expiatório. Era uma prelibação do sacrifício de Cristo para redimir o
seu povo.
A Páscoa, a outra ordenança sacramental da antiga dispensação, era
também um sacramento cruento. Os israelitas escaparam da sentença dos
egípcios substituindo um sacrifício que chegou a ser tipo do sacrifício de
Cristo. A família salva comia o cordeiro que era sacrificado, simbolizando o
ato propiciatório da fé – bem semelhante ao ato de comer o pão da Ceia do
Senhor. Paulo de fato afirma: “Pois também Cristo, nosso Cordeiro pascal, foi
imolado” (1Co 5.7). Foi com grande significação que nosso Senhor instituiu a
Ceia do Senhor na noite da Páscoa. Ambas eram festas comemorativas. Como
Cristo estava para cumprir a Páscoa com seu próprio sacrifício, assim ele
instituiu a festa comemorativa que havia de sucedê-la.
Havendo examinado apenas os sacramentos da antiga dispensação, e
voltando sucintamente à natureza da Circuncisão como o sacramento de
admissão no pacto da antiga dispensação, dedicamos tempo suficiente a fim
de delinear as importantes diferenças entre os sacramentos de ambos os
Testamentos:
4.1. Lado a lado com os sacramentos, Israel tinha outros tantos ritos
simbólicos, ordenanças não-sacramentais, como as oferendas e as
purificações; no tocante aos sacramentos neotestamentários, somente dois
foram mantidos. Já não há necessidade de tipos, porque Cristo, o grande
Arquétipo, já veio.
4.2. Os sacramentos de ambas as dispensações são provisórios. No
entanto, os sacramentos da antiga dispensação vigoraram até o primeiro
advento de Cristo, enquanto que os da nova dispensação estão em vigência
desde a ressurreição de Cristo até seu segundo advento. Então as promessas
contidas no pacto se cumprirão, e já não haverá necessidade de serem
representadas e certificadas por ordenanças sacramentais.
4.3. Os sacramentos da antiga dispensação apontavam para a vinda de
Cristo, e foram sinais da graça que subsequentemente sua morte e
ressurreição haveriam de obter. Os sacramentos da nova dispensação
apontam, de uma forma retrospectiva, para a obra consumada de Cristo. Estes
dois sinais são apropriados às suas respectivas dispensações.
4.4. Os sacramentos da antiga dispensação eram cruentos, antecipando o
sacrifício do Salvador. Mas os da nova dispensação são incruentos. A
Circuncisão implicava o derramamento de sangue, e a Páscoa era um
sacrifício cruento. O sangue do pacto eterno já foi derramado uma vez para
sempre no sacrifício de nosso Senhor Jesus Cristo, o Cordeiro do Calvário.
Agora já não há mais derramamento de sangue nas ordenanças sacramentais
da igreja.
4.5. Na vocação singular de Israel, os sacramentos tinham um aspecto
nacional antes que espiritual. Isto era apropriado, visto que Deus chamou
Israel para formar uma teocracia, uma igreja em forma de nação. Mas estas
bênçãos nacionais e materiais têm caráter adicional e incidental com respeito
às bênçãos espirituais mais fundamentais e permanentes. O que era
fundamental e essencial foi mantido nos sacramentos da nova dispensação.
4.6. As bênçãos da antiga dispensação, como representadas pelas
ordenanças sacramentais, foram sucedidas por bênçãos muito maiores na
nova. Isto está em plena harmonia com a abundância de graça disponível
desde a morte, ressurreição e ascensão de nosso Senhor Jesus Cristo, e o dom
do Espírito Santo à igreja.
Uma vez diferenciadas e comparadas as ordenanças sacramentais de
ambas as dispensações, enfatizando suas dessemelhanças, encerramos esta
seção reafirmando que, essencialmente, os sacramentos das duas principais
dispensações que ocorrem antes e depois de Cristo, são sinais e selos do único
pacto da graça. Quão básico é isto virá à lume quando compararmos, com
mais amplitude, o sacramento iniciatório na antiga dispensação, a
Circuncisão, com o da nova, o Batismo. Se nossa premissa é correta, então
muito do que se pode aprender do sentido e aplicação do sacramento
iniciatório na antiga dispensação lançará luz sobre o sentido e aplicação
corretos do sacramento iniciatório que o sucedeu na nova dispensação.
Abordaremos esse exame no que vem a seguir.
Capítulo 6
OS SACRAMENTOS DA CIRCUNCISÃO
E DO BATISMO COMPARADOS

1. Natureza e lugar da Circuncisão


A Circuncisão foi designada por Deus para ratificar o pacto relacional entre
ele mesmo e seu próprio povo, e para servir continuamente como sinal e selo
para a certificação e representação dessa relação. Como Calvino o expôs de
maneira vívida, na Circuncisão “Deus registrou seu pacto na carne de Abraão”.
O derramamento de sangue era parte necessária nesta operação sacramental,
em virtude do princípio de que todas as relações pactuais entre Deus e o
homem tinham de ser ratificadas no sangue que falava de expiação. O sangue
apontava para (a) a necessidade do homem em decorrência do pecado; (b)
para o castigo do pecado, que é a morte; (c) e para a morte de um substituto
divino, pelo qual o homem seria redimido. Através de todas as gerações, o
povo de Deus recorda, por meio das ordenanças sacramentais, que “sem
derramamento de sangue não há remissão de pecados”. A Circuncisão aponta
para o tempo em que Deus ratificaria seu pacto no sangue do Redentor. A
operação na carne representava a operação da graça de Deus no coração,
separando a vileza da natureza carnal e purificando o coração de todo pecado.
A aparente estranheza da Circuncisão, como o rito designado, consiste em
fazer uma operação no membro reprodutivo masculino. O homem era o
representante e cabeça da família; ele representava a si próprio e a sua
posteridade. Não era só o chefe de família que portava o sinal da Circuncisão,
mas também as crianças do sexo masculino na família pactual, da qual ele era
a cabeça. Assim, o sinal e o selo pactuais eram postos sobre todas as futuras
cabeças de famílias, quando ainda eram criancinhas. A criança que recebia o
sinal e o selo da Circuncisão era considerada como um herdeiro do pacto da
promessa, como a futura cabeça de uma família pactual. Este mandamento
divino, com referência à Circuncisão das criancinhas, repousava sobre o
princípio de pressuposição. De fato, a marca da Circuncisão sobre a criancinha
não só indicava a pressuposição de seu próprio e futuro lugar no pacto, pela
fé, mas também o de sua posteridade. O sinal sempre apontava para adiante.
Pelo uso deste sinal e deste selo, a provisão pactual era claramente
pressuposta. A família pactual de Deus é orgânica por pressuposição.
Quando uma criancinha judaica era circuncidada, declarava-se que ela
ingressava no pacto. Efetivamente significava que a criancinha nascia no
pacto relacional, porque nascia de pais pactuais, e essa Circuncisão ratificava
esse fato. Em outros termos, a Circuncisão seguia o reconhecimento de que o
parentesco era efetivo.
Os pais agem como representantes de seu filho ao cumprirem o rito da
Circuncisão. Por meio deles, o menino assume a obrigação pactual. E assim os
pais reconhecem sua própria responsabilidade e expressam sua fé em que
Deus cumprirá, em seus filhos, suas promessas pactuais. É óbvio que os
filhos recém-nascidos dos crentes, não podem apropriar-se dos privilégios da
igreja por algum ato pessoal, como fizeram seus pais. No entanto existe o
princípio familiar de representação, por cuja consequência os recém-nascidos,
em certos casos e para certos fins, são considerados um com seus pais, e por
meio desse parentesco obtêm o direito aos privilégios de seus pais. Vemos
este princípio representativo na sociedade civil, quando, em consequência de
serem contadas com seus pais, as criancinhas se tornam membros da
sociedade civil da qual o pai é membro, e sua posição civil é a mesma de seu
pai. Vemos este princípio na providência divina, porque, em virtude do
parentesco com seu pai, os filhos herdam suas características. A herança não
é algo que os filhos rejeitam. Assim também os filhos são feitos um com seus
pais na culpa e no castigo de seu pecado, participando de sua natureza
pecaminosa. Já estudamos o princípio da imputação e também o princípio da
relação dos pais como veículos da graça de Deus.
Parece claro, pois, que Deus trata com os filhos menores sob o princípio
representativo, quando ainda não pode tratar com eles sob o princípio da
responsabilidade pessoal. Deus formou sua igreja visível com o fim de incluir
os filhinhos dos crentes, e fez isso não em conexão com algum possível ato
pessoal dessas crianças, mas em conexão com o ato de seus pais. A
membresia dos pais é levada em conta para os filhos, e a Circuncisão do pai
dava direito ao filho de ser ele mesmo também circuncidado. O filho cresce
levando a marca pactual, o sinal e o selo da promessa misericordiosa de Deus
para com ele. Ao lembrar permanentemente que é um filho de um pacto
misericordioso, ele se confronta com o requerimento de que também cumpra
suas obrigações pactuais. O pai ainda se lembra que seus próprios filhos
nasceram sem a relação pactual, e que eles também terão que portar o sinal e
cumprir suas obrigações. O pacto relacional do filho, antes ratificado pelos
pais quando submeteram seus filhos ao sinal e ao selo, o filho mais tarde o
confirmará quando estiver capacitado a expressar verdadeiro arrependimento
e fé. Em Israel, sempre que um filho repudiasse o pacto, por iniciativa
própria, o mesmo era excluído da família e da congregação.
A ratificação do pacto, no sangue, aponta retrospectivamente para a queda
de Adão e para a primeira promessa misericordiosa de Deus de redimir o
homem. Aponta para o sangue substituto de um animal, derramado para
fornecer a roupa que cobrisse a vergonha de Adão. Indica o verdadeiro sangue
pactual, derramado pelo Redentor divino. Agora, de forma concebível, o
sacrifício cruento de um animal podia ser tudo o que Deus requeria para
ratificar seu pacto. Por si só, esse sangue podia servir como sinal e selo
adequados. Deus, porém, queria enfatizar o fato de que o pacto da promessa
incluía a posteridade do crente. A partir do momento em que os filhos recém-
nascidos também ingressaram no pacto da promessa, acrescentou-se à
Circuncisão o sangue do sacrifício. Ambos, pais e filhos, estão ligados por esse
sinal visível, para que cumpram as obrigações impostas pelo pacto relacional.
Nosso Senhor cumpriu o pacto cruento de redenção, quando derramou seu
precioso sangue no Calvário. Em conformidade com Hebreus 13.20, foi “o
sangue da eterna aliança”. Como nosso Representante, ele levou em seu
próprio corpo a marca pactual, e ele mesmo disse: “A Circuncisão não é de
Moisés, e sim dos patriarcas.” Em outras ocasiões, em sua própria
Circuncisão, ele não estava cumprindo a lei, e sim o pacto feito com Abraão e
sua posteridade. Mas, identificando-se ele mesmo com o povo, pela
Circuncisão (e mais tarde com o Batismo de João para arrependimento),
Jesus se preparou para instituir-se como seu Representante. Assim também
fez ele no Calvário, e ali cumpriu o pacto em seu próprio sangue.
Há uma lição profundamente instrutiva numa passagem pouco
compreendida, a saber: Êxodo 4, que fala da falha de Moisés em não
circuncidar seu próprio filho. A ira de Deus se inflamou contra Moisés. Êxodo
4.24-26 declara: “Estando Moisés no caminho, numa estalagem, encontrou-o
o Senhor e o quis matar. Então, Zípora tomou uma pedra aguda, cortou o
prepúcio de seu filho, lançou-o aos pés de Moisés e lhe disse: Sem dúvida, tu
és para mim esposo sanguinário. Assim, o Senhor o deixou. Ela disse: Esposo
sanguinário, por causa da Circuncisão.” Se o sangue da Circuncisão não fosse
derramado, então o sangue de Moisés é que seria requerido. O sinal e o selo
do pacto não eram assuntos de pouca importância. É possível que o homem
conclua que pode prescindir deles; mas, seja como for, ele constitui uma
ordem divina. Ignorância é uma coisa, mas os pais que conhecem a veracidade
do pacto não devem desprezar ou considerar de somenos importância seus
privilégios e obrigações.
Entre outras coisas, a Circuncisão aponta para a impureza da natureza
humana em decorrência do pecado, e especialmente a impureza que se
transmite de pai para filho. O pecado reside na natureza do homem caído. A
Circuncisão ensinou que a descendência física de Abraão não era suficiente
para gerar verdadeiros israelitas. A propagação não é um processo
pecaminoso como tal, mas seu produto, sim. Equivale a dizer que a natureza
humana é imunda desde sua própria fonte, e a natureza humana não pode vir
à existência sem a mancha do pecado dos pais.
Uma das induções é que, embora Deus prometesse um Redentor, e que
esse Redentor devesse ser tanto homem quanto Deus com o propósito de ser
Representante do homem, a natureza humana é incapaz de produzir a
Semente prometida. E assim a Circuncisão foi o sinal e o selo de um fato
extremo, a saber, que Deus se comprometera, por meio de uma promessa
pactual, a proporcionar, do seio da raça, essa Semente redentiva, já que a
natureza humana não podia produzir essa Semente. A solução divina para
este problema palpável se apresenta com o nascimento virginal de nosso
Senhor Jesus Cristo.
É importante reconhecer que a Circuncisão normalmente se efetuava só
nos filhos recém-nascidos. A Circuncisão de adultos só se realizava nos
prosélitos ou conversos, como os chamaríamos hoje, e isso era relativamente
raro. Não eram herdeiros legítimos da fé de Israel, particularmente a fé no
Redentor que haveria de vir. Então, como adultos conversos, seu certificado
era a Circuncisão. O mesmo princípio é sustentado na dispensação cristã. Há
o Batismo dos filhos recém-nascidos dos crentes como normalmente se
ministra nas igrejas reformadas. Há também o Batismo de adultos conversos
que entram na relação pactual e na igreja visível, como a comunidade pactual,
pela fé no Senhor Jesus Cristo.
2. Analogia entre a Circuncisão e o Batismo
Como já vimos, o Batismo, na dispensação neotestamentária, bem como a
Circuncisão, na dispensação veterotestamentária, constituem o sinal do pacto
da graça. Já notamos o sentido do pacto relacional entre Deus e os crentes,
bem como entre Deus e os filhos dos crentes. Por razões apropriadas, o
Batismo da nova dispensação veio suceder a Circuncisão da antiga. Deve-se
manter a mesma distinção entre as criancinhas e os adultos como recipientes
apropriados. Deus decretou esta ordenança sacramental para os adultos que
entram em relação pactual mediante o arrependimento e a fé, e para seus
filhos menores, ainda não cônscios de arrependimento e de fé. Por analogia,
inferência e dedução, a doutrina do Batismo neotestamentário se funda
solidamente no Antigo Testamento. Sendo obviamente verídicas certas partes
da analogia, as outras partes devem harmonizar-se. Desde que ambos, a
Circuncisão e o Batismo, são evidentemente ordenanças sacramentais que,
em suas respectivas dispensações, continuam sendo o sinal e o selo da
admissão no pacto e em seus privilégios, a correspondência, em todos os seus
pontos, deve ser discernida com um pouco de estudo. Desejamos demonstrar
esse fato a seguir.
Por que se exigiu de Abraão que cresse para que pudesse receber o sinal,
quando seu filho Isaque o recebeu antes mesmo de estar capacitado a crer?
Porque, da mesma forma, o adulto que não é membro do pacto deve antes
conhecer e crer para entrar nele e receber seu sinal. E uma vez que Abraão foi
o primeiro com quem Deus fez um pacto de relação e impôs um sinal pactual,
a fé de Abraão tinha de preceder o sinal. Ele tinha que preencher os mesmos
requisitos que hoje se aplicam aos adultos convertidos. Isaque, porém, estava
na mesma posição de todas as crianças que nascem numa família pactual.
Como herdeiro da família pactual, ele desfrutava do direito de receber o sinal.
Não existe equívoco algum; a única base para o Batismo das crianças e dos
adultos, igualmente, é sua relação com o pacto da graça. Para os adultos
conversos, o Batismo segue a fé e é o sinal e o selo que representam e
certificam essa fé. No entanto, para os filhos pequenos dos crentes, o Batismo
precede a fé, é o sinal de que são herdeiros do pacto da promessa e significa
que é o meio de graça para atrair as crianças à fé em Cristo.
Os que negam o Batismo infantil, só são consistentes se negarem também
a Circuncisão dos recém-nascidos do sexo masculino do antigo pacto.
Qualquer argumento empregado contra o Batismo infantil pode ser
empregado, com igual força, para a Circuncisão de crianças. No entanto, a
prática veterotestamentária ratifica a prática neotestamentária. É possível
perceber a falácia da afirmação de que o Batismo infantil é uma estultícia,
visto que uma criança não tem consciência do que está acontecendo. Esta
objeção põe em xeque a sabedoria e as instruções divinas. Porque, se é fútil
borrifar um pouco de água sobre a cabeça de uma criancinha num rito
pactual, então é um crime mutilar uma criança pela Circuncisão num rito
pactual! Uma vez admitido que uma criança não sabe o que está acontecendo
ou por que se faz isso, no entanto os pais o sabem. E Deus muito mais! E
futuramente a criança discernirá esse ato. Ninguém discutirá que o Antigo
Testamento ensinava a Circuncisão somente dos crentes. É preciso ver
igualmente que, embora o Novo Testamento ensine o “Batismo de quem crê”,
ele não ensina o Batismo “exclusivamente” de quem crê. A inferência
neotestamentária se baseia solidamente sobre fato e princípio
veterotestamentários. A única conclusão lógica é que o mesmo princípio e
prática devem ser mantidos válidos na nova dispensação, a menos que haja
uma revogação expressa. Posto que não existe tal revogação, a doutrina
bíblica exige a analogia entre a Circuncisão e o Batismo do único pacto da
graça e a identidade essencial da igreja através de todas suas dispensações
distintas, como comunidade pactual de Deus.
O argumento de que as Escrituras exigem fé antes do Batismo é
igualmente falaz. É indubitável que as Escrituras exigem fé e arrependimento
antes do Batismo – mas, de quem? Naturalmente, dos adultos! As Escrituras
não exigem arrependimento e fé de ninguém mais além dos adultos.
Ninguém, em bom senso, inferiria que o que se requer, necessariamente, dos
adultos se deva também requerer dos que não são adultos. Isto não é lógico, e
sim ilógico!
É princípio de lógica que, posto que uma conclusão deriva-se de certas
premissas, tal conclusão não deve exceder as premissas. Sobre este princípio,
as condições de Batismo requeridas dos adultos só podem provocar uma
conclusão que diga respeito aos adultos. Ninguém pode provar que o Batismo
de crianças é errôneo, provando que o Batismo dos adultos é correto. Talvez
esta ilustração nos ajude.
A Escritura diz que “se alguém não quiser trabalhar, que também não
coma” (2Ts 3.10). De fato, isto constitui um mandamento! Mas, aplique-se
algo da chamada lógica e veja-se o que sucede. As crianças não podem
trabalhar. Então, por isso também não devem comer? Para longe tal ideia! Por
quê? Porque isso obviamente não pode aplicar-se às crianças. Por que não?
Porque esse princípio só se aplica a quem é capaz de trabalhar; e as
criancinhas não podem trabalhar. Alguém pode insistir, dizendo que não está
escrito que tal princípio só se aplica aos adultos. E então devemos explicar
que não é necessário que isso estivesse escrito, posto que a inferência é óbvia.
E assim o mandamento é limitado por uma dedução natural. E isso é
legítimo? Sim, naturalmente que é. Tomemos o caso correspondente ao
Batismo.
O arrependimento e a fé só são aplicáveis aos que são capazes de
arrependimento e de fé. Portanto, este requisito não tem aplicação alguma às
crianças, pois elas não podem arrepender-se nem exercer fé. Os requisitos
aplicáveis às crianças devem ser encontrados em alguma outra parte. Em
outros termos, de acordo com nosso princípio de lógica, se as criancinhas não
estão inclusas na premissa, então elas não podem estar compreendidas na
conclusão. Devemos insistir em que as Escrituras que só podem aplicar-se aos
adultos não podem ser usadas para quem não é adulto.
Posto ser este um ponto importante, consideraremos outra ilustração da
Escritura. Lemos em Romanos 2.25: “Porque a Circuncisão tem valor se
praticares a lei; se és, porém, transgressor da lei, tua Circuncisão já se tornou
inCircuncisão.” Ora, ilógico seria proceder desta forma: a Circuncisão é
proveitosa se guardares a lei; as crianças, porém, não podem guardar a lei, por
isso sua Circuncisão não lhes traz nenhum proveito. Que absurdo! Ou tome a
segunda metade do versículo e a aplique ao mesmo sistema ilógico: se és um
infrator da lei, então tua Circuncisão se converte em inCircuncisão; mas as
crianças não podem transgredir a lei, portanto sua Circuncisão não pode
converter-se em inCircuncisão. A mesma falta de lógica pode provar, no
mesmo versículo, que a Circuncisão das crianças constitui ambas as coisas:
nada e alguma coisa!
A lógica genuína exige que as condições do pacto, aplicáveis aos adultos,
não devem aplicar-se às crianças. As duas categorias de recipientes, adultos e
crianças, devem ser mantidas separadamente.
3. Significados correspondentes da Circuncisão e do Batismo
3.1. Ambos os sinais sacramentais representam e certificam o ingresso na
comunidade pactual, com os privilégios de sua comunhão e acesso aos meios
de graça exercidos dentro da comunidade pactual. Para os adultos representa
a profissão de fé em Cristo, e para os filhinhos dos crentes representa o
direito de herdeiros das promessas pactuais.
3.2. Ambos os sinais sacramentais representam e certificam a justiça que
se obtém pelo exercício da fé. Abraão “recebeu o sinal da Circuncisão como
selo da justiça da fé” (Rm 4.11). Para os adultos, obtém-se este benefício
quando sua profissão de fé em Cristo representa verdadeiro recebimento de
Cristo como Salvador, a verdadeira confirmação do pacto da graça. Para os
filhos menores dos crentes, o sinal representa que eles também possuíam a
justiça da fé, quando, em seu devido tempo, confirmarem a pressuposição
pactual por um ato pessoal de fé em Cristo. O que de fato os adultos crentes
possuem, potencialmente também possuem os filhos herdeiros.
3.3. Ambos os sinais sacramentais representam e certificam a purificação
interior do pecado, que é obtida pela fé. Em Atos 2.38, Pedro disse aos
crentes: “Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus
Cristo para remissão de vossos pecados, e recebereis o dom do Espírito
Santo.” A água do Batismo significa remissão de pecados (purificação do
pecado) para todos os que confiam em Cristo e em sua morte purificadora. A
Circuncisão é também considerada um sinal de purificação interior. Lemos
em Deuteronômio 30.6: “O Senhor, teu Deus, circuncidará teu coração e o
coração de tua descendência, para amares o Senhor, teu Deus, de todo o
coração e de toda tua alma, para que vivas.” E lemos em Jeremias 4.4:
“Circuncidai-vos para o Senhor, circuncidai vosso coração.”
Observe-se a conexão com Atos 2.38, onde encontramos Pedro afirmando:
“Arrependei-vos e sede batizados”, e logo em seguida declara: “Pois para vós
outros é a promessa, e para vossos filhos...” (v. 39). Dificilmente poderia
haver uma exposição mais clara de que o Batismo é hoje o sinal e o selo
pactuais, o sinal sacramental da promessa que é “para vós outros... e para
vossos filhos”. Certamente isso não ensina que o Batismo seja necessário para
a salvação; porém ensina precisamente que o Batismo hoje sucedeu a
Circuncisão, como o sinal e o selo sacramentais da fé que confirma a
promessa pactual cumprida em Cristo. Não é necessário para a salvação, mas
é obrigatório, já que o próprio Cristo o ordenou.
Uma vez mais reiteramos que, o que os adultos no seio do pacto realmente
possuem, seus filhos potencialmente também o herdam. Quanta misericórdia
Deus tem para com os filhos dos crentes, baseado numa pressuposição
positiva, e não negativa! É impossível evitar a consequência de os filhos
serem um com seus pais, e isso em vida. Deve haver algum princípio definido,
tomando como base se eles têm ou não certos direitos e privilégios em relação
à igreja da qual seus pais formam parte. Deve haver um princípio ativo de
pressuposição, seja positiva ou negativa. Deus de tal maneira conectou os
meios de graça com a relação e influência dos pais, a ponto de pôr os filhos
dos crentes no seio de uma pressuposição positiva. Quão plenamente em
harmonia isto está com tudo quanto nos foi revelado pela benévola ação
divina para com o homem!
3.4. Ambos, a Circuncisão e o Batismo, representam e certificam a morte
quanto ao passado e a vida quanto ao futuro, que é um dos princípios
primordiais da redenção. Isto está relacionado com o Batismo em passagens
tais como Romanos 6.3, 4. Poucos parecem compreender que isto foi verídico
na Circuncisão. Josué fala de como toda a nação de Israel foi circuncidada
num só dia, dever esse do qual toda uma geração se descuidara por andar
errante pelo deserto. Após cumprir esse sacro dever, Deus disse: “Hoje removi
de vós o opróbrio do Egito” (Js 5.9). Isso foi feito quando eles marchavam
rumo a Canaã, a qual representava sua nova vida de bênção prometida.
Reiteramos: o que os crentes pactuais adultos realmente possuem,
potencialmente os filhos menores herdam mediante promessa.
3.5. Ambos, a Circuncisão e o Batismo, representam e certificam a união
com Deus. Esta união se concretizou, em toda a sua plenitude, após a
ascensão de Cristo, na descida do Espírito Santo, uma verdade ensinada em
passagens tais como Romanos 6 e 1 Coríntios 12, entre outras. No entanto,
não se deve ignorar que a mesma verdade era evidente no Antigo Testamento.
Lemos em Jeremias 4.4: “Circuncidai-vos para o Senhor...” Em outros termos,
tinham que se separar para o Senhor, ou, como já dissemos, unir-se eles
mesmos com o Senhor.
3.6. O sinal e o selo não são algo à parte da fé, nem na Circuncisão nem
no Batismo. Somente a fé pode assegurar a bênção prometida do pacto da
graça. Esta é a chave de uma passagem que de outro modo seria muito difícil.
Lemos em 1 Pedro 3.21: “a qual, figurando o Batismo, agora também vos
salva...” Como isso poderia ser assim, quando toda a Escritura se opõe à ideia
da regeneração batismal? Pedro segue em frente: “não sendo a remoção da
imundícia da carne”, o que equivale dizer que não é por nenhum efeito de
purificação real mediante a aplicação de água, “mas a indagação de uma boa
consciência para com Deus”, indicando que tudo isso se refere à purificação
espiritual interior do Batismo real proveniente da fé. Pedro sumaria isso em
sua expressão final: “por meio da ressurreição de Jesus Cristo.” Em outros
termos, o Batismo certifica nossa salvação se ao mesmo tempo for a
certificação da fé genuína. O Batismo externo deve corresponder ao Batismo
interior que se realiza quando alguém crê sincera e realmente.
O mesmo pensamento está expresso em Romanos 2.28, 29, onde lemos:
“Porque não é judeu quem o é apenas exteriormente, nem é Circuncisão a que
é somente da carne. Porém judeu é aquele que o é interiormente, e
Circuncisão a que é do coração, no espírito, não segundo a letra, e cujo louvor
não procede dos homens, mas de Deus.” Isso não significa que o que é
exterior não seja significativo e necessário. Justamente o contrário. Significa,
antes, que o exterior deve corresponder ao interior; é a fé em Cristo, o
Mediador do pacto, que imprime realidade à promessa herdada.
Outra passagem bíblica de difícil interpretação, mas cuja interpretação,
provavelmente, seja semelhante, é a que compreende a palavra de Jesus a
Nicodemos, a saber, que é necessário que alguém nasça de novo mediante a
água e o Espírito (Jo 3.5). Esta palavra foi expressa no momento em que toda
a nação era despertada pelo Batismo de João. A ordenança sacramental do
Batismo era o pensamento primordial de todos. Provavelmente Jesus
estivesse enfatizando que a salvação requeria algo mais além do mero rito.
Não obstante, ele nunca fez pouco caso do rito. Ele, que ordenou o Batismo
cristão como um rito permanente em sua igreja, simplesmente ensinou que
se fazia necessária a purificação interior mediante o sangue de Cristo, tanto
quanto o sinal exterior do rito. Esta é outra maneira de dizer que o sinal nada
é separado da fé; mas que é de grande valor quando é acompanhado desta. Fé
é a interpretação mais natural da passagem. O sinal é eficaz quando vai
acompanhado da fé.
Tem sido comum, em alguns círculos, resolver o problema, dizendo que a
água representa a Palavra. Esta é uma interpretação do contexto totalmente
equivocada, e também do fato de que os ouvintes de Jesus nunca
compreenderiam tal interpretação, e que teriam solicitado uma explicação.
Outra passagem difícil da Escritura, que provavelmente seja interpretada
mais corretamente que as anteriores, é 1 João 5.7, 8, onde lemos: “Pois há três
que dão testemunho: o Espírito, a água e o sangue, e os três são unânimes
num só propósito.”
A passagem mais importante do Novo Testamento, que tem a ver com a
relação entre a Circuncisão e o Batismo, é Colossenses 2.11-13. Esta passagem
ensina que a Circuncisão se cumpriu espiritualmente em Cristo no coração do
crente. Entre os benefícios que o crente possui, em virtude de sua união com
Cristo, ele desfruta uma verdadeira separação da contaminação e poder do
pecado. Cristo realiza em nós uma Circuncisão [ou amputação] da velha
natureza. Por isso a verdadeira Circuncisão espiritual, por meio de Cristo,
consiste em que o crente está unido com ele, e que essa união efetua uma
separação da velha natureza do pecado. O que há de verdadeiro em nossa
posição a este respeito, há de ser eficaz em nossa pessoa real e em nossa
conduta pelo poder do Espírito Santo.
É significativo que se fale do Batismo nesta mesma passagem geral. Qual é
a conexão, caso haja alguma? Parte do sentido amplo inerente ao Batismo
espiritual diz respeito à verdadeira Circuncisão da natureza interior, que
Cristo realiza por meio da união do crente com ele. O Batismo representa e
certifica essa Circuncisão espiritual, a qual é cumprida por Cristo.
Por certo que é importante observar que esta é uma verdade capital de
nosso Batismo espiritual: a separação do pecado. Já vimos precisamente que
uma analogia é a da Circuncisão, a saber, o desprendimento do pecado. A
outra proeminente analogia para se gravar esta verdade é a da morte. A morte
separa. Ela nos separa de todo pecado. Assim, em Romanos 6, Paulo emprega
esta analogia da morte para ensinar que nossa união com Cristo é uma união
com ele na morte: morte para o pecado. E assim o Batismo representa, entre
outras coisas, a morte do crente para o pecado. Paulo declara vividamente
que, no Batismo, já fomos crucificados e sepultados com Cristo. Portanto,
ambas as analogias têm o efeito de expressar essencialmente a mesma coisa;
ambas expõem que um benefício que se acrescenta ao crente, como
consequência de sua união com Cristo (“batizados em Cristo”), é o fato de nos
acharmos desligados do pecado e mortos para ele. Que isto constitui uma
realidade, basta lermos Romanos 6, mas também se expressa que, no
desenvolvimento externo e prático desta realidade, o crente deve reconhecer
também que assim é.
Também se poderia compendiar Colossenses 2, dizendo que a verdadeira
Circuncisão interior do coração se cumpre em Cristo, e, quando isso é
recebido pela fé, lhe é imposto sacramentalmente pelo sinal e pelo selo
neotestamentários: o Batismo.
Filipenses 3.3 se harmoniza com esta verdade, ao expressar: “Porque nós é
que somos a Circuncisão, nós que adoramos a Deus no Espírito, e nos
gloriamos em Cristo Jesus, e não confiamos na carne.”
À luz desta passagem, concluímos: (a) que o Batismo é o sinal e o selo da
Circuncisão espiritual, que já foi operada por Cristo em cada crente; e (b) que
ele assumiu apropriadamente o lugar da Circuncisão como sinal e selo da
relação pactual.
Compreendemos perfeitamente por que era necessário um novo sinal.
Posto que a verdadeira Circuncisão espiritual foi cumprida por Cristo no
crente, o sinal da Circuncisão, tão apropriado na antiga dispensação, já não
podia ser na nova. O Batismo é um sinal ritual mais amplo, mais geral e,
consequentemente, de maior alcance para representar o propósito do sentido
inerente, agora, o sinal e selo do pacto da graça. É apropriado em vista dos
maiores benefícios e sentidos mais amplos de significação, agora que Cristo já
veio e o pacto se cumpriu nele. Depois que Cristo veio, a Circuncisão já não
pode continuar vigorando sem ser negado que o que ela prefigurou já se
cumprira. Em contrapartida, sua mera anulação estabeleceu essa verdade. E
assim abriu passagem para outro sinal que significaria a realidade do
cumprimento do que o primeiro sinal representava.
Para sermos precisos, não deveríamos dizer que o Batismo substituiu a
Circuncisão. O Batismo marca o ingresso da pessoa na nova dispensação,
como a Circuncisão marcava o ingresso da pessoa na antiga dispensação. O
Batismo sucedeu a Circuncisão como o sinal e selo mais apropriados sob a
nova dispensação pactual.
Dos muitos ritos cerimoniais da antiga dispensação, só se poderia reter
um sinal incruento e ser elevado como o sinal do pacto na nova dispensação,
quando já não mais tinha de haver derramamento de sangue. A maioria dos
ritos da antiga dispensação envolvia o derramamento de sangue, pois
claramente assinalava o sacrifício que Deus proveria no Salvador. O
derramamento de sangue era um traço geral das duas ordenanças
sacramentais da dispensação do Antigo Testamento: a Circuncisão e a Páscoa.
Reteve-se, porém, o sinal que representava a purificação e empregava o uso
de água, e assim se elevou para fora o sinal sacramental neotestamentário
para se ingressar no pacto. Numa seção posterior examinaremos os textos que
ensinam que a aspersão de água limpa representa a aspersão do sangue de
Cristo que purifica o pecado. Tendo já apresentado este ponto, o leitor pode
buscar em Hebreus 12.24 e 1 Pedro 1.2 matéria que nos prepare para esta
discussão.
É significativo, ao considerar a transição do sinal da antiga dispensação
para o sinal da nova, que o sinal pactual pode agora aplicar-se tanto ao sexo
masculino quanto ao feminino. Isto não era possível na antiga dispensação;
mas agora era necessário, já que o homem, como cabeça da família,
representava, espiritualmente, a família. Quando Paulo diz: “não há macho
nem fêmea”, ele faz isso num contexto delicado a fim de mostrar que as
antigas distinções já haviam sido eliminadas, e que é parte do ensino dos mais
amplos benefícios da nova dispensação. O culto já não é função exclusiva do
homem como cabeça pactual da família. Entre as muitas mudanças na
administração do pacto sob a nova dispensação está a do sinal e selo pactuais
igualmente para o homem e para a mulher.
Devemos não só enfatizar o fato que os pais, no pacto, assumem
obrigações em favor de seus filhos batizados, senão que também recebem
misericordiosas seguranças. Deus honra a fidelidade ao pacto por parte dos
pais, com sua própria fidelidade ao pacto. Ele conduzirá seus filhos à fé no
Salvador e à confirmação pessoal de seu pacto relacional. Os filhos,
seguramente, receberão aquilo que lhes foi prometido, se seus pais guardam
seus votos pactuais e educam seus filhos no conhecimento do Senhor e em
sua salvação. De conformidade com a resposta dos filhos a Deus, desde seus
primeiros anos, assim acrescenta-se graça sobre graça.
Moisés e Samuel são boas ilustrações da fidelidade de Deus ao pacto, em
relação aos pais que eram obedientes a suas obrigações pactuais. Deus
aceitava a obediência dos pais e tornava positiva sua promessa na vida dos
filhos. Enfatizemos ainda a palavra de Deus a Abraão: “Porque eu o escolhi
para que ordene a seus filhos e a sua casa depois dele, a fim de que guardem o
caminho do Senhor e pratiquem a justiça e o juízo; para que o Senhor faça vir
sobre Abraão o que tem falado a seu respeito” (Gn 18.19). Deus deu ampla
evidência da maneira como ele honra aos pais que são fiéis.
Uma das mais belas expressões do Antigo Testamento está em 1 Samuel
1.27, 28, onde lemos: “Por este menino orava eu; e o Senhor me concedeu a
petição que eu lhe fizera. Pelo que também o trago como devolvido ao Senhor,
por todos os dias que viver; pois do Senhor o pedi.” O leitor acredita que Deus
honrou o depósito fiel de Ana? Com toda certeza! Ela compreendeu que seu
filho era realmente filho de Deus; emprestado a ela como um depósito;
confiado a ela para o educar. E quando uma mulher devolve ao Senhor seu
filho, como fez Ana, você crê que porventura Deus recuse aceitar tal dádiva?
Ou você presume que Deus não cuidará do que lhe é entregue? Ou seu
cuidado falhará com respeito à salvação daquele a quem lhe é confiado para
sua comunhão eterna? Ah que benditas certezas da Palavra de Deus aos pais!
E ao dar alguém seu filho ao Senhor antes que a criança nasça, esta vem a ser
um elo na corrente de ouro da mais profunda e maravilhosa comunhão entre
o pai e o Senhor.
Se esta é uma das mais belas passagens do Antigo Testamento, ela precede
uma das mais terríveis! Lemos em 1 Samuel 2.29, 30: “Por que pisais aos pés
meus sacrifícios e minhas ofertas de manjares, que ordenei se me fizessem
em minha morada? E, tu, por que honras a teus filhos mais do que a mim,
para tu e eles vos engordardes das melhores de todas as ofertas de meu povo
Israel? Portanto, diz o Senhor, Deus de Israel: Na verdade, dissera eu que tua
casa e a casa de teu pai andariam diante de mim perpetuamente; porém,
agora, diz o Senhor: Longe de mim tal coisa, porque aos que me honram,
honrarei, porém os que me desprezam serão desmerecidos.”
Uma coisa é alguém oferecer seu filho ao Senhor; e, outra bem diferente, é
viver continuamente em dedicação fiel a tudo o que isso implica. Eli estava
disposto a morrer pela causa de Deus, e no entanto, deixou que seus filhos
seguissem o caminho que escolheram. Sua debilidade se degenerou em
maldade, e Deus não podia abençoar a seus filhos, porque, se agisse assim, a
si mesmo se desonraria! Então a casa de Eli tinha de ser alvo do juízo divino.
Jó é outra ilustração de um pai fiel. Não havia em Jó sequer uma sombra
de presunção. Lemos em 1.5 que sua preocupação por seus filhos era
contínua: “Decorrido o turno de dias de seus banquetes, Jó chamava seus
filhos e os santificava; levantava-se de madrugada e oferecia holocaustos
segundo o número de todos eles, pois dizia: Talvez meus filhos tenham
pecado e blasfemado contra Deus em seu coração. Assim Jó fazia
continuamente.” Quão amiúde um converso dá testemunho da vívida
lembrança de seus pais orando por ele nos dias de sua perversidade, e do
efeito que essas orações tiveram em sua conversão. Se esta passagem ensina
algo de Deus, é que este tem dado aos pais poder para interceder por sua
família. Temos notado que, em todo o curso das relações de Deus com os pais,
desde os dias de Noé, Deus dá ao pai o direito e o poder de agir em favor de
seu filho, com isso ensinando que interceder por eles não é o mínimo. Os pais
têm que interceder por seus filhos diante de Deus, com tanta confiança, como
o fazem por si próprios.
4. Requerimentos do pacto para os adultos conversos
Em nossa busca de fatores veterotestamentários que respaldem o Batismo
neotestamentário, chegamos à consideração dos requisitos impostos aos
conversos na antiga dispensação. Em Israel sempre houve conversos, desde
os primórdios, aos quais chamavam prosélitos. Estes não eram judeus, porém
eram recebidos na congregação e vida comum de Israel, e recebiam o sinal do
pacto, que era a Circuncisão. Para o prosélito, os privilégios pactuais eram os
mesmos que para o israelita. E era-lhe dado até mesmo um nome judaico.
Igualmente seus filhos eram considerados herdeiros da promessa pactual, e
por isso mesmo recebiam a Circuncisão. Isto sucedia a todos os filhos
menores da família. Rute, “a estrangeira”, inclusive se tornou parte da
linhagem do Messias.
Aos conversos gentílicos se requeria também que fossem batizados e que
oferecessem sacrifícios. O testemunho em prol desse fato não é da mesma
importância que o da Circuncisão dos prosélitos, pois não se faz menção de
Batismo de prosélitos no Antigo Testamento, nem nos livros apócrifos. Nem
Filo, nem Josefo fazem referência a esta prática. Nossa informação detalhada
é oriunda de fontes judaicas, que em sua presente forma são as mesmas do
final do segundo século. Talvez a primeira menção seja a de Epíteto (94 d.C.),
que fala do homem que se convertia plenamente a Israel, e o descreve como
“aquele que foi batizado e fez sua escolha”. Strack-Billerbeck conclui: “Para as
escolas de Shammai e Hillel (primeiro século da era cristã), o Batismo dos
prosélitos chegara a ser uma instituição estabelecida, e de forma alguma
discutida. Portanto, pode-se, com certeza, colocar sua origem na era pré-
cristã.” E assim se pode aceitar que o Batismo dos prosélitos foi uma
antecipação da prática cristã.
O Batismo era uma cerimônia de purificação ritual em Israel. As mulheres
eram admitidas somente por meio de Batismo, enquanto os homens eram
recebidos por meio de Circuncisão e Batismo. O Batismo significava
purificação das imundícias pagãs. A Circuncisão, como sempre, era o sinal de
que o prosélito ingressava no pacto, e assim se tornava membro da
comunidade pactual. A Circuncisão era chamada “o selo de Abraão” ou “o selo
do santo pacto”.
Deus fez provisão para “os estrangeiros” desde o próprio estabelecimento
da comunidade pactual, desde o chamado de Abraão. Havia uma forma
estipulada para que “os estrangeiros” entrassem no pacto. Já no capítulo 17 de
Gênesis, lemos que o sinal do pacto se destina também “ao estrangeiro”. A
intenção de Deus nunca foi que as bênçãos pactuais se limitassem apenas a
Israel. Este foi separado de todas as demais nações com o propósito de ser
uma nação pura e sacerdotal, que administrasse a verdade de Deus ao mundo
inteiro. Israel foi constituído como a comunidade básica do pacto na qual
todas as nações fossem recebidas. Havia sempre um lugar para “os
estrangeiros”, os quais eram certificados com o mesmo sinal e o mesmo selo
de todos os israelitas.
Toda a casa de Abraão, procedente ou não de seu sangue, eram aqueles
que o reconheciam como cabeça e representante. Promulgou-se uma
legislação completa com respeito “aos estrangeiros dentro de tuas portas”; ou,
como às vezes se denominam “residentes em Israel”. Lemos em Romanos 9.7,
8: “nem por serem descendentes de Abraão são todos seus filhos; mas: Em
Isaque será chamada tua descendência. Isto é, estes filhos de Deus não são
propriamente os da carne, mas devem ser considerados como descendência os
filhos da promessa.”
Na primeira concentração do povo de Israel, estando ainda no Egito antes
da libertação, quando se instituiu a Páscoa, “o estrangeiro” tinha seu lugar (Ex
12.19, 43-49; 15.15-17). Depois do cativeiro, a posição dos prosélitos chegou a
ser mais notável. Entre os que regressaram à Palestina, depois do cativeiro,
havia um grande número de prosélitos (Ne 10.28). Em Neemias 7.46-60, os
nomes estrangeiros, registrados entre os consagrados ao serviço do Senhor,
mostram o zelo e a devoção de alguns desses prosélitos.
No período imediatamente anterior à vinda de nosso Senhor, lemos em
Sêneca e nos Sátiros latinos constantes referências ao grande número de
prosélitos. Leia-se também Mateus 23.15; Lucas 7.1-9; Atos 10.22-24; 13.16,
43-50; 17.4-12; etc. Paulo se depara com prosélitos em cada sinagoga durante
a dispersão. Na antiga versão etiópica dos Evangelhos, a declaração do
Senhor, com relação ao zelo dos prosélitos, é traduzida assim: “Rodeais o mar
e a terra a fim de batizardes um prosélito.”
A despeito da escassez de referências aos primórdios, os mestres hebreus
geralmente ensinavam que o Batismo dos prosélitos datava de tempos
imemoriais. Embora não saibamos a que se remonta a origem dessa prática,
os fatos, com respeito ao Batismo dos prosélitos, estão em perfeita harmonia
com a transição para o Batismo cristão. Dos três requisitos para um prosélito
chegar a ser membro do povo pactual de Deus (o Batismo, a Circuncisão e o
sacrifício), é evidente que nem a Circuncisão, nem o sacrifício tivessem lugar
na dispensação cristã, após a vinda, morte e ressurreição de nosso Senhor. É
muito natural que o Batismo fosse conservado e elevado por Jesus a ponto de
chegar a ser o único sinal do pacto na nova dispensação.
Imaginemos se nosso Senhor não tivesse indicado um novo sinal pactual
para marcar o ingresso de um prosélito em sua igreja. À grande comissão
poderia, então, ter dito assim: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as
nações, circuncidando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo”
(Mt 28.19). Não é possível levantar qualquer dúvida de que os discípulos
administraram a antiga ordenança sobre o mesmo princípio, ou seja, aos pais
crentes e a seus filhos.
Podemos estar plenamente convictos de que, no que diz respeito aos
discípulos, a única coisa essencial que havia mudado era o sinal e o alcance de
seu significado, e que estava em plena harmonia com o fato de que agora o
sinal indica, retrospectivamente, uma redenção cumprida e os benefícios
maiores no presente, porque Cristo é agora o Sumo Sacerdote exaltado no
céu, o qual também enviou o Espírito Santo para habitar a igreja.
Capítulo 7
FÉ E PRÁTICA DO PACTO
NEOTESTAMENTÁRIO

1. O lugar que Jesus destinou às crianças


O fato de o Senhor Jesus haver expressado grande amor pelas criancinhas é
tão geralmente aceito, que obscurece a grande importância das passagens que
falam de sua relação com as crianças que lhe eram trazidas. A grande
importância de dar ele acolhida aos pequeninos é enfatizada pelo fato de que
o mesmo relato está, quase identicamente, descrito nos três Evangelhos
Sinóticos (Mt 19.13, 14; Mc 10.13-16; Lc 18.15-17).
Escolhendo a versão de Lucas, é impressionante notar que a palavra grega,
usada em 18.15 e traduzida por “crianças”, é brephe, que de fato significa
“bebês”. Não fica nenhuma dúvida sobre a faixa etária de crianças que os pais
levavam a Jesus. Eram bebês.
É de grande importância que os Evangelhos Sinóticos, sem exceção,
mencionem que Jesus impunha suas mãos sobre as criancinhas. Lemos em
Marcos: “Deixai vir a mim os pequeninos, não os embaraceis, porque dos tais
é o reino de Deus” (10.14). E Mateus adiciona: “para que lhes impusesse as
mãos e orasse” (19.13). Impor as mãos sobre elas, abençoá-las e orar por elas
certamente não deve ser entendido como um mero ato sentimental de
atenção para com os pais dos pequeninos. Tomemos esses fatores na ordem
de seu significado espiritual.
Primeiramente, Jesus toma as crianças em seus braços. Por si só, isso
revela sua presteza em acolher as criancinhas tão amadas por ele. Em seguida
lemos que ele as abençoava. Seria esta uma bênção sem sentido ou casual?
Seria nada mais que um gesto humano de amizade, de bons desejos que Deus
dispense bênçãos? Certamente não! Aqui está Jesus, o Salvador, ministrando
um privilégio e um favor espirituais. Do contrário, teríamos que atribuir a
Jesus um ato vazio, se não decepcionante. Certamente a pressuposição está
em favor de que esta é uma indicação do favor e privilégio pactuais
dispensados às criancinhas, praticados na nova dispensação justamente como
o fora na antiga.
Em seguida vem um ato tão facilmente compreendido pelos antigos:
“impondo-lhes as mãos.” Seria este, da parte de Jesus, um sinal vazio e sem
sentido? Se a resposta for sim, então era um gesto decepcionante e
desalentador, pois os judeus tinham uma clara compreensão do solene
significado da imposição das mãos. Desde os mais antigos tempos bíblicos,
esse era um sinal de uma bênção divina especificamente comunicada,
relacionada com pacto divino. Que esse significado ainda persistia,
demonstra-se amplamente fazendo-se uma pesquisa no livro de Atos dos
Apóstolos. Aí ele significa a recepção do Espírito Santo. De fato, por algum
tempo, a igreja primitiva acrescentou a imposição das mãos ao rito do
Batismo. Impor as mãos era também o procedimento quando um homem era
solenemente ordenado ao santo ofício do ministério, e separado para essa
vocação. Em sua expressão suprema, a imposição de mãos veio a significar o
recebimento do Espírito Santo, e em sua expressão mínima significava a
comunicação do privilégio e bênção divinos. Nunca se podia fazer tal
concessão de bênçãos e privilégios a um incrédulo, ou a alguém que não
estivesse dentro da relação pactual.
Acrescenta-se o fato expressamente registrado, em Mateus, como uma
petição que Jesus fazia por essas criancinhas, e deve-se chegar à conclusão de
que se concedia uma bênção que podia ser recebida legitimamente pelas
criancinhas. Não era um caminho mais curto [um atalho] para a salvação,
mas a confirmação dos privilégios pactuais para os filhos dos crentes. Esta é a
única conclusão a que se poderia chegar aqueles pais que apresentavam seus
filhos, e que estavam familiarizados com as práticas e promessas do Antigo
Testamento.
Lucas e Marcos acrescentam algo mais para pressupor que os adultos
devem chegar-se a Jesus da mesma forma que fizeram aquelas criancinhas.
Com frequência se pressupõe que o único sentido dessas passagens é que as
crianças apresentam o modelo de espíritos receptivos, simples e humildes.
Mas isso, que indubitavelmente oferece uma verdade de caráter adicional em
dois desses três relatos, não é absolutamente o significado central, como
revelará um estudo minucioso das três passagens. Vejamos mais de perto o
significado exato da expressão de Jesus: “porque dos tais é o reino de Deus”
(Lc 18.16).
Jesus não disse que o reino de Deus se destina a uma classe de pessoas
que se assemelhem aos pequeninos, em espírito, singeleza ou fé. Não lemos
aqui nada sobre semelhança. Ao final, ele estabelece um paralelo e faz a
aplicação aos adultos, mas antes de tudo fala das próprias crianças. Seria
difícil evitar o claro significado das palavras “dos tais é o reino”.
Naturalmente, nem João nem Jesus batizaram crianças, porquanto a nova
dispensação ainda não havia sido iniciada, e não podia ser iniciada senão após
a morte e ressurreição de Cristo, e depois que o Espírito Santo descesse sobre
a igreja. Esta forma neotestamentária da igreja começou no dia de
Pentecostes. Estava em vigor um sacramento cruento como sinal de ingresso
no pacto, até que o Salvador derramasse seu sangue em cumprimento do
pacto. No ministério de nosso Senhor, porém, anterior à sua morte expiatória,
ele podia indicar (e indicou) que o privilégio pactual permanecia ainda para os
filhos menores dos crentes por meio desse ato de abençoar, ao impor sobre
elas suas mãos e orar por elas. Isto ensina solidamente o princípio de que os
filhos menores dos crentes são legítimos herdeiros das promessas pactuais.
2. Silêncio do Novo Testamento sobre o Batismo das crianças
Muitos discutem a validade do Batismo das crianças sobre uma única base: o
silêncio do Novo Testamento no que se refere a ilustrações concretas. Falta-
nos ainda investigar uns poucos exemplos de Batismos de famílias inteiras;
mas, fora deles, o silêncio do Novo Testamento parece ser um argumento
sólido. Não obstante, o argumento do silêncio é decepcionante; o que o
silêncio parece provar pode resultar justamente no oposto. Vamos então
tentar provar que este pode ser precisamente o caso no assunto do Batismo
infantil. Não são poucas as características doutrinais do Novo Testamento,
cujos princípios descansam no Antigo Testamento e que apresentam ensinos
específicos no Novo Testamento. Por exemplo, a relação pactual que inclui as
crianças é um princípio por demais solidamente estabelecido no Antigo
Testamento para dispensar o ensino específico na nova dispensação, a menos
que vise a introduzir alguma alteração. Em outras palavras, a não ser que se
produza um estatuto expresso de revogação e proibição, a conclusão natural e
inegável é que o antigo permanece em vigor. Este é o princípio básico no
estudo do Novo Testamento em tudo quanto se relacione com o Antigo
Testamento. E, no que respeita ao Batismo, em particular, não há sequer uma
palavra que pressuponha a revogação do princípio estabelecido. Em nenhuma
parte se afirma que, no tempo do Novo Testamento, tenha sido estabelecido
algum estatuto de limitação que alterasse o caráter da igreja, a ponto de
restringi-la somente à membresia dos adultos. O silêncio do Novo
Testamento, bem como a ausência de qualquer revogação semelhante,
parecem ser poderosa prova da continuidade do princípio básico do pacto, que
faz dos filhos menores dos crentes herdeiros da promessa pactual e de seus
privilégios. Este sempre foi, e continuará sendo, o próprio coração do trato
redentivo de Deus com o homem! O Antigo Testamento estabeleceu o
princípio, e o Novo Testamento provê provas suficientes de que este princípio
não foi revogado. Esta parece ser uma forma lógica de tratar o extenso
acúmulo de evidências deste tipo.
Uma forma adicional para se avaliar o silêncio do Novo Testamento a esse
respeito é considerar o fato que não há ilustrações de Batismo de adultos,
filhos de pais cristãos, educados por estes no lar cristão e trazidos para o seio
do pacto. Tais casos já podiam ser possíveis na época em que o livro dos Atos
dos Apóstolos foi escrito. A ausência de tais relatos é evidência suficiente de
que não havia, ao que parece, Batismos de adultos que houvessem crescido no
seio de famílias pactuais. É de se presumir que foram batizados quando ainda
pequenos.
Todos os relatos neotestamentários são de Batismos de cristãos conversos.
Todos estes eram adultos. Em matéria de Batismos de famílias, não se
pressupõe que fossem excluídos do Batismo os que ainda não tivessem
alcançado certa idade. Em parte alguma nos deparamos com tal problema.
O livro dos atos delineia o programa missionário da igreja primitiva. Os
conversos se multiplicavam, e no entanto, de maneira estranha, a questão
sobre quem havia de ser batizado não ocasionava nenhuma dificuldade
notável. Suponhamos, porém, que a nova dispensação excluísse os filhos dos
crentes, mudando a posição que desfrutavam sob a antiga dispensação. E
imaginemos que esse fosse o caso quando as igrejas se compusessem só de
lares onde os filhos estavam lado a lado com seus pais, durante os momentos
de culto. Recorde-se que a igreja era denominada “a família da fé”. E recorde-
se ainda que a maioria dos cristãos se compunha então de judeus que tinham
sido instruídos em todas as doutrinas e práticas de Israel. Então presumamos
que, ao se tornarem cristãos, esses judeus entendessem que seus filhos
perderiam seus privilégios pactuais. Quando os pais recebessem a Cristo, isso
significaria, automaticamente, a perda espiritual para os filhos menores na
família. É possível imaginar, por um momento, que tal coisa pudesse ocorrer
sem nenhum ensino específico no Novo Testamento? E, especialmente, sem
nenhuma demanda ou protesto da parte dos conversos ou dos rabinos? Não
obstante, não existe nenhum protesto expresso, pela simples e suficiente
razão de que não havia tal desvio do princípio estabelecido. Se esse fato tem
algum sentido, então o silêncio constitui evidência da continuidade do
princípio pactual.
Paulo mesmo, reiteradamente, em suas epístolas, fez advertências contra
as exteriorizações judaicas que tendiam a invadir a igreja cristã. A carta aos
gálatas é um bom exemplo disso. Entretanto, ele nunca preveniu contra a
inclusão dos filhos menores dos crentes no novo sinal pactual. Com toda
certeza, essa é uma forte evidência de que ele não o considerava como sendo
um mero sinal judaico externo. Certamente ele teve toda chance natural para
lutar contra o Batismo infantil, se assim o quisesse, porque teve de lutar
contra a continuidade da Circuncisão. Ele não deu, o que poderia parecer,
uma simples resposta, ou seja, que o Batismo havia sucedido a Circuncisão,
mas, sob um escrutínio preciso de teologia, é possível entendê-lo assim. O
Batismo não só substitui a Circuncisão, mas também envolve muito mais que
isso. E, para ser mais exato, o Batismo é o sinal de ingresso no pacto, nesta
dispensação, sucedendo a antiga que tinha a Circuncisão como o sinal de
ingresso no pacto. O silêncio do Novo Testamento pode ser tomado como
eloquente confirmação do princípio de ingresso no pacto, certificado por uma
ordenança sacramental apropriada, e do princípio de que os privilégios ainda
pertencem aos filhos menores dos crentes.
Insistir que não há mandamento expresso no Novo Testamento para se
batizar crianças é equivalente a alegar que Deus declare sua vontade
unicamente por meio de ordens! Mas não é possível limitar os métodos de
revelação divina, se Deus mesmo não o fixou. Essa exigência não dá lugar a
inferências, a analogias nem a deduções. É simplesmente um ponto de vista
exageradamente estreito, que presume que alguém é incapaz de compreender
a vontade de Deus a menos que a mesma seja conhecida por meio de
mandamentos precisos.
Como ilustração, poderíamos dizer que não há ordens dadas para admitir
as mulheres à Mesa do Senhor; no entanto, este é um direito universal das
mulheres cristãs, porque esta é uma dedução óbvia. Desde o momento em
que o Novo Testamento declara que na nova dispensação não há diferença
entre homem e mulher, e visto que as mulheres já receberam a graça salvífica
e são batizadas como tais, infere-se também que elas têm o direito de se
aproximarem da Mesa do Senhor. Esta não é uma concessão baseada no
princípio da inferência. Este princípio é operante dentro de muitas
considerações da prática neotestamentária, e é válido na discussão do
Batismo. Evocamos aqui uma citação de “As Crianças para Cristo”, do
consagrado cristão Andrew Murray: “Há verdades em que cremos e deveres
que nos constrangem, para os quais não há um só capítulo claro, nem um
versículo que possam ser citados. Tomemos nossa santificação do primeiro
dia da semana, em vez do sétimo, como o requer o quarto mandamento.
Devido ao fato de que não há mandamento claro para a mudança, temos
homens que, ao guardarem o sétimo dia, insistem em sustentar que eles só
obedecem a um mandamento verdadeiramente divino e expresso. E tais
servidores da letra se recusam dar ouvidos ou a compreender o ensino do
Espírito na Escritura, sobre o qual a igreja, sem nenhum mandamento
literalmente expresso, fundamenta a santificação do dia do Senhor. E assim
se dá precisamente na referência à questão entre o Batismo das crianças e o
dos adultos. Ainda que não haja nenhum mandamento literalmente expresso
para o Batismo dos pequeninos, o estudo da Palavra de Deus, como um todo,
claramente dá a conhecer tanto a base sobre a qual ele repousa, como as
razões pelas quais não há necessidade de um mandamento explícito sobre o
assunto: que o Espírito Santo guia os homens que se entregaram
inteiramente para o seguir na aprendizagem e obediência para encontrar na
Palavra de Deus a segurança íntima de que o Batismo das crianças está em
conformidade com sua vontade.”
3. Casos registrados de Batismo de famílias inteiras
Há indicações positivas de que o sinal foi imposto às crianças das famílias
crentes, nos primórdios dos labores missionários, como é possível ver em
Atos dos Apóstolos. Dos doze casos de Batismo cristão no livro de Atos, pelo
menos três são Batismos de famílias. Com certeza o Espírito Santo, que é o
Autor da Palavra, não pode ser acusado de negligência no uso exato do
singular e do plural. É importante ler em Atos 16.14 que o coração de Lídia foi
aberto para atender as coisas que Paulo dizia, e que por isso ela e toda sua
casa foram batizadas. A história só menciona a fé de Lídia. De modo que
alguns outros adultos, membros de sua casa, teriam sido batizados sem fé (e
qualquer um negaria isso!), ou alguns dos que foram batizados eram jovens
demais para crer devidamente. Em tal caso, eles foram batizados sobre a base
da promessa pactual dada aos crentes e a seus filhos. Por certo que isto está
em perfeita harmonia com tudo o que até aqui já investigamos. Toda a relação
pactual em conjunto, através da Escritura, vem a ser a base adequada sobre a
qual essas passagens devem ser interpretadas.
Se, de acordo com os que não veem a possibilidade do Batismo infantil, a
casa de Lídia consistia unicamente de adultos que pessoalmente se
converteram, como se deu com Lídia, e foram batizados sobre a base de uma
confissão pessoal e pública de fé feita por ela só, então se torna extremamente
difícil compreender por que o Espírito Santo não menciona também seus
nomes. Por que foram simplesmente compreendidos sob o nome de Lídia,
como sendo meramente “toda a sua casa”? Ora, se admitirmos o Batismo
pactual das crianças, então se torna fácil compreender como as crianças, sem
profissão de fé e sem conversão, como a de Lídia, também foram batizadas e
suas identidades foram absorvidas pelo nome dela, fazendo-lhes referência
simplesmente como “toda sua casa”.
Em um caso parecido, descrito em Atos 16.33, o carcereiro creu, e somente
ele creu (em grego o termo é singular), e não obstante “A seguir, foi ele
batizado, e todos os seus”.
Por certo os crentes judeus do primeiro século, sem mais explicação, só
podiam presumir que o sinal pactual podia ser imposto às crianças da mesma
forma que ocorreu ao longo da história até então, quando a Circuncisão fora o
sinal.
De fato, nos casos registrados desses Batismos domésticos, a questão
central não é se os Batismos incluíam ou não, com toda certeza, os filhos
menores. A questão a se enfatizar é a ideia orgânica das unidades familiares;
toda a família participando da fé dos pais. O relato indica claramente a fé da
parte de um dos pais, e o Batismo de toda a família. Estes são os fatos, sem
nenhum acréscimo. Alguém tem que ler o que o texto não diz, caso queira
encontrar fé em todos os que foram batizados. A atitude mais natural é não ir
além do que está no texto, contudo somos obrigados a presumir que o
princípio estabelecido está em vigor, e que os filhos menores desses
conversos recebiam o Batismo pactual, como legítimos herdeiros do pacto.
4. A referência singular de Paulo às crianças no pacto
Lemos em 1 Coríntios 7.14: “Porque o marido incrédulo é santificado no
convívio da esposa, e a esposa incrédula é santificada no convício do marido
crente. Do contrário, vossos filhos seriam impuros; mas agora eles são
santos.” O termo santos é o mesmo termo usado por Paulo para os membros
da igreja, e é interpretado como separados. Originalmente, o termo significa
“ser posto de lado”, e na Bíblia é usado num sentido sagrado, isto é, de algo
separado para Deus. É usado reiteradamente no tocante a Israel. Este era
considerado um “povo santo”, não porque, individualmente, os israelitas
fossem santos em sua maneira de viver, mas simplesmente porque eles eram
o povo pactual, separado pelo pacto da graça para um propósito santo entre as
nações da terra.
Aparentemente, 1 Coríntios 7.14 é a resposta a um problema, cujos
detalhes provavelmente pudessem ser assim reconstruídos: Não há problema
acerca da situação quando ambos os pais são crentes e seus filhos desfrutam
dos privilégios pactuais; mas a dificuldade surge quando há casos em que
somente um dos pais é crente. Além disso, em alguns desses casos o crente
não é o chefe da família, e sim a mãe. Os judeus desejavam saber,
particularmente, se seus filhos eram aceitos juntamente com o pai crente, ou
eram rejeitados com o pai incrédulo. E, especialmente, como se resolvia isso
quando a esposa era a parte crente?
Paulo diz que, tanto o pai incrédulo quanto os filhos, eram uma questão
particular de Deus, em virtude do fato de um dos pais ser crente, e isto sem
levar em conta se o crente era o esposo ou a esposa. Ele não diz que os filhos,
nesta situação, são salvos. Presumivelmente, não eram. No entanto, ser
separado implica certos privilégios espirituais, pois aí repousa toda a força
consoladora da declaração de Paulo. Isto tinha um significado perfeitamente
claro para quem estivesse familiarizado com os ensinamentos pactuais do
Antigo Testamento. Um pai crente santificava a união conjugal, e os filhos
eram considerados, desse modo, como filhos do pacto, a quem, como
herdeiros, pertenciam as promessas.
Se ser santo (“separado para Deus”) nada tem a ver com a posição dos
filhos no seio das promessas pactuais, então que significado tem? A força da
palavra santos não pode ser ignorada, nem seu uso na Bíblia. A única
alternativa viável seria adaptar a palavra para ensinar a salvação dos filhos,
alternativa que é rejeitada por todos. Mas, dentro da estrutura dos princípios
pactuais, esta passagem simplesmente reafirma a posição dos filhos de pais
crentes, bem como as vantagens e privilégios espirituais que resultam para os
demais membros de uma família onde um dos pais é crente. Quão extenso é o
alcance da graça de Deus! A que ponto chega a vontade de Deus em que a
família seja una em sua fé!
5. O testemunho dos pais da igreja primitiva
É preciso ter muito cuidado quando se recorre aos pais da igreja primitiva.
A razão disso será explicada em um capítulo posterior. No entanto, há
referências de real valor, e muito se pode aprender de seus escritos. É
significativo notar, em conexão com este estudo, que nove de doze pais, nos
primeiros duzentos anos depois de Cristo, se referem ao Batismo infantil
como a prática da igreja daqueles primeiros dias do Cristianismo. Isto
estabelece um fato histórico bem definido. Como esses mesmos pais
interpretaram os fatos, é outra coisa, pois durante esse período surgiram
muitos erros no seio da igreja.
Irineu foi discípulo de Policarpo, e este fora discípulo de João, o apóstolo.
Talvez isto influa no fato de Irineu ter sido o primeiro grande teólogo bíblico,
depois dos apóstolos. É difícil extrair qualquer outra dedução das declarações
de Irineu, por haver ele crido que o Batismo infantil fora estabelecido muito
antes de seus dias. Ele afirmou: “Cristo veio salvar, através de sua própria
vida, a todos quantos, por meio dele, nascem de novo para Deus: bebês,
crianças, moços, moças e velhos.” É incerto até que ponto Irineu tenha caído
completamente no erro da regeneração batismal.
Lemos com frequência em relação a Tertuliano que este preferiu batizar
somente os adultos, e que escreveu contra o Batismo de crianças. Esta atitude
pertenceu a um período no desenvolvimento de sua teologia, e corresponde
aos dias em que ele se opunha, com maior vigor, às práticas herdadas da
igreja. Tertuliano confundiu o poder do Espírito Santo com o rito externo,
expondo assim uma doutrina de regeneração através do Batismo. Isso fez com
que, em determinado tempo, ele pusesse em dúvida o Batismo de alguns que
não tinham suficiente idade para compreender todo o seu significado. No
entanto, é preciso ter em mente que Tertuliano, em nenhuma outra ocasião,
refutou a prática, e mais tarde a reconheceu e a aceitou (De Anima, 39).
Podemos estar certos, dada a instrução do homem, de que, se Tertuliano
tivesse afirmado que o Batismo infantil fora uma inovação recente, em vez de
uma prática estabelecida há muito tempo, desde o tempo dos apóstolos,
certamente não teria vacilado em utilizar tal fato para convencer a seus
oponentes, durante o período de sua oposição doutrinal.
É provável que Orígenes tenha vivido uma geração após Tertuliano. Em
seu comentário à Epístola aos Romanos, e em sua décima quarta homilia
sobre Lucas, ele sustenta o testemunho do fato que o Batismo era
ordinariamente ministrado às crianças, desde os tempos apostólicos.
Em “Diálogo com Trifão”, de Justino Mártir (132-140 d.C.), ensina-se que
o Batismo cristão assumira o lugar da Circuncisão e do Batismo dos
prosélitos. De fato, evidências bem antigas, de que o Batismo cristão era
interpretado como uma Circuncisão espiritual, se encontram na literatura
Clementina, especialmente em “As Pregações de Pedro”, onde se vê que não
era permitido aos batizados comerem na mesa comum com os não-batizados;
regra que se aplicava tanto aos pais quanto aos filhos. Isto pressupunha
claramente o Batismo dos filhos menores, se tinham de viver e de comer num
lar cristão.
Cipriano também equiparou a Circuncisão com o Batismo infantil. Ele
discutiu com um tal Fido sobre o momento de se aplicar o Batismo, e decidiu
que devia ser o mais cedo possível. Hipólito (215-217 d.C.), na “Tradição
Apostólica”, relaciona o Batismo cristão com o Batismo dos prosélitos, de tal
modo que claramente abarca o Batismo infantil. Ele afirmou ainda que o
Batismo infantil era apostólico.
As leis da igreja primitiva falam igualmente do Batismo infantil
(Testamentum Domini, 2:8; a assim chamada Ordem da Igreja Egípcia, 16:4-
6; os chamados Cânones de Hipólito, 19:112-114; e as Constituições
Apostólicas, 6:15; etc.). Em parte alguma há evidência, no seio da igreja
primitiva, que pudessem pressupor que o Batismo infantil não fosse uma
prática apostólica desde o princípio. Posteriormente, Agostinho declarou que
nenhum concílio ordenava o Batismo infantil por esta prática vir dos tempos
apostólicos, adicionando que ele nunca ouvira ou lera de alguém, na igreja,
que sustentasse o contrário. De modo significativo, nem nas controvérsias
donatistas, nem pelagianas foi o Batismo infantil atacado.
O erro da regeneração batismal foi uma das muitas falácias teológicas que
foram introduzidas durante o período dos pais da igreja. O erro que
prevaleceu na teologia regular da igreja romana, de que o Batismo de crianças
remove o pecado original, teve suas raízes nas primeiras deserções do ensino
bíblico. Mas esses fatos não constituem a base para se afirmar que o Batismo
infantil fosse a causa do erro ou o resultado do erro. Esta suposição gratuita
pode satisfazer o propósito daqueles que estão buscando algum pretexto para
se opor à prática, porém não bastará para os que insistem numa teologia
completa do pacto, da igreja e das ordenanças sacramentais.
Capítulo 8
CAPACIDADE DAS CRIANÇAS
DE RECEBER A GRAÇA SALVÍFICA

1. Sua participação na graça salvífica


As crianças não necessitam de chegar à idade adulta para poderem ser
participantes da graça salvífica. Elas podem crescer no entendimento e na
obediência da fé. Em seus anos de imaturidade, podem chegar ao
conhecimento do Salvador. Desde seus primeiros anos, elas podem aprender
que têm um Pai celestial, que ele já lhes estendeu sua graça. É possível que
cresçam no seio da educação cristã, de maneira que nunca haja como
determinar em que dia começaram a crer no Senhor, até onde sua capacidade
lhes permite.
Isto não quer dizer que não haja épocas de dúvida e de rebelião; mas sim
significa que, com cada novo conhecimento de si mesmo e do pecado, do
Salvador e sua graça, haverá uma tendência disciplinada para o
arrependimento e para a fé. O crescimento dos filhos demonstrará o resultado
da educação paterna na fé. A fé dos filhos corresponderá ao selo de Deus em
seu Batismo. Pois os pais lhes ensinarão que Deus os selou com o propósito
de serem sua propriedade, e esses pais fiéis estarão orando para que o pacto
se concretize em seus filhos. Que Deus cumpra fielmente seu pacto será a
petição primordial dos pais, enquanto oram em favor de seus filhos. Eles
descansarão na promessa divina: “Mas a misericórdia do Senhor é de
eternidade a eternidade, sobre os que o temem, e sua justiça, sobre os filhos
dos filhos, para com os que guardam sua aliança e para com os que se
lembram de seus preceitos e os cumprem” (Sl 103.17, 18).
Não obstante, é possível que alguém indague se a igreja não estará
perdendo seu precioso tempo e energias tentando resgatar os filhos dos
crentes, perdidos em decorrência do fracasso dos pais. Alguns pais, quem sabe
a maioria, não foram instruídos com propriedade sobre suas
responsabilidades e privilégios para com seus filhos. Eles não sabem como
educá-los na fé e na prática da vida cristã. Outros pais não conhecem as
promessas de Deus em seu pacto e, portanto, não relacionam Deus com seu
pacto. Outros não permanecem fiéis às suas responsabilidades diante de
Deus. Há na igreja atual a necessidade de renovar o ensino do pacto, pois a
própria fonte da vida da igreja depende de seu cumprimento nas vidas das
crianças.
Não podemos nos equivocar nos claros ensinos neotestamentários. Longe
de excluir as crianças da igreja visível, em cujo seio sempre foram nutridas,
(a) Cristo as chama “cordeiros de seu rebanho”; (b) as toma em seus braços e
as abençoa; (c) impõe-lhes as mãos de maneira mui solene e significativa; (d)
declara que, quem quer que receba um desses pequeninos em seu nome,
recebe a ele próprio; (e) que o reino dos céus lhes pertence; (f) e que seus
anjos sempre contemplam a face de seu Pai nos céus. Não existe sequer uma
insinuação de sua exclusão, ou de que os filhos dos crentes, quando chegam à
idade da razão e da fé, então devem entrar em relação pactual na qualidade de
prosélitos e não de herdeiros. Ao contrário, esses filhos estão na igreja visível
por direito pessoal, tendo um lugar legítimo no pacto e portando o sinal do
pacto.
O pai de uma família dá seu próprio nome a seus filhos desde o momento
em que nascem, e lhes dispensa seus cuidados sem consultá-los de antemão.
Eles não podem mudar seu nome, nem recusar o cuidado paterno, senão até
que tenham alcançado a maioridade legal. O Estado dá aos recém-nascidos
sua nacionalidade, e autoritativamente os põe sob seu poder e proteção sem
que estejam capacitados a expressar qualquer preferência sobre a questão.
Eles podem escolher outra nacionalidade e renunciar a proteção do Estado,
mas somente quando atingirem a maioridade legal. Portanto, mediante o
princípio da vida, Deus tem o direito de incluir as criancinhas nos vínculos de
seu pacto da graça redentiva, bem como de colocá-las dentro da esfera de seus
benefícios e privilégios, antes mesmo que sejam capazes de ter consciência de
tais benefícios e privilégios. E, ao agir assim, Deus impõe aos filhos das
famílias pactuais a mais elevada bênção possível. Porventura Deus pode ser
acusado por agir assim? Ele está exercendo suas prerrogativas de amor e
graça! O que suas criaturas devem fazer é simplesmente reverenciá-lo em
humilde adoração!
2. Acrescentam-se responsabilidades às crianças no seio do pacto
É sempre verdadeiro que os que têm maiores conhecimentos e maiores
oportunidades, igualmente têm maiores responsabilidades. Uma criança no
seio do pacto, educada em todos os privilégios que isto implica, em sua
maturidade pode escolher confirmar seu pacto relacional pela fé em Cristo, ou
pode preferir renunciar ao pacto, rejeitando a Cristo. Uma criança pode, mais
tarde, romper os laços familiares ou nacionais, e dessa mesma forma pode
renunciar a seu pacto relacional com Deus. Ao agir assim, ela se torna
transgressora do pacto, e isso no pleno exercício de lúcida responsabilidade.
Como filha do pacto, ela tem a obrigação de arrepender-se e crer. Tendo
nascida com todos os privilégios e benefícios pactuais, ela tem
responsabilidade adicional diante de Deus.
Os pais devem despertar interesse em seus filhos e chamar sua atenção
para as promessas pactuais de modo progressivo. Os filhos compreenderão,
paulatinamente, que são presumidamente herdeiros das bênçãos prometidas.
Eles se inclinarão mais a querer servir àquele que se declarou seu Pai
celestial, mesmo antes que fossem capazes de entender ou de escolher.
Aprenderão a se sentir gratos àquele que os recebeu como membros de sua
igreja visível desde o momento de seu nascimento. E assim seu Batismo se
converte no princípio por cuja instrumentalidade respondem pela fé,
posteriormente, mediante o uso da razão. É um verdadeiro meio divino de
graça, usado na educação dos filhos pelos pais fiéis.
Fazendo uso de uma ilustração tomada da vida cotidiana, quem poderia
dizer que os direitos de um filho, estabelecidos no código civil e nas
legislações concernentes a ele, de nada lhe aproveitam por ser incapaz de
compreendê-los? Ao contrário, estão inscritos na lei para seu bem e proveito
imediato, durante o tempo em que não os puderem compreender! Desprezar
essa legislação equivale a ofender diretamente o filho e prejudicá-lo em sua
condição humana. Aplica-se a mesma verdade aos direitos espirituais que o
Batismo sela para a criança. Neste sentido, o Batismo é um sinal das
obrigações pactuais que Deus mesmo impôs aos pais e à igreja, que é a
verdadeira madrinha da criança.
O Batismo deve significar, tanto para os pais quanto para a igreja, os
direitos espirituais da criança. O filho (a) tem direito à comunhão com Cristo
em cumprimento das promessas que foram feitas a seu respeito; (b) tem
direito à cidadania na igreja visível com o povo de Deus, especialmente com
aquelas pessoas que são seus próprios pais; (c) tem direito a ser instruído na
Palavra de Deus; (d) tem direito de ser conduzido à fé no Salvador; (e) tem
direito à obediência de seus pais as suas obrigações pactuais; (f) tem direito
ao ministério fiel da igreja. Não podemos quebrar esses direitos sem ofender
ao próprio Deus, pois estes são direitos concedidos por ele mesmo. O Batismo
assinala e certifica esses direitos.
Capítulo 9
ASPECTOS PRÁTICOS
PARA A IGREJA E O PASTOR

1. A celebração do Batismo
A igreja é participante no ato que os pais celebram com Deus em favor de seus
filhos. Ela é a verdadeira madrinha da criança batizada e assume, juntamente
com os pais, grande responsabilidade no cumprimento das obrigações
pactuais. Com este propósito, a igreja precisa averiguar se essa
responsabilidade específica será assumida por cada criança batizada, e que
esse contato será mantido com o lar.
As classes de instrução para os pais são da mais elevada importância.
Essas classes deveriam ser usadas para averiguar se os pais que solicitam o
Batismo para seus filhos conhecem a Cristo verdadeira e pessoalmente. Elas
devem gravar nas mentes desses pais a necessidade de sua relação pessoal e
vital com a igreja. Pois os pais não podem se comprometer sinceramente de
fortalecer seus filhos com o alimento do Senhor, se eles mesmos não estão
plenamente associados com a comunidade do povo de Deus na igreja.
Somente por sua própria e regular assistência às atividades da igreja, e por
seu interesse ativo e pessoal nas coisas de Deus é que se pode esperar que os
pais deem exemplo eficiente. Se os pais não honram a Deus com sua
constância aos cultos, seguramente Deus também não os honrará. Quando
não têm a intenção de fazer da igreja o lugar central de sua vida familiar, o
Batismo de seus filhos só pode ser movido por ignorância e por desafio.
É preciso que haja um programa constante de educação relacionado com a
igreja e dirigido por ela no lar. O lar e a igreja, trabalhando juntos,
proporcionarão uma adequada experiência de fé e prática cristãs.
Estabelecerão também o sentido da comunidade cristã em toda a amplitude
de suas ramificações. Porventura não é este o maior privilégio e a maior
responsabilidade que a igreja tem?
A administração do Batismo só pode ser imponente e significativa quando
a instrução preparatória é adequada. A classe de instrução deve cobrir, em
síntese, os principais esboços da doutrina sugerida neste livro. O tema do
pacto será importante.
Para fazer com que a celebração do Batismo impressione profundamente
aos pais que participam com seus filhos, como o corpo de testemunhas
cristãs, sugerem-se as seguintes perguntas que serão feitas publicamente aos
pais:
1) Vocês afirmam, na presença de Deus e dessas testemunhas, que
compõem a igreja, que confiam no Senhor Jesus Cristo, como seu Salvador;
que pela fé nele vocês estão salvos, não por alguma obra humana produzida
por sua própria vida, mas simplesmente pela fé no dom gratuito do Deus da
graça em Cristo?
2) Vocês reconhecem que sua fé em Cristo os põe no pacto relacional com
Deus, e na comunidade pactual, que é sua igreja, e que esta relação pactual foi
assinalada e certificada por seu próprio Batismo?
3) Vocês recebem esta relação pactual para seu filho, e portanto o
consagram a Deus, recebendo também o Batismo de seu filho como o sinal e
o selo das promessas feitas por Deus para ele?
4) Vocês reconhecem que esta ordenança não é uma ordenança salvífica, e
que a seu filho se pedirá que receba a Cristo como seu Salvador pessoal,
quando ele atingir a idade da razão?
5) Vocês prometem, com o auxílio de Deus, criar seu filho no ensino da
Palavra de Deus; orar por ele e com ele, viver diante dele como pais cristãos
sujeitos ao Senhor?
6) Vocês prometem fazer uso de todos os meios de graça e fazer um
esforço máximo a fim de conduzir seu filho ao conhecimento de Cristo, desde
sua mais tenra idade?
7) Vocês acalentam a vontade de devolver esta criança a Deus, o qual a pôs
em seu lar como um depósito sagrado, de modo que, se ele, em sua
providência, chamar esta criança, prometem que não se oporão à perfeita
vontade de Deus?
Depois de pronunciar “sim” a estas perguntas, os pais ouvirão o pastor
dirigir a seguinte interrogação às testemunhas da congregação:
“Vocês, membros desta congregação, recebem esta criança, filha do pacto,
e se comprometem, diante de Deus e com estes pais, a lutar por todos os
meios possíveis para ajudar esta família, a fim de que esses votos batismais
sejam cumpridos?”
Antes de proceder ao Batismo, o pastor deve fazer uma oração. O que
segue serve de sugestão do que deve compreender essa oração:
“Deus eterno, nosso misericordioso Pai celestial, a ti trazemos esta criança
para o rito do Batismo. Regozijamo-nos por nos outorgar este sacro privilégio
do pacto relacional contigo, não só para nós, mas também para nossos filhos.
Bendizemos teu nome por haver instituído a família como uma unidade
orgânica, tornando os filhos um só com seus pais. Damos-te graças pela
certeza de tua Palavra, de que teu propósito é que os filhos sejam um só com
seus pais na redenção, e que, para este fim, são considerados herdeiros do
pacto. Pomos aqui o sinal e o selo do pacto da graça nesta criança, e a ti a
recomendamos. Nossa oração é que tua graça a acompanhe todos os dias de
sua vida terrena, e para que, no tempo e na forma designados por ti, ela venha
a receber pessoalmente, com alegria de alma, o Senhor Jesus Cristo como seu
próprio Salvador e Senhor, e confirmar assim seu pacto relacional pela fé.
Digna-te conceder tua graça a estes pais, para que tenham sabedoria e fé na
tentativa de cumprir suas obrigações pactuais. Faz com que eles sejam
exemplos vivos de vida cristã e mestres de tua Palavra. E concede a esta
congregação a graça de cumprir sua reconhecida responsabilidade, como a
madrinha espiritual desta criança. E a ti, em cuja fidelidade pactual
confiamos, seja toda a glória e majestade, e domínio, e poder, agora e para
todo o sempre. Amém.”
Sumário
Frequentemente ouvem-se os pais dizerem: “Quero dedicar meu filho a Deus,
mas não desejo tomar decisão por ele.” É preciso deixar bem claro que os pais,
ao levarem seus filhos ao rito do Batismo, a si mesmos se consagram! Os pais
reconhecem que seus filhos pertencem a Deus como herdeiros pactuais, e que
é Deus quem lhes emprestou esses filhos por algum tempo, para cuidar deles
como um depósito divino.
Os pais responsáveis devem tomar muitas decisões por seus filhos em
seus primeiros anos; decisões que influirão em todo o restante de sua vida
futura. Eles os mandam à escola, quer queiram quer não. Decidem o que
devem comer, o que devem usar, o que devem ler, etc. Quão importante é que
a relação mais elevada de todas seja decidida e guiada pela autoridade, pelo
discernimento e pelo amor paternos!
Não obstante, é preciso compreender que, ao apresentar uma criança para
o Batismo, não se está fazendo realmente uma decisão por ela, e sim
reivindicando para ela uma bênção. Deus já fez a decisão da relação pactual,
colocando a criança num lar crente. Os pais apenas reivindicam essa bênção,
a qual já pertence às crianças por direito de nascimento. Os pais serão
responsáveis e culpáveis de pecado contra a criança caso recusem reivindicar
as bênçãos divinas que lhes pertencem por direito de nascimento.
Se a criança fosse herdeira de bens terrenos, certamente os pais não
arriscariam, dizendo: “Eu não decidirei por ela; esperarei e verei se ela
quererá ou não essas riquezas.” Ora, se a criança, mais tarde, rejeitar a
herança, os pais, pelo menos, asseguraram-lhe, responsavelmente, o direito
dessa escolha. Pelo menos reivindicaram para ela essa bênção. Firmaram os
devidos documentos para reivindicar os benefícios do legado, e deram os
passos necessários para conservar seus bens em depósito. E assim a criança
começaria imediatamente a receber os benefícios pactuais. É preciso enfatizar
que a significação original do Batismo não é que os pais consagrem seus
filhos, e sim que reconheçam que Deus fez algo por seus filhos. Na verdade,
os filhos é que são batizados, e os pais é que são consagrados!
Chegamos ao final da evidência cuja exposição tem sido o propósito neste
estudo. Examinamos o ensino da Bíblia, como já expresso, em mandatos
diretos, analogias, inferências e deduções. Vimos que a Bíblia ensina o
“Batismo dos crentes”, mas que não ensina “apenas o Batismo dos crentes”.
Não se pode provar que o Batismo das crianças seja errôneo, provando que o
Batismo dos crentes é correto. O manuseio justo da evidência requer que se
faça uma diferenciação entre os recipientes adultos do Batismo, e as crianças
que o recebem. Alguns estão no pacto somente pela fé; outros, por direito de
nascimento, ainda que o herdeiro deva, mais tarde, confirmar esse pacto de
direito de nascimento, com um ato de fé pessoal em Cristo. Há diferentes
condições e diferentes benefícios inerentes a estas duas classes de recipientes.
No caso dos herdeiros menores, o Batismo é um sinal e um selo da promessa
divina; um meio de graça que Deus usará para trazer as crianças à fé. No caso
dos adultos conversos, não procedentes de famílias pactuais, o Batismo é um
sinal e um selo da promessa redentiva de Deus cumprida para sua
experiência. O princípio pactual da graça está estabelecido no Antigo
Testamento, aperfeiçoado no Novo, e é a base única do Batismo, seja para os
adultos, seja para os filhos dos crentes. A igreja é a comunidade pactual,
composta dos que já receberam o sinal e o selo pactuais. O Batismo, no Novo
Testamento, é o sucessor da Circuncisão veterotestamentária. O Batismo é o
sinal mais geral, que representa devidamente uma esfera mais ampla de
sentido espiritual do que a Circuncisão. As responsabilidades, bem como os
privilégios dos filhos batizados, são maiores que os dos filhos de famílias que
não são do pacto. O Batismo não é apenas um sinal e um selo, mas é também
um meio de graça empregado por Deus para cumprir seu propósito salvífico,
nas vidas dos filhos que foram fielmente educados por seus pais, para
compreender e amar as coisas de Deus. O silêncio que o Novo Testamento
mantém confirma que os princípios pactuais, estabelecidos no Antigo
Testamento, não foram anulados no Novo. Estas e outras considerações nos
levam a afirmar, com toda a confiança, a legitimidade do Batismo dos filhos
menores dos crentes. Os que tão facilmente negam o direito aos filhos
menores, então que baseiem sua negativa em argumentos que
sistematicamente contenham valor para os temas e passagens que aqui foram
expostos. E aquele que ainda não pode aceitar a postura defendida aqui, então
que mantenha uma atitude superior de amor e respeito, em vista de nossa
intenção de aderir a uma exposição sistemática das Escrituras. O Batismo não
é um assunto simples e sem complicações. Algumas das ramificações foram
exploradas; é possível que tenha ficado, sem reconhecimento, alguma de
importância primordial. Que cada estudante se convença, não pelo
preconceito de sua denominação cristã, mas pela evidência da Palavra de
Deus, conforme apreendam sua própria mente e coração.
PARTE II

Significado e Forma do Batismo


Capítulo 10
O BATISMO SOB A LEI
E OS PROFETAS

1. O Batismo sob a lei levítica


A lei prescrevia o Batismo. Este era cerimonial e simbólico. Por exemplo, a
lepra era um símbolo do pecado. A lei prescrevia a aspersão de óleo para
purificar da lepra (Lv 14.7-9, 15-18). Impunha-se a mão sobre a cabeça
daquele que deveria ser cerimonialmente purificado. Prescrevia-se a aspersão
de água com sangue de pombinhos para purificar uma casa imunda (Lv 14.49-
51). Na iniciação dos levitas, borrifava-se água limpa sobre eles para significar
sua purificação do pecado e que foram dedicados para o ofício sacro (Nm 8.5-
7). Isto pressupõe nossa purificação e admissão ao sacerdócio da nação santa
de Deus (1Pe 1.2; 2.9).
A aplicação de sangue do sacrifício pelo pecado era representada pelo ato
da aspersão. O sangue era borrifado sobre o povo (Ex 24.8), para cujo
benefício se ofereciam os sacrifícios. Era borrifado sobre o altar, e pelo sumo
sacerdote sobre o propiciatório [= Trono da Misericórdia]. No Novo
Testamento, a aplicação do sangue de Cristo é expressa pela mesma palavra:
“Eleitos... para a obediência e a aspersão do sangue de Cristo” (1Pe 1.2); “e ao
sangue da aspersão que fala coisas superiores ao que fala o próprio Abel” (Hb
12.24).
No Antigo Testamento, as influências santificadoras do Espírito Santo
eram representadas por meio de figuras do óleo, para ungir, e da água, para
aspergir ou derramar. Reis, sacerdotes, profetas, todos eles eram ungidos. O
povo de Deus era chamado seu “ungido”. No Novo Testamento, os crentes são
chamados “um reino de sacerdotes diante de Deus”. João afirma: “A unção
que recebestes permanece em vós” (1Jo 2.27). As ideias de purificação e unção
são comuns nos dois Testamentos.
A purificação se cumpria ritualmente pelo uso da “água para a impureza”,
como corretamente se encontra em Números 19.9, 13, 20, 21; 31.23. A
Septuaginta e a Vulgata trazem “água da aspersão”, o que é correto pelo
prisma da forma como se empregava.
No culto veterotestamentário, onde todas as coisas eram simbólicas, e
onde as realidades espirituais eram representadas através de sinais externos,
cada corrupção física assinalava uma corrupção espiritual. Este era
especialmente o caso com referência ao nascimento ou à morte, pois estes
estavam estreitamente relacionados com as ideias de pecado e de morte
espiritual. Toda conexão com a origem da vida e com a morte pressupunha
contaminação e requeria purificação levítica.
A purificação de uma mulher que dera à luz era feita como segue. De
acordo com a lei levítica, ela era imunda durante quarenta ou oitenta dias, se
desse à luz um menino ou uma menina. Depois desse período, ela oferecia
um sacrifício queimado. O sacerdote tinha que encontrá-la à porta do
tabernáculo do testemunho (Lv 12.6) e receber de sua mão a oferenda. E
depois que o sacrifício da manhã terminava, o sacerdote uma vez mais se
aproximava dela e a borrifava com o sangue do sacrifício e a declarava limpa.
Mais solene era a administração de purificação proveniente do contato
com um morto. A morte [física] apontava para a segunda morte [espiritual], a
cuja condenação todos incorrem. Por essa razão a contaminação era
simbolicamente a mais grave de todas. A purificação durava sete dias,
requeria um tipo especial de purificação. Isto está descrito em Números 19.
Uma novilha era sacrificada como oferenda pelo pecado, e isso era feito
fora do acampamento, não no santuário. O animal era completamente
queimado. As cinzas eram aspergidas fora do acampamento. O sacerdote que
queimava a novilha vermelha, filho do sumo sacerdote que borrifava o sangue
sete vezes com o dedo em direção ao santuário e o próprio sumo sacerdote,
era considerado imundo até a tarde. Da mesma forma era considerado
imundo o sacerdote que ajuntava as cinzas. À tarde ele tinha que lavar suas
roupas e banhar-se. Quando alguém precisava de cinzas para sua purificação,
uma pessoa limpa tinha que levar essas cinzas, depositá-las num vaso,
derramar água viva (corrente) sobre elas; então molhava o hissopo na água e
a aspergia sobre o que tinha de ser purificado, no terceiro e no sétimo dia.
Após fazer isso, a pessoa tinha que lavar suas roupas e banhar seu corpo.
Hebreus 9.13, 14 faz menção direta desta figura: “se o sangue de bodes e de
touros, e a cinza de uma novilha, aspergidos sobre os contaminados, os
santificam, quanto à purificação da carne, muito mais o sangue de Cristo, que,
pelo Espírito eterno, a si mesmo se ofereceu sem mácula a Deus, purificará
nossa consciência de obras mortas, para servirmos ao Deus vivo!” Deparamo-
nos outra vez com a ideia de aspersão de sangue em Hebreus 10.22, onde
lemos: “tendo o coração purificado de má consciência e lavado o corpo com
água pura.”
Esta aspersão, que aplicava ao contaminado o sacrifício da novilha
vermelha, restaurava os privilégios pactuais em relação ao culto. As cinzas
tipificavam o verdadeiro sacrifício de Cristo. A aspersão da água, que continha
as cinzas, era a figura do Batismo do Espírito Santo que aplica o sangue
purificador de Jesus ao pecador crente. A pessoa imunda só podia ser
purificada pela aspersão daquilo que representava o sangue de Cristo.
As cinzas da oferta pelo pecado, misturadas na água viva [corrente ou em
movimento] e salpicadas com hissopo, simbolizavam a purificação dessa
morte que estabelece separação entre Deus e o homem. O método dessa
aspersão consistia em tomar três varas separadas de hissopo, cada uma com
um capucho, enfeixadas, cujas extremidades dos capuchos eram mergulhadas
na “água da impureza” – como é chamada.
É provável que a segunda em importância, por sua significação espiritual,
era a purificação da lepra. Esta não era meramente o emblema do pecado, mas
também da própria morte. A cerimônia, como descrita na Mishnah (Negaim,
XIII), fala do sacerdote pronunciando a purificação do leproso, em seguida
tomando um quarto de vaso de água viva (cerca de um oitavo de litro) e duas
aves. Uma das aves era morta sobre a água viva, de modo que o sangue
pudesse gotejar nela. A ave viva era mergulhada nesse misto de sangue e água
viva, e em seguida solta. O hissopo, a madeira de cedro e a lã escarlate eram
enfeixados e usados para borrifar a pessoa imunda sete vezes sobre o dorso da
mão ou sua fronte. Em seguida o sacerdote mergulhava o dedo no azeite e
aspergia sete vezes em direção do Lugar Santo, molhando o dedo cada uma
das sete vezes. Em seguida punha o azeite sobre o lugar exato onde pusera o
sangue. O que restava do azeite em sua mão era derramado sobre a cabeça da
pessoa que estava sendo purificada, como expiação.
Em Hebreus 9.10, falando da antiga dispensação, se faz referência a
“diversos Batismos”. No Antigo Testamento há muitas cerimônias de
purificação, como as descritas acima, mas não muitas imersões. Os “diversos
Batismos” só podem ser uma referência a essas aspersões de água, sangue,
azeite ou cinzas. Josefo, em seu livro Antigüidades Judaicas (IV.4),
proporciona a confirmação histórica: “batizando com cinzas postas em água
corrente, as aspergiam no terceiro e sétimo dia.”
A menos que haja ensino expresso em sentido contrário, quem porventura
abra ambos os Testamentos, chegará à conclusão de que o próprio Deus
prescreveu o modo do uso ritual da água, quando ordenou as aspersões.
Ezequiel proporciona uma palavra profética. Com referência ao futuro
reagrupamento de Israel, Deus declarou: “Hei de ajuntá-los do meio dos
povos, e os recolherei das terras para onde foram lançados, e lhes darei a terra
de Israel. Voltarão para ali e tirarão dela todos seus ídolos detestáveis e todas
suas abominações. Dar-lhes-ei um só coração, espírito novo porei dentro
deles; tirarei de sua carne o coração de pedra e lhes darei coração de carne;
para que andem em meus estatutos, e guardem meus juízos, e os executem;
eles serão meu povo, e eu serei seu Deus” (Ez 11.17-20).
Estas palavras são típicas do pacto que Deus fez com seu povo desde o
tempo de Abraão. Note bem a transformação espiritual que ocorre, cuja
essência é purificação interior. Ela está assinalada pela aspersão de água
limpa. Este é o notório Batismo da antiga dispensação. E Ezequiel presume
que este mesmo símbolo será proeminente na futura restauração de Israel.
Pode-se acrescentar ainda que, se a aspersão era proeminente no passado, e
será proeminente no futuro, por que não deveria ser considerada com a
mesma importância no presente?
2. Necessidade de água viva
Em todo o oriente, tanto nos tempos antigos quanto nos modernos, o banho
requeria água em movimento. Esse era o caso especialmente entre os judeus.
Para que a água fosse usada, tinha de ser corrente, que em hebraico se
interpreta pela expressão “água viva”. Leiamos as referências de Números
19.17 e de Levítico 14.50-52.
O Dr. William Smith, em seu Dicionário de Antigüidades Gregas e
Romanas, mostra que a tina usada para o banho não continha água, mas que
era usada para que o banhista se sentasse nela e a água lhe fosse derramada
de cima. Plutarco confirma esse fato quando diz: “Alguns dão ordem para que
lhes derramem água fria; outros, que ela seja quente.” Wilkinson testificou
também deste fato. Os que viajam pelo oriente descobrem que este costume
ainda prevalece, mesmo quando o banhista vai a um rio. O banho não é feito
por imersão, mas com água corrente, a qual é lançada, vertida ou borrifada
sobre o banhista. Tudo indica que o que se busca por toda parte é a água em
movimento.
Hoje os rabinos nos contam que os judeus nunca lavam suas mãos senão
com água corrente ou em movimento, pois a água estancada representa a
corrupção e a morte, enquanto que a água em movimento representa a vida e
as influências vivas do Espírito de Deus. Para os judeus, quantidade de água
não tem a menor importância; o menor filete de água é bastante para a mais
plena cerimônia de lavagem.
Lemos em João 2.6: “Estavam ali seis talhas de pedra, que os judeus
usavam para as purificações, e cada uma levava duas ou três metretas.” [A
metreta, segundo alguns, media 22 litros; segundo outros, 40 litros.] Jesus
ordenou que essas talhas fossem enchidas de água, e então converteu essa
água em vinho. E era daí que os hóspedes bebiam, e era daí que tiravam a
água para a cerimônia da purificação. Não existe incompatibilidade aqui, pois
os hóspedes não mergulhavam as mãos naquela água, e sim a água era tirada
e derramada sobre suas mãos. Isso nos lembra Lucas 11.38, onde lemos do
fariseu anfitrião que estranhou por Jesus não haver se lavado antes de comer.
Lemos também em Marcos 7.4: “quando voltam da praça, não comem sem
se aspergirem; e há muitas outras coisas que receberam para observar, como
a lavagem de copos, jarros e vasos de metal [e camas].” Muitas autoridades
antigas adicionam “e camas”. Algumas versões usam o verbo “lavar”, mas em
grego é “batizar”, e muitas das mais antigas e melhores autoridades, tais como
a Sináitica e a Vaticana, usam o verbo “aspergir”.
Edershiem e Lightfoot fazem referência a dois modos usuais de lavar as
mãos antes da refeição. As mãos eram mergulhadas na água, ou a água era
simplesmente derramada sobre elas. O Talmude declara que a água tinha de
ser derramada sobre as mãos até as munhecas (Yadaym cap. II, Mishnah 3). O
uso de baptizo, com referência a este costume, em Lucas 11.38, é uma
evidência que vai além das meras palavras empregadas para indicar ações que
não implicavam a ideia de imersão.
Até que ponto os judeus aceitavam a imersão é muito incerto. A tradição
judaica prescrevia a imersão em certos casos de impureza. Isto se encontra no
Talmude Babilônico. Não obstante, a imersão não era para a lavagem e
purificação, e sim para impureza contraída por coisas como a lepra e várias
classes de contágios. O folheto talmúdico Kelim (cap. XVIII, Mishnah 9; cap.
XIX, Mishnah 1) previne que as camas fossem desmontadas com o propósito
de serem purificadas pela imersão. Esta é, antes, uma evidência débil, mas os
fatos pressupõem, com razão, a possibilidade de alguma imersão. Não se trata
de excluir a possibilidade de que se fizessem algumas imersões, mas de
justificar que no melhor dos casos estas eram secundárias às prescrições de
aspersão.
Há forte evidência contra a imersão total na lavagem costumeira antes da
refeição. Esta lavagem era requerida caso alguém tocasse um leproso ou um
animal imundo, ou ainda a alguém que fora imundo por havê-los tocado. Uma
pessoa consciente chegaria à conclusão de que é bem provável ter ocorrido
alguma dessas circunstâncias, inadvertidamente, entre a multidão do
mercado. Já que esta era uma possibilidade constante, a purificação
cerimonial era frequente e era feita pela simples aspersão. Para um judeu,
encher várias vezes uma tina e mergulhar nela completamente, bem como
imergir sua mesa e, possivelmente, sua cama, era algo impossível na maioria
dos casos. Poucos, caso houvesse alguns, tinham tais comodidades em seus
lares, e ter que buscar água para tais operações estava completamente fora de
suas possibilidades.
O fato importante era ter água que corresse, de modo que o contato com
algo imundo lhe possibilitasse chegar até onde houvesse água fluente. A água
contida numa vasilha fica suja quando se mergulham nela as mãos, de modo
que fosse inconcebível mergulhar as mãos na água estancada. E assim se
usava algum recipiente, mais provável fosse seu uso só para receber a água,
depois de derramá-la ou aspergi-la sobre as mãos ou sobre o corpo. Os
orientais ainda não compreendem por que nós, ocidentais, nos sentamos
numa tina e dizemos que isso equivale a lavar-se.
É fácil ver como o método de derramar ou aspergir chegou a ser um
costume geral, como uma forma primitiva do Batismo cristão. O peso dos
séculos da precedência divina lhe deu validade para torná-lo irrefutável. Com
frequência, a fim de verter ou ter água que fosse inquestionavelmente viva ou
corrente, a pessoa que era batizada se detinha num manancial enquanto a
água lhe era derramada ou salpicada sobre a cabeça e o corpo. Quando não
havia correntes, nem poços, nem fontes por perto, usava-se simplesmente
uma vasilha.
Capítulo 11
JOÃO BATISTA
E JESUS

1. João como arauto e batizador


Os primeiros Batismos que encontramos no Novo Testamento são os
efetuados por João Batista. Tanto João quanto sua maneira de batizar são
muito mal interpretados e mal aplicados. Seu Batismo não era cristão, e, seja
como for, não tinha nada a ver com o Batismo cristão. Ele se encontra mais
estreitamente conectado com a antiga dispensação que com a nova, e é um elo
de contato com as duas. Está associado com os Batismos
veterotestamentários, e diz respeito à preparação do povo de Israel para a
vinda do Messias e seu reino. É, propriamente dito, como se encontra
justamente no início do Novo Testamento, precedendo à manifestação de
Jesus como o Cristo. Deixaria de existir assim que Cristo se manifestasse.
Dizia respeito exclusivamente aos judeus, e era estritamente um Batismo de
arrependimento para remissão de pecados, com o fim de restaurar o povo
pecador à fé pactual de seus pais. Esta restauração era necessária antes que o
Messias fosse recebido. João foi o precursor e arauto do Messias, e tudo o que
ele proclamava e praticava tinha relação com a preparação especial necessária
para a vinda do Messias. Obviamente, pois, este Batismo era único e
transitório, pronto a desaparecer quando sua função já não fosse mais
necessária.
Devemos chegar à conclusão de que a missão de João era a de preparar o
caminho do Senhor, e que seu ministério foi de caráter preparatório,
introdutório, transitório e que conferia autoridade. Não podemos identificar o
Batismo de João com o Batismo instituído por Cristo, como também não
poderíamos identificar a missão de João com a missão de Cristo! É errôneo
derivar o sentido do Batismo cristão da natureza do Batismo de João.
João tinha uma missão dupla. A primeira era para o povo de Israel,
conduzindo este ao arrependimento e à fé pactual de seus pais; e expressando
esta transformação por meio do Batismo. A segunda era a de ser ele o
precursor do Messias, anunciando sua vinda e identificando-o diante do povo.
Dentro desta segunda fase de sua missão, João tinha de reconhecer a Jesus
como o Messias e de dar-lhe a posse em seu ministério messiânico. Isso
aconteceu quando Jesus se submeteu a João para que fosse batizado.
João era “um homem enviado por Deus” (Jo 1.6), filho de um sacerdote da
linhagem de Abias, cujo nome era Zacarias. A mãe de João era descendente
direta de Arão, o primeiro sumo sacerdote de Israel (Lc 1.5). Portanto, João
fazia parte integrante da linhagem sacerdotal. Não obstante, nenhuma palavra
pressupõe que ele alguma vez fosse consagrado ao sacerdócio, ou que tenha
agido como sacerdote. Fala-se de João como de um profeta (Lc 1.76, 77), e
Jesus disse que ele era mais que um profeta (Mt 11.9), porém nunca se fala
dele como sacerdote. Ele foi o último dos profetas da antiga dispensação, e
também o maior dentre eles (Mt 11.11, 13). Sua vinda foi profetizada por
Isaías e Malaquias (Is 40.3-11; Ml 3.1-6). Malaquias o denomina de “o Anjo da
Aliança” (3.1). Jesus confirmou a profecia de Isaías (Mc 1.2, 3; Mt 3.3; Lc 3.4-
6).
Malaquias fala do precursor, aplicando a vinda de João à primeira vinda de
Cristo. De forma estranha, Malaquias fala também de eventos que devemos
associar com a segunda vinda de Cristo. Ocorre amiúde de o Antigo
Testamento ter uma mescla de profecias concernentes às duas vindas de
Cristo, sem referência ao intervalo que as separa. Este princípio nos faz ver
como Malaquias 4.5, 6 tem uma aplicação dupla. Fala de Elias vindo
precisamente antes do grande dia do Senhor, a segunda vinda. Assim se refere
à aparição de uma das duas testemunhas referidas em Apocalipse 11.3-6. Ao
mesmo tempo, porém, se aplica também à aparição de João, antes da primeira
vinda de Cristo. Não teríamos conhecimento disto com certeza, a menos que o
Senhor mesmo no-lo ensinasse. Ele o ensinou em Mateus 11.14; 17.10-13;
Marcos 9.11-13 e na anunciação de Gabriel, como se encontra em Lucas 1.17.
Devemos ter sempre em mente a dupla natureza da missão de João. Antes
de tudo, ele pregou a remissão de pecados mediante o arrependimento, bem
como proclamou a aparição iminente do Messias. Vejam-se Lucas 1.76, 77;
3.3; Marcos 1.4; Atos 19.4. A outra missão de João foi apontar para o Messias
e dar-lhe posse em seu ofício messiânico. Este aspecto é enfatizado no
evangelho de João, ainda que não esteja tão claramente insinuado nos
Evangelhos Sinóticos. Veja-se João 1.6-8, 23, 26, 27, 29-34; 3.28.
De maneira interessante e significativa, o Evangelho de João nem sequer
menciona que João batizava o povo para arrependimento; enquanto que os
demais Evangelhos não fazem menção de que João apontara para Jesus como
“o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (Jo 1.29).
Tudo indica que João batizou o povo até o momento em que apontou para
Jesus como o Messias, e desde então continuou por pouco tempo. Seguindo
sua designação de Jesus como o Messias, o ministério principal de João
passou a ser o de testificar de Cristo.
Precisamos entender qual era o propósito do Batismo de João. Ele
representava a purificação do pecado mediante o arrependimento, e a fé
naquele que havia de vir. Significava também a identificação renovada do
povo pecaminoso de Israel com as promessas pactuais de Deus feitas à nação.
Ora, o povo fora restabelecido na terra prometida com o fim de esperar a
vinda do Messias. Não obstante, a grande maioria apostatara e violara as
condições pactuais, por sua falta de fé e por sua rebelião. Transcorreram
quatrocentos anos sem que a nação ouvisse a voz de um profeta a convocá-la
ao arrependimento e à fé, restaurando-a outra vez à relação pactual e
preparando o caminho para a vinda do Messias.
João Batista veio para confirmar o pacto, como lemos em Mateus 3.9;
Lucas 1.72, 73; 3.8. João advertiu que não era suficiente que o povo fosse
composto de filhos de Abraão mediante a descendência natural; ele teria que
arrepender-se e voltar às condições pactuais e ser verdadeiro filho de Abraão
pela fé. O símbolo externo desta transformação, gravada interiormente, era o
Batismo. E, assim, o Batismo de João representava o sinal e o selo do
arrependimento, da fé, da purificação e da restauração às condições de
fidelidade pactual. Reduzindo isto a conceitos simples, as palavras
sobressalentes são: “transformação” e “identificação”. Estes conceitos estão
em harmonia com o sentido essencial de todos os Batismos, como veremos.
2. O método do Batismo de João
Não existe nada que pressuponha que o Batismo de João fosse, de alguma
forma, diferente, em seu modo de administrar, aos Batismos já costumeiros
do povo de Israel. Não há nada de especial no Batismo de João que
pressuponha a imersão. Não há nada registrado que altere a compreensão dos
leitores hebreus, que presumiriam com toda naturalidade que João
administrava o Batismo por aspersão.
Nenhum dos relatos evangélicos registra qualquer surpresa ou
preocupação da parte dos rabinos ou do povo quanto ao rito ou seu
significado. Aparentemente, seu significado normal era aceito e
compreendido. Portanto, ele teria sido coerente com o ritual de purificação de
acordo com a prática corrente. Certamente não há no relato qualquer
insinuação de que alguém tenha se afastado ou protestado, alegando que o
modo de administrar seu Batismo constituía uma novidade. Quando a
delegação de judeus indagou: “Então, por que batizas, se não és o Cristo, nem
Elias, nem o profeta?” (Jo 1.25), de modo algum se sentiam contrariados com
um novo modo de Batismo, nem com seu significado; mas, o que estava em
pauta era a autoridade de João. A implicação óbvia é que João estava
batizando precisamente na forma que se esperava do Messias. Já que era
assim, eles queriam saber com que autoridade João batizava. Não se
menciona absolutamente nada que contrarie os costumes judaicos.
Quando Jesus indagou de seus críticos judeus: “Donde era o Batismo de
João, do céu ou dos homens?” (Mt 21.25), não puderam responder-lhe.
Obviamente, não puderam encontrar resposta no modo de batizar, do
contrário teriam indicado um desvio da forma prescrita na lei.
Lembre-se de que João era judeu, e que batizava judeus, um povo que era
intensamente meticuloso e zeloso da letra da lei. Isso era particularmente
assim na época dos fariseus. Suponhamos que João houvesse introduzido
algo novo na prática comumente adotada, tal como a imersão. Porventura não
teriam exigido dele que determinasse com que autoridade fazia tal mudança?
Os próprios fariseus mencionavam especialmente Elias, mostrando que eles
criam no Batismo na forma como os profetas o praticavam. E a reação
desfavorável dos fariseus, posteriormente, quando os discípulos de Jesus
batizavam, indica quão meticulosos eram no tocante aos requisitos de quem
batizava e de como se administrava o Batismo.
Sendo João fruto de um lar sacerdotal, e todo seu interesse sendo posto na
aspersão e na unção com óleo, sangue e água, seria incrível imaginar que ele,
repentinamente, introduzisse a imersão sem apresentar qualquer justificativa
para tal mudança.
Em João 3.23-25 lemos de uma controvérsia entre os judeus e os
discípulos de João acerca da purificação. Esta é uma passagem na qual lemos
que João estava batizando. A conexão era natural. A purificação era um
pensamento comum associado com o Batismo.
Alguns, afoitamente, têm inferido que o Batismo de João era efetuado por
imersão, porquanto ele era ministrado no rio Jordão. Este não é o lugar
próprio para nos ocuparmos de todo o assunto das preposições e de seus
vários significados; mas será suficiente indicar que a preposição empregada
neste ponto é aquela própria para indicar um lugar. Pode significar
meramente que João realmente batizava na localidade do Jordão. E, como já
vimos, os judeus requeriam água viva ou em movimento, e era necessário que
João recorresse a tal volume de água, quando, literalmente, milhares de
pessoas se chegavam para que fossem batizadas. A forma mais fácil, em tais
circunstâncias, seria que João se pusesse dentro de uma corrente. Por certo
que o próprio fato de que milhares de pessoas eram batizadas diariamente
pressupõe uma forma mais fácil e funcional que a imersão.
Ao supormos que João se detinha na corrente, que ele usava um feixe de
hissopo, imergindo-o na água corrente para em seguida aspergir os milhares
que vinham diariamente, então tudo o que fora estabelecido na lei se ajusta
perfeitamente, sem mais explicações e sem maiores problemas de
interpretação. É só lembrar as palavras de Davi no Salmo 51.7, o grande salmo
penitencial: “Purifica-me com hissopo e ficarei limpo.”
Os gramáticos determinam que, em três de cada oito exemplos onde se
fala da água do Batismo, não há nenhuma preposição. A palavra água está no
caso dativo, e obviamente é considerada como um meio. A única tradução
correta é: “Eu vos batizo com água.” Não era possível empregar essa
construção se fosse possível dizer “em água”, nem se poderia dizer “Eu vos
mergulho com água”.
À luz da declaração (Jo 3.23) de que João batizava no Enon, “porque ali
havia muitas águas”, alguns insistiriam que certamente isto indica imersão. É
preciso dizer duas coisas em resposta a esta conclusão um tanto ingênua.
Primeiramente, já vimos que se requeria água em movimento, e que João
batizava diariamente milhares de pessoas. Isto é suficiente para explicar a
necessidade de “muitas águas”. Em segundo lugar, é bem provável que a
palavra Enon seja oriunda do aramaico, que significa “mananciais” ou
“fontes”. As palavras traduzidas “muita água” são interpretadas literalmente
por “muitas águas”, por serem um plural. De fato, esta é a tradução dada às
mesmas palavras no Apocalipse 1.15 e 19.6. Não há volume de água em Enon,
nem jamais houve. Mas, como o nome implica, havia e há mananciais
próximos de Salim, a poucos quilômetros a sudoeste de Betânia. Ainda que a
localidade exata seja duvidosa, Eusébio e Jerônimo defendem o ponto de vista
de que ficava perto da junção de Samaria, Pereia e Decápolis, mais ou menos
vinte quilômetros ao sul de Citópolis. Aqui há um grupo de sete correntes, de
fácil acesso às pessoas das quatro províncias adjacentes. Esses mananciais
forneciam a água corrente pura de que João necessitava, e isso é tudo o que se
pode ler na passagem.
O próprio João estabelece um paralelo que é fácil de compreender, se seu
Batismo for considerado como típico da aspersão com hissopo do Antigo
Testamento. Ele diz: “Eu vos batizo com água, para arrependimento; mas
aquele que vem depois de mim é mais poderoso do que eu, cujas sandálias
não sou digno de levar. Ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo” (Mt
3.11).
Se o Batismo deve ser entendido como uma imersão, então João afirma
que eles, mais tarde, seriam, de alguma maneira, imersos com o Espírito
Santo, e também imersos com fogo. A preposição é errônea, enfatize-se isso
logo de início. Mas, obviamente, o pensamento não é este. Ao contrário,
afirma-se que eles seriam, mais tarde, transformados pelo Espírito Santo,
identificados com Cristo numa nova identificação, ou estado, diante de Deus.
Quanto a ser batizado com fogo, nas Escrituras se fala de fogo como figura do
juízo divino. Isto está em harmonia com outra declaração de João, quando
disse de Cristo: “Sua pá, ele a tem na mão e limpará completamente sua eira;
recolherá seu trigo no celeiro, mas queimará a palha em fogo inextinguível”
(Mt 3.12). Portanto, nas Escrituras se fala do fogo como figura do juízo
purificador. A alusão de João é ao profeta Malaquias, que profetizou de João e
de Jesus. Lemos em Malaquias 3.2, 3: “Mas quem poderá suportar o dia de
sua vinda? E quem poderá subsistir quando ele aparecer? Porque ele é como o
fogo do ourives e como a potassa dos lavandeiros. Assentar-se como
derretedor e purificador de prata; purificará os filhos de Levi e os refinará
como ouro e como prata; eles trarão ao Senhor justas ofertas.”
Portanto, João era um “purificador”, batizando para arrependimento. Ele
se referia a Jesus como o Purificador, da mesma forma como Malaquias
falava a seu respeito. Ninguém é imerso dentro de um juízo purificador; ao
contrário, o juízo purificador vem sobre alguém. A aspersão tem um
significado mais próprio do que a imersão. Rebater seriamente este ponto de
vista equivale a agir atrevidamente no que se refere à continuidade do
ministério de João àquele fornecido no Antigo Testamento.
3. Os rolos do Mar Morto
Entre as revelações dos rolos está a significativa prática observada na
comunidade de Qumrã, da purificação por meio de água, provavelmente uma
espécie de Batismo. O termo técnico é “água de impureza”, termo que é
também usado em Números 19.9 e seguintes. Ambas as palavras, “purificar” e
“santificar”, igualmente termos bíblicos, se encontram no Manual de
Disciplina de Qumrã, que descreve o rito da água. Outras palavras no Manual
sugerem pelo menos uma imersão parcial como a forma, e isso é confirmado
n o Documento de Damasco. O rito não era iniciatório, mas que estava
reservado para os que já se encontravam no seio do pacto. Neste sentido,
parece estar estreitamente relacionado com o Batismo de João.
A prática difere do Batismo de João e do Batismo cristão no fato de que se
repetia, talvez anualmente, enquanto que o Batismo de João e o Batismo
cristão não se repetem; mas, em contrapartida, eram iniciatórios. O Batismo
de João simbolizava um arrependimento do israelita, um desejo de ser um
verdadeiro israelita no seio de Israel. O Batismo de Qumrã, em outro aspecto,
constituía parte de um sistema que negava que alguém pudesse ser um
verdadeiro israelita, a menos que se separasse do judaísmo de Jerusalém e se
unisse à comunidade de Qumrã. O Batismo de Qumrã simbolizava uma
separação dos pecados de Israel para formar o verdadeiro Israel.
Muitas das práticas da comunidade de Qumrã têm mais semelhança com
aquelas das religiões de mistério da região do Mediterrâneo do que com as
práticas veterotestamentárias. Seja qual for o contato que João Batista tenha
tido com os essênios, ou com os membros da comunidade de Qumrã, isso não
causou nenhuma influência real em sua mensagem ou prática, porquanto o
apóstolo escreveu que João era “um homem enviado por Deus” (Jo 1.6), e que
seu Batismo era “do céu” (Mt 21.25). Os judeus o aceitaram. Seu voto de
nazireu o conservou no deserto como um asceta, dedicado a Deus, e esta é a
explicação bíblica suficiente de seus hábitos de vida. Isso se opõe a qualquer
dedução de que ele tivesse crescido no seio de alguma comunidade, como a de
Qumrã. E, por mais importantes que sejam os rolos de Qumrã para a crítica
dos textos, Millar Burrows opina: “Relativamente, eles são de pouco valor
para a interpretação e para a teologia veterotestamentária.”
Talvez valha a pena mencionar um paralelo. O conceito de um Batismo
messiânico efetuado pelo Espírito Santo está presente nos rolos. A
asseveração do Manual de Disciplina de que, no final dos séculos, Deus
purificará o homem aspergindo sobre ele o espírito da verdade, concorda com
a declaração de João de que o Messias batizará seu povo com o Espírito Santo.
Nota-se nesses contextos que eles se referem à “aspersão”.
Pode-se especular sobre o que teria afetado tão extensamente as práticas
imersionistas de seitas tais como a dos essênios e a dos pactuantes; até que
ponto as religiões secretas da região mediterrânea teriam influenciado os
primeiros cristãos, de origem não-judaica, que ingressavam na igreja
primitiva. É bem provável que os grupos isolados da igreja primitiva fossem
influenciados dessa forma. Naturalmente, isso obriga o estudante a ser bem
cauteloso em valorizar os diferentes modos do Batismo praticados pela igreja
primitiva. Não se pode enfatizar demasiadamente que esses fatores só tornam
mais evidente que todas as conclusões devem se limitar à Bíblia, e não aos
desenvolvimentos históricos, muitos dos quais sendo claros desvios da Bíblia,
e provavelmente adições procedentes do contato com fontes alheias ao
Judaísmo e ao Cristianismo.
4. O Batismo de Jesus realizado por João
João viveu no deserto a maior parte de seus trinta anos de vida terrena.
Apareceu várias vezes em público pregando e batizando (Lc 1.80). Ele sabia
exatamente quando deveria entrar em Israel, pois Deus o escolhera na
eternidade e o chamara no tempo justamente para aquilo, designando-o para
ser o precursor do Messias. E agora Deus o chama no exato momento em que
o Messias tinha de ser conhecido. João tinha de se manifestar a ele e dar-lhe
posse em seu ofício messiânico. Lucas 3.2 nos informa que Deus instruiu
João sobre quando devia agir, ainda que este não soubesse que Jesus era o
Messias. Este tinha que se lhe revelar em determinado tempo e de certo
modo.
Jesus havia cumprido todos os requisitos da lei e viveu uma vida perfeita e
impecável, desde a infância até sua idade adulta. Alcançara a maioridade que
Israel reconhecia, e estava preparado para iniciar sua carreira pública como o
Messias. Tão logo ouviu Jesus que João Batista estava chegando e que estava
batizando e declarando que o reino dos céus estava próximo, então entendeu
que chegara sua hora de manifestar-se a Israel. Sabia ainda que seu precursor
estava lhe preparando o caminho. Portanto, não podia vacilar. Tinha que
deixar o querido lar de Nazaré, lugar único que conhecera ao longo de trinta
anos, com exceção dos momentos gastos nas viagens que empreendia com
sua família indo a Jerusalém para as festas anuais.
Não está escrito se Jesus sabia que João o designaria como o Messias e o
empossaria em seu ministério messiânico. Quando ele foi a João para ser
batizado, não lemos se estava agindo assim simplesmente para cumprir tudo
o que representava obediência a Deus na vida de um israelita, ou se sabia que
esta seria a maneira como Deus revelaria a João quem ele era. Naturalmente,
sabemos que ele não se apresentou a João porque tivesse necessidade de
arrependimento e restauração. Assim Jesus estava cumprindo toda justiça,
indo ao profeta a quem Deus enviara, se submetendo a seu Batismo, ainda
que soubesse que não carecia de ser batizado para arrependimento. Mas isso
por si só não é suficiente. Então buscaremos uma razão mais adequada.
Indubitavelmente, João amiúde negava o Batismo a alguns que vinham a
ele e cujo arrependimento não era suficientemente evidente e real. Mas agora
surge alguém a quem deveria recusar-se a batizar, porquanto esta Pessoa
única não carecia de arrependimento, e o Espírito de Deus revelara este fato
diante de João. Então lhe disse: “Eu é que preciso ser batizado por ti, e tu vens
a mim?” (Mt 3.14). Mediante o Espírito Santo, João reconheceu a
superioridade de Jesus. Porventura isto não é evidência suficiente de que
nesse momento ele entendeu que Jesus era o Messias tão esperado, sobre
quem João teria de ter o testemunho divino? Ele sabia que Deus confirmaria
seu discernimento, mediante um sinal, de que ali estava o Messias. Esse sinal
seria a descida do Espírito Santo sobre o Messias, na forma de uma pomba
(Jo 1.31-33). Aparentemente, João cria que a revelação do Messias se daria
quando ele chegasse diante de si, e não mediante uma participação efetiva do
Messias em seu Batismo. Esta seria a suposição natural de João, posto que
seu Batismo tinha apenas o propósito de manifestar arrependimento e
restauração para os que pecaram e violaram as condições pactuais.
Jesus respondeu à objeção de João, dizendo: “Deixa por enquanto, porque,
assim, nos convém cumprir toda a justiça” (Mt 3.15). Esta é a primeira
declaração de Cristo registrada depois de um silêncio de mais de vinte anos,
segundo consta na Escritura. Esta é sua primeira declaração registrada ao sair
da obscuridade para seu ministério público.
Justamente como Deus havia revelado que dentre os filhos de Jessé, Davi
era o eleito, assim ele revelou a João que dentre os muitos que recebiam o
Batismo somente este era o Messias. Deus então confirmou essa revelação
com o sinal.
Mas, por que Jesus deveria participar de um rito que significava
arrependimento, remoção de pecados e restauração às condições das bênçãos
pactuais? Jesus, pessoalmente, não tinha a menor necessidade desse
arrependimento. Apenas somos informados que ele considerava isso como
algo que ele deveria fazer para que toda a justiça se concretizasse. Ele não
disse que isso cumpriria a lei, e sim toda a justiça. Nenhum Batismo, nem
antes nem depois, poderia ser efetuado com o mesmo propósito que teve o de
Cristo!
Qualquer resposta, mesmo de cunho popular, a esta questão deve ser
descartada. Absolutamente nada na natureza do Batismo de João; nem na
declaração do céu; nem no que Jesus disse ou fez, indicaria que seu Batismo
era uma consagração ao sacerdócio. Seu ministério sacerdotal não teve início
senão a partir do Calvário, ou, pelo menos, não antes do Calvário. Tampouco
seu sacerdócio foi segundo a ordem levítica de Arão. A Epístola aos Hebreus
afirma, de maneira bem clara, que Jesus foi sacerdote segundo a ordem de
Melquisedeque. Este viveu antes da época dos requisitos levíticos. Ele não foi
consagrado ao sacerdócio por algum ser humano (Hb 7.14-17). Aqui somos
informados que o sacerdócio de Jesus “não foi conforme a lei de mandamento
carnal”.
A explicação mais antiga, e até este momento a melhor, é que Jesus
aceitou este Batismo vicariamente, unicamente por amor àqueles que veio
salvar. Foi um ato de identificação do imaculado com o pecaminoso. Ele
recebeu o Batismo das mãos de João como uma pessoa representativa.
Assumiu o pecado do povo como sendo propriamente seu, a fim de sofrer o
castigo em seu lugar.
Justamente, tanto em sua Circuncisão como também em seu Batismo, há
uma antecipação da plena identificação de Jesus com o povo. Esta foi a base
para que ele assumisse a plena responsabilidade pelo pecado do mundo. A
diferença está em que na Circuncisão Jesus foi identificado com o povo
mediante um ato de seus pais em seu favor, enquanto que no Batismo ele deu
este passo movido por sua própria vontade. Este apontava para o futuro, para
o dia em que ele seria feito pecado efetivamente, o pecado do mundo, e teria
que levá-lo em sua própria morte sacrificial e substitutiva.
A Páscoa pressupõe um paralelo interessante. Quando o cordeiro pascal
era escolhido pelo chefe da casa judaica, costumava-se levá-lo três dias antes
de ser oferecido para que o sacerdote o selasse com o selo do templo. Assim
nosso Senhor, três anos antes de sua morte sacrificial, foi separado e selado
por um ato direto do Espírito Santo, através do Batismo de João.
Quando Jesus deixou a vida de obscuridade, tendo atingido a maturidade
legal, ele abraçou seu ministério messiânico. Seu primeiro ato foi uma
expressão de inteira obediência como o Salvador paciente, assumindo perfeita
identificação com aqueles a quem ele veio salvar. Seu Batismo foi um voto de
que ele assumiria plena identificação com eles, incluindo o Batismo de
sofrimento e morte no Calvário.
Aceitando o Batismo de João, Jesus reconheceu a divina autoridade deste
como seu precursor. Mais tarde, ele diria: “Porque todos os Profetas e a Lei
profetizaram até João” (Mt 11.13). Portanto, ele reconheceu João como o
último dos profetas veterotestamentários.
Ao cumprir toda a justiça, Jesus estava fazendo três coisas: (a) Ele era um
verdadeiro israelita, atendendo ao dever de obedecer a um profeta de Israel;
(b) na realidade ele era o Filho do Homem, identificando-se formalmente
com o povo em sua necessidade em relação ao pecado; (c) ele era realmente o
Ungido de Deus, recebendo sua unção, sua certificação e a comissão para
levar a bom termo sua missão messiânica. O Pai celestial, pela primeira vez,
lhe falou com o fim de atestar a perfeita obediência e disposição do Filho
encarnado. Formalmente, Jesus se sujeitou à vontade do Pai como o
Redentor. O Pai batizou seu Filho com o Espírito Santo a fim de lhe dar o
poder para cumprir sua missão. Tudo isso focalizava um ponto no momento
do Batismo.
É vital ver que, como João batizou Jesus exteriormente com água, o Pai
realmente o batizou com o Espírito Santo. Seu Batismo foi não apenas o sinal
e o selo da designação e consagração divinas, mas foi também o próprio
“Pentecostes” de Jesus; foi seu enchimento com o Espírito para a missão
especial que lhe era confiada. A partir desse momento, as Escrituras mostram
que o Espírito desceu sobre ele num sentido novo e especial. Ele foi ungido
para pregar, para realizar milagres e para sofrer.
Para João, este foi um sinal de que sua própria missão estava quase
cumprida e seu ofício, quase expirado. Cumpria-lhe diminuir para que Jesus
crescesse. E, ainda mais significativamente, João assinalou um novo Batismo
que cabia a Jesus ministrar, dizendo: “Eu vos batizo com água, para
arrependimento; mas aquele que vem depois de mim é mais poderoso do que
eu, cujas sandálias não sou digno de levar. Ele vos batizará com o Espírito
Santo e com fogo” (Mt 3.11).
Nossa única dedução é que o Batismo de João não era o Batismo cristão. É
igualmente evidente que, uma vez que houve diferentes Batismos, cada um
deles tendo seu lugar e sentido específicos, há elementos comuns a todos
eles. Estes incluem o conceito de (a) purificação interior de pecado, (b) união
com Deus, (c) relação com as promessas pactuais e (d) os privilégios
espirituais. A essência básica de todos eles é a ideia de transformação
espiritual e uma nova identificação.
Um uso ulterior da ideia do Batismo nos Evangelhos mostra quão
prontamente o termo se adapta ao uso figurado. Em Marcos 10.38, 39, Jesus
disse aos dois discípulos que pleiteavam lugares preferenciais a sua direita e a
sua esquerda: “Podeis beber o cálice que eu bebo ou receber o Batismo com
que eu sou batizado?” (Mc 10.38). Bem sabemos que o cálice era uma
referência a seus sofrimentos, pois ele, em sua agonizante oração no
Getsemane, disse: “Meu Pai, se possível, passa de mim este cálice!” (Mt
26.39). O Batismo de sofrimento não continha nenhuma ideia de imersão. O
uso figurado da palavra “Batismo” expressa a identificação com o sofrimento
e participação nele.
5. O Batismo ministrado por Jesus
O quarto capítulo do Evangelho de João corrige uma declaração anterior que
dizia que Jesus batizava, afirmando que ele não batizava, mas eram seus
discípulos quem na realidade o faziam. Por algum tempo, Jesus pregou a
mesma mensagem de João e batizou, não ele mesmo, mas pelas mãos de seus
discípulos, indicação que pressupõe superioridade em relação a João. Assim
que ele deixou de pregar a mesma mensagem de João, cessou também de
batizar. Quase não dá para notar que Jesus batizara durante algum tempo
depois de João.
Somente no final dos relatos dos Evangelhos é que o Batismo entra
novamente em cena. O Senhor ressurreto envia seus discípulos com a ordem
expressa de batizar. Não obstante, ele os instrui para que aguardem o
Pentecostes e a vinda do Espírito Santo antes de partirem. O relato do
Pentecostes apresenta os primeiros Batismos cristãos. Não podemos deixar de
associar a descida do Espírito Santo com o Batismo, nem podemos ignorar
que João Batista indicara, com toda clareza, que o novo elemento que Cristo
introduzira em seu Batismo seria a participação do Espírito Santo (Mt 3.11; Lc
3.16). O Batismo cristão teve sua origem com o dom do Espírito prometido,
inaugurado no dia de Pentecostes. É por esta razão que se pode dizer
corretamente que a Igreja Cristã nasceu no dia de Pentecostes, constituída e
investida de poder pelo Espírito Santo que veio do alto como o Dom de Deus.
O Batismo é o rito iniciatório de ingresso na igreja neotestamentária, o sinal e
o selo do pacto que se cumpriu no Mediador, o Senhor Jesus Cristo.
Corretamente se afirma que Jesus batizaria com o Espírito Santo, porque,
já que não o fez durante seu ministério terreno, ele o fez precisamente ao
empreender seu ministério celestial como nosso Sumo Sacerdote, estando
assentado à destra do poder do Pai. Foi ele quem enviou o Espírito Santo no
dia de Pentecostes. A partir daquele dia e da instituição do Batismo cristão, a
ênfase no Batismo tem consistido grandemente na comunicação do Espírito
Santo. Isto está em harmonia com a nova revelação de que é o Espírito Santo
quem regenera o crente; quem batiza o crente em Cristo e no corpo de Cristo,
que é a igreja; e quem comunica ao crente o poder de Cristo. A obra de
Batismo do Espírito Santo é a realidade interior que se faz notável no conceito
pleno do Batismo cristão. Qualquer ênfase sobre qualquer conceito do
Batismo cristão, assim como de seu modo adequado de administração, que
ignore o ministério do Espírito Santo, será parcial e impróprio.
Os que aguardaram a promessa divina no dia de Pentecostes não foram
imersos no Espírito Santo; ao contrário, vieram a ser habitação dele. A
característica distintiva da igreja da nova dispensação consiste em que cada
crente é habitação do Espírito Santo. Esta habitação é permanente e efetua a
transformação espiritual que o ritual do Batismo deve significar.
Somente quando fazemos diferença entre o Batismo de João para
arrependimento e o Batismo cristão é que podemos compreender o fato que
certos discípulos de Éfeso, que haviam sido batizados por João, foram
novamente batizados por Paulo (At 19.1-6).
Capítulo 12
DETERMINAÇÃO DA FORMA
CRISTÃ DO BATISMO

Uma vez estabelecido o fundamento do pacto do Batismo cristão, o


fundamento dos herdeiros menores e o dos adultos conversos, é conveniente
voltar agora nossa atenção para o tão debatido assunto da forma ou do
método apropriado do Batismo. Em conexão com isso, exploraremos os giros
distintos de significado associados com o Batismo neotestamentário. Esses
significados, tanto quanto o fundamento do pacto, oferecem amplo material
bíblico para determinarmos se existe uma única forma, ou se existe mais de
um modo aceitável.
O objetivo deste estudo tem sido demonstrar que o Batismo infantil é uma
norma no seio da comunidade pactual, perpetuando assim, primeiramente, o
pacto dos pais cristãos para com seus herdeiros naturais, em que o propósito
de Deus é que o pacto se concretize neles. Em segundo lugar, nesta
consideração, está o Batismo dos adultos que entra na relação pactual por
meio de sua conversão pela fé em Cristo.
Tem-se praticado a imersão desde os tempos primitivos na história da
igreja, como uma das formas, e não é necessário dizer que, com certeza, é
uma das formas válidas. A imersão jamais foi um motivo de discussão na
igreja, senão até a Reforma e o surgimento dos grupos batistas modernos.
Este fato é às vezes negado pelos batistas, os quais afirmam ser a
continuidade de um corpo de antecedentes na igreja primitiva, e não um
produto da Reforma. Seja como for, não se pode negar que o assunto de
insistir sobre a imersão como a única forma válida não chegou a ser um
motivo importante, senão até os tempos da Reforma.
Em contrapartida, virtualmente toda a igreja cristã conservou a prática da
aspersão desde os tempos mais remotos, até onde recua a história. Aliás, a
maior exceção nisto tem sido a Igreja Ortodoxa Oriental. Mas, o propósito
deste estudo não é digladiar em prol da aspersão como uma maneira superior,
e sim como uma forma válida. A imersão, a aspersão e a afusão, todas essas
formas, têm um lugar nas tradições primitivas da igreja. Não obstante, em
vista de que com frequência se põe em dúvida a validade da aspersão, nosso
sentimento é mostrar a natureza absolutamente bíblica de sua prática.
Essencialmente, o ponto de vista apresentado está em harmonia com Calvino,
que escreveu: “Não tem maior consequência se a pessoa a ser batizada se
submeta a uma imersão total, e que esta seja efetuada uma ou três vezes, ou
que o batizando seja apenas aspergido com água; as igrejas deveriam sentir-se
livres para adotar uma ou outra forma, de acordo com a diferença de climas”
(Institutas, IV, XV, 19). Nutrimos a esperança de que esta liberdade venha a
difundir-se!
1. Determinando o significado do verbo grego baptizo.
Para alguns, muito da doutrina bíblica parece ser resultante do significado
preciso do verbo grego baptizo. Há quem insista em que só se deve levar em
consideração o sentido literal original. No entanto, determinar o significado
do termo, como usado no Novo Testamento, não é assim tão fácil como
alguns o veem. É muito mais que consultar um dicionário do grego clássico
ou do grego neotestamentário. Isso deveria ser patente partindo do fato de
que os tradutores para o inglês [e para o português] jamais conseguiram uma
palavra equivalente ao termo grego baptizo. Ao contrário, eles têm adaptado a
palavra foneticamente, conservando a palavra grega em nosso idioma.
Tiveram que fazer isso porque não havia em nosso idioma a palavra para
expressar adequadamente a ideia contida no grego. O significado original, em
seu sentido literal, é imergir. Não se pode negar tal fato, e presumivelmente
dá grande autoridade à prática existente da imersão. Um dos mais profundos
significados do Batismo está também associado com o sepultamento e a
ressurreição de Cristo, já que tipifica a morte para o pecado e a ressurreição
para novidade de vida. A despeito de este fato estar em evidência, contudo não
o está totalmente. Restringir o entendimento de uma pessoa a isto equivale a
restringir o que a Bíblia não restringe!
Por haver nosso idioma usado o termo imergir onde a Bíblia usa o verbo
grego baptizo, significa que seria impossível o uso de outro termo adequado,
como veremos. E se o verbo baptizo não pode ser usado em todos os casos, é
um problema saber em que casos ele pode ser usado. Mas, se o verbo baptizo
não tem equivalente específico em nosso idioma, o que podemos afirmar
sobre ele? A voz geral é que o termo não tem sentido geral. E esta ideia geral
se conforma a uma complexidade de várias ideias. A palavra não é específica,
e sim genérica. Não denota uma forma definida, e sim precisamente um efeito
que se produz. Esse efeito pode ser produzido quando se cumpre a ordem em
mais de uma forma específica.
A doutrina do Batismo, que é tão complexa, e que abarca várias ideias
relacionadas, se manifesta por meio de um sinal sacramental que, em si
mesmo, é simples e não complexo. O rito, como a palavra, expressa
significados tão variados e ricos quanto representa a doutrina. Um sinal tão
simples representa uma ideia complexa. O sinal simples é denominado de
“Batismo”, e a doutrina complexa é igualmente denominada de “Batismo”. É
preciso ter sempre em mente este uso dual do termo.
Portanto, fica claro desde o início que é preciso ir além do simples
significado da palavra e buscar o seu uso em outros lugares, a fim de
descobrir como o sinal deve ser ministrado. O modo não se manifesta na
própria palavra. E quão notável é o fato que o Novo Testamento, em nenhum
momento, dá instruções sobre o modo específico da administração do sinal!
É interessante notar que isto também se aplica à ministração da outra
ordenança sacramental do Novo Testamento, a Ceia do Senhor. Em nenhuma
parte do Novo Testamento lemos como esta deve ser ministrada. Na prática,
como se dá com a ministração do Batismo, há muitos modos diferentes de se
administrar a Ceia do Senhor. Com certeza os membros da igreja primitiva
participavam dela em posição reclinada, embora ela não seja assim ministrada
hoje. É bem provável que, no início, a Ceia do Senhor fosse celebrada a cada
dia. Hoje as igrejas diferem até mesmo na frequência de sua celebração. Há
quem se sente à mesa; outros recebem o sacramento de joelhos; enquanto
outros o recebem sentados. Há quem use um só cálice para todos, enquanto
outros usam um cálice individual. Há quem use pão asmo; e ainda outros
creem que este deve ser uma hóstia, e não pão comum. Há aqueles que a
celebram a cada domingo; outros, mensalmente; e ainda outros, a cada três
meses. Alguns preferem de manhã; outros, de noite. Muitos creem que ela
devia ser acompanhada de uma festa de fraternidade, ou com a prática da
lavagem dos pés; outros, não. Mas ninguém pode achar instruções detalhadas
no Novo Testamento relativas a uma forma exclusivamente correta.
Felizmente, poucos insistem numa literalidade escravizante com o fim de
determinar o significado essencial do sacramento.
Seguindo o mesmo raciocínio, a falta de instrução detalhada no Novo
Testamento é argumento que favorece a liberdade no modo de ministrar o
Batismo. Não existe instrução explícita acerca de que um rio, um ribeirão,
uma fonte ou uma vasilha se faz necessário para a essência. Nada lemos em
referência se a água tem de ser fria ou quente, nem se os que vão receber o
Batismo devem estar vestidos ou nus. Ao contrário, as Escrituras parecem
pressupor generalidade, ou, seja: a possibilidade de executar o rito apropriado
e sem complicações, em qualquer lugar e em qualquer tempo.
2. Declaração geral da grande comissão
S e baptizo é um termo que denota uma forma determinada, então só essa
determinada forma, por si só, pode satisfazer o mandamento: “Ide, portanto,
fazei discípulos de todas as nações, batizando-as...” Mas, se este é um termo
de sentido mais geral do que determinado, então o assunto da forma de modo
algum afeta a substância do mandamento. Deixa-se, pois, às pessoas afetadas
a escolha de qual forma é a correta, tendo como base outras considerações das
Escrituras.
A ordem dada à grande comissão é a única passagem onde Jesus ordenou
que se ministrasse o Batismo. Lemos ali quatro verbos, sendo um dos quais o
verbo “batizando”. Ora, se esta é uma palavra específica, e não uma palavra de
sentido geral, então o significado exato não é difícil de apreender. Se o
significado é “imergir”, o Batismo não pode ser ministrado por afusão nem
por aspersão, e aplicá-lo de um modo ou outro seria um flagrante desvio. Se o
significado é “aspergir”, o Batismo não pode ser ministrado por imersão ou
por afusão, e aplicá-lo de um ou outro modo seria igualmente um flagrante
desvio. Se o significado é “verter”, o Batismo não pode ser ministrado por
imersão nem por aspersão, e aplicá-lo de um ou outro modo seria flagrante
desvio. Mas, se a palavra expressa a ideia geral, digamos de purificação
interior e de união com Deus, como é significada pelo uso ritual da água, a
forma só tem importância geral. Isto permaneceria sendo verdade se não
houvesse outras instruções relativas a uma maneira específica. O ponto é o
seguinte: se a ideia geral está representada fielmente pela imersão, a afusão
ou a aspersão deverá decidir sobre outras bases distintas das bases do
significado literal da palavra baptizo. E já que a história da igreja primitiva
exibe as três formas referidas, presume-se que o significado essencial não é
exclusivo de nenhum sistema em particular.
À luz desse exame se descobre que os quatro verbos usados pela grande
comissão são gerais, e não particulares. “Ide” não indica como alguém deve ir.
“Fazei discípulos” não especifica se isso é feito por meio da pregação, ou da
instrução pública ou privada, ou de outra maneira. “Ensinando” não especifica
se deve ser através da palavra expressa ou impressa. Justamente da mesma
forma, o último verbo, “batizando”, é igualmente geral, pois não indica se
batizar tem de ser por imersão, aspersão ou afusão. Só podemos chegar a uma
conclusão: esta instrução de nosso Senhor indica que o mandamento não se
refere a nenhuma das três formas em particular.
3. Um princípio de linguagem
O significado clássico de uma palavra nunca é um guia absoluto para seu
sentido neotestamentário. Sempre que se anuncia um conceito
exclusivamente cristão, há necessidade de modificar a palavra grega adaptada
para expressá-lo, a fim de enquadrar à linguagem a nova ideia introduzida. É
preciso ter em mente que a prática do Batismo, como um rito, é mais antiga
que a palavra grega adotada para o expressar no Novo Testamento. Isso
pressupõe imediatamente uma adaptação.
Nada é mais comum na história das palavras [filologia] do que a
modificação de seu significado. Já que as palavras são os símbolos das ideias,
passa a ser constantemente necessário, em todos os idiomas, ampliar ou
limitar o significado das palavras. Esta é uma parte fundamental do processo
de mudança na linguagem humana. Quando alguém precisa transmitir uma
ideia nova, para a qual não há uma palavra que se ajuste com exatidão, ou ele
se vê obrigado a inventar uma palavra inteiramente nova, ou a modificar uma
já existente.
Não há um conceito neotestamentário distintamente cristão que se
expresse por meio de alguma palavra do grego clássico que não tenha sido,
mais ou menos, modificada em seu sentido clássico. Duas ideias cristãs são
“arrependimento” e “fé” (metanoia e pistis). Estas ideias, como se encontram
no Novo Testamento, são completamente diferentes de qualquer significado
que esses termos tiveram para Homero, Xenofonte ou Tucídides. É quase
uma conclusão inevitável que, sempre que alguém tenha que expressar algum
conceito distintivamente cristão, o termo grego, necessariamente, terá de ser
usado com um sentido modificado. Deve-se esperar tal coisa como um
procedimento normal. Os missionários têm tido experiência deste princípio,
quando afirmam: “A linguagem deste povo precisa ser tão convertida quanto
eles mesmos.”
À título de antecipação, basta mencionar aqui que, uma vez que o idioma
grego não tem nenhuma palavra para a ideia de purificação interior de pecado,
ou união com Deus como está implícita pelo uso ritual de água, a palavra
baptizo foi adotada e adaptada, dando-lhe um sentido modificado. Este
significado é prontamente declarado quando estudado na totalidade de seu
uso neotestamentário. Por certo que o grego não contava com nenhum outro
termo para transmitir esta ideia geral. A palavra baptizo foi peculiarmente
bem adaptada à ideia neotestamentária, como se verá no estudo de seu uso
clássico. No entanto, antes de tudo, nos seja permitido ilustrar o princípio de
modificação linguística, estudando uma palavra estreitamente relacionada, a
saber, bapto.
Bapto está registrada nos léxicos como a palavra da qual se deriva baptizo.
Contudo, nem mesmo bapto significa, originalmente, “imersão”. Os léxicos
mais importantes e completos registram bapto como que derivado de bafe,
significando “tingir”. Só veio adquirir um sentido de “imergir” em virtude de
uma forma comum de tingir, ou, seja, imergindo o material na tintura. A ideia
original da raiz era a de transformação operada num objeto ao mudar-lhe a
cor. Veremos que esta ideia básica de transformação persistiu na palavra
baptizo, e é essencial nela. É possível descobrir que mesmo a própria palavra
bapto, na Escritura, significa outra coisa além de “imersão”, Em Daniel 4.33,
na versão Septuaginta, a versão grega do Antigo Testamento em uso durante a
época de nosso Senhor, descreve o umedecimento do corpo de
Nabucodonosor com o orvalho do céu, usando bapto para “umedecer”. A
palavra não pressupunha a ideia de “imersão” ou “mergulhar com ímpeto”.
Outros casos do uso de bapto na versão Septuaginta do Antigo
Testamento, cerca de dezessete, mostram que a palavra, em si mesma, não é
determinativa. Algumas vezes se refere a uma ação executada por imersão; e,
outras vezes, não. Usualmente, a imersão a que se refere é um simples
umedecimento, que não chega a um mergulho. A ideia de molhar é notável.
Por exemplo, Levítico 14.6, 51 lemos do ritual prescrito para a purificação de
um leproso. Uma ave viva associada com pau de cedro, estofo de carmesim e
hissopo, molhados no sangue da ave morta. Podiam ser molhados, mas não
imersos em tão pouco sangue. E caso se argumente, dizendo que o sangue
estava misturado com água viva, pode-se contestar, dizendo que isso não está
estabelecido. De fato, mesmo que assim fosse, o Talmude (Negaim, cap. XIV,
Mishnah 1) só autoriza o uso de um quarto de um litro de água. Isso não era
bastante para a imersão da ave viva.
Ou, para mais uma ilustração, o costume comum a que se refere Rute 2.14,
onde Rute foi convidada a “molhar seu bocado no vinho”. Seria irracional
insistir em que isso constituía uma imersão total.
É bem provável que somente Levítico 11.32 e Jó 9.31 indiquem o sentido
de imersão total da palavra bapto. Buscando uma posição razoável, deve-se
concluir que a palavra pode referir-se, e algumas vezes o faz, a uma imersão
completa, mas com mais frequência se trata de um mero mergulho com o fim
de molhar. E, posto que o uso da palavra, ao falar de tingir, chegou a ser tão
comum, nos permite avançar um pouco mais.
Hipócrates fala do líquido colorante: “Quando goteja sobre os vestidos,
estes se tingem.” Ele usa bapto para imprimir não a ideia de imersão, e sim de
impregnação.
Esquilo fala de “um vestido tingido pela espada de Egisto”, e seu
pensamento não é de imersão, e sim de transferência da cor do sangue para o
vestido. O conceito é de transformação.
Como ilustração final do uso de bapto, que se leve em conta o caso em que
Homero fala de Crombófago que “caiu e não mais respirou, e o lago ficou
tinto de sangue”. O lago não foi imerso! Ao contrário, o lago recebeu o sangue.
A coisa significativa, à primeira vista, é o efeito, não o meio específico pelo
qual se conseguiu o efeito. Agora voltemos outra vez à consideração de bapto
e baptizo.
4. Uso figurado da palavra nos clássicos
Em seu uso literal, a palavra clássica, baptizo, é empregada para “imersão”.
Mas, é também usada no sentido de afundamentos, inundações, afundamento
de uma espada, de terra inundada por água, afogar-se em vinho ou algum
outro líquido, etc. Surpreendentemente, a palavra não se limitava a um uso
literal. Era usada também em sentido figurado. É um grande erro considerar o
significado literal superior ao sentido figurado, e deduzir que em determinado
uso o sentido deva ser geralmente o literal. É de suma importância que
tratemos de determinar como se usava baptizo, em sentido figurado.
Descobrimos imediatamente que o termo era usado em sentido figurado para
apresentar a alguém angustiado pelos tributos, dúvidas, cuidados, sonho,
paixão, tristeza, vinho, etc. O uso figurado não implicava água; a ideia de água
não estava de modo algum na palavra. E ainda mais, seria difícil encontrar
alguma sugestão de significação cristã unida à palavra, levando em conta seu
uso clássico. É uma palavra grega adaptada para expressar o conceito
neotestamentário.
O primeiro indício real sobre por que baptizo foi adaptado tão
rapidamente ao conceito cristão do Batismo espiritual vem dos escritores
clássicos por volta do ano 400 antes de Cristo, e segue até cerca do século
segundo depois de Cristo. Pressupõe-se isto pelo uso figurado da palavra para
expressar uma transformação, uma mudança de identidade por quaisquer
meios de transformação que se empregassem.
Portanto, a ideia essencial incorporada em baptizo é a de uma
transformação fundamental, tão pronunciada a ponto de ressaltar uma nova
identidade! Quão significativa se tornará esta ideia essencial quando
chegarmos à análise de que nossa regeneração espiritual, pelo Espírito Santo,
é uma transformação que põe em evidência uma nova identidade!
Busquemos, porém, em primeiro lugar, várias ilustrações dos clássicos, as
quais revelam este significado.
Píndaro, poeta de Tebas, nascido por volta do ano 500 antes de Cristo, em
seu segundo livro Oda Pitia, escreveu: “Eu, como uma boia acima da rede de
pesca, o mar não batiza.” Píndaro incita a Hieron, vitorioso de uma corrida de
carros, e se refere a si mesmo como um exemplo de sinceridade, usando a
figura de uma boia. Ele compara sua sinceridade com uma boa rede de pesca
com suas boias flutuadoras que podem estar constantemente imersas, mas
não ao ponto de se afundar. Constantemente imerso, porém jamais batizado!
O uso figurado de baptizo se refere aqui a uma possível transformação, que
neste caso ocorreu. Aqui, baptizo contém a ideia de transformação.
Platão, escrevendo por volta do ano 400 antes de Cristo, em seu livro
Symposium, mantém uma discussão acerca de como lograr o primeiro lugar
bebendo vinho, mas com um mínimo de prejuízo. Aristófanes confessa a
Pausanias sua própria embriaguez anterior: “Porque eu mesmo sou um dos
batizados de ontem.” Não há ideia de imersão, mas simplesmente de alguém
que bebe vinho em demasia, uma mudança da sobriedade para a intoxicação.
Aqui, baptizo contém o sentido de transformação.
Em outro diálogo, Platão se refere à prática de Sócrates com um jovem que
estava confuso por questões fisiológicas. Platão diz: “E eu, sabendo que o
moço estava sendo batizado, quis dar-lhe uma trégua.” Ele usa a palavra
baptizo para indicar que o moço era transportado de um estado de
pensamento claro a um estado de confusão. Outra vez, baptizo significa
transformação.
Políbio, escrevendo em torno do ano 180 antes de Cristo, ao descrever
uma batalha naval, afirma que Átalos, ao observar um de seus próprios barcos
fora de combate, arruinado e batizado, se precipitou em seu auxílio. Por
baptizo ele tem em mente “estando em estado de afundamento”, e assim é
traduzido. A palavra comum para expressar a condição de afundamento de um
bote pesqueiro é buthizo, um verbo intransitivo. Veja um exemplo em Lucas
5.17. No entanto, Políbio usou o transitivo baptizo, para dar um sentido mais
amplo. Seu pensamento era que o barco jazia num estado de afundamento,
porque fora transformado de uma condição de luta a uma condição de
inutilidade, como consequência de um dano na batalha. Uma vez mais, aqui
baptizo significa transformação.
Políbio, numa passagem em que descreve a perda de uma cavalaria num
pântano, escreve: “Eles, batizados por si próprios, e, se afundando nos
charcos, se inutilizaram e muitos pereceram.” Depois que foram batizados, se
afundaram na água. A ideia é que estavam exaustos num vão intento por sair
do poderoso pântano, e se transformaram de um estado de potência num
estado de debilidade que os fez perecer. Uma vez mais, a ideia de baptizo é de
transformação.
Diodoro Sculus, escrevendo por volta do ano 30 antes de Cristo, fala dos
governantes egípcios: “Eles não batizam o povo com tributos.” O povo não
pode ser imerso em tributos, nem lançar tributos sobre ele, nem ser salpicado
com tributos. Os povos já vivem atropelados pelos tributos, e, portanto,
transformados do estado de tranquilidade para o de descontentamento; do
bem econômico para opressão econômica. Os impostos excessivos têm um
efeito transformador sobre a vida humana. Uma vez mais, a ideia essencial de
baptizo é transformação.
Josefo, historiador nascido mais ou menos no tempo da morte de Jesus,
contemporâneo mais jovem que Paulo e os demais escritores
neotestamentários, em seu livro Antiguidades Judaicas comenta um
incidente relatado em Jeremias 41.2. Ele fala de Ismael que se destacou por
sua cordialidade ao ponto da embriaguez. Josefo escreve: “Dando-se conta de
que estava tão afetado e batizado, até a anestesia, pelo sono causado pelas
bebidas fortes, Ismael, levantando-se com seus dez amigos, feriu Gedalias
com uma faca.” A ideia é que Gedalias foi reduzido, de um estado de defesa
vigilante, a um estado de estupidez e indefeso abandono, devido ao álcool. A
ideia é simplesmente de transformação.
Introduzir algo num líquido pode não ter outro efeito senão fazer com que
o que é imerso seja molhado temporariamente. Mas o Batismo produz um
efeito permanente, quando é uma resposta representativa da fé na promessa
divina. Um exame do uso clássico mostra que o emprego de baptizo é
importante para demonstrar que se produziu um efeito permanente.
Nicandro, poeta e médico grego, por volta do ano 200 depois de Cristo, nos
fornece uma boa ilustração desse fato. Ele escreve como curtir nabos. “Depois
de metê-los em água fervente, os batiza com salmoura forte.” Ao falar de
“imersão em água fervente”, ele usou apobapto; mas quando manifesta
transformação por meio da curtição em salmoura embebendo diretamente os
nabos, ele usou baptizo.
É possível que se diga que os autores gregos mais importantes, na história
moderna, usavam baptizo para significar “imersão”. Isso é realmente
inaplicável ao todo. O que fornece a melhor chave para sua interpretação da
teologia cristã é o sentido em que a palavra foi antigamente usada e durante o
tempo em que se escrevia o Novo Testamento. Ora, se o Batismo com água
produz um efeito literal mediante o uso de água, alguém poderia esperar que
se usasse o significado literal de baptizo. Mas, já que é um efeito espiritual,
não figurado, nem literal, deveríamos buscá-lo nesse sentido. E já vimos algo
do sentido figurado correto de baptizo, quando se aplica a um rito que
significa uma transformação tão plena que chega a mudar de identidade.
Hipócrates, Heródoto e Aristóteles igualmente fazem uso de baptizo neste
sentido de efetuar uma transformação. É precisamente esse uso figurado que
leva alguém a aceitar que o modo do Batismo nunca pretendeu restringir-se
aos estreitos limites da interpretação literal da palavra. As implicações
espirituais complexas do verdadeiro Batismo espiritual, como apresentado no
Novo Testamento, exigem que se empregue o sentido figurado. Seria óbvio
que mesmo os significados mais amplos de muitas palavras gregas foram
restringidos demais para transmitir os sublimes conceitos neotestamentários.
À medida que o estudante percebe as deduções cada vez mais plenas de um
conceito neotestamentário, ele perceberá também a grandeza da palavra grega
escolhida para transmitir tal conceito. Quanto mais se entendam os amplos
significados doutrinais do Batismo, mais se apreciará a divina adaptação de
baptizo, como uma palavra preparada para ser um meio apropriado, por seus
sentidos figurados únicos.
Há ainda outras palavras gregas que poderiam ter sido usadas, se a
imersão literal, e somente essa imersão, estivesse em pauta. Por exemplo,
kataduo e enduo eram às vezes usadas pelos escritores primitivos quando
desejavam chamar a atenção para determinado Batismo efetuado por
imersão. No entanto, o Novo Testamento nunca usa estas palavras quando se
refere ao Batismo. Heródoto usava kataduo para o ato de pôr a cabeça debaixo
da água ao banhar-se. Outra possibilidade seria incluir hupobruchios, que
significa “estar debaixo d’água – abaixo da superfície. Outro termo é
diarripteo, cuja interpretação é, em alguns casos, “mergulhar”. Há ainda outro
termo, entithemi, cujo sentido é “pôr dentro”. Ainda outro, katabaino,
significa “descer dentro de”, e poderia facilmente ser interpretado no sentido
de “imersão”. Mas nenhuma dessas palavras se acham presentes no Novo
Testamento. É muito significativo o fato de que a palavra que o Espírito Santo
escolheu seja aquela que é mais rica em formas figuradas e plenamente
apropriada para transmitir os sentidos mais amplos da doutrina do Batismo
cristão.
Eis um bom momento para a consideração de uma passagem de difícil
interpretação – 1 Coríntios 10.2. Lemos ali: “tendo sido todos batizados, assim
na nuvem como no mar, com respeito a Moisés.” Se a palavra baptizo
significa exclusivamente “imersão”, esta passagem se nos afigura como uma
estultícia. Entretanto, isto de modo algum se refere ao Batismo com o uso de
água. Este é um Batismo figurado, apresentando a ideia de que eles estavam
relacionados com Moisés, a ponto de se identificarem com ele. O povo de
Israel fora separado com o fim de seguir a Moisés, seu guia divinamente
escolhido. A nuvem e o mar proporcionavam proteção, diretriz e salvação para
todos os que, desse modo, estivessem unidos a ele. O povo passou do estado
de escravidão no Egito para o estado de liberdade sob as ordens de Moisés.
Estavam depositados com Moisés, identificados com ele e unificados sob suas
ordens. Esta é uma ilustração perfeita do uso figurado de baptizo,
significando transformação de um estado em outro. Eles foram
transformados por meio de sua identificação com Moisés.
E agora devemos examinar a evidência fornecida pela versão Septuaginta.
5. Luzes advindas da versão Septuaginta
A Septuaginta é a versão mais antiga do Antigo Testamento. A tradição nos
informa que a obra foi começada no Egito durante o reinado de Ptolomeu
Filadelfos (285-246 a.C.). Depois de quase um século, todo o Antigo
Testamento já estava vertido para o grego. A versão emergiu da necessidade
que tiveram os judeus de Alexandria de possuir as Escrituras em seu idioma
adotado. Cada vez mais, os eruditos do Novo Testamento adotaram o ponto de
vista de Deissman, o qual escreveu: “As Bíblias manuscritas mais antigas que
possuímos são Bíblias completas em grego. Mas o que a história uniu, a
doutrina separou.” A Septuaginta ilustra claramente o uso de palavras gregas
entre os judeus desse tempo, e especialmente o uso de termos gregos para
ideias hebraicas, no Antigo Testamento. Isto lança forte luz sobre o assunto
do Batismo.
A palavra baptizo se encontra três vezes na Septuaginta, em sua forma
literal, e uma vez em seu sentido figurado. O uso figurado se encontra em
Isaías 21.4, onde o pensamento é “... o horror me apavora...” Ser batizado era
ser apavorado. Em outros termos, o horror tem um efeito transformador.
Isaías indica que ele foi transformado de um estado de terror pela visão
profética da violenta maldade.
A palavra hebraica tabal é traduzida uma vez pela palavra grega baptizo.
Isto é muito significativo. O hebraico tabal se encontra dezesseis vezes no
Antigo Testamento. A Septuaginta a traduz quatorze vezes pelo grego bapto;
uma vez por moluno; e uma vez por baptizo. Isto não foi um acidente. Brown,
Driver e Briggs, juntamente com outros lexicógrafos hebreus, registram como
sendo o significado de tabal: “introduzir” ou “umedecer com”. A concordância
definitiva hebraica de Salomão Mandelkern grafa a palavra latina como
“molhar, umedecer, banhar ou imergir”. Dillman comumente traduz o termo
por “molhar”.
Em contraste, fica claro por que baptizo é empregada neste único caso
como tradução de tabal. Ela chegara a ser uma palavra usada em sentido
religioso, peculiar para significar a purificação da alma, como era simbolizada
pelo rito de água.
A primeira das três vezes em que o termo baptizo é usado pelos tradutores
da Septuaginta, ele representa a palavra hebraica tabal. Esta se encontra em 2
Reis 5.14 e se refere a Naamã. É importante notar que Naamã tinha uma
enfermidade que simbolizava o pecado. Essa enfermidade lhe foi dada por
Deus para este único propósito. O que Naamã necessitava era purificar-se do
pecado, e isso era simbolizado dramaticamente por sua purificação da lepra de
uma forma sobrenatural. O profeta dissera a Naamã que simplesmente
procurasse água e “se lavasse”. Pela mera lavagem literal nada se
concretizava; mas era um ato de purificação interior. O ato de lavar era um
exemplo comum de purificação ritual. Os tradutores da Septuaginta estavam
perfeitamente familiarizados com isso, e portanto, usavam baptizo para
expressar a ideia do uso ritual da água para significar uma transformação
interior.
Em nítido contraste, mergulhar o pão em vinho; ou afundar os pés na
água; ou o ato de Arão mergulhar o dedo no sangue do novilho, todos esses
eram casos em que os tradutores da Septuaginta empregaram bapto em vez
d e baptizo. Uma vez mais, a razão é bem clara. Era uma imersão parcial,
porém não significava purificação interior. Não compreendia a ideia de
transformação.
Outro desvio interessante do uso comum de bapto para significar tabal é
onde se fala da túnica de José que foi imersa no sangue do cabrito. Nesse caso
a Septuaginta usou a palavra grega moluno, que significa “manchar”. Imergir
a túnica não era outra coisa senão o que estava significado. A imersão no
sangue não era o fato significativo, mas seu efeito assim era. E o efeito era
meramente manchar.
Há mais duas passagens onde baptizo se encontra na Septuaginta, ambas
nos livros apócrifos. O exame de uma destas será suficiente para ilustrar seu
uso uniforme.
Em Judite[1], o termo baptizo é empregado no sentido de uma purificação
que não se efetua por imersão; no entanto, era evidentemente uma forma de
purificação ritual. Isso se deu num acampamento, à vista de um guarda, e
quem se “batizou” foi uma mulher, Judite. Ela fez isso numa fonte ou
manancial (pege), não num lago, nem num tanque, nem num ribeirão. O que
se nota especialmente é o efeito “... e, uma vez purificada, ela...” (Judite 12.6-
9). Esta lavagem de purificação ritual foi denominada de “Batismo”. Sendo
uma mulher quem satisfez essas condições, sem comprometer-se
moralmente, isso significa que o modo comumente usado naquele tempo,
entre os judeus, era a aspersão.
A Bíblia está cheia de “aspersões”. Elas são mencionadas cerca de sessenta
vezes: cinquenta e três vezes no Antigo Testamento; sete vezes no Novo.
Algumas vezes é aspersão de sangue; outras vezes de óleo; outras vezes de
água, pó ou cinzas. E amiúde é uma mescla. Essas aspersões têm sempre um
significado simbólico. A prática do Antigo Testamento tem grande conexão
com a prática do Novo, e qualquer interpretação do Novo Testamento deve ter
por base o conhecimento do Antigo. Só assim é que se pode valorizar
devidamente qualquer evocação ou alteração expressa.

1 Livro deuterocanônico, mas que tem seu valor histórico que valida a argumentação do autor. N. do E.
Capítulo 13
A EXTENSÃO DA TEOLOGIA
NEOTESTAMENTÁRIA

Os imersionistas evocam duas passagens primordiais como se elas


ensinassem a essência do Batismo cristão. Romanos 6 e Colossenses 2. Este é
nosso ponto de partida. Mas antes de tudo é preciso observar quatro
considerações fundamentais, a fim de que estas passagens sejam
interpretadas corretamente.
1. Não existe nada que indique que o sentido completo do Batismo se
limita ao que está expresso nestas passagens. Não temos nada que nos
obrigue a considerar isoladamente estas duas passagens com o fim de ensinar
o significado do Batismo, nem que as consideremos mesmo para ensinar o
significado intrínseco e essencial do Batismo. Há passagens que logicamente
devem ser consideradas com mais base do que estas.
2. Estas passagens bíblicas devem ser interpretadas em harmonia com as
demais passagens pertinentes, e não em contradição a elas. A Escritura
contém em si plena unidade.
3. O Batismo não deve ser isolado das demais doutrinas primordiais. Ele
deve ser considerado, especialmente, em conjunção com a doutrina da
redenção, bem como com a do ministério do Espírito Santo de proporcionar
redenção ao indivíduo. É preciso ver o Batismo em conexão com a igreja, com
os sacramentos e, especialmente, com o pacto da graça.
4. Não há menção nem pensamento de Batismo com água em Romanos 6
e nem em Colossenses 2. O que está em pauta em ambas as passagens é o
Batismo espiritual.
1. Exposição de Romanos 6.1-11
Lembre-se de que os primeiros oito capítulos de Romanos constituem um
discurso teológico, e não há neles absolutamente nada sobre assuntos
práticos, tais como a ministração da igreja, os sacramentos e sua ministração,
ou formas particulares de culto. A Epístola aos Romanos é circunscrita pelas
realidades espirituais, das quais os sacramentos são sinais e selos visíveis. O
Batismo espiritual está primordialmente em vista no capítulo 6, não o
Batismo com água. Mas, para se conseguir uma situação exata com respeito
ao nosso assunto, revisemos outra vez o processo da doutrina que se encontra
nos primeiros oito capítulos.
Os capítulos 1 a 3 desenvolvem o problema do pecado humano e do juízo
divino. Os capítulos 3 a 5 se relacionam com o método divino da justificação
dos pecadores mediante a graça, sobre a base da morte expiatória de Cristo e
sua ressurreição. Os capítulos 6 a 8 tratam da santificação do crente. É nesta
seção, sobre a santificação do crente, onde se apresenta a passagem em pauta.
Não se deve esquecer que o assunto primordial é a santificação!
O capítulo 6 começa com uma pergunta e segue em frente respondendo a
essa pergunta específica. Não se pode enfatizar demais que a pergunta nada
tem a ver com o Batismo! A pergunta se refere ao cerne da santificação.
“Perseveraremos no pecado para que a graça seja mais abundante?”
Em resposta, Paulo afirma que o crente está unido com o Cristo vivo,
plenamente identificado com ele em sua morte e ressurreição. Visto que o
todo inclui suas partes, uma identificação tão completa com Cristo
necessariamente inclui a identificação com sua morte para o pecado e sua
ressurreição vitoriosa para a vida. Estas são duas partes essenciais da
identificação completa. Logicamente, pois, um crente que está tão
plenamente identificado com Cristo não deve continuar no pecado, violando
essa união, e pondo a perder essa identificação.
Para enfatizar este fato, Paulo faz referência à forma na qual certos
aspectos do Batismo intrinsecamente trazem esta verdade determinada.
Assim como o todo inclui as partes, assim também os que são batizados com
Cristo são batizados com sua morte. Note bem que Paulo fala, antes de tudo,
da identificação completa, quando afirma que o crente está “batizado em
Cristo”. Ora, se alguém é batizado em Cristo, isto inclui os elementos
constituintes da cocrucifixão, do cossepultamento e da corressurreição. Se
alguém é batizado em Cristo, então deve considerar-se como que morto para o
pecado e para seu domínio, e vivo para a justificação no poder da ressurreição
do Cristo ressurreto. Todos os que são batizados em Cristo participam de sua
morte para o domínio e as exigências do pecado. Quem quer que seja batizado
em Cristo participa igualmente do poder de sua ressurreição.
Paulo não podia ser tão preciso em estabelecer antes de tudo qual é o
significado original do Batismo espiritual, para em seguida fazer uma
adaptação particular desse Batismo para o domínio do pecado. O versículo 3
declara: “Ou porventura ignorais que todos nós que fomos batizados em
Cristo Jesus fomos batizados em sua morte?” (uma das consequências
necessárias). O segundo fato é verdadeiro só porque o primeiro é verdadeiro.
Assim, a verdade mais importante é “batizados em Cristo”, e esta é a
significação mais ampla, espiritualmente, do Batismo. Portanto, fica claro que
nenhum crente pode ser batizado na morte e ressurreição de Cristo, se
primeiro não for batizado em Cristo.
Quão fundamental é este fato para que o entendimento da natureza do
Batismo possa distinguir 1 Coríntios 12.12, 13 de outra passagem-chave.
“Porque, assim como o corpo é um e tem muitos membros, e todos os
membros, sendo muitos, constituem um só corpo, assim também com
respeito a Cristo. Pois, em um só Espírito, todos nós fomos batizados em um
corpo, quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres. E a todos nós foi
dado beber de um só Espírito.” Note bem o fato primário: “batizados em um
corpo”, que é precisamente o corpo de Cristo, como aprendemos neste mesmo
capítulo. O corpo de Cristo é a igreja genuína ou real. Assim, a obra do
Espírito Santo é efetuar a união do crente com Cristo, e isto ele faz (a)
trazendo a vida de Cristo para dentro do crente; (b) colocando o crente dentro
do próprio Cristo; (c) colocando o crente dentro da verdadeira comunhão do
povo de Deus, a igreja.
No mesmo cerne do Batismo espiritual – essa realidade da qual o rito de
água é apenas o sinal e o selo – está a obra do Espírito Santo, unindo o crente
a Cristo. O Batismo é feito no nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo,
pressupondo que o Batismo espiritual compreende a obra das três Pessoas da
Trindade na salvação do indivíduo. É de suma importância examinar as
Escrituras no que diz respeito à obra de Deus Filho e Deus Espírito Santo. É o
Espírito Santo quem aplica a eficácia do sacrifício de Cristo aos corações
crentes. É o Espírito Santo quem regenera o crente e o une a Cristo; quem
sela o crente e habita seu interior, etc. E de todos os seus maravilhosos
ministérios em prol do crente, é provável que o maior deles seja este: batizar
o crente em Cristo! Justamente aqui, devemos deter-nos e indagar a nós
mesmos: “Este poderoso fato poderia ser representado alguma vez,
adequadamente, por algum modo de Batismo com água – imersão aspersão
ou afusão?” A resposta é que nenhuma forma poderia representar
amplamente todas estas verdades de nossa união com Cristo. A verdade
embutida no Batismo sempre irá muito além da analogia que porventura
pressuponha qualquer modo! Parece indicar apenas que nosso Senhor não
pretendia que sua igreja fosse literal demais no que se refere à analogia
contida em qualquer dessas formas.
Como o expressou o Rev. Ryle: “Creio firmemente que esta liberdade era a
intenção de Deus. Ela se coaduna com muitas outras coisas na dispensação
cristã. Não encontro nada de preciso, exposto no Novo Testamento, acerca de
cerimônias, ou de vestes, ou de liturgias, ou de música sacra, ou de modelos
de templos, ou de horas de culto, ou de qualidade de pão e vinho no uso da
Ceia do Senhor, ou de posição e atitude dos comungantes. Sobre todos esses
pontos, vejo uma ampla liberdade de critério permitida à igreja de Cristo.
Contanto que essas coisas sejam feitas para a edificação, o princípio
neotestamentário é conceder ampla liberdade.”
Naturalmente, o perigo está no fato de que é muito fácil focalizar a
atenção sobre um ou dois termos das Escrituras, fazendo parecer que o modo
indispensável de Batismo seja aquele que siga a analogia dos termos
selecionados. Isto é arbitrário e injusto com respeito a outros termos que são
igualmente parte do Batismo espiritual. E assim, é fácil selecionar a
expressão, por exemplo, “sepultados juntamente com ele” (v. 4), e insistir em
que somente a imersão conserva a analogia do sepultamento. Paulo fala não
só de ser “sepultado juntamente” com Cristo, mas também de ser “crucificado
juntamente” com ele. Este é um aspecto de união com Cristo conectado com o
Batismo em Romanos 6, e daí o fato que “sepultado com Cristo” simboliza o
Batismo com água; porém deve-se ter em mente, de forma bastante clara, que
“crucificado com Cristo” não conserva analogia alguma com “imersão”. Aliás,
nenhum modo de Batismo com água pressupõe alguma analogia com
“crucifixão juntamente com”. Daí, para os imersionistas, insistir sobre a
analogia é chegar neste dilema: somente parte da união com Cristo,
mencionada em Romanos 6, é suscetível de analogia. No entanto, não se pode
ser arbitrário e insistir unicamente sobre essa parte da união, a que se aplica a
analogia. Agir assim é deixar de ser equitativo para com a Escritura.
Naturalmente que há outros aspectos de nossa união com Cristo que têm a
ver com o fato de termos sido “batizados em Cristo”, que não são
mencionados em Romanos 6, e é por isso que não se encaixam neste ponto
geral: podemos ou não continuar em pecado? Por exemplo, aqui não se faz
menção de nos assentarmos com ele no céu (Ef 2.6). Nossa conclusão deve
ser a seguinte, uma vez que Paulo tratou dos aspectos de nossa união com
Cristo que estão relacionados com o tema da santificação, da mesma forma,
também passa a falar somente dos aspectos relacionados com “sermos
batizados em Cristo”, que por sua vez também estão relacionados com o
assunto da nossa santificação. Esta não chega a ser uma exposição completa
do significado de “batizados em Cristo”.
A concretização da analogia é vista somente no sepultamento e na
ressurreição? Certamente que não. Os ensinos primitivos sobre o Batismo nas
epístolas paulinas, na ordem em que estas surgiram da pena do apóstolo,
estão em Gálatas 3.27. Esta é a primeira palavra de Paulo sobre o assunto, e
assim se poderia esperar que fosse fundamental na igreja primitiva. Lemos
ali: “porque todos quantos fostes batizados em Cristo (note bem que, em
sentido de unidade com suas demais palavras, o significado original de
Batismo, em Cristo vem em primeiro lugar), de Cristo vos revestistes.”
Nesta passagem, a característica original é a mesma de sempre, mas a
segunda é completamente distinta de sepultura e de ressurreição. É a figura
de vestir-se uma roupa; uma figura que não tem nenhuma semelhança com a
imersão. Fala do aspecto fundamental de união com Cristo, que tem a ver
com o fato de nos cobrirmos com a justiça de Cristo. Não obstante, ninguém
discorda que isto deva ter uma analogia com os ritos batismais. O fato claro é
que, nem Romanos 6, nem Gálatas 3.27, têm referência ao modo de ministrar
o Batismo. Ambas as passagens tratam de determinadas relações espirituais,
que estão representadas por nossa união com Cristo, ou por nosso Batismo
em Cristo.
De fato, se alguém persistir em tal literalidade a ponto de exigir que
somente a imersão é válida, visto que representa o sepultamento e a
ressurreição, que se me permita indagar se mesmo a imersão é adequada para
tal caso. Porque, para ser plenamente literal, Cristo não foi posto sob o solo;
mas foi posto em cima do solo, numa caverna, contra a qual se fez girar uma
pedra! Felizmente, a maioria reconhece quão complexos são os significados
espirituais do Batismo em Cristo, e quão impossível é que algum símbolo
possa representar bem esses significados; e a minoria se inclina a restringir o
modo de ministração da ordenança sacramental a uma determinada forma.
Certamente, nenhum dos modos é o adequado.
Se o Batismo com água fala de algo que ocorre espiritualmente ao crente,
então ele só pode ser representado pelos sentidos figurados inerentes ao rito.
O crente não é literalmente crucificado com Cristo, nem é literalmente
sepultado com ele, nem literalmente ressuscita com ele. Tampouco o crente
“se veste de Cristo” literalmente. Todas essas são figuras de linguagem que
implicam realidades espirituais. Já que nenhum método ou forma pode
representar adequadamente esses significados espirituais, a maneira deve
estar subordinada ao que se diz, se crê e se testifica no rito: a realidade que se
testifica no rito do Batismo com água é uma vida transformada pela união
com Cristo, sobre a base de seu sacrifício expiatório e da aceitação pela fé do
crente.
2. O Batismo espiritual e o Espírito Santo
O Batismo ritual, como já vimos, representa o Batismo espiritual, tudo o que
significa o fato de sermos “batizados em Cristo”. A realidade espiritual de
nossa união com Cristo é realizada pelo Espírito Santo. Este regenera o
crente, unindo-o a Cristo. Esta é a obra de união levada a sua concretização
pelo Espírito em todos os crentes; e, inquestionavelmente, isto é o que Paulo
tinha em mente quando disse aos efésios que há “um só Batismo”. Ele se
referia à qualidade, não ao rito.
O Rev. William Nicholson disse corretamente: “O Batismo do Espírito
Santo é o Batismo que rege o Novo Testamento, e deve ser entendido sempre
assim, exceto onde a linguagem do contexto evidencie o contrário.” Este é um
princípio sólido da exegese. A obra do Batismo do Espírito Santo é o caráter
distintivo da aplicação divina da salvação aos crentes nesta época. Deve ser
entendida por todo aquele que porventura queira abarcar o significado pleno
do Batismo ritual. O que está representado no Batismo ritual com água é o
verdadeiro Batismo efetuado pelo Espírito Santo. Recordemos a famosa
declaração de Bucer, o velho teólogo de Cambridge: “Pelo Batismo com água
somos recebidos na igreja externa de Deus; pelo Batismo do Espírito somos
recebidos no seio da igreja interna.”
Quando alguém recebe a Cristo pela fé, ocorre uma obra de regeneração
espiritual, e esta é obra do Espírito Santo, que torna eficaz e verdadeira no
crente a nova vida de Cristo. Ao mesmo tempo, o Espírito Santo incorpora o
crente na unidade que é o corpo de Cristo, o organismo vivo, que é a
verdadeira igreja. Não se acha no Antigo Testamento uma só palavra sobre o
Espírito Santo batizando judeus e gentios, igualmente, num só corpo. Nem há
no Antigo Testamento sequer a mais leve ideia em referência à igreja como o
corpo de Cristo. Tudo isso provém da revelação exclusiva do Novo
Testamento.
Encontramos no Novo Testamento o Espírito Santo batizando cada crente
em Cristo e em seu corpo, a igreja ressurreta. Lemos ainda que o mesmo
Espírito Santo habita em cada crente, para sempre (Jo 14.16) e selando a cada
crente (Ef 4.30). Esses ofícios do Espírito Santo são coexistentes com a
regeneração do crente. Isto é, ocorre no momento em que alguém recebe a
Cristo pela fé, como seu Salvador pessoal. Este é o ministério universal do
Espírito Santo em relação a cada crente.
No período de transição, quando o evangelho foi levado aos discípulos de
João Batista (ver At 19), e quando se revelou a Cornélio como que destinando
também aos gentios, da mesma forma como se destinava aos judeus (ver At
10), o ministério do Batismo do Espírito Santo foi acompanhado por
manifestações externas de caráter sensacional. Esta foi uma manifestação
especial, preparada para patentear aquela mudança de relação.
Em vários casos das Escrituras pode parecer que esta obra de batizar foi
subsequente ao recebimento de Cristo como Salvador. Há quem a denomine
de uma segunda obra da graça. Mas isso equivale a confundir a obra de
Batismo do Espírito Santo com a plenitude do Espírito Santo nos crentes.
Paulo nunca ordena aos crentes que sejam batizados pelo Espírito Santo, e
sim ordena que os crentes se encham do Espírito (Ef 5.18). Devemos notar
bem que a obra inicial do Espírito Santo, no Batismo dos crentes, foi distinta
no caso de três novas classes: os samaritanos, os discípulos de João Batista e
os primeiros gentios. A manifestação especial do Espírito Santo, chamada
“Batismo com o Espírito”, foi uma demonstração do fato que Deus propôs que
estas três categorias de pessoas fossem incorporadas no mesmo corpo de
Cristo, como os judeus o foram, e as fez participantes do mesmo Espírito.
Esta foi uma obra para dar autenticidade, apropriada para a formação da
igreja desde seu próprio início. Para todos os crentes posteriores a esse início,
este ministério de Batismo do Espírito Santo tem sido recebido pela fé, e com
base na autoridade da Palavra de Deus. Essa é a experiência universal de
todos os crentes, declarada em passagens tais como Romanos 8.9b; 1
Coríntios 12.13. A fé que se acha baseada na declaração da Palavra de Deus já
não requer manifestações especiais para que seja percebida. Quão diferente
foi no princípio, quando a Palavra ainda não era revelação escrita para guiar a
igreja, e quando nos primórdios era questão crucial para os judeus determinar
se os samaritanos e os gentios podiam participar dos mesmos privilégios que
eles.
Como a revelação neotestamentária do Batismo ritual começa com João
Batista, ele é o primeiro a fazer menção da obra de Batismo do Espírito Santo.
O testemunho de João é sempre profético e de coisas ainda futuras. Ele prediz
um Batismo que o Cristo por vir realizaria (ver Mt 3.11; Mc 1.8; Lc 3.16; Jo
1.33).
Em dois dos Evangelhos lemos que Cristo batizaria, não só com o Espírito
Santo, mas também com fogo. Não há nenhuma referência explícita que
tenha ocorrido algum Batismo com fogo, nem há alguma explicação
determinada para isso. A referência bíblica constante ao fogo para juízo
logicamente torna claro que este Batismo de fogo fala do juízo futuro sobre o
mundo, na segunda vinda de Cristo. Assim como a era neotestamentária é
introduzida com o Batismo do Espírito, igualmente parece que a era do reino
será introduzida com o Batismo de fogo. Tudo indica que não há razão para se
relacionar esta declaração com as línguas de fogo que acompanharam a
manifestação do Espírito Santo no dia de Pentecostes (At 2). O Senhor Jesus
repetiu a profecia de João, mas com uma omissão importante. Ele disse:
“Porque João, na verdade, batizou com água, mas vós sereis batizados com o
Espírito Santo, não muito depois destes dias” (At 1.5). Esta declaração não
menciona nenhum Batismo com fogo. Enquanto o Batismo com o Espírito
Santo estava próximo, o Batismo com fogo era remoto, pois não dizia respeito
àqueles discípulos. Parece evidente que o Batismo com fogo se refere à
segunda vinda de Cristo.
É preciso notar outro assunto nessas referências. Enquanto as epístolas
falam do crente sendo batizado em Cristo pelo Espírito Santo, essas
referências falam do crente sendo batizado com o Espírito Santo. A primeira
fala do Espírito Santo unindo os crentes a Cristo, enquanto as demais
referências falam do crente sendo unido ao próprio Espírito Santo. É preciso
ter em mente que o Batismo espiritual, representado pelo Batismo ritual,
nada tem a ver com o fato de sermos unidos ao Espírito Santo (“batizados
com o Espírito Santo”); só tem a ver com o fato de sermos “batizados em
Cristo” pelo Espírito Santo. Nunca se enfatiza isso.
Em João 7.37-39, nosso Senhor instrui acerca do Espírito Santo. João
adiciona um comentário: “... o Espírito Santo ainda não fora dado, porque
Jesus ainda não fora glorificado.” Isto não significa que o Espírito não mais
estivesse operando na salvação dos indivíduos. Significa, sim, que a obra
específica de Batismo do Espírito Santo ainda não estava em operação. Este
ministério do Espírito Santo teria início simultâneo com a formação da igreja
como o corpo de Cristo.
Este tema se desenvolveu no Discurso do Cenáculo. João 14.16 registra a
declaração de que o Espírito Santo viria com o fim de habitar
permanentemente os discípulos. João 14.17 acrescenta: “porque ele habita
convosco e estará em vós.” Nosso Senhor profetiza uma habitação
permanente do Espírito Santo em cada crente. Esta é a grande característica
dos privilégios espirituais adicionados, resultantes da vinda do Espírito Santo.
Em João 14.20, acrescenta-se mais um aspecto. Lemos ali: “Naquele dia,
vós conhecereis que eu estou em meu Pai, e vós, em mim, e eu, em vós.” “Eu,
em vós” fala da habitação perene do Espírito; “vós, em mim” fala da obra de
Batismo do Espírito Santo incorporando o crente em Cristo.
Em vista das muitas passagens que descrevem a obra de Batismo do
Espírito Santo, as passagens isoladas das Escrituras, como Marcos 16.15, 16,
podem ser interpretadas como sendo o Batismo genuíno, e não como o
Batismo ritual. “Quem crer [condição humana para a salvação] e for batizado
[milagre interior da obra regeneradora e unificadora do Espírito Santo] será
salvo.”
Na grande oração intercessória de nosso Senhor, em João 17, ele roga:
“para que eles sejam um, assim como nós” (v. 11); outra vez: “a fim de que
todos sejam um, e como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti” (v. 21); outra vez:
“eu neles, e tu em mim, a fim de que sejam aperfeiçoados na unidade” (v. 23).
A despeito das divisões externas, a oração de nosso Senhor tem sido
concretizada na obra de Batismo do Espírito Santo. Paulo o estabelece:
“Porque somos membros de seu corpo” (Ef 5.30). E: “Ora, vós sois corpo de
Cristo; e, individualmente, membros desse corpo” (1Co 12.27), e: “Pois, em
um só Espírito, todos nós fomos batizados em um corpo” (1Co 12.13). Estando
unidos a Cristo, os cristãos, consequentemente, estão unidos uns aos outros,
e todos são um em Cristo.
Junto ao coração de Deus, mais junto é impossível;
Porque, na pessoa de seu Filho, estamos bem junto a ele!
No corpo de Cristo, a humanidade foi unida à Deidade para sempre. Este
milagre proveniente da graça se realiza uma vez para sempre quando o
Espírito Santo batiza cada crente em Cristo, e, consequentemente, em seu
corpo. Pedro, no dia de Pentecostes, declara: “Arrependei-vos, e cada um de
vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão de vossos pecados, e
recebereis o dom do Espírito Santo” (At 2.38). Uma conexão semelhante de
pensamento se encontra em Atos 10.47, 48 e 8.15, 16.
João Batista disse que o novo elemento no Batismo que Jesus
administraria seria a participação do Espírito Santo. Ele não disse que o
próprio Espírito santo batizaria os crentes em Cristo. Assim deu-se tanta
importância ao Batismo do Espírito Santo, que a igreja primitiva adicionou a
imposição de mãos ao ritual do Batismo. Mais tarde, em reconhecimento de
que o próprio Batismo significava a recepção do Espírito Santo como parte da
união com Cristo, abandonou-se o rito da imposição de mãos.
Ezequiel 36.25-27 demonstra quão estreitamente a ideia de aspersão
estava relacionada com a renovação espiritual, a qual vem como consequência
da recepção do Espírito Santo. Se alguém sugerir que esta passagem se refere
só ao Israel futuro, mesmo assim pode-se responder que, se a forma divina de
Batismo era a aspersão, no passado, e será a mesma no futuro, pareceria
estranho que somente esta dispensação mudasse esse modo, especialmente
sem nenhuma explicação para aqueles cujo conhecimento das Escrituras os
levara a compreender que a aspersão era o método divino, tanto no passado
quanto no futuro.
Em suma, no Novo Testamento há referências específicas ao Batismo
espiritual: Mateus 3.11; Marcos 1.8; Lucas 3.16; João 1.33; Atos 1.5; 11.16;
Romanos 6.1-4; 1 Coríntios 12.13; Gálatas 3.27; Efésios 4.5; Colossenses 2.12.
Todas as referências anteriores ao Pentecostes são de caráter profético. Todas
as referências posteriores ao Pentecostes tratam do Batismo do Espírito Santo
como uma realidade cumprida, coexistente com a regeneração.
A passagem primordial que pode ser tomada como base para a
interpretação de todas as demais passagens é 1 Coríntios 12.13. Na ordem
cronológica, porém, a primeira referência à obra de Batismo do Espírito Santo
está registrada no Pentecostes. Poderíamos afirmar que esta é a primeira
menção no desenvolvimento “histórico” do Novo Testamento, enquanto 1
Coríntios 12.13 é a primeira menção no desenvolvimento “doutrinal” do Novo
Testamento.
3. A obra de Batismo do Espírito Santo nos Atos dos Apóstolos
No dia de Pentecostes, todos os crentes foram unidos, pelo Espírito Santo,
num só corpo; cada crente ficou cheio do mesmo Espírito, e juntos formaram
uma comunhão orgânica. Desde então, sempre que um pecador recebe a
Cristo, ele participa desse Batismo e se une, pelo mesmo Espírito, a esse
corpo único. Uma inferência óbvia é que a igreja, que é seu corpo, não poderia
formar-se até que o Espírito Santo fosse dado para a realização dessa obra de
Batismo. O corpo de Cristo só poderia formar-se mediante a obra do Espírito
Santo. Isso ainda não era possível, senão até que Cristo deixasse a terra e
enviasse do alto o Espírito Santo. A partir do Pentecostes, a palavra profética
de Jesus, exposta em João 14.17, foi continuamente cumprida até que os
crentes fossem congregados à igreja. Agora o Espírito Santo está não só com o
crente, mas também no crente, e este está em Cristo.
Outra dedução é que o Espírito Santo não veio no Pentecostes só porque
cento e vinte discípulos esperavam e oravam. Aliás, eles apenas receberam
instruções de esperar. O Espírito Santo veio por determinação divina, e no
tempo preciso no programa de Deus. É verdade que eles oravam, mas isso não
foi a causa da vinda do Espírito Santo. Esta foi, simplesmente, a atitude
receptiva dos discípulos em expectativa. O Espírito Santo veio em
cumprimento da promessa divina, em conformidade com Lucas 24.49, e, no
momento divinamente designado, de acordo com Atos 2.1. Devemos
estabelecer a relação apropriada entre o advento do Espírito, a formação da
igreja como o corpo de Cristo e a obra de Batismo do Espírito Santo.
O Espírito Santo uniu no corpo de Cristo aos que até então só eram
seguidores [imediatos] de Cristo. Agora são membros de seu corpo,
vitalmente unidos ao Senhor ressurreto e unidos entre si. Foram enfeixados
numa unidade coletiva, sendo um com Cristo e mutuamente unos.
Coletivamente, se tornaram “a habitação de Deus no Espírito” (Ef 2.22).
4. O evangelho destinado aos gentios
Jesus dera a Pedro “as chaves do reino dos céus” (Mt 16.19). Nele foram
delegados o poder e a autoridade de abrir a porta da oportunidade do
evangelho no começo da nova era. Pedro fez isso no dia de Pentecostes (At
2.38-42). Ele foi o instrumento designado para levar o evangelho aos judeus.
Isto foi confirmado no dia de Pentecostes pela manifestação do Espírito Santo
no dom de línguas.
Os samaritanos seriam os próximos a receber o evangelho, e, logicamente,
em vista de sua relação com os judeus, a despeito dos anos de antagonismo.
Ao mesmo tempo em que eles receberam a Cristo, houve uma manifestação
do Espírito Santo, que confirmou o fato de que eles também eram batizados
no corpo de Cristo, como está consignado em Atos 8.4-25.
Até aqui o privilégio do evangelho fora restringido aos judeus e aos
samaritanos. Em seguida os gentios tinham de ser inclusos nele. No lar de
Cornélio, a porta se abriu aos gentios, como está registrado em Atos 10.34-38.
Este foi batizado no mesmo corpo de Cristo, e uma vez mais houve outra
manifestação adjunta do Espírito Santo para dar autoridade ao fato. O que
deu inicio, historicamente, nesse tempo, Paulo o expõe doutrinariamente em
Efésios 3.6: “que os gentios são coerdeiros, membros do mesmo corpo e
coparticipantes da promessa em Cristo Jesus por meio do evangelho.” Note
bem a referência à relação pactual: “coerdeiros.” E assim Pedro, pela última
vez, usou as chaves do reino. A transição para a dispensação neotestamentária
estava completa. A entrada de duas novas classes de pessoas certificou sua
validade no começo por uma manifestação do Espírito Santo. Já não se requer
uma manifestação semelhante.
Há em Atos um episódio posterior que exige atenção. No capítulo 19,
lemos de certos discípulos de João Batista a quem Paulo doutrinou. Este
descobriu que eles só conheciam o Batismo de João. Isto pode significar que
esses homens ignoravam que, aquele em cuja vinda confiavam, de fato já
tinha vindo e efetuado a redenção. Assim que ouviram, creram e foram
batizados, desta vez no nome do Senhor Jesus. E o fato de também receberem
a obra de Batismo do Espírito Santo, ficou bem claro para todos mediante a
forma semelhante como o Espírito manifestara sua presença em ocasiões
anteriores. Esta era a certificação necessária, no princípio, da nova
dispensação.
Tudo aquilo que demos atenção, relativo ao princípio da nova dispensação,
corresponde a um período de transição. A confirmação de autenticidade, por
meio de manifestações especiais do Espírito Santo, foi temporário, e logo
cessou, assim que já não era mais necessária. A certificação do fato da
presença do Espírito Santo e de sua obra de Batismo é agora o testemunho
interior do Espírito no crente individual. Esta é a experiência normal dos
crentes hoje. No entanto, os eventos históricos de Atos ainda servem para
mostrar que o verdadeiro Batismo é obra do Espírito Santo.
5. A obra de Batismo do Espírito em 1 Coríntios 12.13
Nossa versão das Escrituras traduz bem a preposição grega en para indicar por
o u por meio de. “Por [em] um Espírito todos nós somos batizados em um
corpo, quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres. E a todos nós foi
dado beber de um só Espírito.” A preposição grega é en, comumente usada
como instrumento para transmitir a ideia de por meio de.
Aqui nos é dado entender o que significa a obra de Batismo do Espírito
Santo, expondo o resultado desse Batismo. É a união íntima do crente com o
corpo de Cristo. Frequentemente se expressa esta união pela frase “em
Cristo”. Esta é a base da posição e das possessões de todos os crentes. O
contexto imediato declara a absoluta unidade que existe entre Cristo e todos
os membros individuais de seu corpo. O crente não é mais identificado com a
natureza e destino de Adão; agora ele é identificado com Cristo em sua
justiça, em sua morte, em sua ressurreição e em sua glorificação. O Batismo
do crente, em Cristo, compreende não só uma nova identificação, mas
também uma transformação plena: uma união com a própria vida de Cristo.
Agora ele considera Cristo não só como seu Senhor e Salvador, mas também
como sua vida e sua cabeça. E o Batismo em Cristo fala de tudo o que é
abarcado por esta união viva do crente com Cristo. Portanto, veja bem quão
inadequado é tentar equiparar o significado do Batismo só com uma ou duas
facetas dessa identificação plena.
Por exemplo, para entender Romanos 6.3 é preciso reconhecer que a
primeira parte deste versículo fala de identificação plena com Cristo, e que o
que segue, como uma consequência, trata só de determinados aspectos dessa
identificação plena. Identificação com sua crucificação, sepultamento e
ressurreição. E, quando o Batismo ritual está em vista (lembre-se de que não
está em vista em Rm 6.3), nunca é qualquer parte desta identificação plena
que está representada pela analogia. Ao contrário, a que está representada
deve ser a identificação plena. O Batismo ritual deve representar a obra do
Espírito Santo batizando o crente em Cristo, entre outras coisas. A ênfase está
na união do crente e seu Senhor (“por um só Espírito... em um só corpo... por
um só Batismo”, 1Co 12.13 e Ef 4.5). Daí, o significado do Batismo é rico e
variado.
Romanos 6.3, 4 de fato constitui uma face da mesma moeda, enquanto 1
Coríntios 12.13 constitui a outra. Não se pode considerar uma separadamente
da outra, ou o resultado seria uma verdade parcial. Este é um perigo
constante. A união vital do crente com Cristo implica uma separação do
crente com respeito a sua identificação com Adão, e com a natureza
pecaminosa deste. Romanos 6 enfatiza ambas as coisas: a separação e a nova
identificação. 1 Coríntios 12.13 enfatiza a identificação plena sem especificar
nenhuma de suas partes ou fases individuais.
Colossenses 2.9-12 abarca também a obra de Batismo do Espírito. A
Pessoa de Cristo é aqui o ponto de partida. É o tema da Epístola. A Deidade de
Cristo se revela nas palavras: “Porque nele habita corporalmente toda a
plenitude da Divindade.” Em seguida acrescenta-se um fato glorioso que diz
respeito ao crente: “Também nele estais aperfeiçoados” (v. 10). Visto que o
crente está em Cristo em plenitude, ele participa de tudo o que é de Cristo! E
ele está em Cristo porque o Espírito Santo o batizou em Cristo. Expõem-se
alguns dos fatos que o acompanham, tais como “circuncidado... sepultado...
ressuscitado” (Cl 2.11, 12).
Por isso, o Batismo ritual deve ser sempre visto em sua relação com o
Batismo espiritual, a obra do Espírito Santo. O Batismo com água é um
símbolo, um sinal e um selo da união de todos os crentes em Cristo, bem
como a união de todos os crentes entre si, por virtude da obra de Batismo do
Espírito Santo. Desde muito tempo se tem feito ênfase sobre o sacramento do
Batismo ritual, obscurecendo em muito o Batismo real efetuado pelo Espírito
Santo. Esta é uma verdade que a igreja precisa recuperar. A consequência
perniciosa deste descuido da verdade é que se tem perdido de vista a
verdadeira unidade representada pelo Batismo do Espírito Santo, e com isso
tem surgido divisões externas na igreja visível. O que se pretendia fosse um
sacramento da unidade, veio a se tornar um sinal de divisão na igreja.
Seguramente, a bênção de Deus repousará sobre todo e qualquer esforço que
se faça para a restauração da unidade essencial dos crentes, cujo sinal é o
Batismo ritual.
6. O ministério selador do Espírito Santo
Nosso estudo termina depois de focalizar o Batismo como o sinal e selo da
relação do crente com Deus e sua união com Cristo. O rito externo significa
uma realidade espiritual. Temos assinalado especialmente o fato de quão
importante é a obra do Espírito Santo no Batismo verdadeiro, obra que deve
ser representada de alguma forma no Batismo ritual. E agora focalizamos a
outra faceta do ministério do Espírito Santo, cuja relação é muito estreita.
Três passagens se referem ao ministério selador do Espírito Santo (2Co 1.22;
Ef 1.13; 4.30).
O próprio Espírito Santo, que habita cada crente, é o selo dessa relação!
Isto não é algo que o crente descobre mediante uma experiência ou
manifestação, e sim um fato que se recebe pela fé. A presença do Espírito
Santo é o selo que certifica a propriedade de Deus e a propriedade da
identificação do crente com Cristo.
O próprio Espírito Santo é um selo de muito maior significação do que
qualquer outro selo que se possa imaginar! O Espírito Santo sela o crente,
sendo ele mesmo o próprio selo. Efésios 4.30 ensina que os crentes estão
selados para o dia da redenção. Esta certificação continua atuando até que já
não seja necessária. O selo externo do Batismo com água tem seu selo interno
correspondente: a presença do Espírito Santo e seu ministério. Nós o
recebemos pela fé na Palavra revelada de Deus.
Capítulo 14
PURIFICAÇÃO ESPIRITUAL

O ESPÍRITO E O SANGUE DE CRISTO


Esta ideia é tão fundamental no conceito integral do Batismo genuíno, que
merece uma revisão extensa. Dificilmente alguém consegue compreender o
uso da água no Batismo ritual separadamente da ideia de purificação interior
de pecado. A água no Batismo ritual representa a eficácia purificadora, do
sangue de Cristo e da influência santificadora do Espírito Santo. Isaías 1.16
declara: “Lavai-vos, purificai-vos, tirai a maldade de vossos atos de diante de
meus olhos; cessai de fazer o mal.” Esta é a perspectiva comum de toda a
Escritura.
É bem provável que a passagem mais significativa, em conexão com este
fato, seja 1 Coríntios 6.11, cujo teor é: “Tais fostes alguns de vós; mas vós vos
lavastes, mas fostes santificados, mas fostes justificados em o nome do
Senhor Jesus Cristo e no Espírito de nosso Deus.” A purificação é equiparada
à justificação e à santificação. Atos 22.16 diz assim: “E agora, por que
demoras? Levanta-te, recebe o Batismo e lava teus pecados, invocando o
nome dele.” O Batismo e purificação interior estão estreitamente conectados,
e assim estão representados pelo Batismo ritual.
Se o sepultamento e ressurreição do crente com Cristo fossem os únicos
significados atribuídos ao Batismo, ou ainda os mais notáveis, Paulo teria
aproveitado a oportunidade nesta admoestação oportuna para expor a ideia.
Em vez disso, a purificação é a ideia primordial associada ao Batismo ritual na
igreja cristã.
É só lembrar as palavras de Jesus a Pedro: “Se eu não te lavar, não tens
parte comigo” (Jo 13.8). A referência era, evidentemente, à purificação da
salvação através de Cristo.
Uma passagem bem difícil é 1 Pedro 3.20, 21. Este, aparentemente, faz
referência à água do Batismo; mas, na realidade, ele está falando do Batismo
espiritual. As interpretações se tornam rebuscadas demais quando pensamos
que ele está falando do Batismo ritual. Pedro sugere que as águas do dilúvio,
nos dias de Noé, purificaram a terra. Noé foi batizado, mas não foi imerso
pelas águas do dilúvio. A terra foi imersa na água e pereceu. Em outros
termos, isso se deu através da purificação batismal do juízo. Mas o Batismo
ritual é um ato de obediência que revela uma verdadeira resposta a Deus. Ele
declara que somos salvos por meio do Batismo, da mesma forma que Noé foi
salvo por meio da água, “através da ressurreição de Jesus Cristo”. O Batismo a
que se refere é inquestionavelmente o Batismo espiritual, não o Batismo
ritual. É só lembrar a exposição desta passagem que fizemos anteriormente.
Aliás, a purificação significa separação da corrupção. Por meio das águas do
dilúvio, Noé foi separado da corrupção da terra, que sofreu o juízo divino.
Mesmo agora a água do Batismo representa o fato de que o crente é separado
de sua velha natureza pecaminosa, porque está unido ao Cristo ressurreto.
Pedro está expondo a ideia de que a purificação é a separação do pecado. Ele
não está pensando ali em nada que porventura represente a imersão, e sim no
poder separador de nossa união com o Cristo ressurreto, separando o crente
do domínio e poder do pecado.
Purificação era a ideia preponderante nos Batismos veterotestamentários,
a mais simples e a mais natural das várias ideias incorporadas no conceito
neotestamentário; a qual, em sua totalidade, é a causa muito mais complexa
dos benefícios acumulados desde que Cristo veio.
1. A água como um símbolo do Espírito Santo
A água era considerada como o meio comum para a purificação do corpo.
Como o Espírito Santo foi enviado para purificar a alma na regeneração,
assim a figura da água permanece como um símbolo do Espírito Santo em seu
ministério purificador. A Bíblia está repleta de exemplos da analogia entre a
água e o Espírito Santo.
A água é um elemento essencial de vida; um meio de limpeza e de
refrigério. Com frequência, usa-se água como representativa da influência
salvífica, santificadora e refrescante do Espírito. Isto fornece a chave para a
interpretação de passagens como Isaías 55.1: “Ah! Todos vós, os que tendes
sede, vinde às águas; e vós, os que não tendes dinheiro, vinde, comprai e
comei; sim, vinde e comprai, sem dinheiro e sem preço, vinho e leite.” E 12.3:
“Vós, com alegria, tirareis água das fontes da salvação.” Lemos em Ezequiel
36.25: “Então, aspergirei água pura sobre vós, e ficareis purificados; de todas
vossas imundícias e de todos vossos ídolos vos purificarei.” Em Jeremias 2.13:
“Porque dois males cometeu meu povo: a mim me deixaram, o manancial de
águas vivas, e cavaram cisternas, cisternas rotas, que não retêm as águas.”
Em conexão com este pensamento, podem-se levar em conta outras
passagens, tais como Ezequiel 47.1-12; 36.25-27; Zacarias 13.1; Isaías 44.3.
No Novo Testamento, Jesus usou a mesma figura. Ele declara à mulher
samaritana: “Se conheceras o dom de Deus e quem é o que te pede: dá-me de
beber, tu lhe pedirias, e ele te daria água viva” (Jo 4.10). Em outra ocasião, ele
declara: “Se alguém tem sede, venha a mim e beba. Quem crer em mim, diz a
Escritura, de seu interior fluirão rios de água viva” (Jo 7.37, 38). Em
Apocalipse 21.6, ele afirma: “Tudo está feito. Eu sou o Alfa e o Ômega, o
Princípio e o Fim. Eu, a quem tem sede, darei de graça da fonte da água da
vida.” Em 22.17, ele declara: “O Espírito e a noiva dizem: Vem! Aquele que
ouve, diga: Vem! Aquele que tem sede venha, e quem quiser receba de graça a
água da vida.” É evidente que o judeu comungante na igreja primitiva teria
associado essas passagens com a purificação da salvação, tão comumente
simbolizada nos ritos de água da dispensação veterotestamentária.
2. O Batismo espiritual e o sangue de Cristo
A purificação da regeneração está não só relacionada com a obra do Espírito
Santo, mas também com o sangue de Cristo. João ensina que “o sangue de
Jesus Cristo, seu Filho, nos purifica de todo pecado” (1Jo 1.7). Ele ainda
atribui glória “Àquele que nos ama, e por seu sangue nos libertou de nossos
pecados” (Ap 1.5). Hebreus 13.20 fala do sangue da aliança. As Escrituras
ensinam, com toda clareza, que somos purificados pelo sangue de Cristo. Aos
olhos do povo hebreu, isso era representado constantemente por meio dos
sacrifícios, e particularmente pela aspersão do sangue.
Hebreus 9.19 faz referência à água misturada com o sangue e aspergida
sobre todo o povo, por ordem divina. Já estudamos a aspersão do sangue de
uma novilha como se acha registrado em Números 19. Em Hebreus 10.22, a
referência é ao modo novo e vivo, a aspersão que purifica a consciência
pecaminosa, e lemos no versículo 19 a referência ao sangue de Cristo. A
aspersão do sangue de Cristo denota o efeito purificador do interior, quando a
morte de Cristo, pelo pecado, é aplicada aos crentes.
Lemos ainda: “Pela fé, celebrou a Páscoa e o derramamento do sangue,
para que o exterminador não tocasse nos primogênitos dos israelitas” (Hb
11.28). Toda a seção média do livro de Hebreus está saturada da aspersão ou
afusão do sangue de Jesus, bem como de seu poder purificador. Lemos ali que
temos “a Jesus, o Mediador da nova aliança, e ao sangue da aspersão que fala
coisas superiores ao que fala o próprio Abel” (Hb 12.14). E se esse é o caso, o
simbolismo da aspersão do sangue deve ter profunda significação para os
crentes neotestamentários. Lemos ainda em Hebreus: “muito mais o sangue
de Cristo, que, pelo Espírito eterno, a si mesmo se ofereceu sem mácula a
Deus, purificará nossa consciência de obras mortas, para servirmos ao Deus
vivo!” (Hb 9.14). E Pedro: “eleitos, segundo a presciência de Deus Pai, em
santificação do Espírito, para a obediência e a aspersão do sangue de Jesus
Cristo, graça e paz vos sejam multiplicadas” (1Pe 1.2).
O que é mencionado em um lugar como a lavagem do Espírito Santo,
agora é mencionado como purificação pelo sangue de Cristo. A conexão é
clara: o Espírito Santo aplica o sangue de Cristo para efetuar nossa purificação
de pecado. O Batismo pelo Espírito Santo incorpora a ideia do sangue de
Cristo, aplicado ao crente para purificação. Assim, todas as referências à
aspersão do sangue, especialmente as do Novo Testamento, em Hebreus e nas
epístolas de Pedro, estão associadas com a obra de Batismo do Espírito Santo.
Ora, se a aspersão do sangue de Cristo é aplicada como purificação de pecado,
então a mesma aplicação, como prática válida, se aplica ao Batismo ritual.
Capítulo 15
CASOS DE BATISMO CRISTÃO
NO NOVO TESTAMENTO

1. Indícios de aspersão nos casos registrados


É difícil, ainda que não seja impossível, conceber a imersão como o sistema
de Batismo no caso dos três mil no dia de Pentecostes. Talvez seja mais
improvável que João Batista, sozinho, batizasse por imersão a milhares de
pessoas ao longo do dia. Devemos considerar a ministração do Batismo às
multidões, no dia de Pentecostes, como uma coisa espontânea. Havia
milhares de judeus de outras nações presentes em Jerusalém (“partos,
medos, elamitas”). É improvável que se fizesse provisão de roupas para serem
trocadas naquele momento, e menos ainda que fossem imersos em estado de
nudez, ainda que, como bem se sabe, a prática existiu mais tarde. Não se
menciona que tenham se despido; nem é provável que os que ouviram a
mensagem e responderam ao Batismo tivessem toalhas disponíveis e à mão
para seu uso. Isto são detalhes; no entanto trazem naturalmente dúvidas.
O Batismo ocorreu em Jerusalém, e a estação na ocasião do dia de
Pentecostes indica que era junho. Atos 2.41 nos fala de três mil os que foram
batizados; e em Atos 4.4 dá a entender que o mesmo rito foi ministrado a
mais de cinco mil. No verão não há correntes de água nos arredores. A cidade
era abastecida de água oriunda de cisternas e das reservas públicas. A mesma
escassez de água impedia o banho privado como costume geral.
Ordinariamente, o ribeiro de Cedron estava seco nessa estação. E crer que os
apóstolos imergiram tantas pessoas nas reservas públicas das quais se tirava
água para beber e cozinhar, outra coisa não é senão um tremendo absurdo.
Isso não era possível por simples questão de decência. E certamente os
judeus, meticulosos como eram, o teriam proibido. Esses fatores não são
definitivos, porém suscitam problemas com os quais, os que insistem em que
o Batismo só deve ser praticado por imersão, terão que lidar.
Atos 9 relata as circunstâncias do próprio Batismo de Saulo. Este é o único
Batismo com água, descrito no Novo Testamento, com alguns detalhes que
poderiam sugerir sua forma. Ananias disse a Saulo: “Levanta-te, recebe o
Batismo” (At 22.16); e, outra vez, que ele “levantou-se e foi batizado” (At
9.18). O termo grego, traduzido por “levanta-te”, e “levantou-se”, é um
particípio. Uma tradução literal, em ambos os casos, seria: “pondo-se de pé,
foi batizado.” Não há qualquer sugestão de imersão. Nada lemos de uma
mudança de roupa; nem de ir a um lugar apropriado para a imersão; nem do
uso de toalhas para enxugar-se após a imersão; nem de delonga para os
preparativos necessários. Caso haja algo nas entrelinhas, é um rito simples,
sem detalhes especiais.
Lemos também sobre outra circunstância que poderia ter algum peso na
interpretação. Saulo não comeu nem bebeu durante três dias. Ele estava
enfraquecido pelas provações daqueles dias. Lemos que ele comeu e se sentiu
fortalecido. No entanto, a ordem é como segue: lemos em Atos 9.18, 19: “foi
batizado. E, depois de ter-se alimentado, sentiu-se fortalecido.” Na ordem dos
eventos necessários a esse ponto, Saulo primeiramente foi batizado. Seria
completamente irracional presumir que lhe era necessário imergir-se (no
Batismo) sem antes dar-lhe o alimento necessário para se fortalecer. Por certo
a suposição menos provável é que fora levado a algum lugar distante, onde
pudesse ser imerso, antes de ser alimentado. Lemos claramente que ele não
foi confortado senão até depois de haver se alimentado. Ora, se o Batismo era
por simples aspersão, ou por afusão, seria perfeitamente compatível com as
circunstâncias conhecidas. Lembremo-nos ainda que Saulo era fariseu
ferrenho, e é possível que o único Batismo de que tivesse conhecimento era a
da forma de aspersão. Presumivelmente, isto é apenas uma conjectura, e não
poderíamos discutir o ponto sobre tal base. Apenas queremos observar que há
problemas que demandam sério reconhecimento a quem pretende chegar a
conclusões fáceis demais sobre a imersão.
É igualmente difícil imaginar a imersão nas circunstâncias do carcereiro
de Filipos. Aquele foi um Batismo imediato, o qual não pressupõe mudança
de lugar para que fosse realizado, já que, certamente, naquele cárcere não
havia lugares adequados para a prática da imersão. O carcereiro levara água
para lavar as feridas de Paulo e Silas, e os fatos conhecidos pressuporiam que
parte dessa mesma água foi usada para o rito.
No caso de Cornélio, os eventos imediatos se restringiram a sua casa. Não
há qualquer ideia de que saíram de casa para o ato do Batismo. A expressão
“Porventura pode alguém recusar a água, para que não sejam batizados estes
que, assim como nós, receberam o Espírito Santo?” (At 10.47) soa mais como
um rito simples, para o qual já se tinha em mãos a água necessária; e,
consequentemente, não havia razão para que não fosse efetuado.
Na passagem que descreve esses detalhes na casa de Cornélio, Atos 11.15,
16, Pedro afirma: “Quando, porém, comecei a falar, caiu o Espírito Santo
sobre eles, como também sobre nós, no princípio. Então, me lembrei da
palavra do Senhor, quando disse: João, na verdade, batizou com água, mas vós
sereis batizados com o Espírito Santo.” Pedro, igualmente (At 2.14-18), afirma
que o Pentecostes era um cumprimento da profecia de Joel: “Mas o que
ocorre é o que foi dito por intermédio do profeta Joel: E acontecerá nos
últimos dias, diz o Senhor, que derramarei de meu Espírito sobre toda carne.”
E o cumprimento foi assim: Deus derramou seu Espírito sobre eles; o Espírito
caiu sobre eles. O Batismo com o Espírito Santo foi um “descer sobre” ou “cair
sobre”. Pedro pensou imediatamente no Batismo com água, e a relação
sugeriria que o Batismo ritual foi como um “cair sobre” ou “descer sobre”, isto
é, uma simples afusão ou aspersão. Uma vez mais, isto é meramente uma
sugestão de pensamentos afins, e deve ser levado em conta pelos que desejam
um ponto de vista bíblico. É provável que aqui o pensamento mais valioso
seja a expressão evidente que se depreende dessas descrições, das quais o rito
teria sido de grande simplicidade. Os detalhes de quaisquer preparativos
materiais são ignorados completamente. Não há nenhuma insinuação de que
se fizesse mudança de roupa; de que se usassem roupas especiais; ou de
alguma necessidade que exigisse o uso de toalha, etc. Não há objeção sobre o
problema moral no tocante à imersão em estado de nudez ou seminudez, ou
sobre roupas moralmente inadequadas para a imersão e sua aparência. Não
há nenhum problema de delonga ou de distância que implique a consumação
de uma imersão. O Batismo aparece sempre como uma cerimônia simples,
acessível e espontânea, possível em qualquer lugar e tempo.
Tendo dito tudo isso, acrescente-se que, num Batismo por imersão, há
algo impressionante que é mui significativo para muitos. Esta característica
impressionante tem a ver com a percepção exterior de nossos sentidos,
quando se exterioriza e se enfatiza tanto o símbolo, como ocorre no caso da
imersão. No entanto, é preciso insistir por que um ato de simples aspersão ou
afusão é igualmente impressionante e significativo. A verdadeira significação
de qualquer ministração do Batismo dependerá do sentido do qual represente
especialmente na vida daquele que é batizado. Estará naquilo que é dito; na
compreensão dos participantes; na exposição da Palavra de Deus; em tudo
isso se valorizará o verdadeiro significado do Batismo ritual. A mera
impressão externa é uma medida falsa. A conformação material do rito não
pode tirar o mérito do pensamento mais profundo, isto é, daquilo que o
Espírito de Deus está efetuando no indivíduo. O ritual externo pode ainda
chegar a ser um motivo de distração, se venha a ser impressionante demais. A
mente de alguém deve volver-se dos detalhes materiais do ritual para as
grandes considerações espirituais do que o Batismo realmente significa e sela:
a união de uma pessoa com Cristo e a identificação dessa pessoa com ele e
com tudo o que ele cumpriu. Frequentemente, em uma cerimônia simples,
onde todo o cerimonial se reduz à afusão, a mente está livre de distrações
para poder pensar nessas grandes realidades representadas pela resposta de
uma pessoa à graça salvífica de Deus.
2. A relação das preposições com a interpretação
Dá-se muita ênfase nas preposições, quando, de fato, este é o terreno mais
incerto para se fundamentar a interpretação. Os estudantes que não estão
familiarizados com o idioma grego não saberiam isto, a menos que lhes seja
indicado. Um estudante da Bíblia em nosso idioma poderia presumir que tem
uma interpretação definitiva, até que, com um pouco de conhecimento da
natureza das preposições gregas, descobrisse que o grau de suas conclusões
não é digno de confiança.
O idioma grego tem menos preposições que nosso idioma. Por isso se
requer que a cada preposição grega se lhe dê maior quantidade de
significados, a fim de cobrir todas as possibilidades. Cada preposição grega
realmente tem várias equivalentes em nosso idioma. O problema que resulta
não é meramente determinar qual equivalente em nosso idioma tem sentido,
e sim determinar, tendo em conta o contexto, qual equivalente em português
transmite a ideia exata do escritor. Na Escritura, isto envolve o tradutor na
interpretação teológica. Em parte, traduzir é necessariamente interpretar.
É muitíssimo tentador, a cada tradutor, alijar as preposições, em seu
idioma, com o intuito de ajustar as passagens sobre o Batismo a sua teologia
pessoal, no tocante ao Batismo. As preposições chegam a ponto de motivar a
preferência pessoal e podem constituir-se em evidências, em qualquer
sentido, na questão batismal. Inquestionavelmente, o melhor procedimento é
adiar a definição das preposições até que se tenha estabelecido uma plena e
sólida teologia do Batismo, e em seguida ver se há preposições equivalentes
adequadas que conduzam as declarações duvidosas à conformidade com o
significado já estabelecido. É por esta razão que já propusemos esta parte em
nossa investigação até aqui. Não pretendemos que as seguintes conclusões
façam algo mais que tornar real a validade do que se tem apresentado.
Atos 8.26-40 descreve Felipe batizando o oficial de Candace. Os
imersionistas argumentam assim: “Porventura não lemos que tanto Felipe
quanto o eunuco desceram, ambos, à água, e que saíram, subindo da água?”
Porventura não está implícita a imersão nas preposições “entrar” e “fora de”?
O fato de o próprio Felipe ter “descido a” a água não significa que ele
mesmo se imergiu, e portanto, não há nesta passagem prova absoluta de
imersão. Simplesmente ignoramos que forma foi usada. Poderia ter havido
imersão, afusão ou aspersão. Entrar na água pode significar que se
mantiveram de pé na água, para tomar dela com algum recipiente, a fim de
derramá-la ou borrifá-la. A preposição grega é eis, que às vezes se acha
traduzida por “dentro”, outras vezes por “a”. Em muitos casos, seria
impossível traduzi-la por “dentro”. Por exemplo, um uso comum de eis é:
“Mostre a casa ‘a’ seus amigos.” Seria impossível traduzir: “Mostre a casa
‘dentro’ de seus amigos.”
Ao contrário, em Atos 8 encontramos eis onze vezes, e o versículo em
pauta (38) é o único lugar onde está traduzida por “dentro”. Isto é também
inquestionável. De fato há um modo inequívoco de dizer que alguém entrou
na água pelo uso de um verbo composto com eis como prefixo, seja isolado ou
seguido de preposição. Um bom exemplo disso se encontra em João 20. Num
breve parágrafo, lemos três vezes “chegando no” sepulcro, usando somente
eis. Mas também expressa a ideia de “entrar”, e isso se torna perfeitamente
claro usando o método já descrito.
E assim podemos chegar à conclusão de que Felipe e o eunuco desceram à
água. Não se sabe se desceram à borda, se pararam na parte rasa ou se
desceram mais fundo. Também não é possível saber o que fizeram
exatamente quando desceram à água. Presumivelmente, a palavra “abaixo”
não adiciona nada determinativo. Uma corrente ou rio só existe em virtude do
fato que suas águas foram estancadas de ambos os lados. As duas margens se
levantam pelo menos um pouco acima da superfície da água, e assim
comumente se diz que alguém desce o rio.
A preposição grega en é usada com maior frequência para expressar “em”.
No entanto, é usada frequentemente no sentido de “em cima”, “a”, “perto”,
“com”, “entre”, “durante”, etc. É impossível, levando-se em conta o uso das
preposições, saber se Mateus 3.6 deva expressar: “Eram batizados dentro do
Jordão, ou no Jordão, ou perto do Jordão”.
João 1.28 declara: “do outro lado do Jordão, onde João estava batizando.”
Isso dá margem a várias interpretações. Poderia significar: “além do Jordão,
onde João batizava”; ou, “em alguma parte, além do Jordão”; ou, “além do
Jordão, sobre a margem mais próxima”. João 10.40 afirma: “Novamente, se
retirou para além do Jordão, para o lugar onde João batizava no princípio; e
ali permaneceu.” Ora, obviamente não se ensina que Jesus habitou no rio
Jordão! E a interpretação natural seria que Jesus ficou a certa distância, além
do Jordão, numa localidade onde João estivera batizando.
Duas preposições notáveis são traduzidas por “fora de”. Uma é apo, e a
outra, ek. Ambas contêm significados variáveis no relato grego de Marcos
acerca do Batismo de Jesus (Mc 1.10). O relato de Mateus usa apo, que quase
sempre é traduzida por “de”. A versão inglesa do Rei Tiago, de Mateus 3.16,
reza assim: “E Jesus, depois de ser batizado, subiu diretamente da água.”
Seria mais contundente traduzir assim: “... subiu diretamente de entre a
água.” Contudo, em nenhuma dessas traduções há necessariamente a ideia de
imersão, mas apenas de alguém ficar dentro da água. Qualquer dos três
modos poderia ter sido praticado, à luz do que conhecemos.
A preposição apo é usada mais de 600 vezes no Novo Testamento.
Somente em 40 desses casos ela é traduzida “fora de”. Mesmo nesses casos é
problemático se “de” não seria uma tradução preferível. Isto está bem
ilustrado no seguinte exemplo: “vendo-o, lhe rogaram que se retirasse da
terra deles” (Mt 8.34). A ideia correta é “retirar-se de seu meio”.
A outra preposição traduzida por “fora de” é ek, em grego, e que é também
traduzida por “de” com tanta frequência que fica evidente que nenhum
argumento pode convencer plenamente com seu uso. Ela é traduzida “fora de”
40 vezes no Novo Testamento, e “de” 170 vezes.
Outra vez pode-se dizer que há uma forma mais adequada para se dizer
que não saiu de um lugar. É usar a preposição ek (ou ex, antes de uma vogal)
precedendo o verbo como parte dele, e também precedendo o nome. Mas não
há nenhum caso, no Novo Testamento, onde se pode encontrar esta
construção em conexão com o Batismo. De modo que é possível dizer, com
certeza, que não há uma só passagem, no Novo Testamento, onde haja uma
evidência inquestionável de que alguém entrou na água e saiu da água, no
sentido de uma imersão completa.
3. Uma concessão que não é concessão
No entanto, é possível que a tradução correta dessas preposições seja tal que
indique “entrando” e “saindo” da água. A razão pela qual a maioria dos
tradutores prefere isto é que realmente proporciona uma interpretação
aceitável aos imersionistas e aos não-imersionistas. É aceitável aos
imersionistas pela razão já discutida amplamente de que a necessidade
imperativa era a de água corrente, e portanto, uma corrente ou um rio era o
lugar ideal para se ter água à mão. Para a afusão ou aspersão, costumava-se
caminhar dentro de uma extensão de água corrente e recolhê-la. Os Batismos
em massa, como o ministrado por João Batista, e como aquele ministrado no
dia de Pentecostes, requeria um grande volume de água corrente. Isto
indicava a conveniência, se não a necessidade, de mananciais, fontes, ou
correntes. Caso fosse utilizada algum tipo de vasilha, isto não diminui a
necessidade de uma ampla provisão de água corrente. Além do mais, a fonte
mais acessível de água corrente era às vezes um excelente lugar para o
testemunho público, com o qual se associava o ritual do Batismo. Não havia
igrejas, como as de hoje, e por isso não se pensava no Batismo como um rito
que devesse ser ministrado num edifício dedicado ao culto cristão. Teria sido
muito mais conveniente e de importância para seu testemunho ter um serviço
de Batismos na fonte original de água corrente, do que levar a água em
cântaros a algum outro lugar.
Era costume entrar na água ou ficar de pé sobre os bancos de areia e
agachar-se e com a mão ou com algum recipiente recolher água corrente
limpa, e então derramá-la ou borrifá-la sobre aquele que era batizado. Esse
modo está amplamente testificado por pinturas antigas. É por essa razão que
o não-imersionista aceita que as preposições sejam traduzidas de maneira que
indiquem “descer à água” e “sair da água”. Com isso não se admite nenhuma
imersão completa, nem se nega que tal imersão fora uma possibilidade.
Capítulo 16
DIVERSIDADE DE FORMAS
ENTRE AS IGREJAS

É importante valorizar o movimento histórico dentre os vários ramos da


Igreja, lembrando que o desenvolvimento histórico deve ser valorizado à luz
das Escrituras, e não as Escrituras à luz do desenvolvimento histórico. Há
uma impressionante diversidade entre os vários ramos da Igreja, com respeito
a qual forma de Batismo é a aceita. A aspersão é usada em todo o ocidente
como modo geral. A Igreja Católica Romana utiliza um recipiente pequeno e
derrama água três vezes sobre a cabeça da criancinha, na forma do sinal da
cruz. A maioria dos grupos protestantes emprega a aspersão, com a exceção
das denominações batistas, juntamente com um número de pequenas
denominações e grupos independentes. Os batistas, em geral, empregam uma
só imersão. Em todo o oriente, a regra é a tríplice imersão (três mergulhos).
Isto compreende tanto a Igreja Grega como a Ortodoxa Russa. Os nestorianos
fazem com que o candidato esteja em pé, com água até o joelho, e afundam
sua cabeça três vezes. Os sírios, sejam os jacobitas ou os maronitas, fazem o
candidato ficar em pé e lhe derramam a água sobre a cabeça três vezes. Uma
tríplice imersão ou aspersão representa o Batismo em nome de (1) o Pai, (2) o
Filho (3) o Espírito Santo. A Igreja Síria em Jerusalém faz com que o
candidato seja introduzido no batistério; em seguida, o ministro, impondo sua
mão direita sobre a cabeça da pessoa que está para ser batizada, com sua mão
esquerda toma água sucessivamente para diante e para trás e de cada lado do
candidato, derrama a água sobre a cabeça e lava todo o corpo. A Igreja Copta
tem por costume o sacerdote imergir o corpo a primeira vez até o meio, a
segunda vez até o pescoço e a terceira vez até a cabeça. A Igreja Armênia
submerge três vezes para representar os três dias do sepultamento de Cristo.
A seguir, retirando a criança da água, lhe derrama água três vezes, com a mão,
sobre a cabeça, dizendo: “Todos vós que tendes sido batizados em Cristo,
fostes revestidos de Cristo. Aleluia! Todos vós que tendes sido iluminados
pelo Pai, o Espírito Santo habita em vós. Aleluia!” Nota-se que esta Igreja
simboliza a obra do Espírito Santo em seu Batismo e sua presença.
Falando em termos gerais, a prática da Igreja atualmente se divide na
tradição oriental e a ocidental. O oriente, sua maioria, batiza por tríplice
imersão; no ocidente, em geral é feito por aspersão. Os batistas também se
encontram no ocidente, os quais praticam somente a imersão, e os católicos
romanos que praticam a efusão. É interessante descobrir que os batistas
ingleses que se separaram dos puritanos imigrantes e formaram uma
congregação em Amsterdam, batizavam por aspersão. Parece que foram os
batistas ingleses do século XVII, a primeira comunidade de força reconhecida,
que declararam a imersão como essencial para o Batismo válido; mesmo
quando ainda grupos pequenos se mantiveram sempre nessa posição. O
ressurgimento da prática da imersão não se deve tanto a que ela tenha
sobrevivido, mas, antes, que ela voltou a um costume primitivo.
As Igrejas Romana e Anglicana admitem ambas, a imersão e a aspersão.
Os presbiterianos discutiram o assunto na Assembleia de Westminster e, por
maioria de apenas um voto, se excluiu a imersão como um sistema alterado, e
se lhe deu validade, porém subordinada. Os presbiterianos usam a imersão
sempre e quando seja a pedido do candidato.
Houve tempo em que a imersão foi universal tanto no ocidente quanto no
oriente. Foi somente no século XIII que a aspersão começou a tornar-se regra
da prática do Batismo no continente; e não chegou a ser dominante senão até
depois da Reforma na Inglaterra. Assim, a atual diversidade é um produto do
tempo. Nos primeiros mil anos da Igreja, excluindo o primeiro século, do qual
não temos dados, toda a igreja estava unida na tríplice imersão. Todavia, não
se deve determinar precipitadamente o sentido deste fato. Os
desenvolvimentos do crucial segundo século, que determinaram o curso da
igreja durante séculos, representam incríveis extravios a respeito das
Escrituras.
Nunca houve um tempo em que a Igreja insistisse sobre a imersão como o
único método válido. Pode-se seguir o rastro disto desde a época do “Ensino
dos Apóstolos”. Um ponto de interesse é a frequente advertência dos tempos
dos primeiros Pais da Igreja Cristã contra uma única imersão. Isto foi
condenado como contrário ao mandamento de Cristo por homens como
Teodoreto, Sózimo, entre outros. O bispo ou presbítero que administrasse o
Batismo com uma só imersão era destituído! De forma estranha, na
atualidade, não ocupam a posição dogmática os que praticam a imersão
tríplice; e sim os que praticam uma só imersão.
TESTEMUNHO CONTRADITÓRIO DA ARTE CRISTÃ PRIMITIVA
Enquanto os Pais da Igreja do segundo século em diante, e por toda a era
patrística, representam o Batismo ordinário como uma imersão tríplice a
batizandos completamente nus, a representação pictórica desse mesmo
período dificilmente oferece um quadro do Batismo por imersão; porém
sugere, em vez desta, a efusão ou a aspersão como a prática constante. O
testemunho das catacumbas favorece fortemente estes dois modos. As pias
batismais primitivas estavam adaptadas somente para a efusão e a aspersão.
O afresco na cripta de Lucina, nas catacumbas romanas, que aparentemente
data do princípio do século II, exibe Cristo sendo ajudado por João a sair do
rio, onde se encontra ainda submerso até quase o meio do corpo. Nos afrescos
da Capela de Calixto e em outras, a representação principal é a de alguém que
está imerso até a cintura em um rio, enquanto outro lhe derrama água. Em
outras representações pictóricas, o candidato está parado em uma corrente de
água, que lhe atinge apenas os tornozelos, enquanto outro derrama água
sobre ele.
A conclusão a que muitos têm chegado à luz de toda essa evidência, é que
talvez uma imersão parcial, complementada com a efusão ou a aspersão, era
perfeitamente conhecida nos tempos primitivos. Isto tem mais valor partindo
da designação comum do Batismo: “o banho.” Dos diversos modos comuns
encontrados nos primeiros dias derivaram linhas independentes de
desenvolvimento através dos anos, e cada uma representa notável ênfase
doutrinal com relação ao tempo e à certo lugar. As religiões de mistério, que
praticavam a imersão, eram fortes nas províncias do Império Romano e,
indubitavelmente, exerciam influência como muitas outras práticas pagãs.
Até onde isto é verdade, é difícil determinar. Virgílio menciona a lavagem do
corpo na purificação cerimonial (Eneida 11.720) e igualmente Ovídio (Fausto
V.680). E como já fizemos notar, os cultos ascéticos tais como os dos essênios
e os pactantes de Qumran, eram exigentes quanto às abluções. Um dos
principais problemas que enfrenta o investigador bíblico é o fato que ele não
pode afirmar que o Batismo do século II reproduza o do século I; nem
tampouco, que a organização do século II represente a organização da igreja
do século I. O que devemos ter em mente não é a igreja do século II, e sim as
próprias Escrituras. Os desenvolvimentos históricos que realmente têm
importância são aqueles em que uma forte teologia bíblica sustenta a prática
da igreja. É de se esperar que haja mudanças em certas áreas da prática da
igreja, a fim de ajustar-se a uma crescente compreensão da teologia bíblica. A
crescente unidade de pensamento conduzirá a uma uniformidade cada vez
maior da prática em alguns aspectos. Mas a diversidade de práticas não é, em
si mesma, prova infalível de que a verdade esteja de um lado e o erro, do
outro. A convicção deste escritor é que a Palavra de Deus consente muita
diversidade, e que a intenção de Deus não é que toda a doutrina cristã se
limite a pequenas fórmulas claras de lógica de teologia, nem que toda prática
da igreja se restrinja a certos modos uniformes. O assunto do Batismo, tal
como o temos delineado no curso deste estudo, sugere precisamente tal
tolerância na administração das ordenanças sacramentais.
PRECOCE NECESSIDADE DE REFORMA
Uma incrível necessidade de reforma se iniciou na igreja nas gerações
imediatamente seguintes à dos apóstolos. Compreender isto é evitar o erro
dos que deram por fato que os que sucederam diretamente aos homens que
originalmente deram forma literária às doutrinas da igreja cristã, devem ser
tidos como testemunhas dignas de confiança plena, e que conservaram o
evangelho em toda sua pureza. Tal suposição não poderia ser mais errônea!
Tanto no que se tem afirmado, como no que se tem feito, de um lado, a igreja
teria se apartado seriamente da prática e da fé apostólicas.
A necessidade de reforma se fez presente no início do século II, e a
história subsequente da igreja só revela um desvio progressivo. Este é o fato
mais impressionante que se observa quando se compara a literatura do século
II com a literatura bíblica do século I. Não resulta menos surpreendente
comparar a Epístola de Clemente com Coríntios ou com o Evangelho de João.
Ou comparar as cartas de Inácio com as de Paulo. Ninguém que não tenha
feito tais comparações poderá perceber este grande desvio, tão perto do
nascimento da igreja cristã.
Entre a Epístola de Clemente (96 d.C.) e as obras de Justino Mártir temos
apenas as cartas de Inácio, a Epístola de Barnabé, a Didaquê e duas cartas
breves de Plínio ao Imperador Trajano. Já na segunda metade do século II,
temos os apologistas encabeçados por Justino Mártir, Hermas e Irineu, com
mais um ou dois escritores, e os fragmentos de Marcião. Com exceção das
cartas de Inácio, lemos as outras só para perguntar: “O que sucedeu à igreja,
logo em seu ponto de partida?”
Posto que a carta de Clemente à Igreja de Corinto talvez seja a mais antiga,
a estudaremos para ver a necessidade de uma reforma já nos primórdios do
ano 96 d.C. Esta data encontra-se no período em que a igreja havia reunido
apenas os livros do Antigo Testamento. Outros cinquenta anos, ou mais,
haveria de transcorrer antes que os documentos que formam o Novo
Testamento fossem coletados; foram reconhecidos oficialmente como
autoritativos; e circularam entre as igrejas existentes. O culto público já havia
adotado a ordem que tomava como modelo a sinagoga judaica, com a adição
da Ceia do Senhor.
Boa parte dos Evangelhos já estava em circulação pelas igrejas em
quarenta anos ou mais, e bem cedo, por volta do ano 55 d.C. algumas seções
puderam ser incorporadas na forma escrita, muito embora não chegassem a
completar como Evangelhos antes do ano 83 d.C. Não foi senão até
aproximadamente o ano 110 d.C. que as Epístolas de Paulo começaram a
circular como uma coleção; e a reunião conjunta de todos os documentos que
formam o Novo Testamento não se consumou antes do ano 140 d.C. Seu
reconhecimento como Escritura com autoridade e sua canonização começou
nos dias de Irineu, uma geração depois. Ou, melhor, o que se iniciou por volta
do tempo de Justino Mártir (mais ou menos no ano 150 d.C.) se completou
aproximadamente uma geração depois, nos dias de Irineu.
Pode-se ver que a igreja, que tinha de apoiar-se no Antigo Testamento até
este tempo, igreja composta em sua maioria de judeus, era objeto de
consideráveis deserções e incompreensões, e necessitaria de uma reforma
quase desde o princípio. Os problemas de meios de comunicação se somavam
materialmente aos problemas da manutenção da unidade de ensino e de
prática nas igrejas.
A Epístola de Clemente resultou de uma disputa em Corinto. A difícil
questão era se os ofícios de bispo residente e diácono tinham de ser mantidos
durante toda a vida, como fora o ofício dos apóstolos, que já havia
desaparecido. Ou seria exercido só por determinado período? Clemente era
um dos bispos de Roma, e escreveu para sustentar a tese de que o ofício era
permanente. Ele escreve em benefício da igreja em Roma, de modo que quase
com certeza sua atitude estava respaldada pela igreja em Roma.
O primeiro elemento que chama a atenção é o número desproporcional de
referências ao Antigo Testamento. Há cerca de 120 referências ao Antigo
Testamento, e somente 12 passagens que indicam um conhecimento dos
escritores do Novo Testamento. Ele desconhece, sistematicamente, tudo o
que era característico na teologia de Paulo, a quem poderia recorrer para
embasamento seguro. Não demonstra estar ciente do que Paulo entendia por
fé e graça. Fala dos cristãos como justificados por obras. Não vê com toda
seriedade o pecado e a redenção. Ministra instruções para uma casta
sacerdotal na igreja, separada dos bispos e diáconos, precisamente aquilo que
foi levado, subsequentemente, longe demais na igreja romana.
O que dizemos de Clemente pode-se aplicar a todos os escritores sub-
apostólicos[2]. Hermas, por exemplo, escreve: “Se fazes alguma boa obra,
excedendo o mandamento de Deus, obterás maior glória para ti mesmo.” Esta
é uma das primeiras evidências da monstruosa heresia romana, com respeito
às obras que são feitas além do mandamento original.
A Didaquê se distingue por erros óbvios. Por exemplo, em um lugar lemos:
“De tudo o que tenhas ganho com tuas mãos, darás resgate por teus pecados.”
E trinta anos depois de Clemente, Justino Mártir mostra o mesmo grave erro
de compreensão com respeito a salvação pela graça. Inácio escreve
advertência contra as tendências judaizantes na igreja, como o fez Barnabé.
Devido ao fato que o montanismo e o marcionismo, no século II, foram
considerados como heresias por historiadores e teólogos posteriores, nossa
tendência é ignorar que estes movimentos foram suscitados por um ardente
desejo de resgatar características da doutrina do Novo Testamento já
seriamente pervertidas no século II pela igreja em geral. Estes dois
movimentos se formaram logo depois que as Epístolas de Paulo e o Novo
Testamento foram reunidos e circulavam como uma unidade. Que estes dois
ramos sobreviveram por dois séculos, a despeito da autoridade e perseguição
da igreja organizada, mostra quão seriamente sentiam os cristãos, com o
conhecimento do Novo Testamento, a necessidade de uma reforma.
Realmente, até os últimos apologistas, não havia absolutamente nada
como teologia sistemática. Havia, sim, plena lealdade para com Cristo e uma
vida e um testemunho, mas não uma teologia como referência. Isto é
compreensível; e, no entanto, o dano causado foi incalculável! O culto, os
sacramentos e a administração da igreja se encontravam em estado de total
confusão assim como a teologia. Isto também é compreensível entre pessoas
que cresceram com o sacramentalismo, como sucedera com os judeus. Outros
estavam grandemente influenciados pelo sacramentalismo das religiões de
mistério que floresciam naqueles dias na área do Mediterrâneo. Hoje
sabemos como os essênios e os Pactantes de Qumran formaram seus próprios
discípulos e ritos, contribuindo para a diversidade, em vez da unidade, no
pensamento e prática da igreja.
O legalismo assumiu o lugar da liberdade no Espírito. A organização da
igreja tomou sua forma do Império Romano, desdobrando um governo
autocrata que culminou com a exaltação do papa a uma supremacia absoluta.
Sob este sistema, todos os intentos da reforma se viram rápida e cruelmente
impossibilitados. Em meados do século II, a salvação chegara a ser posse e
prerrogativa do clero.
Gregório Taumaturgo, discípulo de Orígenes, uniu-se às tendências pagãs
daqueles a quem convertera. Desta forma, os santos e intercessores, que eram
semideuses, tiveram ingresso na igreja. Foram instituídos os cultos locais e os
lugares sagrados. As festas anuais eram celebradas com muito barulho. Os
amuletos e talismãs, relíquias e ossos de santos eram todos objetos de cobiça.
O apelo às Escrituras gradualmente se converteu em apelo à autoridade da
igreja, até que quase da noite para o dia a igreja chegou a ser a única
intérprete da verdade. As Escrituras, que tão recentemente circulavam, foram
caindo no abandono e no desuso. A dificuldade de copiar as Escrituras
facilitou em extremo a dependência do clero para seu acesso. E assim entrou
em desuso o sistema apostólico da doutrina, do culto e da administração da
igreja. O analfabetismo contribuiu para o fracasso do cristão leigo para
entender corretamente a verdadeira autoridade de sua fé.
Os erros grosseiros começaram a se infiltrar, tais como a mediação dos
santos em lugar de Cristo somente. Entrou em cena a adoração da virgem
Maria. Os velhos deuses do politeísmo pagão reapareceram sob a forma de
anjos e santos, para serem adorados, aplacados e para serem buscados em
oração. Em meados do século II, a veneração dos mártires já havia chegado a
ser uma prática estabelecida. Os sacramentos se converteram em “mistérios”
com poderes mágicos sujeitos à vontade do clero. As práticas simples se
tornaram dramáticas, convertendo-as em cerimônias bem elaboradas. A fé em
Cristo foi substituída pela fé nos sacramentos. A regeneração pelo Batismo foi
uma doutrina amplamente difundida. O clero foi elevado a um sacerdócio
eclesiástico baseado no padrão levítico do Antigo Testamento. A astúcia
sacerdotal, com seus rituais religiosos, apagou a luz da Escritura. A Ceia do
Senhor foi pervertida para vir a ser o sacrifício da missa.
Tudo isto se desenvolveu dentro do período em que se reunia o Novo
Testamento e passou a circular! A maior parte das práticas heréticas que
floresceram na igreja romana da idade média teve sua semente neste segundo
século crucial.
O testemunho dos pais da igreja primitiva é válido até onde demonstram
sua compreensão bíblica. É um crasso erro recorrer a eles como mantendo
uma posição que não se encontra no Novo Testamento. Muitos dos pais
continuaram compreendendo o Batismo como uma purificação essencial do
pecado e como uma renovação do homem por inteiro, para a união com
Cristo. Justino Mártir disse: “Por meio da lavagem do arrependimento e o
conhecimento da Palavra de Deus, que foi instituída para o benefício do povo
de Deus, cremos e fazemos saber que o Batismo que ele proclamou basta para
purificar os crentes que se arrependem.”
Hipólito, depois de citar Isaías 1.16-18, “Lavai-vos, purificai-vos, tirai a
maldade de vossos atos de diante de meus olhos; cessai de fazer o mal”, disse:
“Tu viste, amado, como o profeta predisse a purificação do santo Batismo.”
Cipriano fala de modo semelhante.
A Didaquê é o manual mais antigo da igreja. De modo significativo, este
manual de instrução religiosa, o mais antigo, permite ambas as formas de
Batismo: a imersão e a efusão. A imersão parece ter sido a forma costumeira.
Todavia, na Epistola Apostolorum, 27, uns cinquenta anos mais tarde, temos a
indicação somente da efusão e a prescrição era que fosse tríplice.
Crisóstomo, ano 350, comenta sobre as palavras de Jesus: “Podeis beber o
cálice que eu bebo, e ser batizados com o Batismo com que sou batizado?” Ele
disse: “Aqui ele chama sua cruz e sua morte um cálice e um Batismo; um
cálice porque ele o bebeu com prazer; um Batismo porque, por meio dele, ele
purificou o mundo.” Falando de Luciano Mártir, Crisóstomo disse: “... e como
os batizados são purificados pela água, assim os mártires o são por seu
próprio sangue.”
E assim há vestígios de entendimento ao menos de alguns aspectos do
Batismo, mas tais vestígios se encontram em meio a muitos erros, e são de
pouco valor para o estudante de teologia. De modo que devemos dizer que a
existência de uma prática dominante do Batismo, cinquenta anos depois da
morte do último apóstolo, não prova que os apóstolos ensinaram ou
praticaram essa forma exclusivamente.
ASPERGIR A CABEÇA OU IMERGIR O CORPO?
Essa pergunta sugere uma disjuntiva de que uma forma é tida como correta e
a outra por errônea. A intenção deste estudo tem sido demonstrar que os
vários significados do Batismo permitem diversidade de expressão ritual.
Ambas, tanto a imersão como a aspersão, são formas válidas. A pergunta que
ora temos diante de nós é simples, a saber: “Por que a aspersão na cabeça é
tão igualmente significativa quanto a imersão de todo o corpo?”
A água em si representa a influência purificadora e regeneradora do
Espírito Santo. O corpo é o veículo do pecado, e todo o corpo, como a pessoa
toda, está contaminado pelo pecado. A imersão do corpo completo retrata
vividamente esta purificação e a renovação do homem por inteiro. Retrata-a
enfatizando a analogia do sepultamento e da ressurreição. É um ritual que
compreende todo o corpo em contato com a água. A questão é se a efusão
sobre a cabeça pode dar ideia adequada desta purificação e renovação
completas.
Todo o pecado se origina na separação voluntária do homem de Deus. O
homem tinha a capacidade de obedecer e de desobedecer; e preferiu o
caminho da desobediência e da rebelião. Ele se fez ególatra, como resultado
de um ato de escolha moral. O pecado e a responsabilidade contidos na
conduta do homem são reais, porque a motivação inteligente e moral que
respalda tal conduta é real. O homem escolheu a rebelião e a pecaminosidade,
em pleno exercício de sua mente e de sua vontade.
A cabeça, no corpo, é o centro de controle do pensamento e da conduta.
Nela se origina o conhecimento do mal; a valorização racional do mal; o afeto
pelo mal e a vontade de fazer o mal. A cabeça é responsável tanto pela
personalidade como pelo corpo, caso se entreguem ao pecado. A cabeça
representa toda a personalidade e o corpo, em sua vida responsável. Mesmo
assim, é pela mente, os efeitos e a vontade transformados, que a graça de
Deus opera em toda a personalidade e vida.
Nunca devemos esquecer que o ritual emprega o uso de símbolos. No
ritual do Batismo, tudo o que se nos pode pedir é um simbolismo adequado. É
assim quando a aplicação da água sobre a cabeça tantos a aceitam pela fé,
como um símbolo adequado da purificação e renovação de toda a
personalidade através da união com o Senhor Jesus Cristo. E já que não é a
quantidade de água empregada, nem a extensão da área superficial corporal
que se molha o que certifica a união espiritual de alguém com Cristo, nem o
que constitui um símbolo adequado, a efusão está estabelecida como um
método suficiente do rito batismal. O antigo teólogo Witsius disse
concisamente: “Uma pequena gota de água pode servir para selar a plenitude
da graça divina, no Batismo, tanto como um pedacinho de pão e o menor
sorvo de vinho na Santa Ceia.” A mera participação no ritual do Batismo, não
importa como é administrado, representa a participação no Batismo
espiritual. Esta é a essência. Tudo mais é incidental.
SUMÁRIO
O Batismo remonta, retrospectivamente, aos eternos decretos de Deus, por
meio do pacto da graça na salvação; e como tal, se relaciona com a igreja de
ambos os Testamentos, a comunidade de Deus que dá sequência à aliança na
terra. O Batismo é visualizado externamente como uma ordenança
sacramental, um sinal e um selo da ratificação da aliança. Os recipientes
apropriados são de duas classes: os adultos que ingressam na herança da
aliança, pela fé no Redentor; e os filhos menores dos crentes, que são
considerados como os legítimos herdeiros das promessas da aliança, e que
confirmam seu Batismo, numa idade ulterior, mediante sua fé pessoal. O
Batismo das criancinhas tem o benefício adicional, aplicável somente a elas,
de que os privilégios da aliança e os meios da graça lhes pertencem, por
direito, antes do tempo de sua compreensão e confissão pessoal.
Tem-se descoberto que a palavra baptizo é um termo de significado geral,
muito mais do que específico. O sentido figurado proporciona uma ideia de
grande amplitude do significado inerente a esta palavra, e que a faz adaptável
à teologia cristã. Ele se aplica prontamente ao rito que significa uma
transformação espiritual tão completa, que passa a mudar a identidade
espiritual de uma pessoa.
O Batismo, na esfera da teologia do Novo Testamento, associa,
respectivamente, a obra de Cristo na salvação e a obra do Espírito Santo, na
aplicação da salvação. De fato, o ministério das três pessoas da Trindade está
associado na ampla significação do Batismo. Espiritualmente, é Batismo “em
Jesus Cristo”. Os benefícios inclusos são tantos e tão variados, que se torna
difícil simbolizá-los completamente por alguma das formas. Por isso nunca se
aceitou universalmente a literalidade restringida de qualquer uma delas. A
maioria das igrejas cristãs tem preferido a liberdade que permite a imersão, a
aspersão e a efusão como práticas válidas, pondo a ênfase sobre o que o ato
significa. Um símbolo é válido e adequado quando demonstra sua capacidade
de significar perfeitamente os variados sentidos do que simboliza. Assim, a
forma deve estar sempre subordinada ao significado.
A tese deste livro é que a controvérsia vem a ser impossível, já que a forma
se subordina ao significado, e sendo o significado tão amplo como o ensino da
aliança em ambos os Testamentos, e tão amplo como o uso da palavra babtizo
no Novo Testamento. Que Deus conduza seu povo de nossos dias a uma mais
completa realização deste objetivo.

2 Referência aos Pais Apostólicos e que engloba uma série de escritos do cristianismo mais antigo que não
foram integrados ao cânone do Novo Testamento e nem mesmo aos chamados apócrifos (Primeira Carta
de Clemente de Roma, A Epístola de Policarpo; Epístola de Barnabé; a Didaquê; Pastor de Hermas; as
sete epístolas escritas por Inácio de Antioquia). N. do E.
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