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EXCELENTÍSSIMO SENHOR DOUTOR JUIZ DA ___ VARA FEDERAL CÍVEL DA SEÇÃO

JUDICIÁRIA DE PIRACICABA – ESTADO DE SÃO PAULO

DANIELA REGINA MASSINI IZZI, brasileira, divorciada, assistente financeira,


portadora da cédula de identidade RG nº 25.210.437-7 SSP /SP, regularmente inscrita
no inscrita no Cadastro de Pessoas Físicas do Ministério da Fazenda sob o numero
190.321.268-57, residente e domiciliada na cidade e Comarca de Rio Claro, Estado de
São Paulo, na Avenida 10 , número 2.300, bairro Jardim Claret, por seu Advogado e
Procurador infra-assinado – instrumento procuratório em anexo, com escritórios na
cidade e Comarca de Rio claro, Estado de são Paulo, na Rua 8, número 740, Centro,
CEP 13.500-050, e-mail souzacamposce@gmail.com, vem, respeitosamente propor a
presente ação ordinária

DECLARATÓRIA DE CLÁUSULA ABUSIVA C/C INDENIZAÇÃO POR DANOS MATERIAIS E


MORAIS C/C PEDIDO DE TUTELA DE EVIDÊNCIA

Em face da CAIXA ECONÔMICA FEDERAL S.A – C.E.F., instituição financeira sob


a forma de empresa pública, dotada de personalidade jurídica de direito privado,
inscrita no Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas do Ministério da Fazenda sob o
número 00.360.305/0001-04, Agência Rio Claro/SP (código 0341), situada na Avenida
01, número 500, Centro, Rio Claro, Estado de São Paulo, CEP 13.506-170, pelos
motivos de fato e de direito a seguir expendidos, para, ao final requerer.

I – DOS FATOS

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A Requerente celebrou com a Requerida, os contratos abaixo relacionados:

Contrato de penhor número 0341.213.00012127-3, em 15/10/2017, recebendo à título


de empréstimo lo de empréstimo a quantia de R$ 3,230,00 (três mil, duzentos e trinta
Reais);

Contrato de penhor número 0341.213.00012125-7, em 05/10/2017, recebendo à título


de empréstimo a quantia de R$ 3.527,50 (três mil, quinhentos e vinte e sete Reais e
cinqüenta centavos);

Contrato de penhor número 0341.213.00012128-1, 05/10/2017, recebendo a título de


empréstimo a quantia de R$ 2.720,00 (dois mil, setecentos e vinte Reais);

A somatória dos valores dos dois contatos perfaz a quantia de R$ 9.477,50 (nove mil,
quatrocentos e setenta e sete Reais e cinqüenta centavos), e, em razão destes
contratos de mútuo, a requerente deixou empenhadas como garantia as
jóias:relacionadas e com fotografias em anexo, bem como uma avaliação aproximada
das mesmas, e, diga-se de passagem, de inigualável estima.

Ocorre, que na data de 27/06/2018, a agência em que estava efetuando o


depósito dos bens da Requerente, fora vítima de um roubo, resultando na subtração
dos mesmos. Pelas notícias vinculadas à época, nos jornais de grande circulação,
percebe-se que o prejuízo foi de grande monta, atingindo centenas de mutuários,
conforme prova abaixo:

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A Requerida tinha sob sua guarda, os bens da Requerente, em face de um
contrato de mútuo, avaliado por seus servidores, e sendo notório que esta avaliação
não ultrapassava 10% do valor do mercado das joias.

Após o roubo, a Requerente foi informada que seria indenizada tendo como
base em 1,5 (um inteiro e cinco décimos) vezes o valor da avaliação acima atualizada
com base na variação do índice da atualização da correção monetária as contas de
poupança, apurado no período entre a data de concessão do empréstimo e da data do
pagamento da indenização, descontando-se ainda o saldo residual do contrato (vide
cláusula 12.1).

Diante disto, percebe-se claramente, que a Requerida desprezou o real valor


dos bens, ou seja, o valor de mercado, bem como, a relação sentimental que a
Requerente possuía pelos seus bens, cogitando indenizá-la em valores baixíssimos, se
comparados com o montante devido pelo mútuo.

Tal conduta, adotada pela Requerida, além de violar vários princípios basilares
do direito, assegurados pela Constituição Federal e também por todo o ordenamento
jurídico, não encontrou amparo na jurisprudência, conforme se evidenciará.

Sendo assim, o objetivo da presente ação é ver declarada a nulidade da


cláusula 12.1 que limita a indenização nos casos de perda ou extravio de garantia, na
proporção de 1,5 (um inteiro e cinco décimos), do valor da avaliação e ainda, condenar
a Requerida, a pagar indenização por dano material correspondente ao valor de
mercado dos bens citados, calculado com base nos parâmetros de mercado
demonstrados por perícia e ainda condenar a Requerida a indenizar a Requerente por
danos morais por arbitramento, consoante determina a legislação vigente, rogando-se
que não seja inferior a 50% do valor total da ação;

II – DO DIREITO

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DA INCIDÊNCIA DO CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR

Reza o artigo 2º do Código de Defesa do Consumidor in verbis: “Consumidor é


toda pessoa física ou jurídica que adquire ou utiliza produtos ou serviços como
destinatário final” (g.n.)

É pacífico o entendimento no STJ de que o Código de Defesa do Consumidor é


aplicável às instituições financeiras, conforme “Súmula 297 – O Código de Defesa do
Consumidor é aplicável à instituições financeiras”.

Nesse vértice, a jurisprudência se posiciona de modo favorável:

DIREITO PROCESSUAL CIVIL: AÇÃO MONITÓRIA. DIREITO


CIVIL E DIREITO DO CONSUMIDOR: CONTRATO DE
ABERTURA DE CRÉDITO – CONSTRUCARD,. INCIDÊNCIA
DAS NORMAS DO CDC. VULNERABILIDADE E
HIPOSSUFICIÊNCIA DO CONSUMIDOR. ONEROSIDADE
EXCESSIVA. INOCORRÊNCIA. NATUREZA DE CONTRATO DE
ADESÃO RECONHECIDA. UTILIZAÇÃO DA TR PARA
ATUALIZAR O SALDO DEVEDOR. POSSIBILIDADE. TABELA
PRICE. LEGALIDADE. A ação monitória compete a quem
pretender, com base em prova escrita sem eficácia de
título executivo, pagamento de soma em dinheiro,
entrega de coisa fungível ou de determinado bem móvel.
Uma vez rejeitados os embargos, constitui-se, de pleno
direito,o título executivo judicial. Inteligência do art.
1102.a c/c 1102-C, parágrafo 3º do CPC. 2. Os contratos
bancários se submetem a sistemática do CDC. Nesse
sentido a Súmula 297 do STJ. 3. A vulnerabilidade é
característica comum a todos os consumidores o mesmo
não se pode afirmar em relação à hipossuficiência que
depende de cada caso concreto. 4. O reconhecimento da
hipossuficiência está sujeita a uma discricionariedade
judicial regrada, haja vista que, os termos do art. 6º, VIII,

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do CDC, que define os direitos básicos do consumidor, a
inversão do ônus da prova, se dará a critério d juiz e
depende da presença, alternativa, de verossimilhança das
alegações ou de hipossuficiência d consumidor, conforme
as regras ordinárias de experiência. Capitalização dos
juros, a cumulação de comissão de permanência com
outros encargos bem como de multa moratória não
ocorreram conforme informação da contadoria. 6. É
possível a utilização da TR na atualização do saldo
devedor do contrato. Precedentes desta Corte e do STJ. 7.
A utilização do sistema francês de amortização, Tabela
Price, não é ilegal e não enseja, por si só, a incidência de
juros sobre juros. Precedentes desta Corte e do STJ. 8.
Reconhece-se a natureza de adesão dos contratos
bancários, haja vista que nos termos do art. 54, do CDC,
Contrato de Adesão é aquele cujas cláusulas tenham sido
aprovadas pela autoridade competente (contrato de
dupla adesão) ou estabelecidas unilateralmente pelo
fornecedor de produtos ou serviços (contrato de adesão
puro ou simples), sem que o consumidor possa discutir ou
modificar substancialmente seu conteúdo. 9. Apelação
improvida. (Quarta Turma, AC 559303 CE, Relator:
Desembargador Federal Emiliano Zapata Leitão –
convocado, julg. 23/07/2013, publ. DJE26/07/2013, pág.
239, decisão unânime).

DA ABUSIVA CLÁUSULA 12.1

A Requerida pretende efetuar a indenização no caso em tela, nos termos da


cláusula clara e videntemente abusiva:

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“12 – DA GARANTIA: 3.1 Em garantia do empréstimo o
MUTUÁRIO da CEF 0(s) objeto(s) especificados o anverso,
o(s) qual(is) declara ser de sua propriedade possuindo-
o(os) livre e desembaraçado(s) de todo e qualquer ônus.
3.2 GARANTIA que se extraviar ou sofre danos na CEF,
cuja recuperação não alcance o valor da avaliação d
contrato, será indenizada em 1,5 (um inteiro e cinco
décimos) vezes o valor de sua avaliação devidamente
atualizada monetariamente com base na variação do
índice de correção das contas de poupança verificado
desde a data de assinatura do contrato até a data de
pagamento. 3.2.1 Do valor a indenização será deduzido o
débito do contrato. 3.2.2 A garantia danificada, todavia
recuperável a ponto de atingir o valor da avaliação
contratual, não será indenizada e sim recuperada pela
CEF” (g.n.)

Esta cláusula limita ilegalmente a responsabilidade da CEF, tornando-se


excessivamente danos à Requerente, vez, que, fica obrigada a receber valores
definidos unilateralmente pela Caixa, sendo estes muito menores que os valores do
mercado deste tipo de bens.

A Constituição assegura que caberá ao Estado assegurar a defesa do


consumidor. Neste sentido o art. 5º, XXXII:

“Art. 5º - Todos são iguais perante a lei, sem distinção de


qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos
estrangeiros residentes no país a inviolabilidade d direito
a vida, à liberdade, à igualdade e à prosperidade, nos
termos seguintes:

(...)

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XXXII – o Estado promoverá, na forma da lei, a defesa do
consumidor.

Ainda, o Código de Defesa do Consumidor regulando a matéria, prevê quanto


ao caso narrado:

“art. 6º - São direitos básicos d consumidor:

(...)

IV – a proteção contra publicidade enganosa e abusiva,


métodos comerciais coercitivos ou desleais, bem como
contra as práticas e cláusulas abusivas ou impostas no
fornecimento de produtos e serviços;

(...)

VI – a efetiva prevenção e reparação de danos


patrimoniais e morais, individuais, coletivos e difusos;

(...)

Art. 25 – é vedada a estipulação contratual de cláusula


que possibilite, exonere ou atenue a obrigação de
indenizar prevista neste e nas seções anteriores.

(...)

Art. 51 – São nulas de pleno direito, entre outras as


cláusulas contratuais relativas ao fornecimento de
produtos e serviços que:

I – impossibilitem, exonerem ou atenuem a


responsabilidade do fornecedor por vícios de qualquer
natureza dos produtos ou serviços ou impliquem renúncia
ou disposição de direitos. Nas relações de consumo entre
fornecedor e consumidor pessoa jurídicas, a indenização
poderá ser limitada, em situações justificáveis;

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(...)

IV – estabeleçam obrigações consideradas iníquas,


abusivas, que coloquem o consumidor em desvantagem
exagerada, ou sejam incompatíveis com a boa-fé ou a
equidade.

Isto posto, verifica-se que a cláusula supramencionada, é abusiva, vez que,


atenua indevidamente a responsabilidade da Caixa Econômica Federal, a qual deve ser
combatida pelo Tribunal já que visa impossibilitar, exonerar, ou atenuar a obrigação de
indenizar.

Pode-se dizer, então, que unilateralmente inserida nos contratos de penhor


pela Caixa Econômica, estabelece para os casos de roubo, furto ou extravio de bens
sobre sua custódia, a indenização no valor de 1,5 (um inteiro e cinco décimos) da
avaliação contratual, quantia esta irrisória em comparação com o valor de mercado
das joias.

Além disto, insta frisar que existe nas relações de consumo, a imposição às
partes da adoção da “cláusula geral da boa – fé”, a qual se presume em todo contrato,
mesmo que não explícita.

Consoante com isto, a doutrina dispõe o seguinte:

“Não é demais lembrar que as relações de consumo são


informadas pelo princípio da boa fé (art. 4º, caput e inc.
III, CDC), de sorte quer toda cláusula que infringir esse
princípio é considerada, ex lege, como abusiva. Dissemos
ex legis, porque o art. 51, nº XV, do CDC diz serem
abusivas as cláusulas que estejam em desacordo ao
sistema de proteção ao consumidor, sistema no qual se
insere o princípio da boa-fé, por expressa disposição já
mencionado art. 4º, caput e inc. III, do CDC” (Código de
Defesa do Consumidor Comentado pelos autores do
anteprojeto, p. 452).

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Desta forma, a Caixa Econômica Federal, ao prever ilusória indenização nos
casos de roubo, furto ou extravio das joias empenhadas contraria, indubitavelmente, o
princípio de boa – fé, essencial para a harmonia das relações de consumo.

DA DESVANTAGEM EXAGERADA EM FAVOR DA REQUERIDA

Além de a cláusula ser evidentemente abusiva, referida indenização gerou a


Requerente uma situação não só de “desvantagem exagerada” como igualmente
humilhante.

Neste sentido, preceitua o Código de Defesa do Consumidor:

“Art. 6º - São direitos básicos do consumidor:

“V – a modificação das cláusulas contratuais que


estabelecem prestações desproporcionais ou sua revisão
em razão de fatos supervenientes que as tornem
excessivamente onerosas”.

A onerosidade excessiva para o consumidor infringe o princípio da equivalência


contratual. Neste sentido, a lição dos autores do anteprojeto do Código de Defesa do
Consumidor Comentado:

“A onerosidade excessiva pode propiciar o enriquecimento


sem causa, razão pela qual ofende o princípio da
equivalência contratual, princípio este instituído com base
das relações jurídicas de consumo (art. 4º, nº III, e art. 6º,
nº II, CDC). É aferível de acordo com circunstâncias
concretas que não puderam ser previstas pelas partes
quando da conclusão do contrato”.

Assim, mesmo que tais cláusulas fossem consideradas legais, com a ocorrência
do roubo tornaram-se excessivamente onerosas aos consumidores, os quais fazem jus
à sua revisão, como assim se requer.

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DA RESPONSABILIDADE DA CEF PELOS DANOS SOFRIDOS

Ainda, o CDC, em seu art. 14, estabelece a responsabilidade,


independentemente de culpa, dos fornecedores de serviços, como segue:

“Art. 14. O fornecedor de serviços responde,


independentemente da existência de culpa, pela
reparação dos danos causados aos consumidores por
defeitos relativos a prestação de serviços, bem como por
informações insuficientes ou inadequadas sobre sua
fuição e riscos” (g.n..)

E, sabe-se que inúmeros roubos e furtos às agências da Requerida, similares ao


caso em tela, vem ocorrendo, restando milhares de mutuários, desprovidos de seus
bens, além de ficarem sem justa indenização, que sejam pelo valor de mercado. Diante
disto, percebe-se, que a Requerida não presta a devida segurança, que os
consumidores podem esperar.

Portanto, conforme, o art. 14 do CDC, percebe-se que a requerida deve


responder pelos danos sofridos, pelos seus consumidores, mesmo fronte a ausência de
culpa, haja vista, a responsabilidade objetiva, presente na relação, uma vez que de
consumo.

Configurada a responsabilidade objetiva para a Caixa Econômica Federal,


opera-se de imediato a inversão do ônus da prova para esta, que poderá eximir-se da
obrigação, se comprovar, segundo o art. 14 § 3º, do CDC, que, prestando o serviço, não
houve defeito, ou que a culpa foi exclusiva do consumidor ou de terceiro, sendo tal
presunção de culpa juris tantum.

E no que tange a força maior, dispensa-se maiores comentários, fronte sua


total existência no caso sub judice. Bem como, o caso fortuito, pois se sabe que, os
roubos e furtos são fatos, sem a menor dúvida, previsíveis, ainda mais, para a
instituição do porte da requerida.

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Não bastassem os preceitos legais acima demonstrarem o dever da Caixa
Econômica Federal em indenizar as joias roubadas pelo valor de mercado, também as
normas atinentes ao penhor deixam evidente esta obrigação, e vejamos por que:

O Código Civil, no que diz respeito ao penhor, estabelece:

“Art. 774 – O credor pignoratício é obrigado, como


depositário:

I – a empregar na guarda do penhor a diligência exigida


pela natureza da coisa;

(...)

IV – a ressarcir ao dono a perda ou deterioração, de que


for culpado.”

Comentando o referido preceito, leciona San Thiago Dantas:

“entre os deveres do credor pignoratício durante a posse


de coisa, avulta ou de custódia. Tem de custodiar a coisa
que lhe foi confiada; é um verdadeiro depositário dela.
Qual, porém, a medida da diligência que empregar na
custódia da coisa? O Código adotou para isso um estudo
concreto e determinou que deve ser a diligência exigida
pela sua natureza. O Juiz, ao apreciar,portanto, a culpa do
credor pignoratício, deve indagar quais os cuidados que a
coisa, pela sua natureza, exigia. E se o credor faltou com
esses cuidados, daí advindo algum dano à coisa, é
responsável, estando caracterizada sua culpa in concreto
e, por conseguinte, porem ser ele havidas perdas e danos.
Aí note-se o outro dever que se atribui ao credor
pignoratício: o de reparar os prejuízos a que der causa; o
de compor as indenizações justificadas pelos danosa que

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a sua culpa tenha dado lugar” (San Thiago Dantas,
Programa de Direito Civil III, Editora Rio, 2ª Edição, pág.
397).

Ante o total descuido da Requerida em zelar pelos bens sob sua guarda, os
tribunais se manifestram que deve ser responsabilizada a ressarcir os consumidores no
valor do mercado de seus bens, e, neste sentido:

PROCESSO CIVIL: AGRAVO LEGAL, ARTIGO 557 DO CPC.


DECISÃO TERMINATIVA. ROUBO DE JOIAS OBJETO DE
PENHOR. INDENIZAÇÃO. PERÍCIA. AVALIAÇÃO. VALOR DE
MERCADO. I – O agravo em exame não reúne condições
de acolhimento, visto desafiar decisão que, após
exauriente análise dos elementos constantes dos autos,
alcançou conclusão no sentido do não acolhimento da
insurgência aviada através do recurso interposto contra r.
decisão de primeiro grau. II – A recorrente não trouxe
nenhum elemento capaz de ensejar a reforma da decisão
guerreada, limitando-se a mera reiteração do quanto
afirmado na petição inicial. Na verdade, a agravante
busca reabrir discussão sobre a questão demérito, não
atacando os fundamentos da decisão, lastreada e
jurisprudência dominante. III – Considerando que as joias
pertencentes aos autores foram objeto de roubo - o que
por si só, impossibilita a perícia direta sobre tais bens –
observa-se que o perito judicial utilizou-se de critério
coerente e imparcial para se apurar o valor aproximado
das mesmas. Valeu-se de joias dadas em garantia em
contratos análogos a firmado pelos agravados para tecer
um comparativo entre o valor real de mercado das
mesmas e o valor da avaliação realizada unilateralmente
pela CEF, ocasião na qual se apurou um deságio, em

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média, de 80% (oitenta por cento) entre a avaliação
realizada pela instituição financeira e o preço do mercado
do bem. Tal critério, portanto, denota cautela, coerência e
imparcialidade, na havendo que se falar em equívoco, e,
muito menos, em superavaliação das jóias em questão. IV
– Não restou demonstrado que o perito incluiu em sua
avaliação valores referentes a impostos, taxas ou lucro do
fabricante, alegação que, por conseguinte, deve ser
rechaçada. V – Tanto o perito, quanto o contador judicial,
são auxiliares do Juízo, detentores de fé pública,
equidistantes dos interesses das partes e sem qualquer
relação com o feito, presumindo-se a veracidade de seus
cálculos. VI – Mesmo que o julgador não esteja vinculado
ao laudo pericial, tal questão depende da análise da
prova existente nos autos, por abranger critérios técnicos
e coplexos, motivo pelo qual devem ser devidamente
analisadas as considerações feitas pelo perito judicial.
Dessa forma,o parecer do perito deve ser considerado
pelo magistrado na formação de seu convencimento,
considerando, inclusive, que o referido profissional goza
de fé publica. VII – Agravo improvido...

RESPONSABILIDADE CIVIL. DANO MATERIAL. DANO


MORAL, PENHOR. ROUBO DE JÓIAS. VALOR OFERECIDO
ABAIXO DO VALOR DE MERCADO, ABUSIVIDADE. VALOR
SENTIMENTAL. INDENIZAÇÃO DEVIDA. – A cláusula
contratual que, no caso de roubo ou furto de jóias
colocadas em penhor, estabelece indenização abaixo d
valor de mercado, é nula de pleno direito, nos termos do
artigo 52, I, do CDC – O apego sentimental às jóias é
natural e compreensível. No caso, não havia vontade de
alienação de tais bens”. (TRF 4, AC 2007.70.00.004279-9.

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Quarta Turma, relator Márcio Antonio Rocha, D.E.
21/01/2008).

CIVIL E PROCESSUAL CIVIL. IMPOSSBILIDADE JURÍDICA DO


PEDIDO: PRELIMINAR AFASTADA. ROUBO DE JÓIAS
OBJETO DE CNTRATO DE PENHOR. RESPONSABILIDADE
CIVIL CEF. INDENIZAÇÃO, CABIMENTO. VALOR DE
MERCADO DAS JÓIAS. A obrigação da CEF de indenizar os
mutuários de contrato de penhor que tiveram suas jóias
roubadas decorre de cláusula contratual específica, não
podendo ser afastada sob a alegação de caso fortuito ou
motivo de força maior (CC/1916, art. 1058), mesmo
porque é plenamente previsível a ocorrência de assaltos
em instituições bancárias. É juridicamente possível o
pedido que visa a averiguação do valor comercial das
jóias roubadas, o qual deverá ser apurado em eventual
execução de sentença. Preliminar rejeitada. A
jurisprudência está pacificada na diretriz de que o
Código de Defesa do Consumidor, aplica-se aos
contratos bancários, tendo em vista que atividades
desenvolvidas pelos bancos são consideradas como
prestação de serviço, a teor do art. 3º, § 2º da Lei
8.070/90. Precedentes do STJ. É nula cláusula contratual
que prevê indenização correspondente a 1,5 (um inteiro
e cinco décimos) vez o valor da avaliação da joia, e caso
de roubo, dada sua abusividade em face do Código d e
Defesa do Consumidor. A indenização justa deve levar e
consideração o valor de mercado do bem, a ser apurado
em liquidação de sentença, por arbitramento.
Precedentes do Tribunal. Apelação da CEF improvida”
(TRF 1, AC 2005.36.00.00.003422-0/MT, Rel. Des. Federal

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Fagundes de Deus, Quinta Turma, DJ de 22/03/2007, pag.
69)

Assim, com fulcro no art. 14do CDC e 774 do Código Civil, bem como, na melhor
jurisprudência, há para a Requerida – Caixa Econômica Federal – o dever de indenizar a
Requerente pelos danos Materiais, ou seja, pelos bens perdidos, porém pelo valor de
mercado e não com base na avaliação feita na celebração contratual, uma vez que,
exaustivamente pontuando tratar-se de valor irrisório.

Nesse sentido, como explicitado na media cautela número 2000.61.11.002335-


4, interposta pelo Ministério Público em caso análogo, destaca-se:

“Ainda, sabe-se que os valores das avaliações da Caixa sã


irrisórias, de acordo com a prova pré-constituída, que fora
utilizada, em ações individuais propostas contra a Caixa
Econômica Federal em face de roubo ocorrido em sua
agência Augusta, em São Paulo, corresponde a
aproximadamente 12% (doze pro cento) do valor do
mercado das jóias”.

Tanto esse baixíssimo percentual, como a afirmação do Ministério Público


supra colacionada, estão de acordo com a prova pericial realizada em processo
assemelhado, também ajuizado contra a CEF para indenização de danos havidos como
extravio de joias sob sua guarda por força de contratos de penhor, no âmbito da ação
ordinária número 2001.61.006078-6, que tramitou perante a 13ª Vara Federal da
Capital –SP, concluiu, ipsis literis

“Após avaliarmos quase uma centena de jóias,


posteriormente colocadas n penhor da CEF, através da
avaliação de pelo menos 6 diferentes funcionários-
avaliadores daquela instituição, podemos estabelecer um
parâmetro confiável, sem qualquer receio de engano ou
erro, de que a Caixa Econômica Federal avalia as jóias que
penhora entre 10 e 14% (dez e quatorze por cento)

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quando há predomínio de ouro nas peças entre 8 e 12%
(oito e doze por cento) para as jóias onde predominam
pedras de qualquer natureza. No quesito diamantes
(brilhantes) a avaliação da CEF é muito mais
conservadora chegando, de acordo com nosso
testemunho, a penhorar peças por até 5% (cinco por
cento) do seu valor de mercado.

Ao fim do nosso trabalho resolvemos conversar com um


avaliador da CEF para sabermos o porquê de tão baixa
avaliação para peças com nítido trabalho de alta
ourivesaria. Este senhor nos informou que se as peças não
forem resgatadas, a instituição as coloca em leilão e
nesse os valores auferidos são muito baixos, não podendo
a Caixa correr o risco na operação. Esta foi a explicação
dada como justificativa para os valores tão diversos entre
os de mercado e aqueles atribuídos por ela.
Resumidamente, pudemos concluir que a Caixa
Econômica Federal avalia as jóias a ela penhoradas entre
8% (oito por cento) e 14¢ (quatorze por cento) de seu
valor de mercado. São Paulo, 08 de abril de 2002. Ricardo
Francesconi, geólogo – gemólogo” (doc. Anexo)

Assim, tendo em vista que no caso de roubo a Caixa Econômica Federal


indeniza os proprietários da joia em 1,5 (um inteiro e cinco décimos), evidencia-se o
prejuízo da Requerente – que sempre adimpliu as obrigações contraídas, para se ver
lesada com o inadimplemento da Requerida em sua única obrigação concernente ao
penhor, que era o de manter a incolumidade das peças, jamais foi sua intenção
desfazer-se delas, ou então, por óbvio, não as teria empenhado, mas sim as venderia,
certamente com resultado financeiro superior.

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Caso, a Requerida julgue indevidos os valores pleiteados a título de indenização
Material, que apresente provas documentais a respeito do valor de mercado das
referidas joias, as quais estavam sob sua custódia.

Diante do exposto, a Caixa Econômica Federal deverá ser condenada a pagar


indenização por danos materiais correspondentes ao valor de mercado destas joias,
calculando com base nos parâmetros acima demonstrados, bem como os seus
acréscimos legais, apurando-se igualmente os valores que a Requerida recebeu da
Requerente no contrato em questão, para sua respectiva dedução.

DO DANO MORAL

Conforme exposto anteriormente, os referidos bens se tratavam também de


bens de família, motivos pelos quais, possuíam valor sentimental incalculável, todavia,
em função do evidente descaso da Requerida, estarão perdidos para sempre. Fato que
causou grande abalo psicológico na Requerente, vez que, não tinha nenhuma intenção
de se desfazer dos bens.

Portanto, não bastasse a esfera patrimonial atingida, a atitude negligente e


culposa da Requerida alcançou à vida íntima da Requerente, pois de uma hora para a
outra se viu, por culpa exclusiva da Requerida, impossibilitada de retomar seus
estimados bens.

Tal impossibilidade lhe trouxera grande tristeza, lhe tomando a tranquilidade e


a harmonia de seu cotidiano, sendo este prejuízo facilmente percebido como dano
moral.

E nem por mera alegação, pode-se dizer se tratar de um dissabor comezinho da


vida, já que, eram bens de valor sentimental já que especialmente escolhidas e
adquiridas por ela própria, representativas do esforço das conquistas ao longo de sua
vida profissional e pessoal.

De qualquer modo, eram peças que faziam parte de sua história, e haveriam de
ser herdadas por sua filha, já que repita-se, nunca teve a intenção de se desfazer, e

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que a esperança de as recuperar se desvaneceu por única e exclusiva culpa da
indigência da Requerida na guarda das joias.

De modo que a requerente deve ser amplamente recompensada, além de


danos materiais, também pelo dano moral sofrido, como forma de minorar a decepção
e a dor emocional com a perda de bens com alta carga de afetividade.

O Código Civil, em seu art. 186, assegura que aquele que agir com negligência,
e causar dano a outrem, ainda que exclusivamente moral, comete ato ilícito, in verbis:

“Art.186. Aquele que, por ação ou omissão voluntária,


negligência ou imprudência violar direito e causar dano a
outrem, ainda que exclusivamente moral, comete ato
ilícito”.

Ainda, o referido código demonstra que aquele que causar dano a outrem, por
ato ilícito, tem a responsabilidade de repará-lo, conforme art. 927, com segue:

“Art.927. Aquele que, por ato ilícito (art. 186 e 187),


causar dano a outrem, fica obrigado a repará-lo.

Parágrafo único. Haverá obrigação de reparar o dano


independentemente de culpa, nos casos especificados em
lei, ou quando a atividade normalmente desenvolvida
pelo autor do dano implicar, por sua natureza, risco para
os direitos de outrem.

Diante da leitura destes artigos, verifica-se que a Requerida deve ser


responsabilizada pela sua negligência, devendo ressarcir a requerente pelos morais
que enfrentou pela perda de seus bens.

Ainda, é notória a responsabilidade objetiva da Requerida, pois independe de


seu grau de culpabilidade, fronte o defeito relativo a prestação dos serviços, quais
sejam, manter em segurança os bens sob custódia.

Nestes termos, o art. 14 do CDC:

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“Art. 14 O fornecedor de serviços responde,
independentemente da existência de culpa,pela
reparação dos danos causados aos consumidores por
defeitos relativos a prestação dos serviços, bem como por
informações insuficientes ou inadequadas sobre fruição e
riscos.

§1º O serviço é defeituoso quando não fornece a


segurança que o consumidor dele pode esperar, levando-
se em consideração as circunstâncias relevantes,entre as
quais”. (g.n.)

(...)

Enfatizando este posicionamento, segue decisão recente a caso análogo:

“DIREITO CIVIL. ROUBO EM AGÊNCIA DA CEF. EXTRAVIO


DE JOIAS DADAS EM PENHOR. NULIDADE DA SENTENÇA.
INOCORRÊNCIA. RELAÇÃO DE CNSUMO. PRESENTES OS
REQUISITOS PARA INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA.
CABIMENTODA INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS E
MATERIAIS. Apelação parcialmente provida”. (TRF 4, AC
2007.70.00.002228-4, Terceira Turma, relator Carlos
Eduardo Thompson Flores Lenz, D. E. 18/02/2009)

Por fim, mas não menos importante, mesmo o col. SUPERIOR TRIBUNAL DA
JUSTIÇA tem pacificado o entendimento tanto pelo afastamento da cláusula de
limitação de indenização, por sua flagrante abusividade, como no sentido da
indenização plena dos danos morais sofridos, como decorrência tanto da expectativa
de recuperação das joias.

Conforme as ementas, in verbis:

“DIREITO CIVIL. PENHOR. DANOSMORAIS EMATERIAIS.


ROUBO/FURTO DE JÓIAS EMPENHADAS. CONTRATO DE
SEGURO. DIREIT DO CONSUMIDOR. LIMITAÇÃO DA
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RESPONSABILIDADE DO FORNECEDOR. CLÁUSULA
ABUSIVA. AUSÊNCIA DE INDÍCIO DE FRAUDE POR PARTE
DA DEPOSITANTE.i – O contrato de penhor traz embutido
o de depósito do bem e, por conseguinte, a obrigação
acessória do credor pignoratício de devolver esse bem
após o pagamento do mútuo. II – Nos termos do artigo
51, I, da Lei 8.079/90., são abusivas e, portanto,nulas, as
cláusulas que de alguma forma exonerem ou atenuem a
responsabilidade do fornecedor por vícios no
fornecimento do produto ou do serviço, mesmo que o
consumidor as tenha pactuado livre e conscientemente.
III – Inexistente o menor indício de alegação de fraude u
abusividade de valores por parte da depositante,
reconhece-se o dever de ressarcimento integral pelos
prejuízos morais e materiais experimentados ela falha na
prestação do serviço. IV – Na hipótese dos autos ,em que
o credor pignoratício é um banco, não é possível admitir
o furto ou o roubo como causas excludentes do dever de
indenizar. Há de se levar em conta a natureza específica
da empresa explorada pela instituição financeira, de
modo a considerar esse tipo de evento, como um
fortuito interno, inerente à própria atividade, incapaz de
afastar, portanto,a responsabilidade do depositário.
Recurso Especial provido.”(REsp 1.133.111/PR, Rel.
Ministro Sidnei Beneti, Terceira Turma, julgado em
06/10/2009, DJe 05/11/2009) (g.n.)

“CIVIL E CONSUMIDOR. RECURSO ESPECIAL. CNTRATO DE


PENHOR. JOIAS. FURTO. FORTUITO INTERNO.
RECONHECIMENTO DE ABUSO DE CLÁUSULA
CONTRATUAL QUE LIMITA O VALOR DA INDENIZAÇÃO EM
FACE DO EXTRAVIO DOS BENS EMPENHADOS. VIOLAÇÃO

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AO ART. 51, I, DO CDC. OCORRÊNCIA DE
DANOSMATERIAIS EMORAIS. RECURSO ESPECIAL
PROVIDO. 1. No contrato de penhor é notória a
hipossuficiência d consumidor,pois este, necessitando de
empréstimo, apenas adere a um contrato cujas cláusulas
são inegociáveis, submetendo-se à avaliação unilateral
realizada pela instituição financeira. Nesse contexto,
deve-se reconhecer a violação ao art. 51, I,do CDC,pois
mostra-se abusiva a cláusula contratual que limita, em
uma vez e meia o valor da avaliação, a indenização
devida no caso de extravio, furto ou roubo das joias que
deveriam estar sob a segura guarda da recorrida. 2. O
consumidor que opta pelo penhor assim o faz
pretendendo receber o bem de volta,e, para tanto,
confia que o mutuante o guardará pelo prazo ajustado.
Se a joia empenhada fosse para o proprietário um bem
qualquer, sem valor sentimental, provavelmente o
consumidor optaria pela venda da joia, pois,
certamente, obteria um valo maior. 3. Anulada a
cláusula que limita o valor da indenização,o quantum a
título de danos materiais e morais deve ser estabelecido
conforme as peculiaridades do caso, sempre com
observância dos princípios da razoabilidade e da
proporcionalidade. 4. Recurso especial provido.” (REsp.
1.155.395/PR, Rel. Ministro RAUL ARAÚJO, Quarta Turma,
julgado em 01/10/2013, DJe 29/10/2013) (g.n.)

“RECURSO ESPECIAL. CONTRATO D EDPENHOR. JOIAS.


ROUBO. CLÁUSULA CONTRATUAL. LIMITAÇÃO DO VALOR
INDENIZATÓRIO. ABUSIVIDADE. RECONHECIMENTO.
CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR. VIOLAÇÃO. 1. a
orientação pacífica do Superior Tribunal de Justiça

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reconhece a submissão das instituições financeiras
princípios e às regras do Código de Defesa do Consumidor.
2. Tendo ocorrido o roubo das joias empenhadas, a
Caixa Econômica Federal deve indenizar a recorrente por
danos materiais. 3. A cláusula contratual que restringiu
a responsabilidade da CEF a 1,5 (um inteiro e cinco
décimos)vez o valor de avaliação das joias empenhadas
deve ser considerada abusiva, por força do artigo 51, I,
da Lei nº 8.078/1990. Precedentes do STJ. 4. Não há
como conhecer da insurgência quanto à indenização por
danos morais, haja vista a ausência de demonstração do
dissídio jurisprudencial nos moldes legais. 5. Recurso
especial parcialmente provido.” (REsp 1.227.909/PR, Rel.
Ministro RICARDO VILLAS BÔAS CUEVA, TERCEIRA
TURMA, julgado em 15/09/2015, DJe 23/09/2015) (g.n.)

Portanto, percebe-se que o dano moral tem sido amplamente concedido nos
tribunais estaduais e superiores, e ainda, que tem parâmetros no caso em tela, para
que a requerente seja ressarcida pelos abalos psicológicos que enfrentou diante a
perda de seus bens, que deve ser enfatizado por total descuido da requerida.

E mais, qualquer subtração fraudulenta do patrimônio de alguém é causa


suficiente a ensejar consternações, ainda mais quando se trata de joias, que possuem
valor sentimental.

DA INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA

Por se tratar de uma evidente relação de consumo, consubstanciada por


contrato de adesão, é perceptível a disparidade entre as partes, tal desequilíbrio é
fartamente combatido pela doutrina e jurisprudência. E se não bastasse, também na
interpretação do Código de Defesa do Consumidor, que nas palavras de Mirella
D’Angelo Caldeira, se transcreve:

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“A teologia do Código é garantir a todos os consumidores,
dentre outros direitos,o do amplo acesso à justiça,
conferindo-lhes uma tutela jurisdicional efetiva e
adequada”. “Desse modo, a inversão do ônus da prova
visa auxiliar aquele que não tem condições sequer de
dialogar com o fornecedor,pois não entende ou nada sabe
sobre o produto, não tendo subsídios para realizar as
provas que comprove seu direito” (grifamos) CALDEIRA,
Mirella D’Angelo. Inversão do ônus da prova – RT nº
38/ano 10, p.173.)

De igual modo, demonstrada a responsabilidade objetiva da Caixa Econômica


Federal, sendo verossímil a alegação e diante da hipossuficiência dos consumidores,
deverá ser determinada a inversão do ônus da prova, nos termos do art. 6, inciso VII,
do Código de Defesa do Consumidor, Consistindo a inversão no acolhimento da
avaliação judicial das peças elencadas nesta peça, exceto se a requerida produzir prova
em sentido contrário ou que a invalide.

DO PEDIDO DE TUTELA DE EVIDÊNCIA

Independentemente de qualquer consideração a respeito do direito à plena


indenização, tanto dos danos patrimoniais, é fato extreme de qualquer dúvida que a
Requerida tem assumido publicamente a responsabilidade pelo roubo, que é objetiva;
e inclusive já convocou todas as vítimas – assim entendido os contraentes dos
contratos de mútuo com garantia pignoratícia – oferecendo-lhes o pagamento
imediato da indenização prevista no contrato (ou seja, a cláusula inquinada de
abusividade;) acrescendo ainda à malícia de sua conduta a exigência da outorga de
recibo com ampla quitação e renúncia de direitos.

Essa mesma proposta foi apresentada à Requerente, a qual expressamente


recusada, não apenas por se tratar de valor ínfimo, mas também pela absurda e
abusiva exigência de quitação plena.

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Em todo caso, em se tratando de direito autoevidente, decorrente de cláusula
contratual de adesão, imposta pela Requerida a todos os mutuantes na mesma
situação, não é correto e muito menos justo ter que guardar o encerramento do
processo com trânsito em julgado de decisão condenatória, e ainda posterior
liquidação (se for o caso), para receber o valor objeto dessa proposta, que se
caracteriza como o mínimo contratual, em pedido cuja procedência é inafastável.

Trata-se de hipótese fática que subsume perfeitamente ao texto do artigo 311,


inciso IV, do Código de Processo Civil, que permite a tutela de evidência em caos tais,
ipsis litteris:

“Art. 311. A tutela da evidência será concedida,


independentemente da demonstração de perigo de dano
ou de risco ao resultado útil do processo, quando:

I – ficar caracterizado o abuso do direito de defesa ou o


manifesto propósito protelatório d aparte;

II – as alegações de fato puderem ser comprovadas


apenas documentalmente e houver tese firmada em
julgamento de casos repetitivos ou em súmula vinculante;

III – se tratar de pedido reipersecutório fundado em prova


documental adequada do contrato de depósito, caso em
que será decretada a ordem de entrega do objeto
custodiado, sob cominação de multa;

IV – a petição inicial for instruída com prova documental


suficiente dos fatos constitutivos do direito do autor, a
que o réu não oponha prova capaz de gerar dúvida
razoável.” (g.n.)

Não há nenhum óbice em conceder a tutela de evidência em pedidos com


fundo patrimonial ou indenizatória; na verdade, esse é reconhecidamente o maior
mérito dessa técnica processual, como tem sido identificado pela doutrina. Nesse
sentido, o preceito de Luiz Guilherme Marinoni:
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“Trata-se, portanto, de uma importante técnica
processual voltada à atípica concretização do princípio da
igualdade e da paridade de armas entre os litigantes (art.
5º, I, da CF/1988, e 7º do CPC) – destinada, portanto a
colocar em evidência o lado oculto do processo, aquele
que não pode ser visto pelo processualista que olha
apenas parao plano normativo: o fato de que a
resistência indevida no processo pode ser fonte de
vantagens econômicas para quem por detrás dela se
esconde, mormente quando o autor depende
economicamente do bem da vida, hipótese em que o
desprezo pelo tempo do processo e o conseguinte
fortalecimento da posição do réu acentua a
desigualdade entre as partes, transformando o princípio
da igualdade em uma abstração irritante”. ( MARINONI,
Luiz Guilherme, Novo Curso de Processo Civil: tutela dos
direitos mediante procedimento comum, volume II. São
Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2015, p. 201;
negritamos).

“[O dispositivo legal] deve ser lido como uma regra


aberta que permite a antecipação da tutela sem
urgência em toda e qualquer situação em que a defesa
do réu se mostre frágil diante da robustez dos
argumentos do autor – e da prova or ele produzida – na
petição inicial. Em suma: toda vez que houver
apresentação de defesa inconsistente.” (MARINONI, Luiz
Guilherme. Novo Curso de Processo Civil: tutela dos
direitos mediante procedimento comum, volume III. São
Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2015, p. 201;
negritamos).

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“A probabilidade d direito que autoriza o emprego da
técnica antecipatória para a tutela de direitos é a
probabilidade lógica - que é aquela que surge da
confrontação das alegações e das provas com os
elementos disponíveis nos autos,sendo provável a
hipótese que entra maior grau de confirmação e menor
grau de refutação nesses elementos. O Juiz tem que se
convencer de que o direito é provável para conceder a
“tutela provisória”. (MARINONI, Luiz Guilherme. Novo
Curso de Processo Civil: tutela dos direitos mediante
procedimento comum, volume II. São Paulo: Editora
Revista dos Tribunais, 2015, p.203).

Em suma, a fim de evitar que a demora natural da ação indenizatória venha a


prejudicar ainda mais a Requerente, postergando o recebimento do mínimo
contratual, pede-se seja concedida a tutela de evidência a fim de determinar à
Requerida o pagamento imediato do referido mínimo contratual, correspondente a de
1,5 vezes o valor da avaliação, deduzido o valor do mútuo, com a atualização
monetária contratual.

II – DO PEDIDO

Ante o exposto requer, digne-se Vossa Excelência a receber o presente, com os


documentos que a instruem, autuando e processando, bem como lhe seja deferida a
tutela de evidência, já que a documentação apresentada não opõe dúvidas e assim:

Seja determinada a citação da Requerida para os termos da presente;

Seja deferida a inversão do ônus da prova, nos termos do art. 6º, inciso VII, do
Código de Defesa do Consumidor, diante da responsabilidade objetiva da Requerida,
sendo verossímil a alegação deduzida e em face da hipossufiência da consumidora.

Tudo para o fim de julgar TOTALMENTE PROCEDENTE a ação e:

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(i) Declarar nulidade da cláusula que limita a indenização nos casos de perda
ou extravio de garantia, na proporção de 1,5 (um inteiro e cinco décimos)
do valor da avaliação;
(ii) Condenar a Requerida, a pagar indenização material correspondente ao
valor de marcado dos bens citados, calculados com base nos parâmetros a
serem estipulados em perícia judicial, ou se dessa forma não entender, que
seja calculada por arbitramento;
(iii) Condenar a Requerida a indenizar a Requerente por danos morais por
arbitramento, consoante determina a legislação vigente, rogando que não
seja inferior a 50% do valor estipulado em condenação;
(iv) E em pedido subsidiário, condenar, ao menos, a Requerida ao pagamento
do mínimo contratual, objeto do pedido de tutela de evidência;

Ao final, que haja a condenação da Requerida no pagamento das custas e despesas


processuais, além dos honorários de sucumbência em 20% (vinte por cento) sobre o
valor da condenação, os quais nos termos do art. 85, § 2º do CPC.

Protesta pela produção de todos os meios de prova em direito admitidos, e em


especial, a juntada de novos documentos hábeis a provar a veracidade dos fatos
alegados, sem exceção. A produção de prova pericial a ser suportada pela Requerida –
sob pena de culpa presumida – reservando a Requerente o direito de informar
Assistente Técnico se achar necessário, consoante determinação legal já exposta.

Dá-se à causa, o valor de R$ 9.477,50 (nove mil quatrocentos e setenta e sete Reais
e cinqüenta centavos)

Nestes termos

Pede Deferimento.

Rio Claro, SP, 08 de janeiro de 2.109.

CARLOS HENRIQUE DE CASTRO TOLOSA DE SOUZA CAMPOS


OAB/SP 337.545

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