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CAPÍTULO 35

Discussões doutrinárias
e dissidência

Por longo tempo, os dirigentes deno- cias ou ensinamentos dos quais a salvação
iacionais têm tido uma atitude ambí- pessoal não depende diretamente.
gua para com as novas interpretações te- Um fator importante que contribuiu
ológicas e proféticas. Ao mesmo tempo. para as discussões doutrinárias foram as
entre eles tem havido o temor de adotar diferentes visões sobre a interpretação li-
um credo formal, o qual, com efeito, os teral da Bíblia, como sustentavam os ad-
encerraria em posições fixas. Eles têm ventistas preeminentes. Alguns dirigentes
procurado manter a porta aberta para também viam o corpo doutrinário adven- 607
aceitar uma nova verdade, se certamente fista como mais próximo de urna forma
ela for bíblica. Com êxito variado, os diri- permanente do que outros. Durante os
{gentes da igreja têm exercido uma cautela primeiros anos do século 20, W. W Pres-
deliberada para equilibrar os externos de cott deu as boas-vindas ao debate c dis-
uma abertura completa, por um lado, e se aos seus irmãos que se não existissem
de posições inamovíveis, por outro. diferenças de opinião, a igreja deixaria de
Ante a ausência de um credo, ainda avançar. A. G. Daniells reconhecia a ne-
se necessitava definir as crenças funda- cessidade de discutir pontos de vista diver-
mentais. A história adventista tem mos- gentes, mas temia que muitos dirigentes e
k trado que a unanimidade em cada_ponto , professores adventistas ficassem confusos
' de interpretação bíblica não era nossível, ! I e desanimados por causa das interpreta-
ções discordantes. A recordação do con-
bre crenças fundamentais era essencial. C) flito desencadeado pelas apresentações
desacordo não só consistia em desviar-se acaloradas de Waggoner e Jones sobre
abertattente de um ensinamento aceito; justificação pela fé na Assembléia da As-
às vezes, ele também era um desvio emo: sociação Geral de 1888, ainda estava de-
cional, o resultado de uma intensa argu- masiadamente vívida para estimular uma
mentação. A história adventista também troca de idéias totalmente aberta.
mostra que os dirigentes da igreja têm sido A história doutrinária adventista
menos flexíveis com respeito aos ensinos ractetizou-se por debates cautelosos, um
distintivos da denominação, do que sobre estudo teológico contínuo e a dolorosa
os detalhes mais sutis de algumas profe- tarefa de lidar com os dissidentes. Em
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nenhum momento, os teólogos deixaram Daniells como Prescott apelaram a todos


de estudar a Bíblia, mas às vezes diferiam os participantes do debate para enfatiza-
entre si. Embora a dissidência e a apos- rem a justificação pela fé, não importan-
tasia sempre fossem possíveis, muitas Li- do o que eles pensassem sitie Paulo que-
guras de destaque puderam divulgar seus t4.tia dizer por sua figura de linguagem.
pontos de vista sem prejudicar a igreja R1( 105 Surgiu outro debate em relação à
interferir em sua missão. g'sic464 doutrina da divindade de Cristo. Des-
P.-
b-11 de a igreja cristã primitiva, os teólogos
Discussões doutrinárias '9Y haviam achado necessário reafirmar a
haviam
t."217" Um exemplo de prolongadas diferen- crença de Jesus como coeterno com o
A) ; ças doutrinárias foi o desacordo de Uriah Pai. Apesar dessa longa tradição, uma
Smith com Waggoner e Tones sobre a tradição teológica diferente, igualmente
by --1 interpretação do termo "lei" que Paulo extensa, havia sustentado que de algu-
usa em Gaiatas 3:24-25. Nessa passagem, ma maneira não plenamente entendida,
o apóstolo compara a lei com um aio Cristo não era coeterno ou co-igual ao
ou pedagogo que nos conduz a Cristo, Pai. Traços desses pontos de vista semi-
não sendo mais necessário depois que arianos persistiam no arlve.ntismn Cal -
veio a fé. Smith argumentava obstinada- vin P. Bollman editor associado da Re-
mente que essa lei era a lei cerimonial do view, duvidava da coeternidade de Cristo.
sistema levítico e que não incluía os dez W. T. Kno, tesoureiro da Associação
mandamentos. Esse ponto de vista, disse Geral, e L. L. Caviness, outro editor
608 ele, era a opinião adventista estabelecida, associado da Revim, também tinham re-
Waggoner e Jones ensinavam que Paulo servas acerca da doutrina da Trindade.
estava se referindo ao conceito de lega- Prescott se lhes opôs firmemente,
lismo. O fato de que Ellen G. White pa- como fez H. Canulen I- iarey professor de
recia simpatizar com Waggoner e Jones Bíblia no Washington Missionary College,
não dissuadiu Smith, embora por algum ambos replicando que a Divindade não
tempo ele fizesse objeções, negando que podia ser Divindade sem eternidade. Ar-
sua posição fosse prejudicial à doutrina gurnentavam que as palavras "Pai" e 'Ti-
básica da justificação pela fé. lho" eram simples termos humanos para
Smith morreu em 1903, mas outros ajudar os seres humanos a compreender a
teólogos continuaram depois dele e ex- Divindade e não deveriam ' ser interpreta-
pressaram suas interpretações discrepan- dos como indicando que, de alguma for-
tes; os mais firmes partidários do ponto ma, Cristo veio à existência pela vontade
de vista de Smith afirmavam que, de fato, do Pai. Outros, como j..15fl editor do
a interpretação de Waggoner e Jones de- o Signs of the Times, aconselhavam os teólo-
bilitava a importância do sábado como 1.1 gos a não discutir o assunto.
..M
uma parte obrigatória dos dez manda- •x- Surgiu uma discussão muito mais aca-
mentos. O mesmo fato. de que alguns 'f lotada acerca do termo "diário" [contí-
teólogos pudessem promover a interpre- nuo] de Daniel 8:11-13 e 11:31, onde o
tação mais ampla da "lei" em Gaiatas e profeta se refere ao sacrifício diário e sua
continuar apoiando a validade imutável remoção do santuário. A passagem de
dos dez mandamentos deixava a porta Daniel 8 era parte da profecia dos 2.300
aberta para diferenças legítimas. Tanto dias que havia figurado preeminentemen-
_À .
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te na pregação de Guilherme Miller e de. de 'Miller e Smith. A tentativa de conso-


outros ministros adventistas dos primór- lidar sua posição com citatiies lin Urro.
dios, e se relacionava grandemente com Primeiros Escritos de Ellen G. Whiteppertas
a crença no rptorno de Cristo e do juízo. suscitou uma repreensão da parte ria ro
Miller conectou o "diário" de Daniel 8 White para não usarem os seus eseritna a
com a Roma pagã. Alguns pregadores fim de resolver a discussão,Yla negou co-
mileritas discordavam, mas estavam uni- nhecer alguma coisa sobre o diário ou ter
dos na crença de que a data de 1844 as- recebido qualquer instrução sobre isso.
sinalava o fim da profecia dos 2.300 dias. Contudo, o aparente significado de suas
Os adventistas não foram os primeiros a declarações favorecia o ponto de vista de
debater o assunto. Uma corrente de opi- Miller e Smith. Ela procurou esclarecer
nião pré-milerita designava um significa- sua posição declarando que suas obser-
do literal ao sacrifício diário, aplicando-ovações anteriores tinham o propósito de
ao sistema sacrificial dos judeus. Desde os dar validade à profecia dos 2.300 dias,
tempos da Reforma, muitos pensadores não definir o diário. Depois da sua morte,
protestantes viram o diário simbolica- Prescott resumiu o debate ao sugerir que
mente, uma corrupção do cristianismo Ellen G. White também estava dissuadin-
pelo papado ou os muçulmanos. do a idéia de marcar data. at•
O Grande Desapontamento fez com
que se reexaminasse o assunto, em grande
medida pelo desejo de validar a profecia
Como os outros debates, as discussões
sobre o diário se aquietaram, mas ocupou
o seu lugar uma interpretação profética o o°
et
„,.' 74,0

dos 2.300 dias. Tanto Tiago White como amplamente conhecida como a "questão 609
José Bates chegaram à conclusão de que oriental". As frases específicas sob consi-
as datas de 457 a.C. e 1844 d.C. eram fi- deração eram "o tempo do fim" em Da-
xas, mas a definição do diário continuou niel 11:35 e o "rei do norte", que chega
a desconcertar os teólogos adventistas. G ao seu fim sem que ninguém o socorra,
R.L. Crosier ensinava que o diário apon- como é descrito no versículo 45 do mes-
tava para a morte substitutiva de Cristo, mo capítulo. Novamente, foi Uriah Smith
um ponto de vista que despertou uma res- quem montou o cenário para o debate,
posta negativa de Tiago White, José Bates declarando que o tempo do fim come-
e J. N. Andrews. Uriah Smith, reconheci- çou em 1798, quando o exército francês
do como o principal expositor profético aprisionou o papa. O rei do norte era a
entre os adventistas, discordou da inter- Turquia, cujo desaparecimento era men-
pretação de Crosier com urna explanação cionado em Daniel 11:45; a profecia era
detalhada em seu livro Thoughts ou Daniel. uma predição da expulsão desse país da
L. R. Conradi reavivou o debate no Europa e o estabelecimento de sua capital
início do século 20 ao publicar seu ponto em Jerusalém. O ponto critico da exposi-
de vista de que o diário era uma referencia ção de Smith repousava sobre a afirmação
simbólica ao ministério de Cristo como de que a retirada da Turquia da Europa
sumo sacerdote no santuário celestial. seria um sinal de que o retorno de Cristo à
Daniells, Prescott e Spicer acolheram essa Terra estava prestes a ocorrer.
idéia, mas as águas se turvaram quando A exposição convincente de Smith
S. Hasiarwin prevaleceu por anos entre os adventis-
se uniram para defender a interpretação tas, mas não sem que houvesse alguns .1
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que duvidassem, entre eles Tiago Whitee ráter espiritual, uma parte da luta final do
Posteriormente, A. O. Tait e M. C. Wil- povo de Deus na Terra antes da segunda
ç, da Review, também expressa- vinda de Jesus. Durante a primeira déca-
ram em alta voz sua estranheza com ies- da do século 20, se introduziu nos círcu-
peito às interpretações de Smith. Consi- los adventistas a noção de um conflito
derando o contexto dos versículos sob entre o oriente e o ocidente, o qual se
estudo, Tait pensava que a interrogação tornou uma aplicação aceita da profecia.
era maior do que permitia a explicação Provavelmente, os eventos mundiais
de Smith. Wilcox via a luta decrita pelo contribuíram mais para esse ponto de vis-
profeta Daniel, onde era destruído o rei ta do que a exegese bíblica. Mesmo entre
do norte, como eventos terrestres em os escritores seculares, o Armagedom se
uma fase do conflito espiritual entre as tomou um símbolo do conflito que des-
forças do bem e do mal. fruiria a civilização. Daniells ensinava que
Wilcox publicou seu ponto de vista o Armagedom emergiria da rivalidade
antes da Primeira Guerra Mundial, mas política para controlar o território entre
quando alguns evangelistas adventistas Istambul e o Golfo Pérsico. A ascensão
observaram o papel que a Turquia desem- da Ásia, como se observou no fortaleci-
penhava nesse conflito, se convenceram mento do Japão, no sentimento antioci-
de que Uriah Smith tinha razão. Spicer e dental da China, na crescente tensão entre
Daniells até mesmo publicaram livros a oriente e ocidente, tudo isto inspirou os
respeito. C. M. Sorenson, decano de teo- evangelistas adventistas a concordarem
610 logia do Washington Missionary College, com Daniells de que o Armagedom seria
e C. S. Longrace, secretário de liberdade u_r_ n gjgantesco embate militar nahlestina-
religiosa da Associação Geral, concorda- entre o oriente e o ocidente,
ram com Datúells e Spicer. Mas, os even- .... Durante as décadas de 1930 e 1940, os
tos finais da Primeira Guerra Mundial u- professores de religião dos colégios adven-
não coincidiram com suas antecipações. il >a ) tistas chegaram a admitir dúvidas quanto a
A Turquia se retirou de alguns lugares, ._. essa interpretação. Por volta de 1960, um
mas não da Europa, como Smith havia estudo considerável da Bíblia e dos escritos
o
predito. Novamente, a exposição de Wil- p, de Ellen G. White novamente os levou à
cox ganhou atenção. Tait e Daniells, em ç), posição do século 19 —12Mnagesinse.t.
lados opostos da discussão, finalmente ,‘,1 ria ptinci alainilito:spiiánlal.
concordaram que ninguém ficaria fora do Ainda havia outros assuntos em desa-
Céu pelo fracasso em compreender todos S' corda Aqueles que consideravam que o
esses assuntos. Alguns evangelistas conti- Z ano de 1798 era o começo do "tempo do
.--., nuaram pregando sobre a questão oriental 11. fim" do profeta Daniel eram contrários
até meados do século 20, mas seu lugar no aos que apoiavam a data de 1844. Ainda
(:4 evangelismo adventista se tornou progres- outros preferiam 1793. Provavelmente,
u.) sivamente menos importante. 1798 era a data mais amplamente aceita,
ka
'Ç ....0, O significado d.o Armagedom, ao mas os adventistas não podiam decidir
sc qual se faz referência em Apocalipse o que realmente aconteceu naquele ano
16:16, foi ainda outro detalhe discutido que assinalasse o tempo do fim. Eles in-
da profecia. Os adventistas do século 19 dagavarn se era, de fato, os franceses le-
i comumente viam a batalha como de ca- vando prisioneiro o papa, o governo civil
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05 10 tzeimios Ya aheime...t .
.
do papado chegando ao fim, ou a Igreja 1844 não morreria antes do regresso de
Católica perdendo a autoridade de negar Cristo à Terra. Wilcox advertiu os adven-
a liberdade religiosa na Itália. tistas quanto à futilidade de tais conjec-
Os teólogos também disputavam a turas, ao relembrar-lhes que eles tinham
identificação dos dez reinos de Daniel usado sucessivamente 1790, 1798 e 1833
2. C. P. Bollman rejeitava os hérulos que como o ponto de partida de "esta gera-
Smith incluía, porque esse povo havia de- ção", mas tiveram de abandonar esses
saparecido por volta de 533 d.C., o que, pontos de vista. Prescott também esta-
ele argumentava, foi antes do surgirnen- va em dúvida e insistia no trabalho de
to do papado. Ele oferecia os lombardos cumprir a comissão evangélica em vez
como uma opção melhor. Prescott sa- de especular sobre seu fim.
lientava que se os adventistas aceitassem
a argumentação de Bollman, eles teriam Observações sobre as
dificuldades em culpar o papado pela ten- discussões doutrinárias
tativa de mudar o dia de repouso, o que As discussões doutrinárias dos aclven-
de forma geral se admitia que havia ocor- I nstas durante os mais de 70 anos em segui-
ndo no quarto século. AS "3- C E cA , da a 1844 revelaram mais do que o simples
A identificação das sete cabeças da fato de que nem todos os ministros adven-
besta de Apocalipse 17 produzia listas tistas estavam de acordo. O intercâmbio de
variáveis. Embora houvesse consenso idéias com respeito à divindade de Cristo
geral sobre Babilônia, Medo-Pérsia, Gré- demonstrou diferenças na interpretação li-
cia, Roma e o papado, persistia a incerte- temi da fraseologia bíblica. Alguns dos Pri- 611
za quanto às duas restantes. Como inter- meiros dirigentes adventistas viam a Jesus
pretar o número místico 666 registrado em urna estatura menor do que a do Pai.
em Apocalipse 13:18 continuava sendo Embora houvessem sido relutantes em
um enigma, não obstante a explicação de abandonar sua interpretação literalista de
Uriah Smith. A profecia das sete trombe- termos escriturísticos, no início do sécu-
tas de Apocalipse 8-11 era problemática. lo 20 a maioria deles havia superado essa
Apesar das múltiplas explicações, a una- dificuldade, e se tomou um assunto de
nimidade era indefinida. —Cortodoxia adventista aceitar a Jesus como
Uma lição importante que se extraiu ‘., coeterno com o Pai. Desse modo, o tri-
do Grande Desapontamento tinha sido nitarianismo se tomou um ensino básico
a de evitar fixar uma data para o regresso -) do advenrismo muito mais tarde do que
de Cristo. Ellen G. White foi enfática a i ( outras doutrinas. A essência do assunto ia
-.A
esse respeito. Mas a declaração de Jesus < além da ortodoxia adventista. Sem o ensi-
em Mateus 24:34 de que "não passará ti namento de que Cristo era realmente eter-
esta geração sem que tudo isto aconte- ° no e uma parte da Trindade, dificilmente
ça" promoveu um debate sobre o signi- os adventistas poderiam reivindicar ser
ficado da palavra "geração", e, portanto, uma corporação cristã legítima.
ofereceu uma pista sobre o tempo mais A interpretação literalista da Bíblia
distante possível, quando os seres hu- versus a simbólica também fierava nns
manos teriam de esperar seu retorno. A debates sobre a . ues • • is - , , - • s
armadilha mais comum em que caíam os magedom. Estava em jogo uma diferen-
adventistas era sugerir que a geração de ça fundamental na compreensão bíblica. 1
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Muitas destas questões doutrinárias se' uma melhor apreciação da importância


concentravam em profecias. A própria de compreender por experiência os ensi-
igreja nasceu do estudo das profecias e nos centrais do adventismo, que giravam
não era de surpreender que os primei- em torno da morte expiatória de Crista
ros dirigentes da igreja projetassem uma
longa sombra enquanto seus pontos de Primeiros dissidentes
vista continuavam influenciando teólo- e dissidências
gos posteriores. Os estudos proféticos, Os debates doutrinários precedentes
especialmente as passagens apocalípticas não dividiram a igreja em facções, embo-
da Bíblia, vieram a ser o selo distintivo da ra possamos supor que nem todos esta-
integridade da igreja. vam contentes quanto ao consenso geral
Como o principal estudante das pro- ou à falta de consenso que se desenvol-
fecias dentro do adventismo a influência via depois de cada questão. A igreja nem
de Uriah Smith foi tuorme, e algumas sempre foi capaz de resolver amigavel-
vezes ele conferiu um crédito despropor- mente as diferenças de opinião. Algumas
cional aos seus pontos de vista. Quando luzes destacadas como também menores
apareciam interpretações diferentes e se separaram da igreja.
às vezes equivocadas, alguns pastores Desde o início, a denominação lidou
se sentiam confundidos e indagavam se com dissidentes. O movimento milerita se
existiam outros erros que ainda eram ig- fragmentou seriamente depois de 1844, e
norados. Surgiu o temor de que novos mesmo antes que o incipiente grupo de
612 pontos de vista pudessem derrubar toda adventistas do sétimo dia escolhesse
• um
a estrutura profética como um castelo de nome, se viu atormentado por dissidentes
cartas, e que a igreja desmoronasse. e seus seguidores. Várias coisas pareciam
Um resultado significativo desses de- encorajar a fragmentação:((1) satisfação
bates foi que se chegou à conclusão de com a lideranç5,ys • 2 uposta descoberta
que era impossível para os adventistas de "nova luz" (3) roblemas pessoais de
alcançar a unanimidade nessas questões, egocentrismo e usca de cargos, às vezes
embora se desse grande importância à despertando dúvidas quanto ao equilíbrio
interpretação bíblica exata. Com refreada mental de quem incorria em tal conduta.
cautela, podemos nos arriscar a afirmar O mais conhecido abandono da igreja foi
que os teólogos adventistas do século 19 o dei H. Kellog,g na primeira parte do
pareciam considerar-se responsáveis por século 20. Sua deserção desferiu um gol-
alcançar um conhecimento correto de to- pe severo na denominação, porém outros
das as profecias. O desejo de ser teoloGi- casos também ameaçaram o bem-estar
camente correto, de ter um conhecimento espiritual dos adventistas. Alguns dissi-
exato de todos os detalhes escriturísticos dentes se tornaram severos opositores e
era a forca que impulsionava seu pensa- tentaram estabelecer movimentos religio-
mento. Tais convicções. louváveis em si sos separados; outros simplesmente se-
mesmas, produ7iram. entretanto, um am- guiram seu próprio caminho com pouco
biente legalista para o adventismo. alarde. Filen G. White tinha advertido que
Sem negar a necessidade de uma com- ocorreria apostasia, mesmo entre aqueles
preensão exata das profecias, os adven- "que, segundo supúnhamos, eram tão fi-
tistas emergiram dessas discussões com éis aos princípios como o aço".
DISCUSSÕES DOUTRINÁRIAS E DISSIDÊNCIA

H. S. Case e C. P. Russell, ministros (adventista) ja qual proveio a Igreja de


do Michigan, foram os primeiros sérios Deus (do Sétimo Dia).
desertores das fileiras dos adventistas Por quase três décadas após a deser-
sabatistas. Guardando ressentimentos ção de Snook-Brinkerhoff, não ocorreu
contra o casal White, em 1853 acusaram nenhuma tentativa importante de liderar
Ellen e seu esposo de estarem exaltando uma separação da igreja. Então, no início
seus testemunhos acima da Bíblia, além da década de 1890, A. W Stanton, um
de Tiago estar auferindo lucros com a leigo de Montana, se sentiu desiludido
venda de Bíblias. A dupla descontente com os dirigentes da igreja e tentou um
formou o Grupo Mensageiro e publicou boicote financeiro contra a Igreja Ad-
a revista Messenger of Truth [Mensageiro ventista do Sétimo Dia. Seu panfleto, The
da Verdade] na qual promulgaram suas Loud Qy [O Alto Clamor], afirmava que
opiniões sobre as profecias do Apocalip- a igreja havia se tornado Babilônia e que
se. Juntando-se a eles temporariamente os verdadeiros crentes deviam "sair dela".
estavam J. M. Stephenson e D. E Hall, Em 1893, uma série de quatro artigos de
ministros 'de Wisconsin que ensinavam Ellen G. White publicados na Review e
a teoria da "era vindoura", uma inter- intitulados "A Igreja Remanescente Não
pretação do milênio como um período é Babilônia" protegeram a denominação
posterior ao advento que resultaria na contra o movimento de Stanton ao ad-
conversão do mundo ao cristianismo. mitir que a igreja tinha seus defeitos, mas
Por volta de 1858, esse movimen- que apesar dessas condições, "é o único
to efetivamente já havia desaparecido, objeto sobre a Terra ao qual Cristo con- 613
mas um punhado de retardatários se fere sua suprema consideração".
uniram em torno de Gilbert Cranmer,
outro ministro do Michigan. Sem apoio O caso de Moses Hull
financeiro, muitos do grupo se dirigi- Uma das primeiras desilusões foi
ram para Marion, Iowa, onde se aliaram Moses Huil,. que se converteu em 1857,
com B. F. Snook e W. 1-1. Brinkerhoff, aos 21 anos de idade, e que já tinha cin-
ex-presidente e• ex-secretário da As- co anos de experiência como pregador.
sociação de Iowa, que perderam seus À Sua reputação como um orador elo-
cargos em 1865, depois de liderar uma qüente que atraía enormes audiências,
campanha contra o casal White. No ele adicionou o debate, e freqüente-
ano seguinte, ,esse grupo descontente mente enfrentava batalhas verbais, as
formou o que.os adventistas chamaram quais geralmente ganhava. Em 1862, ele
de Grupo Marion, tomando empresta- começou a desafiar os espiritualistas, e
do o nome da povoação de Iowa onde teve um debate com um deles em Paw
eles estabeleceram sua sede. Continu- Paw, Michigan. Depois do confronto, ele
ando com suas diferenças doutrinárias, admitiu que estivera confuso durante o
os dissidentes renunciaram à sua crença debate e tinha feito algumas concessões
no sábado do sétimo dia, negaram a va- aos espiritualistas, as quais ele lamentou.
lidade das visões de Ellen G. White e Em um esforço para escudá-lo de
insistiram em ter autonomia congrega- contatos com os espiritualistas, os diri-
cional. Finalmente, os membros do mo- gentes da igreja lhe indicaram que fosse
vimento estabeleceram a Igreja de Deus para Nova Inglaterra como assistente de
II
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J. N. Loughborough. O arranjo pareceu • uma acalorada discussão com os White


bem-sucedido a principio. Entretanto, sobre um assunto pessoal, ele deixou o
no outono de 1863, Hull decidiu deixar ministério, mas retornou poucos meses
de pregar. Uma investigação feita por vá- depois, aparentemente com entusiasmo.
rios membros da Comissão da Associa- Três anos mais tarde, se tornou mem-
ção Geral revelou que ele havia rejeitado bro da Comissão Executiva da Associa-
a Bíblia como a "regra da vida", negado ção Geral, integrada por três membros,
a divindade de Cristo e a doutrina da ex- e, pouco tempo depois, presidente da
piação, questionado a existência de um Associação da Escola Sabatina e presi-
diabo pessoal, e negado a mortalidade dente da Associação de Ohio.
do ser humano e a futura punição dos Motivado por "seu absorvente dese-
ímpios. Afirmou que escrevia sob a in- jo de ser um orador público popular",
fluência dos espíritos. dedicou-se a adquirir um preparo for-
Depois da sua separação da igreja, mal em elocução. No outono de 1880,
Hull começou a promover ativamente o deixou o ministério para passar quatro
espiritismo. Ensinava que os escritores meses conduzindo suas próprias classes
da Bíblia não tinham sido divinamente de oratória em Michigan e Wisconsin.
inspirados, mas que haviam escrito sob Mais tarde, admitiu a George I. Butler
a influência dos espíritos. Apoiando-se que não observou o sábado durante
em seu extenso conhecimento da Bíblia, parte desse tempo. Um regresso ao mi-
tornou-se um dos primeiros conferencis- nistério foi de curta duração. No outo-
614 tas espiritualistas a apelar para as Escri-
turas para validar o espiritismo. Até a sua
morte em 1907, dedicou a maior parte
do seu tempo às conferências, a escrever
e a promover a reforma social.
Dudley M. Canright
Devido à sua importância dentro da
denominação e ao fato de tê-la aban-
donado, poucos ministros adventistas
de influência têm ganho mais notorie-
dade do que Dudlev M. Camight, que,
à semelhança de Hun, se converteu ao
adventismo em uma idade precoce e ra-
pidamente se aventurou a usar o púlpito.
Com apenas 24 anos de idade, por oca-
sião de sua ordenação em 1865, estive-
ra pregando por cinco anos e obteve a D. M. Canriglzt (180-1919) renunciou ao ad-
atenção dos dirigentes da igreja. ventismo no final do século 19, depois de uma
Apesar dos seus sucessos como experiência incomum tanto na administração
da igreja como no evangelismo. Com exceção
orador e polemista, lutou contra o de- da deserção de Kelloaa. a separação denm-
sânimo e a tentação de rejeitar comple- right atraiu mais atencão do jipe qualquer
tamente a religião. Em 1873, depois de ,outra apostasia.
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no de 1882, ele recorreu ao trabalho no vontade se evaporou rapidamente. Um


campo para sustentar-se. artigo da Review se referiu à sua apostasia
Vários problemas molestavam Canri- e fez uma velada comparação entre ele e
ght. Embora defendesse Filen G. White Judas Iscariotes. Quer estivesse justifica-
e seus escritos, sentia por ela uma aversão do ou não, ele interpretou artigos poste-
intensa, o que admitiu a Butler. Sua am- riores da Revim/ que condenavam a rebe-
biçãoj;:le.se_sananaLoadosS
t lião contra Deus como uma crítica diri-
o levou a confessar a um colega que a • gida a ele. Durante os restantes 30 anos
mensagsm impopular adventista era um de sua vida, ele conduziu uma campanha
Jo_ransu_sanainba Tragédias para desacreditar a Igreja Adventista do
obs táculo
pessoais, a morte de sua esposa, Lucretia, Sétimo Dia. Contudo, manteve contatos
em 1879, e a morte de seu filho pequeno ocasionais com ex-colegas adventistas,
depois do seu segundo casamento, foram assistiu a uma reunião geral de obreiros
golpes severos para o seu espírito. em Battle Creek, em 1903, e ao funeral
Apesar de uma confissão aberta de de Ellen G. White, em 1915.
sua má atitude para com Filen G. White Em 1889, ele publicou um livro de 413
e de sua aparente incapacidade para su- págitias, Seventh-day Adventism Renounced
perar seus problemas, sua experiência no [Repúdio ao Adventismo do Sétimo Dia].
ministério foi incomum. Durante os 14 que logo se tornou uma arma importante
anos entre 1873 e 1887, ele abandonou do arsenal anti-adventista do protrstntis-
e regressou ao ministério três vezes. Em m o evangélico. Por ocasião de sua morte,
janeiro de 1887ifinalmente informou4 em 1919, o livro havia alcançado sua dé- 615
Butler, presidente da Associação Geral, cima quarta impressão e estava circulan-
que não podia mais ser um adventista do do em muitas partes do mundo. Sua obra
sétimo dia. Em uma reunião administrati- Life of Mrs. E. G. White [Vida da Sra. E.
va da igreja natal de Canright em Otsego, G. Whiteb, publicada postumamente, foi
Michigan, o ministro descontente deixou uma tentativa para desacreditar o papel de
claro que não acreditava no sábado, na Filen G. White como uma mensageira es-
doutrina do santuário, nas três mensagens pecialmente chamada por Deus.
angélicas, nos testemunhos de Filen G.
White e em outros ensinos da igreja. O movimento da "carne santa"
Em vista dessas diferenças doutriná- O movimento da "carne santa", que
rias, a igreja não teve outra escolha, senão se desenvolveu em 1899 e 1900, quase
revogar a condição de membro tanto de à sombra da sede adventista em Battle
Canright como de sua esposa, que con- Creek, tornou-se uma das tendências
cordava com ele. Várias semanas depois doutrinárias mais problemáticas entre
desse voto, o casal uniu-se à congregação os adventistas do sétimo dia durante o
batista local. Dentro de um mês, ele foi período posterior a.,18,88, em parte por-
ordenado como ministro batista, mas ex- que alguns dos dirigentes da igreja con-
ceto por três ou quatro anos de sua vida, cordavam com ele. O reavivamento que
não manteve um pastorado regular. abrangeu toda a igreja depois da Assem-
Canright prometeu manter uma ati- bléia da Associação Geral de 1888 em
tude amigável para com seus ex-irmãos Mirmeápolis levou muitos membros a
adventistas, mas sua momentânea boa crer que o grande derramamento do Es-
PORTADORES DE LUZ

pirito Santo prometido como a "chuva • que a excitação extrema que os adorado-
serôdia" estava prestes a ocorrer. res demonstravam durante a "mensagem
A. E Ballenger, um orador popular de purificação" não somente era desfavo-
nas reuniões campais, intensificou essa rável ao crescimento da igreja, mas tam-
expectativa com o seu poderoso tema de bém fazia o jogo do diabo. White decla-
reavivamento, "Recebei o Espirito Santo", rou que as pessoas que experimentavam
durante os anos de 1897 a 1899. Motivado a emoção externa dessas reuniões eram
pelas declarações de Ballenger, S. S. Davis incapazes de exercer um juizo racional.
pregador que promovia o reavivamento O movimento terminou quando
na Associação de Indiana, formou uma Donnefl, Davis e outros dirigentes acei-
equipe que percorreu todo o estado com taram a reprovação e renunciaram junta-
sua "mensagem de purificação". Davis mente com toda a comissão executiva da
admirava os cristãos pentecostais por seu Associação de Indiana. Donnell transfe-
"espirito", e introduziu serviços religiosos riu-se para outro campo, mas Davis se
caracterizados pela música impetuosa e o aposentou e finalmente aceitou a orde-
bater de palmas, os gritos e os saltos, es- nação como ministro batista.
perando assim adquirir a unção do Espi-
rito Santo. Os adoradores freqüentemente Jones e Waggoner
caíam prostrados e depois de mais cele- O impacto produzido pelo afasta-
bração tumultuosa por parte da congrega- mento de Caruight quase foi igualado ao
ção, se declarava que eles haviam passado distanciamento de A. T. Jones e E. J. Wa-
616 "pela experiência do jardim", a que Cris- ggoner, os dois "mensageiros de 1888".
to havia tido no Getsemani. Essa pessoa Durante a década de 1890, ambos parti-
recém-nascida estava agora livre do poder ciparam de quase todas as assembléias da
da morte, porque tinha recebido "carne Associação Geral, porém criticavam uma
santa" e, portanto, não podia mais pecar. administração da igreja forte e centra-
S. N. Haskell e A. J. Breed, que repre- lizada. Apesar dos seus pontos de vista,
sentavam a Associação Geral na reunião Jones se tornou um membro da Comis-
campal de Indiana, em 1900, se sentiram são da Associação Geral em 1897, mas
alarmados diante do que viram. Os obrei- renunciou ao cargo apenas para ser reelei-
ros da associação, liderados por seu pre- to em 1901. Em parte, devido à influên-
sidente, R. S. Donnell, negaram qualquer cia de Jones, a Associação Geral revisou
similaridade entre suas práticas e a condu- nesse ano sua constituição para colocar a
ta semelhante que havia aflorado anterior- supervisão geral da denominação a cargo
mente na história adventista. Quando se de umã comissão de 25 membros em vez
iniciou a Assembléia da Associação Geral de nas mãos de um presidente.
de 1901, o movimento da mensagem de Apesar dessa mudança, A. G. Da-
purificação estava prestes a se estender niells, como presidente da comissão, se
para as associações adjacentes. referia a si mesmo como "presidente" da
Ellen G. White não deixou dúvidas Associação Geral e, em 1903, o termo
aos delegados quanto a sua posição sobre voltou oficialmente. Jones, que se opu-
o assunto. Durante uma reunião pública, nha inflexivelmente a esse acordo e ao
ela declarou que a carne santa era antibi- uso persistente do termo por Daniells,
blica e, portanto, uma impossibilidade, e não refreou sua critica. Entretanto, sua
À.
DISCUSSÕES DOUTRINÁRIAS E DISSIDÊNCIA

atitude irritante destruiu o apoio que denominação. Até a sua morte, em 1923,
4

ele tinha na Associação da Califórnia manteve uma firme convicção de que a


onde era presidente. Um breve período organização da igreja era defeituosa.
de trabalho como professor de Bíblia Embora o dr. E. I. Waggoner parti-
no Sanatório de Battle Creek terminou lhasse com Jones urna aversão comum
quando Daniells, animado por Ellen G. ao poder conferido à organização de-
White, o convidou para assumir um car- norninacional, ele diferia em outros as-
go na Associação Geral. pectos, principalmente em sua persona-
Jones regressou a Batde Creek de- lidade e em sua abordagem ao estudo
pois de algumas semanas, invocando a da Bíblia. Waggoner chegou a enredar-
enfermidade de sua filha como a razão se nas teorias panteístas que invadiam
para deixar seu novo trabalho. Por longo os círculos adventistas e, durante o final
tempo Ellen G. White havia duvidado de da década de 1890, começou a pregar
que seria sábio que ele tivesse uma estrei- outras idéias que suscitaram dúvidas
ta associação com o dr. J. H. Kellogg. Ela acerca de suas posições doutrinárias.
também o havia aconselhado a suavizar Em 1899, sugeriu que todos os obser-
sua maneira de se expressar, mas uma vez vadores dos mandamentos também deve-
de volta a Michigan ele lançou a cautela riam possuir o dom de profecia. Enquan-
ao vento. Recorrendo ao seu velho tema to trabalhava na Inglaterra, ensinou que o
de críticas à autoridade, acusou Daniells santuário terrestre era um tipo do corpo
de estabelecer uma ditadura "papal" que humano e que a purificação do santuário
perseguia Kellogg. Jones não negava o 617
chamado especial de Ellen G. White, mas adventista de saúde. Sua teoria mais preju-
limitava seus pronunciamentos proféti- dicial foi a doutrina das "afinidades espi-
cos mais estreitamente do que os irmãos rituais", que ensinava que o salvos pode-
consideravam válido. riam mudar seus parceiros de casamento
Os ataques verbais continuaram até no inundo vindouro e que, portanto, uma
1907, quando os dirigentes da igreja re- pessoa poderia desfrutar uma união es-
tiraram suas credenciais. Dois anos mais piritual na vida presente com alguém que
tarde, Daniells conduziu uma discussão não fosse seu cônjuge.
de três dias sobre os pontos de vista de Waggoner recusou tanto o convite de
Jones e pediu-lhe que voltasse ao minis- Ellen G. White para deixar a Inglaterra
tério ativo, mas ele permaneceu obstina- e ir para a Austrália como seu conselho
do. Foi somente urna questão de tempo para que não voltasse para Barde Creek,
até que o Tabernáculo de Batde Creek o onde cairia sob a influência de Kellogg.
privasse de sua condição de membro. Ela ajudou a facilitar um chamado para
Jones nunca renunciou à sua crença nas a faculdade do Emmanuel Missionary
doutrinas básicas adventistas e continuou College, mas depois de um só período
promovendo a liberdade religiosa median- ele partiu para Battle Creek. Em pouco
te a publicação de The American Sentinel of tempo, Edith Adams, uma jovem com
Retious liben) [A Sentinela Americana quem ele havia se encontrado na Ingla-
le Liberdade Religiosa]. Uniu-se à Igreja , terra, também apareceu por ali. Por volta
lo Povo, uma congregação negra de Wa- do final de 1905, o matrimônio de Wa-
hington, D.C., que se havia separado da ggoner terminou em divórcio e o dou-
PORTADORES DE LUZ

tor se casou mais tarde com sua amiga petsoa de que havia descOberto nova luz
inglesa. Depois de um breve período na em matéria de interpretações proféticas.
Dinamarca, regressaram para Barde Cre- Nem os irmãos o convenceram de que
ek em 1910, onde ele lecionou no Battle ele estava equivocado.
Creek College administrado por Kellogg Em 1905, os dirigentes o despediram
até a sua morte, em 1916. do emprego e rejeitaram sua transferên-
À diferença de Jones, Waggoner cia de membro, o que efetivamente o se-
abandonou sua crença nas doutrinas parava da igreja, porém ele não se uniu a
adventistas tradicionais, principalmen- nenhuma outra denominação. Tentando
te aquelas relacionadas com a purifica- propagar seus pontos de vista entre os
ção do santuário e o juízo. Contudo, se adventistas, conseguiu somente um apoio
absteve resolutamente de atacar a igreja, disperso, principalmente entre pessoas já
declarando que "a melhor maneira de descontentes com os dirigentes da igreja.
desarraigar o erro é semear mui abun- Em 1914, assumiu a direção de um pe-
dantemente as sementes da verdade". queno periódico, The Gathering Cal! 10
Chamado a Reunir-se], previamente edi-
A. F. Ballenger tado por um membro da Igreja de Deus
Albion Fox Ballenger, em parte, do Sétimo Dia. Entre os seguidores de
pode ter inspirado o movimento da Ballenger estavam seu pai e seu irmão,
Carne Santa com seus poderosos ser- ambos ministros adventistas, que tam-
mões, mas a igreja sentiu sua influência bém perderam suas credenciais.
618 também de outras formas. Nascido em Depois da morte de Albion, em 1921,
1861, filho de um ministro adventista, seu irmão, Edward, continuou publican-
Ballengcr tinha somente 29 anos de ida- do The GatheringCall e modificou sua ên-
de quando iniciou uma carreira promis- fase, deixando de expor disputas doutri-
sora em assuntos de liberdade religiosa, nárias para se dedicar a ataques pessoais
mas dentro de cinco anos a Associação contra os dirigentes da igreja. Durante
Geral o chamou para que se dedicasse à meio século, as atividades dos Ballenger
pregação. Em 1901, ele foi para as Ilhas importunaram a igreja, mas seus pontos
Britânicas e com o tempo se tornou di- de vista dissidentes nunca geraram um
retor da Missão Irlandesa. núcleo substancial de seguidores.
Enquanto estava na Irlanda, chegou
à conclusão de que o dia da expiação que Margaret Rowen
cumpria a profecia de Daniel 8:14 não ha- Cerca de um ano depois da morte de
via começado em 1844, como os adven- Ellen G. White, a sra. Margaret W Rowen,
tistas estavam ensinando, mas se iniciou de Los Angeles, anunciou que Deus a ha-
imediatamente depois da ascensão de via escolhido para levar avante a obra de
Cristo ao Céu, em seguida à sua ressur- uma mensageira especial para seu povo.
reição. O efeito dessa crença era negar o Ela sentia a responsabilidade de iniciar
significado distintivo de 1844. Apareceu grupos de oração nas igrejas e "reformar"
primeiro diante da Comissão da União a denominação, mas era imprecisa quanto
Britânica e mais tarde, em 1905, diante aos problemas que devia resolver.
os dirigentes denominacionais, mas ele Os dirigentes da igreja adotaram
À. não teve êxito em convencer qualquer uma atitude cautelosa para com ela. Ti-
DISCUSSÕES DOUTRINÁRIAS E DISSIDÊNCIA

nha aproximadamente 40 anos de idade fronde Filadélfia que lhe dava dinheiro.
e havia sido adventista durante apenas Em realidade, para seus gastos pessoais,
quatro anos; além disso, seu esposo não ela estava usando o dinheiro do dízimo
pertencia à igreja. Em 1917, A. G. Da- que lhe eram dados por sua Organização
niells sugeriu que os irmãos se abstives- Reformada Adventista do Sétimo Dia ;
sem de emitir um juízo enquanto obser- Anos se passaram antes que se co-
vavam sii2s atividades. Entretanto, um nhecessem todas as suas fraudes, mas
pequeno grupo de ministros de experi- suas diferenças doutrinárias com a igreja
ência, incluindo I. E. Evans, W. C. VVhite foram suficientes em si mesmas para de-
_ e E. E. Andross a entrevistaram exten- sacreditar sua pretensão de que era uma
samente. Chegaram à conclusão de que adventista do sétimo dia ortodoxa. Entre
embora seus escritos se assemelhassem seus pontos de vista teológicos estavam
aos de Ellen G. White, ela não oferecia os seguintes: (1) Pilatos e aqueles que cru-
nenhuma evidência convincente de que cificaram a Jesus vagueariam em agonia
havia recebido um chamado divino. pela Terra durante o milênio; (2) Jesus foi
Alguns outros membros, inclusive o primeiro anjo criado, adotado por Deus
uns poucos ministros, pensavam de for- como seu Filho só depois que Ele havia
ma diferente. As características físicas da escolhido uma vida de justiça; (3) os 144
sra. Rowen durante suas visões eram di- mil viriam dos Estados Unidos; e (4) o ju-
fíceis de refutar. Geralmente se inclinava ízo investigativo dos vivos começou-em
com as mãos cruzadas sobre o peito. Seu 23 de julho de 1919.
corpo ficava rígido, ela parecia não respi- Depois que falhou sua predi~ 619
rar, e seus olhos, sem pestanejar, pareciam Cristo viria em 6 de fevereiro de 1925, -o
fixos em objetos distantes. Exclamações dr. B. E. Fullrner, um dos seus seguidores,
de "glória, glória, glória" usualmente as- tornou-se desiludido e revelou os seus en-
sinalavam tanto o início como a conclu- ganos, entre os quais estava o roubo do
sãp de uma visão. Tanto os céticos como dinheiro de seus partidários para deposi-
seus seguidores estavam de acordo com o tá-lo em contas bancárias privadas. Como
caráter sobrenatural de suas experiências, represália, ela tentou assassinar Fullmer,
mas discordavam com respeito a que fon- o que determinou que fosse sentenciada
te sobrenatural originava sus visões. à prisão em San Quentin. Depois de sua
Com o tempo, a conduta da sra. Ro- liberdade condicional, ela se desvaneceu
wen revelou contradições com os prin- do quadro adventista.
cípios seguidos por Ellen G. White. Ela
predisse uma fome nos Estados Unidos O Movimento de Reforma Alemão
e insistiu para que se estocassem alimen- e L. R. Conradl
tos não perecíveis. Rowen aceitava o dí:-/ Em 1915, surgiu na Alemanha um
zimo para sustentar sua revista e, através movimento de reforma menos desonro-
de meios enganosos, colocou uma con- so: mas de maior alcance do que o caso
firmação escrita do seu pretenso cha- de Rowen. Johann Wick, um recruta do
mado do Céu na cripta dos White, em Exército Imperial que estava cumprindo
Elmshaven. Para explicar a compra de pena por sua recusa a vacinar-se quan-
uma série de automóveis, ela inventou a do foi convocado, afirmava ter recebi-
história de que era filha de uma rica ma- do uma visão com a mensagem de que II
PORTADORES DE LUZ

p tempo de graça terminaria "quando


— uma. data para os eventos do tempo do
as árvores com frutos de caroço flo- fim despertou considerável suspeita.
rescessem na primavera". Preparou sua Como não surgiu nenhuma evidência
mensagem para ser publicada, mas os que confirmasse suas profecias, os que.
dirigentes do centro de publicações da aderiram a esse movimento procuraram
igreja em Hamburgo se negaram a dis- mudar sua ênfase e reunir apoio afirman-
seminá-la, um sinal para Wick de que a do que a igreja havia caído e se tornado
igreja havia "caído". Babilônia. Eles criticaram os dirigentes
Entretanto, ele desertou do exérci- da igreja alemã por se submeter servil-
to e buscou refúgio em Bremen, onde mente ao governo, concordando que os
corações mais receptivos o ajudaram homens adventistas podiam ingressar no
a fazer circular sua visão por toda a exército e prestar serviço como comba-
Alemanha. As coisas se tornaram mais tentes e até mesmo ignorar a observância
tensas quando outros membros leigos tradicional do sábado.
relataram ter tido visões semelhantes, Os reformistas haviam golpeado um
todas implicando que o fim do tempo nervo sensíveL A tentativa de L R. Con-
da graça ocorreria ao mesmo tempo, radi, presidente da Divisão Européia, de
na primavera. Não havendo entre eles racionalizar a situação explicando que a
nenhuma confabulação evidente, suas Associação Geral havia dado aos adventis-
mensagens pareciam estranhamente se- tas alemães uma aprovação tácita para seu
melhantes, mas o fato de que fixavam acordo com o Exército Imperial apenas
620 avivou a controvérsia. Em 1920, depois de
haver terminado a Primeira Guerra Mun-
dial, uma delegação da Associação Geral à
Europa liderada por A. G. Daniells tentou
sanar a dissidência crescente, ao declarar
que os dirigentes alemães da igreja haviam
se equivocado, mas também criticou os re-
formistas por estabelecer uma organização
separada e usar táticas enganosas para pro-
mover seus pontos de vista.
Alguns dirigentes alemães da igreja ad-
mitiram os erros de suas decisões anterio-
res quanto ao serviço militar e buscaram
a reconciliação, mas Conradi continuou se
defendendo ao explicar que os adventistas
alemães estavam apenas se adaptando às
condições nacionais, que incluíam a assis-
tência à escola no sábado como também
o serviço militar. Ele argumentou que os
nha, deixou a igreja depois de servi-/afie! e in- dirigentes da Associação Geral os haviam
cansavelmente por muitos anos abrangendo animado a adaptar-se, dizendo a ele e a
os séculos ig e 20. Conradi foi o primeiro vice-
presidente da Associação Geral designado para • outros que deveriam fazer o melhor que
uma divisão do campo mundial. pudessem sob as circunstâncias. Os refor-
DISCUSSÕES DOUTRINÁRIAS E DISSIDÊNCIA

mistas insistiram para que fossem destitu- interpretado corretamente o significado


,klos aqueles dirigentes que supostamente da purificação do santuário e mantinha
&aviam comprometido a fé, e como resul- que o final da profecia dos 2.300 dias em
4ado da controvérsia, Conradi foi transferi- 1844 não se referia ao santuário celestial.
cio para a Associação Geral, como secretá- Também chegou à conclusão de que El-
rio de campo, e L H. Christian o sucedeu len G. White não era a escolhida mensa-
4corno presidente da Divisão Européia. geira da igreja que pretendia ser.
4., Aos olhos de alguns, essa contenda pa- Ao longo dos anos, ele havia desa-
recia ser urna luta pelo poder, na qual os creditado o movimento milerita e Ellen
reformistas agitavam por mudanças pes- G. White. A vergonha que sofreu em
soais, apesar dos rogos de DanielLs para relação ao desafortunado problema mi-
que houvesse espirito de perdão e recon- litar na Primeira Guerra Mundial o havia
ciliação. Embora o movimento de reforma posto na defensiva, e isso, associado com
perdesse muito de sua força logo depois da sua destituição da presidência da Divi-
reunião de 1920, as criticas do adventismo são Européia, o colocou em uma situa-
"caído" se estenderam aos crentes alemães ção muito delicada. Embora continuasse
nos Estados Unidos, Canadá, Austrália e sendo um empregado da igreja, fez com
América do Sul. Entretanto, os reformistas que os irmãos se sentissem receosos, e
ampliaram sua mensagem ao apelar para depois da Assembléia da Associação Ge-
qualquer que estivesse desiludido com a ral de 1930, decidiram desafiá-lo para que
liderança da igreja. . defendesse seus pontos de vista. Durante
Para Conradi, sua destituição da pre- quatro dias, em outubro de 1931, argu- 621
sidência da Divisão Européia foi um gol- mentou sem sucesso em prol do seu caso
pe duro, se não espiritualmente fatal. Ele diante de uma comissão de 35 membros.
:tinha sido um jovem alemão imigrante Finalmente, retiraram suas credenciais.
para os Estados Unidos, se converteu Logo depois do seu regresso à Alema-
em 1878, foi ordenado em 1882 e en- nha, Conradi se uniu aos batistas do séti-
viado de volta para a Europa no ano de mo dia. Também escreveu urna pequena
1886. Tendo a Suíça como o centro de brochura The Founders of lhe Seventh-4 Ad-
suas atividades, trabalhou nas regiões de ventistDenontination [Os Fundadores da De-
fala alemã e em outras partes da Europa nominação Adventista do Sétimo Dia], em
Oriental e mesmo nos limites da África. que lançou ataques severos contra muitos
Conradi exerceu sua influência pode- dos primeiros dirigentes da igreja, mais no-
rosa entre os adventistas europeus. Ellen tavelmente contra os White: "Falácia após
G. Whi te o elogiou por seu trabalho infati- falácia tem sido uma característica notável
gável e Daniells falou de sua consagração em sua história", escreveu ele sobre os
. à igreja. Mas apesar de seus incansáveis fundadores da igria, Durante os oito anos
t labores, havia problemas sutis. Enquan- finais de sua vida, magiu.ceack5_00 ad-
to traduzia o livro Hirto°, of the Sabbath ventistgs em igrejas batistis rio sétimo dia.
[História do Sábado] de J. N. Andrews,
A Vara do Pastor e o
foi o _primeiro a proclamar as três men- Ramo dos Davidlanos
sagens angélicas. Gradualmente, cultivou Desde a década de 1930 até a década
dúvidas de que os adventistas tivessem de 1950, os davidianos adventistas do séti-
PORTADORES DE LUZ

mo dia, popularizados como "Shepherd's • @ difícil medir o impacto dos davi-


Rod" [A Vara do Pastor], atuaram como dianos sobre a Igreja Adventista do Sé-
uma ramificação da Igreja Adventista. timo Dia.provavelmente, a maioria dos
Esse grupo foi o produto dos ensinos adventistas comuns os visse quase como
de V T Houteff, imigrante búlgaro dos excêntricos, no pior dos casos, como um
Estados Unidos que se tornou adventista espinho na carne. Não se sabe o número
do sétimo dia em Illinois, antes de se mu- real dos seguidores de Houteff, parcial-
dar para o sul da Califórnia. mente porque até a formação de uma
Por volta do ano de 1929, ele come- organização separada ele os aconselhou
çou a promover suas idéias sobre a condi- a reter sua condição de membros em
ção caída da igreja e sua crença de que ele congregações adventistas regulares a fim
era um mensageiro divinamente chamado de distribuir mais facilmente sua literatu-
para efetuar urna obra de reforma. Das ra e crenças. Houteff aceitava o dízimo e
teorias que expunha, o assunto central era outras doa õesparatar sua
a identidade dos 144 mil e os ensinamen- mas não rejeitava os escritos de Ellen G.
tos relacionados com a segunda vinda de White ou a opinião adventista tradicio-
Cristo. Houteff interpretava certas pro- nal sobre o santuário. A retenção dessas
fecias do Apocalipse vinculando-as com doutrinas representava urna diferença
passagens das parábolas de Jesus para importante com respeito a muitos movi-
provar seus pontos de vista sobre o alto mentos de reforma anteriores.
clamor e a chuva serôdia. A seu pedido, (O coração da teoloa davidiana
622 apresentou seus ensinos aos dirigentes centralizava-se nos 144 mil, um deta-
adventistas do sétimo dia, mas nenhum lhe profético para o qual os adventistas
lado da discussão convenceu o outro. haviam admitido por longo tempo que
Em 1935, Houteff e 11 seguidores não tinham uma explicação definitiva. j_
se mudaram da Califórnia para Waco, Os adventistas discutiam freqüente-
Texas, a fim de estabelecer uma colônia mente o assunto e não era de se surpre-
no "Centro do Monte Carmelo", onde ender que seus pontos de vista pessoais
membros "selados" dos 144 mil podiam diferissem. Não era de se admirar que
se reunir com o objetivo de preparar-se os. crentes da Vara do Pastor quisessem
para seu traslado à Palestina. Na Terra iniciar a discussão sobre esse ponto.rOs
Santa, o reino de Davi, uma teocracia que dirigentes da igreja. não consideravam
materializaria sob seus auspícios a obra de que as discussões não conclusivas sobre
propagação do evangelho e prepararia o os 144 mil fossem prejudiciais. Com-
mundo para o regresso de Cristo a Terra. preensivelmente, os davidianos podiam
Sete anos mais tarde, em 1942, ele orga- permanecer facilmente como membros]
nizou a Igreja Adventista do Sétimn Dia de congregações adventistas regulares.
Davidiana a fim de adquirir a condição A essência da disputa com Houteff e
de não-combatente para seus seguidores os davidianos era sua pretensão de que ele
que ingressassem no serviço militar, du- tinha a explicação definitiva dos 144 mil e
rante a Segunda Guerra Mundial. Vinte que os dirigentes adventistas haviam caído
anos depois da sua mudança para Waco, porque não aceitavam seu ponto de vista.
Houteff morreu, deixando a direção dos As críticas e ataques persistentes de Hou-
1 davidianos à sua esposa. teff contra a igreja determinaram que lhe
DISCUSSOES DOUTRINÁRIAS E DISSIDÊNCIA

fosse retirada sua condição de membro. 2. de fevereiro de 1993, quando agentes


A formação de uma organização eclesiás- do Departamento de Mcool, Fumo e Ar-
tica separada, em 1942, tornou necessário mas de Fogo atacaram de surpresa Monte
que seus seguidores deixassem as congre- Camelo. Quatro dos agentes morreram
gações advendstas para se unir a ele. no tiroteio resultante.
Ao mesmo tempo, viviam no Monte Perturbado por essa tragédia que havia
Carmelo aproximadamente 125 pessoas. se tornado um espetáculo nacional, a ATF
Quando sua esposa e sucessora estendeu [sua sigla em inglês] se retirou enquanto o
um chamado, várias centenas responderam 17131. assumia o cerco, que durou até 19 de
reunindo-se no recinto em 22 de abril de abril. Nesse dia, uma força federal equipa-
1959, para testemunhar uma intervenção da com gás lacrimogéneo e tanques atacou
providencial na Palestina, que abriria o o recinto do Ramo Davidiano. Antes de
caminho para o estabelecimento do reino terminar o dia, subia a fumaça de Monte
longamente esperado. O fracasso dessa pre- Casado, destruído por uma conflagração
dição conduziu ao declínio do movimento que muitos acreditaram que Koresh e seus
e ao seu encerramento formal, em 1962. seguidores haviam iniciado. Os investiga-
A dissolução da Associação Davidiana dores encontraram 78 corpos nas cinzas,
abriu as portas para uma luta a fim de man- inclusive o do próprio Koresh.
ter urna organização religiosa e controlar Apesar de estarem separadas da orga-
o Monte Cannelo. Um grupo pequeno, nização denorninacional há meio século,
reorganizado na California como "Ramo os daviclianos e seus sucessores, o Ramo
dos Davidianos", regressou para \Vaco. dos Daviclianos, continuaram tendo liga- 62:
Depois de urna complicada trama de lití- ções com a Igreja Adventista do Sétimo
gios e luta pelo poder, Ben e Lois Rodei. ' Dia à vista, pelo menos, de uma parte do
obtiveram o controle nas décadas de 1960 pbblico. Havia pouca dúvida de que a igre-
e 1970, seguidos por Vernon 1 Iowell na ja tinha em suas mãos um sério problema
década de 1980 e início da década de 1990. de relações públicas, c para esclarecer qual-
Howell, um jovem adventista do séti- quer mal-entendido causado pela confu-
mo dia que havia sido eliminado da igreja são de nomes, Gary Patterson, assistente
pouco depois de ganhar o poder, mudou administrativo do presidente da Divisão
legalmente seu nome para David Koresh, Norte-Americana, viajou para \Vaco a fim
o que não contribuiu para a paz do amigo de manejar o assunto. Em geral, os meios
refugio para os 144 mil. O número dos de comunicação nacionais e internacio-
seus seguidores não era grande, menos nais mantiveram a separação correta entre
de uma centena, mas muitos deles eram a seita davicliana e a Igreja Adventista.
jovens e ex-adventistas. Sob sua liderança,
rumores de abuso infantil, imoralidade O movimento de Brinsmead
sexual, consumo de bebidas alcoólicas e lirn dos movimentos mais problemá-
acúmulo de armas, todas atividades jus- ticos que emergiu de dentro da igreja foi
tificadas por uma mensagem de poder liderado por Robert Brinsmead, estudante
pessoal e de destruição apocalíptica, va- australiano no Avondale College, quando
zaram Monte Carmelo e produziram an- ele iniciou suas atividades. Seus pais ha-
siedade na comunidade circunvizinha. A viam participado do Movimento de Re-
tensão entre Koresh e a lei estourou em forma Adventista do Sétimo Dia alemão,
PORTADORES DE LUZ

mas voltaram a se unir à igreja quando para, o Céu. Também era atraente para
Robert tinha dez anos de idade pessoas suscetíveis aos movimentos de
Como estudante do Avondale, em "nova luz" e para aqueles que olhavam
1955, Robert encontrou materiais crie n_ com suspeita os dirigentes da igreja. As
aproximaram dos ensinos de Jones e Wa- tentativas para apaziguar as diferenças en-
fl Seu es-
gw_ner sol ,re'llçao42e tre os irmãos Brinsmead e a igreja condu-
tudo estimulou uma carreira na promoção ziram a conflitos adicionais. Finalmente,
dos seus pontos de vista, que finalmente no verão de 1961, Robert foi despojado
consistiram de um novo tipo de "perfec- de sua condição de membro, seguido
cionismo", o qual, segundo ele afirmava, por procedimentos semelhantes contra
era uma eliminação milagrosa de todos alguns dos seus seguidores. Muitos dos
os pensamentos e emoções pecamino- simpatizantes de Brinsmead continuaram
sos como resultado da justiça de Cristo sendo membros da igreja, o que causou
imputada e comunicada. A chuva serôdia dificuldades aos pastores, mas também
do Espirito Santo só ocorreria depois que produziu extensas discussões e estudo da
todos os pecados fossem desse modo Bíblia e dos escritos de Ellen G. White.
apagados do santuário celestial. Também Uma atividade vigorosa dos líderes da
promoveu a idéia de que Cristo havia her- Divisão Australasiana limitou a fragmenta -
dado uma carne humanapecaminosa em ção ocorrida em muitas igrejas, mas os ir-
sua encarnação, uma opinião contrária às mãos Brin.smead transferiram sua base de
declarações presentes no livro adventista operações para os Estados Unidos, onde
624 Questions on Docfrine [Questões sobre Dou- era mais fácil conseguir apoio financeira
nina], que acabava de ser publicado. Com- Lançando o Sanctuaty Asvaketüng
pletando suas crenças, havia a acusação de [Associação do Despertar do Santuário],
que na Igreja Adventista estavam se infil- eles estenderam suas idéias por toda a Divi-
trando erros papais. são do Extremo Oriente e partes da África
Robert, com o forte apoio de seu ir- Ao longo dos seus anos de separação
mão, John, difundiu suas idéias por toda da igreja, Robert Brinsmead manteve con-
a Austrália, obtendo considerável apoio. tatos com dirigentes e teólogos adventis-
Alguns dos seus seguidores • levaram um tas e, em meados da década de 1970, ele
passo adiante à noção da perfeição, de- tinha descartado sua crença sobre a natu-
clarando que as pessoas verdadeiramente reza
alLÇii2on4NrUção,
ecami e
purificadas do pecado eram flsica como começou a promover a doutrina da justi-
também espiritualmente perfeitas, e não ficação pela fé na comunidade protestan-
sofreriam mais enfermidade Mesmo para te em geral. Seu periódico Present Truth [A
os observadores casuais, esse ensino era Verdade Presente] chegou a ter 100 mil
semelhante ao do movimento da Carne leitores. Mas seu itinerário teológico o le-
_Santa, ocorrido m eio século antes. vou ainda mais longe na direção oposta à
Durante a década de 1960, o movi- qual ele havia começado. Em 1980, pu-
mento de Brinsmead perturbou muitos blicou Judged & lhe Gari [Julgados pelo
adventistas, devido à sua sutileza. Era es- Evangelho] onde afirmava que os adven-
pecialmente atrativo para os novos con- tistas haviam criado suas próprias realida-
versos e pessoas sinceras que procuravam des, incluindo um compendio de mitos
compreender melhor como preparar-se sobre Ellen G. \Vhite e o significado de
1844. Logo depois, mudou Present Tnith bíblicas, o proponente merecia tempo
para Verdict [Veredito] e declarou que a para mudar seu modo de pensar.
observância do sábado do sétimo dia não Também surgiram interrogações sobre
era mais obrigatória para os cristãos. Afir- quanta pluralidade existia ou podia existir
mando seguir somente a Bíblia, na década em uma igreja que se descrevia a si MeStra
de 1950, ele anulou sua estrita interpre- como a portadora de unia roensagym de
tação da perfeição e finalmente rejeitou verdad- . um mund. " Ape-
sinais identificadores do adventismo do sar de a denominação manter urna porta
sétimo dia. No final da década de 1980, aberta para a possibilidade de novas inter-
sua influencia na comunidade aelventista pretações bíblicas, ela não podia permitir
havia praticamente desaparecido. uma competição doutrinas generalizada
que destruísse a identidade adventista.
Um olhar retrospectivo Como uma das doutrinária definidoras da
para as dissidências igreja, o sábado do sétimo dia nunca foi
Ainda ocorreram outros casos de objeto de debate sob pretexto de "nova
dissidência que exerceram impacto luz", mas alguns dissidentes por fim o re-
sobre a igreja em diversos graus. Em jeitaram. Em contraste, aciput tinailu_sana
muitos casos, a discórdia surgiu sobre tuário que também foi dada à igreja como
questões práticas com respeito a quem parte de sua identidade imediatamente de-
controlaria a denominação, em vez de pois do Grande Desapontamento, foi um
sobre crenças discrepantes. O descon- tema que caiu em freqüente discussão. Os
tentamento com a autoridade norte- dirigentes da igreja escutavam, mas con- 625
americana geralmente era a raiz desses cediam pouca margem para modificar a
problemas. A resolução desses assuntos crença nesse tema.
dependia mais de um compromisso Em alguns casos, os pontos em dispu-
pragmático e de chamados à lealdade ta giravam em torno de assuntos 12112liais
espiritual do que de um ajuste de pon- que eram parte do evange1112,maanIcaun
tos de vista doutrinárias. aspecto central do mesmo. Visto que os
As dissidências relacionadas com teólogos adventistas nunca estiveram de
a mensagem da igreja baseada biblica- acordo em todos os pontos de interpreta-
mente suscitaram diferentes problemas. ção bíblica, pareciam ser completamente
Os espectadores, tanto de dentro como tolerantes com respeito a pontos de vista
de fora da igreja, quase sempre questio- que, em primeiro lugar, estavam abertos
navam se uma pessoa que havia se se- a questionamentos e não colidiam com
parado da mesma era tratada de forma o que geralmente era considerado como
justa. Por mais de uma razão, a igreja crenças fundamentais. Por mais flexíveis
não podia nunca permitir-se chegar a que fossem, os dirigentes da igreja não
decisões apressadas sobre uma pessoa permitiam que esses debates consumis -

cujas propostas doutrinárias estavam sem tanto do seu tempo que não pudes-
sob escrutínio. Se realmente a "nova sem levar adiante sua função primária de
luz" fosse bíblica, era necessário tem- difundir o evangelho.
po para absorvê-la e relacioná-la com o Adiferença entre dissidência
_ e,plura-
corpo de crenças já existentes. Se, por lidade era às vezes um assunto de atitu-
outro lado, as novas idéias não eram de. Nunca foi agradável para a igreja lidar
PORTADORES DE LUZ

com as dissidências, mas, em alguns ca- • forma se relacionavam com os ensina-


sos, quando as discussões se metamorfo- mentos sobre o processo da salvação, em
seavam em desavenças, a veemência subs- vez de com detalhes proféticos obscu-
tituía a calma, e, às vezes, os dirigentes da ros. Esse padrão repetido das dissidên-
igreja se tornavam, de fato, o objeto da cias indicava que os adventistas levavam
disputa. Essas circunstâncias enlameavam muito a sério suas convicções e que esta-
as águas fazendo com que se tornasse fá- va viva e muito bem a crença fundamen-
cil para muitos adventistas acreditar que tal de que o ser humano é responsável
a discussão era uma luta pelo poder, em diante de Deus. Desde o Grupo Mensa-
vez de uma honesta diferença de opinião geiro até o movimento de Brinsmead, a
sobre a maneira de entender a Bíblia. igreja superou repetidos questionamen-
Nunca foi agradável confrontar as tos, porém isso nunca ocorreu sem que
dissidências, mas isso era inevitável. Al- muitos membros em geral examinassem
guns dos episódios mais sérios de certa e confirmassem sua fé.

Leitura temática sugerida:

Discussões de interpretação profética:


Gary Land, "The Perils of Prophesying-. Seventh-day Adventists Interpret World
War I", em Adventist Heritage, vol. 1, n° 1, janeiro de 1974, p. 28-33, 55 e 56, retrata a
armadilha da interpretação profética.
626 Arthur L. White, The Later Elmshaven Years (1982), vol. 6 de Ellen G. White, cap.
19, descreve a attitude de Ellen G. White para com as discussões doutrinárias com
ênfase no "diário".
Gilbert M. Valentine, The Shaping of Adventism (1992), cap. 13, analisa o debate
doutrinário conforme envolveu W. W. Prescott, enfatizando o "diário".
Calvin W. Edwards e Gary, Land, Seeleer After Light: A. E Ballenger, Adventism, and
American Christianity (ao escrever-se este livro o trabalho ainda estava em preparo), é
uma descrição incisiva de A. E Ballenger e suas lutas doutrinárias.
Bert Haloviak com Gary Land, "Ellen G. White & Doctrinal Conflict Context of
the 1919 Bible Conference", em .S.'pea5-um, vol. 12, n° 4, junho de 1982, p. 19-34, examina
tanto o panteísmo como o "diário" como um prelúdio à Conferência Bíblica de 1919.
Outras leituras:
Brad Bailey e Bob Darden, Mal Man in Waco (1993), é urna opinião não-adven-
tista sobre o desastre do Ramo Davidiano em Waco, com material adicional sobre
Houteff e a Vara do Pastor.
D. W. Reavis, I Remember (1933?), p. 117-120, é um relato pessoal da amizade com
D. M. Canright e uma opinião sobre sua apostasia.
Daniel Heinz, "Ludwig Richard Conradi: Patriarch of European Adventism", em
Adventist Heritage, vol. 12, n° 1, inverno de 1987, p. 17-24, narra as realizações desse intré-
pido aclventista que abandonou o aclventismo em favor dos batistas do sétimo dia.
George Knight, From 1888 to Apostary (1987), uma análise da deserção de
A. T. Jones.