Você está na página 1de 8

1.

ELEMENTOS ACIDENTAIS

1.1 CONCEITO

Conforme já discutido anteriormente, os elementos


acidentais são aquelas cláusulas que são acrescentadas ao negócio jurídico para
modificarem as suas conseqüências naturais.

Os elementos acidentais possuem o condão de modificar o


negócio jurídico de sua forma natural, e algumas das vezes, condicionam o início
de sua vigência, determinam situações em que deixará de ter existência, e assim
por diante.

São chamados, ainda, de elementos acidentais porque o


negócio jurídico se perfaz sem eles, ou seja, mesmo que no caso em concreto,
estes elementos não sejam pactuados no negócio jurídico, este existirá
independentemente da existência do elemento acidental, entretanto uma vez
apostos no negócio jurídico, tornam-se parte indissociável dele.

As determinações acidentais previstas legalmente e que


modificam os efeitos jurídicos do negócio jurídico são, o termo, o encargo ou
modo, e a condição. Entretanto isto não significa dizer que não podem existir
outros elementos acidentais que sejam criados pelas partes e não estejam
previstos na lei, as partes podem criar outros elementos desde que eles não firam
à ordem pública, os bons costumes, a moral, o ordenamento jurídico.

1.2 CONDIÇÃO

Condição é a cláusula que condiciona o negócio jurídico a


evento futuro e incerto, ou seja, o efeito parcial ou total do ato negocial fica
condicionado a um acontecimento futuro e incerto.

Art. 121. Considera-se condição a cláusula que, derivando


exclusivamente da vontade das partes, subordina o efeito do negócio
jurídico a evento futuro e incerto.

Para se configurar, no entanto, é necessário três requisitos


essenciais, quais sejam, a voluntariedade, a futuridade e a incerteza, pois não
será condição se apesar de acontecer depois de um lapso de tempo, for certo o
acontecimento do evento, e se não for aposto no negócio jurídico por vontade das
partes.

Para a configuração da condição é necessário que ela (a


condição) seja colocada no negócio jurídico de forma voluntária, ou seja, as partes
devem querer e determinar o evento, se não houver voluntariedade não há
condição, portanto e, por exemplo, a necessidade de que haja a morte do autor da
herança para que se dê a abertura do testamento, já que não é uma condição
voluntária, mas sim, legal.

Outra necessidade é que a coisa pactuada no negócio


jurídico, esteja dependendo de algum fator externo para se concretizar.

Não será condição se as partes pactuarem algo que já tiver


acontecido mais que não é do conhecimento dos contratantes, se isto ocorrer, na
verdade se configurará como sendo negócio jurídico pura e simples e não
condicional, já que a condição já se operou. Exemplo disso é o caso em que
alguém que tenha comprado um bilhete de loteria, prometa a outro que doará
parte de seu prêmio, caso tenha sido contemplado em sorteio que já se realizou,
mas que ele ainda não sabe o resultado.

No caso acima mencionado ter-se-á uma obrigação pura e


simples ou uma ineficaz, pois se ele tiver sido contemplado não haverá condição,
e apesar dele não saber se o direito já se incorporou ao seu patrimônio,
caracteriza-se como uma espécie de promessa de doação; e se ele não ganhou
não será eficaz.

O evento incerto, na condição, é impreterível, uma vez que a


pessoa quando a utiliza não pode, de maneira alguma, ter a certeza da ocorrência
ou não ocorrência da condição, sob pena de se configurar o elemento acidental
chamado de “termo” e não uma condição.

Condicionar, portanto, qualquer negócio jurídico à morte de


alguém, configura, na verdade, um termo, e não uma condição, uma vez que, a
única coisa que é certa, é que todos os seres humanos passarão por este estágio
que é a morte.

Exemplo, portanto, de condição, é o tio que promete doar ao


sobrinho um imóvel, quando ele se casar. É futuro e incerto porque o tio não sabe
se o sobrinho vai casar, e não sabe quando ele vai casar.
1.3 CLASSIFICAÇÃO DA CONDIÇÃO

1.3.1 Quanto à possibilidade

Quanto à possibilidade se classifica em física e juridicamente


possível e física e juridicamente impossível.

a) física e juridicamente possível: são aquelas condições que


podem ser realizadas tanto pela lei da natureza, como, também, pelas normas
jurídicas.

b) física e juridicamente impossível: são aquelas condições


que não podem ser realizadas tanto pelas leis da natureza, como, também, por
seu aspecto jurídico.

Serão contrárias às leis da natureza, nos casos, por


exemplo, que alguém condicione algum negócio jurídico, se alguém der a volta ao
mundo em 2 horas; ou se a pessoa beber toda a água do mar, etc.

Uma condição juridicamente impossível é condicionar algo


não admitido pelo direito, como, por exemplo, condicionar o pagamento de um
benefício caso a pessoa abra mãos dos direitos trabalhistas previstos pelo artigo
7º. da CF, como por exemplo, convencionar que se a pessoa nunca pedir para
tirar férias durante a relação de emprego, ela ganhará um carro quando terminar
seu contrato de trabalho, ou ainda, prometer a alguma criança de 12 anos que a
emancipará se ela realizar algum ato.

As condições física ou juridicamente impossíveis invalidam o


negócio jurídico nos termos do artigo 123, I, do CC.

1.3.2 Quanto à Licitude

Será possível condicionar um negócio jurídico desde que a


condição seja lícita, não contrária à moral, aos bons costumes e à própria lei.
Estas são as chamadas condições lícitas, ou seja, aprovados pelo ordenamento
jurídico, pelos usos e costumes e pela moral.
Por exemplo, prometer um carro ao filho caso ele passe no
exame de ordem.

As ilícitas são aquelas contrárias à moral, aos bons costumes


e à lei, e não terão validade alguma, caso privem por completo a liberdade do
indivíduo que está sob aquela condição. É o exemplo do condicionamento do
pagamento de dinheiro para que alguém mate uma pessoa; a promessa de
conferir benefícios para que a pessoa passe a se prostituir.

Contudo, as causas ilícitas podem produzir efeitos caso


somente diminuírem a liberdade da pessoa que precisa cumprir a condição para
ganhar o benefício, ou seja, quando somente limitarem parcialmente os atos dela.
Como, por exemplo, condicionar que alguém não se case com outra pessoa que
não seja de sua religião. Ela é imoral, mas não chega não produzir efeitos, pois a
pessoa tem uma liberdade de escolher com quem quer se casar dentro das
pessoas da própria religião.

Art. 122. São lícitas, em geral, todas as condições não


contrárias à lei, à ordem pública ou aos bons costumes; entre as
condições defesas se incluem as que privarem de todo efeito o
negócio jurídico, ou o sujeitarem ao puro arbítrio de uma das partes.

São lícitas as condições que a lei não proíbe. Defesas, as proibidas.


Incluem-se entre estas as que privam de todo efeito o negócio, ou o
sujeitam ao arbítrio exclusivo de uma das partes, ditas estas puramente
potestativas.

As condições defesas comportam a subdivisão seguinte:

a) condições ilícitas propriamente ditas (ex.: prometo a alguém dinheiro


se matar outrem);

b) condições imorais (ex.: prometo a alguém dinheiro se praticar com


outrem atos libidinosos);

c) condições impossíveis (ex.: prometo a alguém dinheiro se puser o


dedo no céu – si digito coclum tetigeris), conforme sejam contrárias à lei,
aos bons costumes ou à ordem pública, ou jamais possam realizar-se.

Entre as condições ilícitas incluem-se as que privam de todo efeito o


negócio.
A condição imoral tanto pode ser contrária à ordem pública, num de seus
princípios – como, v.g., o da liberdade de casamento –, como aos bons
costumes. Para que se considere defesa é preciso que a imoralidade
seja exigida por aquele a quem favorece. Se cometida por terceiro, a
condição não é proibida.

As condições ilícitas também invalidam os negócios jurídicos.

1.3.4 Quanto à Participação da Vontade dos Sujeitos

a) Causal: a condição será causal quando não depender da


vontade humana, ou seja, quando seu acontecimento depender de eventos da
natureza, de casos fortuitos ou força maior. São aquelas que dependem do acaso,
não estando de qualquer modo dentro do poder do credor ou do devedor.

Por exemplo: condicionar a doação de R$ 100,00 a alguém,


caso chova na segunda-feira dia 17 de março.

No exemplo, os efeitos ficam condicionados a ocorrência de


um fato da natureza.

b) Potestativa: é a que depende da vontade de uma das


partes.

Podem ser meramente ou puramente potestativas.

Serão puramente potestativas, a condição fica condicionada


ao arbítrio ou capricho de somente um dos agentes, sem influência de qualquer
fator externo, vez que o próprio agente pode condicionar e manipular o negócio
jurídico em seu favor. Esses tipos de cláusulas não são válidas no ordenamento
jurídico.

Exemplo de condições puramente postestativas é o caso, por


exemplo, de condicionar um benefício para terceira pessoa, se ela usar
determinada roupa no outro dia.

Serão meramente ou simplesmente potestativas quando


dependerem da prática de um ato ou de certa circunstância, e não de um mero
uso do arbítrio das partes, ou seja, a condição apesar de depender da vontade
das partes, fica condicionada a evento exterior.

Exemplo, prometer a um cantor de ópera um determinado


prêmio se ele desempenhar sua função no espetáculo de forma ilustre.

Dar-te-ei um carro se fores para Roma até junho de 2009


(precisa ter tempo e dinheiro para ir para Roma).

As decisões meramente potestativas são aceitas pelo direito.


Eis algumas previsões legais de meramente potestativas: Artigo 509 CC, art. 420
CC.

c) Condição mista é a que depende, ao mesmo tempo, da


vontade de uma das partes e do acaso ou da vontade de terceiro.

Por exemplo: a promessa de doação de um bem se ela casar


com determinada pessoa, ela é condicionada ao arbítrio das partes e de terceiras
pessoas. Ou ainda, dou-te R$ 1.000,00 se abrires sociedade com fulano (depende
de sua vontade e tb do fulano para que tenham um sociedade).

1.3.5 Quanto ao modo de atuação

Pode ser suspensiva e resolutiva.

Será suspensiva sempre que o negócio jurídico ficar


suspenso até o implemento, a realização da condição.

A pessoa na verdade, sob a condição suspensiva, não


recebe o direito, ela só tem mera espectativa do direito, pois se a condição não se
verificar, o negócio jurídico não existirá.

Exemplo: promete comprar um cavalo se ele ganhar a


corrida do jóquei, promete doar algo a alguém se ela se casar.

Com exceção dos casos em que se tratar de direitos reais, a


eficácia do negócio jurídico retroage ao momento da celebração, ou seja, ao
momento em que determinaram um negócio jurídico com cláusula suspensiva.
Nos direitos reais a implementação da suspensão não faz
retroagir o negócio jurídico há época de sua celebração, isto porque a
transferência da propriedade somente se opera após a entrega do objeto sobre o
qual versa a condição, ou ainda, com a entrega da escritura pública.

A única possibilidade de existir efeitos retroativos com


relação à condição suspensiva nos direitos reais, é se constar no registro
hipotecário, ou no local onde se encontra depositado o documento que garante a
propriedade, a existência da cláusula resolutiva expressa que pesar sobre aquele
determinado objeto.

Não é possível que alguém tenha realizado negócio jurídico


com condição suspensiva, e enquanto esta estiver pendente realizar outro negócio
jurídico com o bem, uma vez que se for operada a condição, será considerado
nulo o negócio jurídico posteriormente realizado.

Exemplo: A promete doar a B um objeto, sob a condição de


que ele seja aprovado no vestibular da FAG, mas enquanto pende a condição, a
aliena a C o bem, será nulo este contrato de compra e venda.

É importante ressaltar, ainda, que os atos de administração


praticados por aquela pessoa sobre a qual pende a condição durante o período
em que não tiver sido implementada, na verdade correm sobre sua conta e risco,
uma vez que a condição pode ou não se realizar.

Ou seja, se alguém receberá um apartamento em doação


caso se case, ele pode reformar este bem antes de implementada esta condição,
contudo se ela não se operar, ele não pode reclamar as benfeitorias, pois correu
sobre sua conta e risco.

Art. 125. Subordinando-se a eficácia do negócio jurídico à


condição suspensiva, enquanto esta se não verificar, não se terá
adquirido o direito, a que ele visa.

Art. 126. Se alguém dispuser de uma coisa sob condição


suspensiva, e, pendente esta, fizer quanto àquela novas disposições,
estas não terão valor, realizada a condição, se com ela forem
incompatíveis.

A Condição será Resolutiva se a sua ineficácia se


subordinar a evento futuro e incerto.
Na condição resolutiva a pessoa pode gozar e fruiu de todos
os benefícios do negócio jurídico, contudo, se a condição de ineficácia se operar,
extinguirá o negócio jurídico.

Exemplos: Comprar uma casa em 12 parcelas, ficando


condicionado que a transferência do bem só se dará com o cumprimento de todas
as parcelas. A pessoa que comprou o bem pode usar e gozar dele, contudo, se
não realizar o pagamento de todas as parcelas, o bem não será transmitido para
propriedade dele.

Outro exemplo, ceder uma casa a alguém enquanto a


pessoa for solteira, se ela se casar, extingue-se o direito.

Art. 124. Têm-se por inexistentes as condições impossíveis,


quando resolutivas, e as de não fazer coisa impossível.

Art. 127. Se for resolutiva a condição, enquanto esta se não


realizar, vigorará o negócio jurídico, podendo exercer-se desde a
conclusão deste o direito por ele estabelecido.

Art. 128. Sobrevindo a condição resolutiva, extingue-se, para


todos os efeitos, o direito a que ela se opõe; mas, se aposta a um
negócio de execução continuada ou periódica, a sua realização,
salvo disposição em contrário, não tem eficácia quanto aos atos já
praticados, desde que compatíveis com a natureza da condição
pendente e conforme aos ditames de boa-fé.