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08/10/2019 A batalha final | Política | Valor Econômico

Política
Por Bruno Carazza
Professor do Ibmec, mestre em Economia e doutor em Direito. É servidor público federal (licenciado)
da carreira de Políticas Públicas e Gestão Governamental

A batalha final
Uma reportagem e dois livros explicam para onde vamos

07/10/2019 05h00 · Atualizado há 22 horas

Em maio de 2016 a Operação Lava-Jato estava na sua 29ª fase, quando prendeu
João Cláudio Genu. Velho conhecido dos tribunais - havia sido condenado no
mensalão -, dessa vez o ex-tesoureiro de campanhas do PP (hoje Progressistas)
recebia a visita dos homens da Polícia Federal por ter organizado a distribuição do
dinheiro desviado da Petrobras para os políticos do seu partido.

Àquela altura, a operação estava a pleno vapor. Nas semanas anteriores, Moro
condenara Marcelo Odebrecht; o ex-presidente Lula havia sido alvo de um
mandado de condução coercitiva para explicar seu relacionamento com o
megaesquema de corrupção; a PF acabara de descobrir a central de propinas da
maior empreiteira do país; e o marqueteiro João Santana, responsável pelas
campanhas presidenciais do PT, teve sua prisão decretada.

· Lewandowski força decisão de prisão em 2ª instância

Naquele maio de 2016, tudo levava a crer que o Brasil estava virando uma página no
seu histórico de leniência com a corrupção. Nas bancas de revista, porém, a revista
“Piauí” trazia uma longa reportagem de Rafael Cariello descrevendo a Operação
Mãos Limpas, na Itália. O texto não fazia qualquer referência à Lava-Jato, mas os

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paralelos eram evidentes: os métodos inovadores empregados pelos procuradores


(“Os Intocáveis”, segundo o título da matéria), o ativismo judicial para combater um
sistema político corrompido por coalizões partidárias com fortes conexões com as
maiores companhias estatais e privadas do país e o massivo apoio da população às
ações que levaram à prisão figuras importantes do PIB e do Parlamento.

Mas a grande sacada no texto de Cariello foi explicitar o ponto de virada naquela
história: a perda de suporte popular e as ações legislativas e judiciais que levaram a
um fim melancólico àquela que até então era a maior ação anticorrupção já
empreendida no mundo. Organizado por Maria Cristina Pinotti e lançado no início
deste ano, o livro “Corrupção: Lava-Jato e Mãos Limpas” dá voz aos principais
protagonistas desta história para explicar o subtítulo da matéria da “Piauí” de três
anos atrás: “Como um grupo de procuradores combateu a corrupção na Itália - e
acabou derrotado”.

No livro, os magistrados Gherardo Colombo e Piercamillo Davigo - que j unto a


Antonio di Pietro estiveram à frente do exército de Brancaleone que prendeu quatro
ex-primeiros-ministros e centenas de parlamentares - explicam como sua atuação
passou a ser criticada publicamente, numa disputa de narrativas quanto aos reais
interesses da investigação. Paralelamente, a aprovação de uma série de leis e
decisões judiciais amarrou as mãos do sistema anticorrupção: regulação do abuso
de autoridade, impossibilidade de utilização de provas obtidas em processos
conexos, afrouxamento do crime de falsificação contábil, redução dos prazos
prescricionais.
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Numa tragédia anunciada pela experiência italiana, o Brasil trilha os mesmos


caminhos. O erro estratégico de Sergio Moro em aceitar o convite de ser ministro de
Bolsonaro não apenas lançou dúvidas sobre os interesses políticos dos
protagonistas da Lava-Jato, como rebaixou seu status, de protagonista no combate à
corrupção a refém de um governo que a cada dia dá maiores mostras de falta de
comprometimento com essa causa. Para piorar, a divulgação das trocas de
mensagens entre os integrantes da força-tarefa e o ex-juiz pelo “The Intercept Brasil”
gerou a oportunidade perfeita para os estamentos político e jurídico se
movimentarem. No Congresso, a aprovação da lei contra o abuso de autoridade e
da reforma eleitoral abriram brechas para perseguições políticas e uso de caixa dois
em campanha.

Mas no momento as maiores manobras se encontram no extremo sul da Praça dos


Três Poderes. Como destaca o próprio Sergio Moro na obra sobre os paralelos entre
as operações Lava-Jato e Mãos Limpas, o Supremo Tribunal Federal vinha tomando
medidas importantes contra a criminalidade no alto escalão político e econômico
desde o fim dos anos 1990. Começou com a reversão da jurisprudência que
autorizava o foro privilegiado continuado (até 1999 o STF entendia que os políticos
poderiam continuar a ser processados nos tribunais superiores mesmo após o fim
do mandato) e avançou ainda mais com a condenação de importantes políticos e
suas conexões nos setores publicitário e financeiro na famosa AP nº 470 (mensalão).

Mas a decisão que realmente mudou o jogo na Lava-Jato veio em 2016, no


julgamento do HC nº 126.292, quando numa decisão apertadíssima o plenário do
STF recuperou seu antigo entendimento (vigente até 2009!) de que era possível o
início do cumprimento de pena após o julgamento em segunda instância.
Combinada com a introdução da delação premiada, essa decisão mudou os

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incentivos para os investigados, induzindo-os a colaborar com a Justiça em vez de


apostar em recursos infindáveis até a prescrição redentora.

O passado da Lava-Jato e o futuro do combate à corrupção no Brasil dependem do


julgamento sobre a constitucionalidade da execução da pena em segunda instância.
De um lado, perfilam-se os defensores das garantias constitucionais da presunção
de inocência até o trânsito em julgado; de outro, alinham-se os combatentes da
impunidade assegurada pelos tortuosos caminhos do direito processual penal,
habilmente manobrados por bancas de advogados milionárias.

Entre os polos garantista e punitivista, os ministros do STF se posicionam para a


batalha final da Lava-Jato. Mas não se trata de uma decisão estritamente técnica. No
imperdível “Os Onze: o STF, seus bastidores e suas crises”, os jornalistas Felipe
Recondo e Luiz Weber expõem como as autoridades máximas de nosso Poder
Judiciário mudam de posições e se valem de regras regimentais conforme a pressão
popular e suas conexões políticas num jogo de poder que vai muito além de
interpretações jurídicas do texto constitucional.

O futuro do combate à corrupção no Brasil repousa nas mãos de 11 ministros com


visões, interesses e afinidades políticas que se orientam segundo a ocasião e a
oportunidade.

Bruno Carazza é mestre em economia, doutor em direito e autor de “Dinheiro,


Eleições e Poder: as engrenagens do sistema político brasileiro”. Escreve às
segundas-feiras

E-mail: bruno.carazza@gmail.com

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