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E Agora, Rafa?

Margarida Fonseca Santos e Maria João Lopo de Carvalho

Oficina do Livro

Digitalizado e Revisto

Asc

Paginação – rodapé

Número de páginas 155

Este livro foi digitalizado para

ser lido por deficientes visuais

Tantas são as emoções no Rafa, como tantos são os irmãos Machado que nesta história o
acompanham na aventura difícil que tem pela frente. Aos onze anos, o minicraque

de futebol perde o pai e tem de aprender a ser o homem da casa. Porém, a casa do Rafa torna-se
numa casa triste, quando a tristeza era uma palavra que, até aí, não

fizera parte do seu dicionário. Como voltar a apagá-la das paredes, do coração e da vida? A
resposta está na força incrível dos irmãos Machado, na escola, no futebol

e na capacidade de algumas histórias nos fazerem voar por cima das coisas más. É verdade que
há sempre alguém especial e há sempre ideias especiais vindas de quem

menos se espera… O Rafa vai descobrir por si próprio que esse alguém e essas ideias o farão
sentir-se a pessoa mais importante do mundo. Como? Só mesmo provando

a receita infalível de quem nunca desiste de surpreender tudo e todos à sua volta.

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www.oficinadolivro.pt

Ficção Infantil-Juvenil

PLANO NACIONAL DE LEITURA

Os Sete Irmãos – nº 11

Margarida Fonseca Santos Maria João Lopo de Carvalho

E Agora, Rafa?
Oficina do Livro

(c) 2012, Margarida Fonseca Santos, Maria João Lopo de Carvalho e Oficina do Livro,
Sociedade Editorial, Lda.

uma empresa do grupo LeYa

Rua Cidade de Córdova, 2

2610-038 Alfragide

Tel.: 214 272 200,

Fax: 214 272 201

E-maih info@oficinadolivro.leya.com

Título: E Agora, Rafa?

Texto: Margarida Fonseca Santos e Maria João Lopo de Carvalho

Revisão: Oficina do Livro

Composição: Maria João Gomes

Capa: Maria Manuel Lacerda/Oficina do Livro, sobre ilustração de Pedro Morais

Impressão e acabamento: Eigal

1ª edição: Outubro de 2012

ISBN: 978-989-556-014-1

Depósito legal: 348 041/12

1.

Hum…

Tem de ser, a Cristina disse que era muito importante. Vá lá...

Olá! Eu sou o Rafa. Parece que é bom escrevermos sobre o que nos vai na cabeça, e é isso que
estou a fazer. Comprei este bloco para…

Bolas! Pareço uma menina a escrever um diário. Que raio de ideia!!! Bom, não é bem assim,
tenho amigos que também escrevem o que pensam – chamam-lhe diário de bordo.

Também é estúpido! Não estou a bordo de nada, estou sentado na minha cama, dentro do meu
quarto, em minha casa, em Santarém. Vivo muito pertinho das Portas do Sol,
mas aqui dentro de mim parece tudo mais Portas da Noite, ou do Inferno, sei lá, qualquer coisa
assim negra. Se quisermos chamar a esta casa um barco, talvez possa

dizer-vos que está a naufragar.

A minha casa é agora um sítio onde nunca me apetece estar. Porquê? É simples, ou melhor, é
complicadíssimo.

-9–

O meu pai e a minha mãe tiveram um acidente de carro. A minha mãe ficou mais ou menos, o
meu pai não. Morreu. E sei que não morreu só ele: acho que um bocadinho

de mim também desapareceu naquele dia, e em relação à minha mãe nem se fala. Parece-me que
chora sempre que não estou ao pé dela. Quando estamos os dois, só funga

e abraça-me. Aperta-me tanto que às vezes penso que, se isto continuar assim, acabo com os
ossos feitos em picado.

Onde é que eu queria estar? Sem hesitar nem um bocadinho, digo-vos que queria estar em casa
do Miguel Machado. Que família!!! O Miguel é o meu treinador no Desportivo

de Santarém, e esteve sempre ao pé de mim na noite em que tudo aconteceu. Acho que sou um
bocadinho irmão do Miguel; quer dizer, é assim que me sinto. O Miguel não

precisa de mim, tem imensos irmãos!

A Maria é a mais velha, e já é tão velha que estuda em Lisboa, assim como o namorado. Ela quer
ser advogada. Tem 19 anos, imaginem! Aqui há uns dias houve uma bronca

enorme. Parece que o João Pedro, o tal namorado, está em riscos de sair de Portugal. Foi uma
confusão, a Maria anda mesmo zangada.

Logo a seguir é o Miguel, com 18. É um supercra-que do futebol, nem imaginam. Já foi aliciado
para ir para o Barça e agora vai para a seleção sub-21! É um herói,

o Miguel!

Depois há a Mónica, que tem 16 anos e é uma rapariga muito gira, para rapariga, quero eu dizer.
Não é nada

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assim como as outras, está sempre a jogar futebol, ou a andar de bicicleta, nunca para quieta. E
também é muito querida; foi ela quem me deu mais atenção naquela

noite, a seguir ao Miguel, claro.

Depois, é a loucura total! Conseguem imaginar dois gémeos tão diferentes, tão diferentes, que
mais parecem polos opostos? São os desta família. A Mariana tem muitas

ideias, mas nem sempre lhe correm bem; o Manel é um cromo que sabe tudo. Ou seja, ela faz
asneiras, ele baralha-se; olhem, é um filme!

A seguir vêm mais duas miúdas – há muitas miúdas lá em casa! – a Margarida, que é da minha
idade, e a Madalena, minúscula, que ainda só sabe ser engraçada, que faz

beicinho quando se chateia, que anda no triciclo dentro de casa e atropela o pobre Mister quando
ele está distraído. Ah, o Mister é o cão.

Ainda há lá em casa a Alice, que parece ser a mãe de todos, é verdade, e os pais, que são sempre
megassimpáticos para mim. Imaginem que até combinaram que eu podia

passar lá fins de semana, para não ficar tão triste e sozinho. São cinco estrelas. Não, são mil
estrelas!

Se me perguntassem onde queria morar, eu dizia que era lá em casa, mas se calhar estou a ser
muito injusto. A minha mãe, apesar de ser terapeuta da fala e de ter

muitas consultas todos os dias, diz que se sente só e desamparada – também precisa de mim,
também perdeu o marido, também está a sofrer. Os meus tios vêm cá várias

vezes, vivem

- 11 –

perto, e estão sempre a dizer-lhe: “Tens de reagir, Helena, tens de reagir, olha o Rafael,
vamos…” Não sei se adianta, mas lá vão repetindo isto. Como podem calcular,

passo a semana a pensar na sexta-feira.

Hum… Continuo sem escrever nada.

Gostei dela, não posso mentir. Chamam-lhe doutora Cristina, eu só lhe chamo Cristina e trato-a
por tu, foi ela que quis assim. Parece que terei de ir lá ao consultório

sempre às quartas-feiras. Não me importo, gosto de conversar com ela. Esta ideia de escrever no
caderninho é que me irrita um bocado, mas a Cristina, quando me queixei

disto, só sorriu e disse que era normal. Pediu-me que fosse tentando. Só devo conseguir escrever
coisas parvas, parece-me.

Devia anotar, à noite, três coisas boas que me aconteceram por dia. Nem sempre consigo. No
entanto, quando estou com o Miguel, lembro-me de como é bom ser treinado

por ele. Até já me deu algumas dicas para descobrir mais coisas para escrever no caderninho,
mas quando volto para casa é sempre mais difícil. A mãe chora, eu sinto
saudades até dos ralhetes do pai, e conversamos muito pouco.

Hoje, as coisas boas foram: fui ao treino e marquei muitos golos; aprendi a rematar com o pé
esquerdo; o Miguel esteve com o braço nos meus ombros enquanto explicou

a tática que íamos aplicar.

Não me lembro bem do resto do dia. Acho que não ouvi nada nas aulas. Apetecia-me que tudo
voltasse atrás, que não

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tivesse acontecido nada. Sei que não pode ser. Hoje não escrevo mais nada.

A porta do quarto do João Pedro abriu-se. Sabia quem vinha lá, nem precisava de fazer um
grande esforço, mas também estava decidido a não abdicar da sua vida com

a Maria. Resolveu esconder debaixo dos livros as informações sobre empregos em Lisboa.
Respirou fundo, cerrou os dentes e virou-se na cadeira. A mãe já estava sentada

ali ao lado, torcendo as mãos de nervoso. O João Pedro agarrou-as, sempre em silêncio, não tinha
coragem de olhar para ela. Sabia que tudo lhe estava a custar tanto

a ela como lhe custava a si próprio. O pai não cedia, e ele também não ia ceder. Foi a mãe que
tomou a iniciativa de falar:

- Não consigo demovê-lo, João Pedro, não consigo.

- E espero que também saiba que não me convence a mudar de opinião, mãe. Eu não vou voltar a
trocar de país, como de costume. Passei a vida nisso. Agora chegou a

altura de eu decidir o que quero e sei que não vou para Brasília, não vou abandonar os estudos
em Lisboa e, mais importante, não vou abandonar a Maria.

Só nesse momento foi capaz de olhar para a mãe. Via como ela sofria com tudo o que estava a
acontecer, mas também tinha a certeza de que a mãe o apoiava.

- 13 –

Depois de toda uma adolescência passada em países diferentes, sempre sujeito às colocações do
pai, um diplomata de carreira, o João Pedro estava agora cansado de

começar do zero, de perder as amizades, as ligações aos sítios. Se voltasse a sair de Portugal, fá-
lo-ia com a Maria, estariam casados e unidos num projeto a dois.

- Tens a certeza, não tens?


- Não faça isso… A mãe sabe o que eu penso.

- Mas ainda há pouco tempo vocês se zangaram, lembras-te? Quando a Maria quis ir fazer o
Erasmus.

- Isso foi estúpido da minha parte, claro que a Maria pode ir viver para fora. A única diferença é
que agora nós decidimos que vamos juntos. O pai não me entende!

- Estás a ser injusto, João Pedro!

- Eu? Injusto?!

Nunca a mãe o vira tão alterado. O rapaz andava agora pelo quarto, tinha-se desprendido das
mãos dela quase com raiva. Assustada, a mãe levantou-se também, tentou

que ele olhasse para ela, que falasse tudo, e isso aconteceu de uma forma muito mais forte do que
esperava:

- Estou farto, mãe, farto! O pai nunca está cá, e depois arrasta-nos para outro país e continua a
nunca estar connosco. A carreira do pai é mais importante do que

nós, não vê? Ele quer mandar em mim, não percebe que eu já tenho idade para decidir o que
tenciono fazer.

Chegando-se à secretária, o João Pedro agarrou nos vários papéis que imprimira com
informações sobre trabalhos

- 14 –

em part-time e mostrou-os à mãe, sem sequer reparar que os olhos dela se enchiam de lágrimas,
estava tão chocada.

- Mas não é preciso nada disto… – balbuciou. – Nós mandamos-te dinheiro se ficares cá, se o pai
te deixar ficar cá, quer dizer, nós…

- Mãe, oiça! – O João Pedro tinha as mãos pousadas nos ombros dela e olhava-a de frente. – Eu
fico. É uma decisão minha. Vou trabalhar para me sustentar. Não interessa.

Eu quero casar com a Maria, se o pai não entende isso, não há problema. Agora nem pensem que
depois me vão dizer que foram vocês que pagaram tudo e que eu fui um…

Como é que o pai diz? Um caprichoso. Eu sei tratar de mim!

- Eu não aguento isto! – E a mãe voltou a sentar-se e chorou. – Eu sei que tu tens de ficar, eu sei,
mas não faças isto assim. Somos os teus pais…!

- Mãe, se são realmente meus amigos, deixem-me seguir a minha vida. Eu sei o que quero. Eu
vou ficar.
*

- Olá! – cumprimentou a Mónica, acabadinha de chegar das aulas. – Ficas connosco este fim de
semana? Ótimo!

E, dando um abraço forte ao Rafa, a Mónica correu para a cozinha, seguida de perto pelo Mister,
que não parava de saltar para lhe lamber as mãos. Do fundo do corredor,

espreitou para a entrada e sorriu:

- 15 –

- Vais estacionar aí, Rafa? Anda, lanchamos juntos!

Na mesa da cozinha estava a cesta do pão, a manteiga, um pouco de marmelada e leite. Com
alguma cerimónia, o Rafa entrou e sentou-se num dos bancos. Logo de seguida,

entrou o Manuel e a Madalena.

A Mónica foi lavar as mãos no lava-loiças, o que deixou a Alice muito zangada:

- Então?! Não vê que estão aí as nabiças? Ai, esta menina… Saia daqui, vá comer, ande! Olhem
para isto!

- Que tal a semana, Rafa? – quis saber o Manuel.

- Como de costume, uma seca…

- Não tiveste futebol?

- Tive, claro, se não fosse o futebol e a Cristina, acho que morria.

- Quem é a Cristina? – perguntou a Madalena. -É a tua namorada, é...?

- Não, Madalena, é uma senhora que… que… -O Manuel estava atrapalhado.

- Podes dizer, não tem importância – esclareceu o Rafa. – Olha, Madalena, é uma espécie de
doutora para a cabeça.

A Madalena franziu o sobrolho. Não lhe parecia que o Rafa estivesse com alguma ferida na
cabeça. Esticou o dedo e disse:

- Estás a mentir!

Um bocado de pão foi tapar-lhe a boca, e dessa forma a Mónica deu por terminado o assunto.
Depois, disparou:

- 16 –
- Soubeste, Alice, o que aconteceu à Rita?

- A namorada do Miguel? – O Rafa queria ter a certeza de que acompanhava a conversa. –


Aquilo do concurso de contos?

- A menina Rita concorreu a um concurso de contos? Ela gosta de escrever?

- Não estás bem a ver, Alice, nem o Miguel sabia! – esclareceu a Mónica. – E não é “concorreu”,
ela ganhou!

- Alto e para o baile! – pediu o Manuel. – A Rita?! Ela escreve e não disse a ninguém?! Foi ela
que ganhou os jogos florais de Vale de Nabais?

- Exato – confirmou a Mónica. – Tinha de se escrever um conto fantástico, assim com coisas
estranhas, e ela concorreu sem falar com ninguém, enviou, esperou caladinha

e telefonaram-lhe hoje à hora do almoço. Ficou histérica!

- O Miguel também – disse o Rafa, mostrando uma mensagem no telemóvel, enviada às duas da
tarde. -Como não respondi logo, enviou outra vez, três segundos depois.

As cabeças juntaram-se para ver a mensagem: “Man, a Rita ganhou um concurso de contos, não
é o máximo?!” Logo a seguir, outra igual, com a pequena diferença de ter

mais pontos de exclamação.

- É um troll – O Manuel abanava a cabeça. – Como é que ela nunca nos contou nada? Vai ter de
nos mostrar o conto, ai vai, vai!

- 17 –

- O que eu acho estranho é o Miguel não saber que ela escreve… – pensou alto a Mónica.

- O Miguel o quê? – disse o irmão mais velho, entrando e roubando, sem cerimónia, o pão tão
cuidadosamente preparado pelo Manuel.

- Ei! Esse é meu!

- Era, maninho, era… Claro que sabia que a Rita escrevia, julgam que sou parvo?

Tanto a Mónica como o Rafa fizeram uma careta, mostrando que não tinham bem a certeza se ele
era, de facto, parvo, mas isso nem irritou o Miguel. Roubava agora o

leite da Madalena.

- É meu! – resmungou a irmã, ficando logo calada. Assim que o Miguel lhe pegou ao colo e a
encheu de beijos, já só conseguia sorrir. – O leite é meu…

- Mas dás ao teu mano querido, não dás?


- Vou vomitar, com tanta lamechice – suspirou a Mónica. – Até logo!

- A menina vai sair outra vez?

- Vou, Alice, preciso de ir buscar uns apontamentos a casa do Filipe. Tenho teste na terça, e os
que ele fez no ano passado são fantásticos. Queres vir, Rafa?

O rapaz ficou sem ação. Não estava à espera de ser convidado a ir com a Mónica, mas depressa
se pôs de pé, sacudindo as migalhas. Correu atrás dela, pegou na trela

do Mister, ainda antes de ela lho ordenar, e vestiu o casaco. Iam os três.

- 18 –

O Mister começava a gostar daquela presença lá em casa. Parecia até que tinha adotado o Rafa
como seu protegido, pois se alguém lhe fizesse cócegas, ou o empurrasse,

tinham de lhe ver os dentes e ouvir as rosnadelas. Ir pela trela com ele era um delírio.

Quando estavam quase a chegar a casa do Filipe, a Mónica perguntou-lhe:

- Como é que estás?

- Não sei.

- Não sabes? Pois eu acho que estás melhor do que na semana passada.

- É?!

- Hum, hum… A tua mãe?

- Suspira, suspira… E fica muito tempo a olhar para as roupas do pai, diz que não tem coragem
de as dar. É preciso?

- É preciso o quê, Rafa?

- Dar as roupas das pessoas que morrem?

A Mónica sentiu-se atrapalhada.

- Agora sou eu que não sei. Se calhar, guardam-se assim umas especiais. Tu não gostavas de
ficar com algumas coisas do teu pai?

- Queria. Um casaco de lã, que ele usava sempre no inverno quando estava em casa; e o pijama
que nós lhe oferecemos há dois anos…
- 19 –

- E já disseste isso à tua mãe?

- Não, deve chorar muito.

Continuaram a andar, mas a Mónica pensava no assunto.

- Sabes? Eu acho que é melhor dizeres-lhe isso. Talvez ela ganhe coragem de fazer o mesmo,
escolher e dar o resto. É capaz de ser mais fácil.

- Acho que nada vai ser fácil…

A Mónica abraçou o Rafa e deu-lhe um beijo na cara. Sorriu-lhe e, ainda com o braço a segurá-lo
pelos ombros, continuou a andar. O Filipe viera esperá-los à porta,

com um ar bem-disposto, e convidou-os a entrar. Estava a lanchar.

- Nós já lanch…

O Rafa levou uma cotovelada da Mónica. Qual era o problema? Lanchariam de novo! Quem é
que resistia a um bolo de chocolate acabado de fazer?

- 20 –

2.

- O que é que tens aí, filho? Não está assim tanto frio para dormires com uma botija aos pés da
cama, Rafa!

- Não é nada, mãe, são cá coisas minhas…

Ao olhar melhor para a mãe, o Rafa deparou-se com o mesmo cenário de sempre: apagara o
sorriso da cara e no seu lugar desenhara uma boca sem expressão e umas olheiras

negras, muito fundas e tristes. Não tinha dúvidas: mais uma noite em que não pregara olho.
Felizmente havia alguns fins de semana em que ele não precisava de encarar

a mãe, nem os vizinhos, nem os tios. As noites em casa da família Machado eram tão
diferentes… parecia que o sol nunca se punha na Rua dos Girassóis!

Enquanto dava voltas na cama, entre lençóis e pensamentos, tentando ignorar a presença da mãe,
o Rafa não pôde deixar de sorrir. Seria por isso que a rua dos amigos

se chamava Rua dos Girassóis? Por haver sempre alguém a girar à volta do sol? Não era como
ali. Ali só havia sombras.

- 21 –
Sombras e mais sombras. Uma escuridão triste que inundava o quarto, a sala, a cozinha e a
marquise.

- Não é nada, mãe, já lhe disse.

A mãe insistia em destapar-lhe os lençóis e não tardou a encontrar a estranha botija do Rafa: um
novelo feito com o pijama que dera ao pai e o casaco de lã que ele

usava sempre que estava em casa. Era verde-ervilha, muito macio, e cheirava ao pai. Havia de se
lembrar daquele cheiro para sempre. A Cristina dissera-lhe que as

pessoas que morriam ficavam a viver nos corações das outras, desde que nos continuássemos a
lembrar delas. Até lhe falara em memórias vivas, se não se enganava.

Era mesmo isso que Cristina lhe dissera: “Mantém a memória viva.”

Mas a mãe parecia não querer saber das memórias vivas para nada. E pusera-se aos gritos com
ele, que não era possível ir mexer assim na roupa do pai, sem mais nem

menos, e sem sequer lhe dizer nada; que aquilo era uma afronta à memória do pai. Como é que
ele fora capaz de invadir o espaço do pai, se nem sequer ela tinha tido

coragem de abrir o armário? Estava muito alterada e as veias do pescoço ficaram tão visíveis ao
Rafael que lhe pareciam palhinhas de sumo… Depois calou-se por

instantes e de seguida desatou a chorar, deixando-se cair em cima da cama. O seu corpo
estremecia, sacudido por violentos soluços, e o Rafael não sabia mesmo o que

fazer. Olhava para um lado e para o outro, apertava com força as roupas do pai contra o peito e
engolia as lágrimas que teimavam em soltar-se-lhe dos olhos.

- 22 –

Não queria ver a mãe assim, e só lhe apetecia pôr-se a chorar também, mas de repente ouviu
dentro de si a voz do pai. Era uma voz grave, suave e pausada, como o

pai tinha quando queria ser ouvido: “Tens de tomar conta da tua mãe, Rafael; um dia vais ser um
homem e, quando eu já cá não estiver, terás de ser tu a olhar por

ela.” O rapaz saltou da cama como se tivesse uma mola por baixo do colchão. Muito bem, se era
essa a vontade do pai, tomaria conta da mãe! Se fosse mais nova, punha-a

de castigo, como via o pai Machado fazer à Madalena, mas como já era adulta, esse plano não
iria resultar.

Tossiu, limpou as lágrimas à manga do pijama que tinha vestido e, de dedo em riste, pôs-se a
ralhar com a mãe.

- Sabe uma coisa, mãe, eu fiz muito bem em ter separado o pijama que demos ao pai e o casaco
de lã de que ele mais gostava, e sabe porquê? Porque já é altura de

pegarmos naquilo tudo e de darmos a quem mais precisa! Já viu como andam maltrapilhos os
vizinhos do sexto? E os do rés do chão? Vamos, mãe, deixe-se de pieguices,

vá, levante-se, vá-se arranjar… Hoje só tenho aulas à tarde! Ajuda-me ou prefere que faça tudo
sozinho?

- Estás a gozar, Miguel, pode lá ser! – exclamou a Mariana, deitando fora a água que tinha na
boca, enquanto o irmão mais velho escovava os dentes. – E se tu te

despachasses

- 23 –

e me explicasses tudo? Não é normal eu ser a última a saber. Então a Rita ganhou um prémio e tu
não fazes nada? Aposto que lhe deste um beijo na testa, uma palmadinha

nas costas e já está... Mas isto não fica por aqui, e sou eu que vou preparar condignamente uma
homenagem.

- Já acabaste?

- Já acabei o quê? De lavar os dentes? É óbvio que sim. Não vês que me despacho muito antes de
ti? De ti e de todos! São cá uns molengões a lavar os dentes…

- Não é isso, parvinha, queria saber se já acabaste o teu discurso sobre o prémio da Rita.

- Não, claro que não! Aliás, só acabo quando te tiver contado a ideia que de repente me veio à
cabeça… Hum… – suspirou, enquanto limpava a cara à toalha de rosto

- pensando melhor, até tens razão! Não te vou dizer, nem a ti, nem a ninguém. O segredo é a
alma do negócio… vou preparar sozinha uma homenagem como deve ser,

vai ficar gaga de todo, coitadinha…

- Vai ficar o quê, Mariana? Passaste-te?

- Eh lá, maninho, já não se pode brincar, é?

- Não, não pode… Já devias saber que há certas coisas que não têm piadinha nenhuma.

- Como também não tem piadinha nenhuma terem-me escondido esse feito! Por isso: amor com
amor se paga!

Atirando a toalha à cara do Miguel, a Mariana pôs-se a correr pelo corredor, e ia de tal forma
apressada que

- 24 –

tropeçou no Mister. O pobre cão desatou a ganir com tanto afinco que parecia que a Mariana o
queria matar.

- Desculpa, Mister, não é nada contigo, tu também odeias injustiças, não é, Mister? A Rita ganha
e ninguém lhe faz uma homenagem – primeira injustiça; eu sou a última

a saber – segunda injustiça. Pois bem, a tua dona vai resolver mais estas duas injustiças! E como
não posso contar a ninguém, olha, conto-te a ti! Vem comigo!

O Mister pôs-se a abanar a cauda, batendo com ela ruidosamente no soalho do corredor. Depois
levantou-se e, como se tivesse percebido tudo, seguiu a Mariana.

Fizera-se luz na cabeça da gémea: se a Rita tinha escrito um conto e com ele vencera um
concurso, então a namorada do Miguel era famosa e ficaria ainda mais se todos

pudessem ler o conto; melhor, se todos o pudessem ouvir. Mal entrou no seu quarto, parou por
instantes e mudou de direção; tinha de ir à sala, precisava urgentemente

de falar com a Carolina no Facebook.

- Sai daí! – gritou para o gémeo, que estava concentradíssimo a teclar a toda a velocidade.

- Não saio, não, está na minha hora! A tua vez começa daqui a quinze minutos – constatou,
olhando para o relógio do computador.

Mas a Mariana não podia esperar, tinha de arranjar uma forma subtil de o tirar dali.

- Hum, pode ser… Ficas aí mais quinze minutos, não é? O suficiente para eu atacar as três
últimas bolachas

- 25 –

de chocolate que a Alice trouxe da pastelaria! Sabes quais são, Manel? Aquelas de manteiga e
chocolate que se derretem na boca? E hoje, então, estão uma delícia…

Aquela estratégia parecia-lhe infalível. O irmão, guloso como era, não iria resistir.

- Há alguma para mim? – perguntou, enquanto escrevia qualquer coisa no Word.

- Estás a fazer o quê, posso saber? – desconversou a Mariana, fmgindo-se desinteressada.

- A acabar o trabalho de História, como se vê! Aposto que ainda nem começaste…

- E dá-me ideia de que só vou começar depois de comidinhas, até à última migalha, as três
bolachas de chocolate.
- Isso é que era bom! – insurgiu-se o gémeo, saltando imediatamente da cadeira.

A Mariana riu-se à socapa. O plano resultara em cheio! Em instantes, foi às definições do


computador e adiantou a hora quinze minutos, mesmo a tempo de o fazer à

socapa. Alguns segundos depois, o Manuel voltou da cozinha e vinha furibundo.

- Enganaste-me, não há bolachas nenhumas!

- Que estranho… – respondeu a gémea, deixando que o Manuel voltasse a sentar-se à frente do
ecrã e retomasse o trabalho. – Alguém se adiantou… alguém tipo Mónica,

ou tipo Margarida, que chegou lá antes de ti… mas agora calha bem, está na hora de saíres daí
para fora.

- 26 –

- Impossível, Mariana, nem cinco minutos passaram, vais ter de esperar, tenho pena…

- Eu é que tenho pena de que te tenhas enganado nas horas! Estás a ver? – Apontou para os
números no canto inferior direito do ecrã. – O tempo voa mesmo… é impressionante!

Impressionante! – repetiu, radiante com a sua proeza.

- Pronto, está bem! Deixa-me só fazer um save. Mas digo-te que nunca vi quinze minutos
passarem tão depressa.

- Isso é o teu costume, maninho, embrulhas-te nessa seca do trabalho de História e nem dás por o
tempo passar. Vá, baza!

Tudo o que queria era apanhar a Carolina online. Entrou na sua página do Facebook, procurou a
Carolina, clicando em cima da foto em que a amiga estava agarrada aos

seus três gatinhos bebés, e escreveu: “A tua mãe está na Rádio Nabais, hoje? Responde depressa,
tenho uma ideia brutal!!!”

O Rafael entrou na escola de cabeça erguida. Não sabia bem explicar porquê, mas o facto de na
véspera ter conseguido convencer a mãe a arrumar as roupas do pai fizera

com que se sentisse aliviado. Era horrível que, passado aquele tempo todo, ainda fosse forçado a
ver o pente do pai na casa de banho e os chinelos ao lado da cama;

parecia

- 27 –
que o pai afinal podia chegar a qualquer momento. Depois de ter ralhado à mãe, como se fosse
ele que mandasse naquela casa, a mãe lá acabara por se convencer e,

pensando nos vizinhos, os dois separaram tudo por montes: a roupa usada, roupa muito velha,
roupa quase nova. Quem ficou radiante foi o senhor Antunes do sexto esquerdo:

a roupa do pai parecia feita por medida, servia-lhe que nem uma luva e, como estava
desempregado e já há muito tempo que não comprava nada, ficou tão emocionado

que até a mãe do Rafa o repreendeu:

- Credo, senhor Antunes, isto também não é nenhum tesouro, são só roupas usadas.

Para o Antunes aquilo era mesmo um tesouro, nunca tivera roupa tão boa. Não sabia como
agradecer tanta generosidade. E o mesmo aconteceu com os vizinhos do rés do

chão. Eram três rapazes, todos na casa dos vinte anos, e todos ainda a estudar. A mãe do Rafa
deu-lhes os polos do pai, algumas camisas e até os sapatos que estavam

praticamente novos. A dona Arminda, mãe dos rapazes, não se cansava de repetir a mesma
ladainha: “Deus lhes pague, Deus lhes pague.” Mas o Rafael só tinha uma ideia:

que ela desaparecesse depressa lá de casa; a dona Arminda cheirava sempre a laranja e o Rafael
detestava aquele cheiro forte que parecia ficar colado às roupas.

- Estou a ver que vens bem-disposto, hoje, Rafa, ou estarei enganada? – disse a professora de
Português, com um sorriso aberto, ao ver como o Rafael parecia ter

- 28 –

recuperado daquela tristeza em que mergulhara desde que o pai morrera.

- É que estive a escrever, setora. Também fiz umas arrumações com a minha mãe. Mas depois
peguei num papel e pus-me a escrever.

- Olha-me a menina…! – gritou um colega lá atrás.

- Também tens um diário, é? Que betinho me saíste! – dizia outro.

Ignorando os comentários tolos dos alunos, a professora prosseguiu, dirigindo-se ao Rafael.

- A escrever, Rafael? Temos homem! Sabes o que é que eu acho? Um rapaz só se torna homem
quando não tem medo de mostrar a sua sensibilidade. Escrever é, antes de

mais, um ato de coragem, ser capaz de passar as emoções para o papel é um ato de coragem e de
maturidade… Infelizmente, nem todos são capazes.

O burburinho causado pela afirmação do Rafael cessou de imediato. Aquele discurso da


professora de Português não fazia o menor sentido, sobretudo para os rapazes
que pensavam o contrário: só se tornariam homens à custa dos músculos, do buço que começava
a despontar e do sucesso que conseguiam junto das raparigas.

- Sabes o que é que as miúdas mais odeiam, Rafael?

- Não, setora – murmurou o rapaz, não sabendo bem onde é que aquela conversa ia chegar.

- Que os rapazes deem erros. Ainda no outro dia a minha filha, que tem mais ou menos a vossa
idade, me confessou

- 29 –

que não suportava que os rapazes trocassem os dois ss pelo c, chegou mesmo a zangar-se com
um colega porque achava inadmissível que lhe mandasse sistematicamente

mensagens cheias de erros, mesmo considerando o tipo de linguagem que se usa nas mensagens
escritas… Como eu sei, e vocês todos também, que só escrevendo muito

e lendo muito é que se pode evitar dar erros, devo dizer-vos que, de todos os rapazes, o que
escreve melhor é sem dúvida o Rafa; é raro dar um erro. Por acaso também

é o que melhor joga futebol aqui da sala. Uma coisa não é incompatível com a outra. Creio que
nisso concordam comigo.

Assim dizendo, a professora piscou o olho ao Rafael. Resultara. A sua filha era muito popular
naquela escola. Não apenas por ser GIRA, coberta de sardas e com o

cabelo ruivo, mas sobretudo pelo talento invulgar que tinha para o desenho. Fazia caricaturas tão
engraçadas dos colegas, que era impossível não se rirem. Ao usar

o exemplo da filha, bastava olhar para a cara dos alunos para perceber que tinha tocado no ponto
certo. Para além disso, todos os rapazes ali presentes sabiam bem

como o Rafa era perito em somar golos no clube de Santarém, onde jogava.

- Muito bem! E posto isto – continuou a professora -, alguém tem coragem de mostrar alguma
coisa que tenha escrito em casa?

Fez-se silêncio na sala.

- Eu, setora – disse, por fim, o Rafael estendendo um bloquinho à professora. – Só não gostava
que lesse alto, pode ser?

- 30 –

- Claro que não o farei, Rafa! São coisas tuas e, se as queres partilhar comigo, só posso ficar
orgulhosa com isso. Mais alguém? – Ninguém se mexeu, nem mesmo as

raparigas. – Pois bem, vamos então aproveitar o tempo que falta para escreverem o que vos vier
agora à cabeça.

- Ó setora, não vale – gemeu um. – Não me vem nada à cabeça.

- Que seca … Faltam vinte minutos, podíamos sair mais cedo!

- Estão cheios de razão. Vou dar-vos umas pistas. Façam um retângulo do tamanho de um
telemóvel grande e escrevam lá dentro isto: primeira frase, “Estava um vento

horrível!”; última frase, “Deixando tudo como estava”. Só sai mais cedo quem já entregou
qualquer coisa que tenha escrito. – Olhando para a turma toda, concluiu:

- Rafael, podes sair! Vais para o treino, não é?

- É sim, setora, mas ainda falta algum tempo, não preciso de sair já! Apetece-me ficar aqui a
escrever mais um bocadinho. O que é que eu vou fazer lá para fora,

sem os meus amigos? E isto até parece divertido!

- 31 –

3.

- O senhor vereador vem já – disse a funcionária, com um ar divertido.

Não era todos os dias que uma rapariga da idade da Mariana vinha pedir para falar com urgência
com o vereador da Cultura. Mas, sendo filha do Mateus Machado, conhecido

em Vale de Nabais por ter aquela enorme família, e pedindo ela que o assunto fosse tratado já
naquela tarde, o doutor Rodrigues estava cheio de curiosidade.

Respeitando as regras com imenso cuidado (regras inventadas naquele momento à pressa pela
funcionária, para dar dignidade à conversa), a Mariana foi chamada para

a sala de reuniões, onde esperou oito minutos, o tempo que o doutor Rodrigues achou ideal para
não aparecer cedo demais. Entrou, então, cumprimentando-a com um aperto

de mão e indicando-lhe a cadeira onde se devia sentar. A Mariana, assim que pôde, arrancou com
o seu plano.

- 33 –

- O assunto que me traz aqui é da maior importância – explicou. – E sabemos que será a pessoa
ideal para o levar a cabo.

- Eu?!

- Nem mais… Como deve saber, a Rita, namorada do meu irmão, ganhou o primeiro prémio na
categoria de conto, no concurso da autarquia.
- Desculpe interrompê-la, Mariana, mas devo dizer-lhe que, embora não estivesse nada
entusiasmado com isto de fazer parte do júri, eu mesmo votei no conto da Rita.

- Foi? Que bom! Então vai adorar o assunto que me traz aqui…

- É uma história divinal… Já leu?

- Pois, é isso mesmo que está a falhar. Não li, mas quero ler. E não pense que é ler assim só para
mim, não, quero lê-la na rádio. Seria muito interessante ajudar

a estimular a escrita e o gosto pela leitura.

A Mariana tentava a todo o custo encontrar as palavras “caras” mais adequadas ao momento.

- Isso é, para todos, um objetivo muito importante.

- Bem sei – continuou a Mariana, como se a sua vida tivesse sido sempre passada em reuniões
semelhantes. – Podemos atingi-lo fazendo um pequeno programa radiofónico

dedicado ao conto vencedor. Não lhe parece?

- Sim, não posso estar mais de acordo, mas o problema é que a autarquia não tem uma emissora
de rádio… Não sei como podemos fazer isto…

- 34 –

- Doutor Rodrigues, nem pense mais no assunto. – E, ensaiando a frase antes de a dizer, a
Mariana explicou, de forma teatral: – Eu tenho a solução!

- Tem…?!

- Antes de aqui vir, fui falar com a mãe de uma amiga minha, que é locutora na Rádio Nabais.
Apresentei-lhe esta proposta e ela ficou encantada. Está à espera de

que eu e mais dois colegas nos dirijamos à estação para gravar o programa, que irá para o ar
amanhã ou, o mais tardar, depois de amanhã.

- Ah, Mariana, mas isso são excelentes notícias! Partindo de lá a iniciativa, torna-se tudo muito
mais simples.

- Vê? Tudo afinado…

- Completamente afinado! Espere um segundo, vou já pedir para lhe darem o conto.

Ao ver o doutor Rodrigues sair porta fora, a Mariana mordeu os lábios. Só esperava que tudo
corresse como planeado. Não poderia falhar! A rapidez com que chegasse

à rádio podia ser decisiva. As pernas abanavam, impacientes. Foi então que o doutor Rodrigues
regressou, trazendo com ele o conto.
- Que boa notícia! Trouxe-lhe aqui o do escalão de adultos, querem-no com certeza, e o das
crianças, que é um mimo…!

- C-c-c-claro. Vou já tratar disto.

- Vou telefonar à Graça a agradecer-lhe – pensou alto o doutor Rodrigues.

- 35 –

- Não se incomode! Faço questão de contar à doutora Graça, que é mãe da minha amiga
Carolina, como ficou contente com a ideia dela. Quero contar-lhe de viva voz!

Agora, se não se importa, vou indo.

Despedindo-se à pressa, a Mariana correu feita louca até à estação da Rádio Nabais. Tudo
dependia agora do tempo. Olhando para as horas, pensou que podia deitar

tudo a perder por um minuto que fosse!

A porta da rádio, já esperavam por ela a Carolina e o Manuel, seus cúmplices na parte mais óbvia
– iriam ajudá-la a ler os textos. O Manuel preparara uma comunicação

a falar da importância da escrita e da leitura, que a Mariana reduzira a um terço, dizendo que era
tudo muito secante.

- Então? – quis saber a Carolina.

- Tenho-os aqui! – respondeu a Mariana, acenando com os contos. – Vamos ter de ler os três: o
nosso, quer dizer, o da Rita, o dos adultos e o dos minorcas, mas não

há crise!

Avançaram pela Rádio Nabais com a mesma segurança com que a Mariana entrara na autarquia.
Tudo se subordinava agora a uma atitude que não levantasse suspeitas de

espécie nenhuma. Ela seguia à frente, por razões óbvias – os outros estavam nervosíssimos!

Graça era uma mulher despachada. Recebeu os três com um sorriso simpático, mas logo passou à
ação. Estava curiosa!

- Contem lá o que precisam de mim.

- 36 –

- A convite do doutor Rodrigues, fomos escolhidos para pôr em prática uma ideia muito
interessante que ele teve. Fazer uma leitura dos três contos vencedores dos

Jogos Florais de Vale de Nabais e, desta forma, ajudar a promover a escrita e a leitura, essas
coisas. Ele pergunta se a Graça estaria na disposição de nos ajudar
a gravar o programa, para fazermos uma surpresa hoje ou amanhã a todos os nossos
conterrâneos. O que acha?

- Bem, acho estranho que ele não me tenha telefonado a perguntar, mas deve estar cheio de
trabalho.

- É, está cheio de trabalho – repetiu a Mariana, torcendo os dedos de nervoso. – E eu assegurei-


lhe que trataria de lhe explicar isso e de lhe agradecer, se aceitasse.

Então, pode ser?

- Um convite destes vindo da autarquia é para nós um prazer, claro! E porque são vocês a ler? Os
autores podiam…

- Os autores não sabem disto – explicou o Manuel, já suando frio, pois era fácil perceber as
voltas que a irmã tinha dado à questão.

- Bom, podemos dizer a verdade – comentou a Mariana, num golpe de génio. – É que a
vencedora dos jovens é gaga, seria medonho para ela ler na rádio… Então o doutor

Rodrigues lembrou-se de nos pedir a nós três, que aceitámos com imenso prazer.

A Carolina entendeu tudo nesse instante. Qual interesse da autarquia? A Mariana devia ter dado
as informações

- 37 –

trocadas, de modo a conseguir gravar o programa. Deu um suspiro, imaginando a fúria da mãe se
descobrisse, mas apenas provocou uma canelada vinda da amiga, que assim

a proibia de lhe estragar o esquema.

- Ah, foi muito cauteloso da parte dele, que bom! Não fazia ideia de quem venceu, coitada da
rapariga. Isso é muito gentil. Entrem, entrem. Vamos gravar aqui no

estúdio dois, que está livre nesta hora. – No entanto, ao entrar, parou. – Esperem. E se
gravássemos a reação em direto? Podíamos chamá-los à Rádio Nabais amanhã.

Eles ouviam a emissão e eu fazia-lhes algumas perguntas depois.

- Eu não m… O doutor Rodrigues não se lembrou de tal coisa! Acho excelente – reforçou a
Mariana.

Mesmo antes de entrarem, o Manuel fez uma careta de receio. A Carolina baixou os olhos, e a
Mariana entrou de cabeça erguida – conseguia sempre tudo o que queria!

*
A brincadeira já durava há uns bons vinte minutos. De um lado, a Madalena, do outro, o Mister.
O Rafa estava divertidíssimo! Tudo começara com um pequeno azar: o

Mister escavara um buraco mesmo ao pé dos agapantos, uma coisa terrível. Se a Alice
descobrisse, era o fim dele – a sua alimentação seria ração durante pelo menos

uma semana. No entanto, e como estava ali uma velha bola de ténis que já ninguém usava, o
Rafa tentava ensinar a Madalena

- 38 –

a acertar no buraco, lançando a bola com gestos muito cómicos e até teatrais. Assim que a bola
parava, o Rafa pedia ao Mister para a ir buscar. Quando a Teté cruzou

o portão daquele pequeno pedaço de verde que antecipava a chegada a casa e viu aquilo,
entusiasmou-se.

- Oh, Madalena! Atiras tão bem!!! E tu, Mister, que lindo…!

O cão abanava a cauda, a Madalena estava feliz.

- Quer experimentar, mãe? – perguntou o Rafa, sem se aperceber de que chamara mãe à Teté. –
Deixamos, não deixamos? – Os outros dois concordavam, claro. – Vá, tente.

A mãe abandonou, logo ali no chão, a mala, as pastas e as preocupações. A primeira tentativa foi
horrível, com a bola a rolar para debaixo das folhas e com o Mister

a ter de se esforçar muito para conseguir recuperá-la. Mas isso provocou uma onda de risos, que
se espalharam pelo jardim. Então, a Madalena resolveu ensinar à mãe

os gestos certos, sempre com a mão esquerda, o que deixou o Rafa com ainda mais vontade de
rir. Segunda tentativa… Zás! Quase, quase… Terceira tentativa…

- Olha para o que lhes havia de dar… – comentou a Maria, que chegou nesse momento com o
João Pedro pela mão. No entanto, quando viu o aspeto da relva, tapou a

boca. – Que horror! A Alice viu esse buraco?!

- Queres atirar? – perguntou a Madalena, oferecendo-lhe a bola.

- 39 –

- Não, minha querida maninha, temos uma coisa muito importante para falar com a mãe.

Esta frase não incomodou os dois mais pequenos que brincavam, mas a Teté saiu dali e seguiu-os
até à sala. O João Pedro trazia fortes olheiras e era evidente que

se enervara, e muito. Já a Maria, estava muito calma, confiante.


A Teté teria desejado que aquela conversa fosse também com o Mateus ao pé, mas tal não seria
possível, pois ele estava em Santarém a tratar de assuntos do Miguel,

por causa da seleção sub-21. E ela tinha a certeza de que o João Pedro precisava que o ouvisse
naquele instante, não depois.

Sentaram-se e a Maria tomou as rédeas da conversa. O pai do João Pedro mantinha-se


intransigente acerca da partida de todos para Brasília, mas o rapaz decidira que,

tendo idade para isso, não sairia de Portugal. O pai ficara irritadíssimo, claro, mas eis que a mãe
resolvera finalmente fazer-se ouvir e explicar que havia chegado

o momento de dar a palavra ao filho. A ideia do João Pedro era trabalhar em part-time para
acabar o curso, mesmo que o concluísse em mais anos do que o ideal. O

coração da Teté voltou a disparar, pois já ouvira esta história à Maria, não há muito tempo.
Ficando os dois em Lisboa, queriam partilhar um quarto alugado, para

não terem muitas despesas. No fundo, tudo se resumia ao seguinte: aqueles dois seres queriam
tomar as rédeas das suas vidas nas mãos e estavam dispostos a sacrifícios

para não se perderem um ao outro.

- 40 –

Que poderia ela dizer? E o Mateus, o que acharia daquela ideia? E seria possível que o pai do
João Pedro castigasse o filho, deixando-o sem apoio em Lisboa só porque

não concordava com as suas decisões? Ou aquela ideia de fazerem uma vida em conjunto era
prematura?

A cabine de gravação não poderia albergar todos. A Graça, mãe da Carolina, fizera as honras da
casa, convidando os três vencedores a entrar e ajudando a que pusessem

os auscultadores e falassem para o microfone, para nivelar as vozes, pois iam ser entrevistados
depois da surpresa. Cá fora, por detrás do vidro, acotovelavam-se

a Mariana, a Carolina e o Manuel, acompanhados pelo Miguel, muito nervoso, pela mãe da
criança que ganhara o prémio infantil e pela companheira do adulto que vencera

o de adultos. Este era bem conhecido de Vale de Nabais – saíra dali para a capital, para se tornar
um grande escritor!

O que ninguém pensou foi que, do nada, as vozes já gravadas daqueles três conspiradores
enchessem o estúdio e as emoções de todos. A Carolina lera a história infantil;
o Manuel, a de adultos; e a Mariana, com um dramatismo imenso, a da Rita. O mote fora dado
pelo júri: O sol desperta a nossa personagem. Esta percebe que está no

topo de um prédio altíssimo. Daquele ponto, pode ver a cidade quase toda, o rio… Isto pode
maravilhá-la ou assustá-la, por exemplo. O vento é forte,

- 41 –

contrasta com o calor do sol. Não sabe porque acordou ali. A história desenrola-se até ao
momento em que ela decide descer.

De seguida, a voz da Mariana trazia o conto da Rita:

- Virou-se, com um sorriso pronto para oferecer a Lucrécia, companheira de feitiços e


contrafeitiços. Contudo, o chão duro obrigou-o a abrir os olhos, pois percebeu

de imediato que o sol não estava a entrar por uma janela, que nenhum colchão se encontrava
debaixo de ambos e, como era evidente pela ventania fresca, não havia

paredes. Não conseguia decidir-se sobre o que mais o chocava, se a falta de Lucrécia, se o facto
de estar ali. Não fosse ele um mago experiente, imaginaria que só

um bruxedo o poderia ter levado até àquele sítio. Mas Junex sabia muito bem que um bruxedo o
pusera ali, e mais: sabia que só uma feiticeira, Lucrécia, poderia fazê-lo.

E, nesse instante, Lucrécia perdeu toda a magia com que enfeitiçara aquela relação entre ambos.

Junex levantou-se e sacudiu o manto, arriscando mesmo fazer cair alguns enfeites
indispensáveis. Tinha a cidade a seus pés, podia ver o rio ao longe e via os automóveis

a circular por magias diferentes das suas. Ensinara-a bem demais, pensou. Lucrécia projetara-o
para o futuro, a uma distância de quatro ou cinco séculos, onde apenas

ele e a sua discípula haviam viajado num passeio que tivera muito mais de amoroso do que de
treino. Mas ela aprendera, disso não tinha dúvidas.

Uma faísca saiu da sua mão, embora sem alvo. Despedaçou um vidro, pouco mais, mas teria a
potência para estilhaçar uma feiticeira, se ali estivesse. Teria gostado

de acabar com a vida de Lucrécia, mesmo depois de ter rasgado na mente a relação.

- 42 –

Só então a viu. Agarrada a uma antena frágil, vacilava entre encará-lo ou atirar-se. Junex iria em
seu auxílio, decidindo por ela, por ambos, que a vida dela terminara.

Contudo, ao observá-la, percebeu. Era por isso que as feições da sua amada o tinham feito
acreditar na possibilidade de uma ligação pouco comum. Lucrécia era daquele
século onde se encontravam. Nada aprendera com ele, limitara-se a visitar o seu tempo, o seu
templo, contemplando as magias antigas.

Ficou parado, quase envergonhado da condescendência com que fora tratado. A voz saiu-lhe
furiosa:

- Diz-me porquê; mereço isso!

- Desculpa… Levou-me a curiosidade até ti, prendeu-me o que sinto. Não sou de nenhum dos
mundos, nem do antigo nem do novo. Estou perdida. Trouxe-te para que entendas

o dilema, para me poder despedir de ti.

Junex vacilou. Agora era ele que se agarrava a um frágil sentimento, pois a fúria desaparecera.
Chegou-se a ela, tentou segurá-la, mas Lucrécia já descia em queda

desamparada.

Usou o manto, paralisando toda uma cidade, deixando-a suspensa no ar, entre a morte e uma vida
consigo. Só então se aproximou do parapeito, só então se lançou no

ar, e foi num abraço forte que a agarrou e a aprisionou para sempre num mundo antigo.

Um silêncio contrastou com o sorriso que a Mariana tinha no rosto. A Rita estava comovida, o
Miguel paralisado, toda a vila estaria – ela podia jurar! – em suspenso.

- 43 –

4.

- Eu já sou fã! – gritou o Rafael, em passo de corrida, enquanto subia as escadas do balneário em
direção ao relvado. O treino estava prestes a começar.

- És fã de quem? Diz lá, piolho! De mim, não é verdade? Do teu mega-ultra-craque, mister
Miguel Machado!

- Não, parvo, sou fã da tua namorada!

O Miguel, que seguia os jogadores escadas acima, ficou por instantes preso ao último degrau e
puxou o Rafael pela camisola, obrigando-o a parar. – Ora explica lá

isso melhor, Rafa! Com que então és fã da minha namorada?! E achas isso bem, é?

- Acho muito fixe!!! – respondeu, com um sorriso matreiro. – Mas larga-me a camisola, pode
ser? – Com um safanão, soltou-se e encarou o treinador. – Digo-te mais,

Miguel, não sou só eu, ela já tem 129 fãs, e só passou um dia.

Ao ver que uma ruga se desenhava na testa do Miguel, o Rafael apressou-se a explicar:
- 45 –

- Aquela cena da rádio e de a Mariana ter lido o conto… Aquilo merecia um clube de fãs no
Facebook da escola, não é verdade? Foi o que eu fiz: uma página chamada

“clube de fãs da escritora Rita”, depois fiz um link com o programa de rádio, e pronto, foi isso;
houve logo uma chuva de likes!

- Olha que espertalhão!!! Só te esqueceste de um pequeno pormenor: ela sabe disso? Não me
parece, Rafa…

- O que é que interessa? Se não sabe, vai ficar a saber! Vai ser superfamosa, podes crer! Mas há
mais, Miguel: o pior, ou seja, o melhor, está para vir…

- Falamos depois, puto, agora vamos ao treino. E, apitando três vezes, o Miguel pediu aos
rapazes para iniciarem o aquecimento: três voltas ao relvado a correr,

depois torção do tronco e flexão dos joelhos, todos os minutos eram preciosos.

Sem saber por que razão, o Miguel não se sentia ali… Algo o levava para fora do clube de
Santarém… Algo o moía por dentro, como se lhe roessem parte do coração.

E se a Rita se tornasse escritora, se aquela brincadeira do conto pegasse, se lhe desse asas e ela
resolvesse aplicar-se na escrita? Era verdade, a Rita tinha talento,

mas não era só talento, era sobretudo um imenso entusiasmo pela escrita. ... Iria ele ser capaz de
a acompanhar pela vida fora? Ficaria famosa com o que escrevia?

Como é que uma pessoa, assim do nada, se torna escritora de um dia para o outro?

- 46 –

Lá em casa, só a Maria gostava de escrever, começara por ter um diário onde desabafava tudo o
que lhe ia acontecendo; mas a Maria não escrevia contos ou pequenas

histórias, este tipo de coisas que a Rita fizera… Não, a Rita era diferente…

Já o Rafael tinha também o mesmo género de sensibilidade. Começara por ser um desafio da
psicóloga, a Cristina, que lhe despertara o bichinho, o Rafael tomara-lhe

o gosto. Ao que parecia, até a professora de Português elogiava a sua escrita, muito madura para
a idade. Ser namorado de uma escritora, uma escritora vencedora

de um concurso e com direito a programa radiofónico – tudo isto era emocionante para ele, mas,
sobretudo, para a Rita, que se fartara de chorar ao ouvir a voz teatral

da Mariana. Será que haveria espaço, na relação, para dois heróis?

O Miguel sabia o quanto valia como treinador e craque da bola, era elogiado pela equipa técnica
do clube de Santarém como tendo um imenso potencial. Chamavam-lhe

mesmo o Mourinho do Ribatejo, e iria integrar a seleção sub-21, o que o enchia de vaidade. Só
não estava certo de saber lidar com uma escritora de sucesso. A Rita

era o seu suporte emocional, era quem estava nos bastidores da sua vida a dar-lhe amparo e
aconchego, não imaginaria que tipo de Rita seria aquela que saltava para

o palco e tinha luz própria… Seria capaz de lidar com uma Rita escritora? Uma Rita famosa?
Clube de fãs da escritora Rita? Qual era o seu papel no meio disto tudo?

Um treinador de miúdos,

- 47 –

um jogador da seleção, namoradinho da escritora mais conhecida de Vale de Nabais? Ele, em


segundo plano… “saia de cena quem não é de cena”?! Hum… Não seria fácil,

nada fácil… e se a fama lhe subisse à cabeça?

- Miguel! Miguel!!! Miguel, estás a ouvir?! Já fizemos quatro voltas! E agora? Treinamos os
lances de bola parada ou as fintas?

Por mais que o Rafael insistisse, o Miguel já não estava ali, havia um outro mundo que se
desenhava à sua volta, e era um mundo do qual ele não fazia parte.

- Diz lá, Rafa, mas tu agora não paras de ter ideias? – perguntou o Manuel, intrigado com as
várias mensagens que recebera do Rafael para se encontrarem na esplanada

do costume. A mãe precisara de ir a Vale de Nabais, ao Plazza Star, e o Rafa não perdera a
oportunidade para falar a sós e pessoalmente com o Manuel.

- É isso, Manel! Não é só a Rita que é escritora, a Mariana pode ser atriz, já viste como ela foi
elogiada? Já viste as voltas que ela deve ter dado para conseguir

aquele programa na rádio? O pessoal todo no Facebook, na página de fãs da Rita, não para de
dizer o mesmo: temos escritora e temos locutora. Querem mesmo saber a

quem pertence aquela voz.

- O que é que tem a voz da Mariana?

- 48 –

- Eu cá não sei… – explicou o Rafael, encolhendo os ombros mas há lá um comentário a dizer


que ela tem uma voz sexy, rouca e musical ao mesmo tempo, e que devia
ser locutora. Outros acham que é a melhor voz de rádio, outros que devia fazer telenovelas…
Tens de ir lá ver, Manel!

- Se lhe contarmos, ou se ela for lá ler, a miúda nunca mais se cala. É cá uma gabarola, a minha
gemeazinha…

- É por isso que queria falar contigo! Já que é ela que está sempre a ter ideias, desta vez vamos
nós ter uma ideia e fazer-lhe uma espécie de partida…

- Tipo, virar o feitiço contra o feiticeiro, Rafa?

O Manuel fingia que aquilo era absolutamente genial, mas, no seu íntimo, não era tanto a ideia
em si que contava, mas sim o facto de o Rafael ter ideias divertidas,

o que significava que estava a reagir bem, que começava a acordar para as coisas normais da
idade, brincadeiras, planos e partidas… Será que tinham sido eles a

ajudá-lo? Será que aquela força da família Machado tinha conseguido devolver a alegria ao
Rafa? Ao olhar para dentro dos olhos do rapaz, o Manuel viu brilho e viu

luz, aquela sombra escura que tanta pena lhes fazia tinha desaparecido.

- Diz lá a tua ideia, Rafa. Queres uma Coca-Cola?

- Não, quero um gelado; dás-me?

- Claro! Chama aí o senhor.

A um gesto de dedos, o empregado aproximou-se dos dois rapazes: uma Coca-Cola com muito
gelo e limão e um gelado de…

- 49 –

- Morango e natas – pediu o Rafael.

- Morango e natas, se faz favor – repetiu o Manuel aqui para este idiota!

- Idiota? – reagiu o Rafael. – Porque é que me estás a chamar idiota?

- Idiota, etimologicamente, significa aquele que tem ideias, o portador de inovação, de


criatividade que…

- Para! Para! – pediu, tapando os ouvidos com as mãos. – Até posso ser idiota, mas tu às vezes és
cá um chato! Primeiro tens de ouvir, pode ser? Vais adorar, tenho

a certezinha absoluta!!!

*
Em casa do Rafael, a confusão era tanta, que a mãe, incomodada, não parava de interromper os
preparativos:

- Também não podias ter ido fazer isso para outro lado, Rafael? Tenho de engomar, preparar os
filetes e o arroz de tomate para o jantar, e assim não há condições!

- ralhou, espreitando para dentro da sala e fechando a porta, assustada.

O Manuel, a Carolina e o Rafa pareciam estar ainda longe de acabar. Na sala, a confusão estava
instalada, um gravador antigo com cassetes dos anos noventa, um microfone

e papéis rabiscados por todo o lado.

- Tenha calma, mãe, à hora do jantar já acabámos, de certeza; mas quanto mais nos interromper,
mais tempo demoramos!

- 50 –

- Não é só acabar, Rafa – avisou a mãe, voltando a abrir a porta -, tens de deixar tudo isto
arrumado. Que bagunça, valha-me Deus! Podias ter ido para casa do teu

treinador, não era? Já te disse mais de mil vezes que a nossa casa é muito pequena, não serve
para receberes os teus amigos.

- Não se preocupe – veio o Manuel em defesa do Rafa -, nós deixamos tudo em ordem, tal como
encontrámos, a sério! Esta surpresa não podia ser feita em nossa casa…

Não é, Rafa?

- É sim, mãe, o Manel tem razão, é para a Mariana e ela não pode saber de nada…

Mas a mãe já tinha saído, batendo violentamente com a porta das traseiras. Simplesmente não
estava preparada para aquela gente toda a invadir o seu espaço. O luto

era para se fazer, e não entendia como é que o filho apagara a morte do pai como se tivesse uma
borracha que, de repente, desse conta de todo o mal que lhes acontecera.

- Deixa lá, Rafa – descansou-o o Manuel. – Todas as mães são iguais, não aguentam
desarrumações.

- A minha mãe não é assim – explicou a Carolina. -Até gosta que eu leve amigas para casa e…

Ao sentir que o Manuel lhe dava um beliscão na perna, percebeu que estava a ser inconveniente e
inverteu o que ia a dizer.

- ... e só pede a todos os santinhos para deixarmos tudo arrumado, senão passa-se… Não estás
bem a ver

- 51 –
o filme, Rafael, quando a minha mãe se passa, é mil vezes pior do que a tua…

- Não vamos aqui comparar mães, OK? – pediu o Manuel. – Até parece coisa de bebés: a minha
mãe é melhor do que a tua, a minha é mais forte, o meu pai é polícia…

O Rafa e a Carolina desataram a rir! O Manuel era muito cómico quando se punha a fazer vozes.
Nisso era parecido com a gémea, tinha um jeitão para representar.

- Onde é que íamos? – recomeçou a Carolina.

- A fazer mais um take. Já temos três, vamos para o

quarto.

- Quem é agora?

- O Rafa. Só faltas tu, Rafa. Estás preparado?

O Rafael endireitou-se, respirou fundo e, forçando uma voz grave, disparou para o microfone:

- São 8 horas em Portugal Continental e na Madeira, menos uma hora nos Açores, e a
temperatura exterior é de 17 graus celsius. – Fez uma pausa. – Não vai dar, Manel,

e se não estiverem 17 graus amanhã?

- Mas tu achas que a Mariana, às 8 da manhã, sabe se estão 17, ou 20, ou 10 graus? Vá, continua
lá! Repete tudo.

Carregando na seta, o Manuel fez voltar atrás a cassete e o Rafael recomeçou:

- São 8 horas em Portugal Continental e na Madeira, menos uma hora nos Açores, e a
temperatura exterior é de 17 graus celsius. A Rádio Nabais deseja-lhe um bom dia!

- 52 –

Notícia de última hora – a Rádio Nabais congratula-se com mais uma voluntária. A
inconfundível voz da menina Mariana Machado foi selecionada para o programa “Acordar

Nabais”. Seja bem-vinda à nossa fantástica equipa, Mariana Machado! Trata-se de uma voz
jovem e alegre, um novo talento que vem dinamizar as manhãs na Nabais.

Interrompendo, o Rafa perguntou: – E agora?

- E agora lês as notícias, vá!, e depois a Carolina põe a primeira música.

- O primeiro-ministro inaugura esta manhã a…

- Ei, espera lá! – interrompeu a Carolina. – Desliga isso! Vamos lá ver o passo seguinte. A
Mariana ouve a lengalenga toda que estamos a gravar e julga que está
a dar o noticiário do costume na Rádio Nabais e, se tudo correr como previsto, percebe que é
com ela, levanta-se e vai a correr acordar a Mónica. Entretanto entra

a música, porque o noticiário é curtinho. O pior…

- O pior? Não há pior, Carol! Conheço os hábitos da minha irmã... é assim tal e qual!
Estremunhada como está, às oito da manhã de sábado, nem se vai aperceber de

que o som não vem do verdadeiro rádio mas do gravador que pusemos no mesmo sítio e que,
inconscientemente, vai levar uma sapatada para que se cale…

- Esqueceste-te de que ela vai perceber que o noticiário não vem do rádio verdadeiro mas sim do
gravador.

- Nem penses, Carol, garanto-te que o rádio que está na mesa de cabeceira da Mariana é
igualzinho a este

- 53 –

gravador pré-histórico. Foram comprados na mesma altura e é suposto serem iguais.

- O Manel tem razão, Carolina, eu já o vi; só mesmo um perito descobre a diferença.

- E muito menos uma Mariana ensonada… mas, just in case, eu vou estar por baixo da cama para
proceder à troca ou para desligar o gravador, caso ela não lhe dê

a sapatada habitual.

- Então, está tudo acertado? – quis saber a Carolina. – E o que digo eu à minha mãe?

- Bom, aí é que temos de pensar. Se bem conheço a minha irmãzinha, vai ficar de tal forma
eufórica que, em menos de meia hora, está plantada à porta da Rádio Nabais

a agradecer o prémio e a perguntar quando pode começar, não é?

- E a minha mãe ainda não sabe de nada… coitadinha… já estou com pena da Mariana… Ela tem
mesmo uma voz incrível, e, quando perceber que estávamos a gozar,

mata-nos!

Ficaram os três algum tempo calados…

- Só se… – recomeçou a Carolina – só se pudesse ser mesmo verdade.

- Como assim?

- Espera, Manel, tudo se resolve, dás-me dez minutos?


*

- 54 –

- Nada dá certo, Maria – ralhou o João Pedro nada te serve. É porque é grande demais, pequena
demais, não tem sol, tem sol a mais, não tem armários, não tem janelas

para a rua. Mas afinal o que é que queres mais? Pensámos em alugar um quarto em Lisboa, não
temos muito dinheiro, por isso não nos restam muitas alternativas, não

é?

- Não sei se é boa ideia, JP… Tenho medo da reação do meu pai.

Caminhavam ao acaso pelo Chiado. Já tinham visto, naquela manhã, cinco quartos para alugar, e
nenhum era ao gosto da Maria. O João Pedro começava a ficar preocupado,

seria falta de vontade? Estavam prestes a dar um passo importante na vida de ambos, iriam viver
juntos e daí para a frente tudo seria certamente muito diferente.

No entanto, havia qualquer coisa de estranho na atitude da Maria que o João Pedro não
conseguia decifrar.

- Tens de me explicar isso melhor, Maria. Juro que há dias em que não te entendo, parece que
mudas conforme o vento… A ideia partiu de ti, que íamos trabalhar

os dois e que nada me levaria para longe de ti, novamente… Então, em que é que ficamos?

- Para de ser radical, JP, eu só te disse que tenho medo da reação do meu pai, apesar de me teres
pedido em casamento, ainda não nos casámos, e o meu pai é super-conservador!

Como é lógico, vai fazer-lhe imensa confusão isto de irmos viver juntos, é só isso.

- 55 –

- Quer dizer que o teu pai mudaria de opinião se nos casássemos já?

A Maria não respondeu. Sabia que sim, o pai era mesmo à moda antiga, embora a mãe fosse
totalmente diferente. Para o pai, o facto de estarem casados tornava tudo

mais fácil! Reuniu coragem e disparou:

- Não, JP, eu não me quero casar tão depressa, está fora de questão! Não me sinto preparada para
casar.

- Porque não tens a certeza se gostas de mim?

- Tenho sim, JP, tenho a certeza absoluta, mas recuso-me a pensar nisso aos 19 anos, não é? Por
mais que o meu pai gostasse, eu era incapaz.
Foi a vez de o João Pedro amuar. Continuaram a caminhar Chiado acima, parecia que não tinham
nada a dizer um ao outro. A Maria agarrou na mão do namorado e entrelaçou-a

na sua; sabia que, por vezes, um gesto valia mais do que qualquer palavra.

- A boa notícia é o meu part-time, não achas? Foi mesmo bom ter conseguido aquele trabalho!

O João Pedro acenou com a cabeça. Tinha de reconhecer que a Maria era a pessoa ideal para
trabalhar no gabinete de acolhimento da Universidade. Teria de fazer com

que os estudantes estrangeiros, que vinham passar um semestre a Lisboa, se sentissem


integrados. Não havia ninguém melhor do que a Maria, que vivera um ano nos Estados

Unidos e acolhera um estudante alemão em casa, para se ocupar desta tarefa. No entanto, nada o
alegrava. Se não

- 56 –

conseguisse rapidamente um trabalho qualquer, teria de ficar sujeito à mesada que os pais
eventualmente lhe dariam!

Imaginar a namorada a trabalhar, enquanto ele continuava a viver à custa dos pais, não lhe
parecia boa ideia, não se sentiria confortável.

- João Pedro? O que é que se passa, João Pedro?

A Maria fez questão de parar e pôs-se a olhar para dentro dos olhos do namorado. Algo de
errado, de muito errado, cruzava a cabeça do rapaz.

- Não sei, Maria… Agora sou eu que tenho dúvidas… Não sei se isto tem pernas para andar…

- 57 –

5.

- Mas nunca me disseste – insistia o Miguel, tentando que a Rita não percebesse as outras
dúvidas que estavam na sua mente.

- És t-t-t-tão parv-v-v-o!

A Rita dera-lhe um empurrão carinhoso, o que fez com que o Miguel se desequilibrasse do muro
da casa. Estavam ali fora havia talvez dez minutos, deixando que o Mister

andasse à vontade pela rua e corresse a enxotar pombos distraídos.

- Não ia di-di-di-dizer nada. S-s-s-sabia lá que ga-nhav-v-v-v-va?!

- Mas vais ser uma escritora, é?


- P-p-p-porque é que estás a perg-g-g-g-guntar isso?! Escrevo um c-c-c-conto e já sou escrito-to-
to-tora? Gostei do t-t-t-t-tema, foi só isso. E gosto de esc-esc-escrever…

- E isso vai ser a tua vida, assim, tipo JK Rowling, é? Superfamosa e rica, com imensa gente à
volta de ti, é?

- 59 –

A Rita engoliu em seco. Estaria o namorado com receio de que ela ficasse mais conhecida do que
ele? Era isso?! Virou a cara, tentando não mostrar a desilusão que

lhe crescia no coração. O Miguel só tencionava guardar a fama para ele.

- Rita? O que foi?...

Também o coração do Miguel disparara no mesmo instante. Que estúpido!, pensava, que
estúpido! Tentou abraçá-la, mas a Rita esquivou-se, dizendo que tinha frio e

que já era tarde.

- Não jantas connosco?...

- N-n-n-não, hoje não.

- Espera! Já que sou um parvalhão, quero que saibas tudo. Ouve-me, Rita, vá lá, ouve-me… – A
namorada tentava, em vão, soltar-se daquela mão que lhe segurava firmemente

no braço. – Comecei a ver-te assim superfamosa, a ficares distante, sem estares sempre ao meu
lado… Bolas! Cada vez me enterro mais!!! Assustei-me com aquela cena

do clube de fãs…

- Qual cl-cl-clube de fãs?!

- O que o Rafa criou, no Facebook…

- Eu t-t-t-tenho um clube de fãs?! P-p-p-porquê?

- Porque és uma escritora!

- Não sou nad-d-d-d-da, que coisa!!! Só g-g-g-ganhei um concurso em Nab-b-b-bais!

- E disseste que tinhas imensos contos escritos, que adoravas a escrita, que foi uma descoberta
que te deixou

- 60 –

a pensar no futuro… Foi ou não foi isso que disseste na entrevista? Nem falaste no curso que ias
tirar! Bolas, Rita, eu sou o teu namorado, fiz figura de parvo!
Sabia lá que escrevias assim?! E pus-me a pensar por que razão terias tu escondido isto. Tenho
andado às voltas e voltas, não descubro. Porquê?

- P-p-p-podia não ter val-l-l-l-or nenhum, sei lá... Assim era s-s-s-só eu a ficar triste.

- Esconder de mim…?

- Desculp-p-p-pa, não queria desiludir-te. Tu-tu-tu és sempre o melhor, o maior, não q-q-q-queria
que pensasses que eu não t-t-t-tinha valor.

- Mas eu sei que tens, para mim sempre tiveste! E pelos vistos tens, e muito, talento para a
escrita! És a escritora Rita!!!

Franzindo a testa, a Rita disparou:

- Tens m-m-m-medo de que eu fique fa-fa-famosa, Miguel?

- Não digas isso assim…

- T-t-t-tens?...

- Tenho medo de perder a tua atenção, isso tenho. Está bem, eu confesso, achei que o famoso de
nós dois ia ser eu, e se pudesse agora atirar-me a um poço, atirava-me!

Sou um estúpido!!! Tu não me mereces, Rita, sou só um tipo parvo que gosta de estar na ribalta.
Um parvónio! Clube de fãs, escritora, uma coisa que adoras fazer…

Tantos elogios, surpresas, a Mariana a ler o teu conto e as pessoas

- 61 –

comovidas. Foi assim muito forte! Assustei-me com isto tudo, o que prova que sou um verme!

E, sem esperar pela reação da Rita, chamou pelo Mister e caminhou pelo passeio fora, na direção
da praça.

Durante alguns segundos, a Rita permaneceu quieta. Depois, um sorriso apareceu-lhe na cara.
Era tão infantil, aquele Miguel, tão infantil! Ainda deu um passo para

o apanhar, mas parou. Ele precisava de pensar bem naquilo que acabara de dizer. Haveria de lhe
pedir desculpas, mas a Rita já lhe perdoara. Bastava lembrar-se de

todos os momentos bons que tinham, no imenso carinho… Entrou em casa da família Machado –
estava na hora de apertar o pescoço ao Rafael, que viera para passar

o fim de semana.

*
Aquele sábado arrancava com muita agitação. A Alice nem queria acreditar que o Manuel já
estivesse a pé, assim como o Rafa e o Miguel. O Mister estava excitadíssimo,

pois parecia farejar e adivinhar uma atribulação desmedida. Os três rapazes comiam à pressa,
olhando para o relógio, e não paravam de sorrir.

- E desta – sentenciou o Manuel. – Ela não está mesmo à espera disto! Vai ser a grande
reviravolta!!!

- O que é que os meninos andam aí a aprontar…?

- Não andamos a aprontar nada, Alice – esclareceu o Rafael. – Já está tudo certinho. Tudo muito
cer-ti-nho!

- 62 –

- Vai ser lindo… – O Miguel estava divertidíssimo. -Como é que vocês conseguiram? Isso é que
eu não percebo.

O Manuel engoliu o pão de repente, fazendo um gesto com a mão, em que dizia claramente “eu
explico”. A Alice cruzou os braços sobre o peito, esquecida do que estava

a fazer. Queria entender o que se passara, mas, sobretudo, queria estar prevenida para o que aí
vinha!

- A mãe da Carolina é fantástica! O Rafa, este aqui – explicou o Manuel, apontando para o rapaz,
que mostrava um sorriso triunfante -, teve uma ideia genial, que

foi gravarmos uma espécie de programa de rádio em que se dizia que a Mariana, depois daquela
leitura incrível do conto da Rita, deveria ser locutora.

- Mas depois – continuou o Rafa -, começámos a pensar que era uma enorme maldade fazer uma
brincadeira destas…

- Sobretudo porque a Mariana vos desfazia em postas!

Os outros dois concordaram, rindo.

- Sim, pior do que o que ali o Miguel fez com a Rita ontem – brincou o Rafael, levando logo um
beliscão no braço.

- Cala-te, isso já passou – afirmou o Miguel, tentando convencer-se de que a conversa da


véspera, a seguir ao jantar, solucionara tudo.

Mas o Manuel continuava:

- Então a Carolina resolveu telefonar à mãe e perguntar-lhe se havia alguma hipótese de pôr a
Mariana a falar na
- 63 –

Rádio Nabais, assim como locutora, ou melhor, leitora! A ideia era ela apresentar contos para os
miúdos. E olha, foi uma revolução!!!

- Espera aí! – pediu o Miguel, interrompendo o Rafa. – Estás a dizer que a mãe da Carolina vai
deixar a Mariana fazer locução na rádio?! Que giro!

- Mas os meninos estão a esquecer-se de uma coisa – lembrou a Alice. – A menina Mariana não
lê assim muito. O que é que ela vai fazer para lá? Tem de escolher coisas

para ler, não é? Escolhe como?

- Não pensaram nisso?! – espantou-se o Miguel, ao olhar para os outros dois. – Manel, estás
louco?! Vai ser pior ainda!!!

Tarde demais. O Manuel tinha apenas alguns minutos para se enfiar debaixo da cama da irmã
para que tudo funcionasse. Saiu da cozinha a correr, deixando os outros

três petrificados. O Rafael fez um sorriso amarelo, e o Miguel deu-lhe uma palmada ao de leve
na nuca:

- Vai ser lindo… vai ser lindo…

“São 8 horas em Portugal Continental e na Madeira, menos uma hora nos Açores, e a
temperatura exterior é de 17 graus celsius. A Rádio Nabais deseja-lhe um bom dia!

Notícia de última hora – a Rádio Nabais congratula-se com mais uma voluntária. A
inconfundível voz da menina

- 64 –

Mariana Machado foi selecionada para o programa “Acordar Nabais”. Seja bem-vinda à nossa
fantástica equipa, Mariana Machado! Trata-se de uma voz jovem e alegre,

um novo talento que vem dinamizar as manhãs na Nabais. Na Grécia, mais uma semana de
convers…”

A mão da Mariana já tinha dado a machadada providencial no aparelho, mas não reagira
completamente. O Manuel, escondido e com o coração a bater forte, esperava pelo

passo seguinte e desligava o aparelho da tomada.

- És mesmo parva, Mariana, quem é que te mandou pôr o despertador a um sábado? – queixou-se
a Mónica. -Parva!!!
Já escondida debaixo da almofada, a Mónica tentava voltar a adormecer, mas isso não seria
possível. A Mariana acabara de se sentar na cama, e gritava:

- Ouviste?! Tu ouviste?! Eu? A voz selecionada para “Acordar Nabais”?!...

- A tua voz ainda é pior do que um despertador – gemeu a irmã, com o som filtrado pela
almofada. – Não vai ser acordar, vai ser infernizar Nabais!

O Manuel susteve a respiração. A irmã gémea já saltitava pelo quarto, tentando enfiar as pernas
nas calças de ganga que vestira na véspera e depois a T-shirt pela

cabeça abaixo. Voou do quarto para fora, sem olhar para trás. Nas mãos, os ténis; e na cabeça,
muitas ideias. No chão, os destroços – o pijama, a almofada e as pantufas,

cada um para

- 65 –

seu lado. Só nesse momento o rapaz saiu do seu esconderijo. A Mónica já adormecera de novo.
Trocou os aparelhos e saiu em bicos de pés. Na cozinha, ouviam-se guinchos

de excitação!

Depois de uma rápida passagem pelo quarto, para enfiar no armário o gravador que fizera aquele
serviço, o Manuel apareceu com um ar tranquilo na cozinha. Um levantar

de sobrancelhas foi o sinal que o Miguel lhe fez, dizendo que estava tudo a funcionar na
perfeição.

- A menina não pode ir assim toda despenteada, Mariana. E tem de lavar os dentes.

- Eu achava melhor tomares um bom banho – provocou o Miguel. – Ainda passas por uma
vergonha…

Mas a Mariana já não os ouvia. Na mão, levava um papo-seco com manteiga. Agarrando num
casaco, abriu a porta e encaminhou-se para a Rádio Nabais.

- Estou com algumas dúvidas – confessou o Rafael. – Talvez até muitas…

- Podes crer, também eu! – acrescentou o Manuel.

- Vá, então? – animou o Miguel. – Está feito, está feito!!! A mãe da Carolina vai falar com ela,
não é? Vamos ver no que dá.

A Alice, espetando um dedo na direção do Rafael, avisou, a brincar:

- Não venha para cá aprender estas coisas, menino, que isto não se faz a ninguém. Primeiro foi o
cacuque…
- Facebook, Alice, Facebook… – corrigiu o Miguel.

- 66 –

- Ou isso… O que aconteceu foi que a Ritinha ia deixando o Miguel sem dono! Agora esta coisa
da rádio, olhe que está a ir por maus caminhos!

- Sem dono?! Calma aí! – queixou-se o Miguel.

- Por acaso, acho que foi quase… – comentou o Manuel. – Foi por um triz.

- Como é que vocês sabem disso?!

O Manuel e o Rafael desmancharam-se a rir. Como? Fácil, a Mariana ouvira partes da conversa
depois do jantar. Ainda não estava na Rádio Nabais, mas já distribuía

radionovelas grátis para todos.

- Foi a Mariana, não foi? Só pode ter sido ela… – concluiu o Miguel, abanando a cabeça.

- Adoro esta casa – foi a frase com que o Rafael rematou o assunto.

Uma cara ensonada entrou na cozinha, compondo-se de repente assim que viu o Rafael – era a
Margarida, que acabara de acordar. Ajeitou os cabelos e cumprimentou todos

com um beijo, o que fez com que o Miguel piscasse o olho à Alice, sem comentar, e que o Rafa
ficasse vermelho que nem um tomate guisado! Só o Manuel não reparou

nisto, pois o beijo que recebeu foi tão ao de leve que nem o sentiu – estava já a pensar: “Que
livros é que vou dar à Mariana para ela ler na rádio?”

- 67 –

O Fury parara junto ao riacho, curvando-se para beber água. O João Pedro ficou a observá-lo,
quase anestesiado. Sempre a segurar as rédeas, sentara-se numa pedra

e dispusera-se a observar a água, que deslizava com a calma das manhãs de maio.

Ainda ecoavam dentro dele as palavras trocadas com a Maria. Tinham andado horas e horas à
procura de quartos para alugar. A Maria até já tinha aquele pequeno trabalho,

recebendo da melhor forma os estudantes de Erasmus quando chegassem em setembro, ajudando


entretanto nas informações a dar via email. Ganharia muito pouco, claro,

mas era melhor do que nada. Contudo, não era isso que o preocupava, era mais aquela estranha
noção de que se estavam a precipitar.
Dezanove anos, “tinha idade para ter juízo”, dissera o pai, o que o deixara fora de si! No entanto,
agora que se intrometera entre os dois o assunto do casamento,

um balde de água fria tinha caído sobre eles. Casar aos dezanove?

Agarrando numa pedra, atirou-a ao rio, assustando um pouco o Fury. A sua cabeça parecia
latejar. Concordava que casar com aquela idade era, no mínimo, disparatado.

Partilhar um quarto sem estarem casados seria complicado para ambas as famílias, supunha. Mas
como iria então escapar à viagem para Brasília? E se a Maria, depois

de ele ter dito que tinha dúvidas, acabasse o namoro consigo?

Levantou-se de repente e montou o Fury. Vieram a grande velocidade até às cavalariças, e o João
Pedro nem

- 68 –

sequer aliviou o cavalo da sela – correu para casa. Foi encontrar a mãe na sala, com um livro
esquecido nas mãos.

- Mãe, ajude-me a pensar.

- Então, João Pedro?!

- Casar agora é um disparate, mas eu adoro a Maria. Como é que eu convenço o pai a deixar-me
em Portugal? Como é que eu faço?! Estou desesperado, mãe! Se nada me

prender aqui, o pai vai obrigar-me a ir e perco tudo o que tenho. Ele não me entende!!! Teima e
teima, parece que é dono da minha vida!

- Talvez estejas enganado, filho – disse uma voz masculina, do outro lado da sala.

O João Pedro virou-se de repente e nem queria acreditar no que via – o pai ouvira tudo, tinha
agora o olhar triste. Já ali se encontrava, mas o filho nem dera por

ele, tal fora a ânsia de falar com a mãe.

- Pai, desculpe, não queria magoá-lo…

- Eu sei, João Pedro, eu sei – disse o pai, sentando-se e incitando-o a imitá-lo. – Vamos
conversar como adultos, pode ser? Conta-me lá o que te deixou nesse estado.

O João Pedro sentia-se envergonhado, pois as lágrimas escorriam-lhe pela cara, as mãos
tremiam, a voz saía aos bochechos. Contou como tinham procurado os quartos,

contou a conversa, contou as dúvidas. Achou que, naquele instante, já não valia a pena
embelezar a verdade – tanto ele como a Maria tinham dúvidas, e isso poderia
arruinar-lhes o princípio de vida. Por outro lado, explicou que estava

- 69 –

cansado de recomeçar sempre do zero, com novos colegas, poucos amigos (e só depois de muitas
semanas!), estava farto disso. Adorava a Maria, não tinha dúvidas de

que a amava de tal forma que se imaginava a partilhar a vida com ela para sempre. Mas casar…?

A única coisa que o João Pedro não previu foi a forma como o pai lhe falou em seguida. As
lágrimas não paravam, mas seriam agora de alívio? Seria possível…?

- 70 –

6.

- E como é que a menina se chama? – perguntou a rececionista da Rádio Nabais, olhando para a
Mariana por cima dos óculos de aros redondos. – Já vos confundo a todos…

A menina é daquela família muito grande que esteve cá no outro dia, no concurso de contos, não
é?

- Sou… hum… sou a Mariana Machado – disparou, engolindo o último bocado do pão com
manteiga e ignorando a provocação -, e acabei de ouvir agora que fui escolhida

para locutora do programa “Acordar Nabais”, por isso venho apresentar-me, não é?

A Mariana esticou o peito para a frente e franziu os cantos da boca. Estava orgulhosa e queria
que a rececionista percebesse logo que tinha sido ela a eleita.

- Escolhida para locutora… hum… tem a certeza do que está a dizer?

- Tenho a certezinha absoluta! Acabei de ouvir o meu nome no noticiário das oito.

- 71 –

- Isso é muito estranho… muito estranho… – A rececionista procurou o número da extensão num
caderno, passando as folhas da frente para trás e de trás para a

frente. – Deixe cá ver se encontro alguém da produção para confirmar o que a menina diz. – A
Mariana notou que a senhora falava num tom irónico; parecia que, de

certa forma, troçava dela, e não se enganava. – Já vi muita coisa assim, agora parece que toda a
gente quer ser famosa!

- Estou-lhe a dizer! Foi a notícia de última hora que acabei de ouvir!!! Fui eu a escolhida! Vim cá
ler o conto da Rita, namorada do meu irmão Miguel, e pelos vistos

gostaram da minha voz… Não há confusão nenhuma, Mariana Machado só posso ser eu; se não
acredita, pergunte à Graça, a mãe da Carolina.

A Mariana estava ao rubro! Aquela mulher devia ser uma completa trol! Trabalhava na própria
Rádio Nabais e não sabia que tinham acabado de transmitir a notícia logo

no início do noticiário das oito horas? Seria surda, ou só distraída?

- Lamento desiludi-la, menina Mariana, mas eu também ouvi o noticiário das oito – informou a
mulher, apontando para as colunas atrás do balcão. – Aliás, como a menina

pode ouvir, a emissão em direto está sempre a ser transmitida aqui, e posso-lhe garantir que não
ouvi o seu nome, muito menos que a menina foi escolhida para…

- Para o “Acordar Nabais”!

- 72 –

- Isso mesmo – disse a rececionista a rir-se, balançando a caneta entre os dedos. – Só pode ser
um mal-entendido. Talvez tenha sido noutra estação de rádio; olhe

que nesta não foi, isso posso garantir-lhe!

Nesse instante, a Mariana caiu em si – teria ouvido mal? Haveria outra Mariana Machado?
Noutra rádio? Não… tinha a certeza de que estava sintonizada na Rádio Nabais,

e o programa “Acordar Nabais”, que jurava ter ouvido, era o programa da manhã que a Rádio
Nabais transmitia todos os dias, não havia dúvidas quanto a isso… Só

se… E se estivesse a sonhar? E se perguntasse à Mónica? Mesmo meio adormecida, a Mónica


podia confirmar que fora exatamente esta a notícia que a rádio transmitira.

Isto não podia ficar assim! Recusava-se a fazer figura de parva perante uma rececionista que
disfarçava o melhor que podia para não se desatar a rir na cara dela.

- Espere lá! Tenho testemunhas… Tenho a certeza de que ouvi o meu nome, tão certa como estar
aqui à sua frente. Deixe-me só ligar à minha irmã Mónica, que ouviu

o mesmo que eu…

A rececionista encolheu os ombros, era evidente que se tratava de uma falsa notícia, como ela
própria iria perceber. No entanto, parecia que nada demovia a rapariga,

que não parecia querer arredar pé. Acreditava naquilo com tal força, que ia ser uma carga de
trabalhos para a convencer que tal notícia nunca existira. Enquanto

a Mariana tirava o telemóvel do bolso das calças e se preparava

- 73 –
para ligar à Mónica, sentiu uma mão a pousar no seu ombro.

- Tu por aqui, a esta hora? – Era a Graça, a mãe da Carolina.

- Ainda bem que apareceu, Graça – exclamou a Mariana, respirando de alívio. – É que a senhora
rececionista não sabe que fui escolhida para locutora e não me deixa

falar com a… a…

A Graça atirou-lhe um sorriso cúmplice e, com um piscar de olhos, pediu-lhe que a seguisse para
o estúdio dois.

- Anda daí, Mariana, temos de conversar, temos muito que conversar!

- Posso ir contigo, Margarida?

- Tu… tu ires comigo, Rafa? Mas eu só vou ao supermercado buscar morangos para o almoço, a
Alice pediu-me. Não tens de fazer os trabalhos?

- Hum… és capaz de ter razão!

O Rafael procurava uma forma simpática de dizer à Margarida que só queria fazer-lhe
companhia. Aquele beijo de bom dia deixara-o nas nuvens… Como conhecia, ou

achava que conhecia, o feitio da amiga, que só fazia o que queria e com quem queria, sabia que,
se a Margarida resolvesse dizer “quero ir sozinha, deixa-me em paz”,

o rapaz não teria outra alternativa senão ir sentar-se à mesa da sala

- 74 –

a acabar os trabalhos de Matemática. Ganhou coragem e disparou:

- Gostava tanto de te fazer companhia…

- Está bem… – soltou a Margarida, com um encolher de ombros. – Anda daí.

A rapariga sentiu que o coração batia mais depressa do que o habitual e que as palavras lhe
custavam a sair, quase como se gaguejasse. Lembrou-se da Rita, deveria

ser horrível ser gaga, uma pessoa gaga, quando está em apuros, deve ficar ainda mais gaga.
“Pobre Rita”, pensou para com os seus botões.

A Margarida e o Rafael começaram a subir a Rua dos Girassóis em passo acelerado, estavam
ambos nervosos, sem saber exatamente por que razão. A medida que a rua se
ia tornando mais inclinada, foram abrandando o passo. Ao Rafa, interessava-lhe demorar o
máximo de tempo possível, sentia-se bem na companhia da Margarida, e, sem

nenhum dos irmãos por perto, tornava-se mais fácil conversar com ela…

- Sabes… – hesitou – Não, tu não sabes e espero que nunca saibas…

- Não sei o quê, Rafael? Queres contar-me um segredo, é isso!?

- Não é bem um segredo.

- Então? É sobre a Mariana? Ela vai descobrir tudo, nem quero imaginar o que vai acontecer
quando voltar da rádio, acho que nos mata a todos, sobretudo a ti e ao

Manel…

- 75 –

- Não é sobre a Mariana, não. Acho que foi fixe apanhar a tua irmã desprevenida, mas a partida
vai ter um final feliz, não é como eu…

- Ai, Rafa, desembucha, vá lá – pediu a Margarida, dobrando a esquina da rua do supermercado.

- Tu não sabes como eu fico triste quando chega domingo à noite… – O Rafael parou de andar e
pôs-se a abrir e fechar o fecho éclair do camisolão. – Tu não sabes

e espero que nunca fiques a saber… Voltar para casa é tão chato! A minha mãe enfia-se na cama
logo depois do jantar, com a desculpa de que vai ler um bocado, mas

é tudo mentira. Eu ouço-a a soluçar no quarto ao lado, e às vezes até me custa adormecer…
Depois é horrível, finjo que sou forte, que sou o homem da casa, e tenho

de te confessar que até estou a conseguir… – O Rafael esboçou um sorriso e exibiu os músculos
do braço, arregaçando a manga do casaco. – Mas forte só sou nos músculos

e quando jogo futebol, só nessa altura é que me esqueço de tudo, sabes? Penso que tenho de
agradar ao Miguel, para um dia ser alguém no mundo da bola – continuou,

enquanto voltava a descer a manga da camisa. Então, olhou para a Margarida bem no fundo dos
olhos cor de azeitona da rapariga. – Tu percebes o que é que sinto, Margarida?

- Acho que percebo, Rafa, deve ser horrível. – A Margarida mordia o lábio de baixo, tentando
não mostrar que estava, também ela, quase a chorar com pena do Rafa.

- 76 –

- É horrível mesmo, não é só ter saudades do meu pai, é não saber como ajudar a minha mãe. Por
mais que a Cristina me diga que eu não tenho de me sentir responsável
por tudo o que se passa à minha volta, o pior é que eu sofro por ver a minha mãe sofrer.

- Mas tu até andas assim… assim… um bocado mais contente… Eu acho que estás
superdiferente de quando… quando aquilo aconteceu…

- Talvez, mas sabes porquê, Margarida?

- Porquê?... Por causa do futebol e do Miguel?

- Isso é muito importante, tens razão, mas não é só por causa do futebol, é por vossa causa. Se
não fossem vocês e a vossa família incrível, acho que ficava tão

infeliz como ficam os morcegos à luz do sol…

- Um morcego, biahhh, que ideia!

- Se não fossem vocês – repetiu -, quer dizer… se não fosses tu… vivia feliz na escuridão, como
o morcego.

- Ai, Rafa, que coisa! Vivias feliz na escuridão?! Se dissesses isso à Mónica, que tem pânico do
escuro, acho que ela tinha um ataque!

- Não brinques com coisas sérias, Margarida. Viver feliz na escuridão é não precisar de luz.

- Não precisar de luz? Isso é muito complicado para mim, Rafa! Essas cenas são coisas da tua
psicóloga, da Cristina, não é?

O Rafa não respondeu. Aquela “coisa” ficara-lhe presa na garganta. Queria ter sido capaz de
dizer à Margarida que

- 77 –

era ela que o fazia feliz. Claro que não era só ela, toda a família o enchia de mimos e de
atenções, mas havia qualquer coisa na Margarida de que ele gostava mesmo,

era como se ela fosse a luz do dia, e isso fazia-o perceber que há sempre um quarto iluminado
dentro de nós.

Já no supermercado escolheram os morangos mais bonitos, os que lhes pareceram mais


sumarentos e apetitosos. A Margarida concentrara-se na tarefa, tentando não pensar

muito no que o Rafael tentara dizer-lhe sobre a luz e a escuridão. Pôs os morangos num saco
transparente, um a um, com muito cuidado, e dirigiu-se à caixa.

- Mais alguma coisa, meninos? – perguntou-lhes a senhora.

- Mais isto! – anunciou o Rafael, pondo um pacote de M&Ms à frente dos morangos. – Mas este
sou eu que pago.
A Margarida desatou a rir.

- És guloso, Rafa!

- Enganas-te, são para ti, Margarida… – disse o Rafael, muito baixinho. – Cada um destes
M&Ms representa uma das razões por que gosto tanto de ti; são muitas,

como vês… – rematou, balançando o pacote.

Apeteceu-lhe agarrar-se ao pescoço do Rafael e enchê-lo de beijos nas bochechas, como fazia ao
pai, mas achou que não seria capaz. Os beijos que daria ao Rafa sabiam

a chocolate, de certeza que sim… E, tal como nos M&Ms, quando se começa, não se consegue
parar!

- 78 –

A Rita carregou na setinha e saiu do Facebook. Não conseguia entender como é que já tinha mais
de mil fãs. Recostou-se na cadeira. Será que o Miguel tinha razão?

Que ela poderia ficar famosa? Mas como é que o namorado, que já a conhecia tão bem, podia
sequer pensar que era isso que a motivava? Nunca imaginara poder vir a

ser escritora, queria tirar Comunicação Social, só queria ser jornalista, o que já por si era um
desafio… Sabia que tinha de controlar a gaguez, e depois de as

aulas acabarem, daí por uma semana, iria começar a terapia da fala, tinha esperança de melhorar.
Era lógico que o Miguel se sentira atirado para segundo plano, mas

não tinha qualquer razão… Se algum dos dois iria ficar famoso, seria o Miguel que, no fim de
semana seguinte, tinha um estágio da seleção sub-21, marcando assim

o arranque para o Campeonato da Europa. Tudo o que queria era sossegá-lo, para que o estágio
lhe corresse bem. Voltou a entrar na sua página de fãs – que ideia maluca,

a de lhe terem feito esta partida. Sabiam bem como era tímida e avessa a este “alvoroço todo”,
mas agora não havia nada a fazer… Franziu a testa. Recebera uma

nova mensagem. Clicou e leu: “Sou a professora bibliotecária Maria Luís, temos todo o gosto em
convidá-la para vir falar aos alunos do segundo ciclo sobre a sua

paixão pela escrita, em data a combinar. Por favor, contacte-nos para o email abaixo indicado.
Melhores cumprimentos.”

- 79 –
- Ago-go-gora é que estou tra-tra-tra-mada – explodiu a Rita, falando sozinha.

Conhecia bem a sua incapacidade para falar em público. Um convite para ir a uma escola falar
sobre a paixão que tinha pela escrita? Nunca, jamais, em tempo algum…

“Vou apagar isto e finjo que não vi. Não tenho alternativa: ou apago, ou arranjo uma desculpa.
Não posso correr o risco de ser gozada por todos”, pensou. Ficou por

um instante em silêncio. Já estava a ver o filme: iam-lhe atirar papelinhos à cara, borrachas e
tudo o que tivessem à mão. Seria incapaz… Sentiu-se invadida por

arrepios misturados com suores frios. Era isto que mais temia, era este o pior defeito do
Facebook: invadira-lhe a sua privacidade e tocara-lhe nos pontos fracos.

E agora?

Tinha de ligar ao Miguel antes de apagar a mensagem. Se não respondesse à professora, corria o
risco de passar por malcriada ou por arrogante e convencida, que nem

sequer se dignava a responder às mensagens. Tinha mesmo de saber o que é que o Miguel
achava. Pegou no telemóvel e teclou o número do namorado, mas, antes de terminar

a ligação, desligou a chamada – não era boa ideia. Primeiro o prémio, agora o convite de uma
escola… tudo isto uma semana antes do estágio…

- Ai! – queixou-se. – Se ao menos t-t-t-tivesse uma irmã com quem c-c-c-conversar… Não tenho
irmãos, mas tenho uma espécie de cunhados, e são muitos.

Procurou a letra M no telemóvel. Em M de Machado tinha vários por onde escolher… “Vamos
começar pelo início”, pensou. No visor, apareceu o Manuel, logo de

- 80 –

seguida a Maria. Carregou na tecla para começar a ligação a Maria saberia o que fazer.

- Estes morangos não são todos para ti, Madalena.

A Margarida não conseguiu deixar de se rir, ao ver os

bigodes vermelhos da irmã mais nova. – Estás toda peganhenta, Madalena, já te viste ao espelho?
Espera, se a mãe te apanha assim, não te deixa ir à festa logo à

tarde.

A Margarida foi molhar um pano da loiça no lava-loiças da cozinha e passou-o com toda a força
pela cara da irmã.
- Isso dói, bruta – queixou-se a mais nova.

- Pois dói, mas não podes ir assim para a mesa, toda lambuzada. Além disso, os morangos não
são para comer antes do almoço, Madalena. Já devias saber isso. Dói muito

mais apanhares um castigo da mãe, não achas?

- São tão bons, mana… – exclamou a Madalena, lambendo os lábios. – Mas olha que os
chocolates também não são para comer antes do almoço – disse, apontando para

o pacote quase vazio em cima da bancada da cozinha.

- Isso não é da tua conta, ciganita.

- Se eu não posso comer morangos, tu não podes comer chocolates…

- São especiais, mana! Anda! Ajuda-me a pôr a mesa, hoje é o meu dia.

- 81 –

- Não ajudo enquanto não me explicares porque é que os teus chocolates são especiais – avisou a
Madalena, enfatizando a palavra “teus” e pondo a mão na anca, ao

mesmo tempo que batia com o pé no chão.

- Porque foi o Rafael quem mos deu! Chiu! Não digas a ninguém – pediu a Margarida.

- Rafaaaaaaaaaaaa! Também quero chocolates! -gritou lá para dentro.

- Eu pedi-te para não dizeres nada, não foi? És mesmo uma bebé mimada.

- Mimada és tu, parvalhona! Vou contar a toda a gente cá em casa, se não me deres já um
chocolate!

A Margarida, enfurecida, agarrou a irmã por um braço com toda a força.

- Ouve lá, ciganita, tu não estás a fazer chantagem comigo, pois não, Madalena?

- Chatagem! – A Madalena fez uma careta. – O que é isso? Eu só quero que me dês chocolates!

- Acabou a conversa dos chocolates e do Rafa, e de tudo! Ouviste bem? Leva os talheres lá para
dentro, enquanto eu levo os pratos. – Largou-lhe o braço e abriu o

armário da cozinha.

- O Rafa é especial porque não tem pai? – insistiu a mais nova.

- Não, Madalena – respondeu a Margarida, respirando fundo para se acalmar.


- Então, é especial como o João Pedro para a Maria?

- 82 –

- Não, Madalena.

- Então, é porquê? Porque é diferente?

- Sim, porque é diferente.

- Diferente, especial; especial, diferente – respondeu a Madalena, contando pelos dedos. – Para
mim, vai tudo dar ao mesmo. – E, olhando para os talheres dentro

da gaveta, concluiu: – Estes garfos são diferentes das facas, mas não são especiais, os garfos
especiais estão na gaveta da sala. A mãe diz sempre “garfos especiais

para ocasiões especiais”. Nós os sete somos todos diferentes, não é? Mas também somos todos
especiais, ou não?

- Tu és mesmo tolinha, Madalena… – A Margarida passou com ternura a mão pelos cabelos
macios e lisos da mais nova, apercebendo-se de que a irmã tinha um ponto

de interrogação desenhado na cara. – Quanto aos chocolates, nem uma palavra… Estamos
entendidas?

- Mais ou menos – respondeu a mais nova. Tinha de tirar a limpo aquilo que a Margarida lhe
dissera… Porque é que o Rafael era assim tão diferente para a Margarida?

Ou seria especial?

- 83 –

7.

- Mas eu ouvi…

- Mariana, acredita, foi uma brincadeira parva do Manel e do Rafa… Mas não é disso que te
quero falar, a brincadeira já passou.

- Não passou, não! – rosnou a Mariana, pensando em como se podia vingar por ter feito aquela
triste figura na receção.

O estúdio estava muito sossegado. Aos sábados de manhã, na Rádio Nabais, só existia o
noticiário da manhã, ficando depois a música e a publicidade a passar com apenas

um técnico a coordenar tudo. Era uma rádio pequena, não se podia dar ao luxo de ter uma edição
completa aos fins de semana, não haveria publicidade que pagasse as

horas extraordinárias de toda a equipa. Sozinhas naquele cubículo, com um computador, vários
microfones, auscultadores e uma mesa de mistura, podiam conversar à

vontade. Aliás, podiam fazer mais do que isso – a Graça tivera uma ideia.

- 85 –

- Conheces este livro, Mariana?

A rapariga reconheceu logo o livro preferido da Madalena: O Cuquedo. Só nesse momento


reparara na capa: o livro fora escrito por Clara Cunha e ilustrado por Paulo

Galindro. A história era genial – simples e repetitiva, com os animais fugindo de cá para lá e de
lá para cá, pois o Cuquedo era um bicho perigosíssimo que assustaria

quem estivesse quieto. Sorriu… Como poderia aquele montinho de riscos inofensivo fazer mal
aos animais? A ilustração final era de rir até não poder mais.

- A minha irmã delira com essa história! Está sempre a dizer: “Alto lá!” E no fim atira-se para o
chão, com o susto daquele Buhhhhh! que o Cuquedo diz no fim.

- Queres lê-la ao microfone? E para eu fazer uma experiência… – pediu a Graça.

Aclarando a voz, a Mariana agarrou no livro e comentou:

- É pena não se verem as imagens…

- Sim, eu sei, mas experimenta.

- “Andava uma manada de hipopótamos de um lado para o outro quando apareceu uma zebra e
disse: ...”

A história foi avançando e a Graça recostou-se a ouvir – tinha jeito, a Mariana! Contava as
histórias com graça, fazia várias vozes e criava suspense. Quando chegou

ao fim, disse num tom teatral:

- Buhhhhh! E, como já podem imaginar, todos os animais caíram para o lado… Esta parte vê-se
na imagem, por isso vos conto. Gostaram?

- 86 –

Carregando no botão, a Graça parou a gravação, estava a sorrir.

- Tenho uma proposta para te fazer.

- A mim? É mesmo a sério?...

- Desta vez, é mesmo a sério! Tens um jeitão para ler ao microfone… Que tal se, às sextas, por
exemplo, viesses até aqui e gravássemos seis pequenas histórias
para passarem sempre na Rádio Nabais a seguir ao noticiário das 8h? Bem, nem precisavam de
ser seis, podia ser uma maiorzinha, que dividias em seis partes. Não poderia

durar mais do que três minutos, sensivelmente.

Na cabeça da Mariana, passavam muitas coisas ao mesmo tempo, como se alguém tivesse dado o
sinal para uma corrida desenfreada de cem metros barreiras. Umas ideias

ultrapassavam as outras, caíam barreiras e nasciam outras, tudo num turbilhão.

- Mariana…?

- Sim, sim, Graça, desculpe, fiquei meio bloqueada!

- Que me dizes?

- Acho uma excelente ideia!

- Não te posso pagar, tenho de te avisar acerca disto, mas quem sabe se as editoras não começam
a oferecer-nos livros ou até a patrocinar o programa? Pode transformar-se

numa coisa muito interessante, não te parece?

- Genial!!!

No caminho para casa, as coisas não melhoravam – continuava a pensar a uma velocidade
estonteante e os

- 87 –

remorsos começaram a avolumar-se. Como fora capaz de não dizer que raramente lia? E agora?
Não seria fácil voltar atrás.

Olhou para o relógio, faltavam dez minutos para o almoço, precisava de ajuda! Mandou uma
mensagem à Rita: “Preciso de ti, urgentemente!!! Se ainda não almoçaste,

convido-te eu. Anda!”

E assim que entrou em casa, correu à cozinha a avisar:

- A Rita vem almoçar, Alice, pode ser?

- Pode… O Miguel convidou-a, foi?

- Não, fui eu. Vou tomar duche a correr!

E antes de a Alice conseguir saber mais qualquer coisa, já a Mariana corria pelo corredor em
direção à casa de banho.
*

Uma menos cinco…

O João Pedro sabia que estava quase na hora de almoço em casa da família Machado, não podia
telefonar naquele momento, mas queria saber a resposta. Distraíra-se

com as horas. Enquanto conversava com os pais, acabara por enviar a mensagem tarde demais.
Tinha o coração a bater tão depressa que nem aguentava! Os pais iam a

uma festa qualquer em Santarém e ele pedira-lhes boleia até à Rua dos Girassóis. Custava-lhe
aparecer sem confirmação, mas não parecia haver outra hipótese…

- 88 –

A mensagem que enviara à Maria foi finalmente respondida: “Vem, vem, sem problema! A Rita
também vai almoçar cá. Não há crise, os pais foram a uma festa em Santarém…”

“Vão todos à mesma festa, já se percebeu”, pensou o João Pedro, imaginando que os pais podiam
falar com o Mateus e a Teté. “Espero que nada disto dê asneira…”

O carro parou à entrada da rua, e o João Pedro abriu a porta. No entanto, voltou a entrar. Deu um
grande beijo à mãe e abraçou o pai, que sorriu. Ficou depois a

vê-los desaparecer na curva seguinte. Respirou fundo e encaminhou-se para a porta.

- João P-p-p-pedro!

- Rita! Vens almoçar também?

- Sim, f-f-f-f-foi a Mariana que me p-p-p-pediu…

O rapaz levantou o sobrolho, admirado, mas não comentou – da Mariana podia esperar-se tudo!
Entraram juntos, sendo recebidos por um Mister excitadíssimo, como se

fosse dia de festejo. Nem o João Pedro nem o Miguel repararam na troca de olhares entre a
Maria e a Rita. O Miguel apenas estacou à porta, recebendo um beijo da

namorada sem perceber porque estava ela ali. Só o Manuel entendeu que, para além deste
pormenor, também a Mariana sussurrara ao ouvido da Rita: “Help!” O almoço

prometia.

Não havendo pais a presidir, o que ali se passava era assim: dez à mesa, com o Rafael a entreter
o Mister, o que o deixava ainda mais endiabrado, a Alice a tentar

pôr ordem
- 89 –

em tudo e a não conseguir, e a Maria a tentar fazer as vezes dos pais sem qualquer êxito.
Contudo, o Miguel resolveu tirar aquilo a limpo.

- Vamos lá saber! A que se deve este almoço pluri-familiar?

- Não é bem pluri… – começou o Manuel, levando logo uma cotovelada para que se calasse. –
Nunca me deixam dizer nada…

- Eu não percebo porque é que eu não tive direito a convidar o Filipe!!! – queixou-se a Mónica. –
Temos de ser justos!

- Bem visto, sim senhora – concordou a Mariana, agarrando no telemóvel e começando de


imediato a resolver o assunto. A última coisa que ela queria era que a Mónica

andasse a meter-se na sua conversa com a Rita. -Já o convidei.

- Mandaste-lhe mensagem?! Assim? – perguntou a Margarida, espantada.

- E já respondeu – anunciou a Mariana, lendo. – Diz que está mesmo a acabar o resto, vem para a
sobremesa.

- Qual sobremesa? – perguntou a Madalena, com a boca cheia.

- Traz ele! Diz que tem areias… – informou a Mariana.

- Que porcaria! – enjoou-se a mais nova.

- São bolos, Madalena, são bolinhos pequenos com açúcar por fora – explicou a Maria, sorrindo
para o João

- 90 –

Pedro. Já percebera que ele estava feliz… – Está a ser um almoço muito estranho…!

- O Rafa também não trouxe namorada – brincou a Margarida, deixando o rapaz tão atrapalhado
que quase se engasgou.

- Não tenho… eu não tenho namorada…

- Não tens, ainda!!! Deixa lá, é a menininha da casa a brincar contigo, Rafa! Conta lá, Mariana,
como é que foi na Rádio Nabais? Desembucha – pediu o Manuel. – O

que é que vais fazer?

- Foram muito engraçadinhos, vocês, muito engraçadinhos!!! Devia partir-vos em três mil
bocados! Mas acabou por ser giro. Eu e a Rita vamos ser uma dupla infalível…
- Eu?! – O coração da Rita ficara em transe. – M-m-m-m-mas eu sou g-g-g-ga-ga!

- Sem crise, vais ser o apoio técnico.

- O que foi? – interrogou-se o Miguel, sentindo que, mais uma vez, era apanhado desprevenido. –
Qual é a próxima surpresa…?

Logo num abrir e fechar de olhos, a Maria pô-lo no lugar – convinha não repetir erros! O Miguel
resolveu compor a cena:

- Acho ótimo que a minha namoradinha aproveite a sua veia artística…

- J-j-j-j-juro que não sei de nada…

Um franzir de sobrolho da Maria mostrou que, também ela, não estava a acompanhar a cena. A
Rita não

- 91 –

pedira ajuda para lidar com o Miguel? Ou era outra coisa? O que era aquilo da rádio?! Mas a sua
atenção estava centrada no João Pedro, que suplicara para estar com

ela quanto antes, pois tinham muito que conversar. A Maria acabou por sacudir instintivamente a
cabeça, como se se quisesse libertar das confusões que tinham invadido

aquela casa. De nada adiantou. Um toque de campainha lançou o Mister a ladrar para a porta,
saltando de contentamento. Era o Filipe e as areias…

- Acho que vou ter uma síncope – confessou a Alice, a sorrir.

- E não vais ser a única – avisou a Maria.

- Espera só um bocadinho, João Pedro – pediu a Maria, encostando a porta do quarto e deixando
o rapaz de fora. – Não fiques assim, Rita, vais ver que é só uma coisita

de nada…

- Vinda da Mariana…? Não s-s-s-s-sei.

- Mas tu querias perguntar-me outra coisa, não

era?

- É por causa do c-c-c-concurso. Uma professora bi-bli-bli-bliotecária quer que eu vá à escola


falar sobre o meu gosto pela es-s-s-s-scrita. Como é que eu faço?!
Não me vou pôr a ga-ga-ga-gaguejar em frente aos miúdos!

- Calma, calma, isso não tem problema nenhum.

- 92 –

- Tem, Maria, t-t-t-tem! Vão rir-se de mim e depois -continuou a Rita, já com a voz embargada –
vou sentir-me p-p-p-p-pessimamente!

- Não! Isso que estás para aí a dizer é muito estúpido. Eu até acho importante que as pessoas
respeitem essa diferença, não fazes de propósito. Até pode ser muito

instrutivo…!

- Sim, sim, eu a gaguej-j-j-j-jar e os miúdos a gozar? Não v-v-v-vai dar!!!

- Olha a Maria João Seixas! Não sabes quem é? Aparece imensas vezes na televisão e é gaga.
Não tem complexos nenhuns.

- Mas eu t-t-t-t-tenho!

Como esta última frase já foi dita muito alto, houve logo dois rapazes impacientes a entrar pelo
quarto adentro. O Miguel ficou muito preocupado, o João Pedro um

pouco envergonhado, mas a espera para poder falar com a Maria estava a ser penosa. Logo atrás,
entrou a Mariana, disparando:

- Já posso levar a Rita comigo? Preciso de uma opinião de escritora!!!

Esta frase foi a gota de água, e a Rita desmanchou-se a chorar, tentando fugir dali. No entanto, a
Maria segurou-a e falou com ternura, enquanto o Miguel lhe acariciava

os cabelos.

- Calma, Rita, calma. Isso da terapia da fala é muito bem pensado, pode ajudar. Mas o que tens
de entender é que esse teu problema não pode travar os teus planos.

Ires à

- 93 –

escola falar pode ter um efeito impressionante nos miúdos. Já pensaste em quantos miúdos
envergonhados, tímidos, desengonçados, até gagos, vão olhar para ti e pensar:

eu posso ser como a Rita!, não faz mal, já pensaste nisso?

- Ir a uma escola…? – interrompeu o Miguel, recebendo logo ordem da Maria para que se
calasse. – Desculpem, só queria perceber…
- Convid-d-d-d-daram-me para ir falar a uma escola! Só p-p-p-por causa da porcaria do conto! Se
eu soubesse, não tinha con-con-concorrido, só me tem trazido confusões.

Os outros quatro começaram a rir com carinho. Era um disparate, o que a Rita dizia! Claro que
era fantástico! E podia ainda ser mais, se ela conseguisse motivar

outros miúdos para a escrita, para além de lhes dar o exemplo de que o facto de ser gaga não a
impedia de fazer uma vida como os outros. Tudo isto foi explicado

à Rita de várias maneiras, mas quando a Mariana falou, a coisa quase descarrilou:

- Vais ser um sucesso na rádio, vais ver!!!

- Eu?! Mas estão t-t-t-t-todos doidos?

Então, a Mariana lá explicou o que pensara. Podia ser a Rita a escolher os textos para ler na
Rádio Nabais, pois tinha mais sensibilidade do que ela. Fariam uma

dupla! A Rita não precisaria de contar as histórias, essa seria a incumbência da Mariana.

- Podias pedir ao Manuel – sugeriu o Miguel, pensando que o irmão iria ficar triste por, depois de
ter feito aquela partida e depois de ter solucionado, de uma forma

- 94 –

tão construtiva, o desenvolvimento, ser posto à margem. – Aliás, se tu vais ser a voz, a escolha
dos textos até podia ser distribuída por várias pessoas. Estou aqui

a pensar… A Rita tem de ser, claro – disse, com orgulho -, mas podes pedir ajuda ao Manuel,
que lê imenso, à Carol e ao Rafa, que precisa de se ocupar, e a leitura

será uma boa estratégia, e até à Margarida, que agora não sai de ao pé dele…

A Rita ia limpando as lágrimas, enquanto o abraço do Miguel a puxava cada vez mais para si,
enchendo-a de beijos.

- Não é má, essa tua ideia – concordou a Mariana, pensando que, desde que ela não tivesse de ler
centenas de livros, tudo poderia funcionar melhor. – Nada má, vou

propor-lhes isso. Tu, Rita, já estás contratada!

E a Mariana saiu do quarto, chamando pelos três futuros parceiros de rádio.

- Maria…? – perguntou o João Pedro, a medo. – Podemos falar?

- Claro que p-p-p-p-podem. Desculpa, João Pedro!!! Obrigada… Nós deixamo-vos em p-p-p-p-
paz.

- Mas tenham juízo – implorou o Miguel, já cansado de confusões. – Muito juizinho!


Quando finalmente se encontraram a sós, o João Pedro pôde contar a conversa com o pai.
Explicou à Maria como ficara aflito por ele ter ouvido aquelas palavras tão

duras, mas, por outro lado, talvez tivessem sido essas mesmas palavras que haviam mostrado a
verdade ao pai.

- 95 –

- E agora…?

- Eu fico. Vou ficar no mesmo quarto onde tenho estado este ano. Vou trabalhar a dar
explicações, para completar o que os meus pais me dão todos os meses, e que

eu pedi para ser muito menos, porque fico por escolha minha. Vou mostrar-lhes que sou adulto e
que sei tratar de mim.

- E o casamento…?

- Era uma precipitação, Maria. Eu sei que é contigo que quero viver, mas é cedo demais, não é?
Também achas…?

A Maria respondeu-lhe com um abraço apertado. Tinham sempre muito avanços e recuos, o
namoro não era um mar de rosas, mas adorava o João Pedro e sentia um alívio

enorme por não ter aquela pressão sobre si mesma.

- 96 –

8.

- Escuta, Rita, tens de treinar nem que seja cinco minutos por dia em frente ao espelho,
prometes-me? – insistiu a terapeuta da fala.

- Pro-pro-prometo, mas não sei se vai fun-fun-cionar…

- Claro que vai! É tudo uma questão de controlo e de insistires muitas vezes. Já imaginaste um
pianista que não treine todos os dias? Um escritor que não escreva

todos os dias? Os exercícios que temos feito, e que te peço para repetires em casa, são tal e qual
como os exercícios de escrita, escalas ou arpejos… ou mesmo

qualquer desporto que pratiques com seriedade… Só há um truque: treinar. Sabes, Rita –
prosseguiu carinhosamente a terapeuta, pousando a mão em cima da mão da

Rita -, não conheço nada nesta vida que se consiga atingir sem ser à custa de treino, muito treino,
dedicação e esforço.

A Rita dizia que sim com a cabeça, embora não estivesse nada certa de conseguir alcançar os
objetivos. Custava-lhe
- 97 –

imenso passar uma hora fechada ali dentro a fazer todos aqueles exercícios com a voz, que
envolviam um esforço brutal; contudo, sabia bem que aquela era a única

forma. Precisava de ajuda e ali estava a sua preciosa ajuda – a terapeuta Helena. Em breve teria
de ir à biblioteca fazer a apresentação em frente dos alunos, e

tinha imenso medo de fracassar e de ser gozada, mas a Helena jurara-lhe que ia conseguir e não
lhe restava outra alternativa senão confiar. A Rita fitava a Helena

no fundo dos olhos, como se quisesse que ela lhe transmitisse ainda mais confiança. Parecia-lhe
uma mulher triste e só. Apesar de se desfazer em simpatias com ela

e de se mostrar muito dura e exigente na execução dos exercícios de dicção, via-se que também
ela fazia um esforço. Podia jurar que a Helena tentava esconder uma

sombra triste que por vezes lhe atravessava o olhar sempre que rodava as duas alianças no dedo
anelar.

- Sabes, Rita – prosseguiu a terapeuta -, isto é só uma dificuldadezinha, como se tivesses uma
parte muito pequena do teu software mal instalada, e o que estamos

aqui a fazer é a reinstalar o sistema. Foi assim que expliquei ao meu filho, quando ele me
perguntou porque é que havia pessoas diferentes.

- Pessoas diferentes?

- Sim. Quando andava no 3º ano, voltou para casa muito incomodado por ter entrado na aula dele
um rapaz com a síndrome de Down!

- É ver-ver-verdade, custa muito… acei-cei-ceitar…

- 98 –

- É só uma questão de software… Uns nascem com tudo certinho, outros com alguns programas
mal instalados. Esses também chegam ao objetivo, é só uma questão de

trabalharem mais, há caminhos com mais curvas do que outros.

- E o se-se-seu filho, He-He-Helena, fale-me de-de-dele – pediu ela, com o sorriso mais doce que
conseguiu.

A Helena tossiu, mexeu-se na cadeira, mudando de expressão, e desabafou.

- Ficamos por aqui, está bem, Rita? Não me leves a mal, mas há coisas de que prefiro não falar.
Pode ser?

A Rita franziu a testa, não queria nada ser aborrecida, nem meter-se na vida da terapeuta,
sobretudo não queria magoá-la.

- Desculpe, Helena!

- Vês! Eu não te dizia? Se calhar nem notaste, mas soletraste na perfeição esse “desculpe,
Helena” – e, dizendo isto, abraçou a Rita com tanta força que a rapariga

se sentiu capaz de recitar Os Lusíadas de uma ponta à outra de seguida, se fosse preciso.

Os livros estavam todos no chão, em pilhas de tamanhos variados. Havia pilhas de banda
desenhada, de romances, de livros de aventuras, de viagens e ainda de biografias

e História.

- 99 –

- E este ponho onde, Manel? – perguntou a Mariana, virando o livro em todas as direções.

- Esse qual?

- Este, Manel! Se te voltasses, era mais fácil.

O Manuel tinha subido ao escadote para alcançar a prateleira de cima da estante que estava no
quarto da Maria.

- Queres que eu caia daqui abaixo, é?

- Por acaso… podia ser que ficasses com um parafuso a menos, pelo menos sempre te tornavas
um rapaz normal.

- Olha que gracinha! Já é difícil que se farta equilibrar-me aqui em cima, quanto mais voltar-me
para trás. Diz lá o título, vá!

- Este, trol! Este livro verde-escuro, daquela escritora que tu adoras!

- Verde-escuro, Mariana, mas onde é que tu tens a cabeça? Uma questão de azul-escuro, até sei
de cor…

- E tu que não soubesses tudo de cor! Fala sobre

quê?

- Bullying, violência na escola, é uma história linda, eu adorei.

- Bullying, aquilo de andar à pancada no recreio?


- Não te digo… Lê e logo percebes.

- Então arrumo em que pilha?

- Na pilha da rádio, esse é incontornável, tem mesmo de ser lido na Rádio Nabais.

- 100 –

- Incontornável?

- Ai, Mariana, não me vais perguntar agora o que é que quer dizer incontornável, pois não? Já me
basta ser teu assessor! Eu, a Carolina, a Rita, o Rafa! Estás cheia

de ajudantes, por isso não te queixes muito.

- Mas já temos doze livros na pilha, com este, treze, há mais livros do que programas!

- Ei, espera lá! O Mister aqui é que não… – queixou-se o Manuel, apercebendo-se de que a porta
do quarto se escancarara, dando entrada a um cão assustado.

- Cão mau, cão mau! Péssimo, pior do que todas as cobras do mundo! – ouvia-se.

Foi uma questão de segundos. Seguindo o Mister, que vinha cheio de medo, entrou a Madalena
aos gritos estridentes com um espanador na mão esquerda. Estava toda vermelha

e parecia muito zangada.

- És um cão péssimo e malcomportado, Mister! Ninguém aqui gosta de ti, nem sequer a Mónica!

A mais nova tentava a todo o custo bater com o espanador no cão, que fugia dela por onde podia.
Tal foi a correria do Mister e da Madalena à volta do quarto que,

primeiro uma tangente ao escadote, depois um safanão mais forte, fez desequilibrar o Manuel lá
do alto. Desamparado, caiu de bruços no chão.

- Passaste-te, ciganita? – gritou a Mariana. – Olha o lindo serviço! Um já se foi!

- 101 –

O Manuel, agarrado a um braço, chorava e gritava tão alto que a Alice entrou ali esbaforida,
seguida pela mãe, que tinha acabado de chegar a casa…

- O que é que se passa aqui? – perguntou a Alice.

Mas, ao ver que o Manuel estava de tal forma pálido, não teve outra alternativa senão prever o
pior cenário: de certeza que se tinha magoado a sério.

*
Naquela tarde, a Margarida estava toda orgulhosa com a mensagem que acabara de receber e que
não parava de mostrar a toda a gente, sobretudo à Laurinha, a sua melhor

amiga.

“Queres vir lanchar na quinta-feira a minha casa? É feriado e a minha mãe deixa!”

- É do Rafael? – perguntou-lhe a Laurinha, tirando-lhe o telemóvel da mão.

- É, claro que é, de quem mais querias que fosse?

- Sei lá, há tantos que gostam de ti!

- Nem um, Laurinha, nem um… Eu é que gosto de vários…

- Não gostas nada, Margarida, não gozes! Tu só gostas do Rafael e, pelos vistos, ele também
gosta de ti…

- Não sei… o Rafa é assim uma espécie de irmão – suspirou a Margarida. – É o Miguel que o
treina em Santarém,

- 102 –

mas, como passa quase todos os fins de semana lá em casa, tornámo-nos amigos, só isso…

- Tu não me enganas, Margarida. Ele gosta de ti.

- E como é que eu sei se isso é verdade, Laura?

- Põe-no à prova.

- Como assim?

- Faz-lhe uma partida, tipo Mariana, e logo vês se ele gosta ou não.

- Ai, Laurinha, não tenho coragem, coitadinho…

- Vês, vês como gostas dele? Estás sempre a defendê-lo!

A Margarida pensou por instantes, engolindo de uma assentada a sanduíche que trouxera para o
lanche.

- Que tipo de partida?

- Hum… deixa ver… Se eu fosse a tua irmã, já me tinha lembrado de várias… Já sei! Vou
mandar-lhe uma mensagem do meu telefone! Ele tem o meu número? – quis

saber a Laurinha.
- Não. Acho que não; só se tu lhe deste no outro dia em minha casa.

- É isso mesmo! Como ele não sabe o meu número, vou mandar-lhe uma mensagem, queres ver?

E, em instantes, a Laurinha escreveu: “Gosto de ti.” A Margarida sentiu um calafrio.

- Ai, Laurinha, coitado, uma mensagem anónima… Ele vai perceber que estás a gozar.

- Não vai nada. Vamos esperar pela resposta.

- 103 –

Segundos depois, veio a resposta para o telemóvel da Laurinha: “????”. Ao que a rapariga
respondeu: “Se me queres conhecer, vem ter comigo na quinta-feira às 17h,

à esquina da tua rua.”

- Oh, Laurinha, isso é mentira! Tu não estás a falar, quer dizer, a escrever a sério, pois não?

- Espera, só estou a testá-lo.

Ficaram as duas caladas, de olhar preso ao telemóvel da Laurinha.

- Ele não vai responder – disse a Margarida. – A estas horas está a entrar no treino.

- Tem calma, garanto-te que vai.

Segundos depois, chegou o aviso de mensagem escrita:

“Não me vou encontrar com pessoas que não conheço.”

“Porquê?”, teclou a Laurinha.

“Porque gosto da M e ela vem cá lanchar.”

Um sorriso doce desenhou-se na cara da Margarida, ao mesmo tempo que deixou escapar um
suspiro de alívio.

- Aqui tens! – exclamou a Laurinha, dando-lhe uma cotovelada. A “M” só podes ser tu!

- E agora, o que é que vais responder?

- Não respondo nada, não há nada para responder. Ele gosta de ti; aqui tens a prova dos nove.

- Felizmente, não sabe que eu gosto dele!

O coração da Margarida disparou. Estava ali, preto no branco, a verdade absoluta: “gosto da M”.
E, melhor
- 104 –

ainda, podia ficar sossegada, o Rafa não fora na conversa de uma desconhecida. Só não sabia
como havia de o encarar. Agora que estava por dentro dos sentimentos

do Rafa em relação a ela, como faria quando o visse? Sabia que ele gostava dela, mas ele não
sabia que ela gostava dele. Muito confuso? Perguntou a si mesma… Demasiado,

para quem só tem 11 anos.

A troca de mensagens não ficou por aqui. Afastando-se uns metros, para que a Margarida não
suspeitasse, a Laurinha voltou a responder ao Rafael: “Está descansado,

que a M também gosta de ti.”

A desordem estava instalada no número 17 da Rua dos Girassóis, e quando a Margarida entrou
em casa, ainda com um sorriso palerma na cara, quase tropeçou na Mónica,

que vinha da cozinha com uma tigela cheia de gelo.

- Sai da frente, minorca, temos um quase morto!

- Quase morto? – A Margarida sentiu um arrepio de frio que a paralisou.

- Anda ver o sarilho que a ciganita arranjou!

- Ai, Mónica, não percebo nada! O que é que se passa?

Sem esperar pela resposta, a Margarida seguiu a

Mónica até ao quarto da Maria. Deitado em cima da cama da irmã mais velha, estava o Manuel,
branco como os lençóis, e o Mister, muito infeliz, enroscado aos pés

da cama.

- 105 –

- Foi ele!!! – gemeu o Manuel, entre soluços.

- Ele quem? O que é que aconteceu? – quis saber a Margarida. – Então não foi a Madalena?

- Pergunta-lhe tu! – disparou a Mónica. – Não vês que está mesmo com cara de culpado?

- Cara de culpado, o Mister!

- O que a Mónica quer dizer é que o Mister está com focinho de culpado – gracejou a Mariana. –
Que eu saiba, os cães têm focinho em vez de cara!

Perante aquele cenário, a Margarida não conseguia achar piada a nada, nem sequer sabia se havia
de olhar para o irmão, com aquele cotovelo estranho, ou para o Mister,

mas deteve-se no Mister. O cão tinha as orelhas para trás e os olhos tristes, parecia mesmo que
estava a perceber tudo o que ali se passava.

- Eu explico – adiantou-se a Mariana, ajudando a Mónica a pôr gelo no cotovelo do irmão, que
estava deslocado, como todos já tinham constatado. – O Mister comeu

o jantar.

- Oh não! O jantar das visitas? Hoje vinham cá jantar os meus padrinhos, não era? E traziam
presentes para todos… – queixou-se a Margarida.

- Estás mais preocupada com o jantar e com os presentes do que com o Manel, não é verdade?...
– refilou a gémea.

- Não estou nada, continua!

- Então foi isso, a ciganita ameaçou o Mister com…

- 106 –

- Com uma faca? – continuou a Margarida, de olhos muito abertos.

- Não, parva! Com um espanador!, o que para o Mister teve o mesmo efeito! – continuou a
Mariana. – Ameaçou-o e ele fugiu dela a correr. Depois foi tudo muito depressa,

entrou aqui no quarto da Maria, quando o Manel estava em cima do escadote, a trabalhar para
mim.

- Para ti?

- Sim, eu contratei-o como meu ajudador.

- Não é ajudador, Mariana – gemeu o Manuel, num fio de voz -, é assessor…

- Isso, assessor, vai tudo dar ao mesmo! O Manel estava em cima do escadote a separar os livros
para o meu programa de rádio e, claro, o Mister deu-lhe um encontrão

no escadote, e catrapuz…

- Mas ele está quase morto, não é? – perguntou a Margarida, muito baixinho.

- Hum, hum, parece-me que sim – gozou a Mónica, ao ver que a irmã fazia uma expressão de
nojo.
- E a mãe?

- Foi buscar o carro para o levar ao hospital, enquanto a Alice está a tentar consolar a Madalena,
que não para de chorar – explicou a Mónica. – Como é óbvio, ficou

assustada com todo este aparato.

A Margarida não quis ouvir mais nada. Lá dentro de si, lembrava-se bem da ideia maluca que
tinha tido para fugir da escola: “partir um braço”... Só de olhar para

a cor

- 107 –

do Manuel, até se sentia indisposta, nunca vira ninguém tão branco, nem mesmo a Maria, anos
atrás, quando partira a perna. Se calhar o irmão ia mesmo morrer.

- Vou ver a ciganita! – anunciou.

Não podia dizer a verdade, para não fazerem troça dela. Se não saísse dali, desmaiava de
certezinha, ainda antes de o Manuel morrer. Enquanto se dirigia à cozinha,

conseguiu reunir forças e mandou uma mensagem à Maria: “Menos um. A Mónica diz que o
Manel vai morrer. Acho melhor vires depressa.”

- 108 –

9.

“Mónica, o que se passa aí em casa?! Que história é essa de menos um?!”

De cabeças encostadas, a Mónica e o Filipe liam a mensagem da Maria, enviada havia duas
horas.

- Tem jeito para actriz, a tua irmã semiminorca -comentou o rapaz, divertido.

- Coitada da Maria, só vi que me tinha mandado a mensagem agora! Deve estar em pânico… A
Margarida tem um parafuso a menos!

- Mas o Miguel disse que a Maria falou com o Manel antes de lhe porem o cotovelo no sítio, não
foi?

- Tens razão, pois foi. Muito guinchou o miúdo, livra!!! Bem, se tivesse sido comigo, acho que
desmaiava a valer, só para não ter de sentir aquilo…

Tudo acontecera de uma forma quase cómica. Quando a Teté metera o Manuel no carro, com o
objetivo de o levar rapidamente ao hospital, aparecera o Miguel

- 109 –
- o Carlos, fisioterapeuta da seleção, trouxera-o a casa, pois ia visitar uns tios a Vale de Nabais.
Ao olhar para aquele cotovelo, disse logo que, antes de irem

a um ortopedista, ele poderia pôr a articulação no sítio. Já toda a família ouvira falar do Carlos e
das suas mãos habilidosas. Pedira que o pobre e assustado Manuel

voltasse a entrar em casa, deitara-o no sofá da sala e estivera a aquecer todo o cotovelo, com
cuidado, durante minutos, até dizer:

- Respira fundo!

Assim que o Manuel inspirou, ele deu uma guinada no cotovelo, colocando-o no sítio. Os urros
de dor que o gémeo dera naquele momento juntaram-se aos uivos do Mister,

que se escondera de imediato debaixo da mesa. Parecia um verdadeiro filme de terror. Depois de
o Carlos o aconselhar a não pegar em pesos e a consultar, agora sim,

um ortopedista, o Manuel balbuciara um obrigado cheio de lágrimas disfarçadas.

- Vai ficar com o braço ligado muitos dias? – quis saber o Filipe.

- Esta primeira semana, sim, para não voltar a deslocar-se. O médico disse que foi excelente,
aquele trabalho do Carlos, fartou-se de o elogiar… Mas olha que não

sei como é que o Manel aguentou, coitado.

A Mónica recebia agora uma mensagem da Maria, em resposta à que lhe enviara minutos antes e
onde confirmava estar a par de tudo.

- 110 –

- Eu não sei como é que vocês fazem isto… – comentou o Filipe.

- Isto o quê?

- Esta família! É uma agitação pegada.

A Mónica sorriu. Era bem verdade, não havia dias aborrecidos nem iguais na família Machado,
só um balançar entre peripécias, aflições, alegrias, desafios. Ela adorava

viver no seio daquela família!

- Disseste que tinhas qualquer coisa para me mostrar – lembrou-se o Filipe.

- Abre – disse a Mónica, estendendo-lhe uma pequena

caixa.

Abrindo-a, o Filipe descobriu um álbum em miniatura com fotografias dos dois. Todas haviam
sido tiradas sem a preocupação de um enquadramento ou sorrisos. Eram fotografias

de torneios, festas na escola, instantâneos que os mostravam juntos e muito naturais, às vezes
suados e sujos, outras com um ar compenetrado, outras ainda com expressões

mesmo feias.

- Onde é que arranjaste isto?! São tão giras!!!

- Sabes que dia é hoje?

Um arrepio desceu pela espinha do Filipe. Esquecera-se de uma data?! A Mónica não lhe iria
perdoar isso. Tentava fazer contas de cabeça rápidas – não era o dia em

que lhe pedira namoro, oferecendo-lhe a Estrelinha; nem era o dia em que tinham acabado, por
causa daquela parvoíce da Marta; nem era aquele fantástico, quando tinham

- 111 –

recomeçado o namoro. Sentia-se perdido – que dia era aquele?!

- Vais ficar fula comigo… Não me lembro!

- Nem te podias lembrar! Aliás, nem eu mesma me lembrava… Foi hoje, há precisamente dois
anos, dois meses e dois dias – ouviste bem? – dois anos, dois meses e

dois dias, que percebi que te adorava!

O Filipe, por mais que tentasse perceber que data era aquela, não conseguia. Mas a Mónica
ajudou-o. Na última página do álbum, um papel amarrotado com um recado,

provavelmente trocado com a Sofia, numa aula.

- Escrevi o dia na parte de trás do papel – contou a Mónica. – E então achei que devia ser
comemorado por nós. Não é todos os dias que se faz dois anos, dois meses…

- ... e dois dias – completou o Filipe, antes de lhe dar um beijo que a deixou sem fôlego. – Tu não
existes, Mónica, não existes…

Foi a vez de a Mónica o abraçar e deixar o seu coração encostadinho ao do namorado. Um


alvoroço agitou-os, mas deixaram-se ficar assim, juntos, deliciados com aquele

dia!

A Maria entrava em casa carregada de cadernos e livros. Vinha por uns dias, para se preparar
para as últimas frequências do semestre. Quando o Miguel assomou à porta
da sala, riu-se, dizendo:

- 112 –

- Quanto pagas por uma ajudinha?

- Não sejas parvo, anda, leva isso lá para dentro, já nem sinto os braços!!!

A Maria revirou os olhos – o irmão pegara em tudo sem qualquer esforço e ia, corredor fora, a
fingir que estava a fazer pesos e alteres. Quando ela se atirou para

cima da cama, exausta, só teve tempo de se desviar uns centímetros antes de o Miguel a imitar,
deitando-se a seu lado.

- Estás a apertar-me – queixou-se, sem grande convicção. Ela adorava que o irmão lhe desse
atenção! – Conta-me tudo…

- Desde o princípio? Então foi assim… O pai era professor da mãe na Faculdade e…

- Parvo! Como é que foi a semana sem mim?

- A semana sem ti?! Grande convencida! Foi excelente, claro, não precisamos de ti para nada!
Até já nos vamos esquecendo que és da família.

Um beliscão valente fez contorcer a cara do Miguel, que se riu a seguir.

- A seleção, como é?

- Começamos o estágio daqui a dias. Estou completamente, totalmente, incredulamente,


estupidamente nervoso…

- A sério?!

A Maria levantara-se, para se encostar à parede; o irmão continuava bem acomodado, ocupando
quase todo o espaço livre.

- Juro-te, Maria, estou nervosíssimo!

- 113 –

- Mas porquê?!

- Sabes quem é o treinador, sabes?

Claro que a Maria não sabia nada de jeito, nunca ouvira falar de tal nome, nem conhecia as
manias e a dureza da sua forma de treinar, mas foi ouvindo tudo e interrompendo

vezes sem conta, para ficar bem dentro da conversa.


- Mas tu és fantástico, Miguel…

- Eu e todos os outros, percebes? Só que… Vês…? Não é bem como jogar no clube de Santarém.
É muita responsabilidade. Só espero não dar barraca!

- Ficas lá quanto tempo? Seis semanas?

- Credo, não! Três…

- Vamos ficar de férias de irmãozinho mais velho, muito bem.

A porta do quarto abriu-se e entrou o Manuel, de braço ao peito e ar de coitadinho. A Maria não
resistiu, foi abraçá-lo e encheu-o com tantos beijos que o Manuel

começou a pedir socorro.

- Ah, estou todo lambuzado, que nojo! O que é que estão aqui a fazer?

- Estava a contar do estágio – explicou o Miguel.

- Tchiiii, Maria, nem sabes o que eu tenho de aturar todas as noites. Não fala de outra coisa! Já
pensei em fugir de casa, ninguém o atura…

- És tão exagerado – brincou a Maria. – E tu? Já sei que foi um filme… Doeu muito?

- 114 –

- Nada, nada – mentiu o Manuel. – Passou logo.

- Grande abécula! – gritou o Miguel, sentando-se na cama. – Passaste a noite a gemer, a morrer,
qualquer coisa assim, parecia que ias cair para o lado…

- E caí!

A Maria desmanchou-se a rir. Pela porta entravam já a Madalena, ainda com o cabelo molhado
da natação, e o Mister, que saltitava em volta da Maria.

- Foram eles – disse o Manuel, em tom teatral.

Logo de seguida, vinha a Alice, afogueada pelo

calor húmido da piscina, que também fez uma festa ao constatar que a Maria já chegara. Depois,
entrou a Mónica, a conversar com a Mariana, que queria contar à irmã

um montão de ideias que tivera para o programa. O Miguel deu um salto e esgueirou-se pela
porta – o quarto era pequeno demais para tantos Machados!!! E já lá vinha

a Margarida, com a mãe. Só faltava o pai, pensou. A casa ainda ia abaixo!!!


*

- Bravo, Rita! – disse a Helena, contente com os progressos que ela fizera em apenas duas
semanas. – Tens conseguido aplicar tudo o que te pedi?

- Quase tudo… Aquilo de ouvir as p-p-p-palavras dentro da minha cabe-be-beça antes de falar,
sim! É muito mais f-f-f-fácil do que pensei… Até t-t-t-tenho feito

mais

- 115 –

perguntas nas aulas. Eu dantes não tinha corage-ge-gem, porque há sempre uns colegas que se
riem de mim.

- Não os leves a mal – pediu a Helena. – É uma parvoíce tola…

- Mas um deles at-t-t-é disse: “A gaga está avariada!” Riram-se todos, mas o Mi-mi-mi-miguel ia
tendo um ataque de fúria! E como eles admiram m-m-m-muito o Miguel,

porque ele é um craque no futebol…

- Miguel?... – perguntou a terapeuta da fala, quase chocada. – Andas na turma do Miguel


Machado?

- É o meu namorado – confessou a Rita, com um sorriso.

Um silêncio estranho interrompeu a conversa, e a Rita ficou baralhada. Resolveu intervir:

- Pa-pa-passa-se alguma coisa?

- Nada… Bem… Eu sou a mãe do Rafa…

A Rita ficou espantadíssima com aquela estranha coincidência. Já nem precisaria de tentar
adivinhar o porquê da sombra que aquela mulher carregava. Poderia ela,

Rita, ajudá-la? A Helena já fizera tanto por si… Pousou a mão no braço da terapeuta, que ficara
de repente calada e triste. Apertou devagarinho, tentando dar-lhe

algum carinho. Por fim, disse:

- Está a ser muito difícil, não está?

Os olhos tristes da Helena pousaram nos da Rita. Esboçou um sorriso, antes de dizer:

- 116 –

- Disseste uma frase inteira sem gaguejar, deste por


isso?

Um encolher de ombros foi o sinal com que a Rita lhe mostrou que o importante agora era ela,
Helena, não a Rita. Um amontoado de lágrimas surgiu, e a Helena quis

combatê-las, mas a rapariga não deixou.

- Alguém está a ajudá-la? Alg-g-g-gum psicólogo?

- Não adianta, Rita, eu estou a morrer por dentro, a morrer de saudade e desgosto!

- Não diga isso! Tem um filho fa-fa-fantástico, e uma vida inteirinha pela frente!!!

A Rita quase que se espantava por estar a falar sem gaguejar como de costume e a dizer aquelas
frases, mas sentia que as devia trazer para a conversa.

- O Rafael gosta mais de estar em casa dos Machados do que ao pé de mim. Qualquer dia, fico
sozinha!

- Que disparate! A ideia da família Machado é alegrá-lo, mostrar-lhe que ele pode acreditar na
vida, nas pe-pe-pessoas, nas amizades. O Rafa adora-a, não sabe di-di-disso?

As lágrimas escorriam agora pela cara da Helena abaixo. Um aceno mostrou que aquela mãe não
tinha a certeza de nada, suspeitava que o filho estava farto dela e da

sua tristeza. A Rita continuou a conversar. Sabia que era a última pessoa daquela tarde, e estava
disposta a aliviar uma parte daquele sofrimento, nem que fosse

só por um bocadinho. Contou alguns dos disparates que aconteciam em casa

- 117 –

da família Machado, como era sempre tudo uma agitação, uma vertigem. Contou a queda do
Manuel, a partida da rádio, as birras da Madalena. Conseguia, com tudo isto,

que aquela mãe sorrisse de novo.

- Eles são muitos, é mais simples – concluiu a Rita. – Apoiam-se uns aos outros e a nós, que
estamos por perto. Nem sempre é um mar de rosas, como deve ca-ca-ca-calcular!

Quando já se encaminhava para casa, a Rita escreveu uma mensagem ao Miguel: “Preciso
urgentemente do telefone do Rafa”, recebendo de seguida um número, seguido de

múltiplos pontos de interrogação. Respondeu apenas: “Vamos ter de arranjar um plano de


salvação. A mãe do Rafa precisa de nós, de todos nós!!!”

Nos balneários, o Miguel observava o Rafael, que conversava animadamente com os outros
miúdos. O Sérgio, vendo-o assim pensativo, perguntou:
- Passa-se alguma coisa que eu deva saber?

- É o Rafa. Já viste? Anda mais alegre, não é? Quando está aqui, pelo menos.

- Eu, se tivesse de voltar para casa e aturar aquela mãe sempre deprimida, ficava de rastos… Já
pensaste?

- Tu é que não pensas! – irritou-se o Miguel. – Nós andamos todos a ajudar o Rafa, e quem é que
ajuda aquela mãe que perdeu o marido tão cedo?

- Calma, Miguel, calma…

- Tenho ou não tenho razão?

- 118 –

- Sim, desculpa, deve ser difícil, pois… Tens razão… O Rafa acenava-lhes da porta, ia-se
embora. O Miguel

seguiu-o. A porta do clube, a Helena esperava pelo filho, com as mesmas olheiras de sempre, os
olhos tristes.

- A Rita é que tem razão, esquecemo-nos de uma pessoa…

- 119 –

10.

Quando o pai, a caminho de um cliente em Santarém, a deixou à porta de casa do Rafael, a


Margarida sentia as pernas a tremer como varas verdes. Era muito estranho

estar assim tão enervada. Afinal o Rafael era uma espécie de irmão da mesma idade; que mal
tinha ir lanchar a casa dele? Dizia isto para se convencer, mas, na verdade,

aquele tom avermelhado denunciava que havia algo escondido que a Margarida se esforçava por
desvalorizar. Ainda para mais, trazia uma surpresa para a mãe do Rafael

e não sabia ao certo se aquilo ia correr conforme planeado.

- Entra, Margarida, entra! – pediu a Helena, esforçando-se por sorrir e encaminhando-a para a
cozinha. – O Rafael está a preparar scones para o lanche… Nem imaginas

como ele deixou a cozinha, parece um armazém de farinha e manteiga!

Foi tudo tão rápido que nem se lembrou de lhe entregar logo ali o envelope com a surpresa. A
Helena tinha

- 121 –
razão, e a bagunça em que o Rafael transformara a cozinha só serviu para desanuviar o ambiente.
Era um espaço muito pequeno que, naquele momento, mais parecia o

palco de uma revolução! Havia farinha por todo o lado, cascas de ovos, pedaços de manteiga, e o
Rafael parecia fazer parte do cenário, pois ele próprio estava coberto

de farinha.

- Não me toques, Margarida, estou todo peganhento! – pediu o rapaz, mal a viu entrar na
cozinha. – Mas garanto-te que isto vai funcionar, ou não me chame eu Rafael

Simões.

A Margarida não conseguiu deixar de sorrir. Para acrescentar a tudo isto, o Rafael sentara-se na
pequena mesa oval da cozinha com o computador aberto. Ora olhava

para o ecrã, ora para o forno, onde seria suposto crescerem nove maravilhosos scones.

- Para que é que precisas do computador? Vais estragá-lo, Rafael, já está todo cheio de dedadas
de manteiga.

- Não estás a perceber, Margarida! É para ler a receita! Diz aqui tudo, assim não há forma de me
enganar. Encontrei a receita mais romântica do mundo, chama-se scones

do amor.

- Scones do amor! – A rapariga fazia um esforço para não tremer. Embora todo aquele cenário
fosse mesmo muito cómico, o facto de os scones se chamarem scones do

amor tornava tudo mais complicado.

- 122 –

- Não faças essa cara de minhoca preocupada com a boca aos folhos! O que é que foi? Tens
alguma coisa contra os scones ou contra a palavra “amor”?

- Ai, Rafa, não sejas parvo…

A Margarida torcia as mãos, uma na outra, sem saber o que dizer. Será que ele suspeitava que ela
também gostava dele?

- Diz lá a sério, Margarida! Não gostas de scones?

- Adoro scones, Rafa, tu bem sabes!

- Então, para estares assim tão envergonhada, é porque não gostas da palavra “amor”.

- Quem te disse que não gosto?


- Se gostas, não parece! Já agora, se aqui tivesse um malmequer, dava-to! Queria ver-te fazer
aquela cena “gosto, não gosto, muito, pouco ou nada”, à medida que

ias arrancando as pétalas. Era muito fixe! Ficava já a saber o que sentes por mim. – E abrindo o
forno com um palito na mão, para averiguar se os scones já estavam

cozidos, prosseguiu: – Não olhes aqui para dentro, senão perde a graça. Só te dou uma pista:
quando estiverem prontos, vou escrever uma palavra!

- Uma palavra?

- Sim, não sejas cusca… e essa palavra é um

nome!

A Margarida cada vez percebia menos.

- Com os scones que estão no forno vais escrever uma palavra, Rafa? Percebi bem?

- 123 –

- Percebeste muito bem, mas espera, há mais! Essa palavra é o nome da rapariga de quem gosto.
– Olhando para a cara apalermada da amiga, continuou: – A seguir é

a tua vez, tens aqui mais massa de scones e, como temos imenso tempo, tu só tens de moldar a
massa com o nome do rapaz de quem gostas, achas bem?

- Po-po-de ser!!!

Quando o Rafael, tentando não se queimar, retirou os scones do tabuleiro que estava no formo,
desenformando letra a letra, a Margarida nem quis acreditar no que

os seus olhos viam. A sua frente, havia letras que dariam para escrever o seu nome, “Margarida”,
cada scone era uma letra. Apesar de não terem crescido muito e de

parecerem um bocado queimados por fora, a Margarida sentiu que aqueles eram os melhores
scones que já tinha visto na sua vida. No entanto, não tinha fome nenhuma,

sentia um nó cego a apertar-lhe o estômago, e nem a cara de satisfação do Rafael, todo coberto
de farinha, lhe deu vontade de rir.

- Agora és tu! – avisou, apertando-lhe a mão. – Para ficares à vontade, vou lá dentro mudar de
roupa.

- Espera! – pediu a Margarida, lembrando-se da surpresa que tinha trazido para a Helena. –
Entregas isto à tua mãe?

- Isto?
- Sim, este envelope! Ou pensas que és só tu que tens boas ideias?

- 124 –

Assim, ganhava confiança, conseguira surpreender o Rafa.

- O que é que eu faço com isto? – perguntou o rapaz, revirando o envelope nas mãos.

- DahhhU! Entregas à tua mãe, não é? Mas convém que não o sujes de manteiga! Dizes que é de
nós todos! Dos Machadinhos, mas também dos Machadões!

- Ordens são ordens!

Enquanto o Rafael se dirigia ao quarto da mãe, a Margarida untou de novo o tabuleiro com
manteiga. Percebendo que o amigo se demorava de propósito para lhe dar tempo

de pôr os scones a cozer, repartiu a massa pelas letras que queria desenhar e acomodou-as o
melhor que pôde dentro do forno. Nunca a palavra Rafa lhe pareceu tão

quentinha e saborosa!

Na camioneta para o estágio, o Miguel parecia estar invulgarmente nervoso.

- Nem pareces tu, meu, onde é que está o farol? O jogador de primeira água? – gozou o Sérgio,
dando-lhe uma cotovelada que o fez endireitar-se no banco.

- Não sei! Viste-o aí? Acho que o deixei em Vale de Nabais.

- Agora a sério! Passou-se alguma coisa? Já te conheço há tantos anos e nunca te vi assim. Isto
não

- 125 –

é o fim do mundo, Miguel, é só um estágio da seleção sub-21.

- Eu sei… – suspirou resignado. – Não é só isso, Sérgio. Claro que tenho de dar o meu melhor, e
vou dar, conta com isso, sei bem a responsabilidade que todos temos.

Mas é o Rafael, quer dizer, a mãe do Rafael que me preocupa mais.

- A mãe do Rafael, Miguel? O que é que se passa com a mãe do Rafael?

- Passar, não se passa nada… Imagina tu a coincidência: não é que a terapeuta da fala, a que a
Rita vai, é precisamente a mãe do Rafael?

- Acontece, são coincidências, não é? E daí?


- Daí que a Rita se apercebeu de que ela anda triste, como é de calcular, e que tem até um bocado
de ciúmes por o Rafael gostar tanto de ir passar fins de semana

a nossa casa.

- Superdivertido! A tua casa é mais uma “aldeia dos macacos”.

- Aldeia dos macacos? Queres ver que amanhã te prego uma rasteira que nunca mais te mexes?

- Pronto, não te ofendas, “macaco futebolista”!!!

- OK, se é isso que queres, assumo! A “aldeia dos macacos” é para o Rafael muitíssimo
divertida, assim como se lá vivesse uma família mais “família” do que a sua,

e ela está um bocado magoada pelo facto de o Rafael se sentir tão bem.

- Pudera, com a “macaca minorca”, a “macaca ciganita”, a “macaca responsável”, o “macaco


cromo do estudo”,

- 126 –

a “macaca maria-rapaz” – enumerou o Sérgio, pondo-se a contar pelos dedos.

- Deixas-me acabar?

- Vá, acaba! Mas acaba depressa, não há paciência para lamechices!

- Como te ia dizendo, a Rita ficou um bocado preocupada por ver que a mãe do Rafa se estava a
sentir posta de parte perante a nova “família” de que o Rafa tanto

gosta. Falei com os meus pais e decidimos convidar a Helena para jantar lá em casa. Achei que
podia funcionar… de modo que a Margarida entregou à mãe do Rafael,

quando lá foi a casa dele lanchar, um convite assinado por nós todos. A senhora ficou bastante
sensibilizada, mas recusou, com a desculpa de ter outro compromisso.

Calculo que não seja fácil para ela ir jantar a casa da “família feliz”, mas a Margarida e o Rafael
tanto insistiram que acabaram por convencê-la.

- E daí? Qual é o problema?

- Daí que tiveram de acertar a data, e o jantar acabou por ser marcado precisamente para hoje, e
hoje, como se vê, eu não estou lá.

- Pois, olha! – exclamou o Sérgio, abrindo os braços e encolhendo os ombros. – Pacienciazinha.


O que não tem remédio, remediado está.

- Tens razão, não há nada a fazer… É pena, porque sou eu que conheço o Rafael e sei, melhor do
que ninguém, tudo o que o rapaz está a viver.
- 127 –

- Já pensaste que pode não ter sido por acaso? Se calhar a mãe do Rafael sente-se inibida na tua
presença; tu funcionas um bocado como “pai” dele, não achas?

- Não tinha pensado nisso assim, Sérgio… não sei… Acho que vou fazer falta…

- Tenho uma ideia! Disseste que o jantar era hoje?

- Claro, hoje às nove horas.

- E a tua presença é mesmo fundamental, dizes tu?

- Quer-me parecer que sim!

- Então já sei, tu vais estar presente, quer a mãe do Rafa queira quer não!

Quando a Rita entrou no portão da escola, tinha um grupo de alunos à sua espera no pátio.
Acolheram-na com um ramo de flores, dando-lhe as boas-vindas e agradecendo

a disponibilidade para ir ali falar de livros e do prazer de escrever. Apresentaram-lhe a professora


bibliotecária e conduziram-na à biblioteca, onde os alunos do

quinto ano já estavam todos sentados à espera do grande momento do dia. Afinal não era comum
terem, ali na escola, uma rapariga um pouco mais velha do que eles que

ganhara um importante prémio literário da zona. Todos tinham a maior curiosidade em conhecê-
la pessoalmente.

A Rita fazia um imenso esforço por se acalmar, o que, dadas as circunstâncias, não era nada
fácil. Havia

- 128 –

fotografias com a sua cara espalhadas por toda a biblioteca, e o computador estava com as
colunas ligadas, o que fez a rapariga pensar que iriam transmitir o programa

de rádio onde a Mariana lera o seu conto. Estava mesmo muito nervosa, mas fazia os impossíveis
por se lembrar dos ensinamentos da Helena: ouvir a frase inteira na

sua cabeça e só depois falar. Repetia vezes seguidas, para que se ouvisse a si própria: “vou
conseguir, isto é canja, não tenho um único motivo para me preocupar”,

mas na verdade estava muitíssimo preocupada. Havia ali mais de sessenta alunos, várias
professoras, e até o diretor a viera cumprimentar.
Passadas as apresentações, e tal como a Rita supunha, a professora bibliotecária clicou no link
para a Rádio Nabais, e todos ali presentes puderam ouvir uma parte

do conto, na voz solene da Mariana, embora já o tivessem lido para preparar aquela entrevista.
Terminada a audição, seguiram-se as tão desejadas perguntas que todos

queriam colocar.

A sua frente, a Rita só via um mar de braços no ar. Não sabia como começar e por quem
começar, mas, para já, a primeira prova a superar seria o agradecimento. Tinha

de agradecer aquele momento. Sentia as mãos húmidas e um estranho sabor na boca. O coração
batia a uma velocidade muito acima do normal: não tinha uma segunda oportunidade

para causar boa impressão; a primeira frase seria decisiva e não podia gaguejar, “não podia
gaguejar”, repetia uma e outra vez com um quase impercetível movimento

- 129 –

de lábios. Na sua cabeça, apareceu-lhe em letras fluorescentes a frase que tinha de dizer:
“Obrigada, obrigada a todos por se terem lembrado de mim.” Nem se apercebeu

de que estava a fazer o contrário do que precisava! Devia ouvi-la, não lê-la na cabeça…

Fez-se silêncio na biblioteca.

- Agora deixo-vos com a autora!!! – anunciou a professora bibliotecária.

Era aquela a deixa para que ela dissesse a frase. Parecia-lhe que entrara na arena de um circo
romano e, em vez de miúdos do quinto ano, tinha ali, à sua frente,

leões e tigres a mostrarem-lhe os dentes afiados.

A frase… a frase… a Rita fechou os olhos por instantes. Queria a primeira frase, só a primeira…
“Vá lá”, pediu para si mesma, “solte-se a frase”.

- O-o-o-o…

Nada! A frase não havia meio de sair. Lá atrás, os primeiros risinhos…

Subitamente, com um pulo, um rapazinho escondido atrás das estantes surgiu envolto numa capa
vermelha. Saltou para o lado da Rita e de rajada soltou as palavras

mais desejadas, como se lesse o que ia na alma da rapariga escritora:

- Obrigada, obrigada por se terem lembrado de mim, obrigada ao diretor pelo convite, obrigada à
professora responsável pela biblioteca e, sobretudo, obrigada a todos

os alunos.
- 130 –

A Rita nem queria acreditar quando percebeu quem estava por baixo da capa: o Rafael! Na sua
cabeça viu passar o filme todo! Aquela era precisamente a escola do Rafael.

Teria sido a Helena a magicar este plano com a professora bibliotecária? Sabia que a Rita iria
com certeza bloquear no discurso de agradecimento, que, por ser o

primeiro, seria também o mais difícil; aquela era a frase que ela queria dizer e não conseguia.
Foram instantes apenas até que a Rita ligasse o motor de arranque.

- E agora vamos ambos repetir os agradecimentos, pois nunca é demais agradecer a dobrar.

E dando a mão à Rita, o Rafael forçou-a a repetir aquelas palavras em coro com ele:

- Obrigada, obrigada por se terem lembrado de mim, obrigada ao diretor pelo convite, obrigada à
professora responsável pela biblioteca e, sobretudo, obrigada a todos

os alunos – disseram ambos em coro.

- E agora vamos iniciar as perguntas… Hum… – disse o Rafael, olhando para todo aquele mar de
braços esticados. – Começamos por ti, Rodrigo!

- Bom dia, Rita – cumprimentou o rapaz, pensando que aquele número tinha sido feito com a
cumplicidade da escritora para surpreender os alunos ali presentes. – Queria

perguntar-te qual foi a sensação que tiveste quando soubeste que tinhas ganhado o prémio com o
teu conto?

Sem uma hesitação, a Rita explicou:

- 131 –

- Foi brutal! Nunca imaginei que escolhessem o meu conto… Parecia que estava a sonhar que
aq-q-q-quela Rita não era eu.

E não era mesmo! Aquela não era a Rita do costume. Começou a sentir uma sensação de bem-
estar, como se aquela Rita que falara quase sem gaguejar fosse outra pessoa

até aí desconhecida para ela.

- E de quem é a voz tão gira que leu este conto na rádio? – perguntou outro rapazinho.

- É a mesma que lê uma história ao fim de semana na Rádio Nabais – explicou o colega do lado.

- Bom, a menina que lê é a minha cunhada Mariana, quer dizer, vai ser minha cunhada. Deixem-
me falar sobre ela, é uma menina que p-p-p-prega imensas partidas mas

tem um grande coração e, como podem ouvir, uma voz muito bonita.
- Ela gosta de ler?

- Isso terás de lhe perguntar a ela!

- Dás-me o teu número de telemóvel? – pediu o rapazinho.

As perguntas sucediam-se, primeiro sobre a voz da Mariana, depois sobre o conto, finalmente
sobre o que motivara a Rita a começar a escrever. Os alunos estavam a

achar imensa graça à forma como a Rita lhes contava a sua paixão pela escrita: dizia que se
divertia tanto a imaginar histórias, que às vezes até se esquecia de

almoçar e de jantar. Nas respostas gaguejou muito pouco, procurava frases

- 132 –

pequenas, ouvia-as na cabeça antes de falar, fazia pausas e não esganiçava a voz. Estava tão
surpreendida com esta capacidade que desconhecia em absoluto que, quando

tocou para a saída e ninguém sequer se mexeu, sentiu-se uma estrela de cinema. Havia ainda
mais braços no ar e não pareciam convencidos a arredar pé sem que todas

as perguntas tivessem resposta. Na primeira fila, aproveitando uma pausa que a Rita fizera para
beber água, o Rafael segredou-lhe: – Já percebi porque é que o Miguel

gosta tanto de ti! Tu és tão querida, Rita, tão queridaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa mesmo!!!

- 133 –

11.

- Mais um bocadinho de esparregado, Helena? – perguntou a Teté, passando a travessa à mãe do


Rafael.

- Sim, obrigada, está delicioso…

- A Alice faz esparregado como ninguém – comentou o Mateus, com um sorriso. – Aqui estes
meninos comem disto desde pequenos, adoram…

A Mariana torceu um pouco o nariz, mas levou logo um pontapé da Mónica, que estava ao seu
lado. O jantar estava a correr muito bem, mas a coisa fora muito complicada

logo no início. Todos queriam ser simpáticos e, com tanto esforço, nem deixavam a Helena falar,
o que a fizera fechar-se em si mesma, assustada. Fora preciso a intervenção

da Rita para desbloquear aquela estranha sensação da mãe do Rafael, que se sentira a mais…

Contudo, com o passar dos minutos, e sobretudo ao ver como os filhos Machado e o Rafael
conversavam uns com os outros, e como os pais também se mostravam
- 135 –

genuinamente interessados em tratá-los com carinho, a Helena começara a descontrair. O Rafael,


num sussurro para a Rita, confessou:

- Acho que é a primeira vez que a vejo sorrir assim…

Recebeu da Rita um beijo nos cabelos – estava a resultar em pleno, a estratégia Machado.

- Vou ter de ficar de dieta amanhã – brincou a Helena, quando os morangos com chantili: que
tinham vindo rematar a refeição, voltaram para o frigorífico. – Ao tempo

que não como isto… Ao tempo que não comia com tanto gosto!

- Nós também não costumamos comer chantili… – confessou a Maria. – Mas hoje é um dia
especial…

- Nem sei como vos agradecer – disse a Helena, num fio de voz. – Pensei que nunca mais
poderia sentir-me assim, bem, com um sorriso nos lábios.

O silêncio apanhou todos de surpresa. As lágrimas que tinham aparecido sem aviso nos olhos da
Helena provocaram alguma apreensão. Mas depressa a Helena se desculpou:

- Sou uma tonta… Isto é por me sentir bem convosco, acreditem.

Nesse momento, a Teté chegou a cadeira para mais perto e agarrou-lhe no braço, ficando a fazer
um movimento terno e suave para a acalmar. Com um olhar rápido, o

Mateus pediu a todos que disfarçassem e saíssem da mesa, o que foi executado na perfeição, pois
a Mónica chamou os

- 136 –

outros para irem ver o que estava a dar na televisão. Ficaram assim os três adultos sozinhos, à
mesa, a conversar.

- Desculpem, tinha prometido a mim mesma que não iria estragar a refeição com lágrimas…

- Ora, nem diga uma coisa dessas, Helena! – pediu a Teté. – Nós imaginamos o que está a sofrer,
imaginamos como deve ser difícil… Mas ficamos muito contentes por

poder ajudá-la a ter um momento de alegria.

- Sobretudo, Helena – continuou o Mateus -, queríamos que soubesse que não lhe estamos a
roubar o Rafael. Achamos apenas que é bom para ele poder conversar com outros

miúdos, fazer outras coisas…

- Eu sei, eu sei – interrompeu a Helena. – E agradeço-vos tanto! Senti um bocadinho de ciúme,


uma coisa parva, já se vê... E até me chocava por ele voltar feliz

para casa. Estou muito frágil, não sei bem como reagir.

- É natural – comentou a Teté, com um sorriso. -Está a atravessar um período muito complicado,
tudo isso é mais do que natural. Diga-nos, Helena, o que é que podemos

fazer por si?

As lágrimas corriam agora com intensidade. Aquela mulher estava a sentir-se, pela primeira vez,
acompanhada e com pessoas que faziam um esforço para a entender e

ajudar. Isso comovia-a e também lhe parecia uma bênção, pois sentia que podia ser sincera com
o Mateus e a Teté.

- Ele faz-me muita falta – disse, entre soluços. – Sinto-me sozinha! E quando quero reagir,
parece que estou a

- 137 –

chocar as pessoas… O que eu estou a dizer não tem nexo, pois não?

- Helena, tem mesmo muito nexo – confortou-a o Mateus. – Para reagir é preciso também muita
coragem, e por vezes as pessoas não sabem ajudar, embora tenham a melhor

das intenções.

- Eu sei…

- Mas tenho a certeza de que vão apoiá-la assim que a Helena reagir – disse a Teté, com um
sorriso compreensivo.

E a conversa foi avançando, noite dentro. Ficaram ali sentados, esquecidos dos filhos e sem
reparar que a Alice levantara já a mesa e trouxera um chá. Falaram do

trabalho de cada um, a Teté mostrou-lhe até alguns dos seus desenhos. E a Helena, pela primeira
vez em muitos meses, sentiu que era possível construir uma felicidade

onde havia espaço para as recordações, mas sobretudo onde tinha um papel importante ajudando
o Rafael a crescer mais forte.

Quando o Miguel mandou um sms à Maria, dizendo que podia falar pelo Skype, esta respondeu-
lhe: “Não interrompas nada agora… Estão os três pais à conversa, muito

a sério, mas, pelo que oiço, está a ser superconstrutiva…” O Miguel respondeu com o símbolo (:
– mostrando como isso o deixava feliz e surpreendido. Afinal, a

estratégia do Sérgio não podia ser posta em prática naquele momento. No entanto, não queria
desistir de falar. A razão era aquela rapariga talentosa que namorava
com ele, a Rita. Recebeu

- 138 –

nova mensagem: “Saíste há quatro horas de casa, não sejas piegas!”, respondeu-lhe a Maria, com
a conivência da Rita. E, nesse momento, o Miguel só respondeu, quase

amuado: lol.

Quando a Mariana entrou em casa, vinha com cara de caso. Não que viesse irritada, nada disso,
nem triste, talvez preocupada. E não era para menos…

A saída de mais um programa na Rádio Nabais, onde lera com uma voz doce e misteriosa uma
história deliciosa de José Fanha intitulada “A porta”, deparara-se com o

diretor da rádio, que a esperava à porta do estúdio. Pedira-lhe para a acompanhar ao seu gabinete,
e a Mariana seguira-o sem demora. No meio de papéis, um computador

muito velho, imensos livros e canetas espalhadas, o diretor conseguira encontrar o papel de que
precisava.

- Pelo que sei, a Mariana está aqui a representar um grupo de jovens interessados na leitura, é
isso?

- Sim – disse a rapariga, um pouco envergonhada.

- A menina não tem ideia da quantidade de telefonemas e emails que temos recebido por causa
desta iniciativa! Fiz aqui um resumo das opiniões e ideias. E chegam-nos

de ouvintes de idades diferentes, extratos sociais diferentes, tudo!

- Isso é bom, não é? – quis saber a Mariana, que não percebia para onde iria a conversa.

- 139 –

- Não é bom, é excelente!!! – O papel passou para as mãos da Mariana, enquanto o diretor
continuava: – E eu queria propor-vos uma atividade mais intensa para o próximo

ano letivo; será que estão interessados?

- Claro que estamos!

- Então, Mariana, vou pedir-lhe que, na próxima segunda-feira, venham os quatro conversar
comigo, aí às seis da tarde, pode ser?

- Acho que sim, eu e o meu irmão não temos aulas, e a Rita também me parece que não.
- Extraordinário! – comentou o diretor, levantando-se. – Cá vos espero!!!

Uma sacudidela forte, num aperto de mão decidido, dera a entender à Mariana que a conversa
terminara, embora ela fosse para casa sem grandes pistas, apenas uma folha

com frases. Foi corando pelo caminho, pois elogiavam muito a sua forma de ler. Também
enalteciam o interesse na seleção dos textos. Tinha de ir tirar o Manuel da

cama, queria contar-lhe tudo!!!

- Foi muito bom, maninha. – Era a voz do gémeo que a chamava da sala, onde estava com a
Madalena e o Mister. – Estás a ficar uma locutora incrível!!!

- E vamos ter uma reunião na segunda-feira às seis, prepara-te. Parece que para o ano haverá
mais coisas para fazer…

- Conta, conta!

- Não posso contar nada – esclareceu a Mariana. – Ele só disse que nos quer propor coisas. Estou
a ver que

- 140 –

ainda acabo a gostar mesmo de ler… Olha o que as pessoas dizem de nós, lê!!!

O papel foi parar às mãos do Manuel, que se desinteressou da Madalena e do Mister. A mais
nova, nada satisfeita com aquela atitude, mudou de público, virando-se

para a Mariana.

- Mana, olha para mim – gritou a Madalena, com uma bolacha na mão esquerda. – Enfeiticei o
Mister!

O cão estava quieto, sentado, sem tirar os olhos da bolacha. A Madalena ia mexendo a mão e o
Mister ia balançando, como se uma corda invisível prendesse a ponta

do focinho à bolacha. Assim que tentava levantar-se, a Madalena ralhava, e ele voltava à posição
de espera.

- Isso não é feitiço – ralhou a Mariana -, é tortura!!!

- Espera. Vê só... Mister, salta!

E, ao ver a bolacha no ar, o Mister lançou-se para a apanhar, num voo nunca visto.

- Coitado do Mister! Até já estava a babar-se todo. Que mazinha, Madalena!

- Não, não! Sou uma feiticeira!!!


- Espetacular! – comentou o Manuel.

- Vês, Mariana? O Manel acha que eu sou uma feiticeira espet… espet… como é?

- Não és tu, Madalena, estou a falar destas frases!!! Mariana, as pessoas gostam mesmo do
programa, isto é fantástico!

- Prepara-te, vamos ter mais trabalho…

- 141 –

- Mas temos as férias do Verão para nos prepararmos!

- Que entusiasmo – disse a Mariana, num tom enjoado. – Enfim…

Mas o Manuel levantara-se e dera-lhe um abraço um pouco bruto, pegando de seguida no


telefone – agora era a vez de a Rita saber de tudo!

No tapete, a Madalena voltava ao feitiço… e o Mister, deixando escorrer a saliva pelos cantos da
boca, voltava a seguir a bolacha com o focinho, quietinho e sentado,

deveras enfeitiçado e pronto para o novo voo!

O domingo começara de forma muito diferente de todos os outros desde que o pai do Rafael
morrera – havia um cheiro diferente na casa! Quando o rapaz entrou na cozinha,

a mãe sorriu para ele, o que o deixou logo bem-disposto.

- Olha o que a Maria me ensinou a fazer ontem!

- Panquecas?! Uau… Nunca comi!

- Vais experimentar.

A receita não fora executada na perfeição, longe disso!, mas o Rafa nem disse nada. Só o facto
de ver que a mãe fizera algo novo, e que sorria, isso já chegava.

Comeram com gosto – tinha sido a primeira vez que a Helena conseguira dormir até às onze da
manhã!

- 142 –

- Filho, acho que temos de conversar…

O Rafa, atento, depois de tudo o que conversara com o Miguel e com todos os seus “irmãos
emprestados” da família Machado, agarrou-lhe na mão, fazendo-a parar.
- Mãe, eu sei. Tem andado muito triste, julga que não percebo? Eu também. Mas sabe o que é
que eu penso? Se o pai está a ver-nos, a ser assim o nosso anjo da guarda,

não acha que ele quer que nós fiquemos bem?

- Tem sido tão difícil, Rafa…

- Mas diga lá, o que é que acha que o pai quer?

- Claro, filho, claro. – A Helena olhava para o Rafael e pensava o quanto ele tinha crescido com
tudo o que se passara à sua volta. – Eu não te apoiei como devia…

O Rafael não aguentou. Levantou-se e contornou a mesa da cozinha, abraçando a mãe com força.
Sussurrou-lhe ao ouvido que não dissesse isso, que a adorava, que não

pensasse que ele não gostava dela. Deixaram-se ficar assim abraçados. Há quanto tempo não
davam um abraço daqueles?...

Quando finalmente se afastaram, a Helena comentou:

- Os Machados são pessoas incríveis…

- Pois são. Mas a mãe também é, e tem de acreditar

nisso.

- Eu?! Parece-me mais é que tenho um filho espetacular, isso sim.

Ainda havia muitos nós na garganta, mas naquele dia perceberam ambos que nada iria apagar a
saudade do

- 143 –

pai, a falta. Mas também compreenderam que era na reconstrução da vida, apoiando-se um ao
outro e mantendo as recordações boas mais fortes do que as tristes, que

iriam fazer dessas recordações boas o pilar das suas vidas.

Minutos depois, o Miguel recebia um telefonema do Rafa. Sentia-o comovido mas aliviado,
como se um peso lhe tivesse sido retirado de cima dos ombros. Contou-lhe

do jantar, das panquecas e das conversas. Falou até o saldo do telemóvel acabar. E o Miguel
ligou-lhe então de volta – precisava de ouvir o Rafael dizer que tinha

conseguido virar uma página na sua vida. E depois contou-lhe que tentara falar com eles pelo
Skype, mas que a Maria dissera que não devia interromper a conversa

dos adultos. O Rafael concordou, tinha sido melhor assim.


Foi então a vez de o Miguel contar coisas do estágio, que agora começava. Falou-lhe das
inseguranças e das dúvidas, o que o Rafael nem imaginava que podia acontecer

ao seu ídolo. Também lhe confessou que sabia agora fazer dos receios forças. Falou-lhe das
comidas selecionadas para o alto rendimento, do perfil do treinador, da

equipa técnica. Era tudo muito a sério, e o Miguel estava já ansioso pelos dias que se iriam
seguir.

E, embora nenhum dos dois pudesse adivinhar isso, iriam guardar aquela conversa na memória
por muitos anos.

- 144 –

12.

Estavam os três muito compenetrados, sentados à mesa de reuniões da Rádio Nabais. O diretor
nunca mais aparecia, o que os deixava cada vez mais enervados. A Rita

fazia um esforço para não se desmanchar a rir, pois era mesmo muito cómico ver a expressão
séria da Mariana, como se o destino da sua vida estivesse dependente daquela

reunião. Por outro lado, o Manuel batia com os nós dos dedos no tampo da mesa e queria por
força que os outros dois adivinhassem a que música correspondia aquele

ritmo. No relógio pendurado na parede, os minutos demoravam eternidades a passar, e aquela


meia hora de espera pareceu-lhes interminável. Quando, por fim, o diretor,

acompanhado por um senhor gordo e careca, entrou na sala, os três puseram-se em pé com um
pulo desajeitado.

- Deixem-se estar, por favor, deixem-se estar! – insistiu o diretor. – Querem águas, refrescos?
Pedimos a maior desculpa por terem apanhado uma enorme seca,

- 145 –

mas acontece que eu e o Rabanete estivemos aqui a ultimar os preparativos para a programação
do quarto trimestre.

- Não fa-faz mal, não temos pressa – explicou a Mariana, olhando para a Rita.

Ela própria estava quase a gaguejar! Coitada da Rita! Agora que estava a minutos de se tornar
locutora a sério, a Mariana começava a dar muita importância à voz

e a perceber o mau bocado que a Rita passara todos aqueles anos.

- Bom, para quem ainda não me conhece, eu sou o José Feijão e aqui o meu diretor técnico é o
Henrique Rabanete… com estes nomes só podemos trabalhar num único
sítio, não é? Como é óbvio, Feijão e Rabanete só na Rádio Nabais.

Olhando para os quatro miúdos por cima dos óculos, e percebendo que estavam todos a tentar
conter um ataque de riso, o que não foi má estratégia para desanuviar

o ambiente, o diretor José Feijão prosseguiu:

- A ti já te conheço – afirmou, olhando para a Mariana. – És a voz jovem mais bonita de Nabais.
E tu és o…

- Manuel Machado, sou gémeo dela… gémeo falso, como se pode ver…

- Muito bem, a Mariana já me tinha falado de ti, és um miúdo que só saca cincos a tudo, ou
estarei enganado?

O Manuel sentiu um calor imenso a subir-lhe à cara e, com um encolher de ombros, acabou por
confirmar as suspeitas do diretor.

- 146 –

- E tu és a nossa vencedora do concurso literário, a famosa Rita. Como vês, Rabanete, estes
quatro miúdos são levados da breca, ideias não lhes faltam!

A Mariana conseguiu alcançar as pernas do gémeo por baixo da mesa e, dando-lhe um pontapé
acompanhado de um piscar de olhos, fez com que ele percebesse que aquilo

era mesmo a sério. Não podia começar a desenvolver teorias intelectuais, não estavam numa aula
mas na iminência de arranjarem um trabalho; ele que não se pusesse

a complicar as coisas, como era seu hábito.

- Bom – prosseguiu o diretor -, o plano que temos é ambicioso, não sei se darão conta do recado,
mas o que nós pensámos que resultaria bem, tendo em conta o sucesso

que está a ter o programa que a Mariana tem no ar, era uma coisa semelhante, mas em melhor!

- Como? – quis saber a Mariana, não percebendo agora se o diretor estaria a falar a sério ou a
gozar com a cara deles.

- Rabanete, importas-te de explicar?

- O Feijão tem razão. E a ideia é ir mais longe, construir uma espécie de audiolivro em
fascículos. O que nos dizem de virem cá todos os finais de dia? – Apercebendo-se

do ponto de interrogação gigantesco que aparecera na cara dos quatro miúdos, o Rabanete
retificou: – Na verdade, não precisam de gravar todos os dias, basta uma

tarde por semana e gravam tudo de enfiada.


- Deixa-me explicar melhor – interrompeu o Feijão. – A história tem de ser iniciada pela Rita, ou
seja, a primeira

- 147 –

parte é escrita pela Rita, que passa ao Manel, este continua e termina. A Mariana faz o mesmo.

- Eu? Logo eu?! Livra! – A Mariana estava em pânico. – Eu não sei escrever, eu leio, mas
escrever está fora de questão!

- Deixas-me acabar? A ideia é mesmo essa, dar oportunidade a que todos os interessados…

- Só que eu não estou interessada em… – Mas a Mariana não acabou a frase, ao sentir o olhar
gelado do gémeo pedindo-lhe que se calasse, pois estava a ser inconveniente.

E o diretor pôde concluir:

- Palavras para quê?

- Palavras para quê? Agora fui eu que não percebi – acrescentou o Manuel.

- “Palavras para quê” é como se vai chamar a rubrica… se concordarem, está claro! Têm de pedir
aos vossos amigos e aos ouvintes que continuem a história que a

Rita propõe. Depois, cabe à equipa editorial escolher os cinco melhores finais. Assim, a cada dia,
irão ler uma das cinco formas diferentes de acabar a mesma história.

Já pensaram? Vai ser muito interessante! Como deve custar a arrancar, na primeira semana serão
vocês mesmos a continuar… Ao sábado, mantém-se a leitura dos contos,

seria uma pena não o fazer. É claro que dá trabalho… O que vos peço é mais, muitíssimo mais!

- Ainda não lhes disseste a outra parte – lembrou o Rabanete.

- 148 –

- Pois tens razão, queria também saber se conhecem alguém que possa acompanhar os jogos da
seleção sub-21.

- Acompanhar? Como assim? – questionou o Manuel.

- Exatamente o que ouviste! Alguém que possa estar presente, não só nos jogos mas também em
alguns dos treinos, de modo a fazer um relato dos acontecimentos para

a Rádio Nabais. Queríamos que fosse alguém mais novo e que entendesse de futebol, estávamos
a pensar num miúdo com garra, a nossa ideia era que fosse mesmo um miúdo

de onze, doze anos! – O Feijão endireitou-se, tossiu e empurrou uma pilha de papéis para a frente
da Mariana. – Não precisam de responder já, vão pensando se conhecem
alguém. Ambos os programas têm cachet, não vos queremos pôr a trabalhar de borla, a verba não
é muita, mas sempre dá para os vossos gastos. Levem isto para casa,

leiam tudo com os vossos pais e, daqui por dois ou três dias, deem-nos uma resposta, pode ser?

Os três entreolharam-se. Aquilo parecia bom demais para ser verdade. Estariam a sonhar? Um
programa em fascículos, pedir aos colegas para continuarem as histórias,

arranjar alguém que fizesse o relato da seleção sub-21… Mesmo sem falarem uns com os outros,
os três pensaram na mesma pessoa: aquilo era a cara do Rafael. Relatar

na rádio os jogos onde o Miguel participava? Só podia ser um sonho, e nenhum deles queria
acordar.

- 149 –

Todos pediam para falar ao mesmo tempo. Foi o pai que teve de os mandar calar.

- Comecem pelo princípio! Um relato da seleção de futebol sub-21, mas quem é que o faz?
Confesso que não estou a perceber nada bem!

- Oh pai, eu explico! – começou o Manuel. – São duas coisas diferentes: uma é o relato de
futebol. A Rádio Nabais pediu-nos que arranjássemos um locutor: um miúdo

de doze anos que percebesse de futebol. É óbvio que os três nos lembrámos logo do Rafael.

- Sim, continua – pediu o pai.

- A outra ideia deles é uma história lida pela Mariana, mas feita em colaboração por nós todos.

- Não é nada disso – interrompeu a Mariana, acomodando-se no chão, ao lado do cadeirão onde o
pai se sentava sempre depois do jantar. – Não é escrita por nós todos,

é pelos ouvintes, e claro que nós também podemos escrever. Aliás, é a Rita que dá o tiro de
partida, começando a história, e os ouvintes terminam como quiserem.

Vamos ler os cinco melhores resultados na semana seguinte. Giro, não é?

- E estes papéis aqui são os contratos que têm de ser assinados pelos encarregados de educação?

- Sim, pai – suspirou a Mariana. – Espero que esteja tudo certo, porque diz aí que nos pagam uns
eurinhos; já não é nada mau!

- 150 –

- Tenho de analisar com mais atenção, mas, assim de repente e olhando por alto, não me parece
haver nada de muito errado. Só há uma condição…

- Qual é? – perguntaram os gémeos, em coro.

- As notas! Apesar de ainda não ter falado com a vossa mãe, que deve estar a chegar do
supermercado, uma coisa é certa: se as notas baixarem, acaba-se imediatamente

o programa, estamos entendidos?

Os gémeos acenaram que sim com a cabeça, embora o sim do Manuel fosse bastante mais
convincente do que o da Mariana.

- E quanto ao Rafael, já falaram com a Helena?

- Não, pai – explicou o Manuel. – Como a Rita vai lá à terapia, leva o contrato, e só falamos com
o Rafa depois de a mãe dele concordar.

- O pai fica contente por nós? – explodiu a Mariana. – É brutal, não acha?

- Brutal! É isso, Mariana! Nem mais nem menos: brutal! – interrompeu a Maria, entrando em
casa com uma pilha de cartas. – E se tu fizeres exatamente o que os pais

nos ensinaram, não tens outro remédio senão responder a todas as cartas, uma por uma.

-Mas…

- Não há mas, nem meio mas! Quando eu vinha a chegar, quase choquei com o paquete da Rádio
Nabais, que me pediu para te entregar este monte de papel, tudo cartas

de ouvintes! Ah! E disse-me que eu não me podia esquecer de te dar o recado.

- 151 –

- Ah, sim? E que recado, posso saber?

- Que o Feijão e o Rabanete mandam abraços da Nabais.

- Deve estar tudo louco – suspirou o pai. – Mas que sopa vem a ser essa?

- Não é nada, pai! – descansou-o a Mariana, a rir descontraída. – Deixa, Maria, eu percebi o
recado!

- Então já sabes, maninha, com sopa ou sem sopa, ala para o quarto responder a todas estas
cartas! Vais ter um trabalhão!!!

- Mas eu queria ver a série na TV, pai… Vá lá! Está mesmo a começar, é a minha preferida!

- Não ouviste o que disse a Maria? A fama tem as suas contraindicações. – O pai disfarçava um
sorriso. – Vamos, despacha-te! Em duas horinhas, dás conta do recado!
*

Foi tudo muito rápido. Mal a Rita entregou à Helena o contrato para que o Rafael pudesse ficar
responsável pelos relatos da seleção sub-21, as coisas precipitaram-se.

A Helena foi logo na manhã seguinte falar com o diretor José Feijão, levando um DVD com uma
atuação antiga do Rafael no teatro da escola. A ideia era surpreender

o filho com aquela excelente notícia. A semelhança do que aconteceu com a Mariana, o Feijão
gostou da voz do rapaz, e tudo foi decidido sem que o Rafael suspeitasse

de nada.

- 152 –

Quando, nessa mesma noite, a mãe lhe contou, o rapaz mal pôde acreditar: saltou para os seus
braços, repetindo vezes e vezes seguidas que tudo aquilo fora obra do

pai, que, lá da estrela onde vivia, se tinha lembrado de os ajudar. Acompanhar os treinos da
seleção era a melhor notícia do mundo. E, como é óbvio, iria estar presente

em todos os jogos e treinos, uma vez que a maioria deles se passava aos fins de semana. Nada
parecia impedir o Rafael de fazer aquele trabalho para a Rádio Nabais.

O ensaio correu de tal forma bem, que o Feijão, coçando a cabeça, desabafou:

- O rapaz faz-se! – E sem mais, mandou-o pôr-se a mexer, com um minigravador de microfone
incorporado nas mãos. – O Rabanete explica-te como é que esta geringonça

funciona. Põe-te a andar! Tens todos os transportes pagos até ao estágio da seleção e levas
também este livre trânsito. Observa o estágio e relata-nos tudo. Percebeste

bem, Rafael?

Quando o Rafael entrou no campo de treino da seleção sub-21, o Miguel estava no balneário
depois de um dia de trabalho muito produtivo, em que tinha marcado três

golos magníficos. Não o viu logo, de modo que o Rafael aproveitou para recolher algumas
informações do guarda-redes e do treinador. Estava visivelmente orgulhoso,

com um crachá da Rádio Nabais ao peito e um gravador na mão. Era tal a concentração, que nem
se apercebeu da chegada do Miguel.

- 153 –

- Não pode ser! – disse o Miguel, franzindo a testa. – O que é que estás aqui a fazer, Rafael?
Alguém te convocou? – perguntou, em tom de brincadeira.
- Isso pergunto eu. – E pondo o ar mais sério de que foi capaz, o Rafael falou para o gravador: –
Temos aqui, entre nós, o jogador Miguel Machado, dono de um talento

invulgar, o melhor jogador em campo! – E, aproximando o gravador do Miguel, perguntou: –


Conte-nos tudo. Como se deu a sua entrada no mundo do futebol? Como consegue

conciliar isto com os estudos?

- Mas… mas… só podes estar a gozar! O que é que se passa, Rafael?

- Nada – disse em off. – Só quero que toda a gente saiba que grande Miguel tu és!

Foi preciso muito tempo para que o Miguel ficasse a par daquela história tão improvável. O
Rafael, o seu pupilo do clube de Santarém, era agora locutor na Rádio

Nabais? E acompanhava a seleção em todos os jogos e treinos? Inacreditável! Por outro lado, os
irmãos gémeos e a sua namorada tinham um programa literário na Rádio

Nabais? A Rita quase deixara de gaguejar? O João Pedro sempre ficava em Portugal? E ele tinha
sido eleito o melhor jogador do estágio? Bastou estar de costas voltadas

para que tudo isto acontecesse quase ao mesmo tempo.

- Rafael?

- Sim, Miguel!

- Agora pergunto eu…

- 154 –

- Vá lá, Miguel, não vês que estou a trabalhar?

- Não quero saber… Diz-me só o que é que sentes neste momento.

- O que é que eu sinto?

- Vá, diz! Despacha-te!

- Mas, afinal, sou eu ou és tu a fazer a entrevista?

- Agora sou eu! Vá!

- Sinto que sou o rapaz mais feliz do mundo e que o meu mundo começa pela letra M.

- Pela letra M?!

- M de Miguel e também M de Margarida. Sou ou não o rapaz mais sortudo do mundo? Sou sim,
sabes que sim, mas prometes-me que não dizes a ninguém? – disparou de rajada,
como se agora nada nem ninguém o pudesse calar. – E que também adoro o H de Helena, é
silencioso e querido, como a minha mãe. Hoje escolho as duas letras que me

fazem mais feliz: o H, que nunca faz ruído e que gosta muito de mim, e o M, que multiplicado
por sete me enche o coração!

- Lindo! Assim já sei tudo, tudo o que te vai na alma, pateta! E olha que não sou só eu!
Esqueceste-te de desligar isto, Rafa! – E, arrancando o gravador das mãos

do Rafael, o Miguel pôs-se a correr à volta do campo.

- Dá-me isso, parvo! Dá-me isso! Por favor!!!! – suplicou o Rafael, desesperado.

- 155 –

ÍNDICE

Capítulo 1 …...................................... 9

Capítulo 2 …..................................... 21

Capítulo 3 ….....................................33

Capítulo 4 …..................................... 45

Capítulo 5 …..................................... 59

Capítulo 6 …..................................... 71

Capítulo 7 …..................................... 85

Capítulo 8 …..................................... 97

Capítulo 9 ….................................... 109

Capítulo 10 ….................................... 121

Capítulo 11 ….................................... 135

Capítulo 12 ….................................... 145

Procura mais coisas sobre os 7 irmãos no blogue! Esperamos por ti!

Vai a http://7irmaos.blogs.sapo.pt/

TÍTULOS JÁ PUBLICADOS:

Maria – Os Segredos da Irmã mais Velha


Miguel Nunca Desiste

Mónica, a Maria-Rapaz

Maria Atravessa o Atlântico

Mariana e Manuel – Gémeos em Sarilhos

Miguel Contra-Ataca

Mónica – Uma Montanha de Emoções

Mariana e Manuel Numa Curva do Caminho

Margarida Muda de Escola

Família Machado – Uma Equipa Fantástica

Vêm aí mais livros!

Vais conhecer melhor os 7 Irmãos e os seus amigos!

Margarida Fonseca Santos, Maria João Lopo de Carvalho. Temos uma paixão pela escrita e
resolvemos juntar-nos para criar esta coleção, a preferida dos adolescentes.

Ambas somos professoras e é em vocês, nossos leitores, que vamos buscar toda a inspiração que
dá vida a cada um dos 7 Irmãos. Esperamos que, nesta coleção, partilhem

connosco a emoção da escrita e da leitura!

Data da digitalização,

Junho de 2015