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EDUCAÇÃO NÃO FORMAL E CULTURA POLÍTICA

MARIA DA GLÓRIA GOHN

EDUCAÇÃO NÃO-FORMAL E CULTURA POLÍTICA

71

QUESTÕES DA NOSSA ÉPOCA

CORTEZ EDITORA

Centro de Confecção de Material em Braille Cascavel — Paraná

Julho — 2001

EDUCAÇÃO NÃO-FORMAL E CULTURA POLÍTICA

Impacto sobre o associativismo do terceiro setor Coleção QUESTÕES DA NOSSA ÉPOCA


Volume 71
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP,
Brasil)

Gohn, Maria da Glória

Educação Não-Formal e Cultura Política: Impacto sobre o Associativismo do Terceiro Setor

Maria da Glória Gohn

. — São Paulo,

Cortez, 1999.

(Coleção Questões da Nossa Época; v. 71)

BIBLIOGRAFIA

ISBN 81-249-0708-8

1. Associação, instituições etc. 2. Cultura política. 3. Educação não-formal. 4. Política social.


5. Setor terciário. I. Título. Ii.

Série.

CDD — 370.1

Índices para catálogo sistemático:

1. Educação não-formal 370.1


Educação Não-Formal e Cultura Política: Impacto sobre o Associativismo do Terceiro Setor

QUESTÕES DA NOSSA ÉPOCA

Cortez Editora

Capa: DAC

Preparação dos originais: Ana Maria Barbosa Revisão: Maria de Lourdes de Almeida

Composição: Dani Editora LTDA.

Coordenação Editorial: Danilo A. Q. Morales Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou
duplicada sem autorização expressa da autora e do editor.
1999 by Autora
Direitos para esta edição

CORTEZ EDITORA

Rua Bartira, 387 — Perdizes

05009-000 — São Paulo — SP.

Tel.: (011) 864-0111 — Fax: (011) 864-4290

E-mail: cortez@sti.com.br

Impresso no Brasil — Abril de 1999.

SUMÁRIO

Apresentação: Cenários da nova conjuntura — 7

I. Cultura, cultura de massa, cultura popular e cultura política — 21

Ii. Terceira via, terceiro setor e ONGs: espaços de um novo associativismo — 64

Iii. Educação não-formal — 90

Bibliografia — 111

DEDICATÓRIA

Dedico este livro a Maurício Tragtemberg, in memoriam, colega de trabalho na UNICAMP e


amigo ao longo de quase vinte anos. Com ele muito aprendi. Seu espírito crítico, simplicidade,
erudição, dignidade, compromisso com a verdade e com a liberdade, são exemplos de
comportamento que o tempo jamais apagará. O legado de sua obra será uma eterna fonte de
consulta e inspiração.

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APRESENTAÇÃO

Cenários da nova conjuntura

Hoje, quando a humanidade caminha para a finalização de mais um milênio, a Educação tem
sido proclamada como uma das áreas-chave para enfrentar os novos desafios gerados pela
globalização e pelo avanço tecnológico na era da informação. A Educação é conclamada também
para superar a miséria do povo, promovendo o acesso dos excluídos a uma sociedade mais justa
e igualitária, juntamente com a criação de novas formas de distribuição de renda e da justiça
social. Neste cenário, observa-se uma ampliação do conceito de Educação, que não se restringe
mais aos processos de ensino-aprendizagem no interior de unidades escolares formais,
transpondo os muros da escola para os espaços da casa, do trabalho, do lazer, do associativismo
etc. Com isto um novo campo da Educação se estrutura: o da Educação não-formal. Ela aborda
processos educativos que ocorrem fora das escolas, em processos organizativos da sociedade
civil, ao redor de ações coletivas do chamado terceiro setor da sociedade, abrangendo
movimentos sociais, organizações não-governamentais e outra entidades sem fins lucrativos que
atuam na área social; ou processos educacionais, frutos da articulação das escolas com a
comunidade educativa, via conselhos, colegiados etc.

De fato, as transformações econômicas, tecnológicas, políticas e culturais no mundo ocidental


globalizado, neste final de século, têm levado a mudanças radicais na agenda dos temas e
problemas prioritários à análise dos cientistas sociais.

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O setor dos meios de comunicação sofreu uma revolução tecnológica, gerou novas relações
sociais, novas linguagens, alterou estilos e comportamentos sociais, transformou a cultura e
colocou novos desafios e necessidades à área da Educação. A mídia se transformou no quarto
poder na sociedade: abriu novas frentes e expandiu-se, tornou-se mais complexo, alterou os
conceitos de tempo e espaço.

No debate contemporâneo sobre a globalização da economia, fica cada vez mais claro que não
se trata apenas de uma nova forma de divisão internacional do trabalho, ou de uma simples
ampliação do mundo das trocas comerciais. A globalização é um novo sistema de poder, que
exclui e inclui, segundo as conveniências do lucro; que destrói a cultura e cria continuamente
novas formas de desejo no setor do consumo.

Com isto gera novas formas de dominação, principalmente de ordem cultural. Ao destruir, por
meio do mercado, os sistemas de controle da economia, os direitos sociais dos trabalhadores etc.,
cria-se um novo modo de desenvolvimento. A globalização desintegra a sociedade ao desmontar
o modelo assentado sobre um projeto político, com instituições e agências de socialização locais.
Torna-se uma sociedade de risco onde imperam as incertezas. Ignoram-se a diversidade das
culturas e a realidade das comunidades, que passam a se fechar ao redor delas mesmas, como
forma de se protegerem da “invasão” da cultura homogeneizadora que se apresenta. Com a
globalização da economia, a cultura se transformou no mais importante espaço da resistência e
luta social.

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Segundo alguns autores, o conflito social central da sociedade moderna ocorre na área da cultura.

Os efeitos da crise da economia globalizada e a rapidez das mudanças na era da informação


levaram a questão social para o primeiro plano, e com ela o processo da exclusão social, que já
não se limita à categoria das camadas populares, historicamente excluídas de condições
condignas de renda/salário, saúde, educação, moradia, transporte etc. O indivíduo é excluído
“não apenas por ser desigual ou diferente, mas por ser considerado como não-semelhante, um ser
expulso, não dos meios modernos de consumo, mas do gênero humano” (Nascimento, 1995). As
áreas da Saúde, Educação e os setores da Informação e Comunicações em geral são os pontos
nevrálgicos de geração de descontentamentos e protestos no novo modo de desenvolvimento
baseado na lógica mercantil e tecnocrática global. As greves, passeatas, mobilizações e outras
formas de protesto dos trabalhadores não objetivam prioritariamente parar a produção por
aumento de salários ou melhores condições de trabalho. As manifestações são pelo emprego, por
trabalho, para não-demissão, pela inclusão, pelo não-corte de postos e vagas de trabalho. As
greves não podem ser interpretadas como meras ações corporativas porque são atos de recusa e
repúdio a uma política econômica que subordina toda a vida social à busca de redução do déficit
fiscal, imposta como a única política possível.

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A crise atual tem novas dimensões, pois criou novas categorias de excluídos, desta vez no
próprio acesso ao mercado de trabalho, pelo fato de, simplesmente, deixar de existir certas
categorias funcionais devido à flexibilização/desregulamentação deste mercado ou eliminação de
direitos sociais conquistados por meio de lutas seculares por parte dos trabalhadores. Como
afirma Castelo (1998), trata-se não de uma sociedade com regras de integração/desintegração,
mas de uma sociedade com normas pontuais e inserção social segundo as prioridades dos que
detêm o capital expeculativo-financeiro internacional. Os países estão perdendo sua soberania
política, o poder de definir as regras de seus destinos, e cada vez mais fortalecem-se alguns pólos
hegemônicos de poder a nível internacional.
A política também se desintegrou com a globalização. Governar tornou-se, nos países tidos
como emergentes, sinônimo de ser compatível com as regras e exigências dos banqueiros
internacionais. As instituições públicas perderam força, capacidade de regulação e integração. O
que foi instituído no passado objetivando justiça social, como o sistema de saúde e a escola
pública, hoje é fonte de injustiça social, devido aos péssimos serviços prestados à população.
Ocorre uma perda no espaço público e um crescimento dos espaços da vida privada e das
organizações voluntárias; o espaço das instituições públicas passa a ser ocupado pelas
organizações financeiras internacionais e pela mídia. Os chamados “países emergentes”, como o
Brasil, ficaram à mercê das diretrizes do FMI — Fundo Monetário Internacional e dos
especuladores financeiros, nacionais e internacionais, numa crise econômica sem precedentes.

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Na última década observamos que a economia brasileira foi desregulamentada, as leis e políticas
sociais flexibilizadas, trabalhadores perderam ou tiveram seus direitos sociais reduzidos,
empresas estatais foram privatizadas, impostos provisórios se tornaram permanentes, os juros
atingiram cifras altíssimas, a política cambial foi controlada e depois deixada ao sabor do
mercado etc. Tudo em nome da busca do equilíbrio fiscal/financeiro, da necessidade de atrair o
capital externo para investimentos. O plano de conter a inflação via estabilização de moeda
esgotou-se. Os especuladores internacionais ganharam muito dinheiro com os juros altos que
lhes foram oferecidos, o país ficou mais endividado, mais pobre e com menos reservas
financeiras. E a dívida externa? Esta só cresceu. Resulta que está cada vez mais evidente que os
custos sociais da chamada “modernização” estão sendo altos demais, dentro de um modelo
globalizado que privilegia não o investimento produtivo, mas o capital financeiro especulativo.
Tudo isso tem gerado apreensão sobre a natureza do processo civilizatório que está sendo
construído na virada deste novo milênio.

A partir dessas questões podemos aventar algumas hipóteses sobre as atuais políticas sociais,
tomando como pressuposto as formulações de Boaventura Sousa Santos, Robert Castel e outros,
a saber: com a globalização ocorre uma metamorfose do sistema de desigualdade social no
capitalismo para um sistema de exclusão social. Neste novo cenário, as lutas sociais relevantes
serão pela inclusão social de setores sociais que antes eram excluídos por estarem em
desigualdade socioeconômica e que agora estão excluídos também por suas desigualdades
socioculturais (dadas pelo sistema educacional, pela raça, etnia, sexo etc.).

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As políticas sociais tendem a ser formuladas para o atendimento de clientelas específicas,


agrupadas e categorizadas como: índio, negro, mulher, terceira idade, menino de rua etc., e não
mais por ser “um pobre” ou por ser demandante de serviços (transporte, saúde, educação etc.) ou
habitação. Ou seja, as políticas sociais perdem o caráter universalizante e passam a ser
formuladas de forma particularista, visando clientelas específicas, e neste processo tanto podem
contemplar os interesses das minorias demandatárias como vir a ser segregativas/excludentes.
Tudo depende da correlação de forças políticas ao redor daqueles que coordenam tais políticas e
do aproveitamento, por parte dos atores sociais envolvidos no processo de gestão, da estrutura de
oportunidades políticas que a conjuntura mais ampla do país desenha. E quem passa a gerenciar
estas políticas? São as novas parcerias entre o Estado e a comunidade organizada, no setor
público não-estatal, locus dos novos espaços de negociação e de conflito social e das práticas da
educação não-formal.

A Educação ganha importância na era da globalização porque o elevado grau de


competitividade ampliou a demanda por conhecimentos e informação. Entretanto, a diferença
entre hoje e ontem não é apenas quanto ao aumento da demanda, mas quanto à qualidade e ao
tipo de educação a ser oferecida. Antes a sociedade ocidental estava assentada num modelo de
progresso contínuo e evolutivo e de uma cultura universal (ainda que branca e européia).

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Agora, a idéia de progresso diluiu-se, a fragmentação das fronteiras entre as nações obriga-nos a
redefinir a questão da cultura. É vital que se coloque a diversidade histórica e cultural e o
reconhecimento do outro como metas na formação dos indivíduos enquanto cidadãos. Antes os
indivíduos eram preparados para ocupar postos no mercado de trabalho, durante a etapa ativa dos
mesmos, num sistema que previa a seguridade social. Hoje, eles devem se preparar para o mundo
da vida e para sobreviver trabalhando por um período mais longo, pois o sistema de
aposentadorias está em crise.

A Educação ganha também centralidade nos discursos e políticas sociais porque competirá a
ela ser um instrumento de democratização, num mercado de escolhas e oportunidades. À escola
— assim como à cidade —

é atribuído o espaço para o exercício da democracia, de conquista de direitos, da mesma forma


que a fábrica foi o espaço de luta e conquista dos direitos sociais dos trabalhadores. Mas o
modelo atual é totalmente diferente do implantado no século passado, pois está centrado nos
indivíduos como atores sociais, e não apenas como trabalhadores/produtores ou consumidores de
bens e mercadorias.

Trabalhamos, portanto, com uma perspectiva que aborda a Educação como promotora de
mecanismos de inclusão social, que promova o acesso aos direitos de cidadania. Trata-se de uma
concepção ampliada, que alarga os domínios da Educação para além dos muros escolares e que
resgata alguns ideais já esquecidos pela humanidade, como, por exemplo, o de civilidade.

Nesta conjuntura, as reformas educacionais nos sistemas de ensino tornaram-se imperativos


nas agendas de políticos e administradores públicos.
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Tanto em nível do governo central como dos governos estaduais, as reformas apresentam-se com
um grande objetivo: promover a modernização da rede escolar, avaliada como atrasada e
ineficiente em todos os sentidos (cobertura, processos de gestão, qualificação profissional dos
recursos humanos, resultados, infra-estrutura física etc.). Novos desenhos procuram dar respostas
aos desafios incluindo novas abordagens, metodologias e conteúdos cognitivos e sociais, de
acordo com os novos paradigmas emergentes. Segundo alguns dados ainda preliminares, os
locais onde as reformas educacionais têm sido bem-sucedidas contam com a participação de
membros da comunidade educativa. A publicização dos assuntos das escolas em conselhos,
colegiados ou a reforma curricular introduzindo temas inovadores que dizem respeito ao
cotidiano de alunos e pais (como a violência, drogas etc.), ou a abertura física da escola como
espaço alternativo de lazer e associativismo à comunidade, são todos fatores citados como
positivos e que têm contribuído para o sucesso daquelas reformas. Trata-se da articulação entre a
educação formal e a não-formal.

Concordamos com Touraine quando fala da necessidade de se desenvolver uma nova cultura
escolar que forneça aos alunos instrumentos para que saibam interpretar o mundo. Trata-se de
um acervo de conhecimentos que não têm sido desenvolvidos nas escolas, gerador de um saber
interpretativo, tão importante quanto o saber científico. O

saber interpretativo, nas ciências humanas, refere-se às condutas intencionais, decifrando as


linguagens sociais existentes — desde o urbanismo até as investigações científicas, passando
pela mídia.

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É preciso ver a televisão não apenas como um “mal”, mas utilizá-la como veículo de debate,
polemizar sobre seu conteúdo, e discutir sobre as diversas culturas que os filmes e programas
apresentam, desenvolvendo conhecimentos sobre o outro, seu passado, seus costumes e
tradições. É

preciso agregar ao ensino formal, ministrando nas escolas, conteúdos da educação não-formal,
como os conhecimentos relativos às motivações, à situação social, à origem cultural dos alunos
etc.

Mas todo o período de crise resulta não apenas em catástrofes, cataclismas, desilusão e
desesperança. A crise produz e/ou estimula também reações, resistências, oportunidades e
inovações. Dentre estas destacamos as que vêm ocorrendo na área do associativismo e a da
organização popular, onde podemos afirmar que um novo cenário tem sido construído, a partir de
três frentes básicas de ações coletivas, a saber: novas formas de gestão dos negócios públicos,
em políticas de parceria entre entidades da sociedade civil e governos; novas formas de fazer
política entre os movimentos sociais rurais, com o uso de recursos da mídia e de espaços urbanos
para dar visibilidade às ações; e novas articulações entre ONGs, governos e empresários, no
chamado terceiro setor da economia, que têm gerado novas modalidades de trabalho dentro do
que está sendo redefinido como “voluntariado”. Outras formas de associativismo e
associacionismo surgem fora do mundo dos movimentos sociais, ao redor das novas
organizações da sociedade civil. A novidade é que a grande força impulsionadora dos novos
processos não advém da política propriamente dita, mas da cultura.

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Raízes culturais são acionadas e tradições têm sido resgatadas, não para culturar a memória de
um passado já morto, mas para amalgamar novas práticas, para fincar raízes nas novidades que a
criatividade e a invenção, fruto da imaginação e das representações coletivas, estão gerando.
Inúmeros desses processos se inserem na esfera da educação não-formal. Com a globalização da
economia, a cultura se transformou num importante espaço de resistência e de luta social.
Segundo alguns autores, como Touraine e Samuel Huntington, os conflitos ao redor da cultura
serão centrais no século Xxi. Outros discordam, como Daniel Cohn-Bendit, que vê a articulação
dos conflitos culturais com a estrutura econômica da seguinte forma: os problemas econômicos
podem exacerbar os conflitos culturais.

Uma das conseqüências das transformações econômicas tem sido a de expandir o setor
informal da economia e nele as atividades do terceiro setor. A novidade está na estrutura e nos
objetivos deste terceiro setor: sua expansão ocorre não apenas no já clássico setor terciário da
economia, de prestação de serviços. E mesmo quando ocorre no terciário, os serviços são de
natureza distinta do setor terciário tradicional, pois tratam-se de atividades na área do social,
atividades públicas realizadas por organizações sociais privadas. E estas organizações, situadas
no âmbito não-governamental, reestruturaram o velho modelo das associações voluntárias
filantrópicas para um novo modelo onde combinam o trabalho voluntário com o trabalho
assalariado, remunerando profissionais contratados segundo projetos específicos.

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As novidades não se limitam à forma de organizar a divisão do processo de trabalho nas ONGs,
mas incluem também a articulação que as novas organizações passaram a ter com a
reestruturação do Estado, na economia e na sociedade, e com as políticas públicas para as áreas
do social, gerando um novo tipo de associativismo, de natureza mista: filantrópico-empresarial-
cidadão.
As novas ONGs passaram a atuar como mediadoras de ações desenvolvidas em parceria entre
setores da comunidade local organizada, secretarias e aparelhos do poder público, segundo
programas estruturados para áreas sociais como: educação, saúde, saneamento, meio ambiente,
geração de renda etc. Ou seja, as ONGs, via terceiro setor, entraram para a agenda das políticas
sociais. Na educação, por exemplo, atuam em programas com meninos e meninas nas ruas,
jovens/adolescentes em situação de risco face o mundo das drogas, treinamento e capacitação de
profissionais da rede escolar, creches e/ou escolas de educação infantil, campanhas e programas
de educação para os direitos humanos, civilidade no trânsito, prevenção de doenças e da AIDS,
educação ambiental etc.

O conjunto das atividades das ONGs e movimentos sociais, juntamente com os grupos sociais
organizados ao seu redor, têm gerado um tipo de associativismo em nível do poder local e passou
a constituir um setor na economia que está sendo denominado como uma “economia social” ou,
simplesmente, terceiro setor, que se apresenta como fins públicos não voltados para o lucro.
Alguns autores, como Offe (1998), diagnosticaram que este setor terá um grande crescimento e
um papel-chave, no próximo milênio, no conjunto das relações entre o Estado e a sociedade.

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As associações do terceiro setor estão passando a ocupar o papel que antes era desempenhado
pelos sindicatos e pelos partidos políticos. O

novo associativismo do terceiro setor tem estabelecido relações contraditórias com o “antigo”
associativismo advindo dos movimentos sociais populares (na maioria urbanos) dos anos 70 e
80. Enquanto estes últimos fizeram da política seu eixo básico de articulação e identidade,
atuando via reivindicações por direitos (sociais, políticos, econômicos, culturais, por cidadania
de forma geral), e eram amalgamados pelas ideologias da esquerda (num grande espectro de
matizes e tendências), o associativismo do terceiro setor é pouco ou nada politizado, na maioria
das vezes avesso às ideologias, e integrado às políticas neoliberais.

Muitos programas advém de entidades criadas ou patrocinadas por instituições financeiras,


privadas e públicas, como Banco Itaú, Bradesco, BNDES etc.; ou por empresas, nacionais e
internacionais (a rede de lojas CEA, por exemplo). Outras empresas já construíram em sua
trajetória “fundações”, que se dedicam a atuar em programas voltados para o social, como a
Fundação Abrinq — São Paulo, a Fundação Oldebretch, o Instituto Construindo o Futuro etc.
Temos ainda ONGs que passaram a incorporar atividades produtivas no trabalho com suas
clientelas, como o Projeto Axé, na Bahia (ao produzirem camisetas e demais peças e
complementos da “Moda-Axé”), o Projeto Trevessia, em São paulo etc.

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Enquanto organizações-empresas que atuam na área da cidadania social, o terceiro setor
incorpora critérios da economia de mercado do capitalismo para a busca de qualidade e eficácia
de suas ações, atua segundo estratégias de marketing e utiliza a mídia para divulgar suas ações e
desenvolver uma cultura política favorável ao trabalho voluntário nesses projetos. O governo
federal tem colaborado com recursos financeiros nos projetos de parceria (sempre considerados
pelas ONGs como escassos, pontuais, sem linha de continuidade e de difícil planejamento quanto
a sua disponibilidade). Entretanto, a grande contribuição governamental tem sido na área
jurídica, de regulamentação de novas regras para o trabalho voluntário, por meio de leis que
normatizam e criam novos tipos de relações de trabalho, de prestação de serviços não-
remunerados por períodos superiores a noventa dias e que não criam vínculos empregatícios, e,
conseqüentemente, desobrigam os encargos trabalhistas.

O cenário até agora delineado forneceu o roteiro deste livro, que destaca problemática da
educação não-formal e o poder da cultura na sociedade contemporânea. Pesquisar sobre o
terceiro setor, a mídia, os meios de comunicação, o caráter do novo associativismo dos
programas da área da “nova economia social” etc. tornou-se tão necessário quanto pesquisar
sobre as formas de sobrevivência, de lutas e de resistência às mudanças avassaladoras deste final
de milênio, porque são todos fenômenos que ocorrem num mesmo campo de disputas e tensões.
E quando falamos em cultura, sabemos que é um terreno fértil na geração de inovações e de
construção de significados às novas situações colocadas pelo mundo a economia e da política.

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O livro é composto de três capítulos. O primeiro tem por objetivo explicitar as principais
categorias utilizadas, de uma forma clássica: resgatando a contribuição de alguns autores na
construção dos conceitos de cultura, cultura popular, cultura de massa e cultura política.

O segundo capítulo trata da questão do associativismo no terceiro setor. Destaca sua


importância neste final de milênio, em virtude das transformações operadas pela globalização da
economia, o crescimento das atividades informais e o significado que passou ter nas reformas
estatais e nas políticas de parceria entre os órgãos públicos e a sociedade civil organizada.

O terceiro aborda a educação não-formal propriamente dita, sua definição, campo de


abrangência e universo de atuação. Objetivamos demonstrar a íntima relação entre o terceiro
setor e o papel que as políticas sociais têm atribuído à área da Educação. Concluímos com uma
proposta que procura unir a educação não-formal à formal, denominada escola da liberdade e
criatividade.

Esta obra é parte de pesquisa desenvolvida entre 1997-99 com o apoio do CNPq — Conselho
Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. Registro aqui sinceros agradecimentos
pelo suporte institucional e financeiro dessa agência.
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I — CULTURA, CULTURA DE MASSA, CULTURA POPULAR E CULTURA POLÍTICA


A definição de cultura e cultura política entraram definitivamente na agenda dos conceitos
fundamentais para o entendimento da sociedade e da política neste final de milênio,
independentemente da matriz teórica que se esteja adotando. São dois conceitos interligados. O
primeiro, cultura, tem mais tradição e consistência teórica. O segundo, cultura política, é um
derivativo do primeiro, com um recorte no mundo dos fenômenos políticos. Atualmente,
podemos falar de uma teoria da cultura política. Para tal temos que caracterizar a relevância dos
aspectos culturais para as explicações no mundo da política. O termo “cultura organizacional”,
muito em moda no jargão neoliberal, pode ser entendido como a cultura política de uma
instituição. Não concebemos a cultura política de forma restrita, delimitando-a apenas no
universo dos comportamentos dos indivíduos face à política nacional, aos políticos e às
instituições políticas. Trabalhamos numa concepção ampliada de (e da) política, com “P”
maiúsculo, que não se restringe à política partidária.

é o que tencionamos apresentar neste capítulo.

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1. Ponto de partida: a noção de cultura

Sabemos que o termo cultura (1) Possui muitas acepções, foi interpretado de várias formas na
história e tem posições diferenciadas nos vários paradigmas explicativos da realidade social. No
senso comum, o termo é associado a estudo-educação-escolaridade, ou ao mundo das artes, aos
meios de comunicação de massa; ao mundo do folclore, lendas, crenças e tradições passadas ou,
ainda, a períodos ou etapas da civilização humana.

Santos (1983) sistematizou as concepções sobre cultura em dois blocos, ou seja, ligada com
aspectos da realidade social, a tudo aquilo que se relaciona à existência de um povo, de uma
nação etc.

Nota 1. Os principais autores que trataram o tema como fenômeno e objeto de estudo, no
século Xx, formam uma longa lista. Dentre os clássicos citamos: Max Weber, Alfred Weber,
Karl Manheim, M. Mauss, intelectuaios da Escola de Chigago, como Park, os interacionistas
simbólicos como Georg Simmel; pensadores e militantes políticos como A.

Gramsci, Lukács; estudiosos da sociedade de massas como Lipset, urbanistas como L. Munford.
Na Antropologia, destacam-se os trabalhos de Lévi-Strauss, não se esquecendo do pioneirismo
de Taylor, Jasper e Marx Scheler.

Entre os contemporâneos destacam-se: Geertz, P. Bourdieu, Barthes, Giddens, Jameson,


Habermas, Sennet, E. Morin, Baudrillard, L. Goldmann, passando pela Escola de Frankfurt com
Adorno, W. Benjamin, Elias Nobert e outros. No Brasil, na primeira metade deste século,
ficaram famosos os estudos que relacionaram a cultura à nação como os de Mário de Andrade,
Gilberto Freire, Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Júnior, Fernando Azevedo, Guerreiro
Ramos, Nina Rodrigues; ou que trataram o tema sob o enfoque das raças como Sílvio Romero,
Euclides da Cunha, João Capistrano de Abreu, Florestan Fernandes, Otávio Ianni; ou ainda, mais
recentemente, os autores que a estudaram sob o prisma da modernidade ou de heranças no
comportamento como Roque de Barros Laraia, Roberto Da Matta, Darcy Ribeiro, Simon
Schwartzman, Renato Ortiz, Muniz Sodré etc.

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A segunda tem uma ligação direta com o conhecimento, com o mundo das idéias e das crenças,
as maneiras como estas últimas existem na vida social.

O termo cultura, segundo a etimologia da palavra, provém do latim medieval, a partir do


verbo latino colere que significa cultivo e cuidado — com plantas, animais e tudo o que se
relacionava à terra e à agricultura. Como sabemos, na Roma antiga, trabalhar a terra era
considerar uma atividade que enobrecia aos homens (2). Os romanos estenderam ainda o uso do
vocábulo aos cuidados com as crianças e sua educação, aos deuses, ancestrais e seus
monumentos, a cultura do espírito etc.

A filosofia é um dos mais profícuos caminhos para o entendimento das diferentes concepções
de culturana história. A partir do século Xviii, observa Williams (1977), o termo cultura articula-
se com civilização, também derivado do latim (cives e civitas, homem educado, polido e ordem
social, respectivamente, que deu origem ao termo sociedade civil). Chaui assinala que em
“Voltaire e Kant, cultura e civilização exprimem o mesmo processo de aperfeiçoamento moral e
racional, o desenvolvimento das Luzes na sociedade e na história. Cultura torna-semedida de
uma civilização, meio de avaliar seu grau de desenvolvimento e progresso” (1986:12). Ao ser
promovida como exercício livre da razão, a cultura seria separada do reino natural, das causas
necessárias e mecânicas.

Nota 2. Flávio V. Di Giorgi (1995:27) acrescenta que o verbo latino original é o colo, que
significa cultivar, e o supino dele é cultum, de onde se origina cultura.

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A contraposição entre cultura e civilização é destacada em Rousseau, onde a civilização seria
“um artifício, cultivo da exterioridade, sujeição da sensibilidade e do ‘bom natural’ aos
espartilhos de uma razão artificiosa, decadente. Civilização seria o início e término da barbárie.
Cultura é bondade natural, interioridade espiritual, sentimento e imaginação, vida comunitária
espontânea. Na Ilustração a dualidade desaparece” (Chaui, 1986:13).

Com Hegel “a Cultura se torna conjunto articulado dos modos de vida concebida como
trabalho do Espírito Mundial á…ú campo das formas simbólicas. Em Marx a Cultura será
concebida como relação material determinada dos sujeitos sociais com as condições dadas ou
produzidas por eles á…ú momento da práxis social como fazer humano de classes sociais
contraditórias na relação determinada pelas condições materiais, e como história da luta de
classes” (Chaui, 1986:13-14).

Na trilha do marxismo, vários intelectuais trataram a cultura no campo de discussões sobre a


consciência, como Lukács e Goldemann. Este último, ao analisar o universo da produção cultural
e o mundo das informações, via a cultura num universo estratégico, das ações a serem
desempenhadas por todos aqueles que desejavam intervir na vida social.

Para tanto era importante “saber quais são, num estado dado, numa dada situação, as
informações que se pode transmitir, quais as que passam sofrendo deformações mais ou menos
importantes e quais as que não podem passar” (Goldmann, 1972:10).

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Isto porque segundo Goldmann, o conhecimento de um grupo não pode ir além de certo limite de
sua existência; seria uma consciência possível.

Para o estrategista político, o problema não estaria em saber o que pensa um grupo, mas “quais
as mudanças suscetíveis de se produzirem na sua consciência”. Podemos observar que a cultura
desempenha um papel estratégico, que é o de construir táticas para a ação.

Na abodagem marxista há outras interpretações sobre a cultura, que não a reduzem apenas às
questões da consciência e da ideologia de uma classe. Gramsci e Hobsbawm são exemplos de
pensadores que viram a cultura como força social transformadora para a liberdade humana.

Hobsbawm (1999) tem dado contribuições inovadoras ao tratar a cultura de uma forma
humanista, como base de princípios éticos e valores vitais amplos, fugindo do reducionismo
mercadológico que tem acompanhado as discussões sobre o tema nesta virada de milênio.

A antropologia é uma outra fonte de referência para o entendimento do termo cultura. Em sua
abordagem clássica, segundo Velho e Castro (1978), foi E. B. Tylor (1832-1917) quem, no
século passado, redefiniu e demarcou um capo específico à cultura, separado do de civilização.
Ele formulou uma concepção universalista da cultura, destacou sua dimensão coletiva e marcou a
especificidade da análise antropológica: o homem é, por essência, um ser produtor de cultura.
Cultura associa-se à idéia de uma ligação espiritual entre os homens e a civilização e supõe
determinado território. Cultura é definida como “um todo complexo que inclui conhecimento,
crença, arte, leis, moral, costumes e quaisquer outras capacidades e hábitos adquiridos pelo
homem enquanto membro da sociedade”.

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A concepção européia de cultura passa a difundir a crença na unidade fundamental do gênero


humano, e o darwinismo foi um de seus principais instrumentos. É bom lembrarmos também que
a libertação progressiva das chamadas colônias de culturas exóticas, em especial na África,
redefiniu os termso da expnasão colonialista. A própria “gênese da Antropologia se fez num
contexto em que a relação com as colônias muda de sentido —

tratava-se agora de transformar as populações coloniais, adequá-las ao sistema capitalista, não


apenas como ocupantes indesejáveis de território a ser predado, ou como fonte de mão-de-obra
escrava, mas como participantes em um grande mercado internacional, onde também serão
consumidores, tendo que, mal ou bem adotar valores de uma cultura ocidental” (Velho e Castro,
1978: 5). Portanto, o esforço era o sentido de redução das diferenças culturais. Os homens eram
iguais, e suas diferenças culturais mascaravam uma unidade básica a ser progressivamente
eliminada pelo processo evolutivo. Esta concepção naturalista da humanidade tinha como base
um paradigma que previa a inserção progressiva e inevitável de todos na cultura ocidental dos
brancos. O Ocidente teria a missão de civilizar o homem primitivo do Oriente, visto como ainda
não-civilizado.

A concepção de diversidade cultural (3) irá resurgir no século Xx.

Com ela vem o reconhecimento do outro como um ser diferente e a pesquisa etnográfica.

Nota 3. A rigor, a questão da diversidade cultural é antiga. Laraia (1997) assinala que ela foi
tratada por Confúcio, quatro séculos antes de Cristo, e pelo grande historiador grego Heródoto,
ao se referir aos lícios. Laraia cita ainda Marco Polo, o Padre José de Anchieta, Montaigne e o
filósofo Jean Bodin como exemplos de abordagem do tema de diviersidade cultural na espécie
humana.

Página 27
Outro aspecto importante que a categoria da cultura adquiriu no século Xx será o seu caráter
“humanizador”, em contraposição às teses que defendiam a inevitabilidade do destino do homem
a partir de uma determinação da “natureza humana”. Mauss (1954) abordou a seleção cultural e
seus efeitos sobre a humanização do homem; Lévi-Strauss abordará os “modos de vida”
particulares dos homens e destacará a comunicação. A cultura será definida como “um conjunto
complexo de códigos que asseguram a ação coletiva de um grupo” (Lévi-Strauss, 1973).

Com a noção de “código”, que depois foi desenvolvida por Saussure na lingüística, a cultura
passou a ser vista, segundo Velho e Castro, como um “conjunto de regras de interpretação da
realidade que permitem a atribuição de sentido ao mundo natural e social (e) implica
fundamentalmente a idéia de sistema”. Isto pressupõe admitir a existência de esquemas de
racionalidades intrínsecos a qualquer cultura e admite-se também o poder do inconsciente dos
indivíduos e grupos.

Cultura deixa de ser vista como manifestações empíricas de grupos e passa a ser tratada como
um conjunto de princípios que subjazem às manifestações, de forma inconsciente. É um produto
social, um conjuntod e regras que é comum ao grupo. Os códigos que constituem a cultura
consistem essencialmente em aparelhos simbólicos. São símbolos organizados em diversos
subsistemas que caracterizam a natureza social do comportamento humano.

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Os símbolos são codificados segundo os códigos comuns de um grupo. A capacidade de


decodificação de símbolos por grupos passou a ser objeto de estudo dos antropólogos.

“Sem perder de vista que a cultura é constituída de sistemas de símbolos que articulam
significados”, Arantes (1982: 35) afirma que na antropologia social foi Malinowski (1966), que
demarcou a necessidade de se ver qualquer objeto, costume, ação ou símbolo em relação ao
contexto da vida social do grupo. “A possibilidade de delimitar, reconstituir e interpretar os
processos sociais e os itens culturais não a partir de critérios abastratos e gerais, produzidos pela
visão de mundo do observador, mas com critérios inferiroes a partir da realidade estudada,
encontra-se justamente no conceito malinowskiniano de “instituição social” (Arantes, 1982: 38).
Malinowski chama a atenção para a importância do contexto cultural onde os fenômenos sociais
ocorrem.

Ele demoliu a concepção de cultura como colcha de retalhos, presente nas abordagens
evolucionistas, e reafirmou que ela é constituída por sistemas de significados que são parte
integrante da ação social organizada.

Em 1952, Kroeber e Kluckhon classificaram e comentaram 164

definições diferentes de cultura, desde normativas, psicológicas, estruturais, históricas etc.


Segundo Geertz (1989), o termo se tornou um tópico-chave da mitologia “culta” do século Xx.
Esse autor defende um conceito simiótico de cultura, na linha de Max Weber, como teias de
significados e a sua análise.

Página 29

Estudar a cultura é estudar o código de símbolos compartilhados pelos membros de um grupo


onde esta cultura se manifesta. Geertz realizou excelentes análises sobre os aspectos morais e
estéticos da cultura ao resumir com o termo “ethos” a problemática dos valores de determinado
grupo (separando os aspectos cognitivos, que seriam a visão de mundo do grupo). Para Geertz, o
ethos de um povo é “o tom, o caráter e a qualidade de sua vida, seu estilo moral e estético e sua
disposição, é a atitude subjacente em relação a ele mesmo e ao mundo que a vida reflete” (1989:
143). Bourdieu também trabalhou essa questão.

Junto com a antropologia surgem outros campos de estudo da cultura dados pela sociologia,
história, filosofia, psicologia social, lingüística, política etc. Tais como: cultura erudita, cultura
de massas (Adorno), cultura popular (Canclini), cultura da pobreza (Lewis), cultura urbana
(Wirth), cultura nacional, cultura política (Verba, Almond, Tarrow), cultura de resistência
(Thompson), cultura organizacional, cultura do trabalho, cultura propositiva etc. A sociologia
criou várias áreas de especialização, como teoria sociológica da cultura, cultura urbana, cultura
da modernidade, cultura dos jovens, cultura da mídia etc. Já nos anos 40, Roger Bastide (1975)
destaca a importância do passado para se entender o presente e interpretava a cultura não como
uma tradição cristalizada, mas como uma “alma produtora, a expressão de uma certa filosofia”.
Nos processos de mudança social, os movimentos de resistência, revoltas, assimilação de
inovações etc. foram vistos como frutos de uma “psique coletiva”, fruto da imaginação e da
memória coletiva.

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Por sua vez, a memória coletiva era vista como uma fonte de estruturação e de orientação da
cultura. A memória sobrevive não apenas das tradições e dos costumes, mas ela também é a
manifestação de um “subconsciente social”.

Schwartzman afirma que:

“não é por acaso que o tema da cultura acompanha as ciências sociais desde as suas origens e
esteja sendo descoberto nos útimos anos e apresentado como a grande solução para os impasses e
dificuldades dos projetos de desenvolvimento e modernização contemporâneos. Aplicado às
ciências como um todo, o tema da cultura leva ao questionamento das pretenções de objetividade
dos cientistas e à desconstrução de seusprojetos tecnocráticos; aplicado às ciências sociais,
coloca em questão a utilidade dos estudos comparados, o valor das teorias e a confiabilidade dos
dados e declara a superioridade da intuição e da literatura, quando não da raça e da religião;
aplicado aos sistemas educacionais e de formação profissional, o tema da cultura sustenta a
crítica à educação formal, ao valor dos títulos e diplomar e ao sentidod as especializações
profissionais” (1997: 9).

Nos estudos da sociologia, a cultura sempre aparece associada a p5ocessos de mudança e


transofrmação social, como mola propulsora de mudanças sociais. Ainda segundo Schwartzman,
“a sociologia sempre desconfiou do uso da cultura como fator de explicação dos fenômenos
sociais, e por boas razões. Dizer que cada povo tem sua cultura, e por isso são diferentes, é
deixar de lado precisamente o que queremos entender, as diferenças.

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Dizer que as culturas são únicas e irredutíveis é aceitar como inevitável a desigualdade e recusar
o princípio básico de que a humanidade é uma só. O programa de pesquisa delineado pelos
clássicos da sociologia, de Marx a Durkheim, supunha que todos os fenômenos humanos
decorrem e são explicáveis a partir da organização social e da interação entre as pessoas na vida
familiar, na divisão do trabalho e na ocupação e defesa do espaço e do território. Era um
programa com uma ontologia naturalista e materialista (é a vida cotidiana, em sociedade, e não o
contrário) á…ú Em contraste, as teorias culturalistas, em suas diversas modalidades, tendiam a
afirmar o primado do espírito, da ética ou dos valores na explicação dos fenômenos humanos,
assentuavam as diferenças irredutíveis entre valores e padrões culturais que enfatizavam o uso da
intuição e da empatia, por definição inexplicáveis, para entender o que ocorre na sociedade”
(1997: 45-46). Mas, concluiu o autor, as culturas mudam e para tal é preciso entendê-las como
fenômeno sociológico.

Schwartzman cita o trabalho de Aaron Wildawsky, Cultural theories, como a mais recente e
ambiciosa tentativa de análise da cultura como geradora de mudanças sociais. Segundo
Wildawsky: “O ponto de partida é extremamente simples. As pessoas, em sociedade, compartem
valores e crenças, que são suas orientações culturais. Além disso, elas mantêm relações entre si.
Uma cultura é um modo de vida que integra, de forma viável, orientações culturais e formas de
interação social, o qeu depende, por sua vez, da estrutura social da qual os indivíduos
participam” (1997: 47). E a estrutura social, que é a base de apoio dos modos de vida existentes,
é formada por duas variáveis básicas: Página 32

a intensidade das relações de solidariedade entre os indivíduos e o contexto das estruturas de


diferenciação, a autoridade e hierarquia existentes.

Leach (1978), Touraine (1973), Santos (1983), Chaui (1986), estão entre os autores que
associam cultura e mudança social. Em suas concepções, o estudo da cultura implica aceitar a
existência de uma historicidade, onde sociedade e cultura estão sempre se refazendo, porque não
são entidades estáticas. O resultado destas abordagens foi a construção da categoria dos
indivíduos como atores sociais, agentes de mudanças socioculturais, e não apenas entes
subjulgados por forças predeterminadas. Para Santos, “cultura é um território bem atual das lutas
sociais por um destino melhor. É uma realidade e uma concepção que precisam ser apropriadas
em favor do progresso social e da liberdade, em favor da luta contra a exploração de uma parte
da sociedade por outra, em favor da superação da opressão e da desigualdade” (1983: 45).

Uma concepção de cultura que tem sido bastante divulgada e aceita na área das ciências
sociais contemporâneas é dada pelas análises de Nestor Garcia Canclini. Ele define a cultura em
termos de um processo social que envolve: a instância onde cada grupo organiza sua identidade,
a instância simbólica de produção e reprodução da própria sociedade, a instância da formação do
consenso e da hegemonia (neste sentido contribui para a formação da hegemonia política e a
legitimidade); e, finalmente, a instância da dramatização eufemizada dos conflitos sociais, como
teatro, como representação, nos moldes de Brecht, Benjamin e outros (1997: 37-42).

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A teoria cultural studies, desenvolvida por Mc Quail (1983) e Hall (1980 e 1998) é importante
para nosso objeto de estudo por duas razões.

Primeiro, porque destaca uma função importante para a mídia, à medida que a cultura tem
centralidade na análise e é vista não como uma prática, muito menos como mero conjunto de
hábitos e costumes. Segundo Hall, a cultura passa por todas as práticas sociais, e é a soma das
duas inter-relações. O próprio conceito de cultura englobaria os significados e os valores que
surgem e se difundem nas diferentes classes e camadas sociais, como as práticas por meio das
quais os valores e os significados se exprimem. As formulações postas nestes termos levam ao
conceito de modo de vida, visto como estrutura coletiva, e é neste campo que os meios de
comunicação de massa ganham destaque. Em segundo lugar, a cultural studies destaca a
importância de diferentes saberes construídos nos processos comunicativos, tais como o saber
prático dos próprios profissionais da mídia e o saber político das instituições envolvidas no
processo de produção, controle e gestão da mídia. Ou seja, a mídia não surge apenas como obra
maquiavélica de controle das elites dominantes sobre a sociedade, como nas teorias de mass
média (ou dos meios de comunicação de massa), mas é também sistema cultural e espaço de
conflito, além de controle social.

As correntes sociopsicológicas do interacionismo simbólico dos anos 20-30 deste século e os


trabalhos de I. Goffman foram resgatados nos anos 80 e 90, nos estudos sobre os processos de
mudança das sociedade, e com ela suas contribuições no campo da cultura.

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Os indivíduos produzem interpretações, significados e símbolos face a determinada realidade.


Neste contexto, a cultura emerge como prática de produção de significados, espaço e campo de
significações. Ela é ação, atividade, experiência, e, portanto, confere dinamismo ou processo
social, não sendo simples resíduo ou conjunto de acervos mortos (nos museus) ou estáticos (em
comportamentos pré-codificados pela tradição).

Disto resultam outras considerações, como: as transformações culturais não são meras
conseqüências ou resultados da infra-estrutura de produção econômica da sociedade, mas fruto
da interação de vários processos sociais onde as relações de produção convivem com relação de
parentesco, religiosas, político-ideológicas etc.

Para Touraine, “reconhecemos a presença de culturas diferentes das nossas, suas capacidade
de anunciar um discurso sobre o mundo, o ser humano e a vida, e a originalidade dessas criações
culturais nos impõem respeito e nos incita ademais a conhecê-las” (1997: 15). Paralelamente as
políticas de identidade temos o triunfo dos nacionalismos culturais que apelam para as crenças e
heranças culturais do passado, mas recusam a diversidade e a comunicação inter-racial, por
exemplo.

Em síntese, a cultura passou a ser vista como tendo um caráter relacional, com sentido e
significados construídos nos processos de interação. A identidade cultural de um grupo é
construída neste processo, e há uma tensão constante entre os significados e os sentidos que um
grupo ou movimento social procura atribuir/construir via suas práticas, e os outros significados e
sentidos de outros grupos/movimentos.

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Isto ocorre porque as relações de poder não aludem apenas às relações de froça física, material.
A cultura é também uma força, enquanto uma prática plena de significados. Ela demarca
diferenças porque estas estão produzidas no interior dessas práticas de significações. O exercício
das práticas produzem continuamente novos significados, pois muitas vezes está se procurando
demarcar as diferenças de outra forma. O preconceito racial, por exemplo, é a diferença
carregada de negatividade, que busca separar, segregar, excluir. Contra ela, os grupos
organizados lutam e procuram construir outros significados para a questão da raça, baseados em
valores positivos. Ao fazer isto, geram identidade a partir da demarcação do campo de suas
diferenças.

Em termos gerais, nos anos 80 e 90, com o desenvolvimento da sociedade informacional


tecnológica, a cultura ganha status e lugar de destaque nas ciências humanas e exatas, e passa a
ser dividida em “moderna” e antiga. No vocabulário, surgem novos adjetivos como: cultura
comunicativa, virtual, empresarial, organizacional etc. O termos e populariza para expressões
como: cultura do medo, da violência, do stress, escolar, do bem-estar físico e espiritual, da moda,
do consumo, do respeito/desrespeito às leis, de se levar vantagens, de vícios etc.

No plano dos povos e das nações, a palavra de ordem será multiculturalismo.


Deve-se registrar ainda nos anos 90 a expansão da cultura no universo das artes e da
sociedade do larzer e do entretenimento.

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Essa dimensão tem múltiplas facetas: pelo lugar que ocupa na vida das pessoas, quer seja
consumindo telenovelas, leitura de jornais, filmes na TV ou no cinema, videogames, internet
etc., pelo mercado de bens que gera, pois fomentar e patrocinar a produção de bens culturais
passou a ser um dos grandes setores do próprio processo capitalista, e pela produção artística dos
homens em si, nas áreas da pintura, escultura, dança, música, teatro, cinema, fotografia e
audiovisual em geral, e literatura.

Finalizando, uma das melhores definições de cultura que conhecemos é elaborada por R.
Benedict: “Cultura é como a lente através da qual o homem vê o mundo” (apud Laraia, 1997:
69).
2. Cultura de massa
Segundo Wolf (1995), as teorias sobre a sociedade de massa correspondem a um dos
primeiros momentos dos estudos sobre os meios de comunicação. O interesse daqueles estudos
centravam-se no entendimento dos aspectos psicológicos das ações coletivas, e um tema central
se destacava na área de comunicação propriamente dita: o da propaganda.

Esta atuaria como estímulo sobre os indivíduos atomizados que reagiriam com respostas cegas e
irracionais, gerando movimentos. Bastava que indivíduos estivessem exposto aos estímulos
perniciosos de certas mensagens para que produzissem respostas comportamentais instantâneas.

Gustave Le Bon (1895) já havia falado em massas ao se referir aos movimentos políticos das
camadas populares do final do século passado como comportamento cego e irracional de
movimentos de massa.

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Ele atribuía à civilização industrial a origem das multidões, e a turbulência seria seu modo de
comportamento natural. Le Bon abriu o caminho para as análises de cunho psicológico do século
Xx ao falar da “alma humana”, abordando problemas do inconsciente, da parte reprimida dos
indivíduos que se manifesta com as rebeliões. Freud irá utilizar as análises de Le Bon a este
respeito, alterando o sentido que o primeiro lhes atribuía. Para Freud, “nas massas não há só
instinto, mas produção”

(apud Martin-Barbero, 1997:50). E muito antes de Le Bon, as massas tinha sido vistas na história
como agentes externos, “turbas” perturbadoras, que provocavam medo e desprezo nas elites
aristocráticas. Tocqueville, no século Xviii, viu as massas como chave para o entendimento do
início da democracia moderna, colocando-as dentro do processo histórico. Mas ele também
trabalhava com uma concepção de “massa” como ameaça a ordem social, composta por
ignorantes, sem moderação, desintegrando a cultura.

A massa se subordinaria a qualquer coisa ou poder para obter migalhas para seu bem-estar. Tal
pessimismo social já tinha tradição: La Boetie, que no século Xvi havia criado o discurso da
“servidão voluntária”, onde o fracasso moral gerava pessimismo cultural.

No século Xix, Marx e Engels trabalhavam com uma concepção de povo/massa radicalmente
distinta, em termos de classe trabalhadoras em processo de homogeneização das condições de
exploração e da capacidade de gerar uma consciência social em direção ao outro modelo de
sociedade.
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No início do século Xx as explicações centradas na psicologia social, na linha de Le Bon, são


implantadas com vigor. G. Tarde (1843-1904), jurista e professor do Collége de France em 1900,
enfatizou o papel das crenças e foi um dos primeiros a destacar os processos comunicativos e a
formação da opinião pública. A sociologia contribuirá para a construção de um estatuto científico
para as massas com Tonnies (1855-1936), ao estabelecer a distinção entre comunidade e
sociedade, a qual será retomada por Weber. Nos anos 30 deste século as massas voltam à cena
política, com o nazi-fascismo, e às análises teóricas. W Reich, em 1934, deslocará o eixo de
análise do comportamento irracional para o da submissão à autoridade. Mas será Ortega Y
Gasset (1987) quem tratará da questão social em termos de massa, tornando-se um clássico
dentro da linha do pensamento conservador. Seu livro, A rebelião das massas, nos anos 30, criou
uma teoria para o homem-massa, onde o termo “massa” é atribuído para um conjunto amorfo,
que subverte tudo o que é diferente, singular e individual, a antítese do humanista culto. Ele
destaca que o grande problema para a humanidade de sua época era que se antes as massas
ocupavam um espaço marginal ou secundário na sociedade, agora eram plenamente visíveis nas
aglomerações da multidão. Ele achava que este processo era um retrocesso à barbárie. Para
Gasset, a massa seria incapaz de ter qualquer relação com uma cultura, porque era vulgar numa
leitura bastante elitizada.

Será nos anos 40 que as teorias da sociedade de massa atingirão seu alge, especialmente nos
Estados Unidos, com as obras de Fromm (1941) e Kornhauser (1959).

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Em 1948, Lasswell publica a teoria na qual vinha trabalhando desde os anos 30, a respeito de
uma análise do conteúdo das mensagens contidas nas propagandas. Depois ele passou a analisar
também os efeitos da propaganda sobre a audiência, os papéis do comunicador e do destinatário.
É interessante destacar que, de um lado, a sociedade era vista como uma massa homogênea e, de
outro, as pesquisas se concentravam nos indivíduos isolados, visto como sujeitos singulares. Esta
foi uma fase de bastante desenvolvimento de pesquisas instrumentaisempíricas, que se
assentavam em um grande número de variáveis e faziam uso de instrumentos de pesquisa do tipo
formulário e questionários. Elas se destinavam a pesquisas eleitorais, de mercado, propaganda,
opiniões públicas etc. A fase posterior dirigiu-se às campanhas de persuasão do público, quer se
trate de eleições, venda de produtos ou construção de novos valores na cultura política vigente,
por meio de propagandas pelo rádio voltadas para a promoção do “espírito de tolerância e
integração ocial” (Lazarsfeld, 1940, apud Wolf, 1995: 34). Observa-se aqui a utilização da mídia
para a formação de valores e a busca de consenso qu servissem como contraponto ao clima de
conflitos étnicos e raciais que a sociedade americana passava, em especial em relação a questão
da raça negra.

Daniel Bell (1960) abordou o papel do cinema, da televisão e da publicidade no processo de


socialização dos indivíduos, destacando o papel da cultura e dos meios de comunicação de massa
como mais importantes que a política. Por isto o título de seu livro é esclarecedor: O fim das
ideologias.

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A exacerbação total do poder das massas seria feito por D. Riesman ao ver na cultura de massa o
princípio de inteligibilidade global do social, nos dizeres de Martin-Barbero (1997:60). Seu livro,
A multidão solitária (1981) é uma apologia do poder do consumo como fonte de referência aos
indivíduos (camadas médias no caso), que se diluem moldando seu “caráter” em relação ao
outro. Na abordagem que enfatiza a relaçãod as massas com os meios de comunicação, destaca-
se o trabalho de Moles (1967). E. Morin afirmou que a cultura de massas é um produto típico da
sociedade pós-industrial, sendo resultado de uma dialética produção/consumo e gestada
artificialmente no contexto da indústria cultural. Para Morin, “a cultura industrial nega de modo
dialético a cultura do impresso e a cultura folclórica; desintegra-as integrando-as; desintegra o
folclore, mas para com eles universalizar certos temas”

(1967-69).

Nos anos 90, na era da informação, o debate sobre a cultura de massa toma outros rumos.
Passa-se a falar mais em termos de cultura das mídias, midiáticas etc. (vide Dizard, 1998).
Segundo Touraine (1997), a uma dessocialização da cultura de massa e uma separação entre
cultura e economia, mundo instrumental e mundo simbólico. “A cultura de massa penetra no
espaço privado, ocupa uma grande parte dele e, como reação, reforça a vontade política e social
de defender uma identidade cultural, o que conduz ao recomunitarismo). Isto porque ao
submergirmos devido à globalização, temos nossa identidade ameaçada, e para protegê-la
“apoiamo-nos em grupos primarios e reprivatizamos uma parte e às vezes a totalidade da vida
pública, o que nos faz participar às vezes exem atividades completamente voltadas para o
exterior e inscrever nossa vida em uma comunidade que impõe seus mandametos […] e o que
chamamos prudente minoria tende a afirmar sua identidade e a reduzir suas relações com o resto
da sociedade” (Touranie, 1997: 11-2). Disto resulta uma sociedade dividida entre redes quee
instrumentalizam e comunidades fechadas que impedem a comunicação com os outros.

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3. Cultura popular
A categoria cultura popular foi objeto de muitas discussões nos anos 60 e no início dos 80 na
América Latina, principalmente no Brasil.

Vários fatos da conjuntura sociopolítica da época explicam esse destaque. Entre eles podemos
citar nos anos 60, os projetos nacionalistas de grupos de intelectuais, como o CPC da UNE —
Centro Popular de Cultura da União Nacional de Estudantes, quando a expressão “arte
revolucionária” foi utilizada num contexto da “cultura a serviço do povo, vista como sinônimo
dos interesses do país. Cultura popular era tratada como “consciência revolucionária” (Gullar,
1963).

Nos anos 80, o tema da cultura popular retorna ao cenário nacional, dada a difusão de
pedagogias de educação popular no esforço de setores da sociedade civil para se organizar e
participar na política, resultando na luta pela redemocratização do poder do Estado, então em
mão dos militares.

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Deve-se destacar também a crença na força da criatividade dos grupos populares, por parte de
um conjunto significativo de intelectuais da academia e do clero cristão; a crítica feita pelas
lideranças articuladas pela Igreja Católica às formas centralizadoras de organizar a população por
parte dos partidos tradicionais da esquerda; o surgimento de inúmeras experiências novas para a
solução de problemas socioeconômicos na área da habitação, geração de renda e condições de
inserção da mulher no mercado de trabalho (citamos, como exemplo, as casas construídas por
mutirões populares, a produção de pães caseiros, tapetes e “panos de prato” artesanais, as creches
comunitárais etc.).

A cultura popular foi redefinida como sinônimo de resistência popular. O livro de Chaui,
Conformismo e resistência — aspecto da cultura popular no Brasil (1986) é emblemática a este
respeito. E a cultura popular foi diferenciada d a cultura de massa. A primeira seria produzida
pelos seus participantes, criada e recriada continuamente. A segunda seria pré-fabricada para
integrar os indivíduos, como meros consumidores passivos.

No cenário delineado, observa-se que a concepção rousseauniana de cultura retorna com


vigor, ao destacar o popular no universo da cultura. Ao se acentuar o processo de perda da
cultura popular, no processo de migraçãod as camadas populares para as cidades, e da espoliação
urbana a que essas camadas eram submetidas, enfatizava-se a necessidade do resgate daquela
cultura. O povo na política — concepção elaborada na Ilustração, “como instância jurídico-
política legisladora, soberana e legitimadora dos governos”, oposto a plebe, vista como o
populacho, a ralé, o povinho (Chaui, 1986: 15), será redefinido como um ó corpo, composto por
todos aqueles que não estão no poder e nem são ricos ou poderosos.
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O Romantismo e a Ilustração se reconciliam porque se deve ir ao povo, resgatar sua cultura,


porque ela é também força sociopolítica, mas esta tarefa deve ser feita por um agente mediador,
diferente do intelectual orgânico tradicional, oriundo das vanguardas dos partidos políticos de
esquerda, que levaria uma “verdade esclarecida”. O novo intelectual, assessor/mediador deveria
ouvir o povo e sistematizar seu conhecimento.

Ele deveria educar a sensibilidade deste povo.

O autor que inspirou tais concepções foi Antônio Gramsci, em seus trabalhos sobre o papel da
cultura presente no folclore e nas reivindicações das associações populares, como elementos
fundamentais para a construção de uma nova hegemonia política de determinada nação.

Como sabemos, o conceito de hegemonia gramsciniano inclui a cultura como processo social
global e o transforma em ferramenta fundamental para o processo de transformação social, à
medida que ele forma a visão de mundo dos grupos sociais. Construir visões de mundo
diferenciadas das elites dominantes é tarefa do novo intelectual orgânico. Desenvolver as práticas
de resistências embutidas na cultura popular faz parte deste processo. A cultura popular assume,
portanto, uma concepção estratégica, parte do processo de busca de mudanças e transformações
sociais. Para Gramsci, portanto, “o poder de uma classe se define, sobretudo, no campo da
cultura, criticada de fora por Marx e Lênin como simples ideologia.

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Gramsci, de fato, mostra como o poder de uma classe não depende tanto do controle do aparelho
estatal, mas, antes de mais nada, de sua capacidade para dirigir, intelectual e moralmente, o
conjunto da sociedade e para gerar ‘consenso’ em tornod ela. Desse modo, pode chegara exercer
uma ‘hegemonia’ sobre as demais classes sociais. O

controle do Estado é apenas a conseqüência” (Restrepo, 1990: 75). A construção de uma nova
visão de mundo, uma nova moral, uma nova ética, um novo consenso, são todos elementos
básicos sem o qual a sociedade civil estará sempre subjulgada aos propósitos das classes
dirigentes.

Desenvolver uma nova cultura política a partir de fragmentos da cultura popular composta de
“aglomerados indigestos de fragmentos que só podem viver isolados em guetos culturais”, de
forma quea cultura subalterna — feita de pedaços de culturas e civilizações precedentes e de
restos da cultura dominante — se transforme em cultura autônoma, crítica, homogênea e, aos
poucos, hegemônica. Isso implica transformar a sociedade civil, criando-se as bases para a
absorção da sociedade política. E neste ponto entra o papel dos intelectuais nos aparelhos do
Estado. Penetrar nos órgãos governamentais, alterar a cultura organizacional da administração,
construir uma nova cultura antes mesmo de se tornar o poder. Estas concepções alimentaram
intelectuais e políticos de variadas matizes políticas, que se uniram para restaurar a democracia
em vários países da América Latina. Uma das metas desta grande tarefa era construir uma cultura
democrática que fundamentasse a nova cultura política. Minando, pelas bases, a cultura
autoritária vigente no Estado e na sociedade brasileira, desde o tempo colonial.

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Ao final dos anos 80, as mudanças na conjuntura internacional, com as alterações no regime
político do Leste Europeu e a hegemonia das políticas econômicas neoliberais, levarama
construçãod e um novo significado para o termo cultura, por parte dos intelectuais engajados
ideologicamente na luta contra as injustiças sociais e em busca de uma sociedade menos
desigual. Aos poucos a expressão “cultura de resistência” foi sendo substituída por “cultura
propositiva”. Trata-se de engendrar ações que não fiquem apenas em críticas e denúncias, mas
que coloquem propostas, estabeleçam metas, objetivem um agir “ativo” e não só resistência,
passiva. A nova postura tem lançado os movimentos sociais, em especial os populares, em novas
experiências associativas.

Entretanto, o desempenho dos movimentos, nas arenas institucionalizadas, tem gerado


controvérsias. Como observa Costa (1997), “a intenção, em si meritória, de incrementar a
participação das associações civis na vitalização da esfera pública não pode pretender confinar a
ação destas às arenas institucionais — nem num novo contexto institucional, mais poroso e
democrático. O caráter diferencial e renovador da ação dos movimentos sociais reside
precisamente na sua institucionalidade distinta (mais flexível e informal) e em seu encoramento
nos processos primários de reprodução social. Sua contribuição para o revigoramento da vida
pública encontra-se na possibilidade de tornar conhecidas demandas e questões que emergem nas
franjas dos núcleos institucionais de discussão e deliberação”.

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E ele conclui: “a única base possível de legitimação para a participação das associações civis nos
processod e proposição política (discussão de políticas públicas etc.) é, exatamente, seu
enraizamento nas teias sociais de resistência. á…ú Se abandonarem a resistência e
especializarem-se na proposição, os movimentos estarão abrindo mão de sua própria razãod e
ser, do pressuposto ontológico de sua legitimação”

(Costa, 1997: 130-31).


4. Cultura política

Assim como o conceito de cultura, cultura política também é um termo de múltiplos


significados e qualificativos. Cultura política autoritária, democrática, provinciana, paroquial,
moderna, tradicional/atrasada, de elite etc. são exemplos principais. Moisés destaca que o
conceito “tem uma história polêmica no desenvolvimento das ciências sociais. Embora apareça já
nas preocupações de autores tão diferentes como Rousseau, Burke, Tocqueville e Gramsci,
associados aos longos e, por sua vez, contraditórios processos de secularização da esfera política
no mundo ocidental, ele deu origem a abordagens diferentes e, às vezes, contraditórias” (1992:
13).

Rennó ao realizar uma resenha sobre o tema também destacou que “os conceitos e categorias
da teoria da cultura política — como subculturas políticas, cultura política das elites, socialização
e mudança na cultura — estão presentes, de forma subentendida, desde os primórdios da ciência
política. Maquiavel, Montesquieu, Rousseau e Tocqueville, além de Platão e Aristóteles, são
exemplos de autores que empregaram alguma das categorias culturais em sua análise” (1998:
139-40).

Página 47

O paradigma marxista de análise da realidade constrói um quadro geral da análise que confere
importância fundamental à infra-estrutura da sociedade, ao modo de produção da vida material.
Naquele paradigma, o fenômeno das idéias, dos valores e das ideologias não são vistos como
dotados de autonomia. Os valores fundamentais de uma época histórica são produzidos pela
classe dominante e difundidos por meio das ideologias. Nesse sentido, a cultura política
dominante seria a cultura da classe dominante. Na teoria marxista, a cultura política só ganhou
destaque coma abordagem de Gramsci.

Entretanto, é Max Weber o grande teórico do século Xx, que forneceu as bases para o
desenvolvimento de uma teoria da cultura política.

Weber, ao selecionar os valores, as atitudes e os sentimentos como variáveis independentes


centrais de seus estudos, destacou a importância das orientaçpes subjetivas para as mudanças
estruturais. O

estudo da relação entre o ethos capitalista e a ética protestante, por exemplo, demontrou a
importância dos fatores subjetivos na análise da realidade social. E os valores são a base de
construção daquele ethos.

Nos anos 50 e 60 deste século, a cultura política se estabeleceu a partir do uso de métodos de
amostragem estatística, especialmente técnicas de escalas e uso de sistema de inferências, e
tivemos o desenvolvimento de escalas de medição da cultura política de um grupo, envolvendo
testes empíricos e especulações teóricas. Para que se entenda estas transformações é preciso
resgatar os traços principais dessa abordagem tida por alguns autores como “clássica” na
construção de uma teoria cultural política.

Página 48

Nos anos 60, Almond e Verba publicaram The civis culture (1963), um estudo que se tornou
clássico na ciência política sobre a cultura política. Preocupados em explicar a estabilidade ou a
mudança dos regimes políticos em termos de um suposto caráter nacional dos povos, os autores
utilizaram as emergentes pesquisas de opinião, segundo uma abordagem behaviorista.
Afirmavam que as orientações subjetivas dos indivíduos são cruciais para explicar a estabilidade
dos regimes políticos. As orientações envolveriam três dimensões: cognitiva, afetiva e valorativa.
Com base em análises sociopsicológicas que buscavam apreender as atitudes individuais,
pesquisaram cinco países diferentes e construíram a categoria “cultura cívica”, aquela que
“combina tendências de participação política com atitudes de moderada deferência do público
diante das autoridades” (in Moisés, 1992:16). Além da psicologia social, outras fontes de
inspiração para Almond e Verba foram a antropologia sociopsicológica e a política. O processo
de socialização na infância passou a ser destacado para explicar a presença de determinados
valores.

A política, vista por um ângulo liberal, deu seu toque ao introduzir as noções de consciência
cívica e cidadania. O envolvimento e a participação dos indivíduos em assuntos da coletividade e
o respeito às leis e às autoridades passaram a se destacados como elementos de um modelo de
cidadania. Ou seja, a estrutura e a cultura política eram associadas segundo uma perspectiva de
“consciência cívica” dos cidadãos.

Página 49

The civic culture levou ao desenvolvimento de um grande número de pesquisas e deu origem
ao chamado modelo culturalista que enfatiza atitudes e valores. As pesquisas sobre o caráter
nacional de uma sociedade (a partir do cruzamento de dados sobre cultura e personalidade)
passaram a ser vistas como “parte do contexto da ação política e (ela) provê o ambiente para a
mudança ou continuação de um certo regime político. á…ú A cultura política e a estrutura
política só são separadas no nível analítico para permitir o estudo de sua congruência. Os
objetivos de testar a compatibilidade entre cultura política e de delinear o tipo de cultura
associada à democracia — isto é, a cultura cívica — estão implícitos no desenho de pesquisa
desse estudo” (Street, 1993:98, apud Rennó, 1998:75). Para Street, a abordagem de Almond e
Verba buscava integrar atitudes e valores políticos de um lado e funcionamento do sistema
político de outro, o micro ao nível dos comportamentos individuais, o macro no que se refere ao
sistema político.

Em 1966 Almond e Powell publicaram um novo trabalho definindo a cultura política como:
“o padrão de atitudes e orientações individuais com relação à política compartilhadas por
membros de um sistema político” (1980:37). Observa-se a primazia do indivíduo na
conceituação do autor, onde orientações cognitivas, credos, orientações afetivas dadas por
sentimentos e orientações avaliativas determinariam as escolhas dos indivíduos. Para ele, a
cultura política envolve um conjunto de fenômenos que podem ser identificados e até certo ponto
medidos por meio de índices.

Página 50

Atribuo a importância que foi dada ao seu estudo o fato de conter a possibilidade de
previsibilidade: a cultura política teria o poder de prever tendências individuais diante das
característcas de certo sistema social como o comportamento das pessoas em relação ao voto.

Almond classifica os indivíduos em dois tipos: os sujeitos políticos (pertencentes à sociadade


tradicional) e os participantes (que adentraram na sociedade secularizada). Conseqüentemente,
ele vê dois tipos básicos de cultura política: a tradicional e a secularizada.

Entre elas existe a cultura política ideológica, onde os indivíduos desenvolveriam um conjunto
de atitudes políticas mas num estilo fechado, rígido, fixado pela ideologia. As culturas políticas
de uma sociedade seriam mantidas ou transformadas por meio do processo da socialização
política. A família e o sistema escolar foram vistos como os principais mecanismos de
sociolização política, seguidos pelos meios de comunicação de massa, grupos formais e
informais.

A teoria “culturalista” da cultura política sofreu críticas ao longo dos anos 70, tanto por parte
da esquerda como da própria direita. Para a esquerda, pesquisas baseadas em atitudes,
comportamentos e opiniões nada mais refletiam que uma visão fetichizada da realidade,
denotando a falsa consciência, e não a realidade dos fatos e fenômenos. Haveria na análise de
Almond e Verba, por exemplo, a ausência de consideração quanto as estruturas econômica e
política. Quanto à direita, sua crítica esteve associada à emergência da teoria da mobilização
política e suas escolhas racionais.

Página 51

A economia substituiu a psicologia na explicação das ações coletivas dos indivíduos e grupos.
Atores dotados de racionalidade, priorizando escolhas que contemplassem seus interesses, eram
destacados como matrizes explicativas das ações coletivas, e não mais indivíduos influenciados
pela socialização familiar ou pels constrangimentos dados pelas estruturas macroeconômicas e
políticas Em 1980, Almond publicou mais um livro, organizado novamente em conjunto com
Verba, onde faz uma revisão da teoria anterior. A partir de Almond, Rennó escreve: “Se na
década de 60 e 70, a ciência política viu-se dominada pelos reducionismos de esquerda e de
direita, nos anos 80 esses movimentos começaram arrefecer e a perder o crédito. O

pensamento marxista passou a aceitar conceitos como pluralismo, autonomia governamental,


inter-relação entre estrutura econômica e política, e a importância de valores e atitudes no
funcionamento das instituições políticas e econômicas. Também a perspectiva da escolha
racional buscou contextualizar o modelo racionalista, estudando instituições, regras, valores e
crenças” (1998: 73). (4) Nos anos 90, Almonde volta a abordar a cultura política e a redefine
novamente. Dessa vez ele destacará uma questão-chave na modernidade, já estava presente em
sua produção nos anos 60, que é a da subjetividade. como Nota 4. A perspectiva da escolha
racional advém da teoria da Mobilização de Recursos formulada por Olson. Partindo de
concepções do utilitarismo, essa teoria advoga que há sempre um componente racional, baseado
na lógica custo-benefício, nas ações dos homens.

Página 52

A cultura política passa a ser vista como “o conjunto de orientações subjetivas de determinada
população” (1990: 144 apud Rennó, 1998). “A cultura política incluiria conhecimentos, crenças,
sentimentos e compromissos com valores políticos e com a realidade política. O seu conteúdo é
resultado da socialização na infância da educação, da exposição aos meios de comunicação, de
experiências adultas com o governo, com a sociedade e com o desempenho econômico do país”
(Rennó, 1998: 71). A conclusão a que chegamos é a de que Almond alterou um pouco sua visão
do fenômeno incluindo o lado macroeconômico e estrutural. A experiência histórica de vivência
dos indivíduos, num dado território, submetido a determinado regime político, passou a ser
considerada um dado relevante por Almond, em contraposição à ênfase psicológica e a
intrafamiliar dada anteriormente.

A ciência política norte-americana desenvolveu nas últimas décadas um conjuntod e pesquisas


sobre cultura política associando-as aos níveis ou graus de democracia. As propostas supunham
que a partir da seleção de algumas variáveis, como confiança no regime democrático, satisfação
com a vida, defesa na sociedade em que se vive etc., seria possível diagnosticar o nível de
estabilidade do regime democrático, numa associação clara e direta entre cultura política e
estrutura política. Muller e Seligson demonstraram que “a cultura não é a variável mais
importante para a estabilidade democrática. A desigualdade econômica seguida do pluralismo de
subculturas, exerce maior influência”

(apud Rennó, 1998: 79).


Página 53

Rennó (1998), citando Pye (1969), afirma que “a cultura política define o contexto no qual a
ação política se desenvolve e é produto das experiências particulares de cada cidadão com o
sistema político e da história coletiva desse sistema. A cultura política forma o pano de fundo das
expectativas dos cidadãos sobre a realidade política e enfatiza idéias acerca de qual é o melhor
sistema público disponível”.

Ainda na trilha do uso de conceito de cultura política de forma instrumental, como uma
ferramenta de aferição e de controle social, Rennó afirma que “a aplicação dos conceitos de
cultura política às questões de desenvolvimento político contribui para elucidar os distintos
padrões desse processo, além de indicar as causas da sua frustração”. O processo de
desenvolvimento político é visto como “o crescente respeito à população como um todo,
passando os cidadãos a serem vistos como sujeitos da ação e não como sujeitos à ação” (1998:
80-1).

A vertente que relaciona cultura política e desenvolvimento político trabalha com os seguintes
indicadores sociais: atitudes políticas envolvendo valores como confiança e desconfiança,
liberdade e coerção, igualdade e hierarquia, interesses universais e paroquiais. Segundo
Kavanagh (1980), existem quatro fontes de mudanças na cultura política, a saber: a própria
configuração da população de um país, as mudanças de uma geração para outra, as alterações no
estilo de vida das pessoas decorrentes das fases e situações diferentes que vivenciam, e as
mudanças culturais geradas por mudanças na estrutura política e econômica do país.

Página 54

Nos últimos dez naos a cultura polítca voltou a ser um conceito-chave em todas as áreas das
ciência sociais, e não apenas na ciência política. Uma das explicações pode ser dada pela
importância que a cultura passou a ter nas análises dos cientistas sociais, enquanto eixo
paradigmático fundamental nas explicações sobre as ações humanas vivenciadas na realidade,
em detrimento das análises econômicas e políticas das décadas anteriores. Os meios de
comunicação também passarama ter também papel central na sociedade e na política, obrigando
os analistas a recorrer ao estudo dos códigos lingüísticos e audiovisuais, aos processos interativos
via multimídia, para poder compreender as novas realidades virtuais etc. Novas abordagens sobre
a cultura política foram elaboradas, resultando numa teoria neoculturalista da política. As
referências e preferências nos comportamentos humanos não são apenas as herdadas, mas,
principalmente, as aprendidas. A educação ganha destaque, não tanto por seus aspectos na área
do ensino formal, mas pelos aspectos não-formais, do aprendizado gerado pela experiência
cotidiana. Os indivíduos escolhem, optam, posicionam-se, recusam-se, resistem ou alavancam e
impulsionam, as ações sociais em que estão envolvidos, segundo a cultura que herdaram do
passado e na qual estão envolvidos no presente.
Seguindo uma corrente totalmente distinta de Almond e da ciência política norte-americana,
Luis Morfin, por exemplo, definiu cultura política como: “o conjunto de significados e valores
com o que se constrói o sentido da comunidade política, da tomada de decisões para o bem de
todos, através dos conflitos inerentes à coexistência e convivência humana.

Página 55

Esta cultura abrange e se sustenta na cultura dos direitos humanos e políticos dos membros de
uma comunidade. Para que este conjunto de significados seja construído, há dois momentos:
primeiro constitui-se um credo, um conjuntos de certezas assumidas como válidas. Em segundo
lugar, para que este conjunto de significados e valores opere na tomada de decisões, requer-se
que a comunidade se aproprie deles, como um desígnio, com uma vontade política de ir a algum
lugar. Estes fatores seriam os impulsionadores das discussões e busca de soluções de um
determinado grupo”. (Morfin, 1994: 468). Observa-se que aqui a cultura política não é uma
determinação passiva que explique os comportamentos humanos, pelo desejo de busca de
soluções. A originalidade do autor mexicano está em aliar a questão da cultura política à
educação. Para ele, a educação é um processo que requer a intergração de conhecimentos com
habilidades, valores e atitudes. Concordando, acrecentamos: a apreensão do processo educativo
está associada ao desenvolvimento da cultura política. Juntas, educação e cultura política têm a
finalidade de ser instrumento e meio para se compreender a realidade e lutar para transformá-la.

Nos anos 90, a retomada dos estudos na área da psicologia social e o interesse sobre como
operam os mecanismos dos processos cognitivos dos indíviduos e como els influenciam as
atitudes e os comportamentos das pessoas têm levado a se elger a cultura política como o espaço
de fusão entre a tradição e a inovação. Disto resulta outras formas de apreensão da cultura
política — de ordem mais qualitativa — foram produzidas, gerando abordagens que privilegiam
nao as escalas de indivíduos, mas a identidade criada em um coletivo de atores sociais, a partir
do conjunto de valores e reoresentações simbólicas que eles têm sobre a realidade social.

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Nesta linha de interpretações, Ponte vê a cultura política como “um conjunto de códigos que
permite o estabelecimento de relações políticas entre indivíduos e grupos, e que portanto tem a
ver com a dimensão subjetiva da vida pública e com a interpretação e produção de sentido”

(1992: 165). A este respeito, deve-se ver também o trabalho de Jordan e Weedon (1996).

A importância do papel da cultura política passou a ser atribuída à possibilidade que esta
oferece para explicar a ação política dos indivíduos nos grupos sociais, o comportamento político
dos indivíduos enquanto seres políticos, no sentido aristotélico e não apenas em relação à
instituição política e/ou aos governantes, em especial no momento do voto. Com isto a ênfase
desloca-se das atitudes e opiniões dos indivíduos isolados como membros participantes de
grupos, de coletivos sociais com uma identidade: ser sem-terra, negro, mulher, defensor de
causas ambientalistas etc.

As redefinições do próprio conceito de cultura, nos moldes propostos por Chaui (1986),
propiciam à cultura política ser vista como um legado histórico, mas como prática viva e atuante.
A interação permanente entre valores antigos (que persistem por meio das tradições) e valores
novos (que são agregados no repertório das pessoas pelo fato de elas viverem no mundo
globalizado, competitivo em busca de contínuas inovações que produzem diferenciais entre os
indivíduos) faz com que a cultura polítca seja resultado de um processo que a constrói
cotidianamente, por meio de um jogo de reciprocidade.

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Os atores sociais possuem suas crenças e valores, mas reagem em face dos acontecimentos da
política segundo a interpretação que captam as das ações dos atores do mundo da política oficial,
governamental. Esta interpretação é usualmente mediada pelos meios de comunicação. De tal
forma que, para se entender a política de um grupo social, ou de seus atores em particular, termos
que decodificar o conjunto de significados — atribuídos ou construídos — no universo do
imagináriod as representações sociais daqueles grupos ou indivíduos.

5. O uso da teoria da cultura política no Brasil É interessante destacar que, apesar da postura
conservadora de Almond e Verba, sua influência metodológica e sua ênfase no uso do conceito
para deterctar o comportamento dos eleitores, nas análises contemporâneas na ciência política,
no Brasil, são consideráveis. A forma como eles construíram a teoria possui um charme tentador:
a relação entre a cultura e a estrutura política pressupõe a capacidade humana de intervir e/ou
controlar um regime político desde que se capte as orientações culturais dos indivíduos. Seu
referencial baseado em análises de sistemas políticos e atitudes dos indivíduos está presente nso
poucos estudos existentes sobre a cultura política no Brasil.

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Nos anos 80, o processo constituinte motivou alguns cientistas polítcosa pesquisar a cultura
política dos eleitores face a transição do regime militar para a democracia. Moisés utilizou a
abordagem ao analisar as atitudes do eleitorado brasileiro buscando captar suas orientações
políticas em relação à democracia. Ele concluiu que havia formado no Brasil uma nova cultura
polítca para constatar a adesão a valores democráticos. E como isso foi captado? A partir de
atitudes e orientações políticas dos indivíduos. Ele não utiliza plenamente o esquema de Almond,
procurando construir o perfil de “identidades polítcas” na nova cultura, mas continuou a tradição
de associar a cultura política a posicionamentos e comportamentos eleitorais. Segundo Bank
(1991), a noção da cultura política permanece indefinida em seu trabalho e ele descarta a tradição
como algo arcaico, em contraposição à nova cultura política. Sousa e Lamounier (1989)
tambémd esenvolveram uma pesquisa sobre as atitudes do eleitorado em relação à democracia
como parte de um conjunto de dilemas da vida política nacional.

Em relação à cultura política nos movimentos populares no Brasil, o leque de interpretações


existentes nas últimas duas décadas é grande, e geralmente, divergente. Entretanto, há alguns
pontos em comumque destacam a contribuição deles para formação deles para a formaçãod e
uma nova cultura polítca. Genericamente, tem-se afirmado qeu os movimetnos populares
questionam a cultura política tradicional no Brasil, de ordem não democrática e excludente,
baseada em valores tradicionais de uma sociedade patrimonislista.

Página 59

Os movimentos populares estariam colocando em crise as idéias que fundamentam noções como:
“subir fácil na vida”, “rouba mais faz”, “é dando que se recebe”, “a política é uma cordo de
cavalheiros”, “você nãos abe com quem está falando”, “quem é a autoridade aqui”, “aos amigos
tudo, aos inimigos nada” etc. ou seja, os movimentos populares estariam apontando para uma
modernidade política no sentido de se redefinir a noção de cidadania, em seu aspecto público-
privado. Mas este processo foi heterogêneo, contraditório, cheio de fluxos e refluxos e bastante
desigual.

Já explicitamos o nosso entendimento sobre cultura política em trabalhos anteriores (Gohn,


1992 e 1997 a), tomondo como referência os estudos de Thompspn e Bobbio. O primeiro
“elaboruo várias contribuições sobre a natureza, a força social e a construção da cultura política
enquanto processo político e cultural” (Gohn, 1997 a:259). O segundao, juntamente com
Matteucci e Pasquino, definiram cultura política como: “o cunjunto de atitudes, normas e crenças
mais ou menos partilhadas pelos membros de uma determinada unidade social” (1991:306). Os
autores destacam ainda que não devemos er a cultura política como algo homogêneo; ela é
composta por um conjunto de subculturas presentes nas atitudes, normas, valores etc.

Portanto, falar de cultura política é tratar do comportamento de indivíduos nas ações coletivas,
os conhecimentos que os indivíduos têm a respeito de si próprios e de seu contexto, os símbolos
e a linguagem utilizadas, bem como as principais correntes de pensamento existentes.

Página 60
Mas é muito complicado falarmos em cultura política de forma isolada do contexto histórico e de
outros conceitos de apoio. Isto porque cada época histórica engendra determinada cultura
política, segundo os valores e crenças que são resgatados ou construídos, num universo dos
temas e problemas com os quais homens e mulheres defrontam-se naquele momento histórico.
Os conceitos de apoio são o de cidadania, direitos humanos, identidade cultural, participação
sociopolítica etc. Em 1992

publicamos por esta mesma editora o livro Movimentos sociais e educação.

Na ocasião assinalamos as dificuldades presentes no universo da cultura política vigente e a


necessidade de sua redefinição. Sinalizamos que havia contradições entre as três fontes básicas
de inspiração da cultura política vigente, dadas por matrizes que destacacvam a participação, o
igualitarismo e a organização/direção do movimento (Gohn, 1992: 107).

Consideramos que aquelas análises e prognósticos se confirmaram históricamente.

Avritzer (1996) destaca que o desenvolvimento do processo democrático no Brasil dos anos
80 e 90 sempre estevwe marcado pela descrença da população em relação ao sistema político e
aos representantes políticos. supõem um processo mais longo, de transformação da cultura políca
e das relações Estado/sociedade.

Avritzer aponta a existência de duas culturas políticas que disputam espaços entre si: uma não
totlamente autoritária e outra não totalmente democrática. Elas configuram as práticas da
sociedade, enquanto sistema de referência.

Página 61

Mainwaring e Viola (1987) concebem a cultura política como “os valores políticos que
provêm a base tanto do discurso e das ideologias políticas como da prática política”. Esses
valores são formados históricamente e, portanto, possuem estruturas de ancoragem. A presença
deles no dia-a-dia das pessoas não diz respeito apenas a uma simples escolha individual ou gosto
por esta ou aquela posição ou ação. Segundo os autores, os valores dão origem a cinco tipos de
cultura política: autoritária de direita (misto de autoritarismo político e elitismo social),
autoritária de esquerda (combinação de igualitarismo social e autoritarismo político),
semidemocrática (postula a democracia representativa de forma não-instrumental), democracia
radical (combina a crença na democracia política com o igualitarismo social). Mainwaring e
Viola concluem que no Brasil a forma autoritária tem predomiado e demarcado as relações
sociais.

Coelho (1997) realizou uma pesquisa interessante com jovens universitários, em São Paulo,
buscando captar qual era a cultura política deles. O autor trabalhou com uma concepção de
cultura política próxima a de identidade cultural. Analisando o interesse doa jovens pela leitura
de jornais e o interesse pela matéria lida, ele demonstrou que mais de 50_} de sua amostra lia
algum tipo de jornal, que o assunto mais lido era sobre a cultura e o menos lido, ou o lido por
último, era sobre a política. Sua pesquisa demonstrou também que os jovens, em seu tempo livre,
preferem as práticas de sociabilidade tradicionais, como sair com amigos, conversar, ficar em
cas, ou ir a algum espetáculo ou evento, ou seja, eles preferem práticas de contato direto, sem a
mediação de outros agentes.

Página 62

Coelho conclui que a entrada dos jovens na cultura política parece ocorrer pela porta da cultura e
que não há, no momento, no Brasil, uma política cultural que caminhe no sentido da tendência
societária dos jovens. Agregamos às conclusões do autor outras: não há também uma política
cultural para os jovens no movimentos sociais populares.

A análise da cultura política também foi tratada por Renato Ortiz e Paulo Freire. O primeiro a
localizou em determinados espaços especializados, como os partidos, os sindicatos, as ONGs, os
movimentos sociais etc. Afirmou que é atribuído a esse espaço o papelm de formulação,
construção e realização da consciência política, assim como a formulação de projetos para
equacionar os problemas da sociedade, via determinadas estratégias políticas. Mas ele questiona
a exclusividade dada à política e indaga se não há outros espaços, compostos por instituições
como a família, a religião, a escola, a mídia etc., que participam da socialização dos indivíduos, e
também contribuem para a cultura política destes. Ortiz conclui que, nos tempos atuais, “a esfera
da política se tornou mais flexível, plural. Se, no passado, nela atuavam predominamente o
Estado e os partidos, hoje temos uma multiplicidade de movimentos sociais enquanto atores
sociais á…ú há toda uma cultura que escapa da esfera da política especializada, que não coincide
nem com a perspectiva tradicional nem com uma ‘nova cultura política’.

Página 63

Dito de outra forma, os partidos, os movimentos sociais, as ONGs atuam dentro de um contexto
que reflete a própria modernidade da sociedade brasileira. Essas organizações atuam no interior
desse jogo de forças. É

no interior desse jogo que surgem alguns valores mediáticos e que não se enquadram na cultura
política no sentido estrito do termo. Não se trata, portanto, de desvalorizar sua importância mas
de mostrar outro lado do problema” (1995: 69). Destacamos esta longa citação por
considerarmos que ela vai ao encontro das primissas básicas desta obra, ou seja, a possibilidade
de construção de nova cultura política em espaços de educação não-formal.

Paulo Freire afirmou que quando falamos em nova cultura política, estamos supondo que
exista uma velha. Isso obriga-nos a refletir sobre como se constitui o novo. Ela recorda que toda
novidade nasce no corpo de uma ex-novidade, que começou a envelhecer. E as novidades não
surgem por decreto, pois há uma intrligação entre as coisas que vão ficando velhas e as coisas
que vão nascendo. Freire destaca que “uma das preocupações daqueles que pretendem
transformar a sociedade é exatamente lutar pela novidade. á…ú Uma das formas de se engajar
nessa luta pela novidade é buscar diferentes formas de ajuizar a prática política. Quer dizer: fazer
exigências de natureza ética, para que seja possível uma nova cultura política” (1995: 71). Dentre
essas exigências, Freire cita a coerência entre o discurso e a prática, a tolerância e a humildade,
na vida cotidiana de todos. Cita também a importância de uma escola pública de todos. Cita
também a importância de uma escola pública para a construção da cidadania, uma das exigências
para uma nova cultura política.

Página 64

Conclui dizendo: “Não dá para dizer que a educação crie a cidadania de quem quer que seja. Mas
sem a educação é difícil construir a cidadania.

A cidadania se cria com uma presença ativa, crítica, decidida, de todos nós com relação à coisa
pública. Isso é dificílimo, mas é possível. A educação não é a chave para a transformação, mas é
indispensável. A educação sozinha não faz, mas sem ela também não é feita a cidadania”

(1995: 74).

Página 65

Ii — TERCEIRA VIA, TERCEIRO SETOR E ONGs: ESPAÇOS DE UM NOVO

ASSOCIATIVISMO
1. Definindo os termos
Partirei de formulações propostas por alguns autores para a seguir analisar a forma como os
conceitos acima têm sido apresentados na mídia e na literatura a respeito, a saber: em conjunto
com outras categorias de apoio, como terceira onda, terceira via, ONGs, voluntarismo etc.

Gostaríamos de destacar à primeira vista a ênfase no termo “terceira (o)”. Fala-se em terceira
onda, terceira via, terceiro setor, terceiro milênio, além do setor terciário, Terceiro Mundo,
terceira idade, terceiro escalão, terceira classe etc. Diferentemente da posição dos “terceiros” na
filosofia dialética, onde o terciro termo é a síntese, e resulta da interação entre os dois primeiros,
a tese e a antítese; a utilização do termo na modernidade aponta para caminhos alternativos, para
a busca de novos modelos que superem os problemas contidos na “Primeira” e na “Segunda”
proposição em tela.

Não incluiremos na definição deste texto o termo “terceiro milênio”, dada a polêmica
existente se estaríamos entretanto no segundo ou no terceiro milênio. Mas ele parece sintetizar o
grande enigma a ser decifrado na atualidade e talvez explique o porquê da busca por vias
alternativas, numa era dominada pela incerteza e pelo pessimismo em relação ao futuro.

Página 66

Para onde estamos indo? Como seremos no próximo século? Quais as principais tendências? Ou
seja, o terceiro milênio parece ser a justificativa para a busca de respostas, enquanto tendências e
perspectivas, no cenário que estamos analisando.

O termo “terceira onda” está na agenda dos chamados termos emergentes da modernidade e se
relaciona diretamente com o terceiro setor. Sabemos que foi cnhado no campo da prospecção e
desenhos de cenários futuros, por Alvin Toffer (5) ao se referir ao desenvolvimento de
tecnologias avançadas no campo da informação. A “primeira onda”

teria surgido há mais de dez mil anos , com a revolução agrícola, que transformou o homem
nômade e caçador em agricultor, fixado na terra; a “segunda” teria mais ou menos trezentos anos
e foi dada pela Revolução Industrial, originando a civilização urbana centrada nas fábricas.

Segundo Toffler, a “terceira onda” é um fenômeno real contemporâneo e se baseia na


substituição da força muscular pela força mental como fator de produção. Ela ultrapassa os
limites da economia e da tecnologia, provocando mudanças sociais profundas, bem como
mudanças culturais, morais, institucionais e políticas. Trata-se da sociedade informacional,
relacional, onde tudo passa pela organização de redes, predominando o conhecimento e a
informação como forma de dominação e de controle, ou seja, de poder.
Nota 5. Samuel Huntigton também utilizou o termo “terceira onda”

com um outro sentido, para denominar as revoluções políticas democráticas deste final de século.

Página 67

Em 1998, Toffler, em debate sobre “Como se muda um país através da Educação” promovido
pela Rede Globo no Parlatino, em São Paulo, voltou ao tema afirmando que a crise na educaçao
na sociedade informacional não pode ser resolvida dentro das salas de aulas, nos moldes como
estas se organizam e funcionam atualmente. As escolas teriam sido criadas em certo tempo
histórico para simular a vida real futura dos alunos em organizações do tipo fábricas, e hoje
seriam um sistema que adota um regime absoleto de ensino-aprendizagem. Segundo ele, muitas
coisas devem acontecer fora das salas de aulas e devem ser incluídas no planejamento do
processo de aprendizado dos alunos para que de fato as crianças sejam preparadas para o século
Xxi. Ele enumera cinco elementos, a saber: O

computador, que deveria estar ligado à redes com as famílias, pois não basta ter computadores
nas escolas; a mídia, em sua fase atual, que seria parte da terceira onda tecnológica, com seus
efeitos interativos, e não pode ser ignorada pelos educadores; a participação ativa dos pais nas
escolas, que não se resume a meras visitas por ocasião de festas, problemas com os filhos ou
raras reuniões formais; e a participação da comunidade, tomando-se o cuidado de aproveitar o
conhecimento que está diluído em seu interior. O quinto elemento é o professor, que deve ser
liberado da escola tipo fábrica, criada de acordo com o modelo da segunda onda na época da
Revolução Industrial e solicitado a participar de um redesenho do projeto educacional.

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O termo Terceira Via é a expressão política do momento. Embora tenha origem mais remota,
tem sido utilizado por movimentos políticos, desde a social-democracia clássica alemã nos anos
20 deste século, até por Mussolini nos anos 30. Mussolini falou de uma terceira via como um
caminho entre o bolchevismo e o laissez-faire. Nos anos 60, o termo foi retomado por aqueles
que se referiam a um socialismo de mercado, como o alemão Ota Sik, que escreveu a obra A
terceira via e em 1973

acrescentou-lhe novos elementos com outro livro, Argumentos para uma terceira via, cujo
subtítulo era “Nem comunismo soviético nem capitalismo”. Nos anos 70 a idéia reaparece no
Partido Comunista italiano, na figura de personagens como Peter Igrao, ao discutir crise do
socialismo. Enrico Berlinguer propôs um atalho entre a socio-democracia e o comunismo.
Segundo o semanário Carta Capital, “nos anos 70, Michel Rocard, um dos pilares da política
francesa, falou em deuxième gauche, a segunda esquerda. Há poucas semanas Felipe Gonzales, o
ex-premiê espanhol, declarou, em tom sardônico: Quando eu era menino, Franco era a ‘terceira
via’. O próprio Giddens admite que a ‘terceira via’ já era um debate na França em 1890.
Resumindo: em época de crise ou de incerteza, a solução é enveredar para um caminho
intermediário”

(Carta Capital, 30/9/98: 52-3).

Nos anos 90, a terceira via reaparece com grande força na Inglaterra e na Alemanha para
depois se difundir pelo mundo ocidental como uma nova alternativa ao capitalismo neoliberal da
era da globalização. Na Inglaterra, a proposta é de retomada tanto como nome de um partido
político que luta para obter a descentralização do poder, via reforma constitucional, num espectro
ideológico que une reformismo, nacinalosmo e ecologia;

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como na proposta do primeiro-ministro do Parlamento britânico, Tony Blair (1998), que com o
suporte de assessoria sociológoca de Anthony Giddens (1998), levou o termo para a mídia
criando uma moderna versão da socio-democracia trabalhista onde há um Estado que procura
humanizar o capitalismo, numa economia mista, globalizada, atuando em rede. Com estes
pressupostos ele busca novas alternativas às políticas neoliberais da era “Thatcheriana”. Na
Alemanha, o social-democrata Gerhard Schroeder, com o slogan “Um novo centro”, conseguiu
se eleger primeiro-ministro, retirando do poder, após dezesseis anos, o governo dos
conservadores, então liderado por Helmut Kohl.

A grande novidade sobre a terceira via nos anos 90 é que ela não se contrapõe ao capitalismo
e ao comunismo ou socialismo. Agoras ela contrapõe o laissez-faire econômico, denominedo
primeira via (portanto, o velho capitalismo liberal) à velha social-democracia e sua forte
dosagem estatal, denominada segunda via. Para Tony Blair, a terceira via é uma social-
democracia moderna, uma nova opção dentro do centro-esquerda, e sua vitalidade deriva da
união das duas grandes correntes de pensamento à esquerda e ao centro — o socialismo
democrático e o liberalismo. “Não é simplesmente um acordo entre a esquerda e a direita. Ela
busca pegar os valores essenciais do centro e do centro-esquerda e aplicá-los a um mundo de
mudanças sociais e econômicas fundamentais — e fazer isso livre de ideologias ultrapassadas.

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á…ú nossa abordagem não é a do laissez-faire nem da interferência estatal. O

papel do governo é promover a estabilidade macroeconômica; desenvolver políticas fiscais, e de


previdência que encoragem a independência, não a dependência; equipar as pessoas para o
trabalho, melhorando a educação e a infra-estrutura; e promover a empresa, especialmente as
indústrias do futuro, baseadas no conhecimento” (Blair, O Estado de São Paulo, 21/9/98:A2).

A terceira via dos anos 90 é, portanto, uma discussão nos marcos do sistema capitalista, nos
cenários desenhados por duas forças: de um lado, o livre mercado, com toda a sua
irracionalidade e busca desenfreada por lucros via a livre concorrência entre os agentes
econômicos privados; de outro, a atuação estatal via intervenção naquele mesmo mercado. A
“antiga esquerda”, termo utilizado para a via política dos países socialistas ou comunistas, é
denominada como “fundamentalista” e rejeitada como sinônimo de controle estatal, como um
fim em si mesmo, de um “Estado onipotente” (Blair, Folha de S.

Paulo, 20/9/98).

Segundo Clóvis Rossi (Folha de S. Paulo, 20/9/98), os pilares da discussão sobre a terceira via
nos anos 90 são a liberdade de mercado e a coesão social. Entretanto, a crise dos mercados
financeiros de 1997 e 1998 erodiu um dos fundamentos que levou à construção da terceira via.

Trata-se do “Consenso de Washington”, receituário de reformes econômicas utilizado para os


mercados emergentes. Este receituário nada mais é do que as políticas neoliberais que passaram a
ser aplicadas aos países tidos como emergentes, após reunião realizada entre as lideranças
capitalistas ocidentais em Washington.

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Privatizações em massa de empresas estatais, liberação dos mercados de bens de capital,


desregulamentação acentuada da economia e forte redução do papel do Estado são os
componentes essenciais daquelas políticas. Ainda segundo Rossi, “Ninguém é capaz de antever,
por ora, o desfecho que terá a crise global, mas, entre suas vítimas, talvez a mais notória seja o
chamado “Consenso de Washington”. A velocidade e voracidade do império do mercado gerou
desemprego em massa, aumento dos índices de violência e criminalidade social, piora das
condições de atendimento na área da saúde, retirada de direitos sociais dos trabalhadores na ativa
e dos aposentados, flexibilização da legislação laboral e decréscimo dos salários etc. Mas este
quadro só passou a ser considerado crítico pelos dirigentes políticos quando adveio a crise nas
bolsas de valores e grandes furtunas, de capitalistas de várias matizes, começaram a virar pó do
dia para a noite. Antes disto, os os protestos e as resistências às reformas neoliberais eram
consideradas pelos dirigentes como “vozes do passado, corporativistas, defensores de privilégios,
oposição cega e contrária à modernização necessária”. Com as perdas dos investidores
financeiros internacionais, o tema do desenvolvimento com justiçva social retoma à pauta das
políticas públicas, fazendo com que vários analistas prevejam, como a grande questão a ser
enfrentada pelos governos — tanto dos países desenvolvidos como em desenvolvimento — a
questão social, e não mais o crescimento econômico propriamente dito.
Página 72

O fantasma das revoluções sociais de séculos passados voltou ao cenário das previsões dos
pessimistas ou catastrofistas, como resultado da crise econômica, exclusão de contingentes da
população que estão fora do mercado de trabalho porque simplesmente não há emprego
suficiente, o mercado de trabalho eliminou, encolheu ou substituiu pela máquina milhares de
postos de serviço.

Eric Hobsbawm (1999) se pronunciou a respeito dizendo que a “terceira via é uma invenção
retórica. Estou mais próximo de uma terceira via que fique entre uma economia planificada e o
livre comércio” (Folha de S.

Paulo, 1/1/99:12). Alain Touraine, em entrevista para o mesmo jornal, também declarou:
“Quando eu falo de terceira via, falo de Tony Blair mais precisamente, que é uma solução de
centro-dirieta e não de esquerda. Significa aceitar o essencial da lógica liberal e juntar algumas
medidas sociais — a educação, no caso da Inglaterra. É normal, passando de um regime de
direita de Margareth Thatcher, chegar ao de centro-direita” (28/1/99).

Mas o que a terceira via tem a ver com o tema da educação não-formal, nosso item
principalneste livro? Muita coisa é nossa resposta. Isto porque um dos eixos principais dem ação
da terceira via é no setor da educação. Segundo o próprio Blair, “é necessário um governo ativo
na educação, capaz de abrir o acesso ao capital e aos mercados, que promova a competição nos
mercados de produtos e coordene o investimento em infra-estrutura”. Em outro trecho ele diz: “A
meta para a política é aproximar o governo do povo e reetruturar os serviços públicos que cercam
as pessoas, em lugar de esperar que as pessoas moldem suas vidas em torno da estrutura do
governo”.

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Ou seja, é dada grande ênfase na dinamização da educação, como mola-mestra de geração de


novas potencialidades e habilidades a serem adquiridas pelos indivíduos, por vivermos na tal
sociedade informacional/midiática da terceira onda. Mas a forma como aquela dinamização deve
ser feita é diferente da forma clássica que já conhecemos, via atuação pública predominante
estatal/governamental. A nova forma supõe novas regras de contrato social que envolvam
parcerias entre o público estatal com o chamado público não-estatal, ou seja com o terceiro setor.
Chegamos, assim, ao terceiro termo que completa nossa tríade.

O terceiro setor é uma expressão com significados múltiplos devido a sentidos históricos
diferenciados, em termos de realidades sociais.

Atualmente não se trata mais do terciário se contrapunha às atividades da agricultura e da


indústria, mas de uma nova ordem social, que se coloca ao lado do Estado — o primeiro setor
—, e do mercado — tido como o segundo setor. Rubem César Fernandes et alli (1997) afirma
que o termo ainda é utilizado em círculos restritos no Brasil, mas nos Estados Unidos e na
Europa já têm longa tradição. Entretanto, deve-se destacar que naquelespaíses ele se refere a
agentes sociais e formas de atuação muito diferenciadas. Assim, nos Estados Unidos ele é
associado ao termo “associações voluntárias” — fenômeno constitutivo da própria nação e
cultura americana —, assim como ao designativo “sem fins lucrativos” —

o que o insere a expressão terceiro setor no mundo dos negócios, no mercado, de uma forma
contrária. Grandes empresas e pequenos e médios empresários apóiam ou investem no setor
como forma de diminuir o pagamento de taxas e impostos.

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Fundações são criadas para gerir os recursos destinados a obras sociais, muitas delas dedicam-se
ao apoio à educação (inclusive atuando nas universidades, pois sendo a maioria das faculdades
pagas, há um leque enorme de sistemas de bolsas e apoios para os cidadãos de origem norte-
americana propriamente dita que advêm daquelas fundações). Outros criam as próprias
fundações para diversificar seus bens, a exemplo de Ted Turner, o ex-proprietário majoritário da
rede de televisão CNN, ou para gerir bens de espólios, como os de Jacqueline Kennidy Onassis.

Na Inglaterra, o terceiro setor vem da tradição das charities, a caridade, referindo-se à


memória religiosa ou o termo “filantropia”, noção um pouco mais moderna, que procuraria se
desvincular do conteúdo meramente assistencialista da caridade, introduzindo elementos
humanistas e abrindo espaço para articulação com a posição norte-americana, no que se refere ao
mercado, dando origem também à filantropia empresarial. O “mecenato”, apoio às artes
originário do período da Renascença, também de origem européia, é outro campod e atuação
incluído no terceiro setor.

Mas o terceiro setor adquire importância estratégica nos anos 90

graças a uma outra fonte de referência. Isto porque, após a Segunta Guerra Mundial, outra
expressão se incorporou ao campo do terceiro setor: as ONGs — Organizações Não-
Governamentais. Sabemos que a nomenclatura ONG, inicialmente, esteve associada à ONU e se
referia a um universo de entidades que não representavam governos, mas tinham presença
significativa em várias partes do mundo, como a OIT —

Organização Internacional do Trabalho,

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o Conselho Mundial das Igrejas, a Cruz Vermelha Internacional, e outras mais que passaram a
ser estruturas articuladas à própria ONU, como a UNESCO, suas missões de paz, a FAO etc.
Após as lutas pelos direitos civis americanos — as lutas dos negros, contra a guerra do Vietnã e
as campanhas pacifistas decorrentes, a emergência dos movimentos ecológicos e ambientalistas,
a luta das mulheres e de outras categorias pelos direitos sociais, políticos, culturais etc. — um
novo tipo de ONG se constrói, atuando no campo da cultura política, dos valores de uma
sociedade e seu campo de juridização. Surgem ONGs com trabalhos sem perfil caritativo ou
filantrópico. Muitas redescobrem os ideais dos socialistas utópicos, de Saint-Simon, Fourrier e
outros, e redefinem o mito e as utopias das comunidades autogestionadas. Outras irão propor
projetos de desenvolvimento auto-sustentado, dentro de uma economia capitalista onde as regras
do mercado teriam que ser redefinidas. Outras ainda investirão em grandes campanhas
educativas, em diferentes áreas, como a ecologia Greenpeace; ou de defesa dos direitos da pessoa
humana contra todas as formas de vilência, como a Anistia Internacional (vide ainda Levy,
1996).

Na América Latina, as ONGs tiveram outros processos de desenvolvimento e campos de


atuação. Filiais de agências de promoção de desenvolvimento aqui se instalaram desde os anos
50 objetivando atuar nas campanhas pela promoção do “mundo subdesenvolvido”, conforme os
termos da época.

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Em alguns países, como no Peru, as ONGs desenvolvimentistas foram combatidas pelos grupos
radicais da esquerda porque eram vistas como conservadoras ou representates de interesses
imperialistas etc. Mas em outros países, como no Chile e no Brasil, as ONGs encontraram um
outro campo de atuação dados pelos regimes políticos militares vigentes nos anos 70 e parte dos
80. Surgem ONGs de luta contra o regime político, em função da questão dos presos políticos,
torturas etc.; e ONGs para atuarem no campo da organização popular, de luta por direitos e
condições mínimas de sobrevivência cotidiana no que diz respeito a necessidades básicas. Estes
campos delinearam novos perfis às ONGs, que denomino de ONGs cidadãs e militantes. Este
cenário fez com essas entidades se aproximassem e movimentos e grupos da esquerda ou de
oposição ao regime militar.

No Brasil, nos anos 70-80, as ONGs cidadãs e militantes estiverem por detrás da maioria dos
movimentos sociais populares urbanos que delinearam um cenário de participação na sociedade
civil, trazendo para a cena pública novos personagens, contribuindo decisivamente para a queda
do regime militar e para a transição democrática no país. As ONGs contribuíram para a
reconstrução do conceito de “sociedade civil”, termo originário do liberalismo, que adquire
novos significados, menos centrado na questão do indivíduo e mais direcionado para os direitos
de grupos.

Nos anos 90, o cenário das ONGs cidadãs latino-americanas de saltera completamente. As
atenções das agências patrocinadoras de fundos de apoio financeiro e de pessoal para trabalho de
base, articuladas às Igrejas, voltaram-se para os processos de redemocratização do Leste europeu.

Página 77

Os movimentos e as ONGs latinas passaram a viver a mais grave crise econômica-financeira


desde que foram criadas. A mudança na forma de financiamento alterou a atuaçãod as ONGs. A
escassez de recursos das agências de cooperação internacional e a mudança interna em seus
critérios e diretrizes — de assessoria técnica para geradora de fundos financeiros — criou um
cenário que levou à necessidade de elas gerarem recursos próprios e lutarem pelo acesso aos
fundos públicos. Tiverm então que proceder reengenharias internas e externas para sobreviver. E

alteraram seus procedimentos. Passaram a buscar a auto-suficiência financeira. Tiveram que


encontrar/construir ou incrementar caminhos no setor de produção. A economia informal —
então florescente e estimulada pelo novo modelo da globalização — passou a ser uma das
principais saídas, pois a crise gerada pelo desemprego crescente transferiu para a economia
informal o grande peso de demandas antes localizadas no setor formal. Com isto, as atividades
de militância política, via pressões sociais, passaram para segundo lugar, e as atividades
produtivas ganharam centralidade no dia-a-dia das ONGs. Assim, o movimento dos seringueiros,
por exemplo, lutará não apenas por seus direitos ou contra a opressão dos grandes latifundiários,
dos donos das madeireiras etc.

Ele lutará basicamente para vender seus produtos em mercados mais competitivos. O mesmo
ocorre com o movimento dos índios: eles pressionarão pela demarcação das terras, mas também
querem vender castanhas, ervas etc. no mercado nacional e internacional, a preço justo e certo, e
não como mercadoria “alternativa”, a preços baixos.

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Outro resultado das mudanças da conjuntura sobre as ONGs foi a necessidade de qualificação
de seus quadros. A palavra de ordem passou a ser eficiência e produtividade na gestãod e
projetos sociais, para gerir recursos que garantam a sobrevivência das próprias entidades. Ter
pessoal qualificado com competência para elaborar projetos com gabarito passou a ser a diretriz
central, e não mais a militância ou o engajamento anterior à causa em ação. Os antigos militantes
foram procurar programas de especialização e pós-graduação. Algumas ONGs, como o Projeto
Axé, da Bahia, declarou formalmente que a militância anterior é um problema para a entidade, e
foi um equívoco, no início do trabalho deles, buscar profissionais com esta trajetória.

Junto com a crise das ONGs cidadãs militantes dos anos 80, emergiram nos anos 90, no
cenário nacional, outros tipos de entidades, próximas do modelo norte-americano non-profits,
articuladas às políticas sociais neoliberais, dentro do espírito da filantropia empresarial, atuando
em problemas cruciais da realidade nacional, como as crianças em situações de risco,
alfabetização de jovens e adultos etc. Essas entidades não se colocarão contra o Estado, como as
da fase anterior, originárias dos movimentos e mobilizações populares. Elas querem e buscam a
parceria com o Estado. As novas entidades autodenominam-se como terceiro setor, pois
procuram definir-se pelo que são e não pelo que não são. Segundo seus coordenadores, as ONGs,
como o próprio nome indica, se definiram por uma negatividade: ser não-governo.

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O terceiro setor procura se firmar na positividade, com ações propositivas e afirmativas. Ele
clama por uma forma de desenvolvimento sustentável (ao contráriod as ONGs dos anos 80, que
falavam do auto-sustentável). As novas entidades que estão se expandindo estruturam-se como
empresas, autodenominam-se cidadãs por se apresentarem sem fins lucrativos e atuarem em
áreas de problemas sociais, criam e desenvolvem frentes de trabalho em espaços públicos não-
estatais; algumas nasceram por iniciativas de empresários privados e se apresentam
juridicamente como ONGDS — Organizações Não-Governamentais de Desenvolvimento Social.
Este fato ampliou o universo da participação para campos pouco ou nada politizados e
desenvolveu inúmeras novas formas de associativismo ao nível do poder local.

Como exemplo de ONGDS, citamos o Projeto Axé, na Bahia, o Projeto Travessia, em São
Paulo, os Programas de Fundação Abrinq e do CEMPECE

— Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária, os projetos da rede


de lojas C e A, programas da Fundação Oldebrecht, o Projeto Viva Rio, os programas na área da
educação apoiados por redes bancárias, como Itaú, Bradesco etc. São ONGs que dão novo perfil
ao terceiro setor brasileiro, caracterizando o que tem sido denominado de “privado, porém
público”.

Um aspecto que deve ser destacado nas ONGs é o da sua relação com o Banco Mundial. As
primeiras experiências de relações das ONGs com o Banco Mundial ocorreram nos anos 70, na
operacionalização de projetos.

Página 80

Segundo Arruda (1996), a partir de 1981 o Banco inaugurou um deabate sobre políticas com as
ONGs, focalizando o tema “Educação e Desenvolvimento”, criando então um fórum. As próprias
ONGs organizaram em 1984 um grupo de trabalho sobre o Banco Mundial. A partir dos anos 90,
o Banco Mundial adotou uma postura de diálogo e privilegiamento de ações e parcerias com as
ONGs. A maioria dos empréstimos do Banco envolve parcerias com ONGs. Assim, enquanto
entre 1973 e 1988 apenas 6_} dos projetos financiados pelo banco envolviam ONGs, em 1993 o
percentual eleva-se para um terço dos financiamentos e, logo a seguir, em 1994, metado dos
projetos de financiamentos aprovados pelo Banco envolviam ONGs, de diferentes tipos de
objetivos.

Deve-se destacar que o crescimento das ONGs neste final de milênio é um fenômeno
mundial, e o terceiro setor já tem sido caracterizado como um novo setor da economia, o da
“economia social”. Peter Drucker (1994) constatou que o terceiro setor foi o que mais cresceu,
mais movimentou recursos e gerou empregos, e foi o mais lucrativo na economia norte-
americana nos últimos vinte anos. Diariamente são criadas fundações e associações para
promover o desenvolvimento econômico local, impedir a degradação ambiental, defender os
direitos civis e atuar em áreas onde o Estado é incipiente, emo em relação aos idosos, à mulher,
aos índios, aos negros etc., ou é de triste memória, como a das crianças nas ruas em situação de
risco em países como o Brasil.

Página 81

Salamond e Anheier assim se expressaram sobre a composição e o papel do terceiro setor:


“uma virtual revolução associativa está em curso no mundo, a qual faz emergir um expressivo
‘terceiro setor’ global, que é composto de organizações estruturadas, localizadas fora do aparato
formal do Estado, que não são destinadas a distribuir lucros auferidos com suas atividades entre
os seus diretores ou entre um conjunto de acionistas; são autogovernadas, envolvendo indivíduos
num significativo esforço voluntário” (1992: 15).

Deve-se destacar ainda que esta imensa rede de organizações privadas autônomas, localizadas
à margem do aparelho formal do Estado, sem fins lucrativos, mobilizadora de trabalho
voluntário, passou a ter uma relação íntima com as mudanças sociais e tecnológicas do final
deste século, em duas direções: além de atuar na área da economia informal e gerenciar milhares
de empregos, ela também começa a se fazer presente na economia formal, por meio de
cooperativas de produção que atuam em parceria com programas públicos e demandas
terceirizadas das próprias empresas.

As políticas de desativação de atividades do Estado e transferência para setores da iniciativa


privada encontraram em muitas ONGs interlocutores ávidos em implementar as novas
orientações. Rapidamente o universod as ONGs alterou seu discurso, passando a enfatizar as
políticas de parceria e cooperação com o Estado, destacando que estão em uma nova era, onde
não se trata mais de dar costas ao Estado ou apenas criticá-lo, mas de alargar o espaço público no
interior da sociedade civil, democratizar o acesso dos cidadãos em políticas públicas e contribuir
para a construção de uma nova realidade social, criando canais de inclusão dos excluídos do
processo de trabalho.

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As ONGs passaram a atuar não apenas na geração de empregos e oportunidades de trabalho
temporário, sem vínculo empregatício, sob a forma de cooperativas, onde a renda é gerada pela
quantidade produzida.

Passaram a atuar também no âmbito da requalificação dos trabalhadores, patrocinando cursos de


curta duração para desenvolver novas habilidades ou alternativas para aqueles que estão sendo
excluídos do mercado de trabalho por obsolência de suas funções ou introdução de novas
tecnologias, ou simplesmente, sendo demitidos devido a programas de redução de custos. Os
cursos desenvolvidos com recursos do FAT — Fundo de Apoio ao Trabalhador são um dos
exemplos.

Para finalizar esta longa exposição de definição de nossos termos, assinalamos que o
fenômeno das ONGs nos anos 90 reafirma o poder das teses e discussões acerca da importância
da sociedade civil atual (Wolfe, 1992; Arato E. Cohen, 1992). As ONGs estão mudando de nome
para simplesmente terceiro setor. Para uns trata-se apenas de mais uma forma de exploração da
força de trabalho, uma resposta das elites à organização e mobilização sindical e popular dos
anos 80, bem assim como parte das estratégias neoliberais para desobrigar o estado de atuar na
área social (vide Gentili, 1995). Para outros, o terceiro setor é algo realmente novo, pois o Estado
não consegue mais penetrar nas microesferas da sociedade. E ele só saberia atuar no nível macro,
e as políticas públicas necessitam de mediadores para serem efetivas. Quanto ao poder local, o
terceiro setor estaria contribuindo para o desenvolvimento de novas formas de associativismo.

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Na prática, o terceiro setor parece estar caminhando para uma articulação conjunta, em termos
de frentes de trabalho, entre movimentos sociais (também renovados, com perfil mais
propositivos e menos reivindicativos), asmodernas ONGs (“empresas-cidadãs” organizadas ao
redor de temas sociais e voltadas para o mercado com justiça social), determinadas associações
comunitárias, fundações sem fins lucrativos e algumas entidades tradicionais filantrópicas
(principalmente as que atuam na área da terceira idade). E em termos de política social, esta nova
frente está avançando a passos largos na formulação de uma legislação específica que normatize
as atividades do terceiro setor, em especial as relativas ao trabalho do setor do “voluntariado”,
sem vínculos empregatícios nem obrigações de natureza empregatícia ou previdenciária. É
interessante destacar que no discurso dos defensores deste tipo de trabalho, a independência em
relação ao sindicato é bastante destacada. Ou seja, o trabalho voluntário não possui, até o
momento, redes de articulações ou de pressões.

2. Novas políticas públicas e as mudanças no caráter do associativismo Consideramos a


participação dos atores sociais nas políticas sociais um elemento vivo e atuante nas sociedades
modernas. Sua presença é elemento crucial par a consolidação do processo democrático,
principalmente no que se refere às estruturas locais. Certamente as formas de manifestação e o
modo de mobilização das pessoas têm se transformado.

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Os movimentos sociais estão em baixa em termos de visibilidade da mobilização de massa. Mas


outras formas estarão operando na construção de uma sociedade mais igualitária e contra as
injustiças sociais, tais como as experiências de planejamento do orçamento participativo, e
alguns programas de parcerias entre organizações populares, ONGs e órgãos públicos em
programas na área do terceiro setor — público não estatal, em algumas cidades brasileiras (vide
Navarro, 1997). Nesses locais houve avanços em termos do equacionamento dos problemas
sociais, os movimentos entraram em novo ciclo de ação coletiva, fundadas não na simples
contestação-pressão, como nos anos 70, ou na pseudonegociação dos anos 80, mas em práticas
que envolve um agir coletivo. Algumas de suas lideranças são hoje ativos participantes das novas
práticas coletivas.

Com as novas práticas sociais, categorias esquecidas, isoladas e desconsideradas, como


crianças, jovens/adolescentes e idosos também passaram a ter direito a ter direitos. A
organização destes segmentos sociais por meio de movimentos e organizações sociais
possibilitou a criaçãod e uma pauta de reivindicações que se transformaram em leis e criaram
uma nova juridização par ao social. O Estatuto da Criança e do Adolescente, a Lei da Assistência
Social, os diferentes conselhos, colegiados e outras estruturas de mediação entre o Estado e a
sociedade civil, são exemplos vivos da conquista e da força da participação organizada.

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Deve-se destacar ainda a nova cultura política que vem sendo gerada em relação ao espaço
público e aos temas de interesse coletivo, como meio ambiente, saúde, lazer etc., ou temas de
interesse de coletivos específicos como os portadores de deficiência física, mental, do vírus da
AIDS etc.

Uma nova cultura política, de base local, passou a surgir a partir de experiências advindas de
base, tanto do ponto de vista espacial, onde o município ganha proeminência, como a partir da
pirâmide social, onde setores populares carentes e outros segmentos sociais empenhados na
construção de uma democracia radical fundada em valores éticos, de eqüidade e justiça social
organizaram-se em redes associativas. Estas redes constituíram-se como comunidades políticas e
passaram a ter direito a ter direitos. Com sentido distinto das comunidades sociais anteriores, as
novas comunidades políticas estão exigindo também novas categorias teóricas para dar conta
deste novo fenômeno associativo, que redefine o próprio conceito de comunidade e faz das redes
comunicacionais o seu modo e estilo de atuar. As novas comunidades poíticas unem o agir
societário, próprio da modernidade, ao agir comunitário, próprio das comunidades baseadas nas
relações diretas, face a face, onde a subjetividade tem grande importância no desenrolar das
relações sociais (vide Laville e outros, 1998).

As ONGs dos anos 80 eram politizadas e articuladas a partidos, sindicatos e alas da Igreja
progressista. O associativismo predominante nos anos 90 não deriva de processos de mobilização
de massa, mas de processos de mobilizações pontuais. Qual a grande diferença? No primeiro
caso, a mobilização se faz a partir de núcleos de militantes que se dedicam a uma causa segundo
as diretrizes de uma organização.

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No segundo, a mobilização se faz a partir do entendimento a um apelo feito por alguma entidade
plural, fundamentada em objetivos humanitários. Pode ser uma organização internacional
(Anistia, Greenpeace), nacional (Campanha contra a Fome) ou local. Mas em todos os casos é no
local que se desenvolvem as formas de mobilização e sociabilidade. Este tipo de associativismo
não demanda dos indivíduos obrigações e deveres permanentes para com uma organização. E a
mobilização se efetua independentemente de laços anteriores de pertencimento, o que não ocorre
com a militância do primeiro tipo.

O cenário da mobilização e organização da sociedade civil também mudou substancialmente


nos anos 90. Os movimentos que resistiram estão colocando ações mais defensivas do que
reivindicativas e adquirindo também outra natureza, atuando mais no plano da cultura, na busca
de valores identitários, no plano da moral, do que no plano econômico. A natureza do conflito
social presente nos movimentos sociais se alterou.

Os conflitos culturais se acirram devido ao modelo de desenvolvimento vigente que trata todos
de forma homogênea e ignora as diferenças culturais. Surgem movimentos culturais em torno de
questões de gênero, raça, etnia, que buscam mais a afirmação do que a negação ou a contestação.
A identidade deles não se constrói pela identificação com uma causa geral, mas com uma causa
específica, do grupo. Por ser mais fechados, centrados em si próprio, as grandes mobilizações
tornam-se escassas.

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Os temas das demandas situam-se no plano da ordem moral, com a liberdade, projetod e vida
pessoal, respeito aos direitos fundamentais etc. E, usualmente, não tratam de reivindicações
materiais ou políticas propriaemnte ditas. Não objetivam mudar o curso da História, nem
combatera exploração do trabalho, nem mudar o regime político ou combater os detentores do
capital. Els combatem a exclusão e a privação a que estão submetidos, combatem as elites
tradicionais e sua moral reacionária. Buscam afirmar suas diferenças, tratam a igualdade de
forma peculiar: igualdade de acesso, de uso, como equivalência, não como coisa homogênea,
única, igual propriamente dita.

Assim, nos anos 90 são estruturadas ações a partir de redes associativas compostas por atores
coletivos remanecentes de alguns movimentos sociais dos anos 80, ONGs de variados tipos,
entidades de classe que apóiam os setores populares, departamentos específicos das
universidades e de alguns órgãos públicos que desenvolvem trabalhos em parcerias com
entidades populares voltadas para a população, pequenas empresas organizadas sob forma de
cooperativas etc. Sem um entendimento dessas novas formas de representação popular é
impossível perceber as alterações em relação aos anos 80, até porque as formas antigas não
desapareceram; elas coexistem em várias localidades, como mobilização e protestos de massa
desordenadas ou, no pior dos casos, como práticas clientelistas e/ou corporativas.

Giddens (1987) assinala que política não pode ser vista apenas como algo distante, corrupto e
exclusivo das elites porque o Estado é o mais importante container do poder na era moderna.

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Ele diz também que os movimentos sociais estão obrigados a se interessar pela questão do
Estado. Isto supõe a existência de um “movimento político” na revolução dos movimentos e se
opõe à concepção de que eles contribuem única ou primordialmente para a democracia por
intermédio de suas ações na sociedade civil, isto é, colaborando paraa democratização das
relações na sociedade civil. Consideramos fundamental a participação dos movimentos sociais
nos espaços interinstitucionais. (5)

O eixo articulatório que passou a fundamentar a participação nos anos 90 é dado pelo
princípio da identidade e da solidariedade. E não se trata mais de uma identidade exclusiva de
classe, construída segundo a situação socioeconômica e de inserção de indivíduos e grupos no
processo produtivo, mas de uma identidade mais complexa, abrangendo cor, raça, sexo,
nacionalidade, idade, herança cultural, religião, culturas territoriais, características
sociobiológicas etc. Causas humanitárias também passaram a agregar as pessoas em entidades
como a Anistia Internacional, organizações pela paz, contra a fome, contra a violência em geral e
contra as crianças e as mulheres em particular etc.

Nota 5. Estamos trabalhando com a concepçãod e movimento social defendida por Castells
(1997: 3)., “como ações coletivas propositivas, as quais resultam, na vitória ou no fracasso, em
transformações nos valores e instituições da sociedade”. Também estamos de acordo com a
clarificação feita por Touraine (1998) sobre o próprio conceito de movimetno social no que se
refere a três formas de conflitos envolvidos: um localizado na esfera da organização social, outro
na da mudança social e o terceiro na esfera cultural.
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Inúmeras formas de sociabilidade existentes no interiro da sociedade civil, desenvolvidas


historicamente segundo valores e tradições culturais, e que não se organizaram como
movimentos sociais, emergiram na cena pública dos anos 90 como forças vivas e atuantes,
formando, com as novas redes associativas do terceiro setor (de composição sociopolítica de
caráter plural e pouco ideologizadas), um novo campod e força democrática na sociedade. O
cenário se amplia quando acrescentamos as formas de sociabilidade do mundo do lazer e do
sociocultural, compondo um universo de identidades coletivas muito amplo e diferenciado.
Pierre Rosanvallon (1995) retomou estas questões recentemente colocando que é necessário
refundar a solidariedade e redefinir os direitos porque estamos numa nora era política e social, na
qual os conflitos sociais não são apenas pela distribuição da renda, mas são, fundamentalmente,
conflitos de interpretação sobre o sentido da justiça. Isto confere um papel importante a todos os
processos de gestão social e política. Deve-se fazer um esforço para buscar um consenso entre o
justo e o injusto. Assim, a questão da cidadania ganha centralidade.

No Brasil, a construção da cidadania ocorre de forma inversa àquela que se dá nos países do
chamado Primeiro Mundo. Aqui, não basta a promulgaçãod e leis porque elas são insuficientes.
A cidadania surge então como resultado de um processo histórico de lutas no qual as leis são um
de seus momentos. A mudança gradual e lenta da cultura política é fator e resultado do exercício
da cidadania, sob a forma ativa, aquela que opera via a participação do cidadão, de forma que
interfere, interage e influencia na construção dos processos democráticos em curso nas arenas
públicas, segundo os princípios da eqüidade e da justiça, tendo como parâmetros o conhecimento
e a vontade expressa de universalização dos direitos.

Página 90

Destaca-se ainda os aspectos cognitivos do processo interativo que se estabelece entre os


participantes dos novos espaços públicos não-estatais, ao discutirem as propostas e idéias, ao
estabelecerem propriedades etc., num processo pedagógico de aprendizado via exercícioda
democracia (vide Chalmers, 1997).

Em resumo, lentamente tem sido construído no Brasil um novo tecido social onde desponta
uma nova cultura política ao lado das antigas formas de representação política integradoras,
assistenciais e/ou clientelistas, que, infelizmente, ainda são hegemônicas. Inaugura-se uma nova
era de fazer política na gerência dos negócios públicos, à medida que surgem, a partir de novas
formas de representação pública popular, exemplos da nova era da participação, agora ativa e
institucionalizada.

E tudo isso ocorre nos marcos de um cenário de profunda crise econômica, conforme a
caracterização feita na apresentação deste livro, onde se destacam as lutas e tensões entre velhos
e novos atores sociais, em busca de espaços na arena sociopolítica existentes.

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Iii — EDUCAÇÃO NÃO-FORMAL

1. Um novo objeto de estudo?

Até os anos 80, a educação não-formal foi um campo de menor importância no Brasil, tanto
nas polítcas públicas quanto entre os educadores. Todas as atenções sempre estiveram
concentradas na educação formal, desenvolvida nos aparelhos escolares institucionalizados. Em
alguns momentos, algumas luzes foram lançadas sobre a educação não-formal, mas ela era vista
como uma extensão da educação formal, desenvolvida em espaços exteriroes às unidades
escolares. Nos anos 70, por exemplo, Coonbs e Ahmed definiram-na como “uma atividade
educacional organizada e sistemática, levada a efeito fora do marco de referência do sistema
formal, visando propiciar tipos selecionados de aprendizagem a subgrupos particulares da
população, sejam estes adultos ou crianças”

(Coombs e Ahmed apud La Belle e Verhine, 1975: 170). Na maioria das vezes, entretanto,
tratavam-se de programas ou campanhas de alfabetização de adultos cujos objetivos trancediam a
mera aquisição da compreensão da leitura e da escrita e se inscreviam no universod a
participação sociopolítica das camadas populares, objetivando integrá-las no contexto urbano-
industrial.

Genericamente, a educação não-formal era vista como o conjunto de processos delineados


para alcançar a participação de indivíduos e de grupos em áreas denominadas extensção rural,
animação comunitária, treinamento vocacional ou técnico, educação básica, planejamento
familiar etc.

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Os conteúdos a serem adquiridos na aprendizagem via educação não-formal, propostos por


Coomb e Ahmed, incluíam: atitudes positivas em relação à cooperação na família, trabalho,
comunidade, colaboração para o crescimetno nacional, progresso etc.; alfabetização funcional; o
conhecimento de habilidades funcionais para o planejamento familiar, sustentação econômica e
participação cívica, além de uma visão científica par a compreensão elementar de determinada
área específica.

Podemos observar, nas colocações dos autores, uma abordagem conservadora, que objetivava em
última instância o controle social.

O grande destaque que a educação não-formal passou a ter nos anos 90

decorre das mudanças na economia, na sociedade e no mundo do trabalho.

Passou-se a valorizar os processos de aprendizagem em grupos e a dar-se grande importância aos


valores culturais que articulam as ações dos indivíduos. Passou-se ainda a falar de uma nova
cultura organizacional que, em geral, exige a aprendizagem de habilidades extra-escolares.

Mas não são apenas as mudanças na economia e os apelos da mídia que têm configurado um
novo campo para a educação não-formal. Agências e organismos internacionais, como a ONU e
a UNESCO, bem como alguns estudiosos, também têm contribuído. Assim, a conferência
realizada em 1990, na Tailândia, elaborou dois documentos denominados “Declaração mundial
sobre educação para todos” e “Plano de ação para satisfazer necessidades básicas da
aprendizagem” onde, à luz das condições particulares da América Latina e das experiências de
ONGs em programas de educação na região, um quadro de novas possibilidades de trabalho foi
delineado a área da educação.

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A partir da definição de necessidades básicas da aprendizagem, vistas como “ferramentas


essenciais para a aprendizagem” e de seus novos “conteúdos básicos”, abrangendo, além dos
conteúdos teóricos e práticos, valores e atitudes para viver e sobreviver, e a desenvolver a
capacidade humana, os documetnso da conferência ampliam o campo da educação para outras
dimensões além da escola. Um estudo sobre os documentso destaca: “(…) os textos de Jomtien
se afastam das interpretações habituais do ‘saber’, que separam o conhecimento da ação e esta do
valor. A Conferência adotou uma concepção de saber que se refere à aptid?ão das pessoas para
atuar efetivamente, ou seja, sua capacidade para realizar ações competentes. Nesta concepção, o
conhecimento adquirido é observado através da maior ou menor habilidade com que a pessoa age
na vida familiar, comunitária, social, econômica, política e cultural. A habilidade implica hábito’
e supõe a disponibilidade imediata e automática de executar o aprndido no cotidiano. Do mesmo
modo, a capacidade de ação competente tem uma conotaçãod e valor que também pode ser
observada: ‘sabe’ aquele que, com sua ação, contribui para a melhoria do mundo, entregando e
oferecendo aos que o rodeiam uma vida mais digna e um maior bem-estar. Nesta concepção de
‘saber’ aparece, então, profundamente entrelaçadas, as dimensões éticas, espirituais, sociais e
materiais da vida humana” (Unicef, 1992).
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Os documentos preosseguem preconizando a necessidade de mudanças, numa visão ampliada


da educação, inovando os canais existentes, fazendo-se alianças e utilizando-se recursos de
forma a universalizar o acesso à educação e fomentar a eqüidade. Preconiza-se o trabalho das
ONGs no âmbito educativo comunitário e intrafamiliar, na área da educação fundamenal junto a
comunidades indígenas e rurais, assim como programas de educação para o trabalho,
principalmente em entidades que promovem programas sobre tecnologias apropriadas,
autogestão, formas alternativas para a exploração correta dos recursos naturais do meio
ambiente, de modo a preservá-lo da devastação. Destaca-se a importância das ONGs como
agências que possuem know-how em metodologias, estratégias e programas de ação, tendo-se
constituído ao longo das últimas décadas como estimuladoras do trabalho voluntário e de
revalorização das culturas locais, de forma a resgatar o conhecimento existente entre as
comunidades atendidas e não ignorá-lo.

Vários pressupostos e recomendações da Conferência da ONU foram retomados nos anos 90


por pesquisadores que, a partir da análise da crise e do desemprego provocados pelas políticas
globalizantes, de caráter excludente, enfatizaram na nova ordem mundial a desmontagem do
sistema de proteções e de garantias que estavam vinculadas ao emprego, a desestabilização da
estrutura do mercado de trabalho e a volta à situação de precariedade do trabalhador em rellação
ao um sistema de direitos, os quais perdem status, segurança e às vezes a própria identidade, com
o fim do sistema salarial (Castel, 1998).

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Neste novo cenário, o modelo desenhado pela ONU para a área da educação passou a vigorar
com toda a força. Proclama-se o poder do conhecimento (como na terceira onda), e não mais da
economia. Ou seja, exige-se das pessoas novas habilidades, entre elas a de gestão. Não importa
mais possuir um grande acervo de conhecimentos, mas sim o domínio de certas habilidades
básicas, tais como comunicar-se (de preferência em mais de uma língua), domínio da linguagem
das máquinas e, sobretudo, habilidade de gestão (de gerir sua própria vida e carreira, equipes,
conflitos, etc.) ou seja, todos têm de planejar e administrar suas vidas e carreiras.

“Cobra-se” um perfil de trabalhador criativo, que saiba compreender processoe e cinorporar


novas idéias, tenha velocidade mental, saiba trabalhar em equipe, tome decisões, incorpore e
assuma responsabilidades, tenha auto-estima, sociabilidade e atue como cidadão. Alguns cursos
desenvolvidos por certos programas oficiais têm utilizado as elaboraçòes feitas sobre as novas
necessidades básicas do cidadão. Cremos que esses pressupostos são equivocados e distorcem a
realidade atual do mundo do trabalho, onde o maior problema é o desemprgo e a necessidade de
alterar as políticas públicas, de forma que se proirize a retomada do desenvolvimento e a
expansão do setor produtivo. O enfoque na problemática da aquisição de novas habilidades
desloca a questão social do desemprego no âmbito das políticas governamentais (do modelo de
economia adotado, conforme caracterizamos na introdução deste livro), para os indivíduos,
enquanto trabalhadores, caracterizando-os como mão-de-obra despreparada.

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A habilidade de gestão acaba sendo não o ensino de conhecimentos que capacite os indivíduos
a aprofudnar o conhecimento de sua profissão ou administrar suas vidas, mas o treinamento para
a aquisição de novas habilidades que possibilite ao indivíduo arumar outro emprego, usualmente
em outra área de sua qualificação, gerindo seu próprio negócio etc. Enquanto ele faz o curso,
recebe uma bolsa que, além de ajudá-lo financeiramente até se “habilitar” para a nova função, faz
com que não seja computado nas estatísticas do desemprego. Não é de se estranhar que, na
avaliação destes programas, tais indivíduos não consigam se recolocar no mercado de trabalho.
De fato, não foram preparados para tal, mas sim para entrar no mercado informal, em trabalhos
alternativos. Deve-se registrar ainda que são as verbas nacionais — do FAT — Fundo de Apoio
ao Trabalhador (que administram os recursos do FGTS, PIS/PASEP etc.) e as verbas
internacionais, principalmente do Banco Mundial, que subsidiam financeiramente tais
programas. Disso resulta que um grande volume de dinheiro edistribuído pelo governo para
instituições e sindicatos promoverem os cursos. Alguns sindicatos alteraram sua rotina e
passaram a se dedicar a organizar filas e inscrições de trabalhadores desempregados à espera de
uma vaga nos cursos. O governo federal exerce um controle sobre a distribuição das verbas
segundo seus interesses. Os cursos são, portanto, parte das políticas do modelo econômico
vigente, na nova sociedade globalizada, que priorizam os interesses do capital especulativo
internacional em detrimento do desenvolvimento nacional.

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Temos observado que o resultado prático da nova ordem mundial tem sido uma sociedade
cada vez mais competitiva, individualista e violenta. Os indivíduos estão cada vez mais isolados
e estressados. São pessoas desenraizadas, sem pertencimentos. Uma sociedade onde incluídos
competem em grupos seletos e muitos excluídos vagam e migram em diferentes áreas e espaços
porque são “sobrantes”, não há mais vagas ou lugar para eles no mercado de trabalho. Não são se
quer explorados porque não têm salários. Estão desterritorializados. São pertencentes às camadas
populares, são os novos párias, os “vagabundos pré-industriais” perdidos na modernidade.

Neste cenário, as demandas sobre a educação são múltiplas. De reciclagem, aperfeiçoamento,


atualização, especialização etc. E muitas delas não se situam na área da educação formal, na
escola regular. Elas emergem de múltiplos campos e situam-se mais na área de atuação das
ONGs, o novo terceiro setor. Deve-se acrescentar que demandas da escolaridade formal também
estão recaindo sobre o terceiro setor tendo em vista os índices de analfabetismo e a necessidade
da leitura para as operações mais elementares, tais como na área da construção civil, no setor do
comércio etc.

2. Definindo a educação não-formal

Desde a apresentaçãod este livro, estamos enfatizamos que trabalhamos com um conceito
amplo de educação a que cocnebemos de forma associada a outro conceito, o de cultura. Isto
significa que a educação é abordada enquatno forma de ensino/aprendizagem adquirida ao longo
da vida dos cidadãos;

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pela leitura, interpretação e assimilação dos fatos, eventos e acontecimentos que os indivíduos
fazem, de forma isolada ou em contato com grupos e organizações. A educação escolar, formal,
oficial, desenvolvida nas escolas, administradas por entidades públicas ou privadas, é abordada
como uma das formas da educação.

A cultura é concebida como modos, formas e processos de atuação dos homens na história,
onde ela se constrói. Está constantemente se modificando, mas, ao mesmo tempo, é
continuamente influenciada por valores que se sedimentam em tradições e são transmitidos de
uma geração para outra. A educação de um povo consiste no processod e absorção, reelaboração
e transformação da cultura existente, gerando a cultura política de uma nação.

A educação não-formal designa um processo com quatro campos ou dimensões, que


correspondem a suas áreas de abrangências. O primeiro envolve a aprendizagem política dos
direitos dos indivíduos enquanto cidadãos, isto é, o processo que geraa conscientização dos
indivíduos para a compreensão de seus interesses e do meio social e da natureza que o cerca, por
meio da participação em atividades grupais. Participar de um Conselho de escola poderá
desenvolver esta aprendizagem. O segundo, a capacitação dos indivíduos para o trabalho, por
meio da aprendizagem de habilidades e/ou desenvolvimento de potencialidades.

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O terceiro, a aprendizagem e exercício de práticas que capacitam os indivíduos a se organizarem


com objetivos comunitários, voltadas para a solução de problemas coletivos cotidianos. Não
gosto do termo educação comunitária para esta modalidade, devido à carga ideológica que o
conceito de comunidade comporta. Prefiro educação para a civilidade, uma arte que anda meio
esquecida neste final de milênio. O quarto, e não menos importante, é a aprendizagem dos
conteúdos da escolarização formal, escolar, em formas e espaços diferenciados. Aqui, o ato de
ensinar se realiza de forma mais espontânea, e as forças sociais organizadas, de uma comunidade
têm o poder de interferir na delimitação do conteúdo didático ministrado bem como estabelecer
as finalidades a que se destinam àquelas práticas. O quinto é a educação desenvolvida na e pela
mídia, em especial a eletrônica. Os educadores não têm dado muita atenção a esta modalidade.
Finalmente, deve-se registrar ainda o campo da educação para a vida ou para a arte do bem viver.
Em tempos de globalização, devemos traduzir isto em: como viver ou conviver com o stress. A
difusão dos cursos de autoconhecimento, das filosofias e técnicas orientais de relaxamento,
meditação, alongamentos etc. deixaram de ser vistas como esotéricas ou fugas da realidade.
Tornaram-se estratégias de resistência, caminhos de sabedoria. É também um grande campo da
educação não-formal.

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A educação transmitida pelos pais na família, no convício com amibos, clubes, teatros, leitura
de jornais, livros, revistas etc. são considerados temas da educação informal. O que diferencia a
educação não-formal da informal é que na primeira existe a intencionalidade de dados sujeitos
em criar ou buscar determinadas qualidades e/ou objetivos. A educação informal decorre de
processos espontâneos ou naturais, ainda que seja carregada de valores e representações, como é
o caso da educação familiar. Conforme Afonso (1992), a educação informal ocorre nos espaços
de possibilidades educativas no decurso da vida dos indivíduos, como a família, tendo, portanto,
caráter permanente. Mas o termo informal não abenge as possibilidades da educação não-formal
que estamos aqui destacando, ou seja, as ações e práticas coletivas organziadas em movimentos,
organizações e associações sociais. Alguns autores teimam em denominar o aprendizado de
conteúdos não-escolares, em espaços associativos, movimentos sociais, ONGs, etc. como sendo
educação informal. Achamos que essa terminologia e classificação é incorreta, pois trabalha-se
com um paradigma bipolar onde existe apenas dois tipos de aprendizagem: o escolar e o não-
escolar. Tudo o que ocorre fora dos muros das escolas é pensado como aprendizagem não escolar
e perde seu caráter de educação propriamente dita.

usualmente se define educação não-formal por uma ausência, em comparação ao que há na


escola (algo que seria não-intencional, não-planejado, não-estruturado), tomando como único
paradigma a educação formal.

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Concluímos que os dois únicos elementos diferenciadores que têm sido assinalados pelos
pesquisadores são relativos à organização e à estrutura do processo de aprendizado.
Os espaços onde se desenvolvem ou se exercitam as atividades da educação não-formal são
múltiplos, a saber: no bairro-associação, nas organizações que estruturam e coordenam os
movimentos socais, nas igrejas, nos sindicatos e nos partidos políticos, nas Organizações Não-
Governamentais, nos espaços culturais e nas próprias escolas, nos espaços interativos dessas com
a comunidade educativa etc. Entretanto, as categorias de espaço e tempo também têm novos
elementos na educação não-formal porque eventualmente o tempo da aprendizagem não é fixado
a priori e são respeitadas as diferenças existentes para a absorção e reelaboração dos conteúdos,
implícitos ou explícitos, no processo ensino-aprendizagem. Como existe a flexibilidade no
estabelecimento dos conteúdos, segundo os objetivos do grupo, a forma de operacionalizar esses
conteúdos também tem diferentes dimensões em termos de sua operacionalização. Assim, o
espaço também é algo criado e recriado segundo os modos de ação previstos nos objetivos
maiores que dão sentido ao fato de determinado grupo social estar se reunindo.

3. Campos e problemas da educação não-formal Para fins didáticos agrupremos os campos da


educação não-formal em dois tipos, segundo seus objetivos, a saber: o primeiro destinado a
alfabetizar ou transmitir conhecimentos que historicamente têm sido sistematizados pelos
homens e mulheres, planejados para as clientelas sujeitos das ações educativas, com uma
estrutura e uma organização distinta das organizações secolares, abrangendo a área que se
convencionou chanmar de educação popular (conforme uso corrente nos anos 70/80) e educação
de jovens e adultos (nos 90).

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O segundo, abrange a educação gerada no processo de participação social, em ações coletivas


não voltadas para o aprendizado de conteúdos da educação formal.

Em relação à primeira modalidade, destinada à aprendizagem da escrita e da leitura por


procedimentos e métodos não oficiais, existe a preocupação de se transmitir os mesmos
conteúdos da escola formal, de se repassar o acervo de conhecimentos historicamente
acumulados pela humanidade. Entretanto, esse repasse é desenvolvidos em espaços alternativos e
com metodologias e seqüências cronológicas diferenciadas, com conteúdos curriculares
flexíveis, adaptados segundo a realidade da clientela a ser atendida. Outra diferença fundamental
é dada pelos objetivos das ações.

Na educação não-formal a cidadania é o objetivo principal, e ela é pensada em termos


coletivos. Organizam-se processo de acesso à escrita e à leitura — por meio de métodos de
alfabetização — para coletivos específicos, a saber: grupos de trabalhadores, grupos de jovens,
adultos etc. Ou organizam-se processos de reciclagem ou formação, segundo determinadas
demandas sociais. Afonso (1992) elaborou um interessante quadro comparativo entre a educação
formal e a não formal, que transcrevemos na página a seguir.
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TIPOS DE APRENDIZAGEM

Escolas Tradicionais:

— Apresentam um caráter compulsório;

— Dão ênfase apenas à instrução;

— Favorecem o individualismo e a competição; — Visam a manutenção do status quo;

— Preocupam-se essencialmente com a reprodução cultural e social; — São hierárquicas e


fortemente formalizadas; — Dificultam a participação;

— Utilizam métodos centrados no professor-instrutor; — Subordinam-se a um poder


centralizado.

Associações democráticas para o desenvolvimento: — Apresentam um caráter voluntário;

— Promovem sobretudo a socialização;

— Promovem a solidariedade;

— Visam o desenvolvimento;

— Preocupam-se essencialmente com a mudança social; — São pouco formalizadas e pouco ou


incipientemente hierarquizadas; — Favorecem a participação;

— proporcionam a investigação-ação e projetos de desenvolvimento; — São por natureza formas


de participação descentralizada.

Um dos supostos básicos da educação não-formal é de que a aprendizagem se dá por meio da


prática social. É a experiência das pessoas em trabalhos coletivos que gera um aprendizado. A
produção de conhecimentos ocorre não pela absorção de conteúdos previamente sistematizado,
objetivando ser apreendidos, mas o conhecimento é gerado por meio da vivência de certas
situações-problema.

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As ações interativas entre os indivíduos são fundamentais para a aquisição de novos saberes, e
essas ações ocorrem fundamentalmente no plano da comunicação veral, oral, carregadas de todo
o conjunto de representações e tradições culturais que as expressões orais contém.

Habermas é um dos autores que mais se debruçou no estudo dos processos das ações
comunicativas entre os indivíduos e grupos sociais organizados.

Cumpre destacar nas duas modalidades acima que a educação não-formal tem sempre um
caráter coletivo, passa por um processo de ação grupal, é vivida como práxis concreta de um
grupo, ainda que o resultado do que se aprende seja absorvido individualmente. O processo
ocorre a partir de relações sociais, mediadas por agentes assessores, e é profundamente marcado
por elementos de intersubjetividade, à medida que os mediadores desempenham o papel de
comunicadores.

Quando falamos de comunidades educativas ou educacionais devemos incluir todos os atores


e agentes sociais envolvidos no processo. Assim, as relações da escola com a comunidade
educativa deve abranger não apenas os pais, os representantes dos alunos, professores e
funcionários. Deve abranger também os sindicatos da categoria, as entidades de moradores do
bairro onde a escola se localiza etc.

A maior importância da educação não-formal está na possibilidade de criação de novos


conhecimentos, ou seja, a criatividade humana passa pela educação não formal. O agir
comunicativo dos indivíduos, voltado para o entendimento dos fatos e fenômenso sociais
cotidianos, baseia-se em convicções práticas, muitas delas advindas da moral, elaboradas a partir
das experiências anteriores, segundo as tradições culturais e as condições histórico-sociais de
determinado tempo e lugar.

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O conjunto desses elementos fornece o amálgama para a geração de soluções novas, construídas
em face dos problemas que o dia-a-dia coloca nas ações dos homens e das mulheres.

Ao estudarmos a educação não-formal desenvolvida junto a grupos sociais organizados ou


movimentos sociais devemos atentar para as questões das metodologias e modos de
funcionamento, por serem um dos aspectos mais relevantess do processo de aprendizagem. Há
necessidades de estudos aprofundados sobre as metodologias de trabalho utilizadas na área da
educação não-formal. Deve-se pesquisar as escolas que interagem com a comunidade educativa
local; as ONGs e os movimentos sociais em seus processos de encaminhametnos de demandas e
lutas sociais, os projetos sociais alternativos de desenvolvimetno sustentável, os cursos e
treinamentos desenvolvidos para formação e/ou qualificação de lideranças das comunidades
locais; a relação entre os representantes de determinadas comunidades e os agentes do poder
público, na elaboração e implantação de políticas sociais de cunho participativo (como, por
exemplo, a experiência do Orçametno Participativo em Belo Horizonte e em Porto Alegre, nos
anos 90). Neste último caso, a educação não-formal se consubstancia em certos momentos
pedagógicos, e a novidade é que a aprendizagem coletiva se faz nos marcos de processos
institucionalizados pelo poder local, onde a parte estatal/governamental tem grande importância.
Tradições de experiências associativas são combinadas com programas públicos/governamentais
voltados para áreas sociais.

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Disto resulta espaços institucionais novos na arena públic aonde podemos observar uma
combinação de formas de exercício da democracia direta com formas de democracia
representativa, que geram novas estruturas coletivas. Na realidade, podemos denominar estas
estruturas de representação de coletivos, e não simplesmente “representações coletivas” de
determinados grupos organizados. Há um longo processo de aprendizado entre todos os atores
envolvidos, até a constituição do coletivo como uma representação institucionalizada. No caso
do orçamento participativo, este processo contém três etapas, onde há o envolvimento de setores
da administração local com movimentos, grupos e ONGs. O

exercício da aprendizagem gera a normalização de procedimentos, inscrevendo em leis próprias a


participação da população na discussão das prioridades de investimentos na esfera pública.

Os procedimentos metodológicos utilizados nos processos da educação não-formal estão


pouco codificados na palavra escrita e bastante organizados ao redor da fala. A voz ou as vozes,
que entoam ou ecoam de seus participantes são carregadas de emoções, pensamentos, desejos
etc.

São falas que estiveram caladas e passaram a se expressar por algum motivo impulsionador
(carência socioeconômica, direito individual ou coletivo usurpado ou negado, projeto de
mudança, demanda não atendida).

Ao se expressar, os atores/sujeitos dos processos de aprendizagem articulam o universo de


saberes disponíveis, passados e presente, no esforço de pensar/elaborar/reelaborar sobre a
realidade em que vivem.

Os códigos culturais são acionados, e afloram as emoções contidas na subjetividade de cada um.

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Sistematizar a metodologia contida nos processos de interação/aprendizagem dependerá de


nossa capacidade, enquanto educadores, de entender os sujeitos pensantes/falantes no interior
dos processos sociais em movimento, nas organizações etc. Para tanto, é muito importante que
saibamos escutar não apenas as falas, mas também os silêncios que acompanham ou
interrompem aquelas falas. Ou seja, devemos desenvolver capacidades e habilidades no campo
da lingüística e buscar captar os conteúdos motivacionais, ideológicos, bem como
emocionais/cognitivos. Mergulharmos no universo da cultura torna-se tarefa tão importante
como entendermos o contexto socioeconômico dos grupos em estudo.

O lugar da educação não-formal na “Escola da Liberdade e Criatividade”

Encerramos este livro, lançando algumas idéias sobre a escola que necessitamos construir
para o próximo milênio: a escola da liberdade e criatividade. Com ela buscamos uma articulação
entre a educação formal e a não-formal. Partiremos de uma proposta elaborada por Touraine
(1997), introduzindo-se algumas alterações. Ele propõe uma nova escola que substitua o modelo
clássico, que estaria desintegrado. Denomina-a “escola do sujeito”. Não devemos ver este sujeito
como atores individuais ou personagens específicos. Para Touraine, trata-se de um novo sujeito
histórico. Ele defende os direitos sociais e culturais que formam a base de suas demandas e
combina a identidade pessoal e a cultura.

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A nova escola deve reconhecer a existência de demandas individuais e coletivas, orientar-se


para a liberdade do sujeito pessoal, para a comunicação intercultural e para a gestão democrática
da sociedade e suas mudanças. Deve aumentar a capacidade dos indivíduos de ser sujeitos, de
compreender o outro em sua cultura. Para tanto, essa escola deve se estruturar a partir de alguns
princípios, como: unir motivações, objetivos estratégicos e memória cultural para participar do
mundo técnico e mercantil; atribuir importância central à diversidade (histórica e cultural), ao
reconhecimento do outro e a todas as formas de comunicação intercultural; ter a vontade de
corrigir a desigualdade das situações e das oportunidades. Touraine assinala que o modelo
clássico de escola partia de uma visão abstrata de igualdade e cidadania. O novo modelo parte da
existência das desigualdades, e atribui à escola um papel ativo de democratização ao levar em
conta as condições particulares de sua clientela de usuários. Estamos de acordo com essa última
colocação desde que a questão da cidadania não seja abandonada, seja redefinida em termos
concretos e não mais abstratos, e esteja no centro da redefinição do papel do sujeito.

Para nós importa reconstruir a escola, principalmente a pública, de forma que se rompa a
diferença entre a escola pública, ineficiente e excludente, para os pobres, e escola privada, para
os demais. Deve ser uma escola que una a formação para a cidadania, a transmissão competente
de conhecimentos básicos e prepare os indivíduos para o mundo da vida.
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A escola da liberdade e criatividade pressupõe alterações na forma e no conteúdo dos


currículos escolares, assim como no processo de formação de docentes, que não pode se resumir
à aquisição de conhecimentos em domínios exclusivamente acadêmicos, mas deve se adentrar no
mundo das comunicações. Parte-se do suposto que o rendimento escolar deve-se, sobretudo, à
qualidade das relações entre docentes e educandos. Ela requer ainda uma nova forma de gestão,
não centrada exclusivamente no corpo técnico-burocrático-administrativo, mas envolvendo o
conjunto dos setores. As soluções não devem ser impostas, mas negociadas publicamente. Isto
pressupõe um sistema de comunicação composto sob a forma de redes, com canais bastante
fluentes, com estruturas formais de representação (conselhos, colegiados etc.) em todos os níveis
e segmentos.

A Educação não deve ser apenas uma agência, uma socialização de conhecimentos, mas deve
contribuir para a formação de capacidades para atuar e pensar de forma criativa, inovadora, com
liberdade. A escola deve ser o centro da vida social, e não um serviço administrativo, “odiada”,
por muitos de seus alunos, que se sentem livres apenas quando estão fora dela.

Tal modelo exige uma escola social e culturalmente heterogênea e supõe a exclusão do
modelo de escola homogênea; definida por um forte elo de pertencimento, de sentimento de
“nós”. Pressupõe uma educação não mais voltada para a preparação genérica dos indivíduos para
a sociedade mais ampla, ou voltada exclusivamente para a inserção econômica no mundo do
trabalho — como preconizam os modelos neoliberais —,

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mas exige uma preparação voltada para recompor a personalidade dos indivíduos, para que se
convertam em seres capazes de encontrar e preservar a unidade de sua experiência por meio das
emoções da vida e da força das paixões que se exerce sobre ela. Ou seja, o mundo da
subjetividade humana entra em ação, no processo educacional, com força total, para entender a
complexidade do mundo da vida e do trabalho.

Os valores que fundamentam esta preparação devem ser de caráter universal, de civilidade
humana, de respeito ao outro, valores que aspirem a uma vida sem violência, ódios e
preconceitos raciais. Touraine adverte: “Transformações culturais tão profundas não podem
introduzir-se de uma vez mediante uma reforma e um texto de lei. Devem ser lançadas através de
iniciativas e inovações em princípio limitadas. E é possível que hoje, quando se multiplicam
fracassos e dificuldades, que elas sejam aceitas mais do que ontem” (1977: 291).

No caso da violência encontramos um exemplo de articulação entra a educação formal e a


não-formal via construção de uma nova cultura.
Sabemos que a violência é produzida pela desorganização econômica e social e está
internalizando-se em todos os espaços da sociabilidade existentes. O comportamento das pessoas
na casa, no trabalho, nas escolas, no trânsito, nos espaços públicos e privados contém altas doses
de violência verbal, explícitas, muitas delas como formas de pré-defesa à violência no dia-a-dia,
na insegurança e na incerteza sobre os rumos de sua vida e de seus familiares.

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Para os atos de violência e vandalismos nas escolas, a única solução aventada tem sido,
infelizmente, aumentar o policiamento, como se a “proteção” policial resolvesse o problema, que
tem raízes no modelo de desenvolvimento de um país, em sua cultura, mas é também uma
questão educativa. Certamente a solução não virá de simples cruzadas heróicas pela paz, mas há
necessidade de campanhas intensivas no campo da educação não-formal que retomem o eixo da
civilidade, contra a exploração das cenas de violência no cinema, na televisão, na imprensa, no
rádio, contra o sensacionalismo barato das “desgraças alheias”. A sociedade do espetáculo, nos
dizeres de Debord (1997), tem que reordenar seu eixo. Por isso acreditamos que a proposta da
escola da liberdade e criatividade é uma alternativa. Trata-se da busca de uma saída para a crise
na atual cultura escolar.

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