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etc, espaço, tempo e crítica

Revista Eletrônica de Ciências Humanas e Sociais


e outras coisas
ISSN 1981-3732
http: //www.uff.br/etc
1° de Junho de 2007, n° 1(3), vol. 1

Da região à rede e ao lugar:


a nova realidade e o novo olhar geográfico sobre o mundo *
**
Ruy Moreira
Geógrafo, Professor Associado I , Universidade Federal Fluminense,
Doutor em Geografia Humana pela Universidade de São Paulo,
Pesquisador do CNPq
Email: moreira.ruy4@gmail.com

Resumo
Neste início de século uma realidade nova relacionada aos conteúdos do mundo globalizado traz uma renovação
nas formas de organização geográfica da sociedade. Diante dessa nova realidade, conceitos velhos aparecem sob
forma nova e conceitos novos aparecem renovando conceitos velhos.
A rede global é a forma nova do espaço. E a fluidez – indicativa do efeito das reestruturações sobre as fronteiras
– a sua principal característica.
Uma mudança se pede assim na forma do olhar geográfico e do geógrafo. Mas em que consiste este olhar? E
como dar-lhe contemporaneidade? No sentido de esclarecer tais questões este texto examina diversos olhares
geográficos sobre o mundo e as formas geográficas de representação.
Palavras-Chave – Lugar, Região, Rede, Cartografia, Representação.

From region to network and place:


a new reality and the new geographic look towards the world
Abstract
In this beginning of century a new reality concerning the contents of the globalized world brings a renewal to
the forms of geographic organization of society. In front of this new reality, old concepts appear under new
form and new concepts appear renewing old concepts.
The global net is the new form of space. And fluidity – as an indicator of the restructuring effect on borders –
constitues its main characteristic.
Therefore a change is asked for concernimg the geographic and geographer look. But what is this this look?
How is it posible turn it contemporary? In order to clarify such questions this text examines many forms of
geographic looks on the world and on the geographic forms of representation.
Key- Words – Place, Region, Network, Cartography, Representation

*
Texto de palestra realizada no sistema FATEC/Paula Souza, da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, revisto e
ampliado pelo autor. Publicada originalmente na Revista Ciência Geográfica número 6, abril de 1997, AGB-Bauru.
**
Professor dos cursos de graduação e pós-graduação (mestrado e doutorado) em Geografia da Universidade Federal
Fluminense (UFF).

etc..., espaço, tempo e crítica. N° 1(3), VOL. 1, 1° de junho de 2007, ISSN 1981-3732 55
Recebido para Publicação em 10.05.2007.
Ruy Moreira

Neste início de século uma realidade destrói e prejudica o modo de vida com
nova, apoiada não mais nas formas que a humanidade se conhecia.
antigas de relações do homem com o Um ponto de inflexão é a década de
espaço e a natureza, mas nas que 1950 e um outro a década de 1970.
exprimem os conteúdos novos do mundo
globalizado, traz consigo uma enorme
A região:
renovação nas formas de organização
o olhar sobre um espaço lento
geográfica da sociedade. Diante dessa
nova realidade, conceitos velhos Quando os geógrafos dos anos 1950
aparecem sob forma nova e conceitos olhavam o mundo o que viam era a
novos aparecem renovando conceitos paisagem de uma história humana que
velhos. mal mudara de página no trânsito dos
A rede global é a forma nova do séculos XIX-XX. Viam a sombra das
espaço. E a fluidez – indicativa do efeito civilizações antigas, com suas paisagens
das reestruturações sobre as fronteiras – a relativamente paradas,
sua principal característica. compartimentadas e distanciadas.

Uma mudança se pede assim na forma Os meios de transporte e comunicação


do olhar geográfico e do geógrafo. Mas e o poder de intervenção técnica da
em que consiste este olhar? E como dar-lhe humanidade sobre os meios ambientes só
contemporaneidade? neste momento passavam a se alicerçar
na tecnologia da segunda revolução
industrial, interditada em seu
A realidade e as formas geográficas desenvolvimento no período de entre-
da sociedade na história guerras dos anos 1930-1940.
Até o advento da primeira Revolução Nada mais natural, pois, que intuíssem
Industrial, no século XVIII, o mundo era tais geógrafos a sensação da imobilidade
um conjunto de realidades espaciais as dos espaços e teorizassem sobre a
mais diversas, e as sociedades se paisagem como uma história de duração
distribuíam na infinita diversidade longa – tal qual viu Fernand Braudel
espacial dos gêneros de vida das (1989) –, eterna em suas localizações
civilizações. Desde então, a tecnologia imutáveis.
industrial passa a intervir na distribuição,
É isto o que explica ter a leitura
unificando em sua expansão área a área,
geográfica pautado-se por muito tempo
um após outro esses antigos espaços.
na categoria da região. Era o que os
Com o advento da segunda revolução geógrafos viam ainda em 1950.
industrial, que ocorre na virada dos
A região é então a forma matricial da
séculos XIX-XX, esta intervenção é levada
organização do espaço terrestre e cuja
à escala planetária, na forma da
característica básica é a demarcação
uniformização dos modos de vida e
territorial de limites rigorosamente
processamentos produtivos. Os espaços
precisos. O que os geógrafos viam na
são globalizados em menos de um século
paisagem era essa forma geral e de longa
sob um só modo de produção, que unifica
duração e passaram a concebê-la como
os mercados e os valores, suprime a
uma porção de espaço cuja unidade é
identidade cultural das antigas
dada por uma forma singular de síntese
civilizações e traz com a uniformidade
dos fenômenos físicos e humanos que a
técnica uma desarrumação sócio-
diferencia e demarca dos demais espaços
ambiental em escala inusitada. Ao
regionais na superfície terrestre
rearrumar os espaços sob um só modo
justamente por sua singularidade. Pouco
padrão, a uniformidade de organização
importava se o dito e o visto não
coincidissem exatamente.

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Da região à rede e ao lugar: a nova realidade e o novo olhar geográfico sobre o mundo

As coisas mudavam, mas o ritmo da diluir diante da arrumação do espaço


mudança era lento. De tal modo que se os mundial em rede.
geógrafos olhassem a paisagem de um
A organização em rede vai mudando a
lugar e voltassem a olhá-la décadas
forma e o conteúdo dos espaços. É
depois, provavelmente veriam a mesma
evidente que a teoria precisa acompanhar
paisagem. A distribuição dos cheios e
a mudança da realidade, ao preço de não
vazios, para usar uma expressão de Jean
mais dela dar conta. Uma vez que muda
Brunhes (1962), trocava-se com lentidão e
de conteúdo – já que ele é produto da
os limites territoriais das extensões
história, e a história, mudando, muda
permaneciam praticamente os mesmos
com ela tudo que produz –, o espaço
por longos tempos.
geográfico muda igualmente de forma. A
forma que nele tinha importância
A rede: o olhar sobre o espaço principal no passado, já não a tem do
móvel e integrado mesmo modo e grau na organização no
presente. Contudo, a tradição regional era
Nada estranho que por todo esse
tão forte que ainda por um tempo pensar-
tempo seja o recorte regional a tradição
se-á os espaços das sociedades em termos
do olhar geográfico: fazer geografia é
regionais. A teoria da região não declina
fazer a região, dizia-se. A organização
de importância, porém o papel matricial
espacial da sociedade é a sua organização
da região é cada vez menos de forma
regional e ler a sociedade é conhecer suas
chave da arrumação dos espaços reais.
regionalidades.
Com o desenvolvimento dos meios de
Uma mudança forte, entretanto, vinha
transferência (transporte, comunicações e
há tempos ocorrendo em surdina na
transmissão de energia), característica
arrumação dos velhos espaços fazia
essencial da organização espacial da
tempo. Desde o Renascimento, com a
sociedade moderna – uma sociedade
retomada da expansão mercantil e o
umbilicalmente ligada à evolução da
advento das grandes navegações e
técnica, à aceleração das interligações e
descobertas, uma mudança acontece na
movimentação das pessoas, objetos e
arrumação dos espaços das civilizações,
capitais sobre os territórios –, tem lugar a
recortando-as em países e estes em
mudança, associada à rapidez do
regiões. Esta mudança se acelera para
aumento da densidade e da escala da
ganhar forma definitiva com as
circulação. Esta é a origem da sociedade
revoluções industriais dos séculos XVIII,
em rede. Nos anos 1970 já não se pode
XIX e XX, mediante a reorganização dos
mais desconhecer a relação em rede, que
antigos espaços na divisão internacional
então surge, articula os diferentes lugares
de trabalho da produção e das trocas da
e age como a forma nova de organização
economia industrial. A ordem fabril que
geográfica das sociedades, montando a
assim se institui vai dando ao espaço um
arquitetura das conexões que dão suporte
modo novo de ser, regionalizado e
às relações avançadas da produção e do
unificado a partir da integração das
mercado. É quando junto à rede se
escalas de mercado. Desse modo, a
descobre a globalização.
imagem do mundo ganha a forma desde
então tornada tradicional das grandes A rede não é, portanto, um fenômeno
regiões. Primeiro das regiões novo. Recente é o status teórico que
homogêneas, depois das regiões adquire (DIAS, 1995). Imaginemos o
polarizadas. É a região adquirindo uma espaço no passado, quando cada
importância de capital significado na civilização constituía um território
ordem real da organização espacial das organizado a partir de um limite
sociedades modernas. Mas neste justo específico e da centralidade de uma
momento esta ordem espacial começa a se cidade principal. De cada cidade parte

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uma rede de circulação (transportes, superfície terrestre em regiões, e cuja


comunicações e energia) destinada a referência à época é a reterritorialização
orientar as trocas entre as civilizações dos cultivares.
umas com as outras, a cidade exercendo o
Transportados pelos navios, cultivares
papel de arrumadora, organizadora e
de diferentes lugares de origem se
centralizadora dos territórios. Temos aí
difundem e se misturam nos diferentes
uma rede organizando o espaço. Mas não
continentes, formando com o tempo uma
um espaço organizado em rede. Podemos
paisagem de culturas entrecruzadas na
dizer que a rede é um dado da realidade
qual as regiões antigas não se distinguem
empírica, mas conceitualmente não
mais umas das outras pelos cultivos do
estamos diante de um espaço organizado
trigo, do café, do arroz, do milho, da
em rede. Isto só vai acontecer
batata, formando-se regiões novas com
recentemente.
essas culturas agora mundializadas.
A trajetória da rede moderna se inicia
Cada cultivar é descolado do seu
no Renascimento, com o desenvolvimento
ambiente natural para ir localizar-se em
do transporte marítimo a grandes
outros contextos ambientais,
distâncias e o desenvolvimento articulado
acompanhando o desenvolvimento das
dos transportes terrestres internamente e
comunicações e das trocas. Então, sobre a
fluviais entre os continentes. O
antiga paisagem dos cultivares,
desenvolvimento da rede de transportes
fundadora e constitutiva dos complexos
estabelece uma conexão que evolui e se
alimentares de cada povo, cada paisagem
acelera do século XVI ao XVIII, quando
sendo arrumada ao redor de uma cultura
então advém a Revolução Industrial e
chave e à qual se juntam as demais
com ela a máquina a vapor, o trem e o
culturas do complexo – como a paisagem
navio moderno.
dos arrozais do oriente asiático, do trigo-
A cidade é a grande beneficiária desse centeio do ocidente europeu e do milho-
desenvolvimento dos meios de transporte batata dos altiplanos americanos –, tão
e comunicação trazidos pela revolução bem analisadas por Max Sorre (1961), vai-
industrial. A cidade vira o ponto de se montando uma paisagem nova,
referência de uma gama de conexões que regional.
recobre e vai deitar-se sobre o espaço
Essa mudança da arrumação, que
terrestre como um todo numa única rede.
ocorre no espaço em todo o mundo,
Pode-se até periodizar a história das
saindo de uma espacialidade baseada
cidades a partir da história da rede. O
num complexo agrícola para uma outra
século XIX é o tempo de hegemonia das
apoiada numa arrumação regional de
cidades portuárias como Londres,
cultivares, vindos da migração de plantas
Hamburgo, New York, Rio de Janeiro. O
e animais oriundos de outros cantos,
século XX é o tempo da cidade da rede
muda a cultura humana em cada povo,
multimodal, em que o aeroporto substitui
pois o resultado é uma radical troca de
o papel anterior do porto. Até que
hábitos e regimes alimentares, alterando
chegamos à cidade da rede virtual de
as relações ambientais, os gostos e os
hoje. E, assim, à sociedade em rede.
costumes desses povos.
A característica da sociedade em rede é
O eixo-reitor desse rearranjo é o
a mobilidade territorial. E o
desenvolvimento da divisão internacional
desenvolvimento da rede de circulação
do trabalho e das trocas, em função de
inicia-se num movimento de
cujos propósitos os pedaços do espaço
desterritorialização de homens, de
terrestre vão se regionalizando por
produtos e de objetos, que ocorre em
produto.
paralelo à evolução das cidades e das
redes, periodizando o processo da De modo que, sobre a malha regional
montagem e do desmonte do recorte da assim criada pode-se vislumbrar o início
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da atual globalização, marcado pela quantidade para adquirir um sentido


escalada dos cultivares, uma escalada mais significativo de qualidade. Cabe ao
cultural. E estabelece-se a partir daí, uma espaço agora o sentido da espessura: a
intencional confusão de termos, densidade de população, por exemplo,
embaralhando o conceito de culturas e pode ser baixa do ponto de vista da
cultivares, que explora o próprio fato da quantidade, mas alta do ponto de vista da
antiga imbricação das culturas humanas rede de relações sociais que encarna.
enquadrada na tradição da paisagem dos Assim os campos se despovoam de
cultivares. Agora, cultivar vira cultura população, ficando, porém, ao mesmo
regionalizada como veículo da tempo ainda mais densos de relação,
colonização. E o cultivar morre dentro da mercê do aumento das atividades, da
cultura, de modo a prevalecer a referência circulação e das trocas econômicas.
cultural do colonizador, não mais a
Com a organização em rede o espaço
cultura dos cultivares das civilizações.
fica simultaneamente mais fluído, uma
Um jogo ideológico que só nos dias de
vez que ao tornar livres a população e as
hoje vem à tona, com a emergência do
coisas para o movimento territorial, a
discurso da biodiversidade, interessado
relação em rede elimina as barreiras, abre
no resgate do conhecimento próprio da
para que as trocas sociais e econômicas se
cultura dos antigos cultivares, para o fim
desloquem de um para outro canto,
de implementar a cultura técnica da
amplificando ao infinito o que antes
engenharia genética.
fizera com os cultivares.
Com a propagação das técnicas de
É então que as cidades se convertem
transportes e comunicações próprias da
em nós de uma trama. Diante de um
segunda Revolução Industrial –
espaço transformado numa grande rede
encarnadas no caminhão, no automóvel,
de nodosidade, a cidade vira um ponto
no avião, no telégrafo, no telefone, na
fundamental da tarefa do espaço de
televisão, ao lado das técnicas de
integrar lugares cada vez mais articulados
transmissão de energia –, o movimento de
em rede.
regionalização da produção e das trocas
dessas culturas introduz a relação em Ao chegarmos aos dias de hoje, em
rede, dissolvendo as fronteiras das que a rede do computador é o dado
regiões formadas pelas migrações dos técnico constitutivo dos circuitos, o
cultivares, fechando um ciclo e espaço em rede por fim se evidencia.
inaugurando uma nova fase de Então, assim como sucede com a forma
organização mundial dos espaços. geral, cada atributo clássico da geografia
ganha um outro sentido. Em particular a
Até que o mundo é recriado na escala
distância. A distância perde seu sentido
globalizada, formada por uma rede de
físico, diante do novo conteúdo social do
conexões territoriais intensamente mais
espaço. Vira uma realidade para o trem,
fortes. O tecido espacial se torna ao
outra para o avião, outra ainda para o
mesmo tempo uno e diferenciado em
automóvel, sem falar do telefone, da
uma só escala planetária.
moeda digital e da comunicação pela
O fato é que o arranjo espacial sofre internet, uma rede para cada qual e o
uma profunda mutação de qualidade. O conjunto um complexo de redes.
sentido da rede mudou radicalmente. E
Desse modo, quem, como Paul Virílio
mudou de modo radical
(1996a e 1996b), diz que o tempo está
correspondentemente o conteúdo do
suprimindo o espaço, externa uma ilusão
conceito. O conteúdo social da rede torna-
conceitual, de vez que é o tempo que cada
se mais explícito. E as relações entre os
vez mais se converte em espaço, o espaço
espaços se adensam numa tal
do tecido social complexo – um complexo
intensidade, que densidade deixa de ser
de complexos, diria Max Sorre (1961)–
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seguidamente mais espesso e denso. E única unidade de espaço. É a


quem, como David Harvey (1992), afirma horizontalidade. A nodosidade é o plano
uma tese de compressão do espaço- que integra as relações externas com as
tempo, sem considerar, como Edward relações internas da contigüidade. É a
Soja (1993), o ardil com que na verticalidade. Cada ponto local da
modernidade, desde o Renascimento, a superfície terrestre será o resultado desse
razão subsumira o espaço no tempo físico encontro entrecruzado de horizontalidade
– daí o espaço virar distância –, incorre e de verticalidade. E é isso o lugar. O
num equívoco igualmente. Por isso a pressuposto é a rede global. Vê-se que a
contigüidade, condição sine qua non da horizontalidade tem a ver com a antiga
região, que sem ela não se constitui, perde noção de contigüidade. Seu vínculo
o significado de antes. O fato é que a interno é a produção. A fábrica, as áreas
intensidade e a globalidade das de mineração e as áreas de agricultura,
interligações ainda mais aumentam, a que a ela se articulam como fornecedoras
mobilidade territorial mais se agiliza, a de matérias-primas e insumos
distância entre os lugares e coisas mais se alimentícios, são, todas elas, pontos
encurta, a espessura do tecido espacial espaciais de interligação local promovida
mais se adensa e o espaço se comprime pelo ato do interesse solidário da
no planeta. Então, espécie de São Tomé horizontalidade. Cada atividade é parte
das ciências, o geógrafo declara extinta a de um todo orgânico local do ponto de
teoria do espaço organizado em regiões vista da horizontalidade. E nessa
singulares e de compartimentos fechados condição entra como especificidade no
e proclama realidade o espaço em rede. todo orgânico do lugar. Já a verticalidade
é a combinação dos diferentes nós postos
acima e além da horizontalidade. Seu
O lugar: o novo olhar sobre o veículo é a circulação, circulação de
espaço de síntese produtos, mas, sobretudo, de
informações. E sua forma material é a
“Ocupar um lugar no espaço” tornou-
trama da rede dos transportes, das
se, assim, o termo forte na nova
comunicações e meios de transmissão de
espacialidade. Expressão que indica a
energia, hoje a infovia, que leva aos
principalidade, que na estrutura do
diferentes planos horizontais as coisas
espaço vai significar estar em rede. Fruto
que lhe vêm de fora. Daí que cada lugar
da rede, o lugar é o ponto de referência
nasce diferente do outro, dando ao todo
da inclusão-exclusão dos entes na trama
da globalização um cunho nitidamente
da nodosidade.
fragmentário, já que “o lugar são todos os
Mas o que é o lugar? Podemos lugares”. Condição que leva Milton
compreendê-lo por dupla forma de Santos (1996) a dizer que é o lugar que
entendimento. O lugar como o ponto da existe, e não o mundo, de vez que as
rede formada pela conjugação da coisas e as relações do mundo se
horizontalidade e da verticalidade, do organizam no lugar, mundializando o
conceito de Milton Santos (1996), e o lugar e não o mundo. É o lugar então o
lugar como espaço vivido e clarificado real agente sedimentador do processo da
pela relação de pertencimento, do inclusão e da exclusão. Tudo dependendo
conceito de Yi-Fu Tuan (1983). de como se estabelecem as correlações de
Para Milton Santos (1996), o lugar, que forças de seus componentes sociais
a rede organiza em sua ação arrumadora dentro da conexão em rede. Isto porque
do território, é um agregado de relações natureza e poder da força vêm dessa
ao mesmo tempo internas e externas. característica de ser a um só tempo
Atuam aqui a contigüidade e a horizontalidade e verticalidade. Por parte
nodosidade. A contigüidade é o plano da horizontalidade, porque tudo depende
que integra as relações internas numa da capacidade de aglutinação dos

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Da região à rede e ao lugar: a nova realidade e o novo olhar geográfico sobre o mundo

elementos contíguos. Por parte da conteúdo pela rede global da nodosidade


verticalidade, da capacidade desses e ao mesmo tempo pela necessidade do
elementos aglutinantes se inserirem no homem de (re)fazer o sentido do espaço,
fluxo vital das informações, que são o ressignificando-o como relação de
alimento e a razão mesma da rede (é ambiência e de pertencimento. Dito de
neste momento que a contigüidade pode outro modo, é o lugar que dá o tom da
servir ou desservir como base do poder diferenciação do espaço do homem – não
ao lugar). do capital – em nosso tempo.
Para Yi-Fu Tuan (1983), lugar é o Com o lugar, a contigüidade e a
sentido do pertencimento, a identidade coabitação, categorias características do
biográfica do homem com os elementos espaço em região, assim se renovam. Ao
do seu espaço vivido. No lugar, cada mesmo tempo o lugar se reforça com a
objeto ou coisa tem uma história que se permanência da contigüidade como nexo
confunde com a história dos seus interno do homem com o seu espaço.
habitantes, assim compreendidos Categoria da horizontalidade, a
justamente por não terem com a contigüidade permanece, costurando
ambiência uma relação de estrangeiros. E, agora a centralidade do lugar como
reversamente, cada momento da história matriz organizadora do espaço, porque é
de vida do homem está contada e datada coabitação e ambiência. Recria-se. Ontem,
na trajetória ocorrida de cada coisa e a contigüidade integrava numa mesma
objeto, homens e objetos se identificando regionalidade pessoas diferentes, mas
reciprocamente. A globalização não coabitantes do mesmo espaço. Hoje, ela é
extingue, antes impõe, que se refaça o a condição da acessibilidade dos mesmos
sentido do pertencimento em face da coabitantes a este dado integrador-
nova forma que cria de espaço vivido. excluidor do mundo globalizado que é a
Cada vez mais os objetos e coisas da informação informatizada, mesmo que
ambiência deixam de ter com o homem a não habitem a mesma unidade de espaço.
relação antiga do pertencimento, os Importa que coabitem a rede.
objetos renovando-se a cada momento e
vindo de uma trajetória, que é para o
homem completamente desconhecida, a O novo caráter da política
história dos homens e das coisas que Mudam, assim, a natureza e o modo
formam o novo espaço vivido não de fazer política. Estar em rede tornou-se
contando uma mesma história, forçando o o primeiro mandamento. Porque fazer
homem a reconstruir a cada instante uma política passou a significar construir um
nova ambiência que restabeleça o sentido grande arco de alianças para se organizar
de pertencimento. em rede. Diz-se ocupar um lugar no
Podemos, todavia, entender que os espaço.
conceitos de Santos (1996) e Tuan (1983) A corrida para incluir um lugar na
não são dois conceitos distintos e rede, a um só tempo, aproxima e afasta os
excludentes de lugar. Lugar como relação homens hoje. Acirra as disputas pelo
nodal e lugar como relação de domínio dos lugares e entre os lugares.
pertencimento podem ser vistos como Daí a valorização contemporânea do
dois ângulos distintos de olhar sobre o território. Lugares ou segmentos de
mesmo espaço do homem no tempo do classes inteiros podem ser incluídos, ou,
mundo globalizado. Tanto o sentido ao contrário, excluídos, dos arranjos
nodal quanto o sentido da vivência estão espaciais, a depender de como os
aí presentes, mas distintos justamente interesses se aliem e organizem o acesso
pela diferença do sentido. Sentido de ver do lugar às informações da rede. E, deste
que, seja como for, o lugar é hoje uma modo, um caráter novo aparece na luta
realidade determinada em sua forma e
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política, e em decorrência do que é o novo A região continua a existir, porém não


caráter do espaço, exigindo que se mais na forma e com o papel de antes.
reinvente as formas de ação. Aspecto da contigüidade da rede, a região
é hoje o plano da horizontalidade de cada
Até porque a rede é o auge do caráter
lugar. Para entrarem em rede de modo
desigual-combinado do espaço. Estar em
organizado, os países lugarizam-se
rede tornou-se para as grandes empresas
mediante a organização regional. Só
o mesmo que dizer estar em lugar
depois saem em vôo livre pela
proeminente na trama da rede. Para ela
verticalidade da rede. De modo que a
não basta estar inserida. O mandamento é
região virou o lugar da articulação entre
dominar o lugar, dominá-lo para dominar
os países, visando o concerto de
a rede. E vice-versa. Antes de mais, é
estratégias globais num mercado
preciso se estar inserido num lugar, para
globalizado. Daí parecerem usar de
se estar inserido na geopolítica da rede.
formas passadas para entrar no mundo
Uma vez localizado na rede, pode-se daí
unificado em rede, seja para segurar o
puxar a informação, disputar-se
tranco da competição dos grandes (UE),
primazias e então jogar-se o jogo do
reduzir margens de exclusão herdadas do
poder. Entretanto, para que os interesses
passado recente (Mercosul) ou evitar
de hegemonia se concretizem, é preciso
ônus de quem, desde o começo, já nasceu
conjugar o segundo mandamento: é o
globalizado (Nafta).
controle da verticalidade que dá o
controle da rede. Modos de estratégia e não modos
geográficos de ser, eis em suma o que
A informação se torna a matéria prima
hoje é a região como categoria de
essencial do espaço-rede. Indústrias que
organização das relações de espaço.
possam às vezes ter dificuldade de obter
Veículo de ação de contemporaneidade e
matéria prima, obtêm-na facilmente, uma
não modo estrutural de definir-se, como
vez se vejam inseridas no circuito
eram nas realidades espaciais passadas, o
exclusivo da informação. Mais que se
passado recente da divisão internacional
inserir, acessar é a regra. E, assim, de
industrial do trabalho. De qualquer
poder encontrar-se em vantagem na
modo, a região é um dado de uma
dianteira dos competidores. Acessa
estratégia de ação conjunta por
informações quem está verticalizado. O
hegemonias a partir do plano da
fato é que a instantaneidade do tempo
horizontalidade. Logística de integração
virou espaço, neste mundo organizado
da confraria dos incluídos da
em rede. E o vital é ser contemporâneo
verticalidade, às vezes visando a exclusão
instantâneo e do instante. Quem só está
do oponente, por enxugamento (de
horizontalizado pode ficar excluído do
custos, de preços, de postos de trabalho)
circuito, e, então, dos benefícios da
ou marginalização (de poder de
informação. Assim se define o novo
interferência, de comunicar-se em público
poder da sobrevivência.
etc), a região reciclou-se diante do novo
E assim se pode explicar a reunião de modo de fazer política do espaço em rede.
países em blocos regionais, no momento
mesmo que a história se despede da
região como modo de arrumação. Quanto O que são o espaço e seus
mais olhamos para o mapa elementos estruturantes
contemporâneo, o que mais vemos, numa
aparente contradição com um mundo Tornou-se vital para a geografia,
globalizado em rede, é a multiplicação de diante dessa nova realidade, clarificar o
blocos regionais, como a UE (União conceito e o papel teórico do espaço
Européia), o Mercosul (União dos países geográfico. Vejamos uma forma de
do Cone Sul da América do Sul), o Nafta entendimento.
(União dos países da América do Norte).
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Da região à rede e ao lugar: a nova realidade e o novo olhar geográfico sobre o mundo

Espaço: a coabitação extensão a diversidade vira a unidade na


forma do espaço. O espaço é, então, a
Olhando o mundo, vê-se que é resposta da geografia à pergunta da
formado pela diversidade. Povoa-o a unidade da diversidade. De modo que, a
pluralidade: vemos as árvores, os coabitação, que une a diversidade diante
animais, as nuvens, as rochas, os homens. de nossos olhos, é a origem e a
A diversidade do mundo é o que chama qualificação do espaço. A coabitação faz o
nossa atenção de imediato. espaço e o espaço faz a coabitação, em
À medida, entretanto, que resumo.
experimentamos esta pluralidade no seu
convívio mais íntimo, vem-nos a noção de A ontologia do espaço: o fio tenso
que junto com a diversidade há a entre a diferença e a diferença
unidade. Uma interligação invisível entre
as diferentes coisas faz que a diversidade A noção da unidade espacial é
acabe contraditoriamente se fundindo na complexa, de vez que é uma unidade de
unidade única de um só todo. contrários: o espaço reúne a síntese
contraditória da coabitação – primeiro da
A grande pergunta a se fazer é o que localização e da distribuição, a seguir da
leva tudo a ser diferente e ao mesmo diversidade e da unidade, e por fim da
tempo uma só unidade na realidade que identidade e da diferença – e se define
nos cerca. A resposta em geografia como a coabitação dos contrários. O
relaciona-se com o ponto de referência do conflito, eis o ser do espaço.
olhar, segundo o qual o homem observa e
se localiza dentro desse mundo, e a partir Esclareçamos este ponto.
daí o vê e unifica (NOVAES, 1988; BUCK- O espaço surge da extensão da
MORSS, 2002). E o ponto de referência do distribuição dos pontos da localização.
olhar identifica o mundo como uma Assim, como múltiplo e uno. E o que vai
grande coabitação. Uma relação de determinar o primado – se o múltiplo ou
coabitação com animais, vegetais, nuvens, o uno – na dialética da extensão é a
chuvas e o próprio homem, para o qual direção do foco do olhar (ARNHEIM,
tudo se relaciona num viver com entre si 1991).
e em relação a ele. Assim, o homem não
se vê como uma figura isolada e inerte Se o olhar fixa o foco na localização,
dentro dessa diversidade, porque é co- um ponto impõe-se aos demais, e a
partícipe. A coabitação cria o mundo localização arruma o plano da
como o espaço do homem. distribuição por referência nesse ponto.
Se o olhar abrange a diversidade da
distribuição, a distribuição arruma por
O olhar espacial: a localização, a igual o plano das localizações. O olhar
distribuição e a extensão focado na localização dimensiona a
Por força da diversidade, o homem centralidade. O olhar focado na
que a observa a vê, em primeiro lugar, distribuição dimensiona a alteridade. A
como uma localização de coisas na tensão se firma sobre essa base, opondo a
paisagem. Cada localização fala de um identidade e a diferença. A centralidade
tipo de solo, de vegetação, de relevo, de estabelece a identidade como o olhar da
vida humana. Destarte, a localização leva referência. A alteridade estabelece a
à distribuição. A distribuição é o sistema diferença.
de pontos da localização. Assim, a Desta forma, o espaço se clarifica como
distribuição leva por sua vez à extensão. o fio tenso de um naipe de oposições, em
A extensão é a reunião da diversidade que a centralidade e a alteridade se
das localizações em sua distribuição no contraditam: a centralidade se afirma
horizonte do recorte do olhar. E pela como o primado da identidade sobre a
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diferença e a alteridade como uma A ambientalização é antes de tudo


dialética da diferença e da identidade. Na uma práxis. Nenhum homem se enraíza
centralidade a identidade se firma pela cultural e territorialmente no mundo pela
supressão da diferença (a localização se pura contemplação. A experimentação da
impõe à distribuição diante do olhar). Na diversidade é que faz o homem sentir-se
alteridade a diferença coabita com a no mundo e sentir o mundo como-
diferença (a alteridade reafirma a igual mundo-do-homem. O enraizamento é um
coabitação da diversidade), a identidade processo que se confunde com o espaço
sendo a diferença auto-realizada. Em percebido, vivido, simbólico e concebido,
ambos os casos, a tensão aparece como o e vice-versa, porque é uma relação
estatuto ontológico do espaço metabólica, um dar-se e trazer o diverso
(MOREIRA, 2001 e 2006). para a coabitação espacial do homem sem
a qual não há pertencimento, ambiência,
A tradição trabalha com a noção da
circundância ambiental, mundanidade.
unidade, como o ser do espaço por
Este dar-se e trazer é o processo do
excelência, a tal ponto que é a idéia da
trabalho.
identidade, dita identidade espacial, que
está mentalizada em nós como a idéia de O trabalho é o ato do homem de ir à
espaço. Seja o nome com que apareça – natureza e trazê-la para si. Assim inicia-se
área, região, país ou continente –, espaço a ambientalização (MOREIRA, 2001). Paul
é isto, não a coabitação dos contrários, a Vidal La Blache (1954) mostrou como este
tensão seminal: a diversidade suprimida processo está na origem da constituição
na unidade, a diferença tensionada no do homem, desde as “áreas laboratórios”,
padrão da repetição mecânica/ identidade. Em quando pela domesticação e a seguir pela
suma, o espaço pontuado a partir da aclimatação o homem vai modificando a
dialética do de dentro (MOREIRA, 1999). natureza e modificando-se a si mesmo.
Nessas áreas laboratórios, o homem inicia
O ser do espaço: a seu processo de hominização, definido
geograficidade mediante seu enraizamento cultural que
vai saindo da relação metabólica, fruto da
O espaço surge da relação de relação de ambientalização e do
ambientalidade. Isto é, da relação de enraizamento territorial que daí deriva.
coabitação que o homem estabelece com a As áreas laboratórios localizam-se nas
diversidade da natureza. E que o homem partes semi-áridas e de relevo
materializa como ambiência, dado seu movimentado das encostas médias das
forte sentido de pertencimento. Este ato montanhas, do longo trecho de condições
de pertença identifica-se no enraizamento naturais semelhantes, cortado pelo
cultural, que surge da identidade com o paralelo de 40 graus de latitude norte.
meio, através do enraizamento territorial Somente depois desse aprendizado, desce
que tudo isto implica. Podemos notar este o homem em grupos para as “áreas
enraizamento quando mudamos de anfíbias” dos vales férteis dos grandes
cidade. Na cidade nova sentimo-nos rios, dessa faixa de área disposta do
inicialmente desidentificados e por isso Mediterrâneo europeu às portas do
desambientalizados, ressentindo-nos da oriente asiático. E, então, dá início às
falta de uma ambiência. Só quando nos grandes civilizações da história. É pelo
familiarizamos com as casas, o metabolismo do trabalho, portanto, que a
arruamento, o fluxo do trânsito, um coabitação se estabelece, o mundo
detalhe da paisagem, sua localização e aparece como construção do homem e o
distribuição, como referências de espaço, espaço se clarifica como um campo
é que nos sentimos enraizados no novo simbólico com toda a sua riqueza de
ambiente. significados (LEFEBVRE, 1983). Um
significado que só pode ser para o

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homem. Enquanto isto não acontece, a própria evolução histórica. Como isto
relação homem-espaço-mundo é uma aconteceu?
duplicidade do de dentro e do de fora, até
Há uma raiz de origem epistêmica e
que a troca metabólica funde o homem e
outra de natureza metodológica, ambas
o mundo num mundo-do-homem
com forte viés institucional. São três
(MOREIRA, 2004a e 2004b).
geografias na prática a se atualizar, cada
E, é isto a geograficidade. qual correndo habitualmente em paralelo
à outra: a geografia real (da realidade que
existe fora de nós), a geografia teórica (da
A representação e o olhar da leitura desse real) e a geografia
geografia num contexto de institucional (a dos meandros
espaço fluido institucionais). Há uma realidade externa
a nós, que é o fato de a humanidade
As transformações que levam do existir sob uma forma concreta de
espaço de um arranjo arrumado em organização espacial. E há a
matrizes regionais a um espaço de um representação dessa realidade capturada
arranjo arrumado em rede levantam o por meio de sua formulação teórica. Isto
problema da linguagem. estabelece na geografia uma diferença
Isto se traduz no problema da entre realidade e conhecimento, com a
representação cartográfica, significando tradução dupla do real e do lido, que nem
uma dificuldade adicional. Mas é um sempre se relacionam numa consonância.
esforço necessário, de vez que se trata de Ainda existe, porém, a geografia
requalificar o discurso geográfico no materializada institucionalmente e
formato da linguagem, que preserve sua prisioneira do seu cotidiano.
personalidade histórica e dê o passo Não é isto uma propriedade da
seguinte, que a ponha em consonância geografia, mas dos saberes, uma vez ser a
com a nova realidade. ciência uma forma de leitura do mundo
É disso que trataremos agora. real, que usa como recurso próprio o
expediente das representações
A dupla forma e o problema da conceituais, fazendo-o em ambientes
fortemente formalizados, como as
personalidade lingüística da
instituições de pesquisa e a universidade.
geografia
Se este múltiplo não é uma exclusividade
Vimos que, embora leia a complexa do saber geográfico, há nele, entretanto, a
realidade mutante do mundo pela janela situação específica do fato de que
do espaço, com a vantagem de encontrar raramente em sua história estas três
na paisagem o instrumento privilegiado geografias coincidem, raramente se
da leitura, o geógrafo nem sempre tem encontram, raramente se confundem.
sabido ser contemporâneo do seu tempo. A década de 1950 é um raro momento
A causa, em boa parte, está na dificuldade de encontro. Quando os geógrafos
da atualização da linguagem – em sua daquela década falam do mundo real, a
dupla forma da linguagem conceitual e geografia teórica o representa com uma
da linguagem cartográfica – a cada novo precisão suficiente para que as pessoas
momento de enfrentamento do real. que os ouvem se sintam como se
É fato que a linguagem geográfica estivessem vendo o que falam, não
deixou de atualizar-se já de um tempo. As sentindo propriamente diferença entre o
expressões vocabulares antigas perderam que ouvem falar e o que vêm. Tal é o que
a atualidade, diante dos novos conteúdos, se percebe nos textos de Pierre George,
e as expressões novas foram tiradas mais para ficarmos num exemplo conhecido,
de outros campos de saber, que da sua acerca dos espaços agrários ou dos

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espaços industriais da França ou de que, contrariamente ao período dos anos


qualquer outro contexto regional do 1950, caracteriza o espaço de nosso
mundo. A geografia é um saber tempo.
descritivo, um saber que olha e fala do
Há, porém, uma segunda componente
mundo por meio da paisagem, e o faz
nessa defasagem das três geografias: o
numa tal correspondência que as pessoas
foco do olhar na localização, ou seja, no
saem das aulas, andam pelos espaços do
fixo e não no fluxo. Brunhes (1962)
mundo, e olhando estes espaços se
ensinava que o espaço é uma alternância
lembram das lições do professor de
de cheios e vazios. E que a distribuição é
geografia. Era a vantagem de trabalhar
re-distribuição. Segundo ele, cheios e
com a paisagem.
vazios trocam de posição entre si no
Tal não é o que se dá em nosso tempo. andar do tempo, de modo que o que hoje
Muito raramente acontece de quando hoje é vazio, amanhã é cheio, e o que hoje é
as pessoas olham a organização dos cheio, amanhã é vazio. Sob a forma dessa
espaços, se lembrem do seu professor de bela metáfora, Brunhes está dizendo que
geografia. Falta a identidade entre o que o espaço tem um caráter dinâmico, como
ele falou e o que se está vendo. numa tela de um filme no cinema. E que
devemos vê-lo por isso em seu
Porque isto aconteceu?
movimento. Significa, portanto, priorizar
o olhar da distribuição, quando temos
O fixo e o fluxo priorizado o olhar da localização. A
Uma grande transformação aconteceu apreensão da dinâmica de re-distribuição
primeiramente com as paisagens. Aquela só é possível com foco no aspecto
mutação lenta que ainda nos anos 1950 dinâmico, que é a distribuição.
permitia ao geógrafo explicar o mundo Não foi, entretanto, esse modo de
com ela desapareceu rapidamente diante entender que prevaleceu, mas sim a
da evolução da técnica e das formas de noção de que fazer geografia é localizar.
organização do espaço. E a paisagem Toda a ênfase foi dada à localização, nos
tornou-se fluida. fazendo perder a percepção do
É consenso, no plano mais geral, que a movimento da redistribuição da própria
geografia lê o mundo através da localização. Privilegiamos o olhar fixo em
paisagem. A história usa recursos mais benefício da afirmação da centralidade.
abstratos. Pode usar a paisagem, mas não Afinal, La Blache (1954) dizia que a
depende dela. A sociologia também. O geografia é a repetição e a permanência.
geógrafo, entretanto, não vai adiante sem Contrariamente a Brunhes (1962), que
o recurso da paisagem à sua frente. sugere o olhar da re-distribuição. O olhar
do espaço como movimento, em que se
Como decorrência, isto faz da privilegia a fluidez.
linguagem da geografia uma linguagem
por essência colada justamente a este seu Não se atentou para o quanto de
dado real que é a paisagem geográfica. revolucionário havia no pensamento de
Ora, a transfiguração do espaço da região Brunhes (1962). Raros viram a
no espaço em rede característica de nosso necessidade de fundar a leitura
tempo, só lentamente vem sendo geográfica na categoria do movimento
traduzida numa linguagem mais como ele. E optaram pela alternativa
contemporânea de paisagem. conservadora de calcá-la na categoria do
imóvel. Somente hoje, quando nos damos
A paisagem foi capturada pela conta da diferença, percebemos o quanto
mobilidade contínua da TDR o olhar do fluxo contém de dinamicidade.
(territorialização-desterritorialização- Por isso, ao falar de fixos e fluxos como
reterritorialização), no dizer de Claude categorias de apreensão do movimento
Raffestin (1993), e é precisamente isso do espaço, Milton Santos (1996) recria de
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maneira magnífica a teoria dos cheios e contemporaneidade do conteúdo. E isto


vazios de Brunhes (1962). em caráter permanente. A cartografia
instrumenta esse poder. Mas antes a
Foi, inclusive, a incongruência do
geografia deve atualizá-la nessa função.
primado da categoria da localização sobre
a categoria da distribuição, que não nos A perda da correlação, exatamente, foi
permitiu ver a tempo a esclerose do isto o que aconteceu. Centrada no
conceito de região, diante do espaço em enfoque estático da localização dos
rede que se formava. fenômenos, a geografia fixou a cartografia
nesse campo. Escapou-lhe, porém, o
O problema cartográfico da momento do desencontro, de um lado,
geo graphia entre a forma e o conteúdo, e, de outro,
entre a paisagem e a realidade mutante.
E foi ela, que igualmente não nos Assim, não renovou sua linguagem
permitiu ver o envelhecimento e conceitual. E ficou impossibilitada de
desatualização da velha cartografia. orientar a renovação da linguagem
Preparada para captar realidades pouco representacional da cartografia. A
mutáveis, essa cartografia se tornou correlação geografia-cartografia não se
inapropriada para representar a realidade deu. A geografia teórica perdeu o passo
do espaço fluido. da geografia real de uma forma abismal.
A geografia lê o mundo por meio da Transportou então este mal para o campo
paisagem. A cartografia é a linguagem da cartografia.
que representa a paisagem. Este elo É quando se evidenciam as duas
comum perdeu-se no tempo, e não por razões da defasagem: a metodológica, isto
acaso ficaram ambas desatualizadas. Não é, o fato de a geografia ler o mundo por
houve atualização para uma e para outra. meio de um recurso que se defasa
Até porque a iniciativa está com a continuamente; e a epistemológica, ou
geografia. seja, a natureza altamente mutante da
Vejamos porque. técnica da representação em nossa era
industrial. O problema metodológico logo
Paisagem é forma. Forma é forma do se sobrepõe ao problema epistemológico
conteúdo. Mudando o conteúdo, muda (MOREIRA, 1994).
também a forma. Embora a forma sempre
mude mais lentamente, a mudança de
Os lugares da recuperação
conteúdo só pode ser realizada se a forma
o acompanha em seu movimento. Há Num lugar, todavia, o uso da
uma contradição nos ritmos de mudança correlação guardou um pouco do seu
entre a forma e o conteúdo que, deixada frescor: a escola. Isto embora a linguagem
entregue à sua espontaneidade, o do conceito tenha evoluído e a linguagem
conteúdo vai para frente e a forma fica da representação cartográfica tenha se
para trás. A contradição se resolve pela estagnado, a segunda aumentando a já
aceleração da mudança da forma. forte defasagem em relação às formas
É onde entra a função da geografia. reais do espaço que representa.
Primeiro é preciso saber ler essa dialética. O fato é que, na escola, o mapa é,
E, em segundo lugar, é preciso poder ainda, o símbolo e a forma de linguagem
representá-la com a máxima fidelidade reconhecida da geografia. E, por isto
possível. A primeira exigência é atendida mesmo, os programas escolares começam
com a linguagem do conceito. A segunda, com as noções e expressões vocabulares
com a linguagem da representação da representação cartográfica. A leitura
cartográfica. A finalidade é mexer na do mundo se faz por intermédio das
forma, de modo a compatibilizá-la com a categorias da localização e da

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distribuição, mesmo que o problema do dos mapas, signos e realidade do espaço


primado da primeira sobre a segunda, as geográfico, vemos: formas de relevo,
categorias da distribuição e da extensão tipos de clima, densidade de população,
entrando para o fim da montagem do tipos de bacia hidrográfica, formas de
discurso do geográfico como a unidade cidade, núcleos migratórios, coisas da
espacial dos fenômenos. Aí ainda paisagem, que simplesmente transportamos
aprendemos o ritual banal do trabalho mediante uma linguagem própria para o
geográfico: localizando-se e distribuindo- papel. De modo que as nervuras do mapa
se é que se mapeia o mundo. E que todo são as categorias mais elementares do
trabalho geográfico consiste na seqüência espaço: a localização, a distribuição, a
clássica: primeiro localiza-se o fenômeno; extensão, a latitude, a longitude, a
depois monta-se a rede da sua distância e a escala, palavras do fazer
distribuição; a seguir demarca-se a geográfico.
extensão; por fim, transporta-se a leitura
O reencontro das linguagens é, assim,
para a sua representação cartográfica.
o pressuposto epistemológico da solução
Mas tudo sendo verbalizado, ainda, na
do problema da geografia. Pelo menos
linguagem do mapa.
por duas razões. Primeira: a geografia
O mapa é o repertório mais conspícuo afastou-se fortemente da linguagem
do vocabulário geográfico. E trata-se da cartográfica, agravando o afastamento
melhor representação do olhar entre a geografia teórica e a geografia
geográfico. O mapa é a própria expressão real. Segunda: a linguagem cartográfica
da verdade de que todo fenômeno que usamos está desatualizada, já
obedece ao princípio de organizar-se no nenhuma relação mantendo com a
espaço. Todo estudo ambiental, por realidade espacial contemporânea.
exemplo, é o estudo de como a cadeia dos
A solução supõe, todavia, trazer a
fenômenos arruma seu encadeamento na
cartografia para o seio da geografia. A
dimensão do ordenamento territorial, um
geografia ficou com o conteúdo e perdeu
fato que começa na localização, segue-se
a forma. E a cartografia levou a forma e
na distribuição e culmina na extensão por
ficou sem conteúdo. Nessa divisão de
meio da qual se classifica como um
trabalho reciprocamente alienante e
ecossistema. Do contrário não haveria
estranha, a cartografia virou uma forma
como. O mesmo acontece com o estudo
sem conteúdo e a geografia um conteúdo
de uma cidade, da vida do campo, da
sem forma. Diante de um espaço de
interação de montante e jusante da
formas de paisagens cada vez mais
indústria, dos fluxos de redistribuição das
fluidas, a ação teórica da geografia não
formas de relevo, da alteração do desenho
poderia dar senão numa pletora de
das bacias fluviais e das articulações do
desencontros: desencontro da geografia e
mercado. Eis porque o historiador
da cartografia frente ao desencontro da
trabalha com mapa, sem que tenha de ser
forma-paisagem com o conteúdo-espaço.
geógrafo. Também o sociólogo. E
Faltou aí uma teoria da imagem num
igualmente o biólogo. Todos, mas
tempo de espaços fluidos.
necessariamente o geógrafo. O mapa é o
fiel da sua identidade. Todo professor
secundário sabe disso. E o mantém, e Da cartografia cartográfica à
reforça.
cartografia geográfica
É preciso, pois, reinventar a linguagem
Reinventar a cartografia hoje é,
cartográfica como representação da
portanto, criar uma cartografia
realidade geográfica. E reiterar o
geográfica. Afinal, o que está velho são os
pressuposto de a linguagem cartográfica
signos e significados guardados no mapa.
ser a expressão da linguagem conceitual
da geografia. Afinal, olhando a legenda

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A velha cartografia fala ainda a que Lacoste (1988), além de Eric Dardel
linguagem das medidas matemáticas, que (1990), trabalha.
longe estão de serem o enunciado de
A espacialidade diferencial articula
algum significado. As cores e os símbolos
porções de espaço, semelhantemente aos
nada dizem. É uma cartografia cuja
recortes ritterianos, que Lacoste (1988)
utilidade está preservada para alguns
designa de conjuntos espaciais. Cada
níveis, mas pouco serve para os níveis de
fenômeno forma um conjunto espacial em
significação. Permanece fundamental à
seu recorte. Há um conjunto espacial
leitura geográfica das localizações exatas,
clima, solo, população, agropecuária,
mas não para a leitura do espaço
cidade etc. O limite territorial de cada
dinâmico das redistribuições de espaços
conjunto numa área de recorte comum
fluidos. Serve para representar e
não coincide normalmente, uns sendo mais
descobrir significados dos espaços dos
extensos e outros mais restritos, forma-se
anos 1950. Contudo não tem serventia
um complexo entrecruzamento nessa
para ler os espaços de um novo milênio. É
superposição, que é a matéria-prima da
uma cartografia ainda necessária, todavia
espacialidade diferencial. A paisagem
não mais suficiente.
depende, assim, do ângulo do olhar de
No entanto, os parâmetros de uma quem olha, que toma um dos conjuntos
cartografia geográfica já estão postos: espaciais como referência do olhar, e vê,
estão presentes na linguagem semiológica em conseqüência, a paisagem pelo olhar
das novas paisagens. Mapear o mundo é de referência. Daí que cada conjunto
antes de tudo adequar o mapa à essência espacial resulta numa forma de paisagem,
ontológica do espaço. Representar sua cada qual servindo como nível de
tensão interna. Revelar os sentidos da representação e nível de conceituação.
coabitação do diverso. Falar
Cada complexo de paisagem se
espacialmente da sociedade a partir da
interliga com os complexos vizinhos
sua tensão dialética. Mas tudo é
mediante a continuidade-descontinuidade de
impossível, repita-se, sem uma
cada um e de todos os conjuntos
semiologia da imagem.
espaciais, alargando a espacialidade
diferencial para o todo da superfície
Para uma cartografia geográfica terrestre numa seqüência de
A geograficidade é o que, no fundo, a entrecruzamentos, que lembra o conceito
geografia clássica de Carl Ritter (1974) e de diferenciação de áreas de Hettner –
Alexander von Humboldt (1866) busca visto, porém, no formato do complexo de
apreender, representar e, assim, por complexos de Sorre (1961)–, a superfície
intermédio da geografia, clarificar como terrestre se organizando como um todo
prática consciente do homem. A grande combinado de continuidade e
limitação da cartografia corrente – mesmo descontinuidade, que faz dela mais que
a semiologia gráfica – é a linguagem que um simples mosaico de paisagens e algo
leve a isto. Uma alternativa foi aberta por muito distanciado conceitualmente de
Yves Lacoste (1988) com o conceito de uma seqüência horizontal de regiões
espacialidade diferencial, um conceito diferentes e singulares.
muito próximo da visão corológica e da Lacoste (1988) expressa certamente a
individualidade regional de Ritter, e, na influência do relativismo de Einstein
formulação, muito próxima também do nessa atribuição do conceito de paisagem
conceito de diferenciação de área de e de superfície terrestre ao movimento do
Alfred Hettner, com a vantagem de vir olhar. E lembra o conceito de espaço de
como uma proposta de escala. E, destarte, Henri Lefebvre (1981 e 1983) nessa
a caminho de uma linguagem da combinação de espaço e representação,
geograficidade. Conceito, por sinal, com

etc..., espaço, tempo e crítica. N° 1, VOL. 1(3), 1° de junho de 2007, ISSN 1981-3732 69
Ruy Moreira

que acaba por ser o conceito de DARDEL, E. (1990) Homme et la Terre: Nature de la
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Além disso, retira o conceito de escala Paulo: Loyola.
do entendimento puramente matemático HUMBOLDT, A. von (1866) Cosmos: essai d'une
da cartografia cartesiana tradicional e o description physique du monde . Paris: L. Grierin
remete a uma concepção qualitativa (sem LA BLACHE, P. V. (1954) Princípios de Geografia
dispensar a abordagem quantitativa), Humana. Lisboa: Edições Cosmos
permitindo renovar a linguagem da LACOSTE, Y. (1988) A Geografia, isso serve, em
primeiro lugar, para fazer a guerra. São Paulo: Papirus
cartografia, a partir da renovação da
Editora.
linguagem da geografia, numa nova
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semiologia. Assim, o espaço bem pode ser Paris: Éditions Anthropos.
um todo de relações entrecruzadas, cada _______________ 1983. La Presencia y la Ausencia.
porção espacial – o território – se Contribucion a la teoría de las representaciones. México:
identificando por uma espessura de Fondo de Cultura Económica
densidade de relações diferente, umas MOREIRA, R. (1994) O espaço da geografia. As
com um tecido espacial mais espesso e formas históricas do trabalho do geógrafo. In Boletim
outras mais modestas, inovando o Fluminense de Geografia, ano II, vol. 1, n. 2. Niterói:
AGB
conceito de densidade, habitat, ecúmeno,
______________ (1999) A Diferença e a Geografia. O
sítio, entre outros da geografia clássica, ardil da identidade e a representação da diferença
por tabela, sem contar com a constituição na geografia. in revista GEOgraphia, ano I, no. 1.
da paisagem e da imagem como Niterói: PPGEO-UFF
conceitos, a partir da teoria que dê conta _____________ (2001) As Categorias Espaciais da
de cada uma delas na hora de virarem Construção Geográfica das Sociedades. in
discurso de representação cartográfica. GEOgraphia, ano III, n° 5. Niterói: PPGEO/UFF
______________ (2004a) Marxismo e geografia, a
Abre então a possibilidade de geograficidade e o diálogo das ontologias. In
introduzir esse novo viés cartográfico – a GEOgraphia, ano VI, n° 1. Niterói: PPGEO-UFF
cartografia de um espaço visto como uma ______________ (2004b) Ser-Tão: o universal no
semiologia de real significação –, regionalismo de Graciliano Ramos, Mário de
Andrade e Guimarães Rosa (um ensaio sobre a
compreender o espaço como modo de
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um elemento essencial de sua ontologia, e ____________ (2006) Espaço e Contra-Espaço:
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