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UNIVERSIDADE INTERNACIONAL DA PAZ

CURSO DE PÓS GRADUAÇÃO LATO SENSU EM PSICOLOGIA ANALÍTICA

RENATA FIORESE FERNANDES

O MITO DE GAIA, ANIMA MUNDI E UNUS MUNDUS. REFLEXÕES SOBRE A


JORNADA ANÍMICA NO PROCESSO DE INDIVIDUAÇÃO

Goiânia-GO,
2019
RENATA FIORESE FERNANDES

O MITO DE GAIA, ANIMA MUNDI E UNUS MUNDUS. REFLEXÕES SOBRE A


JORNADA ANÍMICA NO PROCESSO DE INDIVIDUAÇÃO

Trabalho de Conclusão do Curso de


Psicologia Analítica para obtenção do título
de especialista em psicologia analítica
realizado pela Universidade Internacional da
Paz (UNIPAZ-GOIÁS) e PUC Goiás.

Orientadora: Profa. Dra. Sônia Maria Bufarah Tommasi.

Goiânia-GO,
2019.
RENATA FIORESE FERNANDES

FOLHA DE APROVAÇÃO

O MITO DE GAIA, ANIMA MUNDI E UNUS MUNDUS. REFLEXÕES


SOBRE A JORNADA ANÍMICA NO PROCESSO DE INDIVIDUAÇÃO

Trabalho de conclusão de curso para avaliação do TCC do Curso de Pós-Graduação em Psicologia Analítica
realizado pela Universidade Internacional da Paz (UNIPAZ-GOIÁS).

APROVADA EM

BANCA EXAMINADORA

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Profa. Dra. Sonia Maria Bufarah Tommasi (Orientadora)

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Profa. Dra

------------------------------------------------------------------------------------------------------------

Profa.
O MITO DE GAIA, ANIMA MUNDI E UNUS MUNDUS. REFLEXÕES SOBRE A JORNADA
ANÍMICA NO PROCESSO DE INDIVIDUAÇÃO

RESUMO

Neste artigo propusemos retratar a narrativa mítica como categoria de observação projetiva
dos símbolos presentes na jornada anímica, utilizando como símbolo principal Gaia como
representação do princípio feminino da Grande Mãe e da Anima Mundi, analisando a
jornada do Ego como herói na tentativa de articular seu processo de individuação. Para isso,
nos baseamos na percpectiva da Psicologia Analítica quanto compreensão de homem e de
seu desenvolvimento anímico, assim como fazemos uso de seus conceitos teóricos
resgatados da alquimia, além de outros conceitos fundamentais para compreensão da
dinâmica psíquica como forma de embasar a proposta de observação e apresentar uma
possibilidade de objetivo na prática clínica e também da vida, sendo a coniunctio, o
processo de integração dos opostos fundamentais inconsciente-consciente e feminino-
masculino, presente como eixo central no processo de individuação – o encontro consigo
mesmo.

Palavras-chave: Mito; Gaia; Anima Mundi; Unus Mundus; Individuação;


SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO…................................................................................................................06
2. O MITO DE GAIA...............................................................................................................09
3. GAIA: A GRANDE MÃE – COMPREENDENDO O ARQUÉTIPO DO FEMININO............11
4. GAIA, ANIMA MUNDI E UNUS MUNDUS.........................................................................18
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS …...........................................................................................23
6. REFERÊNCIAS..................................................................................................................24
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INTRODUÇÃO

Neste artigo pretendemos apresentar a narrativa mítica como manifestação da realidade


imagética arquetípica do Inconsciente concebido por Jung, em seu caráter pessoal e coletivo,
utilizando como eixo central o Mito de Gaia como ilustração do desenvolvimento do Ego e da
Consciência, como o caráter do Héroi masculino da jornada da individuação, a partir de sua
diferenciação do arquétipo da Grande Mãe Urobórica e da consequente perda da participação
mística e afastamento da Anima Mundi e do feminino.
Para isso nos baseamos na teoria de Carl Gustav Jung, um investigador nato da dinâmica da
alma, a qual foi desvelando a partir de sua experiência empírica, tanto de seu próprio mundo
interior, que lhe surpreendia desde sua tenra infância, quanto mais tarde pode observar em sua
prática clínica, nos seus pacientes histérios e esquizofrênicos que sempre lhe apresentavam uma
realidade imagética interior de imensa potência e riqueza.
Em sua prática médica, no campo da psiquiatria, Jung encontrou várias ressalvas quanto aos
limitados métodos utilizados no tratamento das doenças mentais e começou a se incomodar quanto
ao fato de seus colegas não se interessarem pela história de vida desses sujeitos em sofrimento e
muito menos no conteúdo narrado em seus delírios alucinatórios. Jung, no entanto, sempre curioso,
passou a dedicar sua escuta atenta e conseguiu perceber que muitas vezes os sintomas estavam
intrinsicamente ligados com a história de vida desses sujeitos e a situações complicadas carregadas
de força afetiva, que por sua intensidade, chegavam a desestruturar totalmente o centro da
consciência e identidade desses indivíduos.
Desde muito cedo, Jung se interessou por arqueologia e estudos da religião comparada e foi
através da exploração da psicologia primitiva, aliado a fenômenos que ele observava em sua prática
clínica, que ele começou a desvendar a existência dessas imagens primordiais dotadas de força
impressionante, capazes de suprimir e desfacelar um Ego fragilizado, como no caso dos
esquizofrênicos que ele acompanhava.
A partir daí Jung (2000) começa a observar e comprovar a existência de um:
substrato psíquico comum de natureza psíquica suprapessoal que existe em cada indivíduo
(…)', 'que representa essencialmente um conteúdo inconsciente o qual se modifica através
de sua conscientização e percepção, assumindo matizes que variam de acordo com a
consciência individual na qual se manifesta'. (JUNG, 2000, p. 15)

Em sua Psicologia Analítica, Jung concebe o inconsciente além da camada mais superficial e
pessoal, como coletivo e autônomo, de natureza universal, dotado de uma linguagem mitopoética no
qual as imagens primordiais arquetípicas são os personagens principais. O inconsciente coletivo é
uma camada mais profunda, inata, que possui conteúdos e modos de comportamento que são os
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mesmos em toda parte e em todos os indivíduos, ou seja, são idênticos em todos os seres humanos -
são os chamados arquétipos. (JUNG, 2000).
Os arquétipos aparecem então, como figuras simbólicas da cosmovisão primitiva e os mitos
como uma das primeiras tentativas de sistematização e racionalização destas manifestações da
essência da alma. Se apresentam, portanto, como formas sem conteúdo, que são preenchidos de
acordo com a vivência pessoal de cada indivíduo, além de serem também compreendidos como
imagens primordiais que atuam como “predisposições psicossomáticas herdadas e atuantes sobre a
atitude individual”, possuindo a qualidade de uma divindade ou “daimones”, em grego, utilizado
como referência aos vários tipos de entidades intermediárias entre os deuses e os homens. (JUNG
apud PEREIRA 2009).
A linguagem do inconsciente funciona por meio de analogias, sendo essencialmente
imagética, o que pode ser visto nos sonhos, nas fantasias e no pensamento mítico. O relacionamento
entre consciente e inconsciente opera, principalmente, por meio da imagem e da imaginação, de
caráter simbólico, sendo os símbolos oriundos de estruturas arquetípicas, responsáveis por produzir
certa estabilidade na psique, funcionando como compensação da oposição da dualidade. Podendo
ser considerados como categorias da imaginação, “no domínio da mente o instinto (arquétipo) é
percebido como imagem, no domínio do comportamento, as imagens são desempenhadas como
instintos, sendo o comportamento sempre uma encenação de uma fantasia”. (HILLMAN apud
SERBENA, 2010).
Os mitos apresentam-se como as primeiras tentativas de organização de uma narrativa para
explicar esses fenômenos que essencialmente tratam-se de manifestações da dinâmica psíquica
interior, “de manifestações da essência da alma”. Todos os acontecimentos mitologizados da
natureza são como expressões simbólicas do drama interno e inconsciente da alma, que a
consciência só consegue apreender através de projeções – espelhadas nos fenômenos da natureza.
(JUNG, 2000).
A diferença, de acordo com Jung, do homem moderno para o homem primitivo consiste em
suas hipóteses e compreensão sobre os eventos da natureza. Enquanto que para o primeiro, os
eventos podem ser explicados por meio de percepção de relações causais; nas sociedades arcaicas
do homem primitivo, esses adventos da natureza surgem como algo mágico e sobrenatural, já que
ele projeta o inconsciente nesses eventos, de tal forma que não existe distinção entre as projeções e
o mundo objetivo, pois nas sociedades tribais os mitos são vivos, e cumprem sua função de dar
sentido ao mundo. (referência site Jung na Prática – sobre mitos)
O homem primitivo como realidade psicológica então se refere a uma instância do
inconsciente “cujo poder decisivo sobre o destino ainda está vivo no âmago da psique do homem
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moderno” (NEUMANN, 1996). O arquétipo psicóide como vivência da “participation mystique”


trata-se da experimentação e observação dos fenômenos da natureza como manifestações da
realidade intrapsíquica, ou sendo refletido, projetado, o movimento da dinâmica da alma. Dada a
importância da compreensão da dinâmica dessa realidade psíquica, o uso dos mitos como categoria
de observação torna-se uma ferramenta de grande potencial de comunicação da consciência com
essa camada simbólica, mitopoética do inconsciente, produzindo estabilidade e harmonia entre estas
dualidades fundamentais da psique.
O fenômeno da dicotomia criada entre homem e natureza hoje é um tema muito discutido
nas mais diferentes áreas no meio acadêmico devido, principalmente, ao caráter de urgência de
compreensão mais aprofundada da situação, já que o desenvolvimento eminente de tal conflito se
resume a destruição do meio ambiente e das condições necessárias a manutenção e preservação da
vida do homem.
Muito se desenvolveu através do tempo, em termos de tecnologia para a manipulação da
matéria-prima afim de facilitar a vida do homem em suas necessidades que foram se tornando cada
vez mais complexas. Na medida em que crescia o domínio objetivo dos elementos pelo homem
primitivo, aumentava também a capacidade de sofisticação da organização social das comunidades,
assim como essa sofisticação alimentava a necessidade de mais exploração dos recursos naturais,
gerando um ciclo exponencial de crescimento que hoje culmina no esgotamento irreversível de tais
recursos.
Partindo do pressuposto de que a atividade, a atuação do homem no mundo, é uma
manifestação projetada de sua dinâmica interior, de sua estrutura psíquica, esta investigação se
concentra na tentativa de compreender o movimento arquetípico inconsciente, a partir da
perspectiva junguiana, que tem como base e origem tal fenômeno de articulação do homem com a
natureza.
Nesta perspectiva, a dinâmica psíquica funciona através de polaridades, sendo a mais
fundamental delas a dualidade consciente-inconsciente. Trataremos aqui, a partir da ideia de
Neumann (1983), a relação entre consciente e o princípio masculino e o inconsciente com o
princípio feminino, observando o movimento de interação do arquétipo da Grande Mãe e do Herói
simbolizados no mito cosmogônico grego de Gaia.
Neste sentido, pretendemos investigar a dinâmica destes arquétipos no nível psíquico, no
domínio da mente, utilizando a imagem de Gaia e dos Deuses masculinos gregos, como maneira de
ilustrar a jornada anímica no processo de individuação, e no domínio do comportamento, apontar a
interação do homem com a natureza como um possível significado e expressão desse instinto
arquetípico, como representação desta narrativa anímica do inconsciente feminino com o consciente
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masculino.
O objetivo aqui é o de apresentar o Mito de Gaia como representação de símbolos do
inconsciente do momento que ocorre a diferenciação do Ego do seio do caos disforme do
inconsciente, do ventre da Grande Mãe; este que apresenta-se como o caráter masculino que luta
contra as forças telúricas instintivas, afim de assumir sua posição de centro organizador da
consciência. Assim, através da análise desse movimento no mundo das imagens da linguagem
mitopoética do inconsciente, pretende-se elucidar um pouco mais sobre esse processo de suma
importância para o desenvolvimento e fortalecimento do Ego como início do trilhar pelo caminho
da individuação – encontro do Si-Mesmo.
Apresentaremos a situação primordial, que é o pertencimento indiferenciado do Ego a
Grande Mãe, como a situação de nossos antepassados primitivos que viviam em participation
mystique com a natureza, experimentando a Anima Mundi em sua plenitude e em um segundo
momento a dissolução da participação mística como nascimento e diferenciação do Ego da Grande
Mãe, retratado muito bem no Mito de Gaia, deixando claro se tratar de um processo árduo, difícil e
que incita até mesmo uma necessidade de uma vontade violenta, para que a libertação e
desenvolvimento se tornem possíveis.
Como proposta de uma etapa final da jornada de individuação travada pelo herói,
apresentaremos a coniunctio como processo alquímico de reunião dos oposto fundamentais do
feminino inconsciente e do masculino consciente, que se entende como tradução e materialização
aqui, da retomada consciente da participação mística, presente e já amplamente discutido na ciência
como a visão do paradigma sistêmico, onde o homem se compreende como fractal pertencente e
representante da Teia da Vida, como parcela e detentor representante do Todo, que numa
perspectiva anímica se daria como a retomada do reconhecimento da Anima Mundi e do
reestabelecimento do Unus Mundus.
Tal investigação se justifica, principalmente, pela relevância social da importância de
compreensão do processo de individuação, que se resume como objetivo final na prática clínica,
além, de ser foco também na promoção de saúde mental coletiva; no campo científico, acreditamos
que a articulação de conceitos por este viés de análise utilizando o mito como categoria de
observação auxilie na ampliação da discussão do tema, além de, considerarmos de suma
importância e necessidade, a clareza da dinâmica desses símbolos fundamentais e polaridades para
quando nos propomos nos tornar observadores atentos da jornada anímica no processo de
especialização nesta arte que é a psicologia analítica.

O MITO DE GAIA
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Partindo da Teogonia e Trabalhos e Dias escrita por Hesíodo, apresentado por Junito
Brandão no volume um da obra “Mitologia Grega” (1986, p. 185), Gaia aparece como princípio
criador que surge do Caos absoluto, a matéria disforme ou abismo insondável, vazio primordial,
quando os elementos do mundo não foram ainda impostos a qualquer tipo de ordenação. Na
cosmogonia egípcia, trata-se de uma energia poderosa existente antes da criação do mundo e
conjuntamente com o mundo formal, como uma força circundante da terra, fonte de energia
inesgotável, ao qual todas as formas retornaram depois de fenecerem. Para os chineses, o Caos
representa a unidade, anterior a divisão das quatro direções, que equivale a criação do mundo.
Do Caos grego, dotado de grande energia criadora, surgem Gaia, Tártaro e Eros. Gaia como
representante da Grande Mãe refere-se ao Planeta Terra, diferenciando-se de Deméter, que é a terra
cultivada. Simbolicamente, entre inúmeras possibilidades de significado, se refere ao princípio do
feminino passivo Yin, acolhedor, fértil, a que contém, cultiva e nutre, em contraposição ao princípio
masculino Yang, ativo, volátil, assertivo e viril.
De acordo com a Teogania, a própria Gaia gera a Urano, o céu que a cobre e fecunda,
enquanto ela suporta e gera. A união de Urano e Gaia é concebido como “hieros gamos”, um
casamento sagrado, cujo objetivo é a fertilidade da mulher, dos animais e da terra. Desta união
sagrada são gerados os Titãs, Titânidas, Ciclopes e Hecantoquiros.
Suas proles são representações das “forças telúricas, manifestações elementares das forças
selvagens da insubmissão da natureza em oposição a espiritualização harmonizante”, (BRANDÃO,
1986) caracterizando a primeira etapa da gestação evolutiva. São “as forças brutas da terra e, por
conseguinte, os desejos terrestres em atitude de revolta contra o espírito” cujo objetivo é a
dominação - espírito aqui têm o significado do princípio luminoso, consciente, representado na
teogonia grega por Zeus.
Urano, como princípio masculino fecundador, por medo de ser destronado pelos próprios
filhos, os devolvia ao seio materno à medida que nasciam, jogando-os ao Tártaro, enfurecendo a
Gaia. Esta, não mais suportando tamanha tristeza de ver seus filhos relegados ao exílio, em um ato
de revolta ao marido, liberta-os, suplicando-lhes que a vingassem e libertassem de Urano. Todos
recusam ajudá-la, menos Crono, que odiava o pai. Gaia então lhe entrega uma foice, e quando
Urano retorna, ávido de amor, à noite, para se deitar com sua esposa, Crono corta-lhe os testículos.
O sangue do ferimento de Urano, tocando a terra, dá origem às Erínias, os Gigantes e as Ninfas.
Seus testículos, jogados ao mar, formaram com a espuma a deusa Afrodite. Com isso, Crono vinga a
mãe e liberta os irmãos.
Assim, Urano (Céu) separa-se de Gaia (Terra), com a interposição entre ambos do Éter e do
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Ar, pondo fim a uma longa e ininterrupta procriação inútil, já que Urano devolvia os filhos à terra.
Castrado e impotente, Urano perde seu poder e Crono assume seu lugar, casando-se com Réia.
Crono, como governante, se mostra tão tirano quanto seu pai. Temendo os irmãos, relega os
Ciclopes e Hecatonquiros de volta ao Tártaro e apreensivo com a premonição feita pelos pais,
Urano e Gaia, que possuíam o dom de prever o futuro, de que ele seria destronado por um de seus
filhos, Crono os engolia, um a um, assim que nasciam: Héstia, Deméter, Hera, Hades e Posidon. O
único que consegue escapar, por intermédio da mãe, foi Zeus. Réia foge para a ilha de Creta para
dar luz ao caçula e quando Crono requer que ela entregue o menino, ela o engana, entregando-lhe
uma pedra no lugar do filho que o deus engole de imediato.
A criança é então escondida por Gaia nos flancos do monte Egéon e lá ele fica entregue aos
cuidados dos Curetes e das Ninfas. Zeus passa por um período iniciático de preparação para as
batalhas que travaria com o pai, Crono. Com a ajuda de Métis (a prudência) que lhe fornece uma
substância, Zeus faz com que Crono vomite os filhos que havia engolido. Com seus irmãos como
aliados, Zeus inicia um duro combate contra o pai e os tios, os Titãs, que dura cerca de dez anos.
Zeus, a conselho de Gaia, liberta os Ciclopes e Hecatonquiros do Tártaro, os quais,
agradecidos, presenteia-o com o raio e o trovão, a Hades ofereceram um capacete mágico, que
tornava invisível a quem usasse e a Posídon presenteiam com o tridente, capaz de abalar terra e mar.
Juntos, os irmãos conseguem derrotar Crono e os Titãs, sendo estes relegados ao Tártaro. Gaia,
furiosa com os Olímpicos por jogarem seus filhos ao Tártaro, reuniu contra os vencedores os
terríveis Gigantes, nascidos do sangue de Urano. Derrotado os Gigantes, aumentando ainda mais a
fúria de Gaia, esta em seu derradeiro esforço, se junta a Tártaro, dando origem o mais horrível e
terrível dos monstros, o Tifão.
Tifão era um meio termo entre um ser humano e uma fera terrível e medonha. Era mais alto
que as montanhas, e sua cabeça tocava as estrelas. Quando abria os braços, uma das mãos tocava o
Ocidente e a outra o Oriente e em lugar dos dedos possuía cem cabeças de dragões. Quando os
deuses viram tão horrenda criatura encaminhar-se para o Olimpo, fugiram apavorados para o Egito,
restando apenas Zeus e sua filha Atená para lutar contra o monstro. O Tifão consegue desarmar
Zeus e com sua foice corta-lhe os tendões dos braços e dos pés, largando-o em uma gruta indefeso.
Com o auxílio de Hermes e do deus Pã, Zeus consegue recuperar seus tendões recuperando
suas forças. Ele escala os céus em um carro movido por cavalos alados e recomeça a luta contra o
monstro Tifão, lançando contra o inimigo, uma chuva de raios, até que por fim consegue derrotá-lo
esmagando-o com o monte Etna.

GAIA: A GRANDE MÃE – Compreendo o Arquétipo do Feminino


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Em sua tentativa de compreender o mundo e sua experimentação da realidade externa e


interna, o homem primitivo traduz essa vivência de maneira simbólica, sendo o mito sua tentativa
de racionalizar e organizar em forma de narrativa essa participação mística. Os mitos de criação do
Universo e do homem gravitam no imaginário, portanto, desde tempos imemoriais, já que a
compreensão do surgimento da vida material também estava atrelada a descoberta da existência de
si.

Os relatos mitológicos do princípio devem começar, invariavelmente, com o mundo


exterior, porque o mundo e a psique são ainda um só. Não há ainda um ego reflexivo e
autoconsciente capaz de remeter tudo a si mesmo, isto é, refletir. A psique não apenas se
encontra aberta ao mundo, mas ainda é idêntica e indistinta do mundo; ela conhece a si
mesma como mundo e no mundo, experimentando o seu próprio vir-a-ser como um vir-a-
ser do mundo; ela se experimenta as suas próprias imagens como os céus estrelados e os
seus próprios conteúdos como os deuses criadores do mundo. (NEUMANN, 2008, p. 26)

Na Cosmogonia Grega o Caos aparece como princípio primordial, apresentado como vazio
sem forma, escuridão abismal indiferenciada. Neumann (1996) em seu trabalho sobre o arquétipo
da Grande Mãe, relaciona esse estado psíquico inicial e da situação primordial, com o círculo
urobórico, representado pelo símbolo da serpente que engole a própria cauda. O Uroboros também
contém em si o Grande Círculo, que faz menção a junção dos opostos, do princípio criador do
feminino e masculino, “é um símbolo de ausência de diferenciação entre o caos, o inconsciente e a
totalidade da psique, a qual será vivenciado pelo Ego como estado limítrofe”. (1996, p. 33)

O círculo, a esfera e o redondo são aspectos do Autocontido, sem começo nem fim; na sua
perfeição pré-mundo, precede todo processo, é eterno, porque, em sua rotundidade, não há
antes nem depois, não há em cima nem embaixo, não há espaço. Tudo isso só pode surgir
com o surgimento da luz, da consciência, que ainda não está presente; aqui ainda domina a
divindade não exteriorizada, cujo símbolo é, por conseguinte, o círculo. (NEUMANN,
2008, p. 27)

Esse redondo e sua existência no redondo, existência na uroboros, são a auto-representação


simbólica do estado inicial, mostrando tanto a infância da humanidade como a da criança. A
validade e a realidade do símbolo da uroboros repousam numa base coletiva. Esse símbolo
corresponde a um estágio evolutivo que pode ser “relembrado” na estrututra psíquica de
todo ser humano. Ele opera como um fator transpessoal que aí se encontrava como um
estágio psíquico de existência anterior à formação de um ego. Ademais, a sua realidade é
reexperimentada em todo início de infância, e a experiência pessoal que a criança tem desse
estágio pré-ego refaz a velha trilha percorrida pela humanidade. (NEUMANN, 2008, p. 29)

Desse estado de indiferenciação do círculo urobórico representado por Caos, possuidor de


potência criativa, pois é a fusão dos aspectos masculino e feminino que é a base de toda criação, dá
origem primeiro a Gaia, o princípio de caráter elementar do feminino, que ainda se apresenta como
Uroboros Maternal, contendo em si tanto aspectos positivos quanto negativos do Grande Feminino;
além de Tártaro e Eros - este último não será enfatizado por motivos de extensão da análise.
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Um traço fundamental do “arquétipo primordial” consiste no fato de que ele reuni em si


atributos positivos e negativos e, ao mesmo tempo, grupo de atributos. Essa “coincidentia
oppositorum” (união de opostos) do arquétipo primordial, sua ambivalência, é a
característica da situação original do inconsciente que a consciência ainda não conseguiu
dissecar em antíteses. O homem pré-histórico vivenciou a paradoxal simultaneidade de bom
e mau, de amistoso e terrível, como qualidades atribuidas à divindade como unidade; com o
correr do tempo, durante o processo de desenvolvimento da consciência, a deusa bondosa e
a deusa má passarão a ser reverenciadas cada uma a sua vez, como seres dotados de poderes
diferentes.” (NEUMANN, 1996, p. 25)

O carácter feminino então, é o primeiro a se diferenciar e é a partir dele que surge o carácter
masculino, portanto, também contém tanto os aspectos positivos quanto negativos do Grande
Masculino. É de Gaia que surge Urano, o Céu, que a cobre e fecunda. A união de Gaia e Urano é a
representação da primeira união sagrada - hieros gamos, que depois é imitada pelos Deuses e pelos
homens.
Da matéria amorfa do Caos acontece a diferenciação do princípio feminino e a partir deste
surge o masculino. Quando fazemos um paralelo com o desenvolvimento da psique, o primeiro
estágio refere-se a um estado de imersão e indiferenciação com o inconsciente coletivo. No segundo
estágio, com o surgimento de Gaia, temos a Grande Mãe Urobórica que contém tanto aspectos
negativos quanto positivos que podem ser experimentados pelo Ego como proteção feminina
maternal, característica da Mãe Boa, ou agressão assassina, no sentido de possessão, inflação do
arquétipo da Mãe Terrível sob o Ego infantil e fragilizado.

Comparada a essa uroboros maternal, a consciência humana se sente embriônica, porque o


sentimento do ego é o de estar plenamente contido nesse símbolo primordial. Ele é apenas
um frágil e indefeso recém-chegado...São as fases de uma consciência do ego infantil que,
embora já não sendo embrionária e possuindo existência própria, vive ainda no redondo, de
que ainda não se desprendeu e do qual mal começa a se distinguir. Esse estágio inicial, em
que a consciência do ego ainda se encontra no nível infantil, é marcado pela predominância
do lado maternal da uroboros. (NEUMANN, 2008, p. 31)

Quando Gaia dá origem à Urano, acontece a diferenciação em o “Grande Feminino” e o


“Grande Masculino”, de acordo com Neumann (1996, p.33):
O Grande Feminino contém traços do 'Uroboros Maternal' e da 'Grande Mãe Urobórica'.
Nele residem, essencialmente, os elementos do Feminino, mas desordenadamente e, por
isso, imprevisíveis e inapreensíveis à vivência do ego. Nesse 'arquétipo primordial' do
Feminino, também existem, ao lado da preponderância de elementos femininos,
determinantes masculinos positivos e negativos.

No estágio da separação dos Pais do Mundo, a semente da consciência do ego finalmente se


afirma. Enquanto ainda se encontra nas dobras do mito da criação, essa semente penetra no
segundo ciclo, ou seja, o mito do herói, onde o ego, a consciência e o mundo humano se
tornam cônscios de si mesmos e da sua dignidade. (NEUMANN, 2008, p. 25)

Da união de Gaia e Urano, surgem os Titãs, Titânidas, Ciclopes e Hecatonquiros. Mas


Urano, apreensivo com a possibilidade de ser destronado por um de seus filhos, devolvia-os ao seio
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materno, à Terra, assim que nasciam, apresentando uma fecundação inútil, sem sentido e
descontrolada, retratando o lado negativo do aspecto masculino – a potência de concretização sem
propósito.
Os filhos gerados desse hieros gamos são representações das forças telúricas instintivas os
quais Gaia, como manifestação do caráter elementar do Feminino, demonstra o desejo de conservar
apesar da tendência a imprevisibilidade dessas forças, pois são manifestações de um aspecto desse
Feminino, pertencentes a ele, assinalando uma característica típica do matriarcado.
Urano surge a partir de Gaia como representação da diferenciação do Ego do Grande
Feminino manifestando uma tentativa inicial de assumir sua posição quanto centro organizador da
consciência, já que por impulso de sobrevivência, suprimi de volta à Terra todos os filhos gerados,
estes que são as forças instintivas e primitivas do inconsciente. O Ego então, com medo de ser
tragado por estas forças, as relega ao Tártaro, que é a instância mais profunda e inconsciente de
Gaia, da Grande Mãe.

Os estados mitológicos na evolução da consciência têm início com o estágio em que o ego
se acha contido no inconsciente e levam a uma situação em que o ego não apenas toma
consciência da sua própria posição e a defende com heroismo, mas também se torna capaz
de ampliar e relativizar as suas experiências mediante modificações efetuadas pela sua
própria atividade. (NEUMANN, 2008, p. 25)

Furiosa com a atitude tirânica do marido, Gaia pede ajuda aos seus filhos para eliminar
Urano, e Crono, o mais novo dos Titãs, concorda em auxiliá-la. Gaia então o entrega uma foice e
articula com o filho a castração do marido, para pôr fim a procriação descontrolada e com a
esperança de que conseguiria libertar os outros filhos que Urano relegara aos confins do Tártaro. A
foice aqui apresenta o significado simbólico da transformação, do nascimento de um novo aspecto
do masculino, representado pela conquista de Crono ao poder. Associado semanticamente ao
“Tempo” cronológico, no nível da dinâmica psíquica, pode relacionar-se com o desenvolvimento do
aspecto masculino do Ego de assertividade, quando castrando o pai, Crono estanca a procriação
descontrolada de forças telúricas incontroláveis, que são as forças instintivas do inconsciente.

O processo de masculinização se cristaliza agora definitivamente e, desse modo, passa a ser


decisivo para a estrutura da natureza do ego e da consciência. Com o nascimento do herói,
tem início a batalha primordial, a luta com os Primeiros Pais. O problema dos Pais
Primordiais, sem suas formas pessoal e transpessoal, domina toda a existência do herói, no
nascimento, na luta e na transformação. Pela obtenção do masculino e do feminino – que
não é o paterno e o materno – e pela formação de uma estrutura interna da personalidade, na
qual os estágios novos, assim como os superados, encontram o seu lugar, completa-se um
desenvolvimento que é antecipado coletivamente nas projeções mitológicas do mito herói,
que se manifestam na formação da personalidade humana. (NEUMANN, 2008, P. 107)

Crono como o tempo devorador, engolia seus filhos assim que nasciam, representando outro
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aspecto do masculino disfuncional. Psiquicamente podemos identificar esse comportamento como


resistência ou falta de estrutura do Ego como espelho dos conteúdos inconscientes, na medida em
que toda conteúdo, para vir para a consciência precisa passar pelo Ego como intermediador e ponte
de comunicação entre inconsciente e consciência.

O ego que desperta experimenta a sua masculinidade, isto é, a sua autoconsciência cada vez
mais ativa, como boa ou má a um só tempo. Ele é expulso da matriz maternal e se encontra
a si mesmo ao distinguir-se dessa matriz. Também no sentido sociológico o homem, uma
vez que cresça e se torne independente, é expulso da matriz na medida em que experimenta
e acentua a sua própria diferença e singularidade. Faz parte da experiência fundamental da
masculinidade o fato de ele, cedo ou tarde, ter de sentir o elemento maternal, isto é, aquele
com o qual ele viveu em “participation mystique”, como o “tu”, o não-ego, como algo
diferente e estranho. “ (NEUMANN, 2008, p. 111)

A relação traçada do inconsciente com o feminino e do Ego com o masculino está presente
em diferentes narrativas míticas no decorrer dos tempos. O Grande Feminino que possui como
simbolismo central a equação básica mulher=corpo=vaso “cujo interior permanece sempre obscuro
e desconhecido, é a realidade do indivíduo, o local onde vivencia todo o mundo instintivo do
inconsciente”, processo que se inicia nas primeiras experimentações do recém-nascido como todo
tipo de instinto, pulsão ou dor, a partir do interior desse corpo-vaso concreto e misterioso, que o faz
manifestar reações que são projetadas para o mundo externo, como o choro, em busca de saciar o
que é sentido internamente (NEUMANN, 1996).
A primeira geração dos filhos desse hieros gamos são a representação das forças instintivas
produzidas por esse corpo-vaso e por isso misteriosas ao Ego, que como Urano e Crono, demonstra
a necessidade de suprimi-las já que não consegue concebê-las por serem fruto do grande mistério do
corpo como símbolo do poder do Grande Feminino, temendo serem depostos por elas.
Os Titãs como primogênitos, sendo Crono o mais novo deles, são apresentados como
representação das “manifestações elementares, das forças selvagens e da insubmissão da natureza
nascente. Ambiciosos, revoltados e indomáveis, são adversários do espírito consciente, exprimem a
oposição a espiritualização harmonizante”, esta que é simbolizado pela chegada de Zeus ao poder,
sendo este a manifestação do Ego desenvolvido, numinoso, que consegue articular a ponte de
comunicação entre consciente e inconsciente, na medida em que se une com os irmãos (Ciclopes e
Hecatonquiros) que também são representação das forças inconscientes e se mostram fator decisivo
para a vitória do Deus (BRANDÃO, 1986).
Partindo do pressuposto de que o mito ilustra o movimento de desenvolvimento do Ego e
sua interação e diferenciação da Grande Mãe, e sendo Crono a segunda etapa desse processo, Zeus,
seu filho mais novo, é a terceira etapa que representa o nível mais alto de maturação, estruturação e
desenvolvimento desse Ego. Crono casa-se com Réia, que também era conhecida como uma
16

divindade que simboliza a força do seio da Terra, portanto um aspecto do Grande Feminino, e é
graças a sua intervenção, quando entrega uma pedra ao marido, ao invés de Zeus, para ser engolida,
que acontece o começo do processo iniciático de Zeus, ainda criança.
Gaia intervindo e em auxílio de Réia, esconde Zeus menino, a criança divina, nos flancos do
monte Égeon e lá ele permanece até a idade adulta, sobre os cuidados dos Curetes e das Ninfas. De
acordo com Brandão (1986) os Curetes eram demônios do cortejo de Zeus que foram solicitados
pela ninfa Amaltéia para que dançassem em torno do menino, afim de abafar seu choro e protejê-lo
de Crono:
Conta-se ainda que o entrechocar das armas de bronze dos Curetes abafava o choro do
recém-nascido, o que traduz uma projeção mítica de grupos iniciáticos de jovens que
celebravam a dança armada, uma das formas da dokimasía grega. A dança desses demônios,
e Zeus é cognominado “o maior dos Curetes”, é um conhecido rito da fertilidade.
(BRANDÃO, 1986, p. 333)

A ninfa Amaltéia é simbolizada como uma cabra que amamenta Zeus, experiência que é
considerada a maior e mais significativa pela riqueza do simbolismo do animal. Entre os gregos, a
cabra simboliza o raio, a que anuncia a tempestade e a chuva, associada com a hierofania, como a
manifestação de um deus, conta-se entre os mitos gregos, que foram as cabras quem descobriram os
vapores que as puseram em estado de vertigem e que posteriormente foi instalado o Oráculo de
Delfos. Nessa e em outros culturas, este animal sempre foi associado a qualidades divinas e
espirituais (BRANDÃO, 1986).
No decorrer do mito apresenta-se a conquista de Zeus, como manifestação do Ego
desenvolvido, luminoso, que além de passar por um processo iniciático após seu nascimento,
quando é entregue pela mãe às Ninfas que o mantinham escondido em uma caverna (símbolo do
útero, portanto novamente representação da Grande Mãe), recebe treinamento apropriado para
derrotar seu pai, Crono, o que apenas consegue unindo-se às forças instintivas telúricas
representado pelos seus irmãos mais velhos, os Ciclopes e Hecatonquiros.

A tendência masculina segue na direção de uma coordenação maior do espírito, do ego, da


consciência e da vontade. Justamente pelo fato de o homem, na sua particularidade,
encontrar-se a si mesmo na consciência, mas ser, na inconsciência, estranho a si mesmo por
experimentar esse inconsciente como algo feminino, o desenvolvimento da cultura
masculina é o desenvolvimento da consciência. (NEUMANN, 2008, p. 114)

Salientando mais uma vez a realidade dual dos arquétipos, Gaia, como símbolo do arquétipo
da Grande Mãe, gera tanto os Titãs, que podem ser vistos aqui como aspecto negativo produzido
pelo Grande Feminino, já que Crono, como o mais novo deles, demonstra-se um governante tirano,
à imagem do pai, Urano, também gerado por Gaia, como Grande Mãe Urobórica, e que também se
apresenta como aspecto negativo do masculino, como Ego infantil, que sem a maturidade
17

necessária, enxerga seus filhos como ameaça ao seu poder, relegando-os às profundezas do Tártaro,
enquanto Crono devorava seus filhos, um a um, numa tentativa de controle dos instintos.
Gaia também gera os Ciclopes e Hecatonquiros, que se apresentam no mito como forças
primordiais para ascensão de Zeus ao poder, auxiliando-o a derrotar Crono e os demais Titãs. Os
Ciclopes, libertados do Tártato por Zeus que fora aconselhado para tal pelo oráculo de Gaia, como
agradecimento, presenteiam o Deus com o trovão, o relâmpago e o raio. Como criaturas de um olho
só no meio da fronte, simbolicamente, utilizando a tradição hinduísta para a compreensão de um
dos significados possíveis, pode estar ligado a capacidade intuitiva e percepção sutil, abordado por
Jung como uma das funções psíquicas que vai além do espaço-tempo e que pode ser um dos
motivos dos Ciclopes serem apresentados no mito como filhos da terra, por representarem essa
função mais inconsciente, já que apresenta apenas esse olho no centro do que seria a testa, ao invés
dos dois olhos que estão ligados aos sentidos e portanto a função sensação.

O grupo masculino é o lugar do nascimento, não só da consciência e da “masculinidade


superior”, mas também da individualidade e do herói. Referimo-nos, mais de uma vez, ao
elo existente entre centroversão e o desenvolvimento do ego. A tendência à totalidade,
representada pela centroversão, funciona de modo quase inconsciente na fase inicial,
manifestando-se, porém, na fase formativa, como tendência de grupo. (NEUMANN, 2008,
p. 115)

Além de também apresentarem outra possível suposição sobre os presentes dados a Zeus – o
trovão, o relâmpago e o raio – que simbolicamente pode significar a manipulação consciente dos
instintos violentos advindos da parte mais primitiva da psique, representado pelos Ciclopes, sendo a
descarga elétrica dos trovões de Zeus a capacidade do discernimento do masculino de atuação
focalizada, representando um nivel do desenvolvimento do Ego em que é possível a canalização da
ira em situações e com certos aspectos da psique, que demandam uma delimitação mais consistente
ou até mesmo a destruição pelo fogo, que também pode simbolizar uma possibilidade de
transmutação de algo que não serve mais para o bom desenvolvimento da dinâmica psíquica em
algo novo, que auxilie no movimento prospectivo, rumo a individuação.
Juntos aos irmãos, Hades e Posidon, Zeus consegue derrotar Crono e os Titãs. Gaia, não
satisfeita com os Olimpicos por terem relegado seus filhos ao Tártaro após os derrotarem, faz mais
duas tentativas de retirar Zeus do poder, libertando os Gigantes e um pouco depois, gerando Tifão, o
mais horrendo e terrível dos monstros.
Zeus, como princípio masculino mais desenvolvido e luminoso, precisa se juntar com
aspectos desse masculino, representado por Hades, com o simbolismo do inferno invisível, que
pode ser compreendido como a sombra; e com Posidon, o deus das águas subterrâneas, fazendo
menção aos sentimentos e ao inconsciente. Gaia, que se recusa a abrir mão da liberdade de qualquer
18

um de seus filhos, gera com Tártaro, os Gigantes e o Tifão, seres imensos e assustadores,
representando a tentativa derradeira dos instintos negativos mais poderosos, em busca de impedir o
alcance da “espiritualidade harmonizante”, da ascensão do espírito, representado por Zeus, ao
poder, ao consciente.
Gaia, em sua aparente relutância e luta contra a chegada de Zeus ao poder, apresenta o
caráter elementar do feminino, que segundo Neumann (1996) é designado como:
o aspecto do Feminino, que como o “Grande Círculo” e o “Grande Continente”, demonstra
a tendência de conservar para si aquilo a que deu origem e envolvê-lo como uma substância
eterna. Tudo o que dele nasceu lhe pertence, continua sujeito a ele e, mesmo quando o
indivíduo se torna independente, o Grande Feminino relativiza essa autonomia, tornando-a
uma variante secundária de seu existir, enquanto Grande Feminino. (…). O caráter
elementar do feminino estará sempre em evidência quando o ego e a consciência forem
infantis e não-desenvolvidos, e o inconsciente for dominante. Em relação a ele, o ego, a
consciência e o indivíduo, quer sejam masculinos ou femininos, são infantis, dependentes e
submissos. A característica marcante do caráter elementar é a sua função de “conter”.
Outrossim, ele se manifesta de forma positiva como provedor de alimento, de proteção e de
calor e, de forma negativa, como repúdio e privação.(NEUMANN, 1996, p. 36)

O mito de Gaia portanto, apresenta, o movimento do crescimento e desenvolvimento do


Ego, que como observado, é impossível de ser abordado, sem incluir nesse processo a necessidade
da integração dos opostos. Zeus, como representante desse Ego já em um estado mais avançado,
afim de derrotar os instintos, como forças telúricas selvagens, que eram enviados por Gaia, precisou
se integrar com seus irmãos e tios, com suas sombras e sentimentos inconscientes e com seus
instintos. Apenas assim, ele consegue por fim ao poder tirânico de seus antecessores, representantes
do Ego e de um aspecto masculino ainda infantilizado e descontrolado, assumindo o poder do
Olimpo como pai dos deuses, como um Ego consciente e luminoso.
Mas é claro que a história não acaba ai. Por motivos de extensão da análise e da
multiplicidade de símbolos personificados, não é possível abordar toda a peripécia em um simples
artigo. Além de ter sido notável no discorrer que não tem como abordar sobre o arquétipo da Grande
Mãe e do aspecto feminino da psique, sem incluir o caráter masculino que a acompanha e
complementa, sendo a compreensão da sua dinâmica psíquica apenas possível quando integrado o
movimento também do aspecto masculino com o qual ela interage.

GAIA, ANIMA MUNDI E UNUS MUNDUS

O homem primitivo, como observador inato dos ciclos naturais e por sua identidade
inconsciente, de maneira que projetava seus processos anímicos nos movimentos naturais que
observava, vivia em participação mística com a natureza, identificando a Terra como sua própria
mãe. Sem o desenvolvimento da função racional e experienciando diariamente fenômenos como o
19

nascimento, tanto de seus bebês como os frutos e vegetais da terra e dos animais, e percebendo que
a mulher também concebia e mudava de acordo com as fases lunares, por exemplo, associou-se no
inconsciente coletivo o feminino com a geração da vida e a natureza como Gaia, Mãe e produtora
de toda a vida na Terra.
Esta característica da plenitude ou “plenificação” descreve um estado anímico que talvez se
pudesse caracterizar melhor como um desprendimento da consciência em relação ao mundo
e como a retirada da mesma para um ponto por assim dizer extramundano. Tal consciência
está ao mesmo tempo vazia e não-vazia. Ela não se encontra mais preocupada, preenchida
com as imagens das coisas, mas apenas as contém. A abundância anterior do mundo,
imediata e premente, nada perdeu de sua riqueza e maravilha, mas não domina mais a
consciência. O apelo mágico das coisas cessou, porque se desenredou o entralaçamento
originária da consciência com o mundo. Não sendo o inconsciente mais projetado,
desaparece a participation mystique originária com as coisas. Por este motivo, a consciência
não é mais dominada por intenções compulsivas, passando a contemplar. (JUNG, 1984, p.
58)

A participação mística se define pela total indiferenciação entre sujeito e objeto de modo que
o sujeito, que desconhece a possibilidade de uma vida anímica em seu interior, já que a identidade
consciente ainda não havia se desenvolvido, ou existia ainda apenas em gérmen - com seu
inconsciente projetado no exterior, na natureza e em seus processos cíclicos, experimentava assim
uma fascinação numinosa, quase como magia, forças sutis que fugiam e muito da sua capacidade de
elaboração, que orquestravam toda a dinâmica dos sistemas vivos.
Tal experiência proporcionava-lhe o sentimento de pertencimento a esta Grande Mãe, que
ele entendia, porque observava, ambos os pólos da Mãe Terrível e da Mãe Boa, Nutridora,
concebendo as duas faces desse feminino, com respeito e honra.
O desenvolvimento da consciência e de seu centro regulador, o Ego, da mesmo maneira que
permitiu o homem seu crescimento em aspectos relacionados ao masculino, como a função
pensamento racional, a capacidade de manipulação e transformação da matéria-prima para
aplicação prática na rotina das comunidades, a força física e de trabalho; o fez as custas da perda
desse contato com a natureza, negando tudo agora que era ligado ao místerio do inconsciente, como
a Mãe Terra – Gaia e o feminino, como representação microcósmica desse Grande Feminino;
excluindo/reprimindo, atrofiando ou não desenvolvendo, este outro pólo, do feminino, também
dentro de si; e a psique, como sabemos, funcionando através da compensação das dualidades,
cobrou duramente tal falha, com consequências desastrosas, tanto a nível interior quanto exterior.
Uma consciência mais elevada e mais ampla, que só surgirá mediante a assimilação do
desconhecido, tende para a autonomia, para a revolta contra os velhos deuses, os quais não
são mais do que as poderosas imagens primordiais a que a consciência se achava
subordinada. (JUNG, 1984, p. 29)

A dissolução da participation mystique, termo usado por Lévy-Bruhl, e que designa o sinal
característico da mentalidade primitiva, genialmente intuído por ele. A “participation
mystique” aponta para o grande e indeterminado remanescente da indifenrenciação entre
sujeito e objeto, de tal monta entre os primitivos...A identidade inconsciente impera quando
20

não há distinção entre sujeito e objeto. O inconsciente, nesse caso, é projetado no objeto, e
o objeto introjetado no sujeito, isto é, psicologizado. Animais e plantas comportam-se como
seres humanos, os seres humanos também são animais; deuses e espectros animam todas as
coisas. (JUNG, 1984, p. 58)

Exteriormente temos materializado estas consequências em toda a destruição dos recursos


naturais que têm sido feita no decorrer do anos, tendo um marco mais aparente e de expansão desta
destruição, após a Era Industrial e a implantação da ideia de progresso e sucesso como essa saída do
campo e emigração para as cidades e grandes centros. Antes, o cenário que era composto pela mata
e os animais e todos seus processos naturais de crescimento, desenvolvimento e morte, para um
renascimento; foi substituido por uma lógica masculina linear de crescimento exponencial, que com
o elo perdido com a Anima Mundi da Grande Mãe Gaia, fez com que a exploração da natureza
acontecesse sem reflexão ou qualquer identificação com os sistemas vivos, o que era tão intenso
para nossos antepassados primitivos.
Quanto mais poderosa e independente se torna a consciência e, com ela, a vontade
consciente, tanto mais o inconsciente é empurrado para o fundo, surgindo facilmente a
possibilidade de a consciência em formação emancipar-se da imagem primordial
inconsciente. Alcançando então a liberdade, poderá romper as cadeias da pura instintividade
e chegar a uma situação de atrofia do instinto, ou mesmo de oposição a ele. Esta
consciência desenraizada, que não pode mais apelar para a autoridade das imagens
primordiais, acede às vezes a uma liberdade prometéica, a uma hybris sem deus. (JUNG,
1984, p. 29)

Uma cisão, um desequilíbrio de dualidades tão fundamentais, que teve impacto nos dois
mundos: exterior e na sutileza também do mundo interior. O masculino heróico, que batalhou pela
libertação das garras da Grande Mãe Urobórica, que hora era devoradora, se transformou no
soberano tirano, que começa a reprimir qualquer tentativa de resgate com essa existência selvagem
instintiva do feminino; impondo regras estanques, padrões ainda mais rígidos de comportamento de
estilo de vida.
A partir da década de 60/70, acontece um fenômeno que é a manifestação da enantiodromia
– a função de compensação dos opostos do inconsciente, que se dá tanto a nível pessoal quanto
coletivo; que se manifesta, na forma do movimento Hippie e que depois se desenvolve na
contracultura – um movimento pelo resgate dessa conexão com as forças instintivas naturais,
sexuais, com conhecimentos milenários das filosofias orientais e de práticas energéticas de cura
sutil, todas atividades que estão de alguma forma relacionadas com a manifestação do princípio
feminino, que surge rebelde, a revelia da opressão do sistema patriarcal, vindo para quebrar as
estruturas, para chocar o modelo de normalidade estabelecido, para chacoalhar as estruturas sociais
como grito que pede por mudança e integração ou ao menos harmonização dos pólos fundamentais
masculino-feminino.
Desde então, esse conflito têm estado vivo na esfera do inconsciente coletivo e muito têm
21

afetado em nossas compreensões de relacionamento em todas as ordens, a nível interpessoal nos


relacionamentos afetivos amoros (idenpendente de orientação sexual, nos homoafetivos isso
também se apresenta), na relação com o consumo e a alimentação e a implicação que essa parte da
economia têm com a exploração dos recursos naturais e com a consideração da real necessidade de
manuntenção das redes de produção, seu tempo e nível exarcebado de produtividade, em
contrapartida ao tempo dos ciclos da natureza, de sua regeneração e as consequências a longo prazo
desses hábitos de produção e consumo para a continuidade e possibilidade da manuntenção da vida
na Terra de todos os sistemas vivos, inclusive das sociedades humanas.
Diante disso, fica explícito a necessidade de articular possíveis configurações de resgate
consciente desse elo tão fundamental do homem com seu meio circundante, com sua Mãe
Primordial, elemental, que é a mãe natureza. Resgate dessa participação mística, que quando
estabelecida conscientemente pode ter tanta força de reconfiguração de olhar para si, enquanto
compreensão de sujeito e qual sua posição a ser ocupada enquanto cidadão planetário; e também, da
potência que o reestabelecimento desse vínculo pode ter na criação de sentido de vida, de
sentimento de pertencimento, de cultivo de uma faceta da personalidade do homem que possui esse
caráter cósmico, transcendente; da experiência do numinoso, revivendo o instinto religioso e
criativo, que para Jung eram funções intrínsecas e fundamentais para a saúde mental dos homens e
para a construção e experimentação de uma vida com sentido e propósito.
Jung que se debruçou sobre os estudos da alquimia conseguiu articular os processos
apresentados nessa prática medieval com os processos anímicos que ele presenciava nos seus
pacientes, identificando símbolos semelhantes na alquimia e que estavam presentes nos sonhos dos
pacientes ou em sua jornada de vida; traçando toda uma perspectiva prospectiva de análise que
apontava para o desenvolvimento da alma rumo a individuação, que era o trabalho fundamental da
jornada anímica, seu próprio fundamento e que se articula de maneira muito particular e única para
cada indivíduo. Segundo a arte alquímica, o processo final do processo de individuação seria
justamente a reunião, a integração, desses opostos fundamentais do inconsciente-consciente,
feminino-masculino e o adendo que proponho da natureza-homem; o místerio da coniunctio, o
objetivo final da vida do homem.
A união dos opostos num nível mais alto de consciência,... é... um processo de
desenvolvimento psíquico, que se exprime em símbolos... O desenvolvimento da
personalidade individual é figurado mediante imagens simbólicas. (JUNG, 1984, p. 38)

O movimento circular também tem o significado moral da vivificação de todas as forças


luminosas e obscuras da natureza humana, arrastando com elas todos os pares de opostos
psicológicos, quaisquer que sejam. Isto significa autoconhecimento através da auto-
incubação (o “tapas” hindu). Uma representação originária e análoga do ser perfeito é o
homem redondo de Platão, que reúne os dois sexos. (JUNG, 1984, p. 42)
22

Poucos foram os homens que conseguiram tal êxito e estes são simplesmente as maiores
referências, as figuras centrais, de doutrinas religiosas como o budismo e o cristianismo, com Buda
e Jesus Cristo, respectivamente. A coniunctiu, a integração dos opostos fundamentais, dá origem ao
Unus Mundus, a compreensão da máxima da Teia da Vida, da conexão de todas as coisas, a
experiência do Todo no Um e do Um no Todo.

O redondo é o ovo, o Ovo do Mundo filosofal, o núcleo do princípio e a semente de onde,


como ensina em toda parte a humanidade, surge o mundo. É também o estado perfeito em
que os opostos estão unidos – o princípio perfeito, pois os opostos ainda não se separaram e
o mundo ainda não começou; é o final perfeito, uma vez que, nele, os opostos tornaram a
juntar-se numa síntese e o mundo se encontra, uma vez mais, em repouso. (NEUMANN,
2008, p. 27)

Como pode ser visto, a pretensão não é pequena, mas desde os primórdios dos homens, tal
fenômeno têm sido apresentado nas mais diferentes formas, tanto nos mitos quanto no cerne dos
ensinamentos mais profundos das religiões, como objetivo último da jornada anímica na Terra.
Claro que, a nível individual e considerando nosso contexto atual, talvez a experimentação dessa
realidade na prática não consiga ser atingida no nível de intensidade que atingiram esses mestres
citados. Resta-nos abertura para discussão dos motivos pelos quais essa realidade parece ser tão
distante de nós, homens ocidentais modernos. O objetivo desse trabalho é o de apresentar o
reestabelecimento inicial mais imediato, necessário e até possível, desse vínculo com a natureza,
que pode ser iniciado tanto aqui, em nível de reflexão intelectual acadêmica, quanto praticamente,
repensando hábitos de consumo e o impacto que eles geram na natureza, assim como, a nível
subjetivo, se dá numa ordem interna, reconhecendo esses processos internos da dualidade no
sistema psíquico, tentando perceber sua dinâmica afim de lidar de uma forma mais saudável com
estas polaridades.
A vontade consciente não pode alcançar uma tal unidade simbólica...Seu opositor é o
inconsciente coletivo, que não compreende a linguagem da consciência. É necessário contar
com a magia dos símbolos atuantes, portadores das analogias primitivas que falam ao
inconsciente. Só através do símbolo o inconsciente pode ser atingindo e expresso; este é o
motivo pelo qual a individuação não pode, de forma alguma, prescindir do símbolo. Este,
por um lado, representa uma expressão primitiva do inconsciente e, por outro, é uma ideia
que corresponde ao mais alto pressentimento da consciência. (JUNG, 1984, p. 44)

Como recurso, temos as várias ferramentas apresentadas pela Psicologia Análitica,


principalmente no que concerne a realidade simbólica na linguagem do inconsciente, expressa na
mitologia, contos de fadas e na história das religiões, e também nas imagens criadas pela psique,
projetadas nas telas de cinema, nas redes sociais e em sonhos e fantasias. Atentos a esse discurso,
talvez exista uma possibilidade de ampliação de consciência, de si, do mundo, de ligação com esse
mundo e consigo mesmo.
Sendo assim, o mito de Gaia foi aqui apresentado como uma possibilidade de articulação e
23

comunicação com essa realidade simbólica subjetiva e inconsciente, como ferramenta de


observação e reflexão, ilustrando esses temas tão importantes para a compreensão mais aprofundada
da dinâmica psíquica, como tentativa tanto de instrumentalizar sistemas psíquicos dispostos a travar
a jornada heróica da individuação, quanto para contrubuir e atentar aos desconectados para esse
mundo interior, sobre sua riqueza e existência, apresentando uma forma de comunicação dessa
realidade e de investigação que possibita a extração de contribuições e conhecimentos valiosos para
o cultivo de uma vida interior repleta de significados.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Como foi possível observar, o sentido simbólico e o encadeamento das estruturas de


imagens arquetípicas na narrativa do Mito de Gaia, identifica-se como uma fase do processo de
constituição da consciência egóica, apresentando no decorrer da história, a superação do estado de
identidade original da participação mística quando o Ego está imerso, contido, no Grande Feminino
Urobórico e na Grande Mãe, como no estado pré-lógico de nossos antepassados primitivos e no
início do desenvolvimento do Ego infantilizado, para um estado de iluminação consciente, com a
posse de Zeus do poder, representante de um Ego estruturado, que possui como característica a
espiritualização harmonizante da integração dos contrários, assumindo sua posição como centro da
consciência luminosa.
Sendo assim, em nível objetivo, pode-se constatar que o movimento de separação do homem
e da natureza foi etapa necessária e primordial para o próprio desenvolvimento do homem, para a
estrututração do Ego e da consciência. Apenas longe da mãe, representada pela grande mãe Gaia, o
homem possuia capacidade de crescimento e expansão, experimentando o mundo através de sua
apropriação e manipulação, o que o levou a níveis de desenvolvimento tecnólogico e de ciência
como manifeatações concretas do aspecto racional da dimensão masculina no mundo.
No decorrer da produção deste artigo podemos perceber mais do que nunca como realmente
não existe qualquer aspecto de neutralidade na escolha de um tema para pesquisa. Na verdade existe
dúvidas de sequer existir a possibilidade de uma escolha consciente, pois fica evidente como
acontece a capturação da atenção pelo Mito de Gaia como uma movimentação expressa do
inconsciente talvez em busca de facilitar a integração de alguns aspectos importante para o processo
de individuação; do seu objetivo real também nunca teremos clareza.
Encontrar a obra do Neumann durante a busca para a pesquisa foi de um fascínio
imensurável e aos poucos percebemos como realmente não existe maneira de fugir de uma
24

curiosidade latente de compreender a origem do Uroboros maternal inicial de toda a psique como
vaso contenedor do todo – inconsciente e consciente, feminino e masculino.
Confessamos que a interpretação analítica do mito não foi de nenhuma forma, tarefa fácil,
pois acreditamos que muitos processos inconscientes aconteciam de maneira concomitante a nível
subjetivo e era preciso esperar o tempo de elaboração de cada etapa para então seguir adiante.
Sabemos que ainda existem inúmeros aspectos que precisam ser observados com mais cautela e
profundidade, como também, aceitamos que no momento da caminhada, o que foi apresentado
acima consiste na possibilidade de apreensão e acesso interior, que por mais que sejam muitas vezes
superficiais, são representação do que consiguimos lidar e compreender no presente, o que não
significa que não continuaremos a nos debruçar sobre o tema e sobre o mundo interior, numa
tentativa de aprofundamento de uma dimensão do processo de individuação.
Surpreende o fato de que a medida em que avançavamos na pesquisa, ficava cada vez mais
claro que não seria possível traçar qualquer ponte lógica de sentido simbólico, sem integrar o
aspecto masculino do processo, que no mito é representado pela tríade Urano-Crono-Zeus. O Ego
como o herói, masculino, destitui-nos de barreiras pré-conceituadas, possibilitando o acesso de
várias dimensões do Animus, principalmente em seu caráter de psicopompo, como ponte de
interlocução com a dimensão espiritual, sutil e numinosa.
A luta travada por Zeus, como esse aspecto do Ego Numinoso, que pretende instalar uma
espiritualização harmonizante como centro consciente, contra as forças instintivas que desejam
manter o desenvolvimento em um aspecto denso das necessidades materiais mundanas, trata de uma
realidade que percebemos que acontece diariamente dentro de nós, ainda mais quando nos
propomos a caminhar na jornada da individuação, na jornada do herói.
Daí a importância e a rica contribuição que a compreensão das narrativas mitológicas podem
acrescentar na vida e na saúde mental dos homens modernos. Como linguagem fundamental dos
arquétipos que investiga e exprimi “o sentido da aventura espiritual dos homens, lançados através
do espaço-tempo” (CHEVALIER & GHEERBRANT apud SERBENA, 1989 ) a interpretação da
realidade simbólica dos mitos pode se apresentar como um mapa guia de auxílio e superação de
difíceis movimentos internos e externos, na medida em que exprimem, através de linguagem
poética, experiências fundamentais da vida humana.
Assim, o mito surge como realidade viva, numa tentativa de atribuir forma e significado ao
mundo, satisfazendo as necessidades simbólicas da psique, o que em termos de dinâmica psíquica,
possibilita a circulação de energia, do consciente e do inconsciente, atuando em um dinamismo
integrador, estabelecendo conexões entre forças e objetos opostos atuando como uma função
transcendente na medida em que possibilita superação dos conflitos produzidos pela dualidade,
25

possibilitando a transformação de conteúdos e da energia psíquica contida nos símbolos,


fomentando uma diferenciação e desenvolvimento da consciência em direção à uma totalidade e
uma integração com o mundo.

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