Você está na página 1de 10

Porto Alegre, de 28 a 30 de abril de 2014

Mobilidade, Oportunidades, Capital Social e Apropriação:


Impactos de complexos habitacionais do PMCMV
Vinicius M. Netto (1), Roberto Paschoalino (2), Saulo Macedo (3), Mirella Furtado (4),
Julia Cantarino (5), Maria Clara Moreira (6)
(1) Dep. de Urbanismo, EAU-UFF, Brasil. E-mail: v1n1netto@yahoo.co.uk
(2) Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional, IPPUR-UFRJ, Brasil.
(3) Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo, PPGAU-UFF, Brasil.
(4), (5) e (6) Escola de Arquitetura e Urbanismo, EAU-UFF, Brasil.

Resumo: Em um contexto de fortes críticas ao Programa Minha Casa Minha Vida (PMCMV) e das formas
de avaliação de projetos, o presente trabalho desenvolve uma metodologia sistemática para analisar as
implicações da nova moradia para a vida de seus moradores. Nosso objetivo é gerar um conjunto de
indicadores do impacto dos Empreendimentos de Habitação de Interesse Social (EHIS), propondo como
método parâmetros em condição de guiar decisões e avaliação de projetos. A partir do mapeamento das
rotinas e atividades dos moradores de 12 EHIS no Rio de Janeiro, estudamos os impactos da nova
localização residencial sobre (a) mobilidade e acesso a oportunidades de trabalho; (b) suporte do entorno
às populações dos EHIS; (c) capital social e composição das redes de relacionamentos dos moradores; (d) o
desempenho interno do EHIS para apropriação pedestre e socialização. Resultados apontam diferenças
substanciais de desempenho de diferentes entornos, com forte influência da acessibilidade e densidade como
fatores de suporte e integração população-bairro; impactos consistentes sobre o capital social dos
moradores e sua dependência da proximidade para constituir redes de relacionamentos; e indícios da
influência da tipologia e forma de implantação dos complexos sobre sua apropriação social.
Palavras-chave: Mobilidade; Oportunidades; Diversidade urbana; Capital social; Redes sociais;
Apropriação: Impactos sociais e urbanos; Complexos habitacionais; PMCMV.

Abstract: In a context of strong criticism to the Programa Minha Casa Minha Vida – PMCMV and ways to
review projects, this work develops a systematic methodology to analyze the implications of the new homes
in the life of its residents. Our goal is to generate a set of parameters for measuring the impact of the
Brazilian Social Housing Developments (Empreendimentos de Habitação de Interesse Social – EHIS),
proposing as a method benchmarks capable of guiding decisions and also review projects. Starting by
mapping the daily life and activities of the residents of 12 EHIS in Rio de Janeiro, we’ve studied the impact
of their new location on (a) mobility and access to work opportunities; (b) support of the surroundings to the
residents of the EHIS; (c) social capital and the composition of relation networks of the residents; (d) the
internal support of the EHIS to appropriation of pedestrians and socialization. Results point to substantial
differences by the performance of different surroundings, with a strong influence of accessibility and density
as factors of support and of population-neighborhood integration; to consistent impacts on the social capital
of the residents and its dependences on the surroundings to construct relation networks; and also to
evidences of the influence of typology and way of implementation of the complex on its own social
appropriation.
Key-words: Mobility; Opportunities, Urban diversity, Social Networks, Appropriation. Urban & social
impacts; Social housing developments; PMCMV

1. CRÍTICAS A SOLUÇÕES HABITACIONAIS E UMA PROPOSTA DE ANÁLISE


Críticas às soluções habitacionais produzidas dentro do Programa Minha Casa Minha Vida (PMCMV) vêm
se acumulando. Localizações distantes dos polos de emprego, impondo perdas consideráveis de tempo no
acesso ao trabalho e na produtividade e condição de geração de renda dos moradores; entornos rarefeitos,
incapazes de oferecer suporte à vida dos moradores e impondo mais perdas de tempo; implantações que
reproduzem a lógica dos condomínios de classes média e alta, encerrados em muros, ignorando os impactos
negativos dessas extensas áreas muradas para a população de seus entornos e para a própria população

1
Porto Alegre, de 28 a 30 de abril de 2014

moradora, como sobre a segurança no espaço público, perdida em nome da suposta segurança interna no
condomínio (Vivan e Saboya, 2012); tipologias arquitetônicas subdimensionadas e nada flexíveis em suas
plantas internas aparecem entre as mais frequentes.
Neste trabalho, desejamos oferecer uma metodologia para entendermos as implicações da nova moradia em
complexos habitacional produzidos pelo PMCMV para a vida de seus moradores e quanto à cidade em si.
Nossa intenção é a de gerar uma forma de análise rigorosa do impacto dos complexos a partir de um número
expressivo de casos, e instrumentos e parâmetros de avaliação com condição de oferecer subsídios para guiar
decisões de projeto e inserção, assim como amparar a avaliação destes por parte dos órgãos de fomento e
aprovação de projetos. Traremos aqui método e resultados de uma pesquisa em andamento para avaliar os
impactos desses complexos habitacionais sobre aspectos da vida urbana – das rotinas de suas populações e o
estado de suas redes sociais presenciais ao grau de suporte material oferecido pela implantação e pelo
entorno à população moradora, e possibilidades de impacto desses complexos sobre seu entorno. Esta
pesquisa é parte de um projeto mais amplo, que inclui o desempenho ambiental e econômico da tipologia
arquitetônica na fase da construção, e é desenvolvida por uma rede de pesquisadores da Unisinos e UFF,
coordenados por Andrea Kern.
Nossa abordagem visa oferecer meios para evitarmos sobretudo os efeitos problemáticos da definição da
localização, entorno, implantação e tipologia arquitetônica dos empreendimentos de habitação de interesse
social (EHIS) sobre as vidas da suas populações, do seu entorno e na sua relação com a cidade. Nosso
objetivo final é chegar a um conjunto de indicadores úteis na análise e predição de impactos prováveis das
implantações dos complexos na cidade, incluindo aspectos ambientais e de habitabilidade. Neste trabalho,
analisaremos os seguintes itens:

(a) comportamento espacial, mobilidade e acesso a oportunidades de trabalho, consumo e serviços;


(b) capital social, composição das redes de relacionamentos dos moradores e os esforços de manutenção
dessas redes, analisando o grau de localismo ou dependência da proximidade para estabelecer
relacionamentos e a composição das esferas de sociabilidade do morador;
(c) suporte do entorno aos moradores dos EHIS via análise do grau de diversidade de atividades e
fatores de vitalidade urbana como movimento pedestre, microeconomia local e suporte arquitetônico;
(d) o desempenho social interno do EHIS: análise da apropriação pedestre dos moradores para fins de
socialização e a influência da configuração espacial do EHIS, via correlações com acessibilidade e
visibilidade.
Desenvolveremos indicadores capazes de tratar esses aspectos de desempenho – mas antes, vejamos um
pouco do contexto e o problema de pesquisa.

1.1. Contexto e o problema de pesquisa


A pesquisa responde à Chamada MCTI/CNPq/MCIDADES Nº 11/2012 para a avaliação de aspectos do
PMCMV. A convocação para a avaliação dos resultados do Programa parece uma novidade bem-vinda no
nosso cenário: a esfera normativa mostra-se interessada na análise independente de outro ator (no caso,
pesquisadores e universidades) e abre sua produção à crítica. Analisamos inicialmente o status da produção
de empreendimentos habitacionais no país e a concentração por empresa. Do total de empreendimentos
contratados no município do Rio de Janeiro até fevereiro de 2013 (274 EHIS), período de início da pesquisa,
59% ainda não tinham concluído nem 19% das unidades totais, e apenas 6% estavam completas. Esse fator
nos levou a um conjunto limitado a 62 EHIS. A limitação temporal e financeira de um projeto com duração
de 18 meses e 4 bolsistas impunha a impossibilidade de uma abordagem probabilística aos impactos dos
EHIS: não teríamos condições logísticas para executar a verificação empírica dos fatores de interesse em
uma amostragem estatisticamente suficiente.
Nossa alternativa foi a de propor a montagem dos estudos de caso de acordo com critérios de
representatividade capazes confrontar diferentes tipos arquitetônicos, tipos de implantação, de localização e
perfis de renda. Optamos por um desenho metodológico capaz de contemplar “posições arquetípicas”. A
seleção de 12 EHIS levou em consideração diversas “cotas” (tipologia, faixa de renda do EHIS, localização)
usando um critério de proporcionalidade e “filtros” pelo número de unidades habitacionais, número de

2
Porto Alegre, de 28 a 30 de abril de 2014

blocos, distância em relação ao Centro, usando apenas os EHIS constando no 2° e 3° quartis do histograma
de distribuição. Vejamos mais em detalhe:
Cota espacial: distribuição por região – a diferença de localização naturalmente se coloca como um fator de
potencial influência nos impactos dos complexos habitacionais. Os EHIS produzidos pelo PMCMV estão
fortemente distribuídos nas duas principais frentes de expansão urbana carioca, na zona norte e zona oeste da
cidade. Dividimos nossa amostra em 6 empreendimentos em cada zona.1 Assim, teríamos a possibilidade do
confronto entre casos em dois contextos típicos (figura 1).

FIGURA 1 – EHIS identificados e aqueles selecionados para estudo (pontos claros). Fonte: Autores / Google Earth.
Vejamos agora a análise dos impactos sociais e urbanos dos complexos habitacionais em relação a esses
bairros e sua localização.

2. FATORES DE IMPACTO DA NOVA LOCALIZAÇÃO HABITACIONAL

2.1. Comportamentos espaciais e mobilidade dos moradores


Analisamos os impactos da localização dos EHIS sobre a mobilidade e o comportamento espacial dos
moradores via coleta dados socioeconômicos, lugares de trabalho, lazer, serviços médicos e consumo, dados
sobre a localização dos membros das redes pessoais de amigos, e os percursos dos moradores no dia anterior
ao da aplicação da entrevista, com 250 questionários completados em 7 empreendimentos (margem de erro
5,6%). A análise do comportamento espacial foi feita em um subgrupo de 85 moradores de 7 EHIS, e se vale
do entendimento da cidade como uma rede espacial de ruas e lugares de atividade.2 As atividades possuem
papéis bem definidos nessas rotinas (como as ações de trabalho e consumo diário). O percurso dos
moradores pode envolver movimento pedestre, transporte coletivo ou veículos particulares. O meio de
transporte utilizado talvez tenha uma influência tão grande sobre as possibilidades de apropriação do espaço
quanto a rede de ruas que articula os lugares de atividade. A apropriação do espaço relaciona-se ao número
de lugares e atividades que uma pessoa pode utilizar, bem como os espaços públicos pelos quais ela passa.
Essas redes espacializadas de apropriação são traços de nossa presença efetiva no espaço. Se
cartografássemos esses caminhos, poderíamos ter uma boa ideia de como os moradores dos EHIS
espacializam suas ações, eo quanto a localização da moradia e padrões de apropriação do espaço moldam
suas açõesna cidade. Ainda, essa análise nos permitirá avaliarmos o efeito da nova localização sobre o a
formação de relações dos moradores e a formação de suas redes sociais pessoais.
A metodologia inclui o levantamento e a representação gráfica desses lugares e percursos. A espacialização
das rotinas inclui os tempos de deslocamento casa-trabalho; o modal de transporte utilizado; as distâncias
percorridas; as localizações do trabalho, amigos e outras atividades. Ao fazermos uso desse recurso, os
comportamentos espaciais contidos em mobilidades distintas poderão ser visualizados sobre a trama urbana,
permitindo ainda o reconhecimento de aspectos espaciais de sua vida social e o papel da localização dos
EHIS na viabilização das rotinas dos moradores.

1
Campo Grande, Santa Cruz, e Grande Bangu compõem a zona oeste. Apesar de tradicionalmente associado à zona oeste,
Jacarepaguá possui características de densidade e valor do solo que o aproximam mais da zona norte.
2
Como Krüger (1979), Hillier e Hanson (1984), Krafta (1994) e Holanda (2002), entre outros.

3
Porto Alegre, de 28 a 30 de abril de 2014

Analisamos os trajetos a partir de 7 EHIS (em 5 bairros, como lugares de origem dos trajetos) e 593 lugares
de destino em suas rotinas, dos quais 65 foram pontos de destino diários e 528, esporádicos (lugares de lazer,
serviços médicos, residências de amigos). Esse mapeamento pode chegar a resultados de alta complexidade,
demandando ampliações para visualizarmos a apropriação do espaço (Figura 2).

FIGURA 2 – À direita, o mapeamento dos comportamentos espaciais dos moradores de 5 EHIS no Rio de Janeiro. À
esquerda, ampliação das apropriações dos moradores do EHIS 19 e 20, juntos ao Complexo do Alemão na Zona Norte
da cidade e os mais próximos do centro, em nosso levantamento. Fonte: Autores / Google Earth.
Uma série de informações pode ser derivada desse mapeamento: a influência da localização do EHIS nas
distâncias percorridas até trabalho, serviços e amigos, o grau de dependência veicular, e o grau de
dependência de viagens para além do entorno imediato dos EHIS para cumprir atividades e encontrar
facilidades. O exame das distâncias medianas percorridas pelos moradores aponta que os EHIS localizados
na Zona Oeste da cidade tendem a induzir distâncias significativamente maiores, oferecendo piores
condições de acessibilidade à quase todos os fatores analisados – ao centro, trabalho, comércios, serviços
(exceção para serviços de saúde) e amigos (tabela 1).

Casa – Casa- Casa- Casa - Desloc Desloc


Casa- Casa – Casa - Casa - Desloc
Zona Centro
Casa
Trabalho Comérc
Serviços Lugares
Amigos
Amigos
Pedestre
Trans Veic
anterior Saúde diversão recentes público privado
Norte 11,3 3,4 4,5 1,4 2,7 2,8 4,2 0,11 0,70 59,8 49,4

Oeste 38,7 13,6 15,7 4,5 2,5 13,8 6,2 0,85 1,8 20,2 7,6

TABELA 1 – Distâncias (em Km) percorridas pelos moradores (medianas) – dados para 85 atores. Fonte: Autores.
Há ainda a questão polêmica da faixa de renda do PMCMV e o quanto ela se relaciona com a localização dos
EHIS. Confrontamos os mesmos percursos com as faixas 1, 2 e 3 (tabela 2).

Faixa de Casa - Casa - Casa - Casa- Casa- Casa - Casa – Deslocam Deslocam Deslocam
Renda Moradia Trabalho Comércio Serviços Lugares Amigos Amigos Pedestre Trans pub Veic priv
MCMV anterior Saúde diversão recentes
1 14.3 5.3 2.3 1.6 14.4 2.9 0.0 1.9 22.7 10.6
2 7.4 2.5 2.7 3.7 7.1 8.4 7.1 1.2 29.5 34.9
3 8.4 1.8 2.8 13.4 17.3 8.3 0.1 2.3 56.2 28.1

TABELA 2 – Distâncias (em Km) percorridas pelos moradores (medianas) – dados para 85 atores. Fonte: Autores.
Os dados apontam para diferenças substanciais de alcance espacial para moradores de renda distinta.
Diferenças pontuais à parte, há uma tendência geral para o aumento das distâncias na medida em que a renda
aumenta, o que confirma para a população dos EHIS a mesma tendência de comportamento observada em
variações maiores de renda vistas em Holanda (2000), Netto et al (2010) e Marques (2010).
Essas análises podem ganhar mais eloquência se explorarmos as correlações estatísticas entre renda,
mobilidade e distância entre EHIS e centro (pólo de empregos e serviços). Correlações de Pearson são
instrumentos úteis para encontrarmos similaridades e diferenças nas distribuições, comportamentos ou
ocorrências de fenômenos. Quando dois fenômenos têm comportamentos iguais, a correlação é 1. Quando
são perfeitamente inversos entre si, -1.

4
Porto Alegre, de 28 a 30 de abril de 2014

A correlação entre renda e mobilidade (soma dos deslocamentos feitos pelo morador) para todas as faixas de
renda, em 7 EHIS considerados (em 5 bairros distintos), foi de 0,49 – bastante relevante (p<0,01).3
Já a correlação entre distância EHIS-Centro e renda foi bem menor, de 0,19 (p=0,07), indicando baixo papel
da renda na localização dos EHIS próximos ou não do centro – mas ainda assim, existente.
Veremos agora as implicações dessas diferenças de localização, renda, mobilidade e comportamento espacial
dos moradores sobre o modo como constituem sua vida social e suas redes de contatos presenciais, itens
importantes também para efeito de oportunidades, formação de capital social e, em última instância, renda.

2.2. Impactos do remanejamento sobre a vida e capital social dos moradores


Esses itens de comportamento espacial incidirão diretamente sobre as condições que o morador tem de
construir e manter sua rede de relações pessoais. Essas relações formam o que a sociologia define desde os
anos 1950 como “rede social” (veja Wasserman, 1994). Há na literatura um entendimento estabelecido de
que a complexidade da rede social – em termos de número de membros e sua diversidade – tem a ver com o
chamado “capital social”. O capital social pode ser definido como os recursos acumulados por meio de
relacionamentos (Coleman, 1988), ou como a soma dos recursos, reais ou potenciais, que revertem para um
ator ou grupo em virtude de possuir uma rede estável de relacionamentos de conhecimento mútuo e
reconhecimento (Bordieu e Wacquant, 1992). O lugar, oportunidade ou campo social de origem dos atores
que compõem uma rede social são definidos na literatura como “esfera de sociabilidade”. Em tese, quanto
maior o número de relacionamentos e a diversidade das suas esferas, maior é o potencial para oportunidades
e suporte mútuo entre moradores. Redes e capital sociais são construções de cada ator, e tomam esforço e
tempo. No caso de atores de menor renda, trabalhos no Brasil encontraram forte papel da localização
residencial e da proximidade entre atores na composição das redes sociais pessoais (Holanda, 2000; Netto et
al, 2010; Marques, 2010). Atores de menor renda dependem mais do entorno para gerar suas redes – e seu
capital social.
A hipótese que naturalmente se apresenta é a de que a mudança para os EHIS do PMCMV tenha impacto
sobre as redes pessoais e o capital social dos moradores. Isso seria de se esperar em atores de qualquer
perfil de renda – mas no caso de faixas menores, os impactos tendem a ser mais fortes, porque relações de
vizinhança constituem larga parte das redes dos moradores. Ao se mudar, os atores podem se ver
subitamente parcialmente destituídos de suas redes, com grande impacto em suas rotinas e dificuldade para
manter relações anteriores, agora mais distantes – dado que atores de renda menor também tendem a ter
menor mobilidade (Holanda, 2000; Netto et al, 2010). Vejamos alguns aspectos-chave do problema:
(i) O grau de localismo dos moradores: a análise da localização dos componentes da rede pessoal e os
lugares de atividade de cada morador pode revelar o grau de dependência da proximidade para o
estabelecimento de relacionamentos sociais. O objetivo é estudar o esforço para manter redes sociais
pessoais e possíveis impactos para o capital social do morador, vide localização anterior e a nova
localização. O próximo item nos permitirá examinar o localismo com precisão.
(ii) A composição das esferas de sociabilidade dos moradores e o grau de homofilia: Os perfis de
sociabilidade de moradores com níveis de renda distintos têm diferenças marcantes quanto a suas esferas de
sociabilidade na formação de suas redes pessoais, dando mostras de seu grau de localismo (dependência da
proximidade) e homofilia (grau de homogeneidade da rede social). No momento das entrevistas, capturamos
a presença dominante das relações de vizinhança, tanto na moradia anterior (acima de 40% das amizades)
quanto no EHIS (correspondendo a 30% das amizades). Essa presença cai gradualmente à medida em que a
renda aumenta, evidenciando o localismo como dependente da renda do morador de EHIS. Notemos que a
presença de amizades constituídas em função do trabalho e estudo também tende a aumentar com a renda.
Essas são categorias que permitem reduzir o grau de homofilia ou semelhança entre atores, dado que levam a
um aumento de diversidade nas esferas de sociabilidade e oportunidades de contato com pessoas de campos
e classes sociais distintas dos de origem do morador (gráfico 1).

3
O teste de significância estatística (o “valor p” de cada correlação) examina a probabilidade de um resultado observado se repetir ou
surgir por mera coincidência. Valores p iguais ou maiores que 0.05 tem maior probabilidade de serem mera coincidência, segundo o
parâmetro convencionalmente adotado de 95% de confiança.

5
Porto Alegre, de 28 a 30 de abril de 2014

Composição da rede social presencial !


100%
90%
80%
Outros!
70%
Vizinhança anterior!
60%
50% Através de amigo!
40% Família!
30% Estudos!
20% Vizinhança atual!
10% Trabalho!
0%
Até R$ Até R$ Até R$ Até R$ Até R$ Até R$
648 ! 1.164 ! 1.764 ! 2.564 ! 4.076 ! 9.920 !

GRÁFICO 1 – Proporção das diferentes esferas de sociabilidade de 105 entrevistados em 7 EHIS. Fonte: Autores.
(iii) A composição espacial das redes pessoais: é definida pela proporção de membros na localização
anterior versus nova localização no EHIS versus fator de tempo de moradia, pelo número de esferas de
sociabilidade bem como pela diversidade e distâncias percorridas até os lugares de atividade. Vemos na
figura 2 que essa composição é alterada mais profundamente na medida em que a renda familiar diminui.
Nossas medições de caminhos e números de atividade também mostram que moradores de renda mais alta
atendem atividades mais distantes e em maior número. A tabela 2, vista acima, mostra as distâncias casa-
comércio, casa-amigos, casa-serviços em geral como crescentes na medida do aumento de renda.
(iv) A possível influência do espaço e da nova localização residencial: aqui temos a possibilidade de
observar indícios do grau de esforço para manter a rede social pessoal do morador até o momento da nova
moradia e o impacto do remanejamento e da nova localização sobre essas redes. A análise mostra uma forte
diferença nas estruturas das redes pessoais de moradores de rendas distintas. Os impactos da nova
localização residencial no EHIS se fazem sentir, com a adição substancial de novos amigos (em vermelho no
gráfico 1), variando em proporção semelhante para todas as faixas de renda.
O que essas alterações implicam sobre a vida social do morador de EHIS? Uma hipótese razoável é a de que
há queda de contatos com amigos da localização anterior, induzida pela nova distância e pela mobilidade,
que varia em função da renda. Rendas mais altas poderão sofrer menos essa ruptura do “tecido” espacial e
temporal que estrutura a rede social do morador. Teríamos uma queda no número de membros a partir da
mudança residencial, com impactos sobre oportunidades de atividades e apoio cotidiano (queda de capital
social). No entanto, em um novo estágio, no tempo, teríamos um aumento progressivo da rede social com
adição de novos membros pela proximidade na nova localização, com possível aumento de capital social. De
fato, o que nossos dados apontam até o momento é uma renovação da rede social dos moradores, com a
presença crescente de amigos sobretudo dentro dos EHIS. A nova localização já se faz sentir nas suas redes
sociais. Resta saber como essa alteração transcorre no tempo e suas implicações práticas – questão que
discutiremos nas conclusões deste trabalho.

2.3. Suporte do entorno dos EHIS aos moradores: o grau de diversidade do entorno
Desenvolvemos também uma metodologia para avaliar precisamente o quanto os moradores podem
encontrar no entorno da nova moradia, atividades que atendam a suas necessidades. Para tanto, definimos
uma medida do grau de diversidade microeconômica do entorno como suporte aos moradores (Netto et al,
2012). Essa medida opera a partir do levantamento, contagem e diversidade de usos do solo em um raio de 5
minutos de caminha (460m). Classificamos as atividades desse entorno de acordo com a Classificação
Nacional das Atividades Econômicas (CNAE), agregadas em 24 categorias de atividades que fazem sentido
sob o ponto de vista da microeconomia urbana. O grau de diversidade de atividades do entorno foi medido
como um nível de entropia: quanto menor a diversidade, mais próximo de 0; quanto maior a diversidade,
mais próximo de 1. A diversidade é considerada como o número de atividades levantadas (usos do solo) em
relação com o número total de categorias de atividade.

6
Porto Alegre, de 28 a 30 de abril de 2014

Ei = índice de entropia no setor i


pji = parcela da área construída ocupada pela atividade j no setor i
ou proporção de unidades com o atividade j
k = número de categorias de atividades consideradas (usos do solo)
ln = logaritmo natural
Analisamos o grau de diversidade no entorno de 6 EHIS (figuras 3-7) e avaliamos seu grau de diversidade
em um estudo comparativo de EHIS em zonas distintas, observando ainda dados de distância e tempo de
percurso ao centro, e densidade do entorno de acordo com Censo do IBGE de 2010.
EHIS 19 e 20 – ZONA NORTE Complexo do Alemão:

EHIS 27 – ZONA NORTE: Engenho da Rainha | Estrada Adhemar Bebiano:

EHIS 30 – ZONA OESTE: Campo Grande, Eixo principal | Estrada do Mendanha, 2870:

EHIS 62 e 63 – ZONA OESTE: Senador Camará | Estrada de Santa Cruz, 6485:

Estudos em economia urbana apontam para a relação entre fatores de distância e densidade populacional
como condições para a diversidade. Nossos dados confirmam esse axioma (tabela 3 e 4). O índice de
diversidade mostra o quanto cada EHIS se beneficia potencialmente. Como parâmetro, incluímos o índice de
diversidade em 4 classificações (residencial, comercial, serviços, institucional), menos sensível mas que
permite a comparação com bairros consolidados como Copacabana (Divers=0,82) e Ipanema (0,71).

7
Porto Alegre, de 28 a 30 de abril de 2014

EHIS   Zona   Distância Tempo até Densidade Diversidade Diversidade


CBD   CBD (médio)   Hab/ha   4 Classific   24 Classif  
19   Norte   13,2km   34 min   233   0,63   0,43  

20   Norte   13,2km   34 min   233   0,63   0,43  

27   Oeste   17,0km   46 min   119   0,41   -0,25  

30   Oeste   38,5km   76 min   27   0,44   0,29  

62   Oeste   57,3km   85 min   17   0,25   0,12  

63   Oeste   57,3km   85 min   17   0,25   0,12  

TABELA 3 – Relações entre distância EHIS-CBD (centro), diversidade e densidade. Fonte: Autores.

Rodamos correlações de Pearson entre esses três fatores, e há fortíssima correspondência entre distância e
densidade – inversa: quanto maior a distância ao centro, menor a densidade (-0.93 | p<0,01). Temos
correlação fortemente positiva entre diversidade e densidade (0,66 | p<0,01) e negativa entre diversidade e
distância (-0,52 | p<0,01), como vemos na tabela 4.

PROPRIEDADES DISTÂNCIA ATÉ CBD ÍNDICE DE DIVERSIDADE DENSIDADE


DISTÂNCIA ATÉ CBD 1 -0,52 -0,93
ÍNDICE DE DIVERSIDADE -0,52 1 0,66
DENSIDADE -0,93 0,66 1
TABELA 4 – Correlações entre distância EHIS-CBD (centro), diversidade e densidade. Fonte: Autores.

2.4. Desempenho social do EHIS: apropriação do espaço interno ao complexo


Finalmente, nos voltamos para o interior dos EHIS e para uma análise do grau de apropriação de seus
espaços pra fins de movimentação, socialização e uso estático. Nosso foco será a forma como os tipos
implantados, dispostos no térreo, sua forma (torre H, fita, etc.) se articulam entre si e com o espaço livre, de
modo a gerar caminhos e situações de ocupação, encontro e interação potencial. É um estudo da possível
influência da implantação dos edifícios sobre a socialização, a partir do levantamento de pedestres e da
visibilidade e acessibilidade geradas pela implantação. Nossa hipótese de trabalho é que, quanto maior
visibilidade e acessibilidade internamente tendem a conferir maior probabilidade de uso e encontro entre
moradores (Hillier e Hanson, 1984). Utilizamos nessa análise o software UCL Depthmap. Observamos
pedestres em 3 momentos diferentes de um mesmo dia, em dois EHIS de grande interesse, porque têm
exatamente o mesmo número de apartamentos e tipos arquitetônicos, mas implantações distintas. Essa
situação pouco comum nos permite confrontar os efeitos da configuração da implantação sobre a apropriação
do espaço interno dos EHIS de forma bastante incisiva (figura 8).

EHIS 19 EHIS 20

8
Porto Alegre, de 28 a 30 de abril de 2014

FIGURA 8 – Análises de acessibilidade, visibilidade e levantamento de pedestres em movimento e estáticos em dois


EHIS de mesmo número de unidades e mesmos tipos. Fonte: Autores.
As análises mostram a tendência de trajetos no interior dos complexos: as linhas de caminhos potenciais
entre as arestas dos edifícios – os caminhos mais acessíveis ficam mais “quentes”. No EHIS 19, os edifícios
voltados para o centro do empreendimento conferem ampla visibilidade. As janelas na parte de trás dos
edifícios também permitem visualização das bordas do complexo (informação que não consta na figura). No
EHIS 20, vizinho, as fachadas cegas estão voltadas para o centro do empreendimento e bordas, e as janelas
voltam-se para a frente ou fundos de cada edifício, espaços estreitos e que não favorecem a permanência.
Uma análise numérica (seguimos os pedestres em movimento e contamos os estáticos, identificando
mulheres, crianças e homens) aponta possível influência da configuração sobre a apropriação (tabela 5,
gráfico 2).
100

80

60
EHIS 19
40
EHIS 20
20

0
Grupos Homens Mulheres Crianças total

TABELA 5, GRÁFICO 2 – As contagens de pedestres em movimento e estáticos nos dois EHIS mostram
desempenhos muito distintos, possivelmente decorrentes das suas implantações distintas. Fonte: Autores.

3. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Esta pesquisa busca tratar um conjunto de fatores para avaliar o desempenho de EHIS. Podemos traçar as
seguintes conclusões parciais.
• Encontramos diferenças substanciais de alcance espacial para moradores de renda distinta,
confirmando para a população dos EHIS a mesma tendência de comportamento observada em
variações maiores de renda vistas em Holanda (2000), Netto et al (2010) e Marques (2010).
• A correlação entre renda e mobilidade (soma dos deslocamentos feitos pelo morador) para todas as
faixas de renda é relevante.
• A hipótese de um beneficiamento de rendas mais altas no PMCMV com melhores localizações é
baixa, mas existente (correlações de 0,19).

9
Porto Alegre, de 28 a 30 de abril de 2014

• Quanto maior a renda, menor a importância da proximidade na construção das redes sociais; maior a
importância do trabalho; menor a homofilia (mais diversas são as formas de construir laços,
incluindo estudo, trabalho e outros).
• O grau de homofilia varia em função do poder aquisitivo, mobilidade e da complexidade de
apropriação do espaço. Moradores com rendas mais altas e, portanto, maior mobilidade, tendem a
produzir relacionamentos em escalas espaciais mais amplas, sobretudo com atores que compartilham
seu grau de mobilidade, aumentando as chances de contato entre suas redes pessoais.
• Os principais fatores de construção de relações sociais e da rede pessoal se assentam na
proximidade e mobilidade, em função da renda. A capacidade de movimento e de acesso social
permite que os moradores se envolvam em um número maior de atividades, cada um desses locais
constituindo pontos de encontro e, potencialmente, de novos vínculos.
• Moradores com redes menos locais e mais diversas tendem a ter rendas substancialmente mais
altas. Os mais pobres têm dificuldades em lidar com os custos de criar e manter redes sociais
presenciais à distância.
• Há indícios de queda de contato com membros da rede social na localização anterior – e evidências
de adições e ganhos nas redes sociais com a nova localização, com efeitos sobre capital social ainda
a serem estimados com mais precisão, de modo a incluir o papel do tempo e frequência de contato.
• O grau de diversidade de atividades do entorno analisado via estudo comparativo de EHIS em zonas
distintas trouxe evidências da relação entre fatores de distância e densidade populacional como
condições para a diversidade e suporte aos moradores. Temos casos de grande rarefação do
entorno, trazendo severas dificuldades práticas aos moradores em suas rotinas.
• Encontramos indícios, a serem confrontados com a análise de outros EHIS, de que a implantação dos
EHIS importa na distribuição do movimento pedestre, encontros e grupos estáticos no espaço interno
dos complexos habitacionais, em termos de intensidade de presença e apropriação dos moradores.

REFERÊNCIAS
BORDIEU, P.; WACQUANT, L.J.D. An Invitation to Reflexive Sociology. Chicago: University of Chicago Press,
1992.
CLASSIFICAÇÃO NACIONAL DE ATIVIDADES ECONÔMICAS: versão 2.0. Rio de Janeiro: IBGE, 2007.
COLEMAN, J. C. ‘Social capital in the creation of human capital’. American Journal of Sociology, 1988.
HILLIER, B.; HANSON, J. The Social Logic of Space. Cambridge: Cambridge University Press, 1984.
HOLANDA, F. ‘Class footprints in the landscape’. Urban Design International, n5, p189–198. 2000.
HOLANDA, F. O espaço de exceção. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2002.
KRAFTA, R. ‘Urban convergence: morphology and attraction’. Environment and Planning: Planning and Design B,
v23. 1994.
KRÜGER, M. ‘An approach to buiIt-form connectivity at an urban scale: variations of connectivity and adjacency
measures amongst zones and other related topics’. Environment and Planning B, 6 (3), p305–320. 1979.
MARQUES, E. Redes Sociais, Segregação e Pobreza. São Paulo: Unesp, 2010.
NETTO, V.M.; KRAFTA, R. ‘Segregação dinâmica urbana: modelagem e mensuração’. Revista Brasileira de Estudos
Urbanos e Regionais, v1, p133–152. 1999.
NETTO, V. M.; VARGAS, J. C.; SABOYA, R. T. ‘(Buscando) Os efeitos sociais da morfologia arquitetônica’. Urbe –
Revista Brasileira de Gestão Urbana, v4, n2. 2012.
NETTO, V. M. A materialidade da interação econômica. no prelo.
PEREIRA, R.H.M.; SCHWANEN, T. Tempo de deslocamento casa-trabalho no Brasil (1992-2009): diferenças entre
regiões metropolitanas, níveis de renda e sexo. Brasília: IPEA, 2009.
VIVAN, M.; SABOYA, R. T. ‘Arquitetura, espaço urbano e criminalidade: relações entre espaço construído e
segurança com foco na visibilidade’. In: Anais do II Encontro da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação
em Arquitetura e Urbanismo. Natal: UFRN, 2012
WASSERMAN, S.; Faust, K. Social Network Analysis: Methods and Applications. New York: Cambridge University
Press, 1994.

10